• Ricardo Bonacorci

Livros: O Deus das Pequenas Coisas - O premiado romance de Arundhati Roy

Publicada em 1997, a obra de estreia da escritora indiana conquistou o Booker Prize e se tornou rapidamente um best-seller mundial.

O Deus das Pequenas Coisas romance de Arundhati Roy

Na semana passada, li um livro incrível. “O Deus Das Pequenas Coisas” (Companhia de Bolso) é o romance de estreia da indiana Arundhati Roy, mais conhecida em seu país pelos trabalhos no cinema e no ativismo político-social. E que debute na literatura foi esse, hein?! A obra conquistou o Booker Prize, um dos principais prêmios literários do Reino Unido, como a melhor ficção em língua inglesa. Além disso, a narrativa de Roy se tornou rapidamente best-seller na Índia, na Europa (principalmente na Inglaterra e Noruega), na América do Norte (leia-se Estados Unidos) e na Oceania (sobretudo na Austrália). “O Deus das Pequenas Coisas” chegou a ocupar a quarta posição na categoria Ficção Independente da tradicional lista dos mais vendidos do The New York Times. Em outras palavras, esse livro se transformou em sucesso de crítica e de público e se consolidou como um dos exemplares mais bem-sucedidos da literatura indiana contemporânea.


Conheci “O Deus das Pequenas Coisas” quando cursei a Pós-graduação em Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Em uma oficina de Escrita Criativa, a professora Isabela Noronha, autora de “Resta Um” (Companhia das Letras), trouxe o romance de Arundhati Roy para analisarmos em sala. O foco daquela aula era as primeiras páginas do livro da escritora indiana. De maneira poética e usando a sinestesia, Roy apresentou o cenário e as principais personagens de sua obra com grande beleza e sensibilidade nos parágrafos iniciais. Realmente, o começo dessa narrativa é mesmo maravilhoso, digno de ser estudado pelos alunos de Escrita Criativa mundo à fora. Na época do curso não consegui ler esse livro integralmente, mas fiquei com muita vontade de percorrer seus demais capítulos. Algo que só consegui concretizar agora. E gostei tanto desse título que decidi produzir esse post para a coluna Livros – Crítica Literária do Bonas Histórias.


Publicado originalmente em 1997, “O Deus das Pequenas Coisas” foi escrito ao longo de quatro anos. De 1992 a 1996, Arundhati Roy construiu uma trama com forte carga autobiográfica e com uma prosa extremamente poética. O romance aborda o drama de uma família de Ayemenem, pequeno povoado próximo à Kottayam, no estado de Kerala, no sudoeste da Índia. Ao retratar uma tragédia ocorrida há mais de duas décadas e que teve o poder de mudar para sempre o destino de quase todos os integrantes do clã de protagonistas, a escritora apresenta simultaneamente a cultura, a história, as particularidades, a geografia, as crenças e, principalmente, as injustiças da sociedade indiana, rigidamente estratificada por castas. Lançado na Índia em maio, esse romance histórico precisou de apenas dois meses para chegar às livrarias de outros 18 países com enorme êxito. Atualmente, ele já foi lançado em mais de meia centena de países.

Arundhati Roy

O retrato ácido da realidade local em seu livro de estreia trouxe alguns problemas políticos e judiciais para Roy. Além de ser alvo das críticas negativas dos conterrâneos que não aprovaram o relato pejorativo de sua nação, “O Deus das Pequenas Coisas” incomodou alguns poderosos políticos indianos. Eles acusaram Arundhati Roy de difamação e de obscenidade e levaram tais queixas para os tribunais. Apesar do incomodo gerado pelo debate legal de seu texto ficcional, não demorou para a autora provar aos juízes que um romance é apenas um romance, por pior que seja a descrição dos hábitos da população, da cultura tradicional, da atuação das autoridades policiais e do comportamento dos políticos em suas páginas.


Nascida em 1961, em Shillong, a capital do estado de Megalaia, no nordeste da Índia, Arundhati Roy completa em 2021 60 anos de idade. Morando atualmente em Nova Dehli, a escritora estudou arquitetura na capital do país e trabalhou por muitos anos no cinema e na televisão da Índia como atriz, designer de produção e, finalmente, como roteirista. Foi como roteirista de produções de Bollywood que Roy conquistou seus principais prêmios cinematográficos. Seus mais famosos filmes foram “In Which Annie Gives It Those Ones” (1989), eleito o melhor roteiro pelo National Film Awards daquele ano, e “Electric Moon” (1992).


Apesar de estar no meio cinematográfico e televisivo há algumas décadas, Arundhati Roy só conseguiu ganhar realmente muito dinheiro (acredite!) quando entrou na literatura. E esse feito foi conseguido apenas com um best-seller, justamente com seu romance de estreia. Os direitos autorais de “O Deus das Pequenas Coisas” renderam uma bolada milionária para a indiana. Apenas de adiantamento editorial (uma prática comum nas editoras do exterior, mas raríssima no Brasil), ela recebeu 1 milhão de dólares. O fato de faturar em dólar e em euro (moedas fortíssimas) e de gastar em rupia indiana (moeda quase 14 vezes mais fraca do que, por exemplo, o real, uma das divisas mais desvalorizadas dos últimos anos – abração Paulo Guedes!) deixou tudo ainda mais azul na conta bancária da escritora. Com a independência financeira, Roy pôde escolher no que trabalhar nos anos seguintes. Aí ela se voltou com mais afinco para o ativismo político-social.

Livro O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

De 1997 para cá, ela é porta-voz do movimento antiglobalização e é ferrenha opositora do imperialismo norte-americano, da proliferação das armas nucleares, da industrialização desenfreada, do capitalismo selvagem e de algumas construções em seu país. Ou seja, Arundhati Roy é uma versão moderna (?!) e feminina de Mahatma Gandhi (por mais pitoresco que isso possa parecer no século XXI). Não à toa, quase todas as publicações da indiana desde então são ensaios, coletâneas ou manifestos políticos, culturais e sociais sobre a Índia contemporânea e os efeitos nefastos do capitalismo global. Muitas vezes, a escritora indiana recebe fortes críticas por suas posições ideológicas. Admito que algumas são difíceis de engolir, enquanto outras parecem um tanto óbvias (ou você conhece alguém que apoia a proliferação das armas nucleares?!).


Para atender aos fãs da ficção literária, Roy só publicou seu segundo romance recentemente. “O Mistério da Felicidade Absoluta” (Companhia das Letras) foi lançado em junho de 2017, exatamente vinte anos depois de “O Deus das Pequenas Coisas”. O novo título de Arundhati Roy foi finalista de importantes prêmios literários como o Man Booker Prize, o National Book Critics Circle Award e o Prêmio Literário Hindu. Ele foi publicado em mais de quatro dezenas de países.


Voltando a “O Deus das Pequenas Coisas”, essa obra teve sua primeira edição lançada em português no Brasil em 1998 pela Companhia das Letras. O selo escolhido para tal foi a Companhia de Bolso, que é voltada para as publicações em formato pocket. A segunda edição da versão nacional desse livro é de novembro de 2008. A adaptação do texto do romance de Roy para o português brasileiro ficou à cargo de José Rubens Siqueira, tradutor com mais de 40 anos de experiência e com aproximadamente 200 livros traduzidos do inglês, espanhol, francês e italiano. Considerando que a prosa da autora indiana é profundamente poética e que sua narrativa brinca o tempo inteiro com termos, palavras, referências intertextuais e sonoridades da língua inglesa, é preciso ressaltar que a tarefa de Siqueira não foi nada fácil. E, por isso mesmo, ele se saiu muitíssimo bem – conseguiu reproduzir a experiência literária da versão original e, ainda por cima, permitiu ao leitor poliglota o contato com partes importantes do texto diretamente em inglês.

Livro O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

O enredo de “O Deus das Pequenas Coisas” se passa essencialmente em Ayemenem. A trama é narrada em terceira pessoa por um narrador onipresente e onisciente. Apesar da história navegar livremente por diferentes épocas, ela se concentra principalmente em duas datas: dezembro de 1969 (quando ocorreu um episódio trágico que mudou para sempre o destino dos protagonistas) e junho de 1993 (quando assistimos aos efeitos práticos da tragédia de 24 anos antes).


O final do ano de 1969 foi marcado pela chegada de Sophie Mol, uma menina de nove anos, e sua mãe Margaret Kochamma à Índia. As duas eram inglesas e visitavam a Ásia pela primeira vez. Margaret era ex-esposa de Chacko e Sophie era a única filha do casal. Chacko é indiano e conheceu Margaret quando estudava em Oxford. Os dois se casaram meio que no impulso e foram viver em Londres. Contudo, assim que Margaret Kochamma conheceu Joe, um inglês sério e responsável, ela largou o primeiro marido e foi viver com a filha ao lado do conterrâneo.


Desiludido pela perda de seu grande amor, o indiano regressou para a terra natal e voltou a viver na propriedade da mãe, Mammachi, uma viúva cega que comandava a fábrica Paraíso, Picles & Polpas e uma fazenda em Ayemenem, povoado interiorano do estado de Kerala. Além de Mammachi e Chacko, a propriedade da família abrigava Baby Kochamma, a irmã de Mammachi/tia de Chacko, a cozinheira anã Kochu Maria, Ammu, filha divorciada de Mammachi/irmã única de Chacko, e os dois filhos de Ammu, Rahel e Esthappen Yako.


Rahel e Estha (como o menino sempre foi chamado) são irmãos bivitelinos e têm sete anos. O pai deles foi morar em Nova Delhi depois que Ammu o dispensou. Cansada das bebedeiras e da violência doméstica do marido, ela preferiu viver sozinha e cuidar dos filhos longe do pai. Por isso, a dupla de crianças cresceu sem uma figura paterna, algo que sempre incomodou Ammu. O trio (Ammu, Rahel e Estha) sempre foi malquisto pelos familiares em Ayemenem. Afinal, uma mulher cuidar de um casal de filhos gêmeos em uma empreitada solo não era algo que a sociedade machista do interior da Índia podia aceitar tranquilamente.

Livro O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

A rotina na propriedade da família sofreu uma mudança retumbante com a chegada de Sophie Mol e Margaret Kochamma para as festas de Natal de 1969. Com o recente falecimento de Joe, o segundo marido de Margaret, Chacko achou interessante convidar a ex-esposa e a filha para passar uma temporada em Kerala. Assim, elas podiam lidar melhor com a perda do esposo/novo pai. Contudo, para os moradores de Ayemenem, a chegada das duas inglesas provocou uma grande euforia. Afinal, o que as duas europeias poderiam achar do interior da Índia, uma região formada por gente simples e com uma cultura particular, hein? Segundo as ordens de Mammachi e de Chacko, nada poderia sair errado durante a estada de Sophie Mol e Margaret Kochamma. As estrangeiras precisavam ter uma ótima impressão da família do ex-marido e do interior da Índia.


O problema é que as coisas saíram erradas. E muito erradas, por sinal. Em um acidente mal explicado à beira do rio que cortava a propriedade da família de Chacko, Sophie Mol morreu afogada. Não é preciso dizer que a fatalidade trouxe desespero a todos os integrantes do clã. Entre as sequelas deixadas, a morte da prima mexeu para sempre com a vida de Rahel e Estha, os protagonistas dessa história. Os gêmeos foram separados pela mãe – Ammu enviou Estha para morar com o pai em Nova Delhi, enquanto permaneceu na companhia apenas da filha.


Em um corte temporal brusco, a narrativa segue para junho de 1993. Depois de 24 anos do acidente fatal da menina inglesa, reencontramos Rahel e Estha, agora com 31 anos, em Ayemenem. A dupla de protagonistas não é mais as crianças sonhadoras, divertidas e carinhosas de outrora. Eles transformaram-se em adultos solitários, traumatizados e melancólicos.


Depois de uma temporada vivida nos Estados Unidos, Rahel retornou para a fazenda da família na Índia. A avó cega e a mãe já tinham morrido. O tio Chacko também não vivia mais por ali. Ele partira há alguns anos para o Canadá, onde tentou reconstruir a vida depois da perda da filha e do retorno da ex-mulher à Inglaterra. Assim, a propriedade em Ayemenem era comandada pela tia Baby Kochamma, uma mulher obesa e má que nunca gostou de Ammu e dos filhos da sobrinha.

Livro O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Por isso, Rahel é recebida com tanta indiferença. Até mesmo o irmão dela, Estha, que fora de-devolvido (expressão do livro) há pouco tempo pelo pai quando este se mudou para a Austrália, está muito mudado e frio. O rapaz não fala (ele deixou de se comunicar verbalmente depois que foi mandado para Nova Delhi) e se comporta de um jeito muito estranho desde que voltou a morar junto com os parentes maternos. A antiga união e a natural camaradagem dos gêmeos não existem mais depois de duas décadas de distanciamento.


Entretanto, os mistérios que permeiam essa trama persistem nas mentes dos leitores. Afinal, o que efetivamente ocorreu no dia da morte de Sophie Mol que afetou tão diretamente todos os integrantes da família (algo que os primeiros capítulos não detalham); e quais as consequências práticas do acidente da menina inglesa para cada um dos gêmeos nos anos seguintes (os traumas atuais da dupla de protagonistas não estão tão claros assim).


“O Deus das Pequenas Coisas” possui 360 páginas. O romance está dividido em 21 capítulos. A edição brasileira ainda inclui um glossário com os principais termos em hindi, malayalam, tâmil, urdu e turco utilizados por Arundhati Roy (saiba que você irá utilizá-lo algumas vezes). Devo ter levado cerca de onze ou doze horas para concluir essa leitura na semana passada. Precisei de dois dias para ir da primeira à última página dessa obra – as manhãs e as tardes de quinta e sexta-feira foram dedicadas quase integralmente a esse trabalho.


O primeiro elemento da narrativa que chama nossa atenção nessa publicação de Roy é o suspense. Com uma trama muito bem construída, a autora indiana já apresenta nos primeiros capítulos o drama dos irmãos gêmeos. Assim, sabemos logo de cara não apenas os acontecimentos tristes do Natal de 1969 (o falecimento de Sophie Mol) como as consequências futuras dessa fatalidade (a depressão e a morte precoce de Ammu, a separação de Rahel e Esthappen por muitas décadas, o exílio de Chacko no Canadá, a falência da fábrica Paraíso, Picles & Polpas) e alguns fatos contemporâneos (a morte de Mammachi e o comando da propriedade da família por Baby Kochamma).

Livro O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Aí um leitor mais ansioso pode perguntar: qual a graça de já relatar nas primeiras páginas tudo o que vai acontecer dali em diante?! A brincadeira está justamente aí. Arundhati Roy inverte a ordem natural das narrativas ao apresentar 99% da sua história logo no início. O que ela oculta (o tal 1% restante) é suficiente para prender a atenção dos leitores nas três centenas de páginas seguintes. A romancista indiana consegue essa façanha ao começar seu livro sumarizando a narrativa para depois encená-la. Acompanhar esse efeito (quase como ir puxando fio a fio um novelo de lã totalmente embolado) é incrível. Saiba que não faltam surpresas e reviravoltas nos capítulos finais do romance (ao melhor estilo dos thrillers dramáticos ou dos romances policiais).


“O Deus das Pequenas Coisas” é uma prosa com fortes componentes poéticos. Caminhar por suas páginas é mergulhar em uma experiência literária que potencializa principalmente a sinestesia, o poder conotativo/interpretativo e a imaginação. Além disso, acabamos inseridos na realidade e no universo infantil dos protagonistas. As briguinhas, as brincadeiras, os ciúmes, a união incondicional, as diferenças, as picuinhas e as sensibilidades afloradas dos irmãos gêmeos estão presentes em cada linha do livro, principalmente nas cenas ocorridas em 1969 (quando Rahel e Estha têm apenas sete anos). É como se o narrador do romance comprasse a psique da dupla de protagonistas e reproduzisse página a página o universo infantil dos gêmeos. Isso fica evidente no uso dos apelidos pejorativos (algo tipicamente de irmãos), na imaginação fértil, no universo muitas vezes onírico da meninice e no retrato particular da realidade das crianças.


Portanto, quanto mais você gostar de poesia e de tramas com elementos simbólicos, maiores serão as chances de você curtir esse romance. E essas características já começam pelo título. “O Deus das Pequenas Coisas” é um nome simplesmente espetacular. Ele junta a grandeza e a força divina (Deus é uma figura que é aparentemente maior do que tudo e todos em boa parte das culturas) às coisas banais do dia a dia (pequenezas que estão presentes na rotina de todos os mortais). Para completar, esse termo ainda faz menção a uma característica fundamental do Hinduísmo – ela é uma religião politeísta. Durante essa leitura, você descobrirá novos significados para “O Deus das Pequenas Coisas”. As explicações começam na página 27 e avançam até o final, com destaque especial para o capítulo 11.

Livro O Deus das Pequenas Coisas de Arundhati Roy

Simultaneamente, acompanhamos nessa obra uma intrincada experimentação linguística. É verdade que esse recurso só é possível pela leitura do texto original de “O Deus das Pequenas Coisas” que mistura inglês a outros idiomas locais (hindi, malayalam, tâmil, urdu e turco). Por mais que o tradutor brasileiro se esmere em reproduzir essa avalanche linguística para seus conterrâneos (e José Rubens Siqueira foi espetacular nesse sentido!), ainda sim se perde naturalmente com a tradução para o nosso idioma. O legal foi notar a preocupação do tradutor em permitir parte dessa experiência aos leitores poliglotas – daí os termos em inglês dividirem espaço com a tradução ao português e a importância do glossário no final da obra.


Em “O Deus das Pequenas Coisas”, temos o humor leve e inteligente sendo mesclado o tempo inteiro com a ambientação de extrema violência. O efeito contraditório da beleza do universo alegre e infantil versus a brutalidade da vida concreta dos adultos é uma das marcas dessa narrativa. A Índia retratada por Arundhati Roy é um lugar muitíssimo perigoso (a violência acontece dentro de casa, no trabalho, na rua, na delegacia, na cidade, no campo...), de grande instabilidade política (a Guerra Fria só potencializou as já gritantes diferenças ideológicas dos indianos), injusto socialmente (a estratificação por castas inibe a mobilidade social e escancara os preconceitos), bastante pobre (o que evidencia a gritante desigualdade social) e com uma cultura por vezes retrógrada (principalmente no interior, onde o machismo, o feminicídio, o patriarcalismo, a violência policial, a corrupção e a opressão dão o tom).


Há também alguns elementos fantásticos nessa história de Roy. Eles surgem logo nas primeiras páginas de “O Deus das Pequenas Coisas”. São exemplos da fantasia desse romance os movimentos sobrenaturais de Sophie Mol em seu enterro (apenas Rahel vê o comportamento do espírito da prima recém-falecida) e as sensações premonitórias e/ou intuitivas dos irmãos gêmeos (eles vivenciam o que o outro passou mesmo não estando presente em cena). O componente fantástico é, portanto, sutil e complementar à trama, não sendo a parte essencial do conflito do romance.


Como um bom exemplar da literatura contemporânea, “O Deus das Pequenas Coisas” possui forte intertextualidade literária, cinematográfica e televisiva. No caso dos dois primeiros tipos de referência intertextual, o livro de Roy faz menção principalmente à cultura norte-americana e inglesa. Já quando o assunto é televisão, o diálogo intertextual é com produções locais (algo que o leitor estrangeiro não tem tanta bagagem para entender as citações).

Arundhati Roy

Outro aspecto brilhante desse trabalho ficcional de Arundhati Roy está no retrato da realidade indiana. A romancista coloca o dedo em muitas feridas sociais, culturais, políticas e econômicas de sua nação. Não à toa, ela foi fortemente criticada por políticos, jornalistas e artistas locais. Em “O Deus das Pequenas Coisas”, acompanhamos a exuberante paisagem da Índia, as particularidades do clima de Monções (metade do ano com chuva e a outra metade do ano sem chuva nenhuma), a crueldade do sistema de castas (tocáveis e intocáveis), o machismo da sociedade tradicional indiana, a importância da economia do campo, os choques religiosos (hindus versus cristãos sírios), a atuação dos movimentos marxistas no final da década de 1960, os governos corruptos do país (nas esferas federal, estadual e municipal), a violência policial, a importância social e religiosa dos rios, os espetáculos cênico-dançantes (como o Kuthambalam), a gastronomia local e a valorização de tudo aquilo que vem do exterior, principalmente dos Estados Unidos e da Europa (visão e comportamento tipicamente colonialista dos indianos).


O narrador em terceira pessoa é do tipo onipresente e onisciente. Ele parece, no início, próximo/colado aos irmãos gêmeos. Porém, à medida que os capítulos vão evoluindo, ele não se furta em largá-los para acompanhar as outras personagens da trama (em outros lugares e em outras épocas). Sinceramente, fiquei um pouco incomodado com isso. Esse possível problema de foco narrativo (uso a palavra possível porque não sei o quanto ele é realmente um erro ou se trata de uma invencionice da autora) foi o único aspecto mais controverso de “O Deus das Pequenas Coisas” do ponto de vista narrativo.


Em suma, temos aqui uma obra-prima da literatura indiana e da literatura contemporânea em língua inglesa. Fiquei tão encantado com o texto ficcional de Arundhati Roy que já coloquei “O Mistério da Felicidade Absoluta” na minha lista de leitura dos próximos meses. Vamos ver se consigo analisar o segundo romance da autora indiana até o começo do ano que vem aqui na coluna Livros – Crítica Literária. Acho que os leitores do Bonas Histórias merecem saber se a nova narrativa longa de Roy é tão boa quanto a primeira.


Não sei o porquê, mas tenho a intuição de que “O Mistério da Felicidade Absoluta” seja tão encantador quanto “O Deus das Pequenas Coisas”. Afinal, estamos falando de uma autora talentosa e que não tem pressa de apresentar suas criações ficcionais. Alguém que fica vinte anos para lançar seu segundo romance (imagine, nesse meio tempo, a pressão das editoras mundo à fora para o lançamento de um novo título de Arundhati Roy!) deve ter reservado uma nova experiência literária gratificante e surpreendente para seus leitores. Quando eu ler “O Mistério da Felicidade Absoluta”, prometo contar minhas impressões no blog.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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