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- Livros: O Caso Morel - O primeiro romance de Rubem Fonseca
Reli, no último final de semana, "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), o primeiro romance de Rubem Fonseca. Considerada por muitos críticos literários como uma das melhores criações ficcionais do escritor mineiro, esta obra foi cercada de muitas expectativas na época de sua publicação. Afinal, o principal contista da literatura brasileira lançava-se em um novo gênero narrativo. Seria Rubem Fonseca tão bem-sucedido na produção das narrativas longas assim como foi nas coletâneas de contos?! Esta era a pergunta que o público leitor e o mercado editorial faziam nos primeiros anos da década de 1970. Sob esse ponto de vista, “O Caso Morel” representou um ousado passo na carreira do seu escritor. Até então, todos os livros publicados por Rubem Fonseca tinham sido coletâneas de contos: "Os Prisioneiros" (Agir), de 1963, "A Coleira do Cão" (Nova Fronteira), de 1965, "Lúcia McCartney" (Agir), de 1967, e "O Homem de Fevereiro ou Março" (Nova Fronteira), de 1973. Curiosamente, as quatro obras foram premiadas e muito elogiadas. Assim, com quase 50 anos, o escritor nascido em Juiz de Fora e residente desde a adolescência no Rio de Janeiro mergulhava, enfim, na produção romanesca. Publicado em 1973, "O Caso Morel" tem 192 páginas. Esta publicação chegou às livrarias brasileiras no auge da ditadura militar. Vale lembrar que, nesta época, o AI-5, promulgado em 1968, já começava a enfrentar pesadas críticas e resistências de grupos civis. Conhecido como Período de Chumbo, o governo do ditador Emílio Garrastazu Médici, que durou de 1969 a 1974, reprimiu de maneira violenta aqueles que tinham opiniões contrárias. Como consequência, surgiram a política de censura da informação e o controle pesado das manifestações artísticas. Monitorava-se tudo o que era publicado em jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão. Era de se imaginar, portanto, que "O Caso Morel", um romance extremamente violento, ácido e crítico, caísse na malha fina da censura federal. Contudo, inexplicavelmente, ele foi autorizado a ser publicado. Sinceramente, não sei precisar como isso aconteceu. Talvez, naquele momento da história, os militares estivessem mais preocupados com o que era veiculado nos meios de comunicação e pelas letras das músicas populares. O maior controle ao conteúdo literário ainda demoraria alguns anos mais para ser efetivado. A maioria das proibições das obras de ficção aconteceu na segunda metade dos anos 1970. Em seu romance de estreia, Rubem Fonseca trouxe parte do estilo literário que marcou seus contos: retrato da violência urbana em todos os níveis sociais, linguagem coloquial e direta, enfoque às personagens marginalizadas da sociedade brasileira, erotismo acentuado e descrição de psicopatologias. Ou seja, “O Caso Morel” continha tudo aquilo que a censura poderia ver com maus olhos (mas que deixou passar!). Por si só, a iniciativa de Fonseca em retratar a sociedade brasileira de forma "nua e crua" já era um sinal de coragem por parte do escritor (atitude essa que podia ser encarada como uma afronta pelo repressor governo do período). "O Caso Morel" começa com seu protagonista, Paul Morel, confinado em uma cela prisional. Fotógrafo e pintor de relativo renome no Rio de Janeiro, ele vive uma fase decadente. Paul acalenta o desejo de escrever um livro enquanto aguarda a decisão da Justiça se deverá permanecer preso ou se deverá ser solto da cadeia. Assim, pede o auxílio de um profissional das letras. O delegado Matos indica Vilela, um antigo amigo seu, ex-policial, ex-advogado e atualmente escritor, para assessorar o preso na produção da obra literária. Vilela passa a visitar semanalmente Morel na prisão, lendo e comentando os manuscritos do artista. A secretária de Vilela, Hilda, é quem datilografa o livro desenvolvido pelo preso. Surpreendentemente, a obra de Paul Morel não é uma ficção e sim uma autobiografia. As páginas narram a história de vida do protagonista dos tempos de criança à vida precedente à prisão, com particular destaque aos hábitos sexuais do artista. Enquanto lê os rascunhos/originais de Morel, Vilela começa a se envolver com aquela narrativa. Pouco a pouco, Vilela vai se interessando pela história de Morel ao ponto de não conseguir mais parar de lê-la. Sua fixação é tanta que o escritor, que atua mais como leitor da biografia do prisioneiro do que como autor propriamente dito, se desespera quando Paul Morel afirma que vai parar de escrever o livro. Vilela também tem ciúmes da obra, não querendo que o delegado Matos a leia. Enquanto acompanhamos a curiosidade de Vilela, também conhecemos mais detalhes da história de vida de Morel. O fotógrafo e pintor é obcecado por mulheres e é viciado em sexo. Ele parece não pensar em outra coisa a não ser ir para a cama com o maior número de parceiras. Apesar do medo de ficar impotente, ele transa o tempo inteiro com várias mulheres diferentes, sem se envolver afetivamente com nenhuma delas. Ele frequenta prostíbulos e orgias para aplacar sua libido. Hedonista, ele está sempre bebendo e se drogando. Sua paixão pela pintura, pela literatura e pelas artes de maneira geral fica evidente com seus comentários culturais. Tarado, meio pervertido, um "tanto louco" e muito mentiroso, Paul Morel se envolve com cinco mulheres paralelamente: Joana é uma jovem de 20 anos, filha de embaixadores, que gosta de fazer sexo selvagem (ela é sadomasoquista); Elisa Gonçalves é uma senhora casada e rica, pertencente à alta sociedade carioca; Ismênia é a pintora que fora uma antiga paixão de Paul quando ele ainda era adolescente; Carmen é modelo fotográfica e prostituta; e Ligia, moça que Paul conheceu em uma festa na casa de Elisa, é a mais difícil delas, pois não aceitou fazer sexo com o artista no primeiro encontro. Paul é separado de Cristina, com quem foi casado por dez anos. Não querendo um novo relacionamento sério, o protagonista aceita morar com Joana quando a jovem afirma não exigir fidelidade do parceiro. Empolgado com o relacionamento aberto, Paul Morel vislumbra uma rotina poligâmica em sua residência. Assim, convida Carmen, Ismênia, Ligia e Elisa para integrarem sua "família". Nessa configuração conjugal alternativa, todas seriam suas esposas. Elisa Gonçalves foi a única das mulheres a recursar a proposta, apesar de frequentar o local regularmente durante o dia (à noite, ela voltava para a casa do marido legítimo). Ligia foi, mais tarde, excluída do clã por se desentender com o marido poligâmico. As outras três (Joana, Ismênia e Carmen) formaram o harém particular e fixo de Paul Morel. O conflito que rege o romance é a dúvida sobre o que originou a prisão do protagonista. O que, afinal, Paul Morel teria feito para estar detido pela polícia? Depois de conhecida a acusação (esta descoberta se dá na metade final do livro), a pergunta que o leitor se faz é: a personagem central é culpada ou é inocente daquilo que está sendo acusada? Esse duplo questionamento ronda a cabeça de Vilela, o primeiro leitor da autobiografia escrita por Paul Morel, e de nós, leitores de Rubem Fonseca. Essas dúvidas são o que dão graça a narrativa e criam o clima de suspense ao enredo do romance policial. Outro aspecto interessante desta obra é a mudança de foco narrativo. Em "O Caso Morel", há dois tipos de narradores: o observador e a personagem. O narrador observador surge quando a história é contada no tempo presente - Paul Morel está preso e a polícia investiga (cuidado, aí vai parte do spoiler!) quem foi o assassino de Heloísa Wiedecker. O narrador personagem aparece quando as lembranças de Paul Morel são narradas pelo próprio protagonista e remetem ao passado – conteúdo de sua autobiografia. O narrador observador é parcial, identificando-se e seguindo de perto os passos do escritor Fernando Vilela. Nesta parte do romance, o texto está escrito em terceira pessoa. Já o narrador personagem pode ser classificado como sendo do tipo protagonista, pois é o próprio Paul Morel/Paulo Morais quem relata a história. O texto, nesta parte do livro, está escrito em primeira pessoa. A diferença entre os narradores (primeira pessoa e terceira pessoa) é o principal recurso literário utilizado pelo autor para distinguir as duas partes da trama (passado e presente), o que ajuda o leitor a se situar nos acontecimentos narrados. "O Caso Morel" pode ser descrito como um conflito do tipo Personagem versus Sociedade. Afinal, a vida libertina, promíscua e hedonista de Paul Morel é encarada pela sociedade conservadora do Rio de Janeiro (e do Brasil) como uma afronta à moral e aos bons costumes das famílias tradicionais (apesar de boa parte da população também repetir, em menor escala e/ou de forma mais velada, grande parte das atitudes do artista). Assim, a rotina de devassidão de Morel choca a sociedade, que precisa freá-lo de alguma forma (a prisão é a alternativa mais fácil e politicamente correta). Ao não compreender essa perseguição (que julga inicialmente como injusta), Paul Morel começa a fazer uma autoanálise sobre sua trajetória pessoal e profissional. Ele quer descobrir o que levou a polícia a acusá-lo pelo crime de assassinato. As ações que permeiam o conflito são as aventuras sexuais de Paul Morel e sua vida libidinosa. O protagonista é viciado em sexo e vai para a cama com quase todas as mulheres do enredo. Ele retrata em sua autobiografia essas práticas sexuais que contêm sadismo, orgia, menáge a trois, escatologias, voyeurismo, masturbação, etc. Outros aspectos presentes nas ações desse romance são: a violência da sociedade brasileira, as injustiças sociais, a marginalização de parcela da população nacional e a opressão contra a camada mais pobre da nossa pirâmide social. Uma das características mais marcantes de “O Caso Morel” é o acentuado contraste entre os espaços narrativos (locais onde as cenas do livro acontecem). Ora a história se passa em lugares sujos, claustrofóbicos, pobres, violentos, escuros, mórbidos, bagunçados e hostis (penitenciária, cabaré, residência desarrumada, quarto de hospital, barraco, sobrado velho, casa pobre, cemitério, etc.), ora se passa em ambientes requintados, grandiosos e charmosos (mansão, restaurante romântico, hotel, cidade de Paris, casa espaçosa com belo jardim e piscina, etc.). Assim, o leitor encara constantemente as oposições espaciais (belo-feio, grande-pequeno, calmo-violento e rico-pobre). Em muitos momentos, o espaço narrativo escancara a agressividade/violência pela qual as personagens acabam submetidas. Como a maioria das personagens possui um caráter dúbio (um dos protagonistas é um mentiroso contumaz) é difícil precisar o que é verdade e o que é mentira na dupla narrativa do livro. O leitor precisa construir sua própria versão dos acontecimentos, conferindo certa subjetividade à interpretação do romance. Ou seja, é difícil, para quem lê a obra, saber o que é verdade e o que é mentira. Ao analisar este primeiro romance de Rubem Fonseca, dois elementos da linguagem chamam a atenção: a variedade de códigos linguísticos e o contraste das linguagens utilizadas pelo autor. O código linguístico prioritário utilizado em "O Caso Morel" é a língua portuguesa. Porém, ela não é a única. Há mais cinco idiomas usados por Rubem Fonseca para construir sua narrativa: o francês, o inglês, o italiano, o alemão e o latim. Ora esses outros idiomas são usados em uma palavra ou em uma expressão no meio do texto em português, ora são usados para compor citações ou na construção de parágrafos inteiros. Curiosamente, essas partes nas línguas estrangeiras não são traduzidas para o português. Ou o leitor é poliglota (como o escritor mineiro era) para entender esses trechos do texto ou ficará sem compreender a totalidade do conteúdo do livro. Uma das características mais curiosas deste romance está no contraste de linguagem. Rubem Fonseca produz um texto mesclando linguagem formal e linguagem cotidiana. Ele utiliza termos técnicos da medicina, da psicologia, do direito, da polícia, da literatura, das artes plásticas e do jornalismo ao mesmo tempo em que usa expressões populares e vulgares da linguagem cotidiana. Assim, seu livro apresenta uma acentuada variação entre o erudito/culto e o popular/escrachado. Esta obra possui muitas citações retiradas principalmente da literatura. A história de "O Caso Morel" é inteiramente entrecortada por inserções literárias extraídas de vários títulos. Esses trechos aparecem no meio do texto, pinçadas pelas personagens ou jogadas pelos narradores (lembremos que são dois os narradores!). O elemento da textualidade mais relevante deste romance é a intertextualidade. “O Caso Morel” pode ser descrito como uma overdose de citações e referências culturais. A maior incidência intertextual está, obviamente, no campo da literatura. Há menções a autores, obras e personagens que parecem não ter fim. Durante seu romance, Rubem Fonseca fala: do livro "Alice no País das Maravilhas", obra do inglês Lewis Carroll; das biografias do poeta francês Guy de Maupassant, do poeta anglo-americano W. H. Auden, do dramaturgo inglês William Shakespeare e do escritor francês Marcel Proust; do poema épico "Orlando Furioso", do italiano Ludovico Ariosto; dos ideais do escritor francês Honoré de Balzac; das personagens de Marquês de Sade; dos livros de Rainer Maria Rilke, Ezra Pound, T. S. Eliot, Arthur Rimbaud e D. H. Lawrence; das cartas da Marquesa de Sévigne; e de mais uma infinidade de outros autores e de incontáveis obras literárias. Até mesmo o nome artístico do protagonista do romance, Paulo Morel/Paul Morel, foi retirado do livro do inglês D. H. Lawrence, apesar do desmentido do personagem a Vilela no capítulo XVIII. Lembremos que o fotógrafo e pintor era um homem mentiroso e dissimulado... Depois da literatura, a maior incidência intertextual recaí sobre a pintura. São citados obras e artistas como Paolo Uccello, Johannes Vermeer, Jean-Auguste Dominique Ingres, Pablo Picasso, Victor Vassarely, Pierre Alechunsky, Man Ray, etc. Além disso, há referências e citações à filosofia (Francis Bacon, Sócrates, Platão), ao cinema (Agnès Varda e Ingmar Bergman), à escultura (Vênus de Milo), à psicologia (Sigmund Freud), à política (Adolf Hitler e Catarina, a Grande), à astronomia (Johannes Kepler, Nicolau Copérnico e Tycho Braher), entre outros. O desfecho desta obra de Rubem Fonseca é do tipo aberto. Por isso, quem gosta de um mistério saiba que ele poderá continuar mesmo após a conclusão da leitura do livro. Achei este expediente narrativo espetacular. Ele força o leitor a ler (ou mesmo reler) o romance com atenção. Além disso, o leitor é colocado na posição de julgador. Paul Morel é inocente ou é culpado para você? Eu tenho minha opinião muito clara desde a primeira leitura (reforçada agora nesta releitura), mas não vou emiti-la para não influenciar a sua. Por tudo isso, adorei "O Caso Morel". Ele é um romance policial incrível e demonstra que Rubem Fonseca não foi apenas um excelente contista, mas foi também um romancista de mão-cheia. O próximo livro que será lido e analisado no Desafio Literário de setembro é "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), talvez a mais polêmica obra de Rubem Fonseca. Os comentários sobre a coletânea de contos que foi censurada pela ditadura militar nos anos 1970 estarão no post do próximo domingo, dia 13, do Bonas Histórias. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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- Filmes: Nápoles Velada - O thriller surpreendente de Ferzan Ozpetek
Enquanto os cinemas tradicionais da cidade de São Paulo não retomam as atividades normais (há quem diga que eles voltarão a operar entre setembro e outubro), aproveitemos os festivais online que se propagam pelos quatro cantos da Internet. Nos últimos meses, comentei na coluna Cinema algumas produções exibidas pelo Festival Varilux em Casa, a excelente coletânea de filmes franceses que ficou em cartaz até 27 de agosto. Neste momento, há quatro bons festivais rolando simultaneamente: 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online, Mostra Mundo Árabe de Cinema, 46º Festival Sesc Melhores Filmes de 2019 e 8º Programa Digital do Cinema Suíço. Confesso que estou conferindo um pouquinho de cada um deles. Vou tentar comentar no Bonas Histórias os seus principais destaques. Dos títulos que assisti neste final de semana, o mais interessante é “Nápoles Velada” (Napoli Velata: 2017), o penúltimo longa-metragem do cineasta turco naturalizado italiano Ferzan Ozpetek. Inédito no circuito comercial brasileiro, este filme é o principal destaque do 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online (não confunda, o diretor pode até ter nascido na Turquia, mas sua produção é italiana!). Protagonizado pelos ótimos Giovanna Mezzogiorno e Alessandro Borghi, “Nápoles Velada” foi exibido pela primeira vez no Brasil em outubro de 2018 na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Curiosamente, naquela oportunidade, ele foi apresentado com outro nome: “O Segredo de Nápoles”. De qualquer forma, apesar da bizarrice tupiniquim (um filme ser lançado no país com dois nomes distintos!), o novo título em português ao menos respeita mais a versão original (em italiano). “Nápolis Velada” é um thriller noir que foi exibido no circuito comercial italiano a partir de dezembro de 2017 e alcançou US$ 7 milhões de bilheteria. No exterior, o filme foi lançado nas salas de cinema da Turquia, da Bulgária e da Coreia do Sul no segundo semestre de 2018. Seu enredo foi desenvolvido por Ferzan Ozpetek ao longo de dois anos. Para tal, o diretor contou com a colaboração da dupla de roteiristas Valia Santella e Gianni Romoli. A ideia para a construção da história de “Nápoles Velada” surgiu em uma festa de 2007. Naquele evento, Ozpetek, que na época já era um dos principais cineastas da Itália, teve uma conversa intrigante com uma mulher desconhecida. Ao final do bate-papo, a moça, de grande beleza e demonstrando grande conhecimento cultural, surpreendeu o diretor dizendo ser uma médica-legista. Os contrastes entre a personalidade alegre e afável da mulher e sua profissão fúnebre mexeram com o diretor. Aproveitando uma temporada passada em Nápoles, quando Ferzan Ozpetek acompanhava a adaptação de um de seus filmes para o teatro, ele decidiu ambientar aquela história (da mulher bonita e inteligente que cuidava de cadáveres) na icônica cidade do sul da Itália. Assim, Nápoles surge como uma personagem indireta e importante deste filme. O enredo de “Nápoles Velada” começa em uma festa que sucedeu a uma apresentação teatral. Adriana (interpretada por Giovanna Mezzogiorno), uma médica-legista napolitana, solteira e de meia-idade, conhece Andrea (Alessandro Borghi), um rapaz bonito e muito mais jovem do que ela. Sem rodeios, os dois vão para cama em uma noite de sexo tórrido. É amor à primeira vista. O novo casal combina de se encontrar no dia seguinte no museu arqueológico de Nápoles. Contudo, para a decepção da apaixonada Adriana, Andrea não aparece no encontro. O moço simplesmente desaparece do mapa, não respondendo mais as ligações e as mensagens da médica. Alguns dias depois, Adriana descobre, enfim, o que aconteceu com seu affair. Ela é surpreendida durante uma autópsia de um corpo de um jovem desfigurado e sem identidade. Por causa da tatuagem de um ser mitológico na virilha do homem morto, a legista tem a certeza de que o rapaz na mesa de autópsia é Andrea. Por isso, ela chama imediatamente a polícia para identificar a identidade do falecido. Mais tarde, Adriana é informada sobre o que poderia ter ocorrido com sua paixonite de uma noite. Segundo os policiais que investigam o crime, Andrea era um ladrão de obras de arte que foi, muito provavelmente, assassinado por uma das organizações criminosas com quem trabalhava. Ele foi morto exatamente quando chegava ao museu arqueológico. Abalada com as descobertas recentes, a doutora não quer acreditar na versão da polícia. Mesmo com a morte de Andrea, Adriana não consegue esquecê-lo, entrando, assim, em uma fase de negação e de depressão. O auge de seu turbilhão emocional ocorre quando ela começa a procurar/ver a figura de Andrea pela cidade: no vagão do trem, na estação de trem, no jardim de casa, caminhando pelas ruas... Será que o rapaz não morreu e ainda está vivinho da Silva por aí?! Com uma dose de sorte, Adriana descobrirá alguns segredos de Andrea que nem mesmo a polícia sabe. Em uma jornada de enlouquecer qualquer um, a médica-legista mergulhará em um thriller policial capaz de mexer e de remexer com seu já frágil sistema emocional. Ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que está acontecendo/o que aconteceu com seu amante, Adriana será levada a uma investigação particular sobre seu passado – a relação conflituosa dos pais já falecidos (a mãe assassinou o pai na frente da filha, quando ela ainda era uma menina). Com 115 minutos de duração, “Nápoles Velada” é um bom suspense romântico-policial. O espectador fica preso à rede de mistérios tecida pela narrativa a ponto de não desgrudar os olhos da tela. Porém, o duplo mistério (o que aconteceu com Andrea? E o que aconteceu com os pais de Adriana?) não é totalmente homogêneo. Enquanto a primeira parte (o que aconteceu com Andrea?) é empolgante e reserva surpresas inimagináveis (um dos pontos altos do filme!), a segunda parte (o que aconteceu com os pais de Adriana?) é recheada de clichês e banalidades. Para piorar, em muitos momentos, o enredo cinematográfico dá mais destaque para os dramas do passado dos pais da protagonista (algo que não desperta a mínima curiosidade da plateia!) do que para os dramas policial-sentimentais atuais da personagem principal (algo que todos querem saber). Um dos destaques de “Nápoles Velada” é a sua trilha sonora. Impossível não ficar encantado com as canções deste filme. Em muitos momentos, o som torna-se um protagonista do longa-metragem, jogando as imagens para o segundo plano. A trilha sonora foi inteiramente produzida por Pasquale Catalano, um dos principais compositores italianos da atualidade. Catalano, um músico napolitano especializado em produções cinematográficas, começou a colaborar com Ozpetek em “O Primeiro que Disse” (Mine Vaganti: 2010). A partir daí, o napolitano foi o responsável por todas as trilhas sonoras do diretor turco-italiano – exceção a “Rosso Istanbul” (2017). Para você ter uma ideia da qualidade da trilha sonora de “Nápoles Velada”, um álbum musical foi lançado na Itália, na mesma época da exibição do filme, para promover as canções do longa-metragem. Quando falo que o som é um protagonista desta produção de Ferzan Ozpetek, não estou me referindo apenas as músicas (de Catalano). Repare, por exemplo, que muitos dos flashbacks das personagens de “Nápoles Velada” são feitos não pelas imagens e sim pelos sons. As imagens ficam paradas no presente, enquanto as lembranças auditivas das figuras em cena voltam para o passado. E para o espectador, a viagem no tempo é feita quase que exclusivamente pelos sons. É muito interessante este recurso cinematográfico (não me lembro de tê-lo visto em outros filmes). Já que estamos falando em protagonistas inusitados, vamos falar da cidade de Nápoles – indiscutivelmente uma personagem central do filme. O município sulino surge como uma figura importante deste longa-metragem não apenas como cenário narrativo, mas como ambientação noir. Vale destacar que esta localidade é vista tradicionalmente como um dos lugares mais perigosos do mundo (berço da máfia – lembremos da Camorra). Se muita gente relaciona a cidade do Rio de Janeiro com o tráfico de drogas, com as disputas das gangues pelo comando nos morros e com o estabelecimento de um governo paralelo, há quem aponte Nápoles como o Rio de Janeiro da Europa. Parte da compreensão do enredo policial do filme passa diretamente pela identificação deste cenário social-político-criminal da cidade italiana. No começo do filme, o cenário napolitano é menos óbvio e menos turístico (exatamente por isso, mais interessante também). As cenas são realizadas em partes de Nápoles mais comuns aos moradores e aos fãs do roteiro artístico-cultural do município. À medida que o filme se desenrola, Ozpetek não consegue se segurar e aí sua câmera passa a retratar os cenários mais conhecidos dos visitantes de Nápoles: as caóticas feiras-livres, a belíssima orla marítima, as casas sobrepostas umas às outras, os becos claustrofóbicos, o banditismo urbano. Não há clichês napolitanos maiores que estes, né? Como é típico dos filmes de Ferzan Ozpetek, há muita sensualidade e erotismo em “Nápoles Velada”. A cena de sexo ardente de Adriana e Adrian logo no início é ousada, porém é totalmente condizente com a proposta da história (serve de gatilho para tudo o que acontecerá depois). Já algumas cenas posteriores de nudismo explícito me pareceram mais apelativas do que necessariamente fundamentais para a construção da estética cinematográfica. Uma pena! Quanto ao roteiro de “Nápoles Velada”, o destaque vai para as reviravoltas de sua trama. Apesar deste longa-metragem de Ozpetek não ter guinadas narrativas tão originais assim - há vários filmes norte-americanos que trabalham com o mesmo tipo de drama vivenciado por Adriana (cuidado aí vai o spoiler!!!), como “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense: 1999), “Clube da Luta” (Fight Club: 1999), “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind: 2001) e “Amigo Oculto” (Hide And Seek: 2004) -, ainda sim é legal assistir ao surpreendente desfecho. Neste quesito, o final de “Nápoles Velada” se torna mais interessante pela última cena, que é literalmente arrepiante e embaralha a interpretação do espectador. Por isso, considerei o desenlace desta produção um pouco aberto (e/ou com um quê de sobrenatural). Um ponto negativo que identifiquei foi o climão de telenovela mexicana das cenas rodadas no ambiente familiar da protagonista. Nesses instantes, as personagens se tornam caricatas, os acontecimentos são óbvios, as interpretações dos atores parecem exageradas e até as cores das câmeras são mais acentuadas. Não se surpreenda, portanto, se no meio da sessão você se sentir em uma produção de classe B (no passado, chamávamos essa categoria de filmes trash). Sinceramente, não entendo o gosto de muitos cineastas italianos por esta quedinha pelo popularesco (seria resquícios do Spaghetti Western?!). De modo geral, “Nápoles Velada” é um bom filme. Seus elementos positivos superam os aspectos negativos. As surpresas do roteiro (reservadas para o final) valem, por si só, a experiência de encarar esta produção de Ferzan Ozpetek. Por outro lado, este longa-metragem está distante dos melhores títulos do diretor turco-italiano. Não espere encontrar aqui a força narrativa de “O Primeiro que Disse” ou “Saturno em Oposição” (Saturno Contro: 2007). Veja, a seguir, o trailer de “Nápoles Velada”: Se você ficou interessado em conferir este filme e os demais títulos do 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online, saiba que a mostra ficará em cartaz somente até quinta-feira, dia 10. As produções italianas do festival estão disponíveis gratuitamente na plataforma de streaming Looke. São mais de 20 longas-metragens entre títulos inéditos no país, como “Os Mosqueteiros do Rei” (I Moschettieri del Re - La Penultima Missione: 2018), “Um Peixe Fora D´Água” (Come un Gatto in Tangenziale: 2017) e “Bendita Loucura” (Benedetta Follia: 2018), e obras recém-saídas dos cinemas nacionais, como “Desafio de um Campeão” (Il Campione: 2019), “O Rei de Roma” (Io Sono Tempesta: 2018), “Testemunha Invisível” (Il Testimone Invisibile: 2018) e “E Agora? A Mamãe Saiu de Férias!” (10 Giorni Senza Mamma: 2019). Além das ficções, a mostra também possui alguns documentários, como “Selfie” (2019), “A Passagem” (Il Varco: 2019) e “Normal” (2019), e cinebiografias, como “Nico, 1988” (2017). Como a maioria das seleções cinematográficas, 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online possui ótimas pedidas, como “Nápoles Velada”, “Desafio de um Campeão”, “O Rei de Roma” e “Testemunha Invisível”, mas também reserva algumas barcas furadas, como as comédias “Bendita Loucura” e “E Agora? A Mamãe Saiu de Férias!”. A maioria dos filmes pode ser acessada normalmente até o fim do festival, enquanto alguns títulos específicos ficam disponíveis por apenas 24 horas. Vale a pena conferir! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Lúcia McCartney - O primeiro best-seller de Rubem Fonseca
Na segunda metade da década de 1960, Rubem Fonseca já era considerado um dos grandes escritores nacionais de sua geração. Seus dois primeiros livros de contos, "Os Prisioneiros" (Agir), de 1963, e "A Coleira do Cão" (Nova Fronteira), de 1965, revolucionaram o gênero das narrativas curtas e foram recebidos com muita empolgação pela crítica literária da época. Fonseca não era visto apenas como um novato talentoso e sim como um autor peculiar que logo de cara conseguiu imprimir um estilo forte e único na literatura brasileira. O sucesso retumbante de público e a conquista dos principais prêmios literários do país, contudo, só chegariam com a publicação de sua terceira coletânea de contos, "Lúcia McCartney" (Agir). Com este livro, Rubem Fonseca tornou-se um best-seller nacional e entrou definitivamente para o panteão dos grandes autores contemporâneos do Brasil. Exatamente por isso, iniciamos o Desafio Literário de setembro, a principal coluna do Bonas Histórias, com a análise desta obra. Lançada originalmente com o nome de "Ficção e Não" (Olivé Editor), em 1967, esta coletânea de contos foi relançada, em 1969, com o título definitivo de "Lúcia McCartney". O nome é uma referência à narrativa mais marcante da obra. Com a nova edição, o livro tornou-se um dos mais vendidos nas livrarias brasileiras daquele ano e ganhou o prêmio Jabuti de 1970 na categoria Contos/Crônicas/Novelas (o primeiro dos seis prêmios Jabuti que Fonseca ganharia ao longo da carreira). A crítica derreteu-se como nunca pelo autor mineiro. Sérgio Sant'Anna, autor de "Senhorita Simpson" (Companhia das Letras) e de "O Sobrevivente" (Edições Estória), declarou que "Lúcia McCartney" era a publicação brasileira mais importante dos últimos anos. Os demais críticos endossaram a opinião de Sant'Anna e enalteceram a força dramática e as inovações estéticas propostas por Rubem Fonseca. "Lúcia McCartney" possui 19 contos distribuídos em 240 páginas. Há histórias curtíssimas, que ocupam apenas uma página (um parágrafo), e outras maiores, que se estendem por vinte, trinta páginas. A leitura deste livro é muito rápida, sendo possível fazê-la de uma tacada só. Foi o que fiz no domingo à tarde. Acho que demorei de duas horas a duas horas e meia para percorrer todas as páginas desta publicação. A primeira história da obra é "O Desempenho". Nesta trama, acompanhamos o fluxo de pensamento de um lutador de luta livre no momento que está no ringue combatendo um adversário. O segundo conto é o famoso "Lúcia McCartney", a amalucada narração em primeira pessoa de uma prostituta da Zona Sul carioca. A protagonista é fã dos Beatles e gosta da vida boêmia que leva no Rio de Janeiro. Um dia, porém, a jovem de 18 anos se vê apaixonada por um cliente, um paulista bem mais velho do que ela. Aí, Lúcia entra em desespero. Em seguida temos, "O Quarto Selo (Fragmento)", "O Caso de F.A." e "*** (Asteriscos)". Esses contos tratam, respectivamente, de um matador de aluguel contratado para assassinar o governador, de um cliente que procura o advogado/investigador Mandrake para resgatar uma jovem prostituta das garras da cafetina e da divulgação de uma peça teatral considerada inovadora pelo seu dramaturgo, mas que é odiada pelo público. Essas são as narrativas mais engraçadas do livro. "Âmbas Gris" apresenta uma conversa em que se discute qual seria o animal mais inteligente do planeta. "Meu Interlocutor" trata de uma conversa entre dois homens que descamba para a violência física. "O Encontro e o Confronto" mostra dois amigos entediados em um programa com prostitutas. "Um Dia Na Vida" relata a rotina de um soldado do Exército. E "Corrente" descreve uma mensagem recebida pelos Correios que promete uma graça se for cumprida (para tal, é preciso enviar a mesma carta para mais um tanto de pessoas). A segunda metade do livro começa com "A Matéria do Sonho". Neste conto, temos o relato em primeira pessoa de um homem com dificuldade para se relacionar sexualmente com as mulheres. Por isso, sua vida se transforma quando ele conhece a Gretchen. Depois, surgem "Correndo atrás de Godfrey", "Véspera" e "Zoom", que tratam, respectivamente, de um homem que procura Godfrey pelas ruas de Manhattan, de um rapaz bêbado perturbado com a chegada do Natal e de um hóspede de hotel que sofre de insônia. Os últimos contos são "Os Inocentes", "J.R. Harder, Executive", "Os Músicos", "Manhã de Sol" e "Relato de Ocorrência em que Qualquer Semelhança Não é Mera Coincidência". Nestas tramas, temos: o corpo de uma mulher nua é trazido pelas ondas até a praia; o relato de um executivo norte-americano sobre a vida do Sr. Harder; o drama da viagem de navio feita por um músico; a prisão de um homem que roubou uma mulher na feira; e a reação dos moradores pobres de uma localidade diante do atropelamento de uma vaca na estrada. O que torna "Lúcia McCartney" um livro tão espetacular é a união de um conteúdo forte com uma proposta estética inovadora. Ou seja, temos a junção de ótimos temas com uma forma peculiar de escrita que Rubem Fonseca foi lapidando com o tempo. O conteúdo destes contos é tipicamente fonsequiano: a violência familiar, a brutalidade coletiva e a pobreza de caráter das pessoas de todas as classes sociais (de executivos e ricos empresários a prostitutas, assassinos de aluguel, pobres e indivíduos marginalizados socialmente). Sérgio Sant'Anna chegou a afirmar no final da década de 1960: “Dificilmente se encontrará um contista com universo tão abrangente, (...) atento para todas as coisas do mundo (...) e com um olhar extremamente penetrante (para a realidade contemporânea)”. Por sua vez, a forma da prosa de Rubem Fonseca possui uma linguagem seca, um ritmo narrativo acelerado, diálogos pouco convencionais, a mistura de idiomas (inserção de trechos em inglês, francês e latim, por exemplo) e muito humor. Mesmo diante de tantas tragédias e de cenas de violência gratuita, o leitor se pega rindo com o que lê. O humor neste caso é, obviamente, o humor negro. O autor expõe as fragilidades morais e psicológicas das personagens retratadas com um jeito leve e divertido. Os contos que mais gostei foram "Lúcia McCartney", "O Caso de F.A.", "O Quarto Selo (Fragmento)", "*** (Asteriscos)", "Um Dia Na Vida" e "Relato de Ocorrência em que Qualquer Semelhança Não é Mera Coincidência". Em "Lúcia McCartney", vemos a futilidade e as bizarrices de uma jovem prostituta que ironicamente se apaixona pelo cliente, um paulista rico que a despreza. Ou seja, temos a inversão dos papéis típicos (normalmente é o cliente que se apaixona pela meretriz mais nova). Além disso, é interessante notar algumas inovações estéticas propostas por Rubem Fonseca no texto, algo que seria feito em maior escala por Ignácio Loyola Brandão, dez anos mais tarde, em "Zero" (Global). Os fãs dos Beatles também irão notar certa intertextualidade musical neste conto: o nome de Lúcia é referência à “Lucy in the Sky With Diamonds”, um dos maiores hits da banda inglesa. Em "O Caso de F.A.", temos a apresentação de um dos protagonistas mais famosos da literatura de Rubem Fonseca, o advogado mulherengo Mandrake. Mandrake seria mais tarde a personagem principal de algumas narrativas longas do escritor mineiro: do romance "A Grande Arte" (Círculo do Livro), de 1983, da novela "E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto" (Companhia das Letras), de 1997, e do romance "Mandrake a Bíblia e a Bengala" (Companhia das Letras), de 2005. Curioso notar que já na coletânea de contos de 1967/1969, a constituição psicológica e as características morais de Mandrake já estavam totalmente consolidadas. Em "O Quarto Selo (Fragmento)", temos uma típica aventura policial que poderia muito bem ter se transformado em um romance (se o escritor assim quisesse). Afinal, o herói desta trama é o típico anti-herói que mais tarde Rubem Fonseca usaria e a abusaria em suas narrativas longas. "*** (Asteriscos)" e "Um Dia Na Vida" são críticas bem humoradas à realidade nacional. Ambas tiveram forte componente autobiográfico. "*** (Asteriscos)" fala de um artista supostamente inovador, mas que é na verdade ruim. Rubem Fonseca conviveu com muitos dramaturgos. E "Um Dia Na Vida" descreve as situações corriqueiras em um quartel do Exército sob o ponto de vista de um soldado. O soldado é o próprio autor, que passou pela mesmíssima experiência, conforme narrado na novela autobiográfica "José" (Companhia das Letras), de 2011. E, por fim, temos "Relato de Ocorrência em que Qualquer Semelhança Não é Mera Coincidência", que traz uma forte crítica social à fome e à miséria no Brasil. A compreensão das atitudes das pessoas só pode ser explicada pelo conhecimento de suas situações econômicas e pela carência de alimentos em suas mesas. O sucesso de "Lúcia McCartney" foi tão grande no final dos anos 1960 e no início da década de 1970 que a história da prostituta que adorava os Beatles virou peça de teatro, filme, programa de TV e minissérie televisiva nos anos seguintes. A adaptação teatral de 1987 teve a atriz Maria Padilha no papel principal. Já na telona, quem interpretou a jovem prostituta foi a atriz Adriana Prieto. O filme "Lúcia McCartney - Uma Garota de Programa", dirigido por David Neves e lançado em 1971, uniu a história do conto homônimo com a de "O Caso de F.A.". A Rede Globo exibiu, em 1994, uma versão de teleteatro desta história em seu programa chamado "Caso Especial". Mais recentemente, uma minissérie de TV foi criada a partir do conto de Rubem Fonseca. O GNT, emissora de TV a cabo do Grupo Globosat, exibiu a minissérie baseada na história de Lúcia McCartney entre 2016 e 2017. Curiosamente, o roteiro da série foi escrito por José Henrique Fonseca, o filho do escritor que é cineasta. Admito ter gostado bastante deste livro. Para mim, "Lúcia McCartney" continua sendo uma obra moderna tanto em sua temática quanto em sua estética. O difícil é decidir se Rubem Fonseca é melhor como contista ou como romancista. Talvez essa polêmica jamais tenha fim... Na quarta-feira da semana que vem, dia 9, retorno ao Bonas Histórias com a análise de mais um livro de Rubem Fonseca do Desafio Literário de setembro. O próximo post será sobre o romance "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), a estreia de Rubem Fonseca nas narrativas longas. Não perca as próximas análises do Desafio Literário deste mês. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Conte Outra Vez - Contos inspirados nas músicas de Raul Seixas
Neste final de semana, li um livro curioso. Eu o baixei gratuitamente há cerca de três ou quatro meses em uma visita despretensiosa à Loja Kindle, da Amazon. Contudo, só agora consegui lê-lo. A publicação em questão é “Conte Outra Vez” (ebook), uma coletânea de contos inspirada nas músicas de Raul Seixas. Organizada por T. K. Pereira, esta obra reúne 35 narrativas curtas criadas a partir do panorama musical do principal roqueiro da história do Brasil. O material ainda traz uma elegia criada por Bráulio Tavares. Com uma proposta tão ousada, uma capa belíssima estampando o rosto do músico baiano e um título intertextual (“Tente Outra Vez” é uma das canções mais conhecidas de Raulzito), achei este livro uma ótima opção de leitura. Só não o li antes pois estava mergulhado nos materiais do Desafio Literário desta temporada do Bonas Histórias. “Conte Outra Vez” foi publicado em agosto de 2019 exclusivamente na versão digital. O lançamento desta obra homenageou o trigésimo aniversário de falecimento de Raul Seixas. Morto aos 44 anos, em 21 de agosto de 1989, em São Paulo, o roqueiro sucumbiu ao alcoolismo, que o acompanhou por muitos anos, e pelo esquecimento de tomar insulina na noite anterior (ele era diabético). Se naquela data o Brasil perdia um dos seus principais artistas, o país ganhou, a partir de então, um ícone musical. Até hoje, o baiano que misturou ritmos (baião, chorinho, samba, bolero etc.) ao rock norte-americano é aclamado por várias gerações, algumas que nasceram depois de seu falecimento. É incrível notar a perenidade de seu trabalho e de seu nome na cultura popular brasileira. “Conte Outra Vez” serve-se justamente desse saudosismo e da força narrativa das composições de Raul Seixas. A proposta do livro é que cada conto, produzido por um autor diferente, dialogasse com uma canção distinta do roqueiro. Ao todo são 35 pequenas histórias sobre 34 músicas (temos, no meio do caminho, a repetição de uma música). E a elegia não foi inspirada em uma canção específica e sim nas trajetórias pessoal e profissional do Maluco Beleza. Assim, sob a coordenação de T. K. Pereira, que também escreveu uma história, três dezenas e meia de bons escritores de vários cantos do país lançaram-se ao desafio de reproduzir as ideias, as tramas ficcionais e as concepções filosóficas das músicas de Raulzito para a literatura contemporânea. Dialogando livremente com as letras e com as melodias selecionadas, eles tinham que recriar o universo caótico, amalucado, místico, libertário, contestador e, por que não, preconceituoso de Raul Seixas. No grupo de autores convidados para participar da coletânea de contos temos, além dos próprios T. K. Pereira e Bráulio Tavares, Adriane Garcia, Alessandra Bacelar, Alessandro Garcia, Ana Elisa Ribeiro, Ana Luiza Rizzo, Betzaida Mata, Bruna Brönstrup, Bruno Ribeiro, Cinthia Kriemler, Cris Vazquez, Cristiano Rato, Eduardo Sabino, Elizabeth Gouvea, Gisela Rodriguez, Irka Barrios, Ivandro Menezes, João Matias, Joedson, Julia Dantas, Katia Gerlach, Matheus Borges, Maurem Kayna, Nathalie Lourenço, Renata Wolff, Roberto Menezes, Samuel Medina, Sérgio Tavares, Simone Teodoro, T. S. Marcon, Tadeu Sarmento, Taiane Maria Bonita, Tiago Germano, Tiago Motta e Wander Shirukaya. As músicas consideradas neste projeto editorial foram: “Se o Rádio Não Toca”, “Para Nóia”, “Metamorfose Ambulante”, “O Trem das 7”, “Ave Maria da Rua”, “Check-up”, “Maluco Beleza”, “Ouro de Tolo”, “Al Capone”, “Na Rodoviária”, “Canto pra Minha Morte”, “Você Roubou Meu Videocassete”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Gita”, “Mosca na Sopa”, “A Maçã”, “Sociedade Alternativa”, “Meu Amigo Pedro”, “Gospel”, “Paranóia II”, “Medo da Chuva”, “Aluga-se”, “Segredo da Luz”, “Caminhos”, “Trem 103”, “Metrô Linha 743”, “S.O.S.”, “Tente Outra Vez”, “Mamãe Eu Não Queria”, “Dr. Pacheco”, “Judas”, “Sessão das 10”, “Como Vovó Já Dizia” e “Rock das Aranhas”. Não é preciso ser um grande fã de Raul Seixas para notar que seus principais sucessos estão contemplados nesta lista. Só senti falta mesmo de “Cowboy Fora da Lei”, “Eu Nasci Há 10 mil Anos Atrás” e “O Carimbador Maluco”, hits famosos que não podiam faltar em uma boa coletânea de canções do astro. “Conte Outra Vez” possui 264 páginas. Seus 35 contos são “Doutor Pacheco, o Herói dos Dias Úteis” (de Tadeu Sarmento), “Manual de Escrita Criativa” (de Ivandro Menezes), “É Chato Chegar a Um Objetivo Num Instante” (Ana Elisa Ribeiro), “Bel Cadore” (Cris Vasquez), “Lírios do Campo, Cebolas e Alhos” (de Cinthia Kriemler), “Limo, Traças e Outros Efeitos da Chuva” (Maurem Kayna), “Matinês” (Tiago Germano), “Sociedades Alternativas” (de Joedson), “Depois do Fim” (Ana Luiza Rizzo), “S.O.S.” (Simone Teodoro), “A Mulher Mais Sábia” (Irka Barrios), “A Música que Você Quer Ouvir” (de Adriane Garcia), “Duas Versões de uma Mesma História” (de Tiago Motta), “As Baianas Não Cantam Gospel” (de Kátia Gerlach), “As Chaves do Céu” (de T. K. Pereira), “Trago Comigo Um Boneco de Resina” (de João Matias), “Caminhos” (de Roberto Menezes), “Intuição do Deserto” (de Alessandra Bacelar), “A Noiva da MG-030” (de Eduardo Sabino), “Sentir” (de Alessandro Garcia), “Glória e Perdição” (de Julia Dantas), “Nas Letras do Teu Nome” (de Betzaida Mata), “Volta ao Redor da Minha Mente” (de Bruno Ribeiro), “A Poeta e o Mendigo” (Gisela Rodriguez), “Malhação de Judas” (Taiane Maria Bonita), “Na Rodoviária” (de Cristiano Rato), “Versão Brasileira” (de Nathalie Lourenço), “Uma Cobra, Duas Aranhas” (de Wander Shirukaya), “Homens Sem Princípios” (de Sérgio Tavares), “Mas Fui, Obrigado” (T. S. Marcon), “O Bilhete” (de Samuel Medina), “O Mágico” (de Renata Wolff), “Parasita” (Matheus Borges), “Pietro” (de Bruna Brönstrup) e “O Roubo” (de Elizabeth Gouvea). No último texto do livro, temos a elegia “Chegada de Raul Seixas ao Castelo de Avalon” (de Bráulio Tavares). Os versos foram musicados pelo compositor. Há inclusive um vídeo no YouTube com a performance de Tavares. Em “Doutor Pacheco, o Herói dos Dias Úteis” (baseado em “Doutor Pacheco”), assistimos ao enlouquecimento do protagonista, cansado de sua vidinha tediosa no escritório. O segundo conto é “Manual de Escrita Criativa” (inspirado em “Mosca na Sopa”). Nele, um escritor iniciante sofre para produzir a primeira cena de seu texto ficcional. “É Chato Chegar a Um Objetivo Num Instante” é a narrativa (criada a partir de “Metamorfose Ambulante”) em que um músico principiante sofre ao tocar em um barzinho ao lado de sua banda desconhecida. “Bel Cadore”, a quarta narrativa do livro (elaborada em cima de “Al Capone”), apresenta a chefe de uma famosa rede de prostituição. Bel, como a personagem é chamada, só foi presa porque sonegou o Imposto de Renda. Em “Lírios do Campo, Cebolas e Alhos” (história coirmã de “Ouro de Tolo”), Carlos Emannuel foi criado na riqueza, mas ficou pobre depois da morte e da falência do pai. Aí, o rapaz se apegou à religião para se reerguer. “Limo, Traças e Outros Efeitos da Chuva” (“Medo da Chuva”) trata de uma universitária de 23 anos que está dividida entre o casamento com um rapaz sério e bem-quisto por sua família e a paixonite por um colega aventureiro e cabeludo. “Matinês” (baseado em “Sessão das 10”) mostra a relação das diferentes gerações de uma família com o cinema de sua pequena cidade do interior. O oitavo conto de “Conte Outra Vez” é “Sociedades Alternativas” (inspirado em “Sociedade Alternativa”). Ele é uma distopia em prosa poética que narra a evolução das comunidades hippies ao longo dos tempos. Em “Depois do Fim” (criado a partir de “O Trem das 7”), Rosa é uma professora que teve problemas no parto dos gêmeos. Por isso, precisou deixar para sempre a escola em que trabalhava. “S.O.S.”, a décima narrativa da coletânea (elaborada em cima da canção homônima), apresenta a dupla de extraterrestres que visita o Brasil em 1989. Eles recebem um chamado inusitado. Em “A Mulher Mais Sábia” (história nascida de “Gita”), Yukino ouve em seus sonhos uma voz recorrente. Por isso, ela resolve explorar uma área sombria e abandonada da cidade em busca das revelações de um mundo igualitário. “A Música que Você Quer Ouvir” (“Se o Rádio Não Toca”) trata de uma moça recém-saída da puberdade que é estuprada por um homem chamado Murilo. Para sua perplexidade, seus pais exigem que ela se case com o estuprador. Em “Duas Versões de Uma Mesma História” (baseado em “Como Vovó Já Dizia”), assistimos ao drama de um rapaz que trabalha sem parar editando filmes publicitários. Após várias noites não dormidas, o que ele mais quer é achar seus colírios. A décima quarta história do livro é “As Baianas Não Ouvem Gospel” (inspirado em “Gospel”). Nela, um cantor brasileiro vive exilado em Nova York. Lá, ele visita John Lennon, enquanto precisa sobreviver pelas ruas da cidade norte-americana. “As Chaves do Céu” é a narrativa (criada a partir de “Tente Outra Vez”) em que um músico famoso vive o ocaso profissional. Deprimido, ele só pensa em se suicidar, caminho mais fácil para aplacar suas dores íntimas. “Trago Comigo Um Boneco de Resina”, o décimo sexto conto da coletânea (elaborado em cima de “A Maçã”), apresenta Lucrécia. Mulher do vereador, ela é julgada pelo assassinato do marido. Em “Caminhos” (história coirmã da canção homônima), a fauna e a flora são impactadas pelas transformações produzidas pelas mudanças das estações – a passagem do Inverno para a Primavera. “Intuição no Deserto” (“Para Nóia”) trata das reflexões de Ariadne, uma mulher que insiste em sobreviver às adversidades da vida. Ao caminhar por uma estrada em um dia de forte calor, ela encontra uma mãe e uma filha. A cena suscita lembranças de sua infância. “A Noiva da MG-030” (baseado em “Canto para Minha Mente”) mostra a viagem de um ônibus pelas estradas de Minas Gerais. Na madrugada chuvosa, uma mulher vestida de noiva acena para o ônibus, mas só um passageiro avista a cena. O vigésimo conto de “Conte Outra Vez” é “Sentir” (inspirado em “Meu Amigo Pedro”). Narrada em segunda pessoa do singular, esta história mostra a rotina de Pedro, um rapaz obcecado por uma colega do escritório. Em “Glória e Perdição” (criado também a partir da música “Meu Amigo Pedro”), Luísa, a recepcionista anárquica de um escritório, e Pedro, o analista certinho daquela empresa, fazem amizade, apesar das incontáveis diferenças entre eles. “Nas Letras do Teu Nome”, a vigésima segunda história da coletânea (elaborada em cima de “Ave Maria da Rua”), apresenta o drama de uma diarista grávida. Após ser abandonada pelo namorado na rua, ela precisa caminhar até sua casa passando pela Cracolândia. Em “Volta ao Redor da Minha Mente” (história nascida de “Maluco Beleza”), um músico metido a escritor se droga após realizar seu show. Sob os efeitos da overdose e trancado no camarim, ele divaga sobre a vida. “A poeta e o Mendigo” (“O Dia em que a Terra Parou”) trata do encontro de Samanta, uma garçonete apaixonada por poesia, e Jonas, um pé-rapado que gosta de filosofar sobre a passagem do tempo. Em “Malhação de Judas” (baseado em “Judas”), assistimos à desavença ocorrida em uma ceia de meninos. Flavinho se sente traído quando seu amor por Clara é exposto aos amigos. O vigésimo sexto conto é “Na Rodoviária” (inspirado na música homônima). Nele, um homem acorda de madrugada sem saber direito onde está. O silêncio, a solidão e o marasmo o atordoam. “Versão Brasileira” é a narrativa (criada a partir de “Aluga-se”) em que um casal de brasileiros gosta de se passar por estrangeiros durante as férias de Verão. Erika e Benjamin fingem ser canadenses enquanto estão hospedados em uma pousada à beira da praia. “Uma Cobra, Duas Aranhas”, a vigésima oitava narrativa do livro (elaborada em cima de “Rock das Aranhas”), apresenta Raul, um guitarrista universitário metido a Don Juan. Ele fica indignado quando encontra duas mulheres transando no banheiro de uma festa. Em “Homens Sem Princípios” (história coirmã de “Metrô Linha 743”), um rapaz que fazia entregas de roupas lavadas por sua mãe fila um cigarro de um desconhecido no meio da rua. A partir daí, ele é confundido com terroristas pelos militares. Preso e torturado, ele precisa provar sua inocência. “Mas Fui, Obrigado” (“Mamãe, Eu Não Queria”) trata do drama de um jovem forçado pelos pais a se alistar no Exército. Apesar de gostar de escrever, ele segue na vida militar. Algo que ele não esquece foi de um exercício conduzido pelo Sargento Seixas que exigia o sacrifício de um pequeno coelho branco. “O Bilhete” (baseado em “Trem 103”) mostra um rapaz à procura da plataforma 103 na estação de trem. Ele é guiado pelo texto de um bilhete. O trigésimo segundo conto de “Conte Outra Vez” é “O Mágico” (inspirado em “Segredo da Luz”). Em um Verão marcado pela falta constante de luz, a população de uma cidade se diverte com o show de um mágico com poderes hipnóticos. Em “Parasita” (criado a partir de “Paranoia II”), um rapaz aproveita-se do fato do apartamento ao lado do seu estar desocupado para explorar o local. Ele está intrigado com o barulho inexplicável que vem dali. É o início de uma aventura policial com tintas de drama psicológico. “Pietro”, a penúltima história da coletânea (elaborada em cima de “Check-up”), apresenta o surto de um rapaz até então certinho. Diante de tantos compromissos e obrigações, Pietro parece ter enlouquecido. Por outro lado, após abandonar as suas responsabilidades, ele começa a viver de fato. Em “O Roubo” (história nascida de “Você Roubou Meu Videocassete”), uma cantora de churrascaria vai à delegacia denunciar o marido por violência doméstica. O delegado de plantão reconhece a artista. Ele e sua mãezinha são fãs antigos da cantora, daqueles que vão à churrascaria mais pela música do que pela carne servida. Por fim, temos a elegia intitulada “Chegada de Raul Seixas ao Castelo de Avalon”. Como o próprio nome do poema diz, ele mistura a trajetória do cantor brasileiro com aspectos do mito do Rei Arthur. Se você for ler “Conte Outra Vez” da maneira tradicional (abrir a publicação e percorrer suas páginas), talvez consiga terminar o livro em um único dia. Ele demanda algo em torno de quatro a cinco horas de leitura. Entretanto, há indiscutivelmente um jeito muito melhor para degustar essas narrativas. Antes de ler cada trama, é legal ouvir a música pela qual cada história foi inspirada. Afinal, nem todo mundo tem na cabeça cada uma das criações de Raul Seixas, né? Nesse caso, o tempo de duração da experiência literário-musical dobra. Apesar de se estender consideravelmente, saiba que vale a pena fazer isso. Foi o que fiz na noite da última sexta-feira e na tarde do sábado seguinte. Antes de ler cada história, colocava para tocar Raul. Muito bom! Em suma, o que achei de “Conte Outra Vez”?! Em primeiro lugar, considerei muito interessante a proposta deste livro. Obviamente, falo isso na condição de fã inveterado de Raul Seixas. Desde a minha infância/adolescência, sou maluco pelas músicas do roqueiro. Por isso, não resisti à ideia desta obra. É verdade também que não se trata de uma ideia tão original assim - “Conte Outra Vez” é uma publicação atraente, mas não inovadora. De cabeça, lembro de ao menos duas coletâneas de contos com linha editorial parecidíssima a essa e que foram publicadas antes: “Contos de Um Maluco Beleza” (Kiron), de Vicente de Melo, e “Outro Livro na Estante” (Mondrongo), organizada por Herculano Neto e Gustavo Felicíssimo. Não seria de se estranhar a existência de outros títulos com essa mesma pegada. Se já foram lançados livros iguais a “Conte Outra Vez”, o principal mérito desta obra de T. K. Pereira foi ter aprofundado sua proposta editorial a níveis que ninguém havia se aproximado até então. Esta coletânea reúne 35 histórias inspiradas em músicas de todas as fases da carreira de Raul. Se você pegar as canções consideradas pelos autores de “Conte Outra Vez”, elas abrangem a discografia completa do cantor baiano. Ou seja, estão neste livro criações dos 17 álbuns gravados em estúdio por Raul Seixas, de 1968 a 1989. É inegável que houve um trabalho cuidadoso para a seleção das músicas que seriam transformadas em textos literários. Além disso, foram convocados ótimos escritores para essa empreitada. Eles vieram de oito Estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco e Paraíba. A maioria dos autores é composta por nomes experientes do cenário literário nacional, com várias publicações nas costas e alguns importantes prêmios nas estantes. A alta qualificação dos escritores refletiu-se na excelência dos textos do livro. De maneira geral, as narrativas de “Conte Outra Vez” são ótimas, valendo a pena sua leitura. Ao menos se você for fã das músicas de Raul Seixas... Saliento essa questão porque a maior graça desta coletânea de contos está, obviamente, no diálogo direto com as criações musicais do principal roqueiro nacional. Se você não conhece profundamente o trabalho do cantor homenageado, acredito que o conteúdo desta obra não faça muito sentido para você. Sem o lastro das referências musicais, os leitores não serão impactados tão fortemente pelas histórias deste livro. É a mesma coisa de ouvir uma piada sobre um acontecimento que não se tem ciência. A piada fica sem graça, claro! E a culpa não é dela nem do seu contador. E sim do ouvinte, que desconhece o assunto que está sendo citado. Quem consegue acompanhar a intertextualidade musical, encontrará histórias primorosas em “Conte Outra Vez”. As minhas favoritas são: “É Chato Chegar a Um Objetivo Num Instante” (“Metamorfose Ambulante”), de Ana Elisa Ribeiro, “Bel Cadore” (Al Capone), de Cris Vasquez, “Lírios do Campo, Cebolas e Alhos” (“Ouro de Tolo”), de Cinthia Kriemler, “Limo, Traças e Outros Efeitos da Chuva” (“Medo da Chuva”), de Maurem Kayna, “Depois do Fim” (O Trem das 7”), de Ana Luiza Rizzo, “S.O.S.” (“S.O.S.”), de Simone Teodoro, “A Mulher Mais Sábia” (“Gita”), de Irka Barrios, “Duas Versões de uma Mesma História” (“Como Vovó Já Dizia”), de Tiago Motta, “Glória e Perdição” (“Meu Amigo Pedro”), de Julia Dantas, “Malhação de Judas” (“Judas”), de Taiane Maria Bonita, e “Homens Sem Princípios” (“Metrô Linha 743”), de Sérgio Tavares. Com inteligência, bom humor e uma narrativa impecável, essas tramas dialogam intimamente com as músicas de Raulzito. Essa é justamente a tônica do livro. Dos 35 contos, poucos não conversam direta ou indiretamente com as narrativas de suas músicas ou não resvalam no teor de suas letras. Há também um ou outro caso de narrativas literárias que invertem o teor das canções. Contudo, essas derrapadas são exceções (e podem ser contadas nos dedos de uma mão). A quase totalidade das ficções possui lastros e justificativas para as escolhas artísticas de seus autores. É aí justamente que essa coletânea de contos ganha em dimensão e em qualidade literária. Dos aspectos que não gostei em “Conte Outra Vez”, posso citar a apresentação dos autores no meio do texto e as justificativas, em alguns casos, pouco relevantes para as escolhas das canções homenageadas. Colocadas no final de cada conto, essas partes quebram um pouco o ritmo de leitura e atrapalham a experiência do leitor. Para piorar, lá no final do livro (onde essas informações deveriam ficar), assistimos à repetição do descritivo dos autores (“De novo isso!”, pensam os leitores incrédulos). Quanto às justificativas das músicas selecionadas, nem todas conseguiram expressar uma genuína relevância. Em um ou outro caso, pareceu até que o autor nem conhecia a canção em detalhe. Também é possível notar alguns equívocos no processo de desenvolvimento do livro. Há uma música repetida (apesar da promessa do editor/organizador de não haver repetição) e a falta de canções famosas de Raul Seixas (enquanto temos algumas músicas desconhecidas entre as trabalhadas). Nesse sentido, deixar as escolhas das faixas musicais simplesmente para os autores não se mostrou uma decisão tão acertada assim. Também é estranho o fato de o subtítulo do livro anunciar 30 contos e termos 35. As transmutações do projeto editorial não precisavam ter ficado evidentes para os leitores. Podem ser detalhes, mas ainda sim essas escorregadinhas comprometem um pouco a qualidade final da coletânea. De maneira geral, “Conte Outra Vez” é um livro que vale a pena ser conhecido. Se você for fã de Raul Seixas, esta leitura proporcionará uma experiência inusitada e riquíssima do legado artístico do maior roqueiro brasileiro da história. Infelizmente, esta obra está disponível apenas em ebook (sei que não são todos que gostam e têm acesso a essa forma de leitura). Quem sabe a coletânea de contos organizada por T. K. Pereira não seja publicada futuramente em versão física, hein? Qualidade para isso ela tem de sobra. Torçamos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Rio Acima - O romance amazônico de Pedro Cesarino
Vivemos, no Brasil atual, um momento delicadíssimo em relação à preservação do meio ambiente e à garantia dos direitos humanos básicos. Essas duas questões parecem convergir de forma mais intensa quando olhamos para o que está acontecendo na Amazônia. Não por acaso, o debate sobre o futuro da floresta e de seus povos pega fogo (desculpe-me pelo trocadilho involuntário!) nas manchetes dos principais veículos de comunicação do planeta. Há quem veja crime contra a humanidade em muitas das ações do governo brasileiro na região amazônica (e em outras mais). Sem dúvida, este é um assunto polêmico e inevitável que precisa ser encarado de frente tanto pela sociedade brasileira quanto pela comunidade internacional. Como o Bonas Histórias é um blog de literatura, cultura e entretenimento, entremos nesta discussão pelo caminho artístico (uma alternativa muito mais saborosa do que pelo viés político-ideológico). Sob o ponto de vista literário, a essência da coluna Livros – Crítica Literária, fiz uma leitura interessante nesta semana que joga luz aos desafios contemporâneos dos índios brasileiros. “Rio Acima” (Companhia das Letras) é o romance de Pedro Cesarino que mostra o drama dos povos nativos da Amazônia para perpetuar sua cultura e seu estilo de vida. A obra ficcional foi lançada em setembro de 2016, quando a questão sobre a preservação da fauna, da flora e dos povos desta região não havia adquirido ainda o tom de catástrofe anunciada. O livro é narrado com pitadas de sátira por um antropólogo do eixo Rio-São Paulo. Apaixonado pelos mitos indígenas, a personagem principal precisa conviver, por longos períodos, com tribos afastadas da civilização para colher suas crenças e sua mitologia. O que faz “Rio Acima” uma obra tão válida é o perfil de seu autor. Aos 43 anos, Pedro Cesarino é um dos principais antropólogos brasileiros de sua geração. Ele desenvolve pesquisas pioneiras sobre a etnologia indígena. A ênfase de seu trabalho acadêmico está no xamanismo, na cosmologia, nas tradições orais, na tradução e na antropologia da arte dos povos amazônicos. Graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e com mestrado e doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cesarino ministra aulas na USP e na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele também possui publicações de relevância nacional quando o assunto é a Antropologia. Destaques para o Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas pela tese sobre a poética do xamanismo amazônico e para a tradução para o português de uma coletânea de mitos do povo marubo. Depois de vários livros técnicos, Pedro Cesarino resolveu embarcar no universo ficcional. E o lançamento de “Rio Acima” marca justamente sua estreia nos romances. Trazendo toda a bagagem antropológica, o escritor apresenta os perrengues de um pesquisador da cidade grande que mergulha na cultura dos povos indígenas no rincão da Amazônia. Ao mesmo tempo, o protagonista denuncia o extermínio da cultura e dos nativos desta região do país e escancara a atuação ilegal de gente que cobiça as riquezas naturais da floresta (leia-se madeireiros, grileiros e garimpeiros). O livro é tão bom, mas tão bom, que chega a ser difícil encará-lo como o primeiro romance de um novato. A impressão que se tem é que Cesarino já é um autor ficcional experiente. Narrado em primeira pessoa, “Rio Acima” se passa em algum instante entre o final da primeira década do século XXI e o início da segunda década. Nesta história, acompanhamos a viagem de um conceituado antropólogo brasileiro de cerca de 40 anos (ele não tem o nome revelado em nenhum momento da trama) pelo interiorzão do Amazonas. Divorciado e sem filho, o narrador-protagonista abandona mais uma vez sua rotina na cidade grande e o trabalho na universidade para passar uma nova temporada enfurnado no meio da floresta com os índios. Fluente no idioma local por já ter vivido muitos anos com os indígenas, o antropólogo tem uma fixação: concluir a tradução para o português dos mitos do povo que ele estuda há tanto tempo. Para tal, ele precisa colher uma parte importante das narrativas orais que lhe foi omitida nas visitas anteriores. A história do pegador de pássaros é uma passagem conhecida apenas por Tarotaro, o mais antigo pajé das tribos de um determinado povo indígena, e fundamental para a compreensão das crenças dos nativos da Amazônia. Contudo, Tarotaro se recusa a contar para o antropólogo detalhes dessa parte de sua mitologia. Curioso para entender o teor da história do pegador de pássaros, o protagonista do romance precisa de paciência para (re)conquistar a confiança do pajé. Enquanto espera o momento certo para questionar outra vez Tarotaro sobre os detalhes do misterioso trecho do mito indígena, ele terá de encarar vários problemas de ordem prática – os efeitos das doenças tropicais em seu organismo; as desavenças com grande parte da comunidade da tribo que o recepciona; o mal-estar com seu principal amigo, Antônio Apiboréu; a desconfiança dos militares brasileiros que supervisionam essa região do país; a ação desastrada de religiosos estrangeiros que insistem em catequizar os índios; a escassez de recursos; o desconforto de viver em uma tribo e no meio do mato; e a abstinência sexual autoimposta para não criar problemas com os nativos. Isso para não falar da viagem de mais de uma semana pelos rios amazônicos para chegar à comunidade visitada/pesquisada. Realmente, a vida de antropólogo não é nada fácil! “Rio Acima” é um livro encantador. Seus principais méritos estão na apresentação fidedigna do ofício de antropólogo e no mergulho profundo na cultura dos indígenas da Amazônia. E o romance faz isso tendo como foco o público em geral (e não os acadêmicos e os especialistas no tema retratado). Dessa forma, seu texto é direto e possui um tom zombeiro. Com uma linguagem acessível, uma trama extremamente realista (ótima mistura de aspectos reais e ficcionais), uma história surpreendente (com algumas reviravoltas) e uma narrativa comovente, esta publicação de Pedro Cesarino escancara a vida como ela é. O autor não tem medo de colocar o dedo nas feridas de nosso país. Ele expõe temas delicados tanto de nossa sociedade quanto da comunidade indígena. Gostei tanto deste livro que li suas 152 páginas em um único dia. Devo ter investido aproximadamente cinco horas de leitura na última quinta-feira para concluir seus oito capítulos. Alguns pontos chamam a atenção em “Rio Acima”. Em primeiro lugar, ressalto a excelente ambientação construída por Cesarino. Sua narrativa ficcional exala os perigos e a violência de uma região em que a lei quase não chega. Os crimes praticados na fronteira entre os povos (nossa civilização e os povos indígenas) são variados: ambientais (ações de madeireiros, grileiros e garimpeiros), geopolíticos (invasão de estrangeiros), sociais (perseguição aos homossexuais e aos travestis, tráfico de drogas, prostituição e contrabando de mercadorias) e étnicos (desprezo pela vida e pela cultura indígena). Tudo parece hostil às pretensões do antropólogo que protagoniza esta história. Até mesmo o ambiente natural é seu inimigo: o calor insuportável, os mosquitos, a sujeira, a pobreza, as doenças tropicais, os animais silvestres etc. Se antes de chegar à tribo, ele é visto de maneira ressabiada pelos seus semelhantes (afinal, qual é sua verdadeira pretensão com essa viagem para o meio da mata?), uma vez na floresta ele continua despertando a curiosidade dos índios (será que devemos confiar nesse sujeitinho que veio da cidade?). Outro aspecto interessante é o retrato delicado e muito bonito dos mitos e das crenças indígenas. O olhar é realmente de um antropólogo que conhece profundamente o tema analisado. Nesse sentido, não há dúvida de que a personagem principal do romance é o alter ego de Pedro Cesarino. O autor empresta sua paixão e seu conhecimento pela cultura, pela língua, pelas artes e pela religião dos povos indígena à sua criação ficcional. Ou seja, Cesarino colocou em prática um dos primeiros conselhos que os editores e os professores de Escrita Criativa dão aos jovens escritores: escreva sobre algo que você domine bastante. Assim, a descrição dos dramas da tribo de Sebastião Baitogogo e de Tarotaro é realizada de um jeito elegante, sincero, preciso e em muitos momentos engraçado. O choque cultural é parte fundamental desta narrativa. Por falar nos trechos cômicos do livro, é preciso destacar o humor escrachado de Pedro Cesarino. “Rio Acima” faz uma sátira engraçadíssima com a rotina do aventureiro que desbrava regiões quase inacessíveis do planeta em nome dos estudos antropológicos, científicos, históricos e acadêmicos. Esqueça, portanto, a visão romântica transmitida pelas tramas de Indiana Jones, o destemido arqueólogo norte-americano que viaja para os quatro cantos do mundo, e pelas jornadas tranquilas dos personagens de Júlio Verne pelos recôncavos da Terra. O protagonista de Cesarino está sempre doente e de mal humor por causa da malária recorrente. Ele fuma rapé com seus amigos indígenas, tem diarreias homéricas na floresta, passa fome e frio, sofre gozação dos índios pela sua inabilidade no meio da mata, padece do desconforto com o calor e com os mosquitos tropicais e não aguenta a abstinência sexual (em um lugar onde as mulheres andam nuas). Ou seja, há a desconstrução completa da imagem idílica do aventureiro desbravador e corajoso. Em outras palavras, a verossimilhança é um dos pontos fortes de “Rio Acima”. Com isso, ficamos comovidos com o drama genuíno do narrador-protagonista deste romance. Se a personagem principal não é o herói clássico que supúnhamos no início, por outro lado acabamos sensibilizados com a persistência dele em realizar seu trabalho da melhor forma possível. Apesar dos incontáveis perrengues do dia a dia, o antropólogo segue em frente (bem ou mal). É de tirar o chapéu o seu comprometimento. A cultura e os hábitos dos indígenas da Amazônia são descritos, nas páginas de “Rio Acima”, por alguém que conhece exatamente esta realidade. E isso é feito de maneira pouco acadêmica e sem qualquer formalidade técnica. Mais importante do que apresentar uma visão antropológica das personagens que desfilam no livro (o que deixaria, na certa, sua narrativa enfadonha), Pedro Cesarino foca acertadamente no conflito ficcional. O que move esta obra é o seu teor literário. E os demais elementos de “Rio Acima” servem de constituição fidedigna do cenário, das personagens e da ambientação da trama. Ótima escolha estética do escritor! Adorei também o desfecho deste livro. Ele é poético, subjetivo e aberto, além de relacionar intimamente os mitos indígenas com as confusões cotidianas do narrador-protagonista. São impagáveis as páginas finais do romance! O desenlace ajuda a corrigir um pouco o principal ponto negativo que considerei em “Rio Acima” – a banalidade do relato de Tarotaro tão esperado pelo antropólogo. É difícil acreditar que o trecho omitido por tanto tempo seja algo tão corriqueiro. Se essa passagem mitológica é relevante para a personagem principal, alguém que estuda tão profundamente o assunto, ela pode ser questionada pelo leitor comum, alguém que não conhece os meandros do trabalho acadêmico sobre a cultura e a religião indígenas. “Tanto esforço para ouvir uma história tão pueril como esta?!” pensam perplexos os leitores do romance. É complicado de engolir a versão do autor. Ou ele não soube expressar a importância da narrativa tão aguardada para o público leigo ou ela é realmente fraquinha. Além disso, será mesmo que Tarotaro iria contar algo aparentemente tão importante para seu povo para um “estrangeiro” e não para seus semelhantes? Duvido. Lembremos que a base da transmissão da cultura indígena é pelos relatos orais. Como assim só um homem idoso conhecia uma passagem mitológica relevante e nunca quis repassá-la para as novas gerações?! Outra questão delicada é a construção caricata das personagens. Apesar desse expediente trazer graça e humor à trama, ele também empobrece um pouco a narrativa. Os índios, os militares, o antropólogo, os missionários religiosos, os políticos e os trabalhadores das cidades na fronteira do país são retratados de maneira bastante estereotipada. Quase não temos personagens redondas nesta história. Todas as figuras descritas nas páginas deste livro são planas e construídas em cima de caricaturas. É uma pena. Apesar de um ou outro deslize, “Rio Acima” é um belo romance. Ele lembra, de certa forma, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras), trama de Marçal Aquino que se passa na região norte do nosso país, “Terminália” (Prumo), drama de Roberto Taddei protagonizado na Amazônia, e “A Jangada” (Planeta), aventura clássica de Júlio Verne realizada na floresta equatorial brasileira. Gostei tanto desta obra de Pedro Cesarino que já estou ansioso para seu próximo lançamento no universo ficcional. Sinceramente não sei se o escritor tem o desejo de publicar novos livros fora da Antropologia, mas valeria a pena sim ele se dedicar mais à literatura comercial. Cesarino escreve muito bem e parece que tem muita história boa para contar. Aguardemos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Livros: A Filha do Capitão - Romance histórico de Alexandre Pushkin
Neste final de semana, li um dos livros mais conhecidos de Alexandre Pushkin, escritor russo considerado o fundador da prosa moderna em seu país. Ele também é o maior poeta romântico da Rússia. A obra em questão é “A Filha do Capitão” (Principis), romance histórico ambientado na segunda metade do século XVIII. Sua trama aborda a Rebelião de Pugatchov (também grafada como Pugatchev). Ocorrido entre 1773 e 1775, esse levante popular colocou os camponeses pobres e famintos liderados pelo cossaco Emelian Pugatchov contra o exército czarista. Os motivos da revolta foram a supressão dos direitos da camada social mais humilde e o aumento dos benefícios da nobreza (receita para quase todos os levantes populares dos últimos séculos). Diante do descontentamento popular, Pugatchov reuniu um exército de 70 mil homens, convocados entre a classe mais desfavorecida da Rússia. Sua tropa marchou pelo interior do país com o objetivo de tirar do poder a família czarista. Quando isso ocorresse, Pugatchov assumiria o governo da nação como seu novo imperador. Pelo menos, era essa a sua pretensão... Comprei “A Filha do Capitão” no comecinho deste ano, em uma visita à Livraria Cultura do Shopping Bourbon Pompéia (época em que caminhar pelas estantes das lojas de livros era ainda um passeio corriqueiro, seguro e permitido!). A Principis, selo da Ciranda Cultural, está lançando, desde o finalzinho de 2019, uma série de clássicos da literatura nacional e internacional. O mais legal é o custo desses livros: apenas R$ 9,90. E pelo que entendi, essa faixa de valor não é promoção e sim política de preço. Incrível! Achei uma pechincha pela qualidade dos títulos e pela beleza de seus projetos gráficos. Confesso que saí da livraria com um punhado de clássicos da literatura russa, francesa, inglesa, espanhola e brasileira em minha sacola. Naquele momento, eu não sabia que ficaria alguns meses sem poder comprar nenhum novo livro diretamente das lojas físicas. Se soubesse, teria escolhido mais alguns títulos. Publicado em 1836, “A Filha do Capitão” foi lançado originalmente em fascículos por uma revista literária russa. Só mais tarde, quando seu autor já tinha falecido, o romance seria convertido em livro (versão como conhecemos atualmente). “A Filha do Capitão” foi escrito na fase final da curta carreira literária de Alexandre Pushkin. Não por acaso, este foi um de seus últimos trabalhos. Aos 37 anos, Pushkin morreu em fevereiro de 1837 à la Euclides da Cunha. Ao desafiar para um duelo o possível amante de sua esposa, um caso extraconjugal que se tornou ruidoso na corte de São Petersburgo, Alexandre se deu mal. Morreu dois dias depois do duelo, vítima dos ferimentos proferidos pelo oponente. Clássico da literatura russa desde então, “A Filha do Capitão” é leitura obrigatória em seu país. Esta obra foi adaptada várias vezes para o cinema e para a televisão. São incontáveis os filmes produzidos a partir desta trama histórica. Há também peças teatrais inspiradas no drama dos protagonistas do romance. O mais interessante deste livro é que ele reúne um pouco das principais características narrativas que tornaram o estilo literário de Alexandre Pushkin tão valorizado. Vale a pena destacar que muitos autores russos das gerações seguintes se inspiraram na estética de sua prosa. Não à toa, Pushkin influenciou diretamente Nikolai Gogol, Mikhail Lérmontov e Ivan Turguêniev e indiretamente Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, Anton Tchekhov e Máximo Gorki (integrantes da fase de ouro da literatura russa). Nada mal, hein? Em “A Filha do Capitão”, assistimos à mistura de sátira sócio-política (crítica tanto à sociedade quanto às instituições do país) com romantismo exacerbado (os apaixonados são capazes de qualquer coisa em nome do amor), entrelaçamento de realidade e ficção (passagens e personagens verídicas junto com personagens e cenas inventadas), dramas psicológicos profundos e linguagem coloquial. Ao lado de “Contos de Belkin” (Nova Alexandria) e “A Dama de Espadas” (Editora 34), “A Filha do Capitão” está entre os maiores sucessos em prosa de Alexandre Pushkin. O enredo deste romance começa em Simbirsk, sudoeste da Rússia. Andrei Petróivitch Grinióv é um rico senhor de terras que fez carreira no exército russo quando jovem. Casado com Avdótia Vassílievna U, ele teve nove filhos. Porém, apenas um, Piotr Andrêitch Grinióv, chegou à idade adulta. Todos os outros morreram ainda na infância. Criado com muita subserviência pela família e pelos funcionários da casa, Piotr cresceu inconsequente, ingênuo e mimado. Por isso, ao completar 17 anos, o rapaz foi enviado pelo pai, que ainda tinha esperanças de que o filho se tornasse um homem sério e responsável, para o exército. Para Piotr Andrêitch não seguir com a vida tranquila e confortável nas Forças Armadas, o que não contribuiria em nada para sua formação, Andrei Petróivitch escreveu para seus ex-colegas de farda pedindo que o filho não fosse enviado para um local bom, como São Petersburgo, por exemplo, a então capital do país. Ele queria que o rapaz amadurecesse sozinho em um local distante dos grandes centros urbanos. Assim, o general Andrei Kárlovitch, amigo de longa data de Andrei e o agora chefão de Piotr, mandou o jovem soldado para a Fortaleza Bielogórskaia, nos confins da província de Oremburgo. Para supervisionar e assessorar Piotr no dia a dia (afinal ninguém é de ferro, né?), a família enviou um velho cavalariço, Arkhip Savélitch. Savélitch, que fora encarregado da educação formal do filho de Andrei e Avdótia Vassílievna no passado, seria agora o funcionário particular do rapaz. Dessa maneira começam os dramas do protagonista de “A Filha do Capitão”. É o próprio Piotr Andrêitch quem narra em primeira pessoa suas aventuras pelo interior da Rússia. Depois de uma viagem desastrosa e amalucada, Piotr e Savélitch chegam, enfim, à Fortaleza Bielogórskaia. Lá, eles são muito bem recebidos pelo capitão Ivan Kuzmitch e por sua esposa Vassilissa Iegórouna. Rapidamente, o jovem soldado se torna amigo íntimo dos comandantes, compartilhando sua rotina doméstica e sua residência. Contudo, a vida tranquila no pequeno vilarejo esconde alguns perigos. O primeiro problema responde pelo nome de Aleksei Ivanytch. Chamado por todos de Chvábrin (seu apelido), Aleksei é um soldado experiente da Fortaleza Bielogórskaia. O veterano é apaixonado por Mária Ivánovna, a filha de 18 anos de Ivan Kuzmitch e Vassilissa Iegórouna. Ao notar que Piotr também se apaixonou pela filha do capitão, Chvábrin inicia uma violenta rivalidade com o novato. O segundo inimigo do protagonista se chama Pugatchov. Em meio à guerra particular entre Piotr e Chvábrin pelo coração de Mária Ivánovna, a Fortaleza Bielogórskaia torna-se alvo de um grupo cossaco rebelde. Liderados pelo sanguinário Pugatchov, os numerosos e bem armados revoltosos já destruíram várias fortalezas em Oremburgo e querem depor Catarina II do posto de czarina russa. O confronto entre os soldados do capitão Ivan Kuzmitch e a tropa de Pugatchov parece iminente. E pelo andar da carruagem, a disputa tem tudo para levar ao fracasso do exército incumbido de proteger a Fortaleza Bielogórskaia. Nesse cenário desolador, a maior preocupação de Piotr Andrêitch não é tanto pela sua vida. O rapaz teme pelo que possa acontecer com sua amada quando Pugatchov invadir o local e colocar seus olhos nela. A beleza virginal da moça, acredita ele, na certa enfeitiçará o líder cossaco. Assim, Piotr lutará em nome da honra de Mária Ivánovna e de toda a família dela. “A Filha do Capitão” é um romance enxuto. Ele possui apenas 144 páginas. São 14 capítulos e um anexo. É possível ler este livro em duas noites tranquilamente. Foi o que fiz neste final de semana. Comecei a leitura na sexta-feira e a concluí no sábado. Não devo ter levado mais do que cinco horas ao todo para percorrer todo o seu conteúdo. Além de ser uma história gostosa de acompanhar, o texto de Alexandre Pushkin é fácil, divertido e reserva boas surpresas. A primeira boa novidade desta edição da Principis é a inclusão de um capítulo extra aos demais 14 capítulos tradicionais da obra. Ao final de “A Filha do Capitão”, temos um anexo chamado de “Capítulo Excluído”. Apesar dessa parte constar nos originais de Pushkin, ela foi retirada na última hora pelo autor, quando a história foi publicada pela revista literária. Esse acréscimo feito pela editora brasileira é providencial pois esse trecho reserva um dos momentos mais emblemáticos e dramáticos da trama. Como o “Capítulo Excluído” foi colocado como anexo (no final da obra) e não no meio da narrativa (lugar em que foi retirado), o leitor pode escolher entre lê-lo (versão completa do romance) ou não (versão final da história escolhida por Alexandre Pushkin). Por se tratar de uma parte muito interessante do romance, aconselho o leitor a não ignorar seu conteúdo. Afinal, são apenas 12 páginas de uma cena de alta dose de suspense e adrenalina (um dos clímaces da obra). Para isso, é preciso se atentar às notas de rodapé do livro. Na página 117, há o aviso, lá embaixo, em letras pequenas, para o início da leitura do anexo (essa parte entra exatamente nesse instante da narrativa). Vale a pena lê-lo. E saiba que a inclusão do “Capítulo Excluído” não foi o único acerto da editora nacional. O projeto gráfico do livro e sua tradução estão impecáveis. O visual da obra é simples e bonito. Já a tradução de Irineu Franco Perpétuo é condizente com o texto elegante e direto de Pushkin. Destaque para as imperdíveis notas de rodapé do tradutor, que guiam o leitor pelos detalhes históricos, culturais, religiosos e do cotidiano russo no século XVIII. O ponto mais interessante de “A Filha do Capitão” está na união de uma trama romântica (como tantas outras e extremamente piegas aos olhos do leitor moderno) com alguns elementos originais (o que explica sua importância e a perpetuação de sua história até os dias de hoje). Por exemplo, a ambientação histórica é um ponto positivo. Acompanhamos personagens e acontecimentos reais em meio à narrativa ficcional. Outra questão relevante está nas críticas sociais, que permeiam todo o enredo do livro. Sutilmente, Pushkin confere cutucadas aos seus conterrâneos e à sociedade da Rússia czarista. Esses elementos dão um colorido especial à trama clássica do casal que sofre para ficar junto. Gostei muito da intertextualidade literária presente em “A Filha do Capitão”. É através das citações diretas e indiretas presentes no texto que conseguimos identificar as influências narrativas recebidas pelo autor do século XIX. Apesar de quase todas as referências ser de obras russas desconhecidas pela maioria dos leitores brasileiros, ainda sim elas são válidas. Por exemplo, há uma parte do romance em que uma das personagens brinca com Piotr Andrêitch chamando-o de Dom Quixote. Essa analogia objetiva ao clássico de Miguel de Cervantes ajuda-nos a entender alguns pontos de “A Filha do Capitão”. Realmente, o protagonista e seu fiel cavalariço são uma dupla cômica, principalmente na parte inicial da história. Portanto, não são meras coincidências as várias semelhanças de Piotr e Savélitch com Dom Quixote e Sancho Pança. Outro elemento que merece elogios é a forma como os vilões foram construídos. Se Chvábrin é a típica personagem plana que não reserva nenhuma surpresa, o contrário não pode ser dito sobre Pugatchov. O sanguinário líder dos revoltosos é possuidor, ao mesmo tempo, de características positivas e de características negativas. É, portanto, uma personagem esférica. Boa parte da graça do desfecho de “A Filha do Capitão” está em compreender as motivações e os sentimentos deste vilão (sim, há um coraçãozinho dentro do sanguinário capaz de norteá-lo para atitudes honradas). O único ponto negativo desta obra para o leitor brasileiro está nos difíceis nomes russos das personagens do romance. É preciso alguma atenção na leitura para não se confundir no emaranhado de letras e consoantes das alcunhas dos participantes da trama. Para piorar, os apelidos russos são bem diferentes dos nomes próprios (por exemplo, Aleksei Ivanytch é chamado de Chvábrin e Mária Ivánovna é chamada de Macha). E ora as personagens são citadas pelos nomes ora são chamadas pelos apelidos. Porém, as possíveis confusões são resolvidas com uma leitura minimamente atenta por parte do leitor. Gostei muito de “A Filha do Capitão”. É muito bom ter acesso aos clássicos internacionais com títulos bem traduzidos, com ótimos projetos gráficos e a preços acessíveis. Juro que fiquei fã deste selo da Ciranda Cultural. Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias devem ter reparado que já analisei, neste mês, outro livro dessa coleção: “A Ilha do Tesouro” (Principis), romance famoso do escocês Robert Louis Stevenson. Quem gostou desta série narrativa, aviso que novas obras serão analisadas aqui no blog. Esperem por novidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Baú de Miudezas, Sol e Chuva - As crônicas de Cidinha da Silva
Li, no último final de semana, “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” (Mazza), a coletânea de crônicas de Cidinha da Silva. A autora mineira que mora há anos na cidade de São Paulo tem seu trabalho voltado essencialmente para a valorização do passado e da cultura da população negra em nosso país. Graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, Cidinha atua em projetos socioeducativos direcionados aos negros, às famílias de baixa renda e às mulheres. Ela foi presidente do Geledés - Instituto da Mulher Negra, trabalhou como gestora cultural na Fundação Palmares e é fundadora do Instituto Kuanza. Na literatura, Cidinha da Silva estreou, em 2006, com a publicação da coletânea de narrativas curtas “Cada Tridente em Seu Lugar e Outras Crônicas” (Mazza). De lá para cá, ela produziu uma dezena e meia de obras, entre livros de contos e crônicas, romances infantojuvenis, coleção de poesias e materiais educativos. A autora também produziu algumas peças teatrais. Atualmente, a escritora mineira é um dos principais nomes quando o assunto é produção de textos engajados socialmente e quando o tema é a inserção dos negros no desenvolvimento da literatura brasileira. Eu cansei de ouvir Ferréz, um dos autores que mais admiro, citando-a em seu blog e em seu canal no Youtube. O escritor paulistano, autor de “Capão Pecado” (Tusquets), elogia bastante o trabalho de Cidinha, considerando-a um ícone da literatura contemporânea nacional. Interessado em conhecer a produção literária de Cidinha da Silva, mergulhei na leitura de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva”, um dos seus livros mais elogiados. Publicada em 2014, esta coletânea de crônicas é o décimo livro da autora. Nas 104 páginas de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva”, presenciamos um belo e poético retrato do cotidiano e das crenças de Cidinha da Silva. A escritora encara tanto a realidade ao seu redor quanto o seu mundo interno com um olhar sensível e acurado. O resultado é a produção de textos reflexivos tendo como temas a vida comum, as artes, a cultura, os sentimentos humanos, as particularidades de nossa sociedade e o passado de nosso país. Esses temas são abordados sempre pela perspectiva da negritude. Cidinha demonstra orgulho pela sua raça e promove a conscientização do protagonismo dos negros no Brasil, valorizando a riqueza e a força de sua cultura. O livro possui 41 crônicas. São elas: “Como o Jazz!”, “Minha Senhora das Águas!”, “O Amor da Novela”, “Amor e Fé”, “Vida de Condutor”, “Nossa Natureza”, “Volver a Los 20”, “Quem Não Soube a Sombra, Não Sabe a Luz...”, “O Tempo”, “Vida de Marisco”, “Fall in Love”, “A Voz Funda do Rio”, “Duas Mulheres Numa Rua Íngreme”, “De Volta ao Começo”, “Memória”, “A Tratadora de Peixes”, “Doce”, “Durga e a Senhora das Águas”, “Oração da Terça!”, “Eu Sou Vegetariana! Meu Orixá, não!”, “Balotelli, Rei de Ifê”, “Uma Bisnaga de Lança-perfume por uma Britadeira? Vai aê?”, “O Fundo do Fim”, “Era do Rádio Particular”, “Coisas que Nem Deus mais Duvida!”, “E Foi por Ela que o Galo Cocorocou”, “Concha, Mi Conchita Buika”, “O Tigre e o Pavão”, “Me oriente, Rapaz!”, “Sobre um Menino Dançante e Sorridente!”, “Delegado!”, “Flores para os Autores de ‘Lado a Lado’”, “Cavalo das Alegrias”, “O Universo de Itamar Assumpção!”, “Salvador, Negro Rancor!”, “Eu Sou Coluna de Aço! Se Quer Passar, Arrodeia!”, “Adeus IMACO – Triste Horizonte”, “Inversão de Sentidos”, “Deixem Neymar Chorar em Paz!”, “O Fogo, Têmpera do Aço, o Tempo, Têmpera das Gentes” e “Xangô”. Basicamente, esses textos abordam a recepção da literatura da escritora, as particularidades do Candomblé, o sentido das telenovelas em nossa sociedade, o primeiro amor, o envelhecimento, o efeito das redes sociais na vida contemporânea, o amadurecimento, a interpretação dos sonhos, a frustração amorosa, o racismo, as saudades de quem já faleceu, a linha que separa o medo e a coragem, a beleza do trabalho de um ambulante de ônibus, a morte/luto, a força da paternidade e da maternidade, a riqueza da cultura negra no Brasil e a importância das pessoas que ajudaram a escritora em sua carreira. Ou seja, temos aqui um mergulho simultâneo na cultura popular do nosso país (mundo externo) e nas emoções e nos pensamentos da autora (seu mundo interno). Por ser um livro com poucas páginas, “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” permite uma leitura extremamente rápida. Concluí seu conteúdo em pouco mais de duas horas no último sábado à tarde. Trata-se de uma obra que pode ser lida em uma única batida. Quem não consegue ficar muito tempo concentrado, talvez um ou no máximo dois intervalinhos rápidos no meio da leitura sejam necessários. De qualquer maneira, esta é uma publicação para ser lida em uma só manhã, tarde ou noite. O que mais gostei em “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” foi de sua prosa poética. Cidinha da Silva escreve sobre aspectos corriqueiros da vida com beleza e sensibilidade. Navegar por suas palavras é adentrar no mundo inspirado da subjetividade poética, apesar da narrativa ser toda em prosa. E junto com esse olhar pouco cartesiano da realidade, há inserções bem concretas, na qual a objetividade e a praticidade são os fins e os meios. Um bom exemplo disso está na abertura da crônica “Quem Não Soube a Sombra, Não Sabe a Luz...”. Veja a passagem espetacular em que há a junção entre a subjetividade do texto poético e a objetividade da narrativa curta: “Apliquei um Taiguara antigo na veia de um amigo pós-moderno que arranhou o dedo, e por isso, decidiu nunca mais brincar com faca. Essa moçada criada a iogurte de copinho, excesso de proteção e carinho, não sabe ralar o joelho no chão. Cicatriz, então, nem imaginam o que seja”. Estes textos de Cidinha são também diretos (não há rodeios para se chegar ao cerne dos assuntos tratados) e bastante sucintos (não se gasta muitas palavras para dizer o que se deseja). As crônicas têm entre uma e quatro páginas. A exceção é “Salvador, Negro Rancor!”, com suas dez páginas sobre a análise do livro de Mandingo. Outra característica de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” é a intertextualidade. A escritora utiliza-se de muitas referências da música, da televisão, da religião, do futebol, do carnaval e da literatura para apresentar seu ponto de vista, para tecer exemplificações e para fazer analogias. Isso é bem interessante, pois tal recurso deixa as crônicas mais divertidas e ricas. Outro aspecto positivo do material é o tom de conversa e de confidência. Cidinha da Silva usa sua vida e sua experiência para fazer boas explanações da realidade do nosso país na perspectiva da população negra. A impressão que se tem é de estar na mesa de um bar conversando com a escritora sobre vários assuntos do cotidiano. Também gostei dos temas abordados. Curiosamente, esta coletânea não sofre tanto do efeito perecível das crônicas (o principal problema deste tipo de narrativa). Passados seis anos de sua publicação, a maior parte do texto de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” ainda é atual e muito relevante. As exceções são as citações a novelas da Rede Globo, a eventos culturais ou a episódios que tiveram grande repercussão no passado, mas que hoje já foram esquecidos pela maioria dos leitores. Ainda bem que essas passagens temporais são pontuais e não se configuram como a regra do livro. Como qualquer coletânea de crônicas com quase meia centena de narrativas, “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” tem seus altos e baixos. Cidinha da Silva acerta na maioria das vezes, principalmente quando fala de sua vida, de suas experiências emocionais, de sua admiração pela cultura e pelos artistas negros, do preconceito racial em nossa sociedade e da beleza da rotina das pessoas comuns. Por outro lado, ela escorrega feio ao não apresentar argumentos sólidos para sua defesa ao sacrifício de animais pelas religiões afro-brasileiras, ao debater assuntos banais (como o choro de Neymar por deixar o futebol nacional) e ao analisar obras literárias pouco conhecidas do grande público (“Ela está falando do quê?”, pensam os leitores em algumas páginas do livro). Também achei desnecessário o uso indiscriminado de pontos de exclamação em muitos títulos das crônicas. Ou os nomes das narrativas são fortes ou não são. Não será um tipo de pontuação que fará o título de um texto mais impactante. Reconheço que gostei de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva”. Cidinha da Silva tem uma escrita contundente e marcante. Seus textos são bem construídos e exalam grande delicadeza e sensibilidade. Ao concluir esta leitura, fiquei curioso para conhecer “Canções de Amor e Dengo” (Me Parió Revolução), a obra poética publicada pela autora em 2016. Se na prosa o texto de Cidinha já é tão profundo e bonito, fiquei imaginando seu efeito nos versos. Por isso, não se surpreenda se eu ler e comentar em breve no Bonas Histórias este outro livro da escritora mineira. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Passeios: Rua do Bom Jesus - A terceira rua mais bonita do mundo
Como diria Jorge Ben Jor, chama o síndico (abraço W/Brasil!) porque deu no New York Times. E se não deu, bem que poderia ter dado. Uma das ruas mais belas do planeta, segundo a revista norte-americana Architectural Digest, fica no Brasil - Brasilsilsil! Das 31 localidades selecionadas no final do ano passado pela tradicional publicação de design de interiores e paisagismo, uma fica em nosso país, mais especificamente em Recife, Pernambuco. E o que é que deu? Nordeste na cabeça! E o que é que deu? Nordeste na cabeça! Eleita a terceira rua mais bonita do mundo, a Rua do Bom Jesus está localizada no centro histórico da capital pernambucana, região chamada de Recife Antigo. A via é atualmente um dos principais pontos turísticos do município e guarda uma história riquíssima, que remonta à ocupação holandesa no Nordeste brasileiro. Mais recentemente, o bairro se tornou sede de importantes iniciativas tecnológicas. Apaixonado por este local há quase dez anos, não podia deixar de produzir um post na coluna Passeios sobre a última seleção da Architectural Digest. Alô, alô, Recife. Tira essa escada daí que hoje o Bonas Histórias vai falar de você. Estive pela primeira vez na Rua do Bom Jesus entre agosto e setembro de 2011, quando fui para o Recife fazer trabalhos para o Coletivo da Coca-Cola. Os funcionários da antiga Refrescos Guararapes (hoje Coca-Cola Solar) sempre me levavam ao Recife Antigo para almoçar ou para curtir um barzinho com música ao vivo no início da noite. Bons tempos aqueles. Incluindo paixão antiga e aquele beijo quente que eu ganhei da sua amiga. Um ano depois, voltei para lá para participar de reuniões no Porto Digital, o parque tecnológico a dois quarteirões da Rua do Bom Jesus. Era época da divulgação do “Explosão da Inovação” (Setec Editora), livro em que fui coautor. Por isso, passava o tempo inteiro no bairro. Foi nesse segundo contato com a hoje mundialmente conhecida via que me tornei apaixonado por ela. Sim, eu me apaixono (também) por ruas... Isso começou quando morei em Buenos Aires e fiquei encantado com o charme da Avenida de Mayo. Porém, isso é outra história que ficará para outro post. Voltemos ao principal: a beleza e a atmosfera contagiantes da Rua do Bom Jesus. Alô, alô, Recife. Se estiver ventando muito, não venha de helicóptero. A partir daí, em todas as minhas visitas à capital pernambucana a trabalho ou a lazer, sempre dei uma (ou seriam várias?) passadinha (ou passadonas!) na Rua do Bom Jesus. O Recife Antigo é um sucesso. Tem de tudo e é um mistério. O Recife Antigo é um sucesso. Tem de tudo e é um mistério. O mais interessante é que o charme da Rua do Bom Jesus vai muito além de sua beleza arquitetônica: os casarões ao estilo colonial estão bem-preservados; as tintas coloridas das fachadas dão uma alegria extra às construções; a calçada estreita, a rua ainda de paralelepípedo, a iluminação meio amarelada e o trilho do bonde aparente levam-nos para o passado (seis ou sete décadas atrás); as palmeiras altas mostram que a natureza está por perto; e a contínua brisa marítima confere um clima aconchegante ao lugar (o Recife Antigo é uma pequena ilha cercada pelas águas do Rio Capibaribe, do Rio Beberibe e do Oceano Atlântico). É lá! Que o frevo rola de primeira. É lá! Que o frevo rola de primeira. Se isso não bastasse, a Rua do Bom Jesus e suas cercanias abrigam vários museus, teatros, centros culturais, oficinas de artesanato, restaurantes, pubs, padarias, barzinhos e baladinhas de ótima qualidade. Por exemplo, a Praça Rio Branco (Marco Zero da cidade), local tradicional de eventos artísticos em Recife, fica ao ladinho do início da rua. A primeira sinagoga do continente americano está na Rua do Bom Jesus, assim como a folclórica Embaixada dos Bonecos Gigantes de Pernambuco (quem já participou do Carnaval de Olinda sabe do que estou me referindo). Há também várias startups sediadas naquela região da cidade, o que confere um bom movimento também durante o dia e ao longo da semana. Porém, é aos finais de semana que o movimento explode. Alô, telefonista. Me desperte às sete e quinze por favor. Rádio táxi nove e meia. Senão o bicho pega. O bairro do Recife Antigo é uma parte imperdível do Nordeste brasileiro para aqueles que gostam de cultura, lazer, entretenimento, gastronomia e inovação. Para quem não está acostumado com a efervescência cultural da capital pernambucana, ela chega a impressionar positivamente os mais desavisados. Não é errado afirmar que Recife é uma das cidades mais ricas culturalmente do Brasil, não ficando aquém de São Paulo e Rio de Janeiro em muitos quesitos. E boa parte dessa extensão e dessa variedade artístico-cultural gira em torno da Rua do Bom Jesus e de suas travessas. Cidade Antiga! Avião! Cuidado com o disco voador. Para quem ficou curioso, as duas ruas mais bonitas do mundo, segundo os critérios da Architectural Digest, são (1º lugar) o trajeto encravado nas montanhas de Setenil de Las Bodegas, povoado no sul da Espanha, e (2º lugar) o Washington Street, no Brooklyn, em Nova York. Da Central, passando pela Mangueira, dando uma volta na Pavuna e chegando em Madureira, não há nenhuma citação à cidade maravilhosa. A lista com as 31 localidades mais belas da revista norte-americana só tem duas vias na América do Sul: a Rua do Bom Jesus e o Caminito, em Buenos Aires (e a Avenida de Mayo, hein? Injustiça!!!). A Europa domina o ranking com 16 lugares selecionados, dois deles em Portugal – a Rua Luís de Camões, em Águeda (mais conhecida por seus guarda-chuvas coloridos) e a Rua da Bica de Duarte Belo, em Lisboa (aquela ladeira charmosa do bondinho). América do Norte e Ásia têm cinco ruas cada uma. Completam a classificação, duas vias na África e uma na América Central. Inexplicavelmente, não houve menção a nenhuma localidade da Oceania. Achei estranho isso porque a Austrália e a Nova Zelândia possuem paisagens urbanas de tirar o fôlego. Parabéns a Rua do Bom Jesus e a todos os recifenses! Lá da rampa mandaram avisar que todo dinheiro será devolvido quando setembro chegar. Num envelope azul índigo. Num envelope azul índigo. Chama o síndico, Tim Maia! Meu amigo. Tim Maia! Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. 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- Livros: Olhos de Cão Azul - Os contos de terror de Gabriel García Márquez
Em outubro do ano passado, analisamos o estilo literário de Gabriel García Márquez na coluna Desafio Literário. Para tal, foram comentadas, naquele mês, seis obras do escritor colombiano: “Relato de Um Náufrago” (Record), “Ninguém Escreve ao Coronel” (Record), “Cem Anos de Solidão” (Record), “Crônica de Uma Morte Anunciada” (Record), “Amor nos Tempos do Cólera” (Record) e “Memória de Minhas Putas Tristes” (Record). Sem dúvida, esses são os livros mais importantes de sua carreira. Contudo, senti falta de analisar, no Bonas Histórias, uma coletânea de contos do Nobel de Literatura de 1982. Gabo, como o autor era chamado carinhosamente, não foi apenas um grande novelista e romancista, mas também se destacou nas narrativas curtas. Para reparar essa ausência, li, na semana passada, “Olhos de Cão Azul” (Record). Este título é uma das mais inusitadas coleções de contos de Gabriel García Márquez. As produções das histórias de “Olhos de Cão Azul” remontam ao início da carreira do colombiano, quando ele não havia estreado na literatura comercial. Naquele momento, Gabo ainda trabalhava como repórter em Barranquilla e Bogotá. Os contos deste livro foram escritos entre 1947 e 1955, época em que a fama de García Márquez na ficção parecia uma utopia de um escritor amador. A publicação de “Olhos de Cão Azul” só aconteceu em 1972. Após o sucesso retumbante de “Cem Anos de Solidão”, um dos livros mais vendidos da história, o interesse das grandes editoras pelos trabalhos de García Márquez aumentou consideravelmente. Aí algumas produções do autor que estavam guardadinhas há tempos na gaveta foram revitalizadas. “Olhos de Cão Azul” está na categoria de obras que chegaram às livrarias muito tempo depois de produzidas. Com uma pegada macabra, “Olhos de Cão Azul” apresenta onze pequenas histórias de terror. O mote de suas tramas é a linha tênue que separa a vida e a morte. Seus conflitos são geralmente dramas psicológicos. Como não poderia faltar em se tratando de textos de Gabriel García Márquez, ainda temos generosas pitadas de Realismo Fantástico. Dessa forma, “Olhos de Cão Azul” joga luz a várias partes menos conhecidas da produção ficcional do colombiano: narrativas do gênero conto, tramas de terror e histórias desenvolvidas antes que a literatura tivesse se transformado em um ofício profissional. Só por essa análise em retrospectiva do amadurecimento/evolução de García Márquez como escritor, esse livro vale a pena (independentemente de sua qualidade). Os onze contos de “Olhos de Cão Azul” são: “A Terceira Renúncia”, “A Outra Costela da Morte”, “Eva Está Dentro do seu Gato”, “Amargura para Três Sonâmbulos”, “Diálogo do Espelho”, “Olhos de Cão Azul”, “A Mulher que Chegava às Seis”, “Nabo, o Negro que Fez Esperar os Anjos”, “Alguém Desarruma Estas Rosas”, “Noite dos Alcaravões” e “Isabel Vendo Chover em Macondo”. O livro tem 160 páginas. Trata-se de uma leitura rápida. Precisei de um pouco mais de três horas para concluir seu conteúdo na última quinta-feira à noite. Em “A Terceira Renúncia”, a primeira história desta coletânea, um rapaz é desenganado pelos médicos depois de contrair uma doença seríssima. A partir daí, ele passa a ter uma existência entre a vida e a morte (estado vegetativo). No livro, essa condição é chamada de estado “vivo-morto”. Ele tem consciência, mas seu corpo fica inerte em um ataúde. Assim, passa 18 anos de sua “vida-morte” sofrendo com um barulho insuportável em seu crânio. A narrativa de “A Outra Costela da Morte” apresenta um homem que dorme no quarto ao lado onde seu irmão gêmeo é velado. Nesta noite perturbadora para o protagonista, ele tem pesadelos terríveis e alucinações desesperadoras. A morte do familiar próximo trará graves consequências para seu irmão gêmeo. E uma mulher carrega uma maldição difícil de se livrar em “Eva Está Dentro do seu Gato”: a beleza. Sua condição estética tira seu sono e traz muitos efeitos colaterais indesejados. Por isso, ela quer abandonar sua beleza em qualquer canto e passar a viver como uma pessoa comum. “Amargura para Três Sonâmbulos”, o quarto conto, trata de três homens que convivem com uma mulher mais velha em uma casa isolada. Pouco a pouco, a moradora vai abdicando de coisas básicas: sair da residência, andar, se levantar, se mexer, ver, ouvir... Depois de muitas privações, ela resolve nunca mais sorrir. Em “Diálogo do Espelho”, um sujeito desperta para mais um dia convencional. O que fazer frente à rotina tão tediosa? Abrir os olhos e seguir para a realidade tão conhecida ou continuar com os olhos fechados e mergulhar em devaneios oníricos? “Olhos de Cão Azul” é a narrativa curta que empresta seu nome para o título da obra. Nessa história, uma mulher sonha sempre com um mesmo homem que lhe diz: olhos de cão azul. Assim, ao acordar de manhã, ela passa a procurá-lo obstinadamente. Para tal, ela escreve a frase dele pelas paredes da cidade. Acredita que assim poderá achá-lo. E “A Mulher que Chegava às Seis” descreve o drama de José, o dono de um restaurante. Ele é apaixonado por uma mulher que sempre chega às seis horas da tarde em seu estabelecimento. Um dia, porém, ela pede para o proprietário do lugar mentir pela primeira vez. Usando-se do amor que ele sente por ela, a cliente quer enganar a polícia. Trata-se de um caso, literalmente, de vida ou morte. Em “Nabo, o Negro que Fez Esperar os Anjos”, o funcionário de uma fazenda que cuidava dos cavalos leva uma forte patada na cabeça. O acidente aconteceu quando o rapaz tentava pela primeira vez pentear o rabo do animal. A partir desse dia, ele passou a embaralhar a realidade e a imaginação (danos mentais), precisando ser isolado do convívio dos demais moradores e funcionários da propriedade rural. “Alguém Desarruma Estas Rosas” é o nono conto de “Olhos de Cão Azul”. Nele, um menino rouba, todo domingo, as rosas colocadas em seu quarto. Ele leva as flores para um túmulo no cemitério. Para conseguir tirar as rosas do lugar original, o garoto precisa despistar a mulher que vive naquela casa, que suspeita que alguém está mexendo em seus arranjos florais. “Noite dos Alcaravões” relata o drama de três homens que foram atacados por alcaravões, um tipo de pássaro, quando tomavam cerveja na mesa de um bar. As aves arrancaram-lhe os olhos. Sem a visão, o trio perambula pela cidade como fantasmas. E em “Isabel Vendo Chover em Macondo”, a última história do livro, uma cidade é perturbada por uma chuva sem fim. O aguaceiro começou a cair, após uma longa seca, na saída da missa de domingo. E não parou mais, para desespero dos moradores. Para ser sincero, não gostei muito de “Olhos de Cão Azul”. Esse foi o livro mais fraquinho de Gabriel García Márquez que li até hoje. Nota-se que ainda faltavam muitas coisas para o escritor chegar ao patamar de “Cem Anos de Solidão” e de “Amor nos Tempos do Cólera”, obviamente minhas referências para comparação. Entretanto, o principal motivo de minha decepção pode ter sido minha expectativa equivocada. Acreditava encontrar nesses contos um texto elegante, engraçado, satírico e com dramas amorosos peculiares. Ou seja, esperava encontrar o estilo com o qual García Márquez se tornou internacionalmente famoso. E o que “Olhos de Cão Azul” apresenta é algo totalmente distinto disso: um texto bruto, enredos mórbidos, tramas surreais, narrativas de múltiplas interpretações e uma ambientação tensa/angustiante. Quando eu ia imaginar que Gabo se propôs, algum dia, a produzir histórias de terror, hein? Mesmo não tendo gostado do livro de forma geral, admito que achei interessantes alguns de seus contos. Os melhores são: “Olhos de Cão Azul”, “A Mulher que Chegava às Seis”, “Nabo, o Negro que Fez Esperar os Anjos” e “Noite dos Alcaravões”. Curiosamente, essas são tramas situadas na metade final da coletânea. “Diálogo do Espelho”, “Alguém Desarruma Estas Rosas” e “Amargura para Três Sonâmbulos” são também boas/razoáveis histórias. Já “A Terceira Renúncia”, “A Outra Costela da Morte” e “Eva Está Dentro do seu Gato” são narrativas muito herméticas. As várias barreiras textuais colocadas pelo autor para que o leitor não chegue rapidamente ao âmago dos conflitos tornam as leituras desses contos difíceis. Quanto a “Isabel Vendo Chover em Macondo”, essa história foi trabalhada com mais qualidade e intensidade em “Cem Anos de Solidão”. Não à toa, esta (a chuva que despenca por meses, em um aguaceiro sem fim) é uma das passagens mais célebres do romance de Gabriel García Márquez. Colocada novamente aqui, parece uma repetição gratuita (o que diminui consideravelmente seu efeito dramático). As histórias de terror de “Olhos de Cão Azul” têm uma pegada naturalista. Seus conflitos são quase sempre de teor psicológico e possuem influência existencialista. Normalmente, esses contos se passam em ambientes claustrofóbicos (quartos ou ataúdes pequenos), são encenados à noite (ou na escuridão), possuem personagens sem nomes próprios que estão dormindo, sonhando ou divagando, têm a presença de animais (insetos, ratos, cachorros e gatos) e provocam medos/angústias nos protagonistas. Em quase todos os casos, temos figuras mentalmente problemáticas ou que não sabem suas verdadeiras condições (estão vivas ou já morreram?). Essa falta de clareza (entre o mundo real e o universo onírico e entre a condição de vida e de morte) é a responsável por gerar as múltiplas interpretações na cabeça dos leitores. Por falar nas linhas tênues da vida e da consciência, temos um paradoxo curioso nos contos de “Olhos de Cão Azul”. Algumas personagens que estão vivas parecem agir como defuntos, enquanto alguns mortos se comportam como sujeitos reais, com vida. E alguns indivíduos são mais produtivos e felizes sonhando do que acordados. Incrível notar essa contradição. É legal reparar também nos elementos em comum entre as histórias. Muitas delas fazem referência à cor azul (coincidência ou recurso proposital do autor?), a bichos vistos normalmente como repugnantes (insetos e ratos), a mortes trágicas e a existências vazias ou perturbadas. Mesmo sendo fã do gênero conto e das tramas de terror, ainda sim fiquei insatisfeito com o que encontrei em “Olhos de Cão Azul”. Os textos pesados e as tramas muitas vezes enigmáticas de Gabriel García Márquez não me encantaram nem me sensibilizaram como as demais obras do autor. Talvez eu tenha escolhido a coletânea de narrativas curtas errada do colombiano. Quem sabe se eu ler “Os Funerais da Mamãe Grande” (Record), “A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e Sua Avó Desalmada” (Record) e “Doze Contos Peregrinos” (Record), eu possa gostar mais dos contos de García Márquez. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Brás, Bexiga e Barra Funda - Contos clássicos de Alcântara Machado
Neste comecinho de agosto, li um clássico do Modernismo brasileiro: “Brás, Bexiga e Barra Funda” (Melhoramentos). Principal obra literária de Antônio de Alcântara Machado, escritor e jornalista paulistano do início do século XX, esta coletânea de contos possui como protagonistas os imigrantes italianos que desembarcaram na capital paulista a partir do final do século retrasado. Fugindo das guerras e das graves crises econômicas na Europa, os estrangeiros ajudaram a construir vários bairros do município (daí o título do livro) e influenciaram na identidade cultural da maior cidade brasileira. Ambientadas na São Paulo das duas primeiras décadas do século XX, as histórias de “Brás, Bexiga e Barra Funda” são crônicas urbanas sobre uma metrópole ainda em formação. Misturando ficção e acontecimentos banais do dia a dia paulistano, Alcântara Machado narra com beleza a vida e os dramas dos imigrantes europeus durante o processo de afirmação e de ambientação na nova terra. Publicado originalmente em 1927, “Brás, Bexiga e Barra Funda” tem onze contos e é classificado como uma obra da primeira fase do Modernismo. Este livro ainda teve mais duas edições. Em 1944, suas histórias foram agrupadas às de “Laranja da China” (Melhoramentos), outra coletânea de contos de Alcântara Machado que foi lançada em 1928. O resultado desta união foi o livro “Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China” (Martin Claret). E em 1971, suas narrativas integraram “Novelas Paulistanas” (José Olympio), título que reunia todas as tramas ficcionais de Alcântara Machado. Em abril de 1935, Antônio de Alcântara Machado morreu precocemente aos 33 anos, vítima de complicações resultantes de uma má sucedida cirurgia no apêndice. Por isso, seu portfólio literário não é tão extenso, limitando-se a contos, crônicas e críticas literárias e teatrais. Por ter trabalhado desde o final da década de 1920 em jornais e revistas, também deixou algumas reportagens jornalísticas que, hoje, são estudadas com atenção por acadêmicos. Em vida, Alcântara Machado publicou apenas três livros. Além de “Brás, Bexiga e Barra Funda” e “Laranja da China”, ele lançou, em 1926, “Pathè-Baby”, uma coleção de crônicas de viagens pelo exterior. Postumamente, chegaram às livrarias brasileiras, além de “Brás, Bexiga e Barra Funda e Laranja da China” e “Novelas Paulistanas”, “Mana Maria” (Nova Alexandria), romance inacabado, em 1936, “Cavaquinho e Saxofone” (José Olympio), coleção de crônicas e artigos jornalísticos, em 1940, “Prosa Preparatória e Cavaquinho e Saxofone” (Civilização Brasileira), compilação ampliada do livro anterior, em 1983, e “Palcos em Foco” (Edusp), seleção de crônicas teatrais, em 2009. Recentemente, “Pathè-Baby” foi traduzido para o francês e foi publicado na Europa. Os onze contos de “Brás, Bexiga e Barra Funda” são: “Gaetaninho”, “Carmela”, “Tiro de Guerra nº 35”, “Amor e Sangue”, “A Sociedade”, “Lisetta”, “Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, “Notas Biográficas do Novo Deputado”, “O Monstro de Rodas”, “Armazém Progresso de São Paulo” e “Nacionalidade”. Essas tramas são precedidas por um prefácio intitulado pelo autor como “Artigo de Fundo”. Nele, Alcântara Machado escreveu: “Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias. E este prefácio portanto também não nasceu prefácio: nasceu artigo de fundo. Brás, Bexiga e Barra Funda é o órgão dos ítalo-brasileiros de São Paulo (...)”. O primeiro conto da obra é “Gaetaninho”. Nele, um menino pobre, o tal Gaetaninho do título, sonha em andar de automóvel. Porém, carro era artigo muito caro na época e só era usado pelos muito ricos. Para a ralé, que pegava bonde no dia a dia, automóvel só quando havia casamento ou enterro. Em “Carmela”, uma costureira jovem e bonita é assediada por um homem rico que dirige um Buick. Ele quer dar uma volta de carro com ela, mas ela tem namorado e teme os comentários do povão. Para uma dama respeitada, não é de bom tom entrar no veículo alheio. “Tiro de Guerra nº 35” apresenta Aristodemo Guggiani, rapaz de 20 anos que trabalha como cobrador de coletivo. Para cumprir o serviço militar obrigatório, o jovem alista-se como soldado no batalhão de tiro. Lá, ele irá mostrar todo o seu patriotismo. “Amor e Sangue”, a quarta narrativa de “Brás, Bexiga e Barra Funda”, é a trágica história de amor de Nicolino e Rosa. Ele está apaixonado pela moça. Ela, por sua vez, não quer mais nada com Nicolino. Rosa desconfia que ele tenha outra mulher na Rua Cruz Branca. Em “A Sociedade”, Tereza Rita de Matos Arruda quer se casar com Adriano Melli. Entretanto, os pais dela, um casal português muito rico, não querem ouvir falar nessa união. Aos olhos da família de Tereza Rita, Adriano não está à altura da moça. Ele é filho de Salvatore Melli, um italiano simplório que trabalha em uma banca de batatas na feira. “Lisetta” relata o desespero da filha de Dona Mariana. A garotinha pobre se apaixona por um ursinho felpudo que está no colo de uma menina rica em um bonde. Querendo o bichano, Lisetta começa a chorar desesperadamente, para vergonha da mãe. “Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, sétimo conto da coletânea, mostra as paixões de Miquelina. Torcedora do Palestra Itália, a moça assiste ao Derby no estádio do Parque Antártica. A explicação para sua paixão pelo time de futebol da zona Oeste está em campo e responde pelo nome de Rocco. Rocco é o craque palestrino responsável por comandar sua equipe contra os rivais alvinegros. Em “Notas Biográficas do Novo Deputado”, o coronel Juca e sua esposa D. Nequinha recebem em casa o menino Gennerinho. O garoto é órfão do compadre João Intaliano. Será que o casal irá adotar o afilhado? “O Monstro de Rodas” trata de um enterro. Parentes, vizinhos e amigos acompanham em procissão pelas ruas da cidade o velório de uma vítima de acidente automobilístico. “Armazém Progresso de São Paulo”, a penúltima história de “Brás, Bexiga e Barra Funda”, é sobre o estabelecimento comercial de Natale Pienotto. O armazém é célebre no Bexiga por causa dos seus anúncios publicitários e pelas artimanhas do seu proprietário italiano. Por fim, “Nacionalidade” mostra a guerra doméstica do barbeiro Tranquillo Zampinetti. O italiano que veio morar em São Paulo quer que seus filhos nascidos aqui falem a língua natal da família. Contudo, os meninos se recusam, optando pelo português, para desespero do pai patriota. Com apenas 112 páginas, “Brás, Bexiga e Barra Funda” é um livro curtinho. É possível concluir sua leitura em uma única tarde ou mesmo em uma noite só. Não devo ter levado mais do que três horas, no último sábado à tarde, para percorrer suas onze histórias. O que chama mais a atenção nesta obra não é tanto seus enredos, mas sim a estética empregada por Alcântara Machado. Suas narrativas acontecem normalmente nas ruas, tendo São Paulo ora como cenário ora como uma personagem ativa das tramas. Assim, temos a sensação de estar acompanhando uma coletânea de crônica e não apenas um emaranhado de criações ficcionais. Além disso, as histórias de “Brás, Bexiga e Barra Funda” têm uma celeridade que lembra muito o ritmo frenético da metrópole. Tudo acontece rapidamente e de maneira intensa (e muitas vezes com desfechos trágicos). Ao mesmo tempo em que possuem um dia a dia intenso, barulhento e alegre, os imigrantes italianos e seus descendentes também padecem das injustiças sociais, da violência urbana, dos desencontros amorosos e dos preconceitos. Nesta perspectiva, São Paulo dos anos 1920 não é, portanto, tão diferente assim da São Paulo dos anos 2020. Os textos de Antônio Alcântara Machado possuem forte oralidade. O jeito de falar dos paulistanos e dos ítalo-brasileiros está registrado quase que literalmente nas páginas do livro. Não à toa, boa parte do material vem em italiano, palavras saídas do discurso das personagens ou do narrador. Interessante notar que há imigrantes que falam mezzo a mezzo – meio italiano e meio português. Quem já assistiu às telenovelas de época da Rede Globo ambientadas em bairros italianos de São Paulo no final do século XIX e no início do século XX entenderá esse recurso linguístico. Por exemplo, Salvatore Melli, um dos protagonistas do conto “A Sociedade” fala o tempo inteiro misturando os dois idiomas. Veja: “Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. E poi me dê a sua resposta. Domani, dopo domani, na outra semana, quando quiser. lo resto à sua disposição. Ma pense bem!”. Esse mergulho no universo da cultura italiana da cidade é uma das partes mais saborosas deste livro de Alcântara Machado. Assistimos ao dia a dia, ao trabalho, aos amores, aos sonhos e aos dramas dos moradores dos bairros com predomínio de imigrantes europeus. Junto com a oralidade, temos uma linguagem extremamente direta e visual. Com frases curtas, descrições acuradas e cenas fragmentadas dos acontecimentos, a impressão, muitas vezes, é de estarmos acompanhando um roteiro cinematográfico. O suspense de vários contos é provocado principalmente pelo uso da elipse, que não mostra tudo aos leitores (eles vão descobrindo aos poucos o que está acontecendo). Não há nada mais modernista do que isso! A narração dos contos de “Brás, Bexiga e Barra Funda” é sempre em terceira pessoa. O narrador observador possui um olhar, ao mesmo tempo, crítico e bem-humorado da realidade da cidade e do cotidiano dos italianos. Em alguns momentos, o narrador distancia-se das personagens, relatando o que vê em âmbito geral (a paisagem urbana como um todo). Em outros momentos, ele focaliza o que ocorre no ambiente particular das pessoas relatadas. Esse zoom in e zoom out é uma das principais marcas do livro. De qualquer maneira, uma coisa se mantém intacta em todas as narrativas: o narrador é identificado com os italianos, encarando o que se passa com os imigrantes com simpatia e consideração. Assim, a coletânea de contos adquire um ar de crônica de costumes. Além do retrato fidedigno da paisagem urbana e da realidade sociocultural da população italiana e ítalo-brasileira de São Paulo, “Brás, Bexiga e Barra Funda” escancara as mazelas sociais de um país e de uma cidade com gritantes desigualdades políticas (por exemplo, mesmo sendo maioria da população de São Paulo, os imigrantes não podiam votar) e econômicas (a pobreza dominava o cenário de um município em crescimento desordenado). Passados cem anos, conseguimos ver claramente as consequências disso. Não é errado ver este livro como uma sutil denúncia social. “Brás, Bexiga e Barra Funda” é um livro saborosíssimo. Além de possuir um texto ousado para sua época (e ainda hoje moderno) e algumas inovações estilísticas (que tornam suas narrativas ágeis e emblemáticas), esta obra também apresenta boas histórias do lado verde, vermelho e branco da metrópole paulistana. É uma pena que Alcântara Machado tenha morrido tão precocemente. Fico imaginando o que a literatura brasileira não deixou de ganhar se ele tivesse vivido mais dez, vinte ou trinta anos. E é triste também perceber que “Brás, Bexiga e Barra Funda” está atualmente um pouco esquecido. Perto de outros títulos da primeira fase do Modernismo brasileiro, como “Macunaíma” (Nova Fronteira), clássico de Mário de Andrade, e “Memórias Sentimentais de João Miramar” (Companhia das Letras), romance revolucionário de Oswald de Andrade, esta coletânea de contos de Antônio Alcântara Machado quase não é comentada hoje em dia. Não é surpresa notar que haja bons e assíduos leitores que nunca ouviram falar deste livro. É uma pena, pois esta obra é interessante e merece ser lida/conhecida pelo grande público. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Ilha do Tesouro - O clássico infantojuvenil de R. L. Stevenson
No finalzinho do mês passado, reli “A Ilha do Tesouro” (Principis), um clássico da literatura infantojuvenil. O romance do escocês Robert Louis Stevenson é leitura obrigatória para crianças e adolescentes há gerações. A primeira vez que entrei em contato com essa obra eu devia ter entre onze e doze anos. Depois, a li mais uma vez quando eu tinha por volta dos vinte anos. Minha opção por ler este livro outra vez, agora beirando os quarenta anos, foi singela: fiquei encantado com a nova edição produzida pela Editora Principis, que vem se dedicando a relançar clássicos internacionais em belas roupagens. Em seu portfólio, a Principis tem títulos de Júlio Verne, Arthur Conan Doyle, Monteiro Lobato, Lewis Carroll, Daniel Defoe, Miguel de Cervantes e Jane Austen, além do próprio Stevenson. Com uma tradução elegante e um projeto gráfico primoroso, esta edição de “A Ilha do Tesouro” chamou minha atenção, em janeiro, em uma visita despretensiosa a uma livraria da cidade de São Paulo. Confesso que não consegui sair do estabelecimento sem adquirir o exemplar da obra de R. L. Stevenson. Uma boa promoção acabou sendo decisiva para a minha escolha (o livro estava sendo vendido a R$ 13,90). Ou seja, juntei o útil ao agradável. Uma vez com a publicação em mãos, reconheço, demorei um pouco para lê-la. Somente na última semana de julho consegui reler esta história. Precisei de apenas duas noites para percorrer todas as suas páginas. Quem acompanha o Bonas Histórias há mais tempo, na certa se lembrará que analisamos, em março deste ano, o romance mais famoso de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro” (L&PM Pocket). “A Ilha do Tesouro” e “As Aventuras de David Balfour” (L&PM Pocket) vêm logo atrás como os títulos mais marcantes do escocês. Nascido em Edimburgo, em 1850, Stevenson foi um dos escritores mais importantes da Grã-Bretanha no século XIX. Até hoje, ele é um dos autores mais traduzidos da literatura universal. Falecido precocemente aos 44 anos, vítima de hemorragia cerebral, Robert Louis influenciou direta e indiretamente as narrativas ficcionais do século XX. Boa parte de seus enredos serviu para nortear os trabalhos de romancistas, dramaturgos e roteiristas que vieram posteriormente. Se aos olhos dos leitores contemporâneos as histórias de Stevenson parecem óbvias ou recheadas de chavões, é porque elas foram insistentemente repetidas depois de sua morte. Trata-se, portanto, de uma prova incontestável da qualidade do seu portfólio literário e do poder de sua disseminação na cultura popular moderna. Publicado originalmente em fascículos, entre 1881 e 1882, na revista infantil Young Folks, “A Ilha do Tesouro” é uma trama sobre piratas, viagens marítimas e mapas que apontam fortunas escondidas. Sua primeira edição como livro ocorreu logo depois, em novembro de 1883. A ideia para produzir esta história nasceu assim que R. L. Stevenson voltou de sua primeira viagem aos Estados Unidos. Em uma tarde chuvosa ao lado do enteado, ele desenhou um mapa fictício de uma ilha onde estaria depositado o tesouro capturado por piratas. Ao ver a empolgação do menino com a brincadeira, o escritor não pensou duas vezes e resolveu romancear aquela história que acabara de esboçar. Curiosamente, essa é uma das primeiras tramas modernas desenvolvida especificamente para as crianças (uma preocupação inexistente no século XIX). Segundo Stevenson, “A Ilha do Tesouro” deveria ser simples, interessante e impactante para agradar aos meninos e às meninas que a lessem. Quando “A Ilha do Tesouro” foi publicado, as histórias marítimas e de piratas já eram muito populares na Inglaterra, ao ponto de constituírem um gênero ficcional específico. As ilhas desertas, as batalhas históricas em alto mar, os náufragos presos em terras distantes e as ações de saque a navios compunham muitos romances e novelas da época. Vale lembrar que “A Vida e as Aventuras de Robson Crusoé” (Principis), de Daniel Defoe, é de 1719, “Tales of Fancy: The Shipwreck” (sem edição no Brasil), de Sarah H. Burney, é de 1816, “O Pirata” (Ebal), de Sir Walter Scott”, é de 1822, e “The Pilot: A Tale of the Sea” (sem publicação em português), de James Fenimore Cooper, é de 1823. Não é errado, portanto, imaginarmos que Stevenson se valeu do conhecimento destas obras, lançadas muito antes, para criar a sua. O enredo de “A Ilha do Tesouro” se passa no século XVIII. Jim Hankins é um menino de onze anos que mora e trabalha com os pais na estalagem Almirante Benhow. Por estar no litoral inglês, perto de um porto, a hospedaria da família Hankins atende geralmente a marinheiros e marujos que estão provisoriamente na cidade. Contudo, certo dia, um desagradável senhor se instala no Almirante Benhow, para o pânico de todos. Capitão Billy Bones é um dos mais sanguinários piratas britânicos daqueles tempos. Ele integrou a equipe de Flint, o temível pirata que barbarizou pelos mares do mundo por décadas e que havia morrido há pouco. Aposentado dos mares, Capitão Bill, como o hóspede é respeitosamente chamado apesar de nunca ter capitaneado uma embarcação, escolheu a estalagem dos pais de Jim porque ela era a mais isolada da região. Ele, como ficaria óbvio, está fugindo dos antigos colegas, que cobiçam o mapa que Billy Bones tem em mãos. Neste mapa, está o caminho da ilha onde Flint enterrou a fortuna que amedalhou ao longo da vida. Ciente que mais cedo ou mais tarde os antigos piratas o encontrarão, Capitão Bill vive em constante preocupação. Nem por isso ele deixa de ameaçar os donos da hospedaria e os demais hóspedes. Certo dia, os temores de Billy Bones se concretizam. Os antigos colegas do pirata invadem o Almirante Benhow para pegá-lo. Em meio à briga, o mapa acaba nas mãos de Jim Hankins. O garoto foge às pressas. Sem saber o que fazer e não tendo ninguém em quem confiar, ele procura o médico David Livesey, antigo amigo de sua família. Dr. Livesey apresenta o documento dos piratas para John Trelawney, o fidalgo da localidade. A empolgação é geral. Trelawney, que possui muito dinheiro, faz um acordo com Livesey e Jim. O fidalgo bancará uma expedição marítima até a Ilha do Tesouro, em troca de uma parte da fortuna. O médico e o garoto concordam prontamente com a proposta. Assim, o trio embarca no porto de Bristol, algumas semanas mais tarde, no Hispaniola, navio com 26 tripulantes contratado pelo Sr. Trelawney. O problema é que entre os homens a bordo estão alguns dos antigos colegas de Billy Bones, que compuseram a equipe de Flint no passado. Os piratas não vão aceitar passivamente que outra pessoa fique com a fortuna que estão almejando há tantos anos. Assim, a jornada de Jim Hankins, David Livesey e John Trelawney pelos mares e pela ilha tão cobiçada será marcada por perigos e intrigas. “A Ilha do Tesouro” é realmente um livro infantojuvenil delicioso. Há muita ação, suspense e reviravoltas em sua narrativa, um prato cheio para quem gosta de adrenalina. A obra possui 240 páginas, que estão divididas em seis seções: “O Velho Bucaneiro”, “O Cozinheiro do Navio”, “Minha Aventura em Terra Firme”, “A Paliçada”, “Minha Aventura no Mar” e “Capitão Silver”. Como a leitura é rápida e direta, é possível ler “A Ilha do Tesouro” em um dia mesmo ou em duas noites consecutivas. O mais legal desta obra de Robert Louis Stevenson é notar que vários dos seus elementos narrativos transformaram-se em composições clássicas das histórias de piratas. O marujo de uma perna só, os piratas viciados em rum, o tesouro enterrado em uma ilha inabitada, o papagaio no ombro do marinheiro, a bandeira com a caveira simbolizando uma embarcação clandestina e o linguajar típico dos homens que viviam no mar são, atualmente, componentes inerentes à nossa cultura popular. Eles são repetidos até hoje em filmes, livros, histórias em quadrinhos e peças de teatro que tenham como tema as aventuras de piratas. Por mais que Stevenson não tenha sido o pioneiro em inventar esses elementos na ficção literária, ele foi um dos principais divulgadores. “A Ilha do Tesouro”, indiscutivelmente, teve esse papel multiplicador. Um capítulo à parte deste livro é o linguajar dos piratas. As personagens conversam entre si usando e abusando de termos técnicos, históricos e expressões aparentemente próprias (nesta edição, há notas de rodapé explicando o significado de muitas palavras e termos). Essas características de “A Ilha do Tesouro” conferem grande verossimilhança à trama. “Macacos me mordam” e “por mil trovões”, por exemplo, são expressões repetidas ainda hoje, mesmo quase um século e meio depois da publicação dessa história, para caracterizar a fala dos homens do mar. Outro aspecto que precisa ser elogiado em “A Ilha do Tesouro” é o seu desfecho. Apesar de culminar em um final óbvio, ele apresenta algumas surpresas e reviravoltas antes, o que acaba satisfazendo o leitor mais exigente (que não aceita soluções rasteiras nem tão óbvias). Para ser justo, não apenas os capítulos finais reservam intrigas surpreendentes e grandes mudanças no panorama narrativo. Esses pontos estão presentes em toda a obra, desde as primeiras páginas. Sei que já falei sobre isso, mas quero repetir: esta edição da Editora Principis é maravilhosa. A tradução de Monique D´Orazio está impecável, deixando o texto ao mesmo tempo elegante e interessante. E o projeto gráfico, de autoria da Ciranda Cultural, é primoroso. Admito que fiquei admirando os detalhes gráficos deste livro, como um mapa bem desenhado e o início dos capítulos com recursos visuais diferenciados. Incrível! De principal aspecto negativo, “A Ilha do Tesouro” possui um erro crasso de foco narrativo. Sua história é contada em primeira pessoa quase que inteiramente por Jim Hankins. O menino rememora, agora adulto, um episódio intrigante de sua infância. Até aí beleza. Só que no meio do livro, há três capítulos (na parte IV: “Paliçada”) em que a narração é feita em primeira pessoa pelo Dr. Livesey. Por que, pensa o leitor mais atento, o doutor invade a narrativa de Hankins, hein?!!! Esse recurso não tem nenhuma explicação plausível. Trata-se de um grande tropeço de foco narrativo. É uma pena pois a trama vinha se desenrolando muito bem. Outro problema, menos grave pois estamos falando de literatura infantojuvenil, é o da constituição das personagens. As figuras retratadas por Robert Louis Stevenson em “A Ilha do Tesouro” são quase sempre caricatas. Os homens (falo homens porque só há uma personagem feminina em toda a narrativa, a mãe de Jim, que aparece pontualmente no início) são personagens planas. Não há qualquer complexidade psicológica em suas atitudes e em suas crenças. Com isso, temos o estabelecimento de um maniqueísmo exagerado. Ou as pessoas são boazinhas ou elas são extremamente ruins. Não há, nesta trama, um meio termo nem uma tonalidade que não seja os extremos da vilania/heroísmo. Apesar de um probleminha aqui e outro ali em sua estrutura narrativa, “A Ilha do Tesouro” é, em suma, uma ótima história. Falo isso considerando tanto o fato de o leitor ser uma criança, um(a) adolescente ou se já tiver crescido há bastante tempo. Ler Stevenson é muito bom. Conhecer seus romances mais famosos é aventurar-se pelos clássicos da literatura mundial. Para o leitor contemporâneo, é fundamental conhecer as bases pelas quais nossa cultura literária foi construída. Aí, “O Médico e o Monstro” e “A Ilha do Tesouro” são títulos imperdíveis. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Branca como a Neve - O drama tórrido de Anne Fontaine
Quando vi, em maio, a sinopse do filme “Branca como a Neve” (Blanche Comme Neige: 2019) no catálogo do Festival Varilux em Casa, a edição extra da mostra de cinema francês que está disponível em streaming nesse período de pandemia, confesso que a achei um tanto bobinha. Qual a graça de filmar uma nova versão de “Branca de Neve e os Sete Anões”, um dos clássicos dos Irmãos Grimm, hein? A princípio não achei válida essa iniciativa. Por isso, assisti logo de cara a várias outras produções do festival que me pareceram mais interessantes: “A Excêntrica Família de Gaspard” (Gaspard Va Au Mariage: 2017), “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017) e “O Mistério de Henri Pick” (Le Mystère Henri Pick: 2019), por exemplo. Ao notar, no último final de semana, que “Branca como a Neve” era um longa-metragem estrelado por Lou de Laâge, atriz por quem sou apaixonado desde “Jappeloup” (2012), e dirigido por Anne Fontaine, responsável por obras-primas como “Coco Antes de Chanel” (Coco Avant Chanel: 2008), “Agnus Dei” (Les Innocentes: 2015) e “Amor Sem Pecado” (Adore: 2013), achei por bem dar um voto de confiança a este título. E não é que ele é uma produção dramática excelente! Já nos primeiros quinze minutos de sessão já havia me arrependido de não tê-lo visto bem antes. O que faz o pré-julgamento equivocado de uma sinopse, né?! “Branca como a Neve” é um thriller roteirizado pela excelente dupla Anne Fontaine e Pascal Bonitzer. Além da premiada Lou de Laâge, temos um time de atores do primeiro nível do cinema francês: Isabelle Huppert, que dispensa apresentações, Charles Berling, Damien Bonnard, Jonathan Cohen, Richard Fréchette, Vicent Macaigne, Pablo Pauly e Benoît Poelvoorde. Convenhamos, dava para eu ter desconfiado da qualidade deste filme à primeira vista se tivesse me atentado aos nomes de seu elenco. Orçado em pouco mais de sete milhões de euros, “Branca como a Neve” estreou nos cinemas franceses em abril do ano passado. Em nosso país, este filme chegou ao circuito comercial em setembro de 2019. Antes, porém, ele foi apresentado em maio na última edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Apesar de ser, na minha visão, mais um drama do que uma comédia, a mais recente produção de Anne Fontaine, uma das principais cineastas europeias da atualidade, foi classificado como comédia. Pelo menos é assim que “Branca como a Neve” foi apresentado ao público desde seu lançamento. Eu prefiro vê-lo mais como um thriller dramático. Nessa trama, Claire (interpretada por Lou de Laâge) é uma jovem e bela camareira do hotel fundado por seu pai. Com a morte dele há pouco tempo, a propriedade ficou sob a administração de Maud (Isabelle Huppert), a última esposa do empresário. A relação entre madrasta e afilhada é fria e profissional, porém aceitável. Claire é vista por Maud mais como uma funcionária importante do estabelecimento do que como uma filha. As coisas mudam de figura quando Maud descobre que Bernard (Charles Berling), o gerente do estabelecimento com quem ela está tendo um caso (ele é seu amante desde a época em que ela era casada com pai de Claire), está apaixonado por sua afilhada. Inocente e pura, Claire, por sua vez, nem desconfia da paixonite platônica do gerente e namorado de sua madrasta. Indignada com a beleza e a juventude estonteantes de Claire, que atraem os olhares e atingem os corações masculinos, Maud cria um plano macabro: assassinar a própria afilhada. Só assim, ela poderá ter de volta o amor incondicional de Bernard. Com essa ideia fixa na cabeça, a proprietária do hotel contrata uma matadora profissional para capturar a moça, levá-la para um local distante e pôr fim a sua vida de uma vez por todas. Contudo, o crime bárbaro é frustrado quando o carro onde Claire foi colocada no porta-malas por sua assassina sofre um acidente no alto de uma montanha. Ao fugir do veículo batido, a protagonista é salva por um caçador (Damien Bonnard) no meio da floresta. O salvador de Claire ainda mata a motorista do carro batido quando nota que ela queria matar sua protegida. Claire é levada pelo caçador para sua casinha rústica em um pacato povoado situado nas cordilheiras francesas. Lá ele mora com seu irmão gêmeo e um amigo violinista (Vincent Macaigne). Sentindo-se segura e acolhida naquela morada, pouco a pouco, a moça é inserida no dia a dia do lugarejo. Rapidamente, ela se torna moradora fixa da residência do caçador e não quer mais deixar aquela aprazível localidade. Encantados com a beleza de Claire, todos os homens do povoado se apaixonam de alguma forma por ela. Além dos gêmeos e do violinista hipocondríaco e assexuado, o veterinário ciumento e romântico (Jonathan Cohen), o dono da livraria metido a Don Juan e com instintos masoquistas (Benoît Poelvoorde), o tímido e inexperiente lutador de artes marciais (Pablo Pauly) e até o honrado padre local (Richard Fréchette) se veem enfeitiçados pela nova moradora do vilarejo. Em um processo de desabrochar sexual, Claire passa a transar com quase todos os admiradores. E o grupo de sete homens irá atuar na defesa do bem-estar e da integridade de sua musa. A vida idílica de Claire no paraíso montanhoso e afastado da civilização termina quando Maud descobre que ela ainda está viva. Para pôr um fim definitivo na vida da encantadora afilhada, Maud viaja até o povoado distante para assassiná-la com suas próprias mãos. Dessa vez, ela não cometerá o erro de terceirizar uma tarefa tão importante. A vilã não irá sossegar enquanto a bela e jovem filha do seu ex-marido não estiver morta e enterrada. Com uma hora e quarenta minutos de duração, “Branca como a Neve” é dividido em três partes: (1) Claire, (2) Maud e (3) Branca de Neve. Essa divisão segue mais ou menos o padrão do tradicional conto de fadas dos Irmãos Grimm: (1) vida no castelo com a madrasta má até a fuga para a floresta; (2) estada na casa dos sete anões até a mordida na maçã; e (3) morada no castelo com o príncipe encantado. Na primeira parte do longa-metragem de Anne Fontaine, assistimos ao filme na perspectiva da protagonista. Na segunda, vemos o ponto de vista da vilã. E na parte derradeira, acompanhamos o embate entre as duas (enquanto a filha tenta sobreviver à inveja da viúva do pai, a madrasta insiste em matar a jovem e bela afilhada). Como recriação de uma história tradicional, esse filme é magistral. Ao mesmo tempo em que notamos várias semelhanças com o enredo clássico de “Branca de Neve e os Sete Anões” (madrasta invejosa; maçã envenenada; sete homens agindo como os sete anões/guardiões da princesa; protagonista com a pele clarinha...), também temos um enredo com grande liberdade criativa (os admiradores da mocinha não são homens fisicamente pequenos; todos agem como se fossem príncipes tarados, querendo fazer sexo com sua princesa; o castelo encantado é mais uma casinha rústica num descampado rural do que uma mansão imponente; a liberdade da protagonista passa necessariamente pela sua descoberta sexual como mulher...). Sob esse ponto de vista, note a relação das personalidades dos sete admiradores de Claire com as características psicológicas dos sete anões da história original da Branca de Neve. Há uma óbvia associação entre as duas tramas. Neste longa-metragem, temos o zangado, o dengoso, o mestre, o soneca, o hipocondríaco, o feliz e o mudo/inocente. Identificar quem é quem no meio da sessão cinematográfica é uma das graças de “Branca como a Neve”. Ao invés de assistirmos a uma trama infantil e óbvia, acompanhamos, por outro lado, um suspense adulto, erótico, divertido e surpreendente do início ao fim. A inovação de “Branca como a Neve” está em contar uma história parecida a dos Irmãos Grimm, mas com elementos totalmente distintos do original. Incrível a ousadia dessa composição dos roteiristas. É preciso tirar o chapéu mais uma vez para o trabalho sensacional de Fontaine e Bonitzer. De certa maneira, “Branca como a Neve” repete um pouco a fórmula de “Gemma Bovary – A Vida Imita a Arte” (Gemma Bovery: 2014). Naquele filme de Anne Fontaine e Pascal Bonitzer, assistimos à recriação de “Madame Bovary”, romance clássico de Gustave Flaubert, com uma pegada mais contemporânea. “Branca como a Neve” segue “Gemma Bovary” na modernização de um drama feminino com apelo universal. Não dá para falar deste filme sem citar as cenas tórridas de sexo e de nudismo da sua protagonista. Esse recurso é necessário para mostrar o desabrochar sexual da personagem interpretada por Lou de Laâge e para seduzir o espectador para os encantos da moça, de uma beleza realmente impressionante. Que a Scarlett Johansson e a Paloma de Oliveira me perdoem, mas de Laâge é maravilhosa! E boa parte da graça de “Branca como a Neve” está nesse jogo dramático de sedução. A personagem principal do filme faz sexo com boa parte do elenco masculino e nos mais diferentes lugares (dentro do carro, na floresta, na cachoeira, na cama, no sofá, de pé, deitada...). Há até uma cena de flerte com a própria madrasta em que ambas dançam agarradinhas para lá da conta (será que a Maud também se apaixonou por Claire?). Mesmo entendendo a pegada erótica do filme, achei, em muitos momentos, um tanto apelativo a exposição do corpo de Claire/ Lou de Laâge (até pareço o namorado ciumento da atriz falando assim, né?). Isso fica evidente principalmente no início do longa-metragem. Na primeira cena, temos a protagonista tomando banho (uma delícia!) na frente de uma câmera com enquadramentos/olhares despudorados.. Logo depois, ela se veste (ai, ai, ai) para o trabalho. Seu expediente no hotel é mostrado em apenas três minutinhos. Aí, ela volta para casa, tira a roupa e vai dormir nua. Em apenas cinco minutos de filme, vemos a moça pelada pelo menos três ou quatro vezes. Não é muita apelação?! Branca como a Neve” tem uma ótima trilha sonora, que potencializa ainda mais o suspense da trama. Geralmente, a música é instrumental e retrata muito bem os diferentes estados de espírito de Claire durante o filme. Algo que reforça o impacto da trilha sonora é o longo período sem música no meio do filme (quando a moça aparece na casa dos gêmeos e tenta desvendar aonde foi parar). Assim, quando as canções ressurgem, elas chegam com grande força narrativa. Esse é um filme para ser assistido com os olhos e com os ouvidos bem aflorados. E a beleza visual não se limita a estonteante Lou de Laâge. Repare na fotografia de “Branca como a Neve”. O visual da pequena cidadezinha no alto das montanhas francesas é de tirar o fôlego. O cenário é muito bem aproveitado, não apenas para maravilhar o público com sua paisagem, mas também para criar o clima necessário para o thriller. Note na dicotomia entre a sensação de liberdade que a vista do alto das montanhas proporciona e a impressão de claustrofobia e perigo que as estradinhas estreitas e que as pequenas construções do povoado trazem. Isso tudo é proposital. Se por um lado o novo lugar confere liberdade para Claire se tornar uma mulher completa e livre, por outro lado essa mesma localidade potencializará o perigo da chegada de sua madrasta. Como um bom filme francês, temos aqui um humor sutil e inteligente. Em meio ao drama e ao suspense da relação tóxica entre filha e madrasta, “Branca como a Neve” proporciona momentos hilários de pura comédia-dramática. As personagens de Vicent Macaigne, Benoît Poelvoorde, Jonathan Cohen e Pablo Pauly escancaram algumas fragilidades e bizarrices masculinas de maneira divertidíssima. Independentemente de suas idades, posições sociais, profissões e hábitos, na frente de uma mulher deslumbrante e poderosa sexualmente, todos os homens se tornam garotinhos bobos e inseguros. Nesse sentido, eles se apequenam diante da gigantesca figura feminina e, portanto, viram anãozinhos perto dela (gostei dessa metáfora!). Durante o filme, juro que lembrei da música “Garotos II”, do Leoni: “Seus olhos e seus olhares/ Milhares de tentações/ Meninas são tão mulheres/ Seus truques e confusões/ Se espalham pelos pelos/ Boca e cabelo/ Peitos e poses e apelos/ Me agarram pelas pernas/ Certas mulheres como você/ Me levam sempre onde querem/ Garotos não resistem/ Aos seus mistérios/ Garotos nunca dizem não/ Garotos como eu/ Sempre tão espertos/ Perto de uma mulher/ São só garotos”. O comportamento dos homens em “Branca como a Neve” é bem assim diante de Claire. Se você ficou surpreendido com as invenções do enredo de Fontaine, é porque você não viu o desfecho deste filme. Mais uma vez, a trama consegue surpreender o público até a última cena (cuidado, aí vai o spoiler!). Ora o desfecho recorre à velha fórmula de castigar a vilã a qualquer custo (algo fácil e apelativo!), ora não se acovarda em dar um final trágico para a protagonista (que como a história tradicional, pode ser revertido na última cena). Nesse sentido, o desenlace do longa-metragem não deixa de ser aberto. Você pode vê-lo tanto como uma mensagem feliz (igualzinho aos contos de fadas convencionais - os sete anões se transformam em príncipes encantados salvando a princesinha morta com beijos apaixonados) como pode encará-lo de um jeito mais moderno/sobrenatural (visão negativa mais apropriada para as tramas contemporâneas - passagem da protagonista para uma outra vida, mais tranquila e plena). A interpretação da última cena fica ao dispor da consciência e do gosto da plateia. Vale muito a pena conhecer esse novo trabalho de Anne Fontaine. É verdade que ele não está à altura de “Coco Antes de Chanel”, “Agnus Dei” e “Amor Sem Pecado”. Mesmo assim, sua qualidade é indiscutível. Assista, a seguir, ao trailer de “Branca como a Neve”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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