Exposições: Surrealismos, Arte para Além da Razão – A estreia da nova Pinakotheke de SP
- Ricardo Bonacorci
- há 4 minutos
- 11 min de leitura
Em cartaz de 18 de maio a 15 de agosto de 2026 e com curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli, a mostra pretensamente surrealista inaugurou a nova sede da Pinakotheke na cidade de São Paulo. Depois de ficar por 14 anos no bairro do Morumbi, a unidade paulistana da galeria de arte carioca se mudou para um belíssimo casarão da década de 1930 em Higienópolis.

No fim de junho, listei as melhores exposições visitadas no primeiro semestre de 2026. A vencedora indiscutível foi “Imbuídos das Forças das Florestas do Japão – Mestres da Carpintaria: Habilidade e Espírito”. A mostra sobre a carpintaria nipônica ficou em cartaz no Japan House de São Paulo entre novembro de 2025 e abril de 2026. Naquele mesmo post da coluna Recomendações do mês passado, também comentei que iria detalhar para os leitores do Bonas Histórias outro evento paulistano que me chamou bastante atenção: “Surrealismos: Arte para Além da Razão”. Nesse caso, ele ainda está em exibição na Pinakotheke de São Paulo.
É verdade que a exposição autodenominada surrealista ficou apenas na quarta posição entre as melhores apresentações artísticas da primeira metade do ano. Foi superada em termos de qualidade, profundidade e impacto do acervo por “Pluralidades Insulares: Arte Latino-americana e Caribenha no Acervo do BID”, na Galeria de Arte do Centro Cultural FIESP, e “La Chola Poblete: Pop Andino”, no Museu de Arte de São Paulo (MASP), além de “Mestres da Carpintaria”. Contudo, a mostra da Pinakotheke possui características que valem o detalhamento aqui na coluna Exposições. É justamente essa a ideia da publicação de hoje do blog, senhoras e senhores. Vamos mergulhar no universo onírico e, principalmente, nas novidades de uma das mais atuantes galerias de arte do país.
Assim, me sinto obrigado a começar este texto apresentando a Pinakotheke. Ela é a galeria de arte fundada por Max Perlingeiro, em 1979, no Rio de Janeiro. Sua especialidade é a arte brasileira dos séculos XIX e XX. Com as realizações de exposições artísticas e a publicação de livros sobre a História da Arte há quase meio século, a Pinakotheke é considerada uma das principais instituições do gênero da capital fluminense e, por consequência, do Brasil. Desde 1994, sua sede está localizada em uma charmosa mansão no bairro do Botafogo. Nos anos 2000, a galeria começou sua expansão nacional. Atualmente, possui duas unidades fora do Rio: uma em São Paulo e outra em Fortaleza.
A primeira unidade paulistana da Pinakotheke foi inaugurada em 2002 no bairro do Morumbi. Depois de 24 anos no mesmo endereço, a galeria se mudou recentemente. Desde maio de 2026, ela está instalada num casarão histórico do bairro de Higienópolis. Para se fixar ali, a instituição precisou reformar completamente o imóvel, trabalho que exigiu nove meses de obras. A mudança não poderia ter sido melhor. Além de ficar agora num sobrado lindíssimo da década de 1930, que lembra bastante a sede carioca em Botafogo, a unidade de São Paulo está próxima da Avenida Paulista, um dos principais centros culturais do país. Por consequência, o espaço ganhou um público novo, que não se sentia à vontade para se deslocar até a Zona Sul.

Falo por mim mesmo: raramente me atrevia a rumar para o Morumbi para conferir uma exposição artística ou um evento cultural. No máximo, ia para lá por causa de um jogo importante ou um show musical imperdível. Isso é, na época em que o Cícero Pompeu de Toledo era a principal casa do futebol paulista e da música brasileira. Além da distância da minha casa (sempre morei na Zona Oeste) e da falta de boas opções de transporte público (leia-se, ausência por muito tempo de metrô e trem para o outro lado do Rio Pinheiros), tenho certo trauma desse bairro. Das poucas vezes que fui para lá, testemunhei cenas de violência urbana em plena luz do dia, no meio da rua. Acho que fiquei com bloqueio psicológico. Por isso, sempre evitei rolês pelo Morumbi. Se o nome disso for preconceito geográfico, sinto informá-los que sofro deste mal.
Em Higienópolis, a conversa é outra. Ao mesmo tempo que está perto da minha casa (dá para ir caminhando de Perdizes, onde resido atualmente), essa é uma área que propicia uma maior sensação de segurança (para os padrões paulistanos, claro) e possui elevada oferta de transporte público (são várias as linhas de metrô que passam por esse bairro). A proximidade com a Avenida Paulista também é excelente para os turistas nacionais e internacionais e para as famílias locais que estão a passeio no fim de semana.
A maior prova do aumento do interesse do público pela nova unidade da Pinakotheke ocorreu no último final de semana de junho, o primeiro das férias escolares. O casarão em Higienópolis recebeu uma multidão de visitantes, provocando até certo tumulto. Assim, a galeria passou a exigir agendamento prévio aos finais de semana para quem deseja visitar seu espaço. Se por um lado a superlotação trouxe controle burocrático aos visitantes (nada que alguns cliques no site da instituição não resolvam), por outro demonstra o quanto o novo endereço se provou atrativo (no caso, muuuuito atrativo!).
Não à toa, o maior destaque da novíssima Pinakotheke é mesmo as suas instalações. Já fui duas vezes lá nos últimos dois meses e não me canso de apreciar seu edifício de arquitetura clássica devidamente revitalizado. Lar de uma família libanesa em meados do século XX e situado num terreno de 700 metros quadrados, o casarão passou por vários donos a partir dos anos 1970. Foi nessa época que perdeu a finalidade residencial e se tornou estritamente comercial. Contudo, nos últimos anos, o imóvel estava completamente abandonado. Por sorte, não foi alvo do apetite predatório das construtoras imobiliárias da metrópole paulista. Dessa maneira, a Pinakotheke o adquiriu e contratou o escritório da Luciano Dalla Marta Arquitetura para reformá-lo.

A proposta era restaurar as características originais da casa da primeira metade do século passado e torná-la confortável para os visitantes das exposições. Com o trabalho entregue, a nova unidade da galeria possui 180 metros quadrados de espaço interno, o dobro da casa do Morumbi. Há ainda 370 metros quadrados de área externa, hoje utilizados pelo jardim, por uma pequena livraria e por uma minúscula cafeteria. Pelo que entendi, nos próximos meses a ala externa será alvo de uma intervenção arquitetônica, que até aqui priorizou o espaço interno.
Para a sua reinauguração em São Paulo, a Pinakotheke escolheu uma mostra surrealista. O título da exposição, convenhamos, é autoexplicativo: “Surrealismos, Arte para Além da Razão”. Daqui a pouco eu explico o motivo do nome estar no plural: surrealismos. O tema é realmente bem popular, o que dava indícios de ter sido uma escolha acertada por parte da curadoria.
O problema é que, em 2024, tivemos o centenário do Surrealismo, com vários eventos abordando essa corrente artística tanto em São Paulo quanto nas principais metrópoles internacionais. Não foram poucas as homenagens à efeméride do Manifesto Surrealista lançado pelo poeta francês André Breton em 1924. Lembro de pelo menos duas grandes mostras paulistanas realizadas há dois anos: "Reverberações Surrealistas", no Museu de Arte Brasileira/ FAAP, e "Surrealismo, 100 – A Mão, O Olhar E A Ideia em Movimento", na Galeria de Arte André.
Por isso, fiquei com a impressão de perda de timing por parte da galeria carioca. Sabe quando você chega muito atrasado a um compromisso e todo mundo já foi embora? É mais ou menos assim que me senti quando cheguei a “Surrealismos: Arte para Além da Razão”. “Será que voltei dois anos no tempo?”, pensei encafifado com meus botões. Para completar o meu desconforto, a Pinakotheke é, como disse, especializada em arte brasileira. Que lance era esse, então, de investir numa exposição surrealista se não tivemos esse movimento no Brasil, hein?! Juro que buscava respostas para as crescentes perguntas que se acumulavam em minha cachola cada vez mais confusa.

Com curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli, “Surrealismos: Arte para Além da Razão” entrou em cartaz em 18 de maio de 2026, data justamente da inauguração do casarão de Higienópolis. A mostra reúne aproximadamente 100 obras de mais de seis dezenas de artistas. Telas, esculturas, fotografias, fotomontagens, desenhos, joias e produções audiovisuais estão em exibição. A maioria das peças foi obtida por meio de empréstimos de acervos privados. Apenas uma minoria dos itens em exposição é de propriedade da Pinakotheke.
A proposta de “Surrealismos: Arte para Além da Razão” é oferecer um panorama mais abrangente deste gênero. Ao invés de se limitar ao portfólio dos surrealistas europeus, como seria a expectativa-padrão do público conhecedor das artes plásticas, a exposição retrata também os trabalhos de figuras no Brasil/América do Sul, na América Central e na América do Norte que foram fortemente influenciados pelos conceitos surrealistas. Ou seja, estamos falando aqui de obras do nosso cantinho do mundo que flertaram com a estética fantástica do Velho Continente. Na prática, esse intercâmbio transatlântico abriu espaço para trabalhos de nomes do Concretismo, do Simbolismo, do Modernismo Brasileiro e do Expressionismo Abstrato. Daí o título da mostra estar no plural: Surrealismos. O olhar é para a vertente original e para as suas ramificações no Novo Mundo.
Vale lembrar que o Surrealismo nasceu na Europa no Período Entre Guerras. Diante da destruição, da fome, da miséria e das mortes em massa provocadas pela Primeira Guerra Mundial, os surrealistas buscaram na arte um refúgio seguro, lúdico e criativo contra a realidade atroz. Assim, rejeitaram a lógica e a razão, elementos centrais do Iluminismo, e visaram expressões do inconsciente, dos sonhos e da fantasia. Através do mundo ilógico, absurdo, fantástico, delirante e onírico, em um flerte direto com a psicanálise de Sigmund Freud, os artistas europeus canalizavam suas angústias e seus desejos, quase sempre em oposição à moral burguesa.
Curiosamente, o Surrealismo nasceu mais como um movimento literário do que como um movimento das artes plásticas. Não custa recordar que André Breton, o autor do aclamado Manifesto Surrealista, era um poeta e crítico literário francês, não um pintor. Porém, com o decorrer dos anos 1920, 1930 e 1940, quem melhor soube captar os conceitos da nova corrente artística que visava “libertar a imaginação” foi a pintura. Prova disso é o alcance até hoje dos trabalhos de Salvador Dalí, René Magritte, Pablo Picasso, Joan Miró, André Masson e Max Ernst. O cinema e a fotografia, em menor alcance e em menor intensidade, também souberam aproveitar-se da estética surrealista, até mais do que a literatura.

No continente americano, o Surrealismo influenciou vários artistas, mesclando-se com elementos locais como a arte pré-colombiana, o folclore indígena, a cultura afro-americana, o nacionalismo, a crítica social e o humor/sátira existencialista. Apesar de não se intitularem surrealistas, vários pintores do lado de cá do Oceano Atlântico utilizaram boa parte dos componentes estéticos do movimento europeu. No México, Frida Kahlo, Diego Rivera e Rufino Tamayo são os melhores exemplos. Em Cuba e no Chile, respectivamente, os destaques vão para as pinturas de Wifredo Lam e Roberto Matta. Nos Estados Unidos, os expressionistas abstratos beberam diretamente das raízes surrealistas. No Brasil, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Cícero Dias e Maria Martins também deram vazão às imagens que afrontavam a lógica e a razão.
A exposição “Surrealismos: Arte para Além da Razão” se propõe a mostrar os dois lados da arte surrealista: (1) a original e histórica, materializada no Período entre Guerras na Europa; e (2) as suas várias ramificações no nosso continente, que impactaram os artistas na América do Sul, na América Central e na América do Norte. Para ilustrar melhor essas duas linhas narrativas, a mostra da Pinakotheke está dividida por andares.
No térreo do casarão de Higienópolis, o público conhece as obras brasileiras e latino-americanas. Estão ali os já citados Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Cícero Dias, Frida Kahlo, Diego Rivera, Rufino Tamayo, Wifredo Lam e Roberto Matta. Também estão, entre os artistas nacionais, os trabalhos de Flávio de Carvalho, HeliosSeelinger, Alberto da Veiga Guignard, Vicente do Rego Monteiro, Emiliano Di Cavalcanti, Zina Aita, Oswaldo Goeldi, Farnese de Andrade, Flavio-Shiró, Jorge de Lima, Otávio Araújo, Sergio Lima, Walter Lewy, Athos Bulcão, Tunga, Erika Verzutti, Alex Cerveny e Claudio Cretti. Dos países hermanos, há obras do guatemalteco Carlos Mérida, do haitiano Préfète Duffaut e do argentino Antonio Berni.
O segundo andar é dedicado aos artistas europeus e norte-americanos/estadunidenses. Não é preciso dizer que os visitantes ficam hipnotizados pelas peças dos verdadeiros surrealistas, o ponto alto de “Surrealismos: Arte para Além da Razão”. São os casos das telas de Joan Miró, Max Ernst, Pablo Picasso, René Magritte, Salvador Dalí e André Masson. Mesmo que suas obras de maior relevância não estejam em exibição, é muito legal ver o trabalho desses gênios da arte do século XX. Os demais europeus apresentados nesta mostra são: Alberto Giacometti, Fernand Léger, Árpad Szenes, Francis Picabia, Marcel Duchamp, Giorgio de Chirico, Hans Bellmer, Ferdinand Desnos, Henry Moore, Jean Arp, Léon Tutundjan, Leonor Fini, Marc Chagall, Louise Bourgeois, M.C. Escher e Victor Brauner. No caso dos norte-americanos/estadunidenses, temos materiais de Man Ray, Francesca Woodman, Imogen Cunningham e Minnie Evans.

Se o público for à Pinakotheke para conhecer as novas instalações da galeria e, aproveitando, conferir uma exposição leve e didática, acho que “Surrealismos: Arte para Além da Razão” proporciona uma boa experiência recreativa. Para a galera que pretende ver a extensão da arte surrealista no continente americano, também podemos dizer que se trata de um evento que cumpre com o que é prometido. Por outro lado, se a ideia for testemunhar os melhores trabalhos do Surrealismo Histórico (a vertente original, a linha europeia), aí sinto em informá-los que a decepção poderá ser o resultado mais previsível.
Nas minhas visitas a esta mostra, testemunhei pessoas saindo bem frustradas. Na segunda oportunidade, uma senhorinha meio metida chegou até a reclamar na saída em tom irônico: “Tem até pinturas surrealistas de verdade nesta exposiçãozinha”. Na hora, confesso que achei indelicado da parte dela. Depois, compreendi que ela não entendeu nada da proposta de “Surrealismos: Arte para Além da Razão”. Na certa, chegou com uma expectativa e não soube calibrar seu olhar para a proposta da Pinakotheke.
No meu ponto de vista, admito que achei boa a mostra. Como já sabia que o foco estava nas influências dos artistas europeus aos trabalhos dos artistas do continente americano, não me frustrei tanto. De qualquer maneira, é evidente que não temos acesso, nesta exposição paulistana, às mais famosas obras dos pintores, escultores e fotógrafos retratados. É como se assistíssemos à segunda ou à terceira divisão de seus portfólios artísticos. Vamos combinar que é preciso curiosidade artística para acompanhar as peças menos destacadas de Salvador Dalí, René Magritte, Pablo Picasso, Joan Miró, Frida Kahlo, Diego Rivera, Rufino Tamayo, Wifredo Lam, Roberto Matta, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Cícero Dias e Maria Martins, né? Infelizmente, não é todo mundo que tem tal disposição, como comprovado pela senhorinha bocuda.
A mostra “Surrealismos: Arte para Além da Razão” ficará em exibição até 15 de agosto. A entrada na Pinakotheke de São Paulo é gratuita. Como expliquei no início deste post da coluna Exposições, aos finais de semana, é possível que seja solicitado o cadastro prévio no site da galeria. Isso até o fluxo de visitantes do espaço se normalizar. Talvez em época de férias escolares, tenhamos que conviver com essa pequena burocracia em prol do conforto mínimo dos visitantes. Durante a semana, não há qualquer inconveniente. Falo isso porque as minhas visitas foram numa terça-feira à tarde (em junho) e numa quarta-feira à tarde (em julho). E foi de boa entrar e visitar a mostra.

Vale também dizer que a unidade paulistana da Pinakotheke está localizada na Rua Minas Gerais, número 246, no bairro de Higienópolis. Para vocês se situarem, a galeria está na esquina da Rua Minas Gerais com a Avenida Paulista. Ou seja, está encostada ao famoso cruzamento da Avenida Angélica com a Avenida Paulista e muitíssimo próximo a outro cruzamento ainda mais conhecido, o da Avenida da Consolação com a Avenida Paulista. Em outras palavras, é super fácil chegar lá. As estações do Metrô Paulista (Linha 4-Amarela) e da Consolação (Linha 2-Verde) ficam, respectivamente, a apenas 200 metros e 500 metros de distância do casarão.
Este é um programa cultural que recomendo. Se “Surrealismos: Arte para Além da Razão” é uma mostra artística que deixa a desejar em termos conceituais e de qualidade do acervo, como mencionei há pouco, a experiência de visitar as novas instalações da Pinakotheke, que ainda cheiram a tinta fresca, potencializa a visita. Assim, o combo formado pelo passeio e pela exposição é extremamente positivo. Daí minha vontade de comentá-la hoje no Bonas Histórias.
Para quem gosta de artes plásticas, vale juntar a ida a “Surrealismos: Arte para Além da Razão” com a visita a Gomide&Co, outra excelente galeria de artes localizada nessa mesma região. A Gomide&Co está ao ladinho da Pinakotheke, mais precisamente no cruzamento da Avenida Angélica com a Avenida Paulista. As duas estão a cerca de 60 metros de distância uma da outra. Vai me dizer que essa coincidência não pede uma visita casada, hein?!
O melhor de tudo é ver que Higienópolis está se provando um novo centro das artes paulistanas. Impossível não querer ir para lá com mais frequência.
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