Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 40 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

  • Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Macabéa

No primeiro programa de 2022, Darico Nobar entrevista a protagonista de A Hora da Estrela, novela clássica de Clarice Lispector que foi publicada em 1977.

Talk Show Literário: Macabéa - A Hora da Estrela - Clarice Lispector

Darico Nobar: Boa noite, Brasil.


Plateia: Boooooooa, noooooooite!


Darico Nobar: Eu preciso avisar que o Talk Show Literário de hoje está diferentão. Ao invés de conversarmos com uma personagem clássica da literatura brasileira, iremos papear com um autor. Sim, um autor! Recebam com aplausos o escritor de A Hora da Estrela, Rodrigo S. M. [Apesar dos aplausos e da animação do público, ninguém aparece no palco]. Com vocês, Rodrigo S. M.! [Dessa vez, fala um pouco mais alto, mas o convidado não dá sinal de vida]. Talvez nosso entrevistado não tenha ouvido. [Respira fundo e solta um grito puro e sem esmola]. Rodrigo S. M.!!!


[Uma moça esvoaçando magreza aparece. Vestindo saia velha e blusa rasgada, ela vem com os ombros curvos como os de uma cerzideira. Nos lábios, usa batom cor de rosa, único sinal de ter alguma vaidade. Ao chegar perto da mesa do apresentador, para e olha para os lados a procura de algo ou alguém].


Macabéa: Me desculpe o aborrecimento. [A fisionomia é de fome, medo e confusão]. O moço saberia me informar onde é a casa da madama Carlota?


Darico Nobar: Não... [O apresentador também indica perplexidade com o surgimento de uma figura tão peculiar]. A senhorita pode não saber, mas estamos em um programa. Inclusive, estamos ao vivo para todo o país nesse exato momento.


Macabéa: Um programa, é? Igualzinho ao da Rádio Relógio?!


Darico Nobar: Mais ou menos. A diferença é que esse aqui é na televisão. [Indica impaciente as câmeras que filmam a cena].


Macabéa: Você sabia que na Rádio Relógio disseram que um homem escreveu um livro chamado A Hora da Estrela e virou um “besta-celar”? O que é que quer dizer “besta-celar”?


Darico Nobar: Pera aí. [Pela primeira vez, o entrevistador mostra interesse pela mulher em pé à sua frente]. Você conhece esse sujeito?


Macabéa: O homem da voz da Rádio Relógio?


Darico Nobar: Não, não o cara da rádio. Estou falando do escritor. Estamos justamente aguardando a chegada dele, o que pode acontecer a qualquer momento. [Com o pescoço espichado, procura pelo convidado].


Macabéa: Não sei. [Assoa o nariz na barra da saia]. Os homens que conheço são o seu Raimundo e o Olímpico. E aquele moço que vive me seguindo na rua.


Darico Nobar: Tem alguém que segue a senhorita?! Não seria o Rodrigo, né?


Macabéa: E eu sei? Sei não. Acho que tem sempre alguém atrás de mim me espiando, mas não tenho certeza. Ou é uma sensação que peguei no ar de relance, coisa de moça nordestina desconfiada, ou é assombração mesmo. Até rezo de noite para a salvação do fantasma, para ele ir embora e largar do meu pé.


Darico Nobar: Entendi. [Fica alguns segundos em silêncio]. Posso, então, convidar você para se sentar? [Indica o sofá ao lado da mesa].


Macabéa: Sim. [Larga-se atabalhoadamente na poltrona com a pressa de que aquele senhor não cancelasse o convite]. Madama Carlota que me espere...


Darico Nobar: E, se me permite, qual é a sua graça?


Macabéa: Macabéa.


Darico Nobar: Maca, o quê?


Macabéa: Béa.


Darico Nobar: Mas que nome mais estranho, Macabéa!


Macabéa: Eu também acho esquisito, mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se vingasse, até um ano de idade eu não era chamada, não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem, mas parece que deu certo. [Parou um instante retomando o fôlego perdido]. Pois como o senhor vê eu vinguei...


Darico Nobar: Você disse que é nordestina. De onde?


Macabéa: Nasci no Sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdeu as botas. Com dois anos, meus pais se foram de febres ruins. Depois fui morar em Maceió com a titia, única parenta que me sobrou. Não sei o porquê vim para o Rio. Vim antes de titia bater as botas. Arranjei emprego e moro em um quarto com quatro balconistas das Lojas Americanas.


Darico Nobar: Então, você é vendedora?


Macabéa: Não, sou datilógrafa, trabalho em firma de representante de roldanas.


Darico Nobar: Uma datilógrafa, hein?! Fale mais sobre você, por favor.


Macabéa: Sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola.


Darico Nobar: Virgem com essa idade!? Por quê?!


Macabéa: Essa pergunta, moço, é indecência. Sou solteira e titia me ensinou a ser moça correta, evitar pegar doença ruim lá embaixo. E meu namoro com Olímpico foi no maior respeito, coisa linda de se ver.


Darico Nobar: Você pensa em se casar?


Macabéa: Nunca se sabe. Quem espera sempre alcança.


Darico Nobar: A senhorita não se ofende com as minhas perguntas, né?


Macabéa: Eu? [Pensa por alguns segundos antes de completar]. Não me ofendo, não. As coisas são assim mesmo. Não dá para lutar contra nosso destino. Mas se pudesse escolher, eu me casava é com um soldado.


Darico Nobar: Vejam só, pessoal. [Olha rapidamente para a plateia]. Uma revelação surpreendente da nossa convidada, que não foi tão convidada assim. Quer dizer que a senhorita gosta de um homem com farda, é isso?


Macabéa: De preferência bem armado.


Plateia: Uhuh! [Gritos de satisfação e aplausos vem do auditório].


Darico Nobar: Para uma dama, você anda muito assanhadinha, Dona Macabéa.


Macabéa: Não ando não, juro pela minha alma pura. [Pisca os olhos várias vezes enquanto observa as risadas da plateia]. E não entendi a animação de vocês, até parece que foi servida goiabada com queijo.


Darico Nobar: Pois é.


Macabéa: Pois é o quê?


Darico Nobar: Eu só disse pois é!


Macabéa: Mas pois é o quê?


Darico Nobar: Melhor mudar de conversa porque você não está me entendendo.


Macabéa: Entender o quê?


Darico Nobar: Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já! Você até parece fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”.


Macabéa: Falar então de quê?


Darico Nobar: Por exemplo, de você.


Macabéa: Eu?!


Darico Nobar: Por que esse espanto, mulher? Estamos em um programa de entrevista e você está sentada no lugar dos convidados. E você não é gente? Gente fala de gente.


Macabéa: Desculpe, mas não acho que sou muito gente.


Darico Nobar: Mas todo mundo é gente, meu Deus!


Macabéa: É que não me habituei.


Darico Nobar: Se habituou com quê?


Macabéa: Ah, não sei explicar.


Darico Nobar: E então?


Macabéa: Então o quê?


Darico Nobar: Então me responda, por favor, o que você deseja para o futuro?


Macabéa: Ter futuro é luxo, moço. Não é para mim.


Darico Nobar: Você é feliz?


Macabéa: Tenho tendência até porque tristeza é coisa de rico, é para quem pode, para quem não tem o que fazer. Tristeza também é luxo.


Darico Nobar: Mas se você é mesmo feliz, por que a cara triste?


Macabéa: Não sei como se faz outra cara. Mas é só na cara que sou triste porque por dentro eu sou até alegre. É tão bom viver, não é?


Darico Nobar: Sim! Sabia que vejo muita profundidade em suas palavras.


Macabéa: Profundidade, tipo um buraco? Você sabe se a gente pode comprar um buraco?


Darico Nobar: Você pode não ter reparado até agora, mas desconfio que tudo o que você me pergunta não tem resposta. [A entrevistada fica em silêncio]. Diga-me, Macabéa, quem você é?


Macabéa: Quem eu sou?


Darico Nobar: Sim, pode parecer uma pergunta tola, mas gostaria de ouvir a resposta de sua boca. Quem é você, afinal?


Macabéa: Quem sou eu? Afinal, quem eu sou? [A expressão facial é de dúvida e desespero]. Eu? Acho que eu... [De repente, não mais do que de repente, ela cai estatelada em cheio no chão]. Quem sou eu?!!! [Murmura enquanto o corpo treme descontroladamente].


Darico Nobar: Produção, chame o médico, chame o médico!!! Rápido! [Corre em direção à entrevistada]. Precisamos de ajuda aqui, acho que ela está tendo um piripaque. Vejam, está vomitando, está tendo convulsão.


[Várias pessoas entram no palco: assistentes de produção, bombeiros, câmeras e alguém com roupa de médico. Todos tentam acudir a moça desfalecida. As imagens e os sons do Talk Show Literário são cortados pelo diretor de TV e a tela fica na escuridão absoluta].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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