• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Rodolfo Queiroz

O nono e último entrevistado da quinta temporada do TSL é uma das personagens mais atormentadas dos contos de João do Rio.

Talk Show Literário: Rodolfo Queiroz - Dentro da Noite - João do Rio

Darico Nobar: Boa noite, galerinha do Talk Show Literário.


Plateia: Boooooa noooooite.


Darico Nobar: Isso sim é que é um auditório animado, hein? [Sentado à mesa e no centro do palco, olha para o público presente no estúdio. A imagem é captada pela câmera 1]. Hoje, nosso programa chega à última entrevista da quinta temporada.


Plateia: Aaaaaaaaaaah.


Darico Nobar: Mas não fiquem chateados. No ano que vem, voltaremos com novas conversas com as personagens clássicas de nosso país.


Plateia: Eeeeeeeeeeeh.


Darico Nobar: E para encerrarmos o ano em grande estilo, convidei para esse bate-papo um amigo que eu não via há um tempinho. Segundo as más línguas, ele estava desaparecido. Com vocês, agora no palco do Talk Show Literário, o protagonista de um dos contos mais perturbadores da literatura brasileira – Rodolfo Queiroz!


[O público no auditório aplaude a entrada de um rapaz magro e abatido. Com roupas amassadas e transpirando bastante, o convidado sobe ao palco demonstrando timidez. Entrevistador e entrevistado se cumprimentam com doses generosas de cumplicidade].


Darico Nobar: Então, meu amigo, o que aconteceu? Por que fugiste?


Rodolfo Queiroz: Não fugi; rolei, perdi-me. Coisas que acontecem. Nada mais resta do antigo Rodolfo que tu conheceste, Darico. Sou outro homem agora, tenho outra alma, outra voz, outras ideias. Assisto-me endoidecer. Perder a Clotilde foi para mim soçobramento total.


Darico Nobar: Oh, Rodolfo, todos estavam aflitos com teu desaparecimento. O Prates, aquele velhaco, foi à loucura atrás de ti. Se não fosse o Justino nos acalmar, dizendo que o encontrou por acaso no trem, não sei se não teriam colocado a polícia na tua procura!


Rodolfo Queiroz: Então causou sensação?


Danico Nobar: Não era para menos, né? Vejamos: tu amavas a Clotilde, não? (Entrevistado balança a cabeça para cima e para baixo). Ela, coitadinha, parecia louca por ti. (O convidado continua mexendo a cabeça). Os pais dela estavam radiantes de alegria. Os teus, pelo que sei, também estavam de acordo com o casamento. Aí, de repente, mais do que de repente...


Rodolfo Queiroz: Deu-se a súbita transformação!


Danico Nobar: Tu desapareceste, Rodolfo! A família dela fechou os salões como se estivesse de luto pesado ou se fosse vítima de uma peste.


Rodolfo Queiroz: Foi quase isso [fala sussurrando].


Danico Nobar: A Clotilde chora, pelo que sei, até hoje. Evidentemente há um mistério aí. É natural que a sociedade carioca e os colunistas sociais façam conjecturas, teçam hipóteses, criem versões. Quase sempre, arquitetam dramas horrendos.


Rodolfo Queiroz: Contra mim?


Darico Nobar: Já ouvi cada coisa a teu respeito, meu amigo. Coisas de arrepiar até os espíritos mais pacíficos. Minha impressão é que o juízo geral está contra ti.


Rodolfo Queiroz: Tenho o ar desvairado?


Darico Nobar: Absolutamente desvairado.


Rodolfo Queiroz: Vê-se?


Darico Nobar: É claro, pobre amigo! Nota-se que sofreste muito. Estás pálido, suando apesar do ar gelado do estúdio da TV, e tens um olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste.


Rodolfo Queiroz: Oh, meu caro Darico. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado! Todos têm razão: sou um perdido.


Darico Nobar: Mas o que é isto, Rodolfo?! Conte-nos o que se passou! Tire de dentro de ti essa angústia que parece afogar-te!


[O entrevistado tenta falar, mas a voz não sai. Ele tenta mais uma vez se pronunciar e novamente fica em silêncio absoluto. O descontrole emocional parece suplantar o esforço e a vontade genuína de se comunicar abertamente].


Darico Nobar: Mas como tremes, criatura de Deus!!! Estás doente?!


Rodolfo Queiroz: Não. Estou nervoso. Estou com a maldita crise.


Darico Nobar: Se for algo grave, temos uma equipe médica à disposição.


Rodolfo Queiroz: Eles não podem me ajudar. Ninguém pode. É o fim, meu bom amigo, é o meu fim.


Darico Nobar: Vires essa boca pra lá, Rodolfo.


Rodolfo Queiroz: É o vício, meu bom Darico. Sou vítima desse vício cruel e impiedoso.


Darico Nobar: Conte lá. [O silêncio do convidado permanece]. Nunca pensei que iria encontrar Rodolfo Queiroz, um dos mais elegantes personagens da ficção de João do Rio, desabafando em meu programa. Qual é esse vício tão danoso?


Rodolfo Queiroz: Não sei como dizer... Não há quem não tenha um vício, uma tara, uma brecha. Sei disso. O meu vício é positivamente a loucura, a loucura por uma mulher, pelas mulheres. Luto, resisto, grito, debato-me. Às vezes, não quero, não quero mesmo. Mas a vontade vem vindo, ri de mim, toma-me a mão e faz-me inconsciente. Apodera-se de mim, Darico.


Darico Nobar: Compreendo.


Rodolfo Queiroz: Estou com a crise. Lembras-te do Bento Santiago quando se picava com ciúmes? Lembras-te da Aurélia Camargo quando se dedicava à vingança? Sabiam ambos que acabavam a vida e não podiam resistir aos vícios torpes. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem que se sente doido.


Darico Nobar: O caso parece mais sério do que imaginei. Tu sofres de ciúmes ou desejas se vingar de alguém, Rodolfo?


Rodolfo Queiroz: Nem um, nem outro. Meu vício é o alfinete.


Darico Nobar: Alfinete?!


Rodolfo Queiroz: Meter o alfinete.


Darico Nobar: Meter o alfinete? Quanto mais falas, menos eu te entendo.


Rodolfo Queiroz: Foi de repente, Darico. [O olhar desvairado percorre o auditório em busca de compreensão]. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta.


Darico Nobar: Sim, sempre foste um amigo leal, um noivo correto...


Rodolfo Queiroz: Ia me casar com a Clotilde, ser bondoso que eu amava perdidamente. Aí, na noite em que estávamos no baile das Praxedes, meu mundo caiu.


Darico Nobar: Oh, Rodolfo. Eu estava lá. Foi um bate-chinela maravilhoso.


Rodolfo Queiroz: Para mim foi terrível. Terrível!!!


Darico Nobar: Meu Deus, o que aconteceu de tão grave naquele baile?


Rodolfo Queiroz: A Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. [A cara do apresentador era de uma interrogação gigantesca]. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher. Ai, Darico, ela tinha a beleza dos braços das Oréadas pintadas por Botticeli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento.


Darico Nobar: Ciúmes?


Rodolfo Queiroz: Não. Era um estado que nunca se apossara de mim – a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer.


Darico Nobar: Sofrer? Mas você não amava Clotilde?


Rodolfo Queiroz: Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los...


Darico Nobar: Por quê?


Rodolfo Queiroz: Não sei, nem eu mesmo sei. Uma nevrose, talvez. Aquela noite passei numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer.


Darico Nobar: Ainda não estou entendendo. O que querias fazer exatamente?


Rodolfo Queiroz: Fui ao encontro da minha noiva fazendo um enorme esforço para conter meu desejo. Ele, porém, ficou, cresceu, brotou, enraigou-se na minha pobre alma. [Faz um breve silêncio]. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cozê-los devagarinho, a picadas.


Darico Nobar: Você teria coragem de fazer isso com a pobrezinha da Clotilde?!


Rodolfo Queiroz: Jamais vou me esquecer daqueles braços nus, sua forma frágil e suave, da pele fina e macia. De súbito, fui invadido por uma vontade de realizar a estremação. Só de pensar, Darico, em picar-lhe a carne virginal nos braços, vem-me grandes pavores... Darico, que tristeza!


Darico Nobar: Só um momento, por favor, Rodolfo. Minha diretora está falando aqui no ponto. [Mostra um pequeno aparelho colocado no ouvido]. Sim. Sim. Está bem. Vou falar. [Vira-se para a câmera 2]. Pessoal, a entrevista de hoje termina aqui. A direção está preocupada com os caminhos que essa conversa está tomando.


Plateia: Aaaaaaaaaaah.


Rodolfo Queiroz: Não falei que estava enlouquecendo?!


Darico Nobar: Não é isso, meu amigo. O problema é o tempo. [Bate com o dedo no relógio de pulso]. A próxima atração está para começar. Além disso, talvez seja melhor teres essa prosa com um psicanalista e não comigo diante das câmeras de televisão. [Convidado balança a cabeça concordando]. Muito obrigado por nos visitar, Rodolfo. [Os dois trocam cumprimentos com as mãos]. Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. Ano que vem, voltaremos com mais entrevistas. Não percam. Até lá!


[As letras dos créditos do programa sobem na tela. Ainda dá para ver os homens no centro do palco conversando. Um chora copiosamente. Nem mesmo as mãos colocadas na frente do rosto escondem seu desespero. O outro tenta consolá-lo como pode, mas parece não ser bem-sucedido].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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