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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 43 anos, mora em Buenos Aires e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

  • Foto do escritorRicardo Bonacorci

Talk Show Literário: Dirceu de Marília

Na quinta entrevista de 2022, Darico Nobar conversa com o eu lírico de Marília de Dirceu, livro clássico de Tomás Antônio Gonzaga e do Arcadismo Brasileiro.

Talk Show Literário: Dirceu de Marília - Marília de Dirceu - Tomás Antônio Gonzaga

[Após a vinheta do programa, as câmeras de TV mostram dois homens sentados lado a lado em cadeiras simples. Eles estão em uma construção de estilo colonial com paredes brancas. Ao fundo, é possível ver, através da abertura de uma ampla porta oval, o azul do mar e o forte sol que ilumina a paisagem].


Darico Nobar: Oi, amigos do Brasil!!! [Faz aceno entusiasmado com a mão esquerda]. Antes que alguém estranhe a dinâmica de hoje, preciso dizer que este Talk Show Literário está diferentão. Ao invés de uma entrevista ao vivo, nossa atração está sendo gravada. E ela não ocorre nos estúdios no Rio de Janeiro com a tradicional plateia e com a nossa quase inseparável banda. Eu vim até a belíssima Ilha de Moçambique, ao nordeste de Lourenço Marques, para conversar com Dirceu. Desde que foi exilado, ele vive aqui na África. Como nosso convidado não pode colocar os pés em Vila Rica nem em qualquer povoado do canto português da América e da Europa, viajei para cá para prosearmos tranquilamente. Obrigado por me receber, Dirceu. [Vira-se para o lado com as palmas da mão para o alto]. É muito bom te reencontrar.


Dirceu de Marília: Que feliz encontro! Tua companhia me dará mais alegria do que a minha, presumo, a ti. [Depois de falar olhando nos olhos do entrevistador, volta-se diretamente para a câmera secundária que capta a cena]. Grato então por esta união de seres conflagrados pela inocência e pela paixão literária. Oh! Bem-aventurados somos! Ditosa condição, ditosa gente, ditosa trela!


Darico Nobar: Vamos começar nosso bate-papo falando de sua condenação em Minas. E de seu exílio em Moçambique, é claro. O que você tem a nos dizer, Dirceu?


Dirceu de Marília: Não praguejo, Darico, não praguejo. A justiceira mão dos homens que lança os ferros não traz debalde a vingadora espada. Deve punir os erros. Virtudes de juiz, virtudes de homem. As mãos se deram e em meu peito moram. Manda prender ao réu austera a boca, mas meus olhos choram. Se à inocência denigre a vil calúnia, que culpa aquele tem, que aplica a pena? Não é o julgador, é o processo. E a lei, quem nos condena.


Darico Nobar: Você fala de um jeito que, confesso, às vezes eu não entendo... Afinal, você é inocente ou é culpado das acusações recebidas?


Dirceu de Marília: Tenho por mim a inocência. Tenho por mim a razão.


Darico Nobar: Então você acredita que um dia será perdoado e, quem sabe, poderá voltar à Vila Rica?


Dirceu de Marília: Muda-se a sorte dos tempos. Só a minha sorte não. [Após cinco segundos em silêncio, continua]. Não sabemos os fins com que nos move a sábia oculta Mão da Providência. De Jacó ao bom filho, os maus queriam matar. De conselho o muraram. Como escravo o venderam. Quem sabe o destino hoje, ó amigo, me prenda. Só porque nisto de outros mais danos me defende? Pode ainda raiar um claro dia. Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro. E beijo a Santa Mão, que assim me guia.


Darico Nobar: Com certeza a Marília está nos assistindo lá no Brasil. O que você gostaria de falar para sua antiga amada?


Dirceu de Marília: Eu tinha um coração maior que o mundo! Ela, formosa Marília, bem o sabia. Um coração... e bastava. Onde ela mesmo cabia. Assim vivia... Naquele estado, em que me via, podia cantar à minha pastora. Cumpria o seu desejo. E ao que me restava, supria a paixão e a arte. Hoje em suspiros o canto mudo. Sem o amor de Marília, se acabou tudo.


Darico Nobar: Então você não acredita que um dia terá novamente Marília em teus braços?


Dirceu de Marília: Não vês que sou um velho respeitável, que à muleta encostada apenas mal se move e mal se arrasta? Oh! quanto estrago não me fez o tempo! O tempo arrebatado que o mesmo bronze gasta. Enrugaram-me as faces e perderam meus olhos a viveza. Voltou-se o meu cabelo em branca neve. Já me treme a cabeça, a mão, o queixo. Não tenho a beleza das belezas que tive. Assim sou hoje, Darico. Que o impiedoso tempo para todos corre. Os dentes caem e os meus cabelos, ah!, sentem os danos. A solução agora só é a morte e a desilusão.


Darico Nobar: Como fala bonito este homem, Santo Deus. Até as palavras tristes e amargas se transformam em uma prosa elegante e poética. Você se considera um poeta, Dirceu?


Dirceu de Marília: Eu, Darico, não fui nenhum poeta. Sempre fui honrado pastor de aldeia. Vestia finas lãs e tinha sempre a minha choça do preciso cheia. Tiraram-me o casal e o manso gado. Hoje não tenho, a que me encoste, nem um só cajado. De falar, Darico, à formosura, não se podem livrar humanos jeitos. Adornam os heróis, mesmos os mais brutos. Os méritos são de Cupido, sujeito traiçoeiro e vil. Apresenta-nos a beleza sem a luz da razão. E se tem discurso bonito, na certa pisa a lei que nos ditou a natureza.


Darico Nobar: Mudemos um pouquinho de assunto, tá? [O convidado balança a cabeça para cima e para baixo]. O que você tem feito de bom aqui na África, meu amigo?


Dirceu de Marília: Eu não mais reclamo a falta de liberdade em si. Estando eternamente preso ao mundo dos homens ou às páginas da literatura, sofro só pelas lembranças do passado e pela grade sufocante do presente. Que a mão que me falta do lavrador, ainda padeço a viva dor. Mas quando sobe à minha ideia a memória que ela ficou lá naquela aldeia, de mil cuidados e mágoa cheia, das paixões minhas não sou mais senhor. Eu já não sofro a viva dor de viver de amor.


Darico Nobar: Essas são palavras um tanto pessimistas, né?!


Dirceu de Marília: Natural quando eu produzo estas ideias, Darico, à penumbra de vis cadeias. Dou um suspiro e corre o meu pranto. E, ainda bebendo as lágrimas tristes, de novo canto – Sou da constância um vivo exemplo. E a vós, ó povo agora distante, honrarei meus dias de amor assassinado pelas ordens dos homens e pelo capricho do tempo.


Darico Nobar: Entendo o quão frustrante pode ser a vida no exílio, longe da família, dos amigos e de Marília. Mas conte-nos, por favor, como era sua rotina em Vila Rica antes dos infortúnios da Conjuração. Você era feliz? O que fazia exatamente?


Dirceu de Marília: Era bom, caro Darico, era bom ser dono de um rebanho que cobria monte e prado. Eu, amigo, não era vaqueiro que vivia de guardar alheio gado, de tosco trato, de comportamento grosseiro, dos frios gelos e dos sois queimados. Levei-me a sementeira, muito embora o rio sobre os campos levantados acabava, acabava a peste matadora. Sem deixar uma rês, o nédio gado. Já destes bens, amigo, não precisava. Nem me a cega paixão que o mundo arrastava. Para viver feliz, bastava-me Marília que os olhos moviam e me dava um riso. Graças à Marília bela, graças à minha gentil pastora!


Darico Nobar: Podemos dizer que foi paixão à primeira vista entre você e Marília?


Dirceu de Marília: Minha alma, que tinha liberdade à vontade, depois sentia amor e saudade. [Fala agora olhando para o alto]. Os sítios formosos já não me agradavam mais. Ah, não se mudaram?! Mudaram-me os olhos. De tristes os olhos, de tristes que estou. Eram estes os sítios? Eram estes, mas eu mesmo não era mais. Marília, me chamas? Espera que eu vou!


Darico Nobar: Você fala como um homem muuuuito apaixonado! Vou interpretar sua resposta como um sim à minha pergunta.


Dirceu de Marília: Infelizmente tudo passa. A sorte deste mundo é mal segura. [Continua a se expressar como se estivesse pensando em voz alta ou em um monólogo]. Se vem depois dos males a ventura, vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos deuses sujeitos ao poder ímpio Fado. Apolo já fugiu do Céu brilhante, já foi pastor de gado. A devorante mão da negra morte acaba de roubar o bem que temos. Até na triste campa não podemos zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulcro, que seus avós erguem descansado? Qual no campo lhe arranca os brancos ossos ferro do torto arado? Ah! Enquanto os destinos impiedosos não voltam contra nós a face irada, façamos, sim façamos, doce amada os nossos breves dias mais ditosos. Um coração que frouxo a grata posse de seu bem diferente. A ela, Marília, a si próprio rouba. E a si próprio fere.


Darico Nobar: Acho que entendi. Ou não entendi nada. [Faz uma careta envergonhada e um tanto tímida]. Alterando ligeiramente o tema de nossa conversa, é verdade que você tinha fama de possuir um coração de pedra antes de conhecer Marília?


Dirceu de Marília: Oh, cego Cupido, um dia, com seus gênios falava do modo que lhe restava de cativar até mesmo a mim. Depois de larga disputa, um dos gênios mais sagazes, este conselho lhe deu – As setas mais aguçadas, como se em rocha batessem, dão no peito e descem todas quebradas ao chão. Só as graças de Marília podem vencer um tão duro e tão isento coração. Se um dia capturar os sentimentos de Dirceu, na certa a paixão de todos os homens já arrefeceu. Assim, sou fruto e produto das experiências do Cupido. Não tive apelação nem salvo-conduto. Sou a felizarda vítima de suas artimanhas da elucubração.


Darico Nobar: E por que publicar uma obra poética com sua história de amor?


Dirceu de Marília: Numas noites sossegadas, velhos papéis eu revolvia. E para ver do que se tratavam, um por um a todos lia. Eram cópias emendadas de quantos versos melhores eu compus na tenra idade a meus diversos amores. Neles trazia justas queixas contra as venturas formadas, os cantos de excessos mal aceitos e as doces promessas quebradas. Vendo sem-razões tamanhas, eu exclamava transtornado às finezas tão malfeitas! Por que relíquias não ficam e os intentos pôr no fogo, hein? Então antevi que o Deus cego, com semblante carregado, assim me falava e recriminava o meu intento acertado – Queres queimar esses versos? Essas liras não te foram inspiradas por Cupido? Assim, à queixa respondi – Depois do amor que me deres, a minha Marília bela, devo guardar umas liras que são em honra dela.


Darico Nobar: Dirceu, muito obrigado por esse dedo de prosa que você nos concedeu. [Entrevistador e entrevistado se cumprimentam com um forte aperto de mãos]. Acredito que os fãs do Talk Show Literário adoraram este programa especial.


Dirceu de Marília: Que diversão que foi, Darico, as horas que passei na discussão sugerida, dessas horas felizes passadas na companhia da gente de minha pátria querida.


Darico Nobar: Ficamos por aqui, pessoal. [Olha agora diretamente para a lente da câmera principal]. Agradecemos mais uma vez a audiência e desejamos uma ótima noite a todos. Até semana que vem com mais uma entrevista exclusiva com os memoráveis protagonistas da literatura brasileira. Até lá!


[O som ambiente é cortado e entra uma música instrumental. Ao mesmo tempo, a imagem da câmera dá zoom out e vemos os dois homens conversando animadamente na construção à beira-mar. Aí a tela fica escura e entra o top de cinco segundos para o próximo programa].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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