• Ricardo Bonacorci

Livros: Big Sur - Vícios e alucinações de Jack Kerouac no pós-fama


Nesse final de semana, li “Big Sur” (L&PM Pocket), a décima primeira publicação de Jack Kerouac. Esse livro, o quinto do escritor norte-americano que analisamos no Desafio Literário de abril do Bonas Histórias, foi lançado originalmente em setembro de 1962. O romance narra as viagens feitas por Kerouac, dois anos antes, pela costa oeste dos Estados Unidos. Já um best-seller da literatura norte-americana após o estrondoso sucesso de “On The Road” (L&PM Pocket), título de 1957, Jack Kerouac deixou Nova York, onde morava com a mãe, e passou alguns meses ao lado dos velhos amigos de São Francisco. Quem leu “On The Road”, “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket) e/ou “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket) já está familiarizado com os principais integrantes da turminha do autor: Neal Cassady, Carolyn Cassady, Gary Snyder, Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti. Nos textos literários do pai da Geração Beat, os nomes reais de todas as figuras retratadas são sempre modificados de obra para obra (exigências das editoras para elas não terem problemas judiciais com nenhum dos envolvidos).


Nos relatos dessa viagem de 1960, Jack Kerouac expõe um dos momentos mais difíceis de sua vida: a turbulenta fase do pós-fama. De certa maneira, o peso pelo sucesso repentino e o excessivo conforto gerado pela fortuna amedalhada agravaram o quadro depressivo e de vícios do escritor beat. Assim, ele foi levado à exaustão física, mental e emocional. Pensando em ajudá-lo, Lawrence Ferlinghetti, amigo que tinha uma cabana isolada no alto de uma montanha na região de Big Sur (daí o título do romance), convidou Kerouac para passar uma temporada na Califórnia. Na concepção de Ferlinghetti, o que Jack precisava era de tranquilidade, do contato maior com a natureza, de uma rotina simples, de mais introspecção e da distância dos amigos baladeiros. Concordando com essa proposta, Jack Kerouac voou para o outro lado do país. E lá ele passou alguns meses, oscilando períodos ao lado dos amigos em bebedeiras intermináveis e momentos totalmente isolados, mas sempre com as garrafas de bebidas alcoólicas à tira colo.


Como é típico dos trabalhos do principal nome da Geração Beat, essa trama é narrada em primeira pessoa pelo alter ego de Kerouac (chamado aqui de Jack Duluoz). Além disso, temos uma obra calcada em muitas viagens, no melhor estilo road story, e uma estética narrativa com uma escrita caótica. Ou seja, trata-se de um romance tipicamente kerouaquiano.

Porém, engana-se quem pensa que esse título não reserva boas surpresas. Dentro do portfólio literário de Jack Kerouac, “Big Sur” é importante por três motivos fundamentais: o livro marca o retorno do autor beat ao romance, gênero em que ele mais se destacou; é a primeira obra a retratar de forma semi-autobiográfica a vida do escritor após a fama; e sua narrativa expõe de um jeito corajoso e muito sincero o drama de Kerouac com o alcoolismo e o vício em drogas. Falemos mais, a seguir, sobre essas três características.


“Big Sur” foi o primeiro romance de Jack Kerouac lançado depois de três anos. Vale lembrar que nessa época, o finalzinho da década de 1950 e o início dos anos de 1960, as livrarias foram invadidas por uma enxurrada de livros do autor, transformado do dia para a noite no queridinho tanto do público quanto da crítica literária. Entre 1959 e 1960, para se ter uma dimensão, nada menos do que sete obras de Kerouac foram lançadas nos Estados Unidos. Isso dá uma média superior a três títulos por ano. Contudo, antes de “Big Sur”, as cinco últimas publicações do escritor beat não foram romances: “Mexico City Blues” (sem edição em português), de 1959, era uma obra poética; “Livro dos Sonhos” (L&PM Pocket), de 1960, era uma autobiografia onírica; “The Scripture of the Golden Eternity” (sem edição em português), de 1960, era uma coletânea de poemas; “Tristessa” (L&PM Pocket), de 1960, era uma novela; e “Viajante Solitário” (L&PM Pocket), também de 1960, era uma coleção de ensaios. O último romance propriamente dito tinha sido “Maggie Cassidy” (L&PM Pocket), de 1959.


O segundo aspecto relevante é que esse livro é pioneiro ao mostrar a vida de Jack Kerouac após o seu sucesso literário. Até então, todos os títulos do autor norte-americano ou foram escritos antes de 1957, o ano de publicação de “On The Road”, ou foram produzidos posteriormente à fama, mas com enredos baseados em acontecimentos anteriores ao apogeu profissional. Assim, o novo dia a dia de Kerouac, agora famoso e rico, se mantinha um mistério para o público leitor. “Big Sur” surge para aplacar essa curiosidade, revelando os primeiros elementos da nova rotina do escritor beat.


E, por fim, esse romance, o sétimo de Jack Kerouac, é sua mais sincera e corajosa história. O livro é surpreendente porque seu autor consegue falar de suas paranoias, de suas angústias e de seus medos como se não os estivesse realmente vivenciando. É nesse instante que constatamos o talento literário desse homem. Mesmo abalado pelo álcool, pelos sinais de abstinência química e pelo descontrole psicológico, ele escreve sobre seus sentimentos e suas sensações com uma clareza assustadora. Prova disso é que a maior parte da narrativa de “Big Sur” é baseada nos pesadelos, nos delírios e na depressão do autor. Chega a ser aterrador acompanhar de perto esse drama! Confesso que essa é uma experiência de leitura única.

Há oito anos, essa história foi adaptada para o cinema pelo diretor Michael Polish. Com Jean-Marc Barr, Kate Bosworth, Josh Lucas, Radha Mitchell e Antony Edwards em seu elenco, o longa-metragem integrou o Festival Sundance de Cinema de 2012 e, logo depois, chegou ao circuito comercial norte-americano em 2013. Com um orçamento muitíssimo longe dos blockbusters hollywoodianos, a versão cinematográfica de “Big Sur” teve uma bilheteria bem modesta. Logo depois de sair de cartaz, uma peça teatral inspirada no roteiro de Michael Polish foi lançada nos Estados Unidos.


A versão literária de “Big Sur” é narrada em primeira pessoa por Jack Duluoz, um escritor rico e bastante famoso. A publicação de “On The Road”, romance sobre suas antigas viagens pelo país sem dinheiro e pedindo caronas, se tornou um ícone para os jovens beatniks. Por isso, todos querem se aproximar de Duluoz, visto pelo público ainda como um rebelde inconsequente de 26 anos que é amigo de todo mundo. O problema é que o escritor não é mais um garotão. Chegando à casa dos quarenta anos, o que ele quer na verdade é paz e tranquilidade para se dedicar à literatura. Assim, o peso pelo sucesso meteórico trouxe graves consequências para Jack Duluoz: agravamento do alcoolismo, vontade de fugir para um lugar que não haja ninguém, exposição excessiva de sua privacidade, intensos convites para a divulgação de suas obras e enorme expectativa sobre suas novas produções. Com tanta pressão, a cabecinha do escritor entrou em parafuso.


Sabendo da depressão do amigo, que vivia com a mãe e um gatinho de estimação em Long Island, Lorenzo Monsanto, poeta beatnik, convidou Jack para passar uma temporada na Califórnia. Monsanto tinha uma cabana simplória no alto de uma montanha em Big Sur e ela poderia ser usada como residência pelo romancista. Ficar isolado do mundo por alguns meses poderia fazer bem para as emoções e para a mente de Jack. Concordando com o poeta, Duluoz pega um avião em Nova York e chega a São Francisco para seu período sabático.


O problema é que antes de se encontrar com Monsanto, Jack Duluoz é descoberto, assim que chega a Frisco, por um grupo de fãs. A galerinha o chama para uma bebedeira. Aí o escritor passa a noite na esbórnia completa, perdendo, no dia seguinte de manhã, a carona de Monsanto até a montanha. Arrependido pela boemia desenfreada da véspera, Duluoz decide viajar sozinho para Big Sur. Depois de passar por muitos perrengues pelo caminho, ele chega, enfim, à propriedade do amigo. Lorenzo Monsanto o recepciona feliz da vida e lhe explica detalhes administrativos do lugar. Em seguida, volta para São Francisco, deixando o amigo sozinho em sua propriedade.

Em Big Sur, Jack passa três semanas totalmente isolado de tudo e de todos em uma casinha sem energia elétrica e sem janelas. É o período ideal para ele se acalmar e botar os pensamentos no lugar. A tranquilidade da região e sua rotina pacata ali (ele passa os dias lendo, cozinhando, fazendo poesia, cortando lenha, indo à praia, contemplando a natureza, alimentando os animais, divagando sobre seu passado e refletindo sobre Deus e a humanidade) permitem que o best-seller beatnik se reconecte com a natureza e consigo. Essa é a fase de extrema calmaria, o que gera grande felicidade para Jack.


O problema é que por mais que queira ficar sozinho, Duluoz não consegue permanecer em Big Sur por muito tempo. Depois de se estabilizar espiritual e emocionalmente, ele volta faceiro para São Francisco. E na cidade grande junto aos velhos amigos baladeiros, ele retorna à rotina de bebedeiras, aos maços diários de cigarro e ao consumo desenfreado de drogas, trocando quase sempre o dia pela noite. Diferentemente do passado, quando não tinha dinheiro para nada, agora é o escritor rico que sustenta as saídas libertinas com os companheiros. Mesmo sabendo que aquilo não é certo, Jack sucumbe aos prazeres carnais, vítima do alcoolismo e da dependência química.


Ao mesmo tempo em que sabe que precisa ir a Big Sur para se acalmar, Jack Duluoz quer ficar ao lado dos amigos. Por isso, ele até retorna para a cabana de Monsanto algumas vezes, mas sempre levando seus parceiros de farra à tira colo. Além disso, ele inicia um relacionamento amoroso com Willamine Dabney, a linda amante de Cody Pomeray. Como os amigos sempre dividiram suas mulheres, ninguém estranha que Jack vá para a cama e viva como marido de Billie, como Willamine é chamada carinhosamente por todos.


Os novos excessos de Duluoz não tardam em emitir a conta. Além de sofrer uma séria crise sacro-existencialista, ele é vítima de fortes pesadelos, de alucinações e de mania de perseguição. O leitor assiste, nas páginas desse romance, ao definhamento moral, psicológico, emocional, físico e espiritual de um homem prisioneiro dos seus vícios. Além de triste, é assustador acompanhar a confusão mental que o narrador-protagonista vivencie por vários e vários dias.

“Big Sur” tem 192 páginas. Seu conteúdo está dividido em 38 capítulos. A obra possui também três prefácios: uma escrita pelo próprio Jack Kerouac, outra produzida por Allen Ginsberg (sua personagem nesse livro tem o nome de Irwin Garden) e a última desenvolvida por Aram Saroyan, dramaturgo e poeta contemporâneo. No final do romance, o leitor ainda pode ler “Mar – Sonhos do Pacífico”, poema escrito por Kerouac durante sua estada em Big Sur (e citada no meio da trama ficcional). Precisei do final de semana inteiro para concluir essa obra. Com algumas paradas no meio do caminho, iniciei a leitura na manhã do sábado e a finalizei na noite de domingo. Apesar de não ser um título extenso, ele exige muita atenção do leitor, o que nos obriga um ritmo de leitura mais lento do que o normal.


Apesar de ter um texto um pouco mais comportado esteticamente do que “Os Subterrâneos”, ainda sim temos em “Big Sur” uma narrativa livre e, por vezes, caótica que caracteriza a “Escrita Automática” de Jack Kerouac. Longas frases, ausência de ponto final (ponto final para quê?!), mistura de planos (reais, oníricos e alucinações ao mesmo tempo; passado, presente e futuro integrados; e narrativas, pensamentos e discursos juntos) e mudança abrupta de situação na cena são algumas das características estilísticas desse livro.


Quanto ao conteúdo, temos poucas mudanças conceituais em relação aos romances anteriores de Kerouac. Seu narrador-protagonista continua bebendo todas, usando drogas, fazendo sexo casual sem se importar com o sentimento de suas parceiras, realizando suas viagens intermináveis pelo país, não ligando para o dinheiro nem para o conforto material, questionando-se sobre aspectos filosóficos e religiosos e sendo apaixonado pela literatura e pela música. Sabe qual é a única diferença de Jack Duluoz para Peter Martin, de “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), para Sal Paradise, de “On The Road”, para Leo Percepied, de “Os Subterrâneos”, e Ray Smith, de “Os Vagabundos Iluminados”? O nome. Todos são a mesma pessoa - o alter ego de Jack Keroauc.


Por falar em semelhanças, no seu comecinho, “Big Sur” se parece um pouco com “Vagabundos Iluminados” (a personagem principal acredita que irá encontrar a paz interior se isolando do mundo). Depois, o livro se assemelha a “On The Road” (viagens e carpe diem inconsequente). E por fim, o romance se torna parecidíssimo com “Os Subterrâneos” (dramas amorosos de um homem frio, hedonista e egoísta). O que muda em “Big Sur” é a maior introspecção e o desespero psíquico de seu protagonista. Aí, a obra se torna incomparável.

Se você não gosta de viagens psicodélicas, talvez não curta tanto os delírios que Jack Duluoz vivencie nesse romance. A graça de “Big Sur” está justamente em tentar acompanhar a jornada da personagem principal pelos caminhos nebulosos da mente humana. Jack sabe que precisa mudar e até tenta alterar seus comportamentos. Porém, algo mais forte dentro dele insistirá em boicotar todas as suas tentativas de redenção, levando-o ao esgotamento completo. Se a ação concreta diminui ou mesmo cessa por várias páginas e por vários capítulos quando o protagonista da trama surta, o que compromete sim um pouco do ritmo do livro, por outro lado assistimos aos detalhes das reações físico-psicológicas de um viciado em um quadro severo de alucinação. Nesse sentido, até mesmo o estilo caótico do texto literário de Keroauc encaixa-se como uma luva nessa narrativa. Nunca a “Escrita Automática” fez tanto sentido como nessa história – ou alguém imagina que o narrador com sérios problemas mentais irá conseguir escrever seu texto direitinho, hein?!


Gostei muito de “Big Sur”. Seu drama é genuíno e intenso. Sua proposta é, no mínimo, corajosa. Jack Kerouac é o tipo de escritor que não tinha medo de se expor e, até esse momento, não havia perdido a capacidade de trabalhar com a escrita - algo que infelizmente viria a acontecer mais para frente, quando o aumento do alcoolismo e dos vícios em drogas iria travá-lo. Até mesmo esse momento mais delicado da vida do autor pode ser vislumbrado nesse romance. Chega até a parecer incrível que Jack Kerouac tenha vivido por mais sete anos depois do lançamento de “Big Sur”.


A análise dos livros de Kerouac irá prosseguir no próximo domingo, dia 26. Nessa data, retornarei ao Bonas Histórias para comentar “Pic” (L&PM Pocket), a novela do escritor norte-americano publicada postumamente. Esta obra encerra a fase das investigações individuais dos seis títulos do Desafio Literário de abril. Não perca o próximo post sobre a análise da literatura de Jack Kerouac.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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