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- Crônicas: Tempos Portenhos - Episódio 3 - Dogland, Cães Felizes
No terceiro relato das experiências de um brasileiro vivendo em Buenos Aires, conhecemos uma cidade em que os cachorros possuem elevada qualidade de vida e estão plenamente integrados à rotina urbana. Se você é, como eu, BA-BA-CA pelos pets ao ponto de se curvar a todas as exigências (ou seriam ordens?!) deles, esta nova crônica de “Tempos Portenhos” , a coletânea de narrativas não ficcionais do Bonas Histórias da temporada 2024- 2026, é para você. Estamos juntos na escravidão aos nossos filhotes! Em quase um ano vivendo em Buenos Aires (BsAs) , um dos aspectos que mais chamou minha atenção foi como os cachorros têm qualidade de vida por essas paradas. Chega a ser absurda a comparação com a realidade dos animais de estimação da minha terra natal, São Paulo. Se os brasileiros adoram seus amiguinhos de quatro patas, os argentinos são totalmente devotos às necessidades e aos desejos de seus filhinhos não biológicos. Impossível não se apaixonar por essa característica local, ainda mais se você for um BA-BA-CÃO de marca maior. Não por acaso, temos aqui o assunto de hoje da coluna Contos & Crônicas . O “Episódio 3: Dogland – Cães Felizes” trata do grau de satisfação canino do lugar em que escolhi morar pelos próximos anos. Depois de abordar a sensação de segurança da capital argentina ( “Episódio 1 - Distopia Paulistana ou Carioca” ) e o prazer dos portenhos pelos ambientes externos ( “Episódio 2 - Vida ao Ar Livre” ), vou falar agora em “Tempos Portenhos” de uma metrópole em que os bichinhos estão perfeitamente integrados à rotina urbana. É lindo de se ver. Um dos motivos que fizeram com que me apaixonasse por minha nova cidade é justamente a atenção e o cuidado que ela oferece aos pets, às crianças e aos idosos, combinação rara no Brasilzão-de-Deus-me-Livre-e-Salve-se-Quem-Puder. Na minha humilde visão (míope de quase 10 graus), não há lugar no mundo em que las mascotas são mais felizes do que CABA – Ciudad Autónoma de Buenos Aires . Até pode existir grandes centros urbanos do planetinha cada vez mais cinza e plastificado que empatem com o Índice de Satisfação Canino (ISC) da capital da Argentina – dizem que em breve a ONU trocará o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) pelo ISC como critério de avaliação das nações. Contudo, acho impossível que tenham indicadores superiores aos de BsAs. Juro que não consigo imaginar os cachorros japoneses, noruegueses, canadenses, suíços (beijo, Belinha!) e neozelandeses com um dia a dia mais pleno do que os dogs portenhos. Numa possível Copa do Mundo de felicidade dos animais de estimação, a Argentina dá show nos gramados. Antes que alguém reclame do meu exagero (exagerado, eu?!), sinto a necessidade de fazer um desvio nesse post de “Tempos Portenhos” . Deixaremos momentaneamente o assunto principal dessa publicação e rumemos pelo desconhecido. Não se perca, por favor, em minhas divagações com ar de desabafo, querido(a) leitor(a). Trata-se de uma tradição do Bonas Histórias . Minhas alterações de rota são tão sutis quanto aquelas realizadas pelas empreiteiras brasileiras durante as construções das rodovias públicas (por curiosidade, veja o traçado da nova Tamoios...). Prometo que voltaremos um dia quem sabe talvez ao debate exclusivo dos cachorrinhos. Se isso acontecer, você entenderá aonde quero chegar (algo que às vezes até eu mesmo gostaria de saber). São curiosas as diferenças culturais de Brasil e Argentina (desvio feito – seja o que Deus quiser!). Estamos tão pertos e, ao mesmo tempo, somos tão distintos como povos e nações. A meu ver, as duas principais marcas dos argentinos é que eles (1) adoram se enaltecer e vangloriar aspectos da sua terra e (2) vivem reclamando da vida. Essa dobradinha fica mais evidente quando analisamos os hábitos e as manias dos portenhos (para quem não sabe, portenho é o morador da cidade de Buenos Aires). Confesso que é até engraçada a mania de grandeza dos hermanos . É um tal de temos a avenida mais larga do mundo, o maior consumo de pizza do planeta, os melhores jogadores da história, o rio mais largo de-não-sei-o-que, as mais saborosas carnes, alfajores e empanadas, o mais alto obelisco da Av. 9 de Julio, a capital com maior número de estádios de futebol, uma das maiores indústrias de cinema da Terra, a maior quantidade de psicólogos etc. Eles falam essas coisas com enorme orgulho e sem um pingo de dúvida, por mais absurda que sejam as estatísticas e os recordes anunciados de geração por geração. Paradoxalmente, ouvimos uma enxurrada de lamentos cotidianos da Argentina (e de CABA). É como se estivéssemos no pior lugar do mundo para se viver. Para a maioria dos argentinos (e portenhos), estar feliz e satisfeito é uma afronta gravíssima de caráter e de comportamento. Demorei para entender essa particularidade local. No dia a dia, o pessoal me perguntava se estava tudo bem e eu inocentemente respondia que estava tudo certo. Para piorar, ainda sorria. Afinal, é isso o que estamos acostumados a fazer no Brasil, né? Juro que não entendia os olhares raivosos disparados em minha direção. Depois que mudei a estratégia e comecei a reclamar da rotina e da minha vida em tom extremamente categórico, fiz várias amizades. De repente, virei alguém simpático aos olhos dos moradores de Buenos Aires. Até namoradas arranjei com essa tática. De qualquer maneira, para mim não faz sentido essa combinação de características culturais. Se tudo na Argentina é melhor e maior, porque os resmungos frequentes, hein?! Se pararmos para refletir, é exatamente o contrário da cultura brasileira. Meus conterrâneos têm o complexo de vira-lata tatuado na alma, como nos ensinou tão bem o velho e saudoso Nelsão. Ao mesmo tempo que (1) se acham os piores do mundo em tudo, os brasileiros (2) amam de verdade seu país, chegando até a achar que não existe lugar melhor no planeta para se viver. Mas pera aí: se tudo é ruim e pior no Brasil, como ele pode ser o melhor país para se morar?! Note que também não faz o menor sentido. Como agora sou, segundo os documentos e a burocracia internacional, meio argentino (Maradona jogou muito mais do que Pelé, e Messi superou os dois de olhos fechados) e meio brasileiro (que saudades de comer pão com requeijão tomando um bom cafezinho mineiro), tive que unir aspectos das duas culturas. Assim, virei um sujeito que (1) adora se enaltecer e vangloriar aspectos da sua terra (aqui sou argentino, tá?) e (2) ama sua localidade como se não houvesse melhor (nesse aspecto sou brasileiríssimo). Se essa combinação parece ridícula (sou um Sancho Pança contemporâneo e sul-americano), como justificativa digo que ela faz mais sentido do ponto de vista lógico do que as incongruências existencialistas de argentinos e brasileiros. Não queria jogar na sua cara, mas você pediu... Mas por que estou falando sobre isso se o assunto de hoje em “Tempos Portenhos” é a alegria da cachorrada?! Para explicar (desvio concluído – voltemos ao tema principal desta publicação) o porquê acho que Buenos Aires é a cidade com os cães mais felizes do mundo . Juro que acredito nisso, mesmo não tendo visitado quase nenhuma capital do planeta. Como pode um absurdo desse tipo, Ricardo?! Respondo sem uma ponta de vergonha na cara: sou argentino-brasileiro, senhoras e senhores. Não preciso de muito embasamento para tirar conclusões apressadas, exageradas, passionais e equivocadas. Fez sentido agora o meu longo desvio no texto ou não?! Antes que alguém me chame de louco (saiba que concordo com essa classificação, mas não pelo que foi mostrado até aqui) ou, o que é pior, interrompa a leitura no meio (calma, estamos só começando nossa longa conversa sobre Mi Buenos Aires Querido), sinto-me obrigado a provar minhas crendices estapafúrdias. Portanto, prepare-se, desavisado(a) e incauto(a) leitor(a) do Bonas Histórias . A seguir, lanço mão de cinco cenas que são comuns em CABA e que podem elucidar um pouco as razões que fazem deste o lugar mais perfeito do mundo para os pets. Se ainda duvida de mim, leia com atenção o quinteto de argumentos que farão seu coração peludo se derreter pelos bichinhos mais fofos da Terra. 1) As praças e os parques portenhos são a Disneylândia dos cachorrinhos Você quer ver um cão feliz? Então vá a uma praça ou a um parque de Buenos Aires. É nesse lugar que você melhor visualiza a minha tese (e começa a entender que minhas palavras não são tão absurdas quanto pareceram inicialmente). Sei que já falei bastante dos espaços verdes de BsAs nas crônicas de “Episódio 1 - Distopia Paulistana ou Carioca” e “Episódio 2 - Vida ao Ar Livre” . Entretanto, ainda não abordei esse assunto pela perspectiva dos pets. As praças e os parques da capital da Argentina são o suprassumo da diversão canina. Por isso a comparação com a Disneylândia. É muito legal dar uma volta por esses lugares e constatar a diversão da bicharada. Há desde cachorros jogando bolinha com os donos (saudades, Pescuitto!), brincando de pega-pega com os amiguinhos de quatro patas, dando uma voltinha descompromissada na coleira ou sem coleira, correndo felizes sozinhos, coçando as costas na grama com a barriga para cima, provando um petisco, carregando galhos de árvore, interagindo com a criançada ou cheirando tudo e todos. Isso acontece, acredite se quiser, de manhã, de tarde, de noite e até de madrugada. E de segunda a segunda. Não existe hora nem data para a diversão dos cães. Muitas vezes, tenho a impressão de que as áreas verdes foram feitas para eles e não para a gente. Até existem, dependendo do bairro, os famosos parcões, espaços exclusivos para os pets (que são cada vez mais comuns no Brasil). Porém, na maior parte das praças e dos parques portenhos, eles são desnecessários. Porque os cachorros estão em todos os ambientes. Não faz sentido segregá-los em um canto exclusivo. Para não dizer que os cachorros podem entrar em todas as áreas de lazer, existe uma em que são proibidos de ingressar: os playgrounds infantis que possuem areia. Até aí acho justo. Muito justo. Justíssimo. Lembro que em um dos primeiros passeios pelo Parque Saavedra, quando ainda vivia em Núñez, me deparei com uma mulher caminhando fortuitamente com seu Basset. Ao chegar no meio do parque, ela tirou a coleira e o deixou totalmente solto. O cãozinho ficou radiante com a liberdade. Ele corria alucinado pelo gramado. Para mim, não havia sinal mais evidente de alegria do que a disparada do bichano pela relva esverdeada. Quando cogitei que não poderia ser surpreendido, tropecei nos meus pensamentos. Depois de cansar de tanto correr, o pet parou em uma poça de lama. Tinha chovido muito na noite anterior. Para desespero da dona (e diversão dos demais frequentadores do parque), o Basset mergulhou na lama como se não houvesse amanhã. Ele rolava e rolava no barro, se sujando da ponta do focinho à extremidade do rabo. Saiu irreconhecível e satisfeito com a safadeza. Só lembro de ter ouvido a dona falar: “Você tomou banho ontem! O que vou falar para a moça do petshop quando te levar outra vez lá?!”. Quer ver cachorros felizes? Vá em qualquer praça ou parque de Buenos Aires. 2) Passeios e mais passeios Qual é a graça de ter cachorrinho e não o levar para passear, hein? Sempre acreditei que a parte mais legal dessa interação é justamente o convívio externo. Pratiquei muitas andanças pelo meu bairro em São Paulo, o Parque São Domingos, com o bom e intrépido Pescuittinho. Geralmente saíamos duas vezes ao dia (hora do almoço e fim de tarde) para longas excursões. Não foram poucas as vezes que ficamos mais de três horas fora de casa. Ele sempre adorou. Não sabia, mas esse é um hábito portenho. Os moradores de Buenos Aires são apaixonados por levar os pets para a rua. Como sei disso? Em primeiro lugar, observando a cidade em que vivo. Em qualquer bairro que você esteja, há uma multidão perambulando com os pequenos. Em Saavedra, bairro da Zona Norte de BsAs onde moro atualmente, a experiência é até mais interessante porque muitos dogs caminham sem coleira. Não importa se a voltinha é perto de avenidas movimentadas (Cabildo, del Libertador, Roberto Goyeneche, Dr. Ricardo Baldín) ou nas proximidades de autoestradas com trânsito pesado (General Paz, Panamericana). Os pets sabem como se comportar e andam ao lado dos donos tranquilamente. Como um paulistano amedrontado com o caos urbano, admito que fico com o coração na mão, principalmente quando os assisto atravessar a rua sem coleira. Todas as pessoas que conheço e conheci em Buenos Aires têm cachorros ou gatos. No caso dos donos de cães, eles possuem o hábito de passear diariamente com os bichinhos, faça sol ou chuva, frio ou calor. O meu vizinho de andar (abraço, Martín) tem o Pacho, um labrador divertido, carinhoso e muito estabanado. A dupla, conforme descobri, passeia pelo boulevard da Garcia del Río e pelo Parque Saavedra cinco vezes ao dia. Pela alegria do Pacho, é definitivamente o melhor momento de sua rotina. Ter cachorro é abraçar a cidade e se lançar em caminhadas constantes pelo bairro. Para quem possa achar essa relação um tanto óbvia, informo que não é assim que ocorre na cidade de São Paulo. Por lá, muita gente não tem a preocupação de levar seus cachorros para uma voltinha pelo quarteirão. Para ser franco com os leitores do Bonas Histórias , vários paulistanos raramente colocam os pés fora do lar. Quem me alertou para esse comportamento dos moradores da capital paulista foi minha prima Daniella (fala-se “Daniecha”), que atualmente mora na Suíça. Entre os hábitos de seus conterrâneos que mais a incomodam quando visita a família (usar sacola plástica para qualquer coisa e assistir à televisão fora de casa estão nessa lista), deixar o animal de estimação fechado em casa está no topo das atrocidades. Por mais difícil que seja admitir (brincadeirinha, Dani), minha prima tem razão. Para a saúde física e mental dos bichanos, eles precisam ganhar rotineiramente as ruas e caminhar bastante. Ainda mais se vivem em apartamentos pequenos, uma realidade cada vez mais comum nas grandes metrópoles. Os moradores de Buenos Aires sabem disso há muito tempo e colocaram em suas rotinas essas voltas com os familiares de quatro patas. Para os portenhos, é hábito cultural o passeio com os pets pelo bairro. Ainda bem! 3) Serviços sofisticados para os pets Notamos a questão cultural e a paixão dos argentinos pelos cachorros pela quantidade e qualidade dos serviços oferecidos nesta área. Talvez o mais chamativo seja o do passeador de cães, figura que compõe a paisagem urbana de Buenos Aires assim como os charmosos cafés, os belos parques e os prédios de arquitetura europeia. A voltinha dos dogs é tão importante para os portenhos que, quando a rotina dinâmica impossibilita tal atividade, eles contratam alguém para fazê-la. Aí surgem rapazes e moças que têm como profissão exatamente o perambular pelas ruas com os amiguinhos de quatro patas. É muito bonito e engraçado vê-los com vários cães simultaneamente. Minha diversão é justamente contar. O máximo que presenciei foi um passeador com quinze dogs ao mesmo tempo – isso ocorreu em uma sexta-feira na proximidade do Parque General Paz. Os bichos vão amarrados na cintura do profissional, que usa um cinto especial (sonho de consumo da minha irmã). Confesso que acho essa atividade perfeita! Se não tivesse meus afazeres literários, juro que seria um passeador de cachorros em BsAs. Essa profissão une dois elementos pelos quais sou apaixonado: as caminhadas pela cidade e a interação com os pets. E a pessoa ainda ganha dinheiro para fazer isso! Se pudesse, passava o dia inteiro nas ruas com a cachorrada. Não por acaso, tenho a alma de vira-lata – em uma das melhores definições que ouvi sobre mim, apesar de não ter gostado dela na época. A atividade de passeador é apenas a ponta do iceberg. Existe uma infinidade de outras que os argentinos não reparam no nível de sofisticação (afinal, já estão acostumados com elas há décadas) e que os turistas não reparam no grau de complexidade (por não interagirem com os locais de maneira mais intensa). Tenho uma amiga em Saavedra que tem um gatinho muito fofo (beijinho, Leo!). Como seus pais moram no interior, ela vai frequentemente visitá-los aos finais de semana. Certa vez, fiquei assustado com a possibilidade do meu amiguinho ficar alguns dias sozinho em casa (era feriado prolongado) e a questionei como faria com o pequeno. Com a maior naturalidade do mundo, minha amiga respondeu: “Você acha mesmo que teria coragem de deixar o Leo sozinho?! Claro que não. Sempre que viajo, ele fica com “la niñera”. Fiquei pasmo. O bichano tem uma babá. Convenhamos que não é normal, mesmo em metrópoles internacionais, encontrarmos passeadores de cães e babás de gatos. São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, não possuem esses serviços em muitos bairros centrais ou, quando têm, são atividades recentes. Em Buenos Aires, o mercado dos animais de estimação está em franca expansão, mesmo com a interminável retração econômica, e surpreende pela variedade de serviços. Em minhas andanças pela cidade, já encontrei lojas exclusivamente para gatos, estabelecimentos que só vendiam roupas e brinquedos caninos e negócios focados em aves. Isso sem falar dos petshops, veterinários, hotéis, spas e peluquerias de cachorros que se proliferam pela capital da Argentina. Ter cachorro é coisa séria em CABA. Os empreendedores portenhos não descansam enquanto não inventam novas modalidades de produtos e serviços para atendê-los. 4) Cidade pet friendly Buenos Aires é uma cidade pet friendly. Notamos essa característica rapidamente. Muitos negócios permitem a visita dos familiares de quatro patas, inclusive estabelecimentos alimentícios e de refeições. É claro que as mesas na rua ajudam os frequentadores de restaurantes, bares e cafeterias a levar os bichos. Um programa típico do final de semana dos portenhos é ir ao parque com a família inteira e depois dar uma passadinha para comer algo em algum estabelecimento do bairro. É claro que os cães vão junto e ficam tranquilamente entre as mesas na calçada. Se isso é comum atualmente em cidades do Brasil, saiba que por aqui trata-se de algo que existe há décadas. Quando vivi em CABA entre 2004 e 2005, a integração dos bichanos à rotina urbana já era corriqueira. Lembro de ter me impressionado com a cena de uma mulher com um seu poodle. Eles estavam dentro de um banco no Microcentro. Na época eu fiquei pasmo. Pode entrar cachorro nas agências bancárias argentinas? E por que alguém levaria o pet para lá? Hoje em dia não faço mais esses questionamentos nem me assusto com tais episódios. A surpresa seria não me deparar com os animaizinhos no cotidiano da metrópole. Por falar em cenas do dia a dia, uma imagem que sempre me chama a atenção caminhando por BsAs é me deparar com os cães esperando os donos fora de alguns estabelecimentos que não permitem suas entradas (sim, é raro, mas ainda assim têm). Geralmente isso ocorrem nas portas de padarias, açougues e supermercados, os famosos chinos . Os cachorros ficam presos nos postes ou aguardam sentados à volta dos humanos. É tão bonitinho de se ver que às vezes não resisto e brinco com eles. Alguns choram durante a espera e outros esnobam o carinho dos estranhos, permanecendo com o olhar fixo para dentro da porta. Quem notou essa particularidade local foi minha irmã. Ela veio me visitar em dezembro do ano passado e se indignava toda vez que via um cão sozinho na calçada esperando o dono. Como uma paulistana desconfiada de tudo e de todos e apavorada com a violência urbana, hermanita sempre falava: “Nunca que deixaria meu cachorrinho sozinho na rua! Essa gente daqui não deve ter coração para fazer isso”. A questão não é essa. Para os portenhos é normal tal comportamento. Com índices menores de criminalidade, quem iria fazer mal a um bichinho de estimação na rua?! Chega a ser absurdo para eles se cogitarmos o roubo ou o sequestro dos animais de estimação. Às vezes, só entendo o nível de falência da sociedade brasileira (e paulistana) quando noto as paranoias que adquirimos no dia a dia em nossa terra. De qualquer maneira, posso garantir que a capital argentina é pet friendly há muito tempo. Se essa moda chegou recentemente ao Brasil e em outras capitais planetárias, por aqui é traço cultural. Porque o argentino é apaixonado por seus bichinhos de estimação. Por falar nisso, vamos ao quinto e último aspecto que gostaria de comentar com vocês neste post de “Tempos Portenhos” . 5) A paixão pelos bichanos é uma mania na Argentina O argentino é apaixonado pelos cachorros. Isso é perceptível em alguns detalhes que podem passar desapercebidos pelos turistas, mas são nítidos para os moradores locais. Por exemplo, é raro vermos cachorros de rua em Buenos Aires. Sim, querido(a) leitor(a) da coluna Contos & Crônicas , não é comum encontrar cães morando na sarjeta na capital argentina. Por quê? Porque são rapidamente adotados por almas caridosas. Até pode haver crianças e velhos ao relento, mas animais nunca! Desafio você a perambular por CABA e achar um vira-lata solitário ou uma matilha em estado quase selvagem, como é comum em muitas cidades brasileiras. Essa é uma contradição interessantíssima. Ao mesmo tempo em que temos ruas recheadas de cachorros (desafio qualquer um a dar uma voltinha pelo quarteirão e não se deparar com pelo menos uma família passeando com seu pet), todos os bichos têm donos e lares. E estão na rua momentaneamente, só para passeio. Depois retornam para o teto que os abriga. A paixão dos portenhos pelos animais ganha tons surpreendentes. A corretora que me alugou o apê em que vivo em Saavedra (beijo, Nora) me contou que certa vez achou filhotes de papagaios em uma caixa na frente de sua casa. As aves pareciam famintas e sofrendo bastante. Ela não resistiu e as colocou para dentro. Alimentou e cuidou direitinho dos quatro passarinhos por um mês e meio no quintal. Até o dia que notou que não eram papagaios e sim pombas comuns. Aí bateu o desespero e a vontade de se livrar delas. Para meu espanto, ao invés de abrir o teto do quintal e deixá-las partir (como eu faria), a corretora as colocou em uma caixa e as levou ao zoológico (onde hoje é o Ecoparque ficava o zoológico de Buenos Aires). Acho que essa história mostra bem o cuidado dos argentinos com os animais. Outro caso emblemático surgiu durante as últimas eleições presidenciais. Só os estrangeiros ficaram impressionados com o fato de um dos candidatos ao posto máximo do Executivo nacional ter cinco cachorros e os considerar como filhos. É óbvio que os cães são integrantes centrais da família e possuem status de criança. Qual a surpresa?! Por que alguém deveria se envergonhar disso, hein? Até hoje eu respondo à pergunta se tenho filhos: “Tenho. Um de quatro patas, que é uma fofura. Ele ficou com minha irmã no Brasil e morro de saudades dele”. Na Argentina, as pessoas com mais recursos acabam até clonando os amigos de quatro patas. Os que têm a mente mais aberta (ou um parafuso a menos) abrem até contato mediúnico com os pets falecidos. Ah, falando em serviços que só existem por aqui, esqueci de mencionar o guia espiritual canino, que por supuesto precisa ter fluência idiomática na linguagem dos cães para fazer a comunicação entre o além animal e a vida real humana. Por mais absurdo que possa parecer algo assim, confesso que, se eu tivesse dinheiro para desperdiçar, contrataria esse profissional ao menos uma vez. Tenho curiosidade para saber o que o bom e velho Sheikinho diria de suas aventuras no céu canino (acho que ele foi para o céu, mas tenho dúvidas). Por tudo isso, acho que Buenos Aires pode ser chamada também de Dogland. Reafirmo: até podem existir cachorros tão felizes quanto os da capital argentina. Contudo, acho improvável encontrarmos cidades em que os cães tenham qualidade de vida superior à de BsAs. Pronto, falei! No próximo capítulo de “Tempos Portenhos” , quero discutir o idioma falado às margens do Rio da Prata. Como é o castelhano dos moradores desse pedacinho da América do Sul, hein? Se você tem essa curiosidade, não perca o Episódio 4 – O Espanhol Argentino , mais um texto exclusivo do Bonas Histórias . Auté a próxima! ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Crônicas: Tempos Portenhos - Episódio 4 - O Espanhol Argentino
No quarto relato sobre a experiência de se morar em Buenos Aires, conhecemos os desafios que os brasileiros têm com o castelhano rioplatense, idioma que ao mesmo tempo é próximo do português, mas que esconde perigos que exigem cuidados dos novos falantes. Você clicou aqui e ali e, sem saber como, caiu em “Tempos Portenhos” , a nona coletânea da coluna Contos & Crônicas . Enquanto alguns podem chamar isso de azar do destino, outros simplesmente culpam o imponderável da existência humana. Tem quem jogue a responsabilidade no colo dos inexplicáveis algoritmos da Internet. E há até aqueles que inexplicavelmente se viciaram no conteúdo do Bonas Histórias ou estão apenas me stalkeando. Independentemente das razões de sua chegada por essas mal escritas páginas, seja bem-vindo(a) à recém-iniciada crônica “O Espanhol Argentino” . Antes de começar a discorrer sobre o tema de hoje, sinto-me na obrigação de explicar aos leitores de primeira viagem do blog o que é o tal de “Tempos Portenhos” . Esta é a coleção de narrativas não ficcionais sobre minha experiência de viver em Buenos Aires . Me mudei para a capital da Argentina em setembro de 2023 e ficarei por essas belas paisagens (quase disse “bons ares”) até 2025 ou 2026. Isso é, se não fixar residência em definitivo por aqui, possibilidade que cresce a cada dia. Feliz ou infelizmente (vai saber!), tenho a mania de amarrar meu burrinho nas árvores frondosas das quais me afeiçoo. Além disso, sou muito facilzinho e sigo enamorado pela metrópole argentina, pela cultura rioplatense e pelo estilo de vida portenho. Portanto, será muito difícil levantar acampamento lá na frente, algo que desde já tira o meu sono. Só preciso que la maledetta moneta argentina mi aiuti . Contudo, como dizia minha avozinha portuguesa, não coloquemos os burros na frente da carroça (era assim que ela falava lá na casa da Vila Madalena!)! Neste momento, o importante é destacar que estou aproveitando o fato de residir em um novo país para relatar ao longo de 2024, 2025 e 2026 algumas vivências obtidas. Meu objetivo é explicar: como é para um brasileiro morar na Argentina? Assim nasceu a proposta dos textos de “Tempos Portenhos” . Na primeira crônica da série narrativa , “Episódio 1 – Distopia Paulistana (ou Carioca)” , abordei a sensação de segurança que meus compatriotas sentem pelas ruas de Buenos Aires. Na sequência, “Episódio 2 – Vida ao Ar Livre” , discuti o quanto os portenhos gostam de realizar atividades outdoor. E, no texto mais recente, “Episódio 3 – Dogland: Cães Felizes” , apresentei a capital argentina como a Disneylândia dos pets. Sei que não são linhas brilhantes ou memoráveis, mas garanto que são honestas e limpinhas. Nesta quarta crônica, “O Espanhol Argentino”, vou analisar como é o aprendizado e a fluência do idioma de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar para os falantes da língua de Machado de Assis e Jorge Amado . Até porque, convenhamos, a primeira grande preocupação de um estrangeiro que se propõe a viver como um local em qualquer parte do mundo é entender e se fazer entender o quanto antes, né? Aí surge uma particularidade entre Brasil e Argentina. O senso comum dissemina a ideia de que o português e o espanhol são idiomas coirmãos. No imaginário coletivo, eles são tão próximos que é perfeitamente possível manter conversas com os falantes da outra língua sem qualquer complicação, esforço ou estudo prévio. Será mesmo tão fácil assim?! O bom e velho portunhol seria a salvação da lavoura em todas as situações? Para enriquecer ainda mais o debate, vou relatar os tropeços idiomáticos mais comuns dos brasileiros que moram há pouco na Argentina. Também vou revelar minha trajetória de aprendizado, as gafes que cometi/cometo, as dificuldades depois de um ano en tierras hermanas , algumas diferenças básicas do castellano rioplatense para el español europeo y mexicano e, claro, algumas histórias que julgo interessantes (o que não quer dizer que sejam...). Em suma, se você tem curiosidade para conhecer o quão fácil ou difícil é para um brasileiro abandonar definitivamente o portunhol e ficar minimamente fluente no espanhol, prepare-se para alguns bons minutos de leitura. Para não dizer que não avisei, recomendo colocar mais uma rodada de empanadas no forno – las de queso y cebolla son riquisimas . Esquente mais água para el mate o el cortado . E vá tirando otro alfajor de dulce de leche del paquete de la panadería . Porque nossa viagem por Mi Buenos Aires Querido só está (re)começando, senhoras e senhores. E ela promete ser mais uma vez deliciosa, principalmente para os fãs de intercâmbio cultural e para os interessados nos conhecimentos idiomáticos. 1) O sarrafo idiomático não é tão baixo quanto se crê Vamos falar a real: muitos brasileiros chegam à Argentina achando que seu portunhol mequetrefe será mais do que suficiente para uma comunicação fluida e tranquila com os locais. Aí na primeira oportunidade de interação, ficam chocados quando não entendem quase nada do que os argentinos dizem e/ou quando não são entendidos por eles. Como já morei aqui por alguns meses há 20 anos, admito que não passei por muitos perrengues na recente chegada. No meu caso, o problema foram as gafes (que já já apresento). Contudo, vi casos divertidíssimos de problemas idiomáticos ocorrerem com turistas brazucas que hospedei na minha casa, uma espécie de consulado informal do Brasil no bairro portenho de Saavedra. A primeira foi minha irmã. Celinha aportou por aqui em dezembro do ano passado. Ficou uma semana no apartamento de su hermanito . Como temos família na Venezuela e crescemos interagindo com primos e tios de Caracas, nunca tivemos problemas com o espanhol na infância e na adolescência. Contudo, isso foi há muito, muito tempo. O que sei é que Marcela travou desde o momento que colocou os pés no avião da Aerolinhas Argentinas em Guarulhos. Segundo me relatou ao chegar em BsAs , ela não entendeu quase nada do que as pessoas falavam na aeronave e, depois, na Imigração. Pude comprovar sua dificuldade quando visitávamos restaurantes, íamos aos museus e fazíamos passeios. Muitas vezes, minha irmã me cochichava meio tímida: “o que eles falaram?!”. Senti que ela ficou abismada que eu conseguia compreender e ser compreendido e ela não. Como sou o integrante mais burro da família (título que ostento desde pequenininho), não fazia sentido eu entender algo e ela (sempre o crânio dos Bonacorci desde que, aos seis anos de idade, desmontou e montou um televisor – o aparelho funcionou perfeitamente, mesmo com as várias peças que sobraram) ficar boiando. A melhor história com Celinha se passou numa sexta-feira à noite. Querendo que ela melhorasse no espanhol (ou pelo menos o desenferrujasse), fomos ao cinema de Belgrano para ver “Muchachos: La Película de La Gente” (2023). O longa-metragem estava todo em espanhol e relatava a saga da Seleção da Argentina na última Copa do Mundo. Curiosamente, o narrador do filme Ricardo Darin (sempre ele!) chamava, desde a primeira cena, Messi de chico zurdo , que numa tradução direta é rapaz/menino canhoto. A experiência no cinema foi divertidíssima porque não só não lembrávamos do que tinha se passado nos campos do Catar (nem eu nem minha irmã acompanhamos tão avidamente a Copa de 2024 – culpa do trabalho na Dança & Expressão ) como os demais espectadores vibravam como se o que viam na tela fosse uma novidade. Sim, senhoras e senhores, os argentinos e as argentinas podem ser muuuuuuuito loucos quando o assunto é futebol. Eles conseguem transformar uma sala de cinema em uma arquibancada de estádio. Caminhando para casa depois da sessão, pude conversar com Celinha sobre os momentos mais impressionantes do filme, que realmente é fabuloso. Para mim, ver um sujeito escalando o Obelisco da Avenida Nueve de Julio foi incrível. Também me chamou a atenção a dramaticidade das partidas – um legítimo Tango Argentino . Aí minha hermanita se saiu com essa: “O que eu não sabia é que o Messi era surdo. Você sabia disso?!”. Olhei para ela sem acreditar no que ouvia. Ao notar que ela falava sério, caí na risada que só os irmãos são capazes de dar. “Marcela, chico zurdo é rapaz canhoto. Não é rapaz surdo”. Juro que ela passou a sessão inteira pensando que o craque argentino era surdo desde o nascimento. Ahahahahahhahahah. “Percebi, então, que o muro linguístico não é tão baixo quanto pensava”. Essa frase não foi dita por Marcela e sim pelo meu amigo Paulo. Ela foi dita em março deste ano quando ele tentou conversar com uma argentina pela primeira vez – e que resume maravilhosamente bem o drama de muitos de nossos conterrâneos. Essa passagem curiosa está descrita em “CABA que não ACABA ”, sua hilariante crônica etílico-culinária que foi publicada tanto na coluna Passeios quanto na coluna Gastronomia do Bonas Histórias . Paulo ficou 11 dias em minha casa e sofreu no início para entender os locais. Nesse episódio ocorrido na noite de sua chegada, fomos ao restaurante em Núñez (o primeiro de muitos que visitaríamos) e o desavisado turista paulistano pediu el cardapio para a garçonete. Jejeje. É claro que a moça não entendeu e fez cara de pânico. Quando intercedi, para alívio da dupla, solicitando “ la carta, por favor ”, ouvi a frase que abre esse parágrafo. Paulo vivenciaria um momento ainda mais cômico 24 horas depois. Acho que ele discutiu rapidamente essa outra passagem em “CABA que não ACABA” . Na noite seguinte, fomos a um bar em Chacarita onde rolava um evento do Mundo Lingo . Meu amigo queria conhecer o encontro de gringos que se dispunham a praticar vários idiomas. Ficamos mais ou menos três horas conversando em português e espanhol (no meu caso) e em português e inglês (no caso dele) com uma galerinha animada. Aí, quando fomos pegar mais bebidas no balcão do bar, encontramos três gatinhas. Na hora, falei: “Paulo, vamos falar com elas”. Com sua desinibição característica (que invejo!), ele já chegou puxando papo como se conhecesse o trio há décadas. Eu acabei conversando em espanhol com a economista peruana por quem me apaixonei à primeira vista. E Paulo seguiu proseando em inglês com a dupla de amigas portenhas. Contudo, quando as argentinas vieram para o meu lado e entraram na minha conversa com a linda peruana, automaticamente apertaram a tecla SAP e passaram a falar em castelhano. Obviamente, Paulo (já devidamente entorpecido de muchas copas de vino ) veio junto, apesar de não ter abandonado o inglês em nenhum momento. Confesso que achei aquela atitude dele meio estranha. Proseamos por pelo menos meia hora com as damas sul-americanas. Quando nos despedimos e fomos embora do bar, Paulo me surpreendeu ao revelar ainda na calçada de Chacarita: “Cara, eu NÃO entendi absolutamente NADA do que vocês falaram em espanhol”. Vendo que eu não tinha acreditado em sua revelação, afinal ele era o mais animado naquela interação, ele garantiu que era verdade. “Tô falando sério. Não entendi nada. Ou quase nada. Só entendi uma parte lá que vocês estavam falando de música porque a Julieta cantou uma música do Tom Jobim”. Gargalhando, respondi: “Mas é claro. Ela cantou em português para mostrar que sabia a letra original de Garota de Ipanema”. Meu pobre amigo estava tão confuso, coitado, que não notou o raro instante em que seu idioma materno apareceu. Outra que sofreu com o idioma de Miguel de Cervantes foi Carlinha. Minha amiga pintou em Buenos Aires em janeiro de 2024 para uma semaninha de férias. O problema é que sua estadia coincidiu com o início de meu curso de espanhol na UBA. Para que minha hóspede não ficasse sozinha em casa, propus que me esperasse no café em frente ao prédio da universidade durante meu primeiro dia de aula. Ela topou. Antes de ir para o curso, ainda brinquei: “Aproveite que os portenhos adoram prosear nos cafés e vê se arranje um argentino gatinho enquanto estou fora. Você tem duas horas para isso”. Ela só sorriu. Porém, quando regressei mais tarde ao café no Centrão de Baires (CABA, BsAs e Baires é para os íntimos de Buenos Aires, tá?), não é que tinha um cara sentado em sua mesa conversando. Fiquei besta com a rapidez dela. Esbocei dar meia volta e sair (queria deixar os dois à vontade, né?), mas Carlinha foi mais rápida e me puxou para a mesa como se ansiasse pela minha presença. Ao me apresentar ao seu novo amigo, notei que o pobre rapaz ficou extremamente envergonhado. Por mais que deixássemos claro que éramos só amigos, o cara achou que estava diante de um casal gringo. Essa é a explicação que surgiu na minha mente pois ele saiu em disparada pela porta do estabelecimento como um legítimo Ricardão pego em flagrante. Será que Ricardão de Ricardo tem 100 anos de perdão?! Morremos de rir com a confusão do simpático hermano . No ônibus de volta para casa, perguntei para Carla como ela tinha puxado papo com o argentino. Juro que queria saber a arte do xaveco. Estava há meses em Buenos Aires e minha timidez me impedia de interações como aquela. Minha amiga me olhou com cara de interrogação e declarou com muita sinceridade: “Também não sei, poxa! Ele se aproximou da mesa e falou alguma coisa que não entendi. Não sabendo o que responder, só sorri. Ele continuou falando e, sem reação, concordei com a cabeça para ser educada. Então, ele se sentou e ficamos conversando. Não entendi quase nada do que ele dizia e tenho certeza de que ele não entendeu o que eu falava. Aí você chegou e me salvou”. Essas histórias parecem que foram extraídas de filmes ou livros de ficção, mas são fatos verídicos que aconteceram ao meu redor. E elas demonstram com clareza que o espanhol não é tão simples assim, principalmente para quem não o domina e para brasileiros recém-chegados à Argentina. 2) O espanhol argentino é um dos mais difíceis Ao ler a primeira parte de meu relato, alguém pode falar/pensar: “Mas eu entendo perfeitamente o espanhol, Ricardo. Não tenho nenhuma das dificuldades que você retratou”. Saiba que acredito em suas palavras/pensamentos, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . O que descrevi acima foi a dificuldade natural de quem nunca teve contato com o idioma ou está há muito tempo sem praticá-lo. Tanto Marcela quanto Paulo e Carla, é bom que se diga, tiveram contato com o espanhol no passado, inclusive fizeram aulas na escola. Porém, não tinham praticado ainda no dia a dia, o que é bem diferente. Aí no primeiro contato da realidade cotidiana se assustam com o nível de dificuldade. Como bem falou/escreveu Pablito, el Caníbal: o muro linguístico não é tão baixo quanto pensamos. Para explicar melhor o que se passa às margens do Rio da Prata, vou narrar uma percepção que tive/tenho. Para mim, o espanhol argentino (e uruguaio, pois não vejo diferença entre eles) é um dos mais difíceis para a compreensão. Obviamente, estou me baseando no ponto de vista do iniciante do idioma ibérico. Mas o castelhano não é tudo igual, Ricardo? Não, não é, leitor(a) interativo(a) da coluna Contos & Crônicas . Há muitas, muitas diferenças. Ou você acha que o português de Portugal, do Brasil e de Angola são idênticos?! É claro que eles possuem muitas distinções. Com a língua vizinha acontece a mesma coisa. O espanhol da Espanha e do México, na minha humilde concepção, é o mais fácil de ser entendido. Não sei explicar o motivo, só sei que é assim (como diria Chicó, personagem emblemática de Ariano Suassuna). As pronúncias e os sotaques deles soam mais claros, límpidos, naturais e didáticos aos ouvidos dos brasileiros. Segundo os meticulosos estudos empíricos do DataRicardinho (instituto de pesquisa que mantenho dentro da minha nada calma cachola), meus conterrâneos compreendem, num primeiro momento, entre 50 e 55% do que espanhóis e mexicanos falam. Vamos combinar que é bastante coisa para uma interação em portunhol vacilante. Basicamente, dá para entendermos mais da metade do que eles dizem, o que evita confusões e mal-entendidos em grande escala. Na sequência em nível de facilidade, vem o espanhol da Venezuela, Paraguai, Colômbia, Equador e Peru. Eles também são bastante compreensíveis (principalmente quando a interlocutora é uma mulher bonita!). Dá para entendermos entre 40% e 45% do que venezuelanos, paraguaios, colombianos, equatorianos e peruanos dizem, mesmo quando o falante do português está iniciando no idioma coirmão. Ainda assim, é bom reparar que a maior parte do que eles expressam não é entendido, como ocorre com o espanhol da Europa e da América do Norte. Ou seja, aqui começam os problemas pontuais. Logo depois na escala castelhana do DataRicardinho vem o espanhol da América Central e da Bolívia. Confesso que há aí maior índice de equívocos e pontos de exclamação na mente dos brasileiros que engatinham no idioma hermano . Numa interação inicial com os centro-americanos e com os bolivianos, compreendemos entre 30% e 35% do que eles falam. Portanto, a comunicação deixa de ser tão fluida e natural. O principal motivo disso é o sotaque e a maior velocidade das falas, menos habituais aos ouvidos lusófonos. Se você acha que seus problemas acabaram (parodiando o slogan das Organizações Tabajara), saiba que eles só estão começando. O castelhano rioplatense, aquele de argentinos e uruguaios, é um dos mais complicados para se entender de prontidão. O índice de compreensão dos brasileiros fica entre 20% e 25% quando os interlocutores são argentinos e uruguaios. A razão é a mistura de forte chiado (não sei explicar, mas parece que eles não abrem a boca para falar), o sotaque característico (que muda a forma como várias letras são expressas) e uso e abuso de gírias locais (os divertidíssimos lunfardos ). Como consequência, o falante de português que chega de repente à Buenos Aires ou à Montevideo fica perdido, perdidinho com o que os ouvidos captam nas ruas. Seria, então, o espanhol praticado por argentinos e uruguaios o mais difícil para os brasileiros? Nananinanão. Esse posto pertence ao espanhol do Chile. Para você ter uma ideia do quão difícil ele é, nem mesmo os sul-americanos da parte castelhana compreendem totalmente o que os chilenos falam no dia a dia. Se eles não entendem, o que dirá a gente da comunidade lusófona, hein?! Para você ter uma ideia do nível de dificuldade, há alguns anos uma telenovela chilena fez muito sucesso na TV Argentina (uma espécie de “Avenida Brasil” chilena). Porém, foi necessário fazer a dublagem porque ninguém entenderia o que os atores chilenos diziam. É como se uma produção televisiva feita no Rio Grande do Sul, no Ceará ou em Roraima precisasse de legenda ou dublagem quando fosse passar no eixo Rio-São Paulo. Convenhamos que é surreal. Creio que só é possível entendermos de 2% a 5% do que o pessoal do Chile fala. Senti na prática o quão complicado é interagir com os chilenos, pois o cara que cortava meu cabelo em Saavedra era chileno. E eu não entendia quase nada do que ele dizia. Nossas conversas eram coisas de louco. Compreendia o que os cantores de rap cantavam nos trens portenhos, mas não compreendia o que meu barbeiro falava. Por isso, ir cortar o cabelo era um momento tenso para mim. Juro que pensava: se eu não o entendo, será que ele entenderá minha solicitação de corte?! Nossos diálogos eram tão truncados que sequer entendi de onde ele tinha vindo. Só sabia que ele não era argentino. Descobri que se tratava de um chileno quando troquei de barbeiro – sim, o medo acabou me dominando! Aí conversando com o novo profissional, um jovem argentino torcedor do San Lorenzo (abraço, Fabrizio), relatei onde eu estava cortando o cabelo até então. E ele me falou: “Ah, sim, sei quem é. É um chileno que está há mais de 20 anos aqui no bairro. Parece ser um cara legal, mas eu não entendo muito do que ele diz”. Se Fabrizio que é argentino não o entende, IMAGINE eu que sou brasileiro e tenho um espanhol pra lá de mambembe!!! Trouxe essa perspectiva para nosso debate para mostrar a importância das diferenças regionais do idioma espanhol – elemento que no curso de Licenciatura em Letras dava o pomposo nome de Variante Linguística Geográfica. Sabendo que o castelhano argentino é um dos mais complicados, o brasileiro já chega ciente de que precisará se esforçar mais para entender e ser entendido. Até mesmo quem morou na Espanha, no México, no Paraguai e na Costa Rica, por exemplo, apresenta alguma dificuldade com o sotaque portenho. Por isso, muita calma nessa hora, principalmente se você é um iniciante no espanhol. Noto que quem vem viver na capital argentina só tem alguns probleminhas com a língua no início. É uma gafe aqui e outra ali, mas rapidamente o estrangeiro aprende o paranauê. O problema maior é com os turistas brasileiros. Como eles dificilmente se enturmam com os locais e permanecem falando português durante a viagem inteira (com a família, com o cônjuge ou com os amigos), a dificuldade de comunicação é muito maior. Sem entender o que os argentinos falam, acabam até achando o pessoal daqui meio grosso e mal-humorado. Não concordo com essa percepção. Como você acha que eles vão reagir se não entendem o que os visitantes falam e reparam que não são entendidos?! Alegre ninguém vai ficar, né?! 3) Preciso contar minhas várias gafes No primeiro tópico desta crônica, apresentei apenas os problemas recentes de familiares e amigos com o idioma de Mi Buenos Aires Querido . Usei os exemplos de terceiros porque, como disse, acabei não tendo tantas dificuldades para compreender e para me expressar desta vez. Detalhe para os termos “não tantas dificuldades” e “desta vez” da frase anterior. Há mais ou menos duas décadas, vivi um tempinho por essas bandas. Como trainee de Vendas da Coca-Cola na virada de 2004 para 2005, morei em BsAs e aí sim colecionei incontáveis gafes idiomáticas e culturais. Era uma atrás da outra, o que me fez crer que não tinha capacidade para abandonar a vida monoglota e os hábitos brasileiros. Por isso, sei exatamente como meus conterrâneos se sentem quando pisam em terras argentinas e escorregam nas várias cascas de banana colocadas pelo demoníaco portunhol. Gostaria de rememorar agora alguns dos meus deslizes clássicos. A primeira gafe monumental que cometi naquela época foi em um restaurante em Villa del Parque. Almoçava com alguns executivos da Coca-Cola Argentina e pedi un pollo . Preferir frango a carne de vaca e de porco é um erro gigantesco por estas bandas, mas não foi este o maior tropeço do dia. Seguramente! A garçonete, que até então mostrava-se alegre e bem-humorada, me perguntou como eu queria o tal do pollo . Olhei rapidamente para o cardápio e tasquei sem hesitar: “ao forno”. Respondi em português mesmo. A moça ficou vermelha e, numa reação intempestiva, tentou me agredir. Prontamente, meus colegas a seguraram para evitar um tapa, um soco ou qualquer coisa pior que a transloucada quisesse fazer comigo. Juro que vi uma faca em suas mãos e tentativas de fazê-la conhecer meus tecidos adiposos. Só lembro de, enquanto pedia insistentes desculpas, ouvir o pessoal a minha volta falar: “Ele é brasileiro, ele é brasileiro. Não fala bem o espanhol”. Como assim não falo bem espanhol?! Jurava que estava arrasando. Quando a garçonete se acalmou um pouco, meus colegas me pediram para nunca mais falar “ao forno” na Argentina. Pelo menos não em um restaurante com alguma classe e para uma mulher de respeito. Em espanhol, aquela era uma expressão pornográfica. O correto era dizer “ al horno ”. “ Pollo al horno ”. “ Al horno ”!!! Nunca mais esqueci daquela lição valiosa de castelhano. Para ser sincero, na dúvida, também nunca mais pedi frango em Buenos Aires. Nem carne ao forno nem carne al horno . Se temos parrilla , para que inventar moda, né? É só lembrar da cara da garçonete e da faca em sua mão para perder a fome. Algumas semanas mais tarde, fiz amizade com uma vizinha muito, muito bonita. Ela morava no apartamento ao lado e era sempre muito simpática comigo. Com muita paciência, a moça, que deveria ser dez anos mais velha (eu com 22, 23 anos e ela com provavelmente 32, 33 anos) tirava minhas dúvidas do que fazer e aonde ir na cidade. Vivíamos no Centrão de Buenos Aires, na Marcelo T. de Alvear y Suipacha. Como ela gostava de correr nos parques da redondeza (a Plaza General San Martin era seu point favorito), de repente me tornei um adepto das corridas no final de tarde. Já estava percorrendo 3 ou 4 quilômetros (nada admirável para os corredores veteranos, mas uma enormidade para mim, um sedentário que adentrara pela primeira vez naquele universo), quando a encontrei num fim de tarde no elevador do prédio. Estávamos com roupas esportivas e descíamos para o térreo. Ao emendarmos um papo descontraído, criei coragem e a convidei: “Vamos correr?”. Na hora, vi sua fisionomia mudar. Como se não acreditasse no que estava ouvindo, ela ficou me olhando incrédula. Sem entender sua reação, repeti a pergunta: “Vamos correr no parque?! Podemos correr juntos hoje. Que tal?”. Sem entender o que estava acontecendo no interior daquela bela cabecinha, a até então simpática vizinha fechou a cara e saiu do elevador em disparada. Não respondeu ao meu casto convite nem me olhou nos olhos. Na hora pensei: será que fiz alguma besteira?! É claro que tinha feito! Encucado com o episódio e desconfortável com as fugas da moça nos dias seguintes (ela NUNCA mais entrou no elevador sozinha comigo e apressava ou diminuía os passos nos corredores para não se deparar comigo EM NENHUM LUGAR do edifício), comentei o caso com um colega de trabalho. Queria entender onde havia errado e qual a nova gafe que produzira. O argentino da Coca-Cola gargalhava com meu relato, para meu desespero. Sou tão bonzinho. Não merecia tanto sofrimento. Foi proseando com os locais que descobri que no espanhol também existe a palavra “correr”. Contudo, ela é pronunciada com o “r” fraco. Soa quase como “corer”. E, para meu desespero, existe a palavra “ coger ”, esta sim pronunciada como se fosse “rr”. E “ coger ” significa em castelhano (prepare-se para a bomba!) “foder”. Sim, senhoras e senhores, eu convidei a gatinha do apartamento vizinho para “foder” na praça. Isso em uma conversa corriqueira no elevador. Após compreendido o enorme vacilo, fui eu quem passei a evitá-la no prédio. Custe o que custasse, aonde ela ia, eu tomava o sentido contrário, abaixava a cabeça e saía de fininho. Traumatizado, demorei muitos anos para voltar a utilizar a palavra “correr” em espanhol. Enquanto não acertei a sua pronunciação, algo que demorou muito tempo, simplesmente a risquei do meu dicionário. Viu como fui pródigo em cometer deslizes idiomáticos? Falhei tanto na primeira estada na Argentina que cheguei dessa vez totalmente calejado. Mesmo assim, é claro que dei minhas escorregadas. Se não as tivesse dado, não seria eu, né? Minha especialidade é me envergonhar. Na nova temporada em Buenos Aires, as gafes não foram tanto de compreensão e de pronúncia e sim de interpretação textual e de desconhecimento de novas palavras. Mesmo com situações diferentes, continuei sendo o bom e velho Ricardinho... Ai, ai, ai. O primeiro grande deslize da temporada 2023/2024 aconteceu justamente na reunião com a dona do apartamento que aluguei em Saavedra (local que ainda permaneço morando e que adoro). Após fazer o café para ela e para a corretora, ouvi as perguntas: onde você comprou esse café gostoso? Ele é daqui? Todo pimpão e orgulhoso pela excelente qualidade do produto do meu país, respondi que não. Eu o tinha trazido do Brasil. Agora não me recordo exatamente o que disse de complemento. Acho que foi algo como: “ yo trouxe” (sim, usei o verbo em português mesmo, como se não fosse dar problema). Nesse momento, a proprietária do apartamento, que carregava um barrigão de sete meses de gravidez, me olhou perplexa. Para minha sorte, a corretora intercedeu prontamente: “Eu entendo português um pouco. O que o Ricardo quis dizer é que ele trouxe o café do Brasil”. Como ela falou em espanhol (“ el trajo el café de Brasil ”), notei que usou o verbo “traer”, que tinha me esquecido completamente (e que não fazia ideia de como se conjugava). Para minha vergonha, a dona do imóvel riu de maneira muito simpática. Na sequência, me disse mais em tom de curiosidade/conselho do que de reprovação/bronca: “Você não tem ideia do que você falou, né?”. Balancei a cabeça negativamente. Aí completou: “Não vou te dizer o significado dessa palavra (trazer), mas só adianto que não é legal você usá-la aqui”. Pesquisando depois, descobri que se tratava de uma expressão para masturbação. Ou seja, ela me perguntou de onde era aquele café e respondi que era fruto da minha masturbação. Viu como sou campeão de me meter em apuros desnecessariamente! Outro episódio vergonhoso aconteceu em um primeiro encontro com uma linda argentina. Numa pizzaria com ambientação romântica em Belgrano C, ela me confidenciou que tinha muitas dores nas pernas. Sabendo que trabalhava de pé o dia inteiro numa loja em Belgrano R, perguntei com ar de quem descobrira a causa daquele problema: “Não seria por causa dos teus tapones ?”. Ela arregalou os olhos e revoltada me perguntou: “O que você disse?!”. Como não tenho medo do ridículo e me sentindo o Sherlock Holmes, repeti: “Isso deve ser culpa dos tapones ? Aposto que você usa tapones durante o serviço, não usa?!”. O que estava querendo dizer (juro!) é que acreditava que ela utilizasse “saltos altos” durante o expediente, o que obviamente provocava as fortes dores nas pernas. Se há algo que nós homens não entendemos é o porquê as mulheres usam salto alto, ainda mais no trabalho, por várias e várias horas. Porém, por uma letrinha besta, “salto alto” no espanhol argentino é “ tacones ” e não “t apones ”. Vamos combinar que são palavras quase idênticas, Santo Deus! No caso, “ tapones ”, para minha enorme infelicidade, é “absorvente feminino interno”. É, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias , estava falando para a bela dama na minha frente que ela tinha dores nas pernas por usar absorvente interno durante o trabalho. Até hoje não sei o motivo daquele date ter acabado tão mal (e de minha mãe ainda esperar por uma nora). 4) Meu processo de aprendizado do idioma Planejei meu aprendizado de espanhol mesclando experiências orgânicas e informais com aulas teóricas. Acho que essa é uma combinação agradável, despretensiosa e que combina com meu estilo de vida leve e tranquilo (também chamado de romântico, pouco ambicioso e muito acomodado). Certamente, meu método é ideal para quem não tem pressa de mergulhar na cultura local e para quem gosta de curtir pouco a pouco o aprendizado da nova língua. Se você é um dos milhares de estudantes brasileiros de Medicina que vem para cá sonhando em entrar na UBA (Universidade de Buenos Aires) o mais rapidamente possível, meu passo a passo parecerá um absurdo. Sei disso, tá? Sou apenas um escritor que aportou por essas bandas para viver com mais qualidade de vida (algo que não encontrava há muito tempo em São Paulo) e aproveitar o até então câmbio favorável (bons tempos aqueles...). Assim, passei os três, quatro primeiros meses em Buenos Aires sem qualquer preocupação com o aprendizado formal do idioma. A ideia era aprendê-lo naturalmente, no dia a dia e com a população nativa. Foi o que fiz. Como morava sozinho e não tinha nenhum amigo brasileiro em CABA naquela época, foi muito fácil mergulhar na cultura argentina e na língua espanhola. Lembro que adorava caminhar pela cidade e andar de ônibus, trem e metrô escutando as conversas dos desconhecidos (ai se Dona Júlia soubesse o quão bisbilhoteiro seu neto tinha se transformado!). Também visitava semanalmente o cinema, sempre para conferir filmes argentinos e uruguaios. Passava o dia escutando música em espanhol – dale Kevin Johansen , No Te Va Gustar, Manu Chao, Carlos Gardel, Calle 13, La Franela, Jorge Dexter e Kurt. E, claro, aproveitava cada oportunidade para prosear com os moradores de Baires, algo estranhíssimo para alguém como eu, um antissocial incorrigível. Reunião no condomínio? Apareceu moça bonita na mesa ao lado do Mostaza? Panelaço no boulevard em frente de casa? Fila no supermercado? Garçons dos restaurantes de Núñez e Saavedra estranhando o sotaque do gringo que veio morar no lado pouco turístico da capital argentina? Negociação com a corretora de imóveis e pagamento mensal do aluguel do apê? Compra de dólares com a simpática uruguaia de Belgrano (beijo, Sandra!)? Tudo era motivo para um dedo de prosa. Juro que com quatro meses vivendo em Buenos Aires, já achava que meu espanhol estava ótimo – detalhe para a palavra “ACHAVA”. Afinal, eu entendia a todos (ou quase todos, porque na época meu barbeiro ainda era o chileno) e era entendido pela maioria dos portenhos (em algumas poucas oportunidades, meus interlocutores realmente não me compreendiam por mais que me esforçasse). Foi aí que resolvi fazer o curso de espanhol no Laboratório de Idiomas da Universidade de Buenos Aires (UBA ) . As aulas eram presenciais e aconteciam em um charmoso prédio ao ladinho da Casa Rosada, no Centrão da cidade. Ia lá três vezes por semana. Cada aula tinha duas horas de duração e as classes possuíam entre 10 e 15 alunos. Ou seja, eram seis horas semanais de atividades. Realizei dois módulos – Español para Brasileños Nivel Elemental (de janeiro a março de 2024) e Español para Brasileños Nivel Pre-intermedio (abril a junho de 2024). Pela metodologia da UBA, como os brasileiros têm mais facilidade com o idioma do que os outros estrangeiros, ficamos em turmas separadas dos gringos. Considerei excelente o nível dos cursos do Laboratório de Idiomas . Os professores eram ótimos, destaques para Fabián Haim, um dos mais carismáticos e empolgantes professores que tive na vida, e Ana Lea Blaustein, uma excelente professora e um amor de pessoa. Também fiz boas amizades (abraço, Rai; beijo, Sub-30!). O curioso das aulas foi perceber que meu espanhol, que até então considerava aceitável, era na verdade HORRÍVEL. As pessoas até me entendiam no dia a dia, mas eu falava erradíssimo: “Mim quer carne!” e “Mim gosta empanada”. Aprender a conjugação dos verbos, saber o significado das principais palavras, termos e expressões e entender as particularidades da língua foi libertador. O mais interessante é que meu aprendizado formal foi muito prático. Como estava imerso na cultura local, a teoria era imediatamente colocada à prova. Contudo, o excesso de aulas cobrou um preço. Como o volume de trabalho na EV Publicações e no Bonas Histórias aumentou bastante, praticamente deixei de interagir com os portenhos. Minhas saídas que eram frequentes no segundo semestre de 2023 se tornaram mais raras no primeiro semestre de 2024. Quando conseguia arranjar tempo para uma escapulida, ou era sozinho ou era com alguns brasileiros que vinham me visitar ou que fiz amizade no curso. Em outras palavras, apesar do conhecimento idiomático adquirido nas aulas, não pude praticar com a devida regularidade. Ao notar isso, resolvi não prosseguir com as aulas no Laboratório de Idiomas depois de junho – o próximo módulo era Español para Brasileños Nivel Intermedio . No segundo semestre de 2024, a ideia foi justamente voltar à prática do espanhol 100% no dia a dia, como fizera no ano passado. O legal é que conseguiria conversar com mais fluência e sem tantos erros básicos. É mais ou menos isso o que tenho feito (ou tentado fazer), apesar do volume de trabalho só ter aumentado! Fiz amizade com alguns argentinos e sul-americanos, o que me permitiu ganhar alguma fluência idiomática. Admito que o desafio agora é melhorar o meu sotaque. A pronúncia de algumas letras só melhorou recentemente, mas está muito longe do ideal. No processo de aprendizado de qualquer idioma, acredito que existam seis fases muito marcantes: (1º) entender o que falam, (2º) se expressar bem, (3º) dominar a leitura, (4º) ficar bom na escrita, (5º) pensar no novo idioma e, enfim, (6º) perder o sotaque carregado. Esse é o caminho natural para se tornar um falante seis estrelas. No caso do espanhol da Argentina, é possível em um mês concluir a primeira fase (entender o que falam). Quem mergulha na rotina e na cultura locais consegue chegar a essa condição sem fazer aulas formais ou cursos. Em três meses, dificilmente algo parecerá estranho aos ouvidos dos brasileiros integrados a Buenos Aires. Já para a segunda etapa (se expressar bem), creio que é necessário sim recorrer a uma metodologia formal de aprendizado/estudo. No meu caso, só consegui me comunicar minimamente bem depois de 10 meses de Argentina e com dois módulos de curso, que totalizaram cerca de 80 horas de sala de aula. Contudo, lembre-se que optei pelo método lento e tranquilo (e que sou antissocial!). Conheci colegas brasileiros no Laboratório de Idiomas que em quatro, cinco meses estavam conversando muitíssimo bem. Com quase um ano e meio em CABA, sinto que estou mais à vontade para ler e escrever em espanhol, respectivamente a terceira (dominar a leitura) e a quarta (ficar bom na escrita) fases do aprendizado do idioma. Já leio alguns livros e reportagens e acompanho sem problemas filmes legendados em espanhol. A escrita é menos natural, mas sai com alguma boa vontade do meu interlocutor. Meus desafios para o próximo ano são pensar no novo idioma (quinta etapa) e perder o forte sotaque brasileiro (sexta etapa). Assim, acho que poderei me aproximar do patamar de seis estrelas (está por enquanto em 3,5 estrelas, sendo muito, muito otimista). Para isso, quero voltar a fazer mais um ou dois módulos do curso de espanhol. Vamos ver se terei tempo e dinheiro para isso, né? Meu sonho é falar espanhol como Carlos fala português. Meu amigo argentino viveu por 15 anos no Brasil e, de volta ao seu país, está estudando Medicina. Mora em Pilar e tem o português de um legítimo brasileiro. Ninguém diz que ele é argentino quando aperta a tecla SAP. Às vezes, tenho a impressão de que ele pratica meu idioma com menos erros do que eu. É assustador para mim. Abraços, Carlos! E, claro, almejo ter a fluência que a apaixonante Carolinda tem no espanhol. Ela, que também é estudante de Medicina, mas veio da paradisíaca Natal, está em Buenos Aires há quatro anos e meio e se expressa sem qualquer sotaque brasileiro. Quando a ouço conversar com os portenhos, acho que estou diante de uma nativa de Baires. Impossível não ficar babando por ela (e não sonhar com o Ricaro). Beijinho, Caro! Era isso o que tinha para prosear com vocês hoje. No final de fevereiro de 2025, retornarei às páginas de Contos & Crônicas para apresentar mais um episódio de “Tempos Portenhos” . O próximo tema que vamos debater por aqui é a Culinária Argentina. Afinal, como é a experiência à mesa em Buenos Aires, hein? O que os argentinos bebem e comem no dia a dia? Quais as principais diferenças gastronômicas para o Brasil? As respostas para essas questões só virão no ano que vem, quando for publicada a crônica “Episódio 5 – Sentando-se à Mesa com os Argentinos” . Enquanto o novo texto da série não chega, curta os posts das demais colunas do Bonas Histórias . Tenho certeza de que tem muito assunto interessante sobre Literatura, Cultura, Arte e Entretenimento em nossas páginas. Até a próxima, pessoal! ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Crônicas: Tempos Portenhos - Episódio 2 - Vida ao Ar Livre
No segundo relato de um brasileiro que vive em Buenos Aires, conhecemos a mania dos moradores da capital da Argentina de priorizar os ambientes externos, algo que potencializa o amor pela cidade e o convívio nos espaços públicos. Façamos um novo passeio pela linda e surpreendente Buenos Aires . Mais uma vez, nossos guias turísticos pelos atrativos das margens mais fervilhantes do Rio da Prata são as páginas do Bonas Histórias . Para desavisados de plantão e visitantes ocasionais, estamos em “Tempos Portenhos” , a nova coletânea de narrativas não ficcionais da coluna Contos & Crônicas . Se no mês retrasado eu comentei a sensação de segurança que os moradores da capital argentina sentem no dia a dia, tema do Episódio 1: Distopia Paulistana (ou Carioca) e assunto que os brasileiros pensam ser impossível de se obter em um país latino-americano, dessa vez trago para o debate a paixão dos portenhos pelas atividades ao ar livre . Sim, senhoras e senhores, o assunto do Episódio 2 do relato deste brasileirinho vivendo em CABA ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ) é a rotina fora de casa. Para esclarecimento inicial, esse foi justamente o segundo aspecto que mais chamou minha atenção no período de quase um ano residindo em tierras hermanas (o primeiro foi, por supuesto , a questão da segurança pública). Porque em qualquer metrópole contemporânea que preze pela qualidade de vida dos seus habitantes, o melhor a ser desfrutado deve ser do lado de fora das construções e não no interior. Acho que o Raul Juste Lores iria gostar de me ver propagando suas teses urbanísticas. Por falar nisso, abraço, Raul! A temporada “Buenos Aires nas Alturas”, série de vídeos postados no “São Paulo Nas Alturas” , está impecável! Parabéns!!! Se você se acostumou, como um legítimo brasuca escaldado, aos hábitos de seus compatriotas de evitar as ruas, os parques, os transportes coletivos, as aglomerações em locais públicos, os programas outdoor, as atividades físicas em ambientes externos, os contatos sociais aleatórios e o flanar sinestésico pelos grandes centros urbanos, saiba que a realidade na maior cidade da Argentina é impressionantemente diferente. Eita povo que ama viver em contato com a natureza e respirar o ar natural (nem sempre puro). O choque cultural é enorme, principalmente para quem foi criado em uma localidade que tem a mania de enclausurar seus habitantes. Sou de São Paulo, onde isso é evidente. Porém, morei em muitos outros pedaços desse Brasilzão. Em quase toda grande cidade brasileira de Norte a Sul, a tônica cotidiana é se esconder, se proteger e de evitar vários contatos sociais. A vida que tenho em Buenos Aires é tão diferente daquela que levava no Brasil que aposto que alguns leitores do Bonas Histórias irão dizer que estou mentindo ou exagerando nos relatos de “Tempos Portenhos” . Realmente, não sou lá a pessoa mais verdadeira do mundo. Por causa do meu ofício de escritor, a mentira faz parte da minha rotina de trabalho e me amarrou como se eu fosse um praticante de Shibari. Além disso, confesso que estou caidinho, caidinho de amores por essa senhora centenária. Pela primeira vez, me apaixonei por uma cidade. Provando que não comungo do etarismo nem que me rendo exclusivamente aos encantos do sexo feminino da minha espécie, minha grande e atual paixão é um emaranhado de concreto (e muito verde) de mais de quatro séculos de vida. Fiz essa observação (desnecessária, claro) só para dizer que minhas narrativas são ardilosas e exageradas, frutos de uma mente atormentada e pouquíssimo confiável. Mesmo assim, saiba que minhas palavras não estão tão longe da verdade nua e crua. Pela natureza desse conjunto textual estar mais próxima das crônicas do que dos contos (divisão que fiz questão de ressaltar desde o início), não posso abandonar completamente o mundo real. Em nome da coerência da tipologia narrativa, agarro-me à realidade por mais que ela siga me maltratando como se eu fosse seu pior inimigo. Tá bom, vou parar de ser melodramático (já tirei a falsa carapuça) e voltar ao tema do post de hoje do Bonas Histórias (é para isso que estamos aqui, né?). Só quem vive em Buenos Aires poderá atestar se o que digo em “Tempos Portenhos” é factual ou não. Por isso, quem tiver a oportunidade de se manifestar nos comentários abaixo, deixe sua opinião. Gostaria de saber se estou ficando maluco e tendo alucinações ou se o que vivencio é verídico. Entre uma certeza aqui e uma convicção ali, o que posso garantir, em um lapso inexplicável de sinceridade, é que não quero mais ir embora de CABA. Vim com o plano de ficar de dois a três anos. E, nem bateu doze meses de estadia, esse prazo já me parece extremamente apertado. Se bem que minhas consultoras do plano cósmico-astral (Jéssica, acho que descobri o que acontecerá comigo em agosto!) garantem que em breve trocarei de cidade e até de país. Será?! A paixonite por uma dama aventureira e misteriosa suplantará os encantos pela metrópole charmosa e caótica? Mistéeeeeerio! Brincadeiras à parte, confesso que me sinto muito mais portenho do que paulistano. É engraçado falar sobre isso. Os hábitos dos moradores de Buenos Aires são muito mais parecidos aos meus do que eram/são os comportamentos típicos dos habitantes da capital paulista. Quando vivia em São Paulo, era tachado de exótico, maluco, anormal, ET! O bullying era praticado, obviamente, pelos familiares queridos e pelos amigos mais próximos, que não perdiam a oportunidade de uma boa zoação. Talvez nenhuma ação seja tão representativa dessa constatação quanto curtir a cidade ao ar livre, algo que sempre fiz nos lugares em que morei (e que na Argentina se tornou o ponto alto do meu dia a dia) e que meus conterrâneos sempre abominaram (daí a incredulidade deles para meus comportamentos). Para ficar mais claro o que quero dizer, vou usar o mesmo recurso narrativo que utilizei no Episódio 1: Distopia Paulistana (ou Carioca) : pontuar minha crônica com diferentes cenas do cotidiano portenho. Assim, tenho certeza de que conseguirei mostrar na prática as enormes diferenças culturais entre os países (ou, sendo mais específico na minha comparação, entre as maiores cidades das duas nações). Simultaneamente, comentarei ponto a ponto os fragmentos extraídos sem muito pudor de expor minha vidinha e as rotinas de meus vizinhos e conhecidos. Afinal, hoje é dia de crônica, bebê. Chega, então, de lero-lero e diz-que-me-diz. Vamos ao que interessa. Você está em “Tempos Portenhos” , amigo(a)! Toma aí quatro cenas comuns que encontramos em Mi Buenos Aires Querido quando o assunto é vida ao ar livre. Cena 1: Parques e praças 24 horas por dia, todos os dias da semana. Sei que já falei rapidamente sobre esse assunto na crônica anterior, Episódio 1: Distopia Paulistana (ou Carioca) . Contudo, sinto que preciso aprofundar um pouco mais essa questão. Os portenhos amam as praças e os parques. É como se esses lugares fossem a extensão natural de suas casas. Chega a ser emocionante ver a relação que eles têm com os espaços verdes de Buenos Aires. É claro que aos finais de semana e aos fins de tarde a frequência dispara. Mesmo assim, é importante ressaltar que a qualquer hora do dia, da noite e da madrugada dá para passear em meio à natureza. Não há violência e os locais são receptivos aos visitantes. O que se faz em uma praça ou parque da capital da Argentina? Tudo. Ou quase tudo. Esse é o melhor lugar para praticar atividades físicas, jogar bola, passear com os pets, levar as crianças para brincar, fazer piqueniques ( los mosquitos sueñan con familias haciendo picnics en los bosques de Ezeiza ), descansar, socializar, pedalar, namorar, paquerar, discutir a relação, fazer refeições divertidas, dançar, fazer academia a céu aberto, jogar xadrez, realizar compras, encontrar os amigos, charlar por teléfono etc. Vou contar a realidade do Parque Saavedra, que é o mais perto de onde moro – estou a exatos 500 metros dele, conforme indicado pelo Google Maps. Já levei alguns brasileiros para dar uma voltinha por lá (minha casa é quase um consulado informal do Brasil; é só aparecer que tem uma caminha para você). Durante esses passeios, sempre vejo olhos de incredulidade nos meus compatriotas. Em primeiro lugar, o parque não é cercado por grades – uma mania que se tem em São Paulo. Portanto, você pode frequentá-lo a qualquer horário. E acredite: nas noites e nas madrugadas, ele é relativamente movimentado. Sei disso porque corto caminho pelo seu miolo quando volto dos passeios boêmios por Palermo, Belgrano, Chacarita e Villa Crespo. Além disso, no Verão, para fugir do calorão, ia correr só depois que o sol tinha se posto. E para minha surpresa, essa era a opção de grande parte dos meus vizinhos. Entretanto, o que mais me encanta no Parque Saavedra é a sua estrutura e sua dinâmica social. São incontáveis as atrações à disposição do público: vários parquinhos infantis (quem aproveitou bastante foi o Gui no Carnaval), carrossel, mesinhas para refeições, gramado para crianças e cachorros correrem/brincarem, pistas de bicicleta e de caminhada, equipamentos de ginástica, aparelhos de musculação, tablado para dança, quadras/campos de futebol à bocha, banheiros, postos de policiamento, coreto, centros de reciclagem etc. Aos finais de semana, é montada uma feirinha popular em que se vende de tudo. A oferta de comes-e-bebes é responsabilidade dos vários restaurantes, cafeterias, panaderias , kioscos e bares estrategicamente instalados nos arredores do parque. Numa voltinha despretensiosa por Saavedra, seja num sábado ou domingo, seja no fim de tarde de um dia de semana, é possível ver a explosão de vida do lugar. Há gente correndo, pedalando, fazendo musculação, brincando, passeando, namorando, se alimentando, dançando, cantando, tocando instrumentos musicais, fazendo reuniões religiosas e políticas (o encontro dos peronistas é aos domingos à noite no coreto central), protestos (se bem que os cacerolazos diminuíram bastante nos últimos meses), tirando fotos (abraço, Rai e Carlos!) etc. Há muitos personal trainers que dão aulas particulares e em grupo no parque. Eles não vão para um lugar fechado para atender aos clientes. O mais legal é ver que tudo funciona muito bem sem precisar pagar nada. NADA!!! Para os paulistanos que não conseguem imaginar um serviço público que funcione plenamente ou um serviço privado que não tenha jeitão de extorsão, conferir algo gratuito de elevada qualidade é impressionante. Juro que revi vários conceitos sobre a gestão municipal brasileira desde que vim morar em Buenos Aires. Esse lance de conceder à iniciativa privada espaços urbanos só porque as prefeituras são incompetentes é abraçar a ignorância e a ineficiência do Estado. Assistindo à realidade de CABA, a única dúvida que tenho é se Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Explico. Quanto mais os portenhos usam os parques e as praças, mais esses lugares se tornam agradáveis e seguros. Paralelamente, quanto mais agradáveis e seguros ficam, mais gente os procura. É a famosa lei Tostines – dúvida universal criada pelo genial Enio Mainardi há 40 anos. Dando vazão a essa relação que chamo de “focinho-rabo de cachorro rodopiando”, a todo momento estão surgindo novas áreas verdes pela cidade. Na Zona Norte de CABA, a mais recente entrega da Prefeitura foi o Parque de los Niños, às margens do Rio da Prata, na divisa de Núñes com Vicente López. O lugar é um espetáculo. Até prainha tem – praia ao estilo argentino, que fique claro! E o que falar do Parque de la Inovación, que está em construção ao lado da cancha do River Plate, hein? Por essas e outras, se você morar na capital da Argentina ou se só estiver passeando a turismo por aqui, minha recomendação é: embrenhe-se pelas áreas verdes da cidade como se explorasse as ruínas históricas de Roma/Atenas ou as praias de Cancún/Maldivas. Você não conseguirá conhecer a alma portenha e a dinâmica de Buenos Aires se não compreender a relação de seus moradores com os parques e as praças. Cena 2: Fugindo dos shopping centers Você quer ver um(a) paulistano(a) feliz? Não tem erro. Convide-o(a) para ir ao shopping center. Até quem não é consumista gosta de passear pelos corredores padronizados, refrigerados, limpos e seguros daquele cubo de concreto. Há muito tempo esse lugar passou a ser o principal centro de lazer de São Paulo. Encontramos de tudo lá: praça de alimentação, cinemas, teatros, lojas, supermercados, lotéricas, veterinários, academias de ginástica, bancos... Mais recentemente, foram implementados serviços médicos e laboratoriais e até escolas. Uma vez li que os habitantes das grandes cidades brasileiras amam os shopping centers porque é o único lugar em que ele se sente efetivamente seguro. Talvez esse não seja um ponto de vista tão maluco assim. Por que estou falando sobre isso? Porque, em Buenos Aires, as pessoas não têm esse frenesi pelos centros de compra. Até há alguns bons e grandes shoppings em CABA, mas nenhum deles passa perto do burburinho dos estabelecimentos paulistanos e cariocas. A razão é que as atrações que estariam concentradas nesses lugares estão dispersas pela cidade. Você quer ir ao cinema ou ao teatro? Tem várias ótimas redes de exibição e casas de espetáculos nas ruas. Você quer ir a restaurantes, pizzarias, churrascarias e cafeterias descolados? Há vários espalhados na maioria dos bairros. Por falar nisso, comer na calçada ou no terraço, para aproveitar o clima da cidade e a paisagem, é uma atração muito requisitada por comensais e bebedores portenhos. Inclusive no Inverno e no Verão, muita gente não perde essa mania – algo que não aconselho se o local não tiver aquecedor eficiente ou uma cobertura apropriada! Até mesmo as compras que os brasileiros fazem tipicamente em shopping, como roupas e artigos para casa, são realizadas nos centros comerciais de rua. Villa Crespo ( beso , Paula) reúne vários outlets de moda muito charmosos. Enquanto caminham pelas vias desse bairro calmo e bucólico, os consumidores matam a curiosidade espiando as belas vitrines das lojas. Dizem que é nesse pedaço de CABA que se encontram os melhores artigos de couro (melhores em minha frase é no sentido de melhor custo-benefício, tá?). Quem procura vestuários mais baratos, a opção é o barrio de Flores. A Avenida Avellaneda e suas imediações são os points da roupa com preços mais baratos da capital da Argentina. Se a sua necessidade for coisas para a casa e miudezas no geral, aí você deve partir para Once (beso, Yudy). Naquele formigueiro humano, é possível encontrar itens pela metade ou até um terço do preço do que é praticado nas outras partes da Capital Federal. Não preciso dizer que adoro o comércio popular de Flores e Once. Para o argentino que vive na capital, não faz sentido ir ao shopping center. Alguns até vão, mas noto que esse não é um passeio obrigatório nem muito requisitado pelas famílias, casais e grupos de amigos. No Brasil, a alegria da criançada e dos adolescentes é dar um rolê no shopping (um dos poucos lugares onde alguns pais os deixam sozinhos em segurança). Se você convidar um gatinho ou uma gatinha para um encontro, uma boa opção é dar uma volta por um centro de compras. Ou se os parentes estão em casa entediados, o convite para uma espiada de vitrine no estabelecimento de compras mais próximo pode ser uma boa solução para desativar o clima explosivo da família. PELO AMOR DE DEUS: shopping não é vida! Se os moradores de sua cidade só encontram prazer fora de casa pelos corredores de um centro de compras, saiba que vocês têm um sério problema (e, talvez, nunca tenham percebido). Cena 3: Desviando de bombas e fugindo do trem. Adoro flanar por Buenos Aires. Todo dia (é todo dia mesmo, inclusive quando faz frio polar ou calorão equatorial) saio para caminhar. Uma voltinha normal dura em torno de uma hora e meia, duas horas. Sempre vou para um bairro diferente: Núñez, Belgrano, Palermo, Chacarita, Coghlan, Colegiales, Villa Urquiza, Villa Crespo e Almagro. Quando estou com disposição (geralmente aos finais de semana), engato uma viagem para Vicente Lopes ou San Isidro, cidades vizinhas, ou rumo para o Centro, Recoleta, Porto Madero, San Telmo ou Congresso. Quando fico por Saavedra mesmo, escolho um parque diferente (não faltam parques e praças pelo meu bairro). Nessas andanças quase sempre aleatórias, reparo que não sou o único que está batendo perna por aí. Os portenhos têm o hábito de andar muito. Aproveitando a topografia plana, o bom calçamento (até Tio Luís iria elogiar o piso da cidade), a segurança pública, o clima agradável e o baixo índice de chuvas de Buenos Aires, eles dão preferência para a caminhada. Pegar carro ou tomar transporte público só em último caso. É legal notar isso na prática. Perambulando pela cidade, vemos muitos senhores e senhoras, alguns bem velhinhos, fazendo compras nos supermercados e nos açougues. Alguns têm evidentemente graves problemas de locomoção. Mesmo assim, vão e voltam a pé (carregando suas sacolas ou puxando seus carrinhos de compras). As crianças, desde cedo, aprendem a prática do bater pé. Vejo vários meninos e meninas indo sozinhos para a escola. Até os pets parecem acostumados ao ritual de percorrer as ruas (no caso, as calçadas) de CABA. Boa parte dos cachorros do meu bairro andam sem coleira com enorme tranquilidade, mesmo ao lado de vias mais movimentadas. Essa liberdade para o caminhar é melhor representada pela travessia das ferrovias, que cortam a capital argentina. Não por acaso, esse aspecto foi um dos que mais me surpreenderam. Diferentemente de São Paulo (e de boa parte dos municípios brasileiros), a Capital Federal da Argentina tem uma série de linhas de trens para passageiros que estão integradas à dinâmica social do município. Não existe, por exemplo, segregação do espaço onde passam as locomotivas e onde os pedestres e os carros atravessam. Assim, em uma caminhada banal pelas redondezas de casa, acabo sempre cruzando uma ou duas vezes os trilhos de trem. Isso é perigoso? Talvez. Contudo, nunca ouvi relatos de mortes ou acidentes sérios. As pessoas prestam atenção e tomam cuidado na travessia (há sinalização sonora e visual quando as locomotivas estão se aproximando). Acho que isso seria impossível no Brasil. Em minha terra natal, se constroem grades e muros para evitar que as pessoas transitam livremente por várias partes da cidade. Até praças têm o acesso bloqueado em São Paulo. Por falar em perigo, talvez o grande temor por se caminhar pelas calçadas de Buenos Aires seja o excesso de bombas caninas. Acredito que elas são produzidas estrategicamente para pegar turistas e moradores que vivem com a cabeça nas nuvens. Tal qual um campo minado, só que de excrementos de animais de estimação, uma pisada em falso pode fazer explodir sentimentos, texturas e odores desagradáveis. Felizmente, uma tragédia desse tipo ainda não aconteceu comigo. Portanto, por mais que a arquitetura histórica da cidade e os predicados das argentinas correndo pelos parques com roupas esportivas aticem os olhares de admiração, lembre-se: NÃO TIRE OS OLHOS DO CHÃO, PELO AMOR DE DEUS!!! Cena 4: O café da tarde na praça Acho que já está ficando claro que, para os moradores de Buenos Aires, não há impedimentos para deixar as casas e os prédios e ganhar as ruas. Há até uma expressão popular no castellano rioplatense para designar esse conceito: cultura callejera. Em uma tradução informal (e inconsequente da minha parte), esse termo seria como a “cultura rueira” ou a “cultura de rua”. Desacostumado a esse hábito local nos primeiros meses de vida na Argentina, eu demorei para entender o ritual de um casal de idosos de um prédio na Avenida García del Río. No ano passado, quando tinha acabado de me instalar em Saavedra, bairro recheado de parques e praças na Zona Norte da Capital Federal, via todo final de tarde uma dupla de velhinhos se acomodar em um banquinho do boulevard em frente ao apê que aluguei ( beso, Soledad y Nora ). Eles traziam sempre uma sacolinha, com garrafa térmica, cuia e saco de pão. Sem constrangimento, tomavam mate enquanto comiam alguma coisa, talvez medialunas ou empanadas (não sei exatamente). E, claro, conversavam muito e cumprimentavam os conhecidos que passavam por ali. Eles sempre estavam proseando com alguém diferente. Acho que deviam conhecer o bairro inteiro. Via rotineiramente aquela cena quando caminhava pelo boulevard ou quando olhava do terraço de casa. Admito que não passava pela minha cabeça alguém deixar o conforto de sua casa para tomar o café da tarde (em Buenos Aires, esse momento é chamado de merienda ) no banco da praça. Por mais que me encanta merendar , não abro mão de uma mesa, seja no meu apartamento, seja em uma cafeteria. O mais curioso é que o ritual dos meus vizinhos era sagrado. Não importava se fizesse sol ou chuva ou se estivesse frio ou calor. Lá estavam eles merendando . Soube disso em uma tarde de primavera, quando a temperatura era de 10ºC e chovia interminavelmente. E, para meu espanto, o bom casal de idosos estava tomando seu mate devidamente agasalhado com muita roupa e capa de chuva no meio da pracinha! Tentando entender aquela situação nada convencional para um paulistano recém-chegado à CABA, puxei a Paula de lado (ela é mais conhecida nas crônicas de “Tempos Portenhos” como a policial de Belgrano) e pedi uma explicação racional para aquela cena que tanto me intrigava. A moça, que foi a minha primeira intérprete na então novíssima cidade, arregalou os olhos e respondeu com seu jeito doce de ser: “ ¿Que passa, boludo?! Ellos están merendando. ¿Lo que está mal? ”. Quando consegui expressar o motivo da minha admiração, Paola (Paola é para os íntimos, tá?) justificou que eles gostavam de ir para a praça ao final de tarde. Todo mundo tem suas manias e aquele casal possuía a deles. Qual o problema?! Foi aí que ela disse algo que me mostrou que talvez eu estivesse virando um portenho. “Você não tem a mania de correr no Parque Saavedra todo final de tarde? É a mesma coisa, Ricardo. Ninguém olha para você correndo e pensa: mas ele poderia estar correndo na esteira do edifício ou na academia! Se você gosta de se exercitar fora de casa, eles gostam de merendar ao ar livre. Não há nada o que se surpreender com isso”. Não é que Paola tinha (como sempre) razão. Descobri que na minha nova cidade, todos tinham suas manias. A semelhança é que esses costumes eram sempre realizados a céu aberto. No próximo capítulo de “Tempos Portenhos” , o assunto será como Buenos Aires trata os pets. Já adianto que os argentinos da Capital Federal são apaixonados pelos animaizinhos de estimação e moldaram sua cidade para atender às necessidades e às vontades dos filhinhos de quatro patas. Confira o Episódio 3 – Dogland, Cães Felizes . ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Crônicas: Tempos Portenhos - Episódio 1 - Distopia Paulistana (ou Carioca)
No primeiro texto da nova temporada da coluna Contos & Crônicas, ficamos sabendo o quão seguro é viver em Buenos Aires. Diferentemente de São Paulo, do Rio de Janeiro e de boa parte das grandes cidades brasileiras, a capital argentina transmite a sensação de segurança dia e noite. Para quem acabou de descobrir as páginas do Bonas Histórias , aviso que a coluna Contos & Crônicas tem uma novíssima coletânea de textos não ficcionais . De 2024 a 2026, apresentarei “Tempos Portenhos” , os relatos de como é viver em Buenos Aires . Afinal, escolhi morar na capital argentina pelos próximos dois ou três anos (isso é, se o Sr. Câmbio não me decepcionar) e tenho muito (muito mesmo!) o que compartilhar com meus compatriotas sobre essa inusitada e rica experiência. Se você ficou interessado(a) no tema, saiba que há algumas semanas publiquei o calendário de posts de “Tempos Portenhos” . Lá tem os links para todas as demais narrativas que vou produzir e postar aqui no blog. Hoje, como prometido, trago o primeiro episódio da coletânea de crônicas. Seu nome é Distopia Paulistana (ou Carioca) . Na estreia de “Tempos Portenhos” , quero debater o aspecto que mais chamou minha atenção nesses oito meses de Argentina : viver em uma cidade em que temos a sensação de segurança dia e noite Confesso que não me recordo se alguma vez me senti realmente protegido nas ruas brasileiras (talvez só no sul de Minas). E olha que morei em muitas cidades desse Brasilzão. Porém, como meu país natal é grande e heterogêneo, posso garantir que morar em Buenos Aires confere uma impressão de paz e tranquilidade que nenhum paulistano ou carioca consegue sequer imaginar. Daí o título dessa crônica. A realidade na capital da Argentina pode soar como distópica para os moradores de São Paulo e do Rio de Janeiro (e de qualquer metrópole sul-americana que se fale português). Acredite se quiser: o nível de segurança que os portenhos têm no dia a dia é incrivelmente alto e beira o absurdo para os padrões brasileiros. Antes de debater em detalhes o assunto de hoje de “Tempos Portenhos” , gostaria de relatar seis cenas corriqueiras da minha rotina em Buenos Aires. Ao apresentar fragmentos da vida real, creio que ficará mais fácil para você entender o nível de segurança que se tem na maior cidade argentina. Cena 1: Voltando do cinema tarde da noite ou de madrugada. Como os leitores mais assíduos do Bonas Histórias bem sabem, sou fãnzaço da sétima arte. Para manter a coluna Cinema devidamente atualizada com novas análises, vou semanalmente às salas de cinema. Adoro conferir as principais novidades das telonas. Meu local favorito em CABA ( Ciudad Autónoma de Buenos Aires ) para ver filmes é o Multiplex Belgrano , que fica mais ou menos perto de casa. Se bem que ultimamente comecei a frequentar mais o Cine Lorca , que não fica tão perto assim de onde moro. O que a gente não faz por uma boa promoção, né? Diferentemente do que ocorre em várias metrópoles brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente), esses cinemas são de rua. Cinema de rua?! Sim, senhor(a). Esse tipo de estabelecimento não morreu em todas as partes do mundo. E em um lugar onde a sétima arte é muito forte, como na Argentina, ainda há exibidores fora do circuito clássico do shopping center. Além dessa primeira surpresa para os brasileiros, trago outra: as sessões dos cinemas de rua vão até tarde da noite (ao melhor espírito portenho de abraçar a madrugada). Já saí do Multiplex Belgrano a uma e meia da manhã. Acho que isso ocorreu quando vi “A Sociedade da Neve” (La Sociedad de la Nieve: 2023). Ao fim da sessão, o público vai para a rua conversar e se divertir. Muitos aproveitam para tomar algo nos bares e para comer alguma coisa nos restaurantes da redondeza. Tanto Belgrano quanto a Avenida Corrientes são excelentes points noturnos. Isso é feito na mais perfeita tranquilidade. Não há estresse nem preocupação por parte da plateia no instante em que deixa o cinema e coloca os pezinhos na rua (ou na calçada, como preferir). Em Buenos Aires, a noite e a madrugada não são sinônimos de maior perigo ou de falta de segurança. Pelo contrário: esse é o momento ideal para passear (principalmente no Verão, quando a temperatura é mais agradável após o pôr-do-sol) e para bater papo com os locais (os portenhos são seres noturnos e ficam muito mais animados de madrugada – principalmente depois das duas da manhã). Quantas vezes não fui andando para casa em Saavedra (percurso de 30 a 40 minutos) ao lado da Paula ( también conocida como Paola, la policia mas hinchapelota de Belgrano o la chica mas hermosa de Villa Crespo – ¡como quieras!) após a sessão de cinema do Multiplex. Em dias de chuva (ou de muito frio ou de preguiça), a melhor opção sempre foi o ônibus. Por falar nisso, os colectivos em CABA funcionam 24 horas. Portanto, não há aquela correria para se chegar ao ponto antes que o último carro passe. Se você mora em São Paulo ou no Rio de Janeiro, me conte quando foi a última vez que ficou perambulando a pé ou de transporte público pela sua cidade tarde da noite ou de madrugada. Muita gente só sai na rua nesses horários de carro (se for blindado, melhor ainda!). Nem parar no semáforo é seguro. Depois das 20 horas, o trânsito urbano adquire regras diferenciadas, algo perfeitamente aceito até pelas autoridades. Tudo por causa da insegurança brasileira. Cena 2: Parques lotados à noite e de madrugada. Eduardo, um dos meus melhores amigos, veio com a família para Buenos Aires no Carnaval. Na segunda-feira carnavalesca (que em terras argentinas é um dia como outro qualquer), ele passeou bastante pela cidade com a esposa e os filhos. Depois de ficar o dia inteiro com o maridão (algo que talvez não estivesse mais acostumada), Adriana, a esposa do Edu, me pediu encarecidamente para eu levar seu estimado esposo para longe (bem longe) de sua presença. Coisas de casal que está há muito tempo junto (e com duas crianças pequenas). Aceitei a missão. E lá fomos eu e Eduardo para um rolê noturno e aleatório pelo Barrio Chino. Enquanto eu queria comer uma boa pizza, ele só pensava em degustar os bons vinhos argentinos. Começava a entender o drama da Dri... O fato é que ficamos proseando pelas divertidas ruas da parte mais asiática da capital argentina até muito tarde. Quando reparamos nos ponteiros do relógio, já eram duas da matina. Era hora de levar meu amigo de volta para o hotel na Recoleta. Até sua esposa já estaria com saudades dele naquele momento. Se ele não apanhasse da Adriana naquela oportunidade, acho que nunca mais levaria umas boas palmadas dela. O problema é se sobrasse para mim. Se bem que não havia acertado o horário da devolução do pacote matrimonial da minha amiga. Então, achei que estivesse de boa para mim. Caminhamos até a Avenida Cabildo onde pegaríamos um ônibus. Para isso, saindo do Barrio Chino, cruzamos as Barrancas de Belgrano, um parque público no coração de Belgrano (um dos bairros mais tchutchuquinhos da capital argentina). Ao avistar a grande área verde, Eduardo parou e ficou olhando admirado para o lugar. Vi que ele não estava entendendo nada. Já sabendo o que ele, que vive há aproximadamente 25 anos em São Paulo, estava tentando processar mentalmente, me adiantei e expliquei: “Os portenhos adoram frequentar praças e parques. Inclusive de noite e de madrugada”. Em plena terça-feira às duas horas da manhã (a segunda-feira tinha acabado a pouco tempo), as Barrancas de Belgrano estavam cheias de gente. Eram casais fazendo piquenique, pais empurrando carrinhos de bebê, donos de pet dando uma voltinha para que seus amiguinhos dessem aquela aliviada, pessoas de idade tomando mate e jovens bebendo cerveja e conversando. Tudo na maior serenidade. Medo? Insegurança? Risco de ser assaltado?! Esses sentimentos não passavam pela cabeça de ninguém ali. Acho que Eduardo voltou para São Paulo chocado. O termo é esse mesmo: choque! Como é possível frequentar parques e praças de uma metrópole em qualquer dia da semana e em qualquer horário do dia e da noite com naturalidade?! Diante de sua perplexidade, não contei para ele que gosto de ir, na estação mais quente do ano, correr no Parque de Saavedra justamente à noite. Certamente, ele iria me chamar de mentiroso ou de irresponsável. Cena 3: Usando o celular nos ônibus, nos trens, nos metrôs e até nas ruas. Por mais que as caminhadas noturnas sejam surpreendentes e as visitas aos parques e praças madrugadas à dentro pareçam coisas de outro mundo, o que mais chama atenção dos brasileiros que vem para Buenos Aires é poder usar os celulares na rua. O quê? Usar telefone fora de casa?! Como assim? Não é perigoso?! Não serei roubado(a)? Quando ouço essas interrogações, geralmente tenho uma fala pronta para meus amigos e familiares: “Olhe para a sua volta e veja quantas pessoas estão usando aparelhos eletrônicos”. Não digo só celular porque muita gente utiliza notebook, tablet e Kindle enquanto está em cafés e restaurantes. Em alguns casos, as mesas estão na rua. O quê? Usar computador na rua?!!! Juro que não tenho coragem, mas vejo muitas pessoas fazendo isso. Eu falei que esse meu relato poderia parecer absurdo para quem não conhece o dia a dia da capital da Argentina. Já começo, inclusive, a temer que seja acusado de mentiroso ou de falsificar a realidade portenha. Mas, sim, querido(a) leitor(a) da coluna Contos & Crônicas , por essas bandas não existe tanto medo de ser assaltado só porque se está na rua com algo eletrônico. É verdade que nos últimos anos aumentou esse tipo de crime por aqui. Porém, ainda assim está longe, muito longe de chegar perto do drama de paulistanos e cariocas. Faça o teste. Entre num ônibus ou trem e observe. A maioria das pessoas está digitando no celular. Há quem leia no Kindle ou consulte o tablet. Vá num café e verá que muitos fregueses trabalham naturalmente em notebooks. Tem quem vá ao banheiro ou se levante para pagar a conta no caixa sem a menor preocupação de deixar seus itens na mesa. Chega a ser assustador para um brasileiro. Pela rua, o povo caminha com aparelho telefônico em mãos, seja tirando fotos, consultando endereços/trajetos, falando em chamadas telefônicas ou conversando em aplicativos de mensagens instantâneas. Confesso que foi difícil me acostumar a esse cenário um tanto surreal. Para me divertir um pouco com os brasileiros desavisados, sempre falo para eles tomarem muito cuidado quando estiverem caminhando pelas ruas. Buenos Aires está perigosíssima. O Centro, então, está um terror! Fiz isso, por exemplo, com a minha irmã em dezembro (beijo, Marcelinha!) e com Carla em janeiro (beijo, Carlota!). Quando elas pegavam os celulares do bolso ou da bolsa (geralmente para tirar foto, algo que odeio), na hora eu alertava em tom apavorado: “Isso é muuuuuito perigoso! Não estamos na Suíça!” Nos primeiros dias, as pobres paulistanas caíram en mi broma . Contudo, depois de alguns dias de bateção de perna pela capital argentina, as respostas delas eram sempre as mesmas: “Você só pode estar brincando, né? Olhe para a nossa volta. Tá todo mundo de celular em mãos”. Quando elas percebiam que se tratava de uma simples brincadeira minha, perdiam o receio e tascavam tirar foto de tudo. Já falei que odeio foto?! Cena 4: Visitando uma agência bancária portenha. Numa terça-feira de dezembro, aproveitei que já estava na rua fazendo um monte de coisa e decidi ir ao banco. Precisava pagar um boleto. Quando já estava na frente da agência bancária em Núñez, lembrei que não poderia entrar lá. Afinal, estava com a mochila nas costas. Dentro dela havia um monte de coisas: xerox do curso de espanhol que me inscrevi na Universidade de Buenos Aires (UBA), documentos que levei para a Migração para conseguir a residência na Argentina, um regalo que ganhei da Paula e dinheiro que havia sacado na Western Union. Todo brasileiro sabe que não se entra COM NADA em uma agência bancária. NADA!!! Inclusive dignidade, autoestima e vergonha na cara. Quando já estava dando meia volta para rumar para casa em Saavedra, vi uma senhora entrar no banco com um carrinho de feira. O quê? Ela entrou com várias frutas e legumes! NO BANCO!!! Fiquei pasmo com a cena. Aí comecei a reparar nas pessoas que passavam pela porta principal da agência. Um homem entrou carregando uma caixa. UMA CAIXA?! Logo depois, uma mulher com uma bolsa maior do que a minha mochila passou. Na hora pensei: se eles podem entrar com esse monte de quinquilharia, eu também posso. Com esse pensamento, assumi a postura abusada e fui em direção à entrada do banco. Na minha cabeça, a qualquer instante o segurança iria me bloquear. No pior dos casos, poderia praticar meu espanhol ainda claudicante. Ou teria que ligar para a Paula ir me tirar da cadeia (algo contraditório considerando sua profissão). Contudo, não foi preciso nenhuma medida mais extrema. O banco não tinha porta-giratória nem sequer detector de metal. Também não vi nenhum segurança logo de início. Ao indicar o serviço que queria fazer no terminal eletrônico, recebi uma senha e fui esperar sentado a indicação do caixa em que deveria me dirigir. O pessoal ao meu redor fazia o mesmo. Eles usavam o celular numa boa e conversavam animadamente entre si. Todos SENTADOS. A senhora com o carrinho de feira colocou suas compras em um assento. Talvez as frutas e legumes precisassem descansar até chegar em casa. Vinte minutos depois, fui chamado pelo painel eletrônico. Paguei a conta no caixa e saí do banco. Quando cruzei a porta, encontrei um segurança que entrava tranquilamente. Pelo jeito que palitava os dentes, acho que voltava do almoço. Inconformado com aquela experiência sui generis , não me segurei e perguntei se era permitido sempre entrar com mochila na agência. Ele foi muito simpático e me disse que sim. “Por que não poderia?”, quis saber intrigado. Expliquei que eu era de São Paulo e que na minha cidade não se entrava com NADA (ABSOLUTAMENTE NADA) nos bancos. O cara não acreditava no que ouvia (ou meu espanhol estava mesmo muito ruim). Depois que expliquei um pouco mais a saga dos usuários dos bancos no Brasil, o segurança (que era torcedor do River e morava em Pilar) resumiu bem nossa conversa: “Os bancos brasileiros são então fortalezas!”. Envergonhado, concordei. “Sim, você usou a expressão certa. São fortalezas”. Se você não acredita no que estou relatando, faça uma experiência antropológica (ou seria sociológica?). Vá até uma agência bancária em Buenos Aires e fique vendo o que as pessoas levam. É hilário! Não dá para acreditar. Os funcionários não têm medo de assalto?! Não existe roubo à banco nessa cidade, Santo Deus?! Será que um pouco de segurança não seria indicado para um lugar em que se trabalha com dinheiro e com serviços financeiros?! Quando fiz esses questionamentos para a Paula à noite (a polícia daqui é tão encantadora que não resisti e levei para casa a agente com quem mais me afeiçoei – brincadeirinha!) , minha amiga me respondeu com o sarcasmo típico dos portenhos: “O que os ladrões vão levar dos nossos bancos, hein? Pesos argentinos?! Nossa moeda está valendo tão pouco que é mais lucrativo assaltarem os supermercados para levar comida. Além disso, você já imaginou a operação logística que os assaltantes precisariam empregar para levar uma boa quantia?!”. Juro que não tinha pensado por esse ponto de vista. Está aí também a explicação para ninguém me molestar quando saio quinzenalmente do Western Union com uma mochila abarrotada de notas de dinheiro (cujo valor seria facilmente coberto por duas ou três notas mais altas de real). Cena 5: Mulheres andam sozinhas para cima e para baixo a qualquer horário do dia e da noite. Alguém pode chiar comigo: “É claro que você se sente seguro na Argentina, Ricardo. Você é homem, feio e pobre. Quem iria mexer com você na rua? Além do mais, você nasceu e cresceu no bairro de Pirituba, na cidade de São Paulo. Se você não sente medo das pessoas, saiba que as pessoas sentem medo de você!”. Para quem disse (ou só pensou) essas palavras tão ácidas e amargas para a minha pessoa, peço um pouco de calma (e de carinho). Muita calma nessa hora, querido(a) e salve-salve leitor(a) da coletânea de crônicas “ Tempos Portenhos ”. Quando falo da sensação de segurança em Buenos Aires, não estou me referindo apenas a mim. É algo geral, principalmente entre os brasileiros que para cá vem morar. Avaliar a opinião dos locais não vale. Os portenhos não conseguem ficar satisfeitos com NADA, mas isso é uma coisa cultural deles. E é justamente entre as mulheres estrangeiras que essa percepção fica mais nítida. Converse com uma paulistana ou uma carioca que vive na capital argentina há certo tempo e lhe pergunte sobre a sensação de segurança. Certamente, a visão delas é mais impactante e positiva do que a minha ou a de qualquer homem. Para você entender o que estou me referindo, saia na rua tarde, bem tarde da noite. O que é tarde para você? Para mim é 23 horas, meia-noite ou uma da madrugada. Tenha certeza de que nesses horários terá muita gente andando pelas ruas, tomando ônibus e frequentando bares e restaurantes. Contudo, o mais impressionante é a quantidade de mulheres sozinhas nas calçadas (voltando para casa ou indo para a baladinha) ou no transporte público. Elas não têm receio de ir-e-vir seja de dia, seja de noite. Chega a ser maravilhoso para quem está acostumado com a realidade no Brasil. Se pensarmos bem, as metrópoles brasileiras não são muito diferentes das cidades sauditas, afegãs, iranianas, emiradenses e cataris para a população feminina quando o sol se põe. Colocar os pés na rua é uma sentença de morte ou de violência de gênero dependendo do horário. Se você falar para as paulistanas e cariocas recém-chegadas à CABA que o ir-e-vir é tranquilo mesmo de madrugada, inclusive se precisarem usar o transporte público, possivelmente elas não irão acreditar em suas palavras. É curioso esse lance de ter vivido em São Paulo por muito tempo e de ter me acostumado à violência brasileira. Quando eu saio com uma moça na capital argentina, eu não consigo deixá-la ir sozinha para casa à noite ou de madrugada. Como não dirijo, faço questão de acompanhá-la de ônibus ou Uber por cavalheirismo e, claro, por segurança. Ainda passa pela minha cabeça que algo de ruim possa lhe acontecer no trajeto de retorno. Aí a culpa será obviamente minha e da minha negligência na parte final do passeio. O problema é que minha atitude zelosa é vista com espanto pelas portenhas. “¡Que raro, Ricardo !” é o que sempre ouço nessas situações. Infelizmente, a palavra “raro” em espanhol significa “estranho”. Ou seja, elas sempre acham que estou forçando a barra ou tentando algo a mais no fim de noite. Não à toa, assisto a um novo espanto quando tão logo abrem a porta de suas casas e entram. Aí me veem dando meia-volta e seguindo sereno e sozinho para o meu apartamento. “ ¡Que raro, Ricardo! ¡Que raro eres vos! ”, ouço à distância. Tenho vontade de responder gritando: “Não sou estranho. Só sou paulistano. Cena 6: A criminalidade existe sim, mas o que prepondera é a sensação de segurança. Gostaria que ficasse claro que não estou dizendo que a criminalidade e a violência em Buenos Aires estejam em patamares próximos de zero. Os roubos, os assaltos e as agressões existem sim e, infelizmente, são cada vez mais comuns. Quem mais reclama são os portenhos, que dizem passar por uma grave crise de segurança pública. Não podemos nos esquecer que estamos em uma cidade grande da América do Sul e todo cuidado é pouco. Mesmo assim, a sensação de tranquilidade que o brasileiro tem ao perambular pelas ruas da capital argentina é muito, muito superior àquela que ele teria em seu país natal. Se essa pessoa for paulistana ou carioca, certamente terá a impressão de estar caminhando pelas alamedas de um país europeu. Prova disso é o que aconteceu comigo na semana passada. Veja que episódio mais surreal que ilustra bem o que quero dizer com o termo “há criminalidade em CABA, mas ainda assim a sensação de segurança prepondera”. Saí do curso de espanhol que faço três vezes por semana no centro da cidade e peguei o metrô com alguns colegas brasileiros. De pé, ficamos conversando de maneira descontraída no vagão durante o trajeto da linha D. Em determinado momento da viagem, senti alguém mexendo no meu casaco e na minha calça. Achei estranho. Juro que torci para que fosse uma mulher bonita se aconchegando para o meu lado. Ao olhar para o lado, vi um rapaz de jaqueta preta, que se afastou rapidamente depois da minha encarada nada amistosa. Ainda pensei: “Que indelicado! O cara passando a mão em mim na maior safadeza!”. Continuei batendo papo com meus colegas numa boa como se nada de estranho tivesse ocorrido. Pouco a pouco, todos foram descendo, até que fiquei sozinho no trem. Como vou até a estação final da linha, em Congreso de Tucuman , sempre sou o último da turma de brasileiros a descer. Na penúltima estação, por acaso, ouvi um argentino ao meu lado comentar com a amiga para ela ter cuidado. Um boludo de mierda com jaqueta preta tinha tentado roubá-lo havia alguns minutos. Só nesse momento, minha ficha caiu. O cara não estava passando a mão em mim com intenções lascivas. Ele estava era tentando me roubar! Confesso que fiquei chocado com tal constatação. Foi a primeira vez em oito meses em Buenos Aires que sofri uma tentativa de roubo, algo até então impensável para mim. Contudo, o mais curioso ainda estava por vir. No dia seguinte, conversei com a Jéssica, minha amiga catarinense que estava naquele vagão e foi a primeira da classe a descer do trem. Falei para ela o que tinha descoberto – a tentativa de roubo que havia sofrido do cara de jaqueta preta. Para minha surpresa, Jéssica soltou: “Sei quem é. Ele mexeu na minha bolsa e no meu casaco também”. Com o instinto de proteção aflorado de irmão (muito) mais velho (ou talvez de tio zeloso), devolvi de bate-pronto: “Como assim, ele mexeu nas suas coisas e você não falou nada para mim, que estava ao seu lado?!” A resposta dela foi ainda mais desconcertante e hilária: “Não pensei que fosse um assalto. Achei que ele estivesse apertado no metrô e estava se ajeitando para o meu lado”. Tenho certeza de que esse episódio representa maravilhosamente bem o que quero dizer com SENSAÇÃO DE SEGURANÇA. Um sujeito no metrô mexe nas calças, nos casacos e nas mochilas dos passageiros e a maioria das pessoas (pelo menos entre os brasileiros) no trem não pensa que se trata de um roubo. É ou não é incrível, hein?! Para ninguém falar que eu esteja mentindo ou inventando história (não por acaso, estamos no Bonas Histórias , né?), tenho Jéssica como testemunha para corroborar com a minha versão dos fatos. Algo parecido (ou seria totalmente diferente?! – agora não sei) ocorreu quando fui assistir à peça "Made in Lanús" , na Avenida Corrientes, numa sexta-feira à noite. Bem antes da sessão de teatro começar, fui caminhar pela Calle Lavalle, na parte exclusiva para pedestres, a procura de um café. Quando ia entrar em um estabelecimento com uma carinha boa, vi um homem correndo pela rua com uma bolsa pequena do tipo pochete em mãos. Juro que não pensei na possibilidade de assalto. A primeira coisa que imaginei foi: “ele está mesmo atrasado!”. Quem cogitou que fosse ladrão foi um grupo de brasileiros (provavelmente turistas) que, vendo a correria, gritou: “Pega, pega! Pega ladrão!!!”. No mesmo instante, uma dupla de policiais, que vinha no sentido contrário, intercedeu. Como o rapaz suspeito já estava bem longe (ele estava mesmo com muita pressa e sumiu das nossas vistas!), ouvi os policiais perguntando para os meus conterrâneos se eles tinham sido assaltados. Os brazucas falaram que não, que só gritaram porque um homem correndo no meio da rua com algo em mãos é muito suspeito. Quase sempre, garantiram, é alguém fugindo depois de ter praticado um assalto. A dupla de policiais riu da suposição dos turistas. Juro que não sei se presenciei a fuga de um assalto na Calle Lavalle naquele fim de tarde de sexta-feira. Até pode ter sido mesmo um roubo. Contudo, a reação inicial de quem mora aqui nunca é de achar que estamos diante de um crime. É algo totalmente distinto ao que se passava comigo quando vivia na cidade de São Paulo. Lá, a primeira (segunda, terceira, quarta e quinta...) opção que brotava na minha cabeça nessas situações era: “é roubo ou golpe”. Se você não conhece Buenos Aires a fundo (ou só receba as notícias banhadas de ideologias políticas mais extremistas de ambos os lados nas redes sociais) talvez não esteja acreditando no que estou relatando. Mas juro que é verdade verdadeira (termo que usava na minha infância e que me parece apropriado para essa realidade distópica). Quem pode comprovar o que estou dizendo são meus familiares e amigos que vem sempre me visitar aqui. Invariavelmente, eles ficam surpresos com a liberdade de poder sair à noite e de madrugada e de zanzar por ruas e parques com telefones celulares em mãos. O único que fez uma crônica sobre a experiência turística na capital argentina foi Paulo (vulgo Pablito, o Caníbal), em “CABA que não ACABA” . Entretanto, meu amigo desprezou totalmente a questão da segurança pública em seu texto. Talvez, ele estivesse mais preocupado com os encantos gastronômicos e etílicos da cidade. Fazer o quê?! Repare que não estou descrevendo a rotina em uma cidade canadense, suíça, japonesa, australiana ou norueguesa. Estamos falando da Argentina, papá ! Um país que vive em eterna crise econômica e com uma pobreza que se multiplica anualmente, mamá . Mesmo assim, suas ruas não são lugares tão perigosos. Quando reflito sobre isso, sempre me pergunto: como deixamos as coisas chegarem aonde estão no Brasil, hein? A explicação que temos que fazer não é como os portenhos conseguiram esse nível de segurança e sim como paulistanos e cariocas aceitam viver com o padrão brasileiro de criminalidade e de insegurança pública. Juro que não sei! No próximo capítulo de “Tempos Portenhos” , Episódio 2 – Vida ao Ar Livre , abordarei a paixão dos argentinos pelas atividades fora de casa. Não perca as novas reflexões sobre como é morar em Buenos Aires. ----------- Nona série narrativa da coluna Contos & Crônicas , “Tempos Portenhos” é a coletânea de textos pessoais de um brasileiro que escolheu viver em Buenos Aires. Neste conjunto de memórias, Ricardo Bonacorci revela os detalhes da capital argentina, o dia a dia dos moradores locais e estrangeiros, a cultura da cidade, a história do país e os hábitos portenhos. Cada narrativa abordará um tema específico: o passeio habitual pelos parques; o amor incondicional aos cachorros; a paixão pela carne; a devoção pelo futebol; as particularidades da língua espanhola dos habitantes das margens do Rio da Prata; a segurança e a qualidade de vida na capital argentina se comparadas às das cidades brasileiras; a contradição da crise econômica e da metrópole fervilhante; o custo de vida mais baixo etc. O objetivo aqui é fazer, de 2024 a 2026, um raio-X da alma portenha. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Filmes: Amores Materialistas – A segunda comédia dramática de Celine Song
Em cartaz nos cinemas desde o final de julho, o mais recente longa-metragem da diretora sul-coreana é protagonizado por Dakota Johnson e apresenta o drama de uma jovem dividida entre a paixão genuína por um pobretão carismático e a estabilidade financeira de um milionário frio e calculista. No mundo capitalista, é difícil não envolver o lado financeiro na maior parte dos assuntos cotidianos. Por mais que teimamos em ignorá-lo em vários momentos da vida, o dinheiro está lá para mostrar sua força e para destruir qualquer visão romântica da existência humana. A meu ver, o problema não é o seu alcance e a sua influência, aspectos perfeitamente aceitáveis considerando a realidade nua e crua. E sim a sua onipresença, o que começa a causar sérios incômodos para as almas menos mercantis (como a minha). Quando a grana está na base (e é a razão principal) de todas as decisões sociais, algo na rotina das pessoas me parece muuuito desregulado. Por exemplo, há quem escolha a profissão pensando única e exclusivamente nos rendimentos futuros. Uma amiga aqui da capital da Argentina está cursando Medicina na UBA – Universidade de Buenos Aires. Segundo me confidenciou no ano passado, seu plano é voltar para o Brasil logo após a formatura. Até aí nada demais, né? O que me surpreendeu pra valer foi o motivo dos seus esforços para migrar para o exterior e iniciar uma nova carreira quando beirava os quarenta anos. Seu maior objetivo é ganhar um belíssimo salário e ascender socialmente. Como médica, poderá adquirir uma casona, carro do ano, roupas caras e acesso frequente aos melhores salões de beleza. Essa é a sua principal (e restrita) motivação. Quando a questionei se gostava da carreira selecionada, uma das mais bonitas e altruístas segundo minha concepção de mundo, e se estava gostando da experiência de viver na metrópole portenha, um encanto para os brasileiros (conforme relato na nova temporada da coluna Contos & Crônicas ), ela respondeu com um desconcertante e sincero “eu odeio os dois!”. Juro que fiquei boquiaberto com o que ouvi. Ela tinha entrado no curso de medicina apenas por finalidades financeiras. E estava encarando as diferenças culturais do novo país como um fardo amargo. Afinal, era mais barato viver e estudar na Argentina do que no Brasil. Confesso que para mim, que larguei os rendimentos fixos e generosos do universo corporativo para viver com a remuneração eventual e minguada do mundinho da literatura, a escolha da minha amiga em Buenos Aires me pareceu sem sentido. Onde está a diversão? Onde está a paixão por fazer aquilo que realmente ama? Onde está a beleza e a solidariedade do médico? Onde está a alegria de crescer culturalmente e de aprender um novo idioma? Onde está a emoção por se reinventar profissionalmente na metade da vida? Por mais indignado que tenha ficado com sua confissão, será mesmo que minha amiga (uma das pessoas mais legais que conheci na capital argentina, diga-se de passagem) está errada em querer melhorar de vida, mesmo que sacrifique a felicidade profissional e a dinâmica familiar? Ou será que eu que estou equivocado em curtir os perrengues diários pela falta crônica de dinheiro só para trabalhar naquilo que desejo, hein? Talvez não haja respostas corretas para esses questionamentos, o que só indica o quão difícil é o caminho que devemos seguir nessa bifurcação existencialista. Quando envolvemos as idiossincrasias das relações amorosas nesse panorama tão complexo, a situação se torna ainda mais complicada. Atire a primeira pedra quem não se viu mergulhado em confusões sentimentais por causa da falta (ou excesso) de dinheiro?! Falo com propriedade e sem receio sobre isso. Recentemente, me apaixonei por una hermosa y chévere venezolana (beso, Aninha) , mas não pude continuar saindo com ela. Foi falta de amor, afinidade ou química? Nananinanão. O que pesou consideravelmente foi a minha pobreza. Com o câmbio cada vez mais desfavorável na Argentina para quem recebe em reais, não tinha plata sequer para pegar ônibus para vê-la, o que dirá para convidá-la para sair. Com o meu sumiço repentino, aposto que ela pensou no velho clichê feminino: “ele é um safado, que me ignorou e já está com outra nessa altura do campeonato!”. Sabe de nada, inocente. Estou trazendo, hoje, essa reflexão para o Bonas histórias porque assisti, no final de semana retrasado, a um filme que discute com acidez desconcertante a dicotomia entre passionalidade e racionalidade nos assuntos do coração. O longa-metragem em questão é “Amores Materialistas” ( Materialists : 2025), a mais recente comédia dramática de Celine Song . Esta produção foi protagonizada por Dakota Johnson , de “Suspíria – A Dança do Medo” (Suspiria: 2018) e “A Filha Perdida” (The Lost Daughter: 2021), Pedro Pascal , de “O Peso do Talento” (The Unbearable Weight Of Massive Talent: 2022) e “Operação Fronteira” (Triple Frontier: 2020), e Chris Evans , de “Capitão América – Guerra Civil” (Captain America – Civil War: 2016) e “Um Laço de Amor” (Gifted: 2017). Em “Amores Materialistas”, acompanhamos o drama de uma moça que começa a namorar um ricaço. O cara é o tipo perfeito: bonito, alto, inteligente, simpático, carinhoso e generoso. Além do mais, tem bom gosto e comportamento impecável em todas as situações. Para completar o pacote idílico para onze entre dez mulheres contemporâneas, ele é (como já disse) podre de rico. Impossível a protagonista do filme não levantar as mãos para o céu e agradecer a sorte grande, né? Contudo, o seu coração teima em balançar por um pobretão que vive sem um tostão no bolso. O rapaz que não tem onde cair morto a entende como ninguém e a complementa naturalmente, algo que o milionário não consegue fazer por mais que se esforce. O que fazer nessa situação delicada, senhoras e senhores? Ficar com o pobretão por amor e abraçar a pobreza para sempre? Ou ficar com o ricaço por interesse e se esbaldar no conforto e no bem-estar proporcionados pelo luxo? É esse o conflito da personagem principal deste título hollywoodiano. É bom avisar aos leitores da coluna Cinema que NÃO achei “Amores Materialistas” um grande filme. Por mais que sua temática seja pertinente em um mundo cada vez mais ganancioso e mercantil, convenhamos que esse assunto não é nem um pouco original. Essa questão é debatida nas telonas desde “A Dama e o Vagabundo” (Lady and the Tramp: 1955). Também é um clichê das comédias românticas. Pode perceber: as mocinhas e os mocinhos desse gênero cinematográfico estão sempre envolvidos com escolhas afetivas delicadas que vire e mexe pendem para esses dois lados: paixão temerária ou razão sem tempero. Para piorar o cenário do ponto de vista da crítica cinematográfica, há muitos outros títulos recentes mais interessantes e mais originais enfocando esse mesmíssimo problema. De cabeça, posso citar quase todos os filmes de Woody Allen dos últimos vinte anos, como “Golpe de Sorte em Paris” (Coup de chance: 2023), “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018), “Vicky Cristina Barcelona” (2008) e “Ponto Final – Match Point” (Match Point: 2005). Talvez a exceção (que confirme a regra) tenha sido “Homem Irracional” (Irrational Man: 2015), que fugiu desse receituário narrativo. Olhando para o trabalho de outros diretores, este enredo é similar ao de filmaços como “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023), “La La Land - Cantando Estações” (La La Land: 2016) e “Encontro Marcado” (5 to 7: 2014) e de filminhos como “Mensagem em Uma Garrafa” (Mensaje en Una Botella: 2025), “Amor.com” (2016) e “Sem Filhos” (Sin Hijos: 2015). Então, por que você está analisando “Amores Materialistas” no Bonas Histórias , Ricardinho do meu coração?! Não é você que sempre diz que só traz para o debate em seu blog obras artístico-culturais que mexeram positivamente contigo e que merecem nossos aplausos! O que aconteceu? Por que a contradição?! Explique-se, por favor. Que belo comentário, sagaz e sempre participativo(a) leitor(a) da coluna Cinema . Também não sei explicar a contradição que vossa pessoa detectou. Talvez haja mais coisas entre o meu coração maltrapido e as palavras que teimam em sair dos meus textos que eu simplesmente não compreendo. De qualquer maneira, tenho que reconhecer que essa comédia dramática (para mim, o novo longa-metragem de Song é mais um drama cômico ou uma tragicomédia do que uma comédia romântica , tá?) apresenta aspectos positivos que valem nossa reflexão. Não é uma produção digna de importantes premiações da sétima arte, mas também não é de se jogar fora. Prova disso é que ela foi aplaudida (timidamente, mas foi) na sessão em que estive presente no Multiplex Belgrano no sábado retrasado. Sim, senhoras e senhores, os argentinos aplaudem o filme quando gostam. Admito que ainda não me acostumei com tal peculiaridade local! Orçado em US$ 20 milhões, “Amores Materialistas” é a primeira produção de Celine Song após o sucesso de crítica e público de “Vidas Passadas” (Past Lives: 2023), esse sim um filmaço e um dos destaques do ano retrasado. Talvez, seu novo longa-metragem não seja tão ruim quanto pintei inicialmente neste post. O correto seria descrevê-lo como inferior em qualidade e originalidade ao antecessor. Daí minha decepção. Mesmo assim, saí da sala de cinema com a sensação de ter presenciado excelentes cenas. Por exemplo, é hilária a primeira visita da personagem de Dakota Johnson à cobertura deslumbrante da personagem de Pedro Pascal. Na pegação do casal e na iminência do sexo, a moça permanece mais atenta ao luxo da residência do (possível/futuro) namorado do que aos gestos e predicados do parceiro. Incrível como a cineasta sul-coreana conseguiu mostrar o fascínio da jovem pelo dinheiro de forma não verbal. Outras passagens memoráveis são: o enfoque do casal nos tempos das cavernas, que abre e fecha a história do triângulo amoroso contemporâneo; o encontro/reencontro simultâneo dos três protagonistas, o que cria o conflito que permanecerá durante todo o filme; e os momentos em que a personagem de Chris Evans sofre ao dividir o apartamento com colegas um tanto caóticos. “Amores Materialistas” também é uma produção sólida e impactante. Notamos isso pela riqueza de seu subtexto. No caso, a eclosão emocional da protagonista do longa-metragem não ocorre apenas no lado pessoal/afetivo. Mostrando como todos os aspectos da vida estão interligados, a transformação de uma mulher fria e calculista para uma mulher passional e insensata também trás consequências para seu trabalho. É legal notar esse caminhar simultâneo nas duas linhas da existência da personagem de Dakota Johnson. É óbvio que não estamos falando aqui de uma comédia romântica convencional. Se esse for seu estilo de filme, talvez se incomode bastante com o excesso de diálogos, o caminhar narrativo mais lento do que o habitual e a aridez sentimental das personagens. Não por acaso, o título desta produção é “Amores Materialistas”, né? Por outro lado, se a sua pegada for mais as discussões existencialistas ácidas e sinceras e os enredos densos, há grande chance de curtir o conteúdo do segundo longa-metragem hollywoodiano de Celine Song, cineasta sul-coreana de 36 anos que se naturalizou canadense e que vive há uma década em Nova York. Como aconteceu em sua estreia, “Vidas Passadas”, Song foi a responsável pela produção do roteiro e pela direção de “Amores Materialistas”. Ainda que esteja em estágio inicial da carreira audiovisual nos Estados Unidos (é uma dramaturga requisitada e bastante famosa em Nova York) e seja muito jovem (ter menos de 40 anos no universo da direção cinematográfica é como um jogador de futebol de classe mundial ter menos de 20 anos), Celine Song já adquiriu enorme reputação no cinema norte-americano . Por isso, ela é uma das cineastas da nova geração que merece nosso olhar atento. Antes de falar mais sobre “Amores Materialistas”, deixe-me apresentar seu enredo de um jeito mais completo. Ou você achou que eu seria breve ao descrever essa história, hein? Nada disso! Vamos agora aos pormenores do conflito amoroso-financeiro deste filme. Lucy Mason (interpretada por Dakota Johnson) é uma bem-sucedida casamenteira da Adore, empresa de encontros de Nova York voltada para o público premium. Sua função é encontrar o parceiro ideal para homens e mulheres endinheirados que contratam os serviços da companhia. E nesse trabalho, a moça é excelente. Com uma visão pragmática e estritamente comercial dos relacionamentos amorosos, Lucy acha o candidato certo para (quase) todos os clientes. Às vezes, pode demorar um pouco, é verdade, mas ela sempre consegue descobrir o parceiro desejado no banco de dados da Adore. A única frustração profissional da protagonista de “Amores Materialistas” é os fracassos sucessivos de Sophie ( Zoë Winters ), uma de suas mais queridas clientes. Aos 39 anos, Sophie não tem exigências absurdas como os demais contratantes da empresa casamenteira. Ela só quer alguém legal para namorar. A tarefa não parece tão difícil para Lucy, já que a cliente tem aparência normal, possui ótimo papo, é inteligente e apresenta trajetórias profissional e financeira consolidadas. Contudo, todos os dates de Sophie acabam mal, o que mexe com a autoestima dela e da sua casamenteira particular. Enquanto surfa nos êxitos da carreira e tenta resolver o único caso complicado de seu portfólio, Lucy vai ao casamento de uma de suas clientes. Na festa, ela chama a atenção de Harry Castillo (Pedro Pascal), irmão do noivo e milionário das finanças. Alguns anos mais velho do que ela, o empresário fica encantado com a maneira profissional e eficiente como a casamenteira aborda as amigas da noiva, que anseiam por contratar Lucy. Entretanto, o que ele mais gosta na jovem é de sua visão de mundo sem passionalidade e totalmente voltada para as relações monetárias. Segundo o que Harry escutou a moça falar para as clientes em potencial, o casamento é uma mera transação comercial que irá impactar todas as demais searas da vida dos homens e das mulheres. Daí, a importância de fazer a escolha segundo a razão e não com base na emoção. Assim, o milionário aborda Lucy. De início, a moça pensa que ele quer contratar os serviços de sua empresa. Porém, rapidamente percebe tratar-se de um flerte. A questão é que ela não namora e não deseja encontrar ninguém. Seu coração é um deserto gélido. Depois que terminou um antigo namoro, ela nunca mais quis sair com ninguém e parece feliz com a solteirice. A questão que muda tudo é que Harry é o que o pessoal do ramo casamenteiro chama de unicórnio: homem bonito, alto, bem-sucedido, podre de rico, bem-educado, culto, de bom gosto, simpático, cortês e generoso. O que mais uma mulher (com o perfil retratado no filme) pode querer na vida, né? Curiosamente, na mesma festa de casamento que conhece Harry, Lucy reencontra John Finch (Chris Evans), seu antigo namorado. Ator de teatro, o rapaz está trabalhando de garçom para conseguir pagar as contas (e saldar as dívidas). Os dois namoraram por muitos anos, mas romperam por causa das brigas envolvendo a falta de dinheiro. Como o casal não tinha onde cair morto, as discussões não paravam e selaram o rompimento. Ainda assim, percebe-se que a química entre eles se manteve. Tanto Lucy quanto John ficam felizes de se reencontrar e garantem sentir saudades do antigo companheiro. A partir daí, surge o conflito do filme: com quem a protagonista deve ficar? De um lado, ela tem um homem com estabilidade financeira e maturidade, mas por quem não tem uma dose de sentimento amoroso. Do outro, um rapaz imaturo e falido, por quem seu coração dispara e que a entende sem esforço. E aí, Lucy deve escolher qual dos pretendentes, pessoal?! De um jeito interessante e sutil, o filme mostra que, enquanto vivencia as dores do coração, a personagem central do longa-metragem passa por uma ampla transformação na carreira. E, nesse sentido, o relacionamento com Sophie, sua cliente mais frustrada, é emblemático para Lucy. A partir daí, tanto a vida pessoal quanto profissional da moça não serão mais as mesmas. “Amores Materialistas” possui aproximadamente duas horas de duração. Para ser mais exato em minhas palavras, são 117 minutos. Pela perspectiva da narrativa, o longa-metragem está dividido em quatro partes: (1) apresentação da protagonista, de seu trabalho e da aridez de sua vida sentimental (concepção de mundo da personagem central e contextualização da história); (2) encontro de Lucy com Harry e reencontro da moça com John no mesmo evento, flerte deles pelo coração dela e tomada de decisão de quem Lucy quer/deve namorar; (3) conflito e angústia da moça pela escolha feita, que se prova equivocada; (4) e desfecho com a alternativa para pôr fim definitivo ao impasse amoroso. Note que, de propósito, fui bastante genérico nas minhas últimas frases. No Bonas Histórias , evitamos dar os spoilers das obras analisadas, seja na coluna Cinema , seja na coluna Livros – Crítica Literária . O primeiro mérito de Celine Song foi construir um roteiro redondo, redondinho. Apesar de sua história ser previsível e sem originalidade nenhuma (defeitos inegáveis que não podem ser escondidos embaixo do tapete), a trama para em pé e tem boas doses de profundidade. Notamos isso ao final da sessão de cinema, quando voltamos para casa (ou estamos a caminho da Pizzaria Burgio ) refletindo sobre tudo o que presenciamos em “Amores Materialistas”. Como já adiantei, a vida pessoal e a vida profissional da protagonista estão intimamente interligadas, algo que pode passar batido pelo público menos atendo. A interpretação de Lucy para os acontecimentos históricos (cena do casal nos tempos da caverna) também se alterna com o seu amadurecimento – é um no início do longa-metragem e é outro ao final. Ainda tratando dos acertos do roteiro, vale elogiar as escolhas da cineasta do que encenar e do que sumarizar, decisões nem sempre fáceis. Prova disso são as várias cenas marcantes de “Amores Materialistas”. Já contei da primeira visita de Lucy à casa de Harry, né? Ao invés de curtir a pegação com o milionário, a moça queria mesmo era observar a decoração e a mobília da cobertura luxuosa. Hilário! Mas tem outras várias passagens muito boas e com sutilezas encantadoras. Uma delas é o momento após o sexo da protagonista com o ricaço, quando Lucy quer saber quanto vale aquele apartamento. Ótimo! E o que dizer da casamenteira convencendo a cliente a se casar, John se equilibrando em seu apartamento inabitável, as entrevistas de definição do perfil dos mimados contratantes da Adore, hein? São trechos divertidíssimos. Talvez a maior prova da qualidade desse filme seja o seu ritmo narrativo, improvavelmente veloz para sua característica narrativa. Falo isso porque “Amores Materialistas” é uma produção calcada essencialmente nos diálogos. Ou seja, temos poucas ações e muito blábláblá, o que o torna pouco convidativo para o público mais ansioso. Mesmo assim, a sensação é de que o longa-metragem não é arrastado nem cansativo. Pelo contrário: ele avança rapidamente e de maneira gostosa, considerando sua arquitetura. As duas horas de duração passam voando. Se isso não é sinal de qualidade narrativa, não sei mais o que é um belo roteiro. Não posso me esquecer de falar do elenco. As atuações neste filme estão primorosas. Curiosamente, o trio de protagonistas é formado por atores e atrizes pouco habituados a receber elogios da crítica. Afinal, quase sempre estão envolvidos em longas-metragens mais comerciais e menos qualificados, digamos assim. Dakota Johnson é provavelmente o melhor exemplo disso. Ela demorou para engrenar em Hollywood. Só recentemente, começou a receber elogios mais contundentes. Por mais que tenha ido bem em “Suspíria – A Dança do Medo” e “A Filha Perdida”, é inegável que Lucy Mason se transforme em seu melhor trabalho cinematográfico até aqui – um papel que pode mudar a maneira como Hollywood a enxerga. Enfim, a bela e esforçada Johnson floresceu como atriz, senhoras e senhores! Outro que está acostumado a fazer papéis bobos e pequenos no cinema é Pedro Pascal. No fim das contas, o chileno naturalizado norte-americana é um rosto mais comum nos seriados de televisão, onde brilha com certa regularidade. Porém, nas telonas, é difícil apontar algo importante que tenha feito. Curiosamente, Pascal está cada vez mais parecido no visual com Tom Selleck. E é bom ver Chris Evans saindo das produções de super-heróis, que exigem mais do físico do que das habilidades interpretativas. Por isso, fiquei positivamente surpreendido com o talento do trio Johnson-Pascal-Evans. Se num primeiro momento a seleção do elenco principal de “Amores Materialistas” me pareceu temerária, no fim se provou acertadíssima. Repare na fotografia, na iluminação e nos enquadramentos do filme como elementos para potencializar a dramaticidade da história e para elevar a experiência do espectador na sala de cinema. As características da filmagem acompanham, de certa maneira, o turbilhão emocional de Lucy. Quando a personagem está tranquila e trabalhando feliz na agência de encontros, no início do longa-metragem, as cenas têm muita luz, os takes são abertos e os ambientes quase sempre são externos e/ou muito arejados. Quando a protagonista de “Amores Materialistas” conhece Harry e reencontra John, surgem lugares escuros, ambientes fechados e claustrofóbicos, tomadas de câmeras em zoom in e as personagens ficam muitas vezes na penumbra. À medida que a moça vai descobrindo o que deseja, a claridade, as cores, os cenários externos, o clima arejado e os takes abertos voltam aos poucos. Quem curte cinema de qualidade, certamente adorará acompanhar as fases emocionais da personagem principal através da estética visual desta produção. Por outro lado, há vários problemas em “Amores Materialistas”, que me sinto na obrigação de relatar aos leitores da coluna Cinema . O que mais me incomodou foi a forte sensação de déjà vu. Sabe quando você assiste a um filme e tem a impressão de já ter visto algo muito parecido antes? Pois foi exatamente isso o que senti nessa sessão. Lucy Mason é uma mescla de Andy Sachs, de “O Diabo Veste Prada” (The Devil Wears Prada: 2006), e Anastasia Steele, de “Cinquenta Tons de Cinza” (Fifty Shades of Grey: 2015). E olha que estou falando das características físicas, psicológicas e emocionais das personagens e não dos visuais de suas atrizes na telona – até porque Dakota Johnson também fez a protagonista da versão cinematográfica do romance erótico de E. L. James. Se quisermos temperar um pouco mais a composição de Lucy e trazer novas semelhanças ao enredo, aí podemos dizer que ela é a versão feminina e contemporânea de Chris Wilton, protagonista de “Ponto Final – Match Point” . Vamos combinar que por mais bem desenvolvido que seja o roteiro e por mais bem-feita que seja a produção cinematográfica, nenhum bom filme se salva quando a plateia sente no ar o cheirinho da pouca originalidade e da falta de criatividade. São justamente essas as grandes pedras no sapato de Celine Song nesta sua segunda comédia dramática. Infelizmente, “Amores Materialistas” bebe de vários clichês do cinema e de seu gênero narrativo. Vamos combinar que a diretora e roteirista sul-coreana tem talento para entregar algo bem mais inovador, né? Outra questão problemática foram os diálogos inverossímeis. Se por um lado nota-se que foram escritas com esmero (são realmente muito boas, profundas e, em vários momentos, engraçadas), por outro as conversas não são tão reais assim. Dificilmente as pessoas de carne e osso falariam o que as personagens do longa-metragem dizem na tela. Elas até podem pensar, mas não externariam com tanta naturalidade e naquelas situações específicas, como o retratado por Song. Será que um casal formado por interesses financeiros passaria o tempo inteiro discutindo esse aspecto de sua união? E o casal que se ama de verdade discutiria mesmo a pobreza conjunta quando o coração batesse forte? Sinceramente, tenho lá minhas dúvidas. Reafirmo: a qualidade dos diálogos de “Amores Materialistas” é um dos pontos altos desta produção. Entretanto, pela perspectiva da verossimilhança narrativa, eles não param em pé ou causam alguma estranheza no contexto em que foram inseridos. Pelo menos em boa parte das cenas, temos tal choque entre o que a ficção aceita e o que a realidade se impõe. Em outras palavras, o filme é, além de pouco criativo, pouquíssimo crível. Ai, ai, ai. Aí fica difícil defendê-lo com unhas e dentes. Note que não são muitos equívocos, mas são sensíveis e afetam profundamente a experiência do espectador na sala de cinema. Também achei algumas passagens um tanto bobocas. Por exemplo, o motivo que precipitou os questionamentos de Lucy quanto ao namorado me pareceu coisa de filme B ou de comédia pastelão. Será mesmo que a personagem masculina com tal perfil intelectual faria realmente o tipo de intervenção cirúrgica retratado no longa-metragem? Não sei. Acho sinceramente que não. Isso soa como algo que discutimos em tom de brincadeira entre amigos (abraço, Paulinho!), não algo feito de fato na vida real. Além disso, será mesmo que os melhores e mais caros esteticistas deixariam cicatrizes no corpo do paciente multimilionário? Definitivamente, não! Outro ponto pra lá de discutível é o desfecho do filme. O problema não é ele ser previsível e condescendente com a plateia romântica, algo que até aceito de bom grado – afinal, estamos no cinema comercial. O problemão é montar o desenlace com estrutura narrativa que não combina com o seu conteúdo. É como ir pelo caminho da paixão usando roupas da racionalidade. Ou tomar a estrada da razão vestindo o uniforme da passionalidade. Aí não dá, né? Não orna. Um roteiro tão bem-feito merecia um cuidado maior quanto a composição de seu fechamento. Aí valeria mais o uso de recursos não verbais do que a verbalização dos sentimentos das personagens nos diálogos com tom teatral. Por falar em teatro, o que foi uma surpresa positiva em “Vidas Passadas” se transformou justamente em uma debilidade de “Amores Materialistas”. Calma, já explico o que quero dizer! Senti que Celine Song foi excessivamente dramaturga nessa produção e menos cineasta. A impressão é que poderia ter mostrado muito mais questões do enredo e dos universos sentimental e emocional de suas personagens pelas imagens e não tanto por suas falas. Se a quebra da lógica artística funcionou em “Vidas Passadas”, dessa vez não teve o efeito esperado (ou perdeu o ar de surpresa e impacto). Portanto, fiquei com a impressão de que Song estivesse trabalhando em algo a ser encenado nos palcos teatrais e não nas telonas do cinema. Por fim, não poderia deixar de comentar que em pleno século XXI ainda estamos falando de algumas mulheres que pensam em casamento como maneira principal de ascensão social. Convenhamos que é uma questão que faz as feministas de plantão se revirarem na cadeira com toda a razão. Ainda mais porque Lucy Manson é uma executiva empoderada e bem-sucedida, que não precisaria de homem nenhum para ter uma vida confortável em Nova York. Só não exploro mais essa questão em minha análise do Bonas Histórias para não ser alvo de pedradas e gritaria entre os públicos conservador e progressista. Sei bem que há algumas temáticas que mexem com os instintos primitivos da galera, que não tem maturidade para discuti-los. Assista, a seguir, ao trailer de “Amores Materialistas” (Materialists: 2025): Po r tudo isso, confesso que gostei do novo filme de Celine Song, apesar da ligeira decepção ao final da sessão e da sensação de que a diretora e roteirista ainda continua vestindo mais a carapuça de dramaturga do que a de cineasta. “Amores Materialistas” até pode ser bom quando comparado aos demais títulos em cartaz nesse momento nas salas de cinema. Contudo, sabemos que, pela qualidade de Song, o resultado ficou aquém do potencial. Nesse caso, a excelência e a força narrativa de “Vidas Passadas” serviram como um peso excessivo de comparação. Queiramos ou não, “Amores Materialistas” ficou um ou dois degraus abaixo em qualidade do filme de estreia de Celine Song. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . 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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em novembro e dezembro de 2024
Confira os 63 principais títulos ficcionais e poéticos que chegaram às livrarias brasileiras no último bimestre do ano passado. O ano de 2025 está aí, senhoras e senhores. Com quase uma semana de vida, dá para garantirmos que ele nasceu forte e saudável. Inclusive, já está bombando nos quatro cantos do decadente planetinha azul. De tão radiante e agitado, nem parece um recém-nascido que pintou neste mundo no meio de um festão de Réveillon na chuvosa e tumultuada Puerto Madero. Pelo menos essa foi a minha perspectiva do seu nascimento. Minha e dos animados integrantes do núcleo-duro da Dança & Expressão , que sabiam o quão decepcionante poderia ser o festejo de 1º de janeiro em Mi Buenos Aires Querido. Eu avisei! Apesar dos alertas sobre a roubada que estávamos nos metendo, eles apostaram todas as fichas nessa ideia. Porém, para a coluna Mercado Editorial , o aviso que preciso fazer é outro. Em alto e bom som, comunico que o ano passado não foi totalmente concluído. Nananinanão!!! Como não apresentei os livros de ficção e poesia que chegaram às livrarias brasileiras no último bimestre de 2024 , a sensação é de que há algo faltando na estante da sala de casa (ou nas páginas do Bonas Histórias , este humilde blog de literatura, cultura, arte e entretenimento que apareceu na sua tela sem que você soubesse o motivo). Como não dá para iniciar o ano novo com dívidas morais com meus leitores (aos outros tipos de dívidas, já estou muito acostumado), vim aqui justamente para zerar minhas pendências profissionais. Portanto, hoje é dia do listão de novas publicações – e de fechar o finado calendário. Senta que lá vem a história das principais publicações do mercado editorial do Brasil em novembro e dezembro do ano passado. Para começo de conversa, o último bimestre teve um reduzido número de novos livros . Quem está acostumado com a lista de lançamentos da coluna Mercado Editorial com pelo menos uma centena de títulos, já vou logo avisando que a parte final de 2024 não foi assim tão favorável – MC Binn diria que não “tá tranquilo”, não “tá favorável”. Só tivemos 63 publicações que mereceram o olhar generoso (e a citação efusiva) desse escriba que vos interpela recorrentemente pelas páginas bonas-historianas. Por que a enorme redução de lançamentos agora se foram 115 livros novos em janeiro e fevereiro , 125 em março e abril , 112 em maio e junho , 145 em julho e agosto e 140 em setembro e outubro ?! Antes que alguém comece a arrancar os cabelos, alerto que essa queda é normal no mercado editorial nacional . A explicação tem um nome feio: sazonalidade. O finalzinho do ano (estou falando em específico de novembro e dezembro) tem tradicionalmente poucas novidades. Afinal, as editoras diminuem o ritmo de trabalho (muitas entram em férias no início de dezembro ou reduzem consideravelmente o ritmo até o Natal) e as livrarias acabam focadas quase que exclusivamente nas vendas (e não perdem tempo cadastrando novas obras nem recebendo novidades nos centros de distribuição). Assim, sinto muito informar aos leitores do Bonas Histórias que não tivemos em novembro e dezembro uma quantidade elevada de publicações nas áreas da Ficção e da Poesia . Mesmo assim, consegui identificar entre as seis dezenas de lançamentos três títulos que tenho certeza de que vão agradar em cheio ao público mais exigente. O trio de obras que destaco nos parágrafos a seguir são de autores que dominam o idioma de Camões e José Saramago – um moçambicano, um angolano e um brasileiro. Quem disse que a literatura contemporânea em língua portuguesa não está fazendo bonito, hein?! Como não sei fazer suspense, já vou logo apresentando as novidades que mais apreciei no finalzinho de 2024. Trata-se de “A Cegueira do Rio” ( Companhia das Letras ), o mais recente romance de Mia Couto , “Mestre dos Batuques” ( Tusquets ), o novo trabalho literário de José Eduardo Agualusa , e “Pássaro de Folhas” ( EV Publicações ), a novela de estreia de Celso Bicudo. Além de terem sido produzidos no mesmo idioma (olha o português aí, gente!), esse trio de títulos ficcionais têm outras coincidências. São narrativas históricas , seus enredos se passam em boa parte no continente africano , usam e abusam dos elementos fantásticos e apresentam belíssimas prosas poéticas . Impossível não ficar encantado com uma combinação deste tipo! “A Cegueira do Rio” é o 16º romance de Mia Couto, autor moçambicano que venceu o Prêmio Camões em 2013. A literatura de Couto foi, inclusive, analisada aqui no blog no Desafio Literário de 2015. Meu Deus, já vai fazer dez anos que estudei os principais títulos dele!!! Além disso, comentei em novembro de 2023, na coluna Livros – Crítica Literária , “O Mapeador de Ausências” (Companhia das Letras), até então a última investida de Mia Couto nas narrativas longas. Falo isso porque não apenas conheço bastante o trabalho ficcional do moçambicano como ele é um dos meus escritores favoritos. Daí dá para entender minha empolgação com o seu novo romance, né? É claro que comprei o livro e mergulhei nesta leitura! O mais interessante é que “A Cegueira do Rio” traz várias marcas estilísticas que consagraram a literatura de Mia Couto : trama histórica (se passa durante a Primeira Guerra Mundial), elementos fantásticos (um charme quando inserido no ambiente da África negra), intertextualidade literária (por vezes, história dentro da história), pesada crítica ao Colonialismo europeu (que foi ainda mais maléfica no outro lado do Atlântico), forte colorido da cultura africana (adoro, por exemplo, o português de Moçambique e Angola) e retrato fiel da realidade moçambicana (quase sempre ácida e comovente). Qualquer semelhança com “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras), clássico da literatura em língua portuguesa que consagrou Couto, não é mera coincidência. A trama ficcional de “A Cegueira do Rio” foi construída a partir de um episódio real. Em 1914, Moçambique (então colônia portuguesa) fazia fronteira com a África Oriental, hoje Tanzânia (então colônia alemã). O rio Rovuma dividia o território das duas nações europeias em pleno continente africano. Contudo, um ataque germânico ao posto português de Madziwa matou dezenas de soldados moçambicanos, trazendo o conflito armado do Velho Continente para a África Subsaariana. Desse ponto em diante, assistimos ao drama do povo moçambicano, subjugado pela tirania lusitana e agredido inexplicavelmente pelos vizinhos comandados pelos alemães. O que posso dizer é que, mais uma vez, Mia Couto está brilhante. Por falar em brilhantismo, “Mestre dos Batuques” é provavelmente a publicação mais ambiciosa dos últimos dez anos de José Eduardo Agualusa , outro romancista lusófono que analisamos no Desafio Literário . Se Mia Couto já conquistou o Prêmio Camões, não tenho medo de dizer que nos próximos anos será a vez de Agualusa ganhar a maior honraria da literatura em língua portuguesa. Não por acaso, o principal escritor angolano da atualidade é franco favorito na premiação de 2025. Acredito que a elevada qualidade desse recente trabalho possa ser decisiva para tornar o autor de “Vendedor de Passados” (Tusquets) e “Teoria Geral do Esquecimento” (Tusquets) um camoniano. Publicado em outubro em Portugal e Angola e em novembro no Brasil, “Mestre dos Batuques” é o 15º romance de José Eduardo Agualusa . Assim como aconteceu com “A Cegueira do Rio” de Mia Couto, o novo romance do angolano está ancorado em episódios reais da história africana. A trama fictícia tem como contexto a Revolta do Bailundo, conflito ocorrido entre 1902 e 1904 que colocou colonizadores portugueses e rebeldes angolanos em lados opostos. Em plena guerra pela tentativa de independência e autonomia do Planalto Central (região atualmente conhecida como Angola, mas que no início do século XX se chamava Reino de Bailundo), Agualusa desenvolve uma história de amor interracial. Aí que entra em jogo a ficção. O tenente Jan Pinto, que luta ao lado dos portugueses, é um homem branco. Lucrécia Van-Dunem, cujo pai prosperou graças às fazendas de café no Brasil, é uma africana negra. Em uma época em que a união entre brancos e negros era malvista pela sociedade colonial de Angola (até porque o ambiente político estava literalmente em ebulição), Jan e Lucrécia se apaixonam e insistem em manter o relacionamento. Não é preciso dizer que essa postura dos protagonistas traz muitos e graves problemas tanto para eles quanto para aqueles que os cercam. Seguindo a linha tradicional da literatura de José Eduardo Agualusa , “Mestre dos Batuques” contém narrativa histórica, crítica social, dramas sentimentais e pitadas de elementos fantásticos. Posso assegurar que depois de alguns romances pouco inspiradores, Agualusa voltou a sua melhor forma. Não é exagero comparar seu novo romance a “Vendedor de Passados” e “Teoria Geral do Esquecimento”. Ainda assim, por mais que eu tenha adorado “Mestre dos Batuques”, confesso que meu livro favorito do angolano continua sendo “Vendedor de Passados” . Por fim, tenho a obrigação de citar um dos livros que mais me emocionou em 2024. Sim, é isso mesmo o que você leu. Não estou falando apenas de uma leitura impactante do último bimestre, mas do ano inteirinho. “Pássaro de Folhas” é o primeiro trabalho no campo da ficção literária de Celso Bicudo, carismático escritor paulista que conheci trabalhando pela EV Publicações . Suas obras anteriores ficaram nas estantes da autobiografia e da não ficção. Agora, enfim, ele se arriscou no universo dos romances e já chegou mostrando a que veio (veio para ficar e para impressionar positivamente!). Parodiando o meme “que xou da Xuxa é esse?”, pergunto aos leitores do Bonas Histórias : que estreia na literatura é essa?! Com um talento natural para a contação de histórias sensíveis e profundas, Celso não só encanta pela prosa poética e por uma trama original. Ele também parece ter o dom de mexer com os sentimentos dos leitores. Incrível! Lançado nas últimas semanas de dezembro, “Pássaro de Folhas” é a uma novela (apesar da editora ter classificado como um romance) que adquire características híbridas. Essa obra pode ser considerada uma narrativa histórica (o enredo se passa entre o fim da década de 1960 e o início da década de 1980), uma trama fantástica (a protagonista tem dons inexplicáveis), um drama familiar (um casal do interior do Brasil decide migrar para o exterior com a filha pequena), uma aventura infantojuvenil (a protagonista é uma adolescente), um suspense romântico (assistimos a vários tipos de amores) e um road story de velocidade alucinante (que percorre dois continentes). Talvez o mais correto seja ver este livro de Celso Bicudo como uma combinação bem azeitada desses vários gêneros literários. Pelo menos foi assim que eu o entendi. “Pássaro de Folhas” apresenta a saga do casal Marcelo e Doris Nassir. Eles levam uma rotina tranquila nas planícies de terras vermelhas do interior do Brasil em meados dos anos 1960. Isso até o nascimento de Mariana, a primeira e única filha deles, em 1967. Rapidamente, Marcelo e Doris notam que a menina é muito diferente. Além de realizar proezas sobrenaturais com enorme facilidade, Mariana recebe desde sempre a visita de amigos de terras distantes. Contudo, quando a garota completa onze anos, suas particularidades se tornam inviáveis para aquela região tão atrasada e preconceituosa. Ela sofre na escola com a antipatia dos colegas. Para a filha não se amargurar nem abandonar os estudos, o casal decide migrar para o exterior. Aí começam efetivamente as aventuras da família pelo Oceano Atlântico e, em seguida, pela África. O destino desse trio de personagens irá surpreender até mesmo os leitores com as mentes mais criativas. Confesso que gostei tanto, mas tanto, de “Pássaro de Folhas” que minha vontade era comentá-lo em detalhes na coluna Livros – Crítica Literária . Aposto que os visitantes assíduos do blog iriam pirar com essa trama riquíssima de Celso Bicudo e com sua composição narrativa extremamente inusitada. Contudo, informo que isso será impossível. Como tive uma pequena participação no desenvolvimento desta obra (além de crítico literário do Bonas Histórias , sou consultor editorial, editor e revisor técnico da EV Publicações ), não posso misturar meus dois trabalhos, né? Seria antiético fazer a análise de um material que contribuí de alguma maneira. Mesmo que minha influência tenha sido mínima (ninguém é maluco de dar tanta atenção aos meus comentários), ainda assim foi uma interferência da minha parte. Portanto, para não cair em possíveis cascas de banana da imoralidade profissional, simplesmente não comento em detalhes as publicações (novelas, romances, coletâneas de contos e crônicas, ensaios e títulos infantojuvenis) que tenha me envolvido como editor. O que posso fazer, nos casos de constatação da excelência da narrativa ficcional que conheci fora do blog, é simplesmente dizer aos leitores da coluna Mercado Editorial que se trata de uma obra que tiro o chapéu. E é justamente esse o status de “Pássaro de Folhas”. Que livro espetacular ele é, senhoras e senhores. Para quem possa reclamar que falei da literatura em língua portuguesa e não tratei de autores portugueses nem citei as vozes femininas contemporâneas neste post do Bonas Histórias , aviso que, na matéria de setembro e outubro da coluna Mercado Editorial , comentei os lançamentos de duas autoras lusitanas que adoro: Ana Margarida de Carvalho e Joana Bértholo. É só voltar e ver o que escrevi sobre “Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato” (Dublinense) e “A História de Roma” (Dublinense). Ou seja, não me atirem pedras, por favor! Não sou lusofóbico nem machista/sexista. O conteúdo de hoje é um complemento do post do bimestre passado . Feitas as apresentações pormenorizadas dos três destaques do bimestre passado, alertado para o possível conflito de interesse dos meus dois trabalhos e exibidos os esclarecimentos protocolares para mitigar problemas com as almas mais sensíveis, me sinto pronto para avançar até a listagem completa dos lançamentos do mercado editorial brasileiro em novembro e dezembro de 2024 . A seguir, trago os 63 melhores livros que chegaram às prateleiras da ficção e da poesia nas livrarias brasileiras no último bimestre do ano passado . Confira! FICÇÃO BRASILEIRA: “A Construção” (Nós) – Andressa Marques – Romance – 192 páginas. “Me Chamo Milagre” (Planeta) – Augusto Cury – Romance – 272 páginas. “Pássaro de Folhas” (EV Publicações) – Celso Bicudo – Novela – 156 páginas. “Vermelho” (Darkside) – Paula Febbe – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Keith Jarrett no Blue Note – Improvisos de Jazz” (Companhia das Letras) – Silviano Santiago – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Estilhaços” (Contracorrente) – Paulo Nogueira Batista Jr – Coletânea de Contos, Crônicas e Aforismos – 320 páginas. “Tempos de Jornal – Reminiscências histórico-pernambucanas” (CEPE Editora) – Pereira da Costa, Bruno Almeida de Melo e Leonardo Dantas Silva – Coletânea de Crônicas – 543 páginas. “Corações de Papel” (Record) – Nelson Motta – Coletânea de Cartas – 160 páginas. “Tempo de Flores do Mato Longe” (Globo Clube) – Stella Maris Rezende – Infantojuvenil – 136 páginas. “No Papo do Sapo” (pequeNós) – Renato de Mattos Motta e Ana Lasevicius – Infantil – 64 páginas. “O Livro dos Limeriques” (Editora 34) – Fabrício Corsaletti (Autor) e Yara Kono (Ilustradora) – Infantil – 48 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “A Cegueira do Rio” (Companhia das Letras) – Mia Couto (Moçambique) – Romance – 240 páginas. “Mestre dos Batuques” (Tusquets) – José Eduardo Agualusa (Angola) – Romance – 224 páginas. “Graça Queimada” (Planeta) – Margot Douaihy (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Dedico a Você Meu Silêncio” (Alfaguara) – Mario Vargas Llosa (Peru) – Romance – 208 páginas. “Sobreviventes” (Darkside) – Megan Miranda (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “O Túmulo Veloz” (Rocco) – Robert Galbraith (Inglaterra) – Romance – 928 páginas. “Beauchamp Hall” (Planeta) – Danielle Steel (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “Angélique” (L&PM Editores) – Guillaume Musso (França) – Romance – 224 páginas. “Não É Como Nos Filmes” (Intrínseca) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Chibineko – O Restaurante das Memórias Inesquecíveis” (Arqueiro) – Yuta Takahashi (Japão) – Romance – 176 páginas. “A Boa Mentira” (Darkside) – A. R. Torre (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Um Animal Selvagem” (Intrínseca) – Joël Dicker (Suíça) – Romance – 400 páginas. “Desejos Carnais” (Rocco) – J. T. Geissinger (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Neve de Primavera” (Estação Liberdade) – Yukio Mishima (Japão) – Romance – 400 páginas. “Casamento Perfeito” (Darkside) – Jeneva Rose (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Um Amor Lindo Demais” (Intrínseca) – Zhao Qiangian (China) – Romance – 512 páginas. “Espetacular – Uma Novela da Trilogia Caraval” (Gutenberg) – Stephanie Garber (Estados Unidos) – Romance – 208 páginas. “Nem Mesmo os Mortos” (DBA) – Juan Gómez Bárcena (Espanha) – Romance – 480 páginas. “Playlist para um Final Feliz” (Arqueiro) – Abby Jimenez (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Sinais do Amor” (Globo Livros) – Hannah Bonam-Young (Canadá) – Romance – 304 páginas. “O Complexo de Atlas – Volume 3 da Sociedade de Atlas” (Intrínseca) – Olivie Blake (Estados Unidos) – Romance – 512 páginas. “O Regresso à Vila dos Tecidos – Livro 4 da Série A Vila dos Tecidos” (Arqueiro) – Anne Jacobs (Alemanha) – Romance – 464 páginas. “Slewfoot – A Fábula das Bruxas” (Darkside) – Brom (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Nada Disso É Verdade” (Intrínseca) – Lisa Jewell (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Rei da Ganância – Livro 3 da Série Reis do Pecado” (Arqueiro) – Ana Huang (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Árvore de Ossos” (Darkside) – Tana French (Estados Unidos) – Romance – 496 páginas. “O Homem Sem Mim” (Nós) – Rute Simões Ribeiro (Portugal) – Novela – 112 páginas. “Um Pequeno Engano e Outras Histórias” (Editora 34) – Nikolai Leskov (Rússia) – Coletânea de contos – 336 páginas. “A Coisa e Outros Contos” (Carambaia) – Alberto Moravia (Itália) – Coletânea de contos – 288 páginas. “Os Inúteis” (Nós) – João Guilhoto (Portugal) – Coletânea de contos – 80 páginas. “Murdle – Volume 2” (Intrínseca) – G. T. Karber (Estados Unidos) – Coletânea de jogos enigmáticos e charadas – 400 páginas. “Duas Coroas Retorcidas” (Alt) – Rachel Gillig (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 448 páginas. “A Vida Impossível” (Bertrand Brasil) – Matt Haig (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 378 páginas. “Meu Presente é Você” (Alt) – Rachel Lippincott (Estados Unidos) e Alyson Derrick (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 302 páginas. “Encontros em Nova York” (Alt) – Anne-Sophie Jouhanneau (França) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Um Verão Para Sempre” (Alt) – Daisy Garrison (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 280 páginas. “Quando Haru Estava Aqui” (Alt) – Daisy Garrison (Vietnã/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 272 páginas. “A Melodia da Água” (Alt) – Rebecca Ross (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 272 páginas. “Fred e o Anjo das Coisas Perdidas – Livro 4 da Série Anjos da Guarda” (Arqueiro) – Lucinda Riley (Irlanda do Norte) e Harry Whittaker (Inglaterra) – Infantojuvenil – 64 páginas. “A Casa dos Animais” (Editora 34) – Vinciane Despret (Bélgica) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Alguma Coisa, Algum Dia” (Intrínseca) – Amanda Gorman (Estados Unidos) e Christian Robinson (Estados Unidos) – Infantil – 40 páginas. “Oi, Guaxinim, Pode Lavar pra Mim?” (Companhia das Letrinhas) – Susanne Strasser (Alemanha) – Infantil – 32 páginas. “Lionel” (Globinho) – Peter H. Reynolds (Canadá) – Infantil – 32 páginas. “Feliz Aniversário, Ratinho!” (Brinque-Book) – Guido van Genechten (Bélgica) – Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Íntimo Idioma” (CEPE Editora) – Maria do Carmo Barreto Campello de Melo – 368 páginas. “O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial” (Círculo de Poemas) – Patrícia Lino – 352 páginas. “Estavelmente Instável” (Planeta) – Marcela Scheid – 240 páginas. “A Menor das Tempestades” (Editora 34) – Josoaldo Lima Rêgo – 136 páginas. “O Dia” (Círculo de Poemas) – Mailson Furtado – 72 páginas. “Cacto na Boca” (Círculo de Poemas) – Gianni Gianni – 40 páginas. “Inferninho” (Círculo de Poemas) – Natasha Felix – 40 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Bestiário” (L&PM) – Pablo Neruda (Chile; autor) e Luis Scafati (Argentina; ilustrador) – 136 páginas. E caso eu tenha me esquecido, desejo um feliz ano novo para todos os leitores do Bonas Histórias . Que 2025 venha com muita literatura, cultura, arte e entretenimento para todos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Recomendações: Retrospectiva - Melhores filmes de 2024
Confira a lista dos 5 longas-metragens mais interessantes do ano passado segundo o Bonas Histórias. Janeiro é o mês da retrospectiva no Bonas Histórias . Como reza a tradição do blog, aproveitamos a mudança do calendário para apresentar na coluna Recomendações o que de mais interessante vimos no ano recém-encerrado. No post de hoje, vamos discutir os melhores filmes de 2024 . Daqui a duas semanas, retornarei a essas bucólicas páginas para comentar os melhores livros da última temporada. Depois desse bem-vindo revival, acredito que concluímos as mudanças de ciclo e estaremos prontos para conhecer as boas novidades que 2025 nos reserva. Antes de exibir a lista das produções cinematográficas mais impactantes do ano passado , preciso fazer uma observação relevante. Houve um tempo (não tão distante assim) em que postava uma análise de filme por semana. A coluna Cinema era, acredite se quiser, mais movimentada do que a vida matrimonial do Fábio Júnior. A ideia naquela época era apresentar aos leitores do Bonas Histórias a maior quantidade possível de indicações culturais. Por isso, nosso ritmo de postagem era alucinante. Quase diariamente tínhamos algo novo para mostrar. Como consequência, também publicava uma análise de livro por semana (na coluna Livros – Crítica Literária ) e alimentava periodicamente as demais seções do blog. Não é errado dizer que as colunas Músicas , Teatro , Dança , Exposições , Gastronomia e Passeio , por exemplo, também bombavam com novidades frequentes. Contudo, o excesso de publicações (ou o baixíssimo intervalo entre os posts, como queira) cobrava um preço amargo: nosso conteúdo não era nem um pouco aprofundado, muito menos completo. Para ser bem sincero com a meia dúzia de boas almas que me lê regularmente, ele era até mesmo bem superficial. Juro que tenho vergonha de reler muitas das antigas análises, que para meu desespero ainda são acessadas graças ao Deus da Internet, entidade chamada de SEO. Quanto mais velha é a resenha do blog, pior é a qualidade textual. Identificado o problema no início de 2023, mudamos radicalmente a linha editorial. Ao invés de posts quase diários de tamanho reduzido e de abrangência limitada, optamos por um post semanal com maior extensão e com grande profundidade. Surgia, assim, o Bonas Histórias que você conhece hoje. Mas por que estou falando sobre isso na coluna Recomendações ? Para explicar que sigo visitando semanalmente as salas de cinema (lendo um livro por semana e realizando várias atividades artísticas por mês). Minha rotina e meu estilo de vida não mudaram nadinha. Apenas não comento com os visitantes do blog todas as produções culturais que acompanho, como fazia outrora. Alguém poderia dizer que o nome dessa mudança é sofisticação da curadoria do blog. Pode ser. Porém, como não sou metido à besta, gosto de pensar que é falta de tempo mesmo. Se pudesse, juro que passaria o dia inteiro discorrendo sobre os vários assuntos da literatura, da cultura e do entretenimento que me deparo diariamente. De qualquer maneira, minha observação serve como justificativa do porquê nem todas as citações que farei a seguir (e no próximo material sobre as melhores leituras de 2024) renderam posts na coluna Cinema (e na coluna Livros – Crítica Literária ). Infelizmente, vários ótimos filmes que vi no ano passado não se transformaram em avaliações completas no blog. A boa notícia é que aqueles longas-metragens que foram discutidos, tiveram um nível mais completo e complexo de avaliação. Ao menos, era essa a ideia, né? Feita essa ressalva (que saiu bem maior do que imaginei), podemos ir diretamente para os cinco melhores filmes que foram exibidos nos cinemas brasileiros em 2024. Para potencializar o clima de suspense (que rufam os tambores!), optei por apresentá-los pela ordem decrescente. Ou você pensou que eu cometeria o erro de iniciar pelo título mais impactante, hein?! Nananinanão. Portanto, segue em contagem regressiva o top 5 que certamente agradará aos cinéfilos de bom gosto desse Brasilzão de Deus Me Livre e Guarde. Os leitores do Bonas Histórias mais atentos irão reparar na abordagem variada de gêneros cinematográficos e na multiplicidade de países selecionados na minha lista. 5º lugar: "Divertida Mente 2" ( Inside Out 2 : 2024) – Animação – Estados Unidos Riley Andersen cresceu. Agora ela é uma adolescente de 13 anos. Na nova condição, a protagonista de uma das mais brilhantes animações da Pixar vai enfrentar novos dramas, típicos da fase mais turbulenta da vida. Além das já conhecidas Alegria, Tristeza, Medo, Nojinho e Raiva (personagens do filme anterior da série), a mente de Riley recebe cinco novas emoções: Ansiedade, Inveja, Vergonha, Tédio e Nostalgia. Com tanto sentimento brigando por atenção e pelo controle das ações da garota, não será fácil para ela entrar na puberdade. Animação com a maior bilheteria da história do cinema e filme mais visto em 2024, "Divertida Mente 2” foi dirigido por Kelsey Mann e roteirizado por Meg LeFauve . Este é realmente um longa-metragem impecável, principalmente para quem gosta de mergulhar no vertiginoso universo da psicologia humana. Se há a natural perda do efeito novidade – é a continuação de “Divertida Mente” (Inside Out: 2015), produção de estrondoso sucesso que trouxe um enredo irreverente e inusitado –, por outro lado continuamos com sacadas inteligentes e cenas divertidíssimas. Vale a pena conferi-lo. 4º lugar: "A Substância" ( The Substance : 2024) – Terror – França/Inglaterra O título de melhor terror do ano passado foi, na minha opinião, para “A Substância” , novo longa-metragem da genial Coralie Fargeat . A francesa dirigiu e roteirizou essa produção que beira a perfeição. Num enredo que mistura thriller aterrorizante , suspense psicológico , comédia dramática , sátira social , aventura escatológica e ficção científica , acompanhamos a saga de uma atriz de Hollywood contra a passagem do tempo e o machismo do show business norte-americano. Com atuação memorável de Demi Moore , Margaret Qualley e Denis Quaid , “A Substância” cumpre com o que promete: chocar a plateia com cenas absurdamente horripilantes e uma história original de tirar o fôlego. Confesso que há muito tempo não assistia a um filme de terror tão inteligente e incômodo, que me fez várias vezes desviar os olhos da tela. Portanto, prepare-se. É preciso estômago forte para chegar ao final dessa sessão. Boa sorte e muita coragem! 3º lugar: “Folhas de Outono” (Kuolleet lehdet : 2023 ) – Comédia romântica – Alemanha/Finlândia Maior injustiça da última edição do Oscar. É assim que vejo a ausência de “Folhas de Outono”, o vigésimo longa-metragem de Aki Kaurismäki , entre os finalistas da categoria Melhor Filme Internacional do ano passado. Para mim, essa produção germano-finlandesa não apenas merecia a indicação ao principal evento do cinema mundial em 2024 como deveria ter saído dele com a estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles em mãos. Afinal, trata-se de um filme muito mais interessante, completo e original do que o superestimado (e cansativo) “Zona de Interesse” (The Zone Of Interest: 2023). Com pouquíssimos diálogos (emulando claramente o cinema mudo), “Folhas de Outono” é a comédia romântica dos desajustados do mundo contemporâneo. Alma Pöysti e Jussi Vatanen interpretam brilhantemente o casal de protagonistas, duas figuras introvertidas, pobres, mal-amadas e extremamente azaradas. Por mais ridículas que sejam suas rotinas e por mais áridas que sejam suas vidas sentimentais, ainda assim torcemos para que os heróis mais improváveis do cinema mundial em 2024 fiquem juntos. Impossível não nos emocionarmos com esse drama ao mesmo tempo profundo, genuíno e divertido. Sem dúvida nenhuma, aqui está a história de amor mais incomum, engraçada e criativa da última temporada do cinema. 2º lugar: "Dias Perfeitos” ( Perfect Days : 2023) – Drama – Japão/Alemanha Estou careca (literalmente) de saber que Wim Wenders é um cineasta espetacular. Não dá para desprezar a qualidade de, por exemplo, “Paris, Texas” (1984), “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin: 1987) e “Tão Longe, Tão Perto” (In weiter Ferne, so nah!: 1993). A surpresa é notar que, tal qual um vinho da melhor safra que só melhora com o passar do tempo, o cineasta alemão continua encantando as plateias com quase 80 anos. Prova cabal disso é o espetacular “Dias Perfeitos”, seu novo trabalho que foi filmado no Japão. Neste drama profundamente comovente protagonizado pelo incrível Koji Yakusho (um dos melhores atores do ano passado), acompanhamos a rotina à princípio banal de Hirayama, um senhor solitário que limpa banheiros em Tóquio. Contudo, o cotidiano repetitivo e aparentemente simplório da personagem principal esconde belezas e paixões. Mesmo com um ritmo lento e com poucos acontecimentos, “Dias Perfeitos” é um filme que prende a atenção do público e emociona os espectadores com uma história sensível e linda de um homem que ama a vida e a natureza. 1º lugar: " Pobres Criaturas” ( Poor Things : 2023) – Comédia dramática – Irlanda Na minha humilde avaliação, o melhor filme de 2024 foi “Pobres Criaturas” . Dirigida por Yorgos Lanthimos , roteirizada por Tony McNamara e estrelada por Emma Stone , essa ficção científica tem elementos de fantasia , surrealismo , comédia nonsense , suspense noir , drama histórico e crítica social . Com 11 indicações para o Oscar e tendo conquistado quatro estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (melhor atriz para Stone, melhor direção de arte, melhor figurino e melhor maquiagem), o longa-metragem encanta pelo roteiro audacioso, pela direção impecável e pela atuação simplesmente espetacular do elenco. Baseado no romance homônimo do escocês Alasdair Gray , “Pobres Criaturas” é uma espécie de “Frankenstein” (1931) contemporâneo e feminista. Nessa história cheia de surpresas e reviravoltas, o cientista Dr. Godwin Baxter (interpretado por Willem Dafoe ) cria uma mulher inteiramente nova a partir do corpo de uma grávida que se suicidou. Assim, nasce Bella Baxter (Emma Stone), uma jovem para frente do seu tempo. Os esforços do doutor é para enquadrar a moça à moral da sociedade inglesa. Entretanto, com seu jeitão peculiar, Bella choca os moradores da Londres vitoriana com uma sinceridade desconcertante e uma liberdade sexual. Eita filme mais divertido e inteligente! Gostou deste post do Bonas Histórias ? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições, clique em Recomendações . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Melhores Músicas Ruins: América Latina – Premiação de 2024
Pela primeira vez, o SOSAMOR (Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins) ampliou os horizontes para fora do Brasil e da língua portuguesa. Assim, premiou em dezembro passado as canções em espanhol mais brilhantemente ruins do nosso continente. O final do ano foi repleto de surpresas musicais no Bonas Histórias . Para começo de conversa, o Melhores Músicas Ruins , tradicional premiação do mercado fonográfico brasileiro, chegou à incrível marca de dez edições. É isso o mesmo que você leu, incauto(a) leitor(a). Repito com toda a ênfase que consigo expressar em texto: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e, ufa, DEZ eventos realizados pelo SOSAMOR, a Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins. Há uma década, compositores, cantores, gravadoras e fãs desse Brasilzão são mobilizados pelas concorridas votações dessa cada vez mais prestigiada e ilibada instituição. É claro que tal efeméride não passou batida pelo blog, né? O post que apresentou os vencedores do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2024 citou essa marca. Outra novidade de dezembro foi que pela primeira vez a cerimônia de entrega do Orelhão de Ouro (1º lugar), do Orelhão de Prata (2º lugar), do Orelhão de Bronze (3º lugar) e dos Orelhões de Lata (demais finalistas) foi realizada no exterior. Que chique, meu Deus! O palco do evento que reuniu a nata da música nacional foi uma tradicional casa de Tango no bairro de Almagro, em Mi Buenos Aires Querido. Até porque, como sabemos, Tango e Argentina têm tudo a ver com Música Popular Brasileira e Brasil! Parabéns, organização, por mais uma bola dentro. Se você ficou curioso(a) para saber o endereço exato da festa do mês passado, só posso dizer que ela ocorreu em uma antiga igreja que fica perto do predinho que tem um fusquinha florido (e romântico) estacionado à porta. Claro que você sabe qual é! Não se faça de bobo(a). Só não digo o nome do local por meras questões contratuais. Parece que os argentinos ainda têm muita vergonha (quase escrevi re vergüenza ) do Melhores Músicas Ruins . Fazer o quê? Paciência! No meu caso, não tenho receio de informar que sou um dos integrantes (nada secretos) do SOSAMOR (a pronúncia correta é: SOS Amooooooooooooooooooooooooooor). Contudo, a grande bomba do finalzinho de 2024 foi – segure-se na cadeira e tape os ouvidos! – o surgimento de uma nova versão do longevo prêmio. A partir de agora, além da vertente brasileira, o evento que mobiliza torcidas apaixonadas do Oiapoque ao Chuí terá um pé efetivamente internacional. Talvez isso explique a escolha inusitada do lugar da festança deste ano (além do fato de os convidados não terem precisado de passaporte para embarcar). É ou não é uma novidade de parar o mundo, hein?! Portanto, daqui em diante, o SOSAMOR (você está lendo corretamente a sigla?!) se encarregará de eleger anualmente as campeãs da música latino-americana . Incrível, não?! Adorei essa iniciativa da associação mais orelhuda do cenário cultural do quintal dos Estados Unidos. Afinal, como Perla tão bem comprovou ao longo da carreira (Milton Neves poderia nos informar que fim a levou), toda boa faixa ruim fica ainda melhor quando executada em castelhano. Em outras palavras, daqui em diante (tudo será diferente...), saberemos em primeira mão quais são as canções em espanhol horripilantemente viciantes que pintam do Ushuaia a Tijuana. E como não temos tempo a perder, a primeira edição da ramificação hermana do prêmio foi apresentada em dezembro mesmo, juntamente com os festejos do aniversário de dez anos do Bonas Histórias e com a entrega das estatuetas dos artistas brasileiros que mais se destacaram na última temporada . É por isso que estou aqui. O post de hoje é para tratar dos campeões da nova versão. A grande destaque da primeira edição do Melhores Músicas Ruins da América Latina foi Karol G ! A jovem colombiana (cantora favorita da Mara e do Rai – abraços, pessoal!) não apenas amedalhou o Orelhão de Ouro de 2024 com “Si Antes Te Hubiera Conocido” , um Merengue inesquecível, como ainda emplacou mais um hit no Orelhão de Lata desta temporada, o irritante Reggaeton “Comigo” . Podemos dizer que o ano passado foi inteiramente da Bichota! Sem exageros, suas canções tocaram em todos os recôncavos deste esquecido continente ao sul do Império. Já prevendo o sucesso da nova rainha da música latina, a coluna Músicas apresentou em outubro a análise completa de “Si Antes Te Hubiera Conocido” e a trajetória artística de Karolzinha. Como dizem por aí: “ el mundo ahora es Gedondo ” (em espanhol, a letra “g” se pronuncia com som de “r”) “y la Tierra es rosa” (a nova cor do cabelo da eterna loira). O Orelhão de Prata da versão latino-americana do Melhores Músicas Ruins de 2024 foi para “Una Foto” , o contagiante Rap do uruguaio Mesita . Se você vive às margens do Rio da Prata saberá que essa faixa foi executada insistentemente de janeiro a dezembro do ano passado. Até nos momentos mais silenciosos de Montevideo e Buenos Aires, foi possível ouvir os versos: “ Tírame una foto que se vea/ En la nave mientra hacemos cosa fea/ Mami, ese toto bellaquea/ Si dicen que soy bandido, no les crea ”. Já o Orelhão de Bronze ficou com “Gata Only” , o Reggaeton com sotaque chileno de FloyyMenor . Aos 19 anos, o rapaz recém-saído da adolescência em Coquimbo se fez ouvido no continente todo com frases de pureza e romantismo como: “ Te quiero chingar, te voy a raptar ”, “ Te paso a recoger, te hago mi mujer ” e “ Esta noche la pasamo' bien, conmigo no te quieren ver ”. Impossível não se emocionar com palavras tão poéticas. Quem se atrever a verificar e (o que seria ainda mais temerário!) escutar o restante da lista de vencedores do Melhores Músicas Ruins América Latina, notará a variedade sonora da parte espanhola do nosso continente. Além dos já citados Merengue, Reggaeton e Rap, a coletânea de campeões latinos traz hits de Hip Hop , Corridos Tumbados e Balada Pop . Esse parece ser o paladar atual dos nossos vizinhos. Depois desse longuíssimo comentário (que ninguém lê, apenas os robôs responsáveis pela geração dos SEOs do Bonas Histórias ), vamos ao que interessa: o listão dos vencedores da nova modalidade do Melhores Músicas Ruins . Para ninguém me acusar de seguir enchendo linguiça e de não respeitar a paciência alheia, aí vai a relação completa dos dez ganhadores do Prêmio Melhores Músicas Ruins América Latina de 2024: 10ª posição: “Igual Que Un Ángel” – Kali Uchis (Colômbia) e Peso Pluma (México) – Balada Pop 9ª posição: “Madonna” – Natanael Cano e Oscar Maydon (México) – Corridos Tumbados 8ª posição: “BZRP 58” – Young Miko (Porto Rico) – Reggaeton 7ª posição: “Si No Quieres No” – Luis R. Conriquez e Neton Vega (México) – Corridos Tumbados 6ª posição: “Contigo” – Karol G (Colômbia) – Reggaeton 5ª posição: “Real Gangsta Love” – Trueno (Argentina) – Hip Hop 4ª posição: “313” – Residente Calle 13 (Porto Rico) e Silvia Pérez Cruz (Espanha) – Rap 3ª posição: “Gata Only” – FloyyMenor (Chile) – Reggaeton 2ª posição: “Una Foto” – Mesita (Uruguai) – Rap 1ª posição: “Si Antes Te Hubiera Conocido” – Karol G (Colômbia) – Merengue Se você já está com saudades do Melhores Músicas Ruins , peço calma. Muita calma nessa hora, passional leitor(a). No final do ano teremos uma nova edição do prêmio. Na verdade, serão duas premiações: a versão brasileira e a versão latina. Por isso, não há motivo para desespero (só se você viver na Argentina e depender do câmbio blue, mas isso é outra história). O SOSAMOR reafirma o compromisso de seguir incansável na tarefa de encontrar e enaltecer as grandes criações musicais do nosso país e do nosso continente. E o Bonas Histórias continuará apresentando com exclusividade esse evento que mexe com nossas emoções. Em suma, não suma e não faça nenhuma grande bobagem (além das rotineiras) até dezembro. Tenho certeza de que conseguiremos nos rever no fim de 2025 para compartilhar muita música de grande qualidade baixa. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias ? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas . Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins . E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Recomendações: Retrospectiva - Melhores livros de 2024
Na segunda e última parte da retrospectiva do ano passado, conferimos quais foram as 5 obras literárias mais elogiadas pelo Bonas Histórias durante a última temporada. Como prometido, trago hoje a segunda e última parte da Retrospectiva de 2024 do Bonas Histórias . Há exatamente duas semanas, a coluna Recomendações apresentou os melhores filmes conferidos no ano passado . Aí foi um tal de falar sobre "Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023), comédia dramática de Yorgos Lanthimos, “Dias Perfeitos” (Perfect Days: 2023), drama de Wim Wenders, “Folhas de Outono” (Kuolleet lehdet: 2023), comédia romântica de Aki Kaurismäki, "A Substância" (The Substance: 2024), terror de Coralie Fargeat, e "Divertida Mente 2"(Inside Out 2: 2024), animação de Kelsey Mann. Quebrando um pouco a lógica bonahistoriana, descrevi dessa vez a lista cinematográfica em ordem crescente. Aposto que os cinéfilos de plantão curtiram o breve debate. Confesso que me deu até vontade de rever vários desses longas-metragens. Vamos agora prosseguir na retrospectiva da última temporada artístico-cultural do blog. Contudo, mudaremos o tipo de arte enfocada. Sai de cena a sétima e entra no palco a quinta. Em outras palavras, o espaço do Bonas Histórias que fora destinado ao cinema será dessa vez exclusivamente da literatura . Quem me conhece um pouco, sabe que fico mais à vontade nessa nova seara – não por acaso minha grande paixão. Ainda assim, juro que me sinto mais preparado para comentar as novidades do cinema do que muita gente dessa área. Impossível não recordar a atuação de Glória “Não Sou Capaz de Opinar” Pires na televisão durante a premiação do Oscar de 2016, né? Diferentemente da atriz, visito semanalmente as salas de cinema e consigo opinar com alguma propriedade sobre os principais lançamentos do cinemão. De qualquer maneira, me sinto verdadeiramente em casa dentro de uma livraria ou de uma biblioteca. Por isso, a pergunta que quero responder hoje é: quais foram os melhores livros de 2024 ? Antes de apresentar (e detalhar) a lista das 5 melhores obras literárias do ano passado , preciso fazer três observações prévias. Elas servem para evitar possíveis reclamações, chiadeiras ou mesmo indignações dos leitores mais impacientes deste nem um pouco estimado blog. Tenho certeza de que, sem uma rápida equalizada nas expectativas gerais, seria alvo de uma nada amistosa saraivada de pedras. Como a ideia aqui não é polemizar (assim como Maria Madalena, nunca gostei de apedrejamentos) e sim discorrer com excelência sobre a literatura (preferencialmente a ficção literária , o campo profissional em que tenho um pouco mais de conhecimento), vou lançar alguns parágrafos introdutórios. Assim, preparo os ânimos (por vezes belicosos) do povo que fará a leitura (tem mesmo alguém aí lendo, hein?!) deste obscuro post. Para começo de conversa (como se nossa conversa já não tivesse começado há um tempão, né?!), o ranking literário do Bonas Histórias é estritamente pessoal. E o que quero dizer com isso, senhoras e senhores?! Significa que ele foi construído a partir da minha experiência como leitor e tem como matéria-prima apenas a lista de livros que li entre janeiro e dezembro de 2024. Por isso, só se tornaram elegíveis obras que eu tenha degustado no ano passado, independentemente de seu período de lançamento. Há desde títulos recém-publicados como títulos antigos. O critério é a data de leitura e não de lançamento. Simples assim. Antes que alguém pergunte quantos livros eu leio anualmente, comunico envergonhado que há cerca de dois ou três anos não transmito essa delicada informação ao público do Bonas Histórias . Para ser mais preciso em meu depoimento, nem para os meus familiares e amigos eu falo. Porque sempre era tido como mentiroso quando apresentava o número exato. Mentiroso, eu?! Quem não me conhecia muito bem, achava que ler várias dezenas (talvez uma centena) de títulos em doze meses era impossível. Já quem convivia intimamente comigo, achava que, para quem passava boa parte do dia com a fuça grudada nas páginas, minha estimativa era subdimensionada. Portanto, desagradava a gregos e troianos. Para não provocar reações negativas em ninguém na Nova Atenas, parei de falar os números (por mais que ainda faça o registro na minha inseparável agenda física). Para os mais curiosos, o que posso adiantar é que, para manter atualizadas as colunas Livros – Crítica Literária , Talk Show Literário , Mercado Editorial e Contos & Crônicas (há algum tempo larguei mão das colunas Desafio Literário e Teoria Literária ), é preciso uma boa quantidade de leituras mensais sim ou sim. Isso sem contar, obviamente, meu trabalho de editor fora do blog. Por falar nisso, abraços, pessoal da EV Publicações , galerinha da Epifania Comunicação Integrada e povo da Dança & Expressão . E, por supuesto , tem ainda minhas sessões de leitura recreativa. Porque quando não estou lendo a trabalho, gosto de me divertir lendo. Curiosamente, muitas vezes os melhores livros do ano vêm justamente dessa categoria mais despretensiosa. Falei tudo isso para inserir a segunda observação desse já longo preâmbulo: nem todos os livros que coloquei na minha lista dos melhores de 2024 foram citados diretamente ao longo do ano passado nas várias colunas do Bonas Histórias . Isso aconteceu principalmente com os títulos não ficcionais (que raramente entram na pauta do blog) e com obras sobre Teoria Literária (que servem para meu embasamento conceitual e não como matéria-prima de minhas análises). Por fim, o terceiro comentário que me sinto obrigado a fazer é que na lista das melhores publicações podia entrar de tudo: ficção ( romance , novela , coletânea de contos e crônicas , infantojuvenil e infantil ), poesia , não ficção , didático , negócios , ensaio , autoajuda , religioso , biografia , graphic novel etc. Acredite: a variedade de materiais que leio é absurda. Em suma, se um livro foi lido por mim no ano passado, ele se tornou automaticamente elegível. O que definiria sua entrada ou não no meu ranking final (que vocês vão conhecer a seguir) era a qualidade textual e não o tipo do gênero narrativo. Nada mais justo! Apresentados os critérios (ou seriam as justificativas da minha coletânea de livros favoritos?), vamos sem mais delongas para o top 5 das melhores leituras de 2024 . Os leitores do Bonas Histórias mais atentos certamente notarão que na listagem só há obras de autores brasileiros (juro que foi coincidência!) e títulos com grande variedade temática (romances, novela, não ficção, biografia e teoria literária). Sim, senhoras e senhores, o nome da brincadeira é diversidade literária e o resultado é um elogio contumaz à qualidade da literatura brasileira contemporânea . Pronto: agora vai o ranking! 5º lugar: "A Escrita Criativa – Pensar e Escrever Literatura" (EdiPUCRS) – Camila Canali Doval, Camila Gonzatto da Silva e Gabriela Silva (Brasil) – 2012 – Fazer Literário/Teoria Literária. No ano passado, li quatro ótimos livros sobre Escrita Criativa , Teoria Literária e Fazer Literário : “Como Escrever Mesmo Estando em Pânico – Da Folha em Branco ao Texto Completo” (Europa), de Carolina Zuppo Abed, “Escrever Sem Medo – Um Guia Para Todo Tipo de Texto” (Planeta), de Jana Viscardi, “Conversas com Escritores” (Biblioteca Azul), de Romana Koval, e "A Escrita Criativa – Pensar e Escrever Literatura" ( EdiPUCRS ), de Camila Canali Doval , Camila Gonzatto da Silva e Gabriela Silva . Deu para perceber o quanto adoro esse tema, né? Para ser bem franco, li muuuuuito mais títulos sobre esse assunto em 2024. Contudo, esse quarteto de publicações foi o que considerei mais legal e com os conteúdos mais interessantes para quem procura se desenvolver no universo da escrita profissional. Gostei tanto desses livros que fiquei na dúvida de qual teria sido o melhor. Em alguns momentos, achei que “Como Escrever Mesmo Estando em Pânico” foi o que mais me encantou (tanto que em breve vou relê-lo só para fazer uma análise na coluna Livros – Crítica Literária ). Numa outra fase, fiquei mais propenso a eleger “Conversas com Escritores” como o meu preferido. No fim das contas, acabei selecionando "A Escrita Criativa – Pensar e Escrever Literatura" como o meu preferido da seleta lista. Por quê? Porque ele foi a publicação dessa coletânea de materiais técnicos com mais riqueza de conteúdo. Camila Canali Doval, Camila Gonzatto da Silva e Gabriela Silva, as organizadoras de "A Escrita Criativa – Pensar e Escrever Literatura", são ex-alunas da Pós-graduação em Escrita Criativa da PUC-RS, um dos melhores cursos de formação de escritores do Brasil. O coordenador desse curso é ninguém menos do que Luiz Antonio de Assis Brasil , um dos principais professores de literatura do país. O trio de pupilas de Assis Brasil organizou uma série de textos de colegas e professores sobre o que os autores precisam se atentar na hora de mergulhar no ofício da escrita. O resultado ficou incrível! O livro é realmente excelente, não apenas para quem está nos primeiros passos desta profissão, mas para quem já está nessa jornada há muitos anos e precisa refletir sobre seu trabalho. 4º lugar: "Pássaro de Folhas" (EV Publicações) – Celso Bicudo (Brasil) – 2024 – Ficção/Novela. “Pássaro de Folhas” ( EV Publicações ) foi talvez a mais grata surpresa da literatura nacional em 2024 – quase escrevi mais surpreendente surpresa... Conheci a novela de estreia de Celso Bicudo na ficção antes mesmo de sua publicação. Como trabalho na editora responsável pelo lançamento deste livro (abraço, Eduardo Villela ), tive o privilégio de lê-lo antes da maioria do público. E que encanto é esta obra, senhoras e senhores! Bicudo, que tive o prazer de conhecer, é um autor com enorme potencial artístico (e, o que é mais legal, também é muito gente boa!). Com maturidade, originalidade e sensibilidade dramática, ele construiu uma trama repleta de reviravoltas e cenas memoráveis. Impossível não nos emocionarmos com a aventura da família de protagonistas (Marcelo, Doris e Mariana Nassir), que precisou sair das planícies de terras vermelhas no interior do Brasil no fim dos anos 1970. O trio de personagens embarca num navio em direção ao Líbano sem imaginar os contratempos que terá pela frente. Lançado em dezembro, “Pássaro de Folhas” é uma narrativa histórica com fortes pitadas de realismo fantástico , drama familiar , road story , aventura infantojuvenil e romance romântico . Se conheci obras ficcionais melhores no ano passado (conforme vocês verão na sequência dessa lista), o que posso dizer é que este trabalho de Celso Bicudo foi o que mais me tocou. Vale muito a pena ler esta novela charmosíssima que acabou de chegar às nossas livrarias. 3º lugar: “O Amor Segundo Buenos Aires” (HarperCollins) – Fernando Scheller (Brasil) – 2016 – Ficção/Romance. Uma das narrativas ficcionais mais deliciosas que tive a oportunidade de ler em 2024 foi “O Amor Segundo Buenos Aires” ( HarperCollins ), romance de Fernando Scheller , outra boa revelação da literatura brasileira contemporânea. Publicada originalmente em abril de 2016 e relançada em versão estendida em novembro de 2023 (foi essa segunda edição que li), a obra representou (assim como “Pássaro de Folhas”) a estreia de seu escritor no papel de autor ficcional. E outra vez, tivemos um excelente primeiro passo na literatura comercial. Prova desse êxito foi a sondagem (que até hoje não passou disso...) da HBO para adaptar a trama do livro para uma série de televisão. O que mais chamou a minha atenção neste título de Scheller foi o protagonismo da capital argentina nos dramas sentimentais retratados. Assim, Buenos Aires deixa de ser o simples cenário das várias histórias de amor e desamor da publicação e se torna uma espécie de personagem central dos relatos. Adorei esse efeito de inversão dos elementos da narrativa ficcional . E como um morador apaixonado por esta cidade às margens do Rio da Prata (sigo cantando: “Mi Buenos Aires querido/Cuando yo te vuelva a ver/No habrás más pena ni olvido” ), fui contagiado pelos encantos da trama portenha de Fernando Scheller. Confesso envergonhado que acompanhar o desafio de Hugo (o protagonista legítimo do romance) em se reerguer após o término do casamento/namoro (talvez o mais correto seria chamar o relacionamento deles de “namorido”) com Leonor foi quase como encarar meus próprios percalços afetivos por BsAs. Curiosamente, na época da leitura de “O Amor Segundo Buenos Aires” , mais precisamente no segundo bimestre de 2024, juro que me senti na pele de Hugo, revivendo os mesmos dissabores amorosos. Inclusive, apontei algumas semelhanças entre a gente no post que fiz sobre essa obra na coluna Livros – Crítica Literária . Incrível quando a arte e a realidade se misturam em uma bem azeitada brincadeira do destino. 2º lugar: "Feliz Ano Velho” (Alfaguara) – Marcelo Rubens Paiva (Brasil) – 1982 – Romance/Autobiografia. Na minha visão, o acontecimento mais marcante do ano passado no campo artístico-cultural brasileiro foi o lançamento nos cinemas de “Ainda Estou Aqui” (2024), filme baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva . Há inclusive a chance de o longa-metragem de Walter Salles conquistar o Oscar em 2025. Como consequência à onda de empolgação e otimismo de “Ainda Estou Aqui”, a literatura de Paiva foi naturalmente revitalizada. Por coincidência dos Deuses da Ficção, o Talk Show Literário , uma das principais colunas do Bonas Histórias , usou uma das mais famosas obras de Marcelo Rubens Paiva como matéria-prima de suas entrevistas. O título em questão foi “Feliz Ano Velho” (Alfaguara), best-seller dos anos 1980. Confesso que nunca tinha lido esse livro, um mix de romance com relato autobiográfico . E fiquei embasbacado com sua qualidade. Já que estamos falando muito de estreias literárias hoje, preciso dizer que esse foi o primeiro trabalho ficcional do agora consagrado escritor paulistano. Nas páginas de “Feliz Ano Velho”, Marcelo Rubens Paiva narra o drama real que enfrentou após sofrer um acidente gravíssimo ao pular em um lago raso no interior de São Paulo. Aos 20 anos de idade, ele fraturou a quinta vértebra e precisou passar por um longo período de reabilitação nos hospitais. O relato é surpreendentemente engraçado e leve, em contradição com a seriedade do quadro clínico do autor/narrador/personagem. Sem qualquer pudor ou receio de comentar os mais variados temas da juventude, Marcelo brinda o leitor com uma emocionante trama com pegada tragicômica. Juro que me senti profundamente impactado por esse romance (apesar do relato autobiográfico, “Feliz Ano Velho” sempre foi classificado como romance). Não por acaso, esta foi uma das melhores leituras que fiz em 2024. Prova cabal da qualidade do livro foi que ele conquistou o Prêmio Jabuti de 1983 na categoria autor revelação. Além disso, foi traduzido para vários idiomas e se tornou o livro brasileiro mais vendido nos anos 1980 – se bem que dizem a mesma coisa de “O Menino Maluquinho” (Melhoramentos), best-seller infantil de Ziraldo. E imaginar que eu ainda não conhecia esse clássico nacional... 1º lugar: “América Latina Lado B” (Globo Livros) – Ariel Palacios (Brasil/Argentina) – 2024 – Não Ficção/História. O melhor livro que li no ano passado foi uma obra não ficcional : “América Latina Lado B – O Cringe, o Bizarro e o Esdrúxulo de Presidentes, Ditadores e Monarcas dos vizinhos do Brasil” ( Globo Livros ). Nesse divertido e assustador apanhado histórico do nosso continente, o carismático jornalista Ariel Palacios relata, tais quais nas melhores tramas do realismo fantástico latino-americano, os absurdos reais cometidos pelos líderes políticos dos diversos países do Sul do Grande Império. Com textos deliciosos, histórias capazes de fazer os cabelos dos leitores se levantarem, tom divertido e extensa pesquisa bibliográfica, o autor meio argentino, meio brasileiro apresenta uma publicação impecável. Se você gosta de História e Política e não abre mão de uma narrativa charmosa, engraçada e inteligentíssima, certamente curtirá o conteúdo e a estética de “América Latina Lado B”. Curiosamente, esse não foi o primeiro título de Ariel Palacios que li e adorei. Já tinha ficado positivamente impressionado com “Os Argentinos” (Contexto), livrão sobre a construção da identidade cultural dos conterrâneos de Maradona e Evita, e “Os Hermanos e Nós” (Contexto), livro curtinho sobre a rivalidade entre o futebol brasileiro e o futebol argentino que fora escrito em conjunto com Guga Chacra. Admito que, a partir desse portfólio, Palacios ganhou meu respeito como autor (há muito tempo ele já tinha adquirido como jornalista). Assim, sempre que ele publica alguma novidade, corro para comprar. Porque sempre vale a pena. Acho que por hoje é só pessoal. Que 2025 seja repleto de muita literatura e bons livros para todos nós. Saravá! Gostou deste post do Bonas Histórias ? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições, clique em Recomendações . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2024
Conheça o ranking com os 30 títulos mais adquiridos pelos brasileiros no ano passado. Como crítico literário, editor de livros, escritor e leitor recreativo, tenho a obrigação de saber o que rola no mercado editorial brasileiro . Para ser bem franco, sinto um misto de curiosidade genuína de alguém que é apaixonado pela literatura desde a adolescência e dever profissional de quem precisa estar ligado no que os colegas estão fazendo de mais relevante. Por isso, além de acompanhar as principais novidades da ficção e da poesia que são lançadas pelas editoras nacionais, conforme compartilhado bimestralmente com o público do Bonas Histórias , gosto de fazer anualmente o levantamento completo dos best-sellers em nosso país . Geralmente aproveito a morosidade tradicional de janeiro e fevereiro para mergulhar nesta avaliação. A pergunta que me move nesse instante é: afinal, o que os meus conterrâneos mais procuram quando visitam as livrarias e adquirem novas publicações?! Para realizar tais pesquisas, uso exclusivamente os dados do PublishNews , a fonte da indústria brasileira do livro mais confiável há um tempão. Seus números são extraídos diretamente dos sistemas de venda das maiores redes de livrarias do país e contemplam tanto as operações físicas quanto as operações online dessas companhias. Ou seja, eles conseguem abraçar o universo inteiro dos principais varejistas nacionais. Falta apenas a quantidade comercializada pelas pequenas livrarias que não têm um volume de vendas tão expressivo, o que por consequência não compromete muito o resultado estatístico. Para completar a lisura e a transparência do processo de pesquisa, as informações são coletadas e divulgadas ao público todas as semanas. Portanto, podemos acompanhar a evolução das vendas nas livrarias ao longo do ano inteiro e quase que em tempo real. Incrível, não? Confesso que estou sempre consultando os números do PublishNews e virei fã do trabalho deles. Com os dados desse parceiro renomado, comento há onze anos na coluna Mercado Editorial o ranking dos maiores sucessos editoriais do Brasil . Onze anos?! Meu Deus, às vezes eu me assusto com meu próprio texto (ou seria com a minha vidinha?). Ai, ai, ai. Para quem gosta de uma rápida retrospectiva, digo que o primeiro lugar no topo das vendas de nossas livrarias nos últimos anos foi de: “Café com Deus Pai” (Editora Vida/Editora Vélos), livro religioso de Junior Rostirola que vendeu 126 mil exemplares em 2023 ; “É Assim que Acaba” (Galera), romance infantojuvenil de Colleen Hoover, que alcançou em 2022 127 mil unidades comercializadas; “Mais Esperto que o Diabo” (Citadel), autoajuda de Napoleon Hill, com 109 mil livros transacionados em 2021 ; e de novo “Mais Esperto que o Diabo” que foi comprado por 113 mil brasileiros em 2020 . Um pouco mais atrás na linha temporal, encontramos: “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (Intrínseca), autoajuda de Mark Manson, com 386 mil unidades vendidas em 2019 ; novamente “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se”, com 439 mil exemplares comercializados em 2018 ; “Batalha Espiritual” (Petra), obra religiosa de Padre Reginaldo Manzotti que vendeu 138 mil unidades em 2017 ; “Como Eu Era Antes de Você” (Intrínseca), romance de Jojo Moyes, com 352 mil livros negociados em 2016 ; “Jardim Secreto” (Sextante), livro de colorir de Johanna Basford que alcançou 719 mil unidades comercializadas em 2015 ; e “Nada a Perder” (Planeta), volume inicial da autobiografia de Edir Macedo que liderou o mercado com assustadores 870 mil exemplares adquiridos em 2014 . Como deu para notar na dupla de parágrafos acima, até aqui tínhamos apenas dois bicampeões: “Mais Esperto que o Diabo” em 2021 e 2020 e “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” em 2019 e 2018. Curiosamente, ambos os títulos são de autoajuda. Como os brasileiros amam esse gênero, né? Porém, em 2024, assistimos à consagração de um novo/velho primeiro colocado. Assim como já tinha ocorrido em 2023, “Café com Deus Pai” ( Editora Vélos ), obra religiosa do Pastor Junior Rostirola , terminou a última temporada no topo do ranking dos mais vendidos. Foram comercializadas mais de 248 mil unidades de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2024. São números realmente impressionantes. Isso dá mais do que o segundo, o terceiro e o quarto colocados no ranking conseguiram vender JUNTOS. Mostrando que meus conterrâneos consomem bastante livros religiosos (ou você pensou que nosso povo era apenas fã de autoajuda, hein?!), o segundo lugar na listagem dos mais comercializados do ano passado também saiu da estante sacra. “Novena e Festa da Padroeira do Brasil” ( Santuário ), publicação dos Missionários Redentoristas , gerou 75 mil unidades em compras. É bom dizer que esse título foi lançado somente em maio de 2024. Portanto, perdeu quase um semestre de transações. Por esse ponto de vista, seu desempenho é ainda mais elogioso. Prova disso é que “Novena e Festa da Padroeira do Brasil” conseguiu vender até mesmo mais do que “Café com Deus Pai” entre julho e outubro. Assim, não seria exagero apontarmos o livro dos Missionários Redentoristas como o lançamento mais exitoso de 2024 – a data da primeira publicação do best-seller de Junior Rostirola é de outubro de 2021. É válido ressaltar que nas duas primeiras posições dos best-sellers do ano passado tivemos dois títulos de autores brasileiros. Você tinha notado isso, hein? Desde que faço o levantamento dos mais vendidos nas livrarias nacionais na coluna Mercado Editorial , tal fato jamais tinha acontecido. A última vez em que houve uma dobradinha verde-amarela no alto do ranking dos mais comercializados no Brasil foi em 2013, quando o Bonas Histórias sequer existia. Naquela oportunidade, curiosamente, campeão e vice-campeão também eram obras religiosas. “Nada a Perder 2” (Planeta do Brasil), segundo volume da biografia do Pastor Edir Macedo, e “Kairós” (Principium), trabalho do Padre Marcelo Rossi, terminaram no alto do pódio. Independentemente da qualidade dessas obras e da relevância desse tipo de leitura, acho ótimo termos escritores brasileiros voltando a liderança dos best-sellers. Saravá! Na sequência dos mais vendidos em 2024, aparece um exemplar de cada um dos gêneros queridinhos dos brasileiros: literatura infantojuvenil estrangeira , autoajuda e literatura infantil produzida por influenciadores digitais. Sendo mais concreto em minhas informações, “É Assim que Acaba” ( Galera ), romance da norte-americana Colleen Hoover , ficou na terceira posição com 69 mil unidades vendidas. “O Poder da Autorresponsabilidade” ( Gente ), autoajuda de Paulo Vieira , terminou na quarta colocação com 65 mil títulos comercializados. E “Elo Monsters Books – Flow Pack” (Pixel), obra infantil de Enaldinho , surpreendeu com 59 mil livros transacionados e o quinto lugar na classificação geral. É bom falar que dos cinco livros mais comprados pelos brasileiros no ano passado, quatro foram de autores nacionais. Eu disse quatro de cinco!!! Essa marca é sim inédita no último quarto de século. Não sei se isso ocorreu nos anos 1990 ou nos anos 1980. Desconfio que não. De qualquer forma, estou fazendo como Zé Neto & Cristiano e anunciando: “Escuta aí o barulho do foguete!”. É para comemorarmos, senhoras e senhores. É a literatura brasileira se (re)conectando com o público. No restante da lista dos principais best-sellers das nossas livrarias, seguimos com o mesmíssimo receituário. As obras religiosas prosperam Graças a Deus – “Princípios Milenares” ( Academia ), de Tiago Brunet , “Minutos de Sabedoria” ( Vozes ), de Carlos Torres Pastorino , e “O Deus que Destrói Sonhos” ( Thomas Nelson Brasil ), de Rodrigo Bibo . Já os títulos de autoajuda não têm problemas aparentes para resolver – “Mais Esperto que o Diabo” ( Citadel ), de Napoleon Hill , “As 48 Leis do Poder” ( Rocco ), de Robert Greene , “Hábitos Atômicos” ( Alfa Life ), de James Clear , “Nunca Jogue Uma Ideia Fora” ( Gente ), de Sauana Alves , “Os Segredos da Mente Milionária” ( Sextante ), de T. Harv Eker , “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” ( Sextante ), de Dale Carnegie , “O Homem Mais Rico da Babilônia” ( HarperCollins ), de George S. Clason , “A Morte É Um Dia que Vale a Pena Viver” ( Sextante ), de Ana Claudia Quintana Arantes , “Pai Rico, Pai Pobre” ( Alta Books ), de Robert T. Kiyosak , e, ufa, “As Coisas que Você Só Vê Quando Desacelera” ( Sextante ), de Haemin Sunim . Religiosos e autoajuda são maioria no ranking dos best-sellers tanto em quantidade de livros no topo da lista quanto em valores absolutos de exemplares comercializados. Pelo hábito de leitura, os brasileiros se mostram um povo bem peculiar. Eles precisam simultaneamente de aconselhamento divino e de orientação pormenorizada para os mais variados aspectos da vida cotidiana. Talvez essa conclusão explique muita coisa errada em nosso país... Na prateleira da ficção, a invasão é da literatura infantojuvenil de língua inglesa (leia-se: títulos da literatura norte-americana e da literatura britânica ). Os demais destaques nesse campo são: “É Assim que Começa” ( Galera ) e Verity ( Galera ), outros romances da onipresente Colleen Hoover; “A Biblioteca da Meia-noite” ( Bertrand Brasil ), sucesso de Matt Haig ; “Melhor que Nos Filmes” ( Intrínseca ), de Lynn Painter . Das obras infantis, a listagem é complementada por “O Diário de Uma Princesa Desastrada” ( Outro Planeta ), de Maidy Lacerda , “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” ( VR Editora ), de Jeff Kinney , e “As Aventuras de Mike – A Origem de Robson” ( Outro Planeta ) e “As Aventuras de Mike” ( Outro Planeta ), dupla de títulos da dupla Gabriel Dearo e Manu Digilio . Só quatro livros fugiram do script hegemônico formado por religiosos, autoajuda, infantojuvenis gringos e infantis de influenciadores. “A Filha dos Rios” ( Buzz ), de Ilko Minev , e “Tudo é Rio” ( Record ), de Carla Madeira , são raros best-sellers de autores ficcionais brasileiros (vejo Minev como um brasileiro, tá?) que permanecem no topo dos mais vendidos ao longo de alguns anos. O mais notável no caso de Ilko Minev e Carla Madeira é que o público-alvo de seus trabalhos literários é composto por leitores adultos e com paladar mais refinado. Portanto, são casos únicos de escritores que unem a unanimidade da crítica literária e o sucesso comercial nas livrarias. Vamos combinar que convencer o brasileiro a ler boa ficção não é tarefa fácil. As outras duas exceções, ambas da literatura estrangeira , são “A Empregada” ( Arqueiro ), romance premiado de Freida McFadden (vou analisar essa obra na coluna Livros – Crítica Literária no segundo semestre de 2025), e “A Psicologia Financeira” ( HarperCollins ), clássico contemporâneo da área das Finanças e dos Investimentos escrito por Morgan Housel . Esses dois títulos gringos conseguiram furar a manjada bolha e alcançaram os postos de best-sellers em nossas livrarias. Convenhamos que é uma façanha e tanto! Sei que muitos leitores do Bonas Histórias não ligam para meus comentários e vão diretamente para a lista dos mais vendidos. Sabendo disso, vou respeitar a preferência de parcela considerável do público do blog e pararei com meu blábláblá. Assim, apresento sem mais rodeios o ranking completo dos livros mais vendidos no Brasil em 2024 . Confira, a seguir, quais foram os 30 principais best-sellers segundo o PublishNews : 1º “Café com Deus Pai” (2021) – Junior Rostirola (Brasil) – Religião – Editora Vélos – 248,3 mil unidades. 2º “Novena e Festa da Padroeira do Brasil” (2024) – Missionários Redentoristas (Brasil) – Religião – Santuário – 75,7 mil unidades. 3º “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 69,8 mil unidades. 4º “O Poder da Autorresponsabilidade” (2018) – Paulo Vieira (Brasil) – Autoajuda Nacional – Gente – 65,6 mil unidades. 5º “Elo Monsters Books – Flow Pack” (2024) – Enaldinho (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Pixel – 59,8 mil unidades. 6º “Mais Esperto que o Diabo” (1938) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Citadel – 52,1 mil unidades. 7º “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 51,9 mil unidades. 8º “A Biblioteca da Meia-noite” (2020) – Matt Haig (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Bertrand Brasil – 51,7 mil unidades. 9º “A Filha dos Rios” (2015) – Ilko Minev (Brasil/Bulgária) – Literatura Ficcional Nacional – Buzz – 51,6 mil unidades. 10º “As 48 Leis do Poder” (1998) – Robert Greene (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Rocco – 47,2 mil unidades. 11º “Tudo é Rio” (2014) – Carla Madeira (Brasil) – Literatura Ficcional Nacional – Record – 44,7 mil unidades. 12º “Hábitos Atômicos” (2018) – James Clear (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Alta Life – 40,0 mil unidades. 13º “Verity” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 39,4 mil unidades. 14º “A Psicologia Financeira” (2020) – Morgan Housel (Estados Unidos) – Finanças e Investimentos – HarperCollins – 38,7 mil unidades. 15º “Nunca Jogue Uma Ideia Fora” (2024) – Sauana Alves (Brasil) – Autoajuda Nacional – Gente – 36,5 mil unidades. 16º “Princípios Milenares” (2024) – Tiago Brunet (Brasil) – Religião – Academia – 35,4 mil unidades. 17º “O Diário de Uma Princesa Desastrada” (2022) – Maidy Lacerda (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 33,6 mil unidades. 18º “Os Segredos da Mente Milionária” (2005) – T. Harv Eker (Canadá) – Autoajuda Estrangeira – Sextante – 33,1 mil unidades. 19º “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” (1936) – Dale Carnegie (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Sextante – 31,6 mil unidades. 20º “Minutos de Sabedoria” (1966) – Carlos Torres Pastorino (Brasil) – Religião – Vozes – 31,6 mil unidades. 21º “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” (2007) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantil Estrangeira – VR Editora – 31,1 mil unidades. 22º “O Homem Mais Rico da Babilônia” (1926) – George S. Clason (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – HarperCollins – 30,8 mil unidades. 23º “O Deus que Destrói Sonhos” (2021) – Rodrigo Bibo (Brasil) – Religião – Thomas Nelson Brasil – 30,4 mil unidades. 24º “As Aventuras de Mike – A Origem de Robson” (2023) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 30,0 mil unidades. 25º “A Empregada” (2022) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Literatura Ficcional Estrangeira – Arqueiro – 29,2 mil unidades. 26º “A Morte É Um Dia que Vale a Pena Viver” (2017) – Ana Claudia Quintana Arantes (Brasil) – Autoajuda Nacional – Sextante – 28,2 mil unidades. 27º “Pai Rico, Pai Pobre” (1997) – Robert T. Kiyosak (Estados Unidos) – Autoajuda Estrangeira – Alta Books – 27,6 mil unidades. 28º “As Aventuras de Mike” (2019) – Gabriel Dearo e Manu Digilio (Brasil) – Literatura Infantil Nacional – Outro Planeta – 27,2 mil unidades. 29º “Melhor que Nos Filmes” (2021) – Lynn Painter (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 27,0 mil unidades. 30º “As Coisas que Você Só Vê Quando Desacelera” (2012) – Haemin Sunim (Coreia do Sul) – Autoajuda Estrangeira – Sextante – 26,9 mil unidades. No final de março, retornarei à coluna Mercado Editorial para apresentar a lista dos livros ficcionais mais vendidos no Brasil em 2024. Como sei que muitos leitores do Bonas Histórias são, como eu, fãs da boa literatura ficcional, acredito que valha a pena fazer o recorte pela nossa prateleira favorita. Enquanto não chega o dia do debate dos best-sellers da ficção, não perca os demais posts do blog. Porque enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê. Fazer o quê?! 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- Filmes: Emilia Pérez – O musical de Jacques Audiard é o favorito ao Oscar em 2025
Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 6 de fevereiro, esta produção francesa é protagonizada por Karla Sofía Gascón, Zoë Saldaña e Selena Gomez. Com 13 indicações ao Oscar, o longa-metragem apresenta o drama de um violento traficante de drogas mexicano que sonha em fazer a cirurgia de redesignação sexual e se tornar mulher. O começo de 2025 está agitado no Brasil. Talvez o mais correto seria dizer agitadíssimo. Pelo menos no campo artístico-cultural, a praia paradisíaca que o Bonas Histórias se instalou e vive feliz da vida. Tudo porque “Ainda Estou Aqui” (2024), o mais recente filme de Walter Salles, conseguiu a proeza de ser indicado a três categorias do Oscar, incluindo a inédita participação entre os melhores de Hollywood. Note bem que eu falei (na verdade, escrevi) três indicações. TRÊS! E uma delas é para Melhor Filme. MELHOR FILME! Em outras palavras, a adaptação audiovisual do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva não está concorrendo “apenas” ao Melhor Filme Internacional, mas também ao Melhor Filme, a principal categoria da premiação. Aí está a grande (e grata) surpresa deste começo de ano. Convenhamos que se trata de um feito notável para o combalido cinema brasileiro e, de forma geral, para a maltratada arte nacional. A ansiedade pelo evento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles é tão grande entre muitos de meus conterrâneos (se você está nesse grupo, põe o dedo aqui que já vai fechar!) que tenho a impressão de que o país está se preparando para a disputa da decisão da Copa do Mundo. A diferença é que dessa vez o palco da peleja não é o campo de futebol, em que ostentamos orgulhosamente cinco estrelas. E sim uma competição cinematográfica, em que ainda não somos estrelados (ou oscarizados). Nesse terreno mais sofisticado, infelizmente, ainda não perdemos o Complexo de Vira-lata, estigma que persegue o imaginário coletivo e a alma nacional desde que Cabral aportou em Porto Seguro. Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, certamente escreveria em suas colunas jornalísticas que o Brasil será, em 2 de março, a pátria de câmera na mão. Uhu! Confesso que não via tanta expectativa na indústria brasileira de cinema desde “Cidade de Deus” (2002), a melhor produção nacional da história que foi indicada a quatro categorias do Oscar. QUATRO! É bom que se diga que várias dessas indicações foram em quesitos técnicos, o que é até mais difícil para uma produção latino-americana. Contudo, o trabalho espetacular de Fernando Meirelles foi atrapalhado pela péssima divulgação nos Estados Unidos e por terríveis decisões de exibição na Terra do Tio Sam, o que dinamitou suas chances de êxito na principal cerimônia do cinema mundial. Como resultado, o filmão verde-amarelo saiu de mãos abanando do teatro californiano, apesar do reconhecimento da crítica nacional e internacional pela sua excelência. Para a indignação de muitos brasucas (estou nesse grupo, tá?), “Cidade de Deus” nem mesmo foi indicado a Melhor Filme Internacional (na época, Melhor Filme Estrangeiro). Revoltante! Pelo visto, a equipe de Marketing (“ESPM, maravilhosa, cheia de tantos As! ESPM, maravilhosa, a melhor escola do Brasil!”) de “Ainda Estou Aqui” não foi pelo mesmo caminho e está fazendo tudo corretamente. Ufa! O mais legal foi perceber que, além das indicações, a sensação é que a pouco menos de um mês do Oscar temos, enfim, chances concretas de vitória. Se o longa-metragem de Salles não vencer, Fernandinha Torres (que concorre como melhor atriz) pode voltar para casa com a estatueta dourada em mãos. Há até quem já sonhe em sair às ruas brasileiras, na madrugada de domingo para segunda, gritando: “É campeão! É campeão! É campeão!”. Mas por que será que estou falando disso se o post de hoje da coluna Cinema é sobre “Emilia Pérez” (2024), o musical do francês Jacques Audiard , hein?! Calma, querido(a) e impaciente leitor(a). Neste blog que tem mais curvas do que retas, começamos a conversar e não temos a menor preocupação para onde nosso bate-papo irá caminhar. É comum termos que voltar para o início do texto depois do derramamento de várias laudas ou pedir desculpas ao público pela falta vergonhosa de foco de nossa interminável procissão de palavras. Mesmo sabendo que o desvio de rota e a prosa aleatória fazem parte do DNA do Bonas Histórias , tenho a obrigação (moral e cívica) de alegar, tal qual o advogado de defesa de um serial killer, que dessa vez, só dessa vez, há alguma lógica por trás das minhas mal traçadas linhas. Juro! O começo de ano é normalmente um período empolgante para os cinéfilos dos quatro cantos do planetinha azul. É nessa época que corremos, tal qual crianças nas portas das sorveterias ou adolescentes no acesso aos shows de bandas de K-pop , para as salas de cinema. A diversão é conferir os títulos que estão na disputa pelo Oscar. Como atuo como crítico cinematográfico (a coluna Cinema está aí para não me desmentir), a romaria às redes de exibição adquire caráter de obrigação profissional. Se no restante da temporada visito semanalmente o cinemão, em janeiro e fevereiro vou quase todos os dias às salas de projeção. Afinal, não quero parecer aqueles artistas que são convocados para opinar na televisão sobre a premiação, mas não assistiram a quase nenhum longa-metragem na disputa. Alguém aí se lembrou de Glória Pires em 2016?! Como em 2025 temos um filme brasileiro com chances de faturar o Oscar, minha empolgação se potencializou. Na minha cabeça banhada de racionalidade, queria ver todos os indicados para saber se “Ainda Estou Aqui” e Fernanda Torres têm realmente condições de vitória. Só assim, poderia tecer uma opinião contundente sobre esse assunto (e compartilhar, por supuesto , com os leitores do Bonas Histórias ). Faz sentido, não? Para mim há tanta lógica nesse processo investigativo que já assisti aos principais finalistas: “Emilia Pérez”, “A Substância” (The Substance: 2024), “Anora” (2024), “Conclave” (2024), “Babygirl” (2024), “Um Completo Desconhecido” (A Complete Unknown: 2024) e “O Brutalista” (The Brutalist: 2024). Quando digo que não saio do cinema nas últimas semanas, não estou brincando. E olha que omiti a informação de que, quando não estou nas sessões dos filmes do Oscar, estou curtindo o portfólio imperdível de “Noches de Terror – Verano Maldito” , do Cine Gaumont . Porém, essa é conversa para outro dedo de prosa. Não misturemos alhos com bugalhos – se bem que os leitores mais antigos da coluna já sabem que sou fã dos longas-metragens de terror. Na minha simulação de jurado do Oscar (ou de torcedor de arquibancada do cinema nacional), surgiu um probleminha. Na verdade, problema. Para ser bem franco, problemão! Até agora não consegui ver a nova produção de Walter Salles. Ai, ai, ai. Como posso identificar as chances de um filme conquistar a estatueta se não o conferi?! Olha eu me tornando Glória Pires, gente! Antes que alguém me acuse de ter virado bolsonarista (cruz-credo!) ou de flertar com os extremistas de direita (bate na madeira três vezes – toc, toc, toc), que tentaram boicotar essa história só porque ela põe o dedo na podridão da Ditadura Militar, informo que o motivo dessa minha mácula cinematográfica é mais trivial do que a vã filosofia poderia supor. Como moro no exterior, mais precisamente na Argentina (todas as noites antes de dormir, canto “Mi Buenos Aires Querido”), as redes de exibição de alguns países ainda não disponibilizaram esse título ao público. É o caso do vizinho albiceleste. Sem conseguir assistir a “Ainda Estou Aqui” (não vejo a hora que estreie nas salas portenhas), me restou como alternativa analisar muito bem os concorrentes. E, numa avaliação geral, garanto que o adversário mais temido para a produção brasileira não é nenhum título norte-americano (acredite se quiser) e sim o competidor francês (que pode faturar tanto a estatueta de Melhor Filme quanto a de Melhor Filme Internacional). Será que como em 2020 teremos uma surpresa à la “Parasita” (Gisaengchung: 2019)?! Foi com essa sensação/pensamento que saí do Multiplex de Belgrano , a rede de exibição mais perto de casa, na madrugada do penúltimo sábado de janeiro. Após a sessão de “Emilia Pérez”, fiquei com a impressão de que o vencedor da principal categoria do Oscar pode ser uma produção gringa. Daí entramos efetivamente no post de hoje da coluna Cinema . Viu como esperar um pouco não faz mal a ninguém?! Que pressa, meu Deus! Para começo de conversa (começo de conversa que já acumula pelo menos um quarto de hora de leitura), “Emilia Pérez” é um filmão. Não à toa, é apontado pela crítica especializada como o favorito para enfileirar algumas estatuetas no próximo mês. Ele alcançou 13 indicações ao Oscar: além de Melhor Filme Geral e Melhor Filme Internacional, concorre nas categorias de Melhor Diretor, Atriz, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado, Edição, Fotografia, Som, Maquiagem & Penteado, Trilha Sonora e, ufa, Canção Original (com duas músicas). Portanto, foram 13 indicações em 12 categorias, um recorde absoluto para as produções que não são faladas em inglês. À título de comparação, lembre-se que “Cidade de Deus”, nosso Pelé da Sétima Arte, recebeu quatro indicações. É bom avisar que o longa-metragem francês vem de muitas conquistas nos principais festivais e premiações do cinema mundial. Em Cannes, por exemplo, “Emilia Pérez” levou o Prêmio do Juri (mas perdeu surpreendentemente a Palma de Ouro para “Anora”). No Globo de Ouro, foi coroado como Melhor Comédia ou Musical e Melhor Filme em Língua Estrangeira (mas “Brutalista”, talvez seu principal rival no Oscar, faturou o prêmio de Melhor Filme Dramático). Portanto seu favoritismo entre os concorrentes ao evento de Los Angeles não surgiu do nada nem é peça de ficção criada pelos críticos francófilos. Tal cacife foi construído com o peso de uma bagagem repleta de prêmios relevantes. Essa talvez seja a má notícia para aqueles que, como eu, torcem pelas artes e pelos artistas verde-amarelos. Na minha visão, Jacques Audiard dirigiu o melhor longa-metragem desta temporada – não se esqueça que não vi “Ainda Estou Aqui” e minha afirmação abrange apenas os adversários do filme brasileiro. Então quer dizer que “Emilia Pérez” é a barbada do próximo o Oscar e “Ainda Estou Aqui” é carta fora do baralho? Aí está o X da questão, senhoras e senhores. A resposta é um sonoro nananinanão! Não dá para fazermos essas previsões. Agora vem a boa notícia para nós que sempre torcemos pelo Senna contra Prost – o drama francês tem alguns sérios problemas de ordem narrativa e cinematográfica, que podem atrapalhá-lo numa análise mais criteriosa dos jurados da Academia de Los Angeles. Sendo bem franco (desculpe-me pelo trocadilho involuntário) com os leitores do Bonas Histórias , o último vencedor do Oscar com tantas deficiências foi “Moonlight - Sob a Luz do Luar" (Moonlight: 2016). Não por acaso, o longa de Audiard guarda incontáveis semelhanças (positivas e negativas) com a premiada e fraquíssima produção de Barry Jenkins. Para entender a dicotomia (ótimo filme, mas com graves falhas) e a associação (com o polêmico vencedor da estatueta de 2017), mergulhemos a fundo neste título audiovisual. Orçado em aproximadamente 27 milhões de euros, “Emilia Pérez” foi escrito pelo próprio Jacques Audiard, que pela primeira vez na carreira desenvolveu o roteiro de seu filme sozinho. O cineasta se inspirou numa personagem de “Écoute” (sem edição em português), romance de Boris Razon publicado em 2018 na França. A partir da leitura do livro de Razon, Audiard criou a trama ficcional do temido traficante de drogas mexicano que decide passar por uma cirurgia de redesignação sexual. O grande sonho do protagonista do longa-metragem é se tonar efetivamente uma mulher. Ele não aguenta mais viver no corpo masculino e ter que transmitir a imagem de durão e destemido para seu bando e para os adversários de crime organizado. Filmado inteiramente na França (nos estúdios parisienses e em alguns cenários externos no interior do país) entre maio e julho de 2023, “Emilia Pérez” é oficialmente uma coprodução entre França, México e Bélgica. Contudo, o mundo o enxerga como sendo um longa francês. Por isso, o descrevo desse jeito neste post da coluna Cinema . Lançado no circuito comercial europeu no fim de agosto de 2024, o filme chegou às telonas dos Estados Unidos no fim do ano (condição para concorrer ao Oscar deste ano). No Brasil, ele estreou apenas na semana passada, em 6 de fevereiro. E aqui na Argentina, é possível vê-lo desde meados de janeiro de 2025. Só não me pergunte o porquê desse quase um mês de diferença de exibição entre os dois países sul-americanos. Não faço ideia. O elenco de “Emilia Pérez” é constituído por uma mescla de nomes conhecidos no cinema norte-americano e de figuras com popularidade restrita à Europa e ao México. O filme é estrelado pela espanhola Karla Sofía Gascón , do seriado “Senhor dos Céus” (El Señor de los Cielos: 2013/2024), pela norte-americana Zoë Saldaña , de “Star Trek” (2009) e “Avatar” (2009), e pela norte-americana Selena Gomez , de “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018). Não preciso dizer que as duas últimas atrizes que citei são as famosinhas de Hollywood. Completam o elenco principal a mexicana Adriana Paz , o venezuelano Édgar Ramírez e o israelense Mark Ivanir . Como se trata de um musical (eu falei que é um musical, né?), sinto-me na obrigação de apresentar a equipe técnica responsável pelas canções e pelas cenas dançantes. Certamente, Marcelinha, da Dança & Expressão e da coluna Dança , ficará orgulhosa do irmãozinho por esse cuidado da parte dele. Camille , cantora e compositora francesa, criou as faixas originais do filme ao lado do marido, Clément Ducol , cantor, compositor, arranjador e orquestrador francês. Destaque para a empolgante “El Mal” (talvez a melhor cena do longa – e do cinema em 2024) e a emocionante “Mi Camino” (que revendo agora não parece tão boa, mas durante a sessão foi bastante impactante). A produção musical é do também francês Pierre-Marie Dru . Já a coreografia ficou à cargo de Damien Jalet , coreógrafo e dançarino franco-belga. Confesso que só por este trecho de “El Mal”, eu daria o Oscar para Zoë Saldaña como Melhor Atriz Coadjuvante e para Camille/Clément Ducol como Melhor Canção Original. De lambuja, ainda premiaria o filme francês com os títulos de Melhor Som e de Melhor Trilha Sonora. Por falar nisso, essas quatro indicações me parecem como as com mais chances de resultarem em estatueta para “Emilia Pérez”. Juro que não vejo um adversário à altura para sequer concorrer com a produção de Audiard nesse quarteto de quesitos. Quando o assunto é música e dança, o Oscar de 2025 me parece óbvio. Falei, falei e falei sobre o filme e ainda não apresentei em detalhes seu enredo. Onde estou com a cabeça, né?! Então aí vai, senhoras e senhores, a explicação pormenorizada da trama de “Emilia Pérez”. Essa história começa na Cidade do México. Rita Mora Castro (interpretada por Zoe Saldaña) é uma jovem e solitária advogada que ainda não conquistou o merecido espaço profissional. Com problemas financeiros e amargurada pela falta de reconhecimento, ela se sujeita a fornecer argumentos e teses jurídicas para que outros advogados brilhem no tribunal e aos olhos da imprensa. É o caso da defesa de um sujeito preso por praticar feminicídio. Por mais que haja provas contra ele, Rita consegue desenvolver uma linha de defesa brilhante que o livra das garras da lei. Feliz com o trabalho impecável do ponto de vista do Direito Criminal, ela assiste ao advogado responsável pelo caso (que a contratou como mera assistente) e o cliente saírem festejando do julgamento. Esse é um bom retrato do quão machista e injusta é a sociedade mexicana. Entretanto, para a surpresa da Doutora Castro, pouco depois da audiência final deste caso, ela recebe a ligação telefônica de um homem misterioso a parabenizando pelo excelente trabalho. Como ele sabe que foi ela, e não o advogado que aparece na TV, a responsável pela defesa do agora “inocente assassino” da esposa? Enquanto a moça faz esse tipo de elucubração, o cara no outro lado da linha pede uma reunião urgente e passa um endereço suspeito. Ele quer se encontrar imediatamente com a advogada para que ela cuide de um caso delicado dele. Por mais receosa que fica com a abordagem nem um pouco convencional, Rita sabe que tem pouco a perder. As contas em casa se avolumam e ela precisa conseguir um novo trabalho remunerado sim ou sim. Dessa maneira, aceita o encontro numa rua barra-pesada da capital mexicana. O problema é que... como vou dizer isso para os leitores do Bonas Histórias ? Tá bom, vou ser direto assim como o filme foi. Ela é sequestrada quando esperava o possível futuro cliente chegar. Quem disse que Rita não tinha nada a perder, hein? Talvez a própria vida fosse algo que ela não pudesse abrir mão naquele momento. Ai, ai, ai. Em suma, a jovem é levada com o rosto tapado para um lugar longe da cidade. No meio do mato (o mais correto seria dizer no ermo deserto do interior do país), ela conhece o misterioso interlocutor. Trata-se de Juan Del Monte (Karla Sofía Gascón), um dos mais sanguinários traficantes de drogas. Seu apelido no submundo do crime era Manitas. Manitas Del Monte. Por mais chocante que seja o contato inicial com o poderoso e temido criminoso, Rita sente que não corre perigo ali. O bandido quer apenas contratá-la para um trabalho para lá de delicado. Del Monte revela que quer se tornar uma mulher. Há dois anos, toma hormônios femininos e se sente, enfim, pronto para fazer a operação de mudança de sexo. Seu sonho desde a infância/adolescência é abandonar o corpo masculino e viver num corpo que represente seus reais anseios. Se Rita o ajudar em todo o processo de se transformar em uma mulher, ela receberá alguns milhões de dólares em sua conta bancária. As responsabilidades da advogada são: escolher o melhor centro médico no exterior para fazer a cirurgia; gerar os documentos legais para a nova pessoa que surgirá da sala de operações; cuidar para que a fortuna ilegal do traficante seja transferida para contas insuspeitas no exterior; providenciar a mudança da família dele – mulher (Selena Gomez) e dois filhos – para a Europa, onde deverão viver com conforto e segurança; simular a morte de Del Monte para aplacar as possíveis suspeitas dos inimigos; e cuidar da recuperação médica dele/dela nas primeiras semanas e meses do pós-cirurgia. O único pedido do traficante é que Rita não conte NADA sobre esse plano para NINGUÉM. NINGUÉM pode saber da transformação! NEM mesmo Jessi, a esposa dele, e os filhos do casal saberão o que aconteceu efetivamente com Juan Del Monte. Para O MUNDO INTEIRO (familiares, amigos, funcionários do cartel de drogas, mídia, polícia, governo etc.), o sanguinário traficante faleceu e ponto final. E, a milhares e milhares de quilômetros de distância do México, viverá uma mulher com abastada situação financeira, que não tem qualquer vínculo com o defunto, o universo das drogas e a família Del Monte. Com a aprovação de Rita, o plano é colocado em prática e realizado com total êxito. Por sua competência profissional, a advogada certifica-se que tudo saia conforme o planejado. Nasce, assim, Emilia Pérez (Karla Sofía Gascón) na sala de cirurgia do Dr. Vasserman (Mark Ivanir), um respeitado médico israelense. Enquanto isso, Juan Del Monte, segundo as notícias dos principais veículos de comunicação do México, morre em um trágico atentado terrorista promovido por facções rivais. Quando se certifica que a (ex)mulher e os filhos estão bem alojados na Suíça, apesar da tristeza pela sua morte, e que está plenamente recuperada da operação, Emilia paga a fortuna prometida para Rita e some no mundo. Nem a doutora sabe para onde a nova mulher foi e o que fará da vida a partir de agora. Quatro anos mais tarde, Rita está vivendo em Londres. Ela deixou o México há um tempão e foi trabalhar na capital inglesa. Apesar da vida abastada e do sucesso profissional, uma coisa não mudou: ela continua extremamente solitária. Em uma saída despretensiosa de happy hour, a advogada conhece uma mexicana que também imigrou para a Europa. O bate-papo entre as duas flui facilmente, o que faz despertar em Rita a sensação de que conseguirá uma amizade com a compatriota. Nada como a ligação cultural para aproximar as pessoas e derrubar barreiras de relacionamento. Entretanto, no meio da conversa descontraída no restaurante/bar londrino, a ficha cai. Quem está ali diante de Rita não é uma completa desconhecida. Trata-se dela – Emilia Pérez. A mulher trans procurou a antiga funcionária porque quer contratá-la mais uma vez. Agora a missão é fazer com que a viúva e os órfãos de Juan Del Monte retornem com segurança à Cidade do México. Emilia sente muitas saudades deles e não consegue mais viver longe dos filhos. Assim, quer se passar por irmã de Juan e levar os parentes para viverem com ela em uma mansão nas redondezas da capital mexicana. Caberá a Rita efetuar a operação de mudança de residência de todos sem que ninguém desconfie de nada. O que as duas personagens femininas do filme de Jacques Audiard não imaginavam eram as incontáveis surpresas que as esperavam no retorno à terra natal. Enquanto tenta reconquistar a confiança da ex-mulher, agora no papel de cunhada, e dos filhos, agora transmutados em sobrinhos, dentro de casa, Emilia buscará fora do lar um novo objetivo profissional, totalmente antagônico àquele do antigo chefão do tráfico. Nessa nova empreitada, ela vai querer ter como braço direito alguém de sua máxima confiança. Começa aí o segundo capítulo da parceria entre a visionária Emilia Pérez e a destemida Rita Mora Castro. O longa-metragem “Emilia Pérez” tem duração de duas horas e dez minutos. Como já falei (falei? Falei sim!), ele é um musical dramático . Por que reforço essa questão? Porque sei que tem muita gente que não gosta desse tipo de filme. Eu adoro. Ainda assim, é bom dizer que a produção francesa é um musical com pegada light. O que seria isso? Ele não é todo musicalizado. Há cenas cantadas e dançadas, ao melhor estilo ópera. Porém, há muitas cenas dramatizadas do jeito convencional, como se não fosse um musical. Para completar, Audiard ainda foi pelo meio do caminho em alguns momentos e inseriu partes que são um mix dos dois universos cinematográficos: interpretação convencional com fragmentos de cantoria, mas sem dança. Portanto, “Emilia Pérez” está mais para "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016) e “O Rei do Show” (The Greatest Showman: 2017) do que para “Evita” (1996) e “Mamma Mia!” (2008). Esse talvez tenha sido o maior acerto deste longa. Ao não abraçar totalmente o musical, ele permitiu dialogar com uma multidão de cinéfilos que tem sérias dificuldade para compreender as mensagens transmitidas pelas canções. Nunca vou me esquecer do relato de uma amiga querida quando terminamos de ver “Evita”. Eu estava empolgado com o que presenciei e ela mostrava-se bastante entediada com nossa sessão caseira de cinema. Aí perguntei: “Do que você não gostou, afinal?!”. E ela surpreendentemente disparou como uma bomba: “Esperei, esperei, esperei o filme começar e ele nunca começou. Os atores só ficaram cantando. Uma vez tudo bem, mas o filme inteiro não dá. Uma chatice!”. Inconformado com o que ouvi, insisti no questionamento: “E você não cogitou a ideia de compreender as letras das músicas de ‘Evita’?!”. Aí ouvi algo que me perturbou por anos: “Não!”. Como alguém assiste a um musical e não procura interpretar a mensagem do que é cantado em cena, Santo Deus?! Assim, é possível todos os públicos assistirem a “Emilia Pérez” sem crise e sem discussão pós sessão de cinema. Em tempos em que o paladar das plateias está mais para as sagas de super-heróis do que para as produções surrealistas, esse expediente se faz obrigatório. Em outras palavras, até os espectadores com pouquíssima disposição interpretativa – beijinho, Iris! – conseguirão acompanhar esta trama numa boa. É claro que se você tiver sensibilidade aguçada para a overdose sonoro-musical criada por Jacques Audiard, mais impactante será a experiência cinematográfica. Sei que já disse isso, mas insisto, repito: várias cenas musicais de “Emilia Pérez” são simplesmente sensacionais! Além das já citadas passagens de “El Mal” e “Mi Camino”, posso apontar como destaques positivos “El Alegato”, no comecinho do filme em que Rita é apresentada como uma profissional engajada e competente, “Todo y Nada”, quando conhecemos o drama da advogada sem dinheiro e sem perspectiva profissional que aceita se encontrar com o cliente misterioso, “La Vaginoplastia”, processo médico de mudança de gênero de Juan Del Monte/Emilia Pérez, e “Bienvenida”, já no meio do longa-metragem quando Jessi, a esposa/viúva de Juan volta para o México e vai viver na casa de Emilia. Quem acompanhou com atenção as cenas que selecionei acima deve ter notado a extensa variedade de ritmos musicais contemplados nessa produção. É um tal de Hip-hop , Pop, Rap, Eletrônico, Balada Romântica, Rock etc. Com um pouco de boa vontade do ouvinte, dá até para escutar Corridos Tumbados e Reggaeton, gêneros que são, respectivamente, a cara do México e da América Central. A sensação é que cada momento desta história tem um estilo musical característico, que foi pensado para se encaixar com precisão naquela tensão dramática. Incrível, né?! É bom que se diga que essa pluralidade melódica confere um ar de modernidade a “Emilia Pérez”. Convenhamos que falar de musical no cinema remete automaticamente aos anos 1950, a Era de Ouro dos musicais hollywoodianos. Por isso, achei que o filme de Audiard tem uma pegada carismática, versátil e contemporânea, o que dialoga com seu enredo engajado e com cara do século XXI. Ao mesmo tempo, somos levados a uma viagem sonora extremamente fidedigna pelo México dos dias de hoje. Falo com propriedade de causa pois estou muito ligado ao cenário musical latino – conforme apresentado no mês passado no post com as Melhores Músicas Ruins da América Latina . A equipe de compositores e da trilha sonora de “Emilia Pérez” até pode ser totalmente francesa, mas a sonoridade do longa-metragem é beeeeeeeeem mexicana/latina. Seguro ! Em relação ao enredo, a história é boa. Porém, não mais do que isso. Convenhamos que não se trata de uma trama muito original. Ou alguém aí se esqueceu de “Grande Sertão: Veredas” (Companhia de Bolso), clássico de João Guimarães Rosa, hein? Para não cometer sacrilégios literários, o romance do brasileiro mostra exatamente o inverso do drama de “Emilia Pérez”. Só não dou mais detalhes para não deixar escapulir o spoiler de um dos mais incríveis livros nacionais – se bem que acho que já dei. Ai, ai, ai. Para quem quiser utilizar a falta de originalidade para diminuir o filme de Jacques Audiard, preciso dizer que (quase) todos os principais postulantes ao Oscar de 2025 escorregam neste aspecto. É senhoras e senhores, temos um problema de criatividade nesta temporada cinematográfica. Não acredita em mim? Então vejamos... “A Substância” é uma mistura de “Homem Elefante” (The Elephant Man: 1980), “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard: 1950) e “Professor Aloprado” (The Nutty Professor: 1963). “Anora” é um mix de “Uma Linda Mulher” (Pretty Woman: 1990), “Esqueceram de Mim” (Home Alone: 1990) e “Se Beber, Não Case!” (The Hangover: 2009). “Conclave”, convenhamos, lembra bastante “Dois Papas” (The Two Popes: 2019), “O Sequestro do Papa” (Rapito: 2023) e boa parte dos romances de Dan Brown. Por sua vez, “Babygirl” seria uma releitura de “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019) ou até mesmo de “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023). “Um Completo Desconhecido” é a versão menos charmosa e carismática de “Nasce Uma Estrela” (A Star Is Born: 2018). Meus conterrâneos que me desculpem, mas até mesmo “Ainda Estou Aqui” vai pelo mesmo caminho. Se o romance de Marcelo Rubens Paiva era impactante na época de seu lançamento (e ainda é!), um filme com esse enredo em 2025 encontramos a rodo. Não se esqueça que estamos discutindo a originalidade dos longas-metragens. Só no cinema argentino, posso listar algumas histórias parecidas à da produção de Walter Salles: “O Clã” (El Clan: 2015), “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009), “Argentina, 1985” (2022) e “Garagem Olimpo” (Garage Olimpo: 1999). Poderia passar um dia inteiro listando os exemplos. Note, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias , que minha análise é imparcial. Por favor, não me atirem pedras só porque meu comentário vai contra a sua (na verdade, nossa) torcida. Um pouco de maturidade não faz mal a ninguém. Talvez “O Brutalista” seja o enredo mais original – ainda assim senti uma pontinha de déjà vu que não sei explicar. Por isso, não seria surpresa se ele acabar abocanhando a principal estatueta em disputa na noite de 2 de março. Além de ser tão bom quanto os concorrentes, não apresenta falhas graves de execução da trama nem de falta de criatividade do enredo. Ainda neste texto, falarei mais sobre as qualidades do longa-metragem de Brady Corbet, que tem tudo para ser o grande destaque do próximo Oscar. Respira, expira. Respira, expira. Respira, expira. Voltemos a “Emilia Pérez”. Se o filme francês derrapa um pouco no quesito surpresa da história (acho que até eu escrevi uma narrativa curta com essa pegada em 2018 na coluna Contos & Crônicas ; ela se chamava “Aos Quarenta” e fazia parte da série literária “Paranoias Modernas” ), não podemos negar que ao menos a trama é bem contada (por sinal, mérito de todos os postulantes ao Melhor Filme do Oscar). Do ponto de vista técnico, temos dois ciclos narrativos neste longa-metragem. O primeiro vai da apresentação de Rita até a cirurgia de redesignação sexual da protagonista. O segundo inicia-se com o encontro, na Inglaterra, da advogada com Emilia já plena no novo corpo e sonhando com a volta ao México. As duas partes são boas (é até difícil dizer qual é a melhor), mas o clímax da segunda é sensacional. Aí vemos o quão impactante é esta produção e os motivos de sua aclamação entre público e crítica cinematográfica. Quando Emilia vê que poderá perder o que lhe é mais valioso (olha como fui sutil para não dar o spoiler!), ela deixa de lado o altruísmo, a delicadeza e a bondade e vira um bicho. No caso, um animal raivoso, vingativo e muito violento. É como se, enfim, a mudança de gênero se consumasse. Afinal, a personagem deixa o papel de pai para assumir o de mãe – algo muito mais intenso. Incrível assistir a essa transformação na telona. Ao mesmo tempo, quando incorpora a função de mãe, seu lado masculino (mais violento) aflora, gerando um ruído desconcertante e uma desconstrução assustadora. É ou não é brilhante, hein? Para encerrar a seção de elogios, tenho que comentar a atuação primorosa do trio de atrizes que comanda as ações de “Emilia Pérez”. Karla Sofía Gascón, Zoë Saldaña e Selena Gomez estão impecáveis. Gascón se saiu muitíssimo bem em seu primeiro papel de protagonista em uma produção de primeiro escalão do cinema mundial. Se ela não dá show nas cenas musicais como as duas colegas (não é cantora nem tem gingado para dança), na parte dramática mostra enorme competência. De qualquer forma, não me parece que seja suficiente para conquistar o Oscar de Melhor Atriz. E falo isso não porque a espanhola se envolveu em várias polêmicas recentes e queimou o próprio filme entre os jurados da Academia e o público no geral. O motivo é que seu desempenho não foi tão espetacular assim. Para mim, a estatueta ficará com Mikey Madison, de “Anora” (ou Fernanda Torres, de “Ainda Estou Aqui” ). Essa sim foi BRILHANTE! Quem também deve erguer o prêmio no evento californiano é Zoë Saldaña. Na minha humilde visão (míope de dez graus), a intérprete de Rita Mora Castro merece o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante em 2025. Prova disso é que a norte-americana roubou a cena várias vezes em “Emilia Pérez”. Há inclusive a sensação de boa parte do público de que é ela a protagonista desta história e não tanto a personagem de Karla Sofía Gascón. Esse “roubo” de protagonismo só é possível com uma atuação impecável da atriz pretensamente coadjuvante. Saldaña esteve perfeita tanto nos momentos dramáticos quanto nas cenas de canto e dança. Juro que não sabia que ela era tão talentosa. Se esse não for um desempenho digno de estatueta dourada, não sei mais o que é um trabalho fenomenal. Até Selena Gomez, que nunca foi reconhecida como uma atriz de primeira categoria em Hollywood, está sublime. É óbvio que ela se sente mais à vontade quando a música toca e é preciso cantar e dançar. Não por acaso, esse é o ponto alto de sua atuação em “Emilia Pérez”. Reveja a cena de “Bienvenida” e me diga se ela não está perfeita no papel de prisioneira na mansão da “cunhada”. Juro que saí do Multiplex Belgrano cantarolando os versos: “ Bienvenida/A tu país amado, bonita/A tu lujosa cárcel, primita/Donde todo es caro, encantada/Y gracias a la familia, bienvenida” . A grata surpresa é que até mesmo nos momentos de maior tensão dramática, Gomez se saiu muitíssimo bem. Não é errado enxergarmos esse como seu melhor trabalho no cinema até hoje. O problema é que nem tudo são flores neste jardim colorido e cheiroso. “Emilia Pérez” tem alguns graves tropeços que podem comprometer suas aspirações no principal evento do audiovisual mundial. O maior deles, um erro gravíssimo de natureza narrativa que escancara que Jacques Audiard ainda não está preparado para desenvolver sozinho os roteiros de seus filmes, é de foco narrativo . Isso fica claro na dúvida que temos durante a sessão de quem é de fato a protagonista da trama. Afinal, estamos acompanhando a história de Rita Mora Castro ou a história de Emilia Pérez? Se você também ficou em dúvida, informo que o problema é do foco narrativo , um conceito da ficção que abrange tanto a Literatura quanto o Cinema – por isso, o expliquei na coluna Teoria Literária . A confusão de quem está no centro do drama vai do início ao fim do filme. No começo da película, temos a certeza de que a protagonista é Rita. Contudo, pouco a pouco, Emilia vai tomando conta das ações até deixar a advogada escanteada. Aí, assistimos ao movimento inverso. De repente, Emilia perde força e temos a ascensão de Rita na parte final do longa. Isso tudo é muito confuso para quem busca uma lógica ficcional por trás dos acontecimentos da telona. Para completar, ainda há erros crassos de foco narrativo na execução de várias cenas. Um bom exemplo disso é quando o médico israelense é levado para uma entrevista com Juan Del Monte no deserto mexicano. Rita fica do lado de fora esperando a audiência do patrão com o doutor. A câmera inclusive permanece ao ladinho da personagem de Zoë Saldaña. Mesmo assim, conseguimos acompanhar os diálogos que ocorrem entre os homens. Como isso é possível se o foco até então estava com a advogada e não com Juan/Emilia?! Não faz sentido nenhum. Além da falha do foco narrativo , “Emilia Pérez” tem um problema de ritmo narrativo. No meio do filme, a história dá uma parada comprometedora para quem almeja o prêmio máximo do cinema. É como se o roteirista tivesse perdido a mão e/ou estivesse pensando o que fazer dali em diante. Como consequência, o espectador na sala de cinema cruza os braços e dá aquela suspirada entediada. Esse é um tipo de erro inadmissível que, infelizmente, aconteceu com vários postulantes ao Oscar nesta temporada. Por exemplo, em “Anora”, o problema de ritmo narrativo é até mais intenso. Simplesmente o roteiro está desequilibrado – demora-se uma hora para se chegar ao conflito. Em menor escala, “Babygirl” e “Um Completo Desconhecido” têm dificuldades no meio da sessão. Já “A Substância” padece com o fim alongado. Novamente a única produção que sai ilesa de críticas é “O Brutalista”. Tá entendendo o porquê começo a acreditar em suas chances, hein?! Curiosamente, por mais graves que sejam as falhas de natureza narrativa de “Emilia Pérez”, não foram esses os aspectos que geraram a onda de indignação na plateia mundo à fora. O problema é que o filme lacrador foi, no fim das contas, lacrado. É aquela velha máxima: quem lacra hoje pode ser lacrado amanhã. E quem surfa numa grande onda que se avolumou de repente pode ficar parado depois que o movimento da água encerrar. Por dialogar com temas contemporâneos (machismo, feminicídio, transfobia, lavagem de dinheiro, corrupção, drogas, violência), o longa-metragem de Jacques Audiard incomodou bastante os mexicanos, cujo país foi retratado na tela com possíveis tintas depreciativas. Pelo menos foi essa a reclamação geral. Muitos não gostaram da maneira como sua nação foi retratada e acusaram o cineasta francês de preconceituoso. Apesar de não ter visto nem um tipo de indelicadeza do roteiro (para mim, ele soou fidedigno), entendi o lado dos mexicanos. Uma coisa é um conterrâneo criticar as mazelas de sua própria terra. Outra é um estrangeiro vir e apontar o dedo para as suas deficiências. Aí o caldo entorna. Entretanto, o que pesou mais para os mexicanos foi a sua cultura extremamente conservadora, que viu como uma afronta uma trama tão progressista ambientada em seu país. É importante alertar que o México é um país extremamente machista, religioso, homofóbico e transfóbico. Se você acha que o brasileiro é assim, então precisa dar uma passadinha na América Central para ver os preconceitos sociais potencializados a níveis assustadores. Portanto, mostrar um machão violento virar uma mulherzinha sensível num filme internacional é como dar uma punhalada na alma nacional dos descendentes dos maias e astecas. Na onda de má vontade dos mexicanos com “Emilia Pérez”, principalmente depois que o longa foi bem-sucedido em Cannes e no Globo de Ouro, começaram a surgir vários apontamentos negativos sobre produtores e elenco. As atrizes selecionadas para os principais papeis não eram mexicanas. O espanhol falado por elas não tem o sotaque da América Central. Karla Sofía Gascón tem um histórico interminável de declarações polêmicas e politicamente incorretas. Até a utilização da Inteligência Artificial (IA) para corrigir as cenas musicais entrou na pauta das críticas – como se o uso da tecnologia fosse uma novidade no cinema contemporâneo. Além disso, é importante dizer que os Estados Unidos vivem, desde a última eleição presidencial, sob forte ventania conservadora. Até onde o retorno dos valores da extrema-direita, que prega o ódio às pessoas trans, aos estrangeiros (principalmente os mexicanos), às mulheres, ao consumo das drogas e à cultura externa, poderá atrapalhar a conquista da 13ª estatueta de Melhor Filme Internacional (e primeiro na categoria geral) pelos franceses?! E será que a avalanche de comentários negativos que “Emilia Pérez” vem recebendo há semanas influenciará o voto dos jurados? Essas são dúvidas que não consigo responder. O que posso garantir com alguma convicção é que, há pouco menos de um mês para o Oscar, “Emilia Pérez” vive seu período de inferno astral. Também posso assegurar que temos aqui um filme de muita qualidade, mas com problemas graves (QUE NINGUÉM CITA!) que compromete a experiência cinematográfica da plateia. Por isso, não seria surpresa se ele ganhasse o Oscar (os jurados relevariam seus tropeços narrativos) ou se perdesse para “O Brutalista” (esse sim um longa-metragem sem contestação). Das produções que assisti até agora, essa dupla é inegavelmente a melhor. Em suma, a minha intuição (que em se tratando de Oscar sempre falha) diz que “Emilia Pérez” ganhará como Melhor Filme Internacional e “O Brutalista” ficará com o troféu de Melhor Filme. Mas então o Brasil voltará de mãos abanando? Não. Sinto que Fernanda Torres poderá levar como Melhor Atriz (se perder, será para Mikey Madison), enquanto Zoë Saldaña será coroada como a Melhor Atriz Coadjuvante. A produção francesa ainda ganhará como Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Canção Original (“El Mal”) e Melhor Som. Nada mal voltar para a França com cinco troféus na bagagem. Contudo, “Emilia Pérez” perderá os troféus de Melhor Roteiro Adaptado (para “Conclave”), Melhor Cabelo e Maquiagem (para “A Substância” ), Melhor Edição (“O Brutalista”) e Melhor Fotografia (“O Brutalista”). Como deixei claro desde o início desse parágrafo, essas são só as minhas precárias opiniões pelo que vi e avaliei. Certamente errarei todas as previsões, como faço há alguns anos. Assista, a seguir, ao trailer de “Emilia Pérez” (2024): Enquanto a cerimônia do Oscar não chega, sigo aguardando o lançamento de “Ainda Estou Aqui” nos cinemas argentinos. Prometo que tão logo a produção de Salles entre em cartaz em Mi Buenos Aires Querido, vou assisti-la com alguma isenção. Aí produzirei um post para a coluna Cinema com as minhas sinceras impressões. Só desse jeito, terei uma avaliação completa das chances brasileiras de conquista em Los Angeles. Se isso porventura acontecer, é bom dizer, será a maior façanha verde-amarela no campo artístico-cultural internacional. Repito em alto e bom tom: “Ainda Estou Aqui” se tornará a MAIOR REALIZAÇÃO das artes brasileiras da história se abocanhar o prêmio de melhor filme do Oscar. Por essas e outras, a nossa grande expectativa por um resultado positivo. Torcemos, meu povo. Torcemos para o Brasil, para nossa cultura, para o cinema nacional, para Walter Salles e para Fernanda Torres. Torcemos!!! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: Nós Que Vivemos – O impecável romance histórico de Ayn Rand
Publicada em 1936 e relançada em 1958, a narrativa ficcional de estreia da escritora russa tem tintas autobiográficas e apresenta o drama de uma jovem burguesa de São Petersburgo logo após a Revolução de 1917. A protagonista desta obra encara o totalitarismo, as privações, a violência e as injustiças do regime comunista da recém-implementada União Soviética, enquanto faz as descobertas das incongruências do primeiro amor. Neste começo de 2025, li um romance histórico que me deixou encantado. Para ser sincero com os leitores do Bonas Histórias que não me abandonam nem mesmo às vésperas do atrasado Carnaval (Tem alguém aí? Alguém? Alguéeeeeem?!), esta obra é uma das melhores ficções literárias que tive a oportunidade de degustar nos últimos anos. Juro que fiquei embasbacado (para mim, embasbacado é um baita elogio, tá?) com a qualidade narrativa, a força da trama, a riqueza das personagens e as reviravoltas deste drama sentimental e filosófico . Para completar a pegada charmosa da publicação, o enredo é ambientado na fase inicial da Revolução Russa Mas de que livro mesmo estou comentando?! Obviamente, me refiro (conforme você, tal qual um Sherlock Holmes ou uma Miss Marple, já notou pelo título e subtítulo do post) nessas intermináveis linhas a “Nós Que Vivemos” ( Minotauro ), o título ficcional de estreia de Ayn Rand . Infelizmente, em tempos de ditadura dos algoritmos e dos SEOs, é impossível fazer pequenas surpresas aos leitores nem um pouco desavisados desse mundão selvagem e arruaceiro chamado Internet. Foi mal! Gostei tanto do romance de Rand que o escolhi para abrir os trabalhos da coluna Livros – Crítica Literária nesta novíssima temporada do blog. Portanto, aí vai a análise completa desta obra que me lembrou bastante “Orgulho e Preconceito” (Penguin-Companhia), o clássico de Jane Austen que figura na lista das minhas melhores leituras. Também me recordei de outras três belíssimas publicações: “ A Bicicleta Azul” (BestBolso), o maior sucesso de Régine Deforges , “Gina” (Ática), a mais polêmica narrativa de Maria José Dupré , e “Amor em São Petersburgo” (BestBolso), um dos principais trabalhos ficcionais de Heinz G. Konsalik. Se não antecipo os motivos dessas associações aparentemente absurdas (um pouco de suspense não faz mal e, siiiiiiim, ainda é possível de ser empregado num texto analítico!), posso adiantar para quem acompanha a lista das melhores manifestações artísticas de cada ano da coluna Recomendações que certamente encontraremos “Nós Que Vivemos” no topo do ranking das leituras mais impactantes de 2025. Já consigo fazer esse tipo de previsão em fevereiro mesmo. Só não dá para definir a posição exata que a trama de Ayn Rand ficará no pódio. Ainda assim, não me surpreenderia se ela ficar nas três primeiras colocações. Ganhei essa obra de presente em setembro de 2024, em minha última (e brevíssima) visita à São Paulo. A passagem pela Terra da Garoa foi tão rápida que minha família nem soube. No encontro com a dupla de meus melhores amigos (abraços, Paulinho e Dudu) na Casa Capim Santo , restaurante dentro do Instituto Tomie Ohtake – a família não soube da viagem, mas os amigos souberam –, Eduardo Villela (amigo de infância e agora parceiro profissional na EV Publicações – ele não gosta que o chamemos de chefe) apareceu com uma sacola com vários livros. Eram regalos tanto para mim quanto para o Paulo. O velho colega de tempos de Colégio Rio Branco tem essa mania de surgir com um monte de publicações embaixo do braço, algo que a Adriana não conseguiu corrigir após oito anos de matrimônio (beijinho, Dri!). Aposto que você também deve ter amigos, colegas, parentes e conhecidos com esse vício. Como sabe que leio com empolgação tudo o que cai em minhas mãos, Eduardo parece se assanhar ainda mais na arte de propiciar presentes literários com enorme qualidade estética e narrativa. Naquele dia à mesa do restaurante da Chef Morena Leite (que saudades eu estava da comidinha tipicamente brasileira!!!), ganhei “A História da Cachorra que Mudou a Minha Vida e Vai Mudar a Sua Também” (EV Publicações), a divertida não ficção de Leandro Sosi sobre sua experiência com a Golden Retriever Julieta, e “A Escrita Criativa – Pensar e Escrever Literatura” (EdiPUCRS), a belíssima coletânea de ensaios sobre o fazer literário organizada por Camila Canali Doval, Camila Gonzatto da Silva e Gabriela Silva. E saiba que não usei a palavra “belíssima” na frase anterior à toa. Esse último título entrou na lista de melhores leituras de 2024 . Além de “A História da Cachorra que Mudou a Minha Vida e Vai Mudar a Sua Também” e “A Escrita Criativa – Pensar e Escrever Literatura”, ganhei, por supuesto , “Nós Que Vivemos”, um tijolão de quase 600 páginas. Confesso que li os dois títulos menores antes mesmo de chegar à minha casa em Buenos Aires. Devorei-os nos saguões dos aeroportos de Guarulhos e de Ezeiza e dentro do avião da Aerolineas Argentinas. Pelo volume enorme de páginas, senti que o romance de Ayn Rand exigia uma atenção especial da minha parte. Não dava para lê-lo de bate-pronto nem conseguiria apreciá-lo no vai-e-vem de metrô, trem, ônibus, avião e colectivo . A jornada entre o Jardim São Paulo (minha parada estratégica na capital paulista) e Saavedra (meu cada vez mais querido lugarzinho no mundo) demandava, acredite se quiser, em torno de 12 horas. Por isso, guardei o presentão (literalmente falando) com carinho. A ideia era só abrir suas páginas na calmaria do janeiro portenho. E foi exatamente isso o que aconteceu. No primeiro momento de tranquilidade após o Réveillon no pequeno apê ao lado do Parque Saavedra (que enfim voltou a ficar vazio – saravá!), corri até a estante e apanhei “Nós Que Vivemos” para efetuar a tão aguardada leitura. Como é bom conhecer os melhores títulos da literatura clássica , né?! No caso, esse é um exemplar tanto da literatura russa (país natal de Rand) quanto da literatura norte-americana (nação em que ela se naturalizou). A história por trás da produção e da publicação de “Nós Que Vivemos” é bem interessante e vale o detalhamento neste post da coluna Livros – Crítica Literária . Ayn Rand é o nome artístico de Alisa Zinov'yevna Rozenbaum . Agora você entendeu o porquê da necessidade do nome artístico, né? Escritora, dramaturga, roteirista e filósofa nascida em São Petersburgo em fevereiro de 1905, Ayn vivenciou a Revolução Russa de perto, um dos momentos mais emblemáticos do século XX. Ela tinha 12 anos quando o czar foi deposto pelos bolcheviques liderados por Vladimir Lenin. Por ser de uma família burguesa, a menina assistiu ao confisco dos negócios paternos e à perseguição à antiga elite por parte das autoridades comunistas. Em meio as carências financeiras, Ayn Rand (então Alisa Rozenbaum) cresceu e se formou em Pedagogia Social. Fã de filosofia, devorava os livros dos principais pensadores russos e europeus da época. Seu sonho desde a infância era se tornar escritora. Em fevereiro de 1926, Ayn/Alisa viajou para Chicago com a justificativa de visitar parentes que imigraram para os Estados Unidos antes da Revolução Russa. Contudo, sua intenção desde o início era ficar na América do Norte e trabalhar como roteirista de cinema. Assim, nunca mais voltou para a União Soviética/Rússia. Almejando uma carreira em Hollywood, se mudou para Los Angeles. O único problema da agora cidadã norte-americana era a distância da família. Os pais e as duas irmãs mais novas jamais conseguiram a permissão para emigrar ou viajar para o exterior. Assim, o restante do clã permaneceu a vida inteira em São Petersburgo. No novo país, Ayn Rand se casou com um norte-americano e começou, conforme seu plano, a atuar como roteirista. Em 1930, então com 25 anos, ela alimentava o sonho de escrever um romance. A ideia inicial era produzir uma ficção científica. Entretanto, o marido e a família dele incentivaram a jovem escritora a contar uma história que se passasse em sua terra natal. Por mais que os ocidentais imaginassem como era a vida na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os dramas vivenciados pela classe burguesa russa com a mudança de sistema político em 1917, ainda assim havia muito o que ser contado. Se sentindo à vontade com a narrativa que lhe foi sugerida, Ayn escreveu entre 1930 e 1933 seu primeiro livro ficcional, uma trama dramática protagonizada por Kira Argounova, uma jovem burguesa que era extremamente pragmática e pouquíssimo sentimental. Ainda que nada emotiva e achando-se com repulsão ao romantismo, a moça precisou encarar incontáveis desafios para sobreviver na São Petersburgo recém-transformada em comunista. Esse é o enredo de, voilà , “Nós Que Vivemos”, um romance romântico extremamente original. Pode um título romântico ter como protagonista uma figura antirromântica, Arnaldo? Independentemente da resposta do ex-juiz de futebol, já deu para sentirmos o nível de criatividade desta narrativa. Quando falei que o livro é excelente, não exagerei! Usando as lembranças da infância e da adolescência para criar o cenário da obra, aproveitando-se das histórias reais da família para montar o enredo e se inspirando em pessoas reais para compor as personagens fictícias, Ayn Rand fez de “Nós Que Vivemos” seu trabalho literário mais autobiográfico. Por mais que ela sempre tenha negado que ela fosse Kira, as semelhanças das trajetórias das duas dão margens a comparações. Uma das raras diferenças era que a russa verdadeira queria contar histórias e a russa de mentirinha queria construir edifícios. Até o mesmo namorado elas compartilharam. Leo, o primeiro amor da protagonista ficcional, foi baseado em um homem real com quem Ayn/Alisa se apaixonou em São Petersburgo. Incrível a união de realidade e invenção literária, né? Concluída a narrativa do romance, a escritora precisou de mais três anos para achar uma editora norte-americana que quisesse publicar sua história. As recusas se avolumavam. Em um setor dominado por profissionais de esquerda (até hoje o mercado editorial é assim em boa parte do mundo, e não era diferente nos Estados Unidos Pré-Guerra Fria), ninguém queria criticar a União Soviética e o sistema socialista, visto como uma inovação social encantadora. Naquele momento, os inimigos aparentemente mais cruéis e temidos dos capitalistas norte-americanos eram os nazistas e os fascistas. Apenas em 1936, a Macmillan , um dos mais tradicionais selos editoriais da Inglaterra que montou escritório na América do Norte, aceitou lançar “Nós Que Vivemos”. Ainda assim, os editores e os sócios brigaram feio. Algumas lideranças da empresa não queriam publicar um romance com tal linha editorial e cujo trabalho era de uma jovem autora estrangeira. Apesar das desavenças internas, o livro chegou, enfim, às livrarias. Aí surgiu um novo problema. Ele não caiu no gosto dos leitores e as vendas permaneceram tímidas por meses e meses. Nem mesmo a tentativa de transformar a história de Kira Argounova em peça teatral deu certo. Após algumas pouquíssimas apresentações, a produção cênica criada diretamente por Rand foi cancelada. Motivo: boicote do elenco. Pelo visto, não foram apenas os leitores que se sentiram incomodados com aquela história. Os atores e as atrizes, receosos da receptividade do público e da opinião pública, preferiram não se envolver com uma trama tão política. Para piorar ainda mais o quadro, a Macmillan alegou que perdeu os tipos utilizados na primeira impressão do livro. É bom dizer que, naquela época, não se usava placas e sim tipos nas gráficas. Sem os tipos (que se extraviaram ou foram extraviados), não era possível fazer uma segunda edição do romance. Isso é, se algum dia a primeira leva de unidades produzidas fossem desovadas das lojas, o que parecia difícil. Enquanto os norte-americanos desprezavam sem piedade “Nós Que Vivemos”, os europeus se apaixonaram pelo drama histórico concebido por Ayn Rand. Na virada dos anos 1930 para os anos 1940, a obra se tornou best-seller na Inglaterra, Dinamarca e Itália. No Velho Continente, o livro não era visto apenas como uma crítica contumaz à URSS e ao modelo socialista e sim como uma alegoria fidedigna às mazelas dos sistemas ditatoriais como um todo, inclusive aqueles comandados pela extrema-direita. A prova maior do êxito europeu do romance russo-norte-americano foi a adaptação ilegal de “Nós Que Vivemos” para as telonas. Um diretor italiano roteirizou a trama inaugural de Rand sem a aprovação da autora e o lançou de maneira pirata nas salas de cinema. A produção ficou tão volumosa que foi preciso dividi-la em dois filmes: “Nós Que Vivemos” (Noi Vivi: 1942) e “Adeus Kira” (Addio Kira: 1942). O sucesso da versão cinematográfica foi enorme, principalmente na Itália e na Alemanha. Cinco meses após o lançamento nas telas, o longa-metragem foi banido pelos governos da Bota e do Terceiro Reich. O motivo?! Caso você tenha pensado que foi por causa da pirataria, se enganou. Os fascistas e os nazistas viram que a história ambientada em São Petersburgo era na verdade uma crítica nem um pouco velada aos sistemas políticos implementados por Mussolini e Hitler. Falar mal do Duce e Führer?! Aí não pode, não! “Nós Que Vivemos” só se tornaria bastante procurado nas livrarias dos Estados Unidos após o êxito comercial de “A Revolta de Atlas” (Arqueiro), a principal publicação de Ayn Rand. Best-seller desde o seu lançamento em 1957, esse livro sim catapultou a carreira da romancista russa para um novo patamar. O frenesi gerado pela crítica elogiosa e pela avidez do público leitor foi realmente impressionante. “A Revolta de Atlas” é um dos mais importantes títulos literários de meados do século XX e elevou naturalmente a demanda pelas demais obras da autora. Dessa maneira, foi realizada, no final de 1958, uma segunda edição de “Nós Que Vivemos”. Lembremos que a editora tinha “perdido” os tipos gráficos da primeira edição do romance histórico ambientado na URSS. Aproveitando a nova publicação de sua narrativa de estreia, Ayn Rand revisou todo o texto de “Nós Que Vivemos”. Segundo relatou mais tarde, essa foi a primeira vez que ela releu seu trabalho inaugural. Apesar de não ter alterado nada significativo da estrutura da história, a russa mexeu bastante no texto com a proposta de deixar a narrativa mais fluída. A justificativa é que quando escreveu a trama na primeira metade da década de 1930, ela ainda não dominava o inglês. A versão brasileira, cuja tradução foi feita por Matheus Pacini , é baseada na edição de 1958 e não na de 1936. Atualmente, o primeiro romance de Rand contabiliza alguns milhões de exemplares vendidos só na América do Norte. Há quem ache este livro melhor do que “A Revolta de Atlas” – eu estou nesse grupo! Falo, obviamente, do ponto de vista literário (não sou filósofo para analisar os conceitos do Objetivismo, corrente que explicarei mais à frente). Pelo menos considero essa narrativa mais acessível, carismática e surpreendente do que a do grande best-seller da autora. Em suma, vejo “Nós Que Vivemos” como uma obra mais bem estruturada, mais bem acabada e agradável ao paladar dos fãs da boa ficção. Apesar do volume elevado de páginas (são mais de meio milhar), o li de maneira fluida, rápida e gostosa. Algo que, preciso informar, não aconteceu com “A Revolta de Atlas”, que é ainda mais volumoso (são mais de 1.200 páginas). Achei o quarto romance de Ayn Rand mal editado: com alguns péssimos diálogos e partes desconectadas. Para não ficarmos em um Fla-Flu de preferências literárias subjetivas (gosto mais desse título e menos daquele...), o correto, conforme a própria autora russa sempre alertou, seria ver os dois títulos como complementares. Se em “Nós Que Vivemos”, conhecemos de perto o problema do totalitarismo na vida das pessoas comuns, em “A Revolta de Atlas” recebemos algumas respostas do ponto de vista filosófico e moral para superar tal questão. Além disso, dá para fazermos intrincadas associações. Seria Leo (o namorado de Kira) a versão russa e malsucedida de Francisco D´Anconia, personagem do grande best-seller de Rand que, enfim, conseguiu prosperar sob o código ético e social do capitalismo?! Há muita gente que balança a cabeça para cima e para baixo quando ouve essa pergunta – também estou nesse grupo! Por falar em filosofia, Ayn Rand é mais conhecida como filósofa do que como escritora ficcional. Pudera: ela é a fundadora do Objetivismo , corrente que discute a realidade pelo ponto de vista da lógica, da percepção sinestésica, da moral, da metafísica e da política. Curiosamente, os principais pontos do Objetivismo foram lançados em alguns dos mais famosos romances da autora: “A Nascente” (Arqueiro), outro tijolão de 800 páginas publicado em 1943, e “A Revolta de Atlas”. Só mais tarde, Rand organizou os princípios da nova corrente filosófica em vários ensaios. Quando ela morreu em 1982, Leonard Peikoff , visto desde sempre como seu herdeiro intelectual, tratou de seguir explanando a teoria e a estrutura lógica do Objetivismo. Nesse sentido, podemos enxergar Ayn Rand como uma pensadora privilegiada do seu tempo que soube unir arte ficcional da mais alta qualidade com reflexões filosóficas originais e sagazes. Em outras palavras, ela é do time de Albert Camus – “O Estrangeiro” (Record), “A Peste” (Record) e “O Homem Revoltado” (Record) –, Virginia Woolf – “Orlando” (Penguin-Companhia), “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket) e “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica) –, Jean-Paul Sartre – “A Idade da Razão” (Nova Fronteira) e “A Náusea” (Nova Fronteira) –, Simone de Beauvoir – “A convidada” (Nova Fronteira) e “Os Mandarins” (Nova Fronteira) –, e Italo Calvino – “O Visconde Partido ao Meio” (Companhia de Bolso) e “Se Um Viajante Numa Noite de Inverno” (Planeta DeAgostini). Pelo meu histórico de leituras, acho que não preciso dizer que adoro a mescla de tramas ficcionais com bons conceitos filosóficos, né? O enredo de “Nós Que Vivemos” começa em 1922. Kira Alexandrovna Argounova, a jovem de 18 anos que protagoniza os principais dramas do romance, desembarca na estação de trem de Petrogrado (um dos vários nomes da cidade de São Petersburgo, que também se chamou Leningrado no período soviético). Ela vem da Crimeia. Está ao lado do pai, Alexander Dimitrievitch Argounov, da mãe, Galina Petrovna, e da irmã dez anos mais velha, Lydia. Depois de cinco anos distante da cidade natal, a família retorna unida. A ideia é reconstruir suas vidas na antiga capital do Império Russo. Os Argounov precisaram deixar Petrogrado em 1917 (tenho vontade de dizer São Petersburgo, mas vou me ater à nomenclatura do romance) quando a Revolução Russa explodiu. Na disputa inicial entre o Exército Vermelho (comunista) e o Exército Branco (capitalista), uma parte da Rússia ficou com cada lado – Petrogrado, por exemplo, ficou com os vermelhos, enquanto a Crimeia com os brancos. Por ser empresário (era dono de uma fábrica têxtil), Alexander achou por bem imigrar com a família para o Sul até que a situação política se normalizasse no Norte. Ingenuamente, achou que era questão de meses para a empreitada socialista ser derrotada pela ação capitalista. Entretanto, o efeito foi inverso. O Exército Vermelho avançou para o restante do país, destroçou o inimigo e venceu a Guerra Civil. E a União Soviética foi implementada, algo abominável para os burgueses russos e estrangeiros. Sem esperanças, os Argounov colocaram os rabinhos entre as pernas e fizeram o caminho de volta. A chegada à estação de trem de Petrogrado é marcada por muitas dúvidas e medos. O recomeço não é fácil. Como todos os bens privados do país, a casa de Galina e a fábrica de Alexander foram nacionalizadas. Portanto, eles não têm nenhuma propriedade. Por sorte, lhes é concedido o direito de habitar uma pequena ala do antigo casarão em que viviam. Mobíliam a nova/velha morada com antigos móveis que não foram aproveitados pelos novos moradores dos demais cômodos. Lembremos: num país socialista, as casas são compartilhadas. Cada família tem direito ao número de cômodos compatível a quantidade de integrantes. A maior complicação é, contudo, conseguir dinheiro. Acostumado a empreender, Alexander tenta abrir novas empresas, mas jamais tem êxito. O sistema socialista inviabiliza qualquer iniciativa privada (juro que me lembrei de um país atual...). Dessa maneira, a família tem que viver com as parcas economias geradas no período da bonança. A situação de carência material e a sensação de perseguição dos Argounov são idênticas às de todos os antigos burgueses de Petrogrado. Quem teve dinheiro e status social na época do Império Russo, é malquisto pelas autoridades soviéticas após a Guerra Civil. Os neolíderes só se “preocupam” (o entre aspas não é por acaso, tá?) com o bem-estar e o progresso dos trabalhadores do campo e das fábricas. Não à toa, o regime é chamado de Ditadura do Proletariado. Na residência de Maria Petrovna, a irmã de Galina (e tia de Kira), as dificuldades também são evidentes. Vasili Ivanovitch, marido de Maria, era dono de um comércio de peles que também foi desapropriado pelo governo. Sem como ganhar dinheiro, ele se mantém minimamente vendendo de tempos em tempos as antigas posses da família – mobília da casa, roupas de luxo e joias. Maria e Ivanovitch tiveram três filhos: Victor Duvaev, já no período final da faculdade de Engenharia Elétrica no Instituto Tecnológico, Irina, de 18 anos, e Acia, uma garotinha de 8 anos. Como é aluno universitário e demonstra simpatia pelos ideais socialistas, Victor ganha cupons de racionamento de comida para serem trocados nos postos públicos de abastecimento. Como eram cinco bocas em casa, a cota alimentícia não dava para quase nada. Vendo a trajetória do primo no Instituto Tecnológico e sonhando em construir pontes e edifícios, Kira também se matricula no curso de Engenharia. Na universidade, a moça conhece vários jovens integrantes do Partido Comunista: Andrei Federovitch, antigo soldado do Exército Vermelho que é tido como herói na Guerra Civil, tem uma cicatriz no rosto e faz parte da GPU, a temida polícia secreta soviética; Sonia Presniakova, uma empolgada militante política que parece gostar da protagonista de “Nós Que Vivemos”; e Pavel Syerov, um importante e ambicioso integrante da Célula Comunista. Pelo passado burguês de Kira e pelos ideais pouco socialistas da moça, que ela faz questão de expressar em alto e bom som para todos a sua volta, o trio vermelho fica desconfiado e passa a supervisionar os passos da novata do Instituto Tecnológico. No começo, esse olhar inquisitivo e atento dos colegas sobre sua rotina não é um problema muito grande para Kira. Entretanto, quando ela começa a namorar às escondidas Lev Sergeievitch Kovalensky, um contrarrevolucionário procurado pela GPU, o panorama muda. Leo, como o rapaz é chamado carinhosamente, é perseguido porque seu pai, um famoso tenente da Marinha, ousou desafiar o sistema. Assim, o rapaz não pode aparecer em público (o pai já foi assassinado). Apaixonada pelo contrarrevolucionário de beleza genuína, Kira não pode vacilar. Qualquer escorregada da sua parte, a vida de Leo será colocada em perigo. Paradoxalmente, enquanto a paixão por Leo cresce, a protagonista assiste à amizade com Andrei se consolidar. Mesmo com todas as diferenças de pensamentos e crenças políticas (ela é de direita e capitalista, ele é de esquerda e comunista), Kira e o policial da GPU se tornam, surpreendentemente, próximos e íntimos. Até quando a filha de Alexander Dimitrievitch Argounov e Galina Petrovna conseguirá equilibrar os dois lados tão antagônicos de sua nada fácil vida: o amor inquestionável por um homem que está sempre metido em atividades subversivas e a amizade verdadeira por um idealista do Comunismo? Esse é o mistério que move a trama ficcional de Ayn Rand. Como falei no início deste post do Bonas Histórias , “Nós Que Vivemos” é um tijolão. Suas 570 páginas estão divididas em duas partes, cada uma contendo 17 capítulos. Há ainda um prefácio da autora que foi produzido especialmente para a segunda edição do livro (aquela de 1958). E temos uma introdução e um posfácio de Leonard Peikoff, renomado filósofo e historiador canadense considerado pela própria Rand como o principal discípulo do Objetivismo. Precisei de cinco noites para concluir essa leitura no finalzinho de janeiro. Acredito que cada sessão diária de leitura tenha me demandado entre quatro e cinco horas. Ou seja, concluí o conteúdo integral deste romance em mais ou menos 22 ou 23 horas. Juro que não marquei. De qualquer maneira, a somatória de tempo deve ter se aproximado de um dia inteiro. Feita a contextualização da minha leitura, apresentado o panorama geral da obra e da carreira da autora e explicado sucintamente o enredo do romance, podemos entrar agora na análise literária propriamente dita, o cerne dos posts da coluna Livros – Crítica Literária . Aí vamos nós, senhoras e senhores! Dos elementos da narrativa ficcional , aquele que mais gostei de “Nós Que Vivemos” foi a ambientação . Acompanhar a realidade da URSS a partir da visão de uma família burguesa é uma experiência sensacional. O leitor se sente realmente vivenciando o dia a dia de Kira e a rotina dos familiares, amigos e inimigos da protagonista. A riqueza de detalhes dos cenários, do cotidiano, do clima e da cultura russa/soviética é impressionante. Dá para citar alguns componentes: a mastigação interminável de sementes de girassol, as horas e horas passadas na fila do pão, a alegria de receber cupons de racionamento, o desconforto por dividir a casa com várias famílias, o medo da polícia política, o funcionamento do aquecimento doméstico, o machismo da época etc. Só mesmo uma autora que tenha passado por tudo aquilo que suas personagens sofrem poderia descrever com tanta fidedignidade o espaço narrativo , os eventos históricos, a rotina da população e os dramas humanos. É bom dizer que por mais que imaginemos os perrengues dos cidadãos soviéticos com a dinâmica de um país moldado pelo sistema socialista (não é diferente, por exemplo, ao que passam hoje cubanos e norte-coreanos, em maior escala, e moçambicanos e venezuelanos, em menor escala), ainda assim ver de perto cenas, conflitos e injustiças é muito mais potente. Muuuuuuuuuuuuito mais! Uma coisa é você supor como era a vida há cem anos no primeiro país a abraçar as ideias de Karl Marx e o modelo de Estado de Vladimir Lenin. Outra totalmente diferente é acompanhar de pertinho as personagens ficcionais que têm cara, jeito, crenças, pensamentos e comportamentos de pessoas reais. Portanto, como romance histórico, “Nós Que Vivemos” é um livrão! É interessante notar que o drama do totalitarismo fica em segundo plano, por mais complicações que a tirania e sua violência trazem a reboque. Pelo menos foi essa a minha interpretação – a de um leitor que vive na metade da terceira década do século XXI. Por mais que Ayn Rand sempre tenha dito e repetido que sua obra de estreia era um panfleto contra as ditaduras de qualquer espectro ideológico (direita ou esquerda), não foi essa a leitura que fiz. Para ser bem sincero, achei essa história uma crítica contundente, sincera e definitiva ao Sistema Socialista. Na história de Kira Argounova, conseguimos ver o quanto as molas da engrenagem social e econômica se travam e se atrofiam sem os incentivos do capital privado, sem a força da economia de mercado e sem o dinamismo trazido pelo empreendedorismo. E olha que quem está falando isso é uma pessoa que tem incontáveis críticas ao capitalismo selvagem – do contrário, eu não seria um insistente pobretão até agora. Se o capitalismo agressivo tem vários senões, o comunismo também tem seus problemas gravíssimos. Portanto, um não é a melhor alternativa ao outro. Felizmente ou infelizmente, o mundo e a realidade não são dicotômicos nem bicolores, como muita gente insiste em crer ainda hoje. Outro elogio que tenho a obrigação de fazer a “Nós Que Vivemos” é sobre a excelência da construção de suas personagens . Quase todas as pessoas retratadas na obra são figuras redondas, inclusive os heróis – alguns com características de anti-heróis – e os coadjuvantes. A própria Kira é um exemplo perfeito de alguém que tem muitas características positivas e muitas características negativas. Talvez as exceções (que confirmem à regra geral) ficam com alguns vilões que possuem tintas bastante caricatas. Pavel Syerov e Victor Duvaev são as melhores exemplificações de personagens planas. Eles não têm nuances e possuem apenas perfis com elementos negativos. Já que começamos a falar das personagens , é impossível não comentarmos a força literária de Kira Argounova e o choque antagônico da disputa entre Leo Kovalensky e Andrei Federovitch pelo coraçãozinho da destemida e charmosa protagonista. Em relação à estudante de Engenharia de São Petersburgo/Petrogrado, ela é uma das figuras femininas mais fortes da literatura da primeira metade do século XX. Em muitos aspectos, Kira me lembrou bastante Léa Delmas, a heroína de “A Bicicleta Azul” , romance emblemático de Régine Deforges . Daí a comparação entre as duas publicações que fiz no início deste post da coluna Livros – Crítica Literária . Ambas as moças enfrentaram inimigos políticos poderosíssimos (a personagem russa encara os comunistas e a personagem francesa os nazistas), as maldades de sistemas ditatoriais (que foram contemporâneos, apesar de serem de polos ideológicos opostos) e os horrores dos conflitos armados (no caso de Kira, a Revolução Russa e a Guerra Civil Russa; e no caso de Léa, a Segunda Guerra Mundial). Tudo em nome do bem-estar da família e da sobrevivência dos homens que elas amavam. Não dá para não nos apaixonarmos por mulheres assim, né? Eu falo sem receio nenhum: sou gamado em Léa e, agora, em Kira. Outra semelhança entre Kira Argounova e Léa Delmas é que as duas estavam a frente de seus tempos e estampavam com naturalidade muitos dos valores que as feministas atualmente bradam com orgulho. Recordemos as liberdades sexuais das protagonistas de “Nós Que Vivemos” e “A Bicicleta Azul” , que seriam vistas com normalidade hoje em lugares mais progressistas, mas que não eram na primeira metade do século passado, épocas em que as tramas se passavam. Suas atuações como chefes de família (em situação de completo caos político-econômico-social) e a interferência na realidade do país (tentativa de mudar as injustiças e a violência dos governos ditatoriais) também são marcantes. Em suma, elas são beeeeeeeeeeem diferentes das heroínas dos romances românticos clássicos. Por falar na sexualidade de Kira, talvez o mais correto seria compará-la à Gina, personagem que mais gosto da literatura de Maria José Dupré . Pela perspectiva do enredo e do conflito dramático, “Nós Que Vivemos” se parece mais com “Gina” , um dos romances brasileiros mais polêmicos de todos os tempos, do que com “A Bicicleta Azul” . Essa diferença não é nada sutil para compreendermos o comportamento e a mentalidade da protagonista de Ayn Rand. Há momentos na vida que as pessoas precisam engolir o orgulho próprio e os velhos preconceitos para solucionar problemas complicados. Só quem não vivenciou aquela situação de perto consegue julgar as atitudes alheias com a bandeira da moralidade e da pseudo honradez. Kira e Gina arregaçaram as mangas e fizeram o que era preciso para não sucumbir à fome e à miséria. São figuras notáveis! Quanto à disputa de Leo Kovalensky e Andrei Federovitch pelo coração de Kira (na minha visão, este é o conflito principal do romance de Rand), o mais legal é notar a gigantesca reviravolta que a trama dá. Admito que sou fã de autores que conseguem mudar a percepção do leitor a conta-gotas. Em outras palavras, começamos torcendo por uma personagem e tendo antipatia pela outra. À medida que a história evolui e conseguimos ter o entendimento correto da realidade ficcional , mudamos a torcida e a antipatia. No caso de relacionamentos tóxicos, a ficha demora mesmo para cair. Mas quando cai, o impacto é de um terremoto emocional para a vítima (e para os leitores que a acompanham de perto). Ayn Rand fez esse movimento de quebra de expectativas com primor – quem faz isso com perfeição na ficção contemporânea é Elena Ferrante , como demonstrado na série literária “A Amiga Genial” (Biblioteca Azul). Só não entro em detalhes sobre os acontecimentos da obra russa e as características das duas personagens citadas para não estragar as incríveis surpresas da leitura e o impacto absurdo desta experiência literária. Afinal, podemos ter muita gente por aqui que ainda não percorreu as páginas de “Nós Que Vivemos”. Quem melhor fez essa quebra de expectativa na literatura ficcional (escancarando relacionamentos tóxicos e invertendo a torcida romântica do leitor/protagonista) foi Jane Austen com “Orgulho e Preconceito”. Se você ainda não leu este livro, pare tudo o que estiver fazendo (inclusive esse passeio pelo Bonas Histórias ) e o leia imediatamente! Entendeu agora à associação feita anteriormente entre as duas publicações?! Pelo viés romântico, “Nós Que Vivemos” é a versão russa e do século XX do clássico inglês do século XIX. Falo isso não como uma crítica negativa ou para desmerecer a originalidade do romance de Rand. Não! É exatamente o contrário. “Orgulho e Preconceito” é um dos cinco melhores livros que li e Jane Austen é um gênio da ficção. Ver alguém reproduzir com tanta maestria o efeito que sentimos com a história de Elizabeth Bennet é SENSACIONAL! Nesse sentido, a dupla Leo Kovalensky/Andrei Federovitch pode ser associada à dupla George Wickham/Fitzwilliam Darcy. Para os bons entendedores da literatura clássica, acho que já falei demais. Para encerrar as correlações literárias, a comparação com “Amor em São Petersburgo” , romance de Heinz G. Konsalik, um dos mais populares escritores alemães da segunda metade do século XX, é mais trivial do que a maioria dos leitores do Bonas Histórias poderia supor. A semelhança é meramente pela coincidência do espaço narrativo . Tanto a trama de “Nós Que Vivemos” quanto o enredo da publicação de Konsalik se passam majoritariamente na charmosa capital do Império Russo situada às margens do Mar Báltico – hoje segunda mais populosa metrópole russa. Como gosto muito de São Petesburgo, e das minhas lindas vizinhas nascidas nesta cidade (a quantidade de russos e russas em Saavedra é enorme!), sempre lembro de “Amor em São Petersburgo” quando leio uma história ambientada nessa localidade. O que posso garantir (sem medo de revelar o spoiler) é que o clímax deste livro é FENOMENAL. No caso, o momento-chave do drama histórico se dá no finalzinho do capítulo XIV da segunda parte. Nesse instante, a narrativa de Ayn Rand nos atinge com tudo e revela a maior prova do amor verdadeiro. Não por acaso, essa é a parte mais linda da trama! Até mesmo eu, que tenho o coração de pedra (desculpem-me, mas sou um antissentimental crônico e incorrigível), fui impactado com rara intensidade pela beleza desta história de amor. Agora imagine o que acontecerá com uma alma mais romântica e sensível ao ler o clímax de “Nós Que Vivemos”, hein?! Pensando melhor, nem quero imaginar. Já que estamos tratando das personagens , preciso relatar que, como a maioria dos romances históricos da literatura russa, os leitores brasileiros de “Nós Que Vivemos” terão alguma dificuldade com os nomes das figuras ficcionais de Ayn Rand. Às vezes, é complicado saber quem é quem no meio da trama, ainda mais quando as sessões literárias são divididas em vários dias. Além das nomeações longas e difíceis, muitas pessoas são chamadas pelos apelidos e/ou pelos nomes do meio. Juro que sempre passo por essa complicação com os tijolões russos. Uma dica que posso dar aos leitores da coluna Livros – Crítica Literária é que anotem durante a leitura quem é quem. Eu sempre faço uma espécie de glossário das personagens das publicações que analiso – sou péssimo para decorar nomes. Nesse caso, esse expediente é obrigatório. Admito que consultei várias vezes a minha cola. Vire e mexe, tinha dúvidas entre quem era Lygia (irmã de Kira) e Irina (prima) e quem era Alexander (pai) e Vasili (tio). Até Pavel, um dos principais vilões, tive que verificar quem era em determinado momento do romance. Como é um drama histórico, “Nós Que Vivemos” tem, obviamente, passagens delicadas, fortes e tristes. Até aí não há nenhuma novidade – é essa a proposta deste gênero ficcional. As partes mais sensíveis e dolorosas do livro são o envio injusto de inimigos do Estado para os campos de trabalho forçado na Sibéria, a impossibilidade de ajuda médica para os burgueses adoentados, a falta de emprego para aqueles que não são comunistas, a perda das propriedades privadas para o governo corrupto, a fome e o frio que boa parte da população passa rotineiramente, a falta de privacidade proveniente de um regime que controla a vida privada dos cidadãos e a traição da família em nome do status entre os colegas do partido. A surpresa é que, mesmo com tantas dificuldades diárias e maldades sistemáticas, o romance esconde instantes bem-humorados. É uma comicidade sutil e inteligente, nada escrachado ou vulgar. Por esse ponto de vista, não é errado dizer que a obra de Rand flerta, por vezes, com a tragicomédia . Está duvidando de minhas palavras?! Então veja com atenção a cena em que Kira e Leo se conhecem. É divertidíssima. E o que falar de quando a protagonista vai assistir a um filme norte-americano no cinema com Andrei? Os governantes soviéticos até liberaram a exibição do longa-metragem estrangeiro ao público, mas mexeram nas legendas. Assim, transformaram a história para que ela se encaixasse no seu ponto de vista ideológico. Hilário! Para completar, a saga de Leo em busca de um emprego é ao mesmo tempo comovente e cômica. Rir das desgraças vivenciadas pelos russos é uma das maneiras de sensibilizar as pessoas para os dramas retratados. Na interminável seção de pontos elogiosos de “Nós Que Vivemos”, tenho que citar a qualidade de seus diálogos. Além de movimentar a trama, o discurso possui forte conotação filosófica e de crítica política. Se Ayn Rand ainda não era a respeitada filósofa que se tornaria mais tarde (o Objetivismo não tinha sido sequer concebido), já era possível notar a preocupação da romancista com os conceitos dessa área que ela tanto apreciava. O texto do livro ganha camadas extras de profundidade. O leitor menos atento poderá achar algumas falas enfadonhas e desnecessárias. Entretanto, aqueles que curtem o melhor dos subtextos literários irão pirar com a excelência das falas deste romance. Na minha visão, as partes mais reveladoras de “Nós Que Vivemos” estão no discurso e não na narração em si. Preste atenção nisso! No quesito da crítica política (sempre uma areia movediça, mas que não vou me abster de entrar), confesso que fiz várias reflexões interessantes durante esta leitura. Logo de cara, acho que todos aqueles que pregam qualquer tipo de ditadura ou de governo impositivo (acredite se quiser, mas em pleno século XXI há ainda uma multidão que sai às ruas no Brasil e no mundo para pedir tirania...) deveriam conhecer essa história. Nenhum líder que precisa calar o povo e a imprensa tem boas atitudes. NENHUM! No polo ideológico oposto (que no fundo tem mais semelhanças do que diferenças de comportamento com os rivais), aqueles que ainda fantasiam a aventura socialista da URSS como um modelo de Estado e de bem-estar poderiam ler com atenção a narrativa de “Nós Que Vivemos”. Garanto que muitas “verdades” serão desfeitas. O livro também suscita questionamentos políticos bem atuais: a disputa de hoje pela Crimeia (atual Guerra Russo-Ucraniana) é algo que já ocorria há cem anos; a acirrada polarização contemporânea entre extrema-direita e extrema-esquerda é fichinha perto da polarização ideológica do século passado (aquela sim tinha potencial para explodir literalmente o planeta); a propagação de fake news e a manipulação de notícias não são novidades do nosso tempo (existem há um tempão); a ojeriza dos esquerdistas pelo capital privado, pelo empreendedorismo e pelo progresso material é algo muito antigo e chega a ser patético (ainda mais se repetido nos anos 2020); e a propaganda política calcada em factoides como “luta pela liberdade”, “preocupação com o povo” e “em nome da coletividade” é uma ferramenta de dominação manjada de governantes tiranos (que segue sendo usada e angariando incautos fãs). Por mais que todos esses elementos do espaço narrativo e do tempo narrativo indiquem que a história possa ficar enfadonha ou com ritmo lento, asseguro que “Nós Que Vivemos” tem uma narrativa deliciosa e ágil. Inclusive, o romance acumula ótimas cenas. Algumas noites de leitura, tive vontade de seguir madrugada à dentro com o livro em mãos ao invés de dormir. Só não fiz isso porque tenho (algum) juízo. De qualquer forma, em nenhum instante a ambientação se torna um fardo para o leitor. Aí está o grande mérito de Rand. Ela consegue criar um universo ficcional riquíssimo em meio ao debate sobre questões fundamentais do seu tempo (e que dialogam com a nossa época). Poderia ficar listando por horas e horas todos os elementos narrativos que adorei nesta publicação. Quando digo que foi uma das leituras mais interessantes que fiz nos últimos anos, não é à toa. Porém, não posso me esquecer de apontar alguns aspectos que não gostei de “Nós Que Vivemos”. É, senhoras e senhores, há alguns pontos que deixaram a desejar, o que demonstra que Ayn Rand já era uma excelente autora antes dos 30 anos, mas ainda tinha um chãozinho para se desenvolver. Algo normal em se tratando de uma jovem romancista. O principal problema do livro é o foco narrativo , algo que não era tão abordado pelos romancistas comerciais em meados do século XX (ainda hoje, muitos ignoram essa peça das engrenagens ficcionais), mas já era discutido com afinco pelos teóricos da literatura, principalmente pelos formalistas russos. Por isso, imaginei que Rand conhecesse essas discussões. Não nos esqueçamos que ela era uma leitora de alto nível tanto dos conceitos da Filosofia quanto dos conceitos da Teoria Literária . Certamente, conhecia o que era analisado por seus conterrâneos. Afinal, qual é a deficiência do foco narrativo de “Nós Que Vivemos”? Talvez o mais correto não seria dizer “deficiência” e sim algo que me incomodou consideravelmente. O narrador do romance é do tipo observador onipresente e onisciente. Confesso que não vejo empecilho nenhum no fato do texto estar em terceira pessoa, ainda mais em um romance histórico, que combina perfeitamente com esse estilo de relato. O problema (aí sim é um problemão mesmo!) é que o narrador não fica próximo a ninguém especificamente. Ele flutua livremente pelos cenários e pelas personagens sem qualquer critério. Cogitei que ele acompanhasse de perto apenas Kira, a protagonista. Ou no máximo uma ou outra pessoa relevante da trama. Porém, ele larga a personagem principal por vários momentos e gruda em incontáveis figuras, até mesmo em coadjuvantes. O efeito disso no leitor recreativo não é ruim, mas para quem avalia a estrutura da história ficcional com o olhar técnico da Teoria Literária pode se incomodar bastante. Foi o meu caso. Também não gostei do desfecho. Por mais que aprecie finais com sabores ácidos, amargos, incômodos e até mesmo trágicos (adoro a definição de uma amiga que diz: “nossa vida merece ser doce e agradável, mas filmes e livros têm que ter tramas incômodas e desagradáveis), achei que “Nós Que Vivemos” poderia ter ido pelo caminho do desenlace aberto e não pelo desenlace fechado. O que quero dizer com isso?! Com um clímax simplesmente genial (o capítulo XIV da parte II é um dos melhores textos românticos que conheço), Ayn Rand perdeu a chance de ouro de encerrar a história ali, em seu ponto mais alto. Aí sim o livro se tornaria realmente sublime. Entretanto, ela preferiu acrescentar mais três capítulos (pouco mais de 40 páginas), que no meu ponto de vista são completamente desnecessários. Muitas vezes, dar vazão à imaginação dos leitores (efeito indireto do final aberto) é mais potente do que materializar a criatividade do romancista (efeito concreto do final fechado). Outra questão que senti falta em “Nós Que Vivemos” foi de um contraponto mais incisivo à visão negativa do Comunismo. Sei que a autora odiava o sistema político-econômico implementado em seu país natal em 1917 (por motivos óbvios!). Fica claro o quanto os burgueses sofreram perseguições desumanas e injustas na União Soviética (Rand precisou fugir para os Estados Unidos, algo que seus familiares mais próximos não conseguiram). A antiga elite do Império Russo se tornou quase que a casta mais inferior da sociedade na URSS. Quanto a isso, não tenho um A para comentar. As críticas do texto são justas e merecidas. Além disso, fica evidente o quão dura era a vida do restante da população que fora apartada das engrenagens capitalistas. Quem sou eu para contestar a realidade nua e crua. Juro que não queria viver em tais condições (nem sob qualquer tipo de ditadura, seja de direita, seja de esquerda). O que poderia ter era uma personagem oriunda diretamente do proletariado que apresentasse sua visão das mudanças dos ventos políticos da Rússia após a Revolução Bolchevique. Será que para os trabalhadores das fábricas e da agricultura de São Petersburgo (ou Petrogrado, como queira) que padeciam durante o Império Russo as alterações foram positivas? Minha pergunta é espontânea. Me fiz esse questionamento durante a leitura. O que vemos em “Nós Que Vivemos” é a defesa do Socialismo apenas por membros caricatos do Partido Comunista, figuras geralmente corruptas, ambiciosas e interesseiras – Camarada Sonia, Victor Dunaev, Pavel Syerov e companhia ilimitada. O único defensor da União Soviética que não tinha características negativas era Andrei Federovitch. E ele se arrepende de tudo o que acreditou no final do romance. Por mais que eu não seja um fã da URSS (confesso que nunca fui um apaixonado pelo Comunismo, nem quando jovem e idealista), imagino que tivesse algum defensor mais imparcial dos ideais de Marx e Lenin no meio do povão. Não é?! Por fim, encontrei alguns errinhos de pontuação, principalmente sinalizações equivocadas do discurso . Em um ou outro parágrafo, onde era para ter aspas de diálogo (Ayn Rand é da escola norte-americana de literatura, que prefere as aspas ao travessão para expressar as conversas) não havia. Juntou-se simplesmente o discurso à narração . Em outros momentos pontuais, onde não era para ter as aspas, surgia falsos diálogos. Contudo, isso não é culpa da escritora russa e sim dos revisores e editores da versão brasileira do romance. Por mais incomodado que eu tenha ficado com esses errinhos, preciso dizer que tais tropeços não afetaram minha experiência de leitura. O fato é que “Nós Que Vivemos” é um livrão. Isso é indiscutível. Por qualquer perspectiva que o tomemos, romance romântico, romance histórico, romance filosófico, romance dramático e até mesmo romance político, ficamos encantados com a narrativa ficcional de Ayn Rand. Juro que estou feliz de ter começado as análises de 2025 da coluna Livros – Crítica Literária por uma publicação de altíssimo nível. E tudo graças a generosidade de um amigo. Valeu, Dudu! Acho que a melhor maneira de encerrar esse post do Bonas Histórias é agradecendo a você o presente de setembro. Obrigadão! Adorei o regalo paulistano. E para os demais leitores do blog, fica meu desejo de uma ótima temporada literária. Que os próximos meses sejam repletos de muitas boas histórias ficcionais. Do meu lado, garanto que não ficaremos tanto tempo sem avaliações de novos livros por aqui. Então, até a próxima, pessoal! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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