• Marcela Bonacorci

Dança: Dança Moderna e Dança Contemporânea - Surgimento e características


Hoje, na coluna Dança, vamos falar sobre a dança moderna e a dança contemporânea. A dança compreende inúmeros passos e movimentos. E a junção desses elementos com as batidas musicais forma coreografias que permitem que nossa imaginação se liberte e que nossos corpos transmitam emoções. Esta é a grande magia da dança. A dança moderna e a dança contemporânea oferecem maior liberdade e dão margem para as improvisações. Assim, o dançarino fica livre para se movimentar e para se expressar. Porém, essa revolução na arte dançante só aconteceu no século XX. Até então, quem ditava as regras da dança e norteava sua evolução ao longo dos séculos era o ballet clássico, mais inflexível e extremamente rigoroso quanto à determinação dos movimentos. Falamos um pouco sobre a influência do ballet para as demais modalidades no post do mês passado do Bonas Histórias, Breve História da Dança.


O ballet impôs incontáveis regras aos seus praticantes: o tipo de penteado a ser feito, o modelo de roupa a ser usada, a especificação do passo a ser executado, a postura ereta e imponente do dançarino em ação, etc. Até hoje, o ballet clássico mantém esta rigidez. Não à toa, essa modalidade é o caminho natural para muitos pais que desejam ensinar disciplina e postura aos filhos. Contudo, tantas regras e tanta solidez formal se tornaram incompatíveis com os valores do mundo moderno. Aos poucos, surgiu a necessidade de se quebrar tal rigidez. Essa ruptura conceitual e prática foi o grande legado que a dança moderna trouxe para o universo artístico nas primeiras décadas do século XX. Este novo tipo de dança quebrou todas as regras e os formalismos que eram usados e apreciados até então pelos dançarinos. Inicia-se, portanto, uma nova página da história da arte corporal.


Em uma época em que as cidades cresciam velozmente, a industrialização ditava novos rumos político-econômicos e muitos países enfrentavam os desafios da Primeira Guerra Mundial, era natural que a sociedade como um todo também se modificasse. Um novo jeito de ser, viver e pensar moldou a cultura do homem moderno. Desta forma, muitos dançarinos não viam mais razão para toda a formalidade imposta pelo ballet. Eles queriam uma dança mais simples, mais livre e que pudesse transmitir diretamente seus sentimentos. Os grandes espetáculos do ballet clássico, com sua rigidez de movimentos e os cenários majestosos, não mais representavam a nova sociedade do século XX.

Surgiram, nesta época, nomes importantes da dança moderna como Isadora Duncan (1877 – 1927), Loie Fuller (1862 – 1928), Ruth St Dennis (1879 – 1968), Martha Graham (1894 – 1991) e Mary Wigman (1886 – 1973). Esses dançarinos, mesmo com estilos totalmente diferentes entre si, queriam trazer mais liberdade para a dança e desejavam romper com o tradicionalismo do ballet clássico.


O estilo moderno propõe uma dança com movimentos mais soltos e simples (mas que respeitem a técnica de execução) e com apresentações que permitam aos dançarinos a transmissão mais direta e intuitiva de seus sentimentos. Assim, as sapatilhas foram abandonadas (pode-se dançar até mesmo descalço) e as roupas se tornaram mais confortáveis (pode-se até mesmo ficar sem roupa no palco). Um novo padrão estético se formava. A ideia era criar uma dança com passos livres e que pudesse ser mais expressionista.


Inicialmente, essa dança foi considerada radical e iconoclasta. Os dançarinos que se voltaram para a dança moderna queriam impor uma maior liberdade de repertório e, principalmente, expor com maior veracidade as emoções. Paul Boucier, em seu livro “A História da Dança no Ocidente” (Martins Fontes), faz uma citação que pode resumir bem a proposta da dança moderna: “A intensidade do sentimento comanda a intensidade do gesto”.


Além de deixar os movimentos mais soltos, a dança moderna abre espaço para a criação de novos passos, sem que a técnica seja perdida nesse processo. Sem precisar seguir uma estrutura tão rígida, o dançarino mergulha em novos caminhos criativos. Mesmo coreografadas, as novas danças transmitem a ideia de improvisação e de informalidade ao público. Assim, em uma comparação multicultural, a dança moderna representou para a arte corporal a mesma ruptura formal que o jazz significou para a música.

O novo tipo de dança usa muito mais a gravidade e o peso corporal. O corpo dos dançarinos passou a ser muito mais estudado. Enquanto o ballet tinha seus grandes movimentos em saltos, piruetas e chutes altos, a dança moderna passa a ser desenvolvida no chão e em quedas corporais controladas. Isso é uma influência direta do estado psicológico dos dançarinos, que queriam extravasar suas emoções internas. A dança moderna prioriza o sentimento dos artistas. Eles devem demonstrar, no palco, o máximo do seu estado emocional, que é refletido em seus movimentos e expressões corporais. Por outro lado, o ballet clássico, que ainda falaremos com mais detalhes na coluna Dança, valorizava a suavidade e a leveza dos movimentos e pretendia conter a expressividade.


Atualmente, a dança moderna é muito mais sofisticada, sendo muito comum que seus dançarinos também tenham formação clássica. Este estilo exige dos seus praticantes uma completa interação entre espírito, corpo, coração e mente. A essência desta dança é olhar para frente e não se voltar para trás. Ela consegue coexistir perfeitamente com o clássico. Ambas modalidades seguem se enriquecendo, sem que uma anule a outra.


No Brasil, a dança moderna foi introduzida no período da Segunda Guerra Mundial. Muitos dançarinos europeus deste estilo vieram para o nosso país para fugir da guerra. A maioria se estabeleceu no eixo Rio - São Paulo. E eles formaram a primeira geração de dançarinos nacionais modernos. Graças a este intercâmbio cultural, os brasileiros conheceram uma outra modalidade de dança.


A partir da década de 1960, muitos dançarinos fizeram modificações mais expressivas na dança moderna. Eles promoveram uma ruptura mais intensa no que era visto até então como arte. Assim, nasceu a dança contemporânea. Contudo, seria apenas na década de 1980 que este novo gênero dançante se tornaria mais popular.

A dança contemporânea propõe intensas inovações e experimentações coreográficas. Ela abandona totalmente a técnica dos movimentos (algo que a dança moderna jamais fez!). Em uma única apresentação, por exemplo, podemos ter uma mistura de ritmos como jazz, street dance e ballet. Além disso, a música pode ser suprimida das apresentações. É isso mesmo o que você leu: a dança contemporânea pode acontecer sem nenhuma música, tendo como único barulho o som vindo do corpo e da respiração dos dançarinos. A principal preocupação dos artistas contemporâneos é conseguir transmitir suas ideias, conceitos e sentimentos, independentemente das formas e dos meios. Para eles, não importa a maneira nem os espaços utilizados. O palco deixa de ser o lugar de referência e todo ambiente disponível, por mais exótico e inusitado que seja, passa a ser explorado. Neste estilo, o teatro e a dança se misturam, assim como outras artes como a fotografia, o cinema, as artes visuais e as artes digitais. O corpo fica livre para se expressar, sem ter que seguir técnicas preestabelecidas.


A dança contemporânea não possui uma estrutura própria, podendo ser praticada por todo mundo. O corpo muitas vezes explode suas emoções ou, então, se recolhe para demonstrar o acanhamento sentimental. Em outra comparação multicultural, trata-se de uma modalidade de dança mais próxima à arte abstrata. Homens e mulheres ganham a mesma importância nas apresentações.


Este estilo vive se reinventando. Há a busca constante e intensa por novos movimentos corporais e por novas linguagens artísticas. Em suas manifestações, os dançarinos contemporâneos podem abrir espaço para a interação com o público. Eles exaltam suas emoções e transmitem suas ideias e revoltas sem que precisem ficar presos às técnicas, aos figurinos e aos ambientes. Até mesmo as coreografias não prendem seus intérpretes, que podem abusar muito mais da improvisação.


No próximo post da coluna Dança, vamos falar mais do ballet e de seus diferentes estilos. Porém, para inspirar quem gostou do conteúdo de hoje do Bonas Histórias e para quem deseja começar a dançar, deixo aqui uma frase de Isadora Duncan, um dos grandes nomes da dança moderna: “Se você já foi ousada, não permita que a amansem”. Até a próxima!


Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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