Premiações: Nobel de Literatura de 2025 – László Krasznahorkai
- Ricardo Bonacorci

- 13 de out.
- 9 min de leitura
Segundo húngaro laureado pela Real Academia Sueca de Letras, o escritor de 71 anos tem um portfólio que abrange romances, contos, novelas e ensaios e é conhecido pela prosa densa, pelas narrativas herméticas e pelos enredos melancólicos.

Na quinta-feira de manhãzinha (início da manhã no Brasil, começo da tarde na Europa), conhecemos o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2025. A surpresa dessa vez foi que não houve surpresa. László Krasznahorkai, escritor húngaro de 71 anos, era o favorito para receber a maior honraria das artes literárias. Tanto é que, na bolsa de apostas dos meus amigos mais intelectualizados (abraço, Paulinho! Beijo, Maroca!), discutíamos exatamente essa questão no início da semana passada. Na nossa concepção, a Real Academia Sueca de Letras criara, nos últimos anos, certo padrão na hora de premiar os escritores com as medalhas douradas (e cheques no valor de aproximadamente um milhão de dólares). Assim, estava mais fácil (ou menos difícil) descobrir o felizardo.
Deixe-me explicar a lógica do nosso raciocínio, senhoras e senhores. Num ano o laureado é europeu, no outro é um não europeu. Numa temporada é um homem, na outra é uma mulher. Se numa edição o vencedor é um autor de não ficção (poeta, dramaturgo, ensaísta ou músico), nos próximos dois anos os contemplados são ficcionistas (geralmente romancistas). O que não tem mudado é o perfil do Nobel de Literatura: escritores com produções textuais densas, estilos diferenciados e obras que retratam a essência humana e a realidade mundana de maneira acachapante. É esse o padrão que detectamos nos últimos cinco anos e que permanece inalterado no Pós-Pandemia.
Por isso, na redação do Bonas Histórias, as fichas estavam depositadas em Krasznahorkai. Afinal, a última vencedora fora Han Kang, uma romancista não europeia, e o penúltimo ganhador fora Jon Fosse, dramaturgo europeu. Seguindo a nossa lógica nem um pouco cartesiana, o novo laureado só podia ser um ficcionista masculino e europeu. Touché! Com essa reflexão tão sagaz da nossa parte (nos sentimos inteligentes como há muito tempo não acontecia), a chinesa Can Xue e o japonês Haruki Muraki, outros fortes candidatos ao Nobel literário, se tornaram cartas fora do baralho.
E por mais que, nas últimas semanas, alguns brasileiros mais ufanistas levantaram a lebre do nome de Milton Hatoum, autor manauara de “A Noite da Espera” (Companhia das Letras) e “Dois Irmãos” (Companhia de Bolso) e favorito para faturar o Prêmio Camões de 2027 (achamos que o ganhador em 2026 será um português), convenhamos que essa possibilidade era remotíssima. Infelizmente, os ventos que têm soprado de Estocolmo não se direcionam à literatura sul-americana, muito menos à literatura brasileira. Por mais que ansiamos por essa conquista (o Oscar já papamos, né?), ela não deverá chegar tão cedo para alguém do nosso país.

Mas quem é, afinal de contas, László Krasznahorkai, hein?! Se essa é a sua inquietação, a ideia deste post da coluna Premiações e Celebrações é justamente elucidar tal questão. Até porque, como costumo brincar, o laureado com a medalha do Nobel de Literatura é quase sempre uma figura desconhecida do grande público. Até mesmo os leitores mais assíduos e de bom gosto literário não fazem ideia de quem é o ganhador quando o nome é revelado no início de outubro. Daí a sensação de que o Nobel é o autor que devemos conhecer após sua premiação e não antes. Uma vez que entendi essa dinâmica, passei a dormir com a consciência mais tranquila. Ufa!
Voltemos à dúvida: quem é Krasznahorkai? Para começo de conversa, podemos dizer que ele é uma das mais respeitadas figuras da literatura europeia contemporânea. Depois de estudar Direito e Letras na Universidade de Budapeste, o húngaro se lançou no papel autoral aos 31 anos. Sua estreia na ficção ocorreu em 1985 com a publicação de “Sátántangó” (Companhia das Letras). Esse romance só ganhou uma edição brasileira em outubro de 2022, conforme destaquei na coluna Mercado Editorial em novembro daquele ano. A tradução foi feita por Paulo Schiller e conquistou o Prêmio Paulo Rónai de melhor adaptação oferecido pela Biblioteca Nacional.
“Sátántangó” é considerado até hoje o melhor trabalho de László Krasznahorkai e foi levado para o cinema em 1994 pelo também húngaro Béla Tarr. O filme tem nada mais, nada menos do que sete horas de duração. Vamos combinar que não é um longa-metragem e sim uma saga-metragem, né? Para quem pense que possa ser mais rápido ler o livro de 232 páginas do que ver a produção cinematográfica, aviso desde já que a obra literária é densa, o que torna sua leitura extremamente lenta.
O nome do jogo aqui é concentração máxima e busca pela interpretação nas entrelinhas. A beleza da narrativa ficcional do novo Nobel está prioritariamente nas camadas mais profundas do texto. Por tal perspectiva, confesso me lembrar bastante da ficção de Milan Kundera, outro romancista do Leste da Europa, autor de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), “A Brincadeira” (Companhia de Bolso) e “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso).

Essa é a primeira característica que descobrimos do autor recém-premiado: Krasznahorkai não é um escritor fácil. Seu estilo mescla frases longas (em alguns casos, gigantescas!), narrativas com poucos respiros aos leitores (a sensação é que nossa cabeça vai fundir), prosas com alguma musicalidade (obviamente no texto original), personagens melancólicas (a miséria do Pós-Segunda Guerra, a implementação do Comunismo, a Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim foram períodos de intenso pessimismo para a Hungria) e temáticas apocalípticas (algo bem propício para os tempos atuais, que parecem caminhar para o fim do mundo). Ou seja, suas histórias têm o tom de absurdo e flertam com o terror.
O enredo de “Sátántangó” se passa em uma pequena aldeia no rincão da Hungria. Os moradores do lugar são desajustados, desiludidos e bêbados. Até a natureza é estranha, pois chove sem parar. A tênue calma da localidade termina com a notícia da iminente chegada de Irimiás, um sujeito misterioso e com fama de bruxo que todos imaginavam já ter morrido. Ele está caminhando em direção à aldeia ao lado de seu amigo, Petrina. A chegada da dupla promove um mix de medo e alegria na sofrida população. No sentido figurado, a dupla de antigos-novos visitantes pode ser associada à perspectiva de retorno do Capitalismo ao país que queria dar um pé na bunda da União Soviética e do sistema comunista. Com esse entendimento da trama oculta, a leitura do romance se torna muito mais interessante.
Mesmo com a excelente estreia, László Krasznahorkai só alcançou o sucesso de fato com o segundo livro ficcional. Publicado em 1989, “Melancolia da Resistência” (Ainda sem tradução para o português, mas com uma edição em espanhol) tem um enredo parecido ao de “Sátántangó”. Nesse título, uma pequena e tranquila cidadezinha do Sudoeste da Hungria fica intrigada com um misterioso circo que se apresenta ali. Contrariando as lógicas mercadológico-comercial e de bom-senso, a única atração da companhia circense é a exibição de uma baleia. What?! É isso mesmo o que vocês leram, queridos leitores do Bonas Histórias. A baleia é a grande novidade dos artistas mambembes, um paradoxo curioso. A trama é narrada por um trio de personagens, cada qual com uma perspectiva sobre o circo e seu impacto sociocultural no município de ares interioranos. Não é preciso dizer que esse subtexto dialoga diretamente com o da obra de estreia de Krasznahorkai, né?!
Apesar das temáticas e do estilo narrativo parecido, as quase 400 páginas de “Melancolia da Resistência” têm tons mais contundentes de mistério, surrealismo e inconformismo do que “Sátántangó”. Assim como o romance anterior, esse livro ganhou uma adaptação audiovisual em 2000. A produção cinematográfica também foi dirigida por Béla Tarr (o nome em húngaro pode enganar, mas se trata de um cineasta e não de uma cineasta). Antes que alguém me pergunte, já vou logo avisando: o longa-metragem tem duração aceitável. São mais ou menos duas horas e meia de extensão. Portanto, não é preciso reservar dias e dias para vê-lo tal qual uma minissérie de televisão.

Outros dois títulos importantes de Krasznahorkai são “O Retorno do Barão Wenckheim” (ainda sem publicação no Brasil, apesar da Companhia das Letras ter prometido seu lançamento para breve em nosso país – a tradução será de Zsuzsanna Spiry), romance de mais de 500 páginas lançado em 2016, e “Herscht 07769” (Cavalo de Ferro), obra ficcional de 400 páginas que foi publicada originalmente em 2021 e que acabou de sair em Portugal (no Brasil ainda é inédita).
Em “O Retorno do Barão Wenckheim”, um homem volta à vila em que nascera para se despedir. À proximidade da morte e as lembranças da infância, pontos opostos de sua trajetória, o fazem refletir sobre o sentido da vida. Por sua vez, “Herscht 07769” é o livro esteticamente mais inusitado do autor. Em uma única frase (sim, o romance do tipo tijolão não tem nenhuma pontuação), o protagonista está certo de que o fim trágico do mundo está próximo. Ele chegou a essa conclusão a partir das aulas de Física em um curso ministrado para adultos. Ciente do apocalipse, a personagem tenta se comunicar com as principais lideranças europeias para avisá-las do risco que a humanidade corre.
Nesse rápido apanhado geral, deu para notar os principais temas da literatura de László Krasznahorkai: falta de esperança, decadência pessoal e social, alienação, mistério surrealista e destino trágico. De modo geral, seus romances são misturas de thriller psicológico, terror (ao melhor estilo fim do mundo) e reflexão existencialista (do tipo pessimista e melancólica). Convenhamos que não é uma ficção das mais palatáveis, né? Falo isso sem medo de ser alvo das críticas pesadas dos fãs do autor húngaro. Na minha visão superficial, os livros de Krasznahorkai são difíceis, complexos e pouco charmosos. É preciso espírito aventureiro e muita concentração para encará-los. Por isso, eles nunca fizeram parte da minha estante. Com o tempo, talvez inclua o autor húngaro nas análises do Desafio Literário. Aí sim terei mais propriedade para falar de seu trabalho.
Nesse momento, o que me incomoda mais no portfólio literário de László Krasznahorka é as frases longas (e as gigantescas também). Sinceramente, não gosto da estruturação textual ancorada na emulação do fluxo de pensamento. Sei que às vezes tal recurso pode funcionar muito bem, dependendo da proposta da obra e do tipo do narrador. Porém, não sempre, né? Aí está justamente o problema: autores que abraçam a narrativa caótica como estilo. Como alguém que cuida muito bem do próprio texto, encaro como displicência a falta de pontuação e a dificuldade do leitor em percorrer as linhas dos romances. Pode até ser preconceito da minha parte, mas não me sinto estimulado a ler, por exemplo, “Herscht 07769”, um bloco de centenas de páginas com palavras sem divisão formal.

Atualmente com 71 anos e vivendo nas montanhas de Szentlászló, no Sudoeste de seu país, László Krasznahorkai foi o segundo integrante da literatura húngara a ser condecorado com o Nobel de Literatura. O primeiro foi, em 2002, Imre Kertész, autor de “Sem Destino” (Planeta), novela lançada em 1975 e que foi traduzida para o nosso idioma apenas por editoras portuguesas. Contudo, com o novo laureado da Hungria, a tendência natural é que as casas editoriais do Brasil olhem com mais atenção e com mais carinho para os escritores da Bacia dos Cárpatos. Pelo menos é essa a nossa torcida.
Antes que alguém pense que se trate de descaso de nossas editoras para com a literatura húngara, é bom lembrar que o húngaro é um dos idiomas europeus mais complicados que existem. O motivo para isso é que ele não tem raízes nas demais línguas do continente. Ou seja, não é um idioma indo-europeu. Por isso, é tão difícil encontrar profissionais fluentes para fazer traduções e versões. Para se ter uma ideia do nível de dificuldade, o húngaro não utiliza preposição nem possui verbos no futuro. Além disso, só tem um tempo verbal no presente e um no passado (o indicativo). E vale-se da aglutinação de palavras, tal qual o alemão.
Agora imagine o trabalho de um tradutor brasileiro encarregado de adaptar para o português os livros de Krasznahorkai, um autor que, por si só, tem narrativas consideradas difíceis e densas e não é nem um pouco chegadinho a usar a pontuação formal!? Juro que não queria estar no lugar desses profissionais. Pensando melhor agora, assumir o papel de leitor dos títulos do novo Nobel de Literatura não parece a pior posição nessa equação literária.
Perigo mesmo nós corremos se tentarmos pronunciar o nome do romancista húngaro. Ainda bem que a coluna Premiações e Celebrações só produz conteúdo textual. Glória ao Pai! Por falar nisso, alguém aí saberia me dizer como se fala o nome de László Krasznahorkai, hein?! E eu pensando que era difícil pronunciar Abdulrazak Gurnah, Svetlana Alexijevich e J. M. Coetzee...
Com essa dúvida nada edificante, me despeço. Até a próxima, senhoras e senhores.
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