Músicas: La Flaca – 30 anos do primeiro e maior sucesso do Jarabe de Palo
- Ricardo Bonacorci
- há 17 horas
- 23 min de leitura
Lançada em maio de 1996 no álbum de estreia da banda espanhola de Pop Rock, a canção composta por Pau Donés foi inspirada em uma mulher que ele conheceu em Cuba. Hit do verão europeu de 1997/1998, La Flaca catapultou a carreira dos rapazes de Barcelona e se tornou o maior êxito comercial do Jarabe de Palo. Conheça os detalhes desse clássico do Rock Latino.

Vamos hoje de Rock, senhoras e senhores! No caso, de Rock latino, o meu favorito. Depois de uma temporada analisando clássicos do Tango argentino, como “Por Una Cabeza”, composição inesquecível de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, e “Cambalache”, obra-prima do deboche de Enrique Santos Discépolo, e de uma passadinha rápida pelo Merengue/Reggaeton colombiano, sendo “Si Antes Te Hubiera Conocido” de Karol G sua versão mais contagiante, a coluna Músicas finca a bandeira no solo fértil do Rock em língua espanhola. Se você é, como eu, fãzaço deste gênero nascido nos acordes das guitarras e nos versos da língua inglesa, mas que encontrou nos falantes do idioma de Miguel de Cervantes um território próspero, fique comigo em mais uma viagem pelo mundo da música internacional.
Vale informar que iniciei o mergulho analítico pelo Rock espanhol há mais ou menos dois anos, quando comentei “Quiero Mejor”, o décimo álbum de Kevin Johansen. Se bem que, sendo extremamente franco com vocês, o argentino nascido no Alasca é mais um cantor/compositor de Pop do que de Rock, né? Em seguida, apresentei uma coletânea de músicas românticas em espanhol, a maioria do bom e velho Rock and Roll. Aí pudemos pincelar alguns dos maiores sucessos dos uruguaios do No Te Va Gustar, dos argentinos do La Franela, do Él Mató a Un Policía Motorizado e do Los Auténticos Decadentes, dos mexicanos do Maná e dos chilenos do La Ley. Não por acaso, essas bandas estão entre minhas prediletas. E no meio do ano passado, debati detalhadamente a canção “En La Ciudad De La Furia”, hit do Soda Stereo que se tornou um hino informal (e roqueiro) de Buenos Aires.
Agora resolvi cruzar o Atlântico em direção ao Norte e aportar na sempre agradável e apaixonante Espanha. Para ser ainda mais exato no meu relato inicial, esta jornada musical tem um jeitão de só ser possível com a utilização de uma máquina do tempo. Afinal, voltaremos exatamente três décadas no espaço temporal. Em maio de 1996, uma recém-iniciante banda de Barcelona lançava seu álbum de estreia. E a música que dava nome àquele disco se tornou surpreendentemente um hit internacional. Até hoje, ela é considerada a faixa de maior sucesso do grupo que fora comandado pelo carismático Pau Donés. Estamos falando, conforme explicitado no título e subtítulo deste novíssimo post do Bonas Histórias, da canção “La Flaca” e da banda Jarabe de Palo. É exatamente esta a incrível trajetória que vamos debater nas próximas linhas, senhoras e senhores.
Falar do Jarabe de Palo é falar automaticamente de Pau Donés Cirera, uma das figuras mais emblemáticas do Rock da Espanha. Nascido em Barcelona em outubro de 1966, o vocalista, guitarrista e compositor trabalhava como publicitário em meados da década de 1990. Com quase trinta anos, ele ainda não tinha conseguido se profissionalizar na música, sua paixão desde a infância. Assim, após se formar em Ciências Econômicas e Empresariais na universidade local, tinha como ganha-pão a criação de anúncios para agências de propaganda. À noite e aos finais de semana, aproveitava para tocar na capital catalã em grupos amadores. Seus companheiros musicais eram geralmente parentes e amigos.

Isso até montar sua banda definitiva, no início de 1995, e reunir recursos próprios para lançar seu primeiro álbum por uma gravadora. Dessa maneira, surgiu o Jarabe de Palo, grupo de Pop Rock que marcaria a cena da música espanhola nos anos 1990, 2000 e 2010. O nome fazia referência a uma expressão idiomática da Espanha que significa “remédio amargo” ou, de forma mais literal, “remédio à base de pauladas”. “Jarabe” é xarope/remédio enquanto “palo” é madeira/pau. Era comum usar esse termo como ameaça às crianças desobedientes, algo bastante comum na década de 1990. "¡Te voy a dar jarabe de palo!" diziam os pais à molecada. A tradução mais adequada para o português seria: “Vou te dar um corretivo!”. Pelo visto, Donés deve ter crescido ouvindo as advertências dos adultos, né?
Conforme justificou o líder da banda na época do lançamento do Jarabe de Palo, a proposta não era ameaçar o público e, sim, fazer uma música que servisse de "remédio" para o cotidiano árido e, por vezes, vazio das pessoas. A partir de canções reflexivas, animadas e inteligentes, o público poderia (re)pensar sua existência e se emocionar com as facetas contraditórias da vida cotidiana. Em outras palavras, o xarope (jarabe) de Pau (primeiro nome do músico!) seria a maneira como os ouvintes seriam impactados pelas composições reflexivas de Donés. Além de se tratar de uma denominação bastante criativa, ela possui generosas camadas interpretativas, fazendo citação, inclusive, ao nome de seu criador. Incrível!
Em maio de 1996, a formação inicial do Jarabe de Palo era composta por Pau Donés (vocal e guitarra), Joan Gené (baixo), Jordi Mena (guitarra), Daniel Forcada (percussão) e Alex Tenas (bateria). Pouquíssimo tempo mais tarde, o quinteto se transformaria em hepteto quando Antonio Martínez (violão espanhol) e Nigel Roberts (teclados) foram escalados para participar pontualmente da execução de algumas canções do grupo.
Curiosamente, a história da banda catalã está intimamente atrelada à faixa “La Flaca”, seu primeiro e maior sucesso. Os integrantes do Jarabe de Palo viajaram, em 1995, para Havana. Na capital de Cuba, eles gravariam o videoclipe de “El Lado Oscuro”, a música que, até então, seria a principal do álbum de estreia. Contudo, na primeira noite na América Central, os jovens músicos resolveram ir ao mais famoso bar-dançante da cidade. O nome do local, que ficava na orla, era Bar 1830. Porém, os locais simplesmente o chamavam, por seu caráter animado e pelo clima de azaração, de La Tasca. A ideia dos espanhóis era celebrar a realização do antigo sonho de produzir um álbum autoral e de fazer uma viagem internacional como músicos (semi)profissionais.
Foi no La Tasca que Pau Donés cruzou com Alsoris Guzmán, uma cubana magérrima e linda que usava um vestido vermelho semitransparente. A beleza da moça negra deslumbrou o compositor europeu, que ficou sem palavras ao avistá-la. Ela dançava e bebia cerveja com enorme naturalidade, irradiando sensualidade e feminilidade. Empolgado pelo charme de Guzmán, Donés criou coragem e foi prosear com ela. E, no meio do papo/flerte, a convidou para participar do videoclipe que iriam rodar nos próximos dias. Pau Donés a queria como modelo principal da gravação da canção “El Lado Oscuro”. Nota-se, claro, claro, as preocupações profissionais do músico naquele momento de deslumbramento com os encantos da cubana.

O problema é que choveu ininterruptamente por quase duas semanas em Havana, o que atrapalhou consideravelmente as gravações. Dessa maneira, a equipe de produção só conseguiu captar algumas tomadas isoladas dos músicos e, por supuesto, da modelo convidada de última hora pelo líder do Jarabe de Palo. Sem material suficiente para rodar um videoclipe, a banda retornou para a Europa de mãos abanando. A frustração foi tanta que, mais tarde, tiveram que gravar uma nova produção audiovisual inteirinha do zero.
Isso quer dizer, então, que os 12 dias que o Jarabe de Palo permaneceu na capital cubana não foram importantes? Nananinanão! Sem que pudessem saber, aquela viagem selaria o destino da banda. Na breve estadia em Havana, Pau Donés e Alsoris Guzmán se encontraram algumas vezes mais, o que criou uma forte conexão entre eles. Há quem diga que eles tiveram um tórrido romance. Há quem garanta que tudo não passou de paixão platônica do espanhol. Confesso que li versões bem contraditórias sobre o relacionamento deles naquela viagem. Por isso, não me atrevo a cravar o nível de intimidade que tiveram.
De qualquer maneira, o importante para nossa história é saber o que aconteceu no fim daqueles dias do Jarabe de Palo pela América Central. A versão mais romântica e carnal diz que, na noite anterior ao retorno do grupo à Europa, Donés convidou Guzmán para dormir com ele no hotel. E na manhã seguinte, ao acordar ao lado da deslumbrante cubana, o compositor fez, em apenas dez minutos, uma poesia. O conteúdo dos versos era o turbilhão que ele estava sentindo e do que vivenciara naquela viagem. O texto descrevia como os amantes se conheceram e a alegria que era passar, enfim, uma noite com ela.
O espanhol presenteou Alsoris Guzmán com o poema no momento de embarcar, dizendo: “Aquí te dejo un regalo, mi Flaca, en agradecimiento por estos días que nunca olvidaré. Solo te pido una cosa, que lo abras cuando me haya ido”. Ao ler a mensagem depois, conforme solicitado, a moça caiu em lágrimas no saguão do aeroporto. Como adiantei, essa é a interpretação mais romântica e carnal dos acontecimentos.
Há outra versão, mais tímida e casta, que gira em torno da paixão platônica de Pau Donés por Alsoris Guzmán. Nela, um dia antes de pegar o voo de retorno ao Velho Continente, o músico entregou para a cubana uma carta de despedida no saguão do hotel. Na mensagem, havia um poema em que ele se declarava abertamente à moça. Seu sonho era lhe dar apenas um beijo e, se possível, dormir uma só noite em seus braços.
E aí, qual versão dessa história você prefere, hein? Juro que não tenho uma opinião formada nem uma preferência pré-definida. Ora gosto mais de uma hipótese, ora gosto mais da outra. De qualquer forma, não é preciso ser um Sherlock Holmes para deduzir que os versos daquela carta-poema são justamente os da música “La Flaca”, que seria lançada no ano seguinte.

Ao voltar para a Espanha, a poesia não saiu mais da cabeça fervilhante de Pau Donés. De tão apaixonado que ficou pela letra, o catalão resolveu musicá-la. Ao ouvir a nova composição pela primeira vez, ele teve a certeza de que estava diante da faixa principal do seu álbum de estreia. A convicção era tamanha que o disco, lançado em 1996, pegou emprestado o título daquela faixa nascida em Cuba. A empolgação por “La Flaca” foi compartilhada mais tarde com os demais integrantes do grupo, que também curtiram o resultado.
O álbum “La Flaca” tem pouco mais de 40 minutos de duração e contempla 11 faixas (sendo 10 músicas): “Quiero Ser Poeta”, “Vuela”, “No Suelo Compararme”, “La Flaca”, “Grita”, “El Bosque de Palo”, “El Lado Oscuro”, “Quítame La Vida”, “Dueño de Mi Silencio”, “Desamor” e “La Flaca (Acústico)”. Aí vão algumas curiosidades do trabalho de estreia do Jarabe de Palo. A primeira é que “La Flaca” ganhou duas versões: uma normal e uma acústica. Quando digo que os catalães apostavam nela não era exagero da minha parte, né? A segunda é que “Grita”, um dos maiores sucessos de Pau Donés, seria depois reformulada e mais bem aproveitada no segundo disco da banda.
Gostaria muito de dizer que “La Flaca” se converteu em sucesso instantâneo do Jarabe de Palo. Assim, poderia relatar que tão logo foi lançada, essa música se converteu em grande êxito nas rádios do país, contagiando os espanhóis. Entretanto, não é essa a verdade, senhoras e senhores. Como um grupo iniciante que não contava com investimentos publicitários por parte da gravadora, os rapazes de Barcelona não estouraram imediatamente. Para ser bem honesto com os leitores da coluna Músicas, seu primeiro álbum passou despercebido do grande público por vários meses. Nada como a realidade nua e crua do mercado fonográfico, não é?
A sorte do Jarabe de Palo mudou em 1997. Em uma ação promocional, a marca de cigarros Ducados lançou um disco chamado “Caráter Latino”, que continha regravações de bandas e cantores ibero-americanos de altíssima qualidade. A proposta era brindar os espanhóis com canções animadas e modernas. Era comum, naquela época, companhias de tabaco patrocinarem coletâneas musicais para promover seu estilo de vida pretensiosamente saudável, descontraído e jovial. Integraram esse projeto musical da Ducados figuras como Maná (“De Pies a Cabeza”), Fito Páez (“El Amor Después Del Amor”), Café Tacuba (“No Controles”), Seguridad Social (“Quiero Tener Tu Presencia”) e Linda Ronstadt (“Piel Canela”). Vamos combinar que a seleção de “Caráter Latino” era realmente muito boa!
“La Flaca” não apenas foi incluída no repertório deste álbum como estrelou a campanha de divulgação da promoção da Ducados. Com o comercial rodando na televisão da Espanha inteira por várias semanas, a canção de Pau Donés explodiu na sequência nas rádios do país. Do dia para a noite, o grupo de Barcelona se tornou conhecido nacionalmente e ganhou um hit impactante. A partir daí, seus shows passaram a reunir dezenas de milhares de pessoas. Adeus ao anonimato. Adeus às apresentações em lugares vazios. E adeus ao trabalho como publicitário.

É bom dizer que nem o álbum “La Flaca” nem o Jarabe de Palo são “disco/artista de uma só música”, para usarmos uma expressão famosa no mercado fonográfico. Portanto, não se tratou de “sorte de principiante”, outro clichê desta indústria. Além da faixa homônima que despertou a atenção do público, “La Flaca” continha outros grandes êxitos da banda catalã. “El Lado Oscuro” (canção que gerou a viagem a Cuba?!), “Vuela” e “Grita”, por exemplo, são lembradas até hoje pelos fãs (e estão entre as minhas favoritas desta banda). Ainda assim, me sinto obrigado a repetir, nenhuma criação de Donés chegaria perto da popularidade da música “La Flaca”, atualmente convertida em clássico do Pop Rock espanhol.
Só na Espanha, o álbum “La Flaca” vendeu mais de 600 mil cópias, um valor elevadíssimo para o padrão da música local. O mais legal é que o sucesso do Jarabe de Palo extrapolou as fronteiras nacionais. Sua principal canção se tornou hit do verão europeu de 1997/1998. Como consequência, o disco foi alçado ao patamar dos mais vendidos na Itália e França. Na Inglaterra e Alemanha, ele também vendeu muito bem. Logo em seguida, “La Flaca” chegou com força à América Latina, se tornando destaque nas rádios e nas lojas da Argentina, México, Chile, Colômbia e até do Brasil.
O videoclipe da canção “La Flaca” foi gravado, olhem só a ironia do destino, em 1996, em Nova York. Ou seja, escolheu-se a cidade e o país símbolos do capitalismo como cenário para a produção audiovisual da música concebida na única nação socialista do nosso continente. Impossível não achar graça dessa enorme contradição, né?
Esse videoclipe do Jarabe de Palo está em preto e branco, o que confere uma atmosfera onírica, misteriosa e, por que não, clássica às imagens. Os músicos espanhóis tocam no alto de um edifício nova iorquino. Já o público que conferia a apresentação da banda ficou em baixo, nas ruas e nas calçadas do entorno, atrapalhando o trânsito e dando trabalho aos policiais. Enquanto isso, algumas cenas são lançadas na tela, possivelmente lembranças do que Donés estava cantando. Seriam flashes de Alsoris Guzmán e da viagem dos rapazes por Cuba? Juro que gostaria de responder afirmativamente a tal questionamento. Porém, admito que não tenho certeza sobre isso. Foi mal!
De certa forma, a estética desta produção audiovisual do Jarabe de Palo é muito parecida com a do videoclipe de “En La Ciudad de La Furia”, um dos hits do Soda Stereo da década de 1980. Para quem gosta de intertextualidade televisivo-musical, a ideia desse videoclipe foi, mais tarde, muito usada por outros artistas europeus, norte-americanos e sul-americanos. Como exemplo, dá para citar “No Digas Quizas”, de Kevin Johansen, gravada nas fervilhantes calçadas da Estação Retiro, na metrópole portenha.

Por falar em música argentina, preciso alertar para ninguém confundir “La Flaca” de Pau Donés com “Flaca” de Andrés Calamaro, faixa lançada em 1997 no álbum “Alta Suciedad”, obra-prima do Rock latino. Apesar do nome parecidíssimo, “Flaca” de Calamaro tem melodia menos animada e mais melancólica e versos bem dramáticos. Até porque, sua letra foi baseada na descoberta que a esposa do compositor/cantor o traía com o melhor amigo e empresário dele. Talvez eu deva voltar ao Bonas Histórias, qualquer dia desses, só para debater com vocês os detalhes dessa preciosidade de Andrés Calamaro. Juro que vale muito a pena. Por enquanto, o importante é advertir para que ninguém confunda esses dois clássicos do Rock da língua espanhola, cada qual composto em um lado do Oceano Atlântico.
Vejam, a seguir, a letra completa de “La Flaca”, o primeiro e maior hit do Jarabe de Palo, tema deste post da coluna Músicas. Logo depois, acompanhem seu videoclipe original, gravado em preto e branco em Nova York, em 1996. Por fim, trago uma tradução que fiz de maneira livre desta canção memorável de Pau Donés. Só depois dessas apresentações, entrarei efetivamente na análise mais detalhada desta memorável música e, mais à frente, seguirei relatando a trajetória artística de Donés e do Jarabe de Palo.
La Flaca – Pau Donés (1996)
En la vida conocí
Mujer igual a la flaca
Coral negro de la Habana
Tremendísima mulata
Cien libras de piel y hueso
Cuarenta kilos de salsa
Y en la cara dos soles
Que sin palabras hablan
(Que sin palabras hablan)
La flaca duerme de día
Dice que así el hambre engaña
Cuando cae la noche
Baja a bailar a la Tasca
Y bailar y bailar
Y tomar y tomar
Una cerveza tras otra
Pero ella nunca engorda
(Pero ella nunca engorda)
Por un beso de la flaca
Daría lo que fuera
Por un beso de ella
Aunque sólo uno fuera
Por un beso de la flaca
Daría lo que fuera
Por un beso de ella
Aunque sólo uno fuera
(Aunque sólo uno fuera)
Mojé mis sábanas blancas
Como dice la canción
Recordando las caricias
Que me brindó el primer día
Y enloquezco de ganas
De dormir a su ladito
¡Porque Dios que esta flaca
A mí me tiene loquito!
(A mí me tiene loquito)
Por un beso de la flaca
Yo daría lo que fuera
Por un beso de ella
Aunque sólo uno fuera
Por un beso de la flaca
Yo daría lo que fuera
Por un beso de ella
Aunque sólo uno fuera
Aunque sólo uno fuera
Aunque sólo uno fuera
Aunque sólo uno fuera
Aunque sólo uno fuera
A Magrela – Pau Donés (1996) – Tradução de La Flaca para o português brasileiro por Ricardo Bonacorci
Na vida eu (nunca) conheci
Mulher igual à Magrela
Coral preto de Havana
Tremenda negra
Cem libras de pele e osso
Quarenta quilos de salsa
E no rosto dois sóis
Que sem palavras falam
(Que sem palavras falam)
A Magrela dorme de dia
Diz que assim engana a fome
E quando a noite cai
Desce pra dançar no bar
E dançar e dançar
E beber e beber
Uma cerveja atrás da outra
Mas ela nunca engorda
(Mas ela nunca engorda)
Por um beijo da Magrela
Eu daria o que fosse
Por um beijo dela
Ainda que fosse só um
Por um beijo da Magrela
Eu daria o que fosse
Por um beijo dela
Ainda que fosse só um
(Ainda que fosse só um)
Molhei meus lençóis brancos
Como diz a canção
Me lembrando das carícias
Que ela me deu no primeiro dia
E eu enlouqueço de vontade
De dormir ao seu ladinho
Porque, Deus, essa Magrela
Me deixa louquinho
(Me deixa louquinho)
Por um beijo da Magrela
Eu daria o que fosse
Por um beijo dela
Ainda que fosse só um
Por um beijo da Magrela
Eu daria o que fosse
Por um beijo dela
Ainda que fosse só um
Ainda que fosse só um
Ainda que fosse só um
Ainda que fosse só um
Ainda que fosse só um
Em relação à letra, “La Flaca” é uma típica música com forte apelo comercial. Seus versos não têm rima nem métrica pré-definidas, o que confere um ar de simplicidade à construção poética. O que dá liga melódica à canção é a repetição interminável do termo “la flaca” e de alguns versos e palavras. O próprio refrão (Por un beso de la flaca/daría lo que fuera/por un beso de ella/aunque sólo uno fuera) tem uma estrutura que parece caminhar para uma mesma concepção sintática até sermos surpreendidos por um significado complementar.
A repetição excessiva dá a sensação de estarmos diante de um chiclete auditivo. É grudento? É. Ainda assim, é bem agradável aos ouvidos roqueiros e às almas apaixonadas. Lembremos que o lançamento de “La Flaca” se deu no início da segunda metade da década de 1990, período em que o Pop Rock ainda tinha grande alcance midiático, principalmente com canções animadas e com refrãos populares.
É bom dizer que, em espanhol, “flaca” é originalmente um adjetivo (magra). Porém, nesta canção de Pau Donés, ela adquire também a conotação de substantivo (a magrela). Por fim, em muitos momentos da música, o termo é quase um pronome ou apelido carinhoso da protagonista (a moça magra). Esse jogo semântico da mesmíssima palavra com diferentes conotações traz certo movimento e graça aos versos.
O mote desta canção é a fixação (quase doentia) do eu lírico por sua musa, uma mulher extremamente magra que o encantou à primeira vista. A magreza da moça é um misto de fragilidade (“Cien libras de piel y hueso” e “dice que así el hambre engaña”) e de energia sensual (“Cuarenta kilos de salsa” e “Cuando cae la noche/baja a bailar a la Tasca”).
Por falar nisso, a dicotomia está na base da música. Os versos de “La Flaca” tratam o tempo inteiro da oposição entre dia e noite, viver e sonhar, dormir e acordar, negro e branco, contemplação e movimento, beber e comer, dançar e descansar, emagrecer e engordar, chegar e ficar, razão e loucura... A contradição só escancara a confusão mental do eu lírico, que uma vez apaixonado perdeu o equilíbrio emocional.

Assim, o centro dramático desta história está na genuína admiração do compositor/cantor por uma dama deslumbrante. Atire a pedra quem nunca ficou admirando a gatinha ou o gatinho na balada ao ponto de não conseguir disfarçar nem mesmo tirar os olhos dele/dela. E tudo isso num lance fortuito do acaso e do primeiro olhar. É como se a paixão fosse imediata e não dependesse de contexto, sanidade ou lógica. Aí o desejo ardente toma conta da razão e enlouquece a pessoa. Nesse sentido, a canção trata de um tema bastante comum dos corações apaixonados.
Outra questão a ser mencionada é que, uma vez conhecida a história por trás desta música, “La Flaca” adquire fortíssimos tons autobiográficos. Estão nos versos a negritude de Alsoris Guzmán (“Coral negro de la Habana/Tremendísima mulata”), a visita noturna dos integrantes do Jarabe de Palo ao tradicional bar de Havana (“Cuando cae la noche/baja a bailar a la Tasca”), a saída do grupo já no primeiro dia de viagem (“Recordando las caricias/que me brindó el primer día”), a situação complicada da economia cubana (“La flaca duerme de día/dice que así el hambre engaña”) e os olhos radiantes da moça que deixaram o compositor embasbacado (Y en la cara dos soles/que sin palabras hablan). Por fim, surgem o convite real ou platônico para que ela suba ao quarto de hotel do músico espanhol (Y enloquezco de ganas/de dormir a su ladito) e a lascividade do rapaz (Mojé mis sábanas blancas/como dice la canción).
Curiosamente, o último verso que citei faz referência direta à Salsa “Ven, Devórame Otra Vez”, do porto-riquenho Lalo Rodríguez. A canção original, de uma passionalidade um tanto brega, diz: "He mojado mis sábanas blancas llorándote". Ou seja, Pau Donés usou a intertextualidade musical para acentuar os sentimentos eróticos que nutria por sua musa cubana. Será que o hit de Rodríguez tocou no Bar 1830 na noite em que eles se conheceram? Pode ser. Se bem que o roqueiro catalão nunca confirmou esse fato em suas entrevistas nem em sua biografia.
Para quem estranha a vasta quantidade de passagens autobiográficas desta canção, devo dizer que acredito que boa parte dos versos dos principais hits comerciais foi extraída de situações verídicas. Afinal, os compositores são pessoas reais com experiências concretas de amor e desamor. Por que não aproveitariam essas vivências em suas criações musicais, né?
Sei disso porque tenho um grupo de amigos que estão compondo álbuns autorais. Beijo, Celinha. Abraços, Paulinho e Luiz. E uma vez que conhecemos a fundo suas vidas e suas personalidades, visualizamos facilmente os dramas e as alegrias mais íntimos de cada um em suas criações. Daí a minha brincadeira que vem em uma espécie de invocação criativa: só não enxergamos os elementos autobiográficos das canções (e dos livros) quando elas são produzidas por figuras que desconhecemos.

Voltando à repetição dos versos de “La Flaca”, confesso que não fico incomodado com esse recurso. O motivo é que ele faz sentido do ponto de vista narrativo e musical. Estamos falando de um eu lírico que tem uma obsessão: beijar sua amada, nem que seja por uma única vez. E com tal pensamento a martelar sua mente, nada mais natural do que ele ficar repetindo os versos infinitamente: “Por un beso de la flaca/yo daría lo que fuera/por un beso de ella/aunque sólo uno fuera/Por un beso de la flaca/yo daría lo que fuera/por un beso de ella/aunque sólo uno fuera”.
Sob a ótica da psicologia, trata-se de um movimento circular esperado para alguém obsessivo. A letra de “La Flaca” simula o funcionamento do desejo íntimo do compositor por sua musa. Assim, as vontades dele sempre voltam ao mesmo ponto de partida, seguindo sem fim, sem jamais se resolver. Por isso, a música não avança e nunca tem um desfecho, seja satisfatório, seja insatisfatório. Ela gira eternamente no mesmíssimo ponto do desejo não concluído do cantor. A graça dessa análise aumenta quando pensamos no Complexo de Sísifo do qual Pau Donés se viu aprisionado. Como “La Flaca” é seu maior sucesso, o músico teve que seguir cantando esses versos em todos os seus shows e apresentações, potencializando o looping musical. Incrível, né?
Por consequência, é natural que a melodia siga o mesmo padrão de uniformidade e simplicidade, tal qual um mantra romântico Pop e pueril. Porém, além das batidas roqueiras tradicionais, produzidas pelos acordes da guitarra e pelas batidas da bateria, nota-se a forte influência da música latina. É justamente esse o elemento que confere originalidade e particularidade ao Rock do Jarabe de Palo. A latinidade, vale destacar, não é meramente estética. Ela dialoga sensivelmente com a letra e o contexto criativo da história narrada. Afinal, estamos na colorida Havana e cantamos para uma linda cubana, não é mesmo?
Se analisarmos com atenção, a melodia e os versos de “La Flaca” se encaixam perfeitamente como um casal que dança Salsa (ou se diverte intimamente num quarto de hotel depois de se conhecer numa baladinha). A personagem principal da canção aparece dançando. Daí a música balançar junto com ela. A musa inspiradora do compositor é quase uma miragem. Portanto, a música flui em tons oníricos. O cenário é o contagiante Caribe. Como consequência, a música também se mostra animada e provocante. Por fim, o eu lírico fica perdido em pensamentos recorrentes. Por isso, a música se torna circular e sem desfecho.
Essa coerência interna, por mais que não fique explícita para o grande público num primeiro momento, é uma das principais razões do impacto do hit de estreia de Pau Donés. Precisamos reconhecer, senhoras e senhores: “La Flaca” tem seus méritos e, não por acaso, figura até hoje entre os clássicos do Rock espanhol.

O sucesso dos roqueiros catalães se prolongou por mais de uma década, não ficando restrito à faixa “La Flaca” nem ao álbum homônimo. Os quatro discos seguintes, “Depende” (1998), “De Vuela Y Vuela” (2001), “Bonito” (2003) e “Un Metro Cuadrado“ (2004), foram extremamente exitosos pelas perspectivas comerciais e artísticas. Cada um desses novos trabalhos do Jarabe de Palo trouxeram composições de Pau Donés que alcançaram o topo das paradas musicais e são lembradas até hoje pelos fãs do grupo. Particularmente, adoro o álbum “Depende”, mas reconheço que “De Vuela Y Vuela” é possivelmente o melhor disco tecnicamente do grupo.
Minhas faixas prediletas desse período são: “Depende” (1998), hit que emprestou o nome ao segundo disco e que traz o refrão mais conhecido da banda (Depende/Depende ¿de qué depende?/De según como se mire, todo depende/Depende ¿de qué depende?/De según como se mire, todo depende); “Grita” (1998), canção modificada que tinha sido apresentada originalmente no álbum de estreia; “Agua” (1998), hino dos casais que precisam se separar mesmo se amando (beijo, Bruxinha); “De Vuela y Vuela” (2001), hit que nomeou o terceiro álbum; “Dos Días en La Vida” (2001), uma das mais tristes do portfólio do Jarabe de Palo; “Humo” (2001), sobre o luto de um término amoroso; “Bonito” (2003), canção hiper otimista e graciosa que se tornou popular no Brasil em meados dos anos 2000; “Ying Yang” (2003), uma das mais divertidas e diferentes do grupo; “Romeo y Julieta” (2004), trama leve e engraçadinha sobre uma moça profundamente romântica; e “Dicen” (2004), letra existencialista e introspectiva.
Entre 1997 e 2006, o Jarabe de Palo rivalizava com La Oreja de Van Gogh (ainda vou discutir, no Bonas Histórias, alguns dos sucessos desse outro grupo que adoro!) como a mais popular banda de rock espanhola. Depois dessa fase que considero o seu auge, Pau Donés e seus colegas seguiram lançando novos trabalhos, mas sem tanto impacto. Foram apenas três discos de canções originais gravados na segunda década da banda: “Adelantando” (2007), “¿Y Ahora qué Hacemos?” (2011) e “Somos” (2014). Eles também lançaram, em 2009, “Orquesta Reciclando”, coletânea de antigos sucessos do grupo que marcou a estreia do selo independente Tronco Records, empreendimento comercial de Donés.
Talvez eu tenha sido injusto, no parágrafo anterior, com a utilização do termo “sem tanto impacto”. O Jarabe de Palo seguiu, sim, lançando novos sucessos entre 2007 e 2016. As faixas “Adelantando” (2007), “Déjame Vivir” (2007), “¿Y Ahora Qué Hacemos?” (2011), “Somos” (2014), “Hoy No Soy Yo” (2014) e “¿A Dónde Vas?” (2014), que figuraram no topo das mais tocadas nas rádios espanholas, são provas concretas disso. A questão é que a banda de Barcelona passou a ser mais conhecida pelo público pelas criações da década anterior do que pelos novos hits, cada vez mais ocasionais. Não à toa, os discos de maior vendagem nesse período foram as intermináveis coletâneas de antigos êxitos, que eles lançavam quase que anualmente. Em outras palavras, se tornaram uma banda que mais olhava para trás do que para frente.

A formação do Jarabe de Palo mudava de tempos em tempos. Só Donés se manteve do início ao fim. Foram mais de 20 músicos que se revezavam ao lado do líder e vocalista do grupo. Essa característica conferia uma particularidade ao conjunto espanhol que não me lembro de ter visto no Brasil. Diferentemente de boa parte das bandas de Rock famosas, o Jarabe de Palo tinha apenas uma face pública: Pau Donés. Era ele quem compunha, decidia sozinho o que gravar, negociava com as gravadoras e se comunicava pela imprensa sem a presença dos demais músicos. Não é errado dizer que o grupo era, de fato, única e exclusivamente ele. Nesse sentido, o Jarabe de Palo era uma marca de propriedade de Donés. Os demais integrantes eram seus funcionários, que atuavam por empreitada. Daí o rodízio constante de guitarristas, baixistas, bateristas, tecladistas e percussionistas.
A postura empreendedora e alto-astral do vocalista e compositor sempre foi muito bem-vista pelo público. Carismático e boa pinta, Pau Donés era o cabeludo e barbudo que dizia coisas sábias e bonitas sobre a vida aos fãs. Por isso mesmo, quando ele anunciou, em junho de 2015, que estava com câncer de cólon, gerou comoção nacional. O músico tinha apenas 49 anos quando comunicou a doença. À medida que a enfermidade e o tratamento avançaram, ele não se escondeu nem omitiu informações do que estava vivenciando. Apesar do padecimento, o artista catalão seguia com o sorriso charmoso no rosto e o semblante de plenitude. Esse jeitão sincero, transparente e otimista encantou ainda mais os espanhóis, que notaram que estavam diante de alguém que realmente colocava em prática o que cantara por duas décadas.
Dois anos e meio mais tarde, quando o câncer voltou com força, o ritmo de trabalho de Donés precisou diminuir sensivelmente. As aparições nos shows se tornaram ainda mais raras. Até das redes sociais, onde sempre foi bastante ativo, o artista se afastou. Os discos que o Jarabe de Palo lançou depois de 2015 eram apenas regravações de antigos sucessos. A biografia de Pau Donés, chamada “50 Palos... Y Sigo Soñando” (Planeta), foi publicada em 2016. O título era uma clara referência à idade do músico, que completava meio século de vida. Junto com o livro, saiu um disco homônimo, novamente com hits do passado da banda.
Sempre que vinha a público, o líder do Jarabe de Palo se mostrava cada vez mais pálido e magro. Era notório que a doença o consumia. Até que em janeiro de 2019, Donés anunciou o término do grupo por falta de condições físicas de seguir compondo e cantando. Um ano depois, ele lançou um single de despedida. “Eso que Tú Me Das” se tornou sucesso instantâneo na Espanha. Inclusive, Pau Donés gravou, ao lado dos demais integrantes do Jarabe de Palo, o videoclipe desta canção, que explicita o quanto ele era grato por viver. Obviamente, essa participação exigiu demais dele, que estava assustadoramente magro e envelhecido. Juro que não consigo ver o vídeo e me sinto mal ao ouvir essa canção.

Em junho de 2020, o músico faleceu aos 53 anos. Segundo o comunicado da família Donés Cirera, o motivo foi o câncer que o consumia há cinco anos. Para surpresa do público, três meses após a morte do roqueiro, estreou nos cinemas espanhóis o documentário “Eso que Tú Me Das” (2020). A produção homônima à última música de Pau Donés se tratava da entrevista derradeira que o cantor conferiu a Jordi Évole, famoso jornalista e apresentador de televisão local, semanas antes de falecer. Já bastante mal fisicamente e ligado a aparelhos em sua residência, o compositor catalão falou abertamente sobre sua visão da vida e da morte, em uma belíssima mensagem para os fãs do Jarabe de Palo. O documentário é realmente forte e impactante. Ainda assim me pareceu um tanto sensacionalista, apesar da mensagem otimista deixada pelo músico.
Dessa maneira, se encerrava simultaneamente a trajetória de um dos principais roqueiros espanhóis e a carreira bem-sucedida de sua banda, que encantou o público no mundo inteiro com hits reflexivos, sensíveis e contagiantes. Entretanto, a ideia aqui não é nos lamentarmos pela perda precoce de Pau Donés. O post de hoje da coluna Músicas é para celebrar os 30 anos da gravação de seu primeiro êxito comercial (que também é o seu maior sucesso). Como o próprio artista catalão aconselhou em suas últimas gravações musicais e audiovisuais, vamos continuar cantando felizes o prazer que é viver. Valeu, Donés! E obrigado, Jarabe de Palo!
Na próxima análise musical do Bonas Histórias, quero debater outro sucesso da música espanhola. Só ainda não defini a canção em que vou mergulhar. O grupo a ser abordado já foi escolhido: será o La Oreja de Van Gogh, banda de Pop Rock do País Basco que foi, como já disse, conterrânea de Pau Donés e do Jarabe de Palo. Gostaria de falar de “Rosas”, o maior êxito do quinteto formado por Amaia Montero, Pablo Benegas, Álvaro Fuentes, Xabier San Martín e Haritz Garde. Ou deveria tratar de “La Playa”, outro megassucesso do grupo basco, hein? Talvez seja mais adequado aproveitar a efeméride de “Muñeca de Trapo”, que completa duas décadas de seu lançamento em 2026.
Enquanto não tenho uma definição exata do que vou trazer para vocês, sigam acompanhando os demais conteúdos artístico-culturais deste blog escondido nos recôncavos da internet em língua portuguesa. Acredito que tem muita coisa legal, por essas páginas, envolvendo literatura, cinema, teatro, dança, exposição, gastronomia, passeio e televisão, rádio e internet, além da música, claro, que gostaria de debater.
Por isso, até a próxima análise, senhores e senhoras!

