• Ricardo Bonacorci

Livros: A Jangada de Pedra – O destino da Península Ibérica por José Saramago


Em fevereiro de 1992, foi assinado, na Holanda, o Tratado de Maastricht. Pelas bases do acordo, vários estados nacionais independentes da Europa integravam-se econômica e politicamente em um único bloco. Era o estabelecimento formal da União Europeia e do Euro, a moeda única da região. Esse processo de união havia iniciado bem antes, com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) e com a Comunidade Econômica Europeia (CEE), em 1957. Ao longo dos anos seguintes, pouco a pouco a integração foi se intensificando até a concretização do sonho da União Europeia na primeira década de 1990.

Diante do amadurecimento da ideia da União Europeia e da criação iminente do bloco nos anos de 1980, José Saramago escreveu um livro ficcional que debatia metaforicamente a questão da identidade nacional dos países ibéricos. A obra em questão é “A Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), o sexto romance do premiado escritor português. Diante da futura integração de Portugal e da Espanha ao bloco europeu, Saramago se questiona sobre quais seriam os caminhos dessas duas nações no cenário mundial e continental. Portugueses e espanhóis perderiam suas identidades próprias em nome de uma Europa única e homogênea?

Para dar vazão a esse debate, a Península Ibérica, em “A Jangada de Pedra”, se desprende misteriosamente do continente e passa a vagar a esmo pelo Oceano Atlântico. A transformação da península em uma ilha nômade abala a população de seus países de maneira profunda. Uma grande comoção social instala-se na região. Uma vez separados fisicamente da Europa, como portugueses e espanhóis irão se enxergar no final das contas? Não é preciso dizer que temos aqui mais um enredo originalíssimo de José Saramago.

Publicado em 1986, dois anos após “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras) e quatro anos depois de “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra” é um dos livros mais famosos do escritor português. Esta obra foi traduzida para dezenas de idiomas e foi lançada em vários países. Em 2002, o franco-holandês George Sluizer adaptou essa história para o cinema.

Juntamente com os romances “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “História do Cerco de Lisboa” (Companhia das Letras) e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), “A Jangada de Pedra” integra o que podemos chamar da fase da “Crítica à Realidade” de Saramago. Nesse período de 1984 a 1991, o autor utilizou-se de tramas ficcionais ancoradas em elementos fantasiosos para tecer duras críticas a temas reais e contemporâneos do seu país. Não à toa esse é considerado um dos momentos mais criativos da carreira de José Saramago.

O enredo de “A Jangada de Pedra” inicia-se com um acontecimento surpreendente. No mês de agosto de um Verão não identificado, a cadeia montanhosa do Pireneus, que divide territorialmente a Espanha da França, sofre uma cisão geológica. De repente, a cordilheira se abre ao meio e a Península Ibérica se solta da Europa. Na sequência, o imenso bloco de terra (comparado a uma jangada de pedra por sua característica flutuante – daí o título da obra) passa a se deslocar na direção do ocidente, afastando-se a cada dia do antigo continente do qual historicamente pertenceu.

O inusitado acontecimento transforma a região de Portugal e da Espanha em uma grande ilha à deriva no mar. Além disso, Andorra, o pequeno país cravado entre o Pireneus, acaba destruído. A separação da Europa causa um caos social, político e econômico na antiga península (agora ilha). Os turistas assustados fogem da Espanha e de Portugal utilizando-se das linhas aéreas ainda em operação. Depois são os ricos e a classe média ibérica que optam por abandonar a região. Diante da separação física, os mandatários dos países europeus passam a questionar se a partir de então a Península Ibérica deve ser considerada ou não parte do continente. Nesse momento, vem à tona o preconceito que boa parte dos principais países europeus tem em relação aos dois países mais pobres do lado ocidental.

Diante do cenário de incertezas e de insegurança que se instala em Portugal e na Espanha por causa da nova configuração geopolítica, um grupo de pessoas acaba unido com o propósito de salvar seus países da grave crise. Todas essas personagens estão envolvidas em episódios inexplicáveis ocorridos a partir da cisão da península. Joaquim Sassa, de trinta e poucos anos, é um administrador de empresa da cidade de Porto. Ele atirou uma pedra gigantesca ao mar, feito impossível para qualquer ser humano. José Anaiço, outro português, é um professor do ensino fundamental que passou a ser perseguido por estorninhos. Aonde ele vai, um grupo de milhares de passarinhos o acompanha fielmente.

Pedro Orce é um morador idoso da região de Granada, na Espanha, que tem a capacidade de sentir a terra tremer aos seus pés. Ele foi a primeira pessoa a pressentir a tragédia geológica. Joana Carda, por sua vez, é uma jovem portuguesa que achou um graveto com propriedades mágicas. E Maria Guavaira é a galega que encontrou um novelo de lã azul com fios que não terminam nunca. O grupo é formado ainda por um cão francês chamado de Constante. No instante exato em que a fenda apareceu na divisa da França com a Espanha, o animal pulou o buraco que se formava no chão e viajou pela Península Ibérica até se integrar ao quinteto de seres humanos com dons especiais.

Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce, Joana Carda, Maria Guavaira e Constante fazem uma longa viagem por Portugal e pela Espanha a fim de descobrir o que está acontecendo com a região/antiga península/nova ilha. Inicialmente eles começam a jornada de carro. Com a quebra do veículo, eles passam a se utilizar de uma carroça puxada por dois cavalos, chamados de Pig e Al. É nessa longa marcha que o grupo terá a oportunidade de refletir sobre a identidade de seus países. E, como consequência, eles poderão fazer escolhas delicadas tanto no âmbito particular quanto no coletivo que influenciarão o futuro de suas nações.

Em meio aos dramas pessoais e à viagem em terra, as seis personagens assistem a outra jornada. Através das notícias recebidas pelos jornais, pelas rádios e pela televisão, o grupo acompanha o caminho da antiga península pelo Oceano Atlântico. A viagem do bloco pelos mares será longa e surpreendente.

“A Jangada de Pedra” é um livro de quase 300 páginas (na versão de bolso). Demorei três dias para concluir sua leitura. Apesar de volumoso, esta é a segunda menor obra do escritor português deste Desafio Literário. “A Jangada de Pedra” só não é menor em número de páginas do que “Caim” (Companhia das Letras), título de 2009 que tem 176 páginas. Na média, os romances saramaguianos possuem ao menos 400 páginas. São leituras para serem feitas normalmente em uma semana e não em poucos dias.

A primeira questão que chama a atenção neste livro é o teor metafórico de sua trama. Enquanto discute as consequências de uma saída física e inesperada de Portugal e da Espanha do continente europeu, Saramago mergulha no conceito da identidade nacional. Até onde portugueses e espanhóis são iguais e diferentes? Eles estão mais próximos culturalmente das outras nações europeias ou dos países da América Latina e da África? O quanto o período colonial e as invasões mouras transformaram historicamente a sociedade ibérica? Seriam Portugal e Espanha alvo de preconceitos por parte dos países europeus mais ricos? Esses temas são debatidos em meio à narrativa fantástica do deslocamento da Península Ibérica e do drama protagonizado pelo sexteto de personagens com poderes excepcionais.

Como é característico dos romances de Saramago, temos duas linhas narrativas bem definidas, uma macro (geral, da nação como um todo) e uma micro (individual, particular dos protagonistas do enredo). Diferentemente do que acontece em outros livros do autor (“Levantado do Chão”, “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”), em “A Jangada de Pedra”, as ações micro parecem influenciar decisivamente os acontecimentos macro (normalmente é o contrário). A impressão que se tem é que o futuro dos países ibéricos está nas mãos do grupo formado por Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce, Joana Carda, Maria Guavaira e Constante. Seriam eles os únicos capazes de dar fim ao caos que a região se encontra? Enquanto a narrativa geral tem um estilo próximo à escrita jornalística, a trama de nível mais pessoal é mais parecida aos romances de aventura apocalíptica.

Exatamente por isso, a construção dos protagonistas de “A Jangada de Pedra” adquire um tom parecido aos dos super-heróis norte-americanos. É como se as personagens saramaguianas formassem uma espécie de Liga da Justiça Ibérica, com cada um cedendo seus poderes especiais em prol da força coletiva, do grupo. Ao mesmo tempo, essa nova equipe possui características peculiares, diferenciando-a totalmente dos heróis da Marvel e da D.C. Os protagonistas deste livro de Saramago são pessoas comuns, pobres e um tanto enlouquecidas, fadadas ao deslocamento constante por Portugal e pela Espanha. Ou seja, este romance pode ser rotulado também como uma travel story. Nesse sentido, as personagens principais de “A Jangada de Pedra” se aproximam muito mais de Don Quixote do que do Super-Homem ou da Mulher-Maravilha. A jornada da trupe quixotesca também é parecida a realizada pelos cavaleiros medievais e pelos peregrinos de Santiago de Compostela, o que confere tintas regionais e históricas a essas figuras singulares.

Além disso, são fortes as influências religiosas, principalmente do cristianismo, nos comportamentos e nas crenças desses indivíduos. Em alguns momentos, principalmente nos capítulos finais, a trama ganha um ar meio bíblico, com Adão e Eva construindo (ou seria reconstruindo?) um novo povo ibérico. E durante toda a narrativa, temos um ar apocalíptico. Exatamente por isso, lembrei, durante esta leitura, muito de “A Peste” (Record), clássico de Albert Camus de 1947, e “A Dança da Morte” (Suma das Letras), famoso romance de Stephen King publicado em 1978.

Como é típico das obras de José Saramago, o texto de “A Jangada de Pedra” possui forte intertextualidade. As citações abrangem a literatura (Miguel de Cervantes e Luís Vaz de Camões, por exemplo), o cinema (Alfred Hitchcock), a música (Amélia Rodrigues), a história (principalmente de Portugal e da Espanha) e a religião (cristianismo). A abundância de referências da cultura Pop (em maior quantidade se comparado ao dos livros anteriores de Saramago) torna “A Jangada de Pedra” um romance mais agradável de ser degustado pelos leitores contemporâneos. Boa parte dos elementos intertextuais apresentados pelo autor são ainda hoje facilmente reconhecidos pelo público.

E aproveitando que estamos falando de intertextualidade, adoro quando Saramago utiliza-se de personagens e de passagens de seus livros anteriores para compor a nova narrativa. Isso acontece em muitos momentos em “A Jangada de Pedra”. Temos várias citações diretas e indiretas a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, por exemplo. Repare que parte da trama se passa no Hotel Bragança, o mesmo do romance anterior. Temos, assim, a presença de Ricardo Reis, o ilustre hóspede do estabelecimento localizado na Rua do Alecrim, Salvador, o gerente, Pimenta, o funcionário da portaria, e Lídia, a camareira. Note também que há uma citação explícita a “O Conto da A Ilha Desconhecida” (Companhia das Letras). Curiosamente, essa narrativa só seria lançada por José Saramago seis anos depois da publicação de “A Jangada de Pedra”. Mesmo assim, ela aparece surpreendentemente neste romance. Ou o autor já tinha em mente essa história ou já a tinha produzido, mas não a publicado.

Outra característica forte de “A Jangada de Pedra” é a metalinguagem literária. Em quase todo capítulo, o autor debate, no meio da trama, a essência do texto literário, tanto do ponto de vista do seu produtor quanto dos seus receptores. É uma delícia ler José Saramago, um dos maiores escritores do século XX, abordando os mais diferentes aspectos da literatura. Sem qualquer pedantismo ou trivialidade, ele discorre sobre pontos fundamentais da arte que melhor conhece.

As demais características do estilo de Saramago, que ficaram notórias, também estão presentes em “A Jangada de Pedra”. Por isso, não preciso citá-las com tanto detalhe. Assim como ocorre em todo romance depois de “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), este apresenta sinais de pontuação próprios, diálogos integrados à narrativa, narrador misto (primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo), parágrafos e frases de tamanhos gigantescos, humor baseado na ironia fina, narrativa extremamente descritiva e a combinação de elementos ficcionais e reais em um mesmo plano. Portanto, temos um livro de José Saramago ao melhor estilo José Saramago.

Para um livro volumoso, a impressão é que a narrativa de “A Jangada de Pedra” é lenta. Porém, ela é mais movimentada do que “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, o livro anterior de Saramago. Por outro lado, sua trama apresenta características meio infantis. Sim, infantis. O grupo de protagonistas viaja pela Península Ibérica com a ilusão de poder compreender a tragédia geológica e, por consequência, salvar a região do caos em que caiu. A jornada da trupe quixotesca deixa mais dúvidas do que certezas e mais confusões do que soluções.

Como romance metafórico e como manifestação das crenças políticas de seu autor, “A Jangada de Pedra” é uma obra espetacular. O livro debate de maneira original e sagaz a identidade dos povos ibéricos no novo cenário da Europa contemporânea. Agora, se a obra for analisada do ponto de vista de sua narrativa, temos vários problemas. Quem ficar ligado exclusivamente à trama apresentada, talvez saia um pouco frustrado desta leitura. Afinal, ela é realmente fraquinha. Entretanto, quem entender desde a primeira página a relação íntima da história do romance com os eventos políticos que envolveram a entrada da Espanha e de Portugal na União Europeia poderá ter uma experiência de leitura muito mais rica. Nesse caso, “A Jangada de Pedra” ganhará novas dimensões aos olhos do leitor atento.

O Desafio Literário de abril continuará na próxima quarta-feira, dia 17, com o post sobre “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), o oitavo romance da carreira do escritor português (e o quarto livro saramaguiano que o Bonas Histórias analisa neste mês). Não perca os novos capítulos desta investigação sobre a literatura de José Saramago.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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