• Ricardo Bonacorci

Livros: O Meu Pé de Laranja Lima - O best-seller de José Mauro de Vasconcelos


O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos

No último final de semana, li “O Meu Pé de Laranja Lima” (Melhoramentos), o romance mais famoso de José Mauro de Vasconcelos. Com fortes tintas autobiográficas, este livro retrata de maneira ora divertida ora dramática a infância de Zezé, um menino pobre do subúrbio carioca no final da década de 1920. Para escapar da realidade violenta, injusta, opressora e de enormes carências afetivas e materiais, o narrador-protagonista de apenas cinco anos mergulha em sua imaginação fértil. Assim, ele constrói um mundo novo, mais condizente com suas aspirações infantis. O resultado é uma obra-prima atemporal capaz de emocionar até mesmo os coraçõezinhos mais duros. Confesso que terminei esta leitura boquiaberto com o talento literário de Vasconcelos, um dos principais autores nacionais da segunda metade do século XX.


Best-seller desde o seu lançamento em 1968, “O Meu Pé de Laranja Lima” alcançou marcas invejáveis no Brasil e no exterior. Ao longo de mais de 150 edições, o romance histórico de José Mauro de Vasconcelos vendeu mais de dois milhões de exemplares em nosso país. Traduzido para vários idiomas, ele foi lançado em dezenas de países, alcançando posição de destaque em alguns mercados internacionais entre os anos 1970 e 1980. O sucesso de “O Meu Pé de Laranja Lima” não ficou restrito ao universo literário. Seu drama tragicômico foi adaptado para a televisão (três telenovelas), para o cinema (dois filmes), para os quadrinhos (uma versão foi publicada na Coreia do Sul) e para o teatro (uma peça profissional e várias de companhias amadoras). Não à toa, esta obra de Vasconcelos se tornou um clássico da literatura brasileira.


O êxito comercial de “O Meu Pé de Laranja Lima” catapultou a carreira de escritor de José Mauro de Vasconcelos para patamares até então inatingíveis. Ele se tornou um dos autores mais populares do Brasil entre o final dos anos 1960 e a metade da década de 1980. Ao lado de Jorge Amado e Érico Veríssimo, Vasconcelos se transformou em um dos principais best-sellers brasileiros. O status de autor de primeira grandeza da literatura nacional permitiu que José Mauro pudesse viver, a partir daí, exclusivamente do ofício da escrita, um luxo para poucos artistas até hoje no Brasil.

José Mauro de Vasconcelos

Nascido em Bangu, bairro do subúrbio carioca, em fevereiro de 1920, José Mauro de Vasconcelos teve uma infância pobre. Seus pais eram migrantes nordestinos que foram tentar a sorte na então Capital Federal. Por causa do pouco dinheiro (e do grande número de filhos), a família precisou enviar o menino para morar em Natal, no Rio Grande do Norte, junto com parentes de mais posses. Foi no Nordeste brasileiro que o futuro escritor passou boa parte da infância e toda a adolescência. Ao retornar já adulto para o Rio de Janeiro, José Mauro teve inúmeras profissões. Além de romancista, ele foi jornalista, radialista, pintor, modelo, ator, instrutor de boxe, garçom, sertanista, professor primário, pescador e carregador de bananas. Apaixonado por viajar pelo Brasil e por conhecer as particularidades regionais dos seus compatriotas, o escritor adorava, à la Jack Kerouac, passar longas temporadas na estrada.


A estreia de José Mauro de Vasconcelos na ficção aconteceu, em 1942, com a publicação do romance “Banana Brava” (Melhoramentos). Apesar de algumas avaliações positivas da imprensa na época, a obra que retratava o cotidiano de garimpeiros em Goiás não teve grande êxito de público. O primeiro sucesso do autor ocorreria somente vinte anos depois de seu debute literário. “Rosinha, Minha Canoa” (Melhoramentos), seu sétimo romance, conquistou os leitores com uma trama entrecortada e emocionante de um canoeiro apaixonado pela floresta. A década de 1960 marcaria justamente a fase de maturidade artística do autor. Em 1967, Vasconcelos conquistou seu maior prêmio literário, o Jabuti de melhor romance com “Confissões de Frei Abóbora” (Melhoramentos). Foi naquele ano mesmo que o autor concluiu seu maior sucesso, “O Meu Pé de Laranja Lima”, publicado em 1968.


Curiosamente, o romance mais famoso de José Mauro de Vasconcelos foi escrito em apenas 12 dias (não falei que ele tinha um quê de Jack Kerouac?!). O autor carioca explicava a maneira célere de produzir suas tramas ao apontar um detalhe simples: ele só começava a colocar no papel uma história depois que ela estivesse inteiramente em sua cabeça. Por ser um livro autobiográfico, é de se imaginar que o enredo de “O Meu Pé de Laranja Lima” já estivesse na mente do escritor quando ele começou a produzi-lo.


Empolgado com o sucesso de público, Vasconcelos lançou, seis anos depois, a continuação de “O Meu Pé de Laranja Lima”. “Vamos Aquecer o Sol” (Melhoramentos), publicado em 1974, apresentava o mesmo narrador-protagonista da obra anterior. A diferença é que no novo título Zezé era um pré-adolescente. Já morando no Rio Grande do Norte com o padrinho rico, o rapaz precisava encarar novos dramas, mesmo tendo deixado a falta crônica de dinheiro para trás.

Livro O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos

Há também um livro anterior a “O Meu Pé de Laranja Lima” que é apontado como integrante da trilogia do menino Zezé. Trata-se de “Doidão” (Melhoramentos), novela de 1963. Nessa narrativa, a personagem principal tinha 19 anos e cursava a faculdade de Medicina. Contudo, a vida estável e rotineira não parecia seduzir o jovem protagonista. Com uma estética totalmente diferente de “O Meu Pé de Laranja Lima” e de “Vamos Aquecer o Sol”, “Doidão” pode frustrar alguns leitores que esperam encontrar nessa narrativa uma continuação estilística da obra mais conhecida de José Mauro de Vasconcelos.


Quando foi lançado, acredite se quiser, “O Meu Pé de Laranja Lima” não foi bem aceito pela crítica literária brasileira. Enquanto o público leitor corria para as livrarias para adquirir o livro, os especialistas na arte ficcional torciam o nariz para o estilo da escrita de Vasconcelos. Para eles, o autor carioca apresentava textos muito simples, personagens popularescos, narrativas nada inovadoras, linguagem regional e enredos exageradamente emotivos. Visto pela perspectiva contemporânea, esse tipo de crítica mostrou-se injusto. A má avaliação inicial foi decorrente essencialmente dos preconceitos de quem não conseguia aceitar com bons olhos o sucesso de um autor popular (algo que acontece até hoje em nosso país). Prova disso é que o que era apontado como os principais defeitos da literatura de José Mauro de Vasconcelos, é atualmente visto como suas principais qualidades narrativas. É incrível notar como o ponto de vista da crítica literária pode mudar tanto ao longo do tempo. Neste caso especificamente, a mudança foi extremamente positiva, pois reparou uma grande injustiça quanto ao talento de um dos maiores escritores nacionais do século XX.


O enredo de “O Meu Pé de Laranja Lima” se passa em Bangu, mais ou menos no finalzinho dos anos 1920. A trama é narrada em primeira pessoa por José de Vasconcelos. Já adulto, com 48 anos, Zezé, como o narrador-protagonista sempre foi chamado por todos os amigos e parentes, rememora as peraltices de sua infância. Aos cinco anos de idade, ele era um menino extremamente inteligente, sonhador e arruaceiro, capaz de aprontar as maiores traquinagens. Não à toa, estava sempre apanhando e de castigo. Como é possível notar logo de cara, a personagem principal do romance é homônima ao autor, o que escancara o caráter autobiográfico desta narrativa de José Mauro de Vasconcelos.


Zezé é o oitavo dos nove filhos de Paulo e Estefânia. Enquanto o pai encara o desemprego e a depressão por não conseguir arranjar trabalho, a mãe precisa se virar com as longas jornadas em uma fábrica têxtil. As crianças mais velhas do casal não podem ainda ajudar no orçamento familiar pois nenhuma delas é maior de idade. Dos filhos de Paulo e Estefânia, dois (Aracy e Jurandyr) morreram ainda pequenos, antes do protagonista nascer, e uma irmã foi enviada para morar no Nordeste. Dessa forma, sobraram seis crianças na casa dos Vasconcelos: Jandira (a primogênita durona e namoradeira), Glória (a mais carinhosa e compreensiva), Antônio (o trambiqueiro e covarde), Lalá (que era quem deveria cuidar de Zezé, mas é quem menos aparece na narrativa) e Luís (o caçulinha), além do próprio Zezé.

Livro O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos

Ainda muito pequeno, Zezé tira de letra a realidade difícil e injusta de sua vida. Para superar os dissabores do cotidiano, o menino se apoia na fértil imaginação infantil, na inteligência precoce, nas traquinagens de moleque levado e em boas amizades (tanto reais quanto fictícias). Em um relato sincero e emocionante, o garotinho de um carisma inato fala: do sonho em ser poeta e ator de cinema; das brincadeiras de cowboy no quintal de casa; da admiração pela meiguice e beleza do irmãozinho caçula; das artes que apronta para desespero dos adultos; das surras cruéis que leva por conta de suas peraltices; da paixão pelo cinema e pela música; das conversas intrigantes na casa do tio Edmundo; do gosto por ler, habilidade que aprendeu sozinho; e do fato de ser o melhor aluno da classe, mesmo não tendo idade para frequentar a escola (mentiu na hora da matrícula dizendo ser mais velho).


O que chama mais a atenção em “O Meu Pé de Laranja Lima” é o tipo de amizade que Zezé faz. A primeira é com um pé de laranja lima que vive no quintal de sua nova casa. O menino gosta de conversar e de brincar com a pequena laranjeira. É para a árvore que ele conta suas angústias, suas aspirações e seus segredos mais íntimos. Depois, o guri faz amizade com Ariovaldo, um cantor e vendedor ambulante de música. Zezé adora acompanhar o amigo pelos vagões de trem e pelas ruas da cidade. A dupla vende sucessos nacionais enquanto solta a voz. Eles passam o dia interpretando as canções com bastante empolgação. E, por fim, o protagonista faz amizade com Manuel Valadares, um português velho, rico e solitário. A dupla se torna inseparável. Eles trocam confidências e carinhos genuínos. Portuga, como é chamado por Zezé, se torna uma espécie de avô zeloso, atuante e generoso do garoto pobre.


Mesmo com a esperteza imensurável, com as travessuras inconsequentes e com a imaginação ilimitada típica da infância, Zezé aprenderá muito cedo que a vida não é feita apenas de alegrias e de brincadeiras. Ela também esconde fatalidades, injustiças e perdas irreparáveis. É sofrendo as amarguras inerentes da existência humana que o menino amadurecerá precocemente e levará os leitores, após incontidas risadas, a derramar uma enxurrada de lágrimas.


“O Meu Pé de Laranja Lima” possui 232 páginas, que estão divididas em duas partes: “No Natal Às Vezes Nasce Menino Lobo” e “Foi Quando Apareceu o Menino Deus em Toda a sua Tristeza”. A primeira seção tem cinco capítulos e a segunda tem nove. O livro que li neste sábado é uma edição comemorativa de 2018 da Editora Melhoramentos. Esta versão celebra os 50 anos da primeira publicação da obra. Por isso, esta edição traz as ilustrações originais de Jayme Cortez, exatamente como foram dispostas no livro de 1968. Inclusive a arte da capa é sua (de traços belíssimos). Além dos 14 capítulos de José Mauro de Vasconcelos, nesta nova versão de “O Meu Pé de Laranja Lima” temos um posfácio de Luiz Antonio Aguiar, escritor, roteirista de quadrinhos e crítico literário. Em seu texto, Aguiar comenta a importância deste título e dos romances de Vasconcelos para a literatura brasileira. Li esta obra em apenas um dia. Comecei a leitura de manhãzinha e a concluí no começo da noite. Devo ter levado em torno de seis horas para percorrer todas as suas páginas.

Livro O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos

O primeiro aspecto a ser destacado em “O Meu Pé de Laranja Lima” é o retrato esplêndido da infância. Zezé é um menino encantador: possui imaginação fértil, mas não perde jamais a doçura. Ao mesmo tempo em que é arteiro (deixa os adultos de cabelos em pé na maior parte das vezes), também é inteligente e consciencioso com a dura realidade em que está inserido. A pobreza de sua família e as injustiças que assiste o fazem amadurecer rapidamente. Se em alguns momentos ele não abre mão de sua criancice e de suas peraltices, em outros momentos precisará se portar como um adulto para superar os obstáculos.


Por causa desta dicotomia permanente (inocência infantil versus dureza da vida real), este livro adquire tons completamente opostos: o drama e a comédia. Há instantes em que caímos no choro (confesso que durante esta leitura derramei lágrimas) e em outros caímos na gargalhada. José Mauro de Vasconcelos é excelente para produzir narrativas tragicômicas. O mais legal é notar esta variação de capítulo a capítulo ou até mesmo dentro de um determinado capítulo.


Por exemplo, no capítulo 2, “Um Certo Pé de Laranja Lima”, nos divertimos com as estripulias do menino brincando com seu irmãozinho no quintal de casa e aprontando com os vizinhos. Depois, Zezé visita a nova casa e conhece seu novo amiguinho, a tal laranjeira com quem ele passa a conversar. Esta parte do livro é ancorada nos sonhos e no universo lúdico da infância. Já no capítulo seguinte, “Os Dedos Magros da Pobreza”, acompanhamos o drama do protagonista, que passa um Natal triste ao lado de seus familiares. Na residência dos Vasconcelos, não há presentes e a comida para a ceia é limitada. Por isso, não é de se admirar que os desentendimentos e as frustrações se propaguem naquele lar. O tom do texto agora é de amargura, desespero e indignação. Ao lado de “Ciranda de Pedra” (Companhia das Letras), romance de Lygia Fagundes Telles, esta é uma das descrições natalinas mais tristes da literatura brasileira.


Essa variação entre graça e drama também acontece de uma página para outra do livro. As cenas mais cômicas são relativas às travessuras do menino. Como consequência, ele está sempre apanhando. As surras de Zezé são constantes e homéricas. Há dias em que ele leva mais de uma sova. Todo mundo parece espancá-lo: o pai, a mãe, os irmãos, a tia, o tio, os vizinhos, os desconhecidos na rua, os meninos mais velhos da escola... Mesmo sabendo que irá apanhar, o protagonista de “O Meu Pé de Laranja Lima” continua com suas traquinagens independentemente das consequências.

Livro O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos

Não é preciso dizer que Zezé é uma figura redonda. O elemento mais interessante em sua composição como personagem ficcional está na carência emotiva do garoto. Por mais amigos que tenha, por mais pessoas queridas que estejam a sua volta e por mais alegres que sejam seus dias, ainda sim, ele recente do genuíno carinho materno/paterno e, por que não, de uma verdadeira amizade (sem qualquer interesse). Ou seja, por baixo da felicidade e da empolgação mirim, há uma pontinha de melancolia em Zezé, fruto das frustações e da falta de afeto de sua família. No início, o menino consegue suprir essas carências com a figura do tio Edmundo. Na sequência da trama, o pé de laranja lima assumirá o papel de amigo e confidente de Zezé enquanto a figura de pai/mãe será assumida por Manuel Valadares. É emocionante acompanhar o estabelecimento destas novas amizades do narrador de “O Meu Pé de Laranja Lima”.


Neste sentido, repare na relação do pequeno protagonista com o Portuga. Apesar da riqueza material de Manuel Valadares, o que aproxima o garoto do senhor mais velho é o carinho e a atenção demonstrados pelo português. A amizade deles é construída por uma bonita troca emocional. Enquanto o garotinho mostra ao solitário viúvo o quanto a vida ainda pode ser alegre, fascinante e onírica, o homem mais velho oferta um carinho e um companheirismo raros na rotina de Zezé.


Como romance histórico, “O Meu Pé de Laranja Lima” é sublime. Vários acontecimentos marcantes do final dos anos 1920 permeiam a narrativa principal do livro, conferindo ainda mais colorido à trama. Acertadamente, José Mauro de Vasconcelos não se preocupa em explicar cada uma das passagens históricas do romance. Ele simplesmente as joga no meio de sua narrativa. Assim, assistimos ao efeito do crash econômico de 1929 (motivo pelo qual o pai de Zezé foi demitido), à primeira fase da industrialização no Brasil (época em que longas jornadas eram corriqueiras tanto para os homens e as mulheres quanto para as crianças), ao auge do cinema mudo (principalmente os filmes de cowboy) e ao início da Era de Ouro do Rádio (e o surgimento dos primeiros músicos com popularidade nacional). Os elementos culturais são inseridos em “O Meu Pé de Laranja Lima” de um jeito tão interessante que a narrativa de Vasconcelos adquire uma pegada pop (um recurso inusitado para a época e visto, hoje em dia, como moderno).


Não dá para falar neste livro sem apontar as fortes críticas sociais contidas em seu texto. José Mauro de Vasconcelos sempre foi um autor extremamente engajado e um dos seus principais méritos foi jogar luz aos problemas nacionais. Em “O Meu Pé de Laranja Lima”, assistimos aos efeitos corrosivos da pobreza, ao racismo, à violência urbana, ao machismo, à exploração da mão de obra pela indústria, à gritante desigualdade social, à migração interna e ao crescimento caótico das grandes cidades brasileiras. Para completar, ainda temos uma forte crítica religiosa. Onde estariam Deus e Jesus Cristo que não olhavam para as tragédias rotineiras no subúrbio carioca?! A impressão que o narrador tem é que os preconceitos que os pobres sofrem no dia a dia pelos humanos também se estendem para as forças divinas. Estes parecem se preocupar em ajudar apenas os mais ricos. Do ponto de vista de Zezé, os mais humildes são vítimas tanto dos homens quanto do Deus cristão.

Livro O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos

Por falar em violência, o que dizer, então, da violência infantil, hein?! Zezé é vítima da cultura da época em que espancar a criança era a maneira correta de educá-la. Quanto mais apanhasse, mais ela aprenderia a se comportar. Aos olhos contemporâneos, essa prática parece cruel e cavernosa. As cenas do menino sendo surrado são fortes e mexem com quem as lê, apesar do tom meio jocoso com que o autor traz essa parte de sua biografia. Impossível ficarmos indiferentes a tanta violência (lembremos que Zezé só tinha cinco anos e era um garotinho de físico mirrado!).


Sei que já falei sobre isso, mas preciso destacar mais uma vez a beleza das ilustrações de Jayme Cortez. Os desenhos que abrem cada um dos capítulos do livro, assim como a imagem estampada na capa da publicação, são maravilhosos. Eles remetem sutilmente à inocência infantil (base da narrativa de José Mauro de Vasconcelos) e mantêm os traços elegantes que caracterizaram o trabalho do ilustrador. Trata-se de uma excelente combinação, capaz de maravilhar os olhos dos leitores mais exigentes.


O único ponto negativo desta edição de “O Meu Pé de Laranja Lima” está em suas notas de rodapé. A maioria delas é desnecessária para o leitor brasileiro. Durante a leitura, cheguei a pensar que o editor estava me chamando de burro. Acredite se quiser, mas há a explicação sobre o significado de “bondinho do Pão de Açúcar”, “folhinha de Natal”, “jogo do Bicho”, “papagaio” (no contexto de pipa), “Missa do Galo”, “balão”, entre outros termos óbvios. Visivelmente, esses esclarecimentos foram extraídos das traduções do livro para idiomas estrangeiros. Nas edições gringas, tudo bem ter essa contextualização. Porém, incluí-las na versão nacional, me soou como uma escolha equivocada. Para quê? Achei desnecessárias quase todas as notas de rodapé.


“O Meu Pé de Laranja Lima” é um romance histórico incrível! Sua narrativa é contagiante e Zezé é uma das personagens mais carismáticas da literatura brasileira. Sem dúvida nenhuma, este livro ganhou um lugar de destaque na estante da minha biblioteca. Acredito que daqui a vários anos, ainda lembrarei com saudosismo da bela trama produzida por José Mauro de Vasconcelos.

José Mauro de Vasconcelos

Atualmente, esta obra é classificada como um título infantojuvenil (por isso, as notas de rodapés talvez sejam tão óbvias para os adultos, mas nem tanto para as crianças). Sinceramente, tenho minhas dúvidas quanto à sua categorização. Para mim, esta narrativa de Vasconcelos é um clássico para todas as idades. Não sei o porquê um adolescente ou um jovem poderiam aproveitar mais as aventuras de Zezé do que um adulto. Acho até que quanto maior for a idade do leitor, mais ele poderá degustar os nuances da tragicomédia do escritor carioca. Por isso, a minha discordância quanto a ver “O Meu Pé de Laranja Lima” como um exemplar da literatura infantojuvenil. Não é porque a história é sobre a infância do protagonista que necessariamente o público do livro também deva ser (um erro que se propaga com frequência em nosso país e no exterior).


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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