• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Mãe Susana

No primeiro programa da nova temporada, a entrevistada é uma das personagens mais marcantes de Úrsula, romance de Maria Firmina dos Reis publicado em 1859.

Talk Show Literário: Mãe Susana - Úrsula - Maria Firmina dos Reis

Darico Nobar: Boa noite! Eu sou Darico Nobar e você está ligado no Talk Show Literário, o principal programa de entrevistas da ficção brasileira.


[Em uma nova tomada de câmera, a imagem vai para a banda no canto do palco. O sexteto musical toca o refrão da canção de abertura da atração televisiva].


Darico Nobar: Hoje, nossa convidada é uma personagem que sofreu na pele os horrores da escravidão. Com vocês, Mãe Susana!


[Uma idosa negra se levanta da primeira fileira do auditório e caminha, sob aplausos da plateia, em direção ao apresentador. Ela vem trajando uma saia de grosseiro tecido de algodão preto, cuja orla chega ao meio das pernas magras. Na cabeça, traz um lenço encarnado e amarelo que mal lhe oculta as cãs].


Mãe Susana: Boa noite! [Ao se sentar no sofá, estende a mão ao homem de pele alva que a convidou para a entrevista].


Darico Nobar: Seja bem-vinda a este mesquinho e humilde programa de TV que apresento. [No elevado requinte de delicadeza, pega a mão negra e calejada pelo trabalho e pelo tempo e a beija].


Mãe Susana: Que ventura, meu senhor! Que ventura poder conhecer-te. [Deixa fugir um breve suspiro e cerra os olhos por alguns segundos].


Darico Nobar: Minha amiga, pode acreditar no meu acolhimento e na minha amizade. É muito bom ter a senhora aqui conosco.


Mãe Susana: Pudera todos os corações assemelharem-se ao teu... Minha condição é a de mísera escrava! Meu senhor, calculastes já, soldastes vós a distância que nos separa? Ah! O escravo é tão infeliz... tão mesquinha e rasteira é a nossa sorte.


Darico Nobar: Mãe Susana, a senhora não é mais escrava.


Mãe Susana: Eu? Eu livre? Ah não me iludas. Estou distante de ser livre, livre como o pássaro, livre como as águas, livre como o és na vossa pátria.


Darico Nobar: Isso foi lá atrás. Reconheço o sofrimento e a amargura que a senhora e muitos passaram. Amaldiçoo ao primeiro homem que escravizou o seu semelhante. Agora a escravidão faz parte do passado. Ela é uma triste página de nossa história. No Brasil atual, homens e mulheres de todas as cores se reconhecem como semelhantes...


Mãe Susana: Não sei, meu senhor, não sei. [Retira o cachimbo do bolso e o enche de tabaco. Acende o fumo e tira dele algumas baforadas]. Parece-me que ainda estamos entregues às vicissitudes da sorte. Continuam assassinando nossa honra e nossa ventura... Os negros seguem morrendo com tiros de pistolas ou encerrados em escuras e úmidas prisões. E aí os deixam entregues aos vermes, à fome e ao desespero.


Darico Nobar: Na sua opinião, a escravidão ainda não acabou no Brasil?


Mãe Susana: Quem poderia dizer ao certo? Que louca esperança é essa. Não podes imaginar que sob as aparências da democracia social, uma nação oculte uma pérfida segregação racial. Cambiam-se as dinâmicas do mundo, mas para os negros só se alteram o tipo de cativeiro em que padecem.


Darico Nobar: Admito que não dá para negar a validade desse ponto de vista.


Mãe Susana: Não troco um cativeiro por outro cativeiro, oh não! Troco escravidão por liberdade, por ampla liberdade! E sem esquecer de ser grata aos que me pouparam dos mais acerbos desgostos da servidão. Posso até me engolfar em profunda tristeza, mas não hei de me calar.


Darico Nobar: Deixe-me aproveitar dessa sua vontade de falar para pedir que nos conte os detalhes de ter sido uma escrava na época do Império.


Mãe Susana: Oh! Senhor! Que triste coisa é a escravidão. Meu Deus! Um ano de escravidão é um século de desesperação. E o que seria, então, séculos de cólera?!


Darico Nobar: Se a escravidão terminou, ou aparentemente cessou, o racismo não. Como a senhora definiria o racismo?


Mãe Susana: O racismo é como o homem maligno e perverso, que bafeja com hálito impuro a donzela desvalida, e foge, e deixa-a entregue à vergonha, à decepção, à morte! – e depois, ri-se e busca outra, e mais outra vítima! E a donzela e a flor choram em silêncio, e o seu choro ninguém compreende.


Darico Nobar: Mãe Susana, como a senhora vê o futuro? Há esperança de mudanças para os negros? Viveremos tempos melhores com mais justiça social e oportunidades?


Mãe Susana: Meu senhor, vivemos apenas o alvorecer. Não é porque a manhã está escura, fria e insossa que não teremos momentos de luminosidade, calor e alegria ao longo do dia. Permita-me dizer, Seu Darico, que, ainda distante da perfeição, a vida é bela, majestosa e sedutora, até para quem o sangue africano referve nas veias.


Darico Nobar: O caminho até o fim do racismo será longo ou curto?


Mãe Susana: Longínquo ou breve, ainda há caminho a ser percorrido. Oh! Nunca desistiremos de seguir em frente na busca pelo fim dos preconceitos. Não quero pressagiar, mas antevejo um mundo remediado, onde almas generosas se tornarão irmãs para todo o sempre, sem distinção de raças, crenças, gêneros e opções sexuais.


Darico Nobar: Então a senhora está otimista em relação ao futuro, certo?


Mãe Susana: Deveras! Um salutar pressentimento diz-me que não será eterno o racismo entre nossos irmãos. O abismo de desgosto irá terminar. Deus não é injusto e insensível. Louvemos a Sua generosidade, meu nobre amigo. Ele não protegerá a quem se opor à vontade maior de união e harmonia, os verdadeiros desígnios da mão onipotente do Rei da criação.


[A plateia aplaude as palavras da entrevistada. Com um acanhamento que os anos de sofreguidão geraram, a convidada fica alguns segundos em silêncio melancólico].


Darico Nobar: Agora gostaria de falar da vida da senhora...


Mãe Susana: Ah! Senhor! Sou tão desditosa, que falando de mim, só poderei dizer-vos coisas tão tristes e fastidiosas, que vos cansaríeis de as ouvir.


Darico Nobar: Pelo contrário, Mãe Susana. Tenho grande interesse de ouvir sua história. Imagino o quanto ela deve ser triste... É importante conhecermos esses tormentos do passado para que eles não se repitam com outras pessoas no futuro.


Mãe Susana: Ah, Seu Darico! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! [Solta um gemido magoado. Curva-se a fonte para frente e com ambas as mãos cobre os olhos marejados]. Oh! Tudo, tudo até a própria liberdade!


Darico Nobar: Por favor, não chore. Não queria deixá-la tão triste.


Mãe Susana: Estas lágrimas são inúteis, meu Deus! [Limpa o rosto com as mãos]. Mas são um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo o que me foi caro! Liberdade! Liberdade... Ah! Eu a gozei na minha mocidade! Não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, primeiro ao lado de minhas amigas, depois do meu esposo e por fim da minha filhinha, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma – uma filha, que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, que veio selar a alegria dos meus dias.


Darico Nobar: E o que aconteceu a partir daí?


Mãe Susana: Vivia em minha terra ao lado de meu esposo querido e dessa filha tão amada quando chegou o tempo da colheita. O milho, o inhame e o mendobim vinham em abundância nas nossas roças. Deixei minha filha nos braços de minha mãe e fui-me à roça colher milho. Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que repercutiu nas matas, me veio orientar a cerca do perigo eminente, que aí me aguardava. E logo dois homens apareceram e amarraram-me com cordas. Virei uma prisioneira. Tornei-me uma escrava.


Darico Nobar: A senhora teve medo de morrer?


Mãe Susana: Não matam, meu senhor. Se matassem, há muito que estaria morta, pois meu martírio, a saudade de meu esposo e da minha filhinha, vive comigo todas as horas.


Darico Nobar: E aí a senhora veio para o Brasil?


Mãe Susana: Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é necessário à vida, abordamos às praias brasileiras.


Darico Nobar: E aí a senhora virou oficialmente uma escrava?


Mãe Susana: Virei mercadoria humana. A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foi sufocada pelo horror constante de tamanhas atrocidades que passamos a vivenciar na nova terra. Não sei ainda como resisti – é que Deus quis poupar-me para provar a paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. O comendador P. foi o senhor que me escolheu.


Darico Nobar: Soube que ele era uma pessoa cruel.


Mãe Susana: Oh! Vós não conhecestes o comendador, e vossa alma generosa teria de repugnar em face das barbaridades, que ele praticava a cada dia. Implacável era o seu ódio. A cólera deste homem o seguia por toda a parte, e só Deus sabe o quanto padecemos.


Darico Nobar: E o que a senhora tem a nos dizer sobre Úrsula B., o grande amor de Fernando P.?


Mãe Susana: Deus meu! [Dá uma longa baforada no cachimbo]. Ela era um anjo de beleza e candura. Úrsula era uma donzela de sublime doçura, tão carinhosa, tão formosa, tão pura, tão ingênua, tão louça.


Darico Nobar: E o que a senhora acha de Tancredo?


Mãe Susana: Oh! Ele foi o mancebo que deu lume à nossa existência. Seu coração era bom, sua amizade era sincera e seus valores eram distintos. Apenas não sabíamos o quanto nos queimaríamos quando ele resolveu tomar as rédeas do ginete.


Darico Nobar: E Túlio, hein? Ele era o filho que a senhora não teve?


Mãe Susana: Prefiro vê-lo como o último filho que me extirparam. Não sabes o quanto sofro quando me recordo de todos os queridos filhos que me foram amputados.


Darico Nobar: Pessoal, a entrevista de hoje terminou.


Plateia: Ohhhhhhhhhhhhhh.


Mãe Susana: Aceite meus sinceros agradecimentos pelo generoso convite, Seu Darico. Estava tão ansiosa por ver-te.


Darico Nobar: Sou eu quem precisa agradecer a senhora pela visita. Muito obrigado, Mãe Susana, pela conversa. Ela foi muito rica. [Eles se cumprimentam com um carinhoso afago de mãos]. Este Talk Show Literário fica por aqui. [O apresentador volta-se para a câmera que está posicionada ao seu lado]. Mas na semana que vem voltaremos com mais um programa ao vivo e exclusivo para vocês. [Enquanto fala, os créditos sobem na tela]. Boa noite e até a próxima!


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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