• Ricardo Bonacorci

Livros: A Festa da Insignificância - O mais recente romance de Milan Kundera


A Festa da Insignificância de Milan Kundera

Estamos no finalzinho do Desafio Literário deste mês. E para encerrarmos as análises da coletânea de livros de Milan Kundera, escolhi como leitura deste final de semana “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras). Este é o décimo romance do mais famoso escritor tcheco da atualidade. Trata-se também da sexta obra de Kundera que comentaremos em setembro no Bonas Histórias.


A importância de “A Festa da Insignificância” está no fato desta publicação ser a mais recente do autor. Lançado em 2013 na França, quando Milan Kundera tinha 85 anos, este livro encerrou um jejum de treze anos sem novas publicações ficcionais do criador de “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Seu último romance tinha sido “A Ignorância” (Companhia das Letras), em 2000. A explicação para o longo hiato sem novos títulos, o maior da carreira de Kundera, passa inevitavelmente pela idade avançada do artista. À medida que as décadas de vida se acumulam, é natural a diminuição do ritmo de trabalho do escritor.


Infelizmente, “A Festa da Insignificância” não foi bem recebido pela crítica norte-americana. Milan Kundera recebeu uma enxurrada de críticas negativas advindas dos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos. Sinceramente, não entendi o motivo para tanta gritaria. Achei “A Festa da Insignificância” um livro belíssimo. Se não é a melhor obra de Kundera, na certa é uma das mais interessantes. Assim, fico mais propenso a concordar com a opinião da crítica europeia, que aclamou o último romance do autor tcheco. Na França e na Itália, esta publicação atingiu rapidamente o topo da lista dos best-sellers. No Brasil, a recepção foi mais moderada. Por aqui, não vi exageros nem exacerbações para nenhum dos lados (nem para o positivo nem para o negativo).

Milan Kundera

Ao mesmo tempo em que mantém boa parte das características estilísticas de Milan Kundera (debate filosófico, personagens masculinas extremamente solitárias, melancólicas e com obsessões curiosas, abordagem crítica sobre o amor e o sexo, diálogos fortes e texto saboroso), “A Festa da Insignificância” apresenta algumas inovações narrativas excelentes. Kundera, por exemplo, mistura de maneira magnífica realidade e ficção, faz interpolações de planos narrativos em uma mesma cena e apresenta um tipo de narrador incomum em seu portfólio. Para mim, este é o trabalho de um autor que atingiu a plenitude artística e pessoal. Por isso, a ousadia e o arrojo em sua construção. Se o escritor tcheco vem encantando os leitores desde a década de 1960 com suas histórias insólitas, amargas, sensuais e existencialistas, temos aqui um Milan Kundera maduro, criativo e, por que não, divertido.


“A Festa da Insignificância” se passa em Paris. Em vários ambientes da capital francesa, quatro amigos, Alain, Ramon, Charles e Calibã, passam os dias conversando sobre questões que variam entre a banalidade da rotina contemporânea e suas dúvidas existencialistas. Cada um deles tem uma obsessão. Alain trabalha organizando coquetéis particulares e é traumatizado pelo abandono da mãe ainda na infância. O rapaz foi criado apenas pelo pai. Ramon é mais velho do grupo. Ele possui algumas décadas a mais do que os amigos. Mesmo idoso, Ramon insiste na tentativa de seduzir as mulheres ao seu redor. Charles é obcecado por uma anedota envolvendo Stálin. Ele sonha em transformar essa história em uma peça para marionetes. E Calibã é um ator fracassado que se diverte trabalhando como garçom. Para aplacar a desilusão profissional, ele interpreta, no dia a dia, o papel de um garçom paquistanês que não sabe falar francês. Hilário!

Livro A Festa da Insignificância de Milan Kundera

Enquanto acompanhamos a rotina banal desse quarteto de figuras frustradas, resignadas e profundamente solitárias (eles passeiam pelos parques parisienses, vão a festas melancólicas, conversam em cafés e frequentam museus), temos acesso a uma infinidade de tramas aparentemente paralelas. Como leitores, assistimos a cenas em que Stálin ridiculariza seus colaboradores mais próximos e se solidariza com a doença de alguém próximo. Vemos o caso da moça bonita que tenta se suicidar jogando-se da ponte. E acompanhamos a mãe que retorna depois de muito tempo para conversar com o filho outrora abandonado. É interessante o leitor notar que essas pequenas tramas não andam totalmente desconectadas do enredo principal de “A Festa da Insignificância”. Esse aspecto é justamente uma das principais surpresas do romance. Nesta criação de Kundera, a realidade se mistura à imaginação, aos sonhos, às leituras, às esperanças e às criações artísticas de suas personagens. O resultado é incrível.


“A Festa da Insignificância” possui sete partes e 136 páginas. É possível ler esta obra em menos de três horas. Foi o que fiz no último sábado de manhã. Em pouco mais de duas horas, já tinha concluído integralmente minha leitura. Por isso, fiquei com dúvidas se estava mesmo diante de um romance ou de uma novela. Ciente desse tipo de questionamento, Milan Kundera foi enfático em classificar seu mais recente trabalho ficcional como sendo uma narrativa longa (romance) e não uma narrativa média (novela). Como não posso discordar do autor da obra (o livro é dele e, assim, será o que ele disser que é), digo então que estamos diante de um romance enxuto. Dos títulos de Kundera que analisamos no Desafio Literário de setembro, “A Festa da Insignificância” é o menor em quantidade de páginas. Até mesmo “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), um ensaio literário, e “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), uma coletânea de contos, são mais volumosos do que essa novela... quero dizer, desse romance.

Livro A Festa da Insignificância de Milan Kundera

O primeiro ponto de destaque de “A Festa da Insignificância” é o seu narrador. Ele é de um tipo diferente do que estamos acostumados a encontrar nos livros de Milan Kundera. A sensação é que esta história é contada em terceira pessoa. Contudo, o narrador em primeira pessoa surge sutilmente no texto (nas entrelinhas). Quem conta a história é na verdade o professor de Charles que lhe emprestou o livro de memórias de Nikita Khrushchóv. Ele não participa efetivamente da trama, preferindo observar seu aluno e os três amigos de Charles. Além disso, o narrador conversa em muitos momentos com o leitor. O tom de confidencia e de diálogo entre narrador e leitor percorre boa parte da trama.


Outro elemento surpreendente, que já citei neste post, é a mistura de ficção e realidade em meio à trama. Durante a leitura de “A Festa da Insignificância” lembrei bastante de Juan Carlos Onetti, escritor uruguaio que gostava de utilizar esse recurso narrativo. Nesse sentido, “A Festa da Insignificância” pode ser comparada a “A Vida Breve” (Planeta do Brasil). Milan Kundera interpõe vários planos narrativos em uma mesma cena, instigando o leitor a imaginar em qual esfera cada parte da história se passa. É muito legal ver esta forma de criação literária (principalmente quando compreendemos esse lance e entendemos as partes de sua composição).


No mais, “A Festa da Insignificância” é um típico romance existencialista de Kundera. O autor debate abertamente vários temas pela perspectiva filosófica. Ele aborda, por exemplo, os sentidos da mentira, do suicídio, dos sonhos, do bom humor e da banalidade da rotina das pessoas comuns, os poderes da amizade, da compaixão e da sedução e as consequências por trás do envelhecimento e da morte. A pegada é quase sempre niilista. Contudo, o tema principal deste romance (como informa seu título) é o valor da insignificância. Há uma passagem, já no capítulo final, sublime que expressa o ponto de vista de Kundera para o assunto principal do livro. Nesse trecho, Ramon conversa com D´Ardelo, um antigo colega, em um parque de Paris. Confira:

Livro A Festa da Insignificância de Milan Kundera

“(...) Há muito tempo, D´Ardelo, eu queria lhe falar de uma coisa. Do valor da insignificância (...). Agora, a insignificância me parece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda a sua evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita... e completamente inútil, as crianças rindo... sem saber por quê, não é lindo? Respire, D´Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor...”.


Em “A Festa da Insignificância”, temos também homens atordoados pela incompreensão do amor e aprisionados pela necessidade eterna de sexo. Nesse universo em que eles não entendem as mulheres e não são entendidos por elas, o que resta é o valor da amizade masculina. Como consequências, solidão, melancolia e frustração são as marcas das personagens de Milan Kundera.


Gostei muito de “A Festa da Insignificância”. Este é um livro curtinho, de leitura rápida e muito agradável (para quem curte textos filosóficos). Tão interessante quanto sua história é a estética literária diferenciada proposta por seu autor. Para quem não tem medo de narrativas inusitadas, o último romance de Kundera é uma ótima opção de leitura.

Milan Kundera

Com a conclusão das análises individuais dos seis livros de Milan Kundera, chegamos à fase de montagem do perfil estilístico do escritor tcheco. Na próxima segunda-feira, dia 30, retorno ao Bonas Histórias para divulgar o último post deste Desafio Literário. Nele, apontarei as principais características da literatura de Kundera e os pontos centrais de sua trajetória pessoal e artística. Não deixe de conferir o resultado deste estudo!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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