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  • Recomendações: Livros – Melhores Leituras do 2º Semestre de 2025

    Com uma coletânea de títulos de ficção, não ficção e biografia, listamos as cinco publicações mais impactantes que foram analisadas pelo blog de julho a dezembro . Fim de ano é o período oficial das retrospectivas . Confesso que adoro olhar para trás e verificar o que de melhor e pior vivenciamos de janeiro a dezembro. Essa mania (chamo tal hábito de mania, tá?!) é algo que trago desde a infância. Na cada vez mais distante década de 1980, ainda molecote, ficava grudado na televisão de tubo da sala acompanhando com atenção as retrospectivas anuais das várias emissoras abertas. Minha irmã menor (beijo, Celinha) queria morrer por perder seus desenhos animados favoritos. Na adolescência, a curtição era mergulhar nas recapitulações de jornais e revistas. Aí quem ficava maluquinho comigo era meu pai, que ganhava concorrência em suas leituras. Sim, senhoras e senhores, sou de uma época em que as pessoas liam periódicos. Bons tempos aqueles! Por causa do meu gosto um tanto peculiar pelas retrospectivas, o Bonas Histórias  reúne, nesse término de 2025, alguns posts de revival. A ideia é, por supuesto , fazer um apanhado geral da mais recente temporada literário-cultural . Na semana passada, por exemplo, apresentamos os vencedores do 11º Prêmio Melhores Músicas Ruins , evento tradicional do mercado fonográfico promovido por este blog. Parabéns para Brenno & Matheus e DJ Ari SL (Orelhão de Ouro com a música “Descer pra BC”), Xand Avião e Talita Mel (Orelhão de Prata com a canção “Melzinho”) e Oruam, Zé Felipe, MC Tuto e Rodrigo do CN (Orelhão de Bronze com a faixa “Oh Garota, Quero Você Só Pra Mim”). Vamos combinar que a coluna Melhores Músicas Ruins  está cada vez mais vigorosa. É de chorar de emoção, senhoras e senhores. Agora a pegada é mais séria (eu sério?! ÀS VEZES!) e envolve a literatura . Trago para o post de hoje da coluna Recomendações as melhores leituras feitas no segundo semestre de 2025 . Antes que alguém, com razão, me pergunte “mas por que uma retrospectiva literária semestral e não anual, Ricardinho?!”, já respondo na lata: “porque, na última semana de junho, apresentei as melhores leituras do primeiro semestre de 2025 ”. Como não quero parecer repetitivo (eu repetitivo?! NUNCA!), achei por bem concentrar a avaliação nas obras consumidas de julho a dezembro. Justo. Muito justo. Justíssimo! Para começo de conversa (sim, ainda estamos no início desta prosa – senta que lá vem história!), informo que li aproximadamente três dezenas de obras neste semestre que está rumando ao crepúsculo. Se você achou muito a média de cinco títulos por mês (é pouco mais de um por semana), saiba que esse número é baixo para o meu padrão. Não se esqueça que trabalho com crítica literária (a coluna Livros – Crítica Literária  está aí para comprovar), edição de livros (na EV Publicações ) e produção de conteúdo (na Epifania Comunicação Integrada ). Ou seja, minha rotina profissional exige naturalmente leitura em tempo integral. À título de comparação, de janeiro a junho, conheci 35 novos livros (média aproximada de seis por mês). Se o ponto de referência for meu histórico dos últimos cinco anos (consumo de 48 publicações semestrais, o que dá oito mensais ou duas semanais), a queda é até mais acentuada. Quando dou a dimensão das minhas leituras, juro que não a faço para me vangloriar. Até porque, tenho a ciência de que, na minha profissão, esse tipo de coisa é mera obrigação. Como posso escrever, editar e analisar livros com qualidade se não invisto na quantidade do meu repertório literário, né? Além do mais, em uma sociedade cada vez mais audiovisual como a nossa, quem disse que ter hábitos de leitura é algo bem-visto pelas pessoas, hein?! Claro que não! Muitas vezes, me sinto um ET consumindo jornais, revistas e livros em grande escala. Prova disso é que quando conheço uma bela dama, seja En La Ciudad de La Furia , seja na Selva de Pedra, escondo o quanto posso minha compulsão jornalístico-literária. Há coisas da minha personalidade que a candidata à Senhora Bonacorci não precisa saber logo de cara.   Apesar da ligeira diminuição do ritmo de leitura neste semestre, reconheço que tive muita felicidade com a qualidade do que consumi de julho para cá. Em outras palavras, a queda quantitativa não implicou em perda qualitativa. Ufa! Assim, apresento, aos leitores do Bonas Histórias  que procuram ótimas sugestões de aquisição nas livrarias nacionais, as cinco obras que mais gostei nos últimos seis meses. É bom dizer que entre as publicações que mais mexeram comigo há um pouco de tudo: ficção (tanto romance  quanto novela ), não ficção  ( ensaio  e crônica ) e biografia  (com dicas de gestão e empreendedorismo e boas doses de autoajuda  e receitas culinárias ). Por outro lado, essa variedade não se repetiu quando olhamos para a data de publicação e para a nacionalidade das obras do ranking. No top 5, só há representantes contemporâneos (todos foram lançados nos últimos sete anos) e exemplares da literatura brasileira  e da literatura norte-americana . Feita essa introdução (longa, reconheço!), acredito que já estamos preparados para adentrar na  coletânea de melhores   leituras semestrais do Bonas Histórias . Inicialmente, comentarei com mais detalhes os cinco títulos que mais apreciei. Na sequência, de lambuja, citarei os exemplares que ficaram da sexta à décima posição no meu ranking pessoal. Portanto, além do top 5, revelarei com certa timidez o top 10. Respeitando o clima de suspense (que rufam os tambores!), elemento essencial de uma boa narrativa, listo agora os livros por ordem crescente de importância. Aí vamos nós, senhoras e senhores, pelo mundo do melhor da literatura na segunda metade de 2025: 5º Lugar: A Empregada  – Freida McFadden – Romance – Arqueiro – Literatura norte-americana – Thriller dramático – 2022 – 304 páginas. Uma das boas surpresas semestrais foi “A Empregada”  ( Arqueiro ), best-seller internacional de Freida McFadden . A jovem romancista norte-americana criou um thriller  ágil, surpreendente e com várias reviravoltas. O que mais gostei foi da construção das personagens (quase sempre redondas) e da temática (muito em voga atualmente – só não falo o que é para não dar o spoiler). Assim, acompanhamos o drama psicológico de Millie Calloway, uma bonita funcionária doméstica. A moça padece nas mãos de Nina Winchester, uma patroa rica, amalucada e extremamente ciumenta. O que era para ser o emprego dos sonhos se transforma em um pesadelo para Millie. O interessante deste livro foi sua ascensão meteórica ao posto de um dos mais vendidos dos Estados Unidos. “A Empregada” foi publicado inicialmente em e-book por uma editora inglesa em abril de 2022. A receptividade do público foi tão positiva que, já em agosto daquele ano, ele foi lançado em versão física nas livrarias norte-americanas. Rapidamente, o primeiro romance comercial de McFadden entrou na prestigiada lista dos mais comercializados do New York Times, ficando 60 semanas por lá. No Brasil, ele alcançou a liderança em vendas entre os títulos ficcionais em 2025. Talvez a prova maior da excelência desta história esteja no fato de que a trama de “A Empregada” foi adaptada há pouco para o cinema. Querendo ou não, o livro que vai para as telonas ganha o certificado de qualidade do mercado editorial. E, por falar nisso, este longa-metragem estreará nas próximas semanas no circuito brasileiro de cinema. Que tal ler a obra literária antes de correr para as salas de projeção, hein? Posso dizer que já fiz isso. Agora só me falta conhecer o segundo e o terceiro volumes desta saga. Saga? É isso mesmo! Diante do enorme sucesso, Freida McFadden deu sequência à sua trama mais famosa. Os dois novos títulos protagonizados pela carismática e corajosa Millie Calloway são: “O Segredo da Empregada” (Arqueiro) e “A Empregada Está de Olho” (Arqueiro). 4º Lugar: Copo Vazio  – Natalia Timerman – Novela – Todavia – Literatura Brasileira – Drama psicológico – 2021 – 144 páginas. Um dos maiores sucessos comerciais da literatura brasileira desta década é “ Copo Vazio” ( Todavia ), novela de  Natalia Timerman . Esta obra narra o drama sentimental de uma mulher vítima de ghosting . Vamos combinar que essa temática é extremamente contemporânea, não é?! Atire a primeira pedra quem ainda não passou por isso (beijo, Sub-30). Publicado em fevereiro de 2021, esse livro catapultou a carreira de romancista da médica psiquiatra e psicoterapeuta paulistana. Assim, graças ao êxito deste título perante o público leitor e a crítica literária, nosso país ganhou uma belíssima autora ficcional. Saravá! O enredo de “Copo Vazio” gira em torno da vida sentimental de Mirela, uma arquiteta paulistana de 32 anos. Bem-sucedida e com a situação financeira confortável, a moça entra num aplicativo de relacionamento para aplacar a solidão momentânea. Lá, o primeiro cara que conhece virtualmente é Pedro, um mineiro bonitão que está em São Paulo fazendo doutorado em Ciências Políticas. O bate-papo flui, eles se encontram presencialmente, curtem a companhia um do outro e vão para a cama. Instantaneamente, Mirela se apaixona por Pedro e começa a namorá-lo de maneira séria. Até o dia em que ele desaparece sem dar explicações e nunca mais responde às suas mensagens. A partir daí, a arquiteta entra em depressão. Com temática atual, personagens ficcionais bastante verossímeis, protagonista e antagonista contraditórios, excelente ritmo narrativo, prosa elegante, profundidade dramática, narradora pouco confiável, entrelaçamento de espaço temporal, mistura de realidades e desfecho aberto, “Copo Vazio” é uma novela com várias camadas literárias que valoriza a inteligência dos leitores. Gostei tanto deste livro de Timerman que pensei que ele seria o melhor deste semestre. Contudo, tal qual um bom suspense psicológico  com surpresas e reviravoltas nas últimas páginas, surgiram nas semanas derradeiras de 2025 alguns títulos não ficcionais que o suplantaram. Durmamos com essa bomba, senhoras e senhores.    3º Lugar: Talvez Você Deva Conversar com Alguém – Lori Gottlieb – Crônica – Vestígio – Não ficção norte-americana – Biografia/Crônica/Ensaio – 2019 – 448 página. Na primeira sexta-feira de dezembro, peguei “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”  ( Vestígio ) emprestado com minha irmã. Sem nada para ler naquele final de semana, queria uma boa companhia literária. E Celinha (também conhecida como Marcela, a responsável pela coluna Dança e diretora da Dança & Expressão ) me sugeriu sua mais recente aquisição, que ela sequer tinha aberto. Admito que conhecia apenas de nome essa obra de Lori Gottlieb . Afinal, estamos falando de um best-seller internacional que está entre os títulos não ficcionais  mais comercializados no Brasil neste ano. Contudo, confesso envergonhado que não esperava muita coisa desta leitura. Na minha visão um tanto leiga sobre as novidades das demais estantes das livrarias (sou especialista em ficção, única prateleira que navego sem o uso de equipamentos), acreditava se tratar de um mero sucesso comercial com pouca qualidade. Nada mais equivocado da minha parte. Só precisei ler três capítulos de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” para compreender a riqueza de seu texto e não o largar mais. Nesse livro sincero, inteligente e sagaz, Lori Gottlieb, terapeuta norte-americana que trabalhou por muitos anos como assistente de redação em séries de televisão, aborda um momento crítico de sua vida: a depressão causada pelo término repentino de um relacionamento amoroso. Na véspera de se casar com o namorado visto até então como perfeito, ela descobre que ele não quer viver com uma criança pequena. A escritora é mãe de um menino de oito anos. Assim, eles terminam, o que causa uma enorme dor em Lori, que afeta sua saúde física e mental e seu desempenho profissional. O mais legal de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” (exatamente o que o torna uma leitura tão envolvente) é a multiplicidade de faces desta narrativa. Acompanhamos não apenas o drama presente da terapeuta como seu passado. Além disso, ela descreve os tipos mais inusitados que atendeu (sem revelar, obviamente, a identidade real dos pacientes), as descobertas feitas quando se sentou no divã (dessa vez no papel de atendida), os bastidores da televisão norte-americana (lembremos que ela foi assistente de redação de seriados famosos como “Friends” e “Plantão Médico”) e alguns conceitos da psicanálise (de um jeito simples e didático). Em suma, esse livro é uma conversa franca e extremamente perspicaz sobre a importância de se fazer terapia. Ao percorrer as páginas desta publicação, conhecemos a dinâmica das boas conversas terapêuticas e algumas das neuras contemporâneas da nossa sociedade. Curti tanto essa leitura que quero analisá-la em janeiro na coluna Livros – Crítica Literária . Aguardem novidades sobre “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” para as próximas semanas.    2º Lugar: Se a Vida Tivesse Receita  – Silvia Leite – Biografia – EV Publicações – Não ficção brasileira – Autobiografia/Negócios/Autoajuda – 2025 – 200 páginas. Na segunda posição do ranking dos melhores livros analisados pelo Bonas Histórias  no segundo semestre de 2025, temos “Se a Vida Tivesse Receita”  ( EV Publicações ), a autobiografia de Silvia Leite . Sem risco de cair no exagero, afirmo com segurança que esta é a história real mais sensacional que conheci nos últimos anos. A trajetória pessoal e profissional da autora, uma das mais inovadoras empresárias paulistanas do setor de doces congelados, até parece uma novela (e poderia virar filme). Os altos e baixos, com tragédias, reinícios e superações em todas as fases da vida, emocionam os leitores mais exigentes. E olha que quem está falando/escrevendo isso é alguém que normalmente não curte tanto assim biografia . Porém, o jeito franco e direto como Silvia narra seu passado é digno de elogios intermináveis. Impossível não ficar seu fã.  Para quem não sabe, a escritora foi a inventora de algumas sobremesas geladas mais amadas pelos brasileiros. Fazem parte das criações icônicas de Silvia Leite a torta holandesa, a torta alemã, o gelado inglês e o creme holandês. Aposto que você não sabia que foi uma conterrânea nossa a responsável por desenvolver esses doces, né? Falo por mim: eu não conhecia as particularidades da confeitaria nacional antes de ler “Se a Vida Tivesse Receita” . Curiosamente, esse não é o aspecto mais impactante desta leitura. Na minha visão, o grande feito da autora foi ter criado a Holandesa & Cia, a maior empresa de sobremesas congeladas do país em meados dos anos 2000. E Silvia fez isso a partir das receitas confeccionadas na cozinha residencial. Incrível! Lançado em julho deste ano pela EV Publicações , “Se a Vida Tivesse Receita” é uma obra híbrida. Além de narrar os desafios familiares e profissionais de Silvia, ele apresenta lições de empreendedorismo, debate conceitos de gestão empresarial, mostra a evolução da indústria nacional de sobremesas congeladas, oferece pitadas de autoajuda e, claro, encanta os apaixonados pela culinária com algumas receitas que fazem os leitores salivarem. Isso tudo em um projeto gráfico que merece os aplausos do mercado editorial. Em outras palavras, esse livro é perfeito: reúne temas variados, conteúdo riquíssimo, uma história inacreditável e visual impressionante. O que mais podemos querer de uma obra literária, hein? 1º Lugar: Como as Democracias Morrem – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt – Ensaio – Zahar – Não ficção norte-americana – Política – 2018 – 272 páginas. A publicação mais impactante desse semestre foi “Como as Democracias Morrem” ( Zahar ), ensaio político dos norte-americanos Steven Levitsky   e Daniel Ziblatt.  A partir de estudos reais, a dupla de cientistas políticos da Universidade Harvard descreve o passo a passo de como os líderes autoritários contemporâneos fazem para matar ou enfraquecer as instituições democráticas de seus países. Assim, podem governar com maiores poderes, sem temer a interferência ou a influência da Justiça, do Legislativo, da mídia e da sociedade civil. Ao invés de darem golpes armados e/ou recorrerem às forças militares, como ocorria nas décadas de 1960, 1970 e 1980, os déspotas do século XXI corroem pouco a pouco o sistema político para que ninguém reclame da usurpação de poder. Aí quando a sociedade percebe, o país já está de mãos amarradas, sendo comandado por um ditador que usa roupas (pseudo)democráticas.  O mais assustador do livro de Levitsky e Ziblatt é que o método traiçoeiro para destruir a democracia é usado atualmente nos quatro cantos do planeta e por todas as correntes políticas. Ele cita casos na Europa (Hungria), Ásia (Turquia), América do Sul (Venezuela), América Central (El Salvador) e América do Norte (primeiro governo de Donald Trump). Até a tentativa de Jair Bolsonaro de melar o sistema eleitoral do Brasil é mencionado rapidamente. Para quem possa enxergar algum teor ideológico no conteúdo de “Como as Democracias Morrem”, vale dizer que os exemplos trazidos contemplam tanto ditadores de direita quanto ditadores de esquerda. Até porque, vamos combinar, no fim das contas dá no mesmo ser oprimido, perseguido e censurado por qualquer um dos extremos políticos. Lançado em 2018 nos Estados Unidos e traduzido rapidamente para vários idiomas, “Como as Democracias Morrem” é uma obra imperdível para quem quer entender a realidade sócio-política dos dias de hoje. A partir dos estudos e das pesquisas históricas de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, conseguimos compreender as manhas e artimanhas de líderes tóxicos e populistas para se perpetuar no poder. Além de uma leitura imperdível, ela é uma obra de utilidade pública. Quem dera a maioria da população enxergasse a manipulação que seus ídolos políticos arquitetam na surdina.   Como prometido no início deste post da coluna Recomendações , agora vou exibir o top 10 das minhas leituras preferidas do segundo semestre de 2025. Como o clímax já ficou para trás, sinto que posso exibir a lista de livros em ordem decrescente de importância. Confira: Por hoje é só, pessoal. Um ótimo finalzinho de 2025 para todos os leitores do Bonas Histórias . Em 2026, prometo retornar ao blog com novas seleções com o melhor da literatura, cultura, artes e entretenimento. Até a próxima indicação! Gostou deste post do Bonas Histórias ? Para acessar a lista de melhores livros, filmes, músicas, peças teatrais e exposições, clique na coluna Recomendações . Para ver as nossas análises literárias, clique na coluna Livros – Crítica Literária . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Livros: Talvez Você Deva Conversar Com Alguém – A polêmica autobiografia de Lori Gottlieb

    Publicada originalmente em abril de 2019 e lançada no Brasil em abril de 2020, esta obra não ficcional da jornalista e terapeuta norte-americana entrou na lista dos títulos mais vendidos do New York Times  ao apresentar o universo da psicoterapia com franqueza, bom humor, profundidade e, por que não, boas doses de polêmica . Hoje vou comentar um livro que li no início de dezembro e que gostei demais. Gostei tanto que o resultado prático desta leitura é, voilà , uma nova matéria do Bonas Histórias . Conforme escancarado no título e na imagem principal deste post, o que estraga qualquer tentativa de mistério ou suspense das linhas introdutórias da minha análise, a obra em questão é “Talvez Você Deva Conversar com Alguém – Uma Terapeuta, O Terapeuta Dela e A Vida Louca de Todos Nós”  ( Vestígio ), o best-seller internacional  da jornalista e psicoterapeuta norte-americana Lori Gottlieb . Para ser mais preciso em minhas palavras iniciais, diria que fiquei encantado com esta biografia sincera, inteligentíssima e inovadora. Como é bom mergulharmos em trabalhos editoriais que realmente valem a experiência de leitura, apesar das polêmicas geradas. E põe polêmica aí, senhoras e senhores!    Depois de figurar, quase que instantaneamente ao seu lançamento, na lista dos mais vendidos do New York Times , este livro foi publicado no Brasil um ano mais tarde. A tradução para nosso idioma foi feita por Elisa Nazarian . E por aqui, “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” também despontou como um dos títulos mais adquiridos pelo público nacional. Nada mal se pensarmos que se trata de uma autobiografia que se propõe a revelar os mecanismos das psicoterapias e o bem-estar gerado pelas conversas dos pacientes com seus psicólogos. Convenhamos que este assunto não é, principalmente em nosso país, dos mais populares, né? Diferentemente do que ocorre com os moradores de Buenos Aires (meu outro lar!), paulistanos, cariocas, belo-horizontinos, porto-alegrenses, curitibanos, recifenses, soteropolitanos, calangos e manauaras, por exemplo, não têm a psicoterapia como prática rotineira. Acredito até que muitos de meus conterrâneos ainda a vejam com certo grau de preconceito, o que é uma pena. Antes de me aprofundar nos pormenores deste best-seller, preciso explicar aos leitores do blog o quão excepcional foram as últimas análises da coluna Livros – Crítica Literária . Afinal, em uma seção voltada prioritariamente para o debate das melhores produções ficcionais, tivemos recentemente uma overdose de publicações não ficcionais . Além de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, nosso tema de hoje, discutimos, no mês retrasado, “Se A Vida Tivesse Receita” (EV Publicações), autobiografia de Silvia Leite, a inventora da torta holandesa e de várias outras sobremesas famosas da confeitaria nacional. O que estaria acontecendo com o tradicional espaço de análises das narrativas literárias, hein?! Abro uma dupla de parênteses imaginários em meu texto justamente para esclarecer essa inquietação (talvez mais minha do que da meia dúzia de leitores que me acompanham sazonalmente). Começo minha explicação dizendo que, no vasto mundo do mercado editorial, sou especialista apenas em Ficção Literária. E ponto final. Repare na redundância proposital da união do “apenas” com a explicitação, logo a seguir, do “ponto final”. Por mais que me contratem como editor, consultor, revisor e ghostwriter em outras áreas (Negócios, Não Ficção e Biografias, principalmente), sempre deixo claro (com a mesma ênfase colocada aqui) que só entendo (e olhe lá!) do que se passa nas prateleiras e nas páginas dos livros ficcionais. Adoraria ser um profissional mais versátil e completo? Claro que sim. Contudo, reconheço minhas limitações e incompletudes. Como diria o título do novo longa-metragem de Eva Victor, Sorry, Baby ! Isso quer dizer que não leio nada fora das estantes da ficção? Evidentemente que não! Como leitor recreativo, me considero bem mais eclético, profundo e sagaz do que como profissional da indústria editorial. Meu hobby é devorar livros de quase todos os assuntos. Só não aprecio, tenho que reconhecer que por puro preconceito, títulos religiosos e de autoajuda. Eca! O correto seria dizer que nutro enorme ojeriza deles. Fujo de tais temas como o Diabo foge da cruz. Ou como o primo pobre que corre na direção contrária à fortuna e à vida abastada. Pensando melhor agora, talvez esse hábito de leitura explique muita coisa na minha vidinha tão caótica, pecadora e pouquíssimo farta em recursos monetários. Mas o porquê estou derramando essa ladainha antes de começar a falar de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, o livro de Lori Gottlieb que é o tema central desse post do Bonas Histórias ? Aí que está o X da questão, senhoras e senhores. No segundo semestre de 2025, os três títulos que mais gostei de ter conhecido foram obras não ficcionais. Confesso que há muito tempo isso não se passava comigo. Tanto é que comentei essa excepcionalidade na matéria sobre as melhores leituras do último semestre . Não sendo especialista nessa área, poderia eu comentar tais livros com a mesma profundidade dos romances, novelas, coletâneas de contos, coleções de crônicas, histórias infantojuvenis e narrativas infantis? Conseguiria, ao fazer análises fora do campo ficcional, manter a qualidade já conhecida da coluna Livros – Crítica Literária ? Minha resposta inicial foi um retumbante e sonoro duplo “NÃO”. Entretanto, pensei melhor (nada como o fim do ano para repensarmos velhas crenças, né?) e decidi que ainda assim faria posts de pelo menos duas das obras que mais gostei na metade final de 2025. O importante é que os leitores do blog entendam o tom incomum de minhas análises. Passado esse momento de exceção, sei que voltarei a concentrar a atenção na ficção. E é bom também todos saberem que as análises de “Se A Vida Tivesse Receita” e “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” foram feitas com meus olhos de entusiasta e não de profissional. Infelizmente, não entendo como gostaria dos meandros das narrativas não ficcionais. Espero que os leitores me perdoem por essa falha. Feita essa explicação (ou seria desabafo?), podemos entrar propriamente na parte do texto sobre o livro em questão. Ufa. Até que enfim acabou a enrolação. Peguei “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” para ler meio que por acaso no comecinho do mês passado. De volta à São Paulo depois de dois anos e meio morando em Mi Buenos Aires Querido , me alojei provisoriamente no apartamento de minha irmã em Perdizes. De bom grado, Marcelinha fez do escritório/biblioteca dela o meu quartinho. E, no final de tarde da primeira sexta-feira de dezembro, enquanto Pescuitto puxava um soninho canino aos meus pés, procurei algo diferente para ler na prateleira. Foi aí que avistei o amarelão da capa desta obra de Lori Gottlieb ainda embrulhado no plástico. Hermanita  comprou o livro há algum tempo e não teve a preocupação sequer de desembrulhá-lo antes de colocar na estante residencial. Li “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” de maneira despreocupada. Definitivamente, não queria algo para comentar no Bonas Histórias  nem esperava uma experiência literária de altíssimo nível. Só desejava mesmo algo diferente para me entreter por algumas horas no quarto de visita (tá bom, na biblioteca) da irmãzinha. Juro que pensei de um jeitão muito preconceituoso: “como boa parte dos best-sellers recentes, esse título deve trazer uma enxurrada de obviedades e lugares-comuns”. Não poderia estar mais enganado. Gostei tanto desta publicação que não desgrudei dela no final de semana inteiro. Em três dias, já a tinha devorado integralmente. O curioso é que, conversando com uma nova amiga no meio daquele final de semana (beijo, Tati), descobri que ela também o estava lendo. No sábado à noite, quando nos conhecemos, estávamos inclusive na mesmíssima parte de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. Aí nossa prosa engatou como milagre, embalada sobre o que estávamos achando desta leitura. Nada como, além das coincidências e aleatoriedades da vida, trocar ideias com mulheres bonitas, inteligentes e de gosto refinado!    Publicado nos Estados Unidos em abril de 2019 com o título original “ Maybe You Should Talk to Someone ” pela editora HarperCollins , esse livro rapidamente se tornou um enorme sucesso de vendas em seu país. Lori Gottlieb, californiana de 59 anos, é uma jornalista e psicoterapeuta acostumada a escrever sobre psicologia tanto nas livrarias quanto na mídia impressa e na internet. Além dos vários livros lançados, ela tem uma coluna semanal na revista The Atlantic  em que dá conselhos aos leitores. Também é figura frequente nos artigos do New York Times , onde discorre sobre terapia, cultura e bem-estar. Alguns dos seus textos se transformaram em sensação entre os leitores do tradicional jornal nova-iorquino, daí sua popularidade junto ao público. Preciso dizer que “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é um livro híbrido. Em parte, ele pode ser descrito como uma biografia convencional. Afinal, a autora relata boa parte dos seus desafios profissionais e os momentos mais delicados de sua trajetória pessoal. Por outro lado, esta obra pode ser descrita como uma coletânea de crônicas . Afinal, assistimos ao debate de variados temas: amor, separação conjugal, maternidade/paternidade, morte, luto, depressão, suicídio, alcoolismo, felicidade/infelicidade, reinvenção profissional, busca pelo perdão, entre outros assuntos. E há, por supuesto , o conteúdo técnico da psicologia , trechos em que a escritora detalha o processo de cura emocional a partir da realização de sessões de psicoterapia. Inclusive, de forma surpreendente, Gottlieb exibe em detalhes os casos de quatro pacientes que ela atendia. Olha a polêmica aí, gente! Ela revela as dificuldades mais íntimas deles e como fizeram para superar os momentos mais difíceis. É bom dizer que a própria psicoterapeuta se coloca no papel de paciente, quando sua vida emocional desmorona e ela procura a ajuda de um psicólogo. Por isso mesmo, não é errado enxergar essa publicação com pitadas generosas de autoajuda .   Ou seja, esse é um livro que, entre vários assuntos discutidos e pessoas abordadas, trata do poder terapêutico da terapia. Juro que não sei se escrever “poder terapêutico da terapia” é uma expressão redundante. Se for, desculpe-me pela falha linguística. Por mais que saibamos da importância e da eficácia das sessões de psicoterapia, ainda assim é muito legal ver na prática os efeitos saudáveis das conversas sinceras e profundas dos pacientes com seus terapeutas. Ao assistir às curas acontecendo no texto de Lori Gottlieb, entendemos com mais intensidade o método de melhora mental e emocional da terapia. Incrível! Confesso que a minha vontade, ao fechar as páginas de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, foi procurar um psicólogo para começar a me clinicar (algo que jamais passara por minha cacholinha pra lá de oca). Ou fazer um curso de psicologia para entender o poder da cura das boas conversas (outro pensamento inédito que tive). Vendo a dificuldade natural dos dois caminhos, preferi extravasar meus anseios produzindo esse post para a coluna Livros – Crítica Literária . Quem foi que disse que o fazer literário ou o exercício da crítica literária não têm também poderes terapêuticos, hein?! Vamos agora detalhar com mais rigor a trama desta obra. Se estivéssemos com um título de ficção em mãos, diria simplesmente que entraríamos na análise de seu enredo . Porém, como “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é uma não ficção/autobiografia, tenho que dizer que iremos comentar, nos próximos parágrafos, sua narrativa. Então vamos nessa, pessoal! Com 40 e poucos anos, Lori é uma psicoterapeuta de Los Angeles com a rotina aparentemente tranquila. A narradora tem seu consultório próprio onde atende a alguns pacientes. Ela possui um filho, Zach, de oito anos. O menino foi gerado de maneira independente (entenda como quiser a essa frase!). Lori namora há alguns anos um homem do tipo perfeito: carinhoso, inteligente, bonito, educado e compreensivo. O Namorado, como ele é chamado, tem duas filhas já adolescentes de um relacionamento anterior, que vivem com a mãe. O namoro de Lori vai muito bem obrigado. Eles até planejam se casar em breve. Os preparativos para o casório são, inclusive, pauta de conversas deles. Isso até o mundo da autora simplesmente desabar. Numa noite qualquer, ela está na cama com o Namorado e o questiona sobre o motivo de ele estar tão calado e sério. O rapaz diz que não é nada, talvez cansaço do trabalho. A psicoterapeuta insiste. Ela o conhece muito bem. Há algo o incomodando para gerar aquela cara amarrada e pouco usual. Diante da insistência da amada, o Namorado desabafa: ele não quer mais viver com Lori nem deseja se casar. O problema não é exatamente ela e sim o filho dela. O Namorado não quer passar a próxima década tendo uma criança em casa. Ele já viveu esse período com as filhas e está aliviado por elas terem crescido. Diante desse diagnóstico, ele pega suas coisas e vai embora. É o fim abrupto de um relacionamento longo e que deveria durar muito mais. Não é preciso dizer que Lori entra em profunda depressão. Ela não consegue parar de chorar e acha que jamais superará aquela traumática separação. Para complicar ainda mais sua vida, seu novo estado mental/emocional atrapalha em cheio seus planos profissionais. Há vários meses, a psicoterapeuta recebeu um polpudo adiantamento de uma editora para escrever um livro sobre felicidade, mas não produziu uma linha sequer. Contudo, a procrastinação deve acabar imediatamente. Pressionada pelos editores pelo longo atraso, ela tem que entregar uma parte da nova obra sim ou sim. Do contrário, a editora cancelará o contrato e exigirá a devolução da bolada. O problema é que Lori não tem mais a grana (gasta, evidentemente) e não se sente em condições para escrever algo com uma temática tão delicada. Desde quando uma depressiva que vive no fundo do poço poderá discorrer sobre a beleza da vida?        Por isso, a narradora procura a ajuda de um psicólogo. A partir de indicações de amigos e colegas de trabalho, ela se torna paciente de Wendell Bronson, um experiente e gabaritado profissional de Los Angeles. A autora apresenta aos leitores suas sessões com o psicólogo e mostra o quanto as conversas com ele a ajudam a superar o trauma do término do relacionamento com o Namorado. Ao mesmo tempo, Lori exibe alguns casos clínicos em que está trabalhando como terapeuta. Não nos esqueçamos que ela também é psicoterapeuta. Assim, a narradora discorre basicamente sobre quatro de seus pacientes mais marcantes: John, Julie, Rita e Charlotte. John, um ator quarentão famoso, extremamente egocêntrico e frio com as pessoas, tem uma péssima relação com a família – esposa e duas filhas pequenas. Para ser franco, ele não tem uma interação satisfatória com ninguém. Do seu ponto de vista, todos a sua volta são idiotas, que só o atrapalham e o fazem perder tempo com babaquices. Não por acaso, vive enfezado seja em casa, seja no trabalho. Por mais que ame a mulher e as filhas, John não consegue se aproximar como deveria nem sabe demonstrar o que verdadeiramente sente por elas.   Julie, uma professora universitária de 35 anos, descobre ter câncer terminal. A descoberta médica acontece assim que retorna de lua de mel, o que estende o drama para seu marido. Assim, os planos de seguir com um casamento convencional e de ter filhos foram por água abaixo com um diagnóstico tão atroz. Agora a preocupação de Julie é se recuperar ou, conforme as notícias dos médicos pioram cada vez mais, simplesmente sobreviver o máximo possível. Aos 69 anos, Rita é uma senhora amarga e depressiva, que sente raiva de tudo e de todos. De tão desanimada com a vida, ela até cogita se suicidar tão logo complete o septuagésimo aniversário. Depois de alguns casamentos fracassados, quase sempre relacionamentos tóxicos com homens violentos, e de não ter qualquer contato com os filhos adultos, que a odeiam profundamente, a paciente mais idosa de Lori vive sozinha. Sem interação com amigos, vizinhos, colegas ou parentes, Rita não vê mais sentido em seguir com seu cotidiano triste e enfadonho. Por fim, Charlotte é a paciente mais jovem de Lori. Aos 25 anos, a moça tem graves problemas com alcoolismo, o que potencializa sua depressão e ansiedade. Ela é campeã em se envolver em péssimos relacionamentos amorosos. De maneira geral, ela dispensa os bons partidos e os rapazes que querem construir algo positivo ao lado dela. E não consegue largar os sujeitos que são tranqueiras, que não querem nada além de sexo e curtição desvairada, de preferência em eventos regados com muitas bebidas e drogas. Nesse eterno ciclo de relacionamentos tóxicos, o alcoolismo de Charlotte só piora, o que a faz seguir tomando péssimas escolhas em todas as esferas da vida: profissional, financeira, sentimental etc. Assim, o texto de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” caminha por várias direções. Enquanto fala de seu passado (antes de ser psicoterapeuta, Lori foi, por exemplo, roteirista de TV e estudante de medicina) e mostra a evolução das suas sessões de terapia com Wendell, a narradora do livro revela também as interações com o seu quarteto de pacientes. Ela não apenas diz o que John, Julie, Rita e Charlotte conversam nas consultas como indica o que se passa com as vidas deles a partir daí. Em outras palavras, temos basicamente seis linhas narrativas andando paralelamente nesta obra: passado de Lori; presente de Lori; trajetória de John; trajetória de Julie; trajetória de Rita; e trajetória de Charlotte. No meio dos textos pessoais das personagens/figuras retratadas, há ainda espaço para o detalhamento de assuntos técnicos da psicologia e do exercício da psicoterapia.    “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é um livro bem volumoso. Suas 448 páginas estão distribuídas em 58 capítulos, que por sua vez estão espalhados por quatro blocos/partes. Levei mais ou menos dez horas de leitura para concluí-lo de ponta a ponta. Obviamente, não fiz isso em uma única sessão, né? Também foram necessários mais de um dia de trabalho. Para ser mais específico em meu relato, na sexta-feira à tarde, li esta publicação por cerca de duas horas e meia (terminei o bloco um). No sábado de manhã, fiz mais uma sessão de duas horas (e parte dois finalizada). À tarde, outra sentada no sofá de duas horas e meia, três horas (e bloco três concluído). Por fim, encerrei esta obra (parte quatro completada) no domingo à noite, o que me demandou mais duas horas ou duas horas e meia de mergulho literário. A primeira característica que chamou minha atenção nesta publicação foi a narrativa envolvente. Lori Gottlieb é uma excelente escritora. Ela sabe contar histórias como pouquíssimos autores contemporâneos. A californiana prende a atenção do leitor desde as primeiras páginas de um jeito que não conseguimos largar “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. E ela faz isso relatando sua biografia e a trajetória de pessoas que não conhecemos. Preciso dizer que tal tarefa não é nadinha fácil. Experimente você colocar no papel seus dramas mais íntimos e as angústias de pessoas conhecidas para ver o nível de complexidade para tornar esse texto atraente. Falo por mim. Não conhecia Gottlieb nem seu quarteto de pacientes. Também não tinha interesse em ler algo sobre psicoterapia e as técnicas terapêuticas das sessões psicológicas. Ainda assim, adorei o livro e grudei nele. Outro elemento elogiável é a entrada direta no texto principal da obra. Assim que viramos as páginas do Sumário, já caímos no conteúdo da Parte Um de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. Incrível a simplicidade e a objetividade de Lori Gottlieb. Ou seja, não há aqui Apresentação, Prefácio, Introdução, Preâmbulo ou qualquer outro blábláblá. Infelizmente, leio muitos livros de não ficção que trazem uma encheção de linguiça interminável logo no início. É um tal de convidar os amigos dos autores para comentar a importância daquele título e nada de entrarmos no conteúdo principal da publicação. Semana passada, por exemplo, li com a devida atenção “Entre a Vida e a Inteligência Artificial” (EV Publicações), primeira obra de Fábio Scabeni que mescla passagens autobiográficas e dicas de como usar a IA no dia a dia e no trabalho. Percorremos intermináveis 30 páginas (não estou exagerando, são três dezenas de páginas) para chegar ao começo propriamente do livro. Até lá, percorremos Dedicatória, Agradecimento, Sumário, Apresentação, Prefácio, Mensagem Especial ao Leitor e Introdução, além de páginas com frases em destaque. Ufa! O pior é a sensação de que o autor chamou pessoas que ele valoriza (fundador da sua empresa, o mentor famosinho, o médico que lhe tratou) simplesmente para puxar o saco delas. Diante dessa realidade atroz das produções editoriais recentes, é um alívio ver uma escritora que simplesmente começa seu livro logo de cara. Saravá! O texto de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” apresenta bom humor, descontração e informalidade, mesmo tratando de assuntos pesadíssimos como separações conjugais, relacionamentos tóxicos, crises familiares, mortes, lutos, depressões, suicídios, vícios e doenças terminais, entre outros assuntos punk. Para completar, Gottlieb ainda discorre de questões do ofício dos psicoterapeutas de maneira extremamente didática e simples. A sensação é de estarmos conversando na sala de casa com uma amiga de longa data. Juro que me recordei, durante esta leitura, do conteúdo de “Comer, Rezar e Amar” (Objetiva), clássico contemporâneo de Elizabeth Gilbert. As duas obras falam de momentos delicados da vida de suas autoras de um jeitão franco, objetivo, próximo e bonito. Não é porque o assunto é árido que o texto também deva ser, né?  A proposta deste livro de Lori Gottlieb também é, devemos reconhecer, brilhante. Ela fala do poder e da importância da psicoterapia de forma extremamente prática, fazendo com que fiquemos desconcertados com a sua simplicidade argumentativa. Se ela pinça alguns conceitos de psicologia para ilustrar os acontecimentos dos vários pacientes descritos, essa parte mais técnica não sufoca o texto em nenhum momento. Muitas vezes, o conteúdo mais formal acaba até passando desapercebido pelos leitores mais desatentos. Tenho que reconhecer que esse estilo narrativo é maravilhoso. A autora prova a relevância de se fazer terapia e a força terapêutica das boas conversas no divã apresentando vários cases reais, inclusive o dela próprio. Somos convencidos quase que naturalmente. Ao fecharmos o livro, sentimos o impacto do conteúdo assimilado. Ainda falando da estratégia narrativa, note que Gottlieb não foi excessivamente didática ao ponto de estragar sua linha textual. Falo isso porque há muitos autores que duvidam da inteligência dos leitores e apresentam textos extremamente mastigados. Eles explicam várias vezes o conteúdo autoexplicativo que o resultado acaba empobrecendo a experiência de leitura. Felizmente, a psicoterapeuta norte-americana não comete esse erro em nenhum momento de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”. Pela sua ousadia narrativa, confesso que, por vários capítulos, achei que estava diante de um título ficcional (que naturalmente inova mais no aspecto estético) e não de uma publicação não ficcional (que comumente é mais conservadora no quesito estrutural). Prova maior disso é que a autora mistura espaços temporais (presente e passado – épocas em que era jornalista/redatora de televisão, estudante de medicina e terapeuta em início de carreira) e linhas narrativas (descreve os dramas particulares de quatro pacientes paralelamente à sua trajetória). Sem uma divisão formal desse volumoso caldo textual, a pergunta que faço é: os leitores ficam confusos com a falta de ordenamento narrativo? A resposta é um sonoro e inequívoco “NÃO”. Não ficamos confusos porque temos a capacidade de reconstruir nós mesmos as várias partes fragmentadas da trama em nossa mente. É um processo parecido à montagem de um quebra-cabeça. Por que, então, a mania de muitos escritores de ficção e de não ficção de recorrerem à didática excessiva, as explicações desnecessárias e à redundância textual? Juro que não entendo. Felizmente, temos aqui um texto agradável que valoriza nossa sagacidade. Dessa forma, quer dizer que “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é uma publicação impecável, Ricardo? Eu tenderia a responder que sim, participativo(a) leitor(a) desta análise. Afinal, gostei tanto dela que resolvi comentá-la na coluna Livros – Crítica Literária  mesmo sendo uma obra não ficcional. Contudo, preciso apontar para um único deslize deste título que tem capacidade para mudar a sua visão sobre o trabalho editorial de Lori Gottlieb. Aí vem a parte polêmica desta publicação, que adiantei no início deste post. Sente-se que lá bem bomba, senhoras e senhores! É ético abordar publicamente os dramas que seus pacientes lhe expuseram nas consultas terapêuticas? Note o quão delicado é esse questionamento e, principalmente, o nível de polêmica das possíveis respostas para ele. Porque o que a autora fez neste livro foi justamente isso: escancarou as vidas das pessoas que confiaram nela a confidencialidade de seus relatos mais íntimos. É ou não é uma bomba moral, hein? Do ponto de vista ético, será que podemos confiar (ou perdoar) um(a) psicoterapeuta que não cumpre o requisito número um de sua profissão que é o sigilo absoluto dos relatos feitos no divã?! É claro que Gottlieb teve a preocupação de alterar os nomes reais dos envolvidos. Portanto, John não é John. Julie não é Julie. Rita não é Rita. E Charlotte não é Charlotte. Nem mesmo o psicólogo Wendell Bronson se chama Wendell Bronson. Ufa! Dos males o menor. Ainda assim, temos um problema ético gravíssimo. Se os nomes reais não foram expostos (só faltava!), as particularidades mais íntimas dessa gente foram atiradas ao grande público. Pode isso, Arnaldo? No meu ponto de vista, a resposta é “NÃO”. O sigilo do ofício dos psicoterapeutas não é apenas para o nome dos pacientes. Ele abrange também seus relatos. Imagine você ler o livro de seu terapeuta e descobrir que ele falou de você para o mundo, expondo seus dramas mais delicados que foram ditos nas sessões de terapia, um espaço regido pela confiança absoluta e pelo sigilo total das conversas!  Eu não ia gostar nadinha e aposto que você também não iria ficar nem um pouco feliz. Por que, então, os verdadeiros John, Julie, Rita, Charlotte, Charlotte e Wendell estariam contentes com a divulgação de seus casos? Acho difícil. Como expliquei no início deste post do Bonas Histórias , não sou especialista neste tema. Viu só como é ruim comentar assuntos de não ficção?! A análise só se torna verdadeiramente completa se somos entendidos daquela área. Assim, o correto seria consultarmos psicólogos e psicoterapeutas para entender se Gottlieb foi antiética ou não. Como disse nos parágrafos anteriores, na minha humilde visão, seu livro desrespeita o elemento fundamental da relação terapeuta-paciente que é a confidencialidade. Só por isso, o livro perde a validade, por melhor que seja seu conteúdo. Se eu estivesse no papel de editor ou de publisher desta obra, juro que descartaria “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” sem pestanejar. Nunca aprovaria tal proposta para a minha editora, mesmo ciente do possível sucesso desta publicação. Não é porque um título alcança o status de best-seller internacional que devemos fechar os olhos para suas implicações morais. Ainda que a editora não entrasse na alça de mira dos processos judiciais milionários, acredito que não é correto expor publicamente meia dúzia de pessoas inocentes. Curiosamente, não vejo ninguém da imprensa e do mercado editorial comentar o enorme deslize ético de Lori Gottlieb. Será que só eu tenho esse tipo de preocupação ainda ou o mundo à minha volta enlouqueceu de vez? A impressão que tenho ao observar os comentários e as avaliações de “Talvez Você Deva Conversar com Alguém” é que sua autora não cometeu nenhum atentado à moral com seus pacientes. Será mesmo? Duvido. Em suma, temos um livro, ao mesmo tempo, sublime e polêmico. Na leitura de suas páginas, ficamos dentro do consultório acompanhando as sessões de Lori Gottlieb. Ora ela é a terapeuta, ora é a paciente. O que não muda é a dinâmica: a conversas do divã ajudam as pessoas a resolverem ou minimizarem suas dores psicológicas e sentimentais. Com humor, franqueza, inteligência e profundidade, a autora comenta aspectos sensíveis da existência humana e o poder transformador das conversas terapêuticas.  Não é surpresa nenhuma que esse livro tenha se tornado um best-seller internacional (e que Gottlieb não tenha perdido seu diploma!). Vale a pena lê-lo. E para os fãs da boa e velha ficção, informo que no mês que vem retornarei ao blog para comentar um novo romance. No caso, será um exemplar da literatura brasileira contemporânea. Isso é tudo o que posso adiantar. Até a próxima, senhoras e senhores. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Passeios/Gastronomia: Buenos Aires – Experiências etílico-gastronômicas

    Na crônica “CABA que não ACABA”, Paulo Sousa narra de maneira divertida e sincera sua aventura de 11 dias pela capital argentina. A viagem deste brasileiro teve muitos vinhos, carnes e surpresas da cultura local. 1) PREFÁCIO E SAUDAÇÃO: CABA QUE NÃO ACABA – Março de 2024 Oh, CABA que não acaba! Que saudades guardo de ti! Cada gota de teu vinho levarei comigo em minha gordura subcutânea. Cada fibra de tua carne levarei comigo em meu sangue na forma de colesterol LDL. Cada preço que encontro divido por 200 com muita nostalgia. 2) DEDICATÓRIAS: Quero dedicar esta breve descrição de minha viagem  a meu grande amigo e irmão Ricardo Bonacorci, que me hospedou em sua residência, no bairro de Saavedra , na capital argentina . Você deve conhecê-lo como o autor do Bonas Histórias , este maravilhoso blog de literatura, cultura e entretenimento que está prestes a completar dez anos. Ele também me cedeu espaço nas colunas Passeios  e Gastronomia para que eu narrasse como foram os meus 11 dias na encantadora e surpreendente Buenos Aires . Daí a ideia desse texto, “CABA que não ACABA” , que é uma espécie de crônica de minhas experiências etílico-gastronômicas  pelos restaurantes , pizzarias , bodegones  e bares  portenhos. Quero saudar também meu amigo Eduardo Vilella , que me deu a honra de suas ligações e lições de vida ao longo da viagem, além claro de ótimas indicações de vinhos  e alfajores . 3) ESTULTÍCIAS ·       Coragem é decidir bêbado e manter a decisão depois de sóbrio; ·       Bêbado é quem vomita; tudo antes disso é classificado como alegrinho; ·       Reuniões de imigrantes são encontros de almas solitárias; ·       O que se leva da viagem é a viagem que se leva. 4) CARNES, VINHOS E MOMENTOS: Chegar em Buenos Aires, depois de tantos dias de expectativa, foi uma alegria sem tamanho. Estava ávido para curtir a vida de um cidadão portenho, com as vantagens que só a efemeridade turística e uma moeda desvalorizada frente ao dólar podem me proporcionar. Por isso, evitei programas típicos dos turistas  e preferi aqueles lugares cotidianos, que foram a maioria de minhas visitas. Fui recebido por meu amigo Bona na área de desembarque do Aeroparque Jorge Newbery  e logo pegamos um Cabify até seu apê em Saavedra. Devidamente instalado, fiz minha primeira caminhada pelo barrio , na qual compramos meu Whey Protein, item magnânimo que não pode faltar em minha dieta, mesmo sabendo que teria pela frente 11 dias de carne vermelha . Meu primeiro jantar foi na unidade de Saavedra do La Farola , uma rede famosa na cidade, lugar simples e honesto. Botando em jogo meu portunhol fluente, pedi “ El cardápio” , e a garçonete não me entendeu. Percebi, então, que o muro linguístico não é tão baixo quanto pensara. “ La Carta, por favor ”, salvou-me Bona, o que me permitiu comer um Bife de Chorizo  muito bom, nota 8,5 (no REPS, Ranking do Estômago do Paulo Sousa – que servirá de base para toda a pontuação gastronômica deste post e que vai de 0 a 10). Bem servido, generoso, um jantar pedestre em CABA ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ) , mas que seria um banquete no Brasil. A carne foi acompanhada por papas fritas. Vale destacar que o argentino não tem o costume de comer arroz e, assim, as carnes são acompanhadas por batatas (fritas ou purê) ou legumes sortidos, salvo pratos mais elaborados. O dia seguinte começou cedo, arrumando a casa para receber Jéssica, amiga do Bona que tive o prazer de conhecer. Ela é conteudista e professora de português para estrangeiros, e precisava gravar um vídeo promocional para a plataforma em que atua. Acontece que o imprevisível sempre mora nos pequenos detalhes. No nosso caso, residia no adaptador de tomada comprado na feirinha de Saavedra. Com certeza, um apetrecho sem o selo do Inmetro argentino, que explodiu quando colocamos o celular que filmava para carregar. O curto-circuito apagou as luzes do apartamento. Os disjuntores locais estavam em ordem, o que causou estranheza. Ligamos para o vizinho e – pasmem – todo o prédio estava sem energia. Nesse momento, a angústia e o desespero típicos de um tango portenho invadiram nossos corações. Entretanto, somos brasileiros, e tomamos a madura decisão de irmos almoçar antes resolver o problema de 26 famílias. Nós três caminhamos até a Parilla Jorge , local muito movimentado da região, que exala um perfume de churrasco pelas redondezas. Impossível não salivar. O ambiente estava muito agradável. O ponto negativo é que o toldo era vermelho e, com o sol escaldante, todo o ambiente se tornava rojo . Pedimos um Vacío  (8,7) com fritas e provoleta (uma rodela grande de provolone assada). Para acompanhar, bebemos o vinho Vasco Viejo Tinto , nota 2,9 no Vivino , aplicativo para enólogos que permite dar notas de 1 a 5 para cada exemplar – e que servirá de base para toda a pontuação etílica deste post. O almoço foi muito tranquilo e, quando voltamos ao prédio – surpresa! –, o problema da energia elétrica estava resolvido em todos os apartamentos. Exceto no nosso. Tivemos, então, um momento típico de Escape60 , atração de escape games  trazida para o Brasil pela dupla dinâmica Márcio e Jeannette. Esse jogo é composto por salas temáticas nas quais um grupo tem 60 minutos para sair. A brincadeira é muito divertida pois emula cassinos luxuosos, invasões zumbis e garagens de serial killers , mas produz uma tensão extra quando praticada em apartamentos alugados na Argentina. Com breves ajudas do síndico pelo WhatsApp, conseguimos desvendar o mistério do local da chave. Abrimos vários cadeados até encontrar os disjuntores gerais no térreo e reestabelecer a ordem. Saímos do desafio energizados, quase que literalmente, mas ele consumiu nosso tempo restante. Jéssica foi embora sem o vídeo gravado, mas com ideias na cabeça. Naquela noite, eu e Bona fomos ao bar Growlers em Chacarita  para um encontro do Mundo Lingo , que reúne pessoas que querem aprender a falar qualquer idioma. Conversei em inglês, espanhol e português com russos, argentinos, peruanos e brasileiros. Essa mistura fundiu meu cérebro, tal qual um adaptador de tomada de má qualidade, e chegou uma hora que eu não entendia nem o português. Conheci, então, Carmen e Julieta, argentinas que queriam falar inglês e tentaram me ajudar a hablar español . Porém, logo me senti um pez fuera del agua , sem entender absolutamente nada do que elas diziam. Decidi, então, tentar absorver mais do idioma local, fazendo perguntas perspicazes sempre que possível. No dia seguinte, um sábado de sol, trabalhamos um pouco e fomos almoçar em outro bodegón , o A Morfar . Pedi um Bife de Chorizo a la Riojana , com ervilhas, ovo frito, presunto cozido e pimentão, acompanhado de fritas (9,6 no REPS). Uma epifania portenha, a melhor carne que comi durante a viagem inteira, com aquele gostinho de novidade e liberdade. “ Suerte ”, me desejou o portenho da mesa ao lado. Afinal, pedi um prato para dois que comi sozinho. Orgulhoso, bebi também o vinho Eugenio Bustos Malbec (3,3 no Vivino ). A garçonete era muito simpática, sempre sorridente e solícita, me ensinou até que rolha em espanhol é corcha . Ela também ficou impressionada com meu apetite, e me senti orgulhoso por representar bem meu país. Após capotar no sono depois do almoço, fomos correr no Parque Saavedra  no final da tarde, quando avistei um enxadrista sentado em frente a três tabuleiros. Ao seu lado, um cartaz anunciava suas aulas. Fiquei muito tentado a jogar uma partida de xadrez com ele, seria um embate Brasil e Argentina muito interessante, mas decidi deixar para outro dia. Mais à noite, tive o prazer de acompanhar um jogo do novo time do coração do Bona, o Club Atlético Platense . Meu amigo me ensinou uma música da torcida para me sentir mais em casa. Cante conosco também! Vengo del barrio de Saavedra, Barrio de murga y carnaval, Barrio que sueña con la vuelta, En las malas siempre te va alentar, Dale dale Calamar, Ponga huevo y corazón, Está hinchada se merece ser campeón, En las buenas vamo a estar, En la malas mucho más, Vamos a quemar La Paternal. Caminhamos algumas quadras até o Estádio Ciudad de Vicente López , local pequeno que deve comportar umas 12 mil pessoas, mas jacta-se de abranger 34 mil torcedores. O jogo foi Platense x San Lorenzo, pela Copa da Liga Argentina. Foi muita cantoria ao longo de 90 minutos, com direito a 2 minutos de acréscimo. Pela qualidade da partida, deveria ter sido 2 minutos de decréscimo! O jogo em si foi muito ruim: 0 a 0 com direito a 1 gol anulado e 2 bolas para fora do estádio. O centroavante platense, Mateo Pellegrino, um corpulento de corpo lento, bem que tentou, mas não conseguiu marcar. Para efeito de comparação, ele é um Finazzi levemente piorado. A nota positiva foi a quantidade de famílias na geral, com direito a uma idosa que dava zoom numa foto da Nossa Senhora de Luján, padroeira da Argentina, e a beijava no celular, buscando proteção a cada momento crítico do jogo. O domingo começou com um café da manhã no Cosecha , lugar zen e meio natureba de Saavedra. No café simples, o bom do momento foi o terraço com uma vista privilegiada para o Parque Saavedra. Aliás, a quantidade de parques e praças em Buenos Aires acompanha o crescimento da inflação! Por isso, na nossa primeira grande caminhada saímos do próprio Parque Saavedra e passamos por Parque Carlos Mugica , Parque General Paz , Parque Pioneros , Parque Alberdi  e Av. Parque Roberto Goyeneche , cercada por dois parques. Ainda rodeamos o Parque Presidente Sarmiento , cuja entrada é paga. No final da tarde, chegaram a CABA Daniella, prima de Bona, e Markinhos, o namorado da Daniella. O rapaz é alemão, mora na Suíça, já trabalhou nos Estados Unidos e quer morar na Espanha um dia. Mesmo com tantos dialetos, seu vocabulário em português se resume ao que Ricardinho ensina. São palavras simples como xixi, desculpa, vinho, cinemão, pão na chapa e vai Curinthiá. Fizemos os quatro um programa de turista pela Feira de San Telmo , foto ao lado da Mafalda  e fomos jantar no La Brigada , restaurante chique focado em turistas em San Telmo . Bebemos algumas botellas  de Sophenia Synthesis Malbec  (4,1) e Gran Famiglia Bianchi Malbec (4,0). Para comer, pedi patitas de cordero de entrada (8,1), um prato exótico. As patinhas são servidas frias e com vinagrete. São pálidas e ricas em colágeno, valeram a pena. Foi nesse momento em que ganhei o apelido que o Bona me deu e que me acompanharia por toda a viagem – Pablito, El Caníbal. Para o prato principal, eu e Markinhos dividimos um asado de tira  (7,8), que poderia ser melhor. A carne foi muito bem-preparada, mas o corte não ajudou. Para finalizar a noite, fomos a Puerto Madero  tomar um Negroni Tropical no   Negroni Bistro & Sushi Bar . O dia seguinte amanheceu bem chuvoso, com trovoadas e ventanias. Percebi que árvores caídas são uma característica de grandes centros urbanos sul-americanos. Eu e Bona encontramos o casal helvético na El Ateneu Grand Splendid , enorme e clássica megastore de livros e afins na Recoleta. Foi lá que tirei a foto mais emblemática desta viagem – eu em pose bíblica segurando os alfajores Mar del Plata  da Havanna como se eles fossem sagrados. Pensamos durante bons minutos sobre o que faríamos em seguida, mas a chuva torrencial nos obrigou a voltar para casa. No jantar, eu e Bona fomos ao Los Amigos de Siempre , bodegón  raiz (o preferido dele em Saavedra). Eu pedi um Ojo de Bife  e um Chorizo  (linguiça) para arrematar (9). De vinho, um San Felipe 12 uvas  (3,5). Uma refeição muito boa, em um ambiente acolhedor e com um mozo  bem simpático, o Amadeu, que me ensinou a diferença entre papas  e batatas . A saber: papas  são batatas inglesas; e batatas  são batatas-doces. Para não sair muito da rotina maromba, fui no dia seguinte ao Gimnasio La Rosa , academia do bairro com relativamente aparelhos novos, mesmo que em número pequeno. Devido à chuva, não tivemos passeios a céu aberto e decidimos ir, junto a Daniella e Markinhos, ao cinemão – mais conhecido pelos locais como Cinemark Palermo . Escolhemos assistir a “Zona de Interesse” (The Zone of Interest: 2023), filme em alemão com legendas em espanhol. Muito chato. A película  começa com um minuto de tela preta e um som grave que induz a um estado de calmaria cerebral. Acho que o diretor fez questão que só assistiria ao filme quem realmente estivesse MUITO interessado. Confesso, o conforto da cadeira, as vozes monótonas, a agitação prévia e a quantidade excessiva de carne e vinho no meu organismo me fizeram dormir duas vezes e pescar algumas outras. Fiquei surpreso ao saber que meus amigos gostaram muito do filme, concordando com os jurados do Oscar. Mas, em minha defesa, nas partes que estava consciente, escutei alguns roncos na sala. Acho que não fui só eu que dormiu durante a sessão. Mas o melhor do dia estava guardado para a noite: enquanto Daniella jantava com uma amiga argentina, Bona, Markinhos e eu curtimos a noite portenha. Primeiro, fomos ao Uptown , bar e restaurante feito para turistas que emula uma estação de metrô. Tudo muito bem-feito, mas como não havíamos reservado mesa, ficamos de pé. No pouco tempo que estivemos por lá, bebemos uma taça de DV Catena Malbec  (4,3), o melhor vinho da viagem. Depois, fomos ao Rock and Beer , bar famoso com algumas unidades em CABA. Como era terça-feira, estava vazio. Bebemos apenas uma taça do vinho da casa e partimos para a Plaza Serrano , point badalado de Palermo Soho . Fomos jantar no Arte de Mafia , restaurante italiano muito charmoso e com comida ótima. Tomamos os vinhos Viña el Cerno Malbec (3,9)  e La Posta Fazzio Malbec  (3,9), ótimas escolhas. Pedi um Ossobuco com risoto de legumes  (9), um prato maravilhoso que tornou a noite ainda mais especial. Conversamos bastante e demos muita risada, e assim continuamos depois de Daniella se juntar a nós. O garçom Marcelo foi muito educado e gentil, e reservou para nós um lugar no Karaoke Privado , no qual pude mostrar meu dom cantando “Just a Gigolo”, clássico de Louis Armstrong revitalizado e escrachado por Dave Lee Roth . Também cantei outras músicas mais. Muito mais. Para evitar a ressaca, fui ao Gimnasio La Rosa  logo que acordei para treinar costas e bíceps. Depois dos exercícios, voltei para o apê de Ricardinho e logo chegou o querido casal. Abrimos duas garrafas de Cordero con Piel de Lobo  (3,8), vinho básico na Argentina, mas com certo requinte aqui no Brasil. Como estava faminto, pedi via Rappi um Milanesa Sweet Spicy  (7), do El Club de la Milanesa . Um delivery honesto para matar a fome e trazer certo prazer gustativo, mesmo que um pouco industrializado. À noite, fomos encontrar Jéssica no El Boliche de Roberto , em Almagro . Fundado em 1893, o bar traz muito da arquitetura original. Um charme, mas que traz certos perrengues, como a falta de mesa. Por isso, a botella  seguinte de Cordero con Piel de Lobo foi tomada em pé. “ Tenes cigarilla? ”, perguntou uma mulher loira, na faixa dos trinta anos, para Jéssica no meio do bar. A amiga do Bona disse que não tinha, e a moça continuou sua busca por cigarro. Pouco depois, Patrícia, uma amiga de Jéssica se juntou a nós, e o tango muito bem executado começou. Foi um momento muito especial, no qual pude escutar várias canções de Gardel, Baltar e, claro, Piazzola. A foto de Evita e as palmas para Diego Maradona antes de seu tango preferido, “El Sueño del Pibe”, conferiram o verdadeiro clima portenho à noite. “ Tenes cigarilla? ”, voltou a mulher, dessa vez para a amiga da Jéssica, recebendo a mesma resposta e continuando seu périplo pelo tabaco. Os cantores foram muito simpáticos e carismáticos. Já no fim da noite, todos cantavam em uníssono os tangos famosos. Consegui puxar a letra de “Por una Cabeza” , a favorita do Bona, e me juntei ao coro. Depois, tivemos pique para ir ao La Catedral Club , outro bar muito interessante da cidade. Conversei com o segurança do local, e entendi que a casa fecharia às 02h da manhã. Porém, para minha alegria, percebi que foi outro erro de interpretação, e que a casa reabriria naquele horário. Ufa! E ficamos esperando um pouquinho. “ Tenes cigarilla? ”, nos perguntou a loira, que aparentemente tinha a memória fraca para encontrar fumantes. Ela também tinha deixado o El Boliche de Roberto  e se aventurado pela La Catedral . Conversamos um pouco mais, e conheci aspectos mais profundos dela. Mesmo assim, quando entramos, passamos pelo fumódromo, e adivinha o que ela repetia insistentemente para os demais visitantes: “ Tenes cigarilla? ”. No salão do La Catedral , tomamos um Hormiga Negra Malbec (3,1) enquanto escutávamos canções tradicionais de milonga – não confundir Tango com Milonga, por favor! O lugar era amplo, escuro e bem alternativo. Uma ótima pedida para o fim de noite, início de madrugada. Na volta, deixamos Jéssica em sua casa em Almagro. Em uma nova caminhada pela noite portenha, comprei o vinho Alambrado Malbec  (3,5) num kiosko. Kiosko é um mercado de etílicos e conveniências aberto 24 horas e que está presente em todo quarteirão da cidade. Só que, para minha surpresa, o lugar não vendia abridor de vinhos (também conhecido como saca-rolha), e comecei uma busca incessante por comprar a ferramenta. “ Tenes abridor de vino? ”. A cada kiosko que passávamos, repetia aquele que se transformou em meu mantra naquela madrugada. Infelizmente, quanto mais perguntava, mais negativas como resposta eu recebia. Será que ninguém vendia abridor de vinhos naquela cidade?! Bem no final do bairro de Almagro, no último kiosko antes de seguirmos de volta para Saavedra, um vendedor iluminado resolveu me ajudar. Acostumado com bêbados desesperados por vinho, ele conseguiu abrir a garrafa sem o saca-rolha. O que o MacGyver argentino fez? Ele bateu na base do vinho e, em seguida, empurrou a corcha  para dentro. Ainda teve a delicadeza de me dar um palito de sorvete para manter a rolha longe do gargalo e facilitar a degustação. Genial! A noite não poderia ficar melhor, mas ficou! “ Tenes cigarilla? ”. Sim, a loira apareceu absolutamente do nada na frente do kiosko quando ia sorver o primeiro gole da tão desejada garrafa. Devido à aleatoriedade do encontro, minha alegria ao vê-la foi tão efusiva que dei um alto grito fraternal. A moça e um amigo deram um pulo assustados. Passado o espanto mútuo, trocamos algumas palavras e continuamos nossa jornada. No quarteirão seguinte, pegamos um Uber para Saavedra. Às 5h30, chegamos em casa. Foi aí que percebi que eu praticamente não bebera o vinho que demandou tanto esforço para ser aberto, mesmo ele sendo superior aos outros dois rótulos da noite, segundo o Vivino . E na casa do Bona, acredite: na falta de um saca-rolha, havia dois! Duas horas depois, já estávamos no Moshu , café meio chique do bairro e que fica bem frente ao apê do Bona. Era a partida de Daniella e Markinhos para o Brasil, antes de voltarem para a Suíça. Pedi uma fatia de bolo de chocolate que veio extremamente generosa e gostosa. Mesmo assim, não consegui evitar a ressaca forte, e dormi o restante da manhã (e início da tarde). No final da tarde, já devidamente restabelecido, andei de trem e metrô até o Cine Gaumont , ao lado do Congresso, para conhecer uma tradição de CABA: os protestos contra Milei. Chegamos e já avistamos a multidão contra a privatização do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA) ocupando toda a rua. As coisas estavam muito tranquilas, até os policiais da tropa de choque se aproximarem. Primeiro, um agrupamento fechou um lado do quarteirão e, logo depois, outro agrupamento se aproximou do outro lado. Foi quando encontramos Jéssica, a moça que teve a ideia daquele passeio cultural, e ficamos observando tudo a uma distância segura. É interessante que, na mesma praça onde a tropa de choque do presidente enfrenta jovens protestantes como se eles fossem ingleses em uma ilha do Atlântico Sul, idosos passeiam com seus cães sem guia, adolescentes apaixonados tomam gelados  de mãos dadas e casais empurram os carrinhos dos filhos pequenos. Tudo bem e tranquilo naturalizando a violência entre cidadãos e Estado. Furtivamente, um terceiro agrupamento de policiais penetrou na massa e abriu à força uma faixa da Avenida Rivadavia. Aí, as coisas se animaram: as pessoas cantaram mais, os batuques aceleraram, algumas porradas aconteceram. Nenhum carro se atreveu a passar por lá, mesmo com a insistência dos policiais. Um deles acabou atropelando levemente alguns manifestantes, que gritaram de ódio, fazendo o carro acelerar. Só que ele parou no farol ao lado, e não teve jeito, foi cercado e teve vidros quebrados, lataria chutada e portas abertas visando o espancamento do motorista. Agora sim, tínhamos um legítimo protesto portenho. Temendo por tiros e bombas de gás lacrimogêneo, decidimos abandonar o espetáculo pela metade, e caminhamos pelo centro até entrarmos no La Americana , pizzaria simples e popular, cheio de manifestantes de esquerda que decidiram interromper momentaneamente a revolução para uma medialuna  ou uma empanada . No La Americana  (em uma enorme contradição entre o nome da pizzaria e o perfil político do público frequentador daquela tarde/noite), encontramos Débora e Juliana, brasileiras peronistas e amigas de Jéssica. Elas também estiveram no protesto (só que diferentemente da gente, estavam no meio da porrada-e-bomba). Conversamos bastante, comemos empanadas e bebemos um vinho da casa. A certa altura, uma salva de palmas ecoou, e vimos pela TV ligada que o Congresso havia recusado naquele instante o DNU, lei que daria superpoderes ao presidente Milei. “ Milei, basura, vos sos la ditadura ”, gritaram os manifestantes, satisfeitos com a vitória política e com a comida bem servida. Animados, decidimos continuar a noite no Bellagamba , restaurante menos barulhento a algumas quadras dali. No novo estabelecimento, bebemos algumas botellas  de Portillo Chardonnay 2019 (3,6) entre um blackout e outro. Quando a luz voltou em definitivo, pedi como jantar a carne Bondiola com papas  e batatas  (8,0), que caiu muito bem. Terminamos a noite levando Jéssica e Débora para suas respectivas casas.   Na sexta-feira, trabalhamos durante o dia inteiro e no final da tarde fomos caminhar pelo barrio  de Núñez . Além de avistar o Monumental de Núñez , estádio do River Plate, passamos pelo recém-inaugurado Parque de la Innovación , que será um enorme hub de tecnologia algum dia. Mas, até lá, tudo bem, o importante é que já é um parque inaugurado. À noite, caminhamos pelo barrio Chino , visitamos uma agradável comissaria de policia  na Calle Mendoza (coisas do Bona, vai entender?!) e voltamos para Núñez para jantar no bodegón   Rox . Bebi um Portillo Malbec  2018 (3,6), e pedi um Bife de Chorizo Rox (8,8), com papas españolas , ramón cozido  e huevo frito . Receita honesta executada de ótima forma. Chegamos, então, ao meu último fim de semana na Argentina. Para coroar uma viagem maravilhosa, fomos ao Siga La Vaca , em Puerto Madero, casa tradicional de parrilla argentina muito visitada por turistas. O esquema é um pouco diferente do que estamos acostumados em um rodízio brasileiro: você se serve frente à grelha e depois tem à disposição um buffet de saladas e acompanhamentos. Foi a única vez que vi arroz em Buenos Aires, e fiz questão de não comer, por respeito à cultura local. Incluído no pacote estava o vinho San Huberto Malbec Clásico  (2,9), uma opção válida, mas muito abaixo do nível das carnes. Tive a oportunidade de comer Chorizo, Morcilla  (a melhor da minha vida), Vacío, Picanha  e Bife de Chorizo, além das achuras (entranhas): os chinchulines (tripa de boi) estavam suculentos, e as ruedas  (região superior do intestino delgado) idem. Os riñones (rins) também estavam bem temperados, mas achei a carne muito forte e não comi muito. No total, o conjunto das carnes do Siga La Vaca  recebeu nota 9,1. À noite, Ricardinho (denominação alternativa do Bona que só fui conhecer em Buenos Aires) estava cansado e com muito trabalho a fazer, e resolveu ficar em casa. Eu relutei em sair, mas para dar um pouco de paz e privacidade ao meu amigo, que me acompanhava bravamente nas noitadas e na bebedeira, resolvi voltar para a rua. Fui ao aniversário de Juliana (amiga de Jéssica que conheci no protesto), e seu namorado Diego (nome comum entre os argentinos nascidos na década de 1980 – por que será?). O rendez-vous  aconteceu no Le Troquet Henry , um bar charmoso de Almagro. A temática foi fundo do mar, e colei alguns adesivos na minha Tech T-Shirt da Insider  para estar à caráter. Não, isso não é uma publi da empresa de vestuário, mas bem que poderia ser – o Bonas Histórias  merece! A festa contou com pessoas muito gentis, que me receberam muito bem. Mesmo sozinho, percebi que a barreira linguística já não era tão grande. Conversei bastante em espanhol com Hernán e Rosa, casal de amigos compreensivo com minhas perguntas sobre o espanhol, que visavam aumentar meu vocabulário minúsculo e consertar minhas bisonhas conjugações verbais. Bebemos um Etnia Malbec Roble  (2,8), último vinho portenho e a pior nota no Vivino . Na saída, encontrei um mendigo bêbado e trocamos algumas palavras. Talvez pelo álcool, nossa comunicação fluiu de forma boa e, sei lá como, nos entendemos. Servi o restante de meu vinho a ele, até para não levar para casa mais uma garrafa aberta. A geladeira do Bona já não cabia – toda noite voltava com uma botella  aberta. Decidi estender a noite e caminhei um pouco até encontrar o Club Cultural Bula . Lugar bacana, no qual uma banda com gaita de fole se apresentava. Infelizmente, cheguei tarde para o show, e eles já estavam no bis. Começou, então, uma baladinha com a temática anos 1990, levando toda a geração Z ali presente ao delírio. Mas já estava tarde, e decidi voltar para o meu/nosso apê em Saavedra. Depois de nove dias em CABA, ele já era um pouco meu. Finalmente, chegou o domingão, último dia portenho completo. Eu acordei animado pela noite anterior, mas já sentindo saudades do período festivo. Tomamos o café da manhã no Dandy Deli , lugar com algumas unidades em CABA e com um ambiente acolhedor e refinado ao ar livre. Pedi huevos revoltos con tostadas , uma omelete clássica e bem-feita. Quis aproveitar a manhã e, finalmente, jogar aquela partida de xadrez com o professor do Parque Saavedra. Infelizmente, não o avistei. Entendi que nós devemos aproveitar as oportunidades assim que elas aparecem, pois nunca sabemos quanto tempo elas permanecerão à nossa disposição. Após essa edificante lição de vida, caminhamos até o Parque de Los Niños , onde vi a imensidão do Rio da Prata , dos panapanás onipresentes e dos enxames de mosquitos. Eu já estava farto de tanto comer carne e, por isso, escolhi para jantar o restaurante italiano La Rossi Maniera . Mas não teve jeito, pedi um bife à milanesa . Essa foi uma grande surpresa da viagem, porque a Milanesa a La Mama  (9,3) estava maravilhosa, com pimentão, queijo, carne moída e tomate cereja, além das papas . Muita generosidade no prato, e um tempero caseiro que me marcou bastante. No dia seguinte, bebi apenas um scoop de Whey Protein e parti para o Aeroparque. Foram dias maravilhosos, nos quais pude aproveitar uma liberdade grande, conversar com meu amigo Bona, conhecer pessoas bacanas, comer muita carne e beber muito vinho. E, claro, escrever para o Bonas Histórias . Que venham as próximas viagens! E mais posts etílico-gastronômicos  na coluna Passeios  e na coluna Gastronomia . A seguir, vão os links dos locais visitados e as notas do que degustei, no caso de algum viajante se interessar por repetir minha aventura pelos prazeres das carnes e dos vinhos argentinos: 5) ANEXOS: Anexo A - Instagram dos locais visitados A Morfar - https://www.instagram.com/a.morfar/ Los Amigos de Siempre - https://www.instagram.com/los.amigos.de.siempre/ Arte de Máfia - https://www.instagram.com/artedemafia/ Bellagamba - https://www.instagram.com/bellagambapalermo/ Cine Gaumont - https://www.instagram.com/cine.gaumont/ Cinemark Palermo - https://www.cinemarkhoyts.com.ar/ Club Cultural Bula - https://www.instagram.com/clubculturalbula/ Cosecha - https://www.instagram.com/cosechaok/ Dandy - https://www.instagram.com/dandybsas El Ateneu - https://www.instagram.com/yenny_elateneo El Boliche de Roberto - https://www.instagram.com/bolichederoberto_/ El Club de la Milanesa - https://www.instagram.com/elclubdelamilanesa/ Gimnasio La Rosa - https://www.instagram.com/gimnasiolarosa/ Growlers - https://www.instagram.com/growlerscc/ Karaoke Privado - https://www.instagram.com/premium_club_ba/ La Americana - https://www.instagram.com/pizzerialaamericana/ La Brigada - https://www.instagram.com/parrillalabrigada/ La Catedral Club - https://www.instagram.com/lacatedralclub La Farola - https://www.instagram.com/lafarola.restaurante/ La Rossi Maniera - https://www.instagram.com/larossimaniera/ Le Troquet Henry - https://www.instagram.com/le.troquet.de.henry/ Moshu - https://www.instagram.com/compartimoshu/ Negroni Bistrô & Sushi - https://www.instagram.com/negronimadero/ Parilla Jorge - https://www.instagram.com/parrillajorge.saavedra/ Club Atletico Platense - https://www.instagram.com/caplatense/ Rock and Beer RNB - https://www.instagram.com/_rockandbeer/ Rox - https://www.instagram.com/explore/locations/1031439934/pizza-cafe-rox/ Siga la Vaca - https://www.instagram.com/sigalavaca/ Uptown - https://www.instagram.com/uptown.ba/ Anexo B - Ranking de Vinhos (segundo o Vivino) Anexo C - Ranking de Carnes (segundo REPS) ------------ Paulo Sousa  é escritor, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da coletânea de haicais “Acinte 2020” (Pomelo), e diretor-geral da Epifania Comunicação Integrada , agência de marketing digital. No Bonas Histórias , ele produziu por duas temporadas a coluna Miliádios Literários  e publicou a novela “Histórias de Macambúzios” na coluna Contos & Crônicas . Bom de garfo e de copo, Paulo (mais conhecido em CABA como Pablito, El Caníbal) está sempre contando boas histórias para diversão dos amigos. Isso é, quando não está comendo e bebendo.   ------------ Que tal o conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessas colunas, clique em Passeios e Gastronomia . E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Filmes: O Agente Secreto – O melhor longa-metragem de Kleber Mendonça Filho

    Ambientado em Recife durante o Carnaval de 1977, o thriller noir do cineasta pernambucano é estrelado por Wagner Moura e será o representante brasileiro na próxima edição do Oscar. Lançado nos cinemas brasileiros em novembro, o quarto longa-metragem ficcional de Mendonça Filho já conquistou dois importantes prêmios na última cerimônia do Festival de Cinema de Cannes: melhor direção e melhor ator. Parece que o Brasil está virando o país do cinema . Depois do recente sucesso de público e de crítica de “Ainda Estou Aqui” (2024), obra-prima de Walter Salles que ganhou, entre outros importantes prêmios internacionais, o Oscar de 2025  na categoria Melhor Filme Internacional, temos agora um novo título com o qual nos orgulhar. “O Agente Secreto” (2025), quarto longa-metragem ficcional de Kleber Mendonça Filho , foi lançado no circuito comercial nacional em novembro e já coleciona algumas conquistas marcantes no exterior. Há até quem sonhe com o bicampeonato na cerimônia de março da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (estou nesse grupo!) e quem considere esta produção até melhor do que a de Salles (também compartilho dessa opinião!). Estaríamos vivendo, portanto, a melhor fase do cinema brasileiro  do ponto de vista da qualidade de seus títulos mais chamativos?! Querendo responder a tal questionamento, e ciente do enorme potencial de “O Agente Secreto” tanto em termos de bilheteria quanto de competitividade nos mais relevantes festivais de cinema mundo a fora, corri para a sala de exibição no início de dezembro. Queria conferir esta produção o quanto antes para compartilhar com os leitores do Bonas Histórias minhas impressões. Afinal, a coluna Cinema  não estaria atualizada e não se mostraria atenta às grandes novidades da Sétima Arte sem um post do filme brasileiro  mais badalado da atual temporada, né? Nesta ida à sala escura mais perto de casa, só não levei a Bruxinha comigo porque ela torceu o nariz quando a convidei para ver “O Agente Secreto”. “Filme nacional, Ricardo!? Tô fora!”, bradou como uma especialista em destruir meu coraçãozinho e como propagadora do velho preconceito contra nossa indústria cinematográfica. Por ser fã inveterada de terror, é difícil (para não dizer quase impossível) fazê-la ver outra coisa que não provoque susto e pânico. Às vezes, até assistimos a uma comédia romântica aqui e um thriller policial acolá. Mas isso é exceção da exceção e só ocorre no streaming. No cinema, o cardápio é sempre o mesmo: terror. Sabendo que não teria a viciante companhia da linda trambiqueira da Freguesia do Ó, fui sozinho ao Cinesystem do Bourbon Shopping Pompeia. Recém-chegado a São Paulo, confesso que me surpreendi (talvez o correto fosse falar que me entristeci) com o término do Espaço Itaú de Cinemas, que por muito tempo ocupou aquele local.    Caso os leitores da coluna Cinema  tenham estranhado a demora para eu analisar o thriller noir que é certamente a produção brasileira mais importante da temporada 2025/2026 (do segundo semestre do ano passado ao primeiro semestre deste ano), preciso justificar o meu ligeiro atraso. Dezembro é um mês complicado para apresentar críticas literárias e cinematográficas no blog. Nesse período, o conteúdo do Bonas Histórias  acaba voltado mais para a comemoração do nosso aniversário , para a cerimônia do Melhores Músicas Ruins , para as retrospectivas do que melhor avaliamos na temporada passada  e para os festejos de Réveillon .  Dessa forma, acabamos tendo pouca ou nenhuma publicação nas colunas Livros – Crítica Literária  e Cinema , as mais populares do site e as mais recheadas de matérias. Porém, isso não quer dizer que não esteja devorando livros da minha biblioteca doméstica e do Kindle. Nem que tenha abandonado as visitas semanais às salas de cinema. Além de “O Agente Secreto”, aproveitei o finalzinho de 2025 e o começo de 2026 para conferir “Foi Apenas Um Acidente” (Yek tasadef sadeh: 2025), suspense dramático do iraniano Jafar Panahi – que é outro favorito para o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026 –, “Sorry, Baby” (2025), drama ácido da norte-americana Eva Victor, “Vizinhos Bárbaros” (Les Barbares: 2024), comédia inteligentíssima da francesa Julie Delpy, e “Milonga” (2023), drama musical da uruguaia Laura González. Desses títulos, uma verdadeira Copa do Mundo da Sétima Arte, o que mais gostei foi justamente o de Kleber Mendonça Filho. E aí não é patriotada da minha parte, não! Até porque tenho horror a esse termo. Lembremos da frase emblemática de Nelson Rodrigues (extraída da literatura de Samuel Johnson no século XVIII): o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Ao acompanharmos a política nacional e internacional contemporâneas, é impossível não concordarmos com essa mensagem, né? De qualquer maneira, quando o assunto é literatura, cultura, arte e entretenimento, o foco do Bonas Histórias  desde o seu início em 2014, garanto ser totalmente imparcial nas minhas avaliações. Juro até que me esqueço que sou brasileiro. Orçado em R$ 27 milhões, “O Agente Secreto” é o filme mais ambicioso de Mendonça Filho. O pernambucano de 57 anos é atualmente um dos nomes mais destacados do nosso cinema. Sem gravar no eixo Rio-São Paulo, ele roda suas produções invariavelmente no Nordeste e, ainda assim, coloca seus trabalhos em evidência tanto nacional quanto internacionalmente. Com um portfólio original e títulos ficcionais de ótima qualidade, Kleber Mendonça Filho se consolidou como um dos cineastas brasileiros mais criativos e autorais de sua geração. Seu primeiro longa-metragem ficcional foi “O Som ao Redor” (2013). Orçada em R$ 1,8 milhão, essa trama girava em torno da dificuldade de uma rua de classe média de Recife em manter a paz e a ordem. Após alguns casos de violência, os moradores aceitaram (ou tiveram que aceitar!) a instalação de segurança privada no local, que rapidamente adquiriu tons de milícia. Além dos problemas típicos entre vizinhos, agora as famílias daquele cantinho da capital pernambucana passaram a conviver com novas questões envolvendo os seguranças privados que se sentiam donos do pedaço. A receptividade desta produção foi tão positiva que “O Som ao Redor” foi o representante brasileiro no Oscar de 2014. Contudo, não conseguiu passar da fase de pré-seleção. O segundo longa de Mendonça Filho foi “Aquarius” (2016), história de uma senhora que resiste à especulação imobiliária na orla de Boa Viagem, bairro de classe alta de Recife. Enquanto a construtora e os vizinhos a pressionam para vender seu apartamento, um dos últimos com arquitetura antiga à beira-mar naquele pedaço da cidade, a protagonista se apega às lembranças, memórias e saudosismo dos bons tempos passados no antigo lar. Estrelado por Sonia Braga e com o dobro do orçamento do título anterior, “Aquarius” foi destaque em vários festivais cinematográficos internacionais, principalmente na França. Para termos uma ideia, ele foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e ao troféu de Melhor Filme Estrangeiro no Prêmio César de 2016. Contudo, perdeu para “Que Horas Ela Volta?” (2015), drama de Anna Muylaert, a indicação brasileira ao Oscar. “Bacurau”  (2019) foi o terceiro filme ficcional do cineasta recifense. Orçado em R$ 7,7 milhões e novamente com Sônia Braga no elenco, a distopia que mescla pegada de Western com terror de ficção científica trata dos apuros de uma pequena vila do interior de Pernambuco que perde o contato com o mundo exterior. De repente, o povoado, que já era extremamente isolado no Sertão, sai literalmente do mapa e não tem mais acesso às demais cidades e aos habitantes da região. Sem entender o que está acontecendo, os moradores são atacados violentamente. Como ocorreu com os longas anteriores de Kleber Mendonça Filho, “Bacurau” foi aclamado pela crítica e fez bonito nos festivais internacionais, conquistando o Prêmio do Juri no Festival de Cannes. Inclusive, comentamos essa produção na coluna Cinema na época de seu lançamento no circuito comercial brasileiro.  Pouco antes de “O Agente Secreto” ser produzido, Mendonça Filho dirigiu e roteirizou “Retratos Fantasmas” (2023), documentário sobre a história do Cine São Luiz, tradicional casa de exibição de filmes no Centro de Recife que foi inaugurada em 1952 e que ainda está em operação. No caso, o correto seria dizer que essa produção trata dos altos e baixos do edifício que é ícone da sétima arte da capital pernambucana e símbolo máximo da resistência cultural dos cinemas de rua no Brasil. Como esse cineasta não faz filme ruim, “Retratos Fantasmas” foi escolhido como representante brasileiro no Oscar de 2024, mas não foi finalista na categoria Melhor Documentário. É bom esclarecer que, além de ficcionista, Kleber Mendonça Filho é um documentarista de mão cheia. Entre longas e curtas-metragens documentais, ele possui oito títulos nessa categoria. Por mais brilhante que seja seu portfólio cinematográfico até aqui, “O Agente Secreto” é indiscutivelmente a obra-prima do diretor pernambucano, ápice de sua carreira na sétima arte e na ficção. Em uma comparação inevitável, esse filme está para a cinebiografia de Mendonça Filho assim como “Ainda Estou Aqui” está para a trajetória de Walter Salles, “Cidade de Deus” (2002) para Fernando Meirelles, “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980) para Hector Babenco, “Bye Bye Brasil” (1979) para Cacá Diegues, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) para Glauber Rocha, “Vidas Secas” (1963) para Nelson Pereira dos Santos e “O Pagador de Promessas” (1962) para Anselmo Duarte. Essas citações não foram por acaso, senhoras e senhores. Elas integram, na minha visão, o panteão do cinema brasileiro. Como é típico dos filmes de Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” tem em seu elenco a mescla de atores e atrizes conhecidos nacionalmente e intérpretes desconhecidos do grande público ou mesmo amadores. De figuras populares no Brasil, podemos destacar Wagner Moura , em outra atuação impecável, Maria Fernanda Cândido , Roney Villela , Gabriel Leone  e Hermila Guedes . De gringos, cito a portuguesa Isabél Zuaa  e o alemão Udo Kier , que faleceu no mês retrasado. Já a parte do elenco menos badalada, merece menção Tânia Maria , Alice Carvalho  e Carlos Francisco . E quem debutou no cinema nesta produção ou apareceu pela primeira vez em destaque foi Laura Lufési , Kaiony Venâncio  e Enzo Nunes . O roteiro levou três anos para ser desenvolvido. As gravações ocorreram entre junho e agosto de 2024 em São Paulo e Recife. Coprodução de quatro países (Brasil, França, Holanda e Alemanha), “O Agente Secreto” foi lançado no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2025. Na badalada premiação europeia, o filme brasileiro recebeu muitos elogios da crítica e foi indicado à Palma de Ouro, mas perdeu para “Foi Apenas Um Acidente”. Ainda assim, Kleber Mendonça Filho e Wagner venceram, respectivamente, nas categorias Melhor Diretor e Melhor Interpretação Masculina, um feito histórico para o cinema brasileiro. A partir daí, o longa enfileirou várias indicações e algumas importantes conquistas nos festivais internacionais, o que o credencia como um dos favoritos à Premiação do Oscar de 2026 na categoria Melhor Filme Internacional. No circuito comercial brasileiro, “O Agente Secreto” estreou em 6 de novembro. Enquanto nos Estados Unidos o lançamento ocorreu no final do mês retrasado (data limite para que dispute as estatuetas da Academia de Los Angeles), nos principais mercados da Europa ele deve chegar às salas de cinema até o fim de fevereiro de 2026. Em Portugal e Alemanha, por exemplo, o novo título de Kleber Mendonça Filho já está sendo exibido desde novembro. Na França, a estreia ocorreu em dezembro. Na Inglaterra, a previsão é que chegue aos cinemas só no mês que vem. Na América do Sul (abraço à galerinha de Mi Buenos Aires Querido), a expectativa é para a estreia no fim de fevereiro, poucas semanas antes da cerimônia do Oscar.    Vale a pena dizer que a receptividade do público foi excelente no Brasil e no exterior. Com apenas um mês em cartaz, o suspense pernambucano, que tem fortes tons de ação policial e aventura de espionagem , levou aproximadamente um milhão de espectadores às salas escuras do nosso país e arrecadou mais de R$ 20 milhões por aqui. Assim, foi alçado à posição de filme brasileiro mais visto em 2025, ultrapassando “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” (2025), título infantil dirigido por Fernando Fraiha baseado no universo de Maurício de Souza. Os dados apresentados nesse parágrafo são da Comscore , empresa especializada na mensuração da audiência televisiva, cinematográfica, teatral e digital. Vamos agora falar do enredo de “O Agente Secreto”. O filme começa às vésperas do Carnaval de 1977. Marcelo (interpretado por Wagner Moura) viaja de carro até Recife, sua cidade natal. Ele está de volta à capital pernambucana depois de muitos anos morando no Sudeste. Sua chegada, contudo, é envolta em mistério e muita apreensão. A única certeza é que o retorno não tem qualquer relação com os festejos de fevereiro que alegram a população local e os vários turistas. Com medo da polícia e do ambiente de violência que afeta tanto o país quanto a metrópole nordestina, o rapaz se abriga num apartamento alugado. O edifício do novo apê de Marcelo é comandado por Dona Sebastiana (Tânia Maria), uma simpática e falante senhora que exerce o papel de síndica e mentora dos moradores. Ela explica ao recém-chegado que aquele lugar hospeda muitas pessoas que precisam se manter na clandestinidade. Do contrário, seriam alvo da ira dos militares, que permanecem no poder em Brasília e intensificaram, na virada dos anos 1960 para os anos 1970, a perseguição aos oposicionistas. Inclusive, a inquilina anterior do apartamento onde Marcelo está sumiu sem deixar notícias, o que entristeceu os vizinhos e Dona Sebastiana. No fundo, ninguém tem esperanças de que a jovem volte ou que seja encontrada viva. Para a segurança de todos no prédio, cada morador do condomínio precisa utilizar um nome falso. Obviamente, Marcelo não é o nome verdadeiro do novato, que recebe documentos falsos com tal identificação assim que coloca os pés em Recife. Uma rede de apoio secreta é a responsável por fornecer o novo RG do rapaz e o abrigar naquele edifício. De maneira irônica, os residentes provisórios do prédio de Dona Sebastiana se autointitulam “refugiados”. Em comum, vivem escondidos, não podem revelar quem são, o que sabem e o que temem e são protegidos pela mesma organização clandestina. Os vizinhos de Marcelo são desde conterrâneos foragidos do governo brasileiro até perseguidos em Angola, que está mergulhada em uma ditadura de esquerda. Para dar um ar mais normal à rotina de Marcelo na capital pernambucana, a equipe por trás de Dona Sebastiana (e da movimentação do rapaz para sua cidade natal), um grupo sem fins lucrativos que dá apoio oculto às vítimas da Ditadura Militar, emprega o protagonista do filme em uma repartição pública. Ele será o funcionário que cuida do arquivo do órgão que emite RG. Aproveitando o acesso à documentação antiga do Estado de Pernambuco, Marcelo procura por informações da mãe. Ele quer o RG materno como recordação da falecida mulher que o gerou. Obviamente, precisa fazer isso sem levantar suspeitas dos novos colegas. Paralelamente, Marcelo contacta sua família verdadeira em Recife. Ou melhor, ele volta a interagir com os parentes de Fátima (Alice Carvalho), sua esposa recém-falecida. Nesse instante, descobrimos que o nome da personagem central do longa-metragem é Armando. O rapaz tem um filho, Fernando (Enzo Nunes), de mais ou menos 8 anos. O garotinho está sendo criado pelo avô materno, Seu Alexandre (Carlos Francisco), e sonha em voltar a viver com pai. O sogro de Armando trabalha no Cine São Luiz, no centro da cidade, e se mostra feliz com o retorno do genro, por mais que a presença dele suscite lembranças da filha morta. Armando é um pesquisador acadêmico que teve problemas com Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), um industrial poderoso de São Paulo. O motivo da desavença foi uma patente científica desenvolvida pelo pernambucano quando atuava na principal universidade paulista. Esse trabalho traria problemas financeiros e mercadológicos para o rico empresário, que obviamente tinha amigos no comando do Estado de São Paulo e em Brasília. Assim, Ghirotti fez o possível e o impossível para destruir a carreira de Armando/Marcelo, inclusive manchando a reputação do acadêmico. Vendo que suas intimidações não estavam resolvendo o problema com o desafeto, o industrial contrata dois matadores de aluguel: Augusto (Roney Villela) e Bobbi (Gabriel Leone). A missão da dupla é liquidar Armando, que desapareceu após a morte de Fátima. Dessa maneira, Augusto e Bobbi não perdoarão nenhum vacilo de seu alvo. Em outras palavras, a reaproximação de Armando/Marcelo com o sogro e o filho, contrariando as orientações do grupo de Dona Sebastiana para se manter oculto, se torna um movimento perigosíssimo para alguém jurado de morte. Conseguirá Armando/Marcelo escapar da sanha sanguinolenta dos inimigos e voltar a viver com o filho de forma minimamente normal? É esse o suspense da produção cinematográfica brasileira mais ambiciosa desta temporada (e da carreira de Kleber Mendonça Filho). “O Agente Secreto” tem aproximadamente duas horas e 40 minutos de duração. Trata-se realmente de um filmão, merecedor dos elogios da crítica cinematográfica e da empolgação do público nas salas de exibição. Além disso, faz todo sentido a alta expectativa dos brasileiros por mais uma estatueta dourada na cerimônia da Academia de Los Angeles em março. Pelo que assisti até agora, o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026 deverá ficar entre “O Agente Secreto” e “Foi Apenas Um Acidente”, disparadamente o melhor longa-metragem da carreira de Panahi. Esses dois títulos são espetaculares. Como o foco deste post da coluna Cinema é o mais recente blockbuster brasileiro, comecemos agora mesmo a análise técnica dele. Afinal, foi para isso que viemos até aqui, né? O primeiro aspecto que gostaria de enaltecer é o enredo inteligente e dinâmico de “O Agente Secreto”. Talvez esse comentário não surpreenda quem esteja acostumado a ver os filmes de Kleber Mendonça Filho. Conforme comprovado em “O Som ao Redor”, “Aquarius” e “Bacurau” , estamos diante de um excelente roteirista, que domina como poucos a arte da contação das histórias ficcionais. Ainda assim, o que me encantou nessa produção foi a maneira pouco didática da apresentação da trama, o que explora a inteligência do espectador. Por exemplo, existem dois tempos narrativos: o passado da Ditadura Militar (trecho relatado na sinopse do filme há alguns parágrafos) e o presente Democrático (que propositadamente ocultei para não estragar parte das surpresas do longa). O vai e volta das duas partes temporais é livre. Cabe a plateia entender o que ocorre em cada fase, o que convenhamos não é algo tão difícil de distinguir nesse caso. O suspense também é potencializado com a exibição da narrativa a conta-gotas. No início, não sabemos quem é exatamente Marcelo e o que ele faz em Recife. Também não conseguimos desvendar qual é o interesse de Dona Sebastiana e os problemas do grupo de “refugiados”, apesar de desconfiar. À medida que sabemos a identidade do protagonista e o que Armando está fazendo na capital pernambucana, a história ganha um caráter metalinguístico. O passado da personagem de Wagner Moura é também a fonte da curiosidade da pesquisadora contemporânea da ONG que investiga as mortes e os desaparecidos da fase mais sombria da última ditadura brasileira. Aí se dá a brincadeira entre presente e passado. Em seguida, somos instigados a saber se o protagonista conseguirá escapar dos matadores de aluguel. Esse ar de mistério é a mola que faz o filme girar do início ao fim, em um excelente ritmo narrativo. Por mais que o enredo e a cadência de “O Agente Secreto” sejam elementos elogiáveis, o diferencial desta produção de Kleber Mendonça Filho (principalmente se comparado a “Foi Apenas um Acidente”, seu maior rival no próximo Oscar) está nos aspectos não verbais. Melhor dizendo: o que salta aos olhos dos cinéfilos mais exigentes é o colorido da fotografia e a reconstituição impecável de Recife dos anos 1970. Por isso, tiro o chapéu para Thales Junqueira , diretor de arte, e Rita Azevedo Gomes , figurinista. O mais legal é notar o quão fidedignos eles foram com o passado e com a pernambucanidade da ambientação. Nos sentirmos realmente no Carnaval de 1977 e em Recife, em um mergulho profundo pela história e pela cultura local.  Outro ponto que não pode passar batido nessa análise pormenorizada da coluna Cinema  é a trilha sonora do blockbuster brasileiro. Aí os méritos são de Mateus Alves  e Tomaz Alves Souza , dupla encarregada da constituição musical de “O Agente Secreto”. As canções selecionadas conversam intimamente com o período histórico da trama e/ou com a identidade pernambucana do filme. Meus destaques vão para “Guerra e Pace, Pollo e Brace 1” na voz de Grazie Zia, “Retiro: Tema de Amor Número 3” do Conjunto Concerto Viola, “Love To Love You Baby” de Donna Summer e “Não Há Mais Tempo” de Angela Maria. É bom dizer que esta é mais uma produção ficcional de Mendonça Filho com trilha sonora impecável. Seus três títulos anteriores possuem essa mesmíssima característica. Ou seja, suas produções são completas da perspectiva audiovisual: servem para a contemplação visual e sonora.   A atuação do elenco deste longa-metragem também deve ser elogiada. E aí não é apenas Wagner Moura quem brilha. Tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes vão muitíssimo bem. Prova maior do que estou dizendo é acompanhar o desempenho fantástico de Tânia Maria. Há seis anos, a artesã e costureira potiguar atuou como atriz pela primeira vez, aos 72 anos, em “Bacurau” . Ela foi tão bem naquela oportunidade que foi chamada mais uma vez para participar de um filme de Mendonça Filho. Em “O Agente Secreto”, seu papel foi maior. E novamente, Tania Maria encantou as plateias do mundo inteiro, chegando a roubar as cenas em que estavam presentes atores e atrizes profissionais de enorme fama e bastante experiência. Incrível, né?   A graça deste longa-metragem está justamente no mix de atores e atrizes conhecidos do grande público com rostos desconhecidos ou em busca de ascensão na Sétima Arte. Essa mistura foi a maneira inteligente do cineasta recifense para explorar o colorido do Nordeste brasileiro (boa parte do elenco é de Pernambuco ou dos estados vizinhos) e para preencher os vários papéis que a história demandava. Repare na quantidade absurda de profissionais em cena. É muita, muita gente, o que exigiu um delicado trabalho de direção e a construção de um enredo que não confundisse a plateia. E posso garantir que o resultado é acima da média. Ninguém destoa e cada personagem retratada adquire particularidades marcantes. Por mais que todos vão muito bem, Wagner Moura é a face visível da excelência como intérprete. As últimas cenas do filme comprovam a sua enorme competência para a atuação. Em seu melhor papel desde o inesquecível Capitão Nascimento, de “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2” (2010), filmes de José Padilha, o ator baiano vem sendo muito elogiado nos festivais internacionais de cinema. Se 2025 foi o ano de Fernanda Torres, que chegou a disputar a estatueta de Melhor Atriz no Oscar, 2026 deverá ser o ano de Moura, que tem grandes chances de conseguir uma indicação da Academia de Los Angeles na categoria Melhor Ator. Torçamos por ele, senhoras e senhores! Ainda que o público estrangeiro não consiga notar, “O Agente Secreto” tem um colorido regional. Sua história se passa em Recife e explora a cultura pernambucana com enorme felicidade. É uma delícia ver o sotaque, a paisagem, a música, a culinária, as roupas e a ambientação desse pedaço tão rico artisticamente do nosso país. Ou seja, ao mesmo tempo em que faz a reconstrução histórica da década de 1970, o longa-metragem de Kleber Mendonça Filho foca na realidade recifense. Adorei esse tempero nordestino do filme. É muito legal mostrar, por exemplo, que a violência estatal da Ditadura Militar não ocorreu apenas no eixo Rio-São Paulo, como muitos brasileiros do Sudeste acreditam. Ela se espalhou pelo país e atingiu a todos de Norte a Sul de diferentes maneiras. Cinéfilo que é cinéfilo de verdade deve ter notado a forte intertextualidade cinematográfica desta produção. Há várias menções diretas e indiretas a outros filmes nesta obra. A citação mais explícita é de “Tubarão” ( Jaws : 1975), clássico de terror de Steven Spielberg que completou no ano passado seu primeiro cinquentenário. Inclusive, fiz uma análise completa do blockbuster norte-americano há pouco tempo na coluna Cinema . Também há indicação a “Retratos Fantasmas”. Afinal, o Cine São Luiz é um importante componente da trama, se constituindo quase como uma personagem do enredo. O que pouca gente nota é que o nome de “O Agente Secreto” não tem relação com o papel desempenhado por Wagner Moura na narrativa. Ele não é um agente secreto. Esse é o título de um filme homônimo dos anos 1970 que está estampado nos letreiros do Cine São Luiz em uma cena. Confesso que não conheço esse título. Terminada a seção de pontos positivos, preciso adentrar nesse momento nos pontos que ficaram aquém das expectativas. Afinal, estamos no Bonas Histórias , não é mesmo?! Aqui as avaliações das obras analisadas são imparciais e completas. Apresentamos simultaneamente o que gostamos e o que poderia ser melhorado. Com essa postura isenta e honesta, acreditamos que nossos leitores adquirem uma visão integral e real das manifestações artístico-culturais que debatemos. O primeiro componente que não gostei em “O Agente Secreto” foi das passagens sobrenaturais da trama, que deram um caráter de filme B à produção brasileira. Por mais que os episódios que embasaram o roteiro de Mendonça Filho, como “a Perna Cabeluda” e “o gato de duas caras", tenham registros jornalísticos, ainda assim eles não combinaram em nada com o realismo brutal do restante da história nem se encaixaram à linha narrativa principal do longa-metragem. Ou seja, os considerei destoantes e desnecessários, além de reforçar no exterior o estereótipo de que a América do Sul é um lugar farto em eventos fantásticos. Vamos combinar que os episódios aparentemente sobrenaturais trazidos por “O Agente Secreto” foram muito mais recursos para vender jornal durante a década de 1970 e para desviar a atenção da população da verdadeira violência da época (aquela promovida pelo próprio Estado) do que acontecimentos que a ciência não soube explicar. Outro elemento que pode prejudicar os voos desta produção em direção às estatuetas do principal festival do cinema internacional é a repetição temática. Lembremos que “Ainda Estou Aqui” ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional há menos de um ano ao explorar o assunto da perseguição da Ditatura Militar à população civil. Em nome do combate aos comunistas e aos terroristas de esquerda, o Estado brasileiro torturou e matou sistematicamente vários inocentes, sem se importar com Justiça e Direitos Humanos. E agora temos outra vez essa mesmíssima linha narrativa, apesar das nuances distintas entre “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” . Será que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles irá dar de maneira consecutiva o prêmio de melhor produção internacional para um país que traz temática similar à do ano anterior? Acho difícil. Diante de tantos assuntos para serem abordados, bater na mesma tecla parece uma perda de tempo e/ou uma forçação de barra. Acho que essa deve ser a visão e a crença da maioria dos jurados do principal prêmio cinematográfico mundial.   Ainda assim, é bom dizer que a Ditadura Militar da América do Sul é um tema apreciado pelo público gringo e pelo júri da badalada premiação norte-americana. Nos recordemos que das quatro estatuetas do nosso continente na categoria Melhor Filme Internacional (antigamente chamada de Melhor Filme Estrangeiro), três títulos abordavam justamente os horrores perpetrados pelos fardados: os argentinos “O Segredo de Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009) e “A História Oficial” (La Historia Oficial: 1985) e o brasileiro “Ainda Estou Aqui” . A exceção (que só confirma a regra) é o chileno “Uma Mulher Fantástica” (Una Mujer Fantástica: 2017), longa-metragem que tratava do drama de uma cantora e dançarina trans em Santiago do Chile. Do ponto de vista político, os Estados Unidos e boa parte da Europa estão atualmente muito parecidos com a América Latina das décadas de 1960 e 1970. Daí a força de livros e filmes latino-americanos que retratam seus antigos sistemas antidemocráticos. Essas histórias ganham um colorido especial aos olhos do público norte-americano e europeu de hoje. Ao mesmo tempo, pela perspectiva religiosa e ideológica, o país mais poderoso do mundo também se aproxima perigosamente das características das nações mais fechadas do Oriente Médio e do Golfo Pérsico. Por isso, acho que dessa vez os anseios da Academia de Los Angeles se voltarão para o trabalho cinematográfico de Jafar Panahi. O iraniano não apenas traz nessa temporada seu melhor filme como coloca o dedo na ferida da ditadura religiosa do seu país. Assista, a seguir, ao trailer de “Agente Secreto” (2025): Em suma, achei “O Agente Secreto” um filme impecável. Pela experiência cinematográfica, ele é até mesmo superior a “Ainda Estou Aqui” . Só não é melhor, em uma comparação nacional e histórica, a “Cidade de Deus” (2002), até hoje nossa melhor produção da Sétima Arte. Assim, o novo filme de Kleber Mendonça merece estar entre os favoritos ao Oscar de 2026 (pelo menos na categoria dos títulos internacionais). Também acho que ele deve conseguir mais de uma indicação na próxima cerimônia (de melhor ator para Wagner Moura e/ou de melhor direção para o próprio Mendonça Filho). Contudo, confesso que não estou tão otimista quanto a conquista da nossa segunda estatueta dourada. O motivo? A sensação de que a preferência de Los Angeles, em março, estará concentrada no trabalho de Jafar Panahi. “Foi Apenas Um Acidente” é uma produção audiovisual melhor e mais completa do que “O Agente Secreto”? Minha resposta é convicta: NÃO! Como experiência cinematográfica, o longa-metragem brasileiro ganha de 7 a 1 do iraniano. A superioridade do título de Kleber Mendonça Filho está na fotografia, figurino, maquiagem, direção de arte, trilha sonora, filmagem e efeitos visuais. Já a produção de Panahi vence quanto à construção do roteiro. O enredo de “Foi Apenas Um Acidente” é espetacular, com direito a um desfecho aberto que faz a plateia sair do cinema se questionando sobre o que faria no lugar do protagonista e discutindo o que o vilão fará. Por sua vez, as interpretações do elenco principal e de apoio me pareceram parecidas nos dois filmes, não dando para apontar qual dos times de atores e atrizes se saiu melhor. Se “O Agente Secreto” é tão superior a “Foi Apenas Um Acidente”, por que, então, o filme iraniano é o grande favorito ao Oscar, hein?! Aí entra o contexto de como as duas obras foram produzidas, algo relevante para os jurados das principais premiações internacionais. Enquanto Mendonça Filho recebeu apoio de produtoras de seu país e do exterior, teve acesso a políticas de incentivo ao cinema e administrou um orçamento polpudo para o padrão sul-americano, Panahi filmou na clandestinidade. É isso mesmo! Ele é um dos artistas censurados pela teocracia de Teerã e só consegue desenvolver seus longas-metragens na surdina. Imagine você escrever o roteiro, planejar o filme, selecionar o elenco e os profissionais de apoio, angariar verba, filmar as cenas em locações externas, editá-las e lançar o título (no exterior) com a polícia, a Justiça e as autoridades de seu país o perseguindo e o ameaçando de prisão! Pois é nesse cenário que Jafar Panahi trabalha há muitos anos. Será que Kleber Mendonça Filho (e qualquer outro cineasta de destaque nos quatro cantos do planeta) teria conseguido apresentar um longa com a qualidade de “Foi Apenas Um Acidente” se estivesse na mesma condição do colega iraniano? Dificilmente. Por isso, essa produção persa é tão simbólica e emblemática. Ela representa a vitória da cultura (e do cinema) sobre a tirania (e a proibição de governos autoritários). Se eu conseguir um espaço na coluna Cinema  nas próximas semanas, prometo fazer um post sobre “Foi Apenas Um Acidente”, um filme realmente espetacular que merece uma análise pormenorizada no blog (e a estatueta dourado). O que dá para dizer, desde já, é que “O Agente Secreto”, por sua excelente qualidade técnica e pela belíssima experiência cinematográfica que nos proporciona, tem totais condições para concorrer com o novo título de Panahi em qualquer premiação internacional. Torçamos para que, dessa vez, os critérios objetivos da produção audiovisual superem os critérios simbólicos na escolha do próximo Oscar. Só assim veremos o Brasil conquistar sua segunda estatueta dourada. Saravá! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . 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  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em novembro e dezembro de 2025

    Confira os 100 principais títulos ficcionais e poéticos que chegaram às livrarias brasileiras no último bimestre do ano passado. O Réveillon já ficou para trás, senhoras e senhores. Inclusive, 2026 já está forte e bem grandinho. Não por acaso, o mundo faz planos e promessas para o ano novo, que perdeu o hífen há exatamente cinco dias. Justo. Muito justo. Justíssimo! Contudo, contrariando a lógica natural do começo de janeiro, eu estou novamente no Bonas Histórias olhando para trás. Ai, ai, ai. Para ser mais específico em minhas palavras iniciais do primeiro post de 2026, retorno à coluna Mercado Editorial para apresentar os livros de ficção e poesia que foram lançados no Brasil em novembro e dezembro de 2025 . Vamos combinar que não dava para iniciar a nova temporada literária do blog sem encerrar adequadamente a anterior, né? Além da contradição de timing  (falar dos meses anteriores quando a humanidade inteira olha para os doze meses posteriores), preciso relatar o problema do volume de publicações do último bimestre do ano. Em nosso país (e nos principais mercados editoriais do Ocidente), novembro e, principalmente, dezembro são períodos de baixa quantidade de novidades nas livrarias. É aquele negócio: quem tinha que apresentar lançamentos para o público leitor já o fez até o finalzinho de outubro. Diante da dificuldade de logística, comercialização/negociação, divulgação e trâmites burocráticos com lojistas e atacadistas, as grandes editoras preferem não publicar muitos títulos nos dois últimos meses do ano. Sabendo disso, boa parte das suas equipes entra em férias coletiva ou desacelera o ritmo no princípio de dezembro. Justo. Muito justo. Justíssimo! Como consequência, nessa época, eu preciso ficar caçando novidades para relatar aos leitores da coluna Mercado Editorial . Enquanto nos bimestres normais divulgo tranquilamente duas centenas de livros novinhos em folha, agora eu mal consigo chegar a uma centena. Saiba que para atingir a lista de 100 obras ficcionais e poéticas que foram publicadas no último bimestre de 2025  foi difícil pra caramba. Tive que recorrer até as editoras minúsculas e a algumas autopublicações. O importante é que consegui atingir um número mínimo, que estamos acostumados no Bonas Histórias . Justo. Muito... Tá bom, você já entendeu! Para quem não está acostumado ao conteúdo desta coluna, informo que trago bimestralmente os principais romances , novelas , coletâneas de contos ,  coleções de crônicas , ensaios sobre teoria literária , títulos da literatura infantojuvenil , obras da literatura infantil  e antologias poéticas  que foram lançados nas livrarias brasileiras. E, antes de apresentar a lista completa de novos títulos, gosto de pinçar o que me pareceu mais interessante entre as publicações recém-chegadas. Dessa vez não será diferente. Os três livros que mais chamaram minha atenção em novembro e dezembro foram: “Via Gemito” ( Todavia ),   romance de  Domenico Starnone ,  “Akaiaka – Cenas de Uma Metrópole” ( Ramalhete ), coletânea de crônicas de  Roberto Marcio ,  “A Palavra é Uma Imagem” ( Laranja Original ) , antologia poética de  Tadeu Jungle . Vamos trocar, a seguir, algumas linhas sobre cada uma dessas obras, senhoras e senhores. Domenico Starnone é um autor italiano que, por enquanto, pouca gente conhece no Brasil. Mas deveriam conhecê-lo, porque seu portfólio literário é brilhante. Para você ter uma ideia da excelência deste romancista, há muitos críticos literários e editores (estou nesse grupo, tá?!) que acham que Starnone é a verdadeira identidade de Elena Ferrante , o pseudônimo misterioso que produziu, entre outras obras sublimes, a “Tetralogia Napolitana” – “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul), “História do Novo Sobrenome” (Biblioteca Azul), “História de Quem Foge e de Quem Fica” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul). Basta ler Domenico Starnone para ver as semelhanças absurdas de estilo narrativo e de temáticas com Ferrante, o principal nome da literatura italiana  da atualidade (e minha autora internacional favorita). “Via Gemito”, que a Editora Todavia  traz agora para o público brasileiro, é uma obra antiga de Starnone. Publicado na Itália em 2000, este romance conquistou no ano seguinte o Prêmio Strega, o mais importante da área ficcional no país de Dante Alighieri, Italo Calvino , Luigi Pirandello e Umberto Eco. O livro mergulha em sonhos, ambições e frustações de uma família de trabalhadores de Nápoles. Ambientado no pós-guerra e protagonizado por Federí, um condutor de trens, a trama mistura ficção e autobiografia, sendo, por isso, considerado o título mais pessoal do autor. Impossível não nos recordarmos do enredo , das personagens  e da ambientação  do maior sucesso de Elena Ferrante . No caso, “Via Gemito” seria uma espécie de versão masculina da famosa série literária da autora de identidade desconhecida. Considerado a obra-prima de Domenico Starnone, “Via Gemito” ganhou outros prêmios relevantes na Itália e foi finalista de algumas das principais premiações literárias do exterior, como o badaladíssimo International Booker Prize de 2024. Se você curte os livros de Ferrante como eu, deveria se aprofundar na literatura de Starnone. Dependendo do livro que ler, você acreditará ter desvendado o maior enigma da ficção contemporânea: a identidade real de Elena Ferrante .  A segunda novidade que destaco é “Akaiaka – Cenas de Uma Metrópole”, a recém-lançada coletânea de crônicas de Roberto Marcio. Em sua quinta publicação, o autor, tradutor e professor mineiro segue desenvolvendo um portfólio plural e de grande qualidade. Os leitores do Bonas Histórias já conhecem boa parte de suas obras. Na coluna Livros – Crítica Literária , analisei os três primeiros títulos de Roberto: “Andante das Gerais” (Páginas Editora), crônicas de 2020, “Janelas Visitadas” (Sete Autores), contos de 2021, e “Deixe a Música Contar” (Sete Autores), novela de 2022. A quarta publicação, “Chá das 5 na Terra do Ouro” (Sete Autores), novela de 2024, não ganhou ainda uma avaliação no blog, por mais que seja a ficção mais madura e reluzente de Roberto. Confesso que foi vacilo meu não ter trazido para cá a análise desta obra. E justamente quando pensava em quando poderia comentar “Chá das 5 na Terra do Ouro” com o público do Bonas Histórias , vejo que o autor de Nova Lima lançou mais um livro. No caso, “Akaiaka – Cenas de Uma Metrópole” pode ser visto tanto como uma coletânea de crônicas históricas sobre Belo Horizonte quanto como um romance/novela de época. Afinal, Ubiratã, o narrador central, relata passagens reais da capital mineira ao longo do século XX e, simultaneamente, traz algumas passagens ficcionais. Distinguir o que é realidade e invenção literária é o delicioso desafio dos leitores de Roberto Marcio.   Quem ficou curioso com o nome deste novo livro, já digo que Akaiaka remete ao Edifício Acaiaca, construção de 1947 que se tornou um ícone da arquitetura Art Déco no Centro de Belo Horizonte. Projetado pelo arquiteto e engenheiro Luiz Pinto Coelho, o prédio já foi o maior de Minas e do Brasil. Será que “Akaiaka – Cenas de Uma Metrópole” é melhor do que “Chá das 5 na Terra do Ouro”? É isso o que pretendo descobrir nas próximas semanas, senhoras e senhores. Prometo retornar à coluna Livros – Crítica Literária  para responder a essa intrigante pergunta. Quero comentar pelo menos uma dessas obras ainda no primeiro semestre de 2026. Vamos ver se consigo cumprir essa promessa, né? Ainda na literatura brasileira , mas deixando a prosa ficcional  e adentrando na poesia , a terceira boa novidade do último bimestre de 2025 foi “A Palavra é Uma Imagem”, antologia poética de Tadeu Jungle. O grande atrativo dessa obra, pelo menos na minha humilde opinião, é a apresentação dos melhores trabalhos de quase meio século do artista multimídia paulistano que navega entre a fotografia, o cinema e a literatura. Adepto da poesia visual , Jungle mescla em seus poemas as linguagens verbal, fotográfica e de design gráfico. O resultado é divertido, inteligente e instigante. Como aluno de Mário Chamie (e sua Poesia Práxis) no início dos anos 2000 e como fã inveterado de Augusto de Campos (e sua Poesia Concreta) desde os anos 1990, eu sou maluquinho, maluquinho pela Poesia Visual. E, felizmente, Tadeu Jungle nos oferece, em “A Palavra é Uma Imagem”, surpreendentes enigmas linguísticos. Sem a prisão da convenção estética da língua escrita convencional, o poeta visual inventa novos significados, sentidos e expressões para o jogo de palavras que os leitores estão acostumados a ver e a usar no dia a dia. O mais legal foi constatar que “A Palavra é Uma Imagem” é apenas um dos vários títulos excelentes publicados no segundo semestre de 2025 pela Laranja Original , editora da capital paulista especializada em literatura (poesia, conto e romance) e arte. Juro que fiquei fã do trabalho recente do pessoal da Vila Madalena. Não por acaso, quando analisei os melhores lançamentos editoriais de setembro e outubro de 2025 , citei outra obra da Laranja Original: “Maçã. Mesa. Moeda.”, a nova coleção de contos de Fernanda Caleffi Barbetta. A impressão que tenho é que esta editora apresentou um dos melhores portfólios literários do último semestre. Incrível mesmo! Apresentados os três principais destaques bimestrais, sinto que já estamos prontos para analisar a lista completa dos livros de ficção e poesia que chegaram às livrarias brasileiras em novembro e dezembro de 2025. Sem mais enrolação, aí vão as 100 principais obras ficcionais e poéticas do encerramento do ano passado: FICÇÃO BRASILEIRA: “Antes que As Palavras Te Esqueçam” (CEPE Editora) – Leonardo Tonus – Romance – 184 páginas. “Ultra Carnen II” (Darkside) – Cesar Bravo – Romance – 496 páginas. “Vire Essa Folha do Livro e Se Esqueça de Mim” (L&PM Editores) – Clara Corleone – Novela – 120 páginas. “Leonora” (Rocco) – Heloísa Prieto – Novela – 112 páginas. “As Prostitutas Vos Precederão no Reino dos Céus” (Nós) – Julia Baranski – Novela – 96 páginas. “Escritos da Não-Memória” (Laranja Original) – Valéria Midena – Novela – 76 páginas. “Caquinhos Vermelhos” (Fósforo) – Mário Medeiros – Coletânea de Contos – 136 páginas. “Nego Tudo – Ficções Súbitas” (Companhia das Letras) – Andréa del Fuego – Coletânea de Contos – 120 páginas. “Salvo Engano” (Laranja Original) – Jayme Serva – Coletânea de Contos – 104 páginas. “Só Os Loucos Batem Palmas Para O Céu” (Cavalo Azul) – Denise Emmer – Coletânea de Contos – 94 páginas. “Todos os Contos” (Rocco) – Clarice Lispector – Coletânea de Contos – 680 páginas. “Minhas Queridas e Outras Cartas” (Rocco) – Clarice Lispector – Coletânea de Cartas – 320 páginas. “Akaiaka – Cenas de Uma Metrópole” (Ramalhete) – Roberto Marcio – Coletânea de Crônicas – 160 páginas. “Mais ou Menos Isso” (EV Publicações) – Lucas Ribeiro e Leo Valpassos – Coletânea de Crônicas – 112 páginas. “Juventude Eterna” (Círculo de Poemas) – Eduardo Sterzi – Ensaios – 40 páginas. “Perfeitos Estranhos” (Alt) – Adrielli Almeida – Infantojuvenil – 336 páginas. “Didia” (Malê) – Maíra Oliveira e Felipe Carvalho – Infantil – 52 páginas. “Ada, A Menina Jongueira” (L&PM Editores) – Sonia Rosa e Caio Zero – Infantil – 36 páginas. “Calulina” (CEPE Editora) – Ana Cristina Santos e Júlia Ramos – Infantil – 32 páginas. “As Três Estrelas do Céu – Cordel para Cosme e Damião” (Reco-reco) – Luiz Antonio Simas – Infantil – 32 páginas. “Coleção de Sons de Cecília” (CEPE Editora) – Renata Pezani e Lumina Pirilampus – Infantil – 28 páginas. “Manoel, o Sonho e o Vaga-lume” (CEPE Editora) – Raquel Trindade e Veridiana Scarpelli – Infantil – 24 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Via Gemito” (Todavia) – Domenico Starnone (Itália) – Romance – 464 páginas. “O Retorno do Barão de Wenckheim” (Companhia das Letras) – László Krasznahorkai (Hungria) – Romance – 512 páginas. “Terrinhas” (Dublinense) – Catarina Gomes (Portugal) – Romance – 288 páginas. “Raízes Loiras” (Companhia das Letras) – Bernardine Evaristo (Inglaterra/Nigéria) – Romance – 312 páginas. “Licor de Dente-de-Leão” (Biblioteca Azul) – Ray Bradbury (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “As Mortas” (Pinard) – Jorge Ibargüengoitia (México) – Romance – 200 páginas. “O Expresso de Tóquio” (Todavia) – Seichō Matsumoto (Japão) – Romance – 192 páginas. “Com Amor, Mamãe” (Intrínseca) – Iliana Xander (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Última Canção” (Arqueiro) – Lucinda Riley (Irlanda) – Romance – 416 páginas. “Verão em Nova York” (Globo Livros) – Alex Aster (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Sobre Heróis e Tumbas” (Pinard) – Ernesto Sabato (Argentina) – Romance – 618 páginas. “Parceira” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Romance – 416 páginas. “Mártir!” (Rocco) – Kaveh Akbar (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “O Casal Perfeito” (Rocco) – Ruth Ware (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Jogando por Amor – Volume 2 da Série Sobre Gelo Fino” (Arqueiro) – Peyton Corinne (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Quantas Madrugadas Tem a Noite” (Dublinense) – Ondjaki (Angola) – Romance – 224 páginas. “O Mundo de Gelo e Fogo – A História Não Contada de Westeros e da Guerra dos Tronos” (Suma) – George R. R. Martin (Estados Unidos), Elio M. García Jr. (Estados Unidos) e Linda Antonsson (Suécia) – Romance – 336 páginas. “O Ano do Gafanhoto” (Intrínseca) – Terry Hayes (Inglaterra/Austrália) – Romance – 704 páginas. “Como Matar Um Príncipe” (Darkside) – T. Kingfisher (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Reencontro na Vila dos Tecidos – Volume 6 da Série A Vila dos Tecidos” (Arqueiro) – Anne Jacobs (Alemanha) – Romance – 496 páginas. “Lado B” (Rocco) – Holly Brickley (Canadá) – Romance – 352 páginas. “Brilho da Chama Eterna – Volume 2 da Série Chama Eterna” (Arqueiro) – Penn Cole (Estados Unidos) – Romance – 624 páginas. “A Herança da Mãe – Um Folhetim” (Carambaia) - Minae Mizumura (Japão) – Romance – 432 páginas. “O Coração do Inverno – Volume 9 da Série A Roda do Tempo” (Intrínseca) – Robert Jordan (Estados Unidos) – Romance – 608 páginas. “Até que o Natal Nos Separe” (Arqueiro) – Catherine Walsh (Irlanda) – Romance – 336 páginas. “As Indecorosas Damas de Londres – Volume 2 da Coleção A Duquesa” (Rocco) – Sophie Jordan (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Um Golpe no Meu Chefe” (Globo Livros) – Kyra Parsi (Canadá) – Romance – 400 páginas. “O Jogo da Alma” (Suma) – Javier Castillo (Espanha) – Romance – 280 páginas. “A Vida É Muito Curta” (Arqueiro) – Abby Jimenez (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Bella Mia” (Relicário) – Donatella Di Pietrantonio (Itália) – Romance – 216 páginas. “Heptalogia” (Fósforo) – Jon Fosse (Dinamarca) – Coletânea de Novelas – 688 páginas. “Sepulcros de Caubóis” (Companhia das Letras) – Roberto Bolaño (Chile) – Coletânea de Novelas – 192 páginas. “Recitatif” (Companhia das Letras) – Toni Morrison (Estados Unidos) – Novela – 120 páginas. “O Gato do Adeus” (Alfaguara) – Hiro Arikawa (Japão) – Coletânea de Contos – 240 páginas. “A Volta de Sherlock Holmes” (L&PM Editores) – Arthur Conan Doyle (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 344 páginas. “Contos Completos” (Mundaréu) – José Donoso (Chile) – Coletânea de Contos – 224 páginas. “Cartas Para Camondo” (Intrínseca) – Edmund de Waal (Inglaterra) – Coletânea de Cartas Ficcionais – 192 páginas. “A Terra da Doce Eternidade” (José Olympio) – Harper Lee (Estados Unidos) – Coletânea de Ensaios e Cartas – 160 páginas. “O Contador, a Noite e o Balaio” (Editora 34) – Patrick Chamoiseau (França) – Coletânea de Ensaios – 232 páginas. “Idioma Materno” (Relicário) – Fabio Morábito (México) – Coletânea de Ensaios – 180 páginas. “A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento” (Editora 34) – Mikhail Bakhtin (Rússia) – Coletânea de Ensaios – 776 páginas. “O Rei dos Ladrões – Volume 2 da Série O Portador da Espada” (Galera) – Cassandra Clare (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 560 páginas. “Temporada de Espinhos” (Alt) – Kiera Azar (Inglaterra) – Infantojuvenil – 512 páginas. “Virtudes Infames” (Seguinte) – Alwyn Hamilton (Canadá) – Infantojuvenil – 464 páginas. “O Gosto que Fica” (Paralela) – Daria Lavelle (Ucrânia/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 456 páginas. “O Silêncio da Andorinha” (Seguinte) – Elena Malíssova (Rússia) e Katerina Silvánova (Ucrânia) – Infantojuvenil – 448 páginas. “As Almas da Academia Blackwood” (Galera) – I. V. Marie (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 420 páginas. “Vem Comigo” (Intrínseca) – Simone Soltani (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Rivais Gloriosos” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 408 páginas. “A Canção das Profundezas” (Alt) – Kalie Cassidy (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “A Tática da Amizade” (Paralela) – Stephanie Archer (Canadá) – Infantojuvenil – 400 páginas. “O Tribunal dos Mortos – Volume 2 da Série Uma Aventura de Nico di Angelo” (Intrínseca) – Mark Oshiro (Estados Unidos) e Rick Riordan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Querido Rival” (Seguinte) – Alexandra Moody (Austrália) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Se Dissermos Adeus” (Alt) – Jasmine Little (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “A Dupla Perfeita” (Alt) – Ivy Bailev (Inglaterra) – Infantojuvenil – 256 páginas. “O Ventríloquo – Volume 9 da Série Five Nights at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Elley Cooper (Estados Unidos) e Scott Cawthon (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 192 páginas. “Carinha de Amigo – Volume 10 da Série Five Nights at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Andrea Waggener (Estados Unidos) e Scott Cawthon (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “Mestre das Travessuras – Volume 11 da Série Five Nights at Freddy’s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Andrea Waggener (Estados Unidos), Elley Cooper (Estados Unidos) e Scott Cawthon (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Natal das Garotas” (Alt) – Rachael Lippincott (Estados Unidos) e Alyson Derrick (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 152 páginas. “Senhorita Noel do Trem Pullmann” (Darkside) – Annie Fellows Johnston (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 144 páginas. “Beto e Bico – O Piquenique e Outras Histórias” (Globinho) – Jarvis (Inglaterra) – Infantil – 64 páginas. “Beto e Bico – As Estrelas e Outras Histórias” (Globinho) – Jarvis (Inglaterra) – Infantil – 64 páginas. “O Presente das Palavras” (Globinho) – Peter H. Reynolds (Canadá) – Infantil – 40 páginas. “Sou Folha” (Globinho) – Angelo Mozzillo (Itália) – Infantil – 40 páginas. “Olhares” (Caverinha) – Junji Ito (Japão) e Soshichi Tonari (Japão) – Literatura Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “A Cor da Pele – Poesia Reunida” (Círculo de Poemas) – Adão Ventura – 320 páginas. “A Palavra é Uma Imagem” (Laranja Original) – Tadeu Jungle – 186 páginas. “Fazer Círculos com Mãos de Ave” (Editora 34) – Ana Estaregui – 152 páginas. “Anima. Sumicais” (Laranja Original) – Rosa Cohen – 152 páginas. “Méji” (Malê) – Marcelo Ricardo – 142 páginas. “A Velha e o Mar” (Cajuína) – Lúcia Cortez Mendonça – 118 páginas. “Deságua” (Laranja Original) – Monica Toledo – 112 páginas. “Look At Me” (Laranja Original) – Nadja – 96 páginas. “Meu Corpo É Testemunha” (Laranja Original) – Maurício Rosa – 88 páginas. “Um Lugar Qualquer” (Laranja Original) – Guilherme Dearo – 72 páginas. “Dendorí: Dar Corpo ao Poema – e Vice-Versa” (Círculo de Poemas) – Ricardo Aleixo – 40 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Poesia” (Editora 34) – François Villon (França) – 496 páginas. “Eurídice e Outros Poemas” (Círculo de Poemas) – Hilda Doolittle (Estados Unidos) – 144 páginas. Na primeira semana de fevereiro de 2026, retornarei à coluna Mercado Editorial  para debater os livros mais vendidos no Brasil em 2025. Até lá, continue acompanhando o conteúdo das demais colunas do Bonas Histórias . Afinal, enquanto o mundo gira, a gente lê. Fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Celebrações: 2026 – Feliz ano novo do Bonas Histórias

    Desejamos uma excelente virada de ano aos nossos leitores, colunistas e patrocinadores. Nossos votos são para que 2026 venha com muita prosperidade, paz, saúde e, claro, intensa vida artístico-cultural, a essência deste blog. Com a proximidade de mais um Réveillon, naturalmente esquecemos o ano que está nos últimos suspiros e já começamos a antever o período que está para nascer. É a velha história de encarar o futuro imediato e ignorar o passado recente. Contudo, vamos ser sinceros: não sabemos exatamente o que 2026 nos reserva, né? Desde o falecimento de Nostradamus, Baba Vanga, Walter Mercado e Mãe Dinah, estamos órfãos de videntes confiáveis. Assim, acabamos recorrendo aos prognósticos de gente que usa mais a razão do que a intuição para enxergar o amanhã (um pecado inadmissível nesse campo da adivinhação/enganação). Pelo que tenho escutado aqui e ali, os mais pessimistas falam em Terceira Guerra Mundial, conflito nuclear, ápice da crise climática, nova pandemia/quarentena global, roubo de milhões de empregos pela IA, anistia do Bozo, reeleição do Sapo Barbudo, continuidade da política econômica do Peluca de León, quarto título mundial da Seleção da Argentina e, o que parece ser o mais grave, retorno do casório de Virgínia e Zé Felipe. É tanta desgraça junta que até mesmo os seres humanos, espécie inconsequente e pouco astuta presa num quartinho no subúrbio do Sistema Solar, não mereceria um fim tão apocalíptico (à altura dos desfechos dos romances de Stephen King ). Por outro lado, já ouvi os otimistas apontarem a queda acentuada das emissões de gás carbônico, o rápido progresso das energias renováveis, a erradicação de muitas moléstias epidêmicas, o fim das guerras na Europa e no Oriente Médio, as prisões de vários políticos corruptos no Brasil, o término da polarização ideológica, a renovação completa dos quadros do executivo e do legislativo de Brasília, a volta do câmbio peso argentino/real como em 2023, a jornada de trabalho 2x5, meu casamento com Scarlett Johansson, o pagamento integral da dívida corintiana, a saída de Abel Ferreira do Guarani da Capital e, provavelmente o acontecimento mais bombástico do século XXI,  a união matrimonial (com direito a filhos) de Ana Castela e Zé Felipe. Aí a alegria viria em volume e intensidade que até Deus (se existisse) duvidaria. Será que merecemos um cenário tão positivo? É claro que não!   O mais provável é que não tenhamos um ano nem 8 nem 80. É sempre assim: na disputa ruidosa entre pessimistas e otimistas, vencem os pragmáticos, grupinho silencioso e ordeiro (do qual pertenço com bastante orgulho). Tendo em vista a perspectiva mais realista, o Bonas Histórias , o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento  escondido nos rincões da internet em língua portuguesa e que completou neste mês 11 anos de existência , deseja um excelente 2026 para seus leitores, colunistas e patrocinadores. Nossos votos são para que a comunidade pensante (e os demais terráqueos) tenha prosperidade, paz, saúde e muita riqueza artístico-cultural no próximo giro completo do planetinha azul em torno da estrela fervilhante. Como a virada de ano também combina com promessas e novos planos, não poderíamos deixar de listar nossas vontades e anseios para 2026. É, senhoras e senhores, este post da coluna Premiações e Celebrações  tem mais encheção de linguiça do que un rico choripan porteño !   Os leitores mais antigos do Bonas Histórias  já estão acostumados com a apresentação de nossas metas para o próximo ciclo (e com o embromation  de nossas publicações). A questão central é que, apesar de desejar prosperidade, paz, saúde e conhecimento/cultura para as pessoas, não temos o poder de entregá-los. Para ser bem franco com vocês, só agimos efetivamente em relação a um elemento dessa receita – o último. Ao invés de ver o copo meio vazio, o enxergamos como meio cheio. Felizmente, temos o controle sobre ao menos um componente do futuro que desejamos ao nosso público. Assim, reafirmamos o compromisso de seguir produzindo o conteúdo para as 19 colunas do Bonas Histórias : Livros – Crítica Literária , Desafio Literário , Teoria Literária , Talk Show Literário , Miliádios Literários , Contos & Crônicas , Mercado Editorial , Cinema , Músicas , Teatro , Dança , Exposições , Gastronomia , Passeios , Rádio, TV e Internet , Cursos e Eventos , Premiações e Celebrações , Melhores Músicas Ruins  e, ufa, Recomendações . Nossa missão é analisar semanalmente o que há de melhor na literatura, na cultura e no entretenimento no Brasil e no mundo. Por isso, promovemos debates profundos, imparciais e sagazes das mais variadas manifestações artísticas. Em outras palavras, no que depender da gente, 2026 será um ano de enorme riqueza literário-cultural . Só de imaginar novos livros, filmes, músicas, danças, peças teatrais, exposições, seriados de televisão, experiências gastronômicas e passeios sendo discutidos em nossas páginas, fico com a certeza de que nossos leitores e parceiros poderão mergulhar em saborosas narrativas. Enquanto a Terra não for destruída, seguiremos destemidos pelo caminho divertido e lúcido do conhecimento e da cultura. Para não estender este texto mais do que deveria, grito aos quatro ventos: feliz ano novo  para todos! Que 2026 seja espetacular para todo mundo! Se não podemos mudar a realidade da humanidade e o destino do planeta, cada vez mais e mais obscuros, ao menos transformemos o dia a dia daqueles que desejam caminhar amparados pelas velas acesas do saber. Se essa for sua vontade, fique conosco nos próximos doze meses. Faça sol ou faça chuva, o Bonas Histórias  estará no ar para, como seu próprio nome diz, compartilhar boas histórias. Até a próxima, pessoal!   Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Melhores Músicas Ruins: Brasil – Premiação de 2025

    Os destaques da 11ª edição do tradicional prêmio trash da música brasileira foram “Descer pra BC”, da dupla sertaneja Brenno & Matheus, “Melzinho”, dos forrozeiros Xand Avião e Talita Mel, e “Oh Garota, Quero Você Só Pra Mim”, do funkeiro Oruam. Confira a lista completa das 25 canções nacionais mais marcantes desta temporada segundo os jurados do SOSAMOR, a Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins . Certa vez, acho que em 2015 ou 2016, ouvi uma pergunta desconcertante (ou seria um duplo questionamento enigmático?!) de uma criança de aproximadamente oito anos de idade. Suas palavras me deixaram embasbacado. Ao parar no semáforo (nós, paulistanos, falamos farol!) avermelhado da Av. Doutor Arnaldo (no sentido da Av. Paulista), na cidade de São Paulo, um moleque se pendurou na janela aberta do meu carro com a naturalidade de um escalador urbano. Aí, com o dedo mais ou menos em riste, disparou na minha direção: — Como vocês sabem se uma música é ruim?! E se ela for boa, mas ninguém percebeu, hein?”. Confesso que achei a inquisição bastante válida, ainda mais saída de uma mente tão precoce. Isso sem contar que a cena era, por si só, pouquíssimo verossímil. Até hoje, há quem duvide desta história. Dá para crer no povo que desconfia da veracidade das minhas palavras?! Tem cada um nesse mundo! O certo é que fiquei intrigado com aquela, digamos, aleatoriedade. Como o garotinho, que aparentava passar o dia pelas ruas cinzentas da capital paulista (talvez em busca de esmola), poderia imaginar que eu integrava o SOSAMOR (lê-se: SOS Amooooooooooor). Não sabe o que é o SOSAMOR, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias ? Não precisa se preocupar. Vou explicar como se você tivesse chegado agora ao blog. Os posts da coluna Melhores Músicas Ruins  são justamente para esse tipo de debate que intriga a humanidade desde os princípios dos tempos. O SOSAMOR é a sigla da Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins . Essa instituição que eu presido há dois anos (as eleições são bianuais e há possibilidade de apenas uma reeleição – sou candidatíssimo para a presidência do ciclo 2026/2027) é responsável justamente por colecionar músicas ruins . Essa é uma tarefa que, convenhamos, as pessoas e os principais órgãos do mercado fonográfico desprezam. Eles vivem interessados apenas nas músicas boas. Para preservar a memória da cultura popular, o SOSAMOR realiza a curadoria atenciosa e rigorosíssima das criações sonoras ignoradas pelo grande público. Graças à nossa atuação (os nomes dos participantes do grupo que não alcançam a presidência permanecem ocultos em função da segurança deles), conseguimos preservar as piores canções lançadas anualmente tanto no Brasil quanto na América Latina. Só dei a explicação sobre a Sociedade Orelhuda Secreta (agora não tão secreta assim, né?) para seguir com a minha história; e não porque imagino que seja merecedor de um Prêmio Nobel da Paz por essa ação filantrópica no SOS (SOS é para os íntimos). Se bem que se Donald Trump pensa que pode ganhar esse prêmio com sua belicosidade, por que eu não poderia concorrer ao Nobel da Paz pelo meu trabalho musical?! Tá bom, tá bom, deixe-me retornar ao fio da meada. Lembra que um menino estava agarrado à janela do meu velho fusca verde em busca de uma resposta para seus questionamentos nada triviais? É nesse ponto em que paramos, tá? Voltemos à parte importante desta narrativa (nada importante), senhoras e senhores. Tentei processar mentalmente uma solução para o enigma que perturbava aquela pobre (e esfomeada) alma, uma espécie de esfinge infantil, contemporânea, subnutrida e tropical. Na época, é bom dizer, eu não era presidente do SOSAMOR (nem imaginava que minha carreira musical fosse progredir tanto). De qualquer forma, me sentia na obrigação de não deixar uma parte considerável da sociedade brasileira em dúvida sobre um tema que era da minha alçada profissional. Pode não parecer, mas tenho um pouco de ética e de amor-próprio (e boas doses de vaidade). Jamais deixaria a infância nacional desassistida. Juro que pensei nos critérios científicos para embasar a definição de uma música ruim. Porém, não encontrei argumentos racionais a altura da ocasião. O farol (está bem, o semáforo...) já estava para abrir quando cogitei respostas filosóficas, estéticas, históricas, demagógicas, sociológicas e até comerciais. Que puxa! Nada de substancial nascia de minhas sinapses tão bem conservadas (a deterioração do meu organismo se deu, nos últimos anos, do pescoço para baixo). A verdade é que nada parecia como solução definitiva para o intrincado mistério. Sem nada de concreto na cachola para deixar para o garoto faminto por conhecimento, fiz o que os homens (e as mulheres) de bem desse país fazem nessa situação delicado. Coloquei bruscamente o veículo em movimento, quando vi as luzes verdes para o meu sentido acenderem, e gritei para a criaturinha que caía da janela de volta para o meio-fio: — Hoje não tenho naaaaaaada. Fica para a próoooooxima! Me livrei momentaneamente daquele problema, mas a minha orelha ganhou uma pulga, que insistia, talvez pela proximidade, em incomodar minha consciência. Afinal, como diferenciar uma música boa de uma música verdadeiramente ruim, hein?! Assim, na primeira reunião do SOSAMOR (nossos encontros são bimestrais), lancei a dúvida como um petardo para o grupo de trabalho. Os nobres colegas me encararam horrorizados, talvez assustados inicialmente com minha ignorância. Aposto que a maioria achou o questionamento deveras trivial, mas ninguém soube dar uma resposta plausível ao longo de toda aquela sessão. Para piorar, as discussões sobre esse tema duraram três reuniões inteiras e não resultaram em uma conclusão mínima. Com o debate sem fim, Darico Nobar, o presidente do SOSAMOR naquele biênio, criou uma comissão com os maiores especialistas da música. Eles deveriam realizar um estudo aprofundado e obter de uma vez por todas uma solução final para a questão que a todos intrigava. É bom dizer que aquela era uma época Pré-IA. Talvez, hoje, o ChatGPT aponte uma resposta em segundos. Naquele instante, porém, sem a força tecnológica, foram necessários dois anos de trabalho investigativo árduo. Até que, enfim, o grupo achou o enigma para o mistério. Em um evento grandioso (muitos dizem que a reeleição bem-sucedida de Nobar foi fruto dessa iniciativa), o presidente anunciou aos integrantes do SOS que a charada era mais simples do que imaginávamos: — O que comprova se uma canção é boa ou se é ruim é o volume pelo qual ela é ouvida no dia a dia. Na sequência, Darico Nobar explicou a lógica que os especialistas chegaram com enorme brilhantismo. As músicas boas são aquelas apreciadas em volume baixo, com certa timidez e muita vergonha. A pessoa fica sozinha em seu quarto e escuta o som em altura mínima. Ou recorre a potentes fones de ouvido para não incomodar ninguém no transporte público, no escritório ou na escola. Já as músicas ruins são ouvidas em volume alto, com bastante orgulho e evidente alegria. Quanto mais alto estiver o som, pior será a canção. O indivíduo tem prazer de propagá-las para a família, os amigos, os vizinhos e os colegas. Dessa forma, a sociedade recebe as melodias ruins rápida e intensamente, enquanto as boas permanecem quase sempre ocultas (tais como segredos que não podem ser espalhados em nome do bem-estar coletivo). Por que estou contando essa história justamente na data de divulgação do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2025 ?! Boa pergunta, proativo(a) e curioso(a) leitor(a) do Bonas Histórias . Adoro suas intervenções (imaginárias). O motivo para minha longa (e desnecessária) explanação é que esta foi a primeira edição do Melhores Músicas Ruins  em que utilizamos de um jeito prático os conhecimentos adquiridos há alguns anos pelo famoso grupo de especialistas. Em outras palavras, promovemos o tão aguardado evento musical seguindo as regras clássicas das músicas ruins. Explicando melhor: os integrantes do SOSAMOR ficaram de dezembro de 2024 a dezembro de 2025 percorrendo as principais cidades brasileiras (e algumas localidades da América do Sul e da Europa – sim, temos membros com atuação fora do país) captando as novas canções que nossos conterrâneos insistiam em propagar em volume excessivo. O que alguns podem entender como poluição sonora, consideramos pérolas culturais. Até porque, somos a Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins, não é? Procurar beleza cósmica na feiura cotidiana é nossa missão de vida. Antes que surjam críticas ao meu texto, alerto que não estou aqui para promover os feitos grandiosos da minha presidência no SOSAMOR (tem certeza de que vocês estão pronunciando corretamente a sigla? É SOSAmooooooooooooor). Nem quero deixar no ar que o mais justo seria minha reeleição automática. Até porque o período eleitoral ainda não começou oficialmente. Propaganda partidária à parte, é bom apontar que as mudanças na maneira como as músicas foram captadas se tornaram inovadoras em nossa associação. Fico feliz em dizer que essa foi a segunda marca grandiosa da minha gestão (mais à frente, contarei qual foi a primeira).   O fato é que nosso time reuniu 716 faixas neste ano (recorde absoluto). Após a votação qualitativa ocorrida na primeira semana de dezembro, chegamos ao top 25 dos hits nacionais mais impactantes criados nesta temporada. E, no sábado passado, tivemos o prazer de realizar, no espaço da Dança & Expressão , em Perdizes, na capital paulista, a cerimônia de premiação dos campeões. Se bem que esse bairro alviverde da Zona Oeste de São Paulo não combina muito com os termos “premiação” e “campeões”, né. Pelo menos não em 2025. Se bem que não estamos falando de futebol... É, senhoras e senhores, a 11ª edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins – Versão Brasil  foi o evento mais grandioso de nossa história (essa é a terceira marca mega positiva da minha incomparável administração). Na cerimônia do final de semana, o mundo pôde conhecer as letras e as melodias nacionais lançadas em 2025 que balançaram nossos corações. Acredito que esses sucessos são, desde já, patrimônios artístico-culturais dos brasileiros (com gosto duvidoso, claro!). O Orelhão de Ouro (primeiro lugar no Melhores Músicas Ruins ) foi para “Descer Pra BC” , da dupla sertaneja Brenno & Matheus . Unir ostentação do agro à azaração masculina em Balneário Camboriú se provou a receita do sucesso musical no Brasil atual (Brasil, sil, sil!). Nunca tanta gente quis descer no fim do ano para o litoral catarinense para morder os bombonzins bronzeados. Só sei que os cowboys perderam a vergonha quando essa canção se tornou onipresente de norte a sul do país. Viva o sertanejo ! Viva!   Assim, graças a “Descer Pra BC”, Brenno & Matheus   entraram definitivamente no panteão dos grandes artistas nacionais. Para quem não se lembra, fazem parte da seleta lista de congratulados pelo Orelhão de Ouro: Ana Castela e Hungria (com “Lua”, faixa número 1 do Melhores Músicas Ruins de 2024 ), Ana Castela (com “Solteiro Forçado”, megassucesso do Melhores Músicas Ruins de 2023 ), Juliano Maderada & Tiago Doidão (de “Tá Na Hora do Jair Já Ir Embora”, hit do Melhores Músicas Ruins de 2022 ) , Raí Saia Rodada (de “Tapão na Raba”, campeão do Melhores Músicas Ruins de 2021 ) , Guilherme & Benuto (de “Três Batidas”, vencedor do Melhores Músicas Ruins de 2020 ),  Marília Mendonça (de “Todo Mundo Vai Sofrer”, obra-prima reconhecida pelo Melhores Músicas Ruins de 2019 ), Thiago Brava (de “Dona Maria”, primeiro colocado do Melhores Músicas Ruins de 2018 ), MC Livinho (de “Fazer Falta”, hit incontestável do Melhores Músicas Ruins de 2017 ), Anitta (de “Essa Mina É Louca”, faixa imbatível do Melhores Músicas Ruins de 2016 ) e Edson & Hudson (de “Meu Amor é Dez”, preciosidade aclamada pelo Melhores Músicas Ruins de 2015 ). O segundo colocado no Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2025, que ganhou merecidamente o Orelhão de Prata, foi “Melzinho” , piseiro  de Xand Avião e Talita Mel . É isso mesmo que vocês leram, senhoras e senhores. O zum-zum-zum tá voando. Alguém pode até estar se incomodando, mas o tuts-tuts do paredão do forró  segue tocando e nossos corações por ele quase parando. De tão encantadoras que são as letras e as melodias desse hit (para não dizer o charme genuíno de Talitinha), muita gente achou injusto apenas o segundo lugar. “Melzinho”   merecia a primeira colocação? Até merecia. Entretanto, vamos combinar que “Descer Pra BC” também é excelente e não poderia ficar com a prata. O que parece unanimidade é o Orelhão de Bronze (terceira colocação nesta edição do Melhores Músicas Ruins ) ter sido entregue para um dos melhores exemplares recentes do funk . “Oh Garota, Quero Você Só Pra Mim” , de Oruam , Zé Felipe , MC Tuto  e Rodrigo do CN  é, por determinado ponto de vista, uma obra-prima da música nacional. Afinal, quem nunca quis ter uma garota só para si? Uma mina que, de preferência, botasse a bunda com o dinheiro do Tigrim. E, obviamente, que mostrasse o bundão sem vergonha na academia, né? Juro que entendo os funkeiros. Só não sei se Oruam ainda está preso ou se já foi solto. E não tenho certeza se Zé Felipe pode ser considerado um cantor, cantor com C minúsculo? Até hoje tenho dúvidas... Da 4ª posição até a 25ª colocação, o Melhores Músicas Ruins  confere o Orelhão de Lata aos hits premiados. Nessa edição, as 22 canções que conquistaram a estatueta enlatada são dos mais variados gêneros. Além dos já citados sertanejo, forró/piseiro e funk, ritmos quase onipresentes em nosso país, tivemos faixas de Arrocha , Pop Romântico , Reggaeton , Pagode  e Brega Funk . É muita riqueza cultural para um país só. Não dá para não sentir prazer em ser brasileiro, né? Cantem comigo, meu povo: “"Eeeeeeeeu sou brasileiroooooooo, com muito orguuuuuuuuuulho, com muito amooooooooooor".   Se você ficou curioso(a) para conhecer as 25 canções nacionais de 2025 selecionadas pelo Melhores Músicas Ruins , segue, abaixo, a lista completa dos vencedores deste ano. Para não aterrorizar ninguém, preferi apresentar os premiados na ordem decrescente de posição (sequência também conhecida como “vamos aos poucos para não matar os leitores do blog do coração”). Já aviso que a responsabilidade pelas escolhas é única e exclusivamente do júri do SOSAMOR, esses heróis ocultos das artes e da cultura popular brasileira. Sem mais enrolações, aí vão os campeões da 11ª edição do querido e aguardado concurso musical trash promovido pelo Bonas Histórias : 25 ª posição: “Apaixonar Duvido” – Rauana Monteiro – Sertanejo 24 ª posição: “Reinaldo” – Allana Macedo – Piseiro/Arrocha 23 ª posição: “Olho Marrom” – Luan Santana – Sertanejo 22 ª posição: “Faça Chuva ou Faça Sol” – Thiago Porto – Pop Romântico 21 ª posição: “Cópia Proibida” – Léo Foguete – Piseiro 20 ª posição: “Tubarões” – Diego e Victor Hugo – Sertanejo 19 ª posição: “Resenha do Arrocha” – J. Eskine – Arrocha 18 ª posição: “Eu Sei Que Tu Me Odeia” – Anitta e MC Danny – Funk/Pop/Reggaeton. 17 ª posição: “Proibido Terminar” – Gusttavo Lima – Sertanejo 16 ª posição: “Fui Mlk” – Nilo e MC Paiva – Funk 15 ª posição: “Fantasma” – Ana Laura Lopes – Pop Romântico 14 ª posição: “P do Pecado” – Grupo Menos É Mais e Simone Mendes – Pagode 13 ª posição: “Sequência Feiticeira” – Pedro Sampaio, MC GW, MC Rodrigo do CN, MC Jhey e MC Nito – Brega Funk 12 ª posição: “Me Ama ou Me Larga” – Simone Mendes – Sertanejo 11 ª posição: “Mãe Solteira” – J. Eskine, MC Davi, MC G15, DG e Batidão Stronda – Funk/Piseiro 10 ª posição: “Pega o Beco” – Felipe & Rodrigo – Sertanejo 9 ª posição: “Que Pancada de Mulher” – Zé Vaqueiro e Xand Avião – Forró/Piseiro 8 ª posição: “Maluca” – Mari Fernandez e Lauana Prado – Sertanejo 7 ª posição: “Pilantra e Meio” – Eric Land e Natanzinho Lima – Forró/Piseiro 6 ª posição: “Olha Onde Eu Tô” – Ana Castela – Sertanejo 5 ª posição: “Puta É Só Um Detalhe” – MC Torugo, DJ Douglinhas e DJ Miller – Funk 4 ª posição: “Saudade Burra” – Lauana Prado e Simone Mendes – Sertanejo 3 ª posição: “Oh Garota, Quero Você Só Pra Mim” – Oruam, Zé Felipe, MC Tuto e Rodrigo do CN – Funk 2 ª posição: “Melzinho” – Xand Avião e Talita Mel – Forró/Piseiro 1 ª posição: “Descer Pra BC” – Brenno & Matheus e DJ Ari SL – Sertanejo Vale a pena dizer que esse foi o resultado deste ano da versão brasileira do Melhores Músicas Ruins . Desde 2024 (meu primeiro mandato à frente do SOS), também temos a versão latino-americana (primeiro grande feito da minha presidência – ou você achou que eu fosse esquecer de mencioná-lo?!). Para quem ficou interessado na outra perna do concurso, adianto que o resultado de 2025 da premiação com as campeãs das melhores canções ruins em espanhol só será apresentado em janeiro de 2026. Tal evento, também promovido pelo Bonas Histórias  e organizado pelo SOSAMOR (já disse que se lê: SOS Amoooooooooor), ocorrerá no segundo sábado do próximo ano em Mi Buenos Aires Querido. Prometo retornar ao blog, em quatro ou cinco semanas, para divulgar os vencedores das Melhores Músicas Ruins – Edição América Latina de 2025. Até lá, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas . Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins . E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Passeios: Morros da Pompeia e da Vila Madalena – Trilha urbana por São Paulo

    Um dos pedaços mais peculiares da Zona Oeste da capital paulista, o trajeto a pé do Allianz Parque até a Praça Pôr-do-Sol tem quatro quilômetros de extensão, passa pela Rua Cayowaá, Travessa Tim Maia e Rua Pascoal Vita e oferece uma aventura divertida para os trilheiros urbanos que gostam de encarar as montanhas asfaltadas da maior metrópole brasileira. Como os leitores mais antigos do Bonas Histórias  já sabem, sou fã de fazer trilha . Quer me deixar feliz? Então, me convide para um rolê a pé no meio da natureza. De preferência, sugira um trajeto bem longo, que dure pelo menos duas horas e não tenha tanto para-para (adoro piquenique, mas não durante a bateção de perna, tá?). Se o caminho for desconhecido, difícil e percorrer montanhas, florestas ou áreas à beira-mar (ou à beira-rio), saiba que as chances de eu aceitar a proposta (que automaticamente se transforma em convocatória) são enormes. Prova cabal desta minha paixão é que produzi alguns posts na coluna Passeios  que detalhavam algumas caminhadas clássicas por São Paulo  que faço com regularidade desde a adolescência. A subida ao Pico do Jaraguá pela Trilha do Pai Zé , a Trilha da Pedra Grande no Parque da Cantareira  e a exploração da natureza no entorno de Paranapiacaba são, inclusive, as publicações mais acessadas dessa seção do blog. Pelo visto, há muita gente além de mim que curte boas aventuras outdoor. Sim, ainda há esperança para a humanidade (e um contraponto importante aos ambientes claustrofóbicos e narcisistas das academias de ginástica e de musculação).  Quando morei fora da capital paulista, é bom avisar, nunca perdi a mania de procurar boas trilhas. No Brasil, a Serra da Mantiqueira no Sul de Minas Gerais e o Vale do Sinos no Rio Grande do Sul (saudades absurdas desses lugares, Santo Deus!) eram pródigos em oferecer belos e desafiantes caminhos a pé no meio da natureza. No exterior, Buenos Aires (a impecável Costanera de Vicente López era meu programa portenho preferido aos sábados e domingos) e Montevidéu (sua rambla gigantesca e encantadora vivia me chamando) também se provaram locais ideais para longas andanças às margens do Rio da Prata (com direito a muito mate e ao som do onipresente reggaeton – e dale Si Antes Te Hubiera Conocido , hit de Karol G). O que talvez o público do Bonas Histórias  ainda não conheça (mas meus amigos e familiares estão cansados de saber) é que também curto trilha urbana . Trilha urbana, Ricardo? O que é isso?! Calma, querido(a) leitor(a) desse blog perdido nas curvas tortuosas da internet em língua portuguesa. Reconheço que o termo não é tão comum assim. Por outro lado, não se trata de um neologismo criado por minha pessoa. Infelizmente, não tenho o talento literário de Guimarães Rosa nem de Mia Couto . Como o nome sugere, trilha urbana é a longa caminhada realizada dentro da própria cidade. Ao invés de sair da metrópole, os aventureiros usam as próprias ruas, avenidas, parques, rios, praias e montanhas de seu município como trajeto. E isso lá tem alguma graça, Ricardo?! Caso esse tenha sido seu primeiro questionamento/pensamento, respondo que sim, tem graça. Principalmente se a cidade escolhida for grande ou se ela possuir atrativos turísticos, arquitetônicos, visuais e sinestésicos a serem contemplados pelos andarilhos mais apaixonados. Talvez não seja um passeio tão divertido quanto as aventuras praticadas fora do perímetro urbano, nas trilhas convencionais. Ainda assim, vamos combinar, é muito melhor do que andar nas esteiras da academia, bater perna nos corredores do shopping center ou ficar trancado em casa maratonando séries televisivas no streaming. Normalmente, vou de trilha urbana durante a semana e de trilha no meio da natureza aos finais de semana. Acredito que essa é uma mescla equilibrada para quem vive na cidade grande. Como trabalho com literatura e produção de conteúdo textual, passo a maior parte do dia sentado na sala de casa (ainda atuo em home office). Aí, quando bate três ou quatro horas da tarde, sinto a necessidade de sair para caminhar. Por isso, meu primeiro critério de escolha para uma residência é o quão caminhável é o raio do imóvel alugado. Não por acaso, sou apaixonado por Saavedra, bairro na Zona Norte de Buenos Aires, Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, e Pocitos, às margens do Rio da Prata em Montevidéu. Dá para bater perna por duas ou três horas tranquilamente saindo e voltando dessas localidades.     Mas será que dá para caminhar por aí, Ricardo? E os perigos das grandes cidades brasileiras (e sul-americanas)? Você não tem receio da violência urbana, que se caracteriza como uma epidemia de norte a sul em nosso país (e em boa parte do continente descoberto por Cristóbal Colón)?! Se essas forem suas maiores preocupações, saiba que concordo em parte com elas. É preciso tomar bastante cuidado (por isso a importância do planejamento prévio) antes de colocar os pés fora de casa. Ainda assim, vale salientar, há ótimos locais em nossas principais capitais para caminhadas a luz do dia. Das metrópoles nacionais que conheço relativamente bem, já fiz trilhas urbanas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Maceió, Recife, Terezina e Manaus. E nunca tive problema. Quando digo nunca, é nunca mesmo! É claro que a sensação de insegurança é maior nos grandes centros urbanos do Brasil. Aí a comparação não é com municípios do Canadá, Noruega, Suíça ou Japão, que estão a anos-luz do dia a dia dos brasileiros. Basta irmos para as maiores cidades dos nossos vizinhos sul-americanos, como Argentina, Uruguai e Paraguai, para recebermos um choque de realidade. Aí descobrimos o quanto a criminalidade no Brasil é absurda. Não por acaso, somos um dos países mais violentos do planeta. Saiba que é possível andar sem qualquer problema (seja de dia, seja de noite e até de madrugada) por boa parte de Buenos Aires, Montevidéu e Assunção, algo que me cansei de fazer nos últimos anos. Faria isso por aqui? Claro que não. Há regiões nas capitais paulista e fluminense que não me atrevo a ir nem de dia. Só estou trazendo essa questão para ressaltar a importância do planejamento da trilha urbana. Não dá para ganhar a rua sem saber as características da localidade que se vai percorrer. Acho que já abordei bastante a sensação de insegurança nas grandes cidades brasileiras em “Distopia Paulista ou Carioca” , primeiro episódio de “Tempos Portenhos” , a mais recente coletânea de narrativas da coluna Contos & Crônicas . Fique tranquilo(a) que não serei repetitivo. O fato é que, com alguma atenção e certos cuidados, é possível caminhar pelas ruas de nossos maiores municípios sem tantas complicações. Ainda acho mais perigoso ficar dentro de casa (com os olhos grudados nas redes sociais) do que encarar a vida real (que está no lado de fora das residências). Para quem deseja iniciar-se nessa prática ou gostaria de fazer novas trilhas urbanas pela cidade de São Paulo , um caminho que sugiro é as montanhas asfaltadas dos bairros da Pompeia , Perdizes , Água Branca , Sumaré , Vila Madalena  e Alto de Pinheiros . Desde que voltei a morar na capital paulista (coisa de dois meses), esse tem sido um dos trajetos mais agradáveis que tenho feito. No caso, ele é ideal para quem gosta do sobe e desce das ladeiras mais íngremes da Zona Oeste paulistana e preza pela segurança de caminhar pelas ruas mais calmas (ou menos tumultuadas) da Selva de Pedra.   A rota que mais gosto desse pedacinho de Sampa é uma que batizei de Morros da Pompeia e da Vila Madalena , mas meus amigos (abraços, Paulinho e Enzito; beijos, Marcelinha e Marita), que vira e mexa me acompanham, insistem em chamá-la de Montanha-Russa . Essa trilha urbana tem quatro quilômetros de extensão: começa na frente do Allianz Parque  (no portão da Rua Palestra Itália) e termina na Praça Pôr-do-Sol  (na parte baixa do parque, no acesso à Rua Diógenes Ribeiro de Lima). Entre o belíssimo estádio do Palmeiras localizado na Água Branca/Pompeia e o famoso parque no Alto de Pinheiros/Vila Madalena, percorremos basicamente só duas vias ( Rua Cayowaá e Rua Pascoal Vita ) e uma longa escadaria ( Travessa Tim Maia ). A maior atração deste passeio a pé está exatamente no sobe e desce das montanhas desse pedaço íngreme da região metropolitana. É bom avisar que quase não há trajeto plano por aqui. Ou se está subindo ou se está descendo. Ou seja, a caminhada exige um bom preparo físico (leia-se, condição cardiovascular) dos aventureiros/andarilhos. Pela perspectiva da topografia, juro que me sinto em Minas Gerais quando cruzo a Pompeia, Perdizes e Vila Madalena. Até os carros sofrem para superar algumas ladeiras. O rolê ainda oferece boas vistas (curto bastante os cenários da Zona Oeste paulistana), várias opções de restaurantes, cafés, bares e padarias (para quem é chegadinho nos comes e bebes enquanto anda) e relativa segurança (juro que me sinto tranquilo por essas ruas). Para completar, esse trecho é curtinho. Dá para concluí-lo em menos de uma hora (se sua turma não for do tipo para-para como a minha). Confesso que faço a Rota Morros da Pompeia e da Vila Madalena (ou Montanha-Russa) tanto durante a semana (no meio da tarde ou no começo da noite, geralmente sozinho, quando a vontade de caminhar bate forte após o expediente de trabalho) quanto aos finais de semana (de manhãzinha ou na hora do almoço, sozinho ou com a galerinha animada que às vezes insiste em me acompanhar nas bateções de perna transloucadas que faço). Muitas vezes, me dou satisfeito com esse trajeto simples e volto de ônibus. Outras vezes, gosto de retornar para casa caminhando tudo de novo no sentido contrário. Em algumas oportunidades, ele serve de início do rolê – estendo-o até o Parque Villa-Lobos ou ao Mercado Municipal de Pinheiros. Aí o passeio fica do jeitinho que gosto: maior e mais divertido, podendo ser chamado realmente de trilha urbana. Para quem ficou interessado(a) na Rota Morros da Pompeia e da Vila Madalena, vou agora descrevê-lo em detalhes. Vamos ver se você se empolga com este passeio e resolva realizá-lo sozinho(a) ou com a sua turminha. Sou suspeito para falar, mas essa é a minha trilha urbana favorita na cidade de São Paulo. Até porque, vamos combinar, a Subida ao Pico do Jaraguá pela Trilha do Pai Zé , a Trilha da Pedra Grande no Parque da Cantareira  e o rolê ao redor do centro turístico de Paranapiacaba , não podem ser classificados como trilhas urbanas, né?! Alerto desde já que a escolha pelo ponto de partida (Allianz Parque/Pompeia) e pelo local de término deste trajeto (Praça Pôr-do-Sol/Alto de Pinheiros) é meramente pessoal, sendo possível invertê-los sem muitas complicações. Contudo, gosto dessa ordem porque moro ao ladinho do estádio palmeirense (apesar de ser corintiano). Para mim, portanto, é mais prático começar a andança pela arena alviverde. Outra questão sensível que me fez preferir por essa sequência é que todas as vezes em que meus amigos tiveram que subir a escadaria da Travessa Tim Maia, eles reclamaram (mais do que o normal). E na ordem que estou apresentando, acabamos descendo (no sentido oposto, obviamente, subimos) a longa escadaria. Se bem que quando o rolê é ida e volta, aí não tem jeito: temos que realizar as duas sequências (subida e descida). Feita essa observação, vamos para a trilha, senhoras e senhores! O começo na esquina da Rua Palestra Itália com a Rua Cayowaá é, infelizmente, a parte mais feia do trajeto. Falo isso não por ser corintiano e não curtir a atmosfera palmeirense dessa parte da cidade. O problema é que o cruzamento da avenida mais alviverde de São Paulo com a rua que vamos percorrer é barulhenta, a calçada estreita (péssima para os pedestres), há muito tráfego (carros apressados e, por vezes, hostis a quem está a pé) e várias obras de novos prédios e do metrô (o que torna o cenário sujo e inacabado). Aposto que muita gente pensará: Meu Deus, para onde o Ricardo me trouxe! Se essa for sua principal angústia ao analisar o ponto de partida, prezado(a) leitor(a) da coluna Passeios , só te digo uma coisinha: calma; muita calma nessa hora! Se o início não é dos mais espetaculares, saiba que o final será a parte alta (literal e figurativamente) do rolê. Vai por mim! Além do mais, esse problema só dura 100, 150 metros. Assim que caminhamos pela Cayowaá, a sensação ruim vai passando. Depois de passada a Rua Venâncio Aires e a Rua Doutor Homem de Melo, a calçada fica boa (no padrão de São Paulo, tá?), o tráfego e o barulho diminuem (ao ponto de não incomodar um paulistano) e as grandes obras se tornam pontuais (considerando a realidade atual da Pompeia e de Perdizes). A boa notícia desse início é que a caminhada é (mais ou menos) plana. Por 600 metros, percorremos a Rua Cayowaá (entre o cruzamento com a Palestra Itália e o cruzamento com a Caiubí) sem tantas subidas e descidas. Contudo, após passar pela Rua Caiubí, a escalada começa de fato. Nesse ponto, a ladeira não é tão íngreme, mas é constante até a Avenida Professor Alfonso Bovero. Prepare-se porque será meio quilômetro de caminhada bem puxada morro acima. Como diria Buzz Lightyear apontando para o alto: “Ao infinito e além!”. A parte mais divertida desta rota (pelo menos para mim!) é quando cruzamos a Alfonso Bovero. A partir desse ponto, a Cayowaá (note que até aqui estamos ainda na mesmíssima rua) vira o que meus amigos chamam de Montanha-Russa. As ladeiras se tornam extremamente íngremes, chegando a assustar pedestres e até motoristas em bons veículos. Subir e descer chega a ser complicado (seja de carro, seja a pé). É preciso bastante cuidado. Até a descida, por ser muitíssimo inclinada, é desconfortável para os andarilhos (até mais do que a subidona). De tão acentuada que é essa via, há corrimão em alguns trechos. Você já viu calçada em São Paulo com corrimão?! Pois saiba que a Cayowaá tem alguns. Hilário! Se você se assustar ao ponto de pensar que está na rua mais íngreme da capital paulista, preciso informá-lo(a) que a Rua Paris, paralela à Cayowaá, é muuuuuito pior. Se sua turma quiser ativar o “modo com emoção” à trilha, saia da Cayowaá e percorra integralmente a Paris (da esquina com a Cajaíba até o cruzamento com a Herculano). São 600 metros divertidíssimo, em que o desafio é não cair pelos morros asfaltados da divisa entre os bairros de Perdizes e Sumaré. Nesse instante, você entenderá o apelido de Montanha-Russa para esse trecho/trilha.   Quando a Rua Cayowaá atinge a Avenida Heitor Penteado (na altura da estação do metrô Vila Madalena), chegamos mais ou menos à metade do caminho. Afinal, percorremos pouco mais de dois quilômetros dos quatro quilômetros totais desta rota. Por mais que a andança não seja longa, saiba que é possível que você e sua turma fiquem bem ofegantes neste ponto. Até porque o sobe e desce foi intenso. Se a ideia for fazer uma parada para alimentação ou hidratação durante o trajeto, acho que esse é o momento ideal. Em volta da estação de metrô, há boas padarias, bares e cafés. É só escolher um e entrar. Ao atravessar a Heitor Penteado, concluímos totalmente a Rua Cayowaá. Aí, basta cruzar o terminal de ônibus, que fica ao lado da estação, e pegar a minúscula Rua Marinho Falcão. É ali que começa a Travessa Tim Maia, a escadaria de quase meio quilômetro que liga a parte alta da Vila Madalena (metrô) à parte baixa do bairro (esquina da Fradique Coutinho com a Natingui). Acho um charme essa escadaria, que está muitíssimo bem conservada e reúne em suas paredes homenagens ao cantor e compositor carioca que a nomeia. Bem ao estilo do Beco do Batman, que está ali do ladinho, a travessa tem vários grafites e belos jardins. Por mais que comecemos a Travessa Tim Maia subindo alguns lances de escada, não se preocupe. Logo, os degraus mudam de inclinação e a caminhada é só para baixo. Ao fim da descidona, avistamos a nossa frente a Rua Pascoal Vita (na confluência da Fradique Coutinho com a Natingui). Este é o último trecho da Rota Morros da Pompeia e da Vila Madalena. O problema é que os quase um quilômetro até a Praça Pôr-do-Sol, ponto final desta trilha urbana, é feito ladeira à cima. A subida agora é do tipo constante e íngreme. Só não dá para acharmos o trajeto tão cruel porque já encaramos os desfiladeiros da Rua Cayowaá (e, talvez, da Rua Paris). Para quem passou por essa parte do caminho, dá para subir qualquer penhasco sem problema. Ao fim da Pascoal Vita, chegamos à Praça Pôr-do-Sol, uma das áreas verdes mais conhecidas de São Paulo. O motivo da fama é, como o próprio nome diz, o mirante que permite a contemplação de boa parte da Zona Oeste da cidade. O visual ali de cima é mesmo impressionante. Gosto da vista porque temos a sensação de que há um mar de árvores abraçando o centro financeiro do país (a Faria Lima). Diante desse cenário, é até difícil acreditar que estamos na metrópole conhecida como Selva de Pedra. Gosto da Praça Pôr-do-Sol pelo mirante, mas preciso reconhecer que ela não tem outro grande atrativo além da vista espetacular. Por exemplo, o café localizado na parte alta do parque é até bonitinho, mas simplório, sem muito conforto e com cardápio restrito. Quase não há equipamentos de ginástica e não vemos nenhuma quadra poliesportiva na praça. A impressão é que ela só é utilizada por donos de cachorros, que aproveitam para tirar as coleiras dos bichanos. Para completar o panorama negativo, faz alguns anos que a praça foi inteiramente gradeada. Coisas de São Paulo, né? Assim, as visitas no finalzinho de tarde e no início de noite, que deram nome ao lugar e que era um dos atrativos para os casais apaixonados na década de 1990 e no início dos anos 2000, não são mais permitidas. Aí a única opção de vista deslumbrante (e romântica) do fim de dia daquele pedaço da cidade é a Praça Valdir Azevedo, a três quilômetros dali. Como disse, esse é um passeio gostoso para se fazer sozinho ou em grupo. Vale percorrê-lo durante a semana ou de fim de semana. Dá para esticar a caminhada até o Parque Villa-Lobos (mais três quilômetros de batida de perna, em um novo rolê de aproximadamente 40 minutos) ou ao Mercado Municipal de Pinheiros (dois quilômetros de distância e 30 minutos de andança). Só não se esqueça que o mercado não abre aos domingos e feriados. Para a galerinha mais brejeira e festiva (como a minha), um bom destino é a região dos barzinhos de Pinheiros. Fazia tempo que não ia para os lados das ruas Vupabussu, Ferreira Araújo e Padre Carvalho e lá está bem animado, principalmente aos fins de tarde e à noite.   No caso de quem fizer o caminho inverso (saída da Praça Pôr-do-Sol e chegada no Allianz Parque) ou aproveitar para um bate e volta (Praça Pôr-do-Sol, Allianz Parque e Praça Pôr-do-Sol), as opções de bares e restaurantes para repor as energias são mais variadas e melhores. Pertinho do estádio palmeirense, temos a imperdível Pastelaria Brasileira, que ainda resiste solitária à demolição do quarteirão inteiro. Um pouco mais acima na Avenida Pompeia, há o Degas, o mais tradicional filé parmegiana da região (e um dos mais suculentos de São Paulo). Se o passeio for em horário não comercial, a opção que se descortina para os comensais é a Lanchonete Souza, aberta 24 horas, todos os dias da semana. Seus pratos são bem generosos e possuem preço competitivo. Isso sem contar a praça de alimentação (e o Outback no térreo) do Bourbon Shopping. Se a caminhada for abortada bem no meio do caminho (nunca se sabe quando a fome vence o desejo de seguir andando pelos morros asfaltados de Sampa), minhas sugestões são alguns estabelecimentos na Avenida Professor Alfonso Bovero. A principal dica é a Mercearia Santa Thereza, a melhor empanada que comi na capital paulista (e uma das melhores da minha vida). Quem preferir a gastronomia argentina mais raiz, a boa pedida é o Chimichurri Parrilla. Não consigo resistir ao seu choripan con papas fritas . Se você se amarrar na culinária portuguesa, vá ao Tiro-Liro  (se bem que esse bar-restaurante não fica exatamente na Alfonso Bovero, mas é pertinho). Porém, se a vontade for por apenas um cafezinho, um salgado ou um bolo gelado, vale a pena dar uma passada no Café & Expressão, que fica na entrada da Dança & Expressão . Já se a fome for de sanduíches turcos e árabes, não tenho dúvida: corro, respectivamente, ao Kebab Paris  e ao Shawarma Anwar . Fiz essa lista de locais para comer (até parece que estamos na coluna Gastronomia ) de propósito. Porque justamente um dos atrativos das trilhas urbanas é conseguir comer bem depois do passeio (ou mesmo durante), algo bem difícil nas trilhas na natureza. No meio do mato, a melhor opção é normalmente os piqueniques, que exigem preparo prévio e certa logística do grupo de andarilhos. Se a sua turma for mais gulosa do que atlética (como é o meu bando de amigos e familiares, que faz de tudo para não caminhar), o único jeito de convencê-los a andar vários quilômetros com você é prometer um bom programa gastronômico na sequência. Aí eles marcham com vontade. Acho que por hoje é só, pessoal. Entretanto, antes de nos despedirmos, gostaria de saber o que vocês acharam desta trilha urbana. Alguém aí a faria? Ou já a concluiu, hein? Gostou do sobe e desce? Há algum lugar em que seja recomendável bater perna desse jeito por sua cidade? Juro que ficaria muito feliz de receber o feedback dos trilheiros urbanos. Além do mais, se os leitores do Bonas Histórias  gostarem desse tipo de conteúdo, prometo retornar à coluna Passeios  para descrever outras caminhadas que gosto de fazer, seja em São Paulo, seja em Buenos Aires, minhas duas cidades preferidas. Na capital argentina, como adiantei no início deste post, curto a Costanera de Vicente López, um beira-mar incrível e com bastante verde, mas pouco conhecido pelos turistas brasileiros. Acredito que esse pedacinho da Zona Norte da Grande Buenos Aires mereça um relato especial no blog, tal qual o recebido pelos morros da Pompeia e da Vila Mariana, em São Paulo. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios . E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Celebrações: Bonas Histórias - Décimo primeiro aniversário do blog

    Criado em 1º de dezembro de 2014 por Ricardo Bonacorci, o Bonas Histórias é o espaço de debate do melhor da literatura, cinema, música, teatro, dança e demais manifestações culturais. Com análises artísticas aprofundadas, o blog consolidou-se como uma das páginas de ficção e entretenimento mais longevas da internet em língua portuguesa . Em dezembro de 2014, eu ainda trabalhava exclusivamente como executivo de Marketing e Vendas. Graduado em Comunicação Social (Propaganda e Publicidade) pela ESPM-SP e especialista em Administração de Empresas pelo CEAG/FGV, estava cansado do universo corporativo e da rotina nas médias e grandes companhias. Naquela época, tudo o que queria era atuar com literatura, minha grande paixão desde a adolescência. Não importava sequer se fosse ganhar menos dinheiro. O que desejava aos 33 anos de idade era fazer algo diferente e mais divertido. Será que era sonhar alto demais?! Com a ideia fixa de fazer a transição de carreira, me mudei de São Paulo para o Sul de Minas Gerais (Varginha/Três Corações) em busca de mais qualidade de vida e menor custo de vida. Também me matriculei numa licenciatura em Letras (no UNIS) com o objetivo de melhorar minha escrita e meu português, então sofríveis. E criei um blog ( Bonas Histórias ) com o intuito de praticar diariamente o ofício de produzir textos interessantes e com qualidade. Inclusive, o primeiro post da recém-lançada página literária apresentava honestamente essa proposta para os leitores. A publicação debutante dizia sem rodeios que eu era um amador no que se referia ao ato de escrever e de analisar histórias ficcionais. Mesmo assim, me esforçaria para me desenvolver na nova profissão e para apresentar rotineiramente publicações relevantes à audiência. Corta para dezembro de 2025. Onze anos depois, cá estou confeccionando materiais analíticos para o Bonas Histórias  com a mesma devoção do início. Vivendo agora entre Buenos Aires e São Paulo (Minas ficou para trás, ou melhor, esse pedacinho do Brasil entrou de vez no meu coração), acredito já ter concluído há muito tempo a migração de carreira (e afastado de vez a insistente falência que teimava em me rondar por muitos anos). Há cerca de cinco anos, trabalho apenas com literatura (sou editor e ghostwriter de livros na EV Publicações , uma das mais respeitadas editoras paulistanas) e com produção de conteúdo (sou redator na Epifania Comunicação Integrada , agência de Marketing de Conteúdo na capital paulista). Ou seja, consegui realizar meu antigo sonho de viver atuando apenas na área que mais gosto. A surpresa dessa caminhada foi o crescimento orgânico do Bonas Histórias . No início, ele era uma mera ferramenta pela qual eu exercitava a escrita criativa. Também era o local onde eu reunia o conhecimento adquirido sobre as narrativas ficcionais. Juro que procurava as boas histórias nas mais distintas manifestações artísticas. Assim, nasceram várias editorias do blog: Livros – Crítica Literária , Cinema , Músicas , Teatro , Dança , Exposições , Gastronomia , Passeios  etc. Atualmente, são quase vinte colunas, que tratam dos mais variados temas culturais.   O que eu nunca poderia imaginar era que o Bonas Histórias  se tornasse mais e mais relevante para sua qualificada audiência e se desvincularia com o tempo da minha imagem. Atualmente, a maioria dos leitores (na casa dos cinco dígitos mensalmente) não me conhece. E eu, por outro lado, não faço ideia de quem é a enorme galerinha que me lê. A sensação é que criei algo que adquiriu vida própria e já tem certa autonomia. Há até outros colunistas que se apropriaram de assuntos específicos – abraço, Paulo; e beijo, Marcelinha. E, ao longo dessa jornada, apareceram alguns patrocinadores que aceitaram investir em nosso ideal. A Dança & Expressão  é o nosso parceiro mais antigo e regular. Por tudo isso, esse 1º de dezembro de 2025 é uma data para comemorarmos bastante. Daí a minha iniciativa de produzir esse post para a coluna Premiações e Celebrações . O décimo primeiro aniversário do blog indica que já caminhamos bastante até aqui. Entretanto, sabemos que ainda falta muito chão para ser percorrido. Se você curte o melhor da literatura, da cultura, da arte e do entretenimento nacional e internacional, saiba que a nossa proposta é seguir trabalhando para que o Bonas Histórias  viva ainda muitos anos mais e não pare de crescer. Parabéns a todos que fizeram e fazem parte dessa história! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Livros: Se a Vida Tivesse Receita – A autobiografia de Silvia Leite, a criadora da Torta Holandesa

    Lançada em julho e com projeto gráfico deslumbrante, esta obra mescla trajetórias pessoais e profissionais da autora paulistana, lições de empreendedorismo, evolução da indústria nacional de sobremesas congeladas, pitadas de autoajuda, paixão pela culinária e várias receitas imperdíveis . No início de outubro, em meu retorno a São Paulo depois de dois anos morando em Buenos Aires, li um livro  que me impactou bastante. “Se a Vida Tivesse Receita”  ( EV Publicações ), a autobiografia  de Silvia Leite , está seguramente entre as melhores obras não ficcionais  lançadas no Brasil em 2025. E, não por acaso, este título entrou na parte superior da minha lista de leituras preferidas do segundo semestre. Já no meu ranking anual de publicações mais interessantes, ele rivaliza em nível de qualidade com “Como as Democracias Morrem” (Zahar), ensaio político de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, “Copo Vazio” (Todavia), novela dramática de Natalia Timerman, “A Empregada” (Arqueiro), romance de mistério de Freida McFadden, e “Quarto do Despejo” (Ática), diário clássico de Maria Carolina de Jesus. Até agora, essas foram as cinco leituras que mais gostei de ter feito na atual temporada. A maioria já comentei aqui na coluna Livros – Crítica Literária . Para quem ainda não conhece a autora de “Se a Vida Tivesse Receita”, vale a pena dizer que Silvia foi a criadora da torta holandesa , um ícone da confeitaria brasileira  que muita gente pensa se tratar de um doce importado. Falo por mim mesmo. Jurava que essa receita, minha sobremesa gelada favorita juntamente com o creme de mamão papaia, tinha chegado ao nosso país pelas mãos dos imigrantes dos Países Baixos. Na minha cabeça pra lá de avoada, o doce teria vindo na bagagem dos colonizadores que aportaram em Pernambuco no século XVII. Porém, para minha incredulidade (e, creio eu, para espanto de muitos leitores), a torta queridinha de tantos brasileiros foi desenvolvida por uma paulistana no início da década de 1990 em uma minúscula cafeteria no Centro de Campinas. Incrível notar o nosso desconhecimento em relação à história recente de itens famosos de nossa gastronomia, né?! Essa é apenas uma das muitas surpresas contidas nas páginas desta obra desenvolvida pela EV Publicações . Outros elementos que chamaram minha atenção logo de cara em “Se a Vida Tivesse Receita”   são as trajetórias pessoal e profissional de Silvia Leite, que combinam superação às tragédias familiares, dedicação ao trabalho, devoção ao empreendedorismo e paixão pela cozinha. Juro que a vida dela até parece extraída da trama de uma telenovela mexicana ou venezuelana (muito mais emocionantes, vamos combinar, do que as telenovelas brasileiras). Afinal, a quantidade de dramas e reviravoltas desse título biográfico  é de tirar o fôlego. Muitas vezes, a realidade supera a ficção na arte de elaborar enredos recheados de conflitos e provações. Exatamente por isso, há biografias que não seriam tão comoventes se fossem produzidas pelos mais criativos romancistas, dramaturgos e cineastas. É o caso deste livro. Gostei tanto dele que me senti na obrigação de produzir um post exclusivo no Bonas Histórias  sobre seu conteúdo. Entre os vários feitos de Silvia que posso adiantar está a construção de uma das principais fábricas de sobremesas congeladas do nosso país, a Holandesa & Cia, entre a segunda metade da década de 1990 e a metade dos anos 2000. A partir de sua paixão pela culinária, ela expandiu a cozinha residencial onde produzia tortas geladas e pães de queijo de maneira amadora e desenvolveu uma moderna linha de montagem industrial com as técnicas mais avançadas da época. Assim, tornou-se uma das empresárias nacionais mais inovadoras e admiradas do setor de doces. Incrível, não é?! Impossível não tirar o chapéu para uma mulher incansável quando o assunto é materializar sonhos grandiosos. Contudo, antes de detalhar as revelações de “Se a Vida Tivesse Receita” e os principais aspectos da autobiografia de Silvia Leite, as propostas centrais deste post, preciso informar aos leitores da coluna Livros – Crítica Literária  que conheci esta obra dois anos antes de seu lançamento. É isso mesmo, senhoras e senhores! Como editor e ghostwriter da EV Publicações , função que exerço há quase cinco anos, tenho às vezes a incumbência de avaliar os originais que a editora recebe. Foi o caso deste título. Em setembro de 2023, li a versão inicial do texto de uma tal de Silvia Maria Espírito Santo . O curioso é que, diferentemente de muitos materiais avaliados, este já chegou redondo, redondinho. Prova disso foi o parecer que enviei para Eduardo Villela , o publisher da minha empregadora. Leiam na íntegra o início do meu parecer técnico: Bom dia, Eduardo. Tudo bem? Nesta semana, li o livro da Silvia Maria Espírito Santo. Segue, abaixo, minha impressão geral. No arquivo anexo, fiz os comentários no próprio texto: A obra está espetacular. Parabéns! Você tinha me adiantado que era uma publicação voltada para o empreendedorismo. Concordo. Porém, vou mais a frente: ela serve não apenas para leitores interessados em montar negócios. A história da Silvia é também uma inspiração para pessoas fora do universo empresarial. Falo por mim. Não quero empreender nem trabalhar em empresas como executivo. E mesmo assim, desfrutei da leitura. Eita texto mais delicioso este, meu amigo!!! Não tenho dúvida em dizer que esse título será uma influência muito positiva para muita gente, seja o público feminino, seja o público masculino. As lições de vida da Silvia são abrangentes e universais. Suas palavras, a garra, a sede de conhecimento e a paixão por fazer o que ama são emocionantes (e inspiradores)! O que mais gostei do livro foi a estrutura dos capítulos e a ordem da narrativa. Confesso que achei sua estrutura perfeita. O relato não perde força em nenhum momento. Para ser sincero, nenhum escritor de ficção ou roteirista de cinema contaria essa trama melhor. Quando achamos que tudo está bem, surge um imprevisto, uma fatalidade e a autora precisa se reinventar, se superar. Maravilhoso! Gostei também da maneira direta e sincera com que Silvia relata sua vida. Parece que ela está conversando com a gente. Se isso foi proposital, saibam que vocês acertaram na mosca! Juro que me senti na sala da casa dela, comendo um pão de queijo, tomando um cafezinho e ouvindo ela falar. Até consegui visualizar um caderno de receitas enorme aberto em cima da mesa.  Outra questão incrível do livro foi a ideia de colocar as receitas no meio da história. As inserções culinárias dão uma quebrada legal na narrativa, deixando o tom mais leve e corroborando com a paixão da autora. Para ficar perfeito, minha sugestão é colocar no final do livro um índice com cada receita e as páginas onde elas aparecem. Assim, se o leitor depois quiser consultar só as receitas, ele acha mais facilmente. Se for viável do ponto de vista gráfico e financeiro, é legal colocar as imagens de cada receita no livro. Juro que fiquei curioso, durante a leitura, para visualizar as fotos dos pratos. Com imagens atraentes, eu me sentiria mais incentivado a prepará-los.  Como falei, não mexeria em nada na estrutura dos capítulos nem na lógica da narrativa. Como você me conhece, Eduardo, para eu não palpitar sobre isso mostra o quanto gostei do livro. Reafirmo: ele está perfeito sob o ponto de vista da ordem narrativa, da estrutura do relato e do tom da história. Não mexam em nada disso, por favor! O que quero dizer com estrutura e ordem narrativas perfeitas? Juro que fiquei com o coração na boca quando a autora sofre o acidente e perde o namorado/noivo (e consequentemente a filha/enteada e a escola infantil). E o que dizer quando a fábrica de sobremesas é vendida, hein? A gente se choca e chora junto com a autora (fiquei imaginando o que eu sentiria se alguém quisesse vender o meu blog...). Há muitas e ótimas passagens dramáticas nesse livro: golpe dos funcionários; dificuldade ao se tornar uma empresa maior; morte da mãe; e deixar aquela família no interior da Inglaterra quando as criancinhas gritavam para ela não ir embora. E há também cenas engraçadas (blitz policial na estrada; e proibição de abrir empresa no apartamento residencial) e românticas (encontro com o futuro namorado quando ele matriculou a filha na escola da autora; e acaso/destino de se sentar ao lado do homem que seria seu marido no avião de volta ao Brasil). Reafirmo: essa mistura de diferentes tons está SENSACIONAL!!!   É claro que essas são apenas as primeiras páginas da minha análise do original. O material que enviei para a editora tinha algumas páginas. Lá, detalhei muito mais aspectos do livro, que até aquele momento não tinha nome. O importante a ressaltar é que o texto de Silvia tinha poucos problemas. Talvez seu maior equívoco tenha sido esse que apontei nesse trecho: (...) O conteúdo do texto está primoroso, mas a estética da linguagem ainda não está perfeita. Há oralidade excessiva em algumas partes, alguns vícios de linguagem e frases mal formuladas em alguns capítulos. Ou seja, é preciso dar aquela boa arrumada no visual das frases para a estética da linguagem ficar compatível à qualidade do conteúdo. É o que eu chamo de dar uma perfumada no texto para ele ficar com uma aparência sedutora. Em outras palavras, achei o texto desta obra pouco profissional. Na minha cabeça, o redator ou o ghostwriter escolhido para redigir a história de Silvia Leite era muito fraquinho. Isso é, para não dizer amador. Para quem não conhece a dinâmica do mercado editorial, aviso que poucos autores produzem as próprias narrativas. Eles geralmente contratam alguém para redigir suas ideias. Isso é comum, inclusive, na ficção, acreditem se quiser. O fato é que o único aspecto da versão inicial de “Se a Vida Tivesse Receita” que me desagradou foi a fluidez e a qualidade da estética textual. Cinco meses depois do envio do meu parecer técnico, no Carnaval de 2024, Eduardo Villela viajou de férias com a família para Buenos Aires (beijo, Adriana, Gui e Larissinha!!!) e aproveitou para me visitar em Saavedra. Nas nossas conversas sobre os vários projetos da EV Publicações  para aquele ano, perguntei sobre o livro da Silvia, para mim o melhor título que tinha avaliado pela editora no ano anterior. Foi aí que descobri que não havia um redator/ghostwriter o desenvolvendo. Eduardo me revelou que a própria Silvia estava trabalhando no texto e não aceitava que ninguém mexesse nele. Por isso, a obra demoraria um pouco mais para ser lançada, mas permaneceria totalmente com o DNA da autora. Juro que fiquei encantado com essa postura da escritora. Silvia Leite mostrava-se realmente como a visualizei nas páginas de sua publicação: uma profissional dedicada, focada na excelência e, principalmente, do tipo que arregaçava as mangas da camisa e colocava a mão na massa. Se fosse para melhorar o original, ela mesma se encarregaria disso, nem que tivesse que aprender novas competências e evoluir em algo até então inédito em seu repertório profissional. É só ler alguns capítulos de sua biografia para imaginá-la cuidando pessoalmente e com o esmero do próprio texto. Tal qual uma receita desenvolvida com todo o cuidado em sua cozinha, ela moldaria o livro de acordo com sua sensibilidade e preferência. Aposto que nunca passou pela mente dela autorizar alguém a mexer em seus ingredientes narrativos. Impossível não ficar fã de alguém assim! É bom dizer que esse tom pessoal e de pegada artesanal pautou todo o projeto editorial de “Se a Vida Tivesse Receita”, não apenas o texto. Por exemplo, o projeto gráfico, a diagramação e a produção das imagens não foram desenvolvidos pela equipe da EV Publicações  e sim por profissionais do círculo íntimo da autora e de sua mais alta confiança. Tendo total controle sobre todas as fases da confecção do livro, Silvia conseguiu deixá-lo do jeitinho que queria. Se essa decisão trouxe alguns problemas (como veremos mais a frente), por outro lado imprimiu as marcas do DNA da empresária em sua publicação. “Se a Vida Tivesse Receita” surgiu da necessidade de Silvia Leite em contar suas histórias para o grande público. Afinal, poucas pessoas conheciam sua trajetória e seus feitos. Workaholic assumida, nunca teve a preocupação de cuidar da sua imagem nem de se autopromover. Ao invés de perder tempo com publicidade, marketing e assessoria de imprensa, lá estava ela empreendendo ou inventando algo novo. Contudo, há mais ou menos três anos, bateu a vontade de compartilhar os momentos mais marcantes de sua vida com familiares, amigos, conhecidos, funcionários, fornecedores e clientes. Assim, se concedeu algumas semanas de “férias”, comprou uma passagem para um cruzeiro internacional e partiu para seu “retiro”. Ao invés de usufruir do lazer e da diversão do navio, ficou trancada em sua cabine escrevendo sua história. Nada mais Silvia Leite, senhoras e senhores! Nascida na cidade de São Paulo e residente há muitas décadas em Campinas, Silvia é formada em Educação Física pela PUC-Campinas e em Tecnologia de Alimentos pelo SENAI/ITAL. Também é pós-graduada em Psicomotricidade pela PUC-Campinas e possui MBA em Marketing pela FGV-SP. Sua invenção culinária mais conhecida é, obviamente, a torta holandesa. Contudo, ela desenvolveu outros doces amados pelos brasileiros: torta alemã, gelado inglês e creme holandês. Entre seus empreendimentos comerciais mais vultuosos, o destaque vai para a Holandesa & Cia, a maior empresa de sobremesas congeladas do Brasil até meados dos anos 2000, quando foi vendida para a atual Mr. Bey Alimentos. Hoje em dia, Silvia Leite é uma das principais franqueadas da Kopenhagen, dona da loja mais movimentada desta rede de chocolates. Lançado oficialmente em julho deste ano, “Se a Vida Tivesse Receita” é o primeiro livro da autora. As sessões de autógrafos iniciais ocorreram em Campinas e São Paulo. O evento paulistano aconteceu no Casarão da Livraria Cultura, em Higienópolis, bairro central da capital paulista. Além do bate-papo e dos autógrafos, a sessão promoveu a degustação da torta holandesa. A sobremesa foi preparada segundo a receita original por sua própria criadora. Confesso que estava louquinho, louquinho para conhecer essa publicação. Só não fui ao seu lançamento porque não vivia no Brasil naquela época. Contudo, assim que cheguei a São Paulo, tratei de comprar essa obra. Se o original tinha me encantado, fiquei imaginando o resultado do título pronto. E não me enganei. Ele realmente ficou primoroso!  Antes que alguém levante suspeitas sobre um possível conflito de interesses entre meu trabalho de editor e ghostwriter na EV Publicações  e meu ofício de crítico literário no Bonas Histórias , aviso desde já que não participei de nenhuma fase do desenvolvimento do livro de Silvia Leite. Apenas fiz um parecer elogioso no segundo semestre de 2023. Naquela oportunidade, falei para a editora que a autobiografia avaliada tinha qualidade muito acima da média (algo que Silvia Leite se recordou mais tarde e, de maneira muito elegante, comentou nos agradecimentos de sua obra). Por isso, fiquei muito à vontade para, no finalzinho de 2025, produzir essa análise no blog. Reforço que NUNCA comentei um título na coluna Livros – Crítica Literária  em que tivesse participado de alguma fase de sua confecção. JAMAIS!!! Ainda que poucos se preocupem com essa mistura de trabalhos, sigo sabendo separá-los muito bem em nome da minha (talvez imaginária) credibilidade nos dois campos. Voltando ao conteúdo de “Se a Vida Tivesse Receita”, gostaria de dar um apanhado geral em seu enredo. Serei um tanto superficial para não estragar as inúmeras surpresas e reviravoltas do texto original, tá? Até porque, quem ainda não leu esse livro, deveria lê-lo sim ou sim. E não serei eu que vou estragar a narrativa impecável desta obra dando os spoilers! “Se a Vida Tivesse Receita” respeita a ordem cronológica dos acontecimentos. Silvia começa relatando, no primeiro capítulo, sua infância no bairro da Aclimação, em São Paulo, nos anos 1960. Desde muito criança, o que ela mais gostava de fazer era cozinhar e arrumar a casa para as visitas da família. Sua maior inspiração era a avó materna, que cuidava do lar, já que a mãe, uma executiva de compras, passava o dia fora. Com cinco anos de idade, Silvia Leite já fazia as primeiras receitas no fogão e montava a mesa para os chás da tarde que sua avó promovia para as amigas. De tão precoce, foi natural que, aos 12 anos, a narradora do livro já se sentisse à vontade para cuidar sozinha da cozinha de casa, onde preparava todas as refeições familiares. Sua paixão pela culinária seguiu adolescência adentro, quando fez cursos, participou de concursos gastronômicos e se aventurou para conhecer as melhores confeitarias do bairro. Quando passou no vestibular de Educação Física na PUC de Campinas, se mudou para o interior. Enquanto fazia aulas, estagiava e se tornou a cozinheira oficial na República estudantil em que vivia. Uma vez formada, foi trabalhar numa creche em Jaguariúna. Em dois meses, assumiu a direção da instituição. Encantada com o universo da educação infantil, fez pós-graduação em Psicomotricidade, uma área até então nova da Psicologia. Com a veia empreendedora aflorada e a ajuda financeira do pai, Silvia criou a Berçarte, em janeiro de 1984, em Campinas. Mistura de berçário e escola infantil, o estabelecimento usava os conceitos mais inovadores da Psicologia da época. Não é preciso dizer que ele rapidamente se tornou um enorme sucesso entre as famílias de classe média alta da cidade. Foi nesse momento que a autora conheceu Cleiton, jovem viúvo que tinha uma filha de três anos, Mariana, matriculada na Berçarte. Não demorou para a dona do berçário se apaixonar pelo cliente. Em pouco tempo, eles já viviam como um casal e Mariana era a filha (adotiva) que Silvia sempre desejou ter. Contudo, um acidente automobilístico destruiu não apenas o sonho dela de construir uma família como também inviabilizou o desejo de fazer seu primeiro negócio prosperar. Ela tinha 28 anos quando se viu presa à cama de hospital por mais de um ano. A recuperação da fratura nas pernas e na bacia foi longa e dolorosa. Contudo, a dor maior foi a perda definitiva do namorado e o distanciamento da enteada.  Uma vez recuperada fisicamente do acidente, a narradora se mudou para Londres para fazer intercâmbio. Lá trabalhou como babá e pôde aperfeiçoar o inglês. Na residência em que mais tempo ficou, foi funcionária de um casal formado por um holandês e uma inglesa. Eles tinham duas crianças adoráveis, de 3 anos e de 6 meses, que ficavam sob os cuidados integrais da babá brasileira. Ao voltar ao Brasil no fim de 1989, Silvia conheceu seu futuro marido, Marcos. Eles decidiram viver em Campinas e se tornaram sócios em uma microempresa de alimentos. Inicialmente, a cozinha da casa era onde ela fazia os doces gelados e os pães de queijo, que eram depois vendidos por ele, usando o carro da família, para restaurantes da região. O empreendimento cresceu até ser preciso alugar um galpão fabril. Grávida do primeiro filho, Silvia ainda teve disposição para abrir um pequeno café chamado Bruges no Centro da cidade. Sim, ela passava parte do dia na fábrica de doces congelados e de pães de queijo, e parte do dia na cafeteria!   O Café Bruges se tornou um enorme sucesso em Campinas ao vender lanches e doces criados por sua proprietária. Entre as invenções mais pedidas estava a torta holandesa, que ganhou esse nome em homenagem à nacionalidade do casal que empregou Silvia na Inglaterra. A partir da receptividade surpreendente do público por seus doces gelados, Silvia começou a desenvolver novas receitas em sua fábrica. Era o início de sua trajetória no mercado de sobremesas congeladas. Após muito estudo e aprimoramento dos processos industriais, ela e Marcos ergueram a Holandesa & Cia, empresa referência no setor de doces gelados do Brasil entre o fim da década de 1990 e meados dos anos 2000.   Contudo, como a vida empreendedora não é nada fácil, a partir do sucesso da Holandesa & Cia vieram novos e maiores problemas: concorrência predatória, golpe de funcionários, elevação das exigências dos clientes, enormes perdas financeiras, necessidade de expansão para as grandes cidades do país etc. Paralelamente, Silvia precisou cuidar de várias complicações no seio familiar: distância do pai que foi morar no Rio de Janeiro, doença da mãe e, o que até então parecia impossível, divergências com o marido (e sócio) em relação ao futuro dos negócios. A partir daí, Marcos e Silvia não se entenderam mais. É justamente nessa parte que começam as passagens mais emocionantes e fortes do livro. “Se a Vida Tivesse Receita” tem 200 páginas. O livro está dividido em 13 capítulos numerados. Há ainda Prefácio de Conrado Adolpho , escritor, consultor de negócios e mentor de empresários; e Introdução e Conclusão (seção chamada de Palavras Finais) feitas pela própria autora. Como já adiantei, as receitas estão distribuídas ao longo dos capítulos. Entendi que os quitutes (tanto doces quanto salgados) são apresentados aos leitores respeitando a ordem cronológica da biografia de Silvia Leite. Portanto, as receitas estão intimamente integradas à narrativa principal. Gostei desse casamento entre as duas partes da obra. Levei aproximadamente oito horas para concluir essa leitura no primeiro final de semana de outubro. Basicamente, li metade da publicação no sábado: uma sessão de manhã de cerca de duas horas e outra sessão à tarde de mais duas horas de duração. E concluí a outra metade no domingo: sessões matutina, vespertina e noturna de mais ou menos uma hora e meia cada. Não é errado, portanto, dizer que passei o final de semana com esta publicação em mãos. A primeira observação que gostaria de fazer é justamente sobre o tempo de leitura. Quando abri esse livro, imaginei que fosse percorrer suas páginas mais rapidamente. Afinal, são apenas duas centenas de páginas com muitas imagens e várias receitas. “Em duas ou três horas leio tudo!”, pensei com certa arrogância de quem devora romances caudalosos com a maior naturalidade do mundo. Contudo, não contava com duas questões que passaram batidas na minha análise preliminar: o formato grandão da obra (que oculta o enorme volume de texto) e a minha análise minuciosa das receitas (um dos charmes desse título de Silvia). Se você gosta de culinária como eu (e minha família!), saiba que não conseguirá passar os olhos velozmente pelas páginas das receitas.    O segundo elemento que me vejo obrigado a comentar é a beleza gráfica desta publicação. Sem dúvida nenhuma, “Se a Vida Tivesse Receita” é a obra mais bonita que li em 2025 (e talvez nos últimos três anos). Seu projeto gráfico é realmente um espetáculo estético. O formato grandão (22,8 centímetros por 29,0 centímetros), o papel especial (mais parecido ao das revistas premium do que ao dos livros comerciais) e as várias páginas coloridas (com imagens deslumbrantes dos pratos preparados pela autora) são um convite irresistível à apreciação visual. O responsável pelo design desta publicação foi Beto Mallmann , artista plástico e diretor de criação campineiro que conhece Silvia Leite há muitos anos. Admitamos que seu trabalho aqui é de tirar o chapéu.    O mais legal é notar que “Se a Vida Tivesse Receita” não é apenas um livro bonito. Por mais impecável que seja seu projeto gráfico, ainda assim o ponto alto desta obra é a narrativa emocionante da vida da empresária paulistana. Quando disse que as trajetórias pessoal e profissional de Silvia parecem extraídas de uma telenovela, não estava exagerando. Há passagens que são fortes e inesquecíveis, capazes de tocar até mesmo as almas mais gélidas. Confesso que me recordava de vários momentos desta autobiografia da primeira leitura. E olha que li o original há mais de dois anos! Isso prova o quão marcante é essa história. Os instantes que até hoje mexem comigo são: acidente automobilístico que provocou a perda do primeiro amor (Cleiton) e impossibilitou o convívio com a enteada (Mariana), além do fechamento da escola infantil (Berçarte); coragem de fazer intercâmbio na Inglaterra; primeiro empreendimento com o marido Marcos (fabricação de pão de queijo no apartamento residencial); saga de buscar a melhor receita de torta de morango para o tradicional restaurante da cidade; sucesso do Café Bruges e invenção da torta holandesa; mergulho obstinado pelos detalhes técnicos da produção industrial; golpe aplicado pelos funcionários na fábrica; negociação de venda da Holandesa & Cia (na minha visão, o ponto mais dramático da obra); recomeço como franqueada da Kopenhagen; e assassinato da funcionária querida da loja. Ufa! Vale dizer que Silvia rememora o passado de um jeitão simples, direto e honesto, como parece ser seu perfil pessoal e profissional. Ela não quer se autopromover nem grita ao mundo: “Pessoal, eu sou a inventora da torta holandesa e de outros tantos doces que estão no dia a dia de vocês até hoje! Também sou a empresária que revolucionou o setor de sobremesas no país”. Não! Juro que não vi qualquer resquício de arrogância, superioridade ou ressentimento em suas palavras. Sua narrativa tem o tom de conversa amigável e informal de quem recebe os leitores na sala de casa para um café com pão de queijo e um dedo de prosa. Enquanto troca receitas com os visitantes, que provam as delícias colocadas à mesa, a anfitriã aproveita para compartilhar suas trajetórias pessoais e profissionais de coração aberto. Confesso que lendo a autobiografia da empresária paulistana, me recordei bastante de Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva, a mãe de Rubens Paiva, autor de “Ainda Estou Aqui” (Alfaguara). Tal qual Eunice Paiva, a famosa protagonista do livro (e não tanto a personagem principal do filme de Walter Salles ), Silvia Leite foi uma mulher a frente de seu tempo e sempre se provou destemida e incansável. Ao mesmo tempo, colocou o trabalho e a obstinação profissional como prioridades absolutas de sua existência. Esta é uma característica de muitos empreendedores, que nunca sossegam, não sabem delegar e jamais largam o osso da liderança de suas companhias. Por ter pessoas assim na minha família, consigo entendê-las, apesar de, ainda assim, tecer fortes críticas à falta de outras prioridades em suas vidas além da dedicação ao ofício profissional. Afinal, depois de um tempo, o indivíduo que só pensa em trabalho 24 horas por dia se torna naturalmente entediante e vazio. Falo isso porque enxerguei Silvia como uma figura redonda (alguém com qualidades e defeitos, que acerta muitas vezes, mas que também erra) e não uma personalidade plana (que só tem virtudes e que está imune às falhas e aos equívocos). Quando temos essa compreensão abrangente da realidade, a história dela se torna ainda mais potente. Afinal, a protagonista é uma pessoa como a gente: real, normal e, por vezes, falha. Mesmo assim, ela foi capaz de feitos grandiosos, o que só eleva seus méritos aos olhos dos leitores.        Uma das passagens mais emblemáticas de “Se a Vida Tivesse Receita” é quando Silvia e Marcos discutem o que fazer com a Holandesa & Cia após a empresa familiar alcançar o posto de líder do segmento de doces congelados e ser cortejada por multinacionais do mercado alimentício. Vendê-la ou seguir trabalhando para fazê-la crescer mais e mais? Note que não há uma resposta certa ou errada para esse delicado questionamento. Apesar de entender a postura do marido da autora (talvez eu seja mais parecido com ele do que com Silvia), admito que doeu em mim o desfecho das negociações. Conseguimos sentir a dor da empresária com os acontecimentos. Esse capítulo é simplesmente incrível, uma lição inigualável de vida e de empreendedorismo. Outra questão que chama a atenção neste livro é a variedade de gêneros narrativos que ele mesclou. Estamos falando, por supuesto , de uma biografia (no caso, uma autobiografia). Não há dúvida que essa é a parte central da publicação. Contudo, há elementos de autoajuda, lições de empreendedorismo, conselhos de gestão e apresentação do universo corporativo das últimas três décadas em nosso país. Ou seja, a narrativa de “Se a Vida Tivesse Receita” é versátil e plural. Por mais que tenha achado desnecessárias as pílulas de motivação e empoderamento ao leitor (mania de nove entre dez títulos biográficos recentes), respeito a decisão por esse caminho editorial. De qualquer maneira, alerto que a trajetória de Silvia é, por si só, recheio suficiente para um livro apetitoso. Também adorei o nome desta obra. Acho que não poderia haver título melhor para resumir a vida da autora. Repare que ele é simples, mas possui forte carga poética, o que confere uma belíssima camada intertextual. Conhecendo de perto o trabalho da EV Publicações , imagino que a escolha por essa nomeação tenha partido de Silvia e/ou de sua equipe de designers. Porque essa editora é campeã em escolher os nomes mais esdrúxulos para suas publicações. Admito que não conheço uma casa editorial brasileira tão ruim na arte de dar títulos aos seus livros. Um bom exemplo é “A História da Cachorra que Mudou a Minha Vida e vai Mudar a sua Também”, de Leandro Sosi. Quando o nome é bom, a equipe de divulgação embaralha título, subtítulo e chamada comercial. Aí o melhor exemplo é coleção de romances “A Contrapartida” , de Uranio Bonoldi. Por mais impactantes e interessantes que sejam o conteúdo e o visual de “Se a Vida Tivesse Receita”, é bom dizer que esta obra pecou em alguns aspectos, algo que não poderia omitir dos leitores do Bonas Histórias . Sei do risco do Eduardo Villela  e da própria Silvia Leite ficarem chateados comigo pelas linhas menos elogiosas do meu texto. Contudo, reforço que, em todas as avaliações da coluna Livros – Crítica Literária , há menções positivas e há comentários de pontos a melhorar das publicações analisadas. Trata-se de uma conduta corriqueira de qualquer julgamento imparcial e honesto. Por mais brilhantes que sejam os títulos estudados, ainda assim eles não são perfeitos. A primeira pisada de bola foi com a diagramação um tanto amadora. Nota-se a total falta de cuidado estético principalmente na seção das receitas. Os textos com o detalhamento dos doces e dos salgados feitos por Silvia não têm espaçamento adequado entre linhas, alinhamento à direita nem espaço de início de parágrafo à esquerda. Parece que o conteúdo foi simplesmente atirado no arquivo sem qualquer zelo. As receitas com mais de uma página possuem duplo título, um disparate que confunde o leitor. Ou seja, essa parte do livro não parece que foi feita com o mesmo primor da narrativa principal (relato da vida da autora). Juro que há muito tempo não via uma publicação com tantos tropeços na diagramação de uma seção. Chega a ser assustador o amadorismo de quem cuidou dessa tarefa. Falo sobre esse problema porque ele afetou a minha experiência de leitura. Aí está o lado ruim de se abrir mão do trabalho dos profissionais da editora e contratar amigos ou conhecidos para realizar os trabalhos editoriais. Se eles não forem tarimbados e acostumados ao ofício, problemas desse tipo ocorrem mesmo. Foi o caso de “Se a Vida Tivesse Receita”. Por mais compreensível que fosse a vontade de Silvia Leite de manter o controle de todo o processo editorial, arrisco a dizer que quem fez a diagramação dessa obra não tinha qualquer experiência nessa tarefa. Uma coisa é fazer um projeto gráfico deslumbrante e impecável. Outra coisa é realizar a diagramação condizente com padrão de mercado. Se esse livro conseguiu cumprir o primeiro objetivo, ficou longe do segundo.   Na parte da narrativa central, há alguns pequenos escorregões na diagramação: uma frase repetida aqui, algumas linhas sem espaçamento inicial de abertura de parágrafo acolá. Também encontrei um número de capítulo equivocado no sumário e algumas palavrinhas grudadas. Contudo, esses probleminhas são questões normais que ocorrem em muitos projetos editoriais e, creio eu, não afetam em nada a experiência de leitura (diferentemente dos problemões da ala das receitas, que impactaram sim). Por isso, os relevei, algo que não deu para fazer na parte das receitas. Lá os equívocos são imperdoáveis.   Por falar nas receitas, achei até mesmo ruim o texto dessa seção. A impressão é que, além da péssima diagramação, seu conteúdo não recebeu a mesma atenção do restante da publicação. Tive tal percepção porque eu e Marcela, minha irmã, nos lançamos ao desafio de reproduzir alguns dos pratos sugeridos por Silvia. E das seis receitas que já realizamos (torta de morango, torta holandesa, bolo de nozes, torta de limão super fácil, pão de queijo do Benjamin Abrahão e pãozinho minuto), encontramos alguns tropeços textuais. Alguns foram de ordem de interpretação e outros foram de questionamento sobre a receita em si.   Na torta de limão, por exemplo, está escrito nos ingredientes: “três claras de ovo e mesma medida de açúcar”. Como assim?! Quanto tem de medida três claras de ovo?! Ficamos em dúvida. Na torta de morango, a explicação começa: “separe metade da massa e, com pequenos pedaços, vá moldando toda a lateral da forma”. Beleza, fizemos isso. Porém, em nenhuma parte das instruções fala o que fazer com a outra metade da massa que foi separada inicialmente. Ou foi erro nosso de interpretação ou o texto está um tanto dúbio. No bolo de nozes, ficamos com a sensação de que está faltando algo para dar sustentação à massa. Afinal, nas duas vezes que tentamos fazer o bolo, ele se desmanchou. Claro que a culpa pode ser da dupla de confeiteiros amadores que se aventuraram por caminhos nunca dantes navegados. Até acho que esse tenha sido o principal motivo das receitas que não deram certo em casa. Ainda assim, confesso que eu e Marcelinha tivemos a impressão de que o texto dessa parte do livro não foi tão didático com os leitores com pouca prática na confeitaria. Pelo menos, eles geraram algumas dúvidas em nossas cabecinhas.   Por fim, tenho que tratar da questão da precificação, aspecto que certamente incomodará boa parte dos consumidores que vão às livrarias para adquirir o livro de Silvia Leite neste fim de ano. Infelizmente, “Se a Vida Tivesse Receita” não é uma obra barata. Diria até que seu valor é beeem salgadinho (desculpe-me o trocadilho involuntário). Paguei R$ 199,00 (fora o frete) por sua compra na Amazon . Vamos combinar que não é um preço nem um pouco acessível, né? Para comparação, o ticket médio dos livros novos no Brasil está atualmente entre R$ 60,00 e R$ 70,00. Em outras palavras, com o dinheiro de um exemplar de “Se a Vida Tivesse Receita” dá para comprarmos três títulos recém-lançados. Antes que alguém acuse a editora e a escritora de praticar preço abusivo, sinto-me na obrigação de esclarecer o possível mal-entendido. Essa publicação tem um custo mais elevado exatamente pelas escolhas do projeto gráfico. O tamanho diferenciado, as várias páginas coloridas e o tipo de folha com qualidade e espessura maior cobram (literalmente) seu preço. É aquele negócio: não dá para entregar um produto com maior requinte e sofisticação sem onerá-lo. Portanto, sei que esse livro é caro. Ao mesmo tempo, não dá para dizer que ele não entrega conteúdo (textual e visual) a altura do valor superior. Muitas vezes, vale a pena pagar mais e ter uma excelente experiência literária do que pagar barato e se decepcionar. A prova maior do forte apelo desta publicação foi a reação da minha família. Logo depois que li “Se a Vida Tivesse Receita”, Marcela, que além de minha irmã é colunista da seção Dança  aqui do blog, o roubou de mim. Ela ficou curiosa pela história do “livrão bonito” que seu mano tinha comprado e pelas “receitas de fotos maravilhosas” que a obra apresentava. Assim, o livro de Silvia foi parar na cozinha da casa de hermanita . Com ele em mãos, Marcelinha fez várias receitas deliciosas, que chamaram a atenção da minha mãe. Hoje, “Se a Vida Tivesse Receita” está na cozinha do apartamento materno. Curiosamente, tanto minha irmã quanto minha mãe não ficaram presas apenas às receitas. Pelo que percebi, elas começaram a ler a história de Silvia. Sei disso porque ambas comentaram, por acaso, aspectos da trajetória da autora. Marcela me perguntou: “Será que minha torta holandesa está tão boa quanto a do Café Bruges?”. E minha mãe soltou na semana passada: “Ricardo, vamos fazer qualquer dia desses a pizza que a Silvia aprendeu no curso do Benjamin Abraão?”. Vamos combinar que elas não fariam tais questionamentos (não dessa maneira, né?) sem ter lido a parte biográfica de “Se a Vida Tivesse Receita”. Por isso, digo sem medo de que esse é um livrão. Ele é aquele título que irá passar de mão e mão em sua família. E vai agradar em cheio aos leitores que curtem belas histórias, lições sagazes de empreendedorismo e boas receitas. Se vocês me permitem a sugestão, diria até mesmo que se trata de um excelente presente de final de ano. Ele é caro? É muito. Porém, compensa cada real investido, seja para ter na biblioteca residencial, seja para agraciar alguém querido. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? 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  • Filmes: Tubarão – O cinquentenário do clássico de terror de Steven Spielberg

    Lançado em 1975, o suspense aterrorizante sobre o gigantesco tubarão branco que tira o sossego de uma pequena cidade litorânea se tornou a maior bilheteria do cinema até então. Com trilha sonora marcante, cenas fortes para a época, bom ritmo narrativo e roteiro impecável, o terceiro longa-metragem dirigido por Spielberg envelheceu muitíssimo bem e segue, 50 anos mais tarde, como sinônimo de entretenimento de excelente qualidade. De volta a Êeeeh, São Paulo ( São Paulo da garoa/São Paulo de terra boa ) depois de dois anos em Mi Buenos Aires Querido ( Cuándo yo te vuelva a ver/No habrá más penas ni olvido ), não consegui resistir aos encantos cinéfilos da metrópole paulistana. Mal cheguei, corri para a sala de cinema. Aproveitei a companhia cada vez mais viciante da Bruxinha mais trambiqueira do Mercosul (que rouba nossos corações sem que percebamos) e a entrada em cartaz da nova Temporada do Terror do Cinemark  (que está a cada edição maior e melhor) para ver um clássico do cinema . O filme  em questão, conforme explicitado no título, no subtítulo e na imagem principal deste post do Bonas Histórias , foi “Tubarão” ( Jaws : 1975). O terceiro longa-metragem  de Steven Spielberg na direção (e seu primeiro megassucesso) completou, em 2025, 50 anos. É ou não é uma efeméride que mereça nossas atenções, hein?! Esse título é tão relevante que se tornou, na época de seu lançamento, a maior bilheteria da sétima arte. Ele também deu origem ao termo blockbuster – produção arrasa quarteirão que monopoliza as salas de exibição e leva multidões nos quatro cantos do mundo para a frente das telonas. Para termos uma ideia geral do êxito comercial, “Tubarão” foi visto por aproximadamente 130 milhões de espectadores globalmente (13 milhões só no Brasil) e gerou cerca de US$ 500 milhões em arrecadação. Isso na cada vez mais longínqua década de 1970. Incrível, né?! Não por acaso, é considerado um dos mais importantes trabalhos cinematográficos do século XX. Em qualquer lista de melhores e mais relevantes filmes da história, lá está a trama sanguinolenta do tubarão assassino. Contudo, a maior força de “Tubarão” está em seu legado artístico-cultural. Daí a minha decisão de alçá-lo à publicação de hoje da coluna Cinema . Afinal, não estamos falando de um longa-metragem desprovido de qualidades narrativas e sem requintes técnicos, expedientes contemporâneos para agradar às plateias com paladares cada vez mais infantilizados e simplórios – vide as histórias de super-heróis que por muito tempo infestaram as salas escuras. Os elementos que justamente atraíram o interesse do público há cinco décadas foram a excelência cinematográfica e as inovações audiovisuais promovidas pelo jovem Spielberg, um dos gênios de Hollywood. Então com 26 anos de idade, o diretor de “E.T. – O Extraterrestre” (E.T. – The Extra-Terrestrial: 1982), da trilogia inicial de “Indiana Jones” (de 1981 a 1989), de “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park: 1993), de “A Lista de Schindler” (Schindler's List: 1993), de “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan: 1998) e de “Prenda-me Se For Capaz” (Catch Me If You Can: 2002) já mostrava, no início de carreira, seu enorme potencial. Prova disso está nas quatro indicações de “Tubarão” ao Oscar de 1976: melhor edição, melhor trilha sonora original, melhor som e melhor filme. É bom dizer que só a última estatueta não foi conquistada pela superprodução. Antes de falar propriamente desta obra-prima do cinema norte-americano , sinto que devo comentar brevemente sobre o festival em que ele foi exibido. A rede Cinemark  realiza entre o final de outubro e o início de novembro, exatamente na época do Halloween, a Temporada do Terror . Com uma programação especial dedicada aos amantes do cinema de horror (coloque o dedo aqui que já vai fechar!), o festival traz anualmente clássicos e títulos atuais do gênero que mais amedronta o público. Na edição deste ano, que durou de 23 de outubro a 5 de novembro e contemplou todos os complexos da rede cinematográfica no Brasil, tivemos 12 filmes selecionados. Os lançamentos contemplados pela Temporada do Terror do Cinemark de 2025   foram: “O Telefone Preto 2” (Black Phone 2: 2025), “Five Nights at Freddy's – O Pesadelo Sem Fim” (Five Nights at Freddy's: 2025) e “A Própria Carne” (2025). Dos títulos deste século, tivemos: “A Noiva-Cadáver” (Corpse Bride: 2005), “ParaNorman” (2012) e “It: A Coisa” (It: 2017). Já os clássicos foram: “Psicose” (Psycho: 1960), “O Bebê de Rosemary” (Rosemary's Baby: 1968), “O Exorcista” (The Exorcist: 1973), “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th: 1980) e “O Drácula de Bram Stoker” (Bram Stoker's Dracula: 1992). E, claro, “Tubarão”. Juro que não titubeei ao bater os olhos na programação. “Quero ver Tubarão!”, anunciei empolgado pra a linda Bruxinha, quando debatíamos nossa próxima ida ao cinema. Motivos não faltavam para a minha escolha. Esse era o único clássico do festival do Cinemark que eu não me lembrava de quase nada (vi apenas na infância). Além disso, a versão disponível na Temporada do Terror era em 3D. É isso mesmo o que vocês leram, senhoras e senhores! Em virtude de seu cinquentenário, o longa-metragem de Spielberg foi totalmente restaurado e ganhou uma edição em 3D, DBOX, 4DX e IMAX 2D. O relançamento de “Tubarão” nos cinemas comerciais aconteceu justamente agora – em conjunto com a promoção da versão comemorativa de 40 anos de “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future: 1985), clássico da ficção científica de Robert Zemeckis. Mesmo querendo ver “O Telefone Preto 2”, Bruxinha aceitou de bom grado começar nossos trabalhos cinematográficos de novembro pelo tan, tan, tan, tan, tan, tan, tan em alto-mar. “Tubarão” é a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Peter Benchley . O livro foi publicado nos Estados Unidos em 1974, um ano antes do filme chegar às telonas. Por falar na obra literária, a editora Darkside  lançou recentemente no Brasil uma nova versão deste clássico da literatura norte-americana em capa dura e em projeto gráfico impecável. Vale a pena conferi-la pelo primor estético. O título ficcional de Benchley foi um sucesso imediato e rapidamente se tornou best-seller nas livrarias da América do Norte. Como consequência, chamou a atenção dos principais estúdios de Hollywood. O problema era filmar a história do enorme tubarão branco que aterrorizava os banhistas e os pescadores mais experientes. Na época, não havia tecnologia capaz de viabilizar a ideia de gravar em imagens essa trama. Por isso, vários cineastas de renome declinaram do projeto. Assim, coube ao jovem e ambicioso Steven Spielberg o desafio de materializar “Tubarão” nas telonas. O roteiro do longa-metragem foi desenvolvido por Carl Gottlieb  em conjunto com o próprio Peter Benchley. Aí surgiram os primeiros problemas desta produção cinematográfica. O escritor não gostou das várias mudanças de enredo propostas por Gottlieb. A questão é que o livro era/é muito ruuuim. Até hoje é difícil entender o que os leitores de meados dos anos 1970 viram de tão especial em suas páginas. Além de bastante chato, ele possui ritmo extremamente lento, personagens sem carisma e poucos acontecimentos relevantes. Não dava para levar a linha narrativa original para as salas de cinema, né? Para resolver os problemas centrais da história de Benchley, o roteirista principal do filme se deu muita liberdade criativa na hora de fazer a adaptação, o que enfureceu o romancista. Para sorte dos cinéfilos, prevaleceram as sugestões de Carl Gottlieb.  Peter Benchley também se decepcionou com a escalação do elenco. “Tubarão” foi estrelado por Roy Scheider , Richard Dreyfuss , Robert Shaw , Lorraine Gary , Murray Hamilton e Jay Mello . Apesar de reunir bons atores e atrizes, vamos combinar que esse time nunca frequentou a primeira prateleira das produções hollywoodianas. Na cabeça do escritor alçado de repente à fama, sua trama merecia ser protagonizada por estrelas da maior grandeza do cinema norte-americano, como Robert Redford, Paul Newman e Steve McQueen. O problema era o orçamento baixo: apenas US$ 4 milhões. Ou Spielberg torrava a grana à disposição com um elenco caro ou investia na produção em si. Ciente dos desafios da empreitada, o diretor optou por intérpretes mais baratos e maior recurso para as filmagens. Por falar nas gravações, esse é um dos capítulos mais interessantes dos bastidores de “Tubarão”. Steven Spielberg sempre confidenciou que esse longa-metragem foi de longe o mais difícil de sua carreira. Sem tecnologia computadorizada, o diretor recorreu a um tubarão mecânico para produzir as cenas de ação. Apesar do investimento milionário, a máquina vivia dando problemas. Era tanta complicação e conserto atrás de conserto que, em determinado momento, se testou o uso de um tubarão branco real nas filmagens. Não é preciso dizer que essa ideia não deu certo, né? Por mais treinado que fosse, o bichano seguia sendo um peixe selvagem e não queria obedecer de maneira nenhuma aos comandos do cineasta. Assim, a produção voltou-se para a máquina quebra-quebra.      Curiosamente, a demora para a aparição concreta do grande tubarão branco no longa-metragem (ele só surge na tela, ainda que de maneira parcial, depois de uma hora de sessão) não foi uma escolha proposital de Spielberg para potencializar o suspense. O motivo foi mais prosaico do que os cinéfilos poderiam supor: diante de tantas falhas do equipamento, o único recurso disponível foi fazer os takes dos ataques do peixão assassino por seu ponto de vista (não sendo necessário, portanto, mostrá-lo diretamente até a metade inicial da produção). Além disso, ocultá-lo no mar permitia que se economizasse dias ou semanas de trabalhos da produção. O plano inicial era fazer as gravações em uma grande piscina. Contudo, essa proposta também se provou rapidamente inviável. Se por um lado o ambiente fechado facilitava a vida da equipe de filmagem, por outro atentava contra a verossimilhança. Dessa forma, a equipe optou por realizar as cenas em alto-mar. “Tubarão” foi o primeiro longa-metragem da história rodado no meio do oceano, o que exigiu enormes esforços logísticos e técnicos. O novo problema é que, no meio do Atlântico e em contato com a água salgada, o tubarão mecânico apresentava ainda mais falhas do que na piscina. Longe da terra firme, o conserto do equipamento, mesmo em questões aparentemente simples, virava uma epopeia para os mecânicos. Para completar o quadro desolador, o calor excessivo e as fortes chuvas do verão do hemisfério norte foram outros desafios que a produção do longa-metragem precisou encarar. Foram tantas as complicações (na segunda metade do filme, não dava mais para ocultar o monstro que protagonizava o thriller, né?) que a previsão de 55 dias de filmagem se transformou em sete meses de gravação. Eu disse sete meses!!! Desse período, a equipe de “Tubarão” ficou quatro meses consecutivos em alto-mar, o que provocou todo tipo de problemas psicológicos, emocionais e de relacionamento. Em determinado momento, a sensação era que o trabalho jamais seria finalizado nem que pudesse alcançar a qualidade mínima. Diante de tantas adversidades, o orçamento explodiu. Ao invés dos US$ 4 milhões previstos, gastou-se US$ 9 milhões. A base das gravações de “Tubarão” foi a ilha de Martha's Vineyard, em Massachusetts. Ela está localizada ao nordeste de Nova York (300 quilômetros de distância) e ao sul de Boston (120 quilômetros). A pequena cidade litorânea com construções de estilo colonial e ar pacato aparece na primeira parte do filme e é um dos componentes centrais da trama cinematográfica. As filmagens se deram entre maio e dezembro de 1974 e a edição do longa ocorreu ao longo de todo o primeiro semestre de 1975.      Depois de complicações e mais complicações, enfim, o terceiro filme dirigido por Steven Spielberg chegou às salas de cinema. Até esse momento, ele era uma incógnita até mesmo para seus produtores. Nos Estados Unidos, a estreia aconteceu em 20 de junho de 1975. Menos de um mês depois, “Tubarão” já estava nas principais redes de exibição do exterior. No Brasil, o longa-metragem foi lançado em 7 de julho de 1975 no Gemini 1 e no Gemini 2, tradicionais cinemas de rua da Avenida Paulista, em São Paulo. Alguns dias depois, era possível vê-lo nas principais capitais nacionais e nos maiores municípios do interior. Utilizando recursos de Marketing inovadores para a época (uso de thriller pensado para atiçar a curiosidade da plateia; investimento pesado em propaganda na mídia impressa e audiovisual; promoção de ações e eventos de pré-lançamento e de lançamento; e alocação do filme em grande número de salas no país inteiro desde a estreia), “Tubarão” redefiniu a forma como os estúdios de cinema trabalhavam os principais títulos. Daí surgiu o termo blockbuster. Palavra originada na Segunda Guerra Mundial para descrever as bombas poderosas que, uma vez lançadas, provocavam enorme destruição, o blockbuster da indústria do cinema é o filme que atrai multidões e gera impacto considerável nas redes de exibição. Apesar de exigir elevados investimentos de produção e divulgação, ele rende altíssimo lucro (quando bem-sucedido).   Por isso, convencionou-se dizer que “Tubarão” foi o primeiro blockbuster de Hollywood. Aos olhos de hoje, sua receita de quase meio bilhão de dólares continua sendo uma cifra invejável, principalmente se considerarmos a inflação dos últimos 50 anos. As pessoas faziam fila para assisti-lo no mundo inteiro. Havia, inclusive, relatos de gente que passava mal durante as sessões, impressionada com as fortes cenas dos ataques do tubarão branco às crianças, mulheres e pescadores. Preciso confessar que achei um tanto exageradas essas descrições, assim como sempre duvidei de que a plateia passava mal vendo “O Exorcista”. Para mim, tratava-se mais de propaganda de divulgação dos filmes de terror nos anos 1970 e 1980 do que uma reação em massa das plateias daquela época com estômago fraco. Até porque, vale a menção, Spielberg teve a preocupação de retirar da versão final as cenas mais sanguinolentas. A razão foi mais comercial do que estética. Se o longa-metragem apresentasse em detalhes as personagens sendo devoradas pelo monstro marítimo, “Tubarão” ganharia uma classificação etária mais restritiva, o que seria péssimo negócio para quem desejava alcançar grande número de espectadores. Assim, o diretor dosou a mão, principalmente na primeira metade do filme, quando os ataques eram direcionados às famílias de turistas da pequena cidade litorânea. Por mais elogios que “Tubarão” tenha obtido do público e dos críticos da sétima arte nos Estados Unidos e no exterior, é inegável que ele foi esnobado pela Academia de Los Angeles na cerimônia do Oscar de 1976. Em primeiro lugar, o filme de Spielberg só conquistou estatuetas técnicas: melhor edição (para Verna Fields ) e melhor trilha sonora original e melhor som (para o genial John Williams , figura que ainda não citei por aqui, mas que ainda ganhará um espaço especial nesta análise cinematográfica). Não digo, obviamente, que este longa-metragem de terror merecesse conquistar o Oscar de melhor filme. Até porque, “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo's Nest: 1975), drama dirigido por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson, ganhou o prêmio máximo do cinema norte-americano sem qualquer contestação. É realmente um filmaço! Ou seja, a indicação de “Tubarão” a melhor filme foi de bom tamanho. Até acho “Um Dia de Cão” (Dog Day Afternoon: 1975), suspense policial dirigido por Sidney Lumet e protagonizado por Al Pacino, outro título finalista ao Oscar daquele ano, como uma produção superior a “Tubarão”. O esquisito foi a ausência do nome de Steven Spielberg entre os indicados a melhor direção. Se ele merecia ou não ganhar a estatueta dos diretores em 1976 é outra questão, que não me atrevo a entrar nesse momento. Contudo, seu trabalho insano à frente dessa aventura marítima que se transformou num clássico cinematográfico o deixava em total condições para estar ao menos entre os finalistas daquela temporada, né? Na minha visão, foi uma injustiça o que a Academia de Los Angeles fez com o cineasta. Aí começa a polêmica que permeou boa parte da carreira de Spielberg. Por mais sucesso que fizesse nas salas de cinema com a plateia e por mais elogiado que fosse pela imprensa especializada, ele demorou para ser valorizado pelos críticos cinematográficos. Como podia um diretor a frente de títulos que entraram para a cultura popular como “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind: 1977), “E.T. – O Extraterrestre”, “A Cor Púrpura” (The Color Purple: 1986), “Indiana Jones” e “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros” não ter levado para casa um Oscar de direção até 1994, hein?! Falar sobre isso hoje em dia é até engraçado. Porém, por muito tempo, a crítica cinematográfica mais séria teve preconceito com os trabalhos de Spielberg, visto como um diretor mais focado no entretenimento das massas do que alguém preocupado com a qualidade máxima do cinema apresentado. A maldição do cineasta só acabou com a premiação de “A Lista de Schindler” em sete categorias (incluindo melhor filme e melhor direção). Foi neste momento que, finalmente, a Academia de Los Angeles o alçou à lista dos melhores de sua geração e colocou fim a todas as ressalvas que se fazia sobre ele. Em 1999, veio sua segunda estatueta pela direção de “O Resgate do Soldado Ryan”. Atualmente, ninguém de bom senso e em sã consciência, dentro ou fora de Hollywood, esboça qualquer dúvida sobre a excelência do cinema de Steven Spielberg. Diante do sucesso de público e de crítica, “Tubarão” se tornou uma das primeiras séries do cinema. Três anos depois da estreia do primeiro título, chegou às telonas “Tubarão 2” (Jaws 2: 1978), filme novamente roteirizado por Carl Gottlieb e outra vez estrelado por Roy Scheider, Lorraine Gary e Murray Hamilton. A grande diferença esteve na direção. Spielberg não quis seguir na empreitada. Ele deve ter imaginado tudo o que sofreu nas gravações anteriores e preferiu soltar um grito de “Nãaaaaaaaaaaaao” ao convite do estúdio. Aí Jeannot Szwarc se encarregou da tarefa. A história de “Tubarão 2” é quase idêntica à original. Depois de quatro anos de tranquilidade, o xerife de Amity está outra vez apavorado com uma criatura que ataca impiedosamente os banhistas e traz caos político, econômico e social à localidade. Com orçamento de US$ 30 milhões (três vezes superior ao primeiro filme), essa sequência alcançou bilheteria na casa dos US$ 210 milhões (menos da metade do longa anterior). Mesmo com o lucro menor (US$ 180 milhões contra US$ 480 milhões de “Tubarão”), o resultado financeiro de “Tubarão 2” foi bastante satisfatório. Em 1983, foi lançado “Tubarão 3” (Jaws 3-D: 1983). A nova produção não tinha nada a ver com as antecessoras, além do nome. Dirigido por Joe Alves  (diretor de arte em “Tubarão”), roteirizado por Richard Matheson e Michael Kane e estrelado por Dennis Quaid, Bess Armstrong e Simon MacCorkindale, essa história se passa num parque aquático da Flórida. O peixe assassino ataca funcionários e frequentadores do estabelecimento. Um dos atrativos deste filme era a versão em 3D, uma novidade para o início dos anos 1980. Orçado em US$ 18 milhões, a receita de “Tubarão 3” foi de US$ 88 milhões (menos da metade do filme anterior).  E, em 1987, o público recebeu “Tubarão – A Vingança” (Jaws – The Revenge: 1987), o quarto e último volume da franquia. Com direção de Joseph Sargent e roteiro de Michael de Guzman, a nova trama voltou a girar em torno de uma localidade à beira-mar que via seus banhistas padecendo com a ferocidade de um tubarão branco. A curiosidade desta produção foi o retorno de Lorraine Gary, a atriz que participou dos dois primeiros títulos da série, no elenco principal. Ela contracenou com Lance Guest e Mario van Peebles. Orçado em US$ 20 milhões, esse longa-metragem gerou US$ 50 milhões em faturamento. Não é preciso dizer que nenhuma das continuações de “Tubarão” conseguiu alcançar o sucesso comercial (cada título teve metade do faturamento do antecessor) e o status de obra-prima do título original. Ainda assim, dá para elogiar “Tubarão 2”, que mesmo não tendo o carisma do primeiro filme, soube entregar uma narrativa mais veloz e manteve o charme das personagens e da trilha sonora que o público já conhecia. Por sua vez, “Tubarão 3” é disparadamente o mais fraco da série, por mais que apresente recursos tecnológicos mais avançados. Na minha visão, seu maior problema foi descaracterizar a essência da história criada por Peter Benchley e (mexida por) Carl Gottlieb.   Os leitores mais atentos da coluna Cinema  devem ter percebido que falei bastante dos bastidores e das filmagens de “Tubarão”, além de esmiuçar os vários títulos da série cinematográfica e comentar um pouco da trajetória artística de Steven Spielberg.  Contudo, ainda não entrei a fundo no enredo deste clássico do terror e do suspense. Se essa é a sua preocupação, caríssimo(a) leitor(a) do Bonas Histórias , só tenho uma coisa a dizer: calma! Você me parece muito ansioso(a). Tudo tem o seu momento dentro do conteúdo por vezes quilométrico deste blog escondido nos recôncavos da internet. O instante para mergulharmos nos pormenores da história do primeiro blockbuster de Hollywood é agora. Pois pegue a pipoca e embarque comigo nas nuances desta trama memorável. O enredo de “Tubarão” se passa em Amity Island, uma cidade litorânea pacata dos Estados Unidos. Apesar da calmaria, o pequeno município insular se transforma completamente no Verão. Milhares de visitantes chegam no início de julho para aproveitar as praias e a atmosfera vibrante do turismo local. Não por acaso, é nessa época que a economia de Amity funciona a todo vapor. Sabendo do grande movimento de turistas, a prefeitura, os comerciantes, os empresários e os moradores se mobilizam para faturar o máximo possível na estação mais quente da temporada. É com esse dinheiro que eles vão se manter durante o ano inteiro.   Contudo, no início deste Verão, há um problema gravíssimo. Banhistas foram mortos ao entrarem na água. A investigação preliminar do xerife Martin Brody (interpretado por Roy Scheider) indica que um animal marinho está atacando violentamente as pessoas que vão para o mar. Preocupado com a segurança de moradores e visitantes, o chefe da polícia corre para alertar o prefeito Larry Vaughn (Murray Hamilton). Sua proposta é interditar as praias de Amity Island até que se saiba o que está acontecendo exatamente. Para a surpresa de Martin, o prefeito não quer saber de nenhuma medida de proteção. Segundo o ponto de vista da autoridade máxima do município, a alta temporada está começando e não se pode atrapalhar os planos de milhares de turistas que estão para chegar. A primeira grande leva de visitantes virá no tradicional feriado de 4 de julho, dia da Independência dos Estados Unidos. Nesta data, muitas famílias das grandes cidades das redondezas partem com entusiasmo para Amity para curtir as águas quentes e aparentemente calmas de suas praias. Assim, Vaughn inventa desculpas esfarrapadas para o problema e proíbe categoricamente o xerife de alertar a sociedade para os riscos de se entrar no mar. A partir daí se tem o primeiro grande conflito do filme. Martin Brody é voz solitária na tentativa de se evitar uma tragédia. Quando as praias ficam cheias de banhistas no 4 de julho, o policial sofre angustiado nas areias. A qualquer momento, ele sabe que alguém será vítima de um predador marinho cruel. Mesmo assim, pouco pode fazer. O máximo de alcance que suas palavras têm é dentro de casa. Martin alerta a esposa Ellen (Lorraine Gary) e o filho Sean (Jay Mello) das ameaças de se adentrar na água. Ainda assim, a família pouco acredita nas preocupações do xerife. Afinal, o policial é conhecido por ter muito medo de entrar no mar. Natural de Nova York, Martin Brody se mudou há alguns anos para Amity Island em busca de uma vida mais tranquila com a família. O único aspecto que o desagrada na nova cidade é justamente a proximidade com a água salgada. Ele tem fobia de estar longe da terra firme. Não é preciso dizer que o negacionismo do prefeito provoca realmente uma tragédia. A questão é saber onde e quando acontecerão os novos ataques e quem será a próxima vítima. Com as praias lotadas, turistas e moradores testemunham cenas chocantes, que os levam ao desespero. Uma vez que a imprensa fica ciente que há um tubarão branco atacando impiedosamente os banhistas e comunica essa notícia em tom sensacionalista nas televisões, nas rádios e nos jornais, o país inteiro fica sabendo do drama de Amity Island. A partir daí, os moradores da cidade se dividem em dois grupos antagônicos. Há muita gente que apoia o prefeito Larry Vaughn e não quer saber de medidas que restrinjam a rotina dos turistas. Para eles, nada poderia ser pior do que interditar as praias e proibir o banho de mar dos visitantes em pleno Verão. Afinal, a economia do município é mais importante do que a segurança das pessoas. Por outro lado, há alguns habitantes que apoiam o xerife Martin Brody e exigem o fechamento das praias. Do ponto de vista dessa galera, nada justifica a morte de pessoas inocentes, nem mesmo o incremento financeiro nos cofres do município e nos bolsos dos comerciantes.  Diante de tal discussão, uma ideia ganha força: a prefeitura oferece uma polpuda recompensa para o pescador que capturar vivo ou morto o tubarão que está causando tanta confusão. Quem mais se interessa pelo prêmio é Quint (Robert Shaw), um caçador de tubarões profissional com enorme experiência em alto-mar. Apesar de seu jeito rude e grosseiro, que lembra o estilo dos velhos piratas, ele é a maior esperança da localidade para conseguir abater o animal marinho que tem provocado tantos dissabores à Amity. Paralelamente, Martin começa a trabalhar com Matt Hooper (Richard Dreyfuss), um conceituado oceanógrafo especializado em tubarões que se prontificou a investigar os estranhos casos ocorridos na ilha. Segundo o jovem cientista, os ataques do animal marinho não têm precedentes. Ele aposta se tratar de um tubarão branco de tamanho colossal e de ira imensurável. Sem jamais ter visto esse nível de ferocidade e de poder de destruição antes, Dr. Hopper aposta estar diante da maior fera marítima que a ciência já tomou conhecimento. Pelo visto, a gravidade do problema é muito maior do que as autoridades municipais poderiam supor.     Assim, os caminhos do xerife altruísta, do pescador interesseiro e do oceanógrafo nerd vão se misturar no desenrolar da trama. O trio ficará responsável por caçar o maior tubarão branco dos mares do Atlântico. A dúvida que ronda a imaginação dos cinéfilos do passado e do presente é: esse time de figuras tão diferentes, pouco entrosadas e com propósitos totalmente distintos conseguirá abater uma fera de dimensão monstruosa?! A partir desse ponto, inicia-se o segundo grande conflito do longa-metragem. Alguém vai parar o maior vilão dos mares norte-americanos?!   “Tubarão” é um filme relativamente longo. Ele possui aproximadamente duas horas e meia de duração. Pelo menos foi essa a extensão da sessão em que fui no início do mês. Suspeito que a versão em 3D e remasterizada que entrou novamente em cartaz nos cinemas internacionais em 2025 seja mais cumprida do que a original, pois o longa-metragem de 1975 tinha só duas horas de duração. O filme comemorativo dos 50 anos de “Tubarão” ainda teve um depoimento introdutório de Steven Spielberg. Achei muito legal o diretor comentar a importância desse título para a sua carreira e as dificuldades que teve para produzi-lo. Do ponto de vista da narrativa, “Tubarão” reúne duas histórias distintas. Ou melhor dizendo, temos aqui uma história segregada em duas partes. Na primeira metade da produção, a trama se parece bastante com os suspenses de Alfred Hitchcock, diretor de clássicos como “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train: 1951), “Janela Indiscreta” (Rear Window: 1954), “Psicose” e “Pássaros” (The Birds: 1963). Talvez esse seja o longa-metragem de Spielberg que mais lembre os do Mestre do Suspense. Afinal, o que está acontecendo nas praias de Amity Island, hein? Não sabemos exatamente, mas podemos imaginar. Muitas vezes, o poder de imaginação da plateia é o mais poderoso tempero para o suspense. Nesse ponto da sessão, o protagonista é o xerife Martin Brody e o antagonista é o prefeito Larry Vaughn. Com elementos de trama policial, o conflito é: deve-se fechar ou não as praias? Em outras palavras, o que se deve fazer para proteger os banhistas de novos ataques? Paradoxalmente, o tubarão assassino é, acredite se quiser, só um mero coadjuvante nessa parte da sessão. Nem sequer ele aparece na tela. Na segunda metade da produção, o tom da narrativa se altera completamente. Quando o trio formado por Quint, Matt Hooper e Martin Brody se lança ao mar na captura do temido tubarão branco em um pequeno barco de pesca, a história adquire elementos de ação aterrorizante. O suspense some e a adrenalina entra em cena. Os três homens se tornam protagonistas e o peixe monstruoso, que enfim aparece para a plateia, veste a carapuça de grande vilão do enredo. O embate nessa parte do longa-metragem é entre homem e natureza. Quem é mais forte na eterna disputa entre pescadores e pescas?! Se antes a sensação era de estarmos diante de um título de Hitchcock, nessa parte final de “Tubarão” a impressão é de estarmos assistindo à versão mais moderna de “Moby Dick” (Cosac Naify), o romance célebre de Herman Melville. Quem assistiu a “No Coração do Mar” (In the Heart of the Sea: 2015), drama dirigido por Ron Howard, sabe do que estou falando. Em uma comparação bem simplória, podemos ver Martin como Ishmael e Quint como a representação do capitão Ahab. Com um pouco de imaginação, até Doutor Hooper poderia ser associado a Starbuck. Já o tubarão branco (que não tem nome no filme) seria a baleia branca Moby Dick. Para quem gosta de intertextualidade artística, vale a pena procurar em “Tubarão” referências diretas ao clássico de Melville. Por exemplo, repare no nome do barco de Quint. Seria mera coincidência ele se chamar Orca? Duvido! Essa divisão do longa-metragem em duas partes distintas trouxe bastante dinamismo para a narrativa. Confesso que achei o ritmo de “Tubarão” excelente para uma produção cinquentenária. Talvez as plateias contemporâneas com espíritos mais ansiosos possam vê-lo, em determinados momentos, como um filme parado ou com poucas novidades, principalmente se comparado aos títulos atuais. Juro que, em nenhum instante, considerei “Tubarão” cansativo ou mesmo arrastado. Afinal, quando o primeiro conflito é finalizado, embarcamos imediatamente no segundo. O suspense inicial dá lugar a uma aventura marítima alucinante, em que o desafio é capturar o gigantesco peixe selvagem. Ou seja, se ele não tem um ritmo alucinante do início ao fim (nem é essa a sua proposta), também é exagero falar que é monótono (como já ouvi gente falando por aí). Outro aspecto que gostei da narrativa foi da trama negacionista da primeira metade do filme. Quando a prefeitura e o empresariado da cidadezinha turística tentam mascarar os riscos de novos ataques do tubarão branco e não se importam com a segurança da população nas praias, automaticamente nos lembramos da ação desastrada (e por que não criminosa) de autoridades no mundo inteiro durante a pandemia da Covid-19. Diante das mortes em massa e dos perigos de contaminação pelo vírus, políticos transloucados insistiam em minimizar os efeitos da tragédia de saúde pública. Houve quem inventasse remédios milagrosos (e inóculos), colocasse a economia como item mais importante de suas decisões e incentivasse a população a voltar correndo para as ruas. De certa maneira, agiram como Larry Vaughn. Já quem combateu os negacionistas em nome do bem-estar geral da sociedade, atuaram como Martin Brody. Não dá para tecer elogios a “Tubarão” e não citar a construção impecável de suas personagens. As figuras ficcionais deste filme são normalmente redondas, o que contribui para a potencialização da qualidade da narrativa. O herói não é alguém imbatível e dono de virtudes e qualidades infinitas. Ele carrega também falhas e fraquezas como qualquer um de nós. Chega até mesmo a ser engraçado o fato de o xerife de uma localidade insular temer o mar. O pobre coitado entra na água para combater a maior ameaça do seu distrito, apesar do pânico. Esse elemento do enredo foi tão marcante que os roteiristas de “Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu” (Airplane!: 1980), clássico do humor cinematográfico que ainda vou comentar no Bonas Histórias , fez uma paródia inteligentíssima com Martin Brody. No filme humorístico, o protagonista era Ted Striker (repare no sobrenome, algo pouco aconselhável para sua profissão!), um piloto de avião que estava traumatizado por voar. Um piloto que não podia voar? Sim. É o mesmo drama de alguém morar numa ilha e não gostar de entrar no mar, né? Por falar em brincadeiras, “Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu” faz várias menções espirituosas ao primeiro grande sucesso de Spielberg. Logo na abertura, o avião aparece no meio das nuvens com uma música muito parecida a de “Tubarão”. Durante o aterrorizante dum, dum, dum, dum, dum, dum, só vemos a calda da aeronave, em referência explícita à barbatana do peixe que fica visível quando ele nada próximo à superfície do mar. Depois, há referência ao lançamento de “Tubarão 13”, uma sátira pertinente à continuação sem fim dos blockbusters (que só se agravou na indústria cinematográfica com o passar do tempo). Voltando a falar das personagens de “Tubarão”... Além do xerife, outras figuras possuem características positivas e negativas em doses equilibradas. Ao longo da sessão, Quint vai se tornando mais simpático (ou menos antipático) aos olhos da plateia. Ele não é apenas o marinheiro rude e bronco que imaginávamos no início. Por sua vez, Doutor Hooper tem uma profundidade maior do que suspeitávamos. Seu fascínio pelo mar e sua obstinação pela vida marinha têm explicações psicológicas da infância. Talvez a única figura plana desta produção seja o prefeito. Larry Vaughn é a caricatura do político desumano e interesseiro que tão bem conhecemos. As únicas coisas que importam para ele são sua imagem pública e a popularidade junto ao eleitorado. Para quem imaginava encontrar apenas uma disputa entre homens e tubarão branco, o drama social do filme é um elemento bem-vindo com tintas mais atuais do que poderíamos supor. Até a caracterização do tubarão mecânico me pareceu muito satisfatória, considerando as limitações tecnológicas da época. Em boa parte do filme, não deu para notar que se tratava de uma máquina a emular um animal predador. A sensação de artificialidade e de robotização do bichano só se materializou com mais contundência no desfecho, quando a câmera precisou dar zoom na fera que abocanhava tanto a tripulação quanto o barco de pesca. Aí constatamos a pouca verossimilhança, uma escorregada pra lá de aceitável aos olhos do público atual. Até porque, dificilmente alguém questionou esse componente em 1975. Também adorei os vários enquadramentos e os jogos de câmera diferentões utilizados em “Tubarão”. Nota-se que as escolhas pouco ortodoxas de takes foram frutos da limitação das filmagens. Por exemplo, mostrar os pés dos banhistas nadando na praia (como se acompanhássemos os olhos do tubarão branco) é algo que potencializa a tensão da cena a níveis estratosféricos (mais até do que se víssemos o peixe). Ou, ainda na parte inicial do longa, dar zoom na face do xerife ensopada de suor nervoso enquanto ele observa da areia o mar escancara a agonia interna do protagonista. Já na segunda metade do filme, boa parte dos sustos que tomamos se devem a aparição inesperada do vilão marinho. Isso só é possível porque o bicho invade o enquadramento de seus adversários humanos. São recursos simples e inusitados de filmagem que funcionaram muitíssimo bem aqui. Falei, falei, falei de “Tubarão” e ainda não abordei a sua trilha sonora. Seria eu louco de me esquecer desse componente emblemático da produção de Steven Spielberg? Nananinanão. Só deixei o melhor para o final desta análise crítica da coluna Cinema , senhoras e senhores. Portanto, vamos à cereja do bolo, ao grand finale e, se preferir, ao toque derradeiro de requinte cinematográfico. O responsável pela trilha sonora deste longa-metragem foi John Williams, maestro e compositor norte-americano considerado um dos gênios da sétima arte. Para se ter uma ideia de suas criações para o cinema, ele foi o responsável pela composição de uma série de músicas de Hollywood famosas até hoje. Não é preciso ser cinéfilo para conhecê-las de cor e para reconhecê-las nos primeiros acordes. A trilha de “Indiana Jones”, “Guerra nas Estrelas” (Star Wars: 1977), “E. T. – O Extraterrestre”, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Harry Potter and the Philosopher's Stone: 2001), e “Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros” são de sua autoria. E, claro, o tan tan tan tan tan tan tan de “Tubarão”, símbolo sonoro máximo de tensão e prenúncio de tragédia há meio século, é a sua criação mais celebrada. Curiosamente, quando Williams apresentou essa trilha para Spielberg, o diretor achou tratar-se de uma brincadeira, não levando-a à sério. Só mais tarde, o cineasta notou o poder sonoro da música. Ou você consegue imaginar “Tubarão” sem a sua trilha tão característica, hein?! Juro que eu não consigo. Dono de cinco estatuetas do Oscar, John Williams é o segundo profissional com mais indicações da história da cerimônia da Academia de Cinema de Los Angeles. São 54 trabalhos finalistas desde 1959. Só os gênios alcançam tal número. Ele só perde para Walt Disney, que recebeu 59 indicações. O mais legal é saber que, aos 93 anos, Williams segue ativo e produzindo trabalhos relevantes. A trilha sonora do novo título da coletânea “Indiana Jones”, “Indiana Jones e a Relíquia do Destino” (Indiana Jones and the Dial of Destiny: 2024), lançado no ano passado, foi feita pelo longevo compositor. É bom dizer que a excelência musical de “Tubarão” não se deve apenas a uma canção isolada. Se o tema principal do filme é realmente brilhante (e memorável), as demais não ficam muito atrás (e são sim contagiantes). É possível apontar, tanto na primeira metade do longa-metragem quanto na segunda metade, partes em que a trilha sonora rouba a cena. Prova disso ocorre quando Martin Brody, Matt Hooper e Quint partem obstinados para o mar. A música é incrível e embala com perfeição a aventura do trio. Inclusive, Bruxinha, na cadeira do meu lado, comentou no meu ouvido: “Essa canção se parece muito com a do ‘Indiana Jones’, né?’”. Na hora, fiquei encantado com a sagacidade da bela moça e respondi em sussurro: “Não é coincidência, não. O compositor é o mesmo!”. Impossível não me apaixonar por ela. Ela, no caso, é a trilha sonora do filme. Ou poderia ser a produção de Spielberg? Ou quem sabe esteja me referindo às sagazes cinéfilas que sabem fazer bruxaria? Entenda como quiser.   Assista, a seguir, ao trailer da versão comemorativa de 50 anos de “Tubarão” (Jaws: 1975): Para quem gostou da ideia de ver (ou rever) esse clássico do terror e do suspense nas telonas, a boa notícia é que ele segue em cartaz em algumas salas de cinema do nosso país, mesmo com o término do evento do Cinemark . Em São Paulo especificamente, sei que ainda é possível conferir a edição restaurada de “Tubarão” na unidade da Frei Caneca do Cinesystem  e no Instituto Moreira Sales , ambos na região da Avenida Paulista. A má notícia é que essas sessões são, creio eu, apenas em 2D. Admito que curti bastante assistir a um filme da década de 1970 com cores mais vibrantes e em 3D. Há experiências audiovisuais que seguem imbatíveis quando presenciadas nas mais modernas salas de cinema. Por isso, gosto tanto da oportunidade de conferir clássicos da sétima arte nas telonas dos grandes centros de exibição (e sigo sem ter aparelho de televisão em casa – acredite se quiser!). O próximo filme antigo que tenho interesse de ver no cinema é “Paris, Texas” (1984), uma das mais sublimes direções de Wim Wenders, que está em cartaz no Cine Belas Artes . Será que Bruxinha vai de novo comigo no próximo final de semana? Tomara! Nos últimos meses, vale à menção, vi alguns títulos comemorativos que foram relançados no circuito comercial em edições especiais. Os que mais gostei foram “Relatos Selvagens” (Relatos Salvajes: 2014) e “O Clã” (El Clan: 2015), que voltaram às salas de cinema de Buenos Aires pela efeméride de uma década de suas estreias. Mesmo já tendo visto essas produções na época de seus lançamentos, confesso que valeu muito a pena revê-las em novo formato e com um olhar mais atualizado. Tomara que essa tendência de revisitar os clássicos, que há muito tempo é costume no cinema argentino, pegue pra valer também no cinema norte-americano e no cinema brasileiro. Os cinéfilos agradecem! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em setembro e outubro de 2025

    Descubra quais são as 160 principais novidades da ficção e da poesia que os leitores brasileiros receberam no bimestre passado . O fim de ano já está aí. Jingle bell/jingle bell . Sabemos disso quando a cidade começa a se enfeitar para o Natal. Consigo até escutar Mariah Carey cantarolando “ All I Want for Christmas Is You ” ao fundo. Ouviram também? É o espírito natalino chegando aos galopes das reinas do Papai Noel (e do consumismo desenfreado), senhoras e senhores. Jingle all the way/Oh what fun it is to ride in a/One horse open sleigh . Se bem que, para ser sincero, Buenos Aires e São Paulo, as localidades em que me divido nestes últimos meses de 2025, ainda estão (literalmente) apagadinhas quando o assunto é preparativo para as festas. Juro que não vi, seja nas ruas portenhas, seja nas avenidas paulistanas, as impactantes decorações nem as chamativas iluminações que caracterizam esta época do ano. Se não fossem os filmes de temática natalina a invadir as plataformas de streaming, juro que não saberia da chegada de Navidad  y de Nochevieja  – adoro esses termos do espanhol argentino! Como estamos na coluna Mercado Editorial , o panorama urbano-festivo não é tão relevante assim. Não sei o porquê o citei. Talvez seja a mania besta de gastar mais linhas do que deveria em meus textos. Desculpem-me pela prolixidade. O importante é que, neste momento, nosso olhar se volta exclusivamente para o interior das livrarias brasileiras (que, vale a menção, também apresentam pouco espírito natalino nesse comecinho de novembro). Afinal, quais as novidades da ficção e da poesia que foram lançadas em nosso país em setembro e outubro de 2025 , hein? É justamente esse o questionamento do post de hoje do Bonas Histórias . Seguindo a tradição do blog, estou aqui para apresentar as principais publicações do mercado editorial brasileiro , assunto que imagino interessar aos fãs da boa literatura. Independentemente de como comemora (ou mesmo se comemora) a virada de 24 para 25 de dezembro e a mudança de calendário de 31 de dezembro para 1º de janeiro, o que o público ávido pelos melhores títulos quer saber é o que há de novo nas estantes das lojas. Em nosso levantamento do que as editoras nacionais trouxeram de inédito nas prateleiras dos livros ficcionais e poéticos  no penúltimo bimestre do ano, selecionei 160 obras que julguei mais relevantes. É basicamente um listão com romances , novelas , coletâneas de contos , coleções de crônicas , ensaios sobre Teoria Literária , títulos infantojuvenis , publicações infantis e antologias poéticas que chamaram minha atenção e que tem potencial para cair no gosto dos meus compatriotas. Contudo, antes de exibir um a um os novos exemplares, farei um recorte dessa lista e vou debater rapidamente com vocês as seis novidades que me pareceram ainda mais reluzentes. São três títulos da literatura brasileira  e três da literatura estrangeira . É o que Odete Roitman, que não morreu (dessa vez!) e jamais morrerá (na cultura popular), chamaria, com o nariz apontado ao céu, de “creme de la creme” . Como sou alguém mais popular (muuuito mais, para desespero das Bruxinhas Fluorescentes de plantão), prefiro chamar o sexteto aqui pinçado de “recorte do recorte”. Ou simplesmente do grupinho de livros de minha preferência. Encare-o como quiser. O importante é se atentar para essa coletânea de excelente qualidade.     Da literatura brasileira, meus destaques vão para: “Dança de Enganos” ( Companhia das Letras ), romance de  Milton Hatoum  que encerra a  “Trilogia O Lugar Mais Sombrio” ; “Maçã. Mesa. Moeda.” ( Laranja Original ), coleção de contos de Fernanda Caleffi Barbetta; e “As Aventuras de Mike 5 – Pé na Estrada” ( Outro Planeta ), mais recente volume da coleção infantil de Gabriel Dearo e  Manu Digilio . Falemos, a seguir, um pouco sobre esses títulos nacionais, senhoras e senhores. Um dos mais esperados romances da literatura brasileira, “Dança de Enganos” ficou, enfim, pronto. Ele foi apresentado ao público no mês passado e mexeu com os fãs da ficção nacional. Saravá! Juro que já não acreditava mais que Milton Hatoum, um dos nossos principais autores (para mim, o favorito para ganhar o Prêmio Camões de 2027, já que o troféu de 2026 deverá ir para um português), concluísse a série “Lugar Mais Sombrio”. Afinal, “A Noite da Espera” (Companhia das Letras) e “Pontos de Fuga” (Companhia das Letras), respectivamente o volume 1 e 2 de sua saga literária mais ambiciosa, são de 2017 e 2019. Em outras palavras, foram quase dez anos entre o livro inicial e o título final da trilogia, né? É muito tempo aguardando, principalmente para as almas mais ansiosas – coloque o dedo aqui que já vai fechar. Apesar da demora, o importante é que “Lugar Mais Sombrio” teve um ponto final. “Dança de Enganos” é a terceira (e última) parte da narrativa histórica do escritor manauara pelos tempos da Ditadura Militar Brasileira. Nesse romance, voltamos aos anos de 1960 para compreender a trajetória de Martim, o jovem que precisou fugir do Brasil na década de 1970 por problemas com os militares. Vale lembrar que em dezembro de 1968, os milicos decretaram o AI-5 e sentaram o porrete nos jovens de esquerda. O relato, dessa vez, é de Lina, a mãe de Martim. Essa é a principal novidade do novo romance de Hatoum: temos um narrador diferente. No caso, uma narradora.   Pelos olhos e pela interpretação da até então ausente, relapsa e amalucada Lina, conseguimos encontrar as peças que faltavam no quebra-cabeça da história de seu filho, a figura central da trilogia. Aí aparecem várias surpresas e alguns episódios inesperados do passado de Martim e de sua família. Por mais que as novidades sejam interessantes, admito que achei, num primeiro momento, estranha a troca de narrador e a perda de protagonismo de Martim. Isso não quer dizer que o livro seja ruim, tá? Só é diferente da expectativa! Agora que temos um desfecho (mesmo que aberto) para “Lugar Mais Sombrio”, quem sabe não me sinta motivado a analisar, na coluna Livros – Crítica Literária , “Pontos de Fuga” e, o recém-lançado, “Dança de Enganos”. Quem me conhece sabe que só gosto de ler (e comentar) séries narrativas após suas conclusões. Meu pensamento é: “vai que dê ruim lá na frente e não temos um desenlace”. Nesse sentido, “A Noite da Espera” , que discuti em detalhes em novembro do ano passado, foi a exceção que só confirmou a minha regra de leitor/crítico. Outro lançamento pra lá de interessante é “Maçã. Mesa. Moeda.”, a sétima publicação ficcional de Fernanda Caleffi Barbetta. A escritora e jornalista paulistana que vive há anos nos Estados Unidos presenteia seus leitores com uma coletânea de contos sobre as dores e os desafios de quem sofre com doenças neurológicas como Alzheimer, Parkinson e Corpos de Lewy. No caso, as narrativas curtas mergulham na realidade de cuidadores, médicos, enfermeiros, familiares e pacientes. Convenhamos que não é fácil ver os corpos e as mentes de quem amamos colapsarem. Curiosamente, esse é um tema completamente diferente (diria até mesmo oposto) ao de “1+1=2 2-1=0” (CEPE Editora), o título anterior de Barbetta que conquistou o Prêmio CEPE Literatura de 2022 na categoria Melhor Romance. A sua obra mais premiada até aqui tratava dos perrengues da infância e da maternidade. Ou seja, se antes assistimos ao abandono de crianças pelos pais, agora acompanhamos os filhos abraçando as limitações paternas. No meu ponto de vista, é uma contradição sagaz. Os 29 contos de “Maçã. Mesa. Moeda.” são frutos do trabalho de pesquisa da autora sobre demência. A partir da coleta de depoimentos reais e do levantamento de estudos bibliográficos de pacientes em estágio avançado, Fernanda Caleffi Barbetta recriou ficcionalmente o drama de familiares, profissionais da saúde e, claro, de idosos doentes. Se colocando no lugar dessas pessoas, a escritora as transformou em protagonistas de suas histórias. Os narradores em primeira, segunda e terceira pessoas passeiam por quartos de hospital, residências que tentam simular normalidade, consultórios médicos, casas de repouso, feiras livres, buffets infantis, praças etc. No meio de tanta dor, esquecimento, medo e fragilidade, há momentos de beleza e amor genuíno.  De maneira geral, este livro é muito bom. Ao invés da prosa poética de “1+1=2 2-1=0” , “Maçã. Mesa. Moeda.” escancara a realidade nua e crua da velhice. Muitas vezes, os contos flertam com a crônica, em uma bem azeitada mistura entre ficção e veracidade. Na minha opinião, suas melhores narrativas são: “Meia Sete”, “Teste de Memória”, “Mocinha”, “Mexidos”, “A Entrevista”, “Controle”, “Regina”, “As Contas”, “Casa Vazia”, “Ei, Moleque” e “Equilibrista”. Destaque para “Específica” e “Equilibrista”, contos em segunda pessoa, algo raro na literatura. Há também “Nós”, uma trama ainda mais inusitada por mesclar os narradores em primeira e segunda pessoas, recurso ficcional extremamente original que ainda não tinha visto. É ou não é uma obra com várias surpresas positivas, hein? O único aspecto que não gostei desta obra foi da sua diagramação e do seu projeto gráfico pra lá de espartanos, abaixo da qualidade das editoras comerciais. Por exemplo, o início dos parágrafos não tem o espaçamento protocolar. Se esse recurso estético fazia todo o sentido em “1+1=2 2-1=0” (e parece ser um elemento do estilo de Barbetta), ele me pareceu descaso do designer/diagramador em “Maçã. Mesa. Moeda.” (por mais que saiba que não foi responsabilidade sua). Ainda bem que a excelência textual compensa esse ligeiro tropeço. Por falar na literatura de Fernanda Caleffi Barbetta, é bom avisar aos fãs da autora que ela também lançou no bimestre passado uma novela. Trata-se de “Quase Dois Centímetros” (Independente), trama bem-humorada e extremamente sarcástica sobre a rotina monótona e solitária nos grandes centros urbanos. Há também forte mistura de realidades ficcionais, algo à la Juan Carlos Onetti. Essa publicação está disponível apenas na Loja Kindle – não há ainda versão impressa. Para a criançada, a principal novidade do bimestre passado foi o lançamento de “As Aventuras de Mike 5 – Pé na Estrada”, o mais recente título do casal Gabriel Dearo e Manu Digilio. Quem leu o post “Os Livros Infantis Mais Vendidos de 2024 no Brasil” , conteúdo do mês passado da coluna Mercado Editorial , já estava ciente da publicação desta obra (adiantei essa informação por lá) e conhece de cor e salteado o sucesso da série “As Aventuras de Mike” . Ao lado das coleções “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (Outro Planeta), de Maidy Lacerda, e “Diário de Um Banana” (VR Editora), de Jeff Kinney, a saga do garoto atabalhoado, nem um pouco atlético, com alimentação horrível, nerd e péssimo com as garotas lidera a lista dos best-sellers da literatura infantil nacional há alguns anos. Por mais que veja “As Aventuras de Mike” como uma versão nacionalizada de “Diário de Um Banana”, confesso que gosto do trabalho literário de Dearo e Digilio. Se falta originalidade para o casal de Ribeirão Preto, sobra disposição para expandir o universo da personagem mais zero a esquerda da ficção brasileira contemporânea. Afinal, “As Aventuras de Mike 1” (Outro Planeta) é de 2019, “As Aventuras de Mike 2 – O Bebê chegou” (Outro Planeta) de 2020, “As Aventuras de Mike 3 – Mudando de Casa” (Outro Planeta) de 2022 e “As Aventuras de Mike 4 – A Origem de Robson” (Outro Planeta) é de 2023. Repare que é quase um lançamento por ano, uma excelente média. Em “As Aventuras de Mike 5 – Pé na Estrada”, a família do protagonista sai de férias. De trailer (algo pouquíssimo brasileiro – não disse que eles são fortemente influenciados pela literatura de Kinney, best-seller norte-americano, hein?!), eles viajam para um parque de diversão muito famoso (que mais parece a Disney do que o Hopi Hari). Para a confusão ficar completa, a trupe leva consigo um convidado especial. Curiosamente, as aventuras não ocorrem no destino e sim no trajeto. Os perrengues que Mike e seus familiares passam na estrada certamente divertirão a criançada.   Pulemos agora para a estante da literatura internacional. As grandes novidades de setembro e outubro de 2025 são: “Os Gritos”  ( Rocco ), romance do japonês Tokurô Nukui , “Tarântula” ( Autêntica Contemporânea ), novela do guatemalteco Eduardo Halfon , e “Maxton Hall – Salve-nos”  ( Alt ), a última parte da “Trilogia Maxton Hall” , sucesso   infantojuvenil da alemã Mona Kasten . Focarei, nos próximos parágrafos, nesta pequena lista de títulos estrangeiros. Lançado no Japão em 1993 e até então inédito no Brasil, “Os Gritos” é romance policial de uma das figuras mais populares da literatura noir asiática. Esse thriller de Nukui é ambientado numa Tóquio bem diferente daquela que os brasileiros estão acostumados a ver e a imaginar. Nessa obra ficcional, a capital japonesa adquire características sombrias e extremamente violentas. O detetive de polícia Saeki investiga uma série de assassinatos brutais que colocou a metrópole oriental em pânico. Enquanto cuida desse desafiante caso, o jovem investigador precisa lidar com a burocracia da polícia local e as intrigas dentro da própria delegacia. Simultaneamente à trama policial, acompanhamos a narrativa de Matsumoto, um sujeito rico com graves problemas psicológicos. Por ainda não ter superado o luto que o atormenta, ele se apoia numa religião estranha para esquecer as tragédias do passado. Assim, o rapaz enxerga a seita religiosa que participa como a saída para todos os seus males pessoais do presente e como a melhor alternativa para apagar as memórias tristes. Não é preciso ser um Sherlock Holmes para descobrir que as duas histórias de “Os Gritos” estão interligadas e que irão se juntar em algum momento do romance. Por mais que tentemos imaginar os próximos lances do livro, admito que Tokurô Nukui é um autor sagaz ao ponto de nos surpreender várias e várias vezes. Por exemplo, eu não cheguei nem perto de adivinhar o clímax e o desfecho desta obra. Não à toa, esse romance é considerado um clássico da literatura policial contemporânea do Japão. E, enfim, temos a oportunidade de apreciá-lo em nosso idioma. Por sua vez, “Tarântula” é a mais recente publicação de Eduardo Halfon, um dos nomes mais elogiados da literatura latino-americana da atualidade. Esse livro foi lançado em espanhol em junho do ano passado e já ganhou uma tradução para o português brasileiro. A rapidez da edição de “Tarântula” em nosso país é um indicador relevante da crescente importância internacional do autor da Guatemala, que vive desde criança nos Estados Unidos e segue escrevendo prioritariamente na língua materna. O aspecto que mais gosto do trabalho literário de Halfon é a mistura do universo ficcional de suas obras. É um tal de uma personagem de um livro entrar no meio da trama de outro livro. Isso ocorre rotineiramente, premiando os leitores do portfólio integral de Eduardo Halfon. Por isso, a sensação de que seus romances, novelas e contos retratam uma grande e única trama e que dialogam entre si, por mais que tenham começos, meios e fins próprios. Convenhamos que esse é um elemento bastante original e instigante – quase como um grande quebra-cabeça ficcional.    Em “Tarântula”, acompanhamos um drama histórico com pinceladas autobiográficas. Em meados da década de 1980, dois adolescentes guatemaltecos que vivem nos Estados Unidos retornam para seu país natal para participar de um acampamento de férias para jovens judeus. No meio da floresta da América Central, a dupla vivencia um choque cultural. Sem falar espanhol e desconhecendo aspectos básicos da nação em que nasceram, os protagonistas desta novela encaram as surpresas e a violência da Guatemala Pós-Guerra Civil. Já aviso que se trata de uma narrativa bastante forte. Para encerrar nosso rápido passeio pelos lançamentos da literatura internacional, trago a publicação em nosso país de “Maxton Hall – Salve-nos”, o terceiro volume da trilogia best-seller de Mona Kasten. A alemã é uma das escritoras infantojuvenis mais populares do momento. Depois de conquistar o público nas livrarias da Europa e dos Estados Unidos, a série literária “Maxton Hall” foi adaptada para a televisão. A primeira temporada da série televisiva estreou no streaming em maio de 2024, enquanto a segunda estará disponível na programação da Amazon Prime  ainda nesta semana. “Maxton Hall – Salve-nos” complementa a narrativa de “Maxton Hall – Salve-me” (Alt), primeiro volume da coletânea, e “Maxton Hall – Salve-se” (Alt), o segundo romance da saga sobre o colégio em que Ruby Bell estuda. Na Alemanha, a trilogia foi publicada entre 2018 e 2020. No Brasil, “Maxton Hall – Salve-me” só chegou em outubro do ano passado. É preciso contar que o sucesso da série de televisão foi fundamental para a Globo Livros , através da Alt, seu selo infantojuvenil, traduzir as obras de Kasten. “Maxton Hall – Salve-se” pintou em nossas livrarias em abril deste ano. Em “Maxton Hall – Salve-nos”, Ruby Bell sai de forma traumática da escola que dá nome à narrativa literária. A jovem se vê injustiçada e suspeita que James Beaufort, o garoto por quem se apaixonou, possa estar envolvido em sua expulsão. Será que a protagonista conseguirá entrar em Oxford, seu maior sonho, depois desse enorme vacilo que manchou sua reputação? Ao mesmo tempo, será que o pai de James, o empresário por trás da conceituada marca Beaufort, voltará a confiar no filho? E Ruby descobrirá a verdadeira índole de seu crush, que vestiu (por alguns capítulos) a carapuça de vilão? É isso o que vamos descobrir no desfecho da comentada trilogia de Mona Kasten. Os leitores mais atentos da coluna Mercado Editorial  certamente notaram que, do sexteto selecionado, há um título de cada selo editorial/editora: Companhia das Letras , Laranja Original , Outro Planeta (da Planeta dos Livros ), Rocco , Autêntica Contemporânea (do Grupo Autêntica ) e da Alt (da Globo Livros ). Também me preocupei em pinçar um exemplar de cada gênero narrativo: romance nacional, romance internacional, novela, coletânea de contos, título infantojuvenil e publicação infantil. Dessa maneira, acredito apresentar um panorama mais completo das novidades de nossas livrarias no último bimestre. Para aqueles que não estão acostumados com nossa filosofia, aviso que o nome da brincadeira no Bonas Histórias  é pluralidade literária! Por falar em visão integral, vamos sem mais enrolação ao listão de novidades do mercado editorial brasileiro em setembro e outubro. Confira, a seguir, os 160 principais livros que chegaram às estantes da ficção e da poesia: FICÇÃO BRASILEIRA: “Dança de Enganos – Volume 3 da Trilogia O Lugar Mais Sombrio” (Companhia das Letras) – Milton Hatoum – Romance – 256 páginas. “O Último Van Gogh” (Globo Livros) – Edney Silvestre – Romance – 368 páginas. “Visita ao Pai” (Companhia das Letras) – Cristovão Tezza – Romance – 448 páginas. “O Arroz de Palma” (Record) – Francisco Azevedo – Romance – 368 páginas. “Ré Volução no País do Carnaval” (Planeta Minotauro) – Miguel Nicolelis – Romance – 240 páginas. “Não Há Pássaros Aqui” (Todavia) – Victor Vidal – Romance – 224 páginas. “Perigo na Esquina” (L&PM Editores) – Tailor Diniz – Romance – 248 páginas. “Do Teu Fantasma Vejo Só o Coração” (Companhia das Letras) – Thiago Souza de Souza – Romance – 240 páginas. “A Memória das Rosas” (L&PM Editores) – Henrique Schneider – Romance – 164 páginas. “Meridiana” (Companhia das Letras) – Eliana Alves Cruz – Romance – 184 páginas. “Tarde no Planeta” (Autêntica Contemporânea) – Leonardo Piana – Romance – 176 páginas. “O Hipopótamo” (Todavia) – Chico Mattoso – Novela – 96 páginas. “Quase Dois Centímetros” (Independente) – Fernanda Caleffi Barbetta – Novela – 152 páginas. “Maçã. Mesa. Moeda.” (Laranja Original) – Fernanda Caleffi Barbetta – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Tênebra 2 – Narrativas Brasileiras de Horror [1900-1949]” (Fósforo) – Júlio França e Oscar Nestarez (Org.) – Coletânea de Contos – 432 páginas. “Aproveitar a Vida e Suas Dores” (Paidós) – Contardo Calligaris – Coletânea de Crônicas – 208 páginas. “Morrendo de Rir” (Arquipélagos) – Elvira Vigna – Coletânea de Crônicas – 184 páginas. “200 Crônicas Escolhidas” (Autêntica) – Carlos Herculano Lopes – Coletânea de Crônicas – 448 páginas. “Os 3 Desejos de Eugênio” (Alt) – Vitor Martins – Infantojuvenil – 336 páginas. “Cupidos Não Se Apaixonam” (Seguinte) – Clara Alves – Infantojuvenil – 296 páginas. “Fala Sério, Irmão! Fala sério, Irmã” (Rocco) – Thalita Rebouças – Infantojuvenil – 208 páginas. “Não Acorde os Monstros” (Rocco) – Luca Brandão – Infantojuvenil – 144 páginas. “As Aventuras de Mike 5 – Pé na Estrada” (Outro Planeta) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Infantil – 160 páginas. “Capyvibes 2 - Profissões” (Tatu-bola) – Gabriel Dearo e Manu Digilio – Infantil – 48 páginas. “O Clube Verde e a Liga dos Solos – Como Tudo Começou” (Escarlate) – Morgana Kretzmann e Paulo Scott – Infantil – 144 páginas. “Buraco” (Pequena Zahar) – José Carlos Lollo e Blandina Franco – Infantil – 88 páginas. “Abel e as Estrelas” (Brinque-Book) – André Neves – Infantil – 48 páginas. “No Meu Ninho” (Tatu-bola) – Aline Lima do Nascimento – Infantil – 48 páginas. “O Trinca-ferro e o Prisioneiro” (Rocquinho) – Cristino Wapichana (autor) e Taísa Borges (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “O Lago Pri Pri” (Companhia das Letrinhas) – Trudruá Dorrico (autora) e Martina Carvalho (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “O Primeiro Dia” (L&PM Editores) – Henrique Coser Moreira – Infantil – 40 páginas. “A Festa do Sol” (Ipê das Letras) – Felipe Fontoura – Infantil – 34 páginas. “O Que Há Depois de Lá” (Brinque-Book) – Alexandre Rampazo – Infantil – 32 páginas. “Trança a Trança” (Intrínseca) – Madu Costa (autora) e Ana Paula Sirino (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Bibo Cresceu, Mas Só Um Pouquinho...” (Brinque-Book) – Silvana Rando – Infantil – 32 páginas. “Tanãmak, Uma Guerreira Mura” (Brinque-Book) – Márcia Mura (autora) e Raquel Teixeira (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Os Gritos” (Rocco) – Tokurô Nukui (Japão) – Romance – 384 páginas. “Sobre o Cálculo do Volume – Livro 3” (Todavia) – Solvej Balle (Dinamarca) – Romance – 168 páginas. “Nas Ruas de Sag Harbor” (HarperCollins) – Colson Whitehead (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Crônicas da Terra das Pessoas Mais Felizes do Mundo” (Companhia das Letras) – Wole Soyinka (Nigéria) – Romance – 480 páginas. “A Guerra dos Roses” (Intrínseca) – Warren Adler (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Revolução” (Companhia das Letras) – Hugo Gonçalves (Portugal) – Romance – 432 páginas. “Katábasis” (Intrínseca) – R. F. Kuang (China/Estados Unidos) – Romance – 480 páginas. “A Misteriosa Confeitaria da Meia-noite” (Paralela) – Lee Onhwa (Coreia do Sul) – Romance – 240 páginas. “O Filho Perfeito” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Namorado” (Record) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 364 páginas. “O Protocolo Caos” (Planeta) – José Rodrigues dos Santos (Moçambique) – Romance – 624 páginas. “O Segredo Final – Livro 6 da Série Robert Langdon” (Arqueiro) – Dan Brown (Estados Unidos) – Romance – 560 páginas. “Casas Estranhas 2” (Intrínseca) – Uketsu (Japão) – Romance – 336 páginas. “Central Europa” (Companhia das Letras) – William T. Vollamann (Estados Unidos) – Romance – 768 páginas. “O Fim de Eddy” (Todavia) – Édouard Louis (França) – Romance – 160 páginas. “Divórcio Perfeito” (Darkside) – Jeneva Rose (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Você Não Deveria Estar Aqui” (Darkside) – Jeneva Rose (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “A Fraude” (Companhia das Letras) – Zadie Smith (Inglaterra) – Romance – 576 páginas. “O Assassinato no Verão de 1999” (Intrínseca) – Jeneva Rose (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Bênçãos” (Tusquets) – Chukwuebuka Ibeh (Nigéria) – Romance – 256 páginas. “Morango, Panquecas e Romances” (Intrínseca) – Laurie Gilmore (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Uma Fazenda Com a Magia do Natal” (Intrínseca) – Laurie Gilmore (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “O Imperador da Felicidade” (Rocco) – Ocean Vuong (Vietnã) – Romance – 400 páginas. “28 Verões” (Arqueiro) – E lin Hilderbrand (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “A Inexplicável Livraria da Cerejeira” (Harlequin) – Takuya Asakura (Japão) – Romance – 192 páginas. “O Lado Selvagem” (Darkside) – Tiffany McDaniel (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “O Mundo que as Confinava” (Fósforo) – Sylvia Townsend Warner (Inglaterra) – Romance – 448 páginas. “O Lago do Amor” (Globo Livros) – Lana Ferguson (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Um Ninho de Cobras” (Record) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 240 páginas. “Verão Ardente” (L&PM Editores) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 248 páginas. “A Escuridão Dentro de Nós” (Planeta Minotauro) – Tri cia Levenseller (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Independência” (Tusquets) –Javier Cercas (Espanha) – Romance – 304 páginas. “Histórias de Uma Garota Malcomportada” (Fósforo) – Nettie Jones (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “Vejam Como Dançamos” (Intrínseca) – Leïla Slimani (Marrocos) – Romance – 320 páginas. “Elite de Prata” (Paralela) – Dani Francis (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “A Maldição de Sombra e Gelo” (Planeta Minotauro) – Catharina Maura (Holanda) – Romance – 320 páginas. “Quando a Sorte Te Visitar” (Darkside) – Stacy Willingham (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Taming 7 – Ela é o Sol na Tempestade – Volume 5 da Série Os Garotos de Tommen” (Bloom Brasil) – Chloe Walsh (Irlanda) – Romance – 464 páginas. “Herança – Volume 1 de A Maldição das Sete Noivas” (Bertrand Brasil) – Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 496 páginas. “Ainda Não Morri” (Intrínseca) – Holly Jackson (Inglaterra) – Romance – 448 páginas. “Suttree” (Alfaguara) – Cormac McCarthy (Estados Unidos) – Romance – 560 páginas. “A Armadura da Luz” (Arqueiro) – Ken Follett (Inglaterra) – Romance – 640 páginas. “Círculo dos Dias” (Arqueiro) – Ken Follett (Inglaterra) – Romance – 496 páginas. “O Inimigo dos Meus Sonhos” (Harlequin) – Jenny Williamson (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Biblioteca do Censor de Livros” (Instante) – Bothayna Al-Essa (Kuwait) – Romance – 224 páginas. “Quando Um Rei Perde a França – Volume 7 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 322 páginas. “A Flor de Lis e o Leão – Volume 6 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 392 páginas. “A Loba de França – Volume 5 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 406 páginas. “A Lei dos Varões – Volume 4 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 322 páginas. “Os Venenos da Coroa – Volume 3 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 266 páginas. “A Rainha Estrangulada – Volume 2 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 280 páginas. “O Rei de Ferro – Volume 1 da Série Os Reis Malditos” (Bertrand Brasil) – Maurice Druon (França) – Romance – 336 páginas. “Partindo para o Ataque – Voluma 1 da Série Deuses do Jogo” (Arqueiro) – Ana Huang (Estados Unidos) – Romance – 544 páginas. “Matcha às Segundas-feiras” (Arqueiro) – Michiko Aoyama (Japão) – Romance – 176 páginas. “Profundezas” (Verus) – Rebecca Yarros (Estados Unidos) – Romance – 504 páginas. “Nós Já Moramos Aqui” (Intrínseca) – Marcus Kliewer (Canadá) – Romance – 320 páginas. “Os Segredos de Rustler Mountain” (Gutenberg) – Maisey Yates (Estados Unidos) – Romance – 248 páginas. “Minha querida Paris” (Arqueiro) – Lucy Diamond (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Maldição de Amalfi” (Harlequin) – Sarah Penner (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Expatriada Blues” (Malê) – Lucy Mushita (Rodésia do Sul) – Romance – 248 páginas. “Chame por Andrea” (Darkside) – Noelle West Ihli (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “O Tempo das Cerejas” (Companhia das Letras) – Montserrat Roig (Espanha) – Romance – 280 páginas. “Siga Como um Rio” (Arqueiro) – Shelley Read (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Ferida” (Fósforo) – Oksana Vassiákina (Rússia) – Romance – 248 páginas. “Dois Gimlets na 5ª Avenida” (L&PM Editores) – Philippe Labro (França) – Novela – 152 páginas. “O Polonês” (Companhia das Letras) – J. M. Coetzee (África do Sul) – Novela – 144 páginas. “Tarântula” (Autêntica Contemporânea) – Eduardo Halfon (Guatemala) – Novela – 136 páginas. “Trens Rigorosamente Vigiados” (Editora 34) – Bohumil Hrabal (República Tcheca) – Novela – 128 páginas. “Luto Sem Medo” (Darkside) – Max Porter (Inglaterra) – Novela – 128 páginas. “Odisseia Estelar” (Suma) – Kim Bo-Young (Coreia do Sul) – Coletânea de Novelas – 264 páginas. “A Tabela Periódica” (Companhia das Letras) – Primo Levi (Itália) – Coletânea de Contos – 256 páginas. “Recordações de Infância” (Companhia das Letras) – Giuseppe Tomasi di Lampedusa (Itália) – Coletânea de Contos – 200 páginas. “Água Escura – Vozes de Dentro do Véu” (Fósforo) – W. E. B. Du Bois (Estados Unidos) – Coletânea de Ensaios, Crônicas e Poemas – 384 páginas. “Zoo, ou Cartas Não de Amor” (Editora 34) – Viktor Chklóvski (Rússia) – Coletânea de Cartas – 192 páginas. “Reverência Indomável” (Alt) – Rebecca Ross (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 656 páginas. “Enterrem Nossos Ossos à Meia-noite” (Galera) – V. E. Schwab (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 644 páginas. “Fearless” (Rocco) – Lauren Roberts (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 504 páginas. “A Deusa Impiedosa” (Seguinte) – Margaret Owen (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 488 páginas. “Quatro Reinos Corrompidos – Volume 2 da Série As Lâminas Partidas” (Galera) – Mai Corland (Coreia do Sul/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 420 páginas. “Uma Maldição Cravada em Osso – Volume 2 da Saga dos Sem Destino” (Seguinte) – Danielle L. Jensen (Canadá) – Infantojuvenil – 408 páginas. “Espadas Cruzadas” (Seguinte) – Freya Marske (Austrália) – Infantojuvenil – 392 páginas. “De Repente Nós Dois” (Harlequin) – Alexis Daria (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Fogo Neles – Volume 1 da Série Traidores Divinos” (Galera) – Kamilah Cole (Jamaica) – Infantojuvenil – 376 páginas. “Julie Chan Está Morta” (Plataforma 21) – Liann Zhang (Canadá) – Infantojuvenil – 376 páginas. “A Vilã da Temporada” (Arqueiro) – Laurie Devore (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Quando Menos Se Esperava” (Intrínseca) – Cara Bastone (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Regras Práticas para Bruxas Amaldiçoadas” (Rocco) – Kayla Cottingham (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Maxton Hall – Salve-nos” (Alt) – Mona Kasten (Alemanha) – Infantojuvenil – 336 páginas. “O Deus e a Fantasma” (Harlequin) – Sophie Kim (Coreia do Sul) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Se Você Ficasse” (Galera) – Brittainy Cherry (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Nem Todo Outono É Igual” (Alt) – Misty Wilson (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Até Parece que É Amor” (Harlequin) – Megan Murphy (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Não é Uma Canção de Amor” (Arqueiro) – Julie Soto (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Dois Gatos Escaldados” (Paralela) – Chloe Liese (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 312 páginas. “Alquimia dos Segredos” (Gutenberg) – Stephanie Garber (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Invisível” (Arqueiro) – Eloy Moreno (Espanha) – Infantojuvenil – 304 páginas. “A Preterida” (Paralela) – Ava Rani (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “A Gaiola Sou Eu” (Alt) – Allison Sweet Grant (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Um Brilho no Ar” (Rocco) – Marissa Meyer (Estados Unidos) e Joanne Levy (Canadá) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Amor, Câmera, Ação” (Alt) – Katie Gilbert (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “A Maravilhosa Terra dos Snergs” (Wish) – E. A. Wyke-Smith (Inglaterra) – Romance – 264 páginas. “O Gato que Salvou a Biblioteca” (Outro Planeta) – Sosuke Natsukawa (Japão) – Infantojuvenil – 240 páginas. “Isadora Moon Vai Acampar – Volume 7 da Série Isadora Moon” (L&PM Editores) – Harriet Muncaster (Arábia Saudita/Inglaterra) – Infantojuvenil – 128 páginas. “Marv e o Ataque dos Dinossauros” (L&PM Editores) – Alex Falase-Koya (autor; Inglaterra) e Paula Bowles (ilustrador; Inglaterra – Infantojuvenil – 128 páginas. “Como Fazer Balas Mágicas” (Companhia das Letrinhas) – Heena Baek (Coreia do Sul) – Infantil – 56 páginas. “O Café À Beira da Floresta” (Companhia das Letrinhas) – Mikey Please (Inglaterra) – Infantil – 52 páginas. “A Rainha da Torre” (Companhia das Letrinhas) – Kari de la Vega (autora; Peru) e Fátima Ordinola (ilustradora; Peru) – Infantil – 48 páginas. “A Dança das Palavras” (Brinque-Book) – Kate Rolfe (Inglaterra) – Infantil – 40 páginas. “Perla e o Pirata” (Reco-reco) – Isabel Allende (autora; Chile) e Sandy Rodriguez (ilustradora; Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “Respire Fundo, Grande Monstro Vermelho!” (Brinque-Book) – Ed Emberley (Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “Urso Panda, Urso Panda, O Que Você Vê Aí?” (Companhia das Letrinhas) – Bill Martin Jr. (Estados Unidos) e Eric Carle (Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. “A Menina Gotinha de Água” (Globinho) – Papinano Carlos (autor; Moçambique/Portugal) e Carlo Giovani (ilustrador; Brasil) – Infantil – 32 páginas. “A Vaca Mais Rica do Mundo” (Reco-reco) – Barroux (França) – Infantil – 32 páginas. “Pega a Bola!” (Companhia das Letrinhas) – Susanne Strasser (Alemanha) – Infantil – 32 páginas. “O Urso Carteiro” (Brinque-Book) – Julia Donaldson (Inglaterra) e Axel Scheffler (Alemanha) – Infantil – 16 páginas. “As Meias do Sr. Raposo” (Brinque-Book) – Julia Donaldson (Inglaterra) e Axel Scheffler (Alemanha) – Infantil – 16 páginas. “Pip e Posy – No Parque” (VR Editora) – Axel Scheffler (Alemanha) – Infantil – 12 páginas. “Pip e Posy – Na Fazenda” (VR Editora) – Axel Scheffler (Alemanha) – Infantil – 12 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Na Ciranda do Tempo – Poemas Sobre Nossa Existência” (Planeta) – Maria Vilani – 160 páginas. “Rio Vermelho Rubro” (Citadel) – Isis Valverde – 128 páginas. “Aluvião” (Círculo de Poemas) – Davi de Jesus do Nascimento – 120 páginas. “As Ondas Pequenas que Estapeiam as Pilastras do Cais” (Laranja Original) – Luiz Divino do Lago – 112 páginas. “Jaguatirica” (Laranja Original) – Marcelo Valadão – 72 páginas. “Referencial Adotado” (Laranja Original) – Felipe Augusto – 64 páginas. “A Quatro Mãos” (Círculo de Poemas) – Roy David Frankel e Yasmin Nigri – 40 páginas. Que tal os lançamentos das livrarias brasileiras no bimestre passado?! Tem cada livrão à nossa espera, né? Aposto que tem muita gente por aí que, assim como eu, ficou com vontade de comprar e ler vários dos títulos citados. Para os leitores mais curiosos, aviso desde já que retornarei à coluna Mercado Editorial  no princípio de janeiro de 2026. A ideia do próximo post desta seção do blog será apresentar os lançamentos do último bimestre de 2025 no Brasil. Enquanto não sabemos quais livros vamos receber em novembro e dezembro, siga acompanhando o conteúdo das outras editorias do Bonas Histórias . Até porque, não faltam assuntos interessantes do universo artístico-cultural para debatermos até o Natal e o Réveillon, não é mesmo? I won't ask for much this Christmas/I won't even wish for snow, and I/I just wanna keep on waiting/Underneath the mistletoe. I won't make a list and send it/To the North Pole for Saint Nick/I won't even stay awake/To hear those magic reindeer click. Até a próxima, senhoras e senhores! No post da coluna Mercado Editorial   do início de outubro, vou apresentar os livros infantis mais vendidos em 2024. E na publicação do início de novembro, retornarei à divulgação das obras ficcionais e poéticas lançadas em nosso país no quinto (e penúltimo) bimestre de 2025. Enquanto esses materiais não pintam por aqui, não percam o conteúdo das demais seções do Bonas Histórias . Até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

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