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  • Músicas: Casa de Bamba - 50 anos do primeiro sucesso de Martinho da Vila

    Em novembro de 1968, Martinho José Ferreira, então com trinta anos, era ainda um músico desconhecido do grande público. Carregando desde aquele momento o nome artístico de Martinho da Vila (Vila é uma referência à Escola de Samba de Vila Isabel, onde ele compunha sambas-enredos), o sambista fluminense havia estreado a pouco no cenário nacional. Em 1967, Martinho participou timidamente do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Sua composição "Menina Moça" não despertou muita atenção do público nem dos jurados. Porém, a sua segunda composição, inscrita no festival do ano seguinte, teve uma trajetória e uma receptividade totalmente distintas. "Casa de Bamba" é um samba leve e animado, que retrata com saudosismo e certa beleza poética um ambiente familiar de origem humilde. As rimas simples, a repetição da estrutura textual, a interpolação de vozes e a melodia intuitiva deixam a canção gostosa de ser ouvida. Na primeira audição já é possível repeti-la sem grande complicação. Estão aí justamente os méritos de um compositor com uma pegada popular e ligado à essência do samba-canção. No festival de 1968, Martinho da Vila foi acompanhado pelos Originais do Samba (Mais famosos do que o sambista de Vila Isabel naquele momento). A música participou da terceira eliminatória e foi desclassificada, não avançando às fases seguintes. Há quem questione até hoje a pouca sorte que "Casa de Bamba" teve na competição musical. Muita gente considera que ela merecia ao menos ter chegado à fase final. Veja, abaixo, a letra desta canção: "Casa de Bamba" (1968) – Martinho da Vila Na minha casa Todo mundo é bamba Todo mundo bebe Todo mundo samba... Na minha casa Não tem bola prá vizinha Não se fala do alheio Nem se liga prá candinha... Na minha casa Todo mundo é bamba Todo mundo bebe Todo mundo samba... Na minha casa Ninguém liga prá intriga Todo mundo xinga Todo mundo briga... Macumba lá na minha casa Tem galinha preta Azeite de dendê Mas ladainha lá na minha casa Tem reza bonitinha E canjiquinha prá comer Se tem alguém aflito Todo mundo chora Todo mundo sofre Mas logo se reza Prá São Benedito Prá Nossa Senhora E prá Santo Onofre... Mas se tem alguém cantando Todo mundo canta Todo mundo dança Todo mundo samba E ninguém se cansa Pois minha casa É casa de bamba Pois minha casa É casa de bamba... Macumba lá na minha casa Tem galinha preta Azeite de dendê Mas ladainha lá na minha casa Tem reza bonitinha E canjiquinha prá comer Se tem alguém aflito Todo mundo chora Todo mundo sofre Mas logo se reza Prá São Benedito Prá Nossa Senhora E prá Santo Onofre... Mas se tem alguém cantando Todo mundo canta Todo mundo dança Todo mundo samba E ninguém se cansa Pois minha casa É casa de bamba... Confira, a seguir, a interpretação de Martinho da Vila. Ela é original de 1968, gravada durante a apresentação do sambista no Festival de Música Popular Brasileira daquele ano. Se "Casa de Bamba" não venceu o IV Festival de Música da TV Record ao menos ela representou o primeiro grande sucesso de Martinho. A repercussão positiva da música perante o público possibilitou que o sambista assinasse seu primeiro contrato com uma gravadora, a RCA Victor. Em 1969, Martinho lançou seu primeiro álbum. Obviamente, a primeira faixa do LP de estreia era a inesquecível "Casa de Bamba". Nada mais justo. Esse importante samba completa agora 50 anos. É legal conhecer sua história e a sua relevância para a carreira de um dos grandes sambistas da atualidade. Sou fã de Martinho da Vila (considero-o um dos maiores músicos de nosso país). Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Talk Show Literário: Policarpo Quaresma

    Darico Nobar: Boa noite, pessoal de casa e do auditório! Está no ar mais um Talk Show Literário, o programa de entrevistas que coloca todo mês a literatura brasileira dentro da sua televisão. [A banda do programa toca a música de abertura da atração]. Hoje, nosso convidado é Policarpo Quaresma, o mais brasileiro de todos os brasileiros. [Plateia em delírio aplaude e grita o nome do entrevistado enquanto ele se dirige ao palco]. Olá, Policarpo! Policarpo Quaresma: Boa noite, Darico. Boa noite, amado público do meu Brasil varonil! Plateia [em coro]: Booooooooooooooooa noiiiiiiiiiiiiiiiiite! Darico Nobar: Que loucura essa receptividade do auditório, hein? Você parece ser muito querido pelos brasileiros. É sempre assim que o povo o saúda? Policarpo Quaresma: É sim. Não há nação mais calorosa, receptiva e carinhosa do que a brasileira. As pessoas dos quatro cantos deste país sabem receber e valorizar aqueles que amam e idolatram sua pátria. Prova maior disso foi o sucesso da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Em toda a história, nunca houve competições mais alegres e festivas do que essas realizadas em nosso território. Darico Nobar: Ainda bem que você tocou nesse assunto. Esse é um tema delicado que gostaria de discutir. O surgimento de evidências de desvios de verba pública, de má gestão e de desperdício de dinheiro para a promoção desses grandes eventos esportivos não o incomodam? Há quem diga que a atual recessão econômica que o país atravessa é, em parte, reflexo dos excessos causados para a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil. Você concorda com essa visão? Policarpo Quaresma: Os estrangeiros, enfim, puderam ver de perto as intermináveis qualidades do povo brasileiro e os encantos do nosso país. Você percebeu que nenhum gringo foi embora falando mal da nossa terra e da nossa gente?! Na verdade, eles voltaram para suas casas morrendo de inveja do nosso país e dizendo maravilhas do Brasil e dos brasileiros. Essas competições permitiram ao mundo descobrir a real face desta terra abençoada por Deus. Darico Nobar: E a corrupção?! Você não acha que o dinheiro que foi gasto nesses eventos foi mal empregado? Enquanto isso, o povo morre por falta de hospitais e as crianças continuam frequentando uma das piores escolas do mundo... Policarpo Quaresma: Meu amigo Darico, não existe corrupção no Brasil. [A plateia solta uma sonora risada no auditório. O apresentador acompanha o público em sua reação e dá uma gargalhada estridente]. Policarpo Quaresma: É verdade! Acreditem em mim... Por vários séculos, jamais tivemos qualquer governante ou homem público condenado à cadeia em nosso país. Isso demonstra o caráter honesto dos nossos representantes e, por que não, de todos os brasileiros. Agora, viaje para os Estados Unidos, para a Dinamarca, para a Austrália e para a Alemanha... Você encontrará um monte de agentes públicos cumprindo pena. Por quê? Porque lá eles roubam o dinheiro do povo e descumprem as leis. Acho isso repugnante! Não sei como se consegue viver em um lugar com essas características... Darico Nobar: Contudo, nos últimos anos, muitos empresários, políticos e funcionários públicos brasileiros passaram a frequentar os bancos dos réus e as celas dos presídios. Se não houvesse corrupção, por que eles teriam sido condenados? Policarpo Quaresma: Essas condenações são questionáveis. Sou totalmente contra a ação dos juízes de Curitiba. Você reparou que somente o tribunal da capital paranaense enxerga corrupção no Brasil! Será que o resto do país está errado e somente esses juízes estão certos? Para completar, me parece muito estranho direcionar as investigações a uma única agremiação partidária. E justamente a perseguição recai sobre o partido e os políticos que mais trabalharam em prol dos brasileiros nos últimos anos. Para mim, os juízes de Curitiba estão completamente equivocados e mancham a imagem do nosso respeitado país. Darico Nobar: Policarpo Quaresma, deixa-me ver se entendi o seu ponto de vista. Você está defendendo os petistas investigados e presos? Policarpo Quaresma: Não estou defendendo ninguém porque não sou advogado de defesa. Só estou apresentando o ponto de vista de quem analisa a situação com isenção. Na última década e meia, o Brasil cresceu e enriqueceu como nunca. A pobreza desapareceu e nossa população teve uma melhora considerável em seu padrão de vida. Os méritos desse progresso são exclusivamente do ex-presidente Lula e de seus correligionários. E aí o que aconteceu com eles? Repentinamente, são acusados de corrupção por um juizeco com mania de grandeza. A intenção era jogar a população contra seus benfeitores. Não posso ficar calado diante de tanta injustiça. Darico Nobar: Você foi contra ou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff? Policarpo Quaresma: Fui e sou totalmente contrário à destituição de uma pessoa eleita democraticamente pelo povo e que nunca cometeu qualquer ato criminoso. O impeachment foi um golpe político perpetrado por um grupo de indivíduos que jamais será eleito pelo voto direto. A saída da senhora Rousseff da presidência foi um atentado à liberdade do nosso país. Senti-me fuzilado quando ela deixou o poder. Darico Nobar: Por falar em fuzilamento, muita gente achou que você já estivesse morto. Entretanto, você está aí vivinho. O que aconteceu de fato? Policarpo Quaresma: O problema é que no romance do Lima Barreto, eu tenho um desfecho triste. Sou preso e fico esquecido na cadeia por muitos anos. Foi mesmo um momento difícil que tive de superar. Quando minha história foi adaptada por Alcione Araújo para o cinema, ele mudou o final, tornando-o ainda mais trágico. Foi ideia dele a cena do fuzilamento. Essa versão também foi propagada por algumas adaptações teatrais. Infelizmente, as pessoas passaram a acreditar que eu tivesse morrido. Já dizia Joseph Goebbels: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade". Darico Nobar: Esta situação o incomoda? Policarpo Quaresma: A questão de acharem que eu morri não me incomoda nem um pouco. O que me deixa verdadeiramente furioso é quando fazem insinuações sobre minha relação com a Olga. Darico Nobar: Afinal, você teve ou não teve um caso de amor com sua afilhada? Policarpo Quaresma: É claro que não! Basta ler o romance do Lima Barreto para se descobrir isso. A Olga é uma mulher casada. Mal casada é verdade, mas uma esposa direita e honesta. Além disso, eu sempre a vi como uma filha e aposto que ela sempre me enxergou como um pai. Esses boatos começaram depois do filme do Paulo Thiago. Novamente, a culpa é do Alcione Araújo, que adorava desvirtuar minha vida e macular minha reputação quando produzia seus roteiros cinematográficos. Darico Nobar: É verdade que você é virgem até hoje? Há quem o aponte como homossexual. O que você tem a dizer sobre essas duas alegações que o povo faz? Policarpo Quaresma: Meu grande e único amor é o Brasil. Sou um homem apaixonado pela minha nação. Não a troco por nada e ninguém. Por isso, nunca tive namorada, muito menos namorado. Como sou fiel ao meu país, fica difícil ter olhos para outras coisas e pessoas. Se eu ligasse para o que o povo diz nas ruas, não seria um homem convicto das minhas crenças e dos meus valores. Em relação ao fato... Darico Nobar: Que barulho é este?! [Um apito dispara atrapalhando a conversa]. Policarpo Quaresma: É a minha tornozeleira eletrônica apitando. Infelizmente, preciso voltar para minha casa o mais rápido possível. Darico Nobar: Meu Deus, você está usando uma tornozeleira eletrônica! Por quê? Policarpo Quaresma: É uma longa história... Há alguns anos, resolvi ajudar um prefeito na reforma educacional que a cidade dele precisava realizar. Assim, trabalhei algum tempo na Secretaria de Educação do município. No período de reeleição, surgiram denúncias infundadas de corrupção e meu nome foi citado por acaso. Não sei direito a história toda. Só sei que me enviaram outra vez para a cadeia. Recentemente, fui solto, mas agora preciso usar este aparelhinho. Quando ele apita, eu preciso voltar para casa em meia hora. Darico Nobar: Que situação chata, Policarpo. Policarpo Quaresma: Com o tempo a gente se acostuma. Darico Nobar: Já que temos mais alguns minutos de Talk Show Literário e você precisa antecipar sua saída, por que você não escolhe uma música para nossa banda tocar? Assim, a plateia poderá se entreter com algo nesses momentos finais de programa sem entrevista. Policarpo Quaresma: Ótima ideia! Gostaria de ouvir o hino nacional. Darico Nobar: O hino brasileiro?! Policarpo Quaresma: Sim. Algum problema? Darico Nobar: A princípio nenhum. Banda, vocês sabem tocar o hino? [Os integrantes do quinteto musical se entreolham envergonhados. Após uma rápida discussão interna, eles fazem com a cabeça um gesto negativo]. Desculpe-nos, Policarpo. Nossa banda só conhece músicas comerciais. Ninguém sabe tocar nem cantar o hino. Policarpo Quaresma: Tudo bem. Já estou acostumado com isso. [O barulho vindo da tornozeleira eletrônica fica mais alto]. Eu preciso ir mesmo... Obrigado pelo convite e boa noite! Tchau, pessoal. Plateia [em coro]: Tchaaaaaaaaaaau! Darico Nobar: Boa noite, Policarpo. Bom regresso a sua casa. Galera, este foi mais um Talk Show Literário. Espero vocês no mês que vem. Até lá! [Para encerrar o programa, a banda toca instrumentalmente "Bohemian Rhapsody", uma das canções mais famosas do Queen]. --------------------------------------------- O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #LimaBarreto

  • Talk Show Literário: Macunaíma

    Darico Nobar: Olá, Brasil! O Talk Show Literário chega ao seu sexto programa trazendo o melhor dos clássicos nacionais. Nosso convidado de hoje é o herói modernista Macunaíma, criação de Mário de Andrade. Boa noite, Macunaíma. E obrigado por aceitar o convite para comparecer à entrevista. Macunaíma: Vai dar muito trampo este bagulho de gravação?! Darico Nobar: Acredito que não. São apenas alguns minutinhos de bate-papo. Você poderá permanecer sentado aí no sofá enquanto responde às minhas perguntas. Garanto que você não irá se cansar nadinha. Será preciso apenas conversar comigo. Macunaíma: Ai que preguiça! Darico Nobar: Eu tinha preparado outra questão para iniciar essa entrevista, mas, agora diante de você e da sua aparência, fiquei em dúvida sobre sua verdadeira identidade. Você é mesmo o Macunaíma, o protagonista do famoso romance?! Macunaíma: Ih... Tá me estranhando, é? Sou eu, sim senhor! Por que a dúvida?! Darico Nobar: Não imaginava que você fosse japonês. Macunaíma: A treta é que estou sempre me transformando. Até hoje não sei como essa parada maluca acontece. Ano passado, eu estava no corpo de um sertanejo. Sertanejo daqueles que têm cabeça chata e que passam fome lá no Nordeste, não daqueles que cantam música para corno em Goiás. Ano retrasado, eu tinha o aspecto de um gaúcho. Há dois meses, pulei da cama e olhei no espelho. Eu era um japonês. Pensei comigo: "Puta que pariu!". O desespero só aumentou quando fui tomar banho. Aí descobri que o estrago era mais embaixo... Darico Nobar: Ficar mudando sempre de corpo e de fisionomia não atrapalha sua imagem perante o público leitor? Ninguém deve reconhecê-lo na rua, não é? Macunaíma: Nunca quis ser famoso. Até porque, quase nenhuma personagem literária tem esse poder no Brasil. Se eu fosse jogador de futebol, artista de TV, traficante, cantor de música ruim ou político, talvez tivesse essa preocupação. Acho que as pessoas até gostam de me ver transmutado em figuras populares, iguais a elas. Há, além do mais, uma vantagem sensacional nessas transformações. Até descobrirem que mudei de rosto, posso permanecer oculto de todos. Isso é ótimo quando estou fugindo. O lado ruim é quando eu fico com a cara do Grande Otelo. Aí é triste! Darico Nobar: Você tem problemas com a polícia ou com a Justiça, Macunaíma? Macunaíma: Minhas confusões são normalmente com os homens casados e com os sujeitos que me emprestam dinheiro. Não sei o que se passa, mas eles estão sempre querendo me pegar. É difícil agradar esse tipo de gente! Darico Nobar: Você se incomoda de ser chamado de "herói sem nenhum caráter"? Macunaíma: É claro que não! Se eu morasse na Suécia ou no Japão, talvez me incomodasse um pouco. Como vivo no Brasil, dá para tirar isso de letra. Em nosso país, existem poucas pessoas que realmente possuem caráter rígido. Assim, não sou diferente dos meus conterrâneos que optam pela versatilidade das práticas éticas. Darico Nobar: Você trabalha com o quê? Macunaíma: Como assim? Darico Nobar: Qual a sua profissão? Macunaíma: Eu não tenho profissão. Darico Nobar: E como você faz para ganhar dinheiro? Macunaíma: Eu não preciso de muita grana para viver. Não sou ambicioso nem consumista. Um pouquinho já me é suficiente. Recebo um tostãozinho do Bolsa Família que o governo me paga mensalmente desde que eu era nordestino. O restante, eu ganho aqui e ali, fazendo uma coisinha ou outra. Darico Nobar: E o que seria fazer "uma coisinha ou outra"? Macunaíma: A gente está sempre andando pelas ruas, conhecendo pessoas, né? É normal os amigos quererem emprestar um dinheirinho vez por outra. Há também aqueles que fazem questão de aplicar capital em alguma boa ideia que tenho. É assim que vou levando: recebo um vintém aqui e outro vintém acolá. Darico Nobar: Você disse que as pessoas aplicam dinheiro em suas ideias, certo?! Então, você atua como um empresário ou um empreendedor, não é? Macunaíma: É. Acho que posso dizer isso sim... Sou igual àquele ricaço que recebia investimentos de todo mundo. Não lembro o nome dele... Aquele que é careca e usava uma peruca com topete. Sabe quem é, né? A mulher dele era uma gostosona de parar a avenida. Durante o carnaval, ela desfilava com uma coleira com o nome dele pendurada no pescoço. Darico Nobar: Você está falando do Eike Batista? Macunaíma: Bingo! Na essência, sou igualzinho a ele. Pego dinheiro dos outros para fazer investimentos pessoais. Compro coisas que tenho interesse ou que são importantes para a manutenção da minha qualidade de vida. Darico Nobar: Estou começando a entendê-lo... Quais são, afinal, suas ideias de empreendimento? Macunaíma: Minha grande meta é construir um negócio altamente rentável com o mínimo esforço. Só assim, poderei ter tranquilidade e conforto sem precisar trabalhar. O foco do empreendimento está no recebimento do dinheiro dos sócios e não na produção de algo. Produzir, vender e entregar são atividades muito desgastantes. Elas não combinam comigo. Só de pensar nelas, dá uma preguiça. Ai que preguiça! Darico Nobar: E as pessoas aceitam colocar dinheiro nesse seu projeto? Macunaíma: Claro! É o que todos no Brasil querem: ganhar dinheiro de maneira rápida, prática e na moleza. Sou o porta-voz de um sonho nacional. Darico Nobar: Macunaíma, o Eike Batista foi preso pela polícia. Isso não o assusta? Macunaíma: Sério?! Não sabia disso. Para falar a verdade, essa situação deve incomodar mais a ele do que a mim, né? E se ele foi pego, é porque é burro ou molenga. Eu não sou de vacilar. Sou muito inteligente. Jamais serei preso! Darico Nobar: Como você pode garantir tal coisa? Macunaíma: Sou um herói, não sou? Minha principal característica é a capacidade de fugir dos meus inimigos. Muita gente já quis me pegar, mas nunca ninguém conseguiu. É assim há quase cem anos. Se eu consegui fugir de Capei, Piaimã e Ceiuci, por que iria ser apanhado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público? Darico Nobar: Você não acredita na força das instituições do nosso país e no poder delas de garantir a lei e a ordem? Macunaíma: E o jacaré acredita? Nem eu! Darico Nobar: Quando li o romance do Mário de Andrade pela primeira vez, tive a sensação que... O que você está fazendo, Macunaíma? Macunaíma: Ai que preguiça! [O entrevistado deita-se no sofá, indicando a vontade de tirar um cochilo]. Darico Nobar: Não é para dormir! A entrevista ainda não acabou. Fique acordado! Macunaíma: Chame, então, aquela boniteza de vestido azul para vir se deitar comigo nesse sofá. Só assim para eu não cair no sono. Essa nossa conversa está muito chata. Com certeza, a moça conseguirá me alegrar mais do que você. Darico Nobar: De quem você está falando, Macunaíma? Aquela loira ali na plateia é a minha esposa! Ela veio assistir ao programa desta noite no auditório. Macunaíma: Ótimo, irmão. Peça para ela vir se deitar comigo. Vou mostrar umas brincadeiras novas para ela. Ela vai me agradecer depois. Darico Nobar: O que é isso, Macunaíma?! Ninguém vai se deitar com você, muito menos minha esposa. E fique acordado porque temos mais uma parte do programa. Macunaíma: Ai que preguiça! Darico Nobar: Por falar em mulher, você continua apaixonado por Ci? Ela foi mesmo o grande amor da sua vida? Macunaíma: Acho que sim. Nunca mais encontrei uma mulher como aquela. E olha que eu procurei bastante por aí. Para isso, nunca tive preguiça. Darico Nobar: Você tem algum arrependimento em sua vida, Macunaíma? Macunaíma: Só de ter perdido o muiraquitã. Darico Nobar: Isso é algo que não consigo entender. Se essa pedra era tão importante para você e para sua tribo, por que você a perdia sempre por aí? Macunaíma: Não sei explicar... Eu geralmente a perdia quando estava desatento. Era eu ficar de pernas para o ar que o povo aproveitava para me roubar. Brasileiro é um povo traiçoeiro. Se você pisca o olho, ele rouba algo seu. E por falar nisso, qual o nome da sua mulher? Ela é uma potranca bem azeitada, hein? Darico Nobar: Pessoal, preciso encerrar o programa um pouco mais cedo hoje para resolver um negocinho aqui. No mês que vem voltamos com mais um Talk Show Literário. Obrigado pela audiência de vocês. Abraço! Quinteto musical: Ser corno ou não ser/ Eis a minha indagação/ Sem você vivo sofrendo/ Pelos botecos bebendo/ Arrumando confusão... [A banda encerra o programa cantando "Bois Don't Cry" do grupo Mamonas Assassinas]. Darico Nobar: Volte aqui, seu desgraçado!!! Não fuja que eu te pego.... Quero ver você mexer com minha mulher de novo... [O apresentador corre atrás do entrevistado no palco. Enquanto isso, os microfones são cortados e os créditos sobem na tela]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #MáriodeAndrade

  • Talk Show Literário: Apresentação do programa

    Ler e escrever são vícios como qualquer outro. Uma vez consumido pela necessidade incessante da busca pelo prazer, o indivíduo não para mais de repetir essas atividades compulsivamente. Foi o que aconteceu comigo. Prova maior dessa minha fraqueza aqui confessada é o Talk Show Literário. Pensei em várias desculpas possíveis para justificar a criação de uma coluna no Blog Bonas Histórias cuja proposta é entrevistar personagens da literatura. Logo de cara, cogitei em apelar para o universo onírico: teria sonhado certa noite que era o apresentador de um programa de televisão no qual os protagonistas dos meus livros favoritos eram meus convidados. Na manhã seguinte, ao acordar, descobriria que nada daquilo de fato aconteceu. Depois, conjecturei levar um tombo em plena aula de literatura. Ao bater com a cabeça em uma pilha de livros, acabaria preso ao mundo da ficção. E, por fim, planejei me apaixonar por certa história até ser tragado magicamente para dentro dela. Uma vez transformado em personagem, criaria um programa de entrevistas no qual chamaria meus novos amigos para bate-papos sobre a vida deles. Seria muito legal poder contar com algum desses clichês literários. Porém, a realidade é minha grande inimiga. No fim das contas, ela conseguiu destruir todos os pensamentos fantasiosos e românticos que tive para explicar a elaboração do meu talk show. Para você ter uma noção do que estou dizendo, nem ao menos os méritos pela ideia deste programa foram meus. Este livro nasceu de um exercício das aulas de Literatura de Expressão Portuguesa do curso de Licenciatura em Letras. O professor Alex Donizeti do Rosário pediu para criarmos um talk show em que entrevistássemos uma figura literária. Gostei tanto da atividade que criei uma personagem (Darico Nobar) e ela começou a entrevistar de maneira compulsiva seus colegas mais famosos. Desse jeito esquisito nasceu o Talk Show Literário. Viu só como ler e escrever são vícios?! Graças à proposta inconsequente do professor Alex, meu quadro se agravou nos últimos meses. Mal acabava uma entrevista, já começava a ler outra obra para, uma vez finalizada, poder conversar com seus protagonistas. Nesta seção do blog que você terá à disposição a partir de agora, serão apresentadas 12 entrevistas ao longo do ano. Neste primeiro momento, escolhi apenas exemplares canônicos dos gêneros narrativos (conto, novela, romance, cordel, história infantil e epopeia) da literatura brasileira. Como estou viciado em ler, escrever e, agora, entrevistar, não duvide que surjam novas temporadas do Talk Show Literário. Espero que todos se divirtam com esta coluna e que se sintam encorajados a iniciar a leitura dos clássicos que ainda não fizeram. Só assim essas entrevistas se tornarão ainda mais saborosas. Apenas não se esqueça do meu conselho: leia com moderação! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário

  • Talk Show Literário: Brás Cubas

    [Ao lado do palco, uma banda de Pop Rock toca a música de abertura do programa. A plateia no auditório acompanha o ritmo da canção batendo palmas. A maioria do público está sorrindo. A cena é registrada pela câmera 1 da emissora de TV, que faz uma tomada panorâmica. A partir de um gesto do apresentador, que está sentado atrás de uma mesa de madeira no centro do palco, todos os sons no estúdio cessam. O silêncio dura um segundo. Ouve-se, então, a voz rouca do âncora da atração. A nova cena é registrada em close pela câmera 2]. Darico Nobar: Olá, amigos e amigas do Talk Show Literário. Sejam muito bem-vindos à estreia deste programa. Eu sou Darico Nobar e vou conversar semanalmente com uma personagem clássica da literatura. Nossos convidados irão se sentar no sofá aqui ao meu lado e falarão sobre suas vidas, suas crenças, seus temores, suas famílias. Cada episódio será dedicado a um entrevistado diferente. Nesta primeira temporada, o talk show se restringirá à ficção nacional. E para começarmos com o pé direito, gostaria de chamar ao palco um dos mais célebres protagonistas dos romances brasileiros: Brás Cubas! [Os aplausos da plateia ecoam pelo auditório quando o convidado aparece]. Obrigado pela sua presença, Brás. É uma honra recebê-lo. [Apresentador e entrevistado se cumprimentam com um forte aperto de mãos]. Brás Cubas: Boa noite, Darico. Sei a honra que estou proporcionando a vocês. Gostaria de começar minha participação efetuando uma pequena correção em seu discurso de abertura. Desculpe-me pela indelicadeza, mas você me anunciou como sendo uma das mais célebres personagens da nossa literatura, não foi? Acho que não precisamos ser tão comedidos a esse respeito, principalmente no momento das apresentações. Vamos ser francos com o público que nos assiste em casa e aqui no auditório. Os mais conceituados críticos literários são mais taxativos em relação a esse tema, me colocando na posição mais alta do ranking. Darico Nobar: Você está dizendo que é a principal criação da literatura brasileira?! Brás Cubas: Não sou eu quem diz isso. Longe de mim fazer qualquer inferência em uma questão tão técnica. Só estou reproduzindo a conclusão a que grande parte dos estudiosos chegou. Além disso, por que vocês me chamariam para ser o primeiro entrevistado deste programinha se eu não fosse o número um, hein? Darico Nobar: Você fala sem medo de parecer imodesto. Brás Cubas: A modéstia é a muleta dos fracos. Quem é grande precisa se acostumar logo com a altura elevada de sua posição e com sua natural superioridade. Darico Nobar: Há críticos e acadêmicos que apontam outras personagens como as mais emblemáticas da nossa cultura. Por exemplo, há quem considere Bento Santiago como... Brás Cubas: Darico, você não está me comparando ao Bentinho, está?! Darico Nobar: Oh, Brás, desculpe-me. Esqueci que você e ele não têm uma boa relação. Minha intenção era apenas apresentar o ponto de vista de outros... Brás Cubas: Vou ser honesto com você e com sua plateia a este respeito: não conheço pessoalmente o Sr. Santiago. Encontrei-o rapidamente em alguns eventos literários sobre o Machado, mas não trocamos mais do que meia dúzia de palavras nesses anos todos. Só o conheço pelo que ele escreveu em sua autobiografia e pelo que falam sobre sua antiga esposa. Por isso, não se pode dizer que não temos uma boa relação. Apenas não temos um contato mais próximo nem somos amigos. Darico Nobar: É verdade o que tem saído em algumas revistas literárias que você teria ciúmes ou inveja dele? Brás Cubas: Como posso sentir inveja ou ciúmes de um galheiro?! Para mim, não há dúvidas de que Capitu o traiu. Onde já se viu um marido manso de esposa generosa ser uma personagem literária maior do que a minha ilustre figura?! Só alguém desprovido de inteligência ou de sensibilidade artística poderia afirmar algo assim. Darico Nobar: Você chegou a ter um caso amoroso com Maria Capitolina após as publicações de Memórias Póstumas e de Dom Casmurro? Brás Cubas: Essa pergunta você tem que fazer ao Escobar, não a mim. É ele o principal suspeito de ter frequentado a cama da residência dos Santiago. O que posso dizer é que Capitu é uma formosura de mulher e que atrai a atenção de qualquer homem. Aqueles olhos dela mexem com a imaginação masculina. Eu a vi em várias oportunidades lá no bairro do Engenho Novo, onde ela morava e onde eu e a Virgínia tínhamos uma casinha. Admito que se a esposa do Bentinho me desse alguma intimidade, montava na hora outro lar para a Dona Plácida administrar. Darico Nobar: Aproveitando que você citou a casa no Engenho Novo, gostaria de saber se Virgínia foi mesmo o grande amor da sua vida. Brás Cubas: Não sei se posso afirmar isso. Várias mulheres foram importantes na minha vida, cada uma em seu momento. Acho que a relação com a Virgínia tenha sido a mais duradoura. Fiquei um pouco constrangido, admito, por ela ter se comportado de forma tão passional no enterro do Lobo Neves. Às vezes, penso que ela estava apenas interpretando o papel de esposa honrada. Virgínia sempre foi uma boa atriz. Por isso, creio que fui sim o grande amor da vida dela. Darico Nobar: Você sente alguma mágoa da Marcela? Brás Cubas: De maneira nenhuma! Ela foi uma companhia adorável. Adorável e cara! Aproveitei o quanto o dinheiro do meu pai permitiu. Não me arrependo de nenhuma parte da nossa história. Nada como o primeiro amor para ensinar muitas coisas que um homem precisa saber sobre a vida e sobre as mulheres. Darico Nobar: Você se arrepende por nunca ter se casado? Brás Cubas: A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi não ter contraído o matrimônio. Disso eu tenho orgulho! Darico Nobar: Por quê? Brás Cubas: Casamento é doença, uma praga que corrói relacionamentos. Eu e Virgínia só tivemos um belo caso de amor por anos porque não éramos casados. Se eu fosse o marido dela como meu pai queria, o amante dela seria o Lobo Neves. Aí, eu ficaria com a pior parte na divisão de tarefas. Além do mais, nenhuma mulher gosta realmente de seu marido. Basta subir no altar para ele se transformar no pior homem do mundo. Em relação à Marcela, tive sorte. Aproveitei para usufruir dela enquanto a beleza e a juventude ainda estavam presentes em seu corpo. Seria uma lástima tê-la ao meu lado na velhice e na doença. Darico Nobar: Isso é o que eu posso chamar de um homem vivo! [Plateia ri timidamente]. Afinal, Brás, por que você resolveu escrever um livro de memórias? Brás Cubas: A princípio, eu não queria escrevê-lo. Dá muito trabalho produzir um romance e eu não sou homem de perder tempo trabalhando. Como um prestigiado burguês do final do século XIX, tenho uma reputação a zelar. O problema foi que muita gente no Rio de Janeiro começou a falar que eu era um vadio e que não havia construído nada de significativo em minha vida. Se ao menos eu tivesse tido tempo para provar a eficácia do Emplastro Brás Cubas... Contudo, não tive essa oportunidade. Assim, para mostrar meu verdadeiro valor para essa sociedade mesquinha e intrigueira, aproveitei que tinha muito tempo livre lá no Purgatório, esperando a decisão do Tribunal Celestial, e escrevi minhas memórias. Darico Nobar: Sei que parece fofoca falarmos disto agora, mas é verdade que o Tribunal Celestial o condenou, em segunda instância, à vilania dos romances realistas? Há quem diga que você só saiu do Inferno depois de pagar propina aos juízes das instâncias superiores. Brás Cubas: Não falo desse assunto! Como você mesmo disse, trata-se apenas de boataria que o povo gosta de contar, algo que um homem do meu status deve sempre evitar. O importante é que sou um protagonista e não um mero coadjuvante literário. Se sou vilão, herói ou anti-herói, não importa. O relevante é que sou o astro de um dos maiores romances da história da humanidade. Assim, mereço mais respeito de todos. Se eu tivesse sido enviado ao Inferno, como me acusam, não estaria conversando agora com você, Darico. Acho que isso explica tudo. Além do mais, se eu tivesse comprado minha entrada no Paraíso teria sido mais um ótimo investimento feito com minha fortuna. Dinheiro é para ser gasto, não é? E as coisas boas da vida e da morte são para serem compradas. Não vejo problema nenhum nisso. Darico Nobar: Por falar em tipos de personagem, como está sua relação com o Quincas Borba? Você se sente traído por ele ter se tornado também um protagonista após ter sido um coadjuvante em seu livro? Brás Cubas: Mantenho a amizade com o Quincas até hoje. Nunca senti ciúmes dele. Fiquei até feliz por ele ter se tornado personagem principal de um livro só seu, apesar de eu ter sido muito mais generoso com ele em minha obra do que ele foi comigo na dele. Repare que cedi muito mais linhas à personagem dele em Memórias Póstumas de Brás Cubas do que ele à minha no Quincas Borba. O que me deixa tranquilo é que seu protagonismo foi inferior ao meu. Estou sempre brincando com ele: "Quincas, você foi melhor como meu coadjuvante do que exercendo o papel de protagonista do Machado". Ele, com aquele jeito humilde e risonho, concorda comigo. Somos bons amigos há muitos anos e temos a liberdade para falar a verdade um para o outro sem qualquer receio. Darico Nobar: Vou ler o último trecho do seu romance: "Ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Você não acha este um desfecho muito pessimista para sua obra? Brás Cubas: Há quem considere esse final brilhante, não se importando nem um pouco com o viés negativo da mensagem. Acho que fui sincero no meu arremate. Essa minha característica é o ponto alto de minhas memórias. Fui honesto em todos os momentos da narrativa. Acho que é isso o que assusta alguns leitores mais conservadores. Ninguém fala que outros livros do Machado terminaram de forma sombria. O que dizer do desfecho de A Mão e a Luva ou de Dom Casmurro, por exemplo? Eles também são pouco otimistas e, o que é pior, são muito imprecisos em suas conclusões. Por ser uma obra de maior relevância, Memórias Póstumas de Brás Cubas é alvo de um número maior de questionamentos e críticas. Esse é o preço que pago e que terei de pagar sempre pela minha grandiosidade literária. Darico Nobar: Nossa entrevista se encerra por aqui, Brás. Muito obrigado pela sua presença em nosso programa. Foi um prazer conversar com você. Brás Cubas: Sei disso. Boa noite. [Novos aplausos vêm da plateia]. Darico Nobar: Pessoal, obrigado pela companhia de vocês nesta noite [Fala olhando para a câmera 2]. No mês que vem o Talk Show Literário volta neste mesmo horário. Não percam nossa segunda entrevista. Até lá e boa semana a todos! [Os músicos da banda voltam a trabalhar. A plateia acompanha mais uma vez a canção com palmas ritmadas. O entrevistado sai do palco sem olhar para os lados e sem se despedir de ninguém. Ele caminha com pressa em direção ao camarim. O apresentador fica mais um pouco em seu lugar até a transmissão ser interrompida. Uma nova atração entra na programação da emissora]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #MachadodeAssis

  • Talk Show Literário: Gabriela

    [O assistente de palco levanta a placa com a inscrição "3 minutos". Depois de sessenta segundos, uma nova sinalização é erguida: "2 minutos". Na sequência, surge a de "1 minuto". Por fim, o jovem funcionário da emissora ergue a placa "No Ar". A luz vermelha do estúdio se acende e todos começam a trabalhar em silêncio. As câmeras são apontadas para o apresentador. O público no auditório prende a respiração]. Darico Nobar: Boa noite! Estamos ao vivo para todo o país com mais um Talk Show Literário, o novo programa de entrevistas da televisão brasileira. Neste mês, vamos receber uma das mais carismáticas personagens da literatura nacional. Essa criação de Jorge Amado saiu das páginas dos livros e ganhou notoriedade também nas salas de cinema, nos palcos dos teatros e nas telas de TV do mundo inteiro. É com imenso prazer que chamo, aqui na frente, Gabriela! [Aplausos e assobios vêm da empolgada plateia sentada no auditório]. Muito obrigado pela sua presença. Gabriela: É muito legal estar aqui. Oi, pessoal! Plateia: Ooooooooooooooi! Gabriela: Quanta gente, Seu Darico! Darico Nobar: Pode me chamar apenas de Darico. Sem formalidades, por favor. O auditório está mesmo superlotado hoje. Tem gente até de pé na plateia. Gabriela: Olhe lá atrás, Seu Darico. O público do fundão não está conseguindo me ver direito. Pessoal, se eu ficar de pé no sofá, vocês vão me enxergar melhor? Plateia: Siiiiiiiiiim! Darico Nobar: Aconselho você a ficar sentada. [As palavras do apresentador parecem ser ignoradas pela convidada]. Não é prudente ficar de pé no sofá quando se está usando saia. Vai que bate um vento e... Gabrieeeeeeela! Cuidado! Plateia: Ehhhhhhhh! Darico Nobar: Não é que sua saia se levantou mesmo. Tenha modos e desça daí! [Agora a entrevistada obedece, voltando para sua posição inicial]. Assim está melhor. E, por favor, fique sentadinha no sofá. Ainda mais hoje que você está sem calcinha, pelo que pude notar. Este programa está sendo transmitido ao vivo para todo o Brasil. Gabriela: Nunca uso calcinha nem sutiã. Aperta muito a gente, sabe? O bom mesmo é usar um vestidinho leve e solto como este. Tudo fica bem ventilado nele. A Bahia é um lugar muito quente e se a gente não souber se vestir, morre de calor. Darico Nobar: Outro motivo para você não ficar de pé no sofá. Gabriela: Mas o povo gosta tanto, Seu Darico. Quer ver? Darico Nobar: Não, eu não quero ver... Gabrieeeeeeeeela!!! [A entrevistada ergue-se do sofá e levanta a roupa]. Plateia: Ehhhhhhhh! Darico Nobar: Por favor, moça, sente-se e abaixe sua saia. Isso... Agora sim. Gabriela: O que foi? O senhor não gostou do que viu, Seu Darico? Darico Nobar: A senhora é muito bonita, devo admitir, mas a questão não é essa. Gabriela: O senhor também não é de se jogar fora. O senhor é solteiro? Darico Nobar: Assim fico constrangido. Devo estar vermelho agora, não estou? [O apresentador está realmente ruborizado, mas ninguém responde a sua pergunta]. Deixe-me voltar ao meu papel de entrevistador. Se não, perco o emprego e ainda apanho lá em casa quando voltar. Tenho uma pergunta para fazer: você se casou novamente com o Seu Nacib depois que Gabriela, Cravo e Canela foi publicado? Gabriela: Não. A gente não se casou mais. Na verdade, o nosso casório foi desfeito, anulado. É como se ele nunca tivesse acontecido. Foi o que me falaram na época. Casamento é uma coisa muito chata, fique o senhor sabendo. Uma mulher casada precisa andar de sapatos e não pode passear sozinha pelas ruas da cidade. Não sei como a mulherada aceita uma coisa dessas. Darico Nobar: Então você não está mais com o Seu Nacib? Gabriela: Agora não, porque estou aqui em seu programa no Rio de Janeiro e ele está lá na Bahia cuidando do bar. [Risos da plateia são ouvidos]. Será que o moço bonito está me assistindo? Quando estou em Ilhéus, sou a cozinheira dele. E também moro na mesma casa com ele. A cama é nossa, de nós dois juntinhos. E a gente brinca muito nela, quase todo dia, mas não somos casados não. Nem eu quero, nem ele quer. Estou com tanta saudade dele... Seu Darico, o senhor gosta de brincar? Darico Nobar: Por favor, Gabriela, isso não é pergunta que se faça na televisão. Gabriela: O moço bonito gosta. Sabe o que ele faz sempre comigo? Dê sua mão para mim que eu mostro. Obrigada. Ele gosta de colocar a mão dele aqui dentro do meu vestido, assim, e depois começa a subir... Plateia: Ehhhhhhhh! Darico Nobar: Gabrieeeeeeeeeeela, por favor! Gabriela: Por que o senhor tirou a mão? Não vai me dizer que não gosta? Darico Nobar: Eu já disse que estamos ao vivo! E eu sei muito bem que o Seu Nacib é um homem ciumento. O que ele vai pensar da gente se estiver vendo o programa na televisão? Gabriela: Ele é muito ciumento mesmo. Fica bravo por qualquer coisinha. Darico Nobar: Esse seu cheiro de cravo e canela não sai nunca do seu corpo? Quando você se aproximou de mim, pude senti-lo com mais intensidade. Gabriela: Não sei. Não sinto nada. Deve ser de ficar muito tempo na cozinha do bar. O cheiro dos alimentos passa para mim. Os homens comentam desse meu cheiro. Darico Nobar: É um perfume doce, delicioso... Agora, preciso fazer uma pergunta bem delicada para você. Portanto, pense bem antes de respondê-la. Gabriela: Se for de matemática, vou logo avisando que não sei nada desse assunto! A parte dos números do bar Vesúvio fica toda com o moço bonito. Darico Nobar: Não é nada sobre matemática, prometo. [O apresentador sorri com o jeito espontâneo da entrevistada]. Algumas personagens literárias ficaram marcadas como mulheres infiéis. Emma Bovary e Luísa Carvalho, a prima do Basílio de Brito, por exemplo, carregam até hoje o estigma de adúlteras. Com você, não aconteceu isso, apesar de ter se deitado com o Tonico Bastos. Você se considera uma precursora do movimento feminista e da revolução sexual feminina? Gabriela: Não conheço essas duas que o senhor falou. Por isso, não vou julgá-las. Também não entendi direito sua pergunta... O que sei é que faço o que me dá vontade. Só assim consigo ficar alegre e achar graça no mundo. Acho tão feio quando a pessoa fica se proibindo de fazer as coisas gostosas da vida, seja por medo dos comentários dos outros ou por falta de coragem para ser feliz. Uma mulher, seja ela de qualquer idade, classe social ou período da história, deve fazer aquilo que irá deixá-la satisfeita. E não há nada de errado no fato de um homem e uma mulher se deitarem juntos. Isso é da nossa natureza, não é? Não tem nada a ver com estado civil ou com o tipo de relacionamento que eles mantêm. Darico Nobar: Você já fez alguma coisa na vida em que tenha se arrependido? Gabriela: Nunca pensei nisso... Deixe-me ver... Acho que a única coisa que não faria de novo é me casar com o moço bonito. Darico Nobar: Você não gosta do Seu Nacib? Gabriela: Gosto sim. Gosto muito. Exatamente por isso, não deveríamos ter nos casado. O período da nossa vida mais chato foi quando estivemos oficialmente unidos. Agora que largamos mão disso, as coisas voltaram a ficar numa boa. Quando homem e mulher se gostam, basta ficar juntos para serem felizes. Quando se coloca a Igreja no meio ou se cria muitas regrinhas chatas, aí a chance de o caldo entornar aumenta! Darico Nobar: Quais as três coisas que você mais gosta de fazer lá em Ilhéus? Gabriela: Brincar! Brincar com as crianças na rua, brincar com os homens no quarto e brincar de fazer comida gostosa para os fregueses do bar do Seu Nacib. Darico Nobar: É verdade que Ilhéus se modernizou muito nos últimos anos? Gabriela: É sim! Agora ela é uma cidade muito mais moderna. Tudo graças às famílias Falcão e Magalhães. Se não fosse o Mundinho Falcão Neto e o Antônio Carlos Magalhães, o sul da Bahia não seria uma região tão próspera como é hoje. Darico Nobar: Quais são as atrizes que você mais admira? Gabriela: Gosto muito da Juliana Paes e da Sônia Braga. Elas são lindas! Darico Nobar: Para terminar, preciso saber: qual o segredo do seu tempero? Gabriela: Juro que não sei. Acho que o Seu Amado exagerou ao descrever meus dotes culinários. Sou apenas uma cozinheira convencional que faz tudo com muito capricho. Darico Nobar: Gabriela, obrigado pela sua presença no Talk Show Literário. Plateia: Ahhhhhhhhhhh. Darico Nobar: Como passou rápido essa entrevista, né? Gabriela: Seu Darico, será que eu poderia voltar outra vez em seu programa, outro dia, quem sabe, para a gente conversar mais? Gostei tanto de ficar na frente do público, aparecendo na televisão. Darico Nobar: Claro! Será um prazer recebê-la novamente. Pessoal, até mês que vem e boa noite a todos! [O quinteto musical toca uma canção de encerramento do programa. Os créditos sobem na tela dos televisores do público em casa. Quando as câmeras são desligadas, a luz vermelha do estúdio se apaga. O funcionário que permanecia segurando a placa com os dizeres "No Ar" pode, enfim, descansar. Ele abaixa a sinalização demonstrando grande cansaço nos braços]. Gabriela: Seu Darico, o programa terminou? Darico Nobar: Sim. Gabriela: As câmeras estão desligadas? Darico Nobar: Agora estão. Por quê? Gabriela: Acho que o senhor não viu direito. Tenho uma pintinha de nascença ao lado do umbigo. [A moça levanta a saia]. Olhe! Não é bonitinha? Darico Nobar: Gabrieeeeeeeeeeeeeeeeela! Baixe a saia, por favor! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JorgeAmado

  • Talk Show Literário: Paulo Honório

    Darico Nobar: Boa noite, Brasil! Eu sou o Darico Nobar e você está assistindo ao Talk Show Literário. [A vinheta de abertura do programa, uma animação computadorizada simulando pessoas conversando em um estúdio, ganha a tela. Os nomes do apresentador e da equipe técnica são mostrados enquanto se ouve a música-tema da atração]. Darico Nobar: Na entrevista de hoje, vamos receber um dos mais respeitados empresários do agronegócio nacional. Com vocês, Paulo Honório! [A plateia aplaude o convidado que surge no auditório e se dirige ao palco. Surpreendentemente, dois homens altos, fortes e armados o seguem. O grupo chega até a parte da frente do estúdio, onde as câmeras estão apontadas e filmam a cena]. Paulo Honório: Agradeço pelo convite, Darico. [O entrevistado senta-se no sofá]. É muito bom estar aqui nesta noite. [A dupla que acompanha o convidado permanece de pé em uma postura intimidatória]. Darico Nobar: Quem são esses homens, Seu Honório?! Eles não podem ficar conosco no palco. Esse lugar é restrito ao entrevistado e ao entrevistador. Paulo Honório: Fique tranquilo. Esses são meus jagunços. Aonde vou, eles vão atrás para me proteger. Darico Nobar: Até durante a entrevista?! Paulo Honório: Eles jamais se desgrudam de mim. Darico Nobar: Nosso auditório é um local seguro, Seu Honório. Além disso, não fico totalmente à vontade conversando com alguém tendo dois brutamontes mal encarados ao meu redor. Paulo Honório: Você tem razão, meu rapaz. Minhas esposas reclamavam da mesma coisa quando íamos para nosso quarto. Casimiro, você e seu primo podem me esperar lá dentro. Está tudo bem aqui. Qualquer coisa, estou com o Trintão. Podem ir! Darico Nobar: Obrigado, Seu Honório, mas quem é esse Trintão? Paulo Honório: É o meu .38. [O convidado mostra o revólver em sua cintura]. Plateia: Ohhhhhhhhhhhh! [O susto é geral no auditório]. Darico Nobar: O senhor está armado?! Paulo Honório: Por que a surpresa? Achei que aqui no Rio de Janeiro fosse normal cabra macho andar carregado. Vi tanta gente com fuzil pelas ruas de alguns bairros. O Brasil seria um país muito mais seguro se a população andasse armada até os dentes. Darico Nobar: O senhor acha o Rio uma cidade perigosa?! Paulo Honório: Viajei para cá para tratar justamente desse assunto com dois colegas políticos, o Jair Bolsonaro e o Marco Feliciano. Vim saber quais são as ideias desses rapazes. Lá em Alagoas, estão falando muito bem deles. Parece que eles querem lançar uma chapa para presidente. Voltando ao tema da criminalidade, tenho visto muitos vagabundos pelas ruas do Rio. Ontem mesmo, estava passeando no calçadão de Copacabana e um menino tentou roubar minha carteira. Nem precisei da ajuda do Casimiro. Saquei o Trintão e meti dez balas no moleque. Não sei como vocês conseguem morar em um lugar assim sem um bom trabuco ao lado. Se eu fosse o coronel desta cidade, já teria passado fogo em muito sem-vergonha por aí. Darico Nobar: Exatamente como o senhor costuma fazer lá no Nordeste? Paulo Honório: E você acha errado?! Devemos ser severos com quem não presta. Vai ver se eu mexo com os rapazes direitos e as moças de família. É claro que não! Darico Nobar: Há quem diga que o senhor passou a perna no Luís Padilha, que era um moço honrado. E têm os boatos que o senhor mandou assassinar o Mendonça, um empresário respeitado na sociedade alagoana e dono da fazenda Bom-Sucesso. Paulo Honório: Esses são assuntos totalmente diferentes. Não têm nada a ver com criminalidade. Esses episódios foram decisões de negócio. A natureza do capitalismo é assim mesmo, meu amigo. Quem nunca ouviu falar da alma selvagem do empresariado?! Darico Nobar: O senhor, então, acha natural matar pessoas para progredir na vida ou para enriquecer? Paulo Honório: É da natureza dos negócios, como falei. [O entrevistado acende um cachimbo, soltando uma nuvem de fumaça pelo estúdio]. Ninguém fala das pessoas que ajudei ao longo da vida, né? Quem deu um emprego e um bom salário para o Seu Ribeiro, mesmo ele sendo um velho preguiçoso? Quem bancou a vida confortável de Dona Glória, mesmo ela sendo uma fofoqueira imprestável? Quem aceitou os caprichos de Madalena para gastar dinheiro com uma escola para crianças estúpidas? Se eu fosse tão ruim como dizem, não teria ajudado tanta gente nas últimas décadas. Darico Nobar: O que aconteceu com o senhor depois da publicação do romance São Bernardo? Pelo que posso ver, seu patrimônio cresceu muito de lá para cá. Paulo Honório: Fiquei um tempo sozinho na minha fazenda. Apenas o meu cachorro e o Casimiro Lopes, que você já conheceu, ficaram ao meu lado nesse período difícil. Depois que a tristeza pela viuvez de Madalena passou, resolvi empreender outra vez. Tive novos desentendimentos com os vizinhos, é verdade. Também fiz outras parcerias com os políticos locais e ganhei a amizade dos juízes da região. Assim, pude quintuplicar o tamanho da fazenda São Bernardo. Com um projeto de irrigação que o governo do estado patrocinou, hoje minha fazenda é a mais produtiva do Nordeste. Produzimos mais de dez tipos de culturas agrícolas e temos gado de corte e de leite. Darico Nobar: Ou seja, o senhor se transformou em um empresário de renome nacional. Paulo Honório: É o que os inimigos falam... [O convidado ri da própria fala]. Darico Nobar: No começo da entrevista, o senhor mencionou ter tido "esposas", um termo no plural. O senhor se casou outra vez depois da morte de Madalena? Paulo Honório: Sim, me casei mais duas vezes. Sabe como é: homem sem mulher em casa não vive direito. Porém, eu aprendi muito com o meu primeiro casamento. Prometi para mim mesmo que nunca mais casaria com moça comunista nem com mulher com a cabeça entupida de modernidade. Foi o que fiz. Minha segunda esposa foi a Patrícia, uma das netas do Mendonça. Ela era uma mulher encantadora. Não dava trela para os empregados e sabia mandar como um general. Diziam que perto dela eu era um anjinho. A bichinha era um capeta de brava com todo mundo. Darico Nobar: E o que aconteceu com ela? Paulo Honório: Infelizmente, acabou morrendo ainda jovem. [Uma nova tragada no cachimbo produz outra grande nuvem de fumaça]. O pessoal diz que eu tinha muito ciúmes dela, mas não é verdade. Não a envenenei quando ela passou a dar mais atenção ao meu filho do que a mim. Isto é tudo maldade que sai da boca do povo. Darico Nobar: O senhor teve mais filhos? Com a Madalena sei que teve um. Paulo Honório: Tive três filhos homens. "Filho mulher" não conta, né? Com a Madalena tive um, mas nunca falei com o menino. Nem sei por onde ele anda. Acho que Dona Glória o levou quando saiu da fazenda. Acho que foi isso... Com a Patrícia, tive outro filho homem. O rapaz começou a trabalhar cedo lá em São Bernardo e hoje é um dos meus melhores empregados. Sempre esqueço o nome dele. Se o Casimiro estivesse aqui, perguntava para ele. Ele tem uma memória melhor do que a minha. Darico Nobar: Agora o senhor está casado pela terceira vez? Paulo Honório: Não. Estou novamente viúvo. Acho que essa é uma sina que tenho. Minha última mulher era filha de um empregado da fazenda. Era uma moça muito boa e prendada, cinquenta anos mais nova do que eu. Não opinava sobre nada e era muito obediente, como uma esposa deve ser. Um dia, contudo, ela sumiu e nunca mais apareceu. O Casimiro foi atrás dela e só achou a mala abandonada. Há quem diga que tenha fugido por não aguentar minha truculência. Mas isso também é intriga do povo. Darico Nobar: Vocês tiveram mais um filho, certo? Paulo Honório: Acho que tivemos um rapaz, sim. Não lembro direito... Ele deve estar agora com alguém lá na fazenda ou a mãe deve tê-lo levado quando fugiu de casa com o amante. Espero que o Casimiro tenha passado fogo na criança também. De preferência com o mesmo tiro que matou a mãe e o amante dela. Assim, economizo. Há pessoas nesse mundo que não valem o preço da bala do revólver da gente. Darico Nobar: Quais foram as pessoas que mais o ajudaram nessa impressionante ascensão de garoto pobre que vendia cocada a empresário de sucesso? Paulo Honório: A Negra Margarida, o sapateiro Joaquim e os senadores Fernando Collor de Mello e Renan Calheiros. Sem eles, eu ainda seria um pobre analfabeto ou um empresário de pequeno porte. Darico Nobar: Mais ninguém? Paulo Honório: E a mim mesmo, né? Porque se eu não tivesse arregaçado as mangas e enfrentado as dificuldades da vida, não teria chegado aonde cheguei. Darico Nobar: Para chegar onde o senhor está agora, quantas pessoas precisou... Como posso dizer? Quantas pessoas o senhor... Teve de tirar do seu caminho? Paulo Honório: Matar, você quer dizer. Não tenho vergonha em falar sobre isso. A vida não é fácil para ninguém, ainda mais no campo, lá em Alagoas. Todos os dias, precisamos enfrentar nossos inimigos de frente. Se não os matarmos, seremos mortos por eles. O que você prefere: ver alguém na horizontal ou amanhecer com a boca cheia de formigas?! As mortes são ossos do ofício. Quando se deseja empreender no Brasil, é necessário aceitar as regras duras do jogo. Não é possível ser bem-sucedido e ao mesmo tempo ser bonzinho. Empresário que paga todos os impostos, que é amigo dos funcionários, que faz parceria com os fornecedores, que agrada os clientes, que não polui o meio ambiente e que tem uma relação impessoal com os governantes não vai longe. Se não eliminarmos nossos concorrentes, eles acabam conosco primeiro. Darico Nobar: Pessoal, este foi o polêmico Paulo Honório! [Os aplausos da plateia são agora comedidos]. O Talk Show Literário volta no mês que vem com mais uma conversa com uma grande personalidade da nossa literatura. Boa noite a todos e até o nosso próximo episódio. [No instante em que a banda toca a música de encerramento do programa e todos começam a se preparar para deixar o auditório, ouvem-se dois tiros sendo disparados]. Darico Nobar: O que é isso?! [O apresentador pula aterrorizado da sua cadeira. Muitas pessoas na plateia se atiram no chão assustadas]. Paulo Honório: Não é nada de mais, Darico. Só dei dois tiros para cima para avisar o Casimiro que o programa acabou. Olha ele aí. Casimiro, podemos ir embora. Vá buscar meu carro. Até a próxima, Darico. Boa noite! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. 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  • Talk Show Literário: Santiago

    Darico Nobar: Olá, amigos e amigas apaixonados pelos livros. No Talk Show Literário desta noite, teremos um entrevistado internacional. Nosso programa está ou não está ficando importante, hein?! Vamos receber com muita alegria, em nossos estúdios, Santiago, o mais famoso pastor de ovelhas da literatura mundial. [Plateia aplaude com entusiasmo o convidado que se dirige vagarosamente ao sofá]. Santiago: Darico, hoje é um dia muito especial para mim, pois estou realizando um antigo sonho. Sempre quis participar de um programa de literatura como o seu. Depois de tanto tempo batalhando para concretizar esse desejo, finalmente consegui alcançá-lo. Nessas horas, gosto de repetir a seguinte mensagem: "Jamais percas a esperança! É ela que te faz persistir dia após dia em busca das tuas grandes realizações". Darico Nobar: Fico honrado ao ouvir essas palavras. Não imaginava que uma personagem tão famosa quisesse nos visitar. Diga-me, Santiago, onde você aprendeu a falar português? Você fala perfeitamente como um brasileiro. Santiago: Como se no Brasil alguém falasse português de maneira perfeita. [Risos]. Plateia: Ohhhhhhhhhh! [O suspiro coletivo indica que o auditório ficou ofendido com o comentário]. Santiago: Brincadeiras à parte, eu aprendi o português com a minha família. O meu verdadeiro pai é brasileiro. Apesar de ele ser um homem simples e pouco estudado, que não domina até hoje seu idioma natal, cresci em casa ouvindo tanto o espanhol quanto o português. Contudo, não gosto de pensar as línguas como unidades autônomas e segregadas. A humanidade fala uma única língua, apesar de as palavras adquirirem formas distintas em cada cultura. Somos todos irmãos e possuímos um mesmo código linguístico, que é o amor. Essa é a principal lição que precisamos tirar das nossas vidas. O amor deve pautar nossas relações e nossa comunicação. Darico Nobar: Gosto de conversar com você porque em todas as suas frases parece existir uma mensagem filosófica ou religiosa embutida. Santiago: Se formos analisar atentamente, não são os meus discursos ou os meus textos que são assim, mas as nossas vidas, de forma geral, que possuem tal propriedade. O problema é que as pessoas não têm tempo para extrair a beleza e os ensinamentos que recebem o tempo inteiro da Mãe-Natureza. Como pastor de ovelhas, que passa o dia a contemplar a fauna e a flora, tenho os olhos e o coração treinados para essas coisas. É como sempre digo: "O que nossos olhos não são capazes de ver, nosso coração é". Os dois se complementam harmonicamente. Darico Nobar: Mesmo O Alquimista sendo um best-seller mundial, no Brasil há muita gente que gosta de questionar o valor literário da sua obra. Santiago, você se incomoda quando criticam a qualidade do seu livro? Santiago: Acho engraçada essa relação dos seus conterrâneos com o Paulo Coelho. Quem é o leitor médio brasileiro para analisar um escritor, apontando-o como sendo bom ou ruim?! Seu povo pode avaliar com domínio de causa a qualidade dos jogadores de futebol, a excelência dos atores das telenovelas, o nível de corrupção dos governantes, o sabor das frutas tropicais e os índices de violência nas grandes cidades. Entretanto, não pode abrir a boca quando o assunto é literatura. Uma nação que não sabe ler nem escrever direito ou uma população que lê menos de um livro por ano em média não pode se julgar apta a fazer críticas literárias. O que mais ouço quando venho ao Brasil é: "Nunca li Paulo Coelho e não gosto dele". Esse é o único lugar do mundo em que se avalia algo sem se conhecer... E as pessoas acham isso natural. Darico Nobar: Concordo que é preciso ler a obra e o escritor para depois julgá-los. Por isso, quero saber sua opinião. Como leitor de O Alquimista, e não como um protagonista do seu enredo, você acha este um bom livro? Santiago: Acho sim. Trata-se de uma ótima parábola. Quem não sabe o que significada esse termo, eu explico: parábola é uma história breve, com texto simples e com uma temática universal que transmite de maneira direta ou indireta lições de moral. Nesse sentido, O Alquimista cumpre muito bem sua proposta. Exatamente por isso, conseguiu encantar tantos leitores nos quatro cantos do planeta. Darico Nobar: Então, a crítica brasileira sobre Paulo Coelho é injusta? Santiago: Muitos afirmam que as parábolas do José Saramago, do Italo Calvino, do Antoine de Saint-Exupéry e do Ernest Hemingway são boas porque possuem uma linguagem coloquial, um enredo simples e uma trama universal. Por que, então, essas mesmas características são apontadas como os principais defeitos das obras de Paulo Coelho? Estranho isso, né? O que nos outros autores é qualidade, no Senhor Coelho é demérito. Não é à toa que dizem que os brasileiros têm "Complexo de vira-lata". Darico Nobar: Você não acha errado o livro se chamar O Alquimista se a principal personagem é um pastor de ovelhas? O correto não seria chamá-lo de O Pastor? Santiago: Interessante essa pergunta! Nunca tinha parado para refletir a esse respeito. Talvez a mensagem principal do romance esteja no fato do verdadeiro alquimista ser aquele que transforma coisas banais em artigos valiosos. Mesmo tendo uma personagem secundária que descobriu como produzir ouro - sendo, assim, um alquimista legítimo-, acredito que o meu papel na trama tenha sido o de mostrar ao leitor que episódios e acontecimentos corriqueiros da vida também podem ser transformados em situações extremamente valiosas. Todos aqueles que seguem seus sonhos e conquistam aquilo que almejam estão produzindo riqueza. São esses os "alquimistas" da vida real. O título, portanto, é uma metáfora bonita sobre a produção e a conquista da verdadeira fortuna: a felicidade genuína. Darico Nobar: Uau! Gostei dessa resposta. Fiquei até arrepiado. Você é um homem religioso, Santiago? Santiago: Ser religioso é ser ao mesmo tempo humilde em relação ao seu papel na sociedade e crente na sua obrigação de edificar um mundo mais justo, saudável e melhor para todos. Dessa maneira, sou sim religioso. Acredito que ao nascermos, cada um de nós ganhe uma "lenda pessoal" que deve ser seguida. Para isso, precisamos ouvir a voz misteriosa que nos sopra internamente todos os dias. Desprezá-la é descumprir a vontade divina e desperdiçar nossa verdadeira vocação. Darico Nobar: Você é católico? Santiago: Acredito nas palavras de Jesus Cristo e na filosofia de vida de seu Pai. Se isso é ser católico, cristão ou qualquer outro nome que você queira dar, sou sim. Darico Nobar: Não é um tanto perigoso abordar aspectos relacionados à religião em uma obra literária? Será que grande parte da crítica em relação à qualidade do seu livro não seja originária do preconceito que algumas pessoas possuem sobre os elementos místicos, sobrenaturais ou religiosos, temas centrais de O Alquimista? Santiago: Não existe nada mais místico e sobrenatural do que a nossa vida. Você já parou para pensar sobre isso? Há milhares e milhares de coisas no nosso dia a dia que não conseguimos explicar através da ciência. E talvez nunca consigamos. A religiosidade surge para suprir esse vácuo deixado pela inoperância da ciência. Como poderia a literatura, que é um espelho ou um retrato da nossa vida real, abandonar esses elementos tão humanos? Impossível! Eu costumo dizer: "A vida está contida na literatura e a literatura, por sua vez, está embutida na vida. E ambas andam de mãos dadas com o sobrenatural". Darico Nobar: Santiago, qual foi o momento mais complicado que você precisou superar em sua vida? Santiago: Acredito que tenha sido no início da minha viagem ao Egito, logo que cheguei à África. Naquele instante, não tinha certeza do meu destino e, para completar, tive todo o meu dinheiro roubado. Aí, pensei: "Pronto. Agora minha viagem terminou. Vou voltar para Andaluzia e retomar minha vida de pastor. Não tenho mais condições de alcançar meus sonhos". Darico Nobar: Você, porém, não retornou e batalhou até chegar ao Egito. E lá descobriu que sua fortuna estava na Espanha, em um local por onde já tinha passado... Santiago: A vida prega cada peça na gente, né? Por mais que nos esforcemos, por mais que batalhemos e por mais que viajemos aos quatro continentes, sempre descobrimos que nossa fortuna está em casa, bem perto da onde estávamos no início da caminhada. Essa constatação me faz recordar as jornadas dos pássaros. Por mais que eles voem pelo planeta inteiro, eles sempre retornam para uma árvore que chamam de lar. É ali que constroem seus ninhos e criam seus filhotes. Eu gosto de citar uma frase que trata dessa questão: "Podem existir galhos maiores, mais bonitos e mais confortáveis, mas nenhum é melhor do que o da nossa própria árvore". Darico Nobar: Suas explicações possuem uma forte carga reflexiva. Por que você não se apresenta como filósofo ao invés de pastor? Eu o vejo muito mais como um pensador contemporâneo do que como um criador de ovelhas. Santiago: Sou antes de tudo um pastor. É durante a observação de minhas ovelhas que extraio os melhores aprendizados sobre a vida. Infelizmente, o ser humano não é, na maioria das vezes, um animal racional, sensato e confiável como acredita ser. Observando o comportamento dos meus semelhantes, acabo não coletando muita coisa útil. Por isso, me vejo mais como um criador de ovelhas e um apreciador da Mãe-Natureza. Na minha visão, são as pessoas mais simples e os indivíduos que estão em contato direto com a fauna e com a flora aqueles que possuem as maiores sabedorias. Darico Nobar: Pessoal, vamos dar uma salva de palmas para o Santiago, que veio da Espanha até aqui para participar do nosso talk show. [Plateia atende ao pedido do apresentador]. Obrigado pela sua presença. Ela enriqueceu muito nosso programa. Santiago: A riqueza é o valor que damos para as coisas ao nosso redor e não para o que elas valem de fato. Identificar o joio do trigo é a arte da vida feliz... Darico Nobar: Boa noite, galera, e até o próximo Talk Show Literário! Santiago: ... Se pensarmos bem, a noite nunca acaba. Essa é a mensagem que Deus quis passar quando... [O microfone do convidado é cortado, não sendo mais possível ouvir seu áudio]. [A banda toca a música de encerramento do programa. Os créditos sobem na tela e o convidado continua falando com o apresentador. A impressão é que a conversa irá durar horas]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #PauloCoelho #TalkShowLiterário

  • Talk Show Literário - Aurélia Camargo

    Darico Nobar: Boa noite! O Talk Show Literário deste mês tem como convidada uma das mais distintas e belas damas da corte carioca do final do século XIX. Aurélia Camargo, por favor, venha para o palco. [O auditório aplaude e assobia]. Aurélia Camargo: Olá, Darico. Olá, plateia. Confesso que estou um pouco nervosa por estar aqui nesta noite. Veja como estou tremendo... [A entrevistada mostra suas mãos ao apresentador]. Não estou acostumada a aparecer na televisão. Darico Nobar: Você nervosa?! Essa é uma grande novidade. A última pessoa do mundo que imaginaria tensa é Aurélia Camargo. Você é uma das mulheres com maior autocontrole da literatura brasileira. Suas mãos, inclusive, não parecem nem um pouco trêmulas. Como você consegue ser tão tranquila? Aurélia Camargo: Obrigada pelo elogio. O autocontrole é algo que devemos exercitar diariamente. Os momentos mais complicados da vida exigem altas doses de lucidez e de serenidade. Paradoxalmente, são nessas ocasiões quando as pessoas costumam perder a calma. Para mim, não faz sentido encarar uma adversidade sem o controle absoluto do nosso estado mental. Por isso, procuro estar sempre tranquila e refletindo racionalmente sobre cada questão complicada que vivencio. Darico Nobar: Essa sua característica não pode ser confundida, às vezes, com frieza emocional? Você já foi acusada de ser uma psicopata e de ser uma mulher desprovida de sentimentos, não foi? Aurélia Camargo: As personagens masculinas podem ser apresentadas como portadoras de grande domínio psicológico. O leitor acha bonito ver homens determinados a alcançar seus objetivos, heróis destemidos frente aos perigos, sujeitos que desafiam os valores sociais do seu tempo e que fazem valer suas vontades. Agora, quando uma mulher se comporta dessa forma é um choque cultural imenso. Se ela for bonita, pior ainda. Somos chamadas de sexo frágil e retratadas na literatura como passionais e, de alguma forma, desequilibradas emocionalmente. Não aceito esse estigma. Se me veem até hoje de maneira pejorativa, a culpa não é minha e sim da sociedade que perpetua o machismo. Darico Nobar: Em contrapartida, você precisa concordar que mesmo no século XXI não é comum a esposa "comprar" o marido. A proposta de casamento que você fez ao Fernando Seixas é algo bem inusitado ainda hoje, não é? Aurélia Camargo: Discordo totalmente desse ponto de vista. Atualmente, essa prática é muito comum. E acredito que ela sempre foi muito popular ao longo dos séculos. A diferença é que ninguém assume tão explicitamente a mercantilização do matrimônio como eu fiz em Senhora. Na sociedade capitalista, tudo é movido pelo dinheiro. Há muitas mulheres ricas, velhas e feias se relacionando hoje em dia com meninões fortes, bonitos e sem dinheiro. Não vai dizer que é o amor que move os sentimentos desses rapazes?! Talvez o incomum da minha história esteja no fato de uma mulher bonita fazer isso no século XIX. Se os homens faziam tal prática naquela época porque nós não podíamos também?! Posso citar vários cavalheiros que compraram o amor de suas mulheres na literatura brasileira e mundial. Darico Nobar: Revelar ao marido tal situação em plena noite de núpcias não é um tanto sarcástico?! Não me recordo de um homem ter feito isso com sua esposa como você fez com o Fernando logo após a cerimônia de casamento. Aurélia Camargo: Os homens não precisam fazer esse tipo de revelação porque está tudo claro socialmente. Ao se casarem, eles se tornam proprietários das suas mulheres, podendo usar e abusar delas. Com certeza, você jamais encontrará um homem que precise expor essas condições a sua esposa. Todos sabem disso desde que nascem. No meu caso, contudo, era diferente. O Nando estava pensando que iria ser um marido convencional. Daí, a necessidade de explicar a ele as condições do contrato matrimonial. Se eu esperei a noite de núpcias para fazer o comunicado foi para não estragar a festa de casamento. Ao menos ele pode aproveitar a cerimônia religiosa e a celebração sem se aborrecer. Ou seja, se eu fosse mesmo uma pessoa cruel como me acusam, não teria adiado ao máximo o detalhamento do contrato. Darico Nobar: Sei que você e o Fernando Seixas viveram momentos tensos até se acertarem definitivamente no casamento. Senhora termina com o casal de protagonistas perdidamente apaixonado. Como foi a vida conjugal de vocês após a publicação do romance? Aurélia Camargo: O José de Alencar não contou o restante da história do meu casamento porque ele faleceu dois anos após o lançamento do livro. Se ele tivesse vivido um pouco mais, tenho certeza que narraria as fases subsequentes do meu matrimônio. Quem sabe não teríamos Senhora 2 e Senhora 3! Darico Nobar: O que José de Alencar teria para contar de tão interessante? Aurélia Camargo: O meu relacionamento com o Nando foi sempre muito diferente daquele praticado pela sociedade burguesa da época. Enquanto ele ficava em casa cuidando dos filhos e administrava toda a rotina doméstica, era eu quem gerenciava a minha herança. Fui provavelmente a primeira mulher de negócios do Brasil. Darico Nobar: Que revelação incrível, Aurélia! E o Fernando Seixas concordou com essa condição subalterna dentro de casa? Aurélia Camargo: Ele não teve alternativa. Afinal, sempre fui eu quem mandou e desmandou em tudo. O Nando teve de assinar um novo contrato aceitando essa condição. Eu só desfiz o primeiro acordo porque havia me esquecido de colocar várias cláusulas importantes nele. Fizemos isso em segredo. Nem mesmo o José de Alencar ficou sabendo desse novo documento. Se soubesse, talvez não tivesse colocado um desfecho tão romântico para Senhora. Darico Nobar: Quais foram as cláusulas que você fez questão de acrescentar ao contrato? Aurélia Camargo: Foram coisas banais do dia a dia: a obrigação do meu marido de trabalhar em casa e de cuidar dos filhos; a proibição de traição por parte dele; a minha total liberdade sexual; e a isenção da participação dele na minha fortuna. São cuidados que uma mulher poderosa que se casa com um homem pobre, bonito e interesseiro deve sempre ter. Darico Nobar: Estou perplexo com essas revelações... Já estou imaginando as manchetes dos principais tabloides literário de amanhã: "Casamento de Aurélia e Fernando Seixas foi realmente uma armação", "Aurélia Camargo escravizou o marido em sua casa" e "Casal Seixas nunca foi feliz de verdade"... Aurélia Camargo: Pera aí, Darico! Quem disse essas coisas?! Eu não falei nada disso. Você que está fazendo suposições equivocadas. Meu casamento com o Nando é bem-sucedido sim! O fato de termos um contrato estipulando o que podemos e o que não podemos fazer não indica que não somos apaixonados um pelo outro. Somos muito felizes até hoje. Além disso, me parece machista crer que um homem não possa se realizar cuidando dos filhos e da casa. Ao mesmo tempo, por que uma mulher não pode exercer o papel de provedora e líder da família? Darico Nobar: É verdade! Desculpe-me a interpretação errônea, Aurélia. Meus preconceitos me fizeram supor algo equivocado sobre seu casamento. E por falar em machismo, tenho uma curiosidade: você não adotou o nome do seu marido após o matrimônio. Afinal, você sempre foi conhecida como Aurélia Camargo e não como Aurélia Seixas ou Aurélia Camargo Seixas. Por quê? Aurélia Camargo: Eu é que pergunto: Por que nós mulheres devemos sempre adotar o sobrenome do marido? Essa é outra convenção social absurda e desatualizada. Na atual legislação brasileira, que poucos conhecem de fato, o marido pode incorporar o sobrenome da esposa ao invés dela adotar o dele. Foi o que aconteceu conosco. No novo contrato que o Nando assinou, ele passou a se chamar Fernando Seixas Camargo. Até hoje não sei por que ninguém o chama assim. Acho que é o machismo da nossa sociedade outra vez imperando. Darico Nobar: Você se considera uma mulher à frente do seu tempo? Aurélia Camargo: Considero-me uma mulher sensata. Se eu estou à frente ou atrás do meu tempo, isso não importa. O mais relevante para mim é ser coerente com meus valores e com minhas opiniões. Acredito que devemos nos comportar como acreditamos ser o correto e não como a sociedade nos obriga. Darico Nobar: Você tem algum parentesco com a Hebe Camargo? Aurélia Camargo: Sim. Ela era uma sobrinha-neta muito querida. E, diferentemente de mim, não ficava nervosa diante das câmeras. Por outro lado, quero deixar claro que não tenho qualquer grau de parentesco com nenhuma família de música sertaneja. Darico Nobar: Para encerrarmos esta entrevista, uma pergunta delicada: você sempre foi fiel nesses anos todos de casamento? Pergunto isso porque você citou uma cláusula em seu novo contrato matrimonial que lhe conferia liberdade sexual. Aurélia Camargo: A conversa estava tão boa, Darico! Você precisava baixar o nível com uma pergunta tão machista?! Não vejo o menor sentido nela e não me sinto obrigada a respondê-la. O que posso dizer é que sempre amei muito meu marido. Darico Nobar: Então, você foi e é uma esposa fiel! Aurélia Camargo: Novamente, você está fazendo inferências vagas a respeito de minhas respostas. Eu não disse isso, mas também não falei o contrário. Minha vida sexual é um assunto privado. Ele não interessa a ninguém, além de mim, do meu marido, do meu ginecologista, dos meus parceiros e de minhas queridas parceiras... Darico Nobar: Pessoal, essa foi a entrevista com a bela e corajosa Aurélia Camargo! Plateia: Ahhhhhhhhhh! [Público se lamenta pelo fim da conversa]. Darico Nobar: Quando a entrevista é boa, passa rapidinho mesmo. Obrigado pela sua visita, Aurélia. Sempre é um grande prazer conversar com você. Aurélia Camargo: Sou eu quem deve agradecer pelo convite, Darico. Da próxima vez que vier aqui, prometo tentar ficar menos nervosa diante das câmeras. Quem sabe, mais descontraída, eu não faça revelações bombásticas. Só não prometo trazer o Nando junto porque à noite não tenho ninguém para ficar com as crianças em casa. Darico Nobar: Combinado! Galera, até o próximo Talk Show Literário. Até mês que vem e boa noite a todos! -------------------------------------------------------- O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JosédeAlencar

  • Talk Show Literário: Catarina Paraguaçu

    Darico Nobar: Boa noite, Brasil. Hoje, tenho aqui ao meu lado a bela índia Catarina Paraguaçu. Esposa de Diogo Álvares Correia, ela é personagem do épico Caramuru e será nossa convidada neste Talk Show Literário. [Os aplausos da plateia ressoam pelo auditório]. Olá, Catarina Paraguaçu, tudo bem? Catarina Paraguaçu: Tudo ótimo, Darico. É muito bom conversar com você. Darico Nobar: É um prazer recebê-la em nosso programa. A senhora é a primeira indígena que nos visita, sabia? O Macunaíma já veio aqui, mas é difícil enxergá-lo como um índio. Ele está sempre mudando de fisionomia, né? Por falar nisso, a senhora está usando roupas sociais. É bastante estranho ver uma índia nesses trajes. A senhora prefere ser chamada de Catarina ou de Paraguaçu? Catarina Paraguaçu: Desde a minha viagem à Europa e o meu casamento com Diogo em Paris, eu prefiro ser chamada de Catarina. Afinal, esse é o meu nome de batismo agora. E me foi dado diretamente pela rainha francesa Catarina, que tanto ficou admirada com a minha beleza. Assim, ser chamada de Paraguaçu soaria um pouco... Um pouco... Como posso dizer? Primitivo. É isso! Soaria primitivo. Darico Nobar: Ser vista como uma indígena a incomoda? Catarina Paraguaçu: Jamais! Eu adoro as minhas raízes e tenho orgulho dos meus ancestrais. Sou e sempre serei uma tupinambá. Apenas fui convertida ao catolicismo, vivendo agora como uma legítima dama portuguesa. Darico Nobar: Portuguesa?! A senhora não é brasileira?! Catarina Paraguaçu: Não, pelo amor de Deus! Posso até aceitar ser vista às vezes como uma tupinambá, mas ser chamada de brasileira é demais! Aí, vira ofensa. Eu nasci em uma colônia portuguesa além-mar, por isso sou lusitana, como meu esposo. Não tenho culpa que tempos depois os brasileiros conseguiram sua independência. Darico Nobar: A senhora foi a primeira protagonista indígena da literatura brasileira. Contudo, hoje em dia, outras personagens são mais lembradas pelo público. De cabeça, lembro-me de Peri, de O Guarani, e Iracema, do romance homônimo de José de Alencar. Por que a senhora foi esquecida ou não é tão valorizada? Catarina Paraguaçu: O problema, nesse caso, deve-se ao estilo narrativo escolhido pelo asno do José de Santa Rita Durão. A epopeia não é, e nunca foi, um gênero muito popular. Definitivamente, ela não cativa os leitores contemporâneos. Darico Nobar: A senhora considera o fato da história estar em versos como um obstáculo a sua popularização? Catarina Paraguaçu: Claro! Existem basicamente dois tipos de leitores nesse mundo: aqueles que odeiam as epopeias e aqueles que não entendem quase nada do que vem escrito nelas. Aí, fica difícil competir com os romances açucarados do José de Alencar. O desgraçado do cearense sabia conquistar o público. Se ele tivesse escrito minha história com o Diogo, com certeza hoje seríamos muito mais famosos... Darico Nobar: Senti certo rancor em relação ao autor que a concebeu. A senhora tem alguma mágoa do Santa Rita Durão? Catarina Paraguaçu: Antes de qualquer coisa, é importante salientar que ele não foi o responsável pela minha concepção. Eu sou uma personagem que existiu de verdade. O Santa Rita Durão apenas me transportou para dentro da literatura. E, nesse processo, acho que fui injustiçada. Caramuru é uma obra sobre meu marido. Eu o amo, mas, literariamente, ele é uma personagem menos propensa ao heroísmo do que eu. Darico Nobar: Como assim? Catarina Paraguaçu: O que Diogo fez ao longo de Caramuru para ganhar a fama de herói?! Ele começa a história doente. Só não foi devorado pela minha tribo, como todos os portugueses de sua embarcação, porque estava fraquinho. Quando o bunda-mole se recuperou, matou um monte de índios. Fez isso porque era forte ou corajoso? Não! Fez isso porque era o único com arma de fogo. Ou seja, se comportou como um facínora covarde. Depois de dizimar várias tribos da Bahia, fez uma viagem para a Europa para descansar. Estava cansadinho! Nesse interim, nos casamos. Nunca vi um herói de uma epopeia mais besta do que este. Eu, por outro lado, sou uma indígena que aprendeu instantaneamente a língua portuguesa. Não só me tornei fluente no idioma como também passei a fazer poemas em versos decassílabos, como fazia o mestre Camões. E, além de inteligente, sou linda. Para coroar, ainda antevejo o futuro. Darico Nobar: Então, a senhora é quem deveria ser o centro das atenções do enredo e não o seu marido, certo? Catarina Paraguaçu: Exatamente! Darico Nobar: A senhora é uma das protagonistas do livro. A parte final é inteiramente narrada pela senhora. Catarina Paraguaçu: É verdade. Porém, os leitores só se lembram do Diogo doente, dos tupinambás devorando os portugueses, do meu marido matando os índios e da periguete da Moema morrendo afogada. Darico Nobar: Essa passagem da sua irmã nadando para alcançar o navio do seu marido é linda... Catarina Paraguaçu: Está vendo. Ninguém se recorda de uma boa passagem minha. Diga aí, Darico: cite uma boa cena protagonizada por mim. Darico Nobar: Realmente, não me lembro de nenhuma. O que recordo bem é do fascínio que o Diogo exercia sobre as mulheres tupinambás. Muitas se jogaram ao mar quando ele partiu de navio. Não foi apenas Moema que morreu nadando atrás dele. Tinha mais um trio de índias com ela. Catarina Paraguaçu: É claro! O sem-vergonha sempre foi muito bom de lábia. Ele vinha com um papo infalível que nos levaria para Paris, onde casaríamos e passaríamos uma romântica Lua de Mel. Ele falou isso para mim e para todas da minha tribo. É óbvio que a mulherada iria pirar ao ouvir essas promessas. Imagine largar a vida precária nas florestas brasileiras e ir morar em meio aos reis e às cortes europeias. Não há mulher que resista a essa ideia. Nem nós tupinambás resistimos... Darico Nobar: Então, foi isso o que causou grande admiração nas indígenas? Catarina Paraguaçu: Tinha também o fato de ele sempre andar armado e matar todos os nossos inimigos. Um homem poderoso é um afrodisíaco sexual para os olhos femininos. Somos tupinambás, mas ainda sim somos mulheres, não se esqueça disso! Darico Nobar: Outro aspecto da história que me deixou intrigado foi o seu poder de vidência. A senhora adivinhou o desfecho de todos os conflitos contra os holandeses. Como isso foi possível? Catarina Paraguaçu: Sou uma vidente. Sempre fui. Naquela época, eu tinha poucos recursos para desvendar o futuro. Era apenas o ritual da fumaça e a dança mágica. Graças às novas tecnologias, como o tarot, a astrologia, a numerologia, o horóscopo e, principalmente, ayahuasca, hoje tenho condições de prever com mais segurança os acontecimentos futuros. Se naquela época eu já tivesse esses recursos, na certa conseguiria prever as vitórias brasileiras contra os holandeses nas Copas de 1994 e 1998. Obviamente, não diria nada sobre os duelos em 1974, 2010 e 2014. Darico Nobar: E qual a principal previsão que a senhora faz para o Brasil? Catarina Paraguaçu: Esse país ainda será honesto, rico, justo e sem violência. Darico Nobar: Que ótimo! E quando isso acontecerá? Catarina Paraguaçu: Em um futuro bem distante, quando extraterrestres invadirem o Brasil e exterminarem quase todos os habitantes nativos. A nova sociedade que virá colonizar essas terras será mais harmônica, pacífica e igualitária. Darico Nobar: Que previsão mais pessimista. Catarina Paraguaçu: Pessimista seria se dissesse que o Brasil não tem jeito. Darico Nobar: A senhora é muito diferente do que eu tinha imaginado. Catarina Paraguaçu: O que você esperava encontrar? Uma mulher vestida com penas de animais e com o corpo nu pintado de tinta? E que falasse "Mim gostar de Brasil, mim querer homem branco"? Não! Essas são as mulheres do seu tempo nos dias de Carnaval. Como uma nobre dama portuguesa do século XVIII, ando com roupas burguesas, sou eloquente e possuo uma visão crítica do mundo. Darico Nobar: Talvez seja isso o que me impressionou mais na senhora. Imaginava entrevistar uma tupinambá e não uma mulher com mentalidade burguesa e europeia. Catarina Paraguaçu: Todos precisam evoluir na vida, né? Darico Nobar: Essa visão crítica do indianismo não vai contra os ideais propagados ao longo da nossa literatura? Ela não agride tudo aquilo que os antropólogos prezam? Catarina Paraguaçu: Talvez, mas o meu ponto de vista é menos utópico do que aquele do "Bom Selvagem" perpetrado pelos românticos. Vale lembrar que Santa Rita Durão, que dizia amar tanto o Brasil e os indígenas, nunca mais retornou ao seu país natal após embarcar ainda criança para o exterior. José de Alencar, creio eu, nunca conheceu um índio de verdade. E quanto aos antropólogos... Ainda existe essa profissão nos dias de hoje?! Achei que eles tivessem acabado juntamente com os índios e com as florestas tropicais. Darico Nobar: Senhoras e senhores, essa foi Catarina Paraguaçu! [Plateia aplaude a entrevistada, que sai do palco após beijar o apresentador]. Nosso programa de hoje foi surpreendente, hein? Por isso, não percam o Talk Show Literário do próximo mês. A única certeza é que tudo é imprevisível nessas conversas literárias. Boa noite! [As legendas do Talk Show Literário sobem na tela e a banda toca a música de encerramento da atração]. Darico Nobar: O pior é que ainda não consegui entrevistar um indígena legítimo... [O apresentador fala baixinho sem que os microfones captem suas palavras[]. Achei que seria dessa vez, mas novamente não foi... O que está acontecendo com nossos índios?! Minha última esperança é Peri! Será que vou conseguir conversar com ele? ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JosédeSantaRitaDurão

  • Talk Show Literário: Souza

    Darico Nobar: O Talk Show Literário desta noite já está no ar! Hoje, vamos receber Souza, ex-professor universitário, ex-assistente administrativo, ex-marido de Adelaide, ex-integrante da classe média paulistana, ex-personagem literária de Ignácio de Loyola Brandão... Recebam com muitas palmas nosso convidado! [Plateia saúda o visitante]. Souza: Boa noite, Darico. Darico Nobar: Boa noite, Souza. Para começarmos este bate-papo, gostaria de saber o que você tem feito de bom ultimamente. Afinal, em sua descrição, há muitos termos começados com o prefixo "ex". Como tem sido sua vida após a publicação do livro Não Verás País Nenhum? Souza: Não tenho feito nada de mais. Darico Nobar: Impossível! Algo você deve estar fazendo. Souza: Que nada! Estou desempregado desde os primeiros anos da década de 1980. Por não ser nordestino, não recebo o Bolsa Família. Como não pertenço a nenhuma minoria que explora o preconceito que a sociedade nutre por ela, também não consigo passar em nenhum concurso público. E para piorar, como não tenho idade compatível às exigências do mercado de trabalho, acabo ficando à margem do sistema. Por isso, passo o dia sem ter absolutamente nada para fazer. Fico em frente a uma loja de eletroeletrônicos assistindo televisão. Adoro os telejornais sensacionalistas que escancaram as mazelas de nosso país. Também não perco os programas de auditório. Darico Nobar: Que legal! Se você assiste aos programas de auditório, então você é um telespectador do Talk Show Literário, certo? Souza: Não, não! Só vejo atrações desse tipo em que haja a divulgação de testes de DNA. Também gosto de ver as fofocas sobre os artistas e as humilhações que os candidatos a cantores e a cozinheiros precisam passar para conquistar um prêmio qualquer. O seu programa não tem nada disso. Ele fica só em uma conversinha chata com personagens que a maioria das pessoas nunca viu nem ouviu falar. Darico Nobar: Vamos voltar para a análise da sua vida, Souza. Afinal, você é o nosso entrevistado e é de você que precisamos falar. Você culpa os acontecimentos da década de 1980 por essas dificuldades que você tem passado até hoje? Souza: Acho engraçadas essas menções que as pessoas fazem dos anos de 1980. Para vocês, aquela fase foi a "década perdida", o período no qual o país não cresceu economicamente e nada ocorreu de relevante. Segundo a crença geral, aqueles anos foram desperdiçados e marcados por muita miséria, gritante desigualdade social, conflitos de toda natureza, depredação ambiental, poluição, caos urbano, violência, instabilidade política, marasmo econômico... Darico Nobar: Sim. E você não concorda com essa visão? Souza: Não! Essas características não podem ser aplicadas apenas à década de 1980. O nosso país é ou foi dessa maneira em qualquer período de tempo de sua história. Com raras exceções, houve fases de prosperidade, de calmaria política, de controle da violência, de diminuição da miséria, de regressão da desigualdade social, de zelo com o meio-ambiente e de bom gerenciamento dos centros urbanos. Quanto tempo durou essas fases positivas? No máximo alguns pouquíssimos anos. Quantas vezes elas ocorreram em nosso país? Quatro ou cinco vezes em mais de quinhentos anos. Depois, a normalidade voltou a imperar. Portanto, o que as pessoas descrevem como sendo as características típicas do Brasil na década de 1980 é na verdade as características típicas de nosso país em qualquer período da história. Darico Nobar: Você quer dizer que hoje vivemos como na década de 1980? Souza: E não vivemos?! Estamos atravessando uma crise política e econômica absurda. Vivemos em recessão há vários anos, com o índice de desemprego atingindo níveis recordes. Os cofres dos governos estão quebrados. A corrupção é epidêmica. A violência policial e as injustiças dão a tônica no dia a dia da população humilde. Nossas florestas são devastadas diariamente sem que isso incomode ninguém. Sofremos com a falta de água em muitas cidades e com as mudanças radicais do clima no país inteiro. Darico Nobar: Não tinha parado para pensar sobre isso nessa perspectiva... Souza: Se este programa for reprisado daqui a dois, cinco, dez, cinquenta ou cem anos, coisa que duvido, esses meus relatos serão ainda atuais. Se ele fosse gravado no começo do século XX ou no início do século XIX, também seria contemporâneo. Darico Nobar: Ou seja, Não Verás País Nenhum é um romance que nunca sairá de moda. Souza: Exatamente! Loyola Brandão não produziu uma obra em que narra São Paulo e o Brasil em um futuro hipotético. Ele criou uma narrativa sobre os problemas históricos da maior cidade do país e da nação brasileira como um todo. Darico Nobar: Agora que você levantou o braço ao gesticular, eu pude ver: há um buraco no meio da palma da sua mão! Esse problema voltou a afetá-lo? Souza: Sim. Eu convivo com isso há muitos anos. Não gosto de mostrar esse meu problema porque ele assusta as pessoas. Muita gente acha que é contagioso. Darico Nobar: E no que esse furo na mão mais o atrapalha no dia a dia? Souza: Para segurar o dinheiro... Com esse vazio abaixo dos meus dedos, as notas e as moedas voam da minha mão sem que eu perceba. Não consigo mantê-las presas à minha carteira ou ao meu bolso. Quando vejo, já estou sem grana novamente. Darico Nobar: Que curioso: tenho essa mesma dificuldade com o dinheiro, mesmo não tendo um buraco na mão... [A plateia ri]. Desculpe-me pela brincadeira, Souza. Foi só para descontrair um pouco. [Aparentemente o convidado não gostou da ironia do entrevistador]. E você não procurou um médico? Não está fazendo um tratamento para resolver isso? Souza: Sim. Estou tratando no SUS. Consegui uma consulta preliminar para daqui seis anos e dez meses. Darico Nobar: E por que você esperou tanto tempo para procurar um especialista? Souza: A consulta está marcada desde o início da década de 1990. Agora falta pouco tempo... E esse médico que tenho agendado não é um especialista. É um clínico geral. Ele é quem irá me encaminhar para um especialista, se assim for necessário. Darico Nobar: Você está aposentado, Souza? Souza: Não. Só faltavam dois anos para eu me aposentar. Isso pelas regras da antiga Previdência, né? Pelas novas, faltam ainda mais vinte ou trinta anos. Se conseguir, acredito que vá receber um salário mínimo. Darico Nobar: Isso é muito chato! Souza: Chato é saber que eu não escolhi ser militar. Poderia ter vivido sem fazer nada e ainda ter me aposentado com salário integral, estendendo esse benefício para minhas descendentes até o final da vida delas. Darico Nobar: É muito injusto, não? Souza: Não é questão de ser justo ou injusto. É tudo questão de costume. Isso é o Brasil! Esses são elementos culturais do nosso país. Se as coisas fossem certas, lógicas e sem privilégios desde o início dos tempos, não teríamos a nação que temos hoje. Assim, não seríamos brasileiros e não estaríamos acostumados com nossos valores como corrupção, tirar vantagem em tudo, dar sempre um jeitinho, conviver com a miséria, sofrer com a violência policial e ser lesado pelo governo e pelos bancos. Darico Nobar: Qual cidade você prefere para viver: a São Paulo descrita em Não Verás País Nenhum ou a São Paulo atual? Souza: Você vê diferença entre elas?! Como já disse, não vejo nenhuma diferença. Fique sem dinheiro na carteira e você perceberá que as duas são idênticas. Darico Nobar: Onde você mora atualmente, Souza? Souza: Na Avenida Europa com a Rua Groelândia. Perto da igreja Nossa Senhora do Brasil. Darico Nobar: Lugar chique, hein? Casa ou apartamento? Souza: Na calçada mesmo. Embaixo da marquise de uma banca de jornal. Darico Nobar: E o dono da banca não se incomoda com isso? Souza: Não. A banca está fechada há mais de cinco anos. Quem lê jornal e revista hoje em dia?! Ninguém. Acho que vou ficar ali por muito tempo ainda. Darico Nobar: Pessoal, esta foi a entrevista com Souza, o protagonista de Não Verás País Nenhum. [A plateia aplaude mais uma vez o entrevistado]. Obrigado pela presença de vocês, tanto aqui no auditório quanto aí em casa. Até o próximo Talk Show Literário. Boa noite! [A banda toca a música de encerramento do programa e os créditos sobem na tela]. Souza: Darico, quanto é que vão me pagar de cachê por ter participado do programa de hoje? Darico Nobar: Oh, Souza. Não pagamos cachê. Os participantes vêm por iniciativa própria. A produção não tinha explicado isso para você? Souza: Tinha sim. Eles pagaram, inclusive, a passagem aérea da minha vinda ao Rio de Janeiro e vão pagar a da volta a São Paulo. É que eu preciso de mais um tostão para me alimentar. Achei que fosse fazer uma boa refeição no voo e eles não serviram nada a bordo. Estou sem comer faz três dias. Se soubesse que as companhias aéreas não alimentavam mais seus passageiros, não teria perdido meu tempo vindo até aqui. Você não tem um trocado para me dar? Pode ser um vale-alimentação ou mesmo um vale-transporte. Uma moedinha já será de muita providência... Darico Nobar: Produção! Souza: Obrigado, Darico. Sabia que o senhor era um homem bom e compreensivo... Darico Nobar: Produção! Por favor, tire este mendigo do meu auditório. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #IgnáciodeLoyolaBrandão

  • Talk Show Literário: Alberto Mattos

    Darico Nobar: Sejam bem-vindos a mais um Talk Show Literário. No programa de hoje, vou conversar com o investigador de polícia que vivenciou os momentos derradeiros do governo Getúlio Vargas. Suba aqui no palco, Alberto Mattos! [O entrevistado recebe os aplausos do público presente no auditório]. Alberto Mattos: Boa noite, Darico. Darico Nobar: Boa noite, comissário Mattos. É uma honra recebê-lo aqui em nossos estúdios para um bate-papo sobre literatura e, principalmente, sobre a história do... Alberto Mattos: O que tem dentro desta caneca?! Darico Nobar: É água. Sempre servimos água para nossos convidados. Alberto Mattos: Será que não teria um copo de leite? Eu tenho problemas estomacais. O leite, sabe como é, acaba aliviando minhas dores. Darico Nobar: Produção, temos leite? Sim? Ótimo! Por gentileza, tragam um copo para o nosso visitante. [Um assistente de produção traz a bebida solicitada]. Alberto Mattos: Obrigado. [O entrevistado toma um generoso gole]. Darico Nobar: Quando comparamos suas características com as dos policiais e dos agentes secretos típicos dos romances investigativos, ficamos surpresos com a ousadia criativa de Rubem Fonseca. Podemos dizer que você, comissário Mattos, é um protagonista diferenciado da literatura policial? Alberto Mattos: Diferente por quê? Darico Nobar: Não sei explicar... Os homens da lei na literatura e no cinema são geralmente destemidos e implacáveis com os bandidos. São também fortes, vigorosos e sempre escapam da morte que os espreita. Gostam, muitas vezes, de bebidas alcoólicas e possuem um estilo de vida luxuoso. E eles estão o tempo inteiro transando com mulheres lindas. Acho que James Bond, criação literária de Ian Fleming levada depois para o cinema, e Jack Bauer, da série televisiva 24 horas, encaixam-se no perfil clássico desse tipo de personagem. Alberto Mattos: Ah, entendi... Você está dizendo que sou o oposto deles, não é? Não ando armado e sou o tipo de policial que prefere soltar os presos da cadeia ao invés de prendê-los. Fico me contorcendo de dor e estou sempre a um passo de desmaiar. Muitas vezes, sou levado ao hospital por causa de minha úlcera no estômago. Também não tenho uma vida glamourosa. Nem carro eu possuo. Vivo tomando leite e, em várias oportunidades, já brochei na cama com uma mulher. E para completar, não consigo escapar das emboscadas que meus inimigos preparam para mim. São essas as características que causam estranhamento em você, não são? Darico Nobar: Isso mesmo! [Abre um grande sorriso]. Acho que você descreveu com perfeição o que causava surpresa em mim como leitor. Diante disso tudo, você se considera um policial incomum? Alberto Mattos: Esses fatos que acabei de relatar não me fazem ser uma pessoa diferente de ninguém. Pelo contrário: Sinto-me até muito parecido com os homens da vida real. Fora da literatura, da televisão e do cinema, o policial não é um super-herói. Ele tem problemas e defeitos como qualquer outro ser humano. Ninguém é imbatível e imune às falhas. Além disso, a maioria dos tiras em nosso país sofre com os baixos salários e tem dificuldades para pagar as contas no final do mês. No fundo, são uns pobres coitados como eu, padecendo por causa da violência generalizada do Brasil. Darico Nobar: Contudo, você era considerado excêntrico até mesmo pelos seus colegas, personagens ficcionais do romance Agosto. Como você explica essa visão deles em relação à sua pessoa? Alberto Mattos: Os elementos que, talvez, me façam ser tão distinto dos meus colegas ficcionais [Toma mais um gole de leite] e, quem sabe, dos meus colegas reais [Ingere calmamente mais um pouco da bebida, apreciando os efeitos provocados por ela em seu organismo. A interrupção da frase ao meio não parece o incomodar] são: trabalho usando mais a inteligência do que a força bruta, sou um policial carioca honesto e tenho ciência dos limites impostos pela Constituição ao meu trabalho. Darico Nobar: No dia a dia, ser um tira honesto no Rio de Janeiro é algo muito complicado? Alberto Mattos: Ser uma pessoa honesta no Brasil, por si só, já é difícil paca, independentemente da profissão exercida! Se você tiver esse defeito, por que honestidade em nosso país é defeito sim, e ainda por cima for policial, aí a coisa degringola de vez para o seu lado. Uma pessoa honesta dentro da polícia, da política ou do serviço público pode danificar toda a engrenagem social da qual nossa cultura está estruturada. Ninguém no Brasil está acostumado a conviver com indivíduos virtuosos. Políticos, empresários, profissionais liberais, bicheiros, prostitutas, criminosos, funcionários públicos, estudantes, donas de casa, juízes, artistas, esportistas e agentes da lei ficam muito desconfortáveis diante de um homem ou de uma mulher corretos. O honesto é visto como uma aberração da natureza, um extraterrestre alienado, um psicopata perigoso ou um indivíduo imprevisível. Portanto, ele é pouquíssimo confiável e deve ser extirpado da sociedade. Darico Nobar: Policial bom é aquele que mata e prende independentemente da situação? Ou policial bom é aquele que respeita as regras e cumpre seu papel legal? Alberto Mattos: Policial bom é policial morto. Darico Nobar: Como assim?! Alberto Mattos: É verdade. [O entrevistado vira o copo de leite na boca, bebendo todo o conteúdo]. Repare nos meus antigos colegas. [Limpa com a palma da mão o bigodinho branco que se formou no rosto após a ingestão da bebida]. Eles só passaram a gostar de mim depois que sofri um grave atentado. O comissário Pádua é uma boa referência. Ele vivia incomodado com as minhas atitudes e queria me ver pelas costas. Se pudesse, colocava uma bomba na minha casa para que eu sumisse pelos ares. Só passou a se preocupar um pouco comigo quando soube que eu fora jurado de morte por um bicheiro. Aí, quando levei um tiro e morri, me tornei o melhor policial do mundo na visão dele. Esse é, muito provavelmente, um aspecto corporativista da nossa profissão. Darico Nobar: É verdade, você morreu! Como você explica o fato de ter sido assassinado e estar hoje aqui sendo entrevistado por mim? Alberto Mattos: Darico, como você explica que eu seja um policial honesto, inteligente, trabalhador e culto? Lembre-se, eu gostava de ópera! Como você justifica a minha preocupação com a superlotação do sistema carcerário já na década de 1950 e o meu combate sistemático ao abuso da autoridade policial que os pobres e os oprimidos sempre sofreram? Darico Nobar: Você só é assim porque é uma personagem ficcional. Você é produto da imaginação do Rubem Fonseca. Você jamais saiu de dentro dos romances ou das séries de televisão. Por isso, age dessa maneira tão ideológica e utópica. Alberto Mattos: Ou seja, como um indivíduo pertencente ao universo da ficção, eu posso morrer dentro da trama e, mesmo assim, vir aqui para conversar com você, não posso? O mesmo acontece com os atores e as atrizes das telenovelas, das peças e dos filmes. Eles interpretam personagens que são mortas, mas na vida real continuam vivos. Darico Nobar: Faz sentido! [Coça o queixo]. Alberto Mattos: Se não me engano, você entrevistou na temporada passada o Brás Cubas, uma personagem já falecida, e você não se preocupou com essa questão naquela oportunidade, não é mesmo? Darico Nobar: Realmente, havia me esquecido desse ponto... Mattos, vamos agora mudar completamente de assunto. Podemos dizer que o mês de agosto de 1954 foi o mais complicado da história do nosso país? Alberto Mattos: Eu achava isso naquela época. Atualmente, vejo os dias precedentes ao suicídio de Vargas como mais um instante delicado que a nossa nação passou. O Brasil tem se fartado em proporcionar momentos politicamente instáveis. Aqui é normal um presidente sofrer impeachment, ser derrubado por um golpe ou morrer misteriosamente em pleno exercício do cargo. Raramente, o mandatário eleito democraticamente consegue cumprir o prazo estipulado para sua presidência. Darico Nobar: Quais foram os presidentes mais importantes que o Brasil já teve? Alberto Mattos: Em primeiro lugar, o Getúlio Vargas. Ele transformou um país agrário em urbano de maneira a contemplar os interesses de todos os cidadãos, da classe trabalhadora à elite empresarial e agrícola. Depois dele, não sei precisar quem viria na sequência. Vejo um grupo limitado de governantes relevantes: Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva... Talvez, o João Goulart fizesse parte desse grupo se o tivessem deixado concluir seu mandato. Darico Nobar: Ao vivenciar pessoalmente a crise de 1954, você concorda que o atentado da Rua Tonelero foi decisivo para decretar o fim do governo Vargas? Alberto Mattos: Com ou sem atentado ao Carlos Lacerda, os militares iriam derrubar o presidente. Mesmo faltando apenas algumas semanas para a conclusão do mandato de Getúlio, as Forças Armadas iriam tirá-lo da cadeira presidencial de uma forma ou de outra. Se não fosse o assassinato do Major Vaz na Rua Tonelero, os milicos encontrariam outra desculpa esfarrapada para pressionar o presidente através da opinião pública. Sempre foi assim em nosso país. O destino de um governante identificado fortemente com a esquerda é sempre a perda do mandato, a morte trágica, o impeachment, o golpe e/ou a prisão. Vargas não escapou da sina dos defensores do povo. Darico Nobar: Alberto Mattos, muito obrigado pela sua entrevista. Nossa conversa foi excelente e muito elucidativa. Alberto Mattos: Eu que agradeço pelo convite e, principalmente, pelo leite servido. Será que não teria mais um pouquinho para eu beber? Estava muito bom mesmo! Se estivesse gelado, estaria melhor ainda... Darico Nobar: Pessoal de casa, até o nosso próximo Talk Show Literário. [A câmera 2 dá um close no apresentador, que fala olhando diretamente para a tela]. Boa noite a todos e até semana que vem! Alberto Mattos: Qual é a marca do leite que vocês compram para o programa, Darico? Eu costumo comprar lá para casa o... [O microfone do entrevistado é cortado e, alguns segundos depois, o talk show é encerrado. Uma nova atração entra no ar]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.

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