• Ricardo Bonacorci

Livros: O Que Sabe o Coração - O maior sucesso de Jessi Kirby


O Que Sabe o Coração é o livro de Jessi Kirby

Neste final de semana, li “O que Sabe o Coração” (Rocco Jovens Leitores), o romance de maior sucesso de Jessi Kirby. A escritora californiana é uma das principais revelações da literatura infantojuvenil norte-americana. Com textos elegantes, narrativas originais, dramas românticos e enredos ambientados no universo adolescente, Kirby conquistou uma legião de fãs entre os jovens e os jovens adultos da América do Norte.


Publicado em 2015, “O que Sabe o Coração” se tornou um grande sucesso nos Estados Unidos tão logo chegou às livrarias. Este livro foi traduzido para vários idiomas e lançado com entusiasmo no exterior. Até então, a principal obra de Kirby era “Moonglass” (sem tradução para o português), título infantojuvenil selecionado pelo ABA New Voices em 2011 como um dos destaques daquela temporada. Apesar dos elogios da crítica, “Moonglass” não apresentou um volume impactante de vendas. O êxito comercial da autora demoraria mais cinco anos para chegar (e viria com sua quarta publicação).


Quando escreveu “O que Sabe o Coração”, Jessi Kirby trabalhava como bibliotecária em uma escola de ensino médio em Orange County, uma pequena cidade na região metropolitana de Los Angeles. Antes, ela atuou também como professora de inglês. Dividindo o tempo entre as obrigações escolares e a produção ficcional, a escritora usava sua proximidade com os estudantes para entender suas realidades e seus cotidianos e, a partir daí, construir histórias com a cara dos jovens contemporâneos.


Atualmente, Kirby tem meia dúzia de livros publicados. Além de “O que Sabe o Coração” e “Moonglass”, seu portfólio abrange os romances “In Honor” e “Golden”, ambas as obras lançadas em 2013, “The Secret History of Us”, de 2017, e “The Other Side of Lost”, seu título mais recente, de 2018. Nenhum deles ganhou uma versão para o português até agora.

Jessi Kirby

Morando há mais de uma década em Crystal Cove, badalado bairro de Newport Beach, na Califórnia, com o marido e os dois filhos pequenos, Jessi Kirby continua se dividindo entre a produção ficcional e a rotina na biblioteca escolar. Apaixonada por praias, admiradora das paisagens suntuosas da costa Oeste dos Estados Unidos, fanática por literatura, assídua corredora e romântica inveterada, a autora leva para sua literatura essas características e gostos pessoais. O resultado é geralmente muito positivo.


O enredo de “O que Sabe o Coração” se passa na Califórnia. A trama é narrada em primeira pessoa por Quinn Sullivan, uma adolescente que acabou de concluir o ensino médio. Ao invés de pensar em qual faculdade cursar e o que fazer da vida, ela está presa a uma tragédia que ocorreu há 400 dias (sim, ela conta um a um os dias a partir de tal fatalidade). Trent, seu primeiro e grande amor, morreu em um acidente aos 17 anos. Presa ao luto do namorado, Quinn não consegue reconstruir sua rotina nem seguir em frente. Em estado de luto permanente, a moça vive em uma depressão profunda.


Depois de mais de um ano da morte de Trent, Quinn resolve procurar as cinco pessoas que receberam, por meio do sistema de doação, os órgãos do namorado. De certa forma, ela acreditava que interagir com aqueles que foram ajudados indiretamente pelo falecimento do amado poderia ajudá-la em sua recuperação. Assim, a moça descobre que o pulmão de Trent foi dado para Norah, uma jovem mãe. O rim foi transplantado em Luke Palmer, um rapaz de 25 anos que gostava de tocar violão. O fígado e a retina foram destinados, respectivamente, para John Williamson, um senhor de cinquenta e poucos anos, e Ingrid Stone, uma pintora de olhos azul-claros. O único doador que não quis conversar com Quinn foi o jovem de 19 anos que recebeu o coração de Trent.

Livro O Que Sabe o Coração de Jessi Kirby

Interessada em descobrir a identidade do transplantado, a narradora-protagonista faz uma pesquisa na Internet e acha o blog de Shelby Thomas. Nas páginas do seu site pessoal, Shelby narra a agonia do irmão menor, Colton Thomas, para superar uma doença no coração identificada quando ele tinha 14 anos. O drama da família só terminou quatro anos depois. O rapaz teve sua rotina de volta após receber a doação de um coração. Ao cruzar as informações sobre a data da morte de Trent e a data da operação de Colt, Quinn desvenda o mistério. Aquele rapaz, o irmão caçula de Shelby, foi quem recebeu o coração de seu namorado.


Ansiosa para saber mais detalhes sobre Colt, Quinn viaja em uma manhã para Shelter Cove, a cidade litorânea da Califórnia onde a família Thomas vive. Eles são donos de uma loja de caiaques. A ideia de Quinn é aparentemente simples: ela quer observar o jovem, que tem mais ou menos a sua idade, para saber quem ele é e o que faz da vida. O que a move é a curiosidade, além da saudade incontrolável que sente por Trent.


Em Shelter Cove, os planos da protagonista sofrem uma alteração significativa. Sem querer, ela acaba esbarrando com Colt em um café. Ao descobrir a identidade do rapaz, Quinn tenta fugir dele e acaba sofrendo um pequeno acidente de carro. Prestativo, Colt a leva para o hospital e passa o dia inteiro ao seu lado. O tempo que ficam juntos naquele dia é o bastante para despertar algo no coração do adolescente transplantado. Colt se apaixona por Quinn, que, por sua vez, tenta à princípio manter uma distância minimamente segura dele. Ela não quer se envolver com ninguém, muito menos com o novo dono do coração de Trent.

Livro O Que Sabe o Coração de Jessi Kirby

Contudo, Colt e Quinn não são bem-sucedidos em ficar separados. Algo no coração dele diz que Quinn é a garota ideal. Para ela, Colt é a única pessoa que conseguiu fazê-la esquecer do antigo namorado. Estaria ela conseguindo superar a morte de Trent e seguir em frente?! Essa possibilidade deixa Quinn angustiada. Viver e se apaixonar novamente parece errado aos seus olhos, como se estivesse traindo o namorado falecido.


Essa é uma história de amor inusitada. Os dramas do jovem casal estão nos segredos que cada um esconde do outro. O conflito se dá justamente no paradoxo criado: quanto mais próximos os novos pombinhos ficarem, maiores serão as chances de eles descobrirem os segredos do parceiro (e assim, se desiludirem e terminarem a relação para sempre). Conseguirão Quinn e Colt superar as agruras do passado? Eles viverão juntos uma nova etapa de suas vidas?


“O que Sabe o Coração” possui 320 páginas. O conteúdo deste romance está dividido em 35 capítulos (a última seção não foi numerada e foi intitulada de prólogo). A tradução para o português brasileiro ficou à cargo de Ryta Vinagre, tradutora responsável, entre outros títulos, pela edição nacional da série “Crepúsculo” (Intrínseca), o best-seller infantojuvenil de Stephenie Meyer.


Levei entre sete e oito horas para concluir a leitura de “O que Sabe o Coração”. Precisei apenas de um dia (sábado passado) para percorrer todo o conteúdo deste livro. Comecei a leitura de manhãzinha e à noite já tinha chegado à sua última página. A trama envolvente e a linguagem acessível de Jessi Kirby são muito convidativas. Quem gosta de fazer longas sessões de leitura (como eu) conseguirá devorar esta obra em um único dia. O leitor que não for chegado a passar várias horas consecutivas lendo deve concluir este título em dois dias/um final de semana ou em três, quatro noites. De qualquer maneira, temos aqui uma narrativa comovente e de degustação fácil, ideal para o público infantojuvenil (que atualmente é chamado pelas editoras de jovens adultos).

Livro O Que Sabe o Coração de Jessi Kirby

A primeira questão que chamou minha atenção em “O que Sabe o Coração” foi o conjunto de textos referenciais que abre cada um dos capítulos do romance. Utilizando-se de uma variada coleção de citações científicas, médicas, semânticas, literárias, filosóficas, psicológicas, políticas, poéticas e históricas, Kirby tece um interessante ensaio sobre o amor. Essa parte do livro é quase como uma crônica romântica construída 100% em cima de referências bibliográficas. A escritora norte-americana usa os aspectos conotativos e denotativos das propriedades do coração para enriquecer sua trama principal. Assim, os universos ficcional e não ficcional caminham de mãos dadas o tempo inteiro e potencializam a experiência de leitura.


O segundo ponto marcante deste título é o mote usado pela autora para desenvolver seu enredo. Achei espetacular a ideia de relacionar o transplante do coração com a perpetuação do amor. Os sentimentos e as paixões do doador do órgão parecem migrar para o transplantado. Por mais difícil que pareça crer em algo assim, isso não impede de apreciarmos a beleza poética dessa associação. Você pode gostar ou não dessa proposta narrativa (eu gostei, mesmo não sendo lá muito romântico), mas não pode negar que seja algo criativo. Adoro encontrar romances construídos em cima de sacadas originais. Sem dúvida, é o caso aqui.


Não posso me esquecer de elogiar também o excelente começo desta obra. Os capítulos iniciais de “O que Sabe o Coração” atiram o leitor rapidamente aos problemas pessoais da narradora-protagonista. Dessa forma, mal abrimos a publicação e já vemos a roda do conflito girar. Em poucas páginas, já estamos diante de uma Quinn Sullivan angustiada/traumatizada e um Colton Thomas apaixonado. As duas personagens sabem os riscos daquela união, mas também têm ciência do quão bom é estar juntos.

Livro O Que Sabe o Coração de Jessi Kirby

Outros dois elementos interessantíssimos de “O que Sabe o Coração” são a ambientação e o ritmo narrativo. Quanto à ambientação, repare no clima praiano que costura toda a trama. Kirby é impecável na arte de construir uma história que dialoga com o mar, com o sol, com a natureza e com o clima litorâneo. Nesse sentido, sua obra é impecável. Em relação ao ritmo, achei essa narrativa ótima. Apesar da maioria das cenas ser baseada na rotina doméstica da narradora e em seus encontros amorosos/flertes com Colt (o que poderia tornar a trama parada e enfadonha), “O que Sabe o Coração” mantém seu conflito aceso o tempo inteiro.


Em muitos momentos, “O que Sabe o Coração” me lembrou “A Culpa é das Estrelas” (Intrínseca), o romance mais famoso do norte-americano John Green. Afinal, não dá para falar de romance adolescente ancorado em dramas médicos e não pensar automaticamente no best-seller do conterrâneo de Jessi Kirby. Se bem que em uma comparação direta, “A Culpa é das Estrelas” é muito mais livro. Pelo menos foi esta a minha impressão.


O principal ponto negativo de “O que Sabe o Coração” está na previsibilidade de sua narrativa. Um leitor minimamente experiente consegue deduzir tudo (ou quase tudo) o que acontecerá nos capítulos seguintes (equívoco que John Green não cometeu – suas obras reservam normalmente várias surpresas). Isso é bastante frustrante. A única novidade realmente impactante de “O que Sabe o Coração” é sobre um segredo escondido por Colt (e isso porque eu não conhecia as particularidades da vida de um transplantado). Essa parte da trama é excelente e dá um tchananã ao romance (obviamente, não posso contar o que é!). É uma pena que essa lufada de novidade seja a exceção e não a regra do romance.

Jessi Kirby

Outra escorregada feia está no desfecho comercial do livro. Kirby se rende aos anseios populares e apresenta um desenlace óbvio e quadradão. Não é que eu seja avesso aos finais “eles foram felizes para sempre” ou “depois do dramalhão, tudo deu certo para os nossos heróis”. Porém, tudo tem limite, né? Para uma autora que desenvolveu uma trama tão criativa, assistir a uma conclusão tão abaixo da média é frustrante.


De qualquer maneira, o resultado de “O que Sabe o Coração” é positivo. Muito positivo, por sinal! Como um romance infantojuvenil e um drama romântico leve, este título é ótimo. Confesso que gostei da ficção praticada por Jessi Kirby. Ela é uma excelente escritora e merece o sucesso que está fazendo. Torçamos para que ela continue produzindo novas e melhores histórias por muitos anos.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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