Livros: A Garota do Penhasco – O décimo romance de Lucinda Riley
- Ricardo Bonacorci

- há 20 minutos
- 17 min de leitura
Publicado originalmente em inglês em 2011 e lançado no Brasil em 2013, este drama histórico da autora norte-irlandesa tornou-se um de seus principais best-sellers. Excelente representante do estilo narrativo de Riley, que a consagrou mundialmente, a obra protagonizada por Grania Ryan, Mary Benedict e Aurora Devonshire mescla personagens femininas fortes, reconstituição histórica impecável, prosa charmosa, sucessivas tragédias e altas doses de romantismo.

Na última semana de fevereiro, visitei o Café & Expressão, cafeteria localizada na entrada da Dança & Expressão, no bairro paulistano do Sumaré. Vale esclarecer que tanto o café quanto a escola de dança, uma das mais tradicionais da cidade de São Paulo, são da minha irmã. Talvez os leitores do Bonas Histórias conheçam mais a Marcela Bonacorci como sendo a responsável pelo conteúdo da coluna Dança, espaço deste blog que tem um público numeroso e cativo. Por ser professora de Dança de Salão há mais de duas décadas, Celinha (apelido antigo da família para Mar-celinha) fica muito à vontade para escrever sobre as várias modalidades dançantes. Obviamente que me aproveito de seus conhecimentos e de suas habilidades artístico-culturais. Curiosamente, muita gente acha que ela é minha esposa por termos o mesmíssimo sobrenome. ¡Por Dios! Marcelita es solo mi hermana, nada más.
Divagações à parte, volto à minha história para relacionar tudo isso à coluna Livros – Crítica Literária, conteúdo do post de hoje. Onde paramos mesmo? Ah, tá... Naquela tarde quente de quinta-feira, passei na Dança & Expressão para ver a Bruxinha, minha melhor amiga. Afinal, é essa a designação que ela insiste que eu transmita ao mundo há pelo menos um semestre. Fazer o quê? Obedeço. Provando como o mundo é pequeno, Bruxinha também é professora da escola da Marcela, só que de Dança do Ventre. Se essa belíssima mulher, que vive a bailar ao som de músicas árabes e que não é (ainda) da minha família, aparecer com o meu sobrenome, aí sim vocês podem fazer inferências, tá?
Como cheguei mais cedo ao nosso encontro informal (a aula de reposição da Bruxinha era só no início da noite), aproveitei para dar uma paradinha estratégica no Café & Expressão. Pedi um chá gelado (com muito gelo) e um bolo de pote para me entreter no calor paulistano. Ninguém é gordinho por acaso, né? Nesse momento, me chamou atenção uma estante com alguns livros disponíveis para o passatempo dos clientes. Hummmmm. Foi aí que descobri que era possível apanhar uma obra para ler enquanto degustava as guloseimas servidas por Seu Horácio e Dona Edna. Diante da minha ignorância quanto a boa nova da cafeteria, pensei: quem manda não aparecer quase nunca por ali, né? Olha o que estava perdendo! Não é preciso dizer que, ao antever a possibilidade de leituras, minha experiência gastronômica foi potencializada imediatamente.
Depois de consultar os títulos da pequena biblioteca local, tive a segunda surpresa vespertina. Num olhar rápido, desconfiei que entre 60% e 70% das obras ficcionais naquelas prateleiras me pertenceram num passado não tão distante. Quando me mudei para a Argentina há alguns anos, conforme expliquei no capítulo de apresentação de “Tempos Portenhos”, atual coletânea não ficcional da coluna Contos & Crônicas, deixei meus livros na casa dos meus pais, no Parque São Domingos. E nunca mais perguntei sobre o meu acervo nem consegui visitá-los. Aí já viu?! Possivelmente um frete clandestino fosse o responsável pela migração deles para a simpática biblioteca do estabelecimento na Avenida Professor Alfonso Bovero. Apesar de desconfiado, admito que fiquei feliz com a destinação dada aos meus títulos antigos. Melhor assim do que deixá-los sem leitura numa casa antiga.

A terceira surpresa foi me deparar com “A Garota do Penhasco” (Novo Conceito), romance histórico de Lucinda Riley, naquele cantinho literário do Café & Expressão. Essa era uma das poucas publicações de ficção que não tinha me pertencido (não faço a mínima ideia de como foi parar ali) e que me apeteceu imediatamente. Apesar de conhecer um pouco da fama da autora norte-irlandesa, best-seller internacional com seus dramas românticos e narrativas de época, admito que jamais havia lido seus títulos. Empolgado com a oportunidade, consultei o horário e vi que havia ainda uma hora e meia para a chegada de Bruxinha. Sem pensar duas vezes, baixei a cabeça e comecei a leitura de “A Garota do Penhasco”, entre goles da bebida gelada e mordidas generosas de bolo prestígio.
O nome de batismo da romancista, uma das mais populares da literatura contemporânea da Irlanda do Norte, é Lucinda Edmonds. O sobrenome Riley é de seu segundo marido e fora adotado artisticamente apenas em 2010. Lucinda nasceu em Lisburn, pequena cidade a 13 km de Belfast, em fevereiro de 1965. Filha mais velha de uma atriz e de um empresário do ramo têxtil, a futura escritora se mudou ainda criança para o Oeste da Inglaterra. Alguns anos mais tarde, a família foi viver em Londres. Na capital inglesa, ela ingressou aos 14 anos na escola de atuação. A ideia era seguir os passos maternos. Assim, Lucinda Edmonds se tornou atriz de teatro, televisão, cinema e publicidade no Reino Unido. Sua paixão pela escrita e a facilidade com as palavras a levaram a produzir suas primeiras peças cênicas. Em 1989, se casou com Owen Whittaker, com quem teve dois filhos.
No início dos anos 1990, a jovem e promissora atriz foi acometida por um grave problema de saúde. Ao contrair uma febre glandular, sua aparência se transformou, o que inviabilizou totalmente a carreira nos palcos e nas telas a curto prazo. Enquanto se recuperava em casa, Lucinda aproveitou-se da experiência como dramaturga e escreveu seu primeiro romance. Em 1992, portanto, lançou “Lovers And Players” (Sem publicação no Brasil), sua obra de estreia na ficção. Tinha 24 anos de idade quando debutou na literatura comercial. Surgia, assim, a romancista que encantaria mais tarde os leitores no mundo inteiro.
Na década de 1990, já recuperada da enfermidade, Lucinda Edmonds publicou mais seis romances, que obtiveram boa vendagem, principalmente no Reino Unido. Até agora, nenhum desses títulos da fase inicial da carreira da norte-irlandesa chegou ao Brasil em edições traduzidas para o português. Em comum, essas obras noventistas eram histórias de amor que envolviam famílias aristocratas e que se passavam em casarões antigos. Os conflitos centrais quase sempre giravam em torno das diferenças socioculturais do casal apaixonado. E, obviamente, os enredos continham investigações do passado, que guardavam segredos seculares impactantes, e eram protagonizados por mulheres de personalidade extremamente forte. Se pensarmos bem, essas são as marcas estilísticas de todos os livros de Lucinda.

Vale dizer que a romancista era apaixonada por História. Por isso, adorava fazer extensas pesquisas bibliográficas sobre hábitos, cenários, cultura, contextos e particularidades dos séculos passados. De forma inteligente, esse conhecimento era explorado em suas tramas ficcionais, que sempre traziam alguns elementos reais de outras épocas como guerras, epidemias, crises econômicas e grandes migrações populacionais. Ler seus livros é mergulhar na ambientação do fim do século XIX e do início do século XX.
Em 1999, Lucinda se separou. Um ano depois, casou-se novamente, dessa vez com Stephen Riley, com quem teve mais dois filhos. Nessa época, foi viver fora do Reino Unido, dividindo-se entre os Estados Unidos e a França. Recém-casada, lançou seu oitavo romance, “Seeing Double” (Sem publicação no Brasil). Essa história abordava as intrigas familiares da monarquia britânica. Por mais que o enredo fosse totalmente fictício, ele não caiu bem entre as autoridades inglesas. Lembremos que a morte de Diana era ainda recente e causava enorme comoção entre súditos e realeza. O fato é que o livro de Lucinda Edmonds foi retirado às pressas das livrarias, em uma suspeita explícita de pressão e censura por parte da Casa de Windsor.
O pior para a escritora norte-irlandesa não foi assistir ao descarte de “Seeing Double” por parte de sua própria editora. O episódio mais grave foi ter seu nome queimado em todo o mercado editorial britânico a partir de então. De repente, ela era vista como uma das maiores inimigas da querida família real. Por consequência, nenhuma editora queria editá-la. Apesar de seus esforços em apresentar novos romances, publishers, editores e livreiros a cancelaram sem piedade. Sim, ela foi cancelada, numa época que esse termo não era ainda tão popular. Em outras palavras, do dia para a noite, todas as portas das editoras se fecharam para Lucinda. Isso explica a falta de publicação dela nos anos 2000.
Só uma década mais tarde, a autora arriscou novamente enviar um original para apreciação. Para burlar a má vontade dos editores, assinou a obra como Lucina Riley, seu nome após o segundo matrimônio. Assim, em 2010, chegou às livrarias “A Casa das Orquídeas” (Arqueiro). Utilizando o antigo receituário narrativo que a havia consagrado, o livro apresentava uma história de superação e segredos familiares antigos contidos em um diário. A força do enredo tornou o nono romance de Lucinda (e o primeiro sob a marca Lucinda Riley) em best-seller mundial. “A Casa das Orquídeas” alcançou mais de 1 milhão de unidades vendidas. De repente, a norte-irlandesa voltava a encantar os leitores e retomava o antigo prestígio. Não por acaso, teve outra vez as portas abertas pelas casas editoriais britânicas. Empolgada com a reviravolta na carreira, ela passou a escrever freneticamente.
Após o êxito impressionante de “A Casa das Orquídeas”, que tenho muita vontade de ler, Lucinda Riley publicou, em 2011, justamente “A Garota do Penhasco”. Essa obra foi traduzida para o português por Henrique Amat Rego Monteiro. E foi lançada no Brasil dois anos mais tarde pela Editora Novo Conceito, casa editorial fundada em 2004 que tem como foco a ficção e os best-sellers internacionais. Em 2019, os direitos deste título foram adquiridos pela Editora Arqueiro, que providenciou uma nova edição brasileira. Confesso que li a primeira edição nacional (do exemplar que encontrei na biblioteca do Café & Expressão) e não a segunda. Apesar de não existirem números concretos de quantas cópias foram vendidas no mundo e no nosso país, estima-se que “A Garota do Penhasco” esteja entre os cinco romances independentes mais populares de Riley.

A partir de “A Garota do Penhasco”, a autora norte-irlandesa apresentou mais oito romances independentes: “A Luz Através da Janela” (Arqueiro), de 2012, “A Rosa da Meia-noite” (Arqueiro), de 2014, “A Garota Italiana” (Arqueiro), também de 2014, “A Árvore dos Anjos” (Arqueiro), de 2015, “O Segredo de Helena” (Arqueiro), de 2016, “A Carta Secreta” (Arqueiro), de 2018, “A Sala das Borboletas” (Arqueiro), de 2019, e “Morte no Internato” (Arqueiro), de 2022. Todos se tornaram best-sellers tanto na Europa quanto na América do Norte. Prova da popularidade internacional de Lucinda Riley é que os títulos dessa segunda parte de sua carreira foram lançados integralmente no Brasil.
Há pouco, usei a expressão “romances independentes” porque seu maior sucesso não é uma obra isolada e sim a coleção ficcional “As Sete Irmãs”. A heptalogia foi inspirada nas lendas da constelação das Sete Irmãs das Plêiades, da Mitologia Grega. Quando disse que a escritora era apaixonada por História, não estava exagerando. A saga superou o sucesso de “A Casa das Orquídeas” e se tornou febre global. Essa coletânea é composta por: “As Sete Irmãs” (Arqueiro), de 2015; “A Irmã da Tempestade” (Arqueiro), de 2016; “A Irmã da Sombra” (Arqueiro), também de 2016; “A Irmã da Pérola” (Arqueiro), de 2017; “A Irmã da Lua” (Arqueiro), de 2018; “A Irmã do Sol” (Arqueiro), de 2019; e “A Irmã Desaparecida” (Arqueiro), de 2021.
As vendas dos títulos de “As Sete Irmãs” já totalizam 25 milhões de unidades nos quatro cantos do planeta, representando mais de 60% das cópias comercializadas da romancista. Estima-se que Riley tenha alcançado a marca de 40 milhões de livros vendidos. Curiosamente, 90% dos leitores são de fora do Reino Unido, o que comprova o caráter universal de suas tramas. Nada mal para alguém que foi desprezada pelos editores por quase uma década, né?
Diagnosticada com câncer em 2017, Lucinda Riley faleceu cinco anos mais tarde em sua fazenda na Irlanda do Norte, onde morava desde 2015. Tinha apenas 55 anos. Sua última publicação autoral foi “A Irmã Desaparecida”, sétimo volume da Série “As Sete Irmãs”. Esse título chegou às livrarias algumas semanas antes da morte da romancista. Imediatamente, ele alcançou o posto de livro mais vendido no Reino Unido, o que encheu Lucinda de orgulho.
Mais tarde, foi anunciado que havia um romance desta saga que ficara inacabado. Por isso, ele foi lançado no fim de 2021 depois de ser finalizado por Harry Whittaker, filho da autora. Seu título é “Graça e o Anjo do Natal” (Arqueiro) e foi apontado como o oitavo volume da coletânea “As Sete Irmãs”. Confesso que senti mais cheiro de oportunismo comercial do que vontade da família e da editora em darem sequência aos textos deixados por Lucinda Riley. Prova disso é que seguem aparecendo novas obras, que, supostamente, a norte-irlandesa teria deixado (inacabadas) na gaveta de casa. Vai acreditar, né?

Como o assunto de hoje da coluna Livros – Crítica Literária é “A Garota do Penhasco”, nada mais natural do que falarmos de seu enredo. Pois vamos a ele, senhoras e senhores. Essa história enfoca o drama sentimental de Grania Ryan, uma escultora irlandesa de 31 anos que vive há uma década em Nova York. Quando perde o bebê que tanto ansiava no meio da gestação, ela abandona o namorado/noivo nos Estados Unidos e retorna às pressas para a fazenda da família em Dunworley, em West Cork, no litoral da Irlanda. A protagonista do romance aproveita a tragédia pessoal para visitar os pais e o irmão mais novo, enquanto repensa os rumos de sua vida. Uma coisa ela tem certeza: não quer restabelecer os vínculos com o namorado norte-americano, Matt Connely.
Enquanto usufrui da paz na terra natal, Grania conhece uma menina extremamente carismática em um de seus passeios à beira do penhasco com vista à baía de Dunworley – daí o título do livro. A garota de oito anos se chama Aurora Devonshire e é órfã da mãe, Lily Lisle, que se suicidou há quatro anos. Depois de viver por muito tempo em Londres, a pequena Aurora retornou com o pai, Alexander Devonshire, para viver em Dunworley. Eles habitam um casarão abandonado e de tons góticos no alto da montanha. Aquele lugar é o lar dos Lisle, família da esposa falecida de Alexander, há mais de dois séculos. Pai e filha moram ali de maneira solitária e cercados de empregados.
A amizade de Grania Ryan e Aurora Devonshire é do tipo arrebatadora. Em pouquíssimo tempo, elas já passam os dias inteiros brincando e passeando pela pequena cidade. Em certo sentido, a menina supre a carência emocional da jovem que viu sua primeira gravidez interrompida. E a moça inteligente, charmosa e cosmopolita enche o coração da garotinha que anseia por uma presença materna.
A amizade das duas é muitíssimo bem recebida por Alexander Devonshire, um viúvo jovem e bonitão que arranca suspiros ao primeiro olhar da mulherada, mas que é ausente, recluso e bastante esquisito. E põe esquisito nisso, Santo Deus! Vendo a felicidade de Aurora e sentindo que Grania pode ficar algum tempo no litoral irlandês, ele contrata a escultora como babá da garotinha por algumas semanas. Dessa forma, pode viajar em paz para o exterior para tratar de alguns negócios. Ele atua como investidor em companhias internacionais.
O convite de trabalho cai como uma luva para as amigas inseparáveis. Trata-se de uma excelente oportunidade para Grania Ryan e Aurora Devonshire passarem ainda mais tempo juntas. Sem Alexander por perto, a Srta. Ryan se muda para o casarão no alto da montanha para cuidar da menina em tempo integral.

Contudo, o que parece um esquema perfeito para ambas gera grande apreensão em Kathleen Ryan, a mãe de Grania. O passado trágico da família Lisle, o aspecto sombrio da mansão e a má fama do Sr. Devonshire (que muita gente chama equivocadamente de Sr. Lisle) fazem a Sra. Ryan acreditar que sua filha irá repetir os equívocos da avó. Há 100 anos, Mary Benedict sofreu com um enredo parecidíssimo. Grania não entende logo de cara a insegurança materna, o que obriga Kathleen a entregar-lhe as cartas da parente que viveu no início do século XX. Só depois de ler os manuscritos de Mary, a protagonista de Lucinda Riley compreende as coincidências e, obviamente, os temores de Kathleen.
As cartas mais antigas datam de julho de 1914. Mary Benedict tinha 18 anos e trabalhava como empregada doméstica no casarão da família Lisle, no alto da montanha. Seu patrão era o jovem Sebastian Lisle, de 22 anos. Noiva de Sean Ryan, tio-avô de Kathleen, Mary imaginava que teria que mudar de trabalho quando subisse no altar com o homem por quem estava prometida. Contudo, algumas semanas antes do matrimônio, a Primeira Guerra Mundial eclodiu, o que provocou alteração significativa nos planos dos pombinhos.
Por ser reserva da Guarda Irlandesa, Sean foi enviado para o campo de batalha para lutar ao lado dos ingleses contra os alemães. A expectativa era que o conflito durasse pouco tempo. Na prática, as batalhas travadas em trincheiras pela Europa demandaram intermináveis anos e provocaram a morte de milhões de soldados. Além de causar graves sequelas em muitos combatentes que conseguiram sobreviver. Aqueles que não voltaram seriamente feridos fisicamente, tiveram que conviver com traumas e abalos psicológicos a vida inteira.
Enquanto esperava a volta de Sean Ryan, Mary Benedict recebeu uma proposta de trabalho do irmão mais velho de seu patrão. Por ser diplomata, Lawrence Lisle vivia em Londres e precisava viajar muito. Em meio à correria diária, ele recebeu uma criança recém-nascida para cuidar. A pequena chamava-se Anna e vinha, provavelmente, da Rússia ou tinha mãe russa. Isso era tudo o que foi informado sobre o bebezinho aos criados da mansão inglesa dos Lisle. O fato é que Lawrence precisava de uma babá urgente e consultou Sebastian, que indicou Mary para o serviço. Dessa maneira, a jovem irlandesa se mudou para a capital da Inglaterra para cuidar de Anna.
A grande proximidade com a menina, a falta de contato com Sebastian, que vivia ausente, e a inexistência de familiares de Anna fizeram com que Mary se tornasse, na prática, a mãe da garotinha. Isso não foi um problema enquanto a rotina no casarão londrino caminhava normalmente. Porém, certo dia, Sebastian retornou e informou aos empregados que iria se casar com Elizabeth Delancey, viúva de um grande amigo. Quando a administração doméstica ficou efetivamente a cargo de Elizabeth, uma mulher amarga que parecia nutrir profundo ódio por Anna, a vida da avó de Kathleen Ryan se tornou um inferno. A partir daí, começaram as maiores complicações de Mary.

Durante a leitura das cartas da bisavó, Grania Ryan descobre que sua família e a família de Aurora Devonshire compartilham histórias que se entrelaçam há muitas décadas. Cada descoberta do passado reserva surpresas emocionantes. As revelações dos segredos bombásticos de ambas as famílias, as promessas quebradas e os vários eventos traumáticos das mulheres dos dois clãs mexem com a principal protagonista do romance de Lucinda Riley. Por mais que tentem não se envolver, a sensação é que os Ryan e os Lisle estão fadados a caminhar juntos e, quem sabe, repetir os mesmos erros por várias gerações.
“A Garota do Penhasco” é um romance volumoso. Diria até beeem volumoso. Ele tem 528 páginas, divididas em 56 capítulos. Há uma introdução, 44 seções numeradas, 10 seções sem numeração e um epílogo. Daí minha conta de 56 capítulos. Precisei de 13 horas de leitura para concluir seu conteúdo integralmente. Obviamente, não li tudo de uma vez só na mesa da cafeteria de hermanita, conforme relatei no início deste post da coluna Livros – Crítica Literária.
Na visita ao Café & Expressão, devo ter me entretido com o livro por cerca de uma hora. Com a chegada da Bruxinha, precisei pedir emprestado a obra para a dona do estabelecimento. Queria levar “A Garota do Penhasco” para casa e seguir com sua leitura no final de semana. Aí descobri que essa era uma prática proibida. Pelo que entendi, livro de cafeteria é para ser apreciado durante os cafés. Justo. Muito justo. Justíssimo. Ainda bem que Celinha abriu uma exceção para seu irmãozinho querido. Talvez a evidência de que eu seja o “doador involuntário” de boa parte do acervo ficcional daquela biblioteca tenha corroborado a iniciativa altruísta de hermanita.
Assim, na calma residencial, reiniciei o romance de Riley na noite da sexta-feira seguinte. Estimo que foram duas horas de leitura. Prossegui no sábado tanto à tarde quanto à noite por cerca de cinco horas. E o finalizei ao longo de todo o domingo. Aí precisei de, creio eu, outras cinco horas. Se minhas habilidades matemáticas (que nunca foram grande coisa) não estiverem se deteriorando com o avançar da idade, a leitura total deve ter somado cerca de 13 horas, conforme anunciado nos parágrafos acima. Ou seja, com alguma concentração (habilidade cada vez mais escassa em nossa sociedade), dá para percorrer esse título de cabo a rabo em um único final de semana.
O que mais gostei em “A Garota do Penhasco” foi sua prosa envolvente e sua história charmosa. Talvez essa seja a característica preponderante desta obra: sua narrativa é extremamente encantadora. Tenho que admitir que Lucinda Riley sabe contar histórias como poucos autores ficcionais contemporâneos. Ela mistura drama, romantismo, tragédia, suspense e reviravoltas com rara felicidade. É só ler dois ou três capítulos e boom: somos tragados para dentro da trama. Aí fica difícil parar a leitura, né?

Outro aspecto elogioso deste livro é a composição das personagens. Elas são, quase sempre, marcantes. No centro do conflito estão mulheres destemidas, empoderadas e à frente do seu tempo. Em vários sentidos, Grania Ryan e Mary Benedict são parecidíssimas. Essa similaridade dá ainda mais graça ao enredo. Também vale informar que não encontrei, em “A Garota do Penhasco”, muitos maniqueísmos nem tipos caricatos, elementos que naturalmente empobrecem o texto literário. Inclusive as protagonistas (no plural pois são duas ou três) são figuras redondas. Em outras palavras, são pessoas complexas, contraditórias e falíveis, chegando até a cometer pequenos crimes para obter o que desejam.
O que indica a excelência na constituição das personagens por Riley é que nem o excesso de figuras retratadas ao longo do romance gera qualquer confusão nos leitores. Pelo menos eu não fiquei atrapalhado, durante a leitura, com as três ou quatro dezenas de tipos que compõem essa história. E olha que sou campeão em embaralhar as figuras ficcionais, principalmente em romances históricos, que utilizam multidões. Mas por que não os confundimos aqui? Porque cada um deles tem características marcantes e funções bem específicas na trama. Se isso não é sinônimo de grande habilidade ficcional por parte da autora, não sei mais o que é excelência literária.
Contudo, a chave para compreender “A Garota do Penhasco” está na dupla linha narrativa. A primeira história acontece mais ou menos no presente (em meados da primeira década do século XXI) e é protagonizada por Grania Ryan. A jovem escultora encontra em Aurora, uma menina órfã, a razão para seguir vivendo. A amizade com a pequena dá vazão à sua aflorada maternidade. A segunda linha narrativa ocorre ao longo da primeira metade do século XX, mais especificamente da Primeira até a Segunda Guerra Mundial. Aí quem assume a ação é Mary Benedict, uma empregada doméstica que vira babá de uma garotinha órfã. Sua relação com Anna, uma espécie de afilhada do patrão, se transforma em algo mais forte do que a simples obrigação profissional. Mais uma vez, os instintos maternais se sobrepõem à lógica.
Por falar nessa segunda parte, a construção histórica de Lucinda Riley é realmente impecável. Além de muito bem descritas, as cenas antigas transmitem a ambientação da época e apresentam excelentes espaços narrativos. Não sei explicar bem a sensação que tive, mas parece mesmo que estamos acompanhando as personagens na primeira metade do século XX. Incrível! Também curti as coincidências entre passado e presente. Há mais semelhanças entre os dias de hoje e os dias de ontem do que podemos imaginar. Só essa reflexão vale a leitura. A tecnologia e a evolução da sociedade não mudam o carma das pessoas, que se repetem insistentemente ao longo das gerações.

Além da dupla narrativa e da variedade do tempo narrativo, “A Garota do Penhasco” apresenta diferentes narradores. Nos capítulos numerados, o narrador que desponta é do tipo observador em terceira pessoa. Ele fica flutuando livremente, apesar de colar quase sempre em Grania, Matt, Kathleen, Mary e Anna. O problema é que, em algumas passagens, ele também gruda inexplicavelmente em coadjuvantes. Confesso que esse expediente causa certo estranhamento, principalmente nos leitores conhecedores da Teoria Literária. Apesar de não achar que tenha havido erro grave de foco narrativo, as escolhas de quem o narrador acompanha em cena deveriam ser mais criteriosas e limitadas. Obviamente, o estilo literário de Lucinda Riley não é dos mais refinados. Ou ela não se preocupava com tais aspectos, ou não dominava plenamente alguns elementos da narrativa ficcional. Achei uma pena!
Nos capítulos sem numeração, a narração é feita por Aurora, a menina cujo apelido dá nome ao livro. Ao longo de toda a obra de Riley, ela comenta em primeira pessoa os acontecimentos que vamos receber ou que acabamos de acompanhar. Inclusive, as seções de abertura e término do romance são relatadas por ela. Sempre que Aurora se apresenta ao leitor, há uma identificação visual clara, o que evita qualquer confusão. Como é interessante o narrador em primeira pessoa, né? Acredito que ele caia muitíssimo bem em vários títulos ficcionais, até mesmo nos romances históricos.
Outro aspecto positivo é a intertextualidade literária. A protagonista acompanha a história da bisavó por meio da leitura de cartas. Por mais que seja inverossímil visualizar os detalhes da vida de alguém apenas por suas correspondências (ainda mais no caso de Mary, que não deixou ninguém de sua confiança em Dunworley e guardava segredos impublicáveis de sua passagem por Londres), achei válido o uso desse recurso metalinguístico. Até acho que dava para a autora norte-irlandesa ter resolvido esse problema com certa facilidade. Bastava, por exemplo, ter recorrido à consulta, por parte de Grania Ryan, dos diários ou cadernos de anotações íntimas da bisavó, ao invés de cartas. Assim, evitaria ou minimizaria o ruído. Contudo, como Lucinda Riley valeu-se dos diários em “A Casa das Orquídeas”, seu romance anterior, certamente quis variar um pouco esse aspecto da linha narrativa.
De componente verdadeiramente negativo, achei que “A Garota do Penhasco” faz parte de uma moldura narrativa que a autora adotou ao longo da carreira inteira. A sensação é que todos os seus títulos apresentam a mesmíssima dinâmica. Uma moça do presente descobre segredos trágicos de suas antepassadas por meio de documentos escritos. Invariavelmente, os conflitos tanto de hoje quanto de ontem giram em torno das incompatibilidades econômicas e sociais com os homens que elas amam/amavam. Ainda que se trate de um receituário ficcional razoavelmente interessante, vamos combinar que depois da leitura de duas ou três obras idênticas, os leitores podem se cansar.

De qualquer maneira, “A Garota do Penhasco” é um belíssimo romance histórico, ainda mais se você não leu nadinha de Lucinda Riley. Tanto é que ele foi a minha melhor leitura do mês passado. Por isso, “A Garota do Penhasco” ganhou merecidamente uma análise literária completa no Bonas Histórias. Após conhecer a décima publicação de Riley, admito que fiquei com muito mais vontade de ler “A Casa das Orquídeas” e “As Sete Irmãs”, seus principais sucessos. Vamos ver se em breve eu volto à coluna Livros – Crítica Literária para debater com vocês os principais best-sellers da romancista norte-irlandesa.
Até a próxima, senhoras e senhores.
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