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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 42 anos, mora em Buenos Aires e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

  • Foto do escritorRicardo Bonacorci

Músicas: Por Una Cabeza - O Tango mais famoso de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

Clássico da música argentina, a composição de Gardel e Le Pera sobre a desilusão de um apostador de corridas de cavalo está prestes a completar 90 anos e continua encantando as almas mais sensíveis, apesar de suas várias polêmicas.


Lançada em 1935, a música Por Una Cabeza é o Tango de maior sucesso de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

Falemos de Tango hoje no Bonas Histórias. Antes que alguém reclame com um sonoro e injusto “de novo!?”, eu explico com toda a paciência do mundo. No mês passado, a Marcela apresentou na coluna Dança a história e as características da versão dançante do Tango. Ela também deu uma boa pincelada no perfil desse tipo de canção. Nada mais natural, né? Não dá para uma professora de dança comentar uma modalidade sem citar o componente musical. O meu enfoque agora é outro. De certa forma, vou por um caminho parecido, mas ainda assim diferente. Como estamos na coluna Músicas, quero debater a minha canção argentina preferida. Estou me referindo a “Por Una Cabeza”, a composição mais famosa da genial dupla Carlos Gardel e Alfredo Le Pera e um dos Tangos mais populares da história. Essa música vai completar 90 anos em 2025 e merece desde já uma análise completa no blog.      


Você pode gostar ou não gostar desse gênero musical que representa tão bem a Argentina e Buenos Aires, o país e a cidade que escolhi para viver nos próximos dois anos pelo menos. Se pensarmos bem, todo mundo tem o direito de ter suas preferências sonoro-culturais. Até onde sei, não há ainda uma polarização musical tão intensa quanto existe na política e no futebol (se bem que não é bom dar ideia para esse povo!!!). Além disso, Tango não é como o Samba, a música da minha terra que quem não gosta bom sujeito não é. Porém, goste ou não goste do Tango, é impossível ficar indiferente à força de suas melodias e à passionalidade de suas letras. Confesso que não conheço ninguém minimamente emotivo que não se empolgue ao escutar esse tipo de canção. Se o sujeito (e a sujeita) tiver um coraçãozinho que pulsa com o mínimo de força, certamente se encantará com os versos e as batidas da mais típica manifestação artística portenha. Para mim, quem despreza o Tango não tem bons sentimentos.


Estou trazendo essa discussão para o Bonas Histórias porque sempre me perguntei qual seria a principal composição do Tango. Por um acaso, você já parou para refletir sobre isso? Como um admirador de longa data desse gênero e desde o mês passado cidadão argentino (sim, agora tenho DNI, senhoras e senhores!!!), joguei essa dúvida na minha lista de preocupações prioritárias. Não passo um dia sem me questionar a respeito. Brincadeirinha! Minha vidinha não é tão fútil quanto os leitores da coluna Músicas podem imaginar (é só um pouquinho, tá?). No topo das minhas preocupações recentes estão a inflação galopante, a desvalorização do real frente ao peso argentino, as maluquices do Sr. Javier, a quantidade absurda de trabalho que as editoras me passam e o combalido coraçãozinho da guria com o mais lindo sorriso de CABA. Mas essas questões são assuntos para a coluna Contos e Crônicas. Volte para o tema de hoje, Ricardinho! Voltando, voltando...   


Por muito tempo, o meu Tango favorito foi “Mi Buenos Aires Querido”, outra composição clássica de Gardel e Le Pera. Por vários anos, seu refrão não saía da minha cabeça: “Mi Buenos Aires querido/ Cuándo yo te vuelva a ver/ No habrás más penas ni olvido”. O motivo dessa fascinação? A sensação de que essa canção me perseguia em momentos marcantes da minha vida. Isso começou quando morei pela primeira vez na capital argentina entre 2004 e 2005. Em uma noite especial na Esquina Homero Manzi, essa foi a única música que lembro de ter tocado na belíssima casa de espetáculos de Boedo. Depois, quando regressei ao Brasil, ela continuou me seguindo sorrateiramente para onde eu fosse. Surgiu do nada no jantar em que comuniquei à minha advogada que não iria me mudar para o Rio de Janeiro – ah se arrependimento matasse. Na tratoria da sopa de capeletti da Cidade Baixa em Porto Alegre (não consigo comer esse prato até hoje, Gabi!), o Tangão pintou em pelo menos duas visitas. E, inexplicavelmente, alguém o colocou na playlist da festa de casamento da minha melhor amiga sem a autorização dos noivos.


Carlos Gardel e Alfredo Le Pera compuseram em 1935 Por Una Cabeza, uma das músicas argentinas mais conhecidas no mundo e um dos Tangos mais famosos de todos os tempos

Como um bom romântico que sou (característica essa descoberta somente na semana passada), minhas relações com as músicas são extremamente passionais. “Mi Buenos Aires Querido” era o meu Tango favorito simplesmente porque mexia com meus sentimentos nos momentos certos (e nos errados). Quem nunca! Isso até o ano passado. Desde que voltei a viver na capital argentina, essa primazia passou a girar em torno de “Por una Cabeza”. Aí tenho a impressão de que sou vítima de uma nova e implacável perseguidora. Essa música embalou pelo menos três ótimos momentos da minha atual temporada portenha.


Nas Barrancas de Belgrano em uma sexta-feira no finalzinho do outono, ela serviu como excelente fundo musical para o pôr do sol mais lindo do meu pós-pandemia. Acho que o som veio do coreto onde é possível dançar esse ritmo todas as noites. Ouvi também “Por una Cabeza” em um passeio de moto por San Telmo. O Tango foi captado apesar do capacete, das broncas da motoqueira eternamente enfezada e do trânsito absurdo nas estreitinhas ruas de paralelepípedo. Muito provavelmente, o melhor instante tenha ocorrido na visita ao El Boliche do Roberto. Há algumas semanas, fui lá com uma divertida e caótica turminha de amigos. Ver o público entoando os versos de Gardel e Le Pera enquanto a banda tocava a música foi demais! Havia inclusive um brasileiro bêbado consultando a letra no celular só para acompanhar a empolgação dos frequentadores locais – abraço, Pablito!


A música “Por Una Cabeza” foi criada entre novembro de 1934 e janeiro de 1935 especialmente para “Tango Bar” (1935), filme gravado em Nova York pela Paramount e dirigido por John Reinhardt. Para entendermos a composição dessa canção, precisamos antes compreender o contexto da carreira de Carlos Gardel, o maior cantor de Tango da história, no início dos anos 1930. Como assim ele fazia filmes nos Estados Unidos? Afinal, ele era músico profissional ou era ator hollywoodiano? 


Voltemos um pouco mais no tempo. Gardel chegou à Argentina ainda criança no finalzinho do século XIX. Há quem ateste que o artista nasceu no Uruguai e há quem garanta que era francês. Na dúvida, eu o chamo de cantor franco-uruguaio. Assim, não desagrado nenhum dos dois lados. Mal tinha saído da adolescência, ele começou a trabalhar nos teatros portenhos. Realizava várias funções de apoio às produções cênicas. Somente aos 20 anos, Carlos Gardel começou a se apresentar como cantor nos bares de Buenos Aires. Logo fez parceria com José Razzano e a dupla atuou junta por 15 anos. Com a separação profissional de Razzano em 1923, Gardel focou na carreira solo e lançou seus primeiros discos.


Criada especialmente para o filme Tango Bar (1935), a música Por Una Cabeza é o maior sucesso de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, uma das duplas mais famosas do Tango

Mais ou menos nessa época, o cantor conheceu o escritor e jornalista Alfredo Le Pera. Filho de imigrantes italianos que foram tentar a sorte no Brasil, Alfredo nasceu em São Paulo e se mudou ainda bebê para Buenos Aires. Assim que constatou o talento do brasileiro naturalizado argentino para a escrita, Carlos Gardel o aconselhou a abandonar o jornalismo e a literatura e entrar de cabeça na música. Também o convidou para ser seu parceiro musical. Dessa maneira, surgiu uma das parcerias mais bem-sucedidas da música sul-americana. Enquanto Gardel ficava responsável pela criação das melodias, Alfredo Le Pera desenvolvia os versos dos Tangos. Os dois criaram clássicos como “Volver”, “El Dia que me Quieras” e “Silencio”, além dos já citados “Mi Buenos Aires Querido” e, claro, “Por Una Cabeza”.


O sucesso da dupla Gardel e Le Pera foi tão grande no início dos anos 1930 que eles assinaram um contrato com a Paramount, importante estúdio de cinema dos Estados Unidos, para a produção de vários filmes. A proposta era que o cantor interpretasse nas telonas as composições da dupla. Vale a pena dizer que naquela época os musicais dominavam as salas de cinema. O público comparecia às sessões para ver os principais cantores interpretando os sucessos musicais do momento. Assim, Carlos Gardel gravou vários filmes tanto nos Estados Unidos quanto na Argentina e na França. Os principais foram “Encuadre de Canciones” (1930), “Luces de Buenos Aires” (1931), “La Casa es Seria” (1931), “Espérame” (1932), “Melodía de Arrabal” (1932), “Custa Abajo” (1934), “Mi Buenos Aires Querido” (1934), “Tango en Broadway” (1934), “El Día que me Quieras” (1935) e “Tango Bar” (1935).


Só de olharmos as datas desse portfólio audiovisual dá para vermos o ritmo alucinante das produções na primeira metade dos anos 1930. Eram quase dois filmes por ano. E Carlos Gardel e Alfredo Le Pera compuseram boa parte dos seus maiores sucessos justamente para o cinema. Afinal, o público queria ver novidades nas telonas e não velhos hits. Por exemplo, em “El Día que me Quieras”, Gardel cantou “Sus ojos se cerraron”, “Volver” e “El Día que me Quieras”. Em “Tango Bar”, seu último filme, ele cantou “Lejana Tierra Mía”, “Los Ojos de Mi Moza” e “Por Una Cabeza”. Se hoje eu pagaria um ingresso de cinema para rever Gardel interpretando essas canções, imagine a avidez da plateia naquela época – confesso que fiz isso com “Nove Rainhas” (Nueve Reinas: 2000) recentemente e não me arrependi.  


Talvez a dupla de compositores de Tango tivesse feito muito mais músicas incríveis se o destino não tivesse sido tão impiedoso. Quando vivia o auge artístico, Carlos Gardel fez uma viagem para a Colômbia. Lá apresentaria um dos shows de sua turnê latino-americana. O avião onde estava o cantor caiu nas proximidades de Medellín em junho de 1935. Algo parecido ocorreria muitos anos mais tarde, em novembro de 2016, na mesma cidade, no voo que levava os jogadores da Chapecoense para a final da Copa Sul-americana. Junto com Gardel na aeronave estavam Le Pera, os empresários da dupla e a banda do cantor franco-uruguaio. Todos morreram.


Por Una Cabeza é o Tango de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera que retrata o drama de um homem viciado em apostas de corridas de cavalo

Assim, a música “Por una Cabeza” e o filme “Tango Bar” foram, respectivamente, a última grande criação da dupla e a última produção cinematográfica de Carlos Gardel. Veja, a seguir, a letra completa de “Por una Cabeza”. E assista, logo em seguida, ao trecho do filme “Tango Bar” em que essa música é apresentada pela primeira vez ao público:


“Por una Cabeza” (1935) – Carlos Gardel e Alfredo Le Pera


Por una cabeza, de un noble potrillo

Que justo en la raya, afloja al llegar

Y que al regresar, parece decir

No olvides, Hermano

Vos sabes, no hay que jugar


Por una cabeza, metejón de un día

De aquella coqueta y risueña mujer

Que al jurar sonriendo el amor que está mintiendo

Quema en una hoguera

Todo mi querer


Por una cabeza,

todas las locuras

Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura


Por una cabeza

Si ella me olvida

Qué importa perderme

Mil veces la vida

Para qué vivir


Cuántos desengaños, por una cabeza

Yo juré mil veces no vuelvo a insistir

Pero si un mirar me hiere al passar

Su boca de fuego

Otra vez quiero besar


Basta de carreras, se acabo la timba

Un final reñido ya no vuelvo a ver

Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo

Yo me juego entero

Qué le voy a hacer


Por una cabeza,

todas las locuras

Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura


Por una cabeza

Si ella me olvida

Qué importa perderme

Mil veces la vida

Para qué vivir



Ao mesmo tempo em que é belíssima, “Por Una Cabeza” possui altas doses de polêmica, pelo menos aos olhos contemporâneos. Sim, senhoras e senhores, essa canção reserva questões delicadas de plágio e de machismo. Como é tradição da coluna Músicas, vamos dividir essa análise em duas partes. Daremos uma esmiuçada na melodia e depois faremos um apanhado sobre a letra. Assim, acredito que vou conseguir debater todas as facetas desse clássico do Tango neste post do Bonas Histórias.  


Quando olhamos a melodia criada por Carlos Gardel, é impossível não ficarmos encantados com a sua força e a sua passionalidade. O começo dessa canção é um dos mais sublimes da história da música popular – podemos chamar o Tango de música popular, hein? Os toques solitários do violino (ou de algum instrumento de corda ou sopro, depende dos recursos da banda que a estiver executando) são doces e harmônicos. A sensação é que o violinista está feliz com a vida pacata e sem ninguém ao lado. Certamente não sente falta de outro instrumento musical em ação. Até que a paz é quebrada por impositivas e estrondosas teclas de piano. Quando o pianista entra em cena na música, ele já chega chegando, como quem grita: estou aqui, pare o mundo que quero mostrar que sou mais importante do que todo mundo; quem manda agora nessa canção sou eu!


A partir daí temos os dois instrumentos musicais lado a lado. Incomodado com a chegada do invasor folgado, o violinista sobe o tom e tenta mostrar que ele não irá se sujeitar aos caprichos alheios. Assim, as duas linhas musicais caminham ora abraçadas (como um casal feliz e apaixonado dançando agarradinho), ora em oposição (como se estivessem brigando em uma disputa ácida para ver quem tem razão na última discussão). Por mais que o piano aceite acompanhar o violino (em uma reverência à beleza e à importância do companheiro), tem momentos que ele não se aguenta e dá um ou outro piti. Aí voltam as teclas dissonantes e fortes. Maravilhoso, não?! Temos aqui a mais pura e verdadeira magia do Tango (e da dicotomia das relações amorosas).


Quando analisamos atentamente a melodia de “Por una Cabeza” entendemos o motivo dessa canção ser usada em tantas cenas dançantes (e de paixão) nos filmes. Sua sonoridade com os dois jogos de instrumentos musicais (corda ou sopro versus piano) competindo ou em harmonia simboliza perfeitamente a dinâmica de um casal executando uma Dança de Salão. E não é qualquer dança. É a passionalidade, a volúpia e sensualidade do Tango, como a Marcela nos ensinou no mês passado.


Quando vemos (ou ouvimos, como preferir) a música por tal perspectiva, a primeira coisa que pensamos é: o criador de “Por Una Cabeza” deve ser um gênio. Realmente, Carlos Gardel era primoroso. Se ele tivesse feito apenas essa canção sublime, poderíamos dizer que foi sorte. A questão é que ele tem várias faixas de extrema beleza. Ou seja, se você acreditar que ele é simplesmente um sortudo, saiba que o raio caiu várias, várias e várias vezes no mesmo lugar.


Utilizada em várias produções cinematográficas até hoje, a música Por Una Cabeza foi composta pela dupla Alfredo Le Pera e Carlos Gardel em 1935

O mais estranho nessa história é que Gardel não era um músico clássico, do tipo tradicional. Ele era um cantor que se atrevia a compor (maravilhosamente bem, por sinal). Como nunca estudara música, o artista franco-uruguaio não conseguia ler nem escrever partituras. Em termos técnicos, era um analfabeto musical. Então como ele fazia para compor? Carlos Gardel usava um sistema próprio para indicar as teclas do piano e a intensidade do toque para os músicos de sua banda. A partir daí, alguém ficava encarregado de traduzir suas anotações para as métricas das notas musicais da partitura. De maneira exagerada, Gardel era a versão rio-platense e do Tango de Patativa do Assaré.


Essa ignorância musical (ou seria simplesmente intuição genuína) de Carlos Gardel sempre suscitou muitas suspeitas. Será mesmo que era ele quem compunha as canções em parceria com Alfredo Le Pera?! Os gardelianos de plantão (que parecem ser até mais numerosos do que os maradonianos no dia a dia portenho) se arrepiam até hoje só de ouvir uma pergunta desse tipo. Eles enxergam o questionamento como uma afronta ao talento artístico do maior cantor de Tango (o posto de maior compositor argentino foi dado para Astor Piazzolla sem grandes abalos sísmicos).


Se nunca saberemos a verdade sobre alguns elementos do passado, outros surgem à tona mesmo anos, décadas e séculos depois. O fato é que “Por una Cabeza” (se você for gardeliano ou gardeliana, por favor, segure-se na cadeira agora!!!) é uma cópia de uma canção de ninguém mais, ninguém menos do que Amadeus Mozart. Durmamos com essa bomba! Consciente ou inconscientemente, Carlos Gardel usou as bases melódicas de “Rondó em dó maior para violino e orquestra”, composição de 1781 do músico austríaco, para “criar” o seu Tango mais famoso. No caso, o termo “usar as bases melódicas” é só um eufemismo que usei para não ter que escrever “copiar na cara dura”.   


Talvez isso explique alguns elementos centrais da cultura argentina. Sua música mais famosa é uma melodia copiada de um compositor austríaco do século XVIII. O gol que eles julgam o mais emblemático da La Albiceleste em Copas do Mundo foi realizado com a mão e é o suprassumo da ilegalidade esportiva. A ilha que dizem pertencer ao seu território sempre foi inglesa. A mulher que santificam teve uma juventude para lá de luxuriante. O melhor jogador de futebol que tiveram (aquele que seria melhor do que Pelé) não conseguiu ficar sóbrio e são na maior parte da carreira esportiva. Os ideais políticos mais populares ainda hoje são de um tenente-general falecido há 50 anos e que era conhecido por ser antidemocrático. E o médico argentino, revolucionário e cabeludo que estampou as camisetas dos jovens esquerdistas do mundo todo por muitos anos matou mais pessoas do que salvou. Isso é Argentina em sua essência, senhoras e senhores!


Um dos Tangos mais conhecidos de todos os tempos, Por Una Cabeza é a obra-prima de Carlos Gardel (melodia) e Alfredo Le Pera (letra)

Antes que alguém grite lá no fundo da sala “volte ao assunto de hoje, Ricardinho”, eu retomo a minha linha argumentativa. É importante dizer que Carlos Gardel já havia plagiado outras melodias. A mais famosa, depois de “Por una Cabeza”, é “Tomo y Obligado”, composta para o filme “Luces de Buenos Aires” (1931). Ela foi apropriada de “Así es el Mundo”, música de 1926 de Mario Canaro (não o confundir com o irmão, Francisco). O que torna mais nebulosa essa história é que Canaro havia enviado sua canção para o amigo Gardel avaliar e quem sabe cantar. Afinal, quem não queria ter o principal cantor de Tango interpretando sua criação, hein? O cantor franco-uruguaio jamais deu uma resposta ao integrante do Sexteto Hermanos Canaro. Até o dia que Mario foi despretensiosamente ao cinema assistir “Luces de Buenos Aires” e voilà: viu (no caso ouviu) a melodia de sua música em “Tomo y Obligado”.


Será que Carlos Gardel copiava as músicas alheias? Será que alguém compunha as melodias e ele dizia que eram dele? Sinceramente, não sei. O que sei é que “Por una Cabeza”, por mais brilhante que seja, é a cópia de uma das seis centenas de composições de Mozart. Isso sim dá para afirmarmos sem dúvida alguma. Basta ouvirmos as duas canções para chegarmos a tal conclusão. Até os meus ouvidos destreinados e desritmados são capazes de notar as óbvias e ululantes semelhanças.


Para quem ficou frustrado quanto à originalidade da melodia de Gardel, vamos partir logo para a parte da letra de “Por Una Cabeza”, responsabilidade essa que ficou à cargo de Alfredo Le Pera. Estaria aí a parte realmente original e magnífica desse Tango clássico? É possível. Mesmo assim, já adianto que vem mais polêmica pela frente.


O primeiro aspecto que chama nossa atenção nos versos da canção é a sua temática. Le Pera coloca em sua narrativa um viciado em corridas de cavalo que se frusta com as derrotas sucessivas de suas apostas. Para a personagem da música, os potros escolhidos desaceleram propositadamente na reta final como se dissessem: vá embora, meu amigo; essa vida não é para você! Ele fica tão decepcionado com a perda do dinheiro (e do sonho de enriquecer através das apostas) que cogita abandonar definitivamente as visitas aos hipódromos. Convenhamos que não é todo dia em que presenciamos um viciado em corridas de cavalo como eu lírico musical, né? Só por isso podemos dizer que a letra de “Por Una Cabeza” é muitíssimo original.


Até então, os assuntos usados pelos compositores de Tango giravam quase sempre em torno das decepções amorosas e da devoção ao amor materno. Enquanto a primeira linha narrativa é um tanto óbvia (essa sempre foi a temática mais popular das canções independentemente do lugar e da época), a segunda pode ser uma novidade para quem não conhece os meandros desse gênero musical e da sociedade argentina. Sim, queridos leitores da coluna Músicas, os argentinos têm uma devoção a suas madres que lembra muito a cultura italiana e judaica. Não por acaso, esses povos constituem a base da formação/colonização da capital da Argentina, cidade onde o Tango nasceu e cresceu. Quando fugiam muito das temáticas usuais, as músicas falavam da beleza e do orgulho de Buenos Aires e do coleguismo e da parceria entre os melhores amigos. 


Carlos Gardel e Alfredo Le Pera compuseram em 1935 Por Una Cabeza, uma das músicas argentinas mais conhecidas no mundo e um dos Tangos mais famosos de todos os tempos

Se tratar de corridas de cavalo em uma canção parece inusitado aos olhos atuais, a ousadia disso quase um século atrás é muito maior. E por que, então, Alfredo Le Pera quis falar de turfe? Em primeiro lugar, não podemos nos esquecer que essa composição foi feita especialmente para um filme. A dinâmica cinematográfica de Hollywood exigia mais do que corações partidos, filhos babando por suas mães, portenhos brandando as belezas de sua cidade natal e marmanjos emocionados pela amizade sincera. O interessante é que as corridas de cavalo sempre foram uma das paixões de Carlos Gardel. Assim, o escritor e compositor brasileiro utilizou um assunto comum da conversa de ambos para enriquecer o enredo do filme com uma cena musical trazida do turfe. O termo “por una cabeza” é uma expressão comum desse esporte, que é decidido muitas vezes pela cabeça do cavalo que cruza a linha em primeiro.


E onde está a polêmica da letra, Ricardinho?! Para apimentar um pouco a canção, Alfredo Le Pera compara a montaria lenta e perversa que desilude o apostador viciado a uma mulher interesseira e falsa que destrói o coraçãozinho do homem apaixonado. O cavalo derrotado daria um prejuízo tão grande quanto ao da dama adepta do golpe do baú. Ambas as desilusões são causadas por uma cabeça: a cabeça do potro que chegou atrasado na corrida e a cabeça ambiciosa da moça desalmada que pisa nos sentimentos do amado.


Pode-se comparar uma mulher a um cavalo?! Aí está justamente a polêmica. Se hoje essa canção seria sumariamente cancelada em qualquer uma das bolhas das redes sociais, nos anos 1930 parece que esse aspecto da letra não suscitou grandes incômodos. Pintar as damas como figuras voláteis, fúteis e maldosas que colocam a vida dos homens em desatino é, no mínimo, pesado e indelicado. Sei disso! Mesmo assim, é difícil não achar a composição dos versos bonita. Se seu conteúdo é uma punhalada no que acreditamos, ao menos a estética da composição poética é sublime.


Por mais indelicada que seja a interpretação, confesso que sou fã do refrão de “Por una Cabeza”. Sempre que ouço essa música, passo alguns dias cantarolando: “Por una cabeza/ todas las locuras/ Su boca que besa/Borra la tristeza/ Calma la amargura/ Por una cabeza/ Si ella me olvida/ Qué importa perderme/ Mil veces la vida/ Para qué vivir”. Ainda que a comparação do vício pelo turfe à paixão por uma mulher seja constrangedora, é lindo questionar o motivo de se viver longe da pessoa amada.


Criada especialmente para o filme Tango Bar (1935), a música Por Una Cabeza é o maior sucesso de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, uma das duplas mais famosas do Tango

Mesmo com todos os elementos polêmicos desta canção, descortinados apenas quando os analisamos atentamente (algo que espero ter conseguido fazer neste post da coluna Músicas), confesso que “Por una Cabeza” é meu Tango favorito. “Todas las locuras/ Su boca que besa/ Borra la tristeza/ Calma la amargura. Si ella me olvida/ Qué importa perderme/ Mil veces la vida/ Para qué vivir”.


Se esse tipo de música não está presente no dia a dia dos argentinos (algo que pode frustrar os visitantes desavisados), então criamos situações para inseri-lo. Se o rock nacional (rock argentino, no caso) e a cumbia são amigos próximos que chegam sem formalidade em nossas casas e com quem estamos sempre esbarrando na rua, o Tango é aquele amigo antigo e recluso que exige constantes visitas de nossa parte. E como é bom revisitá-lo de tempos em tempos!


Se alguém ainda não se convenceu da força melódica dessa criação quase centenária de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, listei abaixo algumas cenas marcantes do cinema contemporâneo que utilizam “Por una Cabeza” como trilha sonora. Para ser sincero, acho até errado dizer que esse Tango é a trilha sonora desses longas-metragens. Em alguns casos, a música (e a dança) é quase um dos personagens da produção cinematográfica.


Talvez a aparição mais famosa de “Por una Cabeza” no cinema seja a dança de Al Pacino (como Tenente-coronel Frank Slade) com Gabrielle Anwar (Donna) em “Perfume de Mulher” (Scent of a Woman: 1992). O mais engraçado é que esse filme – um remake de uma produção italiana chamada “Profumo di Donna” (1974) – tem gravíssimos problemas de enredo (por exemplo, como um estudante pobre estuda num colégio caríssimo?) e alguns erros crassos de continuidade (inclusive na gravação do Tango, ora Anwar está usando brinco, ora não está). Em outras palavras, se não fosse a passagem dançante no restaurante entre um senhor cego e uma jovem esperançosa, que consumiu três longos dias de gravação, ninguém hoje citaria “Perfume de Mulher” para nada.



Por sua vez, a cena que acho a mais bela do cinema com essa canção é a do filme “Bons Costumes” (Easy Virtue: 2008). O bailado de Jessica Biel (como Larita) com Colin Firth (Mr. Whittaker) não apenas tem enorme sensualidade como retrata com perfeição o conflito da produção cinematográfica e o dilema moral tanto dos protagonistas quanto da sociedade da época. Incrível! Além de ser uma cena impecável, preciso dizer que “Bons Costumes” é um filme muito, mas muito melhor do que “Perfume de Mulher”.



Para o posto de longa-metragem com mais aparições de “Por uma Cabeza”, aí tenho que citar “True Lies” (1994). Os protagonistas dessa aventura cômica de Hollywood, Arnold Schwarzenegger (no papel de Harry Tasker) e Jamie Lee Curtis (Helen Tasker), surgem dançando o Tango de Gardel e Le Pera duas vezes. Sim, você leu corretamente. Não foi apenas uma cena com essa música no longa-metragem. Foram DUAS! Pode isso, Arnaldo? Pelo visto pode. Ambas, no contexto dramático do enredo, são momentos engraçadíssimos. 





Já o título de maior destaque a usar “Por Una Cabeza” – até porque estamos falando de um ganhador do Oscar de melhor filme – foi a “Lista de Schindler” (Schindler's List: 1993). Se não assistimos ninguém dançando (pelo menos nenhum protagonista) na cena do longa-metragem com o Tango, a melodia cria uma enorme contradição dramática na cabeça do angustiado Liam Neeson (intérprete de Oskar Schindler). Com essa produção, Steven Spielberg ganhou definitivamente o respeito da crítica cinematográfica e de Hollywood como um cineasta genial. Acredite se quiser, mas havia ainda naquele momento quem não chegara a essa conclusão.



E aí, qual é o seu Tango preferido? E por quê? Acho que já expliquei a evolução das minhas preferências. Afinal, “Todas las locuras/ Su boca que besa/ Borra la tristeza/ Calma la amargura. Si ella me olvida/ Qué importa perderme/ Mil veces la vida/ Para qué vivir”.

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