Exposições: Mestres da Carpintaria – A arte japonesa do trabalho com a madeira
- Ricardo Bonacorci

- há 9 horas
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Em cartaz no Japan House de São Paulo até 5 de abril de 2026, a mostra intitulada Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito apresenta os princípios filosóficos, as ferramentas, as matérias-primas, os moldes, as técnicas e os projetos arquitetônicos do uso tradicional da madeira pelos carpinteiros japoneses.

Não é novidade que a cultura japonesa é riquíssima e possui elementos bastante distintos da realidade brasileira. Poderia listar por horas os choques culturais que presenciei na cidade de São Paulo, minha terra natal. É bom dizer que a metrópole paulista não se desenvolveu apenas com as imigrações italiana e portuguesa, como comumente se retratam na literatura, no cinema, na televisão, no teatro e no jornalismo. A Terra da Garoa é historicamente ponto de confluência de vários povos: espanhóis, alemães, sírios, libaneses, coreanos, chineses, bolivianos, venezuelanos, paraguaios, haitianos, angolanos, congoleses, nigerianos e, claro, japoneses. Diria até: muuuitos japoneses. Para quem nunca visitou o pedacinho mais cinza e nublado do Brasil ou não conhece os pormenores da história paulistana, vale dizer que São Paulo é a localidade do hemisfério ocidental que mais recebeu imigrantes do Japão no século XX. Incrível, né?
Os japoneses e seus descendentes não estão apenas no bairro da Liberdade, como alguns turistas mais desavisados podem pensar. E a influência nipônica não se restringe à culinária, como as almas mais gordinhas e apaixonadas pelos sushis, sashimis e temakis costumam acreditar. As particularidades do país do Sol Nascente vivem espalhadas pela capital e pelo interior paulista. Como consequência, mesmo sendo de família italiana (meu nome e sobrenome me entregam) e de família portuguesa (tem um Teixeira oculto no meio do Ricardo Bonacorci), eu sempre tive muitos colegas e conhecidos de origem japonesa. Por isso, estou acostumado, desde a mais tenra infância, aos choques culturais envolvendo a passionalidade ruidosa dos latinos e a serenidade silenciosa dos orientais. Recordo-me de dois casos emblemáticos desse clichê cultural.
O primeiro aconteceu no casamento de uma das minhas melhores amigas dos tempos de faculdade cujos quatro avós eram japoneses. Na festa do matrimônio dela, me assustou o silêncio dos convidados, a maioria integrantes de sua família. Juro que não se ouvia a voz de ninguém em plenos festejos pela união dos pombinhos. O segundo episódio se passou num velório de um parente da minha mãe. A cerimônia foi divertidíssima e barulhenta, como é típico de qualquer encontro do clã português. O que era normal para mim chocou um casal de amigos orientais, que compareceu ao evento em solidariedade. O que eles nunca poderiam imaginar é que fossem rir tanto nem que ouviriam tamanha algazarra numa ocasião pretensiosamente fúnebre.

Meu contato com a cultura nipônica é muito maior do que esses relatos isolados conseguem demonstrar. Por exemplo, minha irmã Marcela, diretora da Dança & Expressão e colunista da seção Dança deste blog, é apaixonada por tudo o que vem do Japão. Ela adora viajar para lá, a ponto de estudar com afinco o indecifrável idioma local e planejar até uma mudança definitiva para Tóquio. Em suma, a capital japonesa está para ela assim como Buenos Aires está para mim – uma cidade com aura de terra prometida e de verdadeiro lar. De tanto conviver com mi hermanita, acredito que me tornei um pouco (beeem pouco, algo como 0,0001%) oriental. Enquanto Marcela, por outro lado, deve ter se transformado um tantinho (0,00005%) em portenha.
Mas por que estou tratando desse tema no post de hoje do Bonas Histórias, senhoras e senhores? Porque esses pensamentos me vieram à tona durante a exposição “Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito“, que visitei no começo deste mês. Fui meio que por acaso ao Japan House de São Paulo, em uma tarde de meio de semana, para me encontrar com Daniella (lê-se Daniecha), minha prima que mora no interiorzão da Suíça. Ela veio passar uma curta temporada em sua cidade natal, talvez para espantar o tédio do rincão europeu, talvez para curtir o Carnaval brasileiro. A ideia inicial era irmos daquele ponto da Avenida Paulista, próximo à Rua Treze de Maio, ao Cine Belas Artes, na Rua da Consolação, para ver “Sirât” (2025), filme espanhol que concorria ao Oscar de 2026. Contudo, já que estávamos no centro cultural japonês, optamos por conferir, antes da sessão cinematográfica, as mostras em cartaz ali. Sábia decisão!
Se achei um tanto banal “Fluxos: O Japão e a Água”, outra exposição apresentada no segundo andar do Japan House, confesso que fui bastante impactado pelo evento de nome comprido sobre a Carpintaria Japonesa em exibição no térreo. Achei “Mestres da Carpintaria” (chamemos esta mostra por sua denominação mais enxuta) simplesmente fantástica! Prova disso é que resolvi, depois de um longo e tenebroso inverno, produzir uma nova análise artística para a coluna Exposições. Saravá! Até os leitores mais antigos do blog devem ter se esquecido da última pauta com essa temática que pintou no Bonas Histórias, né? Segundo meus arquivos empoeirados, o debate anterior dessa seção foi há literalmente dois carnavais e enfocou “Monet à Beira d´Água”, montagem no Parque Villa-Lobos que explorou a experiência multimídia. Vamos combinar que já estava mais do que na hora de termos novidades por aqui.
Em exibição desde 11 de novembro de 2025 na unidade paulistana do Japan House, “Mestres da Carpintaria” tem como proposta apresentar a riqueza, a beleza, a sensibilidade e a história milenar da arte da carpintaria japonesa. Além disso, ela demonstra os detalhes das habilidades, das técnicas e dos valores dos carpinteiros tradicionais do Japão. A curadoria é de Marcelo Nishiyama, diretor associado e curador-chefe do Takenaka Carpentry Tools, museu de Kobe, no Japão.

Com a montagem em São Paulo, esta exposição completa o giro integral pelas três unidades do Japan House no planeta. Entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, é bom comentar, “Mestres da Carpintaria” foi apresentado no centro cultural japonês de Los Angeles. E de março a julho de 2025, o público londrino conferiu a mostra na unidade da capital inglesa. Os três museus homônimos (no Brasil, nos Estados Unidos e no Reino Unido) fazem parte da iniciativa do governo japonês de promover internacionalmente sua cultura. Por isso, mantém o Japan House em diferentes continentes: Europa, América do Norte e América do Sul. A escolha do nosso país e, mais especificamente, da capital paulista para abrigar uma planta do museu deve-se, obviamente, à elevada imigração nipônica por aqui. Não interagir com os brasileiros e com os paulistanos seria virar as costas para um local que tradicionalmente respira bastante a arte e a cultura do Japão.
Como disse, “Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito“ está montado no térreo do Japan House de São Paulo. A mostra está dividida informalmente em quatro seções: (1) “Florestas”, (2) “Ferramentas dos Carpinteiros”, (3) “Moldes e Projetos Arquitetônicos” e (4) “Réplicas de Construções Realizadas com Madeira”. A área do museu destinada a esse evento não é muito grande. Porém, nota-se o primor nos detalhes e o esmero do conteúdo.
Bem no meio do espaço de exposição, o visitante encontra a ala que emula a experiência de se andar por uma floresta japonesa. O ideal é iniciar o tour de ”Mestres da Carpintaria” por aí. Nesta parte inicial da mostra, que chamei de “Florestas”, o contato é com a matéria-prima da carpintaria. O caminhar do público é extremamente sinestésico. Os sentidos mais aflorados são o olfato e o tato. É possível sentir o cheiro e a porosidade de oito espécies de árvores japonesas: Cedro Japonês (Sugí), Cipreste Japonês (Hinoki), Pinheiro (Matsu), Hiba arborvitae (Hiba), Cicuta Japonesa (Tsuga), Castanha (Kurí), Zelkova Japonesa (Keyaki) e Cereja Japonesa (Sakura). Suas folhas estão disponíveis para apreciação em urnas, posicionadas cada qual à frente das madeiras características.
Há ainda uma réplica de uma tora de uma árvore típica do Japão. E o chão desta seção é de terra batida, com várias folhas caídas. Para completar a parte de abertura da exposição, vemos a vestimenta clássica de um lenhador nipônico, que se parece bastante com os uniformes dos samurais. Pelo menos foi essa a minha impressão, tá? Por fim, ainda assistimos a vídeos que mostram o tom ritualístico, o lado espiritual do contato com a natureza e as técnicas de extração da madeira.

A ala seguinte de “Mestres da Carpintaria” é dedicada aos utensílios de trabalho do carpinteiro. Nas paredes e nas bancadas desta seção, que chamei de “Ferramentas dos Carpinteiros”, conhecemos 87 exemplares das ferramentas tradicionais da carpintaria japonesa. É possível reparar o quão meticuloso é o ofício desses profissionais. Cada peça tem uma destinação específica e foi feita pelo próprio trabalhador que as utilizou. E todas juntas devem caber dentro da caixa de ferramentas do carpinteiro, que também é feita de madeira e está exposta aos visitantes. O acervo foi trazido de um museu de Kobe, cidade litorânea de Osaka.
O terceiro bloco da exposição, “Moldes e Projetos Arquitetônicos”, é dedicado, como seu próprio nome informa, aos moldes de madeira e aos projetos arquitetônicos realizados exclusivamente com as técnicas da carpintaria milenar japonesa. Curiosamente, os desenhos das construções antigas eram feitos em madeira e não em papel. Assim, era possível preservá-los por mais tempo. As explicações de como as edificações de madeira eram erguidas e os detalhamentos das técnicas atuais da arquitetura japonesa são exibidas em vídeos.
Por fim, “Mestres da Carpintaria” é concluída com a exibição de duas construções clássicas da carpintaria japonesa. Nesta quarta e derradeira ala da exposição, que chamei de “Réplicas de Construções Realizadas com Madeira”, acompanhamos a materialização prática de tudo o que foi mostrado anteriormente. Dessa maneira, o público tem contato direto com a réplica em escala real da famosa Casa de Chá Sa-na. Construída em 1742 no templo Daitoku-ji Gyokurin-in, localizado em Quioto, ela foi concebida segundo os conceitos da Carpintaria Sukiya, uma das técnicas milenares da carpintaria do Japão. De valor histórico, esta casa de chá tem como matéria-prima apenas madeira e bambus.
Ao lado, há a segunda réplica em exposição. Essa tem escala 2:1 e simula um pedaço da estrutura (viga) e do telhado do Salão Tōindō do Templo Yakushí-ji. Datada do século XIII, essa parte do edifício foi erguida com a técnica chamada de Dōmiya Daiku, que é usada tradicionalmente em templos e santuários. Nesse caso, usou-se apenas madeira para erguer a construção. Curiosamente, as chapas de madeira são encaixadas umas nas outras, evitando-se a aplicação de pregos ou parafusos.

Para que compreendamos a beleza e a profundidade da exposição “Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito“, é preciso, antes de qualquer coisa, mergulhar em alguns elementos característicos da cultura e da arte japonesas. Sem a contextualização e sem a sensibilização do olhar ocidental para a realidade e os princípios orientais, o público brasileiro certamente ficará deslocado ou mesmo não entenderá a essência da carpintaria tradicional do Japão. Vamos combinar que esse é um equívoco muito comum de vários visitantes de mostras artísticas. A pressa, a falta de concentração, a ausência de bagagem conceitual e/ou a dificuldade de calibração da percepção sinestésica são os grandes inimigos das experiências culturais nos museus. Não seria diferente neste evento do Japan House de São Paulo, né?
Para começo de conversa, vamos distinguir os tipos de diálogos entre passado, presente e futuro que os povos têm. Na cultura oriental, o termo contemporâneo tem significados totalmente diferentes daqueles praticados pela cultura ocidental. Para os japoneses, chineses e indianos, por exemplo, a contemporaneidade é, quase sempre, a atualização dos valores antigos. Ou seja, o presente é visto como a continuidade natural dos elementos do passado. Não há, portanto, a necessidade de se promover grandes quebras e cisões conceituais ao longo do tempo. Tradição e modernidade acabam coexistindo e até caminhando de mãos dadas. As novas gerações são estimuladas a respeitar os legados deixados pelos ancestrais e, a partir daí, conseguem evoluir gradativamente.
Por outro lado, para europeus e americanos (americanos aqui em seu sentido original, daqueles que nasceram nas Américas do Norte, Central e do Sul), contemporâneo é, normalmente, algo originado da ruptura com o passado. Assim, o progresso é constituído através da destruição do antigo e da construção de elementos originais. O moderno e a tradição não dialogam de jeito nenhum e, quando confrontados, levantam intensos ruídos. Invariavelmente, o novo é valorizado e o velho é desprezado. Por isso, o ímpeto das novas gerações é recusar os conceitos e práticas deixados pelos ancestrais e, portanto, erguer elementos antagônicos.
Quem apontou de maneira brilhante essa distinção entre as culturas do Oriente e do Ocidente foi o poeta e ensaísta Octavio Paz. No livro “Convergências: Ensaios Sobre Arte e Literatura” (Rocco), publicado em 1991, o escritor mexicano detalha as diferenças das culturas dos dois hemisférios. Apesar de seu foco ser a análise literária, ele expande a conceituação para a arte no geral, para a filosofia e até para a espiritualidade. Assim, usando os textos de Paz, que mereciam posts na coluna Livros – Crítica Literária, entendemos que a carpintaria japonesa bebe, ainda hoje, dos legados milenares.

Outra explicação que se faz necessária é sobre o Xintoísmo, religião de origem japonesa que prega a veneração aos kami, divindades presentes na natureza. A floresta é, segundo tais princípios, a morada de muitos espíritos, que estão em contato permanente com os seres humanos. Dessa forma, os homens precisam respeitar todos os elementos da natureza. Do contrário, podem levantar a ira dos kami, muito mais antigos e poderosos do que a gente. Vem daí a justificativa para o tom ritualístico do lenhador nipônico. Ao derrubar as árvores, ele se vê obrigado a realizar determinadas cerimônias de caráter divino.
Na cultura clássica japonesa, a madeira extraída da mata não é morta depois de sua extração. Ela apenas ganha uma nova vida fora da floresta. Por isso, o respeito pela peça segue inalterado pelo lenhador e pelo carpinteiro. Vale dizer que a carpintaria tradicional japonesa não mistura diferentes tipos de madeira numa construção ou móvel. Um edifício ou peça precisa ter madeiras originais de uma mesma floresta e da mesma espécie vegetal. Essa exigência tem relação íntima com o respeito à ancestralidade da árvore e à qualidade que se espera do trabalho do carpinteiro.
Quando se usa a mesma espécie vegetal de uma única floresta, o profissional que manuseia o tronco tem maior controle sobre a qualidade da matéria-prima. Afinal, vento, insolação, frio/calor, temperatura, água e solo influenciam diretamente na composição de cada parte da madeira. Mantendo a uniformidade e respeitando as principais propriedades de cada espécie de árvore, evita-se que sua madeira envergue com o tempo para um lado, ceda ou mesmo quebre. A ideia é que o trabalho do carpinteiro dure por décadas, séculos ou até milênios. Afinal, quanto mais durar cada um dos seus trabalhos, menor será a necessidade de novos desmatamentos. E quanto menor for a demanda do lenhador, mais felizes estarão os kami da floresta.
Vale dizer que o Japão é um dos países que mais respeitam a flora. Aproximadamente 67% do seu território é coberto por matas. Boa parte dessa preservação deve-se ao cuidado dos lenhadores tradicionais, que avaliam o que pode ser derrubado e o que ainda precisa esperar pela regeneração. A proposta não é usar a natureza para finalidades predatórias. O equilíbrio entre os seres humanos e os kami está na tônica do Xintoísmo e, por consequência, da carpintaria milenar.

O respeito e o cuidado com as madeiras se notam em várias outras práticas japonesas. Por exemplo, os carpinteiros evitam aplicar tintas e vernizes nas suas peças e construções. Porque esses elementos artificiais agridem a árvore, que continua existindo e vivendo fora da floresta. Com a aplicação de camadas de tinta, a aparência do trabalho da carpintaria até pode ser realçada num primeiro momento, mas as placas de madeira deixam de respirar. Isso seria a morte do vegetal, algo inconcebível para os kami florestais. Nesse caso, a beleza estética no curto prazo afronta a maior durabilidade e a espiritualidade da árvore.
Outra característica da carpintaria japonesa é não empregar pregos nem parafusos em suas construções, como a maioria dos povos ocidentais está acostumada. A técnica utilizada é a do encaixe, tal qual blocos de lego. Há vários motivos para isso. Em primeiro lugar, a prática ocidentalizada seria vista como uma agressão aos troncos de árvore. Do que adiantaria não passar tinta para a madeira seguir respirando e, depois, violentá-la com marteladas e/ou parafusadas, hein? Não faz o menor sentido. Outro motivo é a busca pela máxima qualidade. Parafusos e pregos são feitos de ferro, que tem uma vida útil menor do que a madeira (que respira). Assim, a durabilidade do trabalho do marceneiro poderia ser prejudicada pelas peças de ligação dos blocos de madeira.
Uma terceira razão é a falta de ferro no arquipélago japonês, um território historicamente pobre em recursos minerais. Por fim, a justificativa derradeira é a elevada oscilação sísmica do país asiático, que está sob quatro placas tectônicas em constante movimentação. Construções sob encaixe se adaptam melhor aos frequentes terremotos do que construções com estruturas de fixação. Juro que acho incrível conhecer os detalhes da excelência da carpintaria japonesa, que é baseada na precisão milimétrica e no cuidado espiritual com as matérias-primas. É ou não é uma cultura espetacular, senhoras e senhores?!
Para quem gosta dessa questão do encaixe das peças de madeira, aviso que o Japan House de São Paulo promete uma exposição exclusiva sobre esse tema para maio. A técnica que será exibida é a do Kigumi, proposta arquitetônica de entalhar as placas para que se encaixem perfeitamente à construção. Esse sistema foi, inclusive, utilizado na confecção da fachada do centro cultural japonês na capital paulista. Ao olhar para o prédio na Avenida Paulista, nota-se o emprego de toneladas de madeira, que estão alinhadas e de pé sem nenhum prego ou parafuso as fixando.

A pegada ritualística está presente no dia a dia do carpinteiro de forma muito mais abrangente. Segundo a tradição, cada profissional deve construir suas próprias ferramentas. E para ser respeitado nesse ofício, ele deve ter pelo menos 179 ferramentas à sua disposição. Cada uma tem uma destinação específica e deve respeitar padrões rigorosos de confecção. Essas peças precisam estar sempre ao lado do seu proprietário e têm que ser transportadas juntas em uma caixa de madeira, que também é feita pelo próprio trabalhador. Os japoneses acreditam que a alma do carpinteiro está literalmente em suas ferramentas. Por isso, quando um profissional da carpintaria morre, sua caixa é inutilizada, não sendo transmitida para outras pessoas.
Por tudo isso, achei “Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito“ uma mostra magnífica. Não à toa, dei-lhe nota 9 no RER – Ranking de Exposições do Ricardinho. É a maior avaliação do primeiro trimestre de 2026. O que mais me chamou a atenção é como o evento representa muitíssimo bem a cultura japonesa, refletindo qualidade, espiritualidade, precisão no trabalho manual e respeito ambiental através do ofício com a madeira. Indiscutivelmente, é um mergulho saborosíssimo pela arte da carpintaria e pela arquitetura nipônica, elementos marcantes do país asiático. O Japan House está de parabéns por essa realização!
Apesar de não estar alimentando a coluna Exposições com a devida assiduidade (reconheço a falha, senhoras e senhores!), aviso aos navegantes das artes plásticas que sigo frequentando boas mostras tanto em São Paulo quanto em Buenos Aires. Na capital paulista, outras duas belíssimas exposições que conferi neste ano e que recomendo são: “A Alma Humana, Você e o Universo de Jung” (dei nota 7,5 no RER), que ficou em cartaz até 26 de março no MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo), e “La Chola Poblete – Pop Andino” (nota 8,75 no RER), em exibição no MASP (Museu de Arte de São Paulo) até 6 de agosto. Há uma terceira que ainda não visitei, mas que estou louquinho, louquinho para ir. Trata-se de “Sou o Outro do Outro”, mostra imersiva da artista britânica Es Devlin que está em cartaz desde 15 de março na Casa Bradesco.
Voltando a falar de “Mestres da Carpintaria”, a má notícia é que essa exposição está em sua reta final, final. Ela ficará disponível para o público por menos de uma semana. Sua exibição se encerrará no próximo domingo, 5 de abril. Quem não tinha um programa artístico para o feriadão de Paixão de Cristo/Páscoa, olha aí a boa dica cultural, hein?

É bom comunicar que a visitação ao Japan House de São Paulo é gratuita e ocorre de terça a sexta-feira das 10h às 18h e de sábado, domingo e feriado das 10h às 19h. O espaço não abre às segundas-feiras. O centro cultural japonês está localizado na Avenida Paulista, 52. É mais ou menos ao lado do Shopping Paulista (não confundir com o Shopping Cidade São Paulo, tá?) e está relativamente em frente à Casa das Rosas. Quem curte a cultura japonesa e quer mergulhar nas técnicas da carpintaria nipônica, vale a pena conferir “Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito“.
E para não deixar morrer este tipo de conteúdo no Bonas Histórias, prometo voltar em breve (provavelmente em junho) à coluna Exposições para comentar a mostra “La Chola Poblete – Pop Andino”, a primeira individual da artista argentina que é referência na arte latino-americana contemporânea. Na minha visão, essa mostra do MASP é imperdível e merece também um debate pormenorizado aqui no blog.
Até a próxima, senhoras e senhores!
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