• Ricardo Bonacorci

Livros: A Filha Perdida - O terceiro romance de Elena Ferrante


Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que tem sua identidade mantida sob anonimato, apesar do status de best-seller internacional. Inegavelmente, trata-se de uma atitude incomum, ainda mais em uma época marcada pela busca desenfreada pela fama e pelos holofotes da mídia. Ferrante, que alguns dizem ser uma tradutora nascida em Nápoles e outros garantem ser um jornalista (você leu corretamente, um jornalista, no masculino mesmo), nunca mostrou seu rosto e de vez em quando aceita conceder entrevistas por escrito. Mesmo assim, ela é atualmente a romancista italiana mais vendida no planeta. Seu maior sucesso é a série “Napolitana”, tetralogia literária publicada entre 2011 e 2014 e um dos maiores best-sellers europeus da década.


Seu primeiro romance, “Um Amor Incômodo” (Intrínseca), foi publicado em 1992 e recebeu incontáveis críticas elogiosas na Itália. A segunda publicação da autora, “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul), chegou às livrarias dez anos depois e se tornou um fenômeno mundial. Esse título foi o responsável por levar o nome de Ferrante para os quatro cantos do planeta. Após “Frantumaglia - Os Caminhos de Uma Escritora” (Intrínseca), livro não ficcional de 2003 em que a italiana constrói um autorretrato singelo e honesto de sua atuação literária, Elena lançou seu terceiro romance. “A Filha Perdida” (Intrínseca) marcou a afirmação da autora como um dos grandes nomes da literatura italiana, europeia e, por que não, mundial. Não é preciso dizer que esta obra foi um novo sucesso de crítica e de público.


Interessado em conhecer mais o trabalho de Elena Ferrante, li neste final de semana “A Filha Perdida”. E admito que fiquei estupefato com a alta qualidade desta produção literária. Os sucessos da autora italiana não foram simples sorte de principiante (caso alguém tenha cogitado essa hipótese). Gostei tanto deste livro que o devorei em uma única noite. Juro que não consegui largar suas páginas antes de concluir sua leitura, mesmo precisando entrar madrugada à dentro com a obra em minhas mãos.


Lançado originalmente em 2006, “A Filha Perdida” segue a receita narrativa dos dois romances precedentes da escritora. Neste drama psicológico, Elena Ferrante apresenta aos leitores uma napolitana de meia-idade angustiada com sua vida e complexada com a relação nada saudável com sua família, principalmente com a mãe e com as filhas. Em uma trama densa e extremamente intensa, mergulhamos na mente de uma das mais polêmicas protagonistas da literatura contemporânea.

Narrado em primeira pessoa, o enredo de “A Filha Perdida” gira em torno da viagem de férias de Leda, uma professora universitária de 47 anos. Moradora de Florença, ela aproveitou o Verão e o recesso no trabalho para passar algumas semanas sozinha em uma praia no sul do país. Para tal, alugou um apartamento confortável à beira-mar e seguiu de carro para lá. A docente quer aproveitar a solteirice e acalmaria de sua vida, agora que suas filhas adultas estão morando em Toronto com o pai, para descansar um pouco e, principalmente, montar o programa de aulas do próximo ano letivo.


O plano de Leda, contudo, é atrapalhado por uma grande família napolitana que também passa férias na mesma praia. Barulhentos, vulgares, espaçosos e feios, eles interrompem o sossego da professora e dos demais banhistas. No meio daquela balburdia tipicamente sulista, uma imagem chama a atenção de Leda. Junto aos familiares barraqueiros, uma jovem mãe mostra-se elegante, bonita e muito carinhosa com a filha, uma menina de cerca de três anos de idade que não desgruda de sua boneca. O contraste é radical. As duas (mãe e filha) são uma antítese total de seus familiares. Curiosa para conhecer mais sobre aquela mulher misteriosa, que evidentemente não é napolitana, Leda aceita interromper seu isolamento voluntário e se aproximar pouco a pouco das outras turistas.


O contato com Nina (esse é o nome da jovem mãe) e Elena (a filha pequena de Nina) implica necessariamente no relacionamento de Leda com os familiares napolitanos das duas. Aí o fascínio inicial da professora universitária com as novas amigas se transformará em irritação. Na sequência, lembranças desagradáveis serão afloradas na mente da narradora-protagonista, que também nasceu em Nápoles e precisou fugir de lá para não conviver mais com a família. O passado nebuloso com a mãe e, posteriormente, com as duas filhas virão à tona, atormentando consideravelmente Leda. As tão sonhadas férias tranquilas podem, assim, virar um grande pesadelo.


“A Filha Perdida” tem 176 páginas. É, portanto, um romance curto. Ele possui 25 capítulos e sua história abrange o período de férias da personagem principal. Nota-se logo de cara que Leda tem sérios problemas emocionais e comportamentais, que só vão crescendo à medida em que a conhecemos mais. Porém, não podemos imaginar o quão fundo é este poço. É nesse ponto que o romance se torna surpreendente!

“A Filha Perdida” é um thriller psicológico sinistro. Leda é uma típica anti-heroína que tenta o tempo inteiro convencer o leitor do contrário. Como uma boa psicopata, ela tem uma excelente argumentação e tenta posar de vítima da situação. Isso é um dos aspectos mais legais do livro (e o que torna sua narrativa bem verossímil). Sabe quando você conversa com um indivíduo insano e, na visão dele, suas atitudes egoístas, maldosas e frias são corriqueiras e tem uma justificativa plausível, enquanto tudo o que os outros fazem é errado e fruto de comportamentos maledicentes?! Pois Leda se comporta justamente assim. Incrível!


Outro aspecto sensacional é como Elena Ferrante consegue construir um relato passional e profundo em meio a uma história aparentemente banal. Se analisarmos as cenas concretas do romance, não há muita coisa acontecendo ao menos no primeiro plano. Uma senhora está de férias na praia e fica observando uma família de turistas. Sua rotina é bem monótona. Entretanto, os detalhes bobos do cotidiano são o que suscitam um turbilhão de emoções na protagonista. São seus pensamentos (fluxo de consciência) que dão emoção à trama e elevam consideravelmente o tom da narrativa. Mais interessante do que o presente é o passado da narradora. Descobrir os segredos de Leda é o que atiça a curiosidade do leitor.


“A Filha Perdida” reserva muitas surpresas em seus capítulos. As reviravoltas da trama acontecem tanto na viagem psíquica da personagem principal quanto no seu cotidiano objetivo. Nada parece ser exatamente como pensamos. A realidade é bem distinta quando analisada a fundo. Isso vale para uma senhora culta sentada tranquilamente na beira de uma praia quanto para uma jovem mãe apaixonada pelo marido e zelosa ao extremo com sua filha pequena. O que está por trás das aparências das mulheres normais, hein?


O texto de Ferrante é elegante, sem soar pedante ou mesmo excessivamente requintado. Sua construção narrativa é sólida. Isso inclui o tom/voz da narração e o seu conteúdo dramático. A excelência desta obra fica mais nítida quando analisamos o universo feminino retratado nesta história. As personagens femininas são riquíssimas e muito variadas. Praticamente, temos um quadro sensível e complexo de mulheres de várias idades e de classes sociais distintas. Se por um lado elas são figuras redondas e contraditórias (um convite ao que há de melhor na produção ficcional contemporânea), as personagens masculinas são, quase sempre, secundárias e estereotipadas. Ou seja, não existe trama perfeita, né?

Apesar dos vários acertos de “A Filha Perdida”, nada é mais interessante do que o mergulho na psicologia da protagonista. Leda escancara um tipo de mulher pouco explorado na literatura e no cinema. É legal procurarmos entender seus preconceitos, seus medos, suas frustrações e, acima de tudo, seus comportamentos em relação à maternidade e ao matrimônio. Elena Ferrante nos força a olhar para as relações de mães e filhos de um jeito novo, original e ácido. Sem dúvida nenhuma, somos levados, nesta obra, a um lado obscuro e pouquíssimo comentado da maternidade.


Gostei tanto deste livro que estou louco para ler outros títulos da escritora italiana. Elena Ferrante é um monstro de autora (monstro no sentido positivo, tá?) e merece uma análise mais profunda de seu trabalho literário (alguém aí usou a palavra Desafio Literário, hein?). Aguarde, portanto, novidades nos próximos meses no Bonas Histórias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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