• Ricardo Bonacorci

Livros: Caixa de Pássaros - O terror de estreia de Josh Malerman


No final de semana passado, li "Caixa de Pássaros" (Intrínseca), o primeiro livro do roqueiro (e agora escritor) Josh Malerman. Vocalista e compositor da banda norte-americana High Strung, Malerman produziu uma obra aterrorizante em um futuro apocalíptico. Este romance é um thriller de terror com uma pegada de distopia.


Em "Caixa de Pássaros", temos uma sociedade que vive com medo. Com temor do que há no céu e do que acontece fora das casas, os poucos sobreviventes do planeta permanecem isolados e reclusos em suas escuras residências. Por isso, as portas ficam sempre trancadas e as janelas são cobertas, impossibilitando a visão do lado de fora. Quem se arriscou a andar pelas ruas e a olhar para o ambiente externo acabou enlouquecendo e cometendo, em seguida, suicídio. O que há no lado de fora é desconhecido daqueles que permanecem vivos e que mantêm a sanidade mental. Este é o mistério que ronda o livro. O que está acontecendo com o planeta?! O que está levando à loucura e à morte das pessoas?

Neste cenário apocalíptico, temos Malorie, uma mulher que cuida de duas crianças de quatro anos. Depois de muito tempo isolados, eles precisam fazer uma viagem de barco pelo rio que passa perto de sua residência. A vantagem da moça é que ela treinou muito bem suas crianças, chamadas simplesmente de Garoto e de Menina, durante toda a vida delas. Ou seja, aquela empreitada fora de casa é aguardada há muito tempo pela personagem principal. Durante a jornada pelo ambiente externo, o grupo precisará andar com os olhos vendados. Enquanto Malorie não possui muita prática em se guiar pelos ouvidos, as crianças são mestres nesta técnica/habilidade.


Enquanto acompanhamos os preparativos e a viagem pelo rio, também somos arrastados aos acontecimentos de quatro anos atrás que levaram Malorie, até então grávida, a ficar sozinha naquela casa. No começo do livro, ela chega a uma residência comandada por um homem chamado Tom. Lá moram algumas pessoas que dividem as tarefas domésticas e se consolam pelo trágico destino de todos. O que aconteceu com todos os moradores para Malorie, o Garoto e a Menina terem ficado sozinhos? Este é outro grande mistério desta história.


O romance de Josh Malerman é uma mistura de "A Dança da Morte" (Suma de Letras) de Stephen King e "Ensaio sobre a Cegueira" (Companhia das Letras) de José Saramago. O lado King de "Caixa de Pássaros" está no clima sombrio de toda a trama. O leitor não sabe o que provoca a loucura das pessoas e o que as leva ao suicídio. Um monstro, um ser extraterrestre, um fantasma, uma maldição ou uma doença são os responsáveis, hein? A princípio não se sabe o que provoca o caos, o que aumenta a tensão das personagens e a curiosidade dos leitores. O aspecto saramaguiano está em descrever uma sociedade na qual a visão se torna um perigo.

Apesar da falta de originalidade da história, o livro de Malerman possui uma boa narrativa. A trama é contada simultaneamente em dois momentos do tempo. Em um capítulo estamos com Malorie e suas duas crianças quatro anos depois do colapso da sociedade. No capítulo seguinte, voltamos aos momentos que antecederam a crise. O livro vai evoluindo a partir destes dois pontos distintos do enredo. O legal disso é que nos dois últimos capítulos temos um duplo clímax. Só aí sabemos o que aconteceu na casa durante o parto de Malorie e, em seguida, acabamos descobrindo o objetivo da viagem de barco ao longo do rio.


"Caixa de Pássaros" é um bom romance, mas está longe da força das obras de Stephen King e da profundidade dos títulos de José Saramago. A história de Malerman chega a contagiar e suas personagens são interessantes. O livro do músico norte-americano prende a atenção do leitor ao ponto de lermos suas páginas rapidamente. Eu, por exemplo, devorei esta obra em apenas dois dias (é verdade que as viagens de trem de ida e volta para o Grajaú ajudaram bastante, não é Fabrícia?).


O principal ponto negativo de "Caixa de Pássaros" é o seu desfecho. Ele é conclusivo, porém pouco explicativo. Acabamos não sabendo exatamente o que levou a precipitação dos fatos e o que levou as pessoas ao estado de loucura quando olham para o céu. Esta talvez seja a grande frustração do leitor. Depois de levar a tensão até o final, o autor termina sem explicar o grande mistério que baseou toda a sua obra. Sabemos o destino de Malorie e de suas crianças, mas não compreendemos em sua totalidade o enredo da história. Afinal, o que é que destruiu a sociedade? O responsável foi um monstro, um ser extraterrestre, um fantasma, uma maldição ou uma doença? Fechamos a última página do livro sem esta resposta.

Apesar do final frustrante, "Caixa de Pássaros" é um livro de leitura gostosa. Ele não deixa ninguém arrepiado de medo nem possui cenas tão aterrorizantes assim, mas ele consegue prender a atenção de quem o lê pelo mistério criado e pela tensão dos conflitos entre as personagens.


Em suma, gostei. Como obra de entretenimento, vale a pena. Só não espere grandes revelações no encerramento do romance, uma história com profundidade filosófica ou uma trama extremamente original. Na certa, este livro de Josh Malerman não estará entre as dez melhores publicações que vou ler em 2015 – devidamente registradas na coluna Recomendações. Ao menos é essa a minha esperança!


Bom ano e boas leituras para todos!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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