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- Contos: Diálogos Urbanos - Nos Trilhos
O próximo trem a dar entrada na plataforma 1 tem como destino a estação terminal Grajaú. O próximo trem a dar entrada na plataforma 1 tem como destino a estação terminal Grajaú. Hoje demora mesmo. Ah, é? Parece que tem menos trem. É um absurdo. Como se a gente não saísse de casa de final de semana. Tudo culpa desse prefeito aí. Eu não votei nele. Nem eu. Onde já se viu eleger um almofadinha que nunca andou de transporte público. Você viu o vídeo dele? Aquele que ele tá peladão no meio da mulherada? Será que era verdade aquilo? Deve ser. Político, jogador de futebol e artista é tudo safado mesmo. Coitada da mulher dele. Coitada nada. Quem casa com pilantra, merece tomar chifre. Até que enfim. Graças a Deus! O trem estacionando na plataforma 1 tem como destino a estação terminal Grajaú. Os caras roubou a loja na caruda. Quando os polícia chegou foi aquele Deus que nos acuda. Deu para ouvir o tiroteio no outro lado do Capão, vê se pode. Eu tava dormindo e falei pro Tadeu, o que é isso? Meio dormindo, ele disse que deveria ser a molecada soltando biribinha. Podia ser. De madrugada?! É. Não sou de confundir tiro com nada. Na hora, falei: é os polícia se estranhando com os vagabundo. Falando nisso, seu marido tá bem? Aquele traste tá cada dia mais gordo, velho e folgado. Logo, logo nem mais para a coisa ele vai prestar. Ruim com eles, pior sem. É isso aí mesmo. O difícil é nós se acostumar com o Diabo. Depois que se acostuma, ele parece até mais manso. Só não me acostumo com o ronco dele. É fechar os olho e começa uma britadeira no outro lado da cama. Você acha que essa minha cara de insônia é por quê, Dalva? Que nada, você tá ótima, amiga. Tó nada. Tem coisa pior do que velho roncando a noite toda? Sim, velho que mija na cama. O seu mija na cama? Você não sabia? Não. É um inferno, nem te conto. O próximo trem a dar entrada na plataforma 2 tem como destino a estação Osasco. O próximo trem a dar entrada na plataforma 2... Tririmrim, tririmrim, tririmrim. Oi, Carlinha. Faz o seguinte: vá direto pra casa porque eu ainda tó esperando o trem aqui na Marginal Pinheiros. Não, ainda nem passou. Como hoje é domingo, demora bastante. É. Faz o seguinte: pode ir e não me espera para almoçar que eu vou chegar tarde. Porque demora o trem, né? Não, não. Vai direto que a gente se encontra lá. Devo chegar duas, duas e pouquinho. Não, não precisa, não. Brigado. Vai direto que eu fico mais tranquilo. Tá bom. Ahãm. Depois a gente se vê. Beijinho. Eu também. Poderá ser recolhido por um empregado da CPTM. Precisando de ajuda? Conte com nossa equipe. Juntos fazemos um transporte melhor. CPTM, multiplicando conexões. O trem estacionando na plataforma 2 tem como destino a estação Osasco. Dindindim. Fone de dez, fone de quinze. Tenho fone da Inova, fone da Samsung, cabo do Titânio, cabo do iPhone. Fone, cabo! Viagem sem grito e sem sujeira. Fone, cabo, carregador aqui na minha mão. Não compre. Fone de dez, fone de quinze. Pega Trident, um real. Pega Mentos, um real. Bala de café, bala de gengibre é um real. Que triste. Eu fiquei arrasada quando a Paulinha me contou. Mas eu tó bem, juro. Tá mesmo? Tó. Sabe, eu falei para o meu irmão ontem. Final de casamento é que nem acidente aéreo: é uma sucessão de problemas que vão acontecendo no meio do caminho, que na hora você não repara direito, e quando você vai ver, a merda tá feita. Casamento é igualzinho. Não foi um probleminha, né? Não. Eu nem saberia dizer o que realmente fudeu a relação. Os assentos com indicação são de uso preferencial. Respeitem esse direito. Sexuais não! Mas eu estava pensando em um fider-fee para ela. Porque ela fica, ela já falou daquela mina, mas sexuais não. Você sofreu assédio, Raul? É, talvez, na hora não tenha caído a ficha. Assédio sexual? Não. Talvez, assédio moral. Qual é a sensação como homem de ser assediado por uma mina? E num ambiente de trabalho. Sim, o que é pior. Foi médio. Cara, o problema é que ela não é uma mina que me agrade sexualmente. E se te agradasse? Eu ia achar da hora. Seu sujo! Pedir esmolas e o comércio ambulante são práticas ilegais. Não incentive essas ações. Você não ouviu metade da missa. O pai é japonês, fora da caixinha. A mãe também é de origem oriental. Ambos fizeram engenharia. O pai criou um sistema na área de engenharia muito bem-sucedido. Encheu o cu de dinheiro da noite para o dia, sem nenhuma estrutura emocional. Tipo riquinho emergente, sabe? Sei bem. O filho vagabundo fez engenharia. Aí, ele não terminou a faculdade, jubilou, perdeu. Foi fazer outra facu. De Direito? De Direito! Aí, ela foi consultar ele. O que ele achava dela vir trabalhar comigo. Só isso já te deixou nervosa? Claro. Ela era minha melhor amiga. Onde já se viu perguntar para o novo namoradinho o que ele achava?! E ele? Ele virou para ela: não faça isso porque não vai dar certo, coisa errada sempre termina errada, vai envolver muita coisa, vai dar trabalho, caia fora disso. Será que ele não quer que ela só cuide da casa? E quer ver ela afastada de todo mundo de preferência. Isso já depois dela ter dado a palavra que ia trabalhar comigo. Estação Villa-Lobos Jaguaré. Esse já é o nosso? É, vem. Desembarque pelo lado esquerdo do trem. Um dia ainda vou encontrar de novo esse sujeitinho sem caráter para dizer umas poucas e boas para ele. É para lá ou para cá? Por aqui. Você nunca andou de trem?! Dindindim. Vamos lá, meus amados. Primeiramente, uma boa tarde para todos. Em segundo, mil desculpa de incomodar a viagem. É um pouco envergonhado que eu vou incomodar a viagem de vocês. Tem dois minutinho? Vou apelar para o senso de comunidade. Eu estou de pé desde as seis horas da manhã. Eu vim fazer um bico de ajudante de soldador e parei praticamente a uma hora atrás. A sete meses atrás eu era tecladista e vocalista até eu fazer um show aqui nas proximidades do Grajaú. Dois abençoados colocou um revólver na minha cabeça e levou meu carrinho velho com toda a minha aparelhagem de som. Era com essa aparelhagem de som, meus amados, que eu sustentava a minha família e pagava o meu aluguel. Hoje, estou com duas benção, passando por necessidade e com o aluguel atrasado. Eu tenho uma menina de três anos que é portadora de Síndrome de Down. E tenho um recém-nascido de seis meses que se encontra em estado grave na UTI com uma doença rara que nem sei falar o nome. Meus amados, eu tó com duzentos e cinquenta reais, atrasado com o aluguel onde eu moro e a mesma coisinha com um contrato para morar um ano na rua. Tem duas coisas também que eu tenho medo: é do castigo de Deus e de levar as minhas duas crianças pequena para morar nas rua de São Paulo. Meus amados, cinquenta reais está faltando. Pode parecer uma insignificância mínima, mas para mim é uma fortuna porque eu não tenho donde tirar. A não ser que tenha uma pequena ajuda de cada um de vocês. Meus amados, eu não estou aqui brincando de pedir. Estou aqui cansado e com fome, mas quero ganhar minha vida com dignidade, sem meter a mão no bolso de um pobre de um pai e de uma mãe de família. Meus amados, uma pequena ajuda para mim será uma grande ajuda. Que Deus abençoe realmente a todos. Desculpe. Estação Ceasa. E uma ótima tarde. Obrigado. Desembarque pelo lado esquerdo do trem. Deus te abençoe. Obrigado. Muito obrigado. Que Deus devolva em dobro pra você. Ao desembarcar tome cuidado com o vão entre o trem e a plataforma. E pra você também. Dindindim. Doze meia é dez! Meia soquete, meia longa. Alguém mais vai querer a carteira, pessoal? Doze meia é dez! Cinco reais a carteira. Meia soquete, meia longa. Carteira cinco reais. É sintética, imita couro. Não seja responsável pelo comércio ilegal. Não compre. Doze meia é dez! Alguém mais vai querer? É só cinco. Parece ou não parece couro? Ninguém fala que não é, né? Meia soquete, meia longa. Água gelada é dois, água gelada! Mineral gelada é dois. Sorvete no palito é um real, sorvete um real. Água mineral gelada é dois. Olha a água, a água, olha! Sorvete um real, sorvete. Cinco reais, a barra! Doze meia é dez! Milho verde, morango, leite condensado, coco, chocolate. Meia soquete, meia longa. Sorvete um real, sorvete. Alguém mais vai querer a carteira? Carteira só cinco reais. Essa comporta moeda e tem doze compartimentos. Lá fora, pessoal, você vai pagar de dez a quinze reais. Aqui na minha mão é só cinco. Cinco reais a barra. Tem Prestígio, Lacta e Shot. Olha a barra. Cinco reais. Água mineral gelada é dois. Olha a água. Estação Presidente Altino. Prestígio, um real. Mineral geladinha, dois reais. Acesso à linha 9, Esmeralda, da CPTM. Prestígio, um real! Água mineral gelada! Desembarque pelo lado esquerdo do trem. Barra Suflair, cinco reais é a barra. Água gelada dois reais, a água! Ao desembarcar tome cuidado com o vão entre o trem e a plataforma. Dindindim. A gente trabalhou junto. Da hora! Por isso eu te falo, a gente nunca sabe o dia de amanhã. Mineral gelada dois reais, a água! Quem compra de ambulante é responsável pelo comércio ilegal. Não compre. Fone de cinco, fone de dez, fone de quinze. Fone da Sony, Samsung, LG, Motorola. Tá parada a venda. O que é uma coisa que se a gente parar para pensar pode acontecer em São Paulo. Sorvete um real, sorvete um real. Pega a fruta no palito. É o sorvete. Ou outra restrição que eu não sei qual é. Sorvete um real! Você sabe o caminho, não sabe? Acho que sei. Água, água. Mais alguém? Água mineral é dois. Olha a água geladinha. Estação Imperatriz Leopoldina. Água mineral é dois. Desembarque pelo lado esquerdo do trem. Olha a água. Mentos, um real. Bala de café, bala de gengibre, Mentos, Trident, um real. Dindindim. Barra de cinco, barra de cinco. Sem ambulantes a viagem será bem melhor. Não compre. Mineral dois reais. Água gelada dois reais. Tudo bem, o homem veio do macaco. Beleza. Mas aí eu te pergunto: quem fez o macaco? Meia soquete, meia longa. Doze meia é dez! É só pensar um pouco e você vê que esse papo de que Deus não existe é furada. Uma explosão fez o mundo?! Fone de cinco, fone de dez, fone de quinze. Uma explosão fez o macaco, então? Ou o cara tá achando que eu sou burro ou tá mal intencionado. Olha a promoção, olha a promoção, gente. A promoção tá chegando para alegrar seu domingo. Só hoje, boneca por dez reais, a promoção da boneca por dez reais. É como o meu pastor fala todo domingo: cuidado com essa gente que quer te convencer das coisas. Meia soquete, meia longa. Estação Domingos de Morais. Desembarque pelo lado esquerdo do trem. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Contos: Diálogos Urbanos - E Aí, Gostou?
- Oi! - Oi. - E aí? - O que você pensa que tá fazendo?! - O que você acha? - Ei, ei. Não! - Qual o problema? - Não se faça de sonso. Agora tenho namorado. - Ah, qual é? Não me venha com frescurite. - Não é frescura coisa nenhuma! - Sério? - A gente não vai mais fazer isso. E se alguém nos pega? - Ninguém vai nos pegar, caralho. Nós já fomos pegos alguma vez? - Não, mas eu não quero... Pare! - O que você quer, hein? De qualquer jeito, seu maldito namoradinho não está aqui, né? - A gente realmente não pode... Não é certo... Você precisa parar... - ... - Você não me ouviu? - Vamos! Eu sei que você quer fuder... Nós não fazemos isso há uma semana, merda. - Não é não, ponto final. E vista a cueca e saia do meu quarto. - Mamãe e papai estão fora. - Sim, mas... - Nós temos pelo menos três ou quatro horinhas. - E se eles nos pegarem? - Eles não vão nos pegar. Vamos, vai? Por um acaso você tem transado com ele? - Não é da sua conta, besta! - Isso aqui é tanto meu quanto dele. - Uh, ah, ah. - A gente faz e pronto. Não se estresse. Larga de mimimi. - Ahhhh. - Você não quer estragar tudo de novo, né? Porra, não finja que não. - Você sabe que eu quero, mas eu não posso mais. A gente não pode mesmo. Tira a mão daí, já avisei. - Por favor, uma rapidinha então? - Você pode bater uma punheta se quiser, mas só isso. - Sério? - Sério. - Olhando você, eu me masturbo fácil. - Tudo bem. Isso é, se você quiser. - Você não quer nem bater uma para mim? - Não. - Merda! Oh Deus, está bem. Está bem. - Beleza. - Fique apenas paradinha aí, desse jeitinho mesmo. - Se pingar no meu lençol, você morre. - Não vou deixar. Ah, hum, ah, ah, hum, ah. - Você já terminou? - Cala a boca! Ah, hum, ah, humm, uh, ah, uh. Eu posso só tocar no seu peitinho? - Peitinho? - Ah, Humm, hummm, uh, hummm, ah, hummmmm. Você poderia cuspir nele? - Pufh. - Oh, Deus. Ah, hummm, ah, oh, hummmmmmm, ah, oh. Só mais um pouquinho, por favor. - Você não faz nada sozinho, né? - Ah, ah, uh. - Pufh. - Humm, humm. Ah, ah, ah, ah, oh. Hummmmmmmmmmmm. - Você tá me tocando muito. - O quê? - Você tá exagerando. O combinado era só para olhar. - Ok. Uh, oh, uh, hummm, ah, uh, oh, ah, hummm. - Ah, ah. - Hummm, ah, hummm, ah. - Ai, ah, ah, ah, oh. - Ah. Vamos. - Ah, hummm, hummm. - Você sabe o que tem que fazer. - Glug, glug, glug. - Shiiii. Oh, caralho! - Glug, glug, glug. - Você é uma irmãzinha maravilhosa, sabia? - Glug, glug, glug. - Oh, porra. Sim, sim. É para lamber tudinho. Ah! Assim. Hummmmmm. - Glug, glug. - Aí, aí mesmo, oh, ah, ah. Hummmmm, merda. Hummmmm. Oh, Deus! - Hummm. Ah, ah, hummmmm. - Quem tá aí dentro? - Sou eu. - O que você tá fazendo? Que barulho é esse? - Nada. - Não vai me dizer que tá vendo vídeo no celular?! - Não... - Que merda! Era o que me faltava. Espero que dessa vez você não tenha pegado minha calcinha. - Não! - Saía já daí que eu preciso tomar banho. - Pera um pouco. - Pera aí porra nenhuma. Vou chamar a mamãe. Maaaaaaaaãe, o Alexander tá trancado no banheiro de novo. Tá vendo aqueles vídeos de sacanagem. Fala para ele que eu preciso trabalhar. - Alexander, abra já essa porta. A Hannah tem que se arrumar. - Já vou. - E aí, gostou? - Claro que não. Só tem putaria. Você só escreve putaria!? - Não. Esse é o primeiro conto de sacanagem. Os outros são sérios. - E esse lance do irmão transando com a irmã, se masturbando com a calcinha dela? É muito doentio. - Sei lá. São coisas que acontecem. - Tá bom. Agora feche o computador e vamos descer que a pizza está quase chegando. - O que a gente vai fazer hoje, hein? - Fazer como? - Você não vai sair, né? E estamos sozinhos em casa. Sei lá, fazer algo diferente para movimentar o sábado à noite. - Eu ia ler no meu quarto. - E se a gente jogasse cartas? - Jogar carta? Há quanto tempo eu não ouço isso? Um século, talvez. Que coisa mais antiga. - A gente pode dar uma apimentadinha, sabe? Você já jogou strip poker? - Puta que pariu! Era o que me faltava: meu irmão caçula tarado em mim. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 4, Pé Esquerdo
Coloquei o recibo no bolso da camisa, agradeci ao taxista e desci do carro. Em minhas mãos, equilibrava a mochila e o celular. O aparelho telefônico, acredite se quiser, tinha sobrevivido mais ou menos intacto ao acidente no café da Rodoviária do Tietê. Foi o que percebi quando cheguei ao quarto de hotel que a editora tinha me reservado em São José dos Campos. Bastou encaixar a bateria, que havia desprendido com a queda no chão, e meu celular voltou à vida. Entre riscos no visor e novas lascas na lateral, ele permanecia funcionando. Ufa! Por falar naquela cena de filme de terror de algumas horas atrás, assim que saí do táxi, esqueci das situações constrangedoras que havia vivenciado em São Paulo. Ao pisar na calçada e erguer a cabeça, notei que estava agora em outro mundo: uma esquina elegante do Jardim Aquarius. Não era preciso ser morador de São José para compreender que me encontrava, naquele finalzinho de tarde e início de noite de quinta-feira, em um dos bairros mais nobres da cidade do Vale do Paraíba. À minha frente, em uma rua residencial arborizada, um sobrado de três andares apresentava-se imponente. Ao avistá-lo pela primeira vez, ali na calçada, senti uma lufada de ar frio vindo em minha direção. Estremeci. O arrepio seria o prenúncio da volta dos maus momentos?! Esperava que não. A conversa com a passageira misteriosa do ônibus, há pouco, tinha injetado ânimo em mim. As palavras dela suscitaram uma coragem que nem mesmo eu sabia que possuía. A partir de agora, anote aí, nada poderia me desviar do caminho traçado. Se era para escrever um livro, eu iria escrever o livro e ponto final. Como diziam os versos de uma antiga música dos Engenheiros do Hawaii: “Falando assim parece exagero/mas se depender de mim/eu vou até o fim/Não vim até aqui para desistir agora/eu vou até o fim”. Com alguma dificuldade, já que estava com as mãos ocupadas, fechei o zíper do casaco e aplaquei um pouco o frio e o pessimismo que voltava a bater à porta da minha alma. Sai para lá, pensamento ruim! Uma garoa chata estava começando ou não tardaria para dar definitivamente as caras. Pelo clima, me senti em São Paulo, apesar de ter a sensação de que São José dos Campos fosse ligeiramente mais fria. Talvez fosse a chegada da noite a responsável pela queda da temperatura. O cheiro gostoso de mato-natureza que vinha com a umidade também destoava consideravelmente do ambiente típico da capital paulista. Mais protegido da friagem, mas não do sereno, olhei novamente para a construção à minha frente. Não sei definir o que mais me chamava a atenção em sua fachada: a pintura creme impecável das paredes externas; as sancas de gesso branco das enormes janelas envidraçadas que se multiplicavam para onde se olhasse; as plantas posicionadas estrategicamente nos jardins que contornavam a escada que levava os visitantes do térreo, onde ficava a garagem, para o primeiro andar, onde estava a entrada principal; o sótão (e suas duas pequenas janelas quadradas) a encarar com certa timidez, lá do alto, quem o contemplasse; ou as fortes luzes dos incontáveis cômodos da casa que iluminavam boa parte do quarteirão? Uma coisa eu tinha certeza: estava diante de uma morada impecável. O relógio do celular indicava 18 horas em ponto. Se era para chegar entre o final da tarde e o início da noite na casa do Roberto, nada melhor do que aparecer às 18 horas. Juro que não tinha programado isso. Na verdade, imaginei chegar pelo menos uma hora antes, mas o atraso do ônibus intermunicipal mudara meus planos. Para mostrar meu profissionalismo e minha pontualidade, passei um recado rápido de SMS para o Paulo: “Acabei de chegar. Vou entrar. Quando sair, te aviso o que rolou na reunião. Abraço”. Para escrever e enviar a mensagem, coloquei a mochila no chão e digitei no celular. Evitava a todo custo vestir a mochila nas costas, não queria amassar minha camisa. Dentro da mochila tinha o que eu chamava de kit escritor: notebook, caderno, agenda, estojo com canetas de várias cores, gravador de áudio e guarda-chuva. Guarda-chuva?! Para quem ficou surpreso, passe uma semana na cidade de São Paulo que você entenderá a inclusão deste item. Se o autor quisesse começar naquele dia mesmo a trabalhar, eu estava prontíssimo. Porém, intuía que, neste primeiro contato, ele iria querer me conhecer melhor, trocar umas ideias informalmente. Era assim que acontecia quase sempre no encontro inicial entre o ghost writer e o autor verdadeiro da obra. Essas reuniões preliminares, vale a pena dizer, geralmente aconteciam nas editoras sob a supervisão do editor-chefe. Não entendi o motivo de precisar ir até a casa do Roberto para me apresentar. Bem que o Paulo me disse que o cara tinha hábitos peculiares. Por isso, não reclamei. Mensagem enviada, celular no bolso e mochila novamente em mãos, rumei à porta da casa. Subi as escadas em direção ao hall de entrada. De perto, a residência era ainda mais bonita. Ela exalava um bom gosto e um refinamento raros de serem encontrados. Isso era perceptível nos detalhes. Os vasos nos jardins eram padronizados. O piso era funcional, protegia o usuário contra um possível escorregão, sem abrir mão da estética classuda. A porta principal pintada de branco, igualzinho às sancas das janelas, era robusta e tinha acabamentos metálicos. Se um designer de interiores e/ou um arquiteto não tivessem passado por ali, os moradores daquele lar tinham noções excelentes de decoração. Sorte minha que tinha optado por ir de roupa social. Se estivesse de jeans surrado, camiseta largada e tênis batido, como estava habituado a andar por aí, na certa estaria me sentindo mais intimidado. Mesmo assim, antes de apertar a campainha, dei uma conferida em meu look. Aparentemente estava tudo em ordem, pelo menos em relação à vestimenta. Já quanto ao cabelo, não podia garantir... Com a ventania úmida que estava fazendo, na certa ele se encontrava bagunçado. Esse era um dos problemas de ter cabelos crespos e de usá-los compridos. Bem que a Rachel sempre me alertou que eu ficava melhor de cabelo curtinho. Nas mudanças, eu usava uma bandana para não assustar os clientes (motivo de chacota constante do Rui e do Peixoto). Mas a Dora gostava deles mais longos e era ela quem eu obedecia cegamente. Juro que senti falta da bandana, mesmo sabendo que ela não combinaria com meu traje atual. Tentava domar minha cabeleira quando notei uma ligeira movimentação atrás de mim. Ao me virar, vi a aproximação de um casal bem afeiçoado de meia-idade. Faceiros, eles subiram as escadas conversando baixinho e se posicionaram perto de onde eu estava. Traziam nas mãos uma embalagem grande de presente e em seus rostos sorrisos branquíssimos. Ele usava terno e gravata e ela estava com um vestido longo. Não apenas os moradores do lugar se mostravam elegantes como também suas visitas deveriam ser. Não era tão difícil assim me acostumar com um ambiente requintado como aquele. – Boa noite! – o casal possuía uma cortesia carismática. Enquanto sorriam para mim, chegaram ainda mais próximos à porta. – Boa noite – devolvi a gentileza um pouco envergonhado por ter sido pego tentando domar a cabeleira revolta. Assim que interrompi a autoflagelação capilar, girei o corpo em 180 graus e apertei a campainha da casa com a confiança de quem estava pronto para todos os desafios. Um livro tinha que ser produzido e eu não sairia dali sem concretizar essa missão. Se depender de mim, eu vou até o fim! Quase que instantaneamente ao estampido da campainha, um garoto de traços nipônicos de aproximadamente treze anos abriu a porta com um copo de refrigerante à tira colo. Pelo som que vinha do interior da residência, uma mistura de música instrumental (seria jazz ou blues?) com o tilintar de copos e pratos, uma reunião social estava acontecendo ali. Pude ver surpreso, ainda do lado de fora da porta, uma dezena de pessoas, quase todas entre quarenta e cinquenta anos, sentadas elegantemente nos sofás da sala. Havia até um garçom, ao melhor estilo pinguim de festa, a desfilar com uma bandeja. Como o pé direito da construção era alto e a sala era bastante espaçosa, a sensação era de um encontro intimista e extremamente sofisticado. Contrastando com o ambiente formal, o menino que viera nos receber vestia camiseta regata e shorts curto. Será que as crianças de hoje não sentem frio?! Se ele não estivesse descalço nem tivesse vindo do interior da casa, poderia garantir que estava praticando alguma modalidade esportiva. Até suado ele estava. Na certa, o garoto devia ser o filho dos donos da casa e o atrapalhamos em suas brincadeiras. Ou ele estava passando naquele instante pela porta e, por força do hábito, decidiu abri-la. O Paulo me falou alguma coisa sobre o Roberto ter dois filhos: um rapazinho menor de idade e uma moça recém-formada que trabalhava em uma multinacional. Entretanto, não prestei muita atenção nas particularidades da vida pessoal do consultor. Fiquei mais preocupado com a descrição de sua personalidade e de seu trabalho. Na reunião de terça-feira lá na editora, o Paulo elogiou o Roberto. Disse tratar-se de um profissional sério e bastante experiente. Sua consultoria era em Gestão da Qualidade, mas ele realizava Planejamentos Estratégicos para seus clientes. Seu método de trabalho era um tanto diferenciado, daí a proposta de produzir um livro com essas concepções. Pelo que entendi, ele utilizava um conceito chamado de Guerra e Paz. Confesso que fiquei curioso. Quem não estava nada curioso era o nosso anfitrião mirim. Ele não parecia muito feliz por ser o porteiro informal do próprio lar. Vai ver não éramos os primeiros que ele precisava recepcionar naquele dia. Se isso fosse verdade, seu interesse e sua disposição pelos visitantes tinham terminado rapidamente. Assim que nos viu, tomou um gole rápido do refrigerante que empunhava, virou-se para dentro e gritou a plenos pulmões: – A tia Débora e o tio Mário chegaram! Tem também um sujeito estranho com eles. Confesso que olhei para os lados à procura de mais alguém em nosso grupo. Vai ver uma nova pessoa tinha chegado e eu não a tinha notado. Entretanto, não achei ninguém de diferente além do casal atrás de mim. Quem seria, então, o cara estranho que o menino mencionara com tanta ênfase?! Não quis nem pensar sobre isso, preferindo manter minha fisionomia de profissional sério e respeitado a caminho da primeira reunião de um projeto editorial importante. – Oi, Robertinho – ouvi a visitante atrás de mim tentar algum contato verbal com o adolescente. – E aí? – o rapaz falou em tom quase inaudível. Ele devia ser bastante tímido. E rápido também, porque mal respondeu à saudação, deu meia volta e saiu correndo pela sala. Ao fundo, pude vê-lo subindo apressado as escadas internas sem se preocupar com o copo de vidro que tinha em mãos e que chacoalhava perigosamente para todos os lados. Com a porta de entrada escancarada, o casal de visitantes me ultrapassou e adentrou o recinto demonstrando grande familiaridade com o local. Acompanhei-os com certo embaraço. O tal Mário fechou a porta atrás da gente e a Débora colocou sua bolsa em um aparador lateral. O presente ela preferiu não largar. Uma vez dentro da casa, reparei com mais atenção em seu ambiente interno. A elegância do lado de fora se mantinha intacta ali dentro. Com poucos móveis e objetos de decoração, a sala era o retrato mais bem-acabado de um estilo moderno, prático e fino. Eu já estava gostando do Roberto e de sua família antes mesmo de conhecê-los. – Já estou indo! Só um momentinho e já falo com vocês – uma voz feminina surgiu de trás do bar – Enquanto isso fiquem à vontade, meus amores. A casa é de vocês. – Não se preocupe conosco, Paty – Débora respondeu prontamente – Vamos cumprimentar o povo e pegar uma bebida com o Alcides. Alcides? Devia ser o garçom, pensei abobado. Gente chique sabe até o nome do garçom da festa que acabou de chegar. Incrível! Preciso perguntar para a Raquel se isso é normal ou se é coisa de cidade do interior. O casal que chegara comigo foi prontamente integrado ao pessoal que estava na sala. Pela maneira como foram recepcionados, Débora e Mário já eram velhos conhecidos dos demais visitantes. Por estar junto deles, fui recebido com o mesmo acolhimento alegre e respeitoso. Pelas perguntas que não demorei para receber, entendi que fora confundido com alguém que o casal recém-chegado trazia consigo ou com alguém que já fosse íntimo dos donos da casa. – Você deve ser o filho do Mário e da Débora. Acertei?! – Já sei. Você trabalha com eles na Tecmax, não é? – Eu te conheço de algum lugar... Você não é aquele repórter com cara de maluco da TV Vanguarda? O do jornal da hora do almoço, sabe? – Ei, você não me engana, não. Você deve ser o novo empresário do Robertinho que a Patrícia falou. Não escondo o jogo: você é empresário de futebol?! Achei graça daquela confusão. Neguei prontamente todas as teorias conspiratórias. Expliquei que trabalhava para uma editora de São Paulo e que iríamos lançar em breve um livro de negócios do Roberto. Obviamente, não poderia dizer que estava ali para escrever a obra em questão. Uma das obrigações do ghost writer é manter-se em total anonimato. Ninguém poderia saber que o autor não iria escrever o texto de seu próprio livro. E quando digo ninguém, é ninguém mesmo – nem minha família e meus amigos nem a família e os amigos dele. O sigilo absoluto é um dos requisitos essenciais desta profissão. No meu caso, apenas sabiam o que eu fazia a Dora e o Paulo. Ninguém mais! Acostumado com esse tipo de saia-justa, já tinha meu discurso pronto e na ponta da língua. Para despistar os mais curiosos, sempre me apresentava como editor da publicação que estava trabalhando ou como revisor do texto, dependendo do caso. Naquele dia preferi dizer que era o editor do novo livro do Roberto. Achei que caía melhor para um encontro tão pomposo. Assim que descobriram que o dono da casa iria publicar uma obra, os visitantes só falaram nisso pelos quinze minutos seguintes. Todos exaltavam a competência e a inteligência do anfitrião, que até então não havia dado as caras na sala. Aí soube que aquele grupo era formado por amigos e clientes do Roberto. E que eles estavam ali para comemorar justamente o aniversário do (futuro) autor. Aniversário!? Por que o Paulo não me contou nada sobre isso? Fiquei constrangido de ir à casa de um aniversariante para tratar de trabalho. Contudo, minha preocupação durou até descobrir que aquele encontro fora espontâneo. Todos os visitantes eram tão próximos do aniversariante que decidiram dar os parabéns pessoalmente sem que tivessem sido convidados para tal. A decisão de transformar a pequena reunião informal em uma festinha fora tomada de última hora pelos anfitriões. Por isso, a Patrícia, que deduzi ser a esposa do Roberto, corria pela casa em busca de bebidas e copos para serem oferecidos aos convidados-não-tão-convidados-assim. Já o Roberto estava na cozinha preparando algo para ser servido. Só não entendi o que fazia um garçom de terno e gravata borboleta ali se o encontro tinha sido arranjado de supetão. Será que havia um disk garçom em São José? Ou será que aquele homem era um funcionário fixo da casa?! Até hoje não sei a resposta para esses questionamentos. Por mais à vontade que tenha ficado num primeiro momento, me senti invadindo a privacidade do Roberto. Nem o conhecia e já ia à sua festa de aniversário. Também fiquei incomodado por estar de mochila, um objeto estranho em um cenário tão festivo. Notei que as pessoas invariavelmente olhavam para ela com um jeito interrogativo. Deviam pensar: “o que faz esse sujeito com uma mala tão grande no meio de um aniversário?”. Para minimizar o desconforto, tentava colocá-la no chão, entre meus pés, ou no colo, enquanto estava sentado no sofá. De qualquer jeito, ela se destacava mais do que eu desejava. Meu único consolo era saber que quando o Roberto chegasse, ele veria rapidamente que eu estava ali para trabalhar. E os anfitriões não demoraram muito mais para se integrarem na sala. Eles trouxeram algumas bandejas com quitutes de ótima aparência e com cheiro capaz de atiçar nossa salivação. Prometi para mim mesmo que ficaria longe dos comes e bebes para mostrar certo ar de profissionalismo (estava ali para trabalhar e não para me divertir!), mas não consegui. Na primeira passada do Alcides com as novidades culinárias, fui pego pelo estômago. Ou estava com muita fome ou aquela era a brusqueta mais gostosa que já tinha comido. E o que falar dos canapés de cestinha mexicana, hein? Santo Deus! Quando a Patrícia e o Roberto, enfim, puderam se sentar no sofá para conversar com os convidados, eles cumprimentaram aqueles que tinham chegado por último. Eu integrava, obviamente, esse grupo de visitantes. Foi aí que conheci pessoalmente meu cliente – acho que posso chamá-lo assim. Roberto possuía traços japoneses em um corpo esguio. Devia ter por volta de cinquenta anos. Vestindo um elegante terno feito sob medida e uma gravata impecavelmente alinhada, sua imagem era de seriedade e formalismo (juro que fiquei imaginando-o na cozinha com essa roupa). Porém, notava-se instantaneamente que ele possuía grande calor humano. Pela maneira como saudava os amigos, era possível perceber o espírito jocoso e jovial que habitava o seu interior. Nossos cumprimentos foram protocolares. Tentei me apresentar sinteticamente, mas minha voz foi abafada pelo barulho do recinto. A chegada do aniversariante e de sua esposa na sala, além das bandejas que o garçom servia, havia mexido com o ânimo dos presentes a ponto de elevar os decibéis do ambiente em alguns pontos. Por isso, não sei se ele conseguiu ouvir direito o que eu disse ou não entendeu nada das minhas palavras. Só sei que sua resposta foi um simples “muito prazer”, dito mais para dentro do que para fora. Como ele não fez qualquer menção à nossa reunião, preferi não o lembrar do nosso compromisso. Afinal, estávamos em um aniversário! Sem dúvida nenhuma, o casal de anfitriões era muito simpático. Achei-os também educados, alegres e amistosos. Eles riam e brincavam com todos com muita descontração. A esposa era a mais falante da dupla. Sem qualquer traço oriental, Patrícia era bonita, aparentemente mais jovem que ele, e bastante eloquente. Sua desinibição apenas acentuava ainda mais a timidez do marido. Mesmo entre os conhecidos, Roberto mantinha-se quase sempre na posição de ouvinte. Porém, não demorou para notar seu ótimo estado de espírito. Nas poucas vezes em que falava, usava um tom de voz baixo, mas seu bom humor provocava tempestades de risadas pela sala. O cara era uma figura! A alegria e a descontração da reunião duraram trinta minutos mais ou menos. O tom da conversa era de amenidades e brincadeiras de lado a lado. Enquanto boa parte dos visitantes insistia em chamar o aniversariante de velho e de lembrá-lo que seu time do coração não tinha conquistado o Campeonato Mundial, o anfitrião tentava defender-se como podia. Era nítido o caráter de galhofa do pseudo-entrevero. O humor da sala só mudou quando alguém questionou o aniversariante sobre o livro que ele iria lançar. Roberto soltou um sorriso amarelo, cruzou os braços e preferiu não responder diretamente. As insistências de quase todos os visitantes o forçaram a negar qualquer intuito nesse sentido. No início, a negativa foi tímida e em tom de brincadeira. Depois, foi mais incisiva e soou quase como uma reclamação. Na hora, me arrependi de ter citado o projeto editorial para os convidados. Será que havia um segredo ali que eu havia desrespeitado? O Paulo não tinha me falado nada. Pensando bem, o verdadeiro editor não me falara muitas coisas sobre o livro nem sobre o autor. Como não sabia de quase nada, fiz a minha parte: omiti minha participação na produção do texto. Se era para estender o sigilo à obra, eu deveria ter sido informado previamente. O clima ruim só piorou quando os olhares da sala inteira se dirigiram a mim. – Como não! – disse um dos visitantes apontando na minha direção – Ele disse que trabalha para uma editora de São Paulo e que veio aqui se reunir com você. Só nesse instante, o anfitrião parou para me analisar com o cuidado necessário. Na certa, seus pensamentos tentavam atinar para o que estava acontecendo. “Vai ver o cara era super ocupado e não havia se lembrado da nossa reunião”, cogitei otimista. Isso já havia acontecido comigo algumas vezes. Se assim fosse, era natural seu espanto com a minha presença em sua casa. O problema é que o longo silêncio escancarava que sua memória estava demorando para trabalhar. “Eita sujeito mais esquecido!”. – Você é mesmo da editora? – Sim – respondi para o Roberto. Fiquei um pouco mais aliviado por, enfim, ele parecer se lembrar de algo – O Paulo me enviou para conversarmos sobre o livro. Lembra? – De qual editora você é? – Da Pomelo – como ninguém mais falou nada, tentei descontrair um pouco – Leituras críticas, para leitores cítricos. Esse é o nosso lema! Se bem que preferia “para o alto e avante”. A sala manteve-se em total mudez após minha última intervenção. Acho que não gostaram da piadinha. Achei estranha a reação geral pois piadas muito piores tinham sido proferidas há pouco e mesmo assim a receptividade do público tinha sido muito melhor. Até a música que estava sendo tocada foi inexplicavelmente interrompida. Todos os olhares continuavam caindo sobre mim. O clima agora era pesadíssimo. Se antes os presentes pareciam simpáticos e alegres, agora suas fisionomias eram de preocupação e, em alguns casos, de indignação. – O senhor poderia me acompanhar, por gentileza? Com uma educação ímpar e elevando a voz pela primeira vez, Roberto fez sinal para eu segui-lo. Levantei-me empolgado do sofá com a mochila em mãos. Enfim, iriamos para a nossa reunião. Tínhamos tantas coisas para tratar. Sinceramente, nem sabia por onde começar. – Licença, pessoal – antes de acompanhar o autor, me despedi rapidamente das demais pessoas na sala. Vai ver que quando eu voltasse, alguém poderia ter ido embora, né? Quem disse que eu também não podia ser extremamente educado como esse pessoal chique?! Ao invés de ir para o interior da residência, como imaginei que faria, Roberto se dirigiu até a porta principal da casa. Acompanhei seus passos de perto. Será que iriamos ao escritório dele, em outro bairro da cidade, para conversar com mais privacidade? Pode ser, pensei encafifado. No meio dessa algazarra, não iriamos nos concentrar. Ele abriu a porta e, ainda no interior da residência, fez um gesto simpático para que eu avançasse para o lado de fora. Agradeci com a cabeça e dei cinco passos na frente dele. Já no lado externo, voltei o corpo para saber o que ele faria. Talvez precisasse pegar a chave do carro. Ou algum material de trabalho, talvez caderno ou notebook. E para minha surpresa, Roberto ficou me olhando estático e com o semblante fechado. Enquanto tentava entender o que estava acontecendo, vi uma porta ser fechada violentamente na minha cara. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 3, Encarando os Medos
Ao olhar pela janela do ônibus, fiquei surpreso com a movimentação intensa no lado de fora. Vários veículos, na maioria caminhões, percorriam a Via Dutra nos dois sentidos. Em contraste ao trânsito pesado daquele início de tarde, o cenário à margem da estrada era de um bucolismo acachapante. As construções cinzentas das cidades de São Paulo e de Guarulhos tinham dado lugar ao mato. Pelo verde das árvores e do gramado na beira do asfalto, já tínhamos passado o centro de Arujá há algum tempo. Contudo, não conseguia precisar, pela vista da janela, aonde o ônibus e eu estávamos. Mergulhado em pensamentos turbulentos, não havia reparado, até então, que deixáramos a rodoviária nem que seguíamos impassíveis para São José dos Campos. O balançar suave do veículo me ninara. Pouco a pouco a realidade nua e crua de minha vidinha foi se impondo sobre a letargia, a introspecção e o mutismo que me dominara por um período incalculável. De tão imerso que ficara no mundinho íntimo de minhas angústias mais severas, não conseguia, agora, nem ao menos me lembrar do que havia feito desde a saída do café da Rodoviária do Tietê. Só me recordava de três coisas: caminhar até a plataforma de embarque, dar as malas para o motorista colocar no bagageiro externo e me sentar na poltrona. Com exceção dessas cenas, nada mais vinha à minha memória. De certa forma, me parecia uma sorte danada eu não ter entrado no ônibus errado. E, de repente, acordei de um longo sono de olhos abertos. A sensação é que um estalar de dedos tivesse me trazido a consciência de volta. De tão abalado que tinha ficado com a possibilidade de não conseguir entregar o livro para a editora do Paulo, acabei me esquecendo até de dar uma passadinha na livraria antes de embarcar. Onde já se viu viajar de ônibus e não ter nada para ler no caminho?! Não é preciso dizer que algo assim, para mim, era uma heresia das mais cabulosas. Desacreditando que poderia ter cometido um erro tão grosseiro, um pensamento novo me pegou de supetão: será que eu não teria comprado uma revista ou um livro, mas não estava me recordando? Empolgado com essa possiblidade, comecei a procurar ao meu redor uma publicação. Infelizmente, não havia nada perto de mim com essa finalidade. Em minhas mãos, havia apenas uma garrafa de água ainda lacrada. Foi no instante em que tirei os olhos da janela e coloquei-os pela primeira vez dentro do ônibus que pude notar a calma que reinava no interior do veículo. De onde estava, mais ou menos na metade do carro, não dava para ouvir nenhuma conversa ou barulho. Os passageiros das fileiras da frente ocupavam aproximadamente metade dos assentos disponíveis e pareciam aproveitar o silêncio para tirar a siesta. A porta fechada que dava acesso ao motorista nos deixava inacessíveis, como se habitássemos um aquário. Só após ter procurado os inexistentes livros e revistas e de ter ficado alguns minutos olhando para frente, desloquei meu campo de visão para o lado direito. E, neste momento, reparei que havia uma passageira sentada na poltrona vizinha, junto ao corredor. Era uma senhorinha com uma fisionomia simpática, do tipo que acolhe os mais necessitados por simples caridade. Com o cabelo ruivo bem armado, roupas de madame chique e olhos vívidos, ela devia estar me observando curiosa há certo tempo. Não pude esconder a surpresa que tive quando notei sua presença. – Problemas, meu rapaz? – sua voz tinha um ar maternal de quem capta os problemas alheios sem muito esforço. Ou ela devia ter algum poder telepático ou mesmo mediúnico. Refletindo melhor, talvez fosse a minha fisionomia a culpada por entregar o meu caos interno. Balancei a cabeça afirmativamente e forcei um sorriso. Queria que ele soasse sincero e empolgado, mas tenho dúvidas se ele não saiu na verdade tímido e receoso. – Quem não os tem, não é verdade? – ela prosseguiu com uma amabilidade natural – Só espero que os seus não sejam do tipo que não possam ser resolvidos. Porque se ainda forem resolvíveis, não precisamos nos atormentar tanto. Pensei em suas palavras. E não era que elas tinham razão! Nenhuma das minhas preocupações eram insolúveis. Se analisasse bem a situação, talvez eu estivesse procurando pelo em ovo. Quem disse que eu não poderia entregar uma obra de qualidade para os meus contratantes, hein? Sempre fizera isso. E por que dessa vez haveria de ser diferente? Instantaneamente, senti uma enorme paz de espírito, que refletiu no aumento considerável do meu sorriso. – Obrigado. A senhora tem toda a razão. Talvez eu esteja mais preocupado do que deveria – ri em um misto de timidez e de arrependimento por ter sido tão besta. – Agora que parece mais calmo, diga-me: o que você faz da vida? – ela retribuiu o sorriso que estava recebendo. Fui responder, mas minha voz se calou subitamente. Algo veio de dentro de mim e secou as cordas vocais. Minha feição deve ter mudado para uma grande cara de interrogação. O que dizer: trabalho com mudanças ou sou escritor? Difícil definir tão de bate-pronto. Confesso que minha reação instintiva foi falar a primeira alternativa. Afinal, era assim que eu respondia a essa questão há anos. “Eu faço mudanças” saía quase que automaticamente. Porém, eu estava agora atuando como escritor. Qual o problema, então, de responder a segunda opção? Nenhum! Havia mudado de profissão e precisava anunciar essa transição algum dia. Ou talvez estaria eu tendo apenas uma recaída literária, enquanto meu destino fosse carregar as bugigangas dos outros por toda a vida? Em questão de segundos, meus medos mais íntimos afloraram novamente, dominando-me outra vez. Senti-me desnudado pelo olhar traiçoeiro de alguém que nem me conhecia e já me atirava contra a parede com questionamentos tão (in)sensíveis. Quem era aquela inquisidora desalmada para ficar me interpolando assim?! – Qual é a sua profissão? – sua insistência me fazia lembrar das mais cruéis operadoras de caixa dos cafés paulistanos. Desviei o olhar da senhora, voltando-me para a paisagem da janela a minha esquerda. O cenário da estrada era mais reconfortante e seguro. Não sabia mesmo o que responder. Talvez as preocupações que acalentava estivessem ligadas a esta questão aparentemente tão banal. Se me fingisse de surdo, será que ela pararia de falar comigo? – Sabe, meu amigo, é perfeitamente normal a pessoa não conseguir definir qual é a sua missão de vida – ela prosseguiu indiferente ao meu silêncio, falando agora com as minhas costas – Há quem passe uma vida inteira sem descobrir suas verdadeiras habilidades profissionais. Outros acabam sucumbindo aos desafios na hora da mudança de carreira. E tem também um monte de gente que sabe o que deseja, mas nunca descobriu como chegar lá. Eu mesma já passei por isso. A última frase foi a responsável por fazer meu corpo retornar involuntariamente para a posição em que pudesse ver seu rosto. De um segundo para outro, a janela não me parecia nem um porto seguro para contemplação nem um lugar tão interessante para meditação. – Até meus quarenta anos, eu era bioquímica. Trabalhava em um laboratório de pesquisa em uma multinacional de bens de consumo e tinha uma vida estável. Sabe como é: bom emprego, situação financeira invejável, casamento feliz e filhos saudáveis. Mas tinha algo que me incomodava há anos e eu não sabia o que era. De alguma forma, esse sentimento me acompanhava desde os trinta. Eu só fui entender que o meu sonho era ser psicóloga quando meu marido brincou comigo. Em uma viagem que fizemos para a praia, ele falou: “Para uma bioquímica, você carrega muitos livros de Psicologia. Você não seria uma psicóloga frustrada?”. – Na hora fiquei brava – ela continuou sem perceber que tinha transformado nosso diálogo truncado em um monólogo fluído – Ser frustrada não combinava comigo. Por outro lado, eu queria mesmo ser psicóloga, apesar de não ter cogitado essa possibilidade até aquele comentário despretensioso do meu marido. Daria um braço se preciso para trocar o laboratório por um consultório. Como eu queria deixar os problemas da empresa de lado e cair de cabeça nos problemas pessoais de possíveis clientes. Entendi o que ela sentia. Eu também faria qualquer coisa para largar as mudanças e mergulhar de vez na literatura. Isso é, se eu fosse remunerado por isso, né? Porque trabalhar para os bacanas da editora e não receber pelos serviços prestados não estava nos meus planos. – Sabendo no que eu queria trabalhar, passei a analisar qual a área da Psicologia que mais me encantava. Uma vez identificado o que desejava fazer, o problema mudou de lugar. Como migrar para outra profissão sendo casada, com três filhos adolescentes e pré-adolescentes e tendo uma carreira bem-sucedida em outro campo de atuação? Nesta hora, o desafio passou a ser como fazer e não mais o que fazer. Talvez essa fosse minha angústia naquele instante. Apesar do meu longo silêncio, minha mente fervilhava. Eu sabia que queria ser escritor. Pelo menos lá no fundo da minha alma, eu sabia. Porém, não entendia como faria a transição de carreira. Como iria adquirir, neste novo ofício, a estabilidade e a competência que já havia conquistado em minha primeira profissão? Porque nas mudanças, admito sem falsa modéstia, eu era muito bom. Eu não apenas fazia o transporte dos móveis como o Raul, o Peixoto e o Álvaro. Eu fazia bem todas as etapas desse serviço. A Rachel não abria mão de mim na hora da pré-mudança (a parte de embalar tudo direitinho para não haver quebras ou avarias) e do pós-mudança (a arrumação de tudo na casa do cliente). Se eu não tinha a força braçal dos meus colegas, possuía, por outro lado, a atenção e o cuidado necessários para deixar os clientes bastante satisfeitos. Será que um dia isso também aconteceria em meus projetos editoriais?! – Para responder à pergunta do que fazer, devemos seguir o coração. Já para a pergunta de como fazer, aí devemos agir racionalmente. A criação de um planejamento de atividades minucioso e completo é condição sine qua non para o profissional que deseja ser bem-sucedido em um novo campo de atuação. Quando ela usou o termo planejamento, minha cabeça fez um nó. Quase explodi de excitação. Eu estava viajando para São José justamente para escrever um livro sobre esse tema e a passageira ao meu lado no ônibus discorria sobre esse assunto com a legitimidade de um guru. Suas palavras não soavam como um discurso piegas de autoajuda. Não! Elas eram certeiras, fruto da experiência e da sabedoria, e se encaixavam perfeitamente no que eu estava sentindo. Eita mundo pequeno este, em que tudo parece estar conectado. Estaria o universo conspirando ao meu favor? Pela primeira vez naquele dia, os ventos começaram a soprar na direção correta. – O plano para me tornar uma psicóloga passou por ingressar na faculdade e, depois, realizar algumas pós-graduações. Fiz também trabalhos acadêmicos sobre Psicologia Infantil, minha grande paixão. Para isso, precisei fazer sérias mudanças em minhas rotinas familiar e profissional. Aí está justamente a importância do como. Em alguns casos, o mais difícil é a pessoa descobrir o que fazer. Uma vez identificada a profissão ideal, a maneira de viabilizá-la vem naturalmente. Foi isso o que aconteceu comigo. Demorei muito mais para descobrir o que queria fazer do que como fazer. Em outros casos, a pessoa até sabe, sem grandes complicações, o que ela deseja realizar. O difícil é viabilizar suas pretensões, entender como fazer para atingir o patamar sonhado na nova profissão. Não é que fazia sentido tudo o que ela falava! Eu queria ser escritor há bastante tempo e até tinha feito um planejamento informal para me tornar um. Fiz faculdade de Letras, corri atrás das editoras, consegui meus primeiros clientes como ghost writer, lancei alguns livros... Nessa altura do campeonato, eu não era um novato. Agora precisava calcular os próximos passos de minha carreira. Como fazer para pular mais um degrau: sair do semiprofissionalismo, patamar que eu estava até aquele instante, para o profissionalismo, nova condição que eu almejava. – De qualquer forma, meu rapaz, uma coisa eu te digo: a trajetória nunca é fácil para ninguém. Os desafios são enormes, independentemente da profissão escolhida. As pedras no meio do caminho parecem muitas vezes intransponíveis. E elas surgem em todas as etapas das carreiras. E isso é o que faz muita gente boa desistir durante a ascensão profissional. Como falava uma professora minha dos tempos da graduação, se você não tiver certeza do que deseja e não insistir pra valer em seus sonhos, você desiste na primeira curva mais acentuada ou na primeira ladeira mais íngreme. Ela usava o termo constância de propósito. Sem muita insistência e sem grande força de vontade, ninguém chega a lugar nenhum. Constância de propósito... Será que era isso o que me faltava? Será que eu não desistira do ofício de escritor logo nos primeiros tropeções? Pode ser. Por que será que nunca bati no peito e gritei para o mundo a plenos pulmões que eu era um profissional das letras?! Mesmo nos meses em que trabalhava integralmente para as editoras, eu raramente me apresentava como escritor. A Dora era quem me exibia como ghost writer para as amigas. Para minha família, jamais pensei em anunciar a nova profissão. Engraçado eu pensar nisso agora. Será que nunca confiei no meu taco? Por que a vergonha de ser escritor?! – Toda mudança desperta os medos que temos dentro da gente. Se o ser humano é feito de sonhos, ele também é feito de receios, desconfianças, preocupações... Como se fossemos um veículo, temos o pedal do acelerador e o pedal do freio. Eles estão lado a lado e nos ajudam na condução de nossa vida. Nossos sonhos são o pedal do acelerador. Nossos medos são o pedal do freio. Um bom piloto sabe usar cada um deles na hora certa e na intensidade adequada. Sim! Nesse sentido, eu era um péssimo piloto de minha vida profissional. Confesso que nos últimos meses estava com os dois pés atolados no pedal do freio. Meus medos tinham me dominado ao ponto de suplantar minhas aspirações. E o pior, eu usava várias desculpas aparentemente justificáveis para embasar minha estagnação. Abrira mão dos meus sonhos simplesmente por conveniência. Ai, ai, ai! Analisando agora a situação com mais calma, entendia que se não fosse a atitude completamente inconsequente e fora do padrão do Paulo, eu não teria aceitado participar deste novo livro da Pomelo. E mesmo assim, eu balancei. Como pude ser tão medroso?! – Na prática, a administração da carreira não é algo simples. Cada caso é um caso diferente. Todos eles escondem desafios próprios e exigem do profissional grande dose de esforço e superação. E em teoria, há alguns pressupostos que devemos seguir sempre. Uma vez identificado o propósito, o próximo passo é montar um plano para alcançar os objetivos almejados. Ao mesmo tempo, a pessoa deve implementar um programa poderoso de treinamento e capacitação. Não há sucesso sem um nível elevado de conhecimento e competência naquilo que se está produzindo. E o desenvolvimento pessoal-profissional deve ser constante e intenso. E com raras exceções, não há limite de idade para um trabalhador se especializar em algo e adquirir as habilidades necessárias para a nova profissão. – Mas para isso o indivíduo precisa de coragem – complementei naturalmente o discurso daquela senhora. Minha voz saiu quase que automaticamente, me assustando um pouco. Ter identificado claros sinais de covardia em minhas atitudes recentes havia mexido comigo – Cada fase da profissão exige uma postura confiante e firme da pessoa. Sem coragem, a roda não gira, né? – Exatamente! – Ela bateu carinhosamente a palma da mão em meu joelho três vezes – Acho que você pegou o espírito da coisa, filho. Assim que se fala! Não sei se ela ficou mais feliz por perceber que eu estava acompanhando atentamente seu discurso ou por notar que eu concordava com tudo o que havia sido exposto. Se não fossem meus olhos brilhando e o tamanho do meu sorriso, poderia dizer que como plateia de explanações psicológicas eu era péssimo. Em suma, foram mais de uma hora e meia de uma conversa profunda e riquíssima. A passageira do meu lado, que poderia ser muito bem confundida com um anjo que tinha sido enviado à Terra para me orientar, era agradável e não tinha qualquer receio de apontar seus planos profissionais. Por timidez ou por certa intimidação (era inegável o quanto ela era melhor do que eu na administração de sua carreira), quase não abri a boca para falar de mim. Minhas falas ficaram restritas a dúvidas e indagações pontuais. Se alguém estivesse ouvindo nossa conversa, na certa ficaria perplexo. A impressão era que eu tinha vários anos pela frente e nenhum plano concreto. Minha companheira de viagem, ao contrário, tinha em teoria menos tempo pela frente, mas muitos planos. Quando reparei, já havíamos chegado ao destino. Nos despedimos ainda no ônibus. Ela pegou sua bolsa e seguiu pela plataforma de desembarque com a tranquilidade dos sábios. Eu, encafifado com meus pensamentos cada vez mais inquietantes, fui até o bagageiro externo para pegar minha mochila e minha mala. Enquanto aguardava a retirada dos itens, notei que uma dupla de passageiros reclamava do atraso do ônibus. Olhei para o relógio da rodoviária e ele apontava 16 horas. Meu Deus, pensei incrédulo, a viagem tinha demorado uma hora além do previsto. Ao questionar o motorista, que nesse instante retirava as malas e as entregava aos respectivos donos, sobre o motivo do atraso, ouvi uma resposta um tanto atravessada: – Como assim? Você não viu o acidente na estrada?! Batida feia. Ficamos parados por quase meia hora. Não tinha visto o acidente. Simplesmente o tempo parecia que tinha parado durante minha conversa. Não reparei em nada que tenha acontecido dentro ou fora do veículo. A sensação é de que eu mergulhara em um mundo paralelo. Sabe quando você fica tão imerso no filme durante a sessão no cinema e acaba se esquecendo da vida a sua volta? Foi o que aconteceu comigo dentro do ônibus. Somente quando apanhei minha bagagem, lembrei de algo. Eu conhecia tantas coisas sobre aquela passageira, mas não sabia o básico: seu nome. Eu deveria ter perguntado. Na verdade, eu tinha tantas coisas ainda para questioná-la. Se nossa viagem tivesse demorado mais uma ou duas horas, eu não iria reclamar. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 2, Rumo ao Desconhecido
– Obrigada por escolher a Viação Passarinho Terron. E tenha uma ótima viagem. – Obrigado. Saí do guichê da companhia de ônibus com a passagem em mãos. Por precaução, conferi as informações: origem São Paulo; destino São José dos Campos; horário de saída 13h30; horário previsto de chegada 15h; portão de embarque 12; e assento 37. Tudo estava certinho com o bilhete recém-emitido. Confesso que gostaria de ter comprado também o da volta, mas isso era impossível de se determinar naquele instante. Paciência! Uma coisa de cada vez. Dobrei a passagem e a guardei no bolso da frente da calça jeans. Aproveitei para apanhar o celular e consultar o relógio. Faltavam 40 minutos para o embarque. O que eu faria para passar o tempo naquele lugar onde todos pareciam apressados? Retomei a caminhada pelo saguão principal da Rodoviária do Tietê. Não era preciso ser muito inteligente para ver que eu não deveria ficar zanzando por ali. A mochila volumosa começava a empapar com suor minha camiseta na região das costas. Além disso, a mala de rodinhas era dirigida de um jeito zombeteiro pela minha inábil mão esquerda. Se continuássemos andando no meio da multidão estressada, não demoraria para trombarmos, eu e minha mala, com alguém. Desviando do fluxo frenético de pessoas, procurei um café com uma aparência minimamente aceitável. Na sequência, iria procurar uma livraria. Estava sem nada para ler no ônibus. Era bom ter dinheiro na carteira para as pequenas extravagâncias do dia a dia. E imaginar que há uma semana o ato de tomar um cafezinho fora de casa ou adquirir uma revista iriam corroer as entranhas mais profundas da minha consciência. Pior do que ficar pobre ou achar que existia entranhas na cabeça era se acostumar àquela situação. É verdade que estava longe de me considerar uma pessoa rica. A simples quitação das contas atrasadas, principalmente do aluguel da casa, já me deixava aliviado o suficiente para não me incomodar em gastar um pouquinho com as vontades supérfluas que surgiam sem aviso. Para ser mais exato, não era apenas alívio o que sentia. Um certo orgulho de minha façanha dos últimos dias também inundava a minha alma. Pela primeira vez desde que me casara com a Dora, eu contribuía, em um mês, mais do que ela com nosso orçamento doméstico. O maior problema não era arcar com apenas vinte ou vinte e cinco por cento das nossas despesas, como me acostumei a fazer. O mais grave tinha sido os vários meses em que nem isso eu consegui arrecadar, implodindo nossa saúde financeira. Se achávamos limitada a minha contribuição nos tempos áureos, quando ela se tornou nula, sentimos saudades de cada centavo que pingava em minha conta. Como um bom paulistano, escolhi o café pela fila. O estabelecimento selecionado não só tinha uma serpente humana aguardando sua vez como também tinha o público aparentemente mais bacana da rodoviária. Se essa gente fina e bonita come e bebe aqui, deve ser bom para mim, pensei. O café era do tipo em que você passa no caixa, paga e depois pega seu pedido no balcão. Com poucas mesas disponíveis, disputadas a tapa pelos frequentadores, o negócio era consumir de pé mesmo, no balcão ou no meio do corredor da rodoviária. Se todos se sujeitavam a esse tipo de atendimento, quem seria eu para reclamar, hein? Após me posicionar na fila, olhei para o alto e contemplei o cardápio pregado em um painel gigantesco atrás do balcão. Não via a hora de tirar a mochila das costas. Apesar de estar sem fome nenhuma, tinha almoçado em casa antes de sair, um cafezinho preto e um pão de queijo iriam cair bem. Talvez estivesse comprando algo mais pela vontade de gastar do que pela necessidade de colocar algo no estômago. Vai entender o ser humano! Naquele momento não refleti sobre isso. Preferi fazer a conta mentalmente do meu pedido: R$ 5,50 mais R$ 6,50 dá R$ 12,00. Vendo que a fila iria demorar um pouco para fluir, estacionei a mala de rodinhas na frente do corpo, entre minhas pernas, e usei as duas mãos para ligar para a Dora. Como ela tinha saído cedinho de casa, ainda não havíamos nos falado naquela quinta-feira. Apesar de termos combinado os aspectos gerais da minha viagem e, principalmente, da minha ausência prolongada do lar, ainda sim havia um montão de coisas que precisávamos acertar. Admito que aquela situação era nova para nós dois. Pela primeira vez desde que nos casamos, eu passaria vários dias distante de casa. Normalmente, era a Dora quem viajava a trabalho. Uma vez, há cerca de um ano, se eu não estiver enganado, ela ficou três semanas seguidas no Espírito Santo tratando de um contrato de fusão entre uma empresa gringa e uma nacional. Coisa grande e complicada. Quando ela voltou, eu fiquei aliviado. Jurava que ela tinha encontrado alguém por lá e jamais retornaria para mim. Portanto, já estávamos acostumados com as constantes ausências da Dora. Esta minha viagem para São José dos Campos era, por outro lado, algo que abalava as bases de nossa dinâmica familiar. Juro que gostaria de saber quem iria cuidar da casa, cozinhar, lavar e passar nos próximos dias. Porque eu era o dono de casa, ao melhor estilo Amélio. Se havia um casal para as feministas invejarem, o nosso com certeza estaria no topo da lista. Enquanto a Dora trabalhava feito um camelo no escritório de advocacia, este que vos fala (ou seria escreve?) ficava, entre um serviço de mudança aqui e outro acolá, arrumando a casa. Não é preciso dizer que nunca achei bonita essa situação. Uma coisa é defender na teoria a equiparação de gêneros. Outra é você saber que sua esposa cuida sozinha, ou quase sozinha, das finanças da família enquanto você varre a sala, lava o banheiro, arruma o quarto e administra os itens da geladeira. Antes que alguém fique bravo ou brava com a minha confidência, eu explico. Só queria ganhar um dinheirinho com o meu trabalho. Até aceitava continuar com as tarefas domésticas numa boa, mas precisava, pensando na minha autoestima, receber uma remuneração pelas minhas atividades profissionais. E se isso acontecesse com um trabalho relacionado à escrita, melhor ainda. A Dora não me atendeu. Ela devia estar em reunião. Não falei que a bichinha trabalhava como um cão? Na maioria das vezes, ela não conseguia sair para almoçar – emendava uma reunião na outra e visitava mais de um cliente no mesmo dia. Quando tinha audiência, aí seu dia se tornava curto e ela não conseguia voltar para casa antes das dez da noite. E eu aqui reclamando das minhas atividades domésticas, santo Deus! Enquanto manuseava o aparelho celular, ele vibrou. Não, não era a Dora retornando minha ligação. Era o Paulo. Atendi antes do segundo toque. – Boa tarde, meu escritor favorito! – Oi, Paulo – minha voz saiu desanimada. Odiava quando ele me chamava daquele jeito. Sempre soou como uma sátira ou uma maneira de ele chamar os ghost writers da editora sem que precisasse se lembrar dos seus nomes – Tudo bem? – Tudo ótimo. E aí, preparado para pegar a estrada? – Sim. Estou agora na rodoviária. Meu ônibus sai daqui a pouquinho. – Beleza! Quando você chegar lá, vá direto à casa do Roberto. Apresente para ele a ideia do livro. Faz um tempo que nos falamos e, talvez, ele não se lembre com clareza da proposta dessa obra. – Estava pensando em passar antes no hotel. Sabe: deixar as coisas, a mala, tomar um banho e trocar de roupa. – Sem problema, meu caro. O importante é você não se atrasar para o encontro. – Qual foi o horário que você combinou com ele? – Não combinamos um horário certo. O legal é você estar lá no finalzinho da tarde ou, no mais tardar, no comecinho da noite. – Tá bom – Eu tinha tempo suficiente para fazer tudo com calma. Nesse instante, lembrei de algo que o Paulo tinha dito na reunião de terça-feira – Quando você disse que o cara era meio estranho, o que exatamente você queria dizer com isso? – Nada que você precise se preocupar agora – ele soltou uma gargalhada que me obrigou a afastar um pouco o telefone do ouvido – Relaxa que vai dar tudo certo. Ah, e não se esqueça de pegar as notas de tudo o que você consumir em São José. Lembre-se que as despesas de transporte e de alimentação são por conta da editora. Combinei isso com a Isadora na semana passada. – Tá bom, não vou me esquecer. Assim como não podia me esquecer que a Isadora ligara para ele assim que soube do nosso acordo. Ela estava desconfiada que eu seria mais uma vez ludibriado pelas editoras e precisava ela mesmo negociar em meu nome. Coisa de advogada, ela disse. Coisa de esposa brava, eu pensei. – Beleza. Boa viagem e ótima reunião mais tarde. E me ligue assim que você sair da casa do Roberto. Quero saber as novidades em primeira mão. – Pode deixar. Até mais! Nada como uma conversinha para passar o tempo quando se está em uma fila, né? Foi só eu me distrair um tantinho e, voilà, a metade dos clientes do café já tinha sido atendida. E como uma ligação puxa a outra, vi no visor do aparelho que a Dora estava me retornando. Atendi na hora. Segundo me disse um tanto contrariada, ela saíra da reunião só para saber o que eu queria. Expliquei rapidinho alguns detalhes da dinâmica da nossa casa. Agendara a visita do eletricista para aquela tarde. Assim, ela precisava estar lá às quatro horas. Falei que tinha feito as compras de manhã, mas não tinha conseguido arrumar tudo nos armários. E a saia que ela queria usar no dia seguinte, eu deixara em cima da cama. Por falar nisso, a Dora se mostrava muito preocupada com as roupas. Quem iria lavar e passar nas próximas semanas?! Sugeri que ela chamasse a Marlene, a empregada da vizinha do apê da frente. Nesse meio tempo, a fila do café tinha andado ainda mais. Eu já estava na eminência de ser chamado. Glória ao Pai! Havia agora só um casal de adolescentes na minha frente esperando a vez para se dirigir ao caixa. Sem emitir uma palavra há um tempinho, eles digitavam freneticamente em seus celulares. A habilidade deles era típica da geração que já nasceu grudada aos aparelhos eletrônicos e que se esquecia muitas vezes da conexão com o mundo físico. “Na certa, quando forem chamados, vão demorar para ver que chegou a sua vez”, pensei inconformado. Para me adiantar, saquei da carteira uma nota de dez e uma de dois reais. Fiquei, então, de prontidão. – Uma vez por semana me parece suficiente... Não, não falei com a Marlene... Depois você me conta isso. Preciso desligar. Já vão me chamar... Pode ser... Ahã... Claro que não... Ahã... Fica tranquila... É... Ahã... Relaxa, tá... Tá bom, amorzinho... Minha vez de ser atendido chegou. Uhu! A funcionária do caixa era uma mocinha de menos de vinte anos. Com o rosto bonito e bem maquiado e com os cabelos longos presos embaixo do chapeuzinho com a logomarca Expresso do Café, ela me olhou com certa impaciência. Não devia gostar de clientes que não lhe conferissem atenção exclusiva. Ou talvez não gostasse que usassem celular na hora do atendimento. Será que os adolescentes que vieram antes a deixaram brava? Não reparei no que acontecera ali, pois estava concentrado na conversa com a Dora. Vai saber! Essa molecadinha de hoje é tão impertinente. Assim que olhei para a atendente, lembrei imediatamente do Peixoto. O cachorrão velho de guerra era especialista em comunicar seu mal humor em uma simples olhadela. Será que aquela moça na minha frente e o funcionário da Rachel eram parentes? Acho que não. A mocinha era bonitinha e magrinha. Já o Peixoto... Não, não eram parentes coisa nenhuma. Que ideias absurdas eu tenho às vezes! – Só um instante, por favor – comuniquei-me com a operadora de caixa usando mais a mímica e o movimento labial do que a voz – Amor, agora tenho mesmo que desligar porque chegou a minha vez... Agora, não. A moça tá esperando para pegar meu pedido... Pode deixar, vou me cuidar direitinho... Eu também... Beijo. Para quem tem curiosidade de saber, não foi difícil convencê-la da ideia de escrever um novo livro. O valor depositado em minha conta foi o argumento infalível no processo de persuasão. Nesse sentido, o Paulo foi matreiro. Atacou-nos diretamente em nosso ponto mais fraco. Eita sujeitinho mais sórdido! Onde já se viu servir bebida para um alcoólatra em processo de desintoxicação? Se em casa não tive dificuldades para me lançar em meu quinto serviço como ghost writer, a mesma facilidade não encontrei quando fui conversar com a Rachel. A dona da BonaBelle ficou espantada com minha decisão de voltar a trabalhar com as editoras. A primeira coisa que ela me perguntou foi: “A Isadora tá sabendo disso?!”. Quando expliquei os motivos para a concordância de minha mulher, a chefona balançou negativamente a cabeça e ficou provisoriamente muda. Realmente o pagamento adiantado quebrava quaisquer resistências. Mesmo assim, pude ler os pensamentos que brotavam de sua cabecinha cética: “Lá vai ele quebrar a cara de novo! Por que será que as pessoas insistem em repetir os erros? Só não me venha, depois, reclamar que eu não avisei. Você já é grandinho o suficiente para saber o que faz (de errado)”. Para tranquilizá-la, expliquei que o que estava recebendo agora compensava os serviços prestados no passado. Esse argumento quem me deu foi o Paulo, em nossa reunião inicial. Ele disse em tom bonachão: “Não vá se acostumar com isso, tá? O preço mais alto é para cobrir o prejuízo que você teve lá atrás. Apesar de eu não ter nada a ver com isso, nunca mais diga que você levou calote das editoras. Porque agora estamos zerados com você, meu caro. Ou melhor, estaremos zerados quando você entregar o livro. Não se esqueça: esse valor é um adiantamento”. Confesso que, ao ouvir as palavras do dono da Pomelo, senti um pequeno arrepio sair de minha espinha dorsal e caminhar velozmente por todo o corpo. Não comentei sobre isso com a Rachel nem com a Dora, mas interpretei a mensagem do Paulo como uma ameaça velada. De uma hora para outra, eu havia deixado de ser credor do mercado editorial para me tornar um endividado. Minhas dívidas apenas mudaram de patamar: deixaram de ser financeiras para se tornarem morais. Afinal, eu havia recebido uma bolada previamente por um serviço que precisava ser entregue custe o que custasse. E se me acontecesse alguma coisa no meio do caminho que me impossibilitasse de produzir o livro, hein? E se o pessoal da editora não gostasse da qualidade da obra? E se de repente o autor, em São José dos Campos, resolvesse desistir da publicação? Quem quebraria a cara bonito era o paspalho aqui. A perspectiva de encontrar pedras intransponíveis pela frente me tirava o sossego. O correto, refletindo melhor, seria ter guardado a grana integralmente, ou uma boa parte dela, para devolver ao Paulo caso algo atrapalhasse a conclusão da empreitada. Porém, como poderia ser tão remediado quando estava devendo para Deus e o mundo! Para ser justo comigo mesmo e com a Dora, pagamos todas as nossas dívidas na sexta-feira passada, dois dias depois do valor ter caído em minha conta e meia hora após ter confirmado com o Paulo a minha participação no job. Também aproveitamos o final de semana para esbanjar um pouco. Como acreditávamos ter sido agraciados pela misericórdia divina, depois de um longo tempo de grandes privações, eu e a Dora saímos para vadiar à dois, como fazem todos os casais felizes, saudáveis e jovens que têm alguma bufunfa no bolso. O sábado e o domingo foram suficientes para nos esbaldarmos na rota pecaminosa de São Paulo, que conhecíamos tão bem da época em que namorávamos. Não somos de ferro, tá?! No final das contas, devia ter sobrado pouco menos de quinze por cento do valor ganho. Só de pensar nisso, meu coração dava uma engasgada e meus pulmões se comprimiam. Antes que alguém me acuse de ser um completo irresponsável, deixe-me explicar. Em primeiro lugar, eu nunca tinha recebido antecipado por um serviço. Logo, não tinha experiência de como agir nesse tipo de situação. Além disso, quando conversei na terça-feira com o Paulo e ouvi o que interpretei como sendo uma intimidação sutil, não havia cogitado, até então, a possibilidade de algo dar errado. Assim, quando senti o arrepio, em pé no café da rodoviária, Inês já era morta. – Senhor? Senhor?! – a moça do caixa me olhava enojada, mas conseguia manter a educação protocolar – Se não for fazer o pedido, por favor, saia da fila para eu atender os outros. – A gente não tem o dia inteiro, sabia! – gritou uma mulher no final da fila. – Vai logo, seu folgado! Meu ônibus tá pra sair – um homem, esse mais perto de mim, também fez questão de comunicar sua insatisfação. Como não quis saber de onde vinham os clamores nem quem eram seus remetentes, não esbocei olhar para trás. – Desculpe-me. Eu vou querer... vou querer... De repente, não mais do que de repente, aquele café da rodoviária já não me parecia um estabelecimento tão adequado assim para uma paradinha casual. Afinal, eu precisava me manter vivo e minimamente saudável pelas próximas semanas, meses ou quiçá anos. Sabe-se lá quando eu conseguiria me livrar daquele livro e da dívida moral de entregá-lo. Isso é, se eu conseguisse finalizá-lo, algo que já começava a duvidar. Estaria eu enlouquecendo? Para me certificar do nível de minha sanidade mental, olhei novamente para o outro lado do balcão. Com a vista um pouco embaralhada, parece que vi muita poeira sobre as xícaras. Duvidei da procedência da água usada no café, provavelmente de torneira e não tão bem fervida. E podia jurar que avistei mosquitinhos sobrevoando a estufa onde jaziam os pães de queijo mais murchos e chechelentos da história humana. Se eu fosse vítima de uma indigestão ou de uma infecção alimentar leve, tudo bem. Ficaria de molho por alguns dias e logo mais estaria de volta ao batente. E se eu ficasse ruim a ponto de não conseguir começar a produzir o livro? O Paulo teria coragem de me substituir? Se sim, como eu faria para devolver à editora o dinheiro recebido? No caso de uma consequência ainda mais grave, deixaria uma jovem e linda viúva com uma dívida considerável. Não poderia fazer isso com a Dorinha de jeito nenhum! Onde eu estava com a cabeça para ter escolhido um estabelecimento tão rampeiro como aquele?! Se ainda estivesse com sede, fome, vá lá, talvez valesse a pena correr algum risco. Porém, definitivamente, não era o caso. As conversas ao telefone devem ter me distraído. Se a Dora estivesse me acompanhando, jamais ela aceitaria entrar naquela fila ou se aproximar daquele pé-sujo. – Vou querer uma garrafinha de água – respondi antes que a atendente pudesse chamar a polícia, conforme sugerido por alguém na fila – Gelada e sem gás, por favor. Não, não! Sem gelo. É melhor. Nunca se sabe quando um resfriado está a caminho... – Mais alguma coisa? – sua voz tinha um quê de receio que eu fosse demorar mais meia hora para responder. Se já tinha perdido tanto tempo para solicitar uma água, imagine só o tempo necessário para eu escolher algo para comer! Para alegria geral da nação, balancei negativamente a cabeça. Então, a moça decretou – Cinco reais. Pensando em facilitar o troco, afinal nunca gostei de incomodar ninguém, tirei a carteira do bolso novamente e a abri à procura de uma nota de cinco. Talvez o mau humor da funcionária do café possa ser explicado pela falta de troco em seu caixa. Isso acontece! Vai ver os adolescentes compraram uma balinha com uma nota de cem reais. Meu gesto altruísta, infelizmente, não saiu com a precisão imaginada. Tentando ser rápido, mas atrapalhado pelo excesso de itens nas mãos, celular, duas cédulas de dinheiro e carteira, e desequilibrado por ter uma mala entre minhas pernas, acabei derrubando tudo no chão. A carteira caiu no meu pé direito. O compartimento de moedas abriu com o impacto no piso e lá se foram moedinhas por todo o saguão da rodoviária. A mala só tombou. Quem teve pior sorte foi o celular. Ele voou mais longe e, ao bater no solo, a bateria desprendeu, sendo atirada para um local em que meu campo de visão não alcançava. Ainda bem que as pessoas que não estavam na fila foram solidárias e me ajudaram a recuperar quase todos os pertences. Digo quase todos porque duvido que todas as moedas tenham voltado. Saí do café com uma garrafinha de água sem gelo e com meu orgulho próprio dizimado. Fiquei tão mal, mas tão mal com os xingamentos e as críticas dos demais clientes que segui desnorteado para a plataforma de embarque. Tinha os pensamentos embaralhados e a camiseta, agora sim, totalmente banhada de suor nas costas e nas axilas. Meu estado era tão deplorável que, ao me aproximar do portão onde estava o ônibus que pegaria, lembrei das palavras de minha avozinha já falecida: “tudo o que começa mal, termina mal”. Seria essa uma previsão fatídica para a minha aventura recém-iniciada pelo interior paulista? Era um presságio nada estimulante. De qualquer forma, eu tinha aprendido algumas lições importantes. Em primeiro lugar, nunca mais receberia adiantado por um serviço. Tomar calote pode ser ruim, mas receber antes e ficar paranoico pode ser pior. Em segundo lugar, da próxima vez que passasse pela Rodoviária do Tietê, com certeza ficaria longe daquele café diabólico. E, por fim, em minhas próximas viagens, usarei uma camiseta esportiva ao invés de uma de algodão. Vivendo e aprendendo. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 1, Oportunidade Imperdível
Descíamos com cuidado a rampa do estacionamento destinada à carga e descarga do edifício La Tour des Merveilles. Passamos pela face lateral da portaria e alcançamos o jardim do prédio. Em um dia normal, os visitantes deviam adorar aquela paisagem bucólica recheada de verde natureza. Contornamos, indiferentes ao cenário, o hall de entrada e seguimos em direção ao elevador de serviço. Trazíamos, dessa vez, a cama box king size da Dona Cristiane. Plásticos-bolha protegiam as extremidades do móvel. Além do peso da estrutura de madeira compacta, eu e Raul precisávamos zelar pelas beiradas da cama. Qualquer batidinha poderia comprometer a peça e, o que era pior, levar a Rachel à loucura. Apesar de nutrir um ódio mortal pelas extravagâncias dos clientes, éramos profissionais suficientes para não destruir nada a machadadas. Já estávamos naquele trajeto entre o caminhão e o apartamento do vigésimo quarto andar há pelo menos quatro horas e meia. O Peixoto nos esperava com a fisionomia impaciente de quem queria almoçar a qualquer custo. Com o colchão encostado em uma das vigas, ele tomava um gole de sua garrafinha de água como se aquilo fosse enganar o estômago. Ao lado do colchão, havia outros objetos do dormitório da viúva: um criado-mudo, uma penteadeira espelhada, um armário baixinho e pelo menos meia dúzia de caixas grandes, que provavelmente continha sapatos. Aquela era a última parte da carga a ser levada para a cobertura. Quando chegamos com a cama, Peixoto já tinha chamado o elevador, apertado o botão do andar do nosso destino e bloqueado a porta, mas ainda não tinha colocado nada dentro. Esperava alguém para tomar as decisões, literalmente, cabíveis. Ao apoiar minha parte da cama no solo, olhei para o elevador e, depois, para o Raul. Ele também não estava com a cara nada animada. Pelo visto, só eu conseguia manter o humor inalterado, mesmo sabendo que o momento mais crítico do nosso trabalho daquela quarta-feira se anunciava. Se as coisas saíssem erradas agora, teríamos que subir a cama pelas escadas. O lombo de ninguém merece uma tortura como essa. Por outro lado, se a cama coubesse no elevador, em vinte minutos estaríamos dentro da boleia do caminhão em direção a nossas casas. Permaneceríamos, ainda assim, cansados e com fome, mas com a sensação de alívio por evitar o pior pesadelo de quem faz mudanças: as escadas. – Não vai entrar – decretou Peixoto com a convicção de quem já fazia aquilo há mais tempo do que eu e o Raul juntos. Sempre que o Álvaro e a Rachel não estavam por perto, o gorducho mal-humorado se metia a sabichão. – Cala a boca! Você sempre diz isso. – É verdade, Peixoto. Guarde seu pessimismo pra outra hora – defendi o Raul sem pestanejar – Nem chegamos direito com a cama e você já fala que não vai caber. – Como se eu não tivesse visto o tamanho dela pelo colchão... Olha só para este elevador. É minúsculo! Dessa vez tivemos que concordar. Se não era minúsculo, também não era grande o suficiente para fazermos a parte derradeira da mudança sem sobressaltos. Estava aí justamente o principal problema dos novos edifícios da cidade de São Paulo. Os caras construíam prédios maravilhosos com elevadores cada vez menores. Por que economizar em algo que as pessoas usam tanto, hein? Juro que não entendo! Ou os arquitetos e engenheiros estão loucos ou não conversam com quem faz as camas modernas. Nesse sentido, talvez os construtores estejam corretos e caiba aos designers dos novos leitos o papel de verdadeiros vilões dessa história. Na certa, o desgraçado que inventou a cama king size nunca fez uma mudança na vida ou não tinha pretensões de ter uma vaguinha no Paraíso. – Parem de reclamar e vamos tentar colocar esse trambolho aí dentro. Depois da minha proposta aparentemente óbvia, Raul e Peixoto largaram a momentânea letargia resmunguenta e começaram a me ajudar a encaixar a geringonça no elevador. Realmente, aquela tarefa não era para amadores. Tentamos embocar a cama por quatro jeitos diferentes: de lado, de pé, invertido e socando tudo com raiva. E, infelizmente, não conseguimos qualquer êxito. Em meio à nossa decepção, Raul largou o que estava fazendo e nos deixou. – Onde você pensa que vai?! – Peixoto, que estava dentro do elevador, gritou com parte da cama ainda em mãos. Em seguida, olhou para mim esperando uma interpretação mais ou menos lógica para a postura enigmática do nosso colega – Esse infeliz está querendo abandonar o barco justamente agora? Ou será que vai se suicidar rapidinho lá fora? Se for, poderia ao menos esperar um pouco mais. Vamos precisar de todos os braços lá na escadaria, né? – Não, seu tonto. Ele foi chamar o Álvaro no caminhão. Se o Álvaro não conseguir botar a cama no elevador, aí sim estaremos ferrados – Apresentei minha hipótese enquanto colocava a parte do móvel que segurava no chão. É fato que não usei os termos “tonto” e “ferrados” no meu discurso acima. Preferi, no calor da emoção, sinônimos que não se enquadram ao estilo elegante do texto deste livro. Mas era verdade verdadeira que ninguém era melhor do que o nosso motorista na arte de encaixar as coisas volumosas em locais mínimos. E digo isso sem qualquer trocadilho de cunho sexual. Até porque o Álvaro, um senhor de cinquenta e sete anos, teve mais filhos do que todos nós juntos. Ele era daqueles que conseguiam colocar um piano em uma caixa de fósforo com a tranquilidade com que o Peixoto devorava um prato de arroz com feijão ou com que o Raul passava uma tarde inteira sem dizer uma só palavra. – Fazer o quê? Vamos esperar o milagreiro chegar, né? – Meu colega colocou no solo a parte da cama que ainda estava suspensa e soltou um ruidoso suspiro. Sua reação era um misto de desanimo, impaciência e frustração. Orgulhoso, ele devia preferir subir com o móvel pela escada a ver o Álvaro ser bem-sucedido em uma tarefa que ele malograra. Nesta hora, meu celular tocou. De imediato, achei que fosse a Dora querendo saber onde eu estava e a que horas voltaria para casa. Mas não era ela. Era um número não identificado. Aí gelei. Sempre que isso acontecia era alguém me lembrando das contas atrasadas. Ou, no melhor dos mundos, era apenas uma chamada inútil de telemarketing. Na semana retrasada, até o seu Agenor, o dono do nosso apê, usou-se de um número não identificado para me cobrar os dois meses de aluguel em aberto. É claro que quando ele me ligava do celular dele, eu nunca atendia. – Atende isso logo, porra! – Está bem – Acalmar o Peixoto era o mais importante naquele instante. O cara já estava com fome, cansado e pessimista. Se ficasse nervoso, aí seria uma temeridade total. Confesso que estava envergonhado de não atender à ligação, como se tivesse algo delicado a esconder. Porém, também ficaria constrangido de discutir pendências financeiras na frente do gordinho rabugento. Se eu tivesse sorte, seria apenas uma chamada de telemarketing. Vamos pensar positivo, gente! Caminhei em sentido oposto de onde estava o Peixoto e interrompi o ringtone que ecoava pelo andar do prédio – Alô? – Fala, meu escritor favorito! – Do outro lado da linha, Paulo me saudava com sua tradicional animação – Você está podendo falar agora? Porque tenho uma oportunidade imperdível para você. Eita mundo cão! Na hora da ceia, o demo sempre traz mais um. O que seria pior naquele momento: uma ligação da Dora brava, um telefonema dos meus credores impacientes, ter que carregar uma cama box gigantesca nas costas por incontáveis andares, assistir ao Palmeiras sendo campeão mundial, ouvir as reclamações intermináveis do Peixoto ou receber uma chamada telefônica do dono da Editora Pomelo? Acredite se quiser: a pior alternativa era, sem dúvida nenhuma, a última. – Vixe, Paulo. Foi mal, mas estou no meio de um servicinho. Não posso falar agora. Depois a gente troca umas ideias com mais calma, tá bem? – Não desligue, não! Não estou brincando, meu caro. A oportunidade é realmente imperdível. Serviço de ghost writer para um livro que será o novo best-seller do mundo dos negócios. Asseguro que você irá se arrepender para sempre se não estiver nessa. – Estou louco para me arrepender, Paulo. Então, aí vai o meu não: NÃO! Tchau. – Como assim? Você fala não sem ouvir os termos da proposta. – A questão é que não trabalho mais como escritor. Estou fora dessa. E você sabe muito bem disso! O que disse era totalmente sincero, fruto de meses de reflexões e de discussões lá em casa. Por menos glamuroso que parecesse, trabalhar com mudança sempre foi um emprego seguro e razoavelmente rentável. Infelizmente, as mesmas características não poderiam ser ditas sobre o ofício de escritor no Brasil. Quem me alertou para esse fato pela primeira vez foi a Rachel, a dona da BonaBelle Organização & Mudança. Depois, a Dora concordou com o ponto de vista da minha patroa. As duas sempre se deram muitíssimo bem. O que uma dizia, a outra concordava. Nem mesmo as melhores associações patronais eram tão unidas. Em primeiro lugar, fazer mudança é o típico negócio que nunca entra em crise nem sofre grandes oscilações de demanda. Você já pensou nisso? Tanto na prosperidade econômica quanto na recessão, as famílias de todas as classes sociais trocam de residências. Além disso, são poucas as pessoas que optam por fazer sozinhas esse tipo de serviço. Pelo menos é assim aqui em São Paulo. Sempre é preciso contratar alguém com um bom caminhão para fazer o leva-e-traz com segurança. Afinal, tem algo mais importante, quando pensamos no lado material, do que aquilo que guardamos em nossas casas, hein? Duvido! As vantagens de se trabalhar com mudança residencial não param por aí. Não passa pela cabeça de ninguém, por exemplo, deixar de pagar a equipe que fez a sua mudança. Ao ver o nosso trabalho pesado, e põe pesado nisso, todos se solidarizam conosco, até as almas mais trambiqueiras. “Coitadinhos, eles não merecem ir embora exauridos dessa forma sem levar o deles”, devem pensar. E, por fim, tem a questão de que se não recebermos direitinho, podemos armar um escândalo na porta da nova moradia do cliente. O que seus novos vizinhos não vão pensar se eles não pagarem nem os meninos da mudança? Por essas e outras, fazer mudança era o meu ganha-pão. Se não era a profissão mais lucrativa do mundo ou aquela em que sonhava desempenhar quando criança, ao menos não me deixava passar necessidades. Entre idas e vindas, estava há quase seis anos na empresa da Raquel. Confesso um tanto constrangido que nem sempre pensei assim. Há alguns anos tentei viver somente da profissão de escritor. Talvez estivesse mais iludido com a nova atividade, que requeria menos esforço braçal e conferia um certo status, do que ciente da roubada em que estava me metendo. Fiz inclusive faculdade de Letras, veja só. Abandonei o curso de Administração no meio para me preparar devidamente à nova carreira. Foi justamente aí que minha vida desandou... O difícil não foi entrar na nova profissão. Um pouco antes de me formar, já tinha três editoras de bons níveis como clientes. O complicado foi receber meu pagamento. É praxe desse mercado a remuneração posterior. Das quatro obras que produzi, sempre como ghost writer – aquele sujeitinho que escreve o texto para um autor mais renomado, mas que nunca aparece para o público –, tomei calote em três. Por falar nisso, abraços, Sr. Farinha e Sr. Joserelli. A família manda lembranças! Até pensei, no início, na possibilidade de fazer as mudanças de dia e escrever à noite. Mas não deu certo. Como consequência, não trabalhei com a Rachel de maneira fixa por quase um ano. Praticamente só aceitava as mudanças quando não tinha nada para escrever ou quando a situação financeira lá de casa já tinha se tornado calamitosa. Nesse sentido, a Rachel foi super compreensiva, entendendo os dois lados da minha situação: quando priorizei a escrita e, depois, quando precisei voltar correndo para a BonaBelle. Outra que foi muitíssimo fofinha foi a Dora. Ela me deu todo o apoio necessário, segurando sozinha as pontas e me incentivando até onde dava. Se pensarmos bem, até para ela seria bom eu virar escritor. Onde já se viu uma advogada classuda ter como marido um sujeito que passa os dias descabelado carregando caixas e móveis para cima e para baixo? Ela nunca reclamou explicitamente, mas sempre evitou me apresentar para as amigas. A exceção foi obviamente na fase em que eu trabalhava com as editoras. Aí nosso lar se tornou sede dos encontros mensais das Amigas Para Siempre, grupelho das ex-colegas de faculdade de Direito. Sempre que havia visitas, Dora me anunciava toda orgulhosa: “Meninas, o meu marido está escrevendo um livro. Ele é escritor, sabe, ghost writer. Amor, venha aqui dar um oi rapidinho para as meninas”. – Parar de escrever?! Não estou sabendo de nada. Mas por quê? O pessoal adorou seu livro e agora temos em mãos um projetão, coisa grande mesmo, que dará uma boa grana para todos, inclusive para você. – Paulo, vê se entenda de uma vez por todas. Não é má vontade da minha parte, já te disse isso um milhão de vezes. Se eu voltar a escrever, a minha mulher me mata. Trucida pra valer! Você sabe como ela pode ser brava quando fica contrariada, né? E se bobear, ela mata você junto. Não quero ser, ao mesmo tempo, vítima de um assassinato e responsável por outro. – Juro que não entendo a relutância dela. Escrever é muito melhor do que fazer mudanças, meu caro. – Nananinanão! Será que você já se esqueceu dos calotes que recebi? Ou melhor, que não recebi... – Pera lá! O mercado editorial vive uma séria crise. Você sabe disso. Tem várias empresas por aí com problemas financeiros, de fluxo de caixa e com muitas dívidas na praça. Se você não recebeu das outras editoras, eu não tenho nada a ver com isso. Que fique bem claro: a Pomelo te pagou direitinho. Não foi? Por causa dos outros, então, você deixará de prestar novos serviços para a única empresa que pagou? Não faz o menor sentido. – Você tem razão em parte. O problema é que combinei com a Isadora que não ia pegar mais trampos em editoras... Ainda não conseguimos colocar as contas em dia. Para você ter ideia, meu aluguel está atrasado. Se vacilar mais um mês, é despejo. – Ok. Se a questão é money, então falemos de money. De quanto estamos falando exatamente? – Ah?! Você quer saber o valor do meu aluguel? – Não! – dá uma risada nervosa – Quero saber o valor que você está pedindo para escrever um livro sobre estratégia empresarial. O autor mora em São José dos Campos e você precisará ficar por lá alguns meses. Já adianto que o sujeito não é fácil. – Ai, ai, ai, Paulo. Você não consegue entender quando a gente diz não, né? – Vi a chegada do Álvaro e do Rui. Eles se juntaram ao Peixoto e o trio começou a discutir o que fazer no elevador. De longe dava para ouvi-los. Para ninguém escutar o meu entrevero ao telefone, me afastei um pouco mais – Será que você não tem outra pessoa para fazer esse job? – Tenho sim. Conheço uma porrada de gente. Mas você é o melhor escritor para esse livro. Vai por mim, raramente me engano como editor – Fez um silêncio de alguns segundos como se esperasse o efeito de suas palavras no meu ego. Depois, com a fúria de um felino em direção à presa indefesa, voltou a falar com a firmeza de quem nunca é contrariado – Para você não ter problemas em casa, aceito até pagar adiantado pelos seus serviços. Que tal? Estamos acertados agora? – Receber adiantado?! Aí então que não topo mesmo. Ninguém paga adiantado no Brasil, Paulo. E se você está fazendo uma proposta dessa é porque deve ser uma fria danada. – A sua conta no banco ainda é a mesma? – Sim. Por quê? – Estou transferindo agora mesmo o valor. – Não é assim, merda! Vire mais para a direita, mais... Agora empurrem. Força! – Os gritos do Álvaro chegavam a mim demonstrando a dificuldade da operação no elevador. Eles lá sofrendo com a cama e eu no telefone jogando conversa (e quem sabe dinheiro) fora. Pelo que pude ver, até a Rachel e alguém do prédio, talvez o síndico, sei lá, tinham se juntado ao incrível exército de Brancaleone. – Paulo, não faça isso. Não vou escrever mais nada. Agora vou desligar porque estão precisando de mim. – Um segundo... quase lá... pronto! Já depositei. Veja se o valor te agrada. Pela sua resistência, conferi um bom reajuste. Se não estou enganado quanto ao valor da outra vez, esse é pelo menos dez vezes superior. – O quê? – Se você e a Isadora não quiserem, é só transferir amanhã o dinheiro de volta para a conta da editora. Caso contrário, na sexta-feira eu te ligo para conversarmos mais sobre o projeto do novo livro. Até mais, meu caro. Abração. – Até... Abraços. Fiquei não sei quanto tempo estático com o aparelho mudo no ouvido. Será que o que acontecera ali era verídico? Alguém seria capaz de me pagar adiantado e, ainda por cima, uma bolada para escrever um livrinho de negócios? Será que eu ouvira direito? Entendi que ele dissera dez vezes mais. Pode ser que o Paulo tenha se confundido, coitado. Talvez tenha desejado falar 10% a mais, o que ainda assim era um bom valor. Sim, deve ter sido essa a confusão. O que era certo e imutável era o fato da Dora me matar quando soubesse o que aconteceu. Ah, ela iria ficar doida da vida comigo. Só não sei como seria a minha morte: facada, estrangulamento, tiro ou arremesso pela janela. – Oh, frangote, vamos acabar com esse intervalinho e voltar ao trabalho – Era o Peixoto vindo em minha direção com um humor do cão. O tom de voz me indicava o resultado do que havia transcorrido há pouco no elevador – Prepare seus bíceps e tríceps porque o trampo vai ficar tenso agora. E, assim, com um sorrisinho maroto que insistia em não sair do meu rosto, comecei a me preparar física e psicologicamente para a atividade mais difícil e perigosa da quarta-feira: convencer a Dora, quando chegasse em casa, do que havia acertado com o Paulo. Perto disso, o que viesse pela frente naquele dia seria sossegado. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Recomendações: Sete Contos Natalinos
O Natal de 2020 será, muito provavelmente, o mais chocho dos últimos cem anos. Para onde foi o espírito natalino, hein?! As ruas e as residências não estão enfeitadas como antes. As autoridades pedem para as famílias evitarem reuniões. O comércio reclama da queda acentuada nas vendas. Os shopping centers não apresentam suas versões do Papai Noel. As pessoas têm medo de sair de casa. Os médicos orientam para que beijos e abraços sejam evitados ao máximo. Nesse cenário sombrio, não duvidaria se até Santa Claus cancelasse sua visita anual à criançada. Pela idade avançada, o bom velhinho deve estar em confinamento aguardando a chegada da vacina. Confesso que não sou um grande fã do Natal. Nunca entendi a obrigatoriedade de reunir a família em eventos longos, enfadonhos e com excesso de gente e de comida. Ao invés de ficar acordado até tarde com pessoas com as quais nunca nutri grande admiração, sempre preferi ficar em casa sozinho. Nada melhor do que dormir cedo (no horário normal), mesmo quando a folhinha do calendário indica ser 24 de dezembro. Para mim, o Natal perfeito é aquele em que eu passe lendo um bom livro, assistindo a um belo filme ou ouvindo música de qualidade. E com as pessoas (que dá para contar nos dedos de UMA mão) que eu goste realmente. O resto é obrigação social. Mesmo para um antissocial incorrigível como eu, é difícil aceitar o Natal desse ano. Não é porque eu não goste das cerimônias natalinas que eu vá vibrar com o clima estranho de 2020. Pelo contrário! Eu quero a volta da normalidade. Gostaria do retorno do velho espírito do Natal: as ruas cheias de gente e de enfeites luminosos; as pessoas comprando presentes e comida em doses exageradas; as famílias exigindo nossas presenças em várias casas simultaneamente; eventos chatíssimos em que precisamos aturar parentes malas; os shopping centers apresentando as versões mais bizarras do Papai Noel; e as estradas e aeroportos cheios, com multidões viajando para lá e para cá. Fiquei tão deprimido com a nossa realidade natalina de 2020 que precisei procurar na literatura um consolo. E se eu lesse alguns contos de Natal, pensei um pouco mais animado, será que teria de volta o velho clima dos anos anteriores?! Com essa ideia fixa na cabeça, li nos últimos dias uma série de narrativas curtas que tratam do Natal. E admito que elas me ajudaram na (re)construção do espírito natalino. Por isso, no post de hoje da coluna Recomendações, indico sete contos ambientados no Natal para aqueles que, como eu, precisam de uma injeção de natividade na veia (ou na alma). Na coletânea que apresentarei a seguir no Bonas Histórias, há um pouco de tudo: ficção científica, terror, romantismo, drama, aventura, ação, suspense. Além da temática, a única coisa em comum entre essas histórias é que elas estão disponíveis em ebooks no Kindle ou em pdf no site de suas editoras. Ou seja, quem quiser ler, é só baixá-las. Todas as obras são gratuitas. Nesse caso, não há desculpa para seu Natal continuar chocho. Confira, abaixo, as sete tramas natalinas mais interessantes que li nos últimos dias e que comento uma a uma: 1) “Um Conto de Natal” (Boitempo) – China Miéville (Inglaterra) – Ficção Científica – 20 páginas – Gratuito – Disponível para leitura em pdf no blog da Boitempo: clique aqui. “Um Conto de Natal” foi a melhor trama natalina que li nessa minitemporada de fim de ano. China Miéville é um dos mais originais escritores de ficção científica da literatura inglesa. Esse texto foi publicado pela primeira vez, em inglês, em uma coletânea de contos de 2010. No Brasil, a narrativa foi lançada, em português, no caderno Ilustradíssima da Folha de São Paulo em dezembro de 2014. Em um texto distópico, Miéville faz uma sátira divertida sobre o capitalismo, a mercantilização do Natal e o poderio excessivo dos grandes conglomerados empresariais. O enredo de “Um Conto de Natal” se passa em 24 de dezembro de um ano indeterminado do futuro. Nessa época, para se fazer uma festa de Natal genuína e legalizada, as pessoas precisam pagar por uma licença para a Natividade Co, empresa responsável pelos direitos autorais do evento. Sem a compra da licença da Natividade Co, ninguém pode, por exemplo, ouvir músicas natalinas oficiais, usar a árvore de Natal, decorar os lugares com enfeites típicos, vestir a roupa do Papai Noel... São os efeitos colaterais do mercado hipercapitalista. Sem muito dinheiro no bolso, o protagonista dessa história (que não tem o nome revelado) raramente passou o Natal como gostaria. Isso até ganhar na loteria a possibilidade de ir ao evento oficial promovido anualmente pela Natividade Co no centro de Londres. Ao lado da filha de quatorze anos, ele poderá usufruir, enfim, do verdadeiro espírito natalino. O que a personagem principal do conto não imaginava é que, justamente nesse dia, grupos de revoltosos radicais invadiriam as ruas da capital inglesa em protesto contra as imposições dos grandes conglomerados empresariais. 2) “Feliz Natal” (Rocco Digital) – Patrícia Melo (Brasil) – Drama – 24 páginas – Gratuito – Disponível na Loja Kindle: clique aqui. “Feliz Natal” é a narrativa natalina de Patrícia Melo, uma das autoras mais premiadas da literatura brasileira contemporânea. Seus romances de maior destaque até aqui são “O Matador” (Companhia das Letras) e “Inferno” (Companhia das Letras). Publicado pela primeira vez, em 2011, na coletânea de contos “Escrevendo no Escuro” (Rocco), “Feliz Natal” foi lançado de maneira independente em ebook em dezembro de 2013. Nesse drama com tintas de suspense e de terror, Patrícia Melo tece uma forte crítica à desigualdade social no Brasil. Ao longo das páginas de “Feliz Natal”, conhecemos Neide, a faxineira de um laboratório universitário que faz pesquisas científicas com animais. Extremamente prestativa, a ponto de trabalhar até no dia de folga, a funcionária da limpeza ajuda os professores, os pesquisadores e os alunos em muitas atividades que não fazem parte de sua função original. Os vários anos atuando ali fizeram dela mais do que uma auxiliar de limpeza convencional. Neide é quase uma assistente de pesquisa. Não à toa, ela é bem-quista por todos. Em uma véspera de Natal, Neide não se importa de ficar até mais tarde para ajudar o Professor Roger a dissecar alguns coelhos. O docente fica grato mais uma vez pela contribuição da faxineira. Contudo, ele não imagina que por trás daquela atitude altruísta, Neide esconde interesses escusos. Prepare-se para um final surpreendente e terrível. 3) “Dia de Folga – Um Conto de Natal” (Companhia das Letras) – John Boyne (Irlanda) – Suspense – 20 páginas – Gratuito – Disponível na Loja Kindle: clique aqui. “Dia de Folga” é o conto natalino de John Boyne, escritor irlandês famoso pelo romance “O Menino do Pijama Listrado” (Companhia das Letras). Para se ter uma ideia do sucesso de “O Menino do Pijama Listrado”, o livro vendeu mais de seis milhões de unidades no mundo e foi adaptado para o cinema em 2008. “Dia de Folga” tem uma ambientação parecida ao do best-seller de Boyne. Tal qual o romance, essa narrativa curta se passa em meio a um conflito bélico (provavelmente a Segunda Guerra Mundial – não há uma datação clara no texto). Contudo, a perspectiva da trama é de um soldado britânico (e não do filho de um militar alemão). Depois de “Um Conto de Natal”, de China Miéville, e ao lado de “Fui Uma Boa Menina?”, de Carolina Munhóz, esse conto foi o melhor que li nos últimos dias. O enredo de “Dia de Folga”, um suspense psicológico forte e emocionante, se passa em uma véspera de Natal. Hawke, o protagonista, é um jovem de dezessete anos que virou soldado da Força Expedicionária Britânica. Ele já está cansado da longa guerra travada em território alemão. Tudo o que o rapaz quer é ter uma noite de sono e poder vestir as meias novas que acabou de ganhar de presente da mãe. Aproveitando-se do raro dia de folga, Hawke decide caminhar pela floresta, longe do seu batalhão. Ele quer espairecer. Por isso, não pensa nos perigos que está correndo ao perambular solitário em uma zona de guerra. Ao respirar novos ares e se distanciar dos colegas combatentes, novas ideias surgem na mente do jovem soldado. Além de lembranças dos natais passados, ele começa a almejar uma nova realidade. 4) “Fui Uma Boa Menina?” (Rocco Digital) – Carolina Munhóz (Brasil) – Suspense/Drama – 28 páginas – Gratuito – Disponível na Loja Kindle: clique aqui. “Fui Uma Boa Menina?” é o conto natalino de Carolina Munhóz, escritora, roteirista e jornalista nascida, em 1988, em São José do Rio Preto. Especialista em literatura infantojuvenil e em literatura fantástica, Carolina tem mais de dez livros publicados. “Fui Uma Boa Menina?” foi lançado em 2013 e é a história dessa seleção de contos que mais resgata o espírito natalino. Com um texto elegante, uma trama cativante e uma narrativa recheada de mistérios, a autora paulista produz um suspense dramático impecável. Sem dúvida nenhuma, esse foi um dos contos que mais gostei de ler da lista que estou apresentando. Essa história começa com uma jovem escrevendo em seu diário. É véspera de Natal e ela completa um ano desde a saída da casa dos pais. Ela fugiu de lá por não aguentar mais o ambiente opressivo da família. Abrindo mão do conforto e das posses de seus parentes, a garota preferiu morar sozinha em uma quitinete simples de uma grande cidade brasileira. A protagonista dessa trama odeia o Natal e possui cabelos precocemente brancos. Apesar da fuga da casa dos pais, ela continua com os dramas do passado fixados na memória. Por mais que ela tente esquecer as lembranças amargas e os sentimentos negativos de outrora, eles acabam surgindo sempre que algo relativo as cerimônias natalinas aparecem. 5) “A Última Ceia – Um Conto de Terror Natalício” (ebook independente) – Ana C. Nunes (Portugal) – Terror – 30 páginas – Gratuito – Disponível na Loja Kindle: clique aqui. “A Última Ceia – Um Conto de Terror Natalício” é uma das primeiras narrativas curtas de Ana C. Nunes, escritora portuguesa nascida, em Barcelos, em 1983. Com uma produção que abrange romances e coletâneas de contos, a autora assina seus textos tanto com o nome verdadeiro quanto com os pseudônimos Cristina Corvo e Corvo Silva. “A Última Ceia” foi publicado originalmente em dezembro de 2012 e possui características das tramas de terror e das obras de realismo fantástico. Nessa narrativa macabra, acompanhamos o relato de um adolescente (ele não tem o nome revelado) que viaja com os pais e com o irmãozinho para o litoral de Portugal. A família vai passar o Natal na casa do tio José, que ficara viúvo há sete meses. O problema é que o tio é uma figura muito sinistra, além de morar em uma casa velha no fim do mundo. O lugar onde ele vive está mais para um pantanal insalubre do que para uma praia turística. Curioso, o narrador do conto fica perambulando pela residência do tio em busca de algo para se distrair. Não demora para ele descobrir os segredos mais horripilantes do anfitrião. Em um freezer no porão da casa, há algo que tornará a estada natalina do rapaz e de sua família naquele lugar uma experiência extremamente perigosa. Prepare-se para surpresas da narrativa que tem certo tom fantástico e para as delícias do texto que está no português de Portugal. 6) “Esquecemos de Nós – Um Conto de Vários Natais” (ebook independente) – Raul Damasceno (Brasil) – Drama romântico – 31 páginas – Gratuito – Disponível na Loja Kindle: clique aqui. Em “Esquecemos de Nós – Um Conto de Vários Natais”, Raul Damasceno, jovem escritor cearense, acadêmico do curso de História na Universidade Estadual Vale do Acaraú e cronista, apresenta uma de suas primeiras narrativas curtas. Lançada em 2020, essa história retrata um drama romântico homoafetivo. Nela, um jovem que sonha em ser escritor se apaixona pelo primo de primeiro grau. O enredo de “Esquecemos de Nós – Um Conto de Vários Natais” se passa sempre nos dias próximos ao Natal (na véspera, no próprio Natal ou no dia seguinte). A trama vai de 2009 a 2019. Em um texto que mescla narrativa em primeira e em terceira pessoa, o leitor conhece o jovem Luan. Ele é apaixonado por Caio, seu primo. Apesar de morar em Fortaleza, com a mãe, Caio viaja todo final de ano para o interior do Ceará. É na casa dos pais de Luan que a família toda passa as festas de final de ano. A proximidade dos primos nas férias de Verão faz aflorar os sentimentos de ambos. Entretanto, Luan sonha em ser escritor. Assim, ele deixa o Ceará e vai viver sozinho na cidade de São Paulo. Na capital paulista, o rapaz irá descobrir o quão dura pode ser a vida em uma metrópole. Sentindo saudades de casa, da mãe e do primo, Luan mergulha no trabalho como assistente de cinema e em relacionamentos ocasionais. Sua meta é esquecer a vida antiga e a paixão por Caio. 7) “Dia Cinza de Natal” (ebook independente) – Yasmim Ferreira (Brasil) – Drama – 20 páginas – Gratuito – Disponível na Loja Kindle: clique aqui. “Dia Cinza de Natal” é o drama produzido por Yasmim Ferreira, uma jovem escritora paraibana. Apaixonada por literatura e tecnologia, ela estreou nas narrativas curtas com a publicação de “Linhas e Palavras” (ebook independente) em abril de 2020. Sete meses depois, a autora lançou “Dia Cinza de Natal”, o retrato ácido da vida de um rapaz viciado em drogas. Nesse conto, acompanhamos os relatos de Diogo, o narrador-protagonista de 17 anos. Ele apresenta sua história quase sempre nas vésperas de Natal – o capítulo 1 se passa em 24 de dezembro de 2017, o capítulo 2 em 24 dezembro de 2018 e o capítulo 3 em 24 dezembro de 2019 (apenas o epílogo quebra essa lógica – ele se passa em janeiro de 2020). Após a morte dos pais, vítimas de um acidente de carro, Diogo e Rodrigo, seu irmão mais novo, são levados para um internato. Eles não se habituam à vida na instituição socioeducativa e fogem dali. Para sobreviver, os jovens começam a trabalhar em um bar. Graças à ajuda do dono do estabelecimento, Diogo e Rodrigo podem dormir em um quartinho nos fundos do prédio. Enquanto Rodrigo se torna o melhor funcionário do bar, Diogo cai nas drogas. Deprimido com a morte trágica dos pais, o irmão mais velho se entrega às bebidas e aos entorpecentes. Dessa maneira, sua vida afunda cada vez mais. Com essa coletânea de sete contos natalinos tão diversificada, o Bonas História deseja um feliz natal para todos os seus leitores, autores e apoiadores. Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Como Se Encontrar Na Escrita – A Escrita Afetuosa de Ana Holanda
Há anos, sou um grande fã do trabalho de Ana Holanda, editora-chefe da Vida Simples. Desde a extinção da Bravo, a Vida Simples se tornou minha revista favorita. Por isso, foi uma grata surpresa quando soube que Ana Holanda tinha lançado um livro sobre a Escrita Afetuosa. O título desta obra é “Como Se Encontrar Na Escrita” (Rocco/Bicicleta Amarela). Conceito desenvolvido pela própria jornalista e aplicado com brilhantismo na Vida Simples, a Escrita Afetuosa incentiva a produção de textos mais pessoais, emotivos e viscerais seja na literatura quanto no jornalismo, na academia ou na esfera corporativa. Além do livro, a proposta da Escrita Afetuosa de Holanda tem sido transmitida pela autora em cursos oferecidos na The School of Life e em seminários pelo país. Depois de muito adiar a leitura de “Como Se Encontrar Na Escrita”, foram quase dois anos de atraso, enfim, pude mergulhar nas páginas desta publicação. Aproveitei a calma do terceiro final de semana deste ano novo para entender a teoria da Escrita Afetuosa. Minha curiosidade fazia sentido. Até então, como leitor assíduo da Vida Simples, eu só conhecia o resultado prático desses conceitos. Porém, queria entender os segredos por trás da mágica. Queria descobrir os motivos por ter virado um fã incondicional dos textos deste periódico. Assim, passei o último sábado degustando as páginas da obra de Ana Holanda. Admito que fiquei tão encantado com a leitura de “Como Se Encontrar Na Escrita” que resolvi não perder mais tempo. Produzi esta análise crítica sobre o livro ainda no domingo de madrugada. Para quem conhece meus hábitos matutinos entenderá o quão empolgado eu fiquei para passar a virada do sábado para o domingo escrevendo este post. Na minha visão, os leitores do Bonas Histórias não poderiam esperar nem mais um dia sequer para conhecer esta obra. Publicado em 2018, “Como Se Encontrar Na Escrita” é o segundo livro de Ana Holanda, jornalista com passagens pelas redações dos principais veículos do país e que trabalha desde 2011 na Vida Simples. O primeiro livro de Holanda, “Minha Mãe Fazia” (Rocco/Bicicleta Amarela), é uma obra de receitas familiares que despertam as memórias de infância da autora. Ou seja, a publicação mistura gastronomia e crônicas pessoais, em mais um típico exemplo do uso da Escrita Afetuosa. “Como Se Encontrar Na Escrita” nasceu da compreensão da jornalista-escritora de que ela era acima de tudo uma contadora de histórias. E as narrativas produzidas por Ana (e, depois, pelos integrantes de sua equipe na revista e, mais tarde, por seus vários alunos nas oficinas de escrita) tinham uma característica particular: elas eram conversas íntimas apresentadas com sensibilidade aos leitores. A Escrita Afetuosa, nas palavras da própria autora, é construída por textos que dialogam, marcam, tocam e afetam o outro, desencadeando sentimentos e gerando emoções. Para isso, o escritor (palavra aqui empregada para quem desenvolve textos, podendo ser essa pessoa um jornalista, um publicitário, um roteirista de TV, um cineasta ou um produtor de conteúdo) precisa usar palavras que vem direto da sua alma, das entranhas do seu ser. A base deste tipo de escrita é a narração intimista de episódios pessoais, que criam empatia no leitor. Só assim, é possível emocionar quem lê o texto. A Escrita Afetuosa é, portanto, um contraponto à escrita fria, impessoal e baseada em números, estatísticas e nas informações macroeconômicas. Com 224 páginas, distribuídas em 10 capítulos, “Como Se Encontrar Na Escrita” descreve passo a passo as diretrizes da Escrita Afetuosa. Segundo Ana Holanda, em primeiro lugar, o autor precisa se mostrar sensível e atento ao mundo em que está inserido. Em outras palavras, ele deve navegar tanto pelo seu universo interior (emoções, pensamentos, crenças, medos, alegrias, etc.) quanto pelos aspectos externos da sua vida (o mundo em que habita e o das pessoas ao seu redor). A Escrita Afetuosa precisa ser visceral, vinda de dentro e feita com paixão. Assim como a vida, a produção de textos pressupõe intensidade. Escrever é viver. E ambos precisam ser atividades passionais. Nesse sentido, não devemos ser racionais. Diferentemente do que é pregado em muitos ambientes sociais e profissionais, não devemos ser econômicos na exposição dos nossos sentimentos. Até mesmo nos materiais corporativos e nas matérias jornalísticas, o emprego de elementos emocionais é muito bem-vindo. É através da emoção do texto que o leitor conseguirá se conectar às palavras, às histórias e às mensagens transmitidas. Porém, para liberarmos nosso lado emocional, precisamos, como escritores, entender primeiramente quem somos. Trata-se da descoberta efetiva do nosso “eu”. O “eu” aqui é nossa personalidade genuína, aquela por trás das máscaras sociais e psíquicas. Além de ser uma busca difícil (raramente realizamos essa procura), a exposição desnuda de quem somos é uma tarefa que exige muita coragem. Infelizmente, as pessoas não estão acostumadas a se expor e, principalmente, a expor seus sentimentos. Quanto aos temas, os melhores enredos não estão no extraordinário e sim nos momentos simples da vida. Enxergar esses instantes é outro grande desafio para quem deseja trabalhar com a Escrita Afetuosa. É preciso sensibilidade para descobrir a poesia presente em nosso cotidiano e em nossas relações pessoais. As boas histórias podem estar em qualquer lugar e podem ser narradas por qualquer um. Para achá-las, é preciso garimpar. Belas histórias são como pedras preciosas, estão escondidas dos olhares distraídos das pessoas. Portanto, converse com todo mundo, caminhe bastante por aí e não se canse de observar com atenção o mundo. Ana Holanda também diz que a Escrita Afetuosa não é apenas aquela sensível, poética. Ela também é a escrita que abraça, acolhe. E para isso, esses textos não podem ser feitos com palavras frias, intangíveis e incompreensíveis. Parte do acolhimento e da aproximação da Escrita Afetuosa com o leitor se dá pela escolha correta das palavras pelo autor. Cada termo e cada frase devem transmitir o sentido adequado e a intensidade necessária para quem lê. Curiosamente, palavras têm a capacidade tanto de nos aproximar quanto de nos afastar. A criação do efeito desejável passa necessariamente pela escolha exata dos termos e das expressões para cada situação específica. Escrever não é apenas técnica, como estamos acostumados a ouvir nas faculdades de comunicação e nas oficinas literárias. Escrever também exige uma elevada dose de maturidade pessoal e de compreensão íntima. Encontrar a própria voz, por exemplo, é um dos grandes desafios de quem escreve. Descobrir as motivações por trás da escrita também. Cada pessoa tem suas temáticas preferidas e mais fortes. Por fim, Holanda diz que um texto não faz sentido se ele não toca os leitores. As palavras são agentes de transformação e precisam ser usadas para tal. Adorei “Como Se Encontrar na Escrita”. Seus conceitos são originais e vão contra uma determinada corrente em voga no jornalismo. Na literatura e na publicidade, felizmente, as ditaduras da racionalidade, da imparcialidade e da frieza textual há muito tempo não existem. O mais legal desta leitura foi ver a teoria por trás da prática. Como leitor da Vida Simples, eu apreciava os textos da revista, mas até então não havia parado para refletir sobre os motivos da minha adoração. Eu gosto de lê-la e pronto, pensava tacanhamente. Aí, de repente, Ana Holanda revela os segredos (não tão segredos assim) da Escrita Afetuosa. Ao longo dos capítulos deste livro, pude entender a proposta por trás da Vida Simples. E, então, tudo fez sentido. Muito interessante vivenciar esse processo de aprendizado. Talvez para quem não conheça a Vida Simples ou não seja um leitor frequente do periódico, as revelações da autora em “Como Se Encontrar na Escrita” possam parecer banais. Até acredito que muitos leitores acabem chegando a essa conclusão (posição extremamente equivocada em meu ponto de vista). A simplicidade e a objetividade da teoria da Escrita Afetuosa não podem ser confundidas com vazio ou primitivismo conceitual. O que Ana Holanda fala é de uma profundidade e de uma relevância absurdas. Sua didática é excelente e merece ao menos ser analisada por quem produz conteúdo. Se depois você vai utilizar ou não as práticas da Escrita Afetuosa só o tempo dirá. O que não pode ser feito é ignorar seus conceitos e a relevância dos seus efeitos nos leitores. Curiosamente, “Como Se Encontrar na Escrita” não é apenas um livro com um ótimo conteúdo. Ele também apresenta boas ilustrações e um projeto gráfico compatível com a proposta conceitual da obra. Os desenhos de Tiago Gouvêa são primorosos e embalam nossa leitura. Gostei também do tom didático da publicação. Ao final de cada capítulo, Ana Holanda propõe a realização de um exercício prático. A sensação é que o leitor está participando de uma oficina literária da autora. O principal ponto negativo do livro é o excesso de matérias extraídas das revistas em que Ana trabalha ou trabalhou (Vida Simples e Bons Fluídos). Como leitor antigo das publicações da autora, achei extremamente cansativo ter que reler seus textos no livro. Alguns até dialogavam perfeitamente com a teoria apresentada. Outros, contudo, pareceram a mim mais encheção de linguiça do que boas exemplificações do que estava sendo abordado nas páginas da obra. Provavelmente quem não conheça a Vida Simples poderá até gostar desse recurso. Eu odiei. Senti que estava em um consultório médico relendo matérias de revistas muito antigas. Uma obra com essa envergadura merecia sim um texto mais exclusivo e original no momento da exemplificação conceitual. Nesse sentido, também desaprovei os feedbacks dos participantes das oficinais de Escrita Afetuosa ministrados por Ana Holanda. Essa parte ocupa várias páginas do capítulo 9 da obra. Qual a relevância disso para o conceito apresentado neste livro? Sinceramente não vi uma utilidade prática. Para mim, pareceu muito mais uma propaganda do curso realizado pela autora do que uma contribuição teórica ao conceito por ela criado. Portanto, há muitas páginas que ou parecem publicidade de treinamentos da jornalista ou são matérias de reportagens antigas dela. Obviamente, ninguém compra um livro e investe seu tempo para ler algo deste tipo, né? Mesmo com algumas pisadas na bola, “Como Se Encontrar na Escrita” é um livro que merece a leitura. Sinceramente, me arrependo de não o ter lido antes. Se soubesse que era tão bom e relevante, na certa teria mergulhado em suas páginas na época do seu lançamento. Como efeito colateral, o leitor mais empolgado ficará com vontade de realizar a oficina de Ana Holanda na The School of Life ou de assinar a Revista Simples. Não conheço ninguém que tenha feito o curso, mas sua proposta parece ser muito interessante. Quem tiver feito, por gentileza, avise-nos se ele é tão bom. Quanto à revista, repito mais uma vez: ela é a minha publicação favorita há alguns anos. Por sorte, após uma grande restruturação realizada na Editora Abril, o título foi salvo de ser cancelado. Ele acabou vendido para um grupo de empresários interessados na continuidade de sua publicação. Quem saiu ganhando foram os leitores. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em novembro e dezembro de 2020
As vendas de livros no Brasil cresceram nos dois últimos bimestres, inclusive em comparação com o mesmo período do ano passado. Em novembro, por exemplo, a expansão foi 21% superior ao registrado no mesmo mês de 2019, segundo dados da Nielsen/Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Folha de São Paulo de 15 de dezembro). Talvez o faturamento do setor em 2020 fique um pouco aquém da receita do ano anterior. O motivo é, claro, o fechamento das livrarias durante a quarentena. No início da pandemia da Covid-19, o faturamento do Mercado Editorial desabou. Em abril e maio, havia quem projetasse um recuo em 2020 na casa de dois dígitos, uma temeridade para um segmento da economia que já tinha caído de 30% a 40% nos últimos seis anos. Por essa reviravolta positiva no faturamento dos livros, um clima mais otimista passou a soprar no Mercado Editorial nesse finalzinho de ano. Há quem acredite na equiparação das vendas em relação ao ano anterior ou até mesmo em um leve crescimento. Depois do quadro trágico que estava se formando no meio do ano, um resultado mesmo que ligeiramente menor já é extremamente satisfatório para o setor. A meu ver, a dinâmica do Mercado Editorial em 2020 se parece com aquele time que começou o campeonato perdendo todas as partidas. O cheirinho de rebaixamento era forte entre os torcedores e o elenco de jogadores. Aí no segundo turno, a equipe tem uma arrancada sensacional e termina a classificação nas primeiras posições. Se não deu para levantar o título, ao menos não amargaremos a vergonha do descenso. Essa é a minha sensação. Prova maior dessa virada de humor das editoras, editores, livreiros e escritores nacionais é a propulsão de lançamentos nesse finalzinho de 2020. Até que enfim, começaram a pintar nas prateleiras e nos sites das livrarias publicações realmente novas. Se até outubro o mercado brasileiro de livros estava investindo apenas em republicações e em títulos de autores estrangeiros, agora a conversa é outra. Nota-se uma elevação no número de obras nas categorias ficção brasileira e poesia nacional. Ufa! A roda do setor editorial voltou a girar com certa normalidade. Entre os lançamentos desse bimestre, meus destaques vão para oito livros. O primeiro da fila é o novo romance de Nélida Piñon, escritora que acabou de ganhar o Prêmio Jabuti de 2020 com uma coletânea de crônicas. “Um Dia Chegarei a Sagres” (Record) é sua primeira narrativa longa depois de dezesseis anos. Ainda na literatura brasileira, destaco: “Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio), uma inventiva coleção poética de Carolina Zuppo Abed, autora de “Tecle 2 Para Esquecer” (Patuá); e “A Roupa do Corpo” (Record), romance de Francisco Azevedo que conclui a tetralogia formada por “O Arroz de Palma” (Record), “Doce Gabito” (Record) e Os Novos Moradores” (Record). Da literatura portuguesa, ressalto três títulos: “Os Vivos e os Outros” (Tusquets), a mais recente publicação do luso-angolano José Eduardo Agualusa; “A Noiva do Tradutor” (DBA Editora), romance impecável do lusitano João Reis, e “O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial” (Macondo), obra tão inovadora da poetisa portuguesa Patrícia Lino que é até difícil de classificá-la (chamei de coletânea de crônicas, mas sei que não está correta essa definição!). Concluo meus destaques com dois exemplares da literatura estrangeira: “Zen na Arte da Escrita” (Biblioteca Azul), coletânea de crônicas e ensaios de Ray Bradbury sobre o fazer literário (título imperdível para quem está começando na carreira de escritor e para quem quer se desenvolver na escrita criativa); e “Comemadre” (Moinhos), o mais recente romance do argentino Roque Larraquy. Por falar em literatura argentina, repare na leva de títulos contemporâneos de excelente qualidade que aportou por aqui vinda do país vizinho. Segue, abaixo, a lista com os principais lançamentos do mercado editorial em novembro e dezembro no Brasil. Nesse levantamento, temos títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e coletâneas poéticas de autores nacionais e estrangeiros. São ao todo 80 obras. Confira: Ficção Brasileira: “Um Dia Chegarei a Sagres” (Record) – Nélida Piñon – Romance – 512 páginas. “A Roupa do Corpo” (Record) – Francisco Azevedo – Romance – 532 páginas. “Três Homens Chamados João – Uma Tragédia em 1930” (Cepe) – Ana Maria César – Romance – 400 páginas. “Segure Minha Mão” (Patuá) – Guille Thomazzi – Romance – 246 páginas. “Liame” (Laranja Original) – Cláudio Furtado – Romance – 292 páginas. “Oroboro Baobá” (Penalux) – Emmanuel Mirdad – Romance – 324 páginas. “O Corpo Recusado” (Hucited) – Luiz Cecilio – Romance – 288 páginas. “Entre Outras Mil” (Diadorim) – Rochele Bagatini – Romance – 148 páginas. “Aldeia dos Mortos” (Patuá) – Adriana Vieira Lomar – Romance – 196 páginas. “A Ponte no Nevoeiro” (Laranja Original) – Chico Lopes – Romance – 336 páginas. “Uma Festa para os Olhos” (Ebook) – Rui Luís Rodrigues – Romance – 216 páginas. “A Mãe Escondida” (Patuá) – Edson Valente – Romance – 176 páginas. “A Linha Augusta do Campo” (Quelônio) – Sidnei Xavier Santos – Novela – 96 páginas. “Cem Vezes Uma” (Jandaíra) – Ana Brêtas – Coletânea de Contos – 216 páginas. “Seridó e Outras Histórias” (Quelônio) – Lidia Izecson – Coletânea de Contos – 200 páginas. “Com a Corda no Pescoço” (Reformatório) – André Nigri – Coletânea de Contos – 128 páginas. “Depois do Fim do Mundo” (Edição do Autor) – Rodrigo Durão Coelho – Coletânea de Contos – 176 páginas. “Meninas que Escrevem” (Jandaíra) – Organizado – Coletânea de Contos Infantojuvenis – 136 páginas. “Ruínas” (Edufes) – Lúcia Nascimento – Coletânea de Contos e Crônicas – 88 páginas. “Matraca” (Quelônio) – Isabel Série – Coletânea de Crônicas – 168 páginas. “Escrito na Chuva” (Pomar de Ideias) – Cláudia Gabriel – Coletânea de Crônicas – 128 páginas. “Muito Prazer, Sou Mário de Andrade” (Roça Nova) – Karina Almeida – Literatura Infantojuvenil – 88 páginas. “Palavra Cigana” (Sesi-SP) – Florencia Ferrari – Literatura Infantojuvenil – 88 páginas. “O Varal” (Editora FTD) – Renata Bueno & Gilles Eduar – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Seres Notáveis do Folclore” (Escrita Fina) – Mario Bag – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Nena” (Zit) – Janaina Tokitaka – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Um Belo Dia” (Editora do Brasil) – Guilherme Semionato – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “O Cílio do Olho da Clara” (Zit) – Felipe Simas – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Enquanto o Almoço Não Fica Pronto...” (Escrita Fina) – Sonia Rosa – Literatura Infantojuvenil – 24 páginas. “O Maior Queijo do Mundo” (Duna Dueto) – Eliana Martins & Adilson Farias – Literatura Infantojuvenil – 24 páginas. “Na Casa Deles” (Edição do Autor) – Edith Chacon & Priscilla Ballarin – Literatura Infantojuvenil – 20 páginas. Ficção Estrangeira: “Os Vivos e os Outros” (Tusquets) – José Eduardo Agualusa (Angola) – Romance – 208 páginas. “A Noiva do Tradutor” (DBA Editora) – João Reis (Portugal) – Romance – 128 páginas. “Pachinko” (Intrínseca) – Min Jin Lee (Coreia do Sul) – Romance – 528 páginas. “Pão de Açúcar” (HarperCollins) – Afonso Reis Cabral (Portugal) – Romance – 254 páginas. “Escritos da Casa Morta” (Editora 34) – Fiódor Dostoiévski (Rússia) – Romance – 408 páginas. “Salammbô” (Carambaia) – Gustave Flaubert (França) – Romance – 464 páginas. “Erguei Bem Alto a Viga, Carpinteiros & Seymour, Uma Introdução” (Todavia) – J. D. Salinger (Estados Unidos) – Romance – 184 páginas. “O Diabo” (Kalinka) – Marina Tsvetáieva (Rússia) – Romance – 138 páginas. “Comemadre” (Moinhos) – Roque Larraquy (Argentina) – Romance – 148 páginas. “A Cachorra” (Intrínseca) – Pilar Quintana (Colômbia) – Romance – 160 páginas. “Desvio” (PontoEdita) – Juan Francisco Moretti (Argentina) – Romance – 192 páginas. “Pistas Falsas – Uma Ficção Antropológica” (Iluminuras) – Néstor García Canclini (Argentina) – Romance – 106 páginas. “O Quarto Alemão” (Moinhos) – Carla Maliandi (Argentina) – Romance – 140 páginas. “No Final Ficam os Cedros” (Jangada) – Pierre Jarawan (Jordânia) – Romance – 440 páginas. “O País de Súria – Obra Reunida de Paulino Dias” (Alameda) – Dias Paulino (Goa) – Coletânea em 2 volumes – 914 páginas. “Caderno de Entomologia” (Moinhos) – Humberto Ballesteros (Colômbia) – Coletânea de Contos – 104 páginas. “O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial” (Macondo) – Patrícia Lino (Portugal) – Coletânea de Crônicas – 208 páginas. “Zen na Arte da Escrita” (Biblioteca Azul) – Ray Bradbury (Estados Unidos) – Coletânea de Crônicas – 160 páginas. “A Música e as Letras” (Cultura e Barbárie) – Stéphane Mallarmé (França) – Coletânea de Crônicas e Ensaios – 138 páginas. “A Torre de Nero” (Intrínseca) – Rick Riordan (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 336 páginas. “O Ickabog” (Rocco) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil – 288 páginas. “Cartas Para Martin” (Intrínseca) – Nic Stone (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 256 páginas. “As Aventuras do Superbebê Fraldinha” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 144 páginas. “Dora Dança” (Salamandra) – Luciano Lozano (Espanha) – Literatura Infantojuvenil – 44 páginas. “Vida em Marte” (Pequena Zahar) – Jon Agee (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Uma Surpresa para Felipe” (Salamandra) – An Swerts & Aron Dijkstra (Bélgica) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Três” (Brinque-Book) – Stephen King (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Como os Oceanos Nos Erguemos” (Editora do Brasil) – Nicola Edwards & Sarah Wilkins (Inglaterra/Nova Zelândia) – Literatura Infantojuvenil – 28 páginas. Poesia Brasileira: “Passatempoemas – Desafios Verbo-lógico-matemáticos” (Quelônio) – Carolina Zuppo Abed – 44 páginas. “Obras Poéticas de Alvarenga Peixoto” (Ateliê) – Alvarenga Peixoto – 256 páginas. “Poesia Completa” (Companhia das Letras) – Cacaso – 456 páginas. “Moldura de Lagartas” (Demônio Negro) – Susanna Busato – 128 páginas. “Pequeno Palco” (Ateliê) – Ricardo Lima – 80 páginas. “A Contragosto do Solo” (Demônio Negro) – Ronald Augusto – 88 páginas. “A Ópera Náufraga” (Urutau) – Jozias Benedicto – 104 páginas. “Cartas da Alteridade” (Demônio Negro) – Edney Cielici Dias – 138 páginas. “O Enigma das Ondas” (Iluminuras) – Rodrigo Garcia Lopes – 152 páginas. “O que Há Por Trás da Porta” (Kotter) – Layla Gabriel Oliveira – 120 páginas. “Levante” (Jandaíra) – Henrique Marques Samyn – 104 páginas. “Terrário” (Demônio Negro) – Simone Andrade Neves – 80 páginas. “Flor de Asfalto” (Quelônio) – Lucia Forghieri – 72 páginas. “Pedaço de Mim” (7 Letras) – Edith Elek – 80 páginas. “41 Poemas Contra” (CemFlores) – Carlos Barroso – 56 páginas. “Poesia Indígena Hoje” (Editora da Unicamp) – Beatriz Azevedo & Julie Dorrico (organizadores) – 128 páginas. “Casa” (Impressões de Minas) – Mário Alex Rosa – 96 páginas. Poesia Internacional: “Meu Corpo Minha Casa” (Planeta) – Rupi Kaur (Índia) – 184 páginas. “O Mundo Mutilado” (Quelônio) – Prisca Agustoni (Suíça) – 128 páginas. “Dez Poemas Mudados para o Português” (Demônio Negro) – Ana Hatherly (Portugal) – 16 páginas. “Visões” (Iluminuras) – William Blake (Inglaterra) – 428 páginas. No início de 2021, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar os livros mais vendidos em nosso país em 2020. Não perca as novidades dos setores livreiro e editorial no Bonas Histórias! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Análise Literária: Jack Kerouac
Jack Kerouac é o primeiro escritor que terá seu estilo literário analisado no Bonas Histórias em 2020. Para a realização deste estudo, foram lidos e comentados, em abril, na coluna Desafio Literário, seis dos principais livros do autor norte-americano: “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Pocket), “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), “Big Sur” (L&PM Pocket) e “Pic” (L&PM Pocket). Por essa amostra, dá para perceber, desde já, que demos preferência para a prosa ficcional (romances e novelas) em detrimento aos demais textos. É, portanto, sobre essa parte específica da literatura de Kerouac que vamos nos debruçar. Assim, renunciamos, por ora, às coletâneas poéticas, aos ensaios não ficcionais e aos registros autobiográficos do pai da Geração Beat. Logo de início, abro um parêntese simbólico para explicar o quão complicado é tratar, nos dias de hoje, do legado artístico e cultural de Jack Kerouac. Sua importância vai muito além da qualidade narrativa e estética de sua produção textual. Gostemos ou não de suas histórias (isso é uma questão de gosto), esse escritor é inegavelmente um dos nomes mais impactantes da literatura norte-americana no século XX (aí sai a questão do gosto particular e entra um fato inegável!). Seus livros influenciaram gerações de jovens do mundo inteiro principalmente entre as décadas de 1950 e 1970. Não é errado afirmar que Kerouac e suas obras semi-autobiográficas ajudaram a moldar o espírito da juventude transgressora (sexo, drogas e rock´n roll) dos últimos setenta anos. Ou seja, temos aqui alguém que ultrapassou a relevância na esfera literário-artística e se consolidou, acima de tudo, como um estandarte cultural da sociedade contemporânea. Jack Kerouac representou para a literatura o que James Dean, em seu icônico papel em “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause: 1955), significou para o cinema e Elvis Presley denotou para a música. Essa trinca bombástica estabeleceu, no final dos anos 1950, os novos padrões de comportamento e de ideais da mocidade durante toda a segunda metade do século XX. Não à toa, o Festival de Woodstock, realizado no final da década de 1960, foi o apogeu da contracultura. Na certa, Woodstock não teria acontecido ou não teria atraído tanta gente se não tivessem existido, dez anos antes, figuras precursoras como Kerouac, Dean e Presley. Jack Kerouac é o símbolo maior do que ficou conhecido como a Geração Beat. Essencialmente literário, esse movimento surgiu nos Estados Unidos no finalzinho da década de 1940 e vigorou com mais intensidade até o final dos anos 1960. A Geração Beat encampou os desejos latentes da juventude do Pós-Segunda Guerra Mundial. Além disso, ela revolucionou a estética da prosa e da poesia norte-americana moderna. Ao lado de Kerouac, despontaram como figuras centrais do grupo beat Allen Ginsberg, William Burrjoughs, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure e Gary Snyder. É interessante ressaltar que todos esses escritores se conheciam e interagiam avidamente na formação de um estilo minimamente coeso e na construção de um conceito artístico mais ou menos homogêneo. Outra personalidade fundamental para o movimento beat foi Neal Cassidy, uma espécie de vagabundo profissional que flertava com a delinquência social. Ele usava seu charme para angariar amigos e conquistar o apoio necessário para a perpetuação do seu estilo de vida doido. Aspirante a escritor, mas que nunca produziu uma linha (relevante) de texto literário, Cassidy influenciou seus companheiros, principalmente Jack Kerouac, pelo comportamento ousado e pela visão própria de mundo. Em outras palavras, a figura controversa, inconsequente e hedonista de Neal Cassidy resume perfeitamente o estilo beat. Não por acaso, ele se transformaria, quando inserido nas narrativas ficcionais de Jack Kerouac, em uma das mais icônicas personagens do século passado: Dean Moriarty, de “On The Road - Pé na Estrada”, e Cody Pomeray, nos demais romances kerouaquianos. Os artistas beats podem ser vistos como os precursores do movimento Hippie, da estética Punk, da cultura do Paz & Amor, da prática do mochilão, do maior respeito à natureza (ecologia) e da valorização da espiritualidade. Além disso, eles criaram o conceito da juventude transgressora. Nessa fase da vida, um estágio que sucede a adolescência e precede o nível adulto, o indivíduo tem total independência para fazer o que lhe dê na telha. Como contraponto ao conservadorismo advindo da Segunda Guerra, os ideais beats permeavam a liberdade existencialista (a busca por um sentido à vida que não fosse trabalhar para ganhar dinheiro), o uso corriqueiro das drogas, a valorização da bebedeira e do alcoolismo, o sexo sem compromisso, o desapego material (como consequência, a aversão ao capitalismo e ao consumismo), a vida nômade, o repudio à estrutura da família convencional, a formação de comunidades alternativas e o flerte com o anarquismo. Esse é um resumo da perspectiva conceitual e cultural do movimento beat. Para quem ainda possa duvidar da força das obras de Jack Kerouac, é legal mencionar que Bob Dylan e Hector Babenco, por exemplo, sempre afirmaram que fugiram de casa após a leitura de “On The Road”, a obra-prima do autor norte-americano. Influenciado pelos textos de Kerouac, Jim Morrison fundou The Doors. Aproveitando-se das inovações narrativas do autor beat, o jovem Beck Hansen virou cantor e uniu rap e poesia beat. Na hora de batizar seu novo grupo musical, John Lennon se lembrou dos beats e criou The Beatles. Há quem diga que Paulo Coelho fez sua caminhada por Santiago de Compostela, descrita em seu best-seller “O Diário de Um Mago” (Rocco), tendo como inspiração as longas viagens de Jack Kerouac pela América. Ainda acha pouco?! Então aí vão algumas figuras que se dizem ou disseram influenciadas diretamente pelo trabalho de Kerouac: na música, Bono, Chrissie Hynde, Lou Reed e Joni Mitchell; no cinema, Francis Ford Coppola, Wim Wenders, Gus Van Sant, Johnny Depp e Jim Jarmush; na literatura, Tom Wolf, Charles Brukowski, Reinaldo Moraes, Bret Easton Ellis, Hunter Thompson e Jay MacInerney; e no teatro, Sam Shepard e Bob Wilson. Ufa! Convencido(a) agora? Sob o ponto de vista literário, o grupo beat disseminou/intensificou/popularizou o fluxo de consciência nas narrativas (até então, esse recurso estava presente apenas em obras experimentais, como nos clássicos de James Joyce e Marcel Proust); propôs a liberdade temática (tratando quase sempre de assuntos espinhosos ou, o que é até mesmo mais radical, não falando de nada especificamente); buscou uma linguagem sem amarras (mais próxima da realidade e da oralidade popular); destruiu definitivamente as estruturas convencionais tanto da prosa quanto da poesia; e estreitou a patamares até então inéditos os componentes ficcionais dos elementos não ficcionais. A partir desse inegável legado estilístico, pergunto: será que há um escritor de sucesso no século XXI que não tenha sido influenciado direta ou indiretamente por Kerouac e seus amigos? Duvido! Portanto, não é equivocado olhar para a Geração Beat como uma fase determinante da transição da Literatura Moderna para a Literatura Pós-Moderna. Nascido em março de 1922, em Lowell, no Massachusetts, Jean-Louis Lebris de Kerouac (Jack é um pseudônimo) vem de uma família de classe média baixa. Seus avós eram de Quebec, o lado francês do Canadá, e imigraram para os Estados Unidos no final do século XIX. Seu pai trabalhou como tipógrafo e a mãe era dona-de-casa na Nova Inglaterra. O casal teve três filhos: Jean-Louis era o mais novo. Criado em um lar católico e educado em um colégio jesuíta, o caçula dos Kerouac é descrito, em sua infância, como uma criança tímida, gentil, introspectiva e generosa. Muito próximo à figura materna (característica que seria levada para a fase adulta), o menino falou exclusivamente joual, um dialeto francês do Canadá, até os seis anos de idade. A língua inglesa só seria conhecida e praticada por ele quando entrou na escola. Além de gostar de literatura e de música, o pequeno Kerouac era louco por futebol americano. Desde garoto, praticou assiduamente esse esporte com certa seriedade. Quando adolescente, no high school (colegial/ensino médio) de Massachusetts, Jean-Louis se destacou na liga juvenil local e ganhou uma bolsa de estudo na Universidade de Columbia, em Nova York. Assim, ele se mudou com os pais para a Big Apple no comecinho da década de 1940. Contudo, uma séria contusão o tirou por quase um ano dos gramados. Nessa época, Jack passou a frequentar diariamente a biblioteca universitária, entretendo-se com as obras literárias à disposição dos estudantes. Mais tarde, já recuperado da lesão, uma discussão com o técnico do time levaria o futuro escritor a abandonar definitivamente a pretensão de se tornar um jogador profissional. Quando largou os campos de futebol, o interesse de Kerouac já recaia cada vez mais sobre a literatura. No ambiente acadêmico, ele conheceu os primeiros integrantes da futura Geração Beat: Allen Ginsberg, Lucien Carr e Hal Chase. Mais tarde, integrariam o grupo, em Nova York, William S. Burroughs e Gregory Corso. A cidade na costa leste se tornou, dessa maneira, o epicentro do novo movimento literário norte-americano. Alguns anos mais tarde, uma ponte com os escritores de São Francisco, principalmente Lawrence Ferllinghetti, Michael McClure e Gary Snyder, seria construída. Isso, contudo, só viria a acontecer no final da década de 1940 e no início dos anos 1950. Ao lado dos novos amigos nova-iorquinos, Jack Kerouac teceu os primeiros planos da nova estética literária que ele mesmo batizou de Beat. Além disso, o novo ambiente artístico-intelectual mais cosmopolita, moderno e liberal apresentou ao caçula dos Kerouac os prazeres das bebidas alcoólicas, das drogas, do sexo casual (em muitos casos, das orgias), da boemia e, por que não, da vagabundagem explícita. Um novo homem surgia nesse momento. Rascunhava-se não apenas o novo estilo de vida do autor como também se formavam as bases temáticas para suas tramas. Ao deixar definitivamente a Universidade de Columbia, ainda nos primeiros anos da década de 1940, Jack Kerouac (chamemos, a partir de agora, o jovem Jean-Louis pelo seu nome artístico) passou a trabalhar em alguns empregos convencionais, apenas para se sustentar minimamente, e a realizar longas jornadas pela América do Norte. Ao se alistar na Marinha Mercante dos Estados Unidos, por exemplo, o rapaz trabalhou por quase um ano em navios que serviram de apoio logístico aos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Ao retornar a Nova York, Kerouac adorava viajar pelo país. Quase sem dinheiro no bolso, ele recorria às caronas e à boa vontade dos amigos para conhecer os Estados Unidos de costa a costa. Até o México ele chegou a ir. Dois episódios ocorridos na segunda metade da década de 1940 foram cruciais para a formação literária de Jack Kerouac: o falecimento do pai, após anos de debilidade, e o estabelecimento da amizade com Neal Cassidy, que duraria a vida inteira. Em 1946, com a morte do pai, vítima de câncer no estômago, Jack Kerouc decidiu, enfim, virar escritor. Vale lembrar que o pai sempre foi um ferrenho crítico ao seu estilo de vida boêmio, desregrado e inconsequente. O velho também não entendia o tipo de amizade que seu caçula fazia. Os amigos de Jack sempre foram vistos como marginais e vagabundos pela família Kerouac. De certa maneira, o falecimento do patriarca rompeu as barreiras emocionais do filho em se dedicar à escrita profissional. Assim, entre 1947 e 1949, enquanto morava com a mãe no Queens, em Nova York, Jack Kerouac produziu seu primeiro romance. Publicado em março de 1950, quando o escritor tinha 27 anos, “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores) é o único livro convencional da carreira de Kerouac e uma rara obra sua narrada em terceira pessoa. Até esse momento, Jack não escrevia usando a lógica do movimento beat, como seus colegas já faziam. O enredo de “Cidade Pequena, Cidade Grande” mergulha nos dramas dos Martin, uma família franco-canadense da Nova Inglaterra. A trama se passa entre 1935 e 1945 e possui fortes tintas autobiográficas. George, o proprietário de uma respeitada gráfica local, e Marguerite, uma dona de casa afetuosa e compreensiva, se casaram e tiveram nove filhos: Rose, Ruth, Joe, Francis, Peter, Elisabeth, Charles, Julian e Mickey. A história deste livro mostra o choque de gerações e a desestruturação familiar à medida que os filhos de George e Marguerite Martin vão crescendo. Uma vez adultos, eles se tornam rebeldes e anseiam por ganhar a estrada (sair de casa de qualquer maneira). Peter Martin, o rebento mais problemático do casal, é obviamente o primeiro alter ego de Jack Kerouac: ambas as figuras (a personagem ficcional e o escritor) nasceram em Massachusetts, em 1922, tinham mães de origem francesa, jogaram futebol na faculdade, tinham paixão pela literatura, aventuraram-se pela Marinha Mercante, viajaram pelo país pedindo carona, sonhavam em ser escritores, tinham amigos literatos e possuíam uma relação extremamente turbulenta com os pais. Peter Martin, portanto, é a primeira versão de Salvatore Paradise, Leo Percepied, Raymond Smith e Jack Duluoz, os narradores-protagonista seguintes de Kerouac, que também eram seu alter ego. Misturando os relatos autobiográficos com a criação ficcional e mesclando saga familiar com romance de formação, “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi diretamente influenciado pelo estilo de Thomas Wolfe, até então a grande referência literária do romancista iniciante. Segundo o próprio Jack Kerouac, sua pretensão ao escrever essa obra era produzir um “grande épico wolfiano”. Apesar de ter recebido alguns elogios da crítica literária, “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi classificado como um livro pouco original e com uma narrativa, em muitos momentos, entediante. Além disso, o romance se tornou um fracasso retumbante de vendas. Praticamente, os leitores desse título ficaram restritos aos amigos e familiares do autor. Após um rápido período de frustração, Jack Kerouac lançou-se à fase mais produtiva de sua carreira. Nos sete anos seguintes, ele produziria quase todos os seus livros mais importantes. Mesmo recebendo enxurradas de recusas das editoras (elas não viam graça em suas tramas), mesmo não tendo nenhum dinheiro no bolso (apesar de escrever, nenhum romance seu era publicado) e mesmo vendo seus amigos já trilhando algum sucesso (eles sim conseguiram agradar os críticos e aos leitores), Kerouac não esmoreceu. Morando com a mãe na maior parte do tempo ou no fundo das casas dos amigos quando viajava, ele sonhava em ser como Jack London, Mark Twain, Herman Melville, John dos Passos, Walt Whitman e Thomas Wolfe. Queria ser a versão norte-americana de Marcel Proust, autor francês que romanceou sua vida no início do século XX. Assim, Jack colocava no papel todas as suas experiências pessoais, transformando sua biografia em várias narrativas ficcionais. Para entendermos plenamente essa fase da trajetória pessoal e profissional do mais famoso escritor beat, é preciso voltarmos outra vez para 1946. Além desse ter sido o ano da morte do pai de Jack Kerouac, essa data também marcou o início da amizade do autor com Neal Cassidy. Esse é o segundo acontecimento decisivo para a formação da literatura kerouaquiana. Quando Jack Kerouac conheceu Neal Cassidy, o novo amigo tinha acabado de sair de mais uma temporada no reformatório juvenil. Desde adolescente, Cassidy se envolvia com vários crimes. Não à toa, era costumeiro frequentador das cadeias federais por longas temporadas. Em 1946, então com vinte anos, Neal Cassidy se dizia cansado de sua vidinha em São Francisco e, por isso, viajou com a esposa para Nova York. Alegando pretensões literárias, ele procurou Hal Chase, um velho conhecido, para pegar algumas dicas de como iniciar na escrita profissional. Chase, colega de Kerouac na Universidade de Columbia, apresentou o recém-chegado da costa oeste para sua turma. Jack Kerouac ficou fascinado com o estilo de vida anárquico de Neal Cassidy, esse sim um vagabundo profissional de padrão mundial. Sem muita preocupação com o trabalho e em como ganhar dinheiro legalmente, Cassidy vivia entre os pequenos delitos e a ajuda financeiro-logística dos amigos. Viciado em sexo (tinha ao menos uma namorada em cada canto do país), ótimo de copo, usuário de drogas, bon vivant (ou deveria dizer hedonista?), ele passava seus dias curtindo a vida como se não houvesse amanhã. E o que esse rapaz mais gostava de fazer era viajar. Mesmo sem um tostão no bolso, pegar uma estrada, sem saber para onde e o porquê, era com ele mesmo. Ao lado de Neal Cassidy, Jack Kerouac viajou por vários anos entre a segunda metade da década de 1940 e o início dos anos 1950. Quase sempre sem grana, a dupla pegava carona nas estradas e dormia aonde era possível. Depois de ir e vir incontáveis vezes da costa oeste para a costa leste, eles foram para a cidade do México. Em abril de 1951, já de volta à casa da mãe em Nova York, Kerouac decidiu colocar no papel suas experiências como andarilho. Surgia, assim, “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Pocket), a obra-prima do movimento beat. Em apenas três semanas, o escritor romanceou suas aventuras ao lado de Cassidy pela América do Norte. Escrevendo compulsivamente de dia e noite, a base de doses cavalares de Benzedrina e de café, ele datilografou sua história em folhas de papel de Telex. Assim, evitava a perda de tempo provocada pela troca constante das folhas na máquina de escrever. Com a agilidade conferida pelos papéis de Telex, o autor pôde dar vazão à criativa técnica da Escrita Automática. Nesse processo produtivo tipicamente kerouaquiano, o escritor batia nas teclas da máquina de escrever sem pensar muito no que estava saindo. O resultado era o acesso direto às suas memórias. Segundo Kerouac, essa técnica driblava os mecanismos do bloqueio da consciência, o que o ajudava na composição mais tênue entre a ficção e a realidade. Se “On The Road” foi produzido tão rapidamente, por outro lado, o livro demorou cinco anos até receber uma avaliação minimamente positiva de uma editora. Ninguém em sã consciência queria publicar um romance com quase 500 páginas sobre um grupo de arruaceiros que viajavam pelo país barbarizando. Depois de centenas de recusas, uma pequena editora, enfim, resolveu apostar, em 1956, naquele material tão controverso. A ousadia coube à Viking Press e seu editor Malcolm Cowley. Porém, para publicar “On The Road”, Cowley exigiu de Kerouac vários ajustes no texto. Além de cortar um quarto da narrativa, o escritor precisava organizar a trama e corrigir as pontuações das frases. Vendo que Kerouac teria dificuldade em fazer isso sozinho, o editor mesmo colocou a mão na massa e por meses fez as alterações que julgou apropriadas. Em 1º de setembro de 1957, chegava às livrarias norte-americanas “On The Road”, o segundo romance de Jack Kerouac, então com 35 anos. Graças a uma avaliação extremamente elogiosa do The New York Times três dias mais tarde, o livro se tornou um best-seller instantâneo. Nas semanas seguintes, a crítica literária dos Estados Unidos curvou-se para as inovações estéticas, temáticas e narrativas de Kerouac. O autor e seu romance se tornaram os novos queridinhos dos jovens do país, ávidos por dar um pontapé no conservadorismo até então reinante. Narrado em primeira pessoa por Salvatore Paradise, um universitário aspirante a escritor, “On The Road” inicia-se no inverno de 1947. A rotina tranquila e com poucas aspirações do protagonista é quebrada quando ele conhece Dean Moriarty. Recém-chegado a Nova York, o novo amigo de Sal, como o narrador é chamado por todos, é um jovem trambiqueiro que saiu há pouco de um reformatório juvenil no Novo México. Após deixar sua esposa e seu filho pequeno em São Francisco, Moriarty viajou para a costa leste com uma de suas amantes. Viciado em sexo, drogas, bebidas, festas e azaração, o que ele quer é aproveitar a vida ao máximo. Apesar do estilo de vilão inconsequente e egoísta (ele é quase um psicopata), Dean Moriarty possui certo charme que hipnotiza os amigos, as mulheres e, principalmente, Sal Paradise. O narrador fica encantado com o estilo de vida do novo amigo e parceiro de vagabundagem. Dessa maneira, os dois, que se tornam uma dupla inseparável, passam a viajar compulsivamente pelos Estados Unidos. O sucesso estrondoso de “On The Road” abriu as portas do mercado editorial para Jack Kerouac. Se ele havia demorado sete anos para publicar algo novo depois de “Cidade Pequena, Cidade Grande”, agora todas as editoras do país queriam lançar uma obra sua. Como escritor passara os últimos seis anos trabalhando em silêncio, apesar das constantes recusas, ele tinha uma variedade enorme de material inédito à disposição. Com tanto texto prontinho, só bastava imprimi-los. Assim, de 1958 a 1961, Kerouac publicou nada menos do que nove livros (quatro romances, duas coletâneas poéticas, dois ensaios autobiográficos e uma novela) e três LPs (sua poesia foi gravada em áudio). Isso dá uma média impressionante de três títulos e um LP por ano. Os romances que vieram logo depois de “On The Road” se assemelhavam em conteúdo à principal obra de Jack Kerouac. Eles eram títulos semi-autobiográficos que relatavam em primeira pessoa episódios do passado do autor antes da fama. Essas histórias enfocavam as aventuras de um protagonista deslocado da sociedade e que não se encaixava na rotina convencional do mundo capitalista. Normalmente, as personagens principais dessas obras eram homens fascinados por figuras polêmicas: um amigo criminoso, um conhecido fortemente religioso, um colega adepto do montanhismo/naturalismo, uma moça negra (em uma época em que os Estados Unidos viviam um grave conflito inter-racial) ou uma amante mexicana que trabalhava como meretriz. Além disso, a ambientação dessas histórias era sempre muito parecida: grupo de amigos hippies que desejava curtir a vida adoidado. Na virada da década de 1950 para os anos 1960, o amadurecimento da literatura de Jack Kerouac se deu mais pela estética do que pelo conteúdo. A forma como seus textos ficcionais eram apresentados adquiriram um aspecto inovador, caótico e espontâneo, mais condizente com a proposta da Escrita Automática. Sendo um escritor famoso, agora nenhum editor tinha a coragem de podar suas maluquices narrativas, como Malcolm Cowley havia feito. Exatamente por isso, esse período reservou os melhores livros do autor: “Os Subterrâneos” e “Os Vagabundos Iluminados”. Publicado em 1958, “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket) é um dos livros mais polêmicos e surpreendentes de Jack Kerouac. Escrito em apenas três dias e três noites de 1955, essa obra narra um drama sentimental denso, inovador, ácido e amargo. O romance foi baseado no namoro breve e intenso do autor com Alene Lee, uma nova-iorquina negra. O casal se conheceu no Verão de 1953, quando ela trabalhava digitando os manuscritos de William Burroughs e Allen Ginsberg, dois autores da Geração Beat amicíssimos de Jack, e quando ele aguardava uma resposta positiva das editoras para a publicação de “On The Road”. Na trama ficcional de “Os Subterrâneos”, Leo Percepied, um escritor fracassado de 30 anos, se apaixona por Mardou Fox, uma moça negra dez anos mais jovem. Inteligente, independente, liberal e extremamente bonita, Mardou é a mulher que Leo sempre sonhou. Apesar da felicidade de conviver diariamente com ela, o narrador-protagonista não saberá lidar com esse relacionamento em meio a sua rotina de bebedeiras homéricas, de consumo pesado de drogas e do hábito do sexo livre. Contudo, o que parece realmente atrapalhar o casal é a postura racista, misógina, homofóbica e inconsequente de Leo Percepied. Ou seja, apesar de descrever uma história de amor, o que mais temos nesse romance é loucura, depressão, abuso psicológico, violência moral, preconceitos sociais, dependência química e egoísmo. Os sentimentos belos e nobres como o amor ficam em segundo plano. As principais críticas que o texto de “Os Subterrâneos” recebeu foi pelo seu conteúdo racista, machista/misógino e homofóbico. Por isso, é preciso estômago forte para encarar essa narrativa. Leo Percepied, como todos os protagonistas de Jack Kerouac, é um psicopata egocêntrico e hedonista. Infelizmente, ele não tem a mínima capacidade de se relacionar com uma mulher moderna, atraente, inteligente e bem resolvida. Assistir ao boicote velado do rapaz imaturo e desequilibrado emocionalmente ao namoro com Mardou Fox é uma experiência assustadora. Se o conteúdo desse romance pode ser questionado do ponto de vista do enredo politicamente correto, sua estética narrativa é impecável. É nesse ponto que notamos o crescimento da qualidade da literatura de Jack Kerouac. Até então, o autor norte-americano não tinha ousado tanto na técnica da Escrita Automática. Para sermos francos, “On The Road”, apesar da fama e do sucesso que obteve, era um livro fraquinho, fraquinho quando analisado pela perspectiva da estrutura da narrativa. Diferentemente da obra anterior, “Os Subterrâneos” possui uma trama multifacetada. Este livro mistura várias vozes (de Leo Percepied, de sua namorada e dos amigos do casal), diferentes planos (realidade, pensamentos e sonhos das personagens) e épocas distintas (presente, passado e, em alguns casos, futuro). Muitas vezes, essa junção acontece em uma única frase ou dentro da mesma oração. Para completar, as frases longuíssimas, os parágrafos quilométricos, as pontuações caóticas, o uso excessivo de gírias, a forte oralidade, a invenção de algumas palavras e a mistura de prosa com poesia (prosa poética) combinam perfeitamente com o estado de espírito do narrador e com a proposta estética do romance. Incrível! Como experiência de leitura, esta obra é exemplar. Lançado no mesmo ano de “Os Subterrâneos”, “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket) é o quarto romance de Jack Kerouac. Escrita em 1957, a obra relata a aproximação cada vez maior do escritor com a crença no budismo e com a prática do montanhismo. O que potencializou essas experiências foi a amizade com o poeta e ensaísta Gary Snyder. Praticante de longa data da filosofia zen e da escalada de montanhas, apaixonado pela cultura chinesa e ferrenho ativista ambiental, Snyder influenciou significativamente o novo amigo, quando este foi viver na costa oeste dos Estados Unidos. “Os Vagabundos Iluminados” narra justamente as viagens da dupla de escritores, até então desconhecidos, pelas montanhas do país e pelo interior de suas almas. Durante a primeira metade da década de 1950, época retratada no livro, Kerouac morou em Mill Valley, na Califórnia, e se tornou amigo inseparável de Snyder. Como resultado prático dessa jornada místico-filosófica, Jack Kerouac confere algum sentido para seu estilo de vida um tanto alternativo. O cotidiano simples, a postura anticapitalista, a ideologia anticonsumista e a vontade de estar mais próximo à natureza adquirem agora um valor maior do que a mera vadiagem explícita das personagens de “On The Road” e “Os Subterrâneos”. Parece que o budismo e o montanhismo de “Os Vagabundos Iluminados” caíram como uma luva para explicar as aspirações mais íntimas do pai da Geração Beat. Muitos críticos literários consideram esta obra, ao lado de “Visões de Cody” e “Os Subterrâneos”, como o melhor trabalho de Jack Kerouac. Eu não consigo concordar com essa opinião por causa da falta de uma boa edição (esse, por sinal, é o principal aspecto negativo da literatura do norte-americano). Se as cem primeiras páginas de “Os Vagabundos Iluminados” são as melhores que Kerouac já produziu em sua carreira (há muita ação, o ritmo é contagiante, as reflexões filosóficas são interessantes, assistimos a ótimas personagens, a trama possui um conflito rapidamente identificável e há cenas memoráveis), as cento e tantas páginas restantes são decepcionantes (a narrativa se torna repetitiva, as cenas são de uma banalidade inexplicável e os diálogos são vexatórios). Se um editor tivesse excluído a segunda metade do conteúdo desse romance, teríamos uma excelente novela. Prova maior dessa minha tese é que o próprio Jack Kerouac aproveitou os últimos capítulos de “Os Vagabundos Iluminados” como enredo de outro livro, “Anjos da Desolação” (L&PM Editores). Publicado em 1965, esse novo romance detalha as aventuras do escritor por Desolation Peak, a montanha de Washington onde ele trabalhou como guarda florestal. Mesmo com as oscilações em sua trama, “Os Vagabundos Iluminados” é um bom título. As jornadas pelas montanhas dos Estados Unidos conferem um ar de transformação pessoal e de descoberta espiritual ao narrador-protagonista. A grande novidade deste livro é a inserção do elemento religioso/místico. Esse novo componente dá mais intensidade à narrativa e confere um maior sentido ao conflito psicológico-existencialista da personagem principal. Se compararmos esse romance a “On The Road”, por exemplo, “Os Vagabundos Iluminados” dá de goleada em termos de qualidade técnica: a narrativa, o conflito dramático e a construção das personagens são muito melhores. Mesmo com sua qualidade indiscutível, esse livro não conseguiu escapar das polêmicas. Os principais críticos dessa obra de Kerouac foram justamente os praticantes do budismo, que alegaram que o autor teria deturpado os conceitos de sua religião. O incômodo maior recaiu nas cenas de orgia realizadas pelos budistas do livro, como se o sexo grupal fosse uma prática desta religião. O próprio Gary Snyder declarou, muitos anos depois do lançamento desta obra, que sua crença religiosa era muito distinta daquela descrita nas páginas do romance de Jack Kerouac. Segundo ele, o budismo de “Os Vagabundos Iluminados” era misógino e bastante erotizado. A história ficcional deste romance é contada por Raymond Smith. Ray, como o narrador-protagonista é chamado por todos, é um vagabundo de trinta e poucos anos metido a escritor. Vivendo na região de São Francisco, ele conhece, certa noite em um bar, uma figura exótica. Japhy Ryder é o líder de um grupo de poetas praticantes do budismo e do montanhismo. Rapidamente, Ray fica fascinado pelas excentricidades e pela filosofia de vida daquele sujeito singular. Adepto da religião oriental, viciado em literatura, apaixonado pela simplicidade cotidiana, fã da cultura chinesa, vegetariano, promotor do amor livre, amante da natureza, anticonsumista/antimaterialista, praticante da meditação, solidário e montanhista experiente, Japhy Ryder é tudo o que Ray sempre almejou ser. Dessa forma, os dois se tornam companheiros inseparáveis de viagens pelos Estados Unidos. Apesar de ser mais jovem do que Ray Smith, cabe a Ryder ser o mestre do amigo na iniciação ao montanhismo e no aprofundamento ao budismo. Através das experiências obtidas ao lado de Ryder, o narrador do romance passa a enxergar um novo sentido para sua vida. Possivelmente esse não é o melhor livro de Jack Kerouac, mas é o meu favorito. Gostei demais desse título! Em 1962, Jack Kerouac publicou “Big Sur” (L&PM Pocket), seu sétimo romance. Esta obra é marcante pois ela expõe um lado até então inédito da trajetória do autor: a turbulenta fase do pós-fama. Vale lembrar que todos os livros anteriores apresentavam aspectos da vida de Jack antes do sucesso. Invariavelmente, seus protagonistas eram escritores fracassados e sem dinheiro no bolso. Com o sucesso estrondoso de “On The Road”, em setembro de 1957, o panorama mudou completamente. Jack Kerouac se tornou do dia para a noite um dos principais escritores norte-americanos, além de ficar milionário. Os convites para entrevistas, programas de TV e rádio, festas e eventos culturais se multiplicavam, além dos pedidos das editoras por mais e mais livros. O assédio dos fãs também não cessava. O público invadia a casa do escritor para conversar e para tomar alguns tragos com ele. Todos se sentiam amigos próximos de Kerouac, aponto de esquecerem da boa educação e das formalidades normais de uma aproximação com um desconhecido. Jack Kerouac, que sempre teve um comportamento recluso e calmo, ficou extremamente incomodado com a nova situação. Cada vez mais desconfortável na posição de pop star norte-americano, ele se isolava na casa da mãe, onde passava dias e dias sem sair. O alcoolismo e o consumo de drogas se intensificaram no instante em que ele tinha dinheiro para bancar tranquilamente seus vícios. Dessa maneira, o escritor foi ficando cada vez mais doente - físico, emocional e mentalmente. De forma corajosa, “Big Sur” expõe abertamente esse drama de Jack Kerouac. O livro narra, em uma semi-autobiografia, a viagem que o autor beat fez, em 1960, para as montanhas da Califórnia. Por sugestão de Lawrence Ferlinghetti, amigo e escritor, Kerouac deveria ficar isolado em uma casinha simples no alto de uma colina bucólica por algumas semanas. O contato intenso com a natureza e o distanciamento da civilização deveriam fazer bem ao angustiado artista. Contudo, a proximidade com os amigos de São Francisco (e suas festas, o álcool, as drogas e as orgias intermináveis) colocaram em xeque essa tentativa. O retrato sincero das paranoias, das crises depressivas, das alucinações e das reações do organismo do escritor frente aos períodos de abstinência química é algo chocante. Nota-se que a doença ainda não havia comprometido a capacidade produtiva de Jack Keroauc (repare na palavra “ainda” desta frase). Em “Big Sur”, somos apresentados a Jack Duluoz, mais um alter ego de Kerouac. Duluoz é um escritor beatnik na casa dos quarenta anos, rico, famoso e que sofre com a exposição excessiva da mídia e com o peso da imagem de eterno vadio. Por isso, vive estressado e com depressão, abusando do álcool e das drogas. Sabendo dos problemas do amigo, Lorenzo Monsanto, um poeta californiano, convida o best-seller para passar uma temporada isolado do mundo. Monsanto tem uma cabana no alto de uma montanha na região de Big Sur e acha uma boa ideia Duluoz passar um tempo totalmente recluso. Assim, Jack Duluoz viaja de Nova York, onde mora com a mãe, para a costa leste. Ora isolado, ora com os amigos, que ele não consegue afastar totalmente, Duluoz relata seus dramas mais íntimos. Ao mesmo tempo que quer paz, calma, tranquilidade e uma rotina simples, o protagonista-narrador do romance não consegue largar totalmente a badalação, a bebedeira e as drogas. Como consequência, ele padece diante do leitor, se aproximando da loucura completa. Como é típico dos trabalhos de Jack Kerouac, “Big Sur” é um road story com uma estética textual caótica. O que torna esse livro tão especial é, primeiramente, a fixação de Jack Duluoz como o alter ego definitivo do escritor (até então os protagonistas de Kerouac mudavam de nome obra a obra, mesmo sendo a mesma pessoa) e, depois, o panorama da vida do autor famoso (que não levava uma rotina tão glamourosa quanto o público imaginava). Sem dúvida nenhuma, essa é a obra mais intensa e angustiante do pai da Geração Beat. Depois de “Big Sur”, Jack Kerouac produziu só mais um novo livro ambientado no pós-sucesso de “On The Road”. A obra em questão é “Satori em Paris” (L&PM Pocket). Lançada em 1966, essa novela relata a viagem que o escritor fez para a França no início da década de 1960. Nota-se, portanto, que o agravamento das doenças (alcoolismo e dependência química) já afetava diretamente o trabalho do escritor. Ele tinha sérias dificuldades para se concentrar, não conseguindo escrever algo novo e de qualidade. Assim, as últimas publicações de Jack Kerouac refletiram, em sua maioria, o padrão de seus livros do final da década de 1950 – textos escritos antes da fama e que relatavam de maneira semi-autobiográfica sua infância e sua juventude. Os destaques da década de 1960 são “Visões de Gerard” (L&PM Editores) e “Anjos da Desolação” (L&PM Editores). O primeiro foi publicado em 1963 e relata os dramas da infância do autor, quando uma grave doença atingiu seu irmãozinho mais velho. O segundo foi lançado em 1966 e descreve o período em que Kerouac atuou como guarda florestal em Desolation Peak. Com a saúde cada vez mais fragilizada, Jack Kerouac se casou mais uma vez, agora com uma amiga de infância. O casal foi morar na Flórida. E lá Kerouac faleceu, em outubro de 1969, aos 47 anos. O motivo: hemorragia abdominal causada pela cirrose. Se esse cara não tivesse morrido pela bebida, juro que duvidaria, para sempre, da dinâmica da biologia humana. Depois de sua morte, seis novos livros foram publicados (quatro romances e duas novelas). Como é mais ou menos típico no mercado editorial, a família e os editores aproveitaram seus textos que ficaram para trás para lançá-los com algum estardalhaço. A maioria deles, contudo, é composta por novelas de qualidade discutível, como “Pic” (L&PM Pocket), e romances inacabados, como “A Vida Assombrada & Outros Escritos” (L&PM Editores). Em alguns casos, as histórias reais por trás das descobertas dos manuscritos são melhores do que suas próprias narrativas ficcionais. Vejamos o caso de “Pic”. Publicado originalmente em 1971, dois anos após o falecimento de Jack Kerouac, essa novela é uma narrativa sensível e ingênua. Ela trata do drama de um menino negro e pobre da Carolina do Norte em busca de um lar. Essa história foi escrita na segunda metade da década de 1940, sendo, portanto, uma das primeiras produções do escritor norte-americano. E por que, ele não quis publicá-la em vida? Porque essa narrativa é fraquíssima (compatível a um autor iniciante) e não tem nada a ver com o estilo da Geração Beat (“Pic” poderia muito bem passar por uma história de John Steinbeck, por exemplo). Na certa, Kerouac sabia disso e tinha vergonha desse trabalho. Com o autor morto, o obstáculo para o lançamento do livro estava superado. Aí sobra para o leitor inocente que compra a obra achando se tratar de um título da fase madura de Kerouac. Sabe de nada, inocente! “Pic” é o único livro de Jack Kerouac não autobiográfico. O narrador-protagonista aqui é Pictorial Review Jackson, um menino negro de onze anos. Após o falecimento do avô, que eram quem cuidado dele, Pic, como a personagem principal é chamada por todos, é mandado para a casa de uma tia. Lá, ele é desprezado e humilhado pelos parentes até a chegada do irmão mais velho, Slim, um jovem inconsequente. Ao lado de Slim, Pic irá viajar o país em busca de emprego e da esperança de dias melhores. Ou seja, “Pic”, como uma boa narrativa kerouaquiana, é um típico road story. O problema é que sua trama é extremamente bobinha (diria até infantil/juvenil), seu texto é marcadamente preconceituoso (a oralidade está relacionada ao jeito errado dos negros falarem) e há muitas cenas banais (que não empolgam um leitor mais exigente). O único ponto positivo é a denúncia social. Assistimos a episódios de racismo comuns na primeira metade do século XX nos Estados Unidos. Sinceramente, poucos desses títulos póstumos podem ser elogiados. A exceção é “Visões de Cody” (L&PM Editores). Publicado em 1972, “Visões de Cody” foi escrito logo depois do término de “On The Road”, em 1951. E assim como o livro mais famoso de Kerouac, esse descreve a juventude do autor ao lado de Neal Cassady (Cody Pomeray na versão fictícia). Apesar de relatar os mesmíssimos acontecimentos de “On The Road”, “Visões de Cody” tem a preocupação de definir melhor o principal personagem da literatura de Kerouac. Dessa maneira, acabamos entendendo mais e melhor quem foi efetivamente Cody Pomeray/Neal Cassady. Vista sob a ótica de hoje, a literatura de Jack Kerouac pode não ter a mesma força narrativa e estilística de cinquenta ou sessenta anos atrás. Por isso, é preciso encará-la com esse viés histórico. Um leitor atual desatento pode ler os romances do autor beat e não os achar grandes coisas. Entendo essa impressão. Realmente, boa parte de suas tramas são polêmicas e de gosto discutível. Ao mesmo tempo, não é com o olhar de hoje que devemos avaliar os textos de Kerouac, e sim pela perspectiva da época. E dessa forma, sim eles foram originais, intrigantes e ousadíssimos. Não à toa, tenham influenciado tanta gente dos mais diferentes campos artísticos e sejam materiais essenciais da contracultura moderna. Depois de uma análise tão detalhada, uma pergunta ainda persiste: o que, afinal, tem de tão especial no estilo literário de Jack Kerouac? Para responder a esta pergunta nada simples, é preciso fazer um raio-X das principais novelas e romances do autor. A seguir, apresentamos as 14 características mais marcantes da ficção de Kerouac: 1) Tramas semi-autobiográficas Há alguns autores que usam suas próprias experiências para construir o enredo de suas narrativas ficcionais. De cabeça, posso citar Marcel Proust, Herta Müller, Bernardo Kucinski, Fernando Sabino, Virginia Woolf e Kenzaburo Oe. E eles não foram os únicos a usar a própria vida como base de suas tramas, vale a pena frisar. Vários outros escritores fartaram-se deste expediente. Em suas histórias semi-autobiográficas, há certas partes compostas por elementos reais e outras formadas por invenções literárias. Normalmente, é difícil para o crítico literário apontar onde cada um desses aspectos começa ou termina. Sem uma investigação detalhada da biografia do autor e sem sua contribuição direta nesse tipo de definição, não conseguimos chegar a um veredito do que é verídico e do que é ficcional. Jack Kerouac foi um dos escritores que mais se utilizou de sua vida pessoal como pano de fundo de seus enredos ficcionais. Ler seus romances e suas novelas é resvalar em sua biografia. Lá estão: personagens totalmente inspiradas em indivíduos reais; fatos extremamente próximos às passagens concretas da biografia do autor; e angústias verdadeiramente sentidas pelo norte-americano. Impossível questionar a verossimilhança dos textos kerouaquianos. O escritor foi além e usou, inclusive, trechos reais gravados de conversas com amigos em seus livros. Das fitas cassetes, as palavras ditas no mundo verdadeiro entraram na literatura. Ler a ficção de Jack Kerouac é mergulhar na vida do autor beat. Por mais que o pacto ficcional seja respeitado, é impossível desassociar os elementos da biografia do escritor norte-americano de suas tramas ficcionais. Com exceção de “Pic”, uma novela publicada postumamente e que foge completamente do estilo de Kerouac, todos os demais romances e novelas deste autor foram baseados em acontecimentos verídicos. 2) Os narradores são o alter ego do autor e contam as histórias em primeira pessoa (narrador-protagonista) Com raras exceções, como em “Cidade Pequena, Cidade Grande” (texto em terceira pessoa) e em “Pic” (história contada a partir do ponto de vista de um menino negro e pobre), os romances e as novelas de Jack Kerouac são sempre narrados em primeira pessoa por seus protagonistas (narrador-protagonista). E essas personagens principais são invariavelmente o auter ego do escritor. Assim, Sal Paradise, de “On The Road”, Leo Percepied, de “Os Subterrâneos”, Ray Smith, de “Os Vagabundos Iluminados”, e Jack Duluoz, de "Big Sur", são sempre o mesmo indivíduo: o próprio Jack Kerouac. O alter ego do norte-americano é sempre um homem jovem que passa seus dias flanando livremente por aí, de preferência bebendo até cair, usando muitas drogas, fazendo sexo casual e viajando pelo país (alguém aí usou a palavra vagabundo?!). Hedonista, inconsequente, egoísta e fascinado por figuras/amigos subversivos e criminosos, o narrador típico de Jack Kerouac não trabalha nem dá a menor bola para o dinheiro e o conforto material. Apesar de não se importar com a família, o matrimônio e os filhos, ele é alguém muito preocupado com a mãe (a única pessoa por quem se preocupa além de si e dos amigos mais próximos). O que este narrador mais gosta de fazer, quando está lúcido, evidentemente, é de questionar os preceitos filosóficos e religiosos de sua existência, além de ser um grande apaixonado por literatura e pela música. 3) Obras do autor são independentes entre si, mas possuem grande unidade narrativa Todos os livros ficcionais de Jack Kerouac são, de certa forma, independentes entre si (permitem a leitura individualizada sem problema nenhum). Porém, se eles forem lidos em sequência conforme sua cronologia narrativa (que não é a mesma da sequência das datas de publicação), podemos compreender melhor o panorama geral da literatura do autor beat (e sua biografia). 4) Recorrência das mesmas personagens, mas com os nomes alterados Os livros de Jack Kerouac trazem sempre as mesmas figuras. Essa constatação não se aplica apenas aos narradores-protagonistas, mas também aos coadjuvantes e aos protagonistas pontuais. Em algumas obras ficcionais (principalmente no final da carreira), o autor norte-americano conseguiu repetir os mesmos nomes para suas personagens recorrentes. Contudo, por imposição das editoras, que temiam processos das pessoas verídicas citadas nas tramas, Kerouac teve que mudar constantemente os nomes de suas personagens. Parte da graça da leitura dessas obras é descobrir quem são essas personalidades que vivem pulando de um título para outro. 5) Narrativas ao estilo do road story Não é errado pensarmos em Jack Kerouac como a maior figura da literatura moderna quando o assunto é road story. O escritor beat pode não ter sido o inventor deste tipo de gênero narrativo, que remonta aos autores gregos da Antiguidade (“Ilíada” e “Odisseia”, de Homero, são típicas road stories), mas foi o seu grande incentivador no século XX. Quase todas as tramas de Kerouac possuem forte carga de “pé na estrada”. Seria o norte-americano o Júlio Verne dos novos tempos? Minha resposta, sem qualquer dúvida, é positiva. Uma road story, para quem não está familiarizado com este termo, é aquela história ficcional em que o protagonista passa boa parte do tempo viajando. O deslocamento constante é parte da aventura e está relacionado intimamente com o conflito principal da obra. E qual romance ou novela de Jack Kerouac não tem esse tom trilheiro, hein? De cabeça, só me recordo de “Os Subterrâneos”. Todos os demais têm uma forte pegada andarilha. Um dos charmes de “On The Road”, a obra-prima kerouaquiana, está justamente na liberdade de seus protagonistas de caírem na estrada (daí o título do romance). Queiramos ou não, quando o assunto é road story, Jack Kerouac influenciou direta ou indiretamente todos os autores que vieram depois. 6) Romances com conflitos ocultos ou inexistentes (sempre de natureza psicológica/emocional) Uma das principais críticas que os leitores contemporâneos fazem em relação à literatura de Jack Kerouac é quanto a velocidade de suas tramas. A sensação, em muitos livros, é que nada acontece de fato e que a narrativa se arrasta interminavelmente em cenas banais do cotidiano do narrador-protagonista. Realmente, em muitas obras do autor isso acontece. O problema é que os conflitos de vários títulos de Kerouac não são tão evidentes assim, o que embola um pouco a leitura. Normalmente de cunho psicológico, os dramas das personagens principais exigem uma empatia por parte do leitor (algo que foi mais forte na época dos lançamentos dos livros do que agora). Quando descobrimos os verdadeiros motivos das dores, das dúvidas, das inquietações e dos medos dos protagonistas kerouaquianos, conseguimos mergulhar com mais intensidade e mais disposição nestas histórias. A partir daí, não nos importamos tanto com a paralisia das ações narrativas. 7) Conflitos variados apesar do mesmo contexto narrativo De certa forma, não é errado pensarmos que os conflitos dos livros de Kerouac são sempre os mesmos, mas com roupagens levemente diferentes ou mesmo com pontos de vista ligeiramente distintos. As buscas por afirmação (na literatura), pela independência (profissional e pessoal), pela liberdade (existencial), pela vontade de aproveitar a juventude (carpe diem) e por um sentido para a vida (que passasse longe da vidinha comum, do consumismo, da carreira convencional e do modelo típico de família) são os motes centrais dos romances e das novelas do autor norte-americano. É sobre esses pontos que os livros de Kerouac tratam. O que não muda nunca é o contexto narrativo: a ambientação beat. Todas as tramas são construídas a partir dos aspectos da contracultura, um baluarte dos jovens da metade do século XX. É impossível compreender a força da ficção de Jack Kerouac sem entender antes a relevância do aspecto cultural e comportamental de suas personagens. 8) Popularização do fluxo de consciência Inspirado em Marcel Proust e James Joyce, Jack Kerouac popularizou o fluxo de consciência. Na verdade, ele não inventou este tipo de texto no qual o narrador expõe livremente seus pensamentos, mas foi quem mais o praticou no século XX. Com exceção de “Cidade Pequena, Cidade Grande”, todos os seus títulos ficcionais foram construídos em cima do fluxo de consciência. Parte do charme da literatura do norte-americano passa pela ousadia de praticar até as últimas consequências deste expediente narrativo. Curiosamente, o fluxo de consciência se encaixou perfeitamente na proposta literária do escritor beat: de uma narrativa não linear, com frequentes rupturas textuais e sintáticas e com a prática da livre pontuação. Se pensarmos bem, a técnica da Escrita Automática nada mais é do que o processo de produção literária que dá vasão aos pensamentos do autor/narrador (pressuposto básico do fluxo de consciência). 9) Grande liberdade estética A grande liberdade estética foi uma das grandes ousadias dos textos ficcionais de Jack Kerouac. O autor produziu narrativas ancoradas em frases longuíssimas, pontuação caótica e certo lirismo (prosa poética). Suas criações literárias possuem normalmente intensa sonoridade/musicalidade, muitas aliterações, oralidade acentuada e gírias em grande escala. O escritor beat buscava o encontro mais natural possível da linguagem popular e, ao mesmo tempo, a mistura simbiótica da prosa com a poesia. Evidentemente, alguns destes elementos narrativos só são captados através da leitura em inglês (dos textos originais do autor). Kerouac é o tipo de escritor que provoca pesadelos na maioria dos tradutores (algo que os gringos devem sentir quando mexem, por exemplo, com os textos de João Guimarães Rosa). 10) Prática da Escrita Automática A Escrita Automática é um dos vários pontos polêmicos da literatura de Jack Kerouac. O escritor sempre pregou que produzia suas obras em poucos dias. Basicamente, ele ia para um lugar isolado e se fechava ali tendo como única companhia a máquina de escrever. Para escrever compulsivamente (virando as noites acordado), ele tomava muito café e bebidas alcoólicas e fazia uso intenso de drogas pesadas. Em vários momentos, colocava música alta para tocar (era fã de Jazz). Dessa maneira, o texto brotava de sua mente automaticamente (daí o nome desta técnica). A partir daí, seu trabalho era apenas colocar (quase que mecanicamente) aqueles pensamentos no papel. Graças a esta lenda, há quem acredite até hoje que o uso de substâncias alucinógenas ajude no processo literário (o que já foi provado ser uma grande balela). Jack Kerouac não se tornou famoso porque era um drogado. Na verdade, aconteceu exatamente o contrário. Os vícios acabaram podando seu talento artístico. Isso fica evidente quando analisamos os livros finais de sua carreira – de uma qualidade absurdamente inferior. Ou seja, Jack Kerouac não foi Jack Kerouac porque se drogava. Ele foi Jack Kerouac apesar das drogas. Outro mito curioso que vários escritores têm é que a produção literária é algo automático (que sai facilmente). As histórias deixadas por Kerouac ajudam a propagar esta teoria, que não passa de outra falácia. São pouquíssimos os casos de livros de qualidade produzidos rapidamente e sem qualquer revisão/reformulação. “Porém, Kerouac conseguiu fazer isso, certo?!”, podem alegar alguns literatos. A resposta é: sim e não. “On The Road – Pé na Estrada” foi escrito, segundo o autor, em poucos dias. Contudo, ninguém se lembra que o coitado do Malcolm Cowley, editor da Viking Press, precisou passar meses mexendo e remexendo no texto original de Kerouac para torná-lo minimamente aceitável (o texto bruto conforme entregue pelo autor e disponível em algumas edições especiais é ilegível). Em outras palavras, houve muito trabalho posterior: de escrita automática, “On The Road” não tem nada. Quando ficou famoso, Jack Kerouac impôs as editoras que seus novos textos ficassem próximos aos originais. Com isso, a qualidade das narrativas ficcionais decaiu sensivelmente. Quanto menos intervenção do editor, mais fraquinhos ficaram os livros do autor. Nota-se a falta de um cuidado maior com o texto e com a narrativa em vários dos livros mais populares de Kerouac. Não há uma obra impecável do início ao fim (nem “On The Road” consegue fugir desta sina). Normalmente, os romances e as novelas do norte-americano têm muitos pontos altos e baixos. Um trabalho mais acurado e menos apressado evidentemente ajudaria a resolver muitos dos problemas dessas narrativas. 11) Os elementos da contracultura estão no contexto narrativo ou no cerne das tramas Um dos grandes charmes (se não o principal) dos romances e das novelas de Jack Kerouac está na apresentação dos elementos da contracultura, movimento que nascia nos Estados Unidos no final da década de 1940 e que logo explodiria para todo o país e para o exterior. As personagens da literatura kerouaquiana escancaram os valores almejados por muitos jovens nos anos de 1950 a 1970: individualismo exacerbado; consumo desenfreado de drogas e bebidas alcoólicas; busca pelo máximo de experiências hedonistas; sexo livre; desapego material; oposição ao consumismo e à família tradicional; busca pela liberdade existencial; fuga da rotina quadradona levada pela geração anterior; paixão por longas viagens (viver na estrada se torna um estilo de vida); procura por um maior grau de espiritualidade (olhar mais atento para as crenças orientais); e criação de comunidades igualitárias. Não é errado pensar que grande parte da mística da ficção de Jack Kerouac passa pelos valores culturais que o autor propagava em suas histórias. Estandarte de uma época, Kerouac se tornou ícone da contracultura (na literatura) de uma geração, ao lado de James Dean (no cinema) e Elvis Presley (na música). Mais importante do que eles fizeram é o que eles representaram para seus contemporâneos. Desta maneira, é um pouco estranho olhar para as narrativas do autor beat com o olhar atual (sem a devida contextualização histórica). 12) Coragem para primeiro escrever e só depois ver se conseguia publicar suas histórias Gostemos ou não de Jack Kerouac e de sua literatura, uma coisa é inegável: trata-se de um autor corajoso e extremamente determinado. Vale a pena destacar que ele produziu quase todo o seu portfólio ficcional antes de ter a certeza de que suas obras seriam publicadas. Olhando do ponto de vista moderno e prático, essa atitude beira a loucura. Juro que fico me perguntando: e se ele não tivesse conseguido uma editora nem tivesse feito sucesso, hein? Teria desperdiçado vários anos de sua vida para escrever algo que iria para o lixo. Curiosamente, esse medo parece que nunca impossibilitou que o escritor beat continuasse produzindo (invejável essa força de vontade). A crença obstinada no sucesso e de que um dia seria publicado é algo que os novos escritores precisam se inspirar quando leem Kerouac (e não nos métodos da Escrita Automática!!!) 13) Postura machista e muitas vezes desrespeitosa/preconceituosa. Os livros trazem consigo os valores de sua época. E em muitos casos, conseguimos absorver também, através das leituras, os ideais e as crenças particulares dos seus autores. No caso específico de Jack Kerouac, como suas tramas são semi-autobiográficas e seus protagonistas foram inspirados no próprio autor beat, esse processo se torna até mesmo mais intenso. Contudo, o que descobrimos ao fazer as inferências quanto à psicologia do artista é assustador e nada positivo para o norte-americano. As polêmicas envolvendo as personagens principais de Kerouac se devem aos vários preconceitos que elas sentem e demonstram durante as narrativas. Os protagonistas do autor são figuras normalmente machistas, misóginas, homofobias e racistas. Com certo grau de psicopatia, depressão e loucura, esses homens normalmente abusam psicológica e fisicamente de suas companheiras. Assim, seus relacionamentos são abusivos e violentos. É preciso estômago forte para encarar este tipo de narrador-protagonista (muitas vezes, mais próximos aos anti-heróis do que dos heróis literários convencionais). 14) Intertextualidade literária e musical Ler qualquer livro de Jack Kerouac é encarar uma intensa intertextualidade literária e musical. Fã inveterado dessas manifestações artísticas, o escritor beat não se cansava de fazer citações diretas ou indiretas aos autores, às obras, aos compositores, aos intérpretes e às canções de sua preferência. O leitor precisa ficar atento para encontrar essas referências que inundam os textos ficcionais do autor. Para terminarmos o Desafio Literário de abril, segue, abaixo, a relação com os dezoito livros ficcionais de Jack Kerouac. Nesta listagem, temos catorze romances e quatro novelas. É legal mencionar que, além da prosa ficcional, o autor norte-americano também deixou coletâneas poéticas, registros autobiográficos, ensaios, anotações e cartas. - 1º romance: “Cidade Pequena, Cidade Grande” Publicação: 1950 Escrito: 1947 a 1949 Período retratado: 1935 a 1946 - 2º romance: “On The Road - Pé na Estrada” Publicação: 1951 Escrito: final da década de 1940 ao início da década de 1950 Período retratado: 1947 a 1951 - 3º romance: “Os Subterrâneos” Publicação: 1958 Escrito: 1955 Período retratado: 1953 a 1954 - 4º romance: “Os Vagabundos Iluminados” Publicação: 1958 Escrito: 1957 Período retratado: 1955 a 1956 - 5º romance: “Doutor Sax” Publicação: 1959 Escrito: 1952 Período retratado: 1935 a 1936 e 1948 Enredo: Pesadelo que o autor teve já adulto sobre sua infância em Lowell Massachusetts. - 6º romance: “Maggie Cassidy” Publicação: 1959 Escrito: 1953 Período retratado: 1938 a 1939 Relato: Namoro do autor, quando adolescente, com Mary Carney, quando ambos moravam em Lowell Massachusetts. - 1ª novela: “Tristessa” Publicação: 1960 Escrito: Indefinido Período retratado: 1955 Relato: Baseado no relacionamento amoroso que o autor teve com uma prostituta mexicana, Esperanza, na época em que ele viveu na Cidade do México. - 7º Romance: “Big Sur” Publicação: 1962 Escrito: 1961 Período retratado: 1960 Relato: Reflexões do autor sobre sua vida na estrada e suas viagens. - 8º Romance: “Visões de Gerard” Publicação: 1963 Escrito: 1956 Período retratado: 1926-1927 Relato: Descrição da primeira infância do autor e da grave doença do irmão mais velho. - 9º Romance: “Anjos da Desolação” Publicação: 1965 Escrito: 1957 Período retratado: 1956 Relato: Narração dos dois meses em que o autor trabalhou em Desolation Peak como vigilante florestal. - 2º Novela: “Satori em Paris” Publicação: 1966 Escrito: Primeira metade da década de 1960 Período retratado: Início da década de 1960 Relato: Descrição da viagem à Europa em que o autor pesquisa sua genealogia. - 10º Romance: “Vanity of Duluoz” Publicação: 1968 Escrito: 1967 Período retratado: 1935-1946 Relato: Narração sobre a formação educacional do autor no ensino médio, na faculdade e na marinha mercante. - 3º Novela: “Pic” Publicação: 1971 Escrito: Primeira metade da década de 1950 Período retratado: Final da década de 1930 e início da década de 1940 Relato: Viagem para Nova York ao lado do irmão. - 11º Romance: Visões de Cody Publicação: 1972 Escrito: 1951-1952 Período retratado: 1951 Relato: Baseado na juventude do autor ao lado do amigo Neal Cassady - 4º Novela: “Orpheus Emerged” Publicação: 2002 Escrito: 1945 Período retratado: Década de 1940 Relato: Época em que o autor fazia faculdade em Nova York e jogava futebol americano universitário. - 12º Romance: “E os Hipopótamos foram Cozidos em seus Tanques” (juntamente com William S. Burroughs) Publicação: 2008 Escrito: 1945 Período retratado: 1944 Relato: Narrativa baseada em um crime ocorrido em Nova York. - 13º Romance: “O Mar é Meu Irmão e Outro Escritos” Publicação: 2011 Escrito: 1942 Período retratado: Início da década de 1940 Relato: Descrição da experiência do autor na Marinha Mercante dos Estados Unidos. - 14º Romance (incompleto): “A Vida Assombrada & Outros Escritos” Publicação: 2014 Escrito: Segunda metade da década de 1940 Período retratado: 1944 Relato: Dilemas do autor na época em que fazia faculdade em Nova York. Espero que você tenha curtido a análise literária deste mês. Ler Jack Kerouac é encarar polêmicas intermináveis, além de narrativas tensas e caudalosas. Uma vez estudado um nome clássico da literatura norte-americana em abril, o Bonas Histórias irá investigar no próximo mês uma escritora um pouco esquecida da literatura brasileira: Maria José Dupré. Ela é autora de romances clássicos, como “Éramos Seis” (Ática) e “Gina” (Ática), e alguns best-sellers da literatura infantojuvenil nacional, como “A Ilha Perdida” (Ática) e “A Mina de Ouro” (Ática). Porém, isso é assunto para maio. Até o próximo Desafio Literário, pessoal! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Exposições: Irreparáveis Reparos - A individual de Kader Attia
Na semana passada, fui ao Sesc Pompeia para conferir “Irreparáveis Reparos”. Essa exposição é a primeira individual de Kader Attia que é exibida na América Latina. O trabalho do artista franco-argelino aborda essencialmente as chagas deixadas pela colonização europeia na África e, principalmente, o processo de descolonização cultural das nações africanas agora independentes (pelo menos do ponto de vista político-institucional). Através de um olhar ao mesmo tempo histórico, social e artístico, Attia apresenta a opressão e a violência dos colonizadores e, como consequência, a busca dos colonizados pela retomada de sua velha identidade cultural. Nesse contexto, surge o conceito de reparação, a principal temática do artista. Para Kader Attia, a reparação é tanto física quanto psicológica e caracteriza-se por um processo de reaproximação e de transformação constante. A mostra “Irreparáveis Reparos” tem curadoria da historiadora de arte alemã Carolin Köchling e foi viabilizada a partir da parceria cultural com Goethe-Institut São Paulo e com La Colonie. Ocupando sete salas do Galpão do Sesc Pompeia, a exposição traz um panorama geral das principais obras de Kader Attia produzidas nas duas últimas décadas. O público tem acesso a fotografias, esculturas, instalações audiovisuais e intervenções/montagens de Attia. As peças selecionadas para “Irreparáveis Reparos” estão entre as mais marcantes do portfólio do franco-argelino. Não é errado encarar essa individual como um resumo (do tipo melhores momentos) de sua trajetória artística até aqui. Nascido na França, em 1960, em uma família de imigrantes argelinos, Kader Attia cresceu entre Paris e Argel, a capital da Argélia. Na juventude, ele também viveu no Congo e na América do Sul. Atualmente, o artista mora parte do ano em Berlim e outra parte em Argel. Essa experiência multicultural moldou a identidade de Attia e influenciou substancialmente suas produções. Seus trabalhos artísticos tratam quase sempre das histórias pessoais e coletivas das perdas de identidades provocadas pela violência, pela repressão e pela privação. É o olhar do oprimido e do colonizado diante das mazelas sociais de suas nações. A partir daí, ele reconstrói a memória social de povos que passam pelo que ele chama de fase da retomada. Nos seis últimos anos, as exposições individuais de Kader Attia foram apresentadas nas principais instituições e galerias de arte do mundo: Kunsthaus Zürich, em 2020; BAMPFA - Berkeley Art Museum and Pacific Film Archive, em 2019; Hayward Gallery (Londres), em 2019; Fundació Joan Miró (Barcelona), em 2018; The Power Plant (Toronto), em 2018; SMAK (Ghent), em 2017; Museum of Contemporary Art Australia (Sydney), em 2017; MMK Museum für Moderne Kunst (Frankfurt), em 2016; Musée Cantonal des Beaux-Arts de Lausanne, em 2015; e Beirut Art Center, em 2014. Em 2016, Attia conquistou o Prêmio Marcel Duchamp (França) e, no ano seguinte, ganhou o Prêmio da Fundação Miró (Espanha) e o Prêmio Yanghyun de Artes (Coreia do Sul). Na primeira sala de “Irreparáveis Reparos”, assistimos a um ensaio fotográfico do artista. As imagens mostram as influências arquitetônicas da cidade de Argel. Na capital argelina, é possível notar que pouco a pouco as construções passam a valorizar conceitos estéticos dos povos nativos/ancestrais da África e deixam de lado os princípios arquitetônicos trazidos pelos colonizadores (europeus/franceses). Dessa maneira, surge uma nova Argel, onde tradição e modernidade caminham de braços dados. Em seguida, na segunda sala da mostra, assistimos a “Landing Strip”, um novo conjunto fotográfico de Kader Attia. Nessa seção, ele apresenta, através de imagens nuas e cruas, a rotina de mulheres argelinas trans que se prostituíam em Paris nas décadas de 1980 e 1990. Os cliques para a câmera desnudam o dia a dia, o trabalho, os preconceitos em que eram vítimas e os verdadeiros amores das profissionais do sexo. A maioria dessas imigrantes africanas vivia de maneira ilegal na capital francesa. Logo depois, vem a videoinstalação “Mimesis as Resistance”. Essa é a parte mais divertida da exposição. Pela televisão, acompanhamos uma cena de um documentário ao estilo National Geographic. Em pouco mais de dois minutos, conhecemos um pássaro capaz de imitar todo tipo de som. Ele não apenas emula o barulho dos demais bichos da floresta como também reproduz o ruído de motosserras que destroem a natureza ao redor. Se por um lado temos uma bela metáfora do conceito de mimesis, por outro lado temos o retrato assustador do extermínio das florestas tropicais. Em “Chaos + Repair = Universe”, nos deparamos com uma bola colorida. Apesar de sua beleza impressionante (a iluminação interna e externa é de encher os olhos), notamos que cada gomo foi costurado à mão, em um processo de remendo. A sensação é que a reconstrução da bola foi feita como se ela fosse uma pele humana (os pontos da costura simulam os pontos do tecido corporal). Há quem veja nessas costuras algo parecido às cercas de arame farpado, material típico das cidades do terceiro mundo (ele é usado tanto como segregação quanto como proteção de propriedades). Não se surpreenda se você, de repente, associar essa esfera ao nosso planeta. A quinta sala do Galpão do Sesc Pompeia reserva um pot-pourri com algumas pequenas e interessantes peças, além de uma nova coletânea de fotografias. A obra que mais gostei dessa parte foi a do espelho que, após quebrado, foi costurado (essa criação não tem título). Trata-se do mesmo processo e da mesma estética utilizados na bola da seção anterior (seriam arames farpados os pontos da costura do espelho?). Confesso que fiquei parado por mais de dois minutos encarando a peça remontada e, principalmente, meu reflexo distorcido. É de assustar! A penúltima sala apresenta uma coleção de máscaras e de mortalhas esculpida na madeira. A sensação é que esses artefatos são de povos ancestrais da África. Contudo, um detalhe dá o tom horripilante à cena: os totens foram enegrecidos pelo fogo. É como se os colonizadores tivessem queimado as culturas e os povos antigos à medida que conquistavam o mundo. Em uma parede ao lado das máscaras e das mortalhas, há a exibição do vídeo “Reflecting Memory”. As imagens e os sons ajudam a criar o clima de genocídio. A exposição termina com a instalação “J’acusse”. A última sala de “Irreparáveis Reparos” reúne bustos de madeira que retratam os rostos de soldados que lutaram na Primeira Guerra Mundial. Cada face entalhada na madeira traz cicatrizes e deformidades graves. Para produzir essas obras, Kader Attia utilizou-se de fotografias que revelavam as reais sequelas do conflito bélico. Sem dúvida nenhuma, essa é a parte da mostra mais forte e chocante. Não sei explicar, mas até mesmo o clima dessa seção é mais pesado e sombrio. Imaginar aqueles homens carregando marcas tão feias e profundas em seus rostos é de estremecer qualquer um. A reparação, como conceito sociocultural, é entendida por Kader Attia como um longo processo de cicatrização e de aperfeiçoamento. Nela, instituições, objetos, tradições e sujeitos são retomados a partir de perdas, quebras ou feridas. Nesse sentido, a reparação é a recuperação ou reapropriação daquilo que ficou ausente por um período. Nem sempre é possível retomar às condições originais, sendo necessário saber lidar com cicatrizes, reparos expostos ou mesmo a perda de partes significativas. As melhores obras que expressam o conceito de reparação attiana são a do espelho quebrado e costurado com pontos e as deformações nos rostos das estátuas de madeira. “Irreparáveis Reparos” foi montado em março desse ano no Sesc Pompeia e iria estrear no mês seguinte. Na programação original, a mostra iria de abril a julho de 2020. Porém, no meio do caminho tinha uma pandemia e, assim, surgiram medidas de distanciamento social. Graças à Covid-19, que obrigou o fechamento dos centros culturais da cidade (do país e do mundo) por sete meses, a exposição só pôde ser inaugurada em outubro. Após a reformulação do calendário, os trabalhos de Kader Attia ficarão em cartaz até 31 de janeiro de 2021 na capital paulista. A visitação é gratuita e é necessário agendamento prévio no site do Sesc. A inscrição online é uma das medidas de segurança promovida pelo centro cultural – dessa forma, evitam-se aglomerações e filas. Reserve ao menos 45 minutos para “Irreparáveis Reparos”. Na quarta-feira passada, por exemplo, levei aproximadamente uma hora para percorrer as sete salas da mostra. O que chamou mais minha atenção foi o quão deserto estava o Sesc Pompeia. Simplesmente não vi nenhum visitante perambulando pelo local, nem na exposição nem nas demais alas do espaço. Assim como está acontecendo com os cinemas, parece que as instituições culturais reabriram, mas o público não retornou aos programas artísticos. É uma pena porque “Irreparáveis Reparos” traz instalações riquíssimas de Kader Attia, um dos artistas europeus mais originais e engajados da atualidade. Seu trabalho vale uma visita. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Teoria Literária - MAER - Matriz Completa
Na semana passada, apresentamos de maneira introdutória a proposta desta nova temporada da coluna Teoria Literária. Depois de abordarmos, no primeiro ano, os Conceitos Gerais da Análise Literária e, no segundo, os Elementos da Narrativa, vamos agora nos debruçar, nesta seção do Bonas Histórias, sobre o Modelo de Análise Estilística de Romances, também conhecido por MAER. No post da segunda-feira retrasada, inclusive, divulgamos o calendário completo dessa terceira temporada da coluna. O Modelo de Análise Estilística de Romances é uma matriz que foi criada durante o Projeto de Iniciação Científica que realizei entre 2017 e 2018 no Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS). Com a orientação de Carina Adriele Duarte de Melo Figueiredo e de Terezinha Richartz Santana, a pesquisa acadêmica cujo título era “Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca - Investigando a Nova Literatura Brasileira” teve como fruto secundário justamente esse modelo analítico. O MAER oferece ao analista literário, que estuda o estilo de um romancista, uma ferramenta objetiva e prática para guiar sua pesquisa. A matriz está ancorada nos conceitos da Teoria Literária, distanciando-se, portanto, das técnicas empíricas usadas pela Crítica Literária. É sobre as particularidades conceituais e de aplicação do Modelo de Análise Estilística de Romances que vamos debater. A ideia é apresentar seu modelo, hoje, de maneira geral. Depois, ao longo dos próximos meses, vamos detalhar cada uma das partes de sua engrenagem. De forma sucinta, o MAER está dividido em duas partes: nos seus onze elementos constituintes (primeira parte) e em seis etapas de pesquisa (segunda parte). Veja, a seguir, essa divisão na imagem esquemática que resume bem o processo: 1) Onze Elementos Constituintes do MAER Os Onze Elementos Constituintes do Modelo de Análise Estilística de Romances são os Onze Elementos da Narrativa, que apresentamos em 2019 na coluna Teoria Literária. São eles: o enredo, a personagem, o espaço narrativo, o tempo narrativo, a ambientação, a realidade ficcional, o narrador, a linguagem, o discurso, a textualidade e a tipologia. É impossível um analista literário realizar uma pesquisa abrangente e completa sobre um romance ou sobre um conjunto de romances se ele não conhecer profundamente cada um dos elementos da narrativa ficcional. O que confere particularidade e especificidade ao estilo de cada autor é o jeito como cada um deles calibra os diferentes ingredientes do texto em seu trabalho artístico. Entender cada uma das partes da narrativa é o primeiro passo para se compreender o estilo literário de um escritor. Portanto, não dá para alguém iniciar o uso prático do MAER se não tiver amplo domínio sobre os Onze Elementos da Narrativa. Esses conceitos serão amplamente utilizados nas etapas 3 (Análise Horizontal), 4 (Análise Vertical), 5 (Análise Transversal) e 6 (Conclusões do Estudo). 2) Cinco Etapas de Pesquisa do MAER Uma vez que o analista literário compreendeu cada um dos Onze Elementos Constituintes do Modelo de Análise Estilística de Romance (que também pode ser chamado de Onze Elementos da Narrativa), ele pode começar, propriamente, a trabalhar com a matriz. 2.1 Etapa 1: Identificação do Tipo de Estudo A primeira etapa da pesquisa é a Identificação do Tipo de Estudo. O MAER é, nunca é demais explicar, uma ferramenta exclusiva para a investigação do estilo literário dos romances e dos romancistas. A matriz foi desenvolvida para auxiliar aqueles que usam a Teoria Literária para identificar as particularidades dos trabalhos dos romancistas. Ponto final. Assim, para saber se um estudo literário pode usar o Modelo de Análise Estilística de Romances como sua matriz investigativa é preciso responder a três questões: (1) tratar-se de uma pesquisa que tem como fundamento a Teoria Literária?; (2) trata-se de uma pesquisa sobre estilo literário?; e (3) trata-se de uma investigação que tem como foco os romances? Apenas no caso de três respostas positivas, o analista literário deve utilizar essa matriz como sua ferramenta de trabalho. É verdade que o MAER até pode ser usado integral ou parcialmente em outros tipos de investigação literária, se o pesquisador responsável assim preferir. Porém, ele não foi desenvolvido para outras finalidades além de seu escopo original. 2.2 Etapa 2: Definições Estatísticas da Pesquisa A segunda etapa do MAER é o estabelecimento quantitativo da pesquisa. Como estamos falando de um trabalho científico (relembrando: a Teoria Literária é, em uma definição rasteira, a área da literatura que visa estudar cientificamente os textos artísticos), é necessário ancorar estatisticamente o estudo a ser realizado. Para tal, dois tipos de definições são obrigatórios: (1) o estabelecimento do censo ou da amostra (número de obras que deve ser selecionado para a pesquisa) e (2) a escolha da amostragem (como serão selecionados os romances de determinado autor que comporão a amostra). Só depois da correta justificativa estatística das bases do seu trabalho, o analista pode seguir em frente em sua investigação literária. 2.3 Etapa 3: Análise Horizontal Definidos a quantidade de obras que precisam ser analisadas (censo/amostra) e quais os critérios de seleção desses livros (amostragem), o pesquisador acadêmico pode iniciar o estudo propriamente dito dos materiais estabelecidos. A Análise Horizontal, a terceira etapa do MAER, consiste em estudar cada obra isoladamente. Utilizando-se dos Onze Elementos da Narrativa, o analista literário deve definir um quadro esquemático com as características narrativas de cada título investigado. Ou seja, ele deve apontar conceitualmente os aspectos do enredo, da personagem, do espaço narrativo, do tempo narrativo, da ambientação, da realidade ficcional, do narrador, da linguagem, do discurso, da textualidade e da tipologia do livro 1. Depois, deve fazer o mesmo para o livro 2 (enredo, personagem, espaço narrativo, tempo narrativo, ambientação, realidade ficcional, narrador, linguagem, discurso, textualidade e tipologia dessa obra), para o livro 3, para o livro 4, etc. 2.4 Etapa 4: Análise Vertical A quarta etapa do Modelo de Análise Estilística de Romances é a Análise Vertical. Uma vez feita a Análise Horizontal de todas as obras selecionadas para a pesquisa, o estudioso da Teoria Literária deve cruzar as descobertas feitas em busca de padrões. Assim, ele deve relacionar os diferentes romances do autor investigado com base em cada um dos Onze Elementos da Narrativa. Portanto, do ponto de vista do enredo, o que se descobriu sobre o livro 1, o livro 2, o livro 3, o livro 4, etc.? Do ponto de vista da personagem, o que dizem os livros 1, 2, 3, 4, etc.? O mesmo procedimento deve ser feito com os demais nove elementos da narrativa. O objetivo da Etapa 4 é obter os padrões da narrativa de determinado romancista. Essas características surgem quando, na Análise Vertical, cada componente da narrativa é relacionado entre si. 2.5 Etapa 5: Análise Transversal A quinta etapa do modelo é a Análise Transversal. Nessa fase da pesquisa, o analista literário deve excluir as características que são encontradas corriqueiramente em outras obras e nos estudos estilísticos de outros artistas. Assim, é preciso deletar as informações coletadas na Análise Horizontal e na Análise Vertical que sejam referentes mais ao gênero narrativo e/ou à escola literária. Busca-se, dessa forma, uma comparação mais abrangente do que aquela vinda apenas de dentro do portfólio artístico do autor analisado. Para a descoberta do estilo literário de um escritor específico, o analista literário deve conhecer o trabalho dos demais autores. Só assim, ele poderá identificar o que realmente é particular e o que é algo corriqueiro em um texto ficcional ou em um conjunto de textos ficcionais. A Análise Transversal tem um caráter intertextual. Seu balizamento é a literatura como um todo. 2.6 Etapa 6: Conclusões do Estudo A última etapa do MAER, chamada de Conclusões do Estudo, é apontar objetivamente os elementos narrativos comuns de um autor. Em outras palavras, é expressar qualitativa e quantitativamente os aspectos do estilo literário do romancista investigado. Após a Análise Transversal, o analista literário tem totais condições para selecionar os aspectos congruentes do conjunto de romances do censo/amostra. As Conclusões do Estudo devem estar descriminadas em uma tabela informativa. Nesse quadro, deve-se apontar, além das características identificadas como padrões das narrativas do romancista, as obras onde elas são identificadas, os exemplos dessas evidências e o percentual de suas incidências. Dessa maneira, o Modelo de Análise Estilística de Romances estará finalizado. Muito confuso isso tudo? Se você se sentiu assim, calma! Essa foi a apresentação genérica da matriz analítica. O MAER será detalhado aos poucos no Bonas Histórias. Mensalmente, voltarei a coluna Teoria Literária para explicar com mais profundidade cada um dos aspectos do modelo. Em julho, por exemplo, irei debater os Onze Elementos Constituintes do MAER. Em agosto, partirei para a Etapa 1 do Modelo de Análise Estilística de Romances, a Identificação do Tipo de Estudo. Você é nosso(a) convidado(a) para continuar acompanhando o detalhamento do MAER. Seja-bem vindo(a) a nova temporada da Teoria Literária. Que tal este post? Gostou do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre esse tema, clique em Teoria Literária. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
















