Filmes: O Convite – A tragicomédia de um casamento por Olivia Wilde
- Ricardo Bonacorci

- 3 de ago.
- 14 min de leitura
Em cartaz no circuito comercial de cinema desde a segunda semana de julho, o longa-metragem roteirizado por Rashida Jones e Will McCormack apresenta um matrimônio arruinado pelo tempo, pelo marasmo e pelas frustrações pessoais. Porém, a situação adquire tons de humor ácido na visita aparentemente despretensiosa dos vizinhos descolados e apaixonados do apartamento de cima. Estrelado por Seth Rogen, Penélope Cruz, Edward Norton e Olivia Wilde, que é a responsável pela direção, O Convite é a comédia hollywoodiana adaptada de uma bem-sucedida peça espanhola.

Na segunda semana de julho, fui ao Espaço Petrobras de Cinema para conferir “O Convite” (The Invite: 2026), o terceiro filme de Olivia Wilde na direção. E saí da sessão encantado com a comédia norte-americana sobre um casamento em frangalhos. No caso deste matrimônio, o que está ruim sempre pode piorar, contradizendo o arlequim cearense transformado em nobre deputado em Brasília. O longa-metragem de Wilde é, ao mesmo tempo, inteligente, profundo, engraçado, dramático, sexy e dinâmico. O que mais podemos querer de uma experiência cinematográfica, hein?! Por isso, não é exagero classificar esta produção hollywoodiana como a mais divertida em cartaz atualmente no circuito comercial brasileiro.
Assistindo a “O Convite”, me lembrei dos melhores trabalhos de Woody Allen, um dos mestres contemporâneos na arte de escancarar as tensões conjugais de maneira hilária. Prova disso são: “Ponto Final - Match Point” (Match Point: 2005), “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018) e “Golpe de Sorte em Paris” (Coup de chance: 2023). Se voltar os olhares para seus títulos mais antigos, vou passar o dia citando comédias sentimentais debochadas, como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall: 1977), “Manhattan” (1979), “Hannah e Suas Irmãs” (Hannah and Her Sisters: 1986) e “Maridos e Esposas” (Husbands and Wives: 1992).
Gostei tanto do novo filme de Olivia Wilde que, ao sair da sala de exibição, pensei: “Já tenho o conteúdo do próximo mês da coluna Cinema! Vou escrever sobre essa tragicomédia sentimental sim ou sim”. Portanto, este novo texto do Bonas Histórias é o pagamento de uma promessa que fiz para mim mesmo no calor da emoção. Mesmo com algumas semanas de atraso, considero que a dívida está sendo paga agora.
Para começo de conversa, achei que “O Convite” apagou a má impressão deixada por Wilde em “Não Se Preocupe, Querida” (Don't Worry Darling: 2022), sua direção anterior. Esse suspense psicológico não empolgou nem a crítica nem o público. Com um roteiro com cheirinho de déjà vu – lembra bastante “Mulheres Perfeitas” (The Stepford Wives: 2004) – e com uma narrativa bem capenga – possui vários pontos falhos –, confesso que saí frustrado do cinema. Na época, morava há pouco tempo em Buenos Aires e achei que o problema da sessão cinematográfica tinha sido o meu mau espanhol para compreender as legendas. Porém, depois descobri que o filme era ruim mesmo.

A sensação negativa deixada por “Não Se Preocupe, Querida” foi potencializada pela ótima estreia de Wilde como diretora, o que naturalmente elevou a expectativa dos fãs da sétima arte. “Fora de Série” (Booksmart: 2019) é uma comédia juvenil extremamente engraçada, surpreendente e sagaz. Seu humor ácido lembra mais os filmes franceses e argentinos do que os hollywoodianos, o que para mim é um baita mérito.
Analisando agora em retrospectiva, o longa-metragem de sete anos atrás possui vários elementos em comum com “O Convite”. Afinal, ambas as histórias tratam de frustrações sentimentais/sexuais, arrependimentos pelas escolhas feitas ao longo da vida e pelo desespero com a passagem do tempo/envelhecimento. A diferença é que “Fora de Série” foca na angústia de uma dupla de adolescente estudiosas, enquanto o novo título mergulha na aridez da rotina de um casal convencional. De principais semelhanças, dá para apontar a fina ironia e a pegada de tragicomédia que as narrativas audiovisuais adquirem ao longo da sessão.
Sei que estou falando do trabalho de Olivia Wilde na direção como se o grande público estivesse familiarizado com ele. Contudo, devo ressaltar que é mais provável que a galera ainda conheça Wilde mais pelas atuações como atriz, o que é natural. No cinema, seus papéis de maior relevância foram em “Rush - No Limite da Emoção” (Rush: 2013) e “A Vida Em Si” (Life Itself: 2018). Na televisão, o destaque vai para a participação em “House” (2004-2012) e “Vinyl” (2016). Tanto em “Fora de Série” quanto em “O Convite”, a diretora não conseguiu resistir à tentação e foi para frente das câmeras. Se na comédia de 2018 pegou um papel de coadjuvante, agora ela é uma das protagonistas.
O roteiro de “O Convite” foi escrito por Rashida Jones e Will McCormack, dupla que havia trabalhado junta como roteirista em “Celeste e Jesse para Sempre” (Celeste and Jesse Forever: 2012). Para sermos honestos com os fatos, eles não escreveram essa história do zero. Afinal, estamos tratando aqui do remake de um filme espanhol. “As Pessoas de Cima” (Sentimental: 2020) foi o longa-metragem dirigido e escrito por Cesc Gay a partir de sua peça teatral chamada de “Los Vecinos de Arriba". A obra cênica estreou em Barcelona, em 2015, e chegou em Madrid no ano seguinte. Com o grande sucesso no país natal, o espetáculo foi levado para o exterior. México, Colômbia, Chile e Argentina, por exemplo, foram algumas nações que o encenaram, propagando o êxito comercial desta história hilária.

No elenco de “O Convite”, temos figuras de peso em Hollywood: Seth Rogen, de “Casal Improvável” (Long Shot: 2019), Penélope Cruz, de “Dor e Glória” (Dolor y Gloria: 2019), e Edward Norton, de "Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância" (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance: 2014). Acho que este trio dispensa apresentações, né? Eles se juntaram a Olivia Wilde no time de intérpretes.
Orçada em apenas US$ 5 milhões (pechincha para os padrões da indústria cinematográfica dos Estados Unidos), essa comédia foi filmada entre abril e maio de 2025. Foi necessário menos de um mês de gravação. Enquanto as tomadas internas (quase o filme inteiro) aconteceram em um estúdio em Los Angeles, as cenas externas (pouquíssimas, se limitando a abertura da história) de “O Convite” foram rodadas em São Francisco. Enquanto nos Estados Unidos o lançamento do novo longa-metragem de Olivia Wilde ocorreu no final de junho, no exterior ele chegou ao circuito comercial de cinema no início de julho. Portanto, sua exibição no Brasil respeitou a agenda internacional.
Feita a apresentação geral, acho de bom tom detalhar o enredo desta produção cinematográfica. É exatamente isso que vou fazer agora, senhoras e senhores. “O Convite” se passa em São Francisco. Joe (interpretado por Seth Rogen) é um ex-roqueiro que teve 15 minutos de fama na juventude. Depois que sua banda fracassou, num passado cada vez mais distante e esquecido, ele se convenceu a dar aulas de música para crianças e adolescentes num conservatório. É a maneira encontrada para se manter atrelado à vocação artística e um jeito digno para fazer dinheiro. É claro que Joe, agora um quarentão cada vez mais rabugento e infeliz, odeia a rotina como professor.
As lembranças do passado exitoso e a frustração pelo ocaso da carreira no rock o machucam consideravelmente, ao ponto de não tocar mais piano nem querer ouvir as canções mais famosas da antiga banda. Para piorar ainda mais a situação, ele possui terríveis dores nas costas (a idade chega para todos!) e tem um salário extremamente limitado (juro que o entendo perfeitamente). A sorte de Joe é que vive com a esposa, a belíssima Angela (Olivia Wilde), e a filha de 12 anos na casa deixada pelos pais dele. Talvez a palavra “sorte” não seja a que o protagonista do filme usaria para expressar a sua realidade.

Angela também não parece nadinha feliz com o seu cotidiano. Presa às tarefas domésticas e à criação da filha, ela precisa aturar o mal humor do marido e a frieza cada vez maior dele. Nada o que faz é valorizado pelo marido, um homem distante e insensível. Não é preciso dizer que eles não fazem sexo há mais de um ano. O casal de protagonistas não apenas perdeu o afeto mútuo como parece se odiar em doses crescentes. A repulsa entre eles parece ter chegado ao ponto que não tem mais volta. Não por acaso, eles pensam em separação, apesar de ainda não terem externado tal vontade. A união conjugal se justifica apenas pelo bem-estar da filha pequena.
É neste ambiente de elevada belicosidade e tristeza que se passa a história do longa-metragem. “O Convite” ocorre em uma única noite. Ao retornar para casa no fim da tarde depois das aulas no conservatório, Joe espera por só uma coisa: descansar! Contudo, ao pisar no lar, ele descobre que Angela convidou um casal de vizinhos para o jantar. Inclusive, a esposa preparou uma rebuscada refeição, trocou a mobília do apartamento e comprou roupa nova para o tão aguardado evento. Para falar a verdade, ela está empolgadíssima com a visita. Há mais de um ano, Angela quer chamar o casal sexy do andar de cima para um encontro em sua residência. Assim, aproveitou que a filha iria dormir fora naquela noite para concretizar o antigo desejo. Só se esqueceu de avisar o marido.
Com alguma razão, Joe fica enfurecido quando descobre, em cima da hora, os planos da esposa. Diferentemente dela, ele odeia aqueles vizinhos. O motivo é um tanto inusitado: o casal do andar de cima faz sexo aos berros, acordando o edifício inteiro no meio da madrugada. Bastante incomodado com a situação, até porque tem uma pré-adolescente em casa, o anfitrião resolve reclamar de uma vez por todas com os amantes pouco recatados do edifício.
É o que basta para deixar Angela enfurecida. Ela clama para o marido não estragar o seu jantar. A dona de casa teve tanto trabalho para deixar tudo pronto e só deseja ter algumas horas de descontração e alegria. Porém, Joe não parece nem um pouco disposto a ser agradável com as visitas, tampouco com a esposa. Por isso, promete que assim que os visitantes chegarem ao apartamento, irá jogar na cara deles o que está entalado na sua garganta.

Quando Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), os tais vizinhos apaixonados, chegam no lar de Joe e Angela, eles notam rapidamente que os anfitriões estão brigando. Ao invés de se incomodarem com aquele conflito conjugal, os recém-chegados afirmam gostar de ambientes tensos. E, assim, começa o jantar, que vai seguir por caminhos imprevisíveis.
Por mais que Angela se esforce para agradar às visitas, seu evento se prova uma enorme catástrofe: o prato principal queima no forno (quem manda ficar brigando com o esposo?), não há bebida alcoólica para servir (o marido não trouxe vinho pois não leu as mensagens no celular), Piña não come queijos nem embutidos que são oferecidos (ela é vegana) e Hawk se mostra um homem sensível e inteligente (em uma contraposição incômoda com o estilo brucutu do anfitrião). Por outro lado, os visitantes curtem o lado sincerão e mal-humorado de Joe. Eles não apenas não ficam bravos com as reclamações sem fim dele como concordam com quase todas as suas objeções.
O interessante é verificar o quão antagônicos são os casais desta história. Se Joe e Angela perderam o afeto e o companheirismo há muito tempo, Hawk e Piña são carinhosos um com o outro e demonstram grande entrosamento e união. Obviamente que as diferenças suscitam curiosidades e perguntas de ambos os lados. Aí está a chave para as revelações que surgem noite adentro. Quando as intimidades dos casais tão distintos são expostas publicamente, o que parecia um simples coquetel informal de vizinhos adquire tons surpreendentes. De repente, a tranquilidade de um encontro fortuito dá lugar a uma aventura sexual com jeitão tragicômico.
“O Convite” é realmente um filme hilário. Além de muito engraçado, ele é dinâmico, inteligente e charmoso. Me arrisco a dizer que ele empatou com “As Ovelhas Detetives” (The Sheep Detectives: 2026) como a melhor comédia dramática que vi até aqui em 2026. Com aproximadamente 110 minutos de duração, o terceiro longa-metragem de Olivia Wilde como diretora reserva várias reviravoltas, que certamente agradarão aqueles que buscam uma sessão cinematográfica com altas doses de tensão e suspense.

O primeiro elemento que chama a atenção na estrutura de “O Convite” é o seu esquema cênico. A impressão é que estamos assistindo a uma peça e não a um filme. Digo isso porque temos na tela apenas quatro personagens, que permanecem durante quase toda a sessão em um único ambiente. A exceção, que só confirma a regra do tom teatral, está nas duas cenas iniciais do longa-metragem. Na abertura da trama, Joe reclama dos alunos no conservatório e, em seguida, volta para casa de bicicleta. A partir daí, a história se desenrola exclusivamente no interior da residência do casal de protagonistas.
O máximo de deslocamento das personagens é perambular pelos cômodos do apartamento de Joe e Angela: hall de entrada, corredores, sala de estar, cozinha, dispensa, escritório doméstico, banheiro e quarto do casal. Ainda assim, eles ficam a maior parte do tempo é na sala mesmo. Curiosamente, nem as lembranças/flashbacks nem as divagações do quarteto são encenadas, o que exigiria a filmagem em outros lugares. Simplesmente, vemos e ouvimos seus relatos diretamente, sem qualquer gravação ou sobreposição de imagens.
A permanência dos atores num único ambiente potencializa a sensação de claustrofobia e de aprisionamento que Joe e Angela vivenciam há tanto tempo. A iluminação quente, com vários jogos de sombra, deixa o cenário ainda mais incômodo. Não nos esqueçamos que essa história é sobre um casal amarrado às convenções sociais e às armadilhas do matrimônio convencional. Mesmo num relacionamento infeliz, eles não conseguem sair dos seus dramas íntimos e não possuem forças para desafiar a rotina conjugal pra lá de desgastada. Não à toa, a chegada de Hawk e Piña, um casal extremamente feliz e sexy, mexe com os sentimentos dos anfitriões. Enquanto Joe odeia o esplendor da relação carnal dos vizinhos, Angela inveja a beleza natural da dupla que vive no andar de cima.
A razão pela qual afirmei que “O Convite” possui as características de uma produção teatral não é justificada apenas pelas poucas personagens e pela ambientação única. Seu drama está ancorado totalmente nos diálogos e na atuação dos personagens no palco... quero dizer na tela. Vamos combinar que tais componentes são mais comuns dos espetáculos cênicos do que dos longas-metragens comerciais, né? Portanto, deu para notar que o filme norte-americano mantém boa parte da essência da obra espanhola em que foi inspirada. Além disso, achei que esse ar teatral conferiu maior charme, profundidade e originalidade ao drama dos vizinhos californianos.

Tenho certeza de que alguns leitores da coluna Cinema mais questionadores vão me perguntar: “Mas o fato de os quatro atores ficarem por quase duas horas num mesmo cenário falando, falando e falando não torna o filme chato e/ou muito parado?!”. A resposta é “NÃO”. Aí estão justamente a força desse roteiro e o impacto de seus diálogos, senhoras e senhores. Definitivamente, “O Convite” não é enfadonho nem moroso. Pelo contrário. Trata-se de um longa-metragem eletrizante e dinâmico, capaz de prender a atenção da plateia do início ao fim.
Por isso, considerei sua narrativa tão sublime. O mais legal é constatar a tensão do ambiente e a mudança do conflito de tempos em tempos. No início, o drama conjugal de Joe e Angela aparece em primeiríssimo plano. Depois, “O Convite” passa a enfocar com mais intensidade a disputa entre vizinhos – Joe versus Hawk e Piña. À medida que a noite avança, novos temas surgem paulatinamente no jantar: sonhos e frustrações íntimas de cada personagem; desejos reprimidos, atrações incontroláveis e experimentações sexuais; hobbies e interesses particulares; profissões e aspirações profissionais; mentiras e segredos há muito tempo ocultos; e disposição e bloqueios para mudar a dinâmica familiar.
Em outras palavras, o filme não se torna em nenhum momento tedioso porque sua história se transforma constantemente. E os motivos principais são o seu enredo muito bem desenvolvido e seus diálogos de altíssima qualidade, que mexem verdadeiramente com a emoção dos espectadores. Se você é escritor(a), roteirista ou dramaturgo(a) e quer ter uma aula de como se produz belos discursos, assista a este filme. Ele é verdadeiramente uma aula no que se refere a excelência dos diálogos.
Obviamente que esse impacto não seria possível sem um elenco de primeiro nível. Felizmente, o quarteto que integra “O Convite” se saiu muitíssimo bem. Para o grande público, talvez não seja novidade a exuberância da atuação de Penélope Cruz, Edward Norton e Olivia Wilde. Eles são artistas de qualidade indiscutível e vão outra vez maravilhosamente bem na telona. Chega até a ser difícil apontar quem deste trio se sobressaiu em cena.

A grande novidade, neste caso, é a profundidade dramática de Seth Rogen, ator canadense que ficou marcado por comédias do tipo besteirol. Quem não se lembra de “Ligeiramente Grávidos” (Knocked Up: 2007), “É o Fim” (This Is the End: 2013) e “Vizinhos” (Neighbors: 2014), hein? Ainda bem que ele tenha, nos últimos anos, deixado os títulos mais bobinhos e de humor questionável. Assim, passou a explorar papéis mais sólidos em longas-metragens de maior profundidade dramática. Nesta produção de Wilde, Rogen arrebentou no papel de marido frustrado. Em muitos momentos, ele se tornou o grande destaque positivo no quesito interpretativo, acredite se quiser!
Voltando a falar do roteiro, é até difícil definir exatamente o gênero de filme que “O Convite” se enquadra. Ele é definitivamente uma comédia. Em relação a isso, não há qualquer questionamento. A questão que me intriga é que ele pode ser visto também como uma tragicomédia conjugal, um thriller psicológico, uma comédia romântica ácida, um drama irônico sobre a meia-idade, uma aventura erótica de casais comuns, um escapismo sentimental profundo ou até um suspense semi-surrealista. Para ser franco com os leitores do Bonas Histórias, o achei uma mescla de cada um desses tipos cinematográficos. Ainda assim, conforme o título deste post explicita, se tivesse que escolher apenas uma denominação, diria que ele é a tragicomédia de um casamento convencional.
A trama de “O Convite” possui tantas reviravoltas que o ideal é a plateia chegar à sala de cinema sem nenhuma informação sobre esta produção. Dessa forma, o público poderá curtir com mais intensidade cada uma das surpresas reservadas pelo enredo. Pensando nisso, suprimi de propósito muitos detalhes do enredo na minha explicação sobre o filme. Como fui arrebatado pela overdose de confusões protagonizada pelos casais Joe-Angela e Hawk-Piña, gostaria que todos vivenciassem tal experiência em sua sessão cinematográfica. Não sei se vocês vão acreditar em mim, mas fui ao Espaço Petrobrás de Cinema no mês passado sem saber NADA sobre essa história!

Juro que pensei várias vezes se deveria ou não discutir o caráter dúbio do título deste longa-metragem nesta análise crítica. Afinal, correria o risco de dar o spoiler, algo que abominamos aqui no blog. A solução foi mais simples do que o imaginado: alertar previamente os leitores da coluna Cinema sobre os perigos das próximas linhas. Assim, se você ainda não viu “O Convite”, recomendo pular imediatamente para o próximo parágrafo. Se você já o conferiu, poderá continuar com a leitura normalmente. Feito o aviso, sinto-me mais tranquilo para seguir com meus comentários analíticos... Tudo isso para dizer que, no início da sessão, achamos que o convite é o chamamento inocente de Angela a Hawk e Piña para um jantar em seu apartamento. Porém, descobrimos que o grande convite, que certamente configura a menção ao nome do filme, é uma proposta lasciva feita pelo casal de visitantes aos anfitriões no meio da noite. Hilário!
Mais incrível que isso só mesmo o desfecho aberto do longa-metragem. Não se preocupe que não vou explicar o que acontece, apenas discutir as características do final da história. Para completar, vou apontar meu entendimento, que é estritamente pessoal. “O Convite” se encerra permitindo múltiplas interpretações dos espectadores. Afinal de contas, qual a decisão do casal de protagonistas, hein? A resposta não é dada de um jeito claro pelo roteiro. Cabe a cada cinéfilo interpretar, a partir de sua visão de mundo e dos seus sentimentos, o desenlace da trama. Provavelmente o meu entendimento não será igual ao de todos os espectadores.
Como não sou alguém muito romântico (nota 1 numa escala de 0 a 10), achei que Joe e Angela não ficam juntos. Durmamos com essa bomba! Por outro lado, tenho convicção de que a galerinha mais romântica (beijos, Mazinha, Bruxinha e Rose) certamente acreditará que eles permanecem casados depois da noite catártica com Hawk e Piña. Confesso que adoro desfechos abertos por ficar levantando várias conjecturas. Será que o casal ficará junto só para provar das possibilidades sexuais levantadas pelos vizinhos mais descolados? Pode ser. A única evidência concreta é que a falta de definições não agradará a maioria do público. Se vocês são do tipo que preferem os finais fechadinhos e convencionais, talvez saiam desta sessão de cinema bem frustrados.
Assista, a seguir, ao trailer de “O Convite” (The Invite: 2026):
Depois de ver esse longa-metragem hollywoodiano, confesso que fiquei com muita vontade de conferir a peça teatral original de Cesc Gay. Porém, infelizmente, constatei que “Los Vecinos de Arriba" não está mais em cartaz em Mi Buenos Aires Querido. Juro que, se ainda estivesse sendo apresentada em alguma casa de espetáculos na Avenida Corrientes, a Broadway portenha, não apenas correria para assistir à montagem argentina como a comentaria em detalhes na coluna Teatro. Contudo, não será dessa vez.
A boa notícia que extraio de “O Convite” é a sensação da consolidação de Olivia Wilde como uma ótima cineasta cômica. Com o novo filme, ela provou que a excelência demonstrada em “Fora de Série” (Booksmart: 2019) não foi sorte de principiante. Como diz o velho ditado, dois raios não caem no mesmo lugar. O que está me intrigando é saber se “O Convite” é melhor e mais engraçado do que “Fora de Série”. Por mais que tenha adorado a estreia de Wilde na direção, acho que seu terceiro longa-metragem é, sim, superior. Agora é esperar pela sua próxima comédia e torcer para que ela venha com o mesmo tempero ácido e com o mesmo olhar aguçado para as maluquices contemporâneas.
Com o iminente encerramento da carreira de Woody Allen, anunciada anualmente há uma década e meia, é bom antever quais são os próximos diretores que vão substituí-lo como mestre das comédias românticas com pegada tragicômica. Me parece que Olivia Wilde é uma fortíssima candidata a assumir esse posto. Seria exagero da minha parte? Confio que não. Quero crer que ainda analisarei muitos filmes dela nas páginas do blog.
Até a próxima, senhoras e senhores.
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