Livros: Talvez Você Deva Conversar Com Alguém – A polêmica autobiografia de Lori Gottlieb
- Ricardo Bonacorci

- há 2 dias
- 18 min de leitura
Publicada originalmente em abril de 2019 e lançada no Brasil em abril de 2020, esta obra não ficcional da jornalista e terapeuta norte-americana entrou na lista dos títulos mais vendidos do New York Times ao apresentar o universo da psicoterapia com franqueza, bom humor, profundidade e, por que não, boas doses de polêmica.

Hoje vou comentar um livro que li no início de dezembro e que gostei demais. Gostei tanto que o resultado prático desta leitura é, voilà, uma nova matéria do Bonas Histórias. Conforme escancarado no título e na imagem principal deste post, o que estraga qualquer tentativa de mistério ou suspense das linhas introdutórias da minha análise, a obra em questão é “Talvez Você Deva Conversar com Alguém – Uma Terapeuta, O Terapeuta Dela e A Vida Louca de Todos Nós” (Vestígio), o best-seller internacional da jornalista e psicoterapeuta norte-americana Lori Gottlieb. Para ser mais preciso em minhas palavras iniciais, diria que fiquei encantado com esta biografia sincera, inteligentíssima e inovadora. Como é bom mergulharmos em trabalhos editoriais que realmente valem a experiência de leitura, apesar das polêmicas geradas. E põe polêmica aí, senhoras e senhores!
Depois de figurar, quase que instantaneamente ao seu lançamento, na lista dos mais vendidos do New York Times, este livro foi publicado no Brasil um ano mais tarde. A tradução para nosso idioma foi feita por Elisa Nazarian. E por aqui, “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” também despontou como um dos títulos mais adquiridos pelo público nacional. Nada mal se pensarmos que se trata de uma autobiografia que se propõe a revelar os mecanismos das psicoterapias e o bem-estar gerado pelas conversas dos pacientes com seus psicólogos. Convenhamos que este assunto não é, principalmente em nosso país, dos mais populares, né? Diferentemente do que ocorre com os moradores de Buenos Aires (meu outro lar!), paulistanos, cariocas, belo-horizontinos, porto-alegrenses, curitibanos, recifenses, soteropolitanos, calangos e manauaras, por exemplo, não têm a psicoterapia como prática rotineira. Acredito até que muitos de meus conterrâneos ainda a vejam com certo grau de preconceito, o que é uma pena.
Antes de me aprofundar nos pormenores deste best-seller, preciso explicar aos leitores do blog o quão excepcional foram as últimas análises da coluna Livros – Crítica Literária. Afinal, em uma seção voltada prioritariamente para o debate das melhores produções ficcionais, tivemos recentemente uma overdose de publicações não ficcionais. Além de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, nosso tema de hoje, discutimos, no mês retrasado, “Se A Vida Tivesse Receita” (EV Publicações), autobiografia de Silvia Leite, a inventora da torta holandesa e de várias outras sobremesas famosas da confeitaria nacional. O que estaria acontecendo com o tradicional espaço de análises das narrativas literárias, hein?! Abro uma dupla de parênteses imaginários em meu texto justamente para esclarecer essa inquietação (talvez mais minha do que da meia dúzia de leitores que me acompanham sazonalmente).

Começo minha explicação dizendo que, no vasto mundo do mercado editorial, sou especialista apenas em Ficção Literária. E ponto final. Repare na redundância proposital da união do “apenas” com a explicitação, logo a seguir, do “ponto final”. Por mais que me contratem como editor, consultor, revisor e ghostwriter em outras áreas (Negócios, Não Ficção e Biografias, principalmente), sempre deixo claro (com a mesma ênfase colocada aqui) que só entendo (e olhe lá!) do que se passa nas prateleiras e nas páginas dos livros ficcionais. Adoraria ser um profissional mais versátil e completo? Claro que sim. Contudo, reconheço minhas limitações e incompletudes. Como diria o título do novo longa-metragem de Eva Victor, Sorry, Baby!
Isso quer dizer que não leio nada fora das estantes da ficção? Evidentemente que não! Como leitor recreativo, me considero bem mais eclético, profundo e sagaz do que como profissional da indústria editorial. Meu hobby é devorar livros de quase todos os assuntos. Só não aprecio, tenho que reconhecer que por puro preconceito, títulos religiosos e de autoajuda. Eca! O correto seria dizer que nutro enorme ojeriza deles. Fujo de tais temas como o Diabo foge da cruz. Ou como o primo pobre que corre na direção contrária à fortuna e à vida abastada. Pensando melhor agora, talvez esse hábito de leitura explique muita coisa na minha vidinha tão caótica, pecadora e pouquíssimo farta em recursos monetários.
Mas o porquê estou derramando essa ladainha antes de começar a falar de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, o livro de Lori Gottlieb que é o tema central desse post do Bonas Histórias? Aí que está o X da questão, senhoras e senhores. No segundo semestre de 2025, os três títulos que mais gostei de ter conhecido foram obras não ficcionais. Confesso que há muito tempo isso não se passava comigo. Tanto é que comentei essa excepcionalidade na matéria sobre as melhores leituras do último semestre. Não sendo especialista nessa área, poderia eu comentar tais livros com a mesma profundidade dos romances, novelas, coletâneas de contos, coleções de crônicas, histórias infantojuvenis e narrativas infantis? Conseguiria, ao fazer análises fora do campo ficcional, manter a qualidade já conhecida da coluna Livros – Crítica Literária?
Minha resposta inicial foi um retumbante e sonoro duplo “NÃO”. Entretanto, pensei melhor (nada como o fim do ano para repensarmos velhas crenças, né?) e decidi que ainda assim faria posts de pelo menos duas das obras que mais gostei na metade final de 2025. O importante é que os leitores do blog entendam o tom incomum de minhas análises. Passado esse momento de exceção, sei que voltarei a concentrar a atenção na ficção. E é bom também todos saberem que as análises de “Se A Vida Tivesse Receita” e “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” foram feitas com meus olhos de entusiasta e não de profissional. Infelizmente, não entendo como gostaria dos meandros das narrativas não ficcionais. Espero que os leitores me perdoem por essa falha.

Feita essa explicação (ou seria desabafo?), podemos entrar propriamente na parte do texto sobre o livro em questão. Ufa. Até que enfim acabou a enrolação. Peguei “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” para ler meio que por acaso no comecinho do mês passado. De volta à São Paulo depois de dois anos e meio morando em Mi Buenos Aires Querido, me alojei provisoriamente no apartamento de minha irmã em Perdizes. De bom grado, Marcelinha fez do escritório/biblioteca dela o meu quartinho. E, no final de tarde da primeira sexta-feira de dezembro, enquanto Pescuitto puxava um soninho canino aos meus pés, procurei algo diferente para ler na prateleira. Foi aí que avistei o amarelão da capa desta obra de Lori Gottlieb ainda embrulhado no plástico. Hermanita comprou o livro há algum tempo e não teve a preocupação sequer de desembrulhá-lo antes de colocar na estante residencial.
Li “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” de maneira despreocupada. Definitivamente, não queria algo para comentar no Bonas Histórias nem esperava uma experiência literária de altíssimo nível. Só desejava mesmo algo diferente para me entreter por algumas horas no quarto de visita (tá bom, na biblioteca) da irmãzinha. Juro que pensei de um jeitão muito preconceituoso: “como boa parte dos best-sellers recentes, esse título deve trazer uma enxurrada de obviedades e lugares-comuns”. Não poderia estar mais enganado.
Gostei tanto desta publicação que não desgrudei dela no final de semana inteiro. Em três dias, já a tinha devorado integralmente. O curioso é que, conversando com uma nova amiga no meio daquele final de semana (beijo, Tati), descobri que ela também o estava lendo. No sábado à noite, quando nos conhecemos, estávamos inclusive na mesmíssima parte de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. Aí nossa prosa engatou como milagre, embalada sobre o que estávamos achando desta leitura. Nada como, além das coincidências e aleatoriedades da vida, trocar ideias com mulheres bonitas, inteligentes e de gosto refinado!
Publicado nos Estados Unidos em abril de 2019 com o título original “Maybe You Should Talk to Someone” pela editora HarperCollins, esse livro rapidamente se tornou um enorme sucesso de vendas em seu país. Lori Gottlieb, californiana de 59 anos, é uma jornalista e psicoterapeuta acostumada a escrever sobre psicologia tanto nas livrarias quanto na mídia impressa e na internet. Além dos vários livros lançados, ela tem uma coluna semanal na revista The Atlantic em que dá conselhos aos leitores. Também é figura frequente nos artigos do New York Times, onde discorre sobre terapia, cultura e bem-estar. Alguns dos seus textos se transformaram em sensação entre os leitores do tradicional jornal nova-iorquino, daí sua popularidade junto ao público.

Preciso dizer que “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é um livro híbrido. Em parte, ele pode ser descrito como uma biografia convencional. Afinal, a autora relata boa parte dos seus desafios profissionais e os momentos mais delicados de sua trajetória pessoal. Por outro lado, esta obra pode ser descrita como uma coletânea de crônicas. Afinal, assistimos ao debate de variados temas: amor, separação conjugal, maternidade/paternidade, morte, luto, depressão, suicídio, alcoolismo, felicidade/infelicidade, reinvenção profissional, busca pelo perdão, entre outros assuntos.
E há, por supuesto, o conteúdo técnico da psicologia, trechos em que a escritora detalha o processo de cura emocional a partir da realização de sessões de psicoterapia. Inclusive, de forma surpreendente, Gottlieb exibe em detalhes os casos de quatro pacientes que ela atendia. Olha a polêmica aí, gente! Ela revela as dificuldades mais íntimas deles e como fizeram para superar os momentos mais difíceis. É bom dizer que a própria psicoterapeuta se coloca no papel de paciente, quando sua vida emocional desmorona e ela procura a ajuda de um psicólogo. Por isso mesmo, não é errado enxergar essa publicação com pitadas generosas de autoajuda.
Ou seja, esse é um livro que, entre vários assuntos discutidos e pessoas abordadas, trata do poder terapêutico da terapia. Juro que não sei se escrever “poder terapêutico da terapia” é uma expressão redundante. Se for, desculpe-me pela falha linguística. Por mais que saibamos da importância e da eficácia das sessões de psicoterapia, ainda assim é muito legal ver na prática os efeitos saudáveis das conversas sinceras e profundas dos pacientes com seus terapeutas. Ao assistir às curas acontecendo no texto de Lori Gottlieb, entendemos com mais intensidade o método de melhora mental e emocional da terapia. Incrível!
Confesso que a minha vontade, ao fechar as páginas de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, foi procurar um psicólogo para começar a me clinicar (algo que jamais passara por minha cacholinha pra lá de oca). Ou fazer um curso de psicologia para entender o poder da cura das boas conversas (outro pensamento inédito que tive). Vendo a dificuldade natural dos dois caminhos, preferi extravasar meus anseios produzindo esse post para a coluna Livros – Crítica Literária. Quem foi que disse que o fazer literário ou o exercício da crítica literária não têm também poderes terapêuticos, hein?!

Vamos agora detalhar com mais rigor a trama desta obra. Se estivéssemos com um título de ficção em mãos, diria simplesmente que entraríamos na análise de seu enredo. Porém, como “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é uma não ficção/autobiografia, tenho que dizer que iremos comentar, nos próximos parágrafos, sua narrativa. Então vamos nessa, pessoal!
Com 40 e poucos anos, Lori é uma psicoterapeuta de Los Angeles com a rotina aparentemente tranquila. A narradora tem seu consultório próprio onde atende a alguns pacientes. Ela possui um filho, Zach, de oito anos. O menino foi gerado de maneira independente (entenda como quiser a essa frase!). Lori namora há alguns anos um homem do tipo perfeito: carinhoso, inteligente, bonito, educado e compreensivo. O Namorado, como ele é chamado, tem duas filhas já adolescentes de um relacionamento anterior, que vivem com a mãe. O namoro de Lori vai muito bem obrigado. Eles até planejam se casar em breve. Os preparativos para o casório são, inclusive, pauta de conversas deles.
Isso até o mundo da autora simplesmente desabar. Numa noite qualquer, ela está na cama com o Namorado e o questiona sobre o motivo de ele estar tão calado e sério. O rapaz diz que não é nada, talvez cansaço do trabalho. A psicoterapeuta insiste. Ela o conhece muito bem. Há algo o incomodando para gerar aquela cara amarrada e pouco usual. Diante da insistência da amada, o Namorado desabafa: ele não quer mais viver com Lori nem deseja se casar. O problema não é exatamente ela e sim o filho dela. O Namorado não quer passar a próxima década tendo uma criança em casa. Ele já viveu esse período com as filhas e está aliviado por elas terem crescido. Diante desse diagnóstico, ele pega suas coisas e vai embora. É o fim abrupto de um relacionamento longo e que deveria durar muito mais.
Não é preciso dizer que Lori entra em profunda depressão. Ela não consegue parar de chorar e acha que jamais superará aquela traumática separação. Para complicar ainda mais sua vida, seu novo estado mental/emocional atrapalha em cheio seus planos profissionais. Há vários meses, a psicoterapeuta recebeu um polpudo adiantamento de uma editora para escrever um livro sobre felicidade, mas não produziu uma linha sequer. Contudo, a procrastinação deve acabar imediatamente. Pressionada pelos editores pelo longo atraso, ela tem que entregar uma parte da nova obra sim ou sim. Do contrário, a editora cancelará o contrato e exigirá a devolução da bolada. O problema é que Lori não tem mais a grana (gasta, evidentemente) e não se sente em condições para escrever algo com uma temática tão delicada. Desde quando uma depressiva que vive no fundo do poço poderá discorrer sobre a beleza da vida?

Por isso, a narradora procura a ajuda de um psicólogo. A partir de indicações de amigos e colegas de trabalho, ela se torna paciente de Wendell Bronson, um experiente e gabaritado profissional de Los Angeles. A autora apresenta aos leitores suas sessões com o psicólogo e mostra o quanto as conversas com ele a ajudam a superar o trauma do término do relacionamento com o Namorado. Ao mesmo tempo, Lori exibe alguns casos clínicos em que está trabalhando como terapeuta. Não nos esqueçamos que ela também é psicoterapeuta. Assim, a narradora discorre basicamente sobre quatro de seus pacientes mais marcantes: John, Julie, Rita e Charlotte.
John, um ator quarentão famoso, extremamente egocêntrico e frio com as pessoas, tem uma péssima relação com a família – esposa e duas filhas pequenas. Para ser franco, ele não tem uma interação satisfatória com ninguém. Do seu ponto de vista, todos a sua volta são idiotas, que só o atrapalham e o fazem perder tempo com babaquices. Não por acaso, vive enfezado seja em casa, seja no trabalho. Por mais que ame a mulher e as filhas, John não consegue se aproximar como deveria nem sabe demonstrar o que verdadeiramente sente por elas.
Julie, uma professora universitária de 35 anos, descobre ter câncer terminal. A descoberta médica acontece assim que retorna de lua de mel, o que estende o drama para seu marido. Assim, os planos de seguir com um casamento convencional e de ter filhos foram por água abaixo com um diagnóstico tão atroz. Agora a preocupação de Julie é se recuperar ou, conforme as notícias dos médicos pioram cada vez mais, simplesmente sobreviver o máximo possível.
Aos 69 anos, Rita é uma senhora amarga e depressiva, que sente raiva de tudo e de todos. De tão desanimada com a vida, ela até cogita se suicidar tão logo complete o septuagésimo aniversário. Depois de alguns casamentos fracassados, quase sempre relacionamentos tóxicos com homens violentos, e de não ter qualquer contato com os filhos adultos, que a odeiam profundamente, a paciente mais idosa de Lori vive sozinha. Sem interação com amigos, vizinhos, colegas ou parentes, Rita não vê mais sentido em seguir com seu cotidiano triste e enfadonho.

Por fim, Charlotte é a paciente mais jovem de Lori. Aos 25 anos, a moça tem graves problemas com alcoolismo, o que potencializa sua depressão e ansiedade. Ela é campeã em se envolver em péssimos relacionamentos amorosos. De maneira geral, ela dispensa os bons partidos e os rapazes que querem construir algo positivo ao lado dela. E não consegue largar os sujeitos que são tranqueiras, que não querem nada além de sexo e curtição desvairada, de preferência em eventos regados com muitas bebidas e drogas. Nesse eterno ciclo de relacionamentos tóxicos, o alcoolismo de Charlotte só piora, o que a faz seguir tomando péssimas escolhas em todas as esferas da vida: profissional, financeira, sentimental etc.
Assim, o texto de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” caminha por várias direções. Enquanto fala de seu passado (antes de ser psicoterapeuta, Lori foi, por exemplo, roteirista de TV e estudante de medicina) e mostra a evolução das suas sessões de terapia com Wendell, a narradora do livro revela também as interações com o seu quarteto de pacientes. Ela não apenas diz o que John, Julie, Rita e Charlotte conversam nas consultas como indica o que se passa com as vidas deles a partir daí. Em outras palavras, temos basicamente seis linhas narrativas andando paralelamente nesta obra: passado de Lori; presente de Lori; trajetória de John; trajetória de Julie; trajetória de Rita; e trajetória de Charlotte. No meio dos textos pessoais das personagens/figuras retratadas, há ainda espaço para o detalhamento de assuntos técnicos da psicologia e do exercício da psicoterapia.
“Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é um livro bem volumoso. Suas 448 páginas estão distribuídas em 58 capítulos, que por sua vez estão espalhados por quatro blocos/partes. Levei mais ou menos dez horas de leitura para concluí-lo de ponta a ponta. Obviamente, não fiz isso em uma única sessão, né? Também foram necessários mais de um dia de trabalho. Para ser mais específico em meu relato, na sexta-feira à tarde, li esta publicação por cerca de duas horas e meia (terminei o bloco um). No sábado de manhã, fiz mais uma sessão de duas horas (e parte dois finalizada). À tarde, outra sentada no sofá de duas horas e meia, três horas (e bloco três concluído). Por fim, encerrei esta obra (parte quatro completada) no domingo à noite, o que me demandou mais duas horas ou duas horas e meia de mergulho literário.
A primeira característica que chamou minha atenção nesta publicação foi a narrativa envolvente. Lori Gottlieb é uma excelente escritora. Ela sabe contar histórias como pouquíssimos autores contemporâneos. A californiana prende a atenção do leitor desde as primeiras páginas de um jeito que não conseguimos largar “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. E ela faz isso relatando sua biografia e a trajetória de pessoas que não conhecemos. Preciso dizer que tal tarefa não é nadinha fácil. Experimente você colocar no papel seus dramas mais íntimos e as angústias de pessoas conhecidas para ver o nível de complexidade para tornar esse texto atraente. Falo por mim. Não conhecia Gottlieb nem seu quarteto de pacientes. Também não tinha interesse em ler algo sobre psicoterapia e as técnicas terapêuticas das sessões psicológicas. Ainda assim, adorei o livro e grudei nele.

Outro elemento elogiável é a entrada direta no texto principal da obra. Assim que viramos as páginas do Sumário, já caímos no conteúdo da Parte Um de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. Incrível a simplicidade e a objetividade de Lori Gottlieb. Ou seja, não há aqui Apresentação, Prefácio, Introdução, Preâmbulo ou qualquer outro blábláblá. Infelizmente, leio muitos livros de não ficção que trazem uma encheção de linguiça interminável logo no início. É um tal de convidar os amigos dos autores para comentar a importância daquele título e nada de entrarmos no conteúdo principal da publicação.
Semana passada, por exemplo, li com a devida atenção “Entre a Vida e a Inteligência Artificial” (EV Publicações), primeira obra de Fábio Scabeni que mescla passagens autobiográficas e dicas de como usar a IA no dia a dia e no trabalho. Percorremos intermináveis 30 páginas (não estou exagerando, são três dezenas de páginas) para chegar ao começo propriamente do livro. Até lá, percorremos Dedicatória, Agradecimento, Sumário, Apresentação, Prefácio, Mensagem Especial ao Leitor e Introdução, além de páginas com frases em destaque. Ufa! O pior é a sensação de que o autor chamou pessoas que ele valoriza (fundador da sua empresa, o mentor famosinho, o médico que lhe tratou) simplesmente para puxar o saco delas. Diante dessa realidade atroz das produções editoriais recentes, é um alívio ver uma escritora que simplesmente começa seu livro logo de cara. Saravá!
O texto de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” apresenta bom humor, descontração e informalidade, mesmo tratando de assuntos pesadíssimos como separações conjugais, relacionamentos tóxicos, crises familiares, mortes, lutos, depressões, suicídios, vícios e doenças terminais, entre outros assuntos punk. Para completar, Gottlieb ainda discorre de questões do ofício dos psicoterapeutas de maneira extremamente didática e simples. A sensação é de estarmos conversando na sala de casa com uma amiga de longa data. Juro que me recordei, durante esta leitura, do conteúdo de “Comer, Rezar e Amar” (Objetiva), clássico contemporâneo de Elizabeth Gilbert. As duas obras falam de momentos delicados da vida de suas autoras de um jeitão franco, objetivo, próximo e bonito. Não é porque o assunto é árido que o texto também deva ser, né?
A proposta deste livro de Lori Gottlieb também é, devemos reconhecer, brilhante. Ela fala do poder e da importância da psicoterapia de forma extremamente prática, fazendo com que fiquemos desconcertados com a sua simplicidade argumentativa. Se ela pinça alguns conceitos de psicologia para ilustrar os acontecimentos dos vários pacientes descritos, essa parte mais técnica não sufoca o texto em nenhum momento. Muitas vezes, o conteúdo mais formal acaba até passando desapercebido pelos leitores mais desatentos. Tenho que reconhecer que esse estilo narrativo é maravilhoso. A autora prova a relevância de se fazer terapia e a força terapêutica das boas conversas no divã apresentando vários cases reais, inclusive o dela próprio. Somos convencidos quase que naturalmente. Ao fecharmos o livro, sentimos o impacto do conteúdo assimilado.

Ainda falando da estratégia narrativa, note que Gottlieb não foi excessivamente didática ao ponto de estragar sua linha textual. Falo isso porque há muitos autores que duvidam da inteligência dos leitores e apresentam textos extremamente mastigados. Eles explicam várias vezes o conteúdo autoexplicativo que o resultado acaba empobrecendo a experiência de leitura. Felizmente, a psicoterapeuta norte-americana não comete esse erro em nenhum momento de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. Pela sua ousadia narrativa, confesso que, por vários capítulos, achei que estava diante de um título ficcional (que naturalmente inova mais no aspecto estético) e não de uma publicação não ficcional (que comumente é mais conservadora no quesito estrutural).
Prova maior disso é que a autora mistura espaços temporais (presente e passado – épocas em que era jornalista/redatora de televisão, estudante de medicina e terapeuta em início de carreira) e linhas narrativas (descreve os dramas particulares de quatro pacientes paralelamente à sua trajetória). Sem uma divisão formal desse volumoso caldo textual, a pergunta que faço é: os leitores ficam confusos com a falta de ordenamento narrativo? A resposta é um sonoro e inequívoco “NÃO”. Não ficamos confusos porque temos a capacidade de reconstruir nós mesmos as várias partes fragmentadas da trama em nossa mente. É um processo parecido à montagem de um quebra-cabeça. Por que, então, a mania de muitos escritores de ficção e de não ficção de recorrerem à didática excessiva, as explicações desnecessárias e à redundância textual? Juro que não entendo. Felizmente, temos aqui um texto agradável que valoriza nossa sagacidade.
Dessa forma, quer dizer que “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é uma publicação impecável, Ricardo? Eu tenderia a responder que sim, participativo(a) leitor(a) desta análise. Afinal, gostei tanto dela que resolvi comentá-la na coluna Livros – Crítica Literária mesmo sendo uma obra não ficcional. Contudo, preciso apontar para um único deslize deste título que tem capacidade para mudar a sua visão sobre o trabalho editorial de Lori Gottlieb. Aí vem a parte polêmica desta publicação, que adiantei no início deste post. Sente-se que lá bem bomba, senhoras e senhores!
É ético abordar publicamente os dramas que seus pacientes lhe expuseram nas consultas terapêuticas? Note o quão delicado é esse questionamento e, principalmente, o nível de polêmica das possíveis respostas para ele. Porque o que a autora fez neste livro foi justamente isso: escancarou as vidas das pessoas que confiaram nela a confidencialidade de seus relatos mais íntimos. É ou não é uma bomba moral, hein? Do ponto de vista ético, será que podemos confiar (ou perdoar) um(a) psicoterapeuta que não cumpre o requisito número um de sua profissão que é o sigilo absoluto dos relatos feitos no divã?!

É claro que Gottlieb teve a preocupação de alterar os nomes reais dos envolvidos. Portanto, John não é John. Julie não é Julie. Rita não é Rita. E Charlotte não é Charlotte. Nem mesmo o psicólogo Wendell Bronson se chama Wendell Bronson. Ufa! Dos males o menor. Ainda assim, temos um problema ético gravíssimo. Se os nomes reais não foram expostos (só faltava!), as particularidades mais íntimas dessa gente foram atiradas ao grande público. Pode isso, Arnaldo? No meu ponto de vista, a resposta é “NÃO”. O sigilo do ofício dos psicoterapeutas não é apenas para o nome dos pacientes. Ele abrange também seus relatos.
Imagine você ler o livro de seu terapeuta e descobrir que ele falou de você para o mundo, expondo seus dramas mais delicados que foram ditos nas sessões de terapia, um espaço regido pela confiança absoluta e pelo sigilo total das conversas! Eu não ia gostar nadinha e aposto que você também não iria ficar nem um pouco feliz. Por que, então, os verdadeiros John, Julie, Rita, Charlotte, Charlotte e Wendell estariam contentes com a divulgação de seus casos? Acho difícil.
Como expliquei no início deste post do Bonas Histórias, não sou especialista neste tema. Viu só como é ruim comentar assuntos de não ficção?! A análise só se torna verdadeiramente completa se somos entendidos daquela área. Assim, o correto seria consultarmos psicólogos e psicoterapeutas para entender se Gottlieb foi antiética ou não. Como disse nos parágrafos anteriores, na minha humilde visão, seu livro desrespeita o elemento fundamental da relação terapeuta-paciente que é a confidencialidade. Só por isso, o livro perde a validade, por melhor que seja seu conteúdo.
Se eu estivesse no papel de editor ou de publisher desta obra, juro que descartaria “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” sem pestanejar. Nunca aprovaria tal proposta para a minha editora, mesmo ciente do possível sucesso desta publicação. Não é porque um título alcança o status de best-seller internacional que devemos fechar os olhos para suas implicações morais. Ainda que a editora não entrasse na alça de mira dos processos judiciais milionários, acredito que não é correto expor publicamente meia dúzia de pessoas inocentes.

Curiosamente, não vejo ninguém da imprensa e do mercado editorial comentar o enorme deslize ético de Lori Gottlieb. Será que só eu tenho esse tipo de preocupação ainda ou o mundo à minha volta enlouqueceu de vez? A impressão que tenho ao observar os comentários e as avaliações de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é que sua autora não cometeu nenhum atentado à moral com seus pacientes. Será mesmo? Duvido.
Em suma, temos um livro, ao mesmo tempo, sublime e polêmico. Na leitura de suas páginas, ficamos dentro do consultório acompanhando as sessões de Lori Gottlieb. Ora ela é a terapeuta, ora é a paciente. O que não muda é a dinâmica: a conversas do divã ajudam as pessoas a resolverem ou minimizarem suas dores psicológicas e sentimentais. Com humor, franqueza, inteligência e profundidade, a autora comenta aspectos sensíveis da existência humana e o poder transformador das conversas terapêuticas. Não é surpresa nenhuma que esse livro tenha se tornado um best-seller internacional (e que Gottlieb não tenha perdido seu diploma!). Vale a pena lê-lo.
E para os fãs da boa e velha ficção, informo que no mês que vem retornarei ao blog para comentar um novo romance. No caso, será um exemplar da literatura brasileira contemporânea. Isso é tudo o que posso adiantar.
Até a próxima, senhoras e senhores.
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