• Ricardo Bonacorci

Livros: A Mulher Sobressalente - Os contos de Dany Wambire


A Mulher Sobressalente é o livro de contos de Dany Wambire

Quando se fala em literatura moçambicana, o primeiro nome que vem à mente da maioria dos leitores brasileiros é Mia Couto. O autor de “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras) é atualmente um dos escritores mais famosos e premiados da língua portuguesa (ele conquistou o Prêmio Camões de 2013). Seu portfólio artístico é de fato excelente. Agora, quando perguntamos sobre os autores conterrâneos de Couto, muita gente não sabe apontar outro nome. Infelizmente, confesso fazer parte desse grupo. Por isso, fiquei interessado em conhecer, no último final de semana, o livro “A Mulher Sobressalente” (Malê). Esta coletânea de contos tem como autor Dany Wambire, professor, jornalista e escritor moçambicano de apenas 31 anos. “Estaria diante de um novo Mia Couto?” cogitei empolgado. Com essa expectativa, li a obra no domingo à tarde.


Nascido em 1989, na província de Manica, região central de Moçambique, Wambire coordena a Associação Literária Kulemba e dirige a revista Soletras. Como escritor, ele produziu a coletânea de contos “A Adubada Fecundidade e Outros Contos” (Malê), a coleção de crônicas “O Curandeiro Contratado pelo Meu Edil” (Oleba Editores) e o título infantojuvenil “Quem Manda Na Selva” (Fundza Editores), além de ter participado de várias antologias em Portugal, Brasil e Moçambique.


Dany Wambire tem dois livros lançados no Brasil, ambos pela Editora Malê, especializada em literatura afro-brasileira. Em 2017, chegou às livrarias nacionais “A Adubada Fecundidade e Outros Contos”, obra de 2013 que representou a estreia do autor na ficção e que conquistou a menção honrosa no Prêmio Internacional José Luís Peixoto de 2013. Já “A Mulher Sobressalente” foi publicado por aqui na metade de 2018, antes mesmo da edição em seu país natal.

Dany Wambire

Com prefácio de Martins Mapera, poeta e ensaísta moçambicano, e posfácio de Aparecida Maria Nunes, professora e pesquisadora brasileira, “A Mulher Sobressalente” possui dez contos. São eles: “O Linchamento dos Dólares”, “O Bêbado Corrigível”, “O Filho de Camponês”, “A Mulher Sobressalente”, “Melissa”, “O Habitante de Ruínas”, “O Analista Drogado”, “Conselho da Enfermeira”, “Casal de Brincadeira” e “A Bolsa Diz Tudo”. Ao todo a obra tem 96 páginas. Ou seja, trata-se de uma leitura rápida. Dá para ler o livro em uma única tarde ou mesmo em uma noite só. Não devo ter levado mais do que três horas para percorrer todas as suas páginas.


Em “O Linchamento dos Dólares”, o conto que abre a coletânea, Valdemar recebe uma indenização polpuda pela morte do filho. O rapaz faleceu de maneira trágica enquanto trabalhava. Ao invés de ficar triste com o destino do filho, o pai está radiante com o dinheiro que deverá tirar sua família da pobreza extrema. “O Bêbado Corrigível” apresenta o drama de João Esponja, um alcoólatra aparentemente incorrigível. Criminosos o prendem em cima de um coqueiro no meio da floresta. Sozinho, o bêbado reflete sobre os males da bebida. Se não aparecer ninguém para socorrê-lo, ele morrerá. A narrativa de “O Filho de Camponês” começa em uma escola. Um professor preconceituoso fala para Maveze, um dos alunos da turma, que ser agricultor não é uma profissão digna. O problema é que o pai do garoto, Fernando Campos, é um dos principais ruralistas da região. Assim, Maveze cresce e estuda para se afastar da rotina paterna tão vinculada à agricultura.


“A Mulher Sobressalente”, o quarto conto do livro e que empresta seu título ao nome de toda a coletânea, mostra o drama de Quinita, uma adolescente do interior. Depois de ter fugido de casa para viver na cidade, ela precisou retornar para o seio familiar. Com isso, é alvo da violenta, da machista e da tradicional sociedade rural moçambicana. Em “Melissa”, uma jovem mãe de oito filhos (cada um de um pai diferente, mas todos já falecidos) sofre com a pobreza extrema. Porém, ela não gosta de trabalhar. Sua esperança é receber os préstimos de uma igreja evangélica, que parece não olhar com bons olhos para aquela mulher. Mário Cemprucento, protagonista de “O Habitante de Ruínas”, é um rico dirigente público. Certo dia, ele volta para a casa se sentindo humilhado e confidencia sua angústia para a esposa.

A Mulher Sobressalente de Dany Wambire

O sétimo conto se chama “O Analista Drogado”. Nele, Rodaviva chora a morte do marido Marcelino, um crítico político conceituado no país, mas que no ambiente privado costumava se drogar. Em “Conselho de Enfermeira”, os médicos não conseguem identificar a doença que aflige Tião. Alice, a enfermeira, quer levar um curandeiro ao hospital. Entretanto, quem aparece por lá é um pastor da Igreja Milagres em Tempo Real.


“Casal de Brincadeira”, a penúltima história do livro de Wambire, apresenta a relação tumultuada de Dinhito e Tina. Quando criança, ele com seis anos e ela com quatro, a dupla brincava de marido e mulher. A diversão de Dinhito era bater em Tina, que precisava fazer os serviços domésticos no lar imaginário. O tempo passou, os dois cresceram e viraram adultos. E, por se amarem muito, acabaram se casando de verdade. E, aí, as brincadeiras do passado voltaram a atormentar Tina. Por fim, “A Bolsa Diz Tudo” trata da notícia espetacular recebida por Ginho. O rapaz ganhou uma bolsa para estudar no exterior. Seu pai, contudo, só aceita deixá-lo partir se antes ele se casar com uma menina de sua terra.


As narrativas de Dany Wambire têm um tom de denúncia social. Suas histórias retratam a violência, o machismo, o misticismo e a pobreza da população moçambicana. Os dramas dos seus conterrâneos são variados e atingem a todos: homens, mulheres, idosos e crianças de todas as classes sociais. Ninguém escapa do sofrimento, mesmo quando a sorte parece bater eventualmente à porta. A impressão é de estarmos presenciando a rotina de uma sociedade medieval, onde preconceitos e crenças milenares ainda se sobrepõem ao bom senso e aos comportamentos modernos.

A Mulher Sobressalente de Dany Wambire

A violência exposta em “A Mulher Sobressalente” é bem variada. Ela acontece tanto na “cidade pacificada” quanto nos rincões do país afetado pela Guerra Civil. Ela também pode surgir dentro de casa, na escola, no trabalho ou na igreja. Nem a mais tenra infância é poupada. A violência é física, psicológica, ideológica, cultural. Muitas vezes, os piores agressores são os que estão mais próximos das vítimas. São eles integrantes da família (um pai, um irmão, um marido...), os amigos, os vizinhos e os colegas de escola ou de trabalho. Contudo, governantes, grandes empresas, a polícia e juízes também podem ser extremamente impiedosos, principalmente com a camada mais pobre da população.


É inegável que as mulheres são aquelas que mais sofrem, vítimas de todo o tipo de abuso por parte dos homens. O machismo em Moçambique torna a vida das mulheres quase que insuportável. O sexo neste livro tem pouca relação com o amor e a união harmônica entre os casais. A prática sexual adquire, no final das contas, um caráter de dominação e de violência, mesmo quando consentido e realizado entre marido e esposa.


Curiosamente, os homens também padecem com as tradições e os preconceitos em Moçambique. Eles são vítimas de familiares e da sociedade como um todo. Prova maior disso está nos contos “O Filho de Camponês”, “O Habitante de Ruínas”, “O Analista Drogado” e “A Bolsa Diz Tudo”. As personagens masculinas dessas tramas não conseguem ser plenamente realizadas nem mesmo felizes. Acabam padecendo com as mentiras, as armações e as ciladas impostas por outros homens em posição de maior poder e de maior influência social.

A Mulher Sobressalente de Dany Wambire

Não é de se admirar que normalmente as tramas de “Mulher Sobressalente” possuem finais trágicos. E não são apenas os desfechos das histórias de Wambire que são trágicos: os inícios e os meios delas também são. É como se o leitor fosse jogado de fato na realidade dura do país africano. Nesse sentido, os contos do livro se parecem muito com as crônicas de uma Moçambique sem esperança e devastada pela fome, pela pobreza e pela violência endêmicas.


Gostei muito do tipo de linguagem utilizada por Dany Wambire. Além de usar gírias e expressões típicas de seu país (é uma delícia conhecer o jeito moçambicano de falar!), o autor também se utiliza prioritariamente de palavras simples em seus textos. As narrativas dos contos são muito diretas. Como consequência, a leitura fica fácil e agradável. Quem gosta de conhecer a cultura linguística de outros países lusófonos e curte as variantes da língua portuguesa, na certa vai gostar desta experiência de leitura.


Infelizmente, “A Mulher Sobressalente” também possui alguns probleminhas. Achei a edição da Editora Malê muito ruim. Se a proposta editorial da empresa é maravilhosa, o mesmo não pode ser dito da diagramação e do projeto gráfico de vários de seus títulos. O livro de Dany Wambire tem um aspecto visual que beira o amadorismo. É uma pena porque o conteúdo é bom.

Dany Wambire

Quanto às narrativas do moçambicano, elas são bem curtinhas (tudo é resolvido, na maioria das vezes, em três ou quatro laudas). Se por um lado o texto simples e a pegada objetiva das histórias deixam a leitura agradável, por outro lado a sensação é que estamos diante de dramas simplórios. Talvez se o escritor tivesse investido mais na construção de cenários, nas personagens e nas tramas (tornando suas histórias mais complexas e com algumas reviravoltas), essa impressão pudesse ser desfeita. O que ajuda a comprovar essa teoria é justamente o conto “A Mulher Sobressalente”. Ele é o único da coletânea que é maior em tamanho e que teve um cuidado especial na composição dos elementos de sua narrativa. Não por acaso, o drama de Quinita é disparado a melhor história da obra (que merecidamente leva seu nome).


Apesar de Dany Wambire estar (ainda) muito (muito mesmo) longe de ser um novo Mia Couto (ele está mais para uma versão moçambicana de Ondjaki), gostei de “Mulher Sobressalente”. O livro é simples e eficiente em sua proposta. Em muitos casos, determinadas obras se tornam relevantes quando se apresentam mais como uma ferramenta de denúncia social do que como elaboradas expressões estilístico-literárias. É o caso aqui. Wambire mostra-se um porta voz dos moçambicanos para reclamar da difícil realidade que vivenciam ainda hoje. Assim, seus piores inimigos estão escondidos por trás de pensamentos, ideologias e comportamentos antigos, que puxam a sociedade para trás ou para baixo.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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