• Ricardo Bonacorci

Passeios: Pico do Jaraguá - Subida pela Trilha do Pai Zé


Era sábado de manhã em São Paulo. O céu estava limpo de nuvens e não fazia muito calor. O clima agradável daquele dia era muito parecido ao que temos hoje. Aí, pensei: "Por que não subir o Pico do Jaraguá, hein?!". Este é um dos passeios gratuitos mais legais que temos à disposição aqui na capital do estado. O contato com a natureza é incrível! Podemos caminhar pela mata nativa sem encontrar qualquer indício de civilização. Não dá para acreditar que estamos dentro da maior cidade do país.

Subir o Pico do Jaraguá a pé é um programa que sugiro para quem gosta de estar no meio da natureza, tem espírito de aventura e esteja bem condicionado fisicamente. Afinal, é preciso pique para caminhar alguns quilômetros morro acima em uma trilha rústica de terra batida e de grandes pedras no meio da floresta tropical. A recompensa de tanto esforço só chega ao final do trajeto. No topo da montanha, a vista da metrópole é de tirar o fôlego (admito que a subida até lá também). O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto da cidade de São Paulo, estando a 1.135 metros do nível do mar. Lá do alto é possível avistar grande parte do município e compreender sua real dimensão.

Fiz este passeio há um mês, mais precisamente no primeiro final de semana de março. Depois de muitos anos de ausência, tinha resolvido revisitar o Parque do Jaraguá e seu pico. Acho que a última vez que fora até lá tinha sido em 2012 com minha amiga Fabrícia. Só que naquela oportunidade, fomos de carro até o topo, o que evidentemente descaracterizou um pouco o programa. A Fabrícia nunca foi muito chegada a longas caminhadas, apesar de ter um espírito aventureiro bem superior ao meu. Desta vez, coloquei na minha cabeça que o passeio seria completamente diferente. Por isso, tomei duas importantes decisões: levar meu amigo Paulo comigo; e subir pela Trilha do Pai Zé, o maior, o mais difícil e, também, o mais divertido caminho a pé até o alto da montanha.

Para quem ainda não conhece o local, o Pico do Jaraguá fica dentro de uma reserva estadual. O lugar é uma área de proteção ambiental. A vantagem disso é que grande parte do parque permanece intocada, exatamente como era a cem, duzentos anos atrás. A vegetação é nativa e exuberante. Há também grande variedade de espécies de animais silvestres vivendo ali. Neste ponto, não podemos tecer qualquer crítica. A desvantagem é que a estrutura para o visitante é um tanto limitada. Esta é, infelizmente, a realidade de nosso país em quase todos os parques florestais administrados pelo poder público. Muitas vezes, os agentes governamentais são até eficientes em manter a proteção ambiental, mas são completamente inoperantes em promover o turismo e em conferir o mínimo conforto aos visitantes.

Assim, o Parque Estadual do Jaraguá tem uma infraestrutura básica com banheiros, bebedouros e alguns itens de lazer para a criançada. O estacionamento é amplo e há espaço para se praticar caminhadas e corridas. Aos finais de semana, é comum encontrarmos grupos de pessoas orando e indivíduos praticando ioga e meditação. Os ambientes mais essenciais, tanto na base quanto no alto da montanha, estão limpos e minimamente conservados. Agora o restante... Não pense em encontrar lanchonetes, restaurantes ou qualquer apoio turístico aos frequentadores. Não há nada além do trivial. Os itens que não são essenciais, como o anfiteatro, as quadras poliesportivas e as mesas para as famílias fazerem piquenique, estão completamente abandonados pelo tempo. Minha impressão é que a maioria dos visitantes é formada por moradores da localidade e não por turistas que queiram aproveitar este oásis verde da cidade. Os turistas (muitos gringos) são encontrados com mais frequência no alto da montanha (onde há algum atrativo) e não na base do parque (onde não há muito o quê ser feito).

Apesar da necessidade evidente de melhorias, o Parque Estadual do Jaraguá continua tendo seu charme. Na entrada principal (na base da montanha), somos recepcionados por um belo lago com cisnes (Ou seriam gansos? Talvez sejam patos barulhentos!). A grande atração do local é mesmo sua incrível vista (no Pico do Jaraguá) e a caminhada pela mata nativa até o alto da montanha. Estes dois pontos também estão bem conservados. A parte superior do parque é ampla, confortável e limpa, agradando aos usuários. As trilhas até lá foram reformadas há alguns anos e mantém-se em ótimas condições. Quem deseja chegar ao pico de carro, também encontrará uma estrada bem pavimentada. Só tome cuidado com os vários ciclistas que a usam aos finais de semana.

E por falar em caminhada ao topo, o parque possui quatro trilhas disponíveis: a Trilha do Pai Zé, a Trilha da Bica, a Trilha do Silêncio e a Trilha do Lago. As duas últimas são as menores, tendo aproximadamente 800 metros de extensão cada uma. São também os caminhos mais simples de serem feitos, sendo aconselháveis para idosos, famílias com crianças pequenas e pessoas com deficiência física (estes locais são adaptados aos cadeirantes). O contato com a natureza é garantido pela farta vegetação nativa e pela presença de alguns animais silvestres. O único problema destes trajetos é que eles não chegam ao topo da montanha. Pelo contrário, pouco se distanciam da base do parque. Por isso, se você quer chegar ao pico para ver a vista da cidade, a Trilha do Silêncio e a Trilha do Lago irão decepcioná-lo(a) neste sentido.

A Trilha da Bica é bem maior em extensão quando comparada à Trilha do Silêncio e à Trilha do Lago. Ela possui 1,5 quilômetros de tamanho. Seu nível de dificuldade também é superior, podendo ser classificado como mediano. Ou seja, não é um percurso indicado para quem tem dificuldades de locomoção. Aqui já é possível encarar as subidas que caracterizam a topografia da região. O grande atrativo deste trajeto é conferir os vários córregos e nascentes de água que brotam durante a caminhada (o nome Trilha da Bica não é por acaso!). As rochas de granito que enfeitam o percurso também conferem seu charme ao passeio. O único ponto negativo é que terminada a trilha, você terá de retornar sem ter chegado perto do topo da montanha. A Trilha da Bica, assim como a do Silêncio e a do Lago, não dá acesso ao Pico do Jaraguá.

O único caminho que chega de fato ao topo é a Trilha do Pai Zé. Por isso, escolhemos esta opção para nossa caminhada. Com seus 3,6 quilômetros, este trajeto tem um nível de dificuldade bem maior. Afinal, percorremos toda a sua extensão no meio da mata fechada e em terreno acidentado. O que torna tudo mais complicado é a intensa subida. Praticamente todo o trajeto é feito morro acima! Em algumas partes, a ladeira no meio da floresta é de tirar o fôlego. É preciso tomar cuidado onde se pisa e no instante de superar as pedras que abundam o caminho. Se você desenvolver um bom ritmo, não parar em momento nenhum para descansar e não cair no chão ao tentar pular os obstáculos naturais, a subida pode ser feita em menos de uma hora. Porem, é preciso um bom preparo físico para isso. Uma caminhada lenta pode se estender por mais de duas horas. Como não há nada no meio do caminho além de árvores, terra e pedras, é bom estar munido de água e comida.

Andar no meio da floresta é muito legal. A mata é tão fechada que raramente somos atingidos diretamente pelos raios solares. Você não acredita que ainda está na cidade de São Paulo. Se tiver sorte, verá alguns bichos que habitam o local (fique tranquilo que todos são inofensivos). A parte final da Trilha do Pai Zé é feita no meio de grandes pedras. Neste instante, o trajeto ganha o auxílio de pequenas pontes e escadas de madeira. O cenário lembra um pouco os primeiros filmes de Indiana Jones. Se você não tiver um bom preparo físico, será nesta hora que sentirá o esforço realizado até então. O sol passa a bater diretamente em sua cabeça (a mata fica mais rala no alto da montanha), tornando a caminhada um pouco mais cansativa e lenta. Ao final da subida é possível ver parte da tão aguardada vista da cidade.

Quem quiser fazer a Trilha do Pai Zé é bom se ater a quatro dicas de segurança. Quem as faz não sou eu e sim os funcionários e administradores do parque. Conheça-as antes de visitar o local:

1) Jamais saia da trilha! Se você sair, é grande a chance de se perder no meio da mata fechada. Por mais que as placas durante o percurso deem este alerta, de vez em quando vemos nos jornais a informação que grupos de adolescentes se perderam no parque, sendo necessária a intervenção dos bombeiros. Por que os adolescentes têm esta mania de desobedeceram os avisos?! Nunca entendi este comportamento deles.

2) Não faça a subida depois das 15 horas. Afinal, você precisará retornar em algum momento. Parece óbvio falar isso, mas muita gente esquece que precisará descer tudo que subiu. E se a tarde terminar e a claridade natural desaparecer do céu, há grande chance de você ficar no escuro (Não há iluminação natural no meio do mato, né?). E no breu, você não conseguirá caminhar, além de ficar mais suscetível aos perigos naturais de um lugar com muitos animais.

3) Não inicie este caminho se o dia não estiver claro e, principalmente, se o tempo não estiver bem firme. A caminhada já oferece elementos com bastante dificuldade quando o sol estiver brilhando. Na chuva, você poderá ficar atolado(a) no meio da lama (o caminho é todo de terra). Não será nada agradável ter de superar lama atrás de lama por mais de três quilômetros. Vai por mim! No molhado, você terá a impressão que está no meio de um trajeto repleto de areia movediça. Conclusão: se estiver chovendo ou estiver indicando a possibilidade de garoa, não comece a caminha pela Trilha do Pai Zé. Volte para casa e planeje sua aventura para outro dia.

4) Não leve animais de estimação com você, principalmente cachorros. Eles são proibidos no parque. O Parque Estadual do Jaraguá é, como já falei, uma reserva de proteção ambiente e possui vários animais silvestres morando ali. É grande a chance do seu bichinho, mesmo na coleira, desgarrar de você e sair correndo no meio da mata atrás de alguma presa (é instinto dele fazer isso). Aí, adeus cachorrinho. E adeus bichinho preservado que teve a infelicidade de cruzar com seu cachorrinho. Não adianta depois pedir para os guardas florestais procurarem seu animal de estimação pela floresta. Eles não vão dar atenção ao seu desespero (eles têm mais o que se preocupar).

Respeitando estes alertas, sua caminhada tem tudo para ser bem-sucedida. Eu e o Paulo completamos a Trilha do Pai Zé em uma hora. Fizemos o trajeto em um ritmo tranquilo com algumas paradas na parte final da montanha para ver a vista e para recuperar o fôlego. O mais legal é que fomos acompanhados o tempo inteiro por um cachorrinho que provavelmente vive ali. Como o Paulo é maluco por cão, o bichinho percebeu que era bem-vindo no nosso grupo e fez questão de nos mostrar o caminho a ser feito pela trilha. Isso é o que eu chamo de cão-guia!

Uma vez terminada a Trilha do Pai Zé, é importante você saber que ainda não chegou exatamente ao Pico do Jaraguá. É divertida a cara de frustração das pessoas que descobrem isso lá em cima! É verdade que a trilha termina na parte superior do parque. Contudo, para chegar ao cume da montanha propriamente dito, é necessário encarar mais uma longa escadaria. São centenas de degraus pela frente. É preciso mais fôlego para concluir a última parte do trajeto. Por isso, é bom descansar ao terminar a Trilha do Pai Zé. Há vários bancos e espaço para o pessoal relaxar. Hidrate-se também. O parque oferece banheiros e bebedouros na sua parte superior. Se você tiver sorte, encontrará algum ambulante vendendo bebidas (refrigerante, suco, isotônico e água de coco). Comida é mais difícil (no dia em que fomos, tinha uma mulher vendendo algodão doce).

A escadaria final irá levá-lo(a), enfim, ao topo. Lá será possível ter uma vista da região oeste da cidade. Infelizmente, você não verá nenhum dos principais pontos turísticos da cidade de São Paulo (que não ficam nesta região do município). Alguém com um bom conhecimento da capital do estado e, principalmente, com uma boa visão poderá ter a sorte de encontrar naquela vista a Avenida Paulista, o Parque do Ibirapuera ou o aeroporto. Como o alcance dos meus olhos sempre foi limitado, juro que nunca vi nada disso. Porém, há muita gente que diz lá no alto: "Olha ali o Masp! Tá vendo? É aquele pontinho vermelho atrás daqueles prédios!" ou "Achei o prédio do Banespa! É aquele ali. Veja o formato. É ele mesmo. Ali é o centro da cidade!". Para mim, estes tipos de frase não passam de conversa de observador do pico. Assim como temos conversa de pescador na beira do rio, no Jaraguá temos conversa de observador da vista.

Quem quiser fazer um passeio ecológico, divertido e aeróbico por São Paulo, lembre-se da opção pelo Pico do Jaraguá. Este passeio guarda muitas surpresas aos visitantes. Não quero ficar tanto tempo sem visitá-lo outra vez.

Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook.

#SãoPaulo #Passeios #Trilha #Natureza

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento