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  • Talk Show Literário: Salvatore Melli

    [O sexteto musical toca Tarantella Napoletana. A plateia acompanha a canção batendo palmas. O apresentador, no centro do palco, atrás de sua mesa, esboça acompanhar a sincronia sonora. Porém, ele para, toma um gole de água de sua caneca e espera o encerramento da música, que não demora]. Darico Nobar: Boa noite, Brasil! O Talk Show Literário de hoje começou em ritmo italiano. Che Bello [fecha os dedos da mão direita, ergue o pulso e balança-o enfaticamente]! E para não perdermos o clima da terra do meu nonno e da minha nonna, vamos chamar ao palco um dos italianos mais antigos da literatura brasileira. Ele imigrou para o Brasil no início do século XX e mora, desde então, na cidade de São Paulo. Com vocês: Cav. Uff. Salvatore Melli! [O público aplaude o convidado enquanto ele caminha ao sofá posicionado ao lado da mesa do entrevistador]. Salvatore Melli: Buena sera! [Envergonhado, o senhor de barba rala e de cabelos brancos acena para a plateia em sinal de agradecimento à receptividade]. Ciao, Sr. Darico [entrevistado e apresentador se cumprimentam com um aperto de mãos]. Molto piacere in conoscerlo. Darico Nobar: Ciao, seu Salvatore. Obrigado por vir ao nosso programa. Gostaria de começar perguntando como está o casamento de Adriano e Tereza Rita. Eles estão bem? Continuam casados? Salvatore Melli: Una bellezza da vedere! Rita é una bravissima ragazza, dedicada, amorevole e trabalhadora. Não tinha como un matrimonio como este não dar certo, capisce? Driano ama moltissimo la sua principessa. [Acende um charuto]. Eles sono molto felizes. Darico Nobar: Interessante! Achei que pudessem ter problemas com os sogros... Digo, com os pais de Tereza Rita. É sabido que eles não eram muito favoráveis ao casório da filha com o seu filho, né? Salvatore Melli: Sì, principalmente il portoghese. No inizio, porca miseria, il moglie do conselheiro José Bonifácio parlava: “Filha minha não casa com filho de carcamano!”; e “Minha menina não namora com o palestrino da feira!”. Non solo se casou como Tereza Rita teve cinque carcamaninhos de mio Driano [apoia as costas no sofá e solta uma gargalhada que parece sair da barriga]. Quasi tutti estão lavorano con me na feira. Sono buene braços para o lavoro. Darico Nobar: O Adriano continua como gerente da fábrica que o senhor montou com o conselheiro? Salvatore Melli: Oh, no [balança o charuto para os lados indicando a resposta negativa]. A fábrica da Rua Barra Funda faliu há molto tempo. Quasi tutte negócios dos vecchi italiani já fecharam le porte. Não foi apenas a minha fábrica. As Indústrias Matarazzo, a Quitanda Tripoli Italiana, a oficina do Ugo, a G. Gasparoni & Filhos, o cafezal Santa Inácia, o Armazém Progresso de São Paulo, a Banca Francese ed Italiana per l'America del Sud e o Salão Mundial non esistono più. Un vero peccato! Darico Nobar: O que aconteceu com sua fábrica? Salvatore Melli: Uh, doutor, mi pare... mi pare que la società entre portoghese e italiani non pode funzionare. Acqua e vino non se misturam. Faccio negócio com brasileiro, até com ebrei, ma no faccio nunca mais società com il portoghese. Darico Nobar: Por isso o senhor continua com a banca de batatas na feira? Salvatore Melli: Certo. Ora nostras bancas estão espalhadas por tutta São Paulo. É una cosa di famiglia, cosa da una vera famiglia italiana, capisce? Non pode andare storto. Darico Nobar: O senhor continua à frente dos negócios? Salvatore Melli: No. Non sono più abbastanza grande per quello. Ora que cuida de tutto é o Driano, mio buon figlio. Ele está aqui oggi, seu Darico. Darico Nobar: Onde? [Olha para a plateia procurando alguém]. Chame-o aqui, por favor. Gostaria de falar com ele também. Salvatore Melli: Subito! Driano! [Olha para um rapaz sentado no auditório]. Vieni qui que o doutor quer parlarti. Andiamo! [O filho se levanta e vai até o palco]. Darico Nobar: Muito prazer. [Os dois se cumprimentam]. Sente-se ao lado do seu pai, Adriano. Aí mesmo. Estamos conversando um pouco sobre as coisas de sua família, sobre os negócios de vocês. Vamos falar agora um pouco sobre o local onde vocês moram. Diga-me, Adriano, São Paulo hoje é uma cidade muito diferente daquela que vocês conheceram no início do século XX? Adriano Melli: Êta salame de mestre! Nasci e cresci em uma época em que as chaminés das fábricas apitavam. Os bondes bamboleavam. Os salões de dança eram um bolo tremelicante. A gurizada jogava bola de capotão no pavimento. As meninas de ancas salientes, umas tetéias, riam porque os rapazes contavam episódios de farra muito engraçados. Os professores da Faculdade de Direito citavam Rui Barbosa na escadaria para os transeuntes. O Palmeiras era Palestra e seu estádio se chamava Parque Antártica. Ser acendedor da Companhia de Gás e cobrador de lotação eram profissões respeitadas. Peixe se pegava no Rio Tietê porque o Pinheiros era muito longe. Assassinatos e crimes graves, quando aconteciam, eram notícias de primeira página nos diários. Carrocinhas de padeiro derrapavam nos paralelepípedos da Rua Sousa Lima. Passavam cestas para a feira do Largo do Arouche. Garoava na madrugada roxa. Darico Nobar: Quanto saudosismo! Adriano Melli: E falo mais, Darico. O povo pegava-se em discussão sobre qual dos dois era o melhor - Friedenreich ou Feitiço. Na Rua Oriente, a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro ou de casamento. Os chapéus enfeitavam os cavalheiros. Meninas enlaçadas passeavam na calçada. O lampião de gás piscava pra elas. A locomotiva fumegando no carrinho de mão apitava amendoim torrado. O Brodo passava cantando. Buick era automóvel da moda. Todo domingo tinha baile na Sociedade Beneficente e Recreativa do Bexiga. Por falar no bairro, o Armazém Progresso de São Paulo era célebre por causa dos seus anúncios ousados. Enterro era procissão. O Juventus da Mooca era clube de massa. E jogo de bocce era esporte sério, rendia reportagens na Gazeta Esportiva, que era ainda suplemento, não jornal. Darico Nobar: Qual era o seu lugar favorito da São Paulo no início do século XX? Adriano Melli: O Centro de São Paulo. A Rua Barão de Itapetininga era um depósito sarapintado de automóveis gritadores. As casas de modas despejavam nas calçadas as costureirinhas que riam, falavam alto, balançavam os quadris como gangorras. A Praça da República e o Largo Santa Cecília, atrás da igreja, eram roteiros dos enamorados aos domingos. No Largo Municipal, o pessoal evoluía entre as cadeiras do bar e as costas protofônicas de Carlos Gomes para divertimento dos desocupados parados aos montinhos. Darico Nobar: Que lindo relato, Adriano! Suas palavras davam uma ótima ambientação para um romance histórico. Você já pensou em ser escritor, produzir livros? Adriano Melli: Eu prefiro as matérias jornalísticas, Darico. Entre os jornais e os livros, opto pelo artigo de fundo ao prefácio. E entre os contos e as crônicas, sou mais o segundo. Darico Nobar: Também adoro as crônicas e não passo um dia sem ler jornal. Acho que somos espécimes em extinção [os três homens no centro do palco riem]. Diga-me outra coisa, Salvatore. Por que muitos imigrantes italianos continuam falando sua língua natal mesmo já estando há décadas no Brasil? Salvatore Melli: Per Bacco, doutor! Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. Muitas palavras sono uguali. Portoghese e italiano sono línguas sorelle. Tutti paulistanos capiscono. No Brás, na Mooca, no Bexiga, na Barra Funda, na Pompeia, na Vila Romana, parlamos soli assim. Se o signore quiser, posso tentar cambiare. Io resto à sua disposição. Ma pense bem! Credo que os cariocas podem capire. Darico Nobar: Sim, conseguimos entendê-lo perfeitamente, meu amigo. Todo brasileiro que se preze já fez um curso básico e informal de italiano ao assistir as novelas da Rede Globo e ao ouvir Peppino di Capri e a Rita Pavone. Não se preocupe. No meu caso, sou paulistano da Lapa. Nasci ouvindo e falando o paulistanês, bello! Salvatore Melli: Pelo menos parlamos mezzo a mezzo - mezzo portoghese e mezzo italiano. Pior são os coreani e giapponesi da Liberdade, que non capiamo niente. Impossibile parlare com eles. Darico Nobar: A língua natal é uma das principais referências culturais e sociais de um indivíduo. Não dá para abandoná-la completamente. Salvatore Melli: Mi ricordo do amico Tranquillo Zampinetti, barbiere da Rua do Gasômetro. Conheceu o Zampinetti, mio caro signore? Darico Nobar: Não pessoalmente. Apenas ouvi falar dele. Salvatore Melli: Il barbiere Zampinetti tinha um desgosto, povero! Digusto patriottico e domestico. Lorenzo e Bruno, bambini ingrati, não queriam saber de parlare italiano. Non brincando. A casa dele era sempre in guerra. Zampinetti urlato com Lorenzo. “Stai attento que ti rompo la faccia, figlio d'un cane sozzaglione, che non sei altro!”. Porque taliano urla sempre, brasileiro parla. Só de sentire o pai, Lourenzo ficava brasileiro jacobino, de cantare o hino nacional com as mãos no cuore. Il ragazzo era il più irritante e rispose. “Pode ofender que eu não entendo!”. Cada surra che ho appena visto. Darico Nobar: Depois de tantos anos no Brasil, o que o senhor acha que falta ao nosso país, seu Salvatore? Salvatore Melli: La gente já parlava lá no Centro Político do Brás - do que la gente bisogna no Brasil, bisogna mesmo, é d'un buono governo, mais nada! Darico Nobar: Concordo em número, gênero e grau, seu Salvatore. Pessoal, espero que vocês tenham gostado do programa de hoje [olha para a tela da câmera 3]. O episódio de hoje do nosso talk show foi uma homenagem aos ítalo-brasileiros de São Paulo. Adriano Melli: Já acabou?! Nossa Senhora, como passou rápido. Darico Nobar: Entrevista boa é assim – o tempo voa. Obrigado por terem vindo, seu Salvatore e Adriano. Adriano Melli: Somos nós quem agradecemos, Darico. Salvatore Melli: Addio a tutti. [Acena para a plateia, que aplaude os convidados]. Darico Nobar: Na semana que vem, voltaremos com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva com uma grande personagem da literatura brasileira. Não percam os próximos episódios do Talk Show Literário, o melhor programa da televisão brasileira. Até lá! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Talk Show Literário: Hillé

    Darico Nobar: Boa noite! O Talk Show Literário de hoje recebe uma personagem inusitada da nossa literatura. Seu nome é Hillé, mas ela é mais conhecida pelo apelido. Com vocês, a Senhora D! [A plateia aplaude a entrada de uma senhora com cabelos ralos e brancos. Caminhando curvada, ela tem o apoio de uma enfermeira em cada braço. Após colocar a entrevistada em uma posição confortável no sofá e lhe ajeitar o vestido branco, a dupla de enfermeiras deixa o palco]. Darico Nobar: Antes de mais nada, gostaria de saber se devo chamá-la de Hillé ou se posso falar Senhora D? Hillé: Hen? [Faz uma careta que assusta o apresentador]. Darico Nobar: Nossa! [Tenta disfarçar o sobressalto tomando um gole de água]. A senhora deve ter uma preferência, é claro. De qual jeito prefere ser chamada? Hillé: Você sabe que não compreendo. Darico Nobar: Não compreende o quê? Hillé: O destino. Um dia vou compreender, Ehud. Darico Nobar: Não sou o Ehud, sou o Darico. Hillé: My name is Hillé, mein name Madame D. Ehud is my husband, mio marito, mi hombre. O que é um homem? Darico Nobar: Agora quem ficou sem entender fui eu. Hillé: Vamos falar de homem, sim senhor. Tão inteligentes e modernos, mas com grandes cus sentados na bufunfa. Torpes. Dois ou três controlando o mundo, o ouro saindo pelos desodorizados buracos. É a diarreia enriquecendo o planeta. Darico Nobar: A senhora está falando sozinha? Hillé: Sozinha. Assim que Ehud morreu, foi difícil viver no vão da escada. Há um ano quando ele ainda vivia, quando tomei aquele lugar da casa, podia ouvir suas palavras, ele subindo as escadas. Quando foi embora, morreram também os peixes do pequeno aquário. Então, recortei dois peixes pardos de papel. Eles estão comigo aqui [tira de dentro do vestido uma imagem de tubarão]. Veja. São meus companheiros agora. Darico Nobar: A senhora ainda vive fechada em casa, sozinha e no escuro? Hillé: Ah? Darico Nobar: A senhora está me ouvindo, Hillé? Hillé: Sim. Darico Nobar: A senhora prefere que eu pare a entrevista um pouquinho para tomarmos uma água, respirarmos um pouco? Hillé: Não venha, Ehud. Posso fazer o café, o roupão branco está aqui, os peitos não caíram. É assustador até, mas não venha, Ehud. Não posso dispor do que não conheço. Não sei o que é corpo, mãos, boca, sexo, não sei nada de você, Ehud. [Em um movimento surpreendente, a convidada pega a mão esquerda do entrevistador e a coloca em seu ventre]. A não ser isso, de estarmos sentados agora no degrau da escada. Isso de me dizer palavras, nunca soube nada. É isso mesmo, nunca soube! Darico Nobar: Com licença, Hillé [puxa com força até conseguir ter a mão livre]. Hillé: Quer dizer que nunca mais a gente vai meter? Darico Nobar: Não! Já falei, Senhora D, não sou o Ehud. Ele está morto! Hillé: O que quer dizer isso tudo? Você não é Ehud? Por que você não está mais aqui? O que significa estar morto? O traço, a fita mínima na bochecha pálida. O lustro encontrou outro rosto? Estar morto. Se Ehud foi algum dia, continua sendo. Se não foi, nunca seria. Mas antes de ser Ehud, não era e então depois foi não sendo? As horas. Êxtase. Secura. Ardi diante do lá fora. Bebi o ar, as cores, as nuances. Parei de respirar diante de uns ocres, umas fibras de folha, uns pardos pequeninos, umas plumas que caíam do telhado, branco-cinza, cinza-pedra, cinza-metal espelhado. E tendo visto, tendo sido quem fui, sou quem agora? Como foi possível ter sido Hillé, vasta, afundando os dedos na matéria do mundo, e tendo sido, perder essa que era, e ser hoje quem sou? Quem a mim me nomeia o mundo? Estar aqui no existir da Terra. Nascer. Decifrar-se. Aprender a adequada linguagem [coloca a mão na testa]. Acho que não estou bem, Ehud. Darico Nobar: Estou vendo... Hillé: Ninguém está bem no fim das contas, né? Estamos todos morrendo. Darico Nobar: Está me ouvindo, Senhora D? Hillé: Sim. Darico Nobar: Quer tomar alguma coisa para se acalmar - água, chá, café? Hillé: Mania besta de ficar falando me faz um café, pedi um café, passa um cafezinho agora. Darico Nobar: Não pedi nada. Pelo contrário, estou oferecendo à senhora? Hillé: Ah, Ehud. Você sempre manso, de chinelos pela casa, o jornal na mão, à espera de um café que eu nunca fiz. Darico Nobar: Voltemos à questão da casa, Senhora D. Por que a senhora fecha sempre as janelas? Hillé: E por que deveria abri-las? Darico Nobar: E por que, quando abre, assusta os vizinhos? Soube que a criançada do bairro grita de medo e sai correndo. Hillé: O corpo é quem grita esses vazios tristes. Darico Nobar: Vazios tristes?! Hillé: Porque o corpo está morto. Darico Nobar: E a alma? Hillé: A alma é o hóspede da Terra. Procura e te olha os olhos agora. E te vê cheio de perguntas. Por que me faz tantas perguntas, Ehud? Darico Nobar: Não sou Ehud, já disse. Sou Darico Nobar. Sou apresentador de televisão. Este é o meu programa de entrevistas e meu trabalho é fazer perguntas. Hillé: Então rua. RUA! Fora da minha casa já. Despacha-te homem se não fores o meu Ehud. Darico Nobar: Vai ficar difícil, Senhora D. Não estou na sua residência. Estou no estúdio da TV... Hillé: Quer dizer que você não morreu? Darico Nobar: Que eu saiba, até agorinha não. Hillé: Não morreste do acúmulo de perguntas de sua mulher? Darico Nobar: Não sou casado, Senhora D. Hillé: Subíamos juntos os degraus da mesma escada. A cama. O gozo. O ímpeto. Depois seu sono e sua tranquilidade, Ehud. Seus débeis sonhos? Modéstia. Humildade. Adorava quando você gritava: porra, esquece; segura meu caralho; e te amo, sua louca. Bonito Ehud. Afilado, leve, caminhava de um jeito como se soubesse que encontraria tudo nos seus lugares certos. Era como se Ehud morasse no Tempo ou se Ehud o domasse. Agora me diga. Por que me escolheste? Por que pensaste que eu encontraria as respostas? Darico Nobar: Eu a escolhi porque a senhora é uma personagem importante da literatura brasileira. Queria trazer uma criação de Hilda Hilst para o programa. Hillé: Sabia que devia haver outras mulheres na sua vida – Antônias, Letícias, Lídias, Açucenas, mil Marias, do Carmo, da Aparecida, da Graça, Maria Lúcia, Cristina... Esta Hilda eu não conheci. Era bonita? Darico Nobar: Era linda! Mas a senhora não conheceu mesmo a Hilda Hilst? Hillé: Quê? Darico Nobar: Hil-da Hil-st?! [Fala quase gritando, ressaltando cada sílaba]. Hillé: Não te escuto. Darico Nobar: Santo Deus, eu percebi que havia algo de errado. A senhora não me respondeu nenhuma pergunta direito. Hillé: O quê? O que, meu Deus? Não te escuto. Darico Nobar: E só agora que me diz isso. Hillé: Hen? Darico Nobar: O que eu faço produção? [Coloca o dedo na orelha tentando escutar o que o diretor fala no ponto eletrônico]. Hillé: Não, eu não escuto nada. Menti. Menti, sim, quem nunca faltou com a verdade. O barulho aqui é insuportável! Darico Nobar: Está bem... Que barulho? [Deixa de falar com o diretor e volta repentinamente a interagir com a convidada. Parece que só ouviu a última frase dita por ela]. O estúdio está em silêncio. A plateia está quietinha. Não tem barulho nenhum. Hillé: Não posso. As coisas pulsam, tudo pulsa. Há sons o tempo inteiro. Tu não ouves? Os sons da cor, teu som, Ehud. Darico Nobar: Não tem jeito. Precisamos terminar antes que descambe de vez. Hillé: Mentira, engodo. Chega de hipocrisia. O fim é a morte. Asquerosa, inchada, vermes, fosso. Então, farei parte de ti, oh destino de todos? Darico Nobar: Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. [Olha para câmera 2]. Voltamos na semana que vem com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva com uma grande personalidade da literatura brasileira. Até lá! [As duas enfermeiras voltam ao palco ao som dos aplausos do público presente no auditório. Elas abraçam a convidada, ajudando-a a se erguer do sofá]. Hillé: Depois da morte, os bichos, nem fumo pra pito, nem meteção nem nada. Depois da morte, aquela fome, aquela escuridão. Tu acreditas em alma de defunto, Seu Darico? Darico Nobar: A senhora me chamou pelo meu nome?! Não acredito! Mas agora terminou o programa... Hillé: Não me culpe pelos seus erros. Foi você quem colocou um ponto final em tudo. [Retira-se em definitivo do palco tendo o suporte das enfermeiras]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. 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  • Talk Show Literário: José Pinagé de Vasconcelos

    Darico Nobar: Boa noite, Brasil! Plateia: Boooooooa noooooooite!!! Darico Nobar: Êta galera mais animada esta do Talk Show Literário! [Após falar para a câmera 2, vira-se na cadeira e passa a olhar para a lente da câmera 3]. Se vocês estão assim antes do programa começar, fico imaginando depois que o convidado entrar. Saibam que nossa entrevista de hoje será muito especial. O papo será com uma das personagens mais cativantes da literatura brasileira. Com vocês, Zezé! [O público no auditório explode em palmas e gritos de empolgação quando um menino mirrado de aproximadamente cinco anos sobe ao palco. Ele está de terninho verde com risca branca. Tem um coletinho que abotoa no pescoço. Embaixo, camisa social e gravata de laço. Nos pés, sapato de verniz, meias brancas e ligas de elástico. No cabelo louro, nota-se a aplicação de brilhantina]. Darico Nobar: Olá, Zezé. Tudo bem? José Pinagé de Vasconcelos: Tudo ótimo. E com o senhor? [Apesar da pequena estatura, um pulo endiabrado o colocou em cima do sofá]. Darico Nobar: Melhor agora que você chegou, meu amiguinho. E como você está chique, hein? Acho que nunca vi um guri tão elegante! José Pinagé de Vasconcelos: Essa roupa foi a mamãe que comprou. Era do Nardinho, o sobrinho da Pata-Choca. A gravata de laço foi a Lalá que fez com um pedaço de seda velho. Ficou bom mesmo? [O menino se olha timidamente]. Darico Nobar: Mas é claro que ficou. Ele não está na maior estica, pessoal? Plateia: Lindo. Lindo. Lindo! [Os gritos vêm de todos os cantos do auditório]. Darico Nobar: Diga-me, Zezé, o que você quer ser quando crescer? José Pinagé de Vasconcelos: Poeta. Darico Nobar: Hummm. Interessante. Mas por que poeta? José Pinagé de Vasconcelos: Para sair em retrato na revista e para ir em programa de TV. Darico Nobar: Então teremos um artista? José Pinagé de Vasconcelos: Pode ser também. O pessoal lá em casa diz que o que mais faço é arte. É arte o dia inteiro. Darico Nobar: Não é desse tipo de arte que estou me referindo. [Um sorriso paternal surge em seu rosto]. Um poeta é um artista. José Pinagé de Vasconcelos: Eu também quero ser ator. Ainda vou trabalhar no cinema e virar figurinha de estrela. Quero fazer filme em que o mocinho anda de cavalo ensinado que nem o Tom Mix. O senhor gosta dos filmes de Velho Oeste? Darico Nobar: Claro! Quando garoto eu só assistia filmes de cowboy com meu avô. Era um melhor do que o outro. José Pinagé de Vasconcelos: Seu Darico, o Fred Thompson era mesmo mudo? Darico Nobar: Ah, Zezé [dá uma risada estridente]. Não era ele quem era mudo, era o cinema. Os atores e atrizes de antigamente conseguiam falar, mas naquela época não havia tecnologia para colocar imagem e som ao mesmo tempo nos filmes. José Pinagé de Vasconcelos: O Tio Edmundo me falou que o Buck Jones era gago. Por isso não queria falar nos filmes. Tinha vergonha. Darico Nobar: Seu tio não devia meter tanta minhoca na sua cabeça. José Pinagé de Vasconcelos: Ele não mete, não. Ele é sábio. E bonzinho. O Tio Edmundo me ensina as coisas. Foi ele quem me deu o Raio de Luar de presente. Até hoje, ele só me deu uma palmadinha e não foi com força. Darico Nobar: Por falar nisso, você apanha muito dos adultos? José Pinagé de Vasconcelos: Os adultos são atarantados. Por qualquer coisinha boba, já partem para os cocorotes. Estão sempre dizendo que a gente atazana a paciência deles. E a culpa é sempre do menino do seu Paulo. Aí acabam a discussão com grandes chineladas na bunda. Bunda não, ná-de-gas. Foi assim que o Portuga me ensinou a falar. Ná-de-gas. E as ná-de-gas favoritas são as minhas [aponta com os dedos indicadores para a região]. O chinelo come solto lá em casa. É cada sova de entortar o esqueleto. Plateia: Ohhhhhhhhhh. Darico Nobar: Você deve ser muito levado, não é? José Pinagé de Vasconcelos: Seu Darico, eu juro que tento não irritar os adultos, mas no momento que o capeta se junta à brincadeira, não há nada mais gostoso do que fazer arte... Parece que o diabo fica soprando as coisas no meu ouvido. Aí é um tal de dizer que o Zezé tá com o diabo no sangue. Darico Nobar: Agora quero saber uma coisa importante, Zezé: é verdade que você já sabe ler? José Pinagé de Vasconcelos: Sei, mas ninguém acredita. Darico Nobar: Não é possível! Você só tem cinco anos. Imagino que você tenha estudado com alguém. José Pinagé de Vasconcelos: Não estudei nada. Ninguém me ensinou. Só se foi o diabo que a Jandira diz que é meu padrinho, que me ensinou dormindo. Darico Nobar: Ninguém aprende essas coisas sozinho, Santo Deus! José Pinagé de Vasconcelos: Juro. Eu sei ler tudinho. Pergunta para a D. Cecília Paim. Ela disse que eu sou quem melhor lê na classe. O melhor leitureiro da minha idade. E olha que ela pensa que tenho seis anos. Estou tão adiantado que sempre gazeteio as aulas de terça-feira. Darico Nobar: Será que você não aprendeu diretamente da Cartilha? Soube de casos assim, de garotos autodidatas. José Pinagé de Vasconcelos: O que é um autodidata? Darico Nobar: É alguém que aprende sozinho. José Pinagé de Vasconcelos: Não sei se aprendi sozinho. Eu acho que já sabia ler. Será que o... Como chama a palavra? Darico Nobar: Autodidata. José Pinagé de Vasconcelos: Isso mesmo! Será que o autodidata já não sabia e, por isso, não precisou aprender com ninguém. Darico Nobar: Nunca tinha pensado nesta possibilidade. É uma boa teoria. Sabe que você um garotinho muito esperto?! [De repente, o menino fica calado, olhando para o vazio]. Zezé? Zezé? Tudo bem? [O garoto continua mudo]. O que é que você tem? José Pinagé de Vasconcelos: Nada. Tava cantando. Darico Nobar: Cantando?! José Pinagé de Vasconcelos: É. Darico Nobar: Ué, não ouvi nada. José Pinagé de Vasconcelos: É porque gosto de cantar para dentro. Darico Nobar: E como é isso? José Pinagé de Vasconcelos: Deixa pra lá. Se você não sabe, eu que não vou ensinar. Darico Nobar: Diga-me outra coisa então. Quem é seu melhor amigo? José Pinagé de Vasconcelos: Tenho vários. Tem o Portuga, o Luciano, o Minguinho, o Luís, o Tio Edmundo, o Totoca. Tem também o Ariovaldo, o Serginho. Darico Nobar: Mas quem é o mais especial, aquele que você conta seus segredos mais íntimos e que está ao seu lado nos momentos mais complicados. José Pinagé de Vasconcelos: Se só posso escolher um, eu escolho... [faz figas com os dedos] o Minguinho. Darico Nobar: E quem é este Minguinho? É algum coleguinha da escola? José Pinagé de Vasconcelos: Não, seu Darico. É o meu pé de laranja lima. Ele mora lá no quintal de casa. A gente fica tagarelando. Só vendo como ele fica inchado de orgulho quando eu conto o que me acontece. O Minguinho é pior do que eu para gostar de conversa. Darico Nobar: Ele fala? Por onde uma laranjeira fala se não tem boca? José Pinagé de Vasconcelos: As árvores falam por todo canto. Pelas folhas, pelos galhos, pelas raízes. Mas elas só falam com quem a fada deixa. Darico Nobar: Fada?! José Pinagé de Vasconcelos: A fada que vive na natureza. Darico Nobar: E por onde a laranjeira ouve se não tem orelha? José Pinagé de Vasconcelos: Isso não sei. O Minguinho deve ter orelha, eu que ainda não descobri onde. O coração sei que fica no tronco. A inteligência na raiz. Os braços nos galhos. E o nariz nas folhas. Darico Nobar: E o que mais vocês dois fazem além de prosear? José Pinagé de Vasconcelos: Eu monto e ele galopa, que nem louco, pelas campinas do Oeste quando a gente vai caçar bisão e búfalos. É cada aventura danada de boa! Darico Nobar: Zezé, muito obrigado pela entrevista. Foi ótima a nossa conversa. [O menino se levanta do sofá em silêncio, dá a volta na mesa e aperta com força o pescoço do apresentador]. Plateia: Ohhhhh! [Juntamente com as exclamações emocionadas do público, surgem muitas palmas no auditório]. Darico Nobar: Que abraço mais gostoso! Depois deste gesto tão afetuoso do meu amiguinho aqui, só posso encerrar o programa de hoje. Obrigado pela audiência de todos e até mês que vem com mais um Talk Show Literário. Boa noite! [Enquanto a plateia segue aplaudindo, a câmera 1 dá um take geral no estúdio. É possível ver que o apresentador e o entrevistado seguem proseando mais intimamente enquanto as letras dos créditos sobem na tela]. Darico Nobar: Agora fala só para mim, Zezé. É verdade essa história que você sabe ler? Quem foi que te ensinou, hein? [Com atraso de alguns segundos, os microfones do palco são cortados]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: Neusa Sueli

    Darico Nobar: Olá! Sejam bem-vindos a mais um Talk Show Literário, o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira. [O quinteto musical anima o público com seu repertório melódico, parando a canção tocada ao sinal do apresentador]. Hoje, nossa convidada é Neusa Sueli, a protagonista de Navalha na Carne. Originalmente uma peça de Plínio Marcos, Navalha na Carne virou livro depois que o espetáculo cênico foi censurado pela ditadura militar. Boa noite, Neusa. Neusa Sueli: Boa noite, Darico e pessoas. [A convidada acena com uma das mãos para a plateia, que a aplaude. Com a outra mão, a entrevistada puxa para baixo a microssaia e ajeita para cima o apertado bustiê que usa]. Darico Nobar: Neusa, mate minha curiosidade, por favor: o Vado voltou ou não voltou para sua casa depois daquela discussão horrível que vocês tiveram? Neusa Sueli: Qual discussão você está falando? Se for a da noite passada, está tudo bem agora. O Vadinho retornou hoje para casa, um pouco antes de eu sair de lá. Como eu tinha que vir para seu programa, praticamente ele entrou por uma porta e eu saí por outra. Mas está tudo em paz entre a gente, como sempre. Darico Nobar: Não, não... Eu perguntei de modo geral... Navalha na Carne termina com ele saindo bravo do seu quarto e ficamos sem saber se ele foi embora definitivamente ou apenas de maneira provisória. Por isso, minha dúvida. Neusa Sueli: Ah, sim... O Vado pode reclamar, xingar, discutir, brigar e até me ameaçar, mas sempre retorna para os meus braços como um cachorrinho carente e travesso. Homens... O que podemos fazer para endireitá-los?! Darico Nobar: A relação de vocês melhorou nos últimos anos? Neusa Sueli: Como assim?! Nossa vida sempre foi ótima! Não entendi a pergunta. Darico Nobar: Antigamente, ele bebia muito, não trabalhava, pegava todo o seu dinheiro e gastava tudo no bar e na jogatina com os amigos. Ele também era violento, batia em você. Você não está lembrada dessa fase? Neusa Sueli: Ah, sim... Isso às vezes acontece mesmo. Mas não é sempre, tá? Do jeito que você fala até parece que o Vadinho é um imprestável. Saiba que ele é um homem exemplar. Nunca conheci marido mais fiel, um amigo mais leal e um cafetão mais compreensível que ele. Nós nos amamos, porém, às vezes, brigas acontecem. Todos os relacionamentos passam por isso. Quem nunca saiu na mão ou nunca precisou espancar a pessoa amada que jogue a primeira pedra. Darico Nobar: Com qual frequência vocês discutem? [O apresentador faz cara de assustado]. Neusa Sueli: A última briga feia foi há cerca de três horas, quando saí de casa. Ele pensou que eu vinha para um programa com um cliente. Algo pago, sabe? Quando expliquei que viria para outro tipo de programa, de televisão, que não pagam nada, ele se revoltou. Até aí, não posso tirar a razão dele. O entrevistado devia receber cachê! Darico Nobar: Por um acaso, esse hematoma em seu olho é fruto de uma briga? Neusa Sueli: Maldita maquiadora! Ela disse que conseguiria esconder a marca... [Depois de falar baixinho, a convidada retorna ao tom de voz normal]. Não! O soco no olho é de um briga de ontem. Eu me esqueci de passar uma camisa que o Vadinho gosta de usar e, aí, ele ficou muito bravo. Você já imagina o que aconteceu, né? Darico Nobar: Meu Deus, Neusa Sueli! Você deixa que ele bata em você? Neusa Sueli: Ah não, Darico. Até você vai querer se meter no meu casamento?! Já não chega os enxeridos que me atormentam falando isso e aquilo do Vado. Darico Nobar: Existe uma lei que proíbe o marido, o namorado, o amante ou qualquer homem de bater em sua parceira... Essa lei se chama Maria da Penha e dá garantias legais às mulheres... Neusa Sueli: Não precisa ensinar a missa ao vigário, tá? Eu tenho um marido maravilhoso em casa. O Vadinho é exemplar. Ele não tem problemas com a polícia há muito tempo e se depender de mim nunca terá novamente. Você deveria falar essas coisas para minha filha. O marido dela que é um filho da puta. Darico Nobar: Oh! Sem palavrões, por favor. Estamos ao vivo. Neusa Sueli: Foi mal! Vou tentar controlar minha língua. Darico Nobar: Neusa Sueli, você saberia me explicar por que a peça Navalha na Carne foi censurada pelos militares, mas o livro com a mesma história pode ser lançado nas livrarias no ano seguinte sem problema nenhum? Neusa Sueli: Deve ter sido mais um engano que os milicos cometeram. Se eles explodiram uma bomba no próprio colo lá no Riocentro, por que não deixariam passar batida a publicação de um livro?! Por outro lado, talvez a peça tenha sido censurada por causa da sua ambientação e não por causa da sua trama. O palco era um quarto de motel, vale a pena lembrar. Precisamos admitir que o Plínio Marcos fora muito ousado para a época. Ele chocou a burguesia careta da década de 1960. No livro, não dava para recriar um ambiente tão lascivo como aquele. Darico Nobar: Você disse que tem uma filha. Conte-me sobre ela. Como ela se chama, quantos anos tem e o que faz da vida? Você tem mais filhos ou só ela? Neusa Sueli: Só tenho a Marie Cristiele. Ela tem quarenta e dois anos e é garota de programa como a mãe. Mas nós duas não trabalhamos juntas não. Quando ela completou doze anos, eu a levei para o Tião, um cafetão lá em São Cristovão. Eu não queria que o Vado cuidasse da carreira da menina. Ele já andava muito assanhadinho para o lado dela para o meu gosto. Achei melhor matar o mal pela raiz e separá-los. Além disso, esse negócio de trabalhar com família nunca dá certo mesmo. Darico Nobar: Desculpe-me perguntar, Neusa Sueli, mas o Vado é o pai da menina? Neusa Sueli: Oche! Claro que é! Tá pensando que eu sou uma dessas quengas que se deitam com vários homens?! Sou mulher direita, mulher de família. Respeite-me! Darico Nobar: Desculpa, desculpa! Não queria ofendê-la. Neusa Sueli: Assim tá melhor. Gosto de homem que sabe baixar o facho. Darico Nobar: Conte-me um pouco mais sobre sua filha, Neusa Sueli. Neusa Sueli: Marie Cristiele é uma moça trabalhadora. Como já passou dos quarenta anos, a clientela caiu um pouco. Isso é normal. No ano passado, ela precisou diminuir o valor do programa pela metade para o faturamento ficar igual ao de antes. O problema é que agora precisa dar mais vezes. Por ser mulher bonita, trabalha de manhã à noite. Até de madrugada nos final de semana. O problema da minha filha é o Tião. Ele não faz nada o dia inteiro e ainda pega todo o dinheiro da pobrezinha. Deve fazer uns dez anos que ele não arranja um cliente novo para ela. Ela é quem precisa se arranjar sozinha. Já viu um cafetão que não cuida da sua mulher?! E para piorar, ele está sempre bêbado. E, acredite, ele ainda por cima bate muito nela, coitadinha... Darico Nobar: E ela não faz nada? Por que não mete um pé na bunda dele? Neusa Sueli: Aquela nasceu para ser cordeirinho de raposa velha. A Marie Cristiele é apaixonada pelo marido e aceita todas as sem-vergonhices dele. No fundo, é uma boba. Já falei para ela meter o pé na bunda do Tião, mas ela não me ouve. Se fosse comigo, aquele homem já teria amanhecido com a boca cheia de formiga. Darico Nobar: Você ainda trabalha, Neusa Sueli? Neusa Sueli: É claro que sim, diacho! Estou inteirona, vendendo saúde e beleza. Não tá vendo?! Darico Nobar: Novamente sei que você pode ficar brava comigo, mas tenho que perguntar. Afinal, esse é o meu trabalho, não é? Quantos anos você tem? Neusa Sueli: Não tenho problema em revelar minha idade. [Mesmo assim, a entrevistada fica sem graça]. Tenho trinta e cinco anos, mas meu corpinho é de trinta. Darico Nobar: Pera aí, Neusa Sueli. Você não pode ter só trinta e cinco anos! Neusa Sueli: E quem é você, seu branquelo de pau pequeno, para querer corrigir minha idade?! Se estou falando que tenho trinta e cinco, é porque tenho. Nunca menti e não vai ser na merda de um programa de televisão que vou cometer um pecado. Darico Nobar: Analise bem a situação: se sua filha tem quarenta e poucos anos... Neusa Sueli: Quarenta e dois. Darico Nobar: Isso, quarenta e dois. Você, como mãe dela, não pode ter menos. Neusa Sueli: É verdade! Não tinha pensado nisso... Por alguns segundos, achei que você tivesse pensado que eu estivesse velha. Que alívio! Acho, então, que cometi um engano com a idade dela. Acho que ela deve ter trinta e sete ou trinta e oito anos. Darico Nobar: Ainda sim, você com trinta e cinco é mais nova. Neusa Sueli: Tá bom, tá bom. Reconheço que menti a idade... É uma coisa feia de admitir, mas quem nunca fez isso?! Minha filha só tem trinta anos. Ou vinte e oito. Isso, a Marie Cristiele tem vinte e oito. Só sei que eu tenho trinta e cinco e pronto! Darico Nobar: Mesmo assim, Neusa Sueli. Se você tem trinta e cinco, sua filha... Neusa Sueli: Cale sua boca, almofadinha de merda! [Ela encosta uma navalha no pescoço do entrevistador]. Vai dizer agora que tem algum problema com a minha idade? Darico Nobar: Não, não. [As palavras mal saem. O pavor é evidente no rosto dele]. Neusa Sueli: Então, estamos de bem novamente. [A convidada tira a navalha do pescoço do apresentador e a recola em sua pequena bolsa]. Fizemos as pazes, certo? Darico Nobar: Sim, fizemos... [Acaricia o pescoço como se não acreditasse que ele ainda estivesse segurando a cabeça]. Pessoal, esse foi o Talk Show Literário de hoje. Obrigado pela audiência de vocês e até o mês que vem. [O entrevistador se levanta contrariado e segue direto para o camarim. Ele não espera a banda começar a tocar nem se preocupa em se despedir da entrevistada, deixando o palco rapidamente]. [O quinteto, depois de alguns segundos de hesitação, começa a tocar uma canção]. Neusa Sueli: O programa acabou? Darico! O que aconteceu? Darico! [Imediatamente o microfone da convidada é cortado e o talk show termina abruptamente]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #PlínioMarcos

  • Talk Show Literário: Augusto

    Darico Nobar: Boa noite! Eu sou o Darico Nobar e este é o Talk Show Literário. No programa de hoje, teremos como convidado um homem apaixonado. Ele também é médico formado, escritor prolífico e pai de quinze filhos. Com vocês, Doutor Augusto! [Palmas da plateia para o entrevistado que sobe ao palco]. Augusto: Olá, pessoal! Boa noite, Darico. Darico Nobar: Obrigado pela sua presença, Doutor Augusto. Para início de conversa, gostaria de saber: por que você largou a medicina e investiu na carreira de escritor? Augusto: É uma história complicada. Eu sempre amei a medicina e nunca passou pela minha cabeça trabalhar em algo fora da área da saúde. Entretanto, na época da universidade, fiz uma aposta com meus colegas. Ao perdê-la, precisei escrever um romance. Como não dominava a técnica da escrita, levei muito tempo para concluir o livro. Isso prejudicou os anos finais da faculdade e os primeiros anos de residência médica. Darico Nobar: Depois da publicação de A Moreninha, você voltou a atuar como médico? Augusto: Infelizmente, não. Quando finalizei o livro da minha história com Carolina, fiz uma nova aposta, dessa vez com o Lauro Mendonça, um amigo meu. Disse a ele que A Moreninha seria um fracasso retumbante de público. Ele garantiu que a obra seria um sucesso. Fui derrotado. Como punição, tive de escrever outro romance, agora narrando a vida de Lauro e de sua prima Honorina. Darico Nobar: E essa obra teve boa aceitação do público? Augusto: Teve sim. O problema é que continuei perdendo as apostas que fazia. Até hoje não sei por que me arrisco nesses palpites banais do dia a dia. Perdi uma série de apostas na sequência: para um sujeito simples que vivia no campo, para um vizinho míope que eu detestava e para um jovem comerciante... Até para uns escravos que sonhavam com a alforria fui vencido. E como se fosse uma sina, todos exigiam como pagamento da aposta a produção de uma narrativa sobre suas vidas. Assim, tornei-me um dos mais populares escritores brasileiros da segunda metade do século XIX. Darico Nobar: O mesmo aconteceu com o Joaquim Manuel de Macedo. Augusto: Sim! E como ele, precisei abandonar a medicina. Darico Nobar: O que Carolina achava disso? Na certa, ela ficava zangada quando descobria que você perdia essas apostas e precisava, depois, cumprir o combinado. Augusto: Para ser sincero, naquela época, eu pouco falava ou via a Carolina. Ela estava sempre cuidando da casa e das crianças ou estava preocupada com sua nova gravidez. Não é fácil ter quinze filhos... Darico Nobar: Ter tantos filhos, creio, é uma maravilha para o casal! Isso só demonstra que o amor romântico de vocês dois, tão bem descrito em A Moreninha, não acabou depois do casamento, né? Augusto: Não é bem assim... É verdade que sempre amei muito minha esposa. Entretanto, é preciso admitir que viver casado por décadas e décadas com a mesma pessoa não é fácil. Aquela menina endiabrada e encantadora se transformou em uma mulher brava e mandona. Era só me olhar para ela começar a reclamar: "Augusto, o Marcelinho caiu e quebrou o braço", "Estou grávida", "Acabou o leite fresco das crianças", "Preciso de mais dinheiro para comprar os materiais escolares", "Precisamos levar a Marcinha ao dentista", "Por que você voltou tão tarde ontem?", "Não acredito que você está escrevendo outro livro", "Você não me dá mais atenção" e "Estou grávida outra vez". Todo homem fica com a cabeça cheia, desejando desaparecer. Darico Nobar: Casar nunca foi fácil. Augusto: Só depois de viver na pele o que é o matrimônio, entendi o porquê dos escritores românticos terminarem suas histórias no momento em que o casal de protagonistas chega ao altar. Se eles prosseguissem na narrativa, na certa ninguém mais se casaria nesse mundo ou o Realismo teria chegado bem antes na literatura. Darico Nobar: Sinto um tom pessimista em suas palavras. Augusto: Fique casado por mais de um século e meio com a mesma mulher e você descobrirá sozinho os motivos do meu pessimismo. E imaginar que quando jovem, eu não conseguia ficar apaixonado pela mesma mulher por mais do que quinze dias... Como a vida pode ser irônica! Darico Nobar: O que aconteceu com seus amigos Filipe, Fabrício e Leopoldo depois da publicação de A Moreninha? Augusto: Eles também se casaram. Esse é um mal que a maioria dos homens não consegue escapar. O Filipe e Fabrício ainda trabalham como médicos. Já o Leopoldo cansou da medicina, se mudou para São Paulo e abriu um restaurante. Há muito tempo não falo com eles nem os vejo. Depois que a gente casa e passa a cuidar de uma penca de filhos, netos, bisnetos e tataranetos, fica difícil rever os antigos amigos. Darico Nobar: Você e a Carolina ainda visitam a ilha de Paquetá? Foi lá que vocês se conheceram, né? Augusto: Foi lá que nos apaixonamos. Deve fazer uns oitenta ou noventa anos que não visitamos a antiga casa de Dona Ana na ilha. A última vez que fomos até lá foi para forçar uma de nossas filhas a beber a água da fonte mágica. Como ela não queria se casar com um rapaz honesto, bondoso e bem-educado que havia pedido sua mão, demos uma forcinha ao casal. Você sabe qual gruta estou me referindo? É aquela formada pelas lágrimas da antiga índia apaixonada. Darico Nobar: Sei sim. Você fala muito dela em seu primeiro romance. O que estou achando estranho é você acreditar no poder sobrenatural da fonte da ilha de Paquetá. Você crê nesse tipo de crendice popular? Augusto: É claro que não acredito! Sou um homem das ciências. Só fiz isso porque a Carolina confia muito nessas lendas pré-coloniais. Aí quando uma mulher põe uma coisa na cabeça, você sabe, é difícil de tirar. Darico Nobar: Sua filha se casou com o tal sujeito depois de irem à gruta? Augusto: Claro! Estão juntos até hoje. Posso não acreditar nos poderes sobrenaturais daquela fonte, mas é fato que ela sempre funciona. Eu mesmo estou casado desde a década de 1840 com a Carolina. Nós bebemos daquela água e nunca mais nos desgrudamos. Por isso, aconselho os mais jovens a nunca beber água desconhecida quando saem de casa. É um perigo! Darico Nobar: Então, a água da gruta da ilha de Paquetá é mesmo casamenteira! Você já pensou em explorar comercialmente aquele lugar? Augusto: Não sou tão inescrupuloso assim. Não faria mal a ninguém por mais dinheiro que pudesse ganhar com isso. Jamais pensaria em me aproveitar da desgraça alheia. Para mim, aquela fonte deve permanecer lacrada e inacessível. O meu genro, o mesmo que se casou após beber daquela água, voltou ao local depois de alguns anos e colocou uma placa: "Cuidado! Água tóxica. Não beba". Darico Nobar: Sua mulher e sua filha o deixaram fazer isso? Augusto: Ele teve o apoio de todos os homens da família. Fizemos isso sem o consentimento das nossas mulheres. Acho que elas não sabem dessa história até hoje. Darico Nobar: Essa atitude não pode trazer problemas para vocês? Augusto: Que nada! Depois dessa medida, as novas gerações de nossa família pararam de se casar. Poucos têm filhos hoje em dia. É uma beleza! Os jovens, quando muito, passam a viver juntos apenas por um tempo. Quando falamos em casamento, eles se arrepiam e ficam ofendidos. Depois de alguns anos juntos, eles decidem se separar e vão viver sozinhos novamente ou se juntam com novas pessoas. Filhos nem pensar! É um estilo de vida mais tranquilo e descontraído, creio eu. Tudo graças à placa que foi colocada na maldita gruta. Se alguém tivesse feito isso há mais tempo... Darico Nobar: Você se chateia quando criticam o seu estilo literário? Muita gente se incomoda com os excessos de informalidade e de gírias presentes no seu texto. Augusto: Se minhas histórias fossem feitas como os médicos normalmente falam ou escrevem, na certa ninguém entenderia nada. Faço um bem para os meus leitores e para a literatura nacional quando uso a linguagem coloquial. Darico Nobar: Você é o alter ego do Joaquim Manuel de Macedo? Augusto: Só porque nossas vidas possuem semelhanças, as pessoas levantam suspeitas a esse respeito. Sinceramente, não sei a resposta. Acho que quem poderia responder melhor a essa questão é o próprio senhor De Macedo, se ele estivesse vivo. Darico Nobar: Em sua opinião, qual foi o primeiro romance brasileiro de todos os tempos: A Moreninha ou O Filho do Pescador? Augusto: Não há dúvida que foi A Moreninha. O Filho do Pescador não pode ser considerado um romance propriamente dito. O livro de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa é muito esquisito, de difícil compreensão. Talvez essa obra não tenha sido finalizada ou não tenha passado por uma revisão. Nossa literatura romanesca não merece ter uma inauguração tão sofrível. Assim, o pioneirismo deve ser atribuído à trama de A Moreninha. Mesmo com o lançamento posterior, meu livro tem os elementos básicos de um romance, como uma história lógica e começo, meio e fim. Darico Nobar: Pessoal, esta foi minha conversa com o médico e escritor Augusto. Obrigado pela sua visita ao nosso auditório, doutor. Augusto: Eu que agradeço o convite, Darico. A única coisa ruim de ter vindo ao seu programa foi ter perdido mais uma aposta. Darico Nobar: Não acredito! O que você apostou dessa vez?! Augusto: Apostei com a Carolina, no começo do ano, que jamais seria chamado para participar do Talk Show Literário. Achei que ninguém mais se lembrava da gente... Darico Nobar: Você não tem jeito mesmo, Doutor Augusto. Pessoal, até o próximo programa. Boa noite e até o mês que vem. Tchau! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JoaquimManueldeMacedo

  • Talk Show Literário: Jeca Tatu

    Darico Nobar: Olá, galera! O Talk Show Literário dessa noite já está no ar. Nesses nossos bate-papos mensais, conversamos com as principais personagens da cultura brasileira. Acompanhe você também mais uma entrevista exclusiva do nosso programa. [O quinteto musical toca a canção de abertura do talk show]. Nosso convidado de hoje é uma das mais formidáveis criações de Monteiro Lobato. Venha para cá, Jeca Tatu! [Aplauso do auditório para a entrada do entrevistado]. Boa noite! Jeca Tatu: Noooooite! [O convidado se ajeita para se sentar no chão]. Darico Nobar: O que você está fazendo, Jeca? Não precisa se sentar de cócoras no chão! Temos um sofá aqui. Veja! Você pode usá-lo. É mais confortável. Jeca Tatu: Não gosto de potrona, não. Elas é muito amolecida. Adepôs, nossa espinhela fica toda arriada. Prifiro abancar aqui mesmo, se o senhô não se impotrar. Darico Nobar: O problema é que não o vejo daqui. Não posso conversar sem enxergá-lo. As câmeras também não conseguem captar sua imagem aí no chão. Jeca Tatu: E si eu fica istindido? [Ele se levanta]. Tem algum pobrema assim? Darico Nobar: Hum... Acho que não... Vou me levantar também para ficarmos na mesma altura. Assim, conversaremos os dois de pé. Que tal? [O convidado demonstra ter gostado da ideia. Em consideração à dupla, a plateia repete o gesto do entrevistado e do entrevistador. Todos no auditório se erguem, abandonando seus assentos]. Olhe, Jeca. O público também se levantou. Todos estão de pé no auditório agora. Este será um programa bem inusitado, hein? Jeca Tatu: Meió deste jeito. Na potrona, nóis corre o risco de drumi. Em pograma de TV importante a gente tem que ficá cordado. Meu cumpadre que me alerto dessa maneira ontem memo, antes de eu viaja para cá. Darico Nobar: Gostaria de começar esta conversa sabendo sua opinião sobre a visão dos brasileiros em relação a você e aos caipiras de maneira geral. Como você acha que o público vê o Jeca Tatu atualmente? Jeca Tatu: Com os jôio. Darico Nobar: Sim, claro... [As risadas da plateia explodem no auditório]. Mas você acha que eles veem bem ou mal? Jeca Tatu: Vareia, seu moço. Donconvim tem de tudo. Tem fidumaégua com jôio que espia até negócin lá na lonjura. E tem caboclo que memo usando vidru na fuça não espia nadica de nada. Darico Nobar: Não estou querendo saber se os brasileiros têm boa ou má visão. [A plateia parece se divertir, não contendo as risadas]. Estou perguntando se eles gostam ou não de você. O caipira é alguém querido pela população do nosso país? Jeca Tatu: Tem di tudo. Tem sujeito que gosta de eu e tem quem não gosta. Quiqui posso fazê?! Não dá pra grada todo mundo, moço. Darico Nobar: Você se incomoda com a fama de preguiçoso que você ganhou ao longo do tempo? Jeca Tatu: Não dou o trabáio de me impricar com isso. Darico Nobar: É justa essa imagem de o caipira ser pouco afeito ao trabalho? Jeca Tatu: A roça é lugar de lida dura. Só quem tá lá é qui sabe. Caboclo carpina desde cedo até tarde embaixo de sor forte. Não é trabáio para gente fraca. E por falar em marvadeza, não tem aí uma caninha para nóis bebericar enquanto solta a prosa? Darico Nobar: Até temos uma pinginha para servir, Jeca, mas me falaram que você tinha parado de beber. É verdade? Jeca Tatu: Parei sim, senhô, mas também vortei rapidim. Qual a graça da vida se nóis não pode fica sapecado? Darico Nobar: Produção, por favor, traga uma cachacinha da boa para a gente provar. [Aguarda-se a chegada da bebida. Quando a garrafa é colocada em cima da mesa, dois copos são enchidos. Um é oferecido ao convidado e o outro fica com o entrevistador. Ambos bebem]. Que tal, hein? Jeca Tatu: Eita, trem bão! O pobrema é que já cabô! Meu copo tá seco outra vez. Darico Nobar: Tem mais aqui na garrafa. Posso colocar mais em seu copo? Jeca Tatu: Prifiro ficar com a garrafa toda. Premiti? Darico Nobar: É toda sua. Não vou beber mais mesmo. Jeca Tatu: Grato. Home da cidade é mesmo fraco di vaziá o caneco. [Dá uma longa golada diretamente do gargalo da garrafa]. Esta é mesmo das braba. Darico Nobar: Jeca, você bebe muito? Jeca Tatu: Só o necessário até caí [Dá mais uma golada]. Darico Nobar: Qual sua bebida favorita? Jeca Tatu: Pincumel. Mais esta aqui não tá das pió não. [Dá novo gole]. Darico Nobar: E água, você toma bastante? Para quem trabalha embaixo do sol forte, é muito importante a hidratação. Jeca Tatu: Deus milivri. Água é bebida de bicho. Pra home, ela faz muito mar. Você nunca escuto que água enferruja? É verdade! Pinga não. Ela anima o caboclo. Dá até mais força para nóis trabaiá. Darico Nobar: Não seria o contrário? Afinal, quando se exagera na bebida alcoólica, não dá depois uma moleza danada no corpo e um sono forte? Jeca Tatu: Isso faz parte do efeito brenéfito. Eoqui acontece adipôs de drumi?! O sujeito sempre levanta mais desposto pra trabaiá. A bebida é um santo remédio contra a priguiça! Darico Nobar: Sua mulher concorda com isso? Jeca Tatu: Ela sempre prifiriu bebe água. Muié é assim mesmo: inguinorante. Ainda bem, porque sobra mais cana pra nóis home entorná. Darico Nobar: Sinto que você não tem grandes ambições na vida. Jeca Tatu: Não tenho o quê?! Darico Nobar: Vontade de ter uma vida melhor. Jeca, é importante o homem ter sonhos grandiosos, almejar ter um amanhã mais próspero e trabalhar visando grandes conquistas. Isso é o que move o mundo e alimenta o progresso humano. Jeca Tatu: Já tenho uma vida maraviosa. Graças a Deus, não posso recramar de nada não. Darico Nobar: Você não gostaria de ter uma casa melhor? Você não sonha em usar roupas mais bonitas, andar de sapato confortável e comprar, por exemplo, um automóvel? Já imaginou ter dinheiro para comprar o que sua família quisesse? Jeca Tatu: Gosto da minha vida como ela é e não careço de bugigangas. Darico Nobar: Porém, não seria bom ter mais dinheiro? Jeca Tatu: Dinheiro no borso sempre é bão. Darico Nobar: E porque, então, você não procura ganhá-lo trabalhando? Jeca Tatu: Porque aí minha felicidade ia imbora. Vejo os home da cidade grande trabaiá um tantão e ninguém tem tempo para vive feliz. Trabaiá não é coisa de Deus, é coisa do capeta, seu moço. Não caio nesta armadia do Satanás não. Darico Nobar: Trabalhar não é pecado. Jeca Tatu: Pecado maió é esta garrafa ter secado. [Mostra o recipiente vazio]. Não querendo abusar da genosidade do cavalero, mas não tem outra aí mais cheinha? Darico Nobar: Produção, por favor, outra cachaça para o convidado! Jeca Tatu: O convidado gradece. (Pega a nova garrafa e dá um gole prolongado). Darico Nobar: Vamos falar agora de política. Na última eleição, você votou no... [Neste momento, o entrevistado agacha-se, indicando que irá se sentar ou se deitar]. O que você está fazendo, Jeca? Jeca Tatu: Vou tomba um tantinho aqui atrás da potrona. Deu uma baita sonolensa agora. [Ele se ajeita para dormir no chão mesmo]. Este trem de entervista cansa muito nóis que não tamo costumado a fazê televisão. [Solta um longo bocejo]. Darico Nobar: Nós estamos no meio do programa!? Jeca Tatu: Não tem comerciar neste seu pograma? Chama os reclame porque vou tirá um cochilo. Daqui a pouquinho vorto a proseá com o cavalero. [Deita-se com os joelhos dobrados junto ao peito]. E não deixa ninguém pô as mão na minha garrafa, por favó. Sempre gosto de tomá um trago quando levanto. Darico Nobar: Jeca, por favor, não durma... Ainda temos um bloco do programa. Jeca Tatu: Huuuuum? Darico Nobar: Jeca! Não! Tarde de mais... O que eu faço agora, produção?! [O apresentador fica desnorteado. A plateia permanece em silêncio. Jeca solta um ronco alto atrás da poltrona. Aparentemente algo é dito ao entrevistador pelo ponto eletrônico em seu ouvido]. Darico Nobar: Pessoal, é melhor encerrarmos nosso programa de hoje. Obrigado por vocês terem acompanhado mais um Talk Show Literário. No mês que vem, voltamos com mais uma entrevista exclusiva e, espero eu, completa. Boa noite! [A banda toca a música do programa de encerramento. E o Jeca solta outro ronco alto]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #MonteiroLobato

  • Talk Show Literário: Florípedes Guimarães Madureira

    Darico Nobar: Boa noite, Brasil! O programa de hoje está com a cara da Bahia. Afinal, este Talk Show Literário será com a bela e carismática Florípedes Guimarães Madureira, uma das personagens mais conhecidas de Jorge Amado. Suba aqui no palco, Dona Flor! [Os aplausos de boas-vindas da plateia são efusivos]. Florípedes Guimarães Madureira: Oi, Darico. Olá, Rio de Janeiro!!! Plateia: Oooooooooooooi! Darico Nobar: É um prazer recebê-la em nosso estúdio. Florípedes Guimarães Madureira: Também estou muito feliz em poder conhecer vocês e o Rio. Sempre quis ver o Cristo Redentor de pertinho. Foi muita emoção, quando no último sábado, eu consegui ir lá em cima. A emoção tira nosso fôlego, né? Sempre fui uma moça muito religiosa e estar ao lado do Cristo foi porreta demais! Darico Nobar: Além de conhecer os pontos turísticos da nossa cidade, o que você tem feito nessa temporada carioca? Soube que você chegou há quatro semanas. Florípedes Guimarães Madureira: Vim para inaugurar uma nova unidade de minha escola gastronômica. Há muito tempo estavam pedindo para eu abrir uma franquia da "Sabor & Arte" aqui no Rio de Janeiro e nesse ano deu certo. Estou ensinando às futuras professoras o verdadeiro tempero da comida baiana. Darico Nobar: Que legal! Você é uma empresária de nível nacional agora. Para essa viagem, você veio sozinha ou seu marido veio junto? Florípedes Guimarães Madureira: O Teodoro não pode deixar a farmácia fechada por vários dias seguidos. Ele até me trouxe e passou o primeiro final de semana comigo. Depois, voltou para Salvador. Está trabalhando lá enquanto estou aqui. Darico Nobar: Então, você está sozinha no Rio?! Florípedes Guimarães Madureira: Não exatamente! O Vadinho está comigo. Ele me segue para onde eu vou. Ele nunca teve esse problema de precisar trabalhar. Não seria agora, depois de morto, que ele ia se preocupar com isso, né? Darico Nobar: Você continua com essas visões do seu primeiro marido pelado? Florípedes Guimarães Madureira: Não são visões. Ele continua vivinho da Silva. Darico Nobar: Porém, só você o vê, né? Florípedes Guimarães Madureira: Eu e algumas mães de santo lá de Salvador. Darico Nobar: Se o Vadinho está no Rio, deve estar se divertindo muito, certo? Florípedes Guimarães Madureira: Sim. Ele inclusive veio comigo ao programa desta noite. Agora mesmo, ele está atrás da sua cadeira. Darico Nobar: E o que ele está fazendo especificamente? Florípedes Guimarães Madureira: Não posso dizer. [A convidada ri constrangida]. Pare com isso, Vadinho! Deixe o moço em paz. Darico, peço desculpas pelo comportamento indecoroso do meu marido. Ele está muito excitado com as câmeras de televisão. Darico Nobar: Pelo amor de Deus! Saia de perto de mim, homem. [Seus gestos são parecidos aos das tentativas de afastar uma mosca]. Não estou vendo nem sentindo nada, mas só de pensar o que o Vadinho pode estar fazendo, eu fico mal. Florípedes Guimarães Madureira: Fique tranquilo, Darico. Com seu grito, ele correu em direção à plateia. Está agora agarrando aquela moça bonita do auditório. [Uma mulher da plateia berra assustada após sua saia se levantar com o vento]. Pare com isso, Vadinho! Você está atrapalhando a entrevista. Que vergonha! Darico Nobar: Flor, o Vadinho tem sido um bom acompanhante de viagem? Florípedes Guimarães Madureira: Que nada! Ele desaparece por vários dias e só surge nos momentos mais inapropriados, como agora. Deve estar se esbaldando pelo Rio de Janeiro. Vai saber o que ele tem aprontado por aí com o meu dinheiro... Darico Nobar: Desculpe-me por perguntar sobre isso, mas você não fez um péssimo negócio casando com esse sujeitinho?! Você, uma mulher honesta, com bom senso e trabalhadora, não merecia coisa melhor do que esse vagabundo? Florípedes Guimarães Madureira: Não fale assim do meu marido, Darico. O Vadinho tem seus defeitos, como qualquer pessoa, mas é um homem de bom coração. Eu o amo e não imagino viver longe dele. Darico Nobar: Você está agora casada com o Teodoro, mas ainda vive com seu primeiro marido, o Vadinho. Essa situação não a incomoda? Florípedes Guimarães Madureira: No começo me incomodava sim, mas aí percebi que era o meu destino viver com dois homens. O que posso fazer? Sou casada aos olhos de Deus com os dois e, por isso, preciso amá-los e respeitá-los igualmente. Não posso privilegiar nenhum deles nem posso descartá-los. Darico Nobar: E se você precisasse, por um acaso, escolher só um deles para seguir casada. Qual dos dois você escolheria? Florípedes Guimarães Madureira: Não me faça uma pergunta dessa! Acho que eu morreria só de pensar em viver com só um deles. O Vadinho é boêmio, inconsequente, mulherengo e não gosta de trabalhar. Desperdiça meu dinheiro e se esquece de mim por vários dias. Já chegou até a me bater quando vivo. Ao mesmo tempo, ele também é muito carinhoso, divertido e... excelente de cama. [A última parte da frase é falada com as mãos na boca, quase como um sussurro envergonhado para só o apresentador ouvir]. É o tipo de homem que nós mulheres precisamos em vários momentos do dia e, principalmente, da noite. Impossível largá-lo. Darico Nobar: E o Teodoro? Florípedes Guimarães Madureira: O Teodoro é o oposto do Vadinho. Ele é um homem trabalhador, econômico, sensato, culto, elegante, respeitador, organizado e fiel. Ou seja, é uma ótima companhia. Contudo, também tem seus defeitos: é cansativo, metódico, meio frio às vezes, previsível, assexuado e, por vezes, mesquinho. Não conseguiria viver com um homem desse tipo o tempo inteiro. Darico Nobar: Você está querendo dizer que toda mulher, no fundo, deseja um homem que contenha, simultaneamente, a personalidade do Vadinho e o perfil do Teodoro, por mais paradoxal que isso possa parecer? Florípedes Guimarães Madureira: Exatamente! Há horas e dias em que precisamos da tranquilidade, da segurança e do companheirismo do Teodoro. Em outros momentos, o que queremos mesmo é a sem-vergonhice, a mão boba e a inconsequência do Vadinho. Só com a junção dos dois, uma mulher pode se considerar realmente feliz e completa. Darico Nobar: Juro que não entendo isso! Florípedes Guimarães Madureira: Homem nenhum entende essa questão. Somente as mulheres conseguem compreender o meu sentimento. Darico Nobar: Mudando um pouco de assunto, Flor. Quem é a melhor cozinheira da Bahia: você, a Gabriela ou a Bela Gil? Florípedes Guimarães Madureira: Esse programa só tem pergunta difícil! [Novamente, a entrevistada cai na risada]. A Gabriela é uma cozinheira de mão cheia. Uma das melhores que conheci. Certa vez, eu e meus maridos viajamos para Ilhéus e conhecemos o Bar Vesúvio. E admito: fiquei encantada com o tempero dela. Se Gabriela morasse em São Paulo ou no Rio de Janeiro, seria considerada uma das grandes chefs do país. A comida da Bela Gil, eu ainda não provei, mas me falaram que ela faz um churrasco de melancia que é tudo de bom! Darico Nobar: Você tem filhos, Flor? Florípedes Guimarães Madureira: Sim. São dois meninos. Um do Teodoro, que todo mundo consegue ver, e outro do Vadinho, que só eu vejo. Fiz um tratamento de fertilidade há alguns anos e resolvi o problema que eu tinha para engravidar. Darico Nobar: Ué?! Como você sabe quem é o pai das crianças? Você fez algum teste de paternidade? Florípedes Guimarães Madureira: Não precisei. [Ri um tanto encabulada]. Toda mãe sabe quem é o pai de seus filhos. Comigo não é diferente, mesmo tendo dois maridos ao mesmo tempo. Além disso, os comportamentos do Ângelo, o filho do Teodoro, e as atitudes do Juan, o do Vadinho, são totalmente compatíveis aos dos pais. Basta olhar o jeito que eles agem que você também terá a certeza de quem eles descendem. Darico Nobar: Por que você acha que a poligamia sempre priorizou o ponto de vista masculino, com um homem tendo várias esposas e jamais uma mulher podendo ter vários maridos? Florípedes Guimarães Madureira: Não sei, não. Pelo menos lá em casa não é assim. [A convidada dá uma gargalhada gostosa]. Graças a Deus! Obrigada, Cristo Redentor por ter sido tão bom comigo. Darico Nobar: Você conseguiria viver em uma união monogâmica? Florípedes Guimarães Madureira: Só se os meus maridos fossem o Vadinho e o Teodoro juntos. Aí sim, conseguiria. [A risada dela contagia o público e o apresentador. Todos no auditório se divertem com o comentário astuto da entrevistada]. Darico Nobar: Esta é Dona Flor, a mulher com dois maridos. [As salvas de palmas explodem na plateia]. Obrigado, Flor. Galera, até semana que vem com mais um Talk Show Literário. [Quinteto musical toca a canção de encerramento do programa]. Florípedes Guimarães Madureira: Preciso pedir mil desculpas pelo comportamento abusado do Vadinho. Estou tão envergonhada, Darico. Nem sei onde pôr a minha cara. Darico Nobar: Tudo bem! Essas coisas acontecem mesmo. Onde ele está agora? Florípedes Guimarães Madureira: Está grudado nas suas costas, há uns cinco minutos, gritando: "Vou engravidar esse apresentador de meia tigela. Vou engravidar gostoso esse apresentadorzinho ". Se eu fosse você, Darico, tomava um bom banho lá no camarim, antes de deixar a emissora. Darico Nobar: Sai, diabo. Me larga, vagabundo, desgraçado! [O entrevistador dá um pulo de sua cadeira e sai correndo para a parte de trás do palco. Enquanto se dirige para lá, faz gestos com as mãos como se afastasse um encosto do seu corpo. A plateia, que nesse momento já está deixando o auditório, olha tudo incrédula, achando o apresentador um louco]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JorgeAmado

  • Talk Show Literário: Analista de Bagé

    Darico Nobar: Olá, queridos telespectadores. O Talk Show Literário tem o prazer de anunciar como convidado desta noite um dos mais brilhantes psicanalistas brasileiros de todos os tempos. Aqui do meu lado está o Analista de Bagé. [A imagem da câmera 1, que dava um clouse no apresentador, muda para a da câmera 2, que mostra uma tomada panorâmica do palco. Ao lado do entrevistador, está sentado um homem com trajes tipicamente gaúchos]. Plateia: Uhu! Lindo! Gostoso! [Gritos e aplausos vêm do empolgado público feminino presente no auditório]. Analista de Bagé: Buenas! Darico Nobar: O senhor deve ficar orgulhoso quando é ovacionado dessa maneira pelo público. Não fica? Analista de Bagé: Gaúcho que é gaúcho se acostuma desde piá com os urros e os gemidos da mulherada. Ou porque estamos enfiando a mão na cara delas ou porque estamos enfiando nossos membros dentro delas. Se pensarmos bem, é natural essa excitação por parte do mulheril. Hombre macho como eu é difícil de achar hoje em dia. De tão acostumado que estou, não me emociono mais com a reação calorosa do público feminino. Darico Nobar: Diga-me, doutor: Qual é o seu nome de batismo? Porque já li tudo a seu respeito e nunca encontrei em nenhum lugar o seu verdadeiro nome. Analista de Bagé: Ôigale! Nunca tinha pensado nisso. Acostumei com o povo me chamando de gaúcho, bagual, animal, bem-dotado, Analista de Bagé, doutor, cavalo, pica-potente, amorzinho, amoreco... Acho que nem minha falecida mãezinha devia saber meu nome, tchê. Ela só me chamava de "fiô". Darico Nobar: Qual a linha psicanalítica que o senhor segue? Analista de Bagé: Em essência, sou freudiano. Porém, minha pegada é menos ortodoxa e mais prática. Eu precisei fazer essa adaptação porque a realidade tropical do Brasil de hoje é bem diferente daquele cenário da Áustria do século XIX. Darico Nobar: Como seria, efetivamente, essa psicanálise freudiana à brasileira ou à gaúcha de Bagé? Analista de Bagé: Ao invés de ficar perdendo tempo com uma falação sem fim, vou diretamente ao problema do paciente, resolvendo-o prontamente. Comigo não tem frescura nem enrolação. Sou daquele tipo de psicanalista que mata a cobra e mostra o pau. Comigo o buraco é mais embaixo e não tem delongas. Darico Nobar: Doutor, o senhor poderia nos dar um exemplo concreto dessa técnica revolucionária? Analista de Bagé: Quando chega uma mulher frígida ao meu consultório, o que eu faço? Converso cinco minutos com ela para entender a gravidade da situação. Depois, peço para tirar a roupa e se deitar no divã. Aí, nos cinquenta e cinco minutos restantes da sessão, eu mostro que o problema, na verdade, não está nela e sim com o molenga do marido, do namorado. Sempre funciona e a cliente sai muito satisfeita. Darico Nobar: Entendi... E como você trata as mulheres ninfomaníacas? Analista de Bagé: Da mesma maneira. As únicas diferenças são em relação à duração de cada sessão e à frequência de visita. Normalmente, esse tipo de doença requer sessões com o dobro de tempo e com mais visitas por semana ao consultório. Nesse caso específico, também atendo em casa e fora do horário de expediente. Darico Nobar: Como o senhor trabalha nos casos de mulheres que têm fantasias sexuais bizarras? Analista de Bagé: Não mudo minha linha de atuação em nada. Prefiro sempre a prática à teoria. A única coisa que acrescento é uma vestimenta adequada para cada situação. Às vezes, é a paciente quem precisa se vestir com alguma roupa mais apropriada. Também utilizo alguns objetos para incrementar a sessão. Um caso muito comum é o da mulher que fantasia transar com o pai. Nesse tipo de tratamento, as pacientes precisam me chamar o tempo inteiro de "papi". Para completar, aproveito para dar umas palmadas nelas. Só assim o tratamento tem êxito. Darico Nobar: Da maneira como o doutor fala, até parece que todas as doenças têm uma causa sexual ou são curadas através do sexo. Analista de Bagé: Já disse que sou adepto das teorias de Sigmund Schlomo Freud. Foi ele quem criou o conceito da psicanálise, não eu. Darico Nobar: O senhor trabalha da mesma forma com os homens? Analista de Bagé: A la putcha! Tu deves estar de brincadeira comigo, não estás? É claro que não, animal! Com os homens, eu utilizo outra vertente do método. Darico Nobar: Como assim? Analista de Bagé: Por exemplo, o molenga chega ao consultório com problema de impotência, temendo pelo fim do casamento. O que faço? Primeiro, peço para minha assistente, a Lindaura, entrar na sala e dar uma voltinha. Minha sorte é que ela vai trabalhar sempre com roupas minúsculas. Se o molengão se manifestar, o problema está resolvido. Nesse caso, a causa da dificuldade do rapaz não está no corpo dele e sim no de sua mulher. Na certa, a princesinha de outrora deve ter se transformado em um dragão depois de tantos anos. Minha receita é que o paciente comece a comer fora de casa com mais frequência. O tempero caseiro está afetando o seu paladar. Darico Nobar: E se o "sujeito" do sujeito não se manifestar? Analista de Bagé: Aí, peço para ver fotos da mulher dele. Se ela for do tipo jovem e bonita, começo o tratamento imediatamente. Nessa situação, as consultas são com ela e não com ele. O objetivo é resolver, durante as sessões, o problema mais iminente da vida dessa pobre esposa. Faço isso com uma finalidade nobre: Salvar o casamento deles. O resultado é que a mulher não trai o marido com qualquer um. Ela se torna fiel ao esposo e ao meu consultório, mesmo sendo casada com um imprestável. Darico Nobar: Sei, sei... [Coça a cabeça demonstrando certa dúvida com o que está ouvindo]. E se o rapaz está deprimido ou está pensando em suicídio? Analista de Bagé: Enfio o joelho na cara dele várias vezes até ele se convencer que a vida dele é boa. Trata-se da técnica conhecida lá em Bagé como Joelho-cara & Cara-joelho. Darico Nobar: Essa técnica funciona mesmo? Analista de Bagé: Funciona que é uma barbaridade! A brigada militar de todo o país e os exércitos mais bem desenvolvidos do mundo, como o norte-americano e o israelense, adotam há anos essa prática principalmente durante seus interrogatórios. Darico Nobar: Diga-nos, doutor, como é sua relação com a Lindaura? Analista de Bagé: Nossas relações sexuais são intensas e selvagens. Ela gosta quando eu puxo o cabelo dela para trás e.... Darico Nobar: Não, não, não! Não estou querendo saber da vida sexual de vocês. Perguntei da relação que vocês têm no dia a dia. É do tipo patrão-empregada, marido-mulher, amigo-amiga? Analista de Bagé: Ah, sim. Depende muito da ocasião. Hoje, por um acaso, nós transamos apenas cinco vezes. E teve de tudo. A primeira foi na chegada ao consultório, logo de manhãzinha. Essa foi do tipo cachorrão-cachorrinha. A segunda foi antes do almoço. Aproveitamos que um paciente cancelou a sessão e fizemos um papai-mamãe com um pouco de frango-assado. Depois do almoço, teve sobremesa. Aí, valeu tudo, né? Essa foi a mais divertida porque... Darico Nobar: Então, vocês são amantes? Era só isso o que eu queria saber. [A fisionomia do apresentador é de poucos amigos]. Analista de Bagé: Não, Darico. Nossa postura é estritamente profissional, fique o senhor sabendo! Darico Nobar: Como pode ser profissional se vocês transam o tempo todo? Analista de Bagé: Nós só fazemos sexo nos momentos de folga e quando não há paciente no consultório. Só abrimos exceções para os tratamentos com pessoas que sofrem de voyeurismo, indivíduos que desejam experimentar ménage à trois ou casais que se identificam com o swing. No restante do tempo, somos bastante profissionais. Eu me dedico totalmente às minhas pacientes. Sou um workaholic, como vocês gostam de dizer aqui no Rio e em São Paulo. A Lindaura entende perfeitamente essa minha condição e respeita a minha ética profissional. Darico Nobar: E se um dia ela deixar de ser sua assistente e for trabalhar em outro consultório onde o psicanalista siga a sua linha de trabalho? Como o senhor reagiria? Analista de Bagé: Da maneira mais natural possível. Não sou uma pessoa ciumenta nem conservadora. Estamos em pleno século XXI e preciso agir como um homem moderno. Eu simplesmente a traria de volta, puxada pelos cabelos, ao meu consultório. Lá, aplicaria a técnica Joelho-cara & Cara-joelho até ela se convencer que não era o momento para ela deixar de ser minha assistente. Quando ela se convencesse, tiraria sua roupa e a agradeceria por permanecer comigo. Tenho certeza que ela iria gostar. Darico Nobar: Atualmente, vivemos uma fase de maior empoderamento da mulher e de uma importante discussão contra o assédio sexual e contra a cultura do estupro. O senhor se incomoda por ser a personificação do homem bruto, machista e violento? Analista de Bagé: Ôigale! Onde já se viu um bageense se incomodar com elogios?! Darico Nobar: Para encerrarmos essa entrevista, aí vai a última pergunta da noite: Qual foi o paciente mais difícil que o senhor tratou? Analista de Bagé: Foi uma mulher que fez uma operação de mudança de sexo para tentar reconquistar o ex-marido que era homossexual. Depois de um tempo, contudo, ela descobriu que não queria ser homossexual e passou a se relacionar apenas com mulheres. O ex-marido, nessa altura do campeonato, já estava apaixonado por ela novamente. Assim, ele precisou virar travesti para ter seu antigo casamento de volta. Darico Nobar: E qual foi o tratamento recomendado para essa paciente? Analista de Bagé: Leite quente antes de dormir. O problema dela era uma insônia braba que a incomodava desde a adolescência. Tentamos vários procedimentos até descobrir que o leite quênte antes de deitar revigorava seu sono. É um santo remédio! Darico Nobar: Senhoras e senhores, esse foi o Analista de Bagé, uma das criações literárias mais polêmicas de nosso país. Obrigado pela presença de todos nesta noite e até semana que vem! [Aproveitando-se do corte do som dos microfones, o apresentador fala baixinho, como se pensasse alto]. Isso é, se o Talk Show Literário não for cancelado pela emissora depois desta entrevista de hoje... ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #LuisFernandoVeríssimo

  • Talk Show Literário: Maria Capitolina Santiago

    Darico Nobar: Olá, público cativo do Talk Show Literário! Esta noite tem tudo para ser sensacional. Este é o programa mais esperado do ano pelos apreciadores de Machado de Assis. Se eu fosse você, não desgrudava os olhos da frente da televisão. Nossa convidada de hoje é ninguém mais, ninguém menos do que Capitolina Santiago, uma das mais intrigantes personagens da literatura brasileira. [Dá uma leve batida na mesa com a mão esquerda e faz o gesto para alguém se aproximar]. Venha para cá, Capitu! [Aplausos e assobios ressoam pelo auditório quando a entrevistada adentra o palco. Ao som de uma animada música tocada pela banda, a moça caminha até o apresentador e se senta no sofá]. Capitolina Santiago: Olá, Sr. Nobar. Tudo bem? Darico Nobar: Melhor agora que estamos em sua companhia. Admito que estou um pouco nervoso por recebê-la em nossos estúdios. Quando criamos este programa de entrevistas no ano passado, a primeira pessoa que pensamos em chamar foi você. Porém, a senhora estava na Europa e não conseguimos localizá-la. Capitolina Santiago: Eu moro na Suíça há muito tempo. Quando vocês fizeram o primeiro convite, não pude aceitá-lo porque não sabia quando viria ao Brasil. Desde o meu exílio no final do século XIX, jamais tinha retornado ao país. Mesmo assim, a lembrança do Talk Show Literário me deixou lisonjeada. Sou uma grande fã do programa, que é transmitido na Europa por uma emissora via satélite. Não perco nenhuma das suas entrevistas, Sr. Nobar. Por isso, prometi para mim mesma que na primeira vinda ao Rio de Janeiro, iria conversar com o senhor. E aqui estou! Darico Nobar: Obrigado pelas palavras, Capitu. Fico muito feliz em saber que a temos em nossa audiência. E por que essa ausência tão prolongada de nosso país? Capitolina Santiago: Seria muito difícil, para mim, andar pelas ruas brasileiras e conviver com a curiosidade sem limites dos meus compatriotas. Todos ficariam questionando meus comportamentos e meus valores. Haveria quem se aproximasse de mim só para perguntar: "Você traiu mesmo o Bentinho?". Se conversasse com algum homem fora de casa, já iriam inventar que estaríamos tendo um caso. Acho que não conseguiria viver com essa opressão em meu cotidiano. Sabe como é a língua do povo, né? Darico Nobar: Por que a senhora nunca participou de programas de televisão nem veio à público contar sua versão sobre o fim do casamento com Bento Santiago? Acredito que centenas de veículos de comunicação teriam interesse em ouvi-la. As pessoas têm curiosidade sobre sua vida. Acho isso normal. Capitolina Santiago: O problema é que o Bentinho foi muito sacana comigo. Além de levantar suspeitas sobre meu caráter, ele divulgou aos quatro cantos que eu teria morrido no exterior. Como ninguém procurou saber se tais palavras eram verdadeiras ou foram expressas em sentido figurado, fui tida como falecida, me tornando automaticamente inacessível à mídia e ao público. Por isso, ninguém me procurou nesses anos todos para saber minha versão dos acontecimentos. O primeiro convite que recebi para participar de um programa de televisão foi o do Talk Show Literário. Saiba que estou muito contente com a chance de, enfim, esclarecer os vários mal-entendidos dos quais sempre fui vítima. Darico Nobar: A publicação de Dom Casmurro fez com que seu nome fosse eternizado na literatura como sinônimo de mulher dissimulada, pouco confiável e, por que não, infiel. Você guarda rancor do autor do romance, seu ex-marido, por esse estigma? Capitolina Santiago: Ex-marido é para essas coisas, né? [A convidada ri de seu comentário]. Para começo de conversa, tenho uma interpretação diferente do livro. [Ela volta a ficar séria]. Dom Casmurro não é uma obra sobre a infidelidade feminina, como Madame Bovary ou Primo Basílio, por exemplo. Sou uma mulher totalmente distinta de Emma e de Luísa, aquelas duas despudoradas! A autobiografia de Bentinho trata do ciúme doentio de um homem desequilibrado emocionalmente. O foco da trama está, portanto, nas paranoias dele, não no meu comportamento como esposa. Darico Nobar: Contudo, o relato do seu ex-marido acabou depreciando sua imagem. Capitolina Santiago: Volto a contestar essa visão. A narrativa dele é muito favorável a mim. Sou descrita como uma dama exemplar em todas as perspectivas: ótima dona de casa, boa mãe, esposa zelosa, filha dedicada e nora atenciosa. Sou retratada também como alguém econômica e desinteressada de bens materiais. Bentinho sempre me viu como uma mulher bonita e amável. Além disso, não houve nenhuma passagem que, explicitamente, me denegrisse. Até nas páginas sobre o enterro do Escobar, quando muitos dizem que me excedi nos lamentos, vejo a narrativa fiel aos fatos. Estava triste pela morte de um amigo e nada mais. Contive-me, como era meu papel naquele instante. Foi o próprio Bentinho quem afirmou isso. É só ler o livro. O problema é que a maioria das pessoas nunca leu Dom Casmurro com a atenção necessária, preferindo me julgar pelo que ouviram dizer sobre mim. Aí não dá! Darico Nobar: Apesar dessa apresentação inicial favorável, é seu marido quem lança, durante o romance, insinuações sobre uma possível infidelidade da sua parte. Capitolina Santiago: Sim, porque estamos falando de um homem com ciúme doentio. Repito: O problema está nele, não comigo. Não dei margem nenhuma para que ele suspeitasse de traição da minha parte. Procure alguma cena ou situação embaraçosa a meu respeito! O senhor não encontrará nada que macule minha retidão. Darico Nobar: Houve um episódio emblemático quando, certa noite, Bento foi ao teatro. A senhora reclamou de indisposição e não quis acompanhá-lo, insistindo para que ele fosse sozinho. Ao voltar mais cedo, seu ex-marido encontrou Escobar perto da sua casa. E a senhora não parecia mais tão doente quando ele chegou do passeio. Capitolina Santiago: E no que tal passagem poderia abalar minha reputação?! Quem nunca ficou indisposta e depois de algumas horas de descanso melhorou? E foi o senhor mesmo quem disse que o Escobar foi visto perto de minha casa. Ele ia para lá porque tinha negócios a tratar com meu marido. Do jeito que vocês falam, até parece que pegaram o Escobar na cama comigo ou nu no interior do meu quarto. Darico Nobar: As semelhanças de seu filho com o Escobar não levantam suspeitas? Capitolina Santiago: E quem disse que os dois eram parecidos? O Bento! Apenas ele afirmava essa tolice. Ninguém mais comentou isso. Na verdade, fui eu quem iniciou essa história ao comentar, por acaso, que Ezequiel e Escobar tinham olhos semelhantes. Se soubesse até onde esse comentário chegaria, jamais o teria feito. Darico Nobar: Então, eles não eram parecidos? Capitolina Santiago: Ezequiel e Escobar eram tão parecidos como eu sou do senhor. Darico Nobar: Como assim?! Capitolina Santiago: Cada um deles tinha dois olhos, uma boca, duas orelhas, um nariz, dois braços e duas pernas. Essas eram as semelhanças entre eles. Darico Nobar: E isso era motivo para tanta neura por parte do seu ex-marido? Capitolina Santiago: Para alguém profundamente inseguro de si e que tinha ciúme até dos mortos, essas características não podiam ser meras coincidências e sim provas irrefutáveis de minha traição. Vale lembrar o apelido do Bentinho. Ele era chamado, desde a juventude, de Dom Casmurro. Ou seja, era teimoso, inflexível e birrento. Quando botava uma ideia naquela cabeça dura dele, ninguém mais a tirava de lá. Foi o que aconteceu com essa história de Ezequiel ser filho do Escobar. Darico Nobar: As semelhanças entre eles chegaram a incomodá-la na época? Capitolina Santiago: Claro que não! Até porque eles não eram assim tão parecidos, como já expliquei. Talvez os olhos fossem iguais. Só os olhos. Semelhanças maiores, tínhamos eu e a mãe da Sancha. E nem por isso, alguém criou teorias conspiratórias a respeito dos nossos pais. Darico Nobar: Por que a chamavam de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada"? Capitolina Santiago: Essa foi uma expressão criada pelo José Dias, o sanguessuga dos diabos que não saía do pé do meu marido. Sempre odiei aquele sujeitinho bajulador, interesseiro e preguiçoso. Foi ele quem colocou minhocas na cabeça do Bentinho. Desde a infância do meu ex-marido, o José Dias alimentava intrigas a meu respeito. Não é de se impressionar que o Bentinho tenha crescido com dúvidas em relação ao meu caráter. Darico Nobar: Por que Dom Casmurro faz tanto sucesso ainda hoje? Capitolina Santiago: Porque é divertido falar mal da vida alheia e questionar a fidelidade de uma dama respeitada da sociedade. Vivemos em um mundo machista, onde toda mulher é, na crença popular, promíscua, precisando de supervisão em tempo integral. Se der qualquer chance, ela irá trair seu esposo ou namorado. Note que nunca ninguém questionou o comportamento do Bentinho. Ele podia flertar com minha melhor amiga, por exemplo, pois tinha a certeza que esse episódio passaria despercebido pelos leitores. Nunca vi ninguém o chamar de infiel por causa disso! Darico Nobar: Você acha que Bento e Sancha tiveram um caso? Capitolina Santiago: Se não tiveram, ficaram muito próximos de ter tido. É o próprio Bentinho quem comenta o affair entre eles em sua autobiografia. Se não fosse o falecimento trágico do Escobar, tenho certeza que meu ex-marido teria ido para a cama com a minha amiga de infância. Isso é, se eles não foram... Darico Nobar: Para terminarmos essa conversa memorável, preciso que a senhora seja mais enfática em relação a sua fidelidade conjugal. Ainda não está claro se você foi ou não fiel ao Bento Santiago durante todo o tempo em que vocês estiveram juntos. O que a senhora tem a dizer sobre isso? Você e o Escobar foram amantes? Seja explícita nesse momento, por favor. Nada de rodeios! Capitolina Santiago: Sou a principal interessada em esclarecer essa questão de uma vez por todas. Por isso, afirmo, olhando nos seus olhos e diante dessa enorme plateia, que sou uma mulher... [A energia elétrica é abruptamente interrompida no bairro do Jardim Botânico, onde a emissora está localizada. Um blackout atinge grande parte da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Sem gerador próprio, as câmeras do programa se apagam e os microfones ficam inutilizados. A transmissão ao vivo é paralisada. Sem luz no estúdio, o público é retirado às pressas do auditório por medida de segurança. O mesmo ocorre com os funcionários do programa e com a visitante. Na casa dos espectadores, uma mensagem surge na tela dos televisores: "Serviço interrompido por problemas técnicos. Retornaremos em breve". A emissora fica quatro minutos fora do ar. Quando retorna à operação, uma nova atração já está sendo exibida]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #MachadodeAssis

  • Talk Show Literário: G.H.

    Darico Nobar: Boa noite! Você que nos assiste de casa não pense em trocar de canal. Não há programa melhor do que o Talk Show Literário em sua televisão. Hoje, nossa convidada é uma das personagens mais enigmáticas de Clarice Lispector. Com vocês, G.H! [Os aplausos do público dão as boas-vindas à entrevistada]. G.H.: Olá, D.N. Olá, pessoal! Plateia: Ooooooooooooooi! [O auditório responde em um coro animado e orquestrado]! Darico Nobar: G.H., você não se incomoda quando... G.H.: Admito que é estranho estar diante de tanta gente. Estou mais acostumada a ficar em meu apartamento sozinha. Como é bom ficar na minha cobertura refletindo tranquilamente sobre a vida e analisando a condição humana. Sinceramente, não sei como reagirei a esta sessão de perguntas. Curiosa essa situação, né? Quando estou pensando no aconchego do meu lar, consigo divagar sobre todos os temas relevantes da nossa existência sem qualquer receio. Porém, quando interrogada, posso perder o foco do debate ou não ser tão profunda na análise do tema discutido. Para não cair nesse erro, vou logo avisando que não me responsabilizo pelo resultado final da nossa conversa. Não tenho prática nenhuma nesse negócio de diálogo. Darico Nobar: Nós vamos falar sobre isso. Contudo, agora, gostaria de começar a entrevista tratando... G.H.: Você tem razão, D.N. Às vezes, sou um pouco impaciente. Talvez ansiosa ou um tanto precipitada. E quem nos dias de hoje não sofre desses males, não é mesmo? Muitas vezes começo a falar sem me preocupar com a ordem natural das coisas, atropelando um pouco os assuntos e divagando infinitamente. Não acho isso de todo ruim. Início, meio e fim são termos subjetivos, né? O começo de algo pode ser o desfecho de outro fato, enquanto um final pode representar o início de outro acontecimento. Quem pode precisar exatamente onde tudo começa ou termina? Impossível! É tudo mesmo muito relativo nessa vida. Darico Nobar: Sim, G.H. Esta é uma entrevista e gostaria de perguntar como você vê a questão... G.H.: Esse talvez seja o principal paradoxo dos programas de entrevista. O único recurso do entrevistador é ficar fazendo perguntas para o convidado. Você já reparou nisso? Toda a verdade a respeito de algo está na opinião ou nos valores pessoais de quem é entrevistado. E se ele estiver equivocado ou não souber a resposta correta?! E se ele não quiser colaborar? Para piorar, o próprio protocolo desse tipo de programa inibe a comunicabilidade. Engraçado pensar nisso, né? A relação interpessoal baseada exclusivamente no questionamento unilateral empobrece a discussão. O entrevistador prepara um conjunto de perguntas com o pseudopropósito de guiar a conversa e de estimular o convidado. Será mesmo que esse comportamento ajuda no debate sadio? Tenho lá minhas dúvidas. Se o entrevistado quiser abordar outros temas mais interessantes e enriquecedores para o público, ele acaba podado pelo apresentador do programa, tendo sua iniciativa frustrada. Quando o convidado responde mecanicamente aos questionamentos, acabamos perdendo a riqueza, a pluralidade e a espontaneidade da discussão. Por isso, acho que o ideal seria deixar o convidado falar livremente. O monólogo reflexivo é uma maneira intensa de explanação e de troca de informações. A psicanálise usa esse recurso com propriedade há muito tempo. Não gosto das entrevistas tradicionais porque elas se parecem com interrogatórios policiais. Ainda bem que você, D.N., não é um entrevistado chato que fica tentando cortar a fala do convidado. Vivemos em uma democracia e temos o direito à livre expressão. Darico Nobar: Concordo com você, mas este é um programa de entrevistas e eu preciso perguntar algumas coisas. G.H.: Já sei! Você quer saber o meu verdadeiro nome, não é? Esse é o tipo de pergunta que se espera dos entrevistadores. Às vezes, vocês, âncoras dos talk shows, são tão previsíveis. Não sei como o público aguenta assisti-los. Qual o problema de eu me apresentar apenas pela sigla?! Isso é tão comum. Veja o caso do FHC e do JK. Alguém pode até me interpelar: "Na literatura não pode! Todas as personagens ficcionais precisam ter um nome". Não concordo. Alguém, alguma vez, já questionou Franz Kafka por ele ter chamado um de seus protagonistas de K.? Claro que não! Além do mais, acho tão bonito G.H. A sonoridade dessas letras dá um tom de mistério à minha personalidade. Acho melhor assim do que ser conhecida por algum apelido pejorativo, como muitos brasileiros gostam de fazer. Há inclusive personagens nacionais que são mais lembradas pelos seus apelidos jocosos do que pelos seus verdadeiros nomes. Acho horrível essa situação! Nunca dei liberdade para meus leitores me chamarem de forma carinhosa ou com qualquer intimidade. Cheguei até a pensar em assinar o romance como Senhora G.H. Acho que seria mais apropriado. Darico Nobar: E... G.H.: Lá vem você questionar o porquê falei romance e não novela. A Paixão Segundo G.H. pode ser encarada tanto como romance quanto como novela. A própria Clarice Lispector nunca se preocupou com essa questão, chamando a obra simplesmente de "coisa". Na primeira vez que a ouvi falar assim, confesso que fiquei um pouco ofendida. Depois compreendi sua intenção. Ela queria acabar de uma vez por todas com a polêmica vazia sobre a classificação da narrativa. Entretanto, eu gosto de pensar o livro como um romance. Apesar de ter poucas personagens e um enredo curto, creio na complexidade psicológica da sua trama. Darico Nobar: Por que você comeu uma barata?! [Sua fala sai bem rápida]! G.H.: Não precisa falar tão depressa. Até parece que vou sair correndo... Também não sou surda, tá! Não grite comigo. Fale normal que eu respondo às suas perguntas. Essa questão da barata é realmente muito controversa. Já ouvi muita gente falando: "Li sua história até o momento em que aparece a barata. Tenho pavor de insetos! Não aguentei e fechei o livro na hora. Nunca mais consegui lê-lo". Há quem tenha me confessado: "A cena em que você morde a barata é tão nojenta que fiquei com ódio do livro. Isso não é algo que se faça com os leitores". Geralmente, quem tem essas reações de repulsa são as mulheres. Até mesmo as mulheres mais independentes, bem-sucedidas e poderosas tornam-se menininhas tolas e frágeis quando se deparam com uma barata. Aí não tem feminismo que aguente. Foram séculos e séculos de empoderamento feminino para um insetinho insignificante destruir tudo em uma fração de segundos. Darico Nobar: Por que você... G.H.: Desculpe interrompê-lo, mas preciso falar antes que eu esqueça. Tenho um pequeno probleminha de memória e se eu não falar imediatamente, pode ser que nunca mais recorde o que ia falar. Você como entrevistador me entende, né? A prioridade é sempre do entrevistado, certo? Fique tranquilo que assim que disser o que pensei, eu passo a palavra para você. Não sou daquele tipo de pessoa que começa a falar e desembesta, não dando vez para mais ninguém. Nada é mais desagradável do que conversar com um sujeito que não ouve a gente... Mas o que eu ia falar mesmo? Não acredito. Esqueci! Não falei para você não me interromper, D.N. Se você não tivesse me atrapalhado com essa sua mania de querer me perguntar as coisas, eu não teria esquecido. Nunca mais vou lembrar o que eu ia falar... Darico Nobar: Você estava falando da barata e das mulheres, ou algo assim. G.H.: Isso mesmo! Obrigada. Lembrei. O que queria falar é que o pior pesadelo para uma mulher, mesmo em pleno século XXI, é o aparecimento de uma barata em sua casa. Se estivermos sozinhas, a situação pode se tornar mais traumática. Sabendo disso, pensei em acabar de vez com esse temor. Os psicólogos falam que é preciso encarar os medos de frente. Foi o que fiz. Matei a barata e ainda por cima resolvi comê-la. Esse gesto praticamente me libertou de todas as minhas angústias, das minhas preocupações e dos meus receios. Repare que não engoli o bicho de uma vez. Não! Mordi provando cada sabor do líquido branco que ele expelia. A partir de então, me tornei uma mulher mais livre e forte. Hoje, consigo encarar a vida de maneira mais leve e lúcida. Darico Nobar: Você repetiu esse ato alguma outra vez? [Novamente, fala de forma acelerada, engolindo algumas sílabas e expelindo um pouco de saliva]. G.H.: Nunca mais uma barata entrou em minha residência depois daquele dia. Pelo menos, eu nunca mais achei nenhuma por lá. Quando a gente consegue extirpar nosso medo, o universo passa a girar de outra maneira. Quem sabe não são as baratas que agora têm medo de mim. Porque a notícia que eu devorei uma deve ter se espalhado pela comunidade de insetos da cidade. Assim, elas passaram a temer a minha pessoa, fugindo da minha vista. Esse é o grande conceito da antropofagia: devore seu inimigo e torne-se mais forte do que ele. Desde então, aconselho todas as mulheres a comerem uma barata o quanto antes. Só assim, elas poderão se livrar do sentimento de nojo e de medo que as persegue. Darico Nobar: G.H., infelizmente o nosso tempo... G.H.: Estou vendo a plaquinha que levantaram para você. Não sou analfabeta! [Olha para um dos lados, verificando o que se passa em seu entorno]. O tempo do programa está no fim, né? Eles estão pedindo para você se despedir de mim e para me agradecer pela minha presença no programa. Não precisa fazer isso. Eu mesmo me despeço do público. Pessoal, tchau. Boa noite! Plateia: Booooooooooooa noiiiiiiiiiiiite! G.H.: Agora a plaquinha está dizendo para você encerrar o programa e falar que o Talk Show Literário voltará na semana que vem nesse mesmo horário. É esse o nome do programa? Talk Show Literário... Não gostei. É um nome muito formal. Além disso, a maioria das palavras está em inglês. Não gosto desse estrangeirismo. Devemos valorizar mais os símbolos nacionais. Qual o problema do nosso idioma natal? Darico Nobar: Esse nome foi... G.H.: Lá vem você com alguma explicação esfarrapada. Não quero ouvir suas desculpas, tá? Eu já disse que não gostei do nome e nada vai mudar minha impressão a esse respeito. Você, às vezes, parece meu ex-marido, tentando justificar o injustificável... Acho que não falei dele ainda hoje, né? Ele era o tipo de homem que... [O microfone da entrevistada é cortado]. Darico Nobar: Galera, até o próximo Talk Show Literário. Boa semana para todos! [Com o encerramento do programa, o apresentador se levanta da sua poltrona para ir embora. É possível ver a convidada ainda sentada no sofá falando...]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #ClariceLispector

  • Talk Show Literário: Fabiano

    Darico Nobar: Boa noite, pessoal. O Talk Show Literário de hoje está no ar! Neste programa, vamos trazer o mais famoso sertanejo dos nossos romances. Essa criação de Graciliano Ramos é capaz de resistir a todas as adversidades, sejam elas do ambiente inóspito ou das injustiças provocadas pelo "bicho homem". Com vocês, Fabiano! [Os aplausos da plateia ecoam com grande intensidade, mas mínguam logo em seguida]. [Ninguém aparece no palco do auditório]. Darico Nobar: Fabiano, pode entrar. Venha para cá, por favor! [Não há nenhum movimento que indique a presença do convidado nos estúdios da emissora. Por alguns segundos, o silêncio é total no auditório]. Darico Nobar: Fabiano, cadê você?! Produção, onde está o nosso entrevistado? Produção: Ele está aqui sim, Darico. [A voz vem de algum alto-falante]. Está posicionado na entrada do auditório, mas não se mexe. Parece paralisado. Alguém poderia ajudá-lo a chegar até o palco? Darico Nobar: Deixem comigo. Eu o trago para cá. [O âncora do talk show sai de sua posição original e se dirige para a parte de trás do estúdio. Alguns segundos depois, ele reaparece ao lado de Fabiano. A plateia aplaude a entrada da dupla. Entrevistado e entrevistador sentam-se em frente às câmeras de televisão no centro do palco]. Darico Nobar: Fabiano, quase que você se perde dentro dos nossos estúdios, hein? Seria uma ironia e tanto já que você fez, ao lado de sua família, uma caminhada de milhares de quilômetros entre o Nordeste e a cidade de São Paulo. Curioso isso, não? Fabiano: É. Darico Nobar: Já que citei sua família, quero começar nosso bate-papo perguntando sobre eles. Como estão todos? Estão bem? Fabiano: Ahã. Darico Nobar: Gostaria de ter conhecido pessoalmente Sinhá Vitória, essa mulher guerreira e destemida que o acompanha há tantos anos. É uma pena que ela não tenha conseguido vir ao Rio para participar com você do nosso programa. Disseram-me que ela ficou trabalhando em São Paulo. No que ela trabalha mesmo? Fabiano: Diarista. Darico Nobar: E os meninos, estão bem? Fabiano: Ahã. Darico Nobar: Se não me engano, você e sua esposa tiveram dois filhos. Certo? [Fabiano balança a cabeça negativamente]. Não?! Já sei. Depois da publicação de Vidas Secas, nasceram mais algumas crianças. Quantos filhos vocês tiveram ao todo? Fabiano: Quinze. Darico Nobar: Uau! Isso sim é uma família grande, Fabiano. Você e Sinhá Vitória, por um acaso, não tinham televisão em casa ou não conversavam de vez em quando? [O apresentador e a plateia riem, mas o convidado mantém sua seriedade, não esboçando nenhum sorriso]. Desculpe-me pela brincadeira. Fabiano: A gente ficou sem televisão em casa por muito tempo. Darico Nobar: Imagino o quão difícil deve ter sido essa época. [Um tanto constrangido pelo seu comentário anterior, o apresentador retoma a fisionomia séria]. Fabiano: A casa da gente nunca foi de luxo, fique o senhor sabendo. Darico Nobar: De qualquer forma, uma família grande sempre é uma dádiva. Fabiano: Seis crianças morreram assim que nasceram. [A fala do entrevistado é em tom sereno, sem carregar qualquer dose de piedade ou tristeza]. Darico Nobar: Sinto muito, Fabiano. Fabiano: Outros dois morreram na adolescência, assassinados por policiais. Darico Nobar: Que triste! Fabiano: Agora só tem... Tem... Sobraram cinco ou seis mais ou menos. Darico Nobar: Sete pelas minhas contas. Quinze menos oito dá sete! E por falar nos seus filhos, você sabe os nomes de todos? Faço tal questionamento porque fiquei intrigado durante a leitura de Vidas Secas. Os nomes próprios das crianças não foram citados pelo autor em nenhum momento. É como se elas não fossem importantes ou não tivessem sido transformadas em gente ainda. [Fabiano fica em silêncio]. Darico Nobar: Curioso isso, né? Fabiano: Ahã. Darico Nobar: Sinto que você não é chegado a falar muito, Fabiano. Você está tímido diante das câmeras ou esse é um hábito seu? [Fabiano balança a cabeça positivamente]. Darico Nobar: Imagino que seja um hábito... Conte-me, Fabiano, onde sua família mora atualmente? Fabiano: Heliópolis. Darico Nobar: Conheço um pouco esse bairro de São Paulo. Você trabalha no quê? Fabiano: Auxiliar de pedreiro. Darico Nobar: Profissão digna e importante. Meu pai e meu avô também trabalharam como pedreiros. Muitos nordestinos vieram para o Sudeste e ajudaram a erguer as maiores cidades do país. É um trabalho muito pesado. Fabiano: Hummm. Darico Nobar: Já faz mais de setenta anos que você vive em São Paulo. Sua vida hoje é melhor do que a antiga que você levava lá no Sertão? Fabiano: De jeito maneira! Darico Nobar: O que o incomoda? Fabiano: Continuo ganhando quase nada, Doutor. Trabalho como burro de carga e moro em um barraco. Até fome eu e minha família passamos na cidade. Darico Nobar: Mas no Sertão vocês passavam sede. Fabiano: E aqui não? A água é cara na cidade. Isto é, quando ela chega nas torneiras. O que adianta ter muitos rios em São Paulo se são tudo poluído. Darico Nobar: Então, você se arrepende de ter feito a viagem para cá? Fabiano: Ahã. Darico Nobar: Por quê? Fabiano: No Sertão, a gente vivia na natureza. Era mais feliz. A pessoa é mais livre. Ainda volto para lá um dia Darico Nobar: Quem foi a pessoa que mais o decepcionou? Fabiano: O único que ganhou com nossa viagem foi o Doutor Graciliano. Ele era um homem bom e se dizia comunista, mas não dividiu o dinheiro do livro dele com a gente. E pior, largou minha família a pé no meio da estrada. Darico Nobar: Por outro lado, graças à publicação do romance, ele conseguiu denunciar as mazelas sociais de uma região até então ignorada pelos brasileiros. Fabiano: Ahã. Darico Nobar: Você leu o livro Vidas Secas? Fabiano: Não leio, não, senhor. Darico Nobar: Viu ao menos o filme do Nelson Pereira dos Santos?! Fabiano: Não tenho tempo para essas coisas. Mas a patroa da minha mulher levou ela no cinema para ver. Isso foi a muito tempo atrás. Darico Nobar: E a Sinhá Vitória gostou? Fabiano: Não. Darico Nobar: Por quê? Fabiano: Disse que o povo no cinema ficou mais triste com a morte da Baleia do que com o sofrimento da gente. Darico Nobar: Isso os incomodou? Fabiano: Naquele tempo, sim. Hoje, não. [Depois de um longo silêncio, retoma a frase]. Agora a gente já está acostumada com as pessoas que sentem mais pena dos cachorros do que dos pobres. Darico Nobar: Você acha que até hoje o nordestino sofre muito preconceito? Fabiano: Sei não. Darico Nobar: A transposição das águas do rio São Francisco irá amenizar as secas que o Sertão sofre historicamente? [Fabiano faz uma expressão corporal de indecisão]. Darico Nobar: Você gostaria de encerrar esta entrevista falando algo específico ou passando alguma mensagem para nossos espectadores? [Fabiano balança a cabeça negativamente]. Darico Nobar: Pessoal, esta foi a instigante entrevista de hoje. Muito obrigado pela sua presença em nosso programa, Fabiano. Fabiano: Tá. Darico Nobar: Galera, até semana que vem com mais um Talk Show Literário inédito e exclusivo. Boa noite! [Apresentador se levanta do seu assento e acompanha o convidado, ainda meio perdido no estúdio, para a parte de trás do auditório]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #GracilianoRamos

  • Talk Show Literário: Sérgio

    Darico Nobar: Olá, amigos e amigas que curtem o melhor programa de literatura da televisão brasileira. Saibam que o Talk Show Literário está de volta! E na primeira entrevista desta segunda temporada, vamos receber a visita do narrador-protagonista de O Ateneu, clássico de Raul Pompéia. Sérgio, seja bem-vindo à nossa atração! [Palmas do público recepcionam o entrevistado que caminha até o centro do palco]. Sérgio: Oi, pessoal. Boa noite, Darico. Darico Nobar: Fico feliz que você tenha aceitado o convite para esta conversa. Sei o quanto você é um homem tímido e reservado, avesso aos holofotes. Exatamente por isso, gostaria de começar a entrevista perguntando sobre os motivos que o levaram a escrever um romance tão polêmico. Qual era sua real intenção ao desnudar os comportamentos dos seus antigos colegas e professores do colégio interno? Sérgio: Sempre vivi atormentado pelas lembranças do período escolar. Tudo culpa do que tive de passar nos dois anos de Ateneu. Lembrem-se: eu era apenas uma criança inocente quando fui atirado naquele lugar. Uma vez adulto, resolvi me vingar de todos que, de alguma forma, me castigaram ou me prejudicaram. Escrevi as histórias mais sórdidas de cada um dos meus antigos inimigos para exorcizar meus demônios internos e para mostrar as injustiças das quais fui vítima. Darico Nobar: Você se orgulha dessa vingança ou já se arrependeu de ter exposto tanta gente a situações e episódios tão embaraçosos? Sérgio: Não me arrependo de nada. Afinal, escrevi um romance que, em todo caso, é uma trama ficcional. Que mal pode haver em simples páginas impressas de uma história fictícia de uma criança?! Para amenizar, alterei os nomes verdadeiros das personagens. Fui, portanto, muito bonzinho com todos. Se fosse verdadeiramente vingativo, poderia ter feito coisas muito piores. Há ex-alunos que, para se vingarem do bullying sofrido no passado, voltam para suas antigas escolas e fuzilam a queima-roupa estudantes e professores. Outros preferem cometer suicídios, incapazes de conviver com as lembranças da infância e da adolescência. E tem aqueles que colocam fogo na instituição de ensino que odeiam. Não fiz nada disso. Escrevi simplesmente um livro, contribuindo para a cultura do nosso país. Transformei minha amargura em produto artístico. Se todos fizessem isso, o Brasil seria uma potência literária. Darico Nobar: Nesse sentido, você tem razão. E como foi sua vida, Sérgio, depois de ter saído do Ateneu? Em que você foi trabalhar? Sérgio: Concluí meus estudos em outro colégio interno. Meu pai até tentou me colocar em uma escola convencional, mas não me adaptei. Sentia muita falta dos tipos de colega e do clima de um internato. Uma vez concluída a escola, fui para o Exército. Darico Nobar: E como era seu dia a dia servindo as Forças Armadas? Sérgio: O Exército é muito parecido com os colégios internos. Há várias pessoas mandando e desmandando em você. E temos infinitas regras de comportamento para seguir. Também existem intensas rixas entre os soldados. Parece que um quer comer o outro vivo. Se você não encontra alguém mais experiente, mais forte ou com maior patente para ser seu protetor, fica difícil sobreviver naquele clima tão bélico. Darico Nobar: Você, então, desaconselha os jovens a ingressarem nas Forças Armadas? Sérgio: Não! Pelo contrário. Incentivo todos a se alistarem. Adorei os anos que passei por lá. Tive intensas relações com os rapazes que me protegiam. Eles me introduziram à vida adulta. O Exército é uma importante escola de formação masculina. Você aprende tanta coisa interessante e ainda perde os medos bobos da adolescência. Para completar, as Forças Armadas só têm rapazes fortes e sarados. Uma vez que você passa a tomar banho com eles diariamente, você nunca mais se acostuma a viver sem os amigos por perto. Darico Nobar: São boas as lembranças desse período, certo? Sérgio: Claro! Foi uma época de tantas amizades leais. Um protegendo o outro do frio e dos perigos da selva. Todos se dando mutuamente carinho e companheirismo. Para um homem progredir na vida, ele precisa obrigatoriamente da mão amiga e de um parceiro dando uma forcinha por trás. Foi nesse período como cabo que desabrochei e descobri minhas preferências. Darico Nobar: E quais são essas preferências? Sérgio: Descobri que gostava de... Gostava de... Ah, Darico, fico um pouco acanhado de dizer isso na frente das câmeras. Darico Nobar: Pode se abrir para a gente, Sérgio. Somos seus amigos. Sérgio: Eu gosto mesmo é de minas. Darico Nobar: Mulher, você quer dizer? Sérgio: Não! Aff! [Balança as mãos para baixo, em sinal de desaprovação]. Eu percebi que adorava trabalhar com mineração. Como é linda uma mina de extração mineral, com vários homens suados e sem camisa cavocando os buracos mais sensíveis da natureza. Por isso, fiz faculdade de engenharia e fui trabalhar na extração de minério de ferro em minas no interior do país. Darico Nobar: Você trabalha até hoje com isso ou já se aposentou? Sérgio: Aposentei há algumas décadas. Antes, atuei também em plataformas de petróleo em mares profundos. Era ali que passava vários meses do ano. Darico Nobar: Viver confinado por muito tempo em ambientes exclusivamente masculinos e distantes da família não o incomodava? Sérgio: Podia incomodar quem não estava acostumado ou quem não compreendia os prazeres das relações entre os homens. Nada contra as mulheres, por favor. Mas, os ambientes onde elas predominam são geralmente cercados de intrigas, picuinhas e baixo índice de lealdade. No universo masculino é diferente. Os homens se dão muito mais entre si. Todos se tornam amigos e companheiros. Passar os dias e as noites entre eles era divertidíssimo. O segredo da felicidade está em não ligar para os preconceitos sociais e ter a ousadia de buscar sempre algo novo com seus parceiros. Darico Nobar: Sérgio, você é ou foi casado? Tem filhos e netos? Sérgio: Nunca me casei. Também não tive filhos. Jamais encontrei, nesses mais de cem anos de vida, uma única mulher que me motivasse a subir ao altar e que me encorajasse a constituir uma família. Darico Nobar: O que você tem a falar sobre os eternos boatos a respeito da sua sexualidade? Desculpe perguntar sobre isso, mas você é mesmo homossexual? Sérgio: Fico entristecido quando, em pleno século XXI, as pessoas ainda querem rotular o indivíduo pelos seus hábitos sexuais. Que diferença faz para a literatura se sou homo, hétero ou bissexual? Nenhuma! Por isso, me recuso a sair do arma... Ou melhor, recuso-me a divulgar qualquer aspecto da minha vida pessoal. Darico Nobar: Respeito essa sua postura. Ninguém tem nada a ver com isso. Outra pergunta: como você vê a educação brasileira nos dias de hoje? Sérgio: Infelizmente, o sistema educacional brasileiro é precário e seus resultados são nulos. Ninguém parece se preocupar com o desenvolvimento dos meninos e das meninas em nosso país. As escolas são negligentes, as famílias são omissas e o governo é desinteressado. Outro dia, visitei um colégio público aqui no Rio de Janeiro e ninguém tinha ouvido falar de mim nem de minha obra. O Ateneu era, ali, um livro completamente desconhecido pelos estudantes do último ano do ensino médio. Darico Nobar: Se você fosse ministro da Educação, o que faria para melhorar a realidade de nossas escolas? Sérgio: A primeira providência seria voltar com os colégios internos. A educação em um internato é infinitamente superior à oferecida pelas escolas tradicionais. No colégio interno, as crianças se desenvolvem plenamente, tanto em relação ao conhecimento técnico quanto ao componente moral. A segunda medida seria separar meninos e meninas em instituições de ensino diferentes. Essa mania moderna de promover a igualdade de gêneros é um absurdo! Meninos devem aprender coisas de meninos e devem viver exclusivamente com seus amiguinhos. Meninas devem aprender coisas de meninas e devem conviver apenas entre si. Para terminar minha reforma educacional, a terceira ação seria promover a volta dos castigos físicos. Quando eu era criança, achava-os errados, injustos e improdutivos. Hoje, vejo que sou o homem bem-educado e integrado à sociedade por causa da mão pesada dos meus professores e diretores. Ameaça, violência, punição e autoritarismo são importantes recursos pedagógicos que jamais podem cair em desuso. Tenho pena das escolas e dos professores que não utilizam esses expedientes. Também tenho dó dos estudantes que não são criados com um pulso forte nem com a ameaça de uma chibata. Darico Nobar: Essa visão educacional é um tanto polêmica, você não acha? Sérgio: Pode ser polêmica, mas funciona. Não adianta os pedagogos chegarem com muito mimimi e, na hora do vamos ver, a escola moderna não entregar absolutamente nada do que prometeu. Prefiro o jeito antiquado e politicamente incorreto, mas que funcione na prática. Darico Nobar: De qualquer forma, ainda sim essa visão ortodoxa pode assustar as pessoas... [Fala arregalando os olhos como se ele próprio fosse um desses opositores da escola proposta pelo entrevistado]. Sérgio, muito obrigado pela sua entrevista. [Plateia aplaude o entrevistado que retribui com acenos de mão tímidos]. O Talk Show Literário de hoje fica por aqui. [O apresentador fala olhando diretamente para a câmera 1]. Muito obrigado pela sua companhia e pelo seu carinho. Até a semana que vem. Sérgio: Que ótimo, Daricuzinho! [O convidado dá um pulo de alegria e abraça o entrevistador]. Se você está me convidando para voltar é porque você adorou minha entrevista, né?! Acho que posso vir na semana que vem. Vou adiar um ou outro compromisso, mas estarei sem falta aqui. Sobre o que vamos conversar na próxima entrevista? Darico Nobar: Não, Sérgio! Não o convidei. [Meio constrangido, tenta se afastar do entrevistado que insiste em abraçá-lo]. Eu apenas avisei o público em casa para ver o próximo programa. Já temos todos os entrevistados agendados até o final dessa temporada. Não podemos recebê-lo outra vez, ainda mais de maneira seguida. Sérgio: Então, você não gostou de mim?! [O convidado faz cara de choro]. Darico Nobar: Gostei sim. Só não dá para repetir o entrevistado toda semana. Sérgio: É assim que você me trata?! Usa uma vez e joga fora. Cavalo! Insensível! Saiba que eu sou muito vingativo! Você vai se arrepender por ter me tratado tão mal. Darico Nobar: Pessoal, boa noite. [O apresentador fala outra vez olhando para a câmera. Créditos começam a subir na tela]. Hoje, nós ficamos por aqui. Tchau! [Vira-se para o convidado]. Sérgio, não fique bravo, você entendeu tudo errado. Sérgio: Não adianta vir agora com desculpinhas. Você me desrespeitou na frente do Brasil inteiro. Não admito que me tratem assim. Sou uma personagem famosa da literatura e exijo mais... [A imagem do programa é cortada e uma nova atração da emissora entra no ar]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #RaulPompéia

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