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  • Talk Show Literário: Segunda Temporada - Apresentação

    A grande surpresa do ano de 2017 no Blog Bonas Histórias foi a coluna Talk Show Literário. O sucesso das entrevistas de Darico Nobar foi maior do que o esperado. O programa de televisão fictício ficou atrás em números de leitores apenas do Desafio Literário, a principal seção do blog. Os feedbacks recebidos do Talk Show Literário também foram muito positivos. A galera entendeu a brincadeira das conversas com as personagens clássicas da literatura brasileira e muita gente pediu mais entrevistas. A maioria dos comentários negativos recebidos sobre o talk show foi sobre a ausência desse e daquele protagonista na lista de convidados. Admito ter gostado das discussões geradas. "Você se esqueceu da Capitu!"; "Gostaria de ler uma entrevista com o Fabiano de Vidas Secas"; "Por que o Darico conversou com a Gabriela e não com a Dona Flor?"; e "Senti falta das personagens da Clarice Lispector". Essas foram algumas das mensagens que recebi nos últimos meses. Para quem discordou das escolhas dos entrevistados do ano passado, aviso que o programa de Darico Nobar irá continuar em 2018. Afinal, em apenas 12 programas não era possível falar com todos os grandes personagens da nossa ficção. E muitos dos nomes solicitados por vocês entrarão na lista de convidados deste ano. Assim, a nova temporada do Talk Show Literário será ainda sobre os Clássicos Brasileiros. No sofá do programa de Nobar se sentarão novos e ilustres convidados. A periodicidade da atração continuará mensal. O apresentador, como não poderia ser diferente, permanecerá sendo Darico Nobar. A seguir, temos a programação das entrevistas do ano de 2018. Confira: - Janeiro - Entrevista 1: Sérgio - "O Ateneu" (1888) - Raul Pompéia - Fevereiro - Entrevista 2: G.H. - "A Paixão Segundo G.H." (1964) - Clarice Lispector - Março - Entrevista 3: Fabiano - "Vidas Secas" (1938) - Graciliano Ramos - Abril - Entrevista 4: Alberto Mattos - "Agosto" (1990) - Rubem Fonseca - Maio - Entrevista 5: Maria Capitolina Santiago - "Dom Casmurro" (1899) - Machado de Assis - Junho - Entrevista 6: O Analista de Bagé - "O Analista de Bagé" (1981) - Luís Fernando Veríssimo - Julho - Entrevista 7: Florípides Guimarães Madureira - "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1966) - Jorge Amado - Agosto - Entrevista 8: Leonardo - "Memórias de um Sargento de Milícias" (1854) - Manuel Antônio de Almeida) - Setembro - Entrevista 9: André - "Lavoura Arcaica" (1975) - Raduan Nassar - Outubro - Entrevista 10: Senhorita Simpson - "A Senhorita Simpson" (1989) - Sérgio Sant'Anna - Novembro - Entrevista 11: Álvaro - "A Escrava Isaura" (1875) - Bernardo Guimarães - Dezembro - Entrevista 12: João Romão - "O Cortiço" (1890) - Aluísio Azevedo Espero que todos gostem dos novos programas assim como gostaram da primeira temporada. Aguardo vocês nos episódios da segunda temporada do Talk Show Literário. Até lá! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário

  • Talk Show Literário: Leonardo

    Darico Nobar: Boa noite, galera que curte o Talk Show Literário! Plateia: Booooooooa nooooooooooite. Darico Nobar: Que auditório mais animado, hein? Gostei disso! Essa empolgação toda irá aumentar quando vocês souberem quem é o nosso convidado de hoje. O entrevistado deste programa é o protagonista de "Memórias de um Sargento de Milícias", um dos primeiros romances do nosso país. Leonardo, por gentileza, venha para o palco! [Plateia aplaude o visitante]. Leonardo: Olá, Darico. Olá, plateia. Olá, amigos de casa. [O convidado fala olhando diretamente para seus interlocutores. Na última frase, ele olha para a câmera]. Darico Nobar: Leonardo, eu fiquei muito preocupado quando a produção me informou que seria o senhor o nosso convidado desta noite. Juro que temia que o senhor fosse aprontar alguma para cima de mim ou contra o meu programa. Afinal, sua fama de endiabrado é antiga. Corro esse risco hoje? Leonardo: Imagine! [Faz um gesto com a mão direita, levando-a para cima e depois, com a palma aberta, para baixo]. Sou um homem sossegado agora. Os tempos em que eu aprontava o diabo ficaram para trás. Não espere que eu repita as atitudes imprudentes da minha infância e da minha juventude desvairadas depois de adulto, né? Darico Nobar: Então, o senhor admite ter aprontado muito no passado? Leonardo: Eu era um capeta sim. Para ser mais preciso, fui uma criança demoníaca, um adolescente totalmente maluco e um jovem desregulado. Não posso negar o meu passado. Admito: o Manuel Antônio de Almeida me retratou muito bem em seu romance. Darico Nobar: O que me deixou mais intrigado ao ler "Memórias de um Sargento de Milícias" é que mesmo fazendo tudo errado, o senhor conseguia progredir na vida. Depois de aprontar vários golpes, virou cabo de polícia. Depois de ajudar alguns bandidos a fugir, ainda foi promovido a sargento da corporação. Como isso foi possível? Leonardo: Oh, Darico, parece que você se esquece em que país nós estamos. Estamos no Brasil, meu caro! Aqui os caminhos são sempre tortos e movediços. Essa é a regra tanto na ficção quanto no mundo real. Darico Nobar: Um protagonista romântico com muitos defeitos de caráter não é algo comum, não é? Não me recordo de outra obra romântica com esse perfil. Leonardo: Esse é o problema dos leitores do Manuel Antônio de Almeida. Eles só se lembram dos meus erros. E os das demais personagens do livro, ninguém se recorda?! Todo mundo ali fez ao menos uma coisa muito errada. Meu padrinho era um homem respeitado e com uma moral inabalada. Porém, como ele conseguiu dinheiro para montar sua barbearia? Ele roubou. O nome do que ele fez é roubo. E a minha madrinha? Ela não era santa, coisa nenhuma. Na verdade, ninguém era santo ali. Todos tinham seus defeitos e cometiam seus deslizes. Entretanto, os leitores só se lembram dos meus erros juvenis. Acho isso muito injusto. Darico Nobar: Do jeito que você fala, parece que todo mundo em "Memórias de um Sargento de Milícias" era desonesto ou era mau-caráter. O Major Vidigal, por exemplo, sempre pareceu um homem sério, trabalhador e muito honrado. Leonardo: Um major que aceita promover seu pior cabo em troca de afetos de uma antiga namorada não me parece alguém muito honesto. Darico Nobar: Nesse ponto você tem razão... Leonardo: No fim das contas, ele era o mais sacana de todos. Um homem que manda prender e soltar as pessoas ao seu bel prazer, desrespeitando a Constituição e as leis, não pode ser visto como um cara muito correto, não é? O Major Vidigal sempre foi muito mais vilão do que eu. Entretanto, o pessoal nas ruas, principalmente o público que se identifica com a direita reacionária, costuma gostar de gente que brada aos quatro ventos: "Bandido bom é bandido preso". Fazer o quê? Se você não foi preso injustamente, essa medida parece positiva. O problema é quando você está no lado do mais fraco, do oprimido, daquele que vai para o camburão sem saber o motivo da detenção. Darico Nobar: Como é sua relação hoje com o major? Leonardo: Hoje em dia ela é ótima. Na verdade, o Vidigal não é major há muito tempo. Agora ele é general. Ele virou general no meu primeiro dia no Palácio Guanabara. E recentemente o nomeei Secretário de Segurança Pública. Darico Nobar: Por falar nisso, gostaria de saber: como o senhor virou governador do estado do Rio de Janeiro? Leonardo: Esse foi um processo natural. Depois que virei sargento de milícias, fui subindo na hierarquia militar. Tenho consciência que minha madrinha me ajudou um pouco nessa escalada. Ela sempre foi muito bem relacionada com os integrantes da alta cúpula do Exército. Darico Nobar: Pelo o que sei o senhor ficou pouco tempo nas Forças Armadas. Leonardo: Mais ou menos. Quando eu já era coronel, comandei uma operação no Complexo do Alemão para tirar um grupo de traficantes que não estava alinhado com o novo prefeito do Rio. Aí, ao invés de chegar atirando contra os caras, que também são pais de família, preferi o diálogo. Depois de dois meses de intensas negociações e do pagamento de uma elevada quantia por aquele ponto da cidade, eles aceitaram sair dali. Fizemos tudo na paz, sem a necessidade do disparo de um único tiro. Darico Nobar: Você fala como se tivesse comprado um ponto comercial. Leonardo: Foi mais ou menos isso. O problema é que sem os traficantes por perto, o Complexo do Alemão ficou totalmente desamparado. Quem iria dar segurança, saúde e educação para a comunidade? Quem iria realizar os projetos sociais e organizar os bailes funks?! Quem faria a entrega de gás, a instalação dos serviços de TV a cabo e a organização das linhas de ônibus? Com essas preocupações em mente, os moradores pediram que eu ficasse no comando das ações da favela. Foi assim que saí do Exército e formei a primeira milícia do Rio de Janeiro. Passei a comandar o Complexo do Alemão pessoalmente. Hoje, aquela região da cidade é uma maravilha para se viver. Os moradores andam tranquilamente sem se preocupar com nada. Darico Nobar: Então o senhor virou um miliciano? Leonardo: Por que a surpresa? Na vida, a gente precisa prosperar sempre. De sargento de milícias para chefe dos milicianos é um bom progresso! Darico Nobar: E de miliciano para governador também. Leonardo: Esse salto não foi de uma vez só. Demoraram algumas décadas para isso acontecer. Eu me tornei primeiro vereador. Depois deputado estadual, prefeito e senador. Só recentemente fui eleito governador com o voto de quase três quartos da população do estado. Darico Nobar: E o senhor continua casado com a Dona Luisinha? Leonardo: Claro que sim. Sou um homem romântico, não se esqueça disso. Para completar, sou também um homem muito honesto. Qual político brasileiro pode dizer que está casado com a mesma mulher há mais de 150 anos, hein? Sou casado até hoje com a Luisinha e moramos na mesma casa. Isso sim é prova de fidelidade e honradez. Acho que no Brasil só o Paulo Maluf pode se comparar a mim em honestidade. Ele lá em São Paulo e eu aqui no Rio de Janeiro. Darico Nobar: No início, Manuel Antônio de Almeida tentou esconder que era ele o autor de "Memórias de um Sargento de Milícias". Quando a obra foi publicada em folhetins, o pseudônimo criado para estampar a história foi "Brasileiro". Alguma vez ele explicou ao senhor por que fez isso? Leonardo: Não! Nunca falamos a esse respeito. Ele acabou morrendo muito novo. Não tive chance de conhecê-lo bem. Porém, não vejo problema, à princípio, de se criar um pseudônimo. Os escritores fazem isso o tempo inteiro. O problema foi o nome escolhido: Brasileiro!? Que ideia mais estapafúrdia! Essa cunha não passa nenhuma credibilidade nem transmite uma imagem honesta. Com esse nome, a impressão é que o romance foi feito às pressas, a trama é tola e o acabamento gráfico é de baixíssima qualidade. A imagem é tudo hoje em dia. Vivemos nos tempos do Marketing. Darico Nobar: Falando em imagem e em Marketing, o senhor fez algum tratamento estético nos últimos anos ou passou por alguma cirurgia plástica? Olhando para o senhor, parece que estou diante de alguém com quarenta e poucos anos, no máximo cinquenta. Leonardo: Não, não! Eu nunca fiz cirurgia plástica nem tratamento estético. Políticos como eu, o Michel Temer, o Vladimir Putin e o Silvio Berlusconi não envelhecemos. Deve ser nossa genética que nos deixa assim tão jovens depois de anos de vida pública. Fazer o bem para a população também é muito rejuvenescedor. Darico Nobar: Mas se o senhor tivesse recorrido a qualquer intervenção estética, não teria vergonha em revelá-la ao público, não é? Leonardo: Claro que não! Sou um homem muito honesto e sincero. Não gosto de maracutaias. Você confia em mim, não confia Darico? Darico Nobar: Senhor governador, eu é que sou o entrevistador nesta noite. [Apresentador e convidado riem simultaneamente]. Sou eu quem deve fazer as perguntas aqui, não o senhor. Leonardo: De qualquer forma, tome aqui um santinho meu. Vou concorrer à reeleição no ano que vem e conto com o seu voto para continuar na Guanabara. Os fluminenses precisam dos meus serviços para os próximos quatro anos. Darico Nobar: Apesar de morar no Rio de Janeiro, eu voto em São Paulo. Sou de lá. Leonardo: E por que você não muda de região eleitoral? É muito fácil. Meu assessor pode ajudá-lo nisso. Guaracy, venha aqui. [O governador olha para o lado e fala com alguém que as câmeras não podem captar]. Tenho um servicinho para você... Darico Nobar: Pera aí, senhor governador. Eu preciso terminar o programa. Depois a gente vê isso, tá? Além do mais, eu quero continuar votando em São Paulo... Leonardo: Então termina logo esse seu programinha para a gente tratar do que interessa de verdade. Guaracy, ligue para o rapaz que faz os títulos eleitorais para a gente e peça para ele fazer um para nosso amigo... Darico Nobar: Pessoal, obrigado pela sua companhia em mais um Talk Show Literário. Na próxima semana, voltaremos com mais uma entrevista exclusiva com uma importante personagem da literatura brasileira. Até lá! Leonardo: Darico, podemos mudar também a região eleitoral da sua esposa. Ela vota em São Paulo como você? Se fizermos isso, será que ela votará em mim? [Microfones do palco são cortados pela produção]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #ManuelAntôniodeAlmeida

  • Talk Show Literário: André

    Darico Nobar: Olá, Brasil! O Talk Show Literário de hoje promete ser sinistro! Segurem-se em seus assentos porque nosso convidado é André, o polêmico narrador de "Lavoura Arcaica". Por favor, recebam nosso entrevistado com respeito. [O público no auditório aplaude timidamente a entrada do rapaz no palco]. Boa noite, André. André: Boa noite só se for para você! Darico Nobar: Nossa!? O que aconteceu para você estar tão mal-humorado? André: Você ainda pergunta?! É muita cara-de-pau fingir que não sabe de nada. Darico Nobar: Não sei mesmo. Normalmente, as pessoas chegam felizes ao programa. Nunca, nestes cinco meses de talk show, um entrevistado tinha chegado tão bravo como você está agora. André: Seus convidados devem ter personalidades muito fracas ou são condescendentes ao extremo com o sistema autoritário da TV atual. Darico Nobar: Conte-nos, rapaz, o que o incomoda tanto. André: A obrigatoriedade de responder às suas perguntas me deixa colérico, ninguém em casa pensa nisso quando assiste à televisão, o entrevistado sofre uma brutal pressão social, essa força invisível nos massacra, nos mutila, nos mata, somos vítimas de uma engrenagem opressiva da mídia; Estou me sentindo neste momento como um touro prestes a entrar em uma arena de rodeio, parece que há algo em cima de minhas costas me cavalgando e algo embaixo de mim apertando meus testículos... Darico Nobar: Deixe-me entender a situação, André. Alguém o forçou a estar aqui hoje?! Porque até onde sei, nós fizemos o convite e você aceitou participar do programa. Entendemos que você tenha agido por livre e espontânea vontade. André: Você fala assim porque nunca precisou ser o entrevistado. Darico Nobar: Claro que não! Sou o entrevistador. Não posso agir de outra forma em meu próprio talk show. André: No fundo, escondido por de trás dessa aparência civilizada, você é um ditador sanguinário e um sujeito egoísta como a maioria das pessoas, meu pai era assim lá na fazenda, o governo se comporta dessa mesma maneira, a sociedade nos obriga a seguir suas regras chatas e conservadoras, o mundo é um lugar pouco democrático, profundamente normativo e totalmente sem graça. Darico Nobar: Você sempre fala sem respirar? André: Só faltava essa, agora vão implicar até com o meu jeito de falar?! Darico Nobar: Não, André. Esqueça isso. Vamos parar de discutir por coisas bobas, está bem? Gostaria de falar sobre o livro que você escreveu... André: Olha aí, você novamente querendo pautar nossa conversa, eu não preciso fazer só o que você manda, também mereço ter voz ativa nesta entrevista idiota, você não pode agir o tempo inteiro como um tirano, eu tenho o direito de falar do que quiser. Darico Nobar: Este será um longo programa... [O apresentador fala baixinho, mas os microfones captam suas palavras. Em seguida, ele volta ao tom de voz normal]. Explique-me, André, o motivo que o levou a iniciar "Lavoura Arcaica" se masturbando. André: E qual o problema nisso? Darico Nobar: Não é muito usual uma história começar com um rapaz se masturbando. Os leitores ficam um tanto chocados. Eles não gostam... André: Se os leitores não gostam de uma punhetinha, eu gosto, por isso, me masturbo sempre que não tenho uma xereca à minha disposição, se não tivessem tantas câmeras aqui, talvez estivesse batendo uma agorinha mesmo para me acalmar, não vejo problema nenhum em gastar um capítulo, seja no início ou no final de uma novela, descrevendo atos prazerosos, se fosse me comportar seguindo os gostos, as vontades e a moral das pessoas medíocres, eu praticamente não viveria. Darico Nobar: Você age sempre com a finalidade de agredir a sociedade com seus atos ou você faz o que tem vontade e, assim, acaba chocando os outros? André: Não sou galinha para chocar nada e ninguém, se as pessoas são caretas, ridiculamente religiosas e aceitam as normas impostas pela sociedade há séculos sem contestar, o problema não é meu, sigo simplesmente meus instintos, vivo de forma natural, minhas ações são normais, anormais são os outros que vivem se anulando. Darico Nobar: Você está dizendo que fazer sexo com a irmã é algo corriqueiro? Perder a virgindade com uma cabra é uma coisa que acontece com todo mundo? Incentivar o irmão caçula a fugir de casa e se opor a tudo o que o pai deseja é bacana? E agir lascivamente dentro de uma igreja é divertido? Sinceramente, não entendo seus comportamentos. André: Não vejo problema nisso, até onde eu saiba, não existe nenhuma lei que proíba esses atos, transar em uma igreja, por exemplo, pode ser bem legal, os padres e as freiras fazem isso o tempo inteiro e ninguém se incomoda, em relação à minha irmã, eu era apaixonado pela Ana, não tenho culpa que ela era muito gostosa, com a cabra não foi amor, foi mais tesão de momento, coisa de menino descobrindo sua sexualidade, quanto ao meu irmão, alguém precisava abrir os olhos daquela topeira. Darico Nobar: Você, então, não se arrepende desses atos e de suas consequências? André: Claro que não, o tempo é o maior tesouro que o homem pode dispor, embora inconsumível, o tempo é nosso melhor alimento, precisamos aproveitá-lo intensamente, devemos seguir nossos instintos mais primitivos, matar nossas vontades mais viscerais e canalizar todos os nossos desejos sexuais, isso sim é viver. Darico Nobar: Você nunca se deu bem com seu pai. Por quê? André: Meu pai não sabia viver, ele era o tipo de homem que se preocupava exclusivamente com o trabalho e com a família, em sua concepção, não havia mais nada importante nesse mundo, todo dia era exatamente igual para ele, e nós precisávamos segui-lo naquela rotina enfadonha de fazenda. Darico Nobar: Você se sente culpado pelo que aconteceu com ele? Há quem diga que suas atitudes o tenham levado a um grande desgosto. André: Não tive culpa nenhuma, foi ele quem trilhou seu próprio destino, o maior desgosto dele não foi o que fiz e sim o que ele mesmo fez com a filhinha amada. Darico Nobar: E por que mesmo ele agiu daquela maneira? André: Porque aquele desgraçado preferia ver a filha morta a imaginá-la transando comigo, veja como nossa sociedade é hipócrita, é melhor o sujeito assassinar uma jovem do que permitir a felicidade sexual dela, acho isso um absurdo. Darico Nobar: Você é casado hoje em dia? O que você fez depois da tragédia que vimos no desfecho de "Lavoura Arcaica"? André: Logo depois dos enterros dos meus familiares, fiquei muito abalado, eu e o Lula, meu irmão caçula, não o amigo do Raduan Nassar, que fique bem claro, fugimos de casa, aquele ambiente era muito opressor, vivemos um período, sei lá quanto tempo, em uma casinha afastada da cidade; Na primeira noite, fiquei com vontade de comer o rabo do Lula, pedi para ele baixar as calças e ficar de quatro, ele obedeceu e eu me diverti como nunca, adorei aquela experiência e passei a transar com ele todas as noites, nunca mais achei uma bundinha tão boa quanto aquela. Darico Nobar: Você e seu irmão viraram amantes? André: Não, comer homem é legal no começo, depois perde a graça, rapidamente me enjoei do Lula, regressei sozinho para a casa da minha família. Darico Nobar: E o Lula? André: Meu irmão nunca mais voltou para nossa fazenda, acho que ele deve ter ido morar na cidade grande, perdi o contato com ele. Darico Nobar: Você contou para sua família o que aconteceu entre vocês? André: Claro, foi a primeira coisa que fiz ao voltar, contei tudo durante o jantar, na mesa da sala, minha mãe ficou arrasada, coitadinha, ela é muito religiosa, reprimida até, nunca se jogou verdadeiramente aos prazeres mundanos, ela sempre acreditou na ladainha besta que os padres falam na Igreja, mas quem ficou furioso para valer foi meu irmão mais velho, o Pedro, ao ouvir os detalhes do meu relato, ele quis me matar com a faca que estava usando, só que eu fui mais rápido, enfiei um garfo na garganta dele, o Pedro morreu na hora, você tinha que ver a sujeira que ficou na mesa, ninguém teve mais apetite para terminar a refeição naquela noite. Darico Nobar: E a vida na sua casa depois disso, como foi? André: Acho que tudo melhorou com a morte do meu irmão mais velho e da minha mãe, sim, porque ela faleceu logo em seguida, morte natural que fique bem entendido, dessa vez ninguém pode me culpar; Sem nenhum outro homem em casa, passei a cuidar da fazenda do meu jeito, aí, a vida se tornou melhor, passei a fazer apenas o que eu queria e proibi todo mundo de lá de ir à igreja, sabe como é, igreja é lugar que faz o povo ficar com minhocas na cabeça; Casei com a Rosa, minha irmã mais velha, ela nunca foi tão gostosa quanto a Ana, mas deu para o gasto, tivemos três filhos, dois apresentaram problemas... coisa congênita, em outras palavras, nasceram idiotas, e morreram logo, mas a terceira, a Maria, se tornou uma menina linda e saudável, a minha Mariazinha, a razão da minha existência, o xodôzinho do papai. Darico Nobar: Então, você está casado com a Rosa, sua irmã?! André: Não mais, faz cinco anos que nos separamos e a expulsei de casa, a Rosa estava muito velha para o meu gosto, agora estou vivendo com outra mulher. Darico Nobar: Huuuuum... Posso saber com quem? André: Com a Maria, ela está uma mocinha deliciosa, se ela já está assim com dez anos, fico imaginando quando tiver dezoito, vinte aninhos, com certeza ficará mais gostosona do que a Ana era, pode acreditar em mim. Darico Nobar: Você é um maníaco! Saía já do meu programa, seu pedófilo! André: Olha só, o apresentador ficou nervosinho. [Gesticula de maneira teatral]. Plateia: Uhhhhhhh! [As vaias do público abafam as vozes no palco]. Darico Nobar: Caia fora, André! Não quero nunca mais vê-lo na minha frente. André: Você é um louco, faz o convite, eu perco um dia viajando até aqui e depois fica bravinho comigo, me expulsando sem motivo nenhum, sabia desde o começo que não devia ter vindo nesse programa de lixo. Darico Nobar: Fora! Suma daqui! Se não ligo para a polícia. Você deveria é ficar trancado em uma prisão. [André levanta-se e sai do palco com o peito estufado. Enquanto caminha, faz gestos obscenos para o público, que continua a vaiá-lo. Alguém chega a tacar algo na direção do convidado, mas o objeto não atinge o alvo]. Pessoal, por favor, me desculpem pelo programa de hoje. Se foi constrangedor para vocês, imaginem para mim aqui na frente. Prometo que o próximo Talk Show Literário será melhor. Até porque pior não poderá ser, né? Até a semana que vem. Tchau! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #RaduanNassar

  • Talk Show Literário: Senhorita Simpson

    [Quando as imagens das câmeras começam a transmitir o programa ao vivo para todo o país, o quinteto musical aparece tocando a canção “Mrs. Robinson” dos Beatles. Os músicos estão ao lado do palco principal e terminam a execução da canção. No centro, o apresentador está sentado sozinho atrás de sua mesa. É possível ver também a animação da plateia, que grita e acena festivamente]. Darico Nobar: Boa noite, pessoal! Nada melhor do que começar o Talk Show Literário com o som da nossa banda favorita. [O público no auditório demonstra concordar com as palavras do apresentador ao aplaudir bastante o grupo musical]. Em nosso programa de hoje, vamos abrir espaço para a novela. Minha entrevistada desta noite é uma marcante personagem desse gênero literário. Venha para o palco, Senhorita Simpson! [A convidada sobe ao palco mostrando uma grande timidez. A vibração da plateia a deixa ainda mais inimidada]. Senhorita Simpson: Hello, Sr. Nobar! Thank you very much for your invite. This night it's exciting for me. I never thought to be in television. Darico Nobar: Nós que precisamos agradecê-la pela sua presença aqui. Senhorita Simpson: In English, please. You should speak in English. Always! Darico Nobar: O quê? A senhorita não quer falar em português? Por quê?! Senhorita Simpson: Darling, please! Darico Nobar: I'm sorry. The interview should be in Portuguese. There are many television viewers that don't understand English in Brazil… Senhorita Simpson: Very well, Mr. Nobar. Very well! Darico Nobar: Thank you. But my English isn't good to be practiced in a talk show. Senhorita Simpson: This is a great reasons for you to talk in English. A student just learns well a new language when he practices relentlessly. Darico Nobar: What? [O apresentador parece receber um recado pelo ponto eletrônico em seu ouvido]. The director of the program is warning me that the court hearing is going down. Please, Miss Simpson, let's speak Portuguese! Senhorita Simpson: Oh, no! [A convidada começa a chorar]. It's terrible. Darico Nobar: Why do you cry, Miss Simpson? What did I do wrong?! [O apresentador se aproxima da entrevistada, emprestando seu ombro para consolá-la]. Senhorita Simpson: I... [O choro não deixa a convidada falar direito. Ela abraça o âncora do programa carinhosamente]. I... I don't know how to speak Portuguese. Darico Nobar: Don't worry. We have a good translation system here. You will see it. Produção! Por favor, traga os aparelhos de tradução instantânea. [O entrevistador recebe dois fones de ouvido e coloca com carinho um deles na visitante. Para isso, tira delicadamente o longo cabelo dela das orelhas. Nesse momento, a entrevistada já está quase no colo do apresentador. Ela parou de chorar, mas ainda está muito abalada. Na sequência, o apresentador coloca o outro fone nele mesmo]. Que tal? Senhorita Simpson: Muito obrigada, Sr. Nobar. Desculpe-me pelo meu descontrole emocional. Não sei como deixei isso acontecer. Darico Nobar: Não precisa se desculpar! Isso pode acontecer com qualquer um. E, por favor, me chame de Darico. Somos amigos agora, não somos? [Ele recoloca a mulher na poltrona dela]. Senhorita Simpson: Sim. Darico Nobar: Diga-me: a senhorita já está há mais de trinta anos no Brasil e não fala nada de português. Como isso é possível? Senhorita Simpson: O problema é que sou uma mulher solitária. Eu só interajo com meus alunos. E com eles, eu só falo em inglês, seja nas aulas ou quando eles vão me visitar em minha casa. Não tenho a oportunidade para praticar o português. Darico Nobar: A senhorita continua recebendo alunos em sua casa? Senhorita Simpson: Sim, sempre. Eu dou aulas particulares para os alunos com mais dificuldade de aprendizado. Darico Nobar: No passado, que eu saiba, você fazia outras coisas com eles nessas aulas particulares em sua casa. Na turma do Pedro Paulo Silva, a senhorita foi para a cama com quase todos os alunos. Só não fez sexo com o Matoso porque ele não gostava da fruta, né? Senhorita Simpson: Querido, eu mantenho esse método pedagógico até hoje. Os estudantes dizem que esse é o diferencial das minhas aulas. É conversando com os alunos sobre todos os aspectos da vida e vivendo as experiências corriqueiras do dia a dia que eles aprendem mais intensamente o novo idioma. Aprender uma nova língua deve ser uma imersão cultural completa. O estudante precisa agir como se a escola fosse sua segunda casa e a professora como uma integrante da sua família. Só assim, os trabalhos evoluem satisfatoriamente. Darico Nobar: Os alunos não reclamam? Senhorita Simpson: Claro que não! Eles adoram. Isso os estimula a retornar sempre para as aulas. Darico Nobar: E os pais dos alunos, eles não ficam indignados? Senhorita Simpson: Pelo contrário. Os pais dos adolescentes acham maravilhoso o método e muitos se matriculam nas turmas noturnas, que são só para adultos. Hoje em dia é fundamental falar bem o inglês e muitos deles não têm fluência nesse idioma. A maioria dos meus estudantes já é adulta, por isso os pais não ligam. Às vezes, tenho sim problemas, mas é com as esposas dos alunos. Algumas não entendem a minha entrega ao magistério e vão reclamar com o diretor. Darico Nobar: O diretor do Piccadilly continua sendo o Mr. Higgins? Senhorita Simpson: Sim. Darico Nobar: E ele não reclama com a senhorita depois? Senhorita Simpson: Às vezes ele também vai até a minha casa para conversarmos. Como diretor, ele não tem a oportunidade de exercitar seu inglês tão frequentemente como eu, uma professora. Por isso, eu o ajudo um pouco nisso. Uma mão lava a outra. Darico Nobar: Uma professora se relacionar sexualmente com seus alunos e com o diretor da escola não é antiético? Senhorita Simpson: Não, claro que não! Se eles tiverem mais de quinze anos não tem problema legal. Um professor, antes de tudo, é um educador. Ele precisa se dar inteiramente à sua profissão. Precisa cuidar do desenvolvimento completo dos estudantes. E não importa se o sujeito é aluno, colega ou chefe. Todos são seres humanos e devem evoluir em todos os sentidos. Por que não posso ajudá-los nisso? Darico Nobar: A senhorita só tem alunos do sexo masculino? Senhorita Simpson: Por muitos anos, eu só tive homens. Achava que não conseguiria ensinar as mulheres tão bem. Tinha certo preconceito, admito, das classes mistas. Achava que as mulheres não combinavam com minha pedagogia. Darico Nobar: E agora? Senhorita Simpson: Depois que tive uma ótima experiência com uma aluna particular no final da década de 1990, percebi que elas poderiam integrar as minhas turmas. O Mr. Higgins achou estranho no começo. Com o tempo, se acostumou. E hoje ele aprova totalmente. Afinal, as turmas do Piccadilly aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Quase metade dos meus alunos são mulheres agora. As aulas ficaram mais interessantes e menos tediosas com elas. Todos saíram ganhando. Darico Nobar: Vamos abordar sua vida pessoal. A senhorita pertence à família Simpson, certo? Você conhece o Homer, a Marge e as crianças? Senhorita Simpson: Oh, não. Apesar do mesmo sobrenome somos de famílias distintas. Eles são de Springfield, na costa Leste, e nós somos de Provo, na costa Oeste. Darico Nobar: A senhorita não é casada, mas está namorando no momento? Senhorita Simpson: Não tenho namorado. Faz muitos e muitos anos que não tenho um relacionamento sério. Casar é um sonho que alimento desde pequena. (A entrevistada ruboriza). Quero me casar na igreja de vestido branco... Sou muito tradicional, sabe? Porém, é difícil achar um homem... [A convidada fica mais vermelha]. Ainda mais agora que não sou tão nova... [Ela volta a chorar. No começo é um choro leve]. Sinto-me tão velha, Darico. Sou mesmo velha para me casar? [O choro se torna intenso. Ela soluça entre o derramar das lágrimas]. Darico Nobar: Que isso, Senhorita Simpson? Você continua sendo uma mulher muito atraente. Não chore, por favor. [Ele abraça a entrevistada, que novamente aceita o consolo e pula no colo do apresentador para chorar de forma mais confortável]. Nunca sei o que fazer quando uma mulher bonita começa a chorar ao meu lado... Senhorita Simpson: Não quero mais fazer o programa! Darico Nobar: Claro! [O apresentador inclina-se para o lado para se desviar do corpo da mulher que está em cima dele. Ele, então, olha para a câmera 3]. Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. Até semana que vem. Abraços a todos! Senhorita Simpson: Obrigada. [A banda toca uma música de encerramento e os créditos do programa começam a subir na tela. Apresentador e entrevistada retiram seus fones de ouvido]. Darling, can you take me home? Darico Nobar: Of Corse. Come on teacher. Senhorita Simpson: If you want to practice a bit of English along the way we can. Darico Nobar: Really?! I loved your idea. I need to talk English because I don't speak somebody a long time. Senhorita Simpson: Great! I will love to be your teacher in this night, sweetheart. Darico Nobar: Thank you. Senhorita Simpson: You will thank really really me later baby. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #SérgioSantAnna

  • Talk Show Literário: Álvaro

    Darico Nobar: Olá, amigos do Talk Show Literário. No programa de hoje, vamos receber uma das personalidades literárias mais importantes da campanha abolicionista do século XIX. Com vocês: Álvaro! [A plateia saúda o entrevistado com muitas palmas]. Álvaro: Boa noite, Darico. Boa noite, prezado auditório. Plateia: Boooooa noooooite! Darico Nobar: Álvaro, você veio sozinho ao programa? Cadê a Isaura? A produção me garantiu que convidou o casal. Álvaro: A Isaura é uma dama muito recatada. Não gosta de holofotes. Nunca gostou. Desde o traumático baile na minha casa em Recife, ela se recusa a comparecer aos eventos sociais e aos programas de televisão. Sempre que precisa ir, ela chama a Lucélia Santos ou a Bianca Rinaldi para representá-la. Como atrizes, as duas estão mais acostumadas a tais ocasiões. Além disso, a Isaura está trabalhando nesta noite. Por isso, pediu mil desculpas a você e lhe mandou um beijo. Darico Nobar: Em que a Isaura tem trabalhado? Álvaro: Durante a semana, ela é professora de música em escolas do subúrbio carioca. Como o salário de docente em nosso país é indecente, ela precisa trabalhar em três turnos em seis colégios diferentes para ganhar uns trocados. Aos finais de semana, a Isaura aproveita para tirar um extra. Ela canta e toca durante o dia em algumas praias do Rio e à noite em barzinhos. Neste momento, ela está fazendo uma apresentação em um restaurante da Zona Sul. Darico Nobar: Nossa! A Isaura está trabalhando como uma escrava, né? Álvaro: É triste verificar que ela se mata para ganhar tão pouco... Às vezes, ela reclama. Diz que a escravidão só mudou de configuração. Ao invés de dar comida e abrigo para os trabalhadores como no século XIX, os patrões do século XXI pagam uma merreca que mal dá para os assalariados viverem com o mínimo de dignidade. No fim das contas, a abolição acabou aumentando o número de escravos no país. Somos agora servos remunerados, o que é muito mais vantajoso para os empresários. Afinal, eles não precisam nos comprar no mercado como faziam antigamente. Darico Nobar: Vocês estão morando no Rio, certo? Álvaro: Sim. Desde que me casei com a Isaura, nós moramos aqui. Nosso barraco fica na Comunidade da Rocinha. Darico Nobar: Álvaro, o que aconteceu com a sua riqueza? Até o final do século XIX você era um riquíssimo fazendeiro. Álvaro: Sinceramente, não sei o que aconteceu. [Coloca as mãos no rosto, escondendo a face por alguns segundos]. Acho que no fundo nunca fui um bom capitalista como o Bernardo Guimarães supunha. Depois que dei liberdade para os meus escravos, bem antes da Lei Áurea ser promulgada, realizei uma pequena reforma agrária em minhas fazendas. Fiz isso décadas e décadas antes do João Goulart vir com a mesma ideia. Depois, um século antes de o Getúlio Vargas criar as leis trabalhistas e o salário mínimo, eu já conferia benefícios e ótima remuneração aos meus funcionários. Para completar, passei a pagar todos os impostos exigidos pelo governo, algo que até hoje a maioria dos ruralistas não fazem. Ah, e tem mais. Logo em seguida, subsidiei educação e saúde de qualidade para todos os meus colaboradores e seus familiares. Darico Nobar: Que incrível! Há muito tempo você já praticava os mais modernos princípios empresariais em suas fazendas. Álvaro: Sim. Por isso, meus negócios foram muito bem até 1910. Depois, infelizmente, várias pragas infestaram minhas fazendas. E nisso, minha fortuna se foi. Fui à falência completa com a perda de sucessivas colheitas. No último século, eu e a Isaura tivemos que trabalhar como empregados para sustentar nossa família. Ela como professora de música e eu como advogado. Darico Nobar: É verdade que você, como advogado trabalhista, nunca conseguiu clientes importantes por ter, no passado, defendido abertamente a abolição da escravatura no Brasil? Álvaro: Não sei se uma coisa tem relação com a outra. O que sei é que em quase um século e meio de advocacia, não consegui mais de três clientes remunerados. E dois deles, fazendeiros do Nordeste, me deram calote. A maioria dos casos que atendo diariamente é de trabalhadores explorados pelos patrões que não podem me pagar pelos serviços prestados. Falo isso com dor no coração, mas há muitos empresários que continuam tratando o povo como se ainda existisse escravidão em nosso país. Darico Nobar: Você é uma pessoa politizada. Isso lhe trouxe problemas? Álvaro: Você não faz ideia o que eu tive de passar nas últimas décadas. Até ameaça de morte eu recebi. Não é à toa que o Adoniran Barbosa, décadas e décadas depois, lançou o termo "Tiro ao Álvaro". Darico Nobar: Eu soube que tentaram matar você. Como foi? Álvaro: Ao todo, sofri cinco atentados. Nos cinco, fui baleado no peito, mas sobrevivi... O pessoal brinca que só não morri porque fui por muitos anos fazendeiro e, assim, não tenho coração... A polícia nunca descobriu os responsáveis. Hoje em dia vivo sobre a proteção da polícia. E imaginar que o Sérgio Buarque de Holanda acreditava no mito do brasileiro ser um povo cordial e pacífico. Darico Nobar: E não é? Álvaro: Prefiro os versos do Adoniran: "Meu peito até parece sabe o quê?/ Táubua de tiro ao Álvaro/Não tem mais onde furar/Teu olhar mata mais do que bala de carabina/ Que veneno e estriquinina/ que peixeira de baiano/ Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver/Mata mais que bala de revórver". Darico Nobar: Álvaro, essa música é uma canção romântica. Álvaro: Só se for para você! Para mim, que tive o peito efetivamente furado por balas, ela fala do ódio dos brasileiros preconceituosos e elitistas por mim. Darico Nobar: Em sua opinião, o Brasil evoluiu muito desde a Lei Áurea, em 1888? Álvaro: Claro que não! O país só não regrediu porque não dá. Vivemos com a mesma gritante desigualdade social dos tempos do Império. O racismo continua se manifestando diariamente. Só não vê quem não quer. E a violência pelos quais os pobres precisam passar rotineiramente não mudou nadinha. As profissões de feitor e de capitão do mato continuam existindo, só que com novas denominações. A senzala agora fica mais distante da casa-grande, no alto dos morros. Darico Nobar: Vamos voltar a falar de sua vida de casado. Quantos filhos você e a Isaura tiveram? Álvaro: Nosso casamento é o melhor retrato do relacionamento romântico. Tivemos oito filhos e quarenta netos. De bisnetos e tataranetos, já perdi a conta... Darico Nobar: Você e a Isaura ainda são personalidades famosas que mobilizam multidões por onde passam? Vocês chamam à atenção dos vizinhos, da comunidade e da imprensa quando vocês saem às ruas, por exemplo? Álvaro: Não, não. Somos pessoas comuns. Quase ninguém sabe quem foi Álvaro e Isaura na literatura. Somos mais conhecidos hoje em dia como o advogado de porta de cadeia que não cobra pelos serviços e como a professora de música pobre que mora na Rocinha. Darico Nobar: "A Escrava Isaura" é uma das histórias brasileiras mais conhecidas em todo o mundo. A que você remete o sucesso do romance de Bernardo Guimarães? Álvaro: A grande sacada do autor foi ter colocado uma mulher branca na condição de escrava. Isso mexeu com os brios da burguesia caucasiana. Se a protagonista fosse uma negra, uma índia ou uma oriental, ninguém se preocuparia com a falta de liberdade dela. Porém, como era alguém branco, aí o bicho pegou para valer. Escravidão e injustiça só podem existir quando não somos nós os desfavorecidos e os violentados. Este é o pensamento mesquinho da maioria da elite brasileira ao longo da história. Darico Nobar: O que me deixa intrigado até hoje é saber o motivo pelo qual a mãe do Leôncio, quando viva, não deu liberdade para a Isaura. Ela adorava a sua esposa, Álvaro. Você tem alguma explicação para isso? Álvaro: Também não sei. Na verdade, não fico pensando sobre isso. O que sei é que tem um vizinho meu lá na Rocinha, um rapaz honesto e trabalhador, que cria um canário em uma gaiola. Ele adora aquele pássaro, que se chama Beethoven. O canário é lindo, canta que é uma beleza. Eu já cansei de falar para meu vizinho soltar o bichinho, mas ele não quer. Diz que não conseguiria viver sem a cantoria matinal do Beethoven. Vai ver a mãe do Leôncio também sofria do "Complexo do Canário". Darico Nobar: Você chegou a conviver com Leôncio, antes de ele ter aquele fim trágico que conhecemos. Ele foi realmente um dos maiores vilões da nossa literatura? Álvaro: Nunca vi o Leôncio como esse demônio que as pessoas pintam. Ele era apenas um fazendeiro rico e jovem como existem tantos por aí. Suas maldades e atrocidades não foram diferentes das cometidas pela maioria dos patrões escravocratas do interior do Brasil. Até o achei bonzinho no final das contas. Ele poderia ter feito coisas muito piores com a Isaura, mas não as fez. Se Leôncio fosse realmente maldoso, minha esposa não estaria viva e inteira hoje em dia. Darico Nobar: Obrigado por nos conceder esta entrevista depois de tantos anos de ausência na mídia, Álvaro. Você gostaria de deixar uma mensagem final para nosso público? Álvaro: Sim, gostaria de deixar o meu telefone e o da Isaura para quem precisar contratar um advogado trabalhista ou uma professora particular de música. A minha agenda está mais flexível, já a da minha esposa só tem horários disponíveis durante a semana das onze horas da noite às seis horas da manhã. Nos outros horários, ela está tocando nas escolas, nas ruas e nos barzinhos. Posso deixar o nosso telefone, Darico? Darico Nobar: Sim. Deixe comigo o cartãozinho que nos próximos programas eu apresento para o nosso público. Hoje não vai dar porque já estouramos o tempo. Álvaro: Obrigado, Darico. Estamos precisando mesmo de mais dinheiro. Darico Nobar: Sem problema, Álvaro. [A plateia aplaude o convidado]. Galera do Talk Show Literário, até semana que vem com mais uma exclusiva entrevista com as principais personagens da literatura brasileira. Boa noite! [A banda encerra a atração tocando "Vida de Negro", de Dorival Caymmi]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Talk Show Literário: João Romão

    Darico Nobar: Boa noite, Brasil! O Talk Show Literário chega hoje ao seu último programa desta segunda temporada. Já estamos no ar há dois anos. É uma marca e tanto, hein?! E para celebrar esses números incríveis vamos receber a visita do protagonista de O Cortiço, a mais importante obra naturalista brasileira. Com vocês, João Romão! João Romão: Peço desculpas. [O convidado senta-se ao sofá, enquanto ouve os aplausos do público. Ele fala com forte sotaque português e age cerimoniosamente]. Darico Nobar: Seja bem-vindo. Fique à vontade, João. O programa é todo seu. João Romão: Eu não estava à espera! O programa inteirinho é mesmo meu, Darico?! Preciso, então, fazer um inventário imediatamente para descobrir como estão o faturamento e, principalmente, a lucratividade dele. Este estúdio e o prédio do canal também fazem parte dos ativos patrimoniais do empreendimento? Darico Nobar: Não! Quando digo que o programa é seu, estou usando uma figura de linguagem. Quero que você se sinta em casa, só isso. É para você ficar à vontade. João Romão: Ah! [O entrevistado demonstra certa decepção em sua fisionomia]. Mesmo assim, vou conversar amanhã de manhã com meus advogados. Algo dado não pode ser pego de volta sem o consentimento do novo proprietário, tás a ver? Darico Nobar: Só você mesmo! [O apresentador ri, imaginando que seja uma brincadeira de João Romão. O convidado, por sua vez, permanece sério, não demonstrando ter falado de forma jocosa]. Por falar nisso, como andam os negócios? João Romão: Uma maravilha! A cada dia a São Romão Holding Empresarial cresce mais e mais. Acho que nunca enchi tanto os bolsos de dinheiro como agora. A única coisa que me incomoda no Rio é esse calorzão. Calor dos infernos nesta cidade! Darico Nobar: Está mesmo quente! O ar-condicionado do estúdio não consegue dar conta do recado... [O apresentador seca com o lenço uma gota de suor da sua testa]. Quando O Cortiço foi escrito, seus negócios eram centrados no ramo imobiliário e no comércio. E hoje, como eles estão? João Romão: Continuam sendo feitos nessas duas áreas. A diferença está apenas no tamanho desses empreendimentos. A São Romão Incorporadora é a maior empresa da América Latina na venda de imóveis residenciais. E meu armazém se transformou na maior rede atacadista do país. Darico Nobar: E é você quem permanece à frente desses negócios? João Romão: Claro! O olho do dono é que engorda o gado. Ainda trabalho todos os dias, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Chego pontualmente às seis horas da manhã na companhia e só saio de lá depois das onze da noite. Darico Nobar: Sua esposa não reclama? João Romão: Reclamar do quê?! Zulmira não é boba, não é mulher de rasgar dinheiro. Ela iria reclamar se eu não voltasse cada vez mais rico para casa. Darico Nobar: Depois de tantos anos... O senhor não pensa em desacelerar um pouco? Quem sabe viajar e curtir um pouco a vida, a família... João Romão: Esse conceito de desacelerar é típico dos brasileiros. Eles estão sempre desacelerando, por mais devagar que andem. Português legítimo só sabe acelerar. Faz parte da nossa cultura. E mais dinheiro nunca é demais! Darico Nobar: Não digo parar totalmente de trabalhar... Um homem milionário como o senhor poderia se dar, de vez em quando, alguns luxos como descansar aos finais de semana, passear, se divertir, sair de férias, não? João Romão: Prefiro deixar essas coisas aos brasileiros. Um capitalista como eu precisa trabalhar e ganhar dinheiro. Luxo e diversão não enchem o prato de ninguém. Darico Nobar: Entendo a sua dedicação, João Romão, porém uma das principais críticas que fazem a seu respeito é sobre sua... Como posso dizer? ]O entrevistador fica sem graça, não encontrando a palavra certa]. João Romão: Que sou muquirana? É isso?! Darico Nobar: Isso mesmo! Como você responde a quem o critica dessa forma? João Romão: Se ganhar mais dinheiro do que se gasta é ser muquirana, então sou com orgulho. Dinheiro foi feito para ser bem administrado e, por que não, guardado. O errado é desperdiça-lo, atirando-o ao vento. Dizem aqui no Brasil que português é burro, mas é difícil ver português pobre ou passando por dificuldades financeiras. Para mim, burro é o brasileiro, que não gosta de trabalhar, é esbanjador e está sempre pedindo ajuda aos outros. E você sabe para quem o brasileiro vem pedir auxílio quando está sem dinheiro, né? Darico Nobar: Para quem? João Romão: Para o muquirana aqui. [Bate no próprio peito com força]. É claro que não ajudo ninguém. Se o sujeito não se ajuda, por que eu teria essa obrigação? Ontem mesmo, a Rita Baiana e o Jerônimo apareceram lá no meu escritório para pedir uma graninha emprestada. Disseram estar sem nada... Eu gritei: "Vão trabalhar, vagabundos!". Não sou instituição de caridade para ficar socorrendo pobres. Darico Nobar: Eles ainda estão juntos? João Romão: Que lhe vale Deus! A Rita troca de marido como quem troca de roupa... Eles se separaram há mais de um século. Eles me visitaram separadamente. Um apareceu de manhã e o outro à tarde. A romaria dos desafortunados não tem hora nesta cidade, ela dura às vezes o dia inteiro. Darico Nobar: Pera aí! Você está falando mal dos brasileiros, mas o Jerônimo é português também se não me falha a memória. João Romão: Costumo dizer que o Jerônimo foi português, mas agora é brasileiro. Ter vindo ao Brasil e conhecido a cariocada foi a desgraça dele. Respirar os ares tropicais arruinou a vida do cavouqueiro. Ele se transformou completamente aqui. É uma pena. Hoje em dia é um malandro sem eira nem beira... Darico Nobar: A Bertoleza era brasileira e foi a personagem mais trabalhadora de Aluísio Azevedo. Como você explica isso? João Romão: Para começo de conversa, Bertoleza era uma escrava. Ela trabalhava por obrigação e não para enriquecer. Uma vez acostumada ao trabalho pesado, a pessoa tende a repetir esse hábito a vida toda. Como Bertoleza existem muitos por aí: pobres coitados que só trabalham, trabalham e nunca vão possuir nada além da roupa do corpo. Outra coisa: ela tinha sangue africano. Por isso trabalhava muito. Brasileiro nunca foi chegado ao trabalho. Nunca! Darico Nobar: Você acha o brasileiro preguiçoso? João Romão: Preguiçoso, amigo das extravagâncias e rei dos abusos. Brasileiro não pode ver uma roda de samba e um rabo de saia que sai correndo sem pensar no amanhã. É luxurioso e cimento também. O pior é ser pouco econômico e inimigo da ordem. Não é à toa que seus conterrâneos, Darico, não conseguem nunca enriquecer. Darico Nobar: E quais as qualidades do meu povo? Imagino que tenhamos algum ponto positivo para ser enaltecido, não é? João Romão: Sim, deve ter. Eu que ainda não descobri um nesses anos todos de Brasil. Essa mania de tomar banho todo dia me enoja. Ninguém economiza água nesse país. Esse jeito festeiro e animado também é contraprudente aos negócios. Odeio a passionalidade dos habitantes dos trópicos. Os homens e as mulheres dessa região do planeta se parecem mais com animais no cio do que com seres pensantes e evoluídos. Darico Nobar: Que visão mais deprimente dos brasileiros! João Romão: Não é a minha visão dos brasileiros que é deprimente e sim os próprios brasileiros que são... O que tem nesta caneca, Darico? É água? Darico Nobar: Sim. É água mineral. Pode beber. Servimos água aos convidados. João Romão: Mas é de graça ou vocês vão me cobrar ao final do programa? Darico Nobar: É de graça. [O apresentador ria novamente da possível piada do convidado]. João Romão: Se é assim... [Bebe com avidez]. Posso repetir? Tem mais aí? Darico Nobar: Produção! [O grito é para que sirvam mais água ao entrevistado. Um funcionário deixa uma garrafa de água mineral para a dupla sentada ao centro do palco]. Obrigado. Outra crítica que faziam sobre seus negócios é que eles exploravam o povo pobre e roubavam a clientela. É verdade? João Romão: Acho curiosa essa questão. Aqui no Brasil quem ganha dinheiro é visto como explorador e bandido. [Fala e, ao mesmo tempo, coloca mais água em sua caneca]. Ganhar dinheiro não é crime, sabia? Crime é não gostar de trabalhar e viver da mendicância. Aposto que quem me acusa de desonestidade e de atos ilícitos nunca economizou um centavo nem acorda de madrugada todos os dias para trabalhar. Darico Nobar: O que você fez com Bertoleza foi correto?! João Romão: Sim. Ela era uma negra e foi usada para o trabalho. Que mal havia nisso?! Aqueles eram tempos de escravidão, Darico. E quando lembrei que ela não era minha a devolvi ao seu verdadeiro dono. Sou um homem honesto acima de tudo! Darico Nobar: Dizem que as balanças do seu armazém indicavam pesos errados para as compras dos clientes. João Romão: Aí é incompetência das balanças, não tenho culpa. Elas foram todas fabricadas aqui no Brasil, portanto, não devem mesmo ser muito certas... Darico Nobar: Pessoal, esta foi a entrevista de hoje. Muito obrigado pela audiência de quem está em casa e pela presença de todos na plateia. Em janeiro, retornamos com mais uma série de entrevistas na nova temporada do Talk Show Literário. Bom Natal e um ótimo Ano Novo para todos vocês! [O público se levanta dos assentos e aplaude o apresentador, que acena com as mãos. Neste momento, o quinteto musical toca a canção de encerramento do programa]. João Romão: Você disse que a água era de graça, certo? Posso levar o que sobrou? Darico Nobar: Sim, pode... [O apresentador já não demonstra o mesmo bom humor de outrora]. João Romão: Então, terei que levar a caneca junto. É impossível carregar a água sem um recipiente, né? [O convidado retira-se do palco com a caneca na mão]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu na primeira temporada, neste segundo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #AluísioAzevedo

  • Talk Show Literário: Terceira Temporada - Apresentação

    É com muita alegria que anuncio que o programa ficcional mais amado da televisão brasileira ganhará uma terceira temporada. O Bonas Histórias renovou o contrato com Darico Nobar e, assim, teremos, em 2019, mais uma edição do Talk Show Literário. A proposta da atração continua a mesma: entrevistar as grandes personagens ficcionais da literatura brasileira. Todos os meses, iremos apresentar aqui no blog uma dessas conversas. Segundo Darico Nobar, o apresentador do programa, a meta do Talk Show Literário neste ano é se tornar a coluna mais visitada do Blog Bonas Histórias. “Há dois anos estamos em segundo lugar. Não entendo o motivo dos leitores preferirem o Desafio Literário ao nosso programa de entrevistas. Por isso, vou caprichar nas escolhas dos entrevistados desta temporada. Quero ver alguém preferir as análises literárias do Ricardo Bonacorci aos debates do meu Talk Show”, desafiou o entrevistador na última reunião de pauta. Pelo visto, Nobar vem com muita vontade de fazer um programa ainda melhor neste ano! A seguir, apresentamos, em primeira mão, a programação das entrevistas do Talk Show Literário em 2019. Confira as atrações e se programe para acompanhá-las ao longo do ano: - 21 de janeiro - Entrevista 1: Bibiana Terra Cambará - "O Continente" (1949) – Erico Veríssimo - 10 de fevereiro - Entrevista 2: Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna - "O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta" (1971) – Ariano Suassuna - 10 de março - Entrevista 3: Ponciano de Azeredo Furtado - "O Coronel e o Lobisomem" (1964) – José Cândido de Carvalho - 11 de abril - Entrevista 4: Emília de Rabicó - "Reinações de Narizinho" (1931) – Monteiro Lobato - 11 de maio - Entrevista 5: Riobaldo Tatarana Urutú-Branco - "Grande Sertão: Veredas" (1956) – João Guimarães Rosa - 12 de junho - Entrevista 6: João Miramar - "Memórias Sentimentais de João Miramar" (1924) – Oswald de Andrade - 12 de julho - Entrevista 7: Maria Moura - "Memorial de Maria Moura" (1992) – Rachel de Queiroz - 9 de agosto - Entrevista 8: Evangelista - "Romance do Pavão Misterioso" (1923) – João Melquíades Ferreira da Silva/José Camelo de Melo - 12 de setembro - Entrevista 9: Menino Maluquinho - "O Menino Maluquinho" (1980) – Ziraldo - 12 de outubro - Entrevista 10: Virgínia - "Ciranda de Pedra" (1954) – Lygia Fagundes Telles. - 11 de novembro - Entrevista 11: Vitorino Carneiro da Cunha - "Fogo Morto" (1943) – José Lins do Rego. - 9 de dezembro - Entrevista 12: Salvatore Melli - "Brás, Bexiga e Barra Funda" (1927) – António de Alcântara Machado. Desejo um ótimo Talk Show Literário para todos nós em 2019! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da programação de entrevistas. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #Contos #ColetâneadeContos #LiteraturaBrasileira #Literatura #LiteraturaClássica

  • Talk Show Literário: Bibiana Terra Cambará

    Darico Nobar: Boa noite, amigos e amigas! É com muita alegria que inicio a terceira temporada do Talk Show Literário. [A câmera dá um zoom no apresentador]. Sim, é isso mesmo o que vocês ouviram. Em 2019, caminhamos para um novo ano do programa, que bateu recordes de audiência em 2018. [Gritos e palmas de empolgação vêm do auditório]. E para inaugurar esta nova série de entrevistas, a convidada de hoje é uma das personagens mais famosas da saga “O Tempo e o Vento”, do gaúcho Érico Veríssimo. [A imagem volta para o take aberto]. Com vocês, Bibiana Terra Cambará! [A plateia aplaude com entusiasmo a entrevistada, uma senhora bem idosa e com longos cabelos brancos. Ela caminha vagarosamente em direção ao palco]. Bibiana Terra Cambará: Boa noite, Darico. [A visitante, enfim, chega ao sofá onde o apresentador a está aguardando]. Darico Nobar: Obrigado pela sua presença, Dona Bibiana. Eu soube que a senhora relutou muito em comparecer ao nosso programa. Por que esse receio de nos visitar? Bibiana Terra Cambará: Sabes como é: meu lugar não é aqui, nesta cidade grande, neste palco cheio de câmeras de televisão. O meu lugar é na minha terra, junto da minha família, na minha casinha interiorana. É lá que vivo e que tenho serventia. Achei um disparate essa viagem tão longa. Até agora, não entendi o que estou fazendo aqui. Darico Nobar: Nós queremos saber tudo sobre sua vida. Bibiana Terra Cambará: E o que tem ela de tão especial? Darico Nobar: Muitas coisas! Temos curiosidade, por exemplo, de saber como era o Rodrigo Cambará, uma das personalidades mais carismáticas da nossa literatura. Bibiana Terra Cambará: Não me digas que tu és do tipo que acha o Rodrigo um sem-vergonha, vagabundo, mulherengo e beberrão?! Se fores, saibas que vou embora imediatamente. [A senhora se levanta com muita agilidade da poltrona]. Darico Nobar: Não, não! Por favor, Dona Bibiana, sente-se. Há muito tempo que sou um grande fã do seu falecido marido. O Capitão Cambará é o exemplo do homem másculo e corajoso. O espírito alegre e o jeito extrovertido dele sempre me fascinaram muito. Bibiana Terra Cambará: Se é assim, eu fico. [Volta a se sentar no sofá, agora com um pouco mais de lentidão]. Não gosto de quem fala mal dos homens de bom coração. Darico Nobar: Contudo, é natural a antipatia que algumas pessoas têm dele, né? Não é todo mundo que compreende o estilo de vida peculiar que o Rodrigo tinha. Bibiana Terra Cambará: No papel de esposa, eu entendia perfeitamente seu comportamento. Meu marido era um homem correto e digno. Não admito calúnias, ainda mais feitas pelas costas, sem que ele possa se defender. Darico Nobar: Dona Bibiana, a senhora é uma mulher muito decidida e sábia. Como a sua avó, Ana Terra, você sabe muito bem o que fazer e quais decisões tomar em cada situação de dificuldade. Contudo, algumas pessoas acham a senhora um tanto resignada em relação ao seu destino e à sua vida. Você concorda com essa opinião? Bibiana Terra Cambará: O que posso fazer para mudar minha vida se ela já está traçada nas linhas do tempo e nas páginas dos livros?! O destino de cada um de nós é algo que precisamos entender e, principalmente, aceitar. Ao invés de ficarmos relutando inutilmente contra os desígnios da vida, vale mais a pena abraçar o que o destino nos reservou. Darico Nobar: Essa visão é intrigante, admito. A senhora não se incomodava nem um pouco com as atitudes do Rodrigo? Não valeria a pena mudar algo nele? Bibiana Terra Cambará: Meu marido era um homem maravilhoso. Nunca conheci ninguém mais alegre, divertido e corajoso. Seu coração não cabia dentro dele. Ele defendia os fracos e os injustiçados. Não era capaz de fazer mal nem para um bicho. Por que eu iria querer mudá-lo? Darico Nobar: Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer, ele era mulherengo, alcoólatra e viciado em jogo de carta. Perdia muito dinheiro com as apostas que fazia. O Capitão ficava entediado facilmente e gostava de viajar por longos períodos. Além disso, era do tipo esquentado. Por qualquer coisa, já pulava no pescoço do sujeito a sua frente para brigar. Esses não eram alguns dos principais defeitos dele?! Bibiana Terra Cambará: Darico, não sei se tu sabes, mas não existe pessoa perfeita nesse mundo. Eu também tenho muitos defeitos. Você e cada uma das pessoas nesta plateia também devem ter os seus. Se apagar os defeitos de alguém fosse tão fácil, acredito que haveria muitos homens e mulheres perfeitos por aí. Não é o caso, obviamente. Também não acredito que consigamos mudar a essência das pessoas. Se essa minha característica é vista como conformismo pelos outros, tudo bem. Darico Nobar: A senhora está dizendo que por mais que tentasse, jamais iria mudar algo no Rodrigo Cambará? Bibiana Terra Cambará: Eu não tenho essa capacidade. E também acho que não tenho o direito de querer mudar ninguém, muito menos o meu marido. Acho que ninguém tem. Quando aceitei o pedido de casamento do Rodrigo, eu sabia exatamente que tipo de homem ele era. Eu me apaixonei por ele do jeito que ele era. Não fazia sentido querer mudar algo nele depois de casada. Darico Nobar: Nesse caso, a senhora acha errado quando a mulher ou o marido tenta mudar o cônjuge depois do casório? Bibiana Terra Cambará: Cada um faz o que quer da sua vida. Não sou ninguém para dar conselhos para os jovens. Apenas acho essa atitude insensata e pouco viável. Por que as mulheres não se aproveitam das qualidades dos seus maridos e eles as delas? A felicidade conjugal passa mais pela aceitação do outro do que pela tentativa de mudança da personalidade do parceiro ou da parceira. Darico Nobar: Não acredito que a senhora não sentia ciúmes do Rodrigo quando ele saía de casa e passava a noite fora! Bibiana Terra Cambará: E quem disse que eu não tinha?! É claro que eu sofria de ciúmes. Não é fácil estar em casa com os filhos sabendo que seu marido está deitado com outras por aí. Porém, eu sempre compreendi que jamais iria conseguir aprisioná-lo dentro de casa. Por mais que tentasse, nunca seria bem-sucedida nessa empreitada. Para tê-lo comigo, eu precisava aceitar algumas de suas escorregadas. Mesmo sendo mulherengo, boêmio, beberão, esquentado e mão aberta, ele era meu marido e eu o amava. Isso nunca mudou e nunca mudará. Não entendo o seu espanto a esse respeito. Darico Nobar: Não é espanto. Só acho curioso a senhora defendê-lo tanto. Bibiana Terra Cambará: Tu querias, então, que eu me separasse dele? Aí, quem iria sofrer para valer era eu. Ou seria melhor ficar casada e exigir que ele largasse as coisas que mais gostava de fazer? Aí, quem iria sofrer seria ele. Será que eu seria mesmo feliz ao lado de um homem infeliz e incompleto? Acho que não. Aceitei suas particularidades e não me arrependo. Darico Nobar: Será que não teria sido melhor um casamento com o Bento Amaral? Bibiana Terra Cambará: Talvez o Bento Amaral fosse um homem inteiramente fiel a mim. Sua riqueza poderia dar mais conforto para o meu dia a dia. Duvido que ele ficasse bêbado ou perdesse tempo com jogatinas. Se eu pedisse, provavelmente ele jamais faria uma viagem longa e nunca se meteria em brigas. A questão é que eu não o amava. Nada do que ele fizesse iria despertar o meu amor, como o Rodrigo fazia. Prefiro um Cambará bêbedo, pobre, infiel, viajante e esquentado do que um Amaral sóbrio, rico, fiel, caseiro e calmo. Darico Nobar: Seu marido era mesmo bonitão como retratado pelo Veríssimo? Bibiana Terra Cambará: Sim, era. [Solta um suspiro]. Quando vejo, hoje em dia, o Thiago Lacerda na televisão, eu recordo imediatamente do meu antigo marido. Fisicamente, os dois são muito parecidos. Mas, não era só a beleza do Rodrigo que chamava a atenção das pessoas. Ele possuía um charme natural. Quando chegava a um lugar, meu marido monopolizava os olhares. Ou era pelo seu papo agradável ou era pela sua cantoria infinita. Às vezes, o que despertava a curiosidade nas pessoas era seu jeito desbocado e provocador. Vale lembrar que o Juvenal, quando conheceu o Rodrigo, quase brigou com ele. E olha que não havia homem mais tranquilo e pacífico do que meu irmão em Santa Fé. Era impossível para meu marido passar indiferente. Ele era amado ou odiado intensamente. Não havia meio termo. Darico Nobar: Imagino que a senhora tenha lido todos os livros de “O Tempo e o Vento”. [A entrevistada balança a cabeça afirmativamente]. Qual é sua parte favorita da série? Só não vale mencionar o capítulo “Um Certo Capitão Rodrigo” do “O Continente”. Bibiana Terra Cambará: Sou apaixonada pela história de amor da minha avó com meu avô. A relação deles era proibida. Na época, a união entre uma mulher branca com um índio não era benquista, principalmente pela família dela. Também gosto do comecinho do livro O Continente, que narra a chegada da minha bisavó grávida à colônia jesuíta do Sul do país. A única parte que me dá certo desgosto é a que retrata o infeliz casamento do meu filho Bolivar. Essa parte eu só consegui ler uma vez e foi com muito custo. Prometi para mim mesma que jamais voltaria a abrir essas páginas. Darico Nobar: A senhora se arrepende de ter incentivado seu filho a se casar com Luzia? Bibiana Terra Cambará: Não. Bolivar a amava muito. E Luzia era neta de Aguinaldo Silva, o homem que tinha roubado as terras do meu pai. No fim das contas, recuperamos o que era legitimamente nosso. Isso é o que importa! Darico Nobar: Mas ela era uma mulher perturbada mentalmente, violenta e muito cruel?! Bibiana Terra Cambará: E daí? O que você tem a ver com isso?! [A entrevistada se inclina para frente demonstrando muita impaciência]. Darico Nobar: Nada, nada. Não está mais aqui quem perguntou. [O apresentador respira fundo antes de prosseguir]. De certa forma, a vida que sua avó Ana Terra teve se repetiu com a senhora depois. E na sequência, com seu filho. Você enxerga essas coincidências. Bibiana Terra Cambará: Enxergo sim, mas para mim a palavra correta para isso não é coincidência. Prefiro pensar em destino. As pessoas da nossa família têm um destino traçado e é preciso aceitá-lo. Algumas forças invisíveis da natureza não podem nunca ser contidas. Nunca! Darico Nobar: Pessoal, esta foi Bibiana Terra Cambará. Obrigado pela sua entrevista, Dona Bibiana. Desejo bom retorno ao Sul. Bibiana Terra Cambará: Felicidade para ti, Darico [O auditório aplaude a convidada que sai demonstrando alguma dor nas costas]. Darico Nobar: Galera, boa noite a todos e até semana que vem com mais um Talk Show Literário, o programa mais surpreendente da televisão brasileira. Tchau! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #EricoVeríssimo

  • Talk Show Literário: Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna

    Darico Nobar: Salve, salve, fãs da literatura clássica. Depois de entrevistarmos muitas personalidades famosas, chegou a hora de conversarmos com um legítimo integrante da família real brasileira. Agora, no palco do Talk Show Literário, o Rei e Profeta do Quinto Império da Pedra do Reino do Sertão do Brasil. Com vocês: Dom Pedro IV, o Decifrador! [O entrevistado entra no auditório ao som de cornetas tocadas por um grupo de músicos vestidos com o uniforme da Guarda Nacional. O apresentador e o público saúdam o monarca inclinando o corpo para frente e mexendo solenemente as mãos em sinal de reverência]. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Boa noite, Dom Darico! Muito obrigado pela recepção segundo a tradição e o protocolo monárquico d'A Pedra do Reino Darico Nobar: É o mínimo que podemos fazer por Vossa Majestade. Espero que todas as reivindicações entregues à nossa produção tenham sido atendidas conforme seus gostos e vontades. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Já que o senhor tocou nesse assunto, aviso que faltaram uma ou outra coisa da lista que fiz. Mas não tem problema, não. Sou um rei pouco vaidoso e nada afeito às ostentações. Ao invés das duas mil toalhas brancas, por exemplo, só encontrei noventa no meu camarim. Também não gostei da qualidade da macaxeira e da umbuzada servidas. A alfafa oferecida ao Pedra-Lispe não me pareceu semelhante ao que ele come lá no Sertão. O que mais senti falta, porém, foi dos corpos das dez donzelas decapitadas. Procurei, procurei, mas não achei... Vocês providenciaram? Darico Nobar: Caríssimo Dom Pedro Dinis, infelizmente não foi possível atendê-lo nesse quesito. Não é nada fácil achar jovens virgens decapitadas no Rio de Janeiro atualmente. Em várias comunidades da cidade até encontramos, junto aos chefes do tráfico, muitas mulheres com as cabeças cortadas. Contudo, nenhuma era virgem. Espero que isso não tenha tornado sua estadia em nosso estúdio ruim. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Fique tranquilo, meu amigo. Eu mesmo providenciei o tira-gosto da tarde. Sou da família imperial sertaneja. Não há nada que eu não consiga arranjar sozinho. Só peça, por favor, para a sua produção dar uma passadinha no meu camarim para limpar o sangue que ficou espalhado por lá. Darico Nobar: Sangue?! É para já! [O apresentador fala com a mão no ponto eletrônico pregado ao seu ouvido. Seu tom de voz é bem mais baixo do que o habitual]. Diretor, peça para a Monique e para a Emiliana darem uma boa arrumada no camarim do nosso entrevistado. Parece que está bem sujo por lá. O quê? Elas sumiram há horas?! Depois a gente vê isso, ok? Preciso continuar a entrevista aqui. [O entrevistador volta-se para seu convidado]. Diga-me, Dom Pedro Dinis, a qual gênero literário pertence seu livro? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: De fato, nobres senhores e belas damas de peitos macios, não é fácil enquadrar minha obra-prima em um gênero literário específico. Acredito que o “Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” possa ser definido simplesmente como um romance heroico-brasileiro, ibero-aventureiro, criminológico-dialético, tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor lendário e de cavalaria épico-sertaneja produzido no estilo genial raposo-esmeráldico e real-hermético dos Monarquistas de Esquerda. Darico Nobar: Nossa! Complexa essa definição, não é? [O apresentador não se aguenta e dá uma risada]. E você foi influenciado por alguém para escrever essa obra? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Sim. Todos os gênios são influenciados por alguém. No meu caso, não seria diferente. O tapirismo do Barão-doutor Samuel Wan d'E Eners e o oncismo do Professor-filósofo Clemente Hará de Ravasco Anvérsio foram decisivos para a constituição do meu estilo régio. Meus padrinhos João Melchíades Ferreira e Lino Pedra-Verde também foram muito importantes. Minha literatura, de forma geral, é influenciada pelos romances de José de Alencar, pelos folhetos de safadeza do Visconde de Montalvão, pelas aventuras de Jesuíno Brilhante e pelo humor escrachado de Miguel de Cervantes. Darico Nobar: O seu livro, por um acaso, já foi eleito a Obra Nacional da Raça Brasileira? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Ainda não, Dom Darico. Também não fui condecorado com o título de Gênio Máximo da Humanidade. Você acredita?! Darico Nobar: Ainda não, Dom Pedro Dinis?! Como isso é possível? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: É perseguição dos meus opositores. Há muita gente por aí com inveja das minhas credenciais. Apesar da minha reconhecida humildade, sou e sempre serei um cronista-fidalgo, um poeta-escrivão, o Rei d'As Armas da Casa Real do Sertão do Cariri, o prinspe-bibliotecário, um cavaleiro-cangaceiro destemido organizador de memoráveis Cavalhadas, o profeta-mor da Igreja Católico-sertaneja, o presidente-fundador da Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba e o autor do maior romance medieval-cangaceiro de cavalaria épico de cordel do mundo. Darico Nobar: Os atrasos nas entregas dos prêmios são suas maiores frustrações? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Não. Há outras coisas que me desagradam mais. Afinal, os títulos que mereço uma hora ou outra irão chegar. Esse atraso é culpa da morosidade da humanidade em reconhecer seus gênios e suas obras-primas. O que me deixa realmente chateado é quando mencionam nos livros de história os falsários da família Bragança como os verdadeiros reis do Brasil. Ou quando julgam o “Auto da Compadecida” como a principal obra literária de Ariano Suassuna. Darico Nobar: Em relação à família real, concordo com Vossa Majestade. Eu aprendi na escola que os únicos imperadores do nosso país foram Dom Pedro I e Dom Pedro II, ambos membros da Casa dos Bragança. Sobre os Quaderna, não há qualquer menção nos livros. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Isso é uma tentativa conjunta da Direita-integralista, da Esquerda-comunista e do Centro-centrista de deturpar a história da nossa nação. Por que só os reis de linhagem portuguesa podem ser coroados em nosso país?! Não é justo! Além do mais, alguns brasileiros foram alçados à condição de monarcas sem possuírem sangue nobre, o que é ainda mais revoltante. Darico Nobar: Como assim? Não entendi... Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Explico a Vossas Excelências... O Pelé foi proclamado Rei do Futebol, o Roberto Carlos é o Rei do não sei o quê, o Orlando Silva foi o Rei das Multidões, o Robinho é o Rei das Pedaladas, o Alacyr de Moraes foi por muitos anos o Rei da Soja e o Luiz Gonzaga será eternamente o Rei do Baião. E eu, como fico nessa história? Mesmo sendo um legítimo Ferreira-Quaderma, ninguém me proclama Rei do Sertão! Darico Nobar: E por que a rixa com o “Auto da Compadecida”? Não podemos negar que a história de Chicó e João Grilo seja uma das obras mais populares do Brasil. Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Nobres senhores e belas damas de peitos graciosos, eu informo que não tenho nada, a princípio, contra o “Auto da Compadecida”. Até considero sua trama engraçadinha. O problema surge quando dizem se tratar da principal obra literária do Ariano Suassuna. Não é! A principal razão para essa desqualificação é elementar: o “Auto da Compadecida” é uma peça teatral. Isso por si só não permite que ele seja incluído na categoria literatura. Uma coisa é obra teatral e outra é obra literária. O “Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, como deixei claro já no título, é um romance e é a maior obra literária da história do Brasil. Darico Nobar: Pelo menos na extensão do nome é sim, sem dúvida nenhuma... [O apresentador volta a soltar uma gargalhada]. Dom Pedro Dinis, contaram para mim que o senhor mantém certa rivalidade literária com João Grilo e com Chicó. É verdade? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Não! Imagine só se eu iria me incomodar com a fama de dois "amarelinhos"... Gosto tanto deles que os citei rapidamente em minha obra. Eles aparecem no comecinho e no final de “A Pedra do Reino”. Se eu não gostasse deles, não teria permitido que eles contracenassem comigo no grande clássico da nossa literatura. Darico Nobar: Soube que em um congresso literário sobre ficção nordestina você se recusou a sentar ao lado deles quando eles foram anunciados como as principais criações de Suassuna. Isso aconteceu mesmo? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Um nobre como eu, com títulos nos campos da literatura, da astrologia, da religião e da cavalaria medieval-cangaceira, não pode nunca ser comparado a dois pés-rapados como o João Grilo e o Chicó, né? Esse equívoco do cerimonial do evento impossibilitou a minha presença por lá. O problema foi esse. Novamente, repito: não tenho nada contra esses dois personagens secundários do meu romance. Até sinto o mínimo de afeição por suas figuras. São dois sujeitos simpáticos, apesar de muito mentirosos e extremamente exagerados. Darico Nobar: Você não gosta de pessoas mentirosas nem de mentiras, não é? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Dom Darico, o mundo seria um lugar bem melhor para vivermos se o ser humano não fosse um bicho tão fantasioso. Por isso, não suporto sujeito que tropece nas verdades. Em meu reino e em minha religião, a mentira e o exagero são os piores pecados que alguém pode cometer. Darico Nobar: Entre presidencialismo, parlamentarismo e monarquismo, qual é o melhor regime de governo para o Brasil? Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna: Sem dúvida nenhuma é a monarquia. Repare que os países com maior índice de desenvolvimento humano são aqueles regidos por reis, rainhas e famílias imperiais: Canadá, Suécia, Dinamarca, Nova Zelândia, Japão, Inglaterra, Noruega, Bélgica, Austrália e Mônaco. Monarquia é sinônimo de nação de primeiro mundo e de sociedade avançada. Para o Brasil do século XXI crescer e prosperar, é necessário alguém com sangue nobre para capitanear esse processo. E ninguém é mais indicado para tal proeza do que um descendente quadernesco. Darico Nobar: Pessoal, este foi o Talk Show Literário desta noite. Dom Pedro IV, muito obrigado pela sua presença em nosso programa. [O rei faz um leve aceno de cabeça como retribuição ao agradecimento]. Até semana que vem, galera! [O entrevistado sai do auditório ao som das cornetas. Os músicos seguem o rei em um ritual aparentemente tradicional. Enquanto isso, o apresentador e a plateia no auditório continuam reverenciando de longe o nobre convidado]. Darico Nobar: Sim, diretor. Já posso falar. [Com a mão no ponto eletrônico e falando baixinho, o âncora do programa volta a inclinar seu corpo para cima, em uma posição normal]. Acharam a Monique e a Emiliana? Que bom. O quê? Mortas? Como assim? [Um minuto de silêncio]. Quem iria decapitá-las e violentar seus corpos dentro dos nossos estúdios? Estou indo até aí para ver. [As últimas imagens que as câmeras mostram antes do Talk Show Literário ser encerrado nesta noite é uma movimentação estranha de pessoas no palco. Um corre-corre se fez presente, com seguranças e profissionais indo apressadamente para o interior do estúdio]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #ArianoSuassuna

  • Talk Show Literário: Ponciano de Azeredo Furtado

    Darico Nobar: Olá, Brasil! No Talk Show Literário desta noite, vamos receber o destemido coronel de Sobradinho, a mais famosa personagem de José Cândido de Carvalho. Bem-vindo, Coronel Ponciano! É um prazer recebê-lo em nosso programa. Ponciano de Azeredo Furtado: Boa noite, Seu Darico. [A plateia aplaude o entrevistado, enquanto ele acende calmamente um charuto]. A honra desta visita é toda minha e não abro mão de nenhuma parte dela. Aceita um Flor de Ouro? Darico Nobar: Obrigado pelas palavras e pelo charuto. Apesar de não fumar, fique à vontade para... Coff, coff, coff! [O apresentador é atingido por uma baforada vinda do convidado]. Ponciano de Azeredo Furtado: A mocidade de hoje não sabe o que é bom! Degustar um bom fumo, desde os antigamentes, sempre foi um dos maiores prazeres masculinos. Não me diga, Seu Darico, que o senhor também não é chegado a se meter entre as pernas das moças nem aprecia o lambiscar de carne de porco na refeição?! Darico Nobar: Que isso, Coronel?! Eu só não tenho o hábito de fumar charuto... Ponciano de Azeredo Furtado: É como sempre digo: um homem é um homem e uma toupeira é uma toupeira. Se o problema for só esse, posso solucionar isso agorinha mesmo. Tome aqui. [Entrega para o apresentador um charuto tirado de uma caixa de madeira que o acompanha]. Este é um fumo de primeira, coisa fina mesmo. Acenda. Só pitando para o senhor lhe dar valor. Darico Nobar: Vamos ver... [Depois de acender o charuto, o âncora do programa traga com prazer]. Nada mal, hein?! [A dupla, no centro do palco, fica alguns segundos fumando em silêncio]. Ponciano de Azeredo Furtado: Acho muito estranha essa modernização, sabe? Além de não gostar de fumar, a mocitude de agora tem uns hábitos esquisitóides. Hoje em dia é normal homem se deitar com homem na cama e mulher com mulher... Ninguém respeita os mais velhos e todo mundo vive com pressa. Até o apetite à mesa é malvisto. A maioria das pessoas está sempre de regime, mesmo estando imensa. Onde está o orgulho de possuir uma barriga larga? [Apalpa a sua com grande satisfação]. Darico Nobar: Novos tempos, Coronel. Novos tempos! Ponciano de Azeredo Furtado: Se precisar de um bom rabo-de-saia ou quiser se esbaldar em uma matação de porco sem fim é só me avisar. Pelas bandas de Sobradinho, temos as duas coisas em excesso de quantidade e de qualidade. Ninguém fica na miserânia por lá, seja na mesa ou na cama. Darico Nobar: Oh, Coronel Ponciano, o convite é tentador, mas sou casado! Ponciano de Azeredo Furtado: Casado ou castrado?! Nem todo homem amarrado no altar é frouxo na cama. O senhor é meu convidado para uma vadiagem completa. É só aparecer em Sobradinho que será bem-vindo. Amigo meu é rei em minha fazenda. Darico Nobar: Obrigado novamente, Coronel. O senhor parece ser um bom amigo. Ponciano de Azeredo Furtado: É o que essa gente sempre fala por aí do Coronel Ponciano: não há homem mais leal e generoso do que um Azeredão Furtado! Darico Nobar: Por falar na crença popular, gostaria de saber a veracidade de algumas histórias atribuídas ao senhor no romance "O Coronel e o Lobisomem". [O entrevistador abana as mãos para dissipar um pouco da fumaça dos charutos que insiste em cercá-lo]. São verdadeiros aqueles casos sobre lobisomem, sereia...? Ponciano de Azeredo Furtado: Que pergunta mais escangalhada! [O entrevistado aumenta o tom de voz, falando com força e braveza pela primeira vez]. Claro que são! Por que não seriam?! O Coronel de Sobradinho, por um acaso, é mentireiro? Darico Nobar: Não, Coronel. Pelo contrário: o senhor é um homem muito respeitado. O problema é que nem todo mundo acredita em lobisomens e em sereias. Às vezes, é mesmo difícil de crer que haja sereias no Sertão nordestino... Ponciano de Azeredo Furtado: Tem sempre um ou outro sujeitinho que duvida que eu sozinho de mais pessoas tenha abatido uma onça selvagem no meio da mata. Ou que questione minha vitória na luta contra o valentão do circo. Se não fossem verdadeiras, essas histórias não teriam caído na boca do povo, né? Não há nada mais legítimo do que a língua da arraia-miúda. Darico Nobar: Porém, as pessoas que cultivam essas narrativas são seus amigos e funcionários. Trata-se de gente simples que parece acreditar em muitas crendices. Ponciano de Azeredo Furtado: Seu filho de égua, quem você pensa que é?! Está mangando de mim na cara dura, é isso? Darico Nobar: Não, Coronel. Só estou perguntando se são verdadeiras as suas histórias. Infelizmente, muitos leitores não acreditaram em sua versão dos fatos... Ponciano de Azeredo Furtado: Saiba que ainda está para nascer o descarado que irá chamar o neto de Simeão de loroteiro na fuça dele. Se os leitores acreditam ou não acreditam no livro não é problema do Coronel. Ele é um homem de alta patente militar, versado nas leis e possuidor de um caráter severista. Não admite, em nenhuma hipótese, falta de respeito ou pouco caso com sua biografia. Darico Nobar: Calma! Ninguém está acusando ninguém. Só estamos conversando. Ponciano de Azeredo Furtado: Assim, é melhor. Conversando é que a gente se entende, não é mesmo? Darico Nobar: Claro, meu amigo. Mudando um pouco de assunto: por que o senhor nunca se casou? Ponciano de Azeredo Furtado: Não foi por falta de pretendentes. Dona Isabel Pimenta ardia de sentimentos pelo Coronel. Dona Branca dos Anjos nunca o esqueceu. Ela sonha com uma amizade colorida com ele até hoje. Esmeraldina, se não fosse uma mulher sem valor, poderia ter sido alvo do afeto do neto de Simeão. Se não casou até hoje, foi porque o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado não achou uma mulher à sua altura. Darico Nobar: Entendo. Ponciano de Azeredo Furtado: Mesmo não tendo casado, o importante é que não lhe faltou companhia feminina. O outro lado de sua cama nunca ficou vazio por muito tempo. Rabos-de-saia e teúdas e manteúdas souberam ocupar esse lugar satisfadamente. Darico Nobar: E o que mais o incomoda nos últimos anos, Coronel? Ponciano de Azeredo Furtado: A coisa que mais me tira do sério é essa mania das pessoas de agora de se meter nos assuntos privados do sujeito. Não entendo isso! Darico Nobar: Como assim? Ponciano de Azeredo Furtado: Toda semana aparece alguém em minhas terras para reclamar de algo diferente. É um que diz ser do Ministério do Trabalho, alegando que pratico trabalho escravo. É outro que fala como funcionário da Receita Federal e exige o pagamento de impostos. Certa vez, acho que o caboclo era do Ministério do Meio Ambiente, surgiu lá alguém perguntando o que eu estava fazendo com a água do rio. Onde já se viu tamanha intromissão?! E teve até um sem-vergonha dizendo-se delegado e querendo saber as idades das meninas que se deitavam comigo. Como não tenho paciência para essas coisas, sou obrigado a colocar todos para correr. Aí, dizem que o Coronel Ponciano é bravo e mal-humorado. Como não ser? Como?! Darico Nobar: Coronel Ponciano, o senhor tem algum grande arrependimento? Ponciano de Azeredo Furtado: Neto de Simeão não é homem de arrependimentos! [Dá mais uma baforada]. Mesmo assim, tem sempre uma historinha aqui e outra acolá que ele tem vontade de contar. Se não fosse tão liso de vaidadeação, o Coronel teria falado para todo mundo o caso dos marcianos que apareceram em Sobradinho e que foram expulsos pelo trabuco cuspidor de balas de Azeredo Furtado. Darico Nobar: Como assim? Marcianos no Sertão?! Nunca tinha ouvido falar disso. Ponciano de Azeredo Furtado: Isso se sucedeu há muito tempo. Somente o povo da região é que ficou sabendo. Todos se desesperaram quando os sujeitinhos de olhos grandes e de corpo verde chegaram. Eu nunca fiz questão de contar essa história porque, sabe como é, o Coronel Ponciano nunca gostou de se gabar pelos seus feitos. Darico Nobar: Conte-nos, então, Coronel. O que aconteceu? Ponciano de Azeredo Furtado: Certa noite, Janjão Caramujo me acordou dizendo que tinha uma casca de tatu gigante de metal embicada no pasto. Não dei atenção para o caso na hora. Devia ser mais uma invencionice do mulato. No dia seguinte, uma multidão veio até minha casa. Pediam uma intervenção do Coronel. Os marcianos tinham chegado a Sobradinho e queriam levar nossa água e nosso gado. Parece que no planeta deles não tem essas coisas... Darico Nobar: E o que o senhor fez? Ponciano de Azeredo Furtado: Não deixei, né? Água a gente até pode substituir por cerveja e pinga, não tem problema. Mas viver sem picanha e sem filé mignon não dá! Então, peguei minha espingarda e fui até o mato. Como não entendi o que os sujeitinhos verdes diziam - eles não falavam português nem eu marcianês - resolvi me comunicar de maneira universal. Descarreguei as balas do meu trabuco neles. Darico Nobar: E eles foram embora? Ponciano de Azeredo Furtado: Se fosse o senhor, o que faria no lugar deles? Darico Nobar: Eu teria saído correndo... Ponciano de Azeredo Furtado: Pois foi exatamente o que fizeram. No caso, saíram voando em disparada. Com o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado ninguém brinca. Darico Nobar: Coronel, esta entrevista foi incrível. Sempre descobrimos uma história nova ao conversar com o senhor. Infelizmente, nosso programa de hoje terminou. Plateia: Ahhhhhhhhh Ponciano de Azeredo Furtado: Seu Darico, vê se apareça qualquer dia desses lá em Sobradinho para prosseguirmos na prosa. [Dá mais uma tragada no charuto]. Darico Nobar: Claro, Coronel. Será um prazer poder retribuir sua visita. E obrigado mais uma vez pela sua presença nesta noite. [O público no auditório aplaude o entrevistado]. Pessoal de casa e da plateia, valeu pela companhia de vocês e até a semana que vem com mais um Talk Show Literário. [A banda toca uma música, encerrando o programa]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JoséCândidodeCarvalho

  • Talk Show Literário: Emília de Rabicó

    Darico Nobar: Boa noite! O Talk Show Literário de hoje já está no ar com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva para vocês. [O editor de imagem corta a cena da câmera 1, que dá a visão geral do palco, e insere na tela a gravação de abertura do programa]. Tirem as crianças da sala porque nossa convidada deste mês é a boneca mais encapetada da literatura infantil. [A imagem do apresentador aparece agora em close na câmera 2]. Com vocês: a inconfundível Emília! Plateia: Ehhhhhhh! [O público explode de alegria ao ver a entrada da pequena boneca de pano. Os gritos são acompanhados por muitos aplausos]. Emília de Rabicó: Olá, Darchico. [Com alguma dificuldade, a entrevistada consegue sentar-se sozinha no sofá ao lado do apresentador. Para surpresa geral, ela é negra, gordinha e tem cabelos morenos ao estilo Black Power. Seus olhos são pequenos e ela se veste com roupas modernas]. Darico Nobar: Boa noite, Marquesa de Rabicó. Obrigado por ter vindo ao programa, mas meu nome é Darico. Darico Nobar. Emília de Rabicó: Não foi o que eu disse?! Darchico. Darchico Nocar. Darico Nobar: Tudo bem. Pode me chamar como quiser, Emília. Para começarmos esse bate-papo, gostaria de saber: por que você está tão diferente? Emília de Rabicó: Diferente? Não estou diferente coisa nenhuma! Darico Nobar: Recordo que seu cabelo era colorido, uma mistura de amarelo e laranja. Você era magrinha, tinha olhos grandes e suas roupas eram simples. Emília de Rabicó: Sou eu mesma, sim. É que eles ficam mudando o meu corpo o tempo inteiro. Esta Emília que você descreveu, por exemplo, é a da TV. Darico Nobar: Agora você está tão mudada que se parece até outra menina. Emília de Rabicó: O meu rosto é novo também. Ele é a última criação da Tia Nastácia. Nas últimas décadas, ela passou a sentir orgulho da sua cor de pele e, aí, acabou me fazendo uma boneca negra. Olhe meu cabelo! Não é um luxo?! Darico Nobar: Você está realmente muito bonita. Só tenho dúvidas se essa transformação foi espontânea. Andam dizendo por aí que seu mais recente visual faz parte de uma ação de Marketing da editora que publica o Monteiro Lobato. Parece que ela quer rebater as críticas de que o autor era racista. Há também quem o acuse de fazer apologia à anorexia quando fez você muito magrinha. Esses boatos são verídicos? Emília de Rabicó: Eu disse o que me mandaram dizer... [Fala cochichando]. Quando pedem para eu mentir, eu minto direitinho. Não sou linguaruda coisa nenhuma! Mas as roupas foram escolhidas pela Narizinho, isso é verdade verdadeira. Agora, ela é uma menina com mais personalidade e consegue escolher as minhas próprias roupas. Darico Nobar: Você sempre teve uma ótima relação com a Lúcia. Por que, então, ela não queria que você viesse ao programa? Emília de Rabicó: A Narizinho deve ter ficado com medo que eu falasse muitas asneiras. Foi o que ela me recomendou hoje de manhã, antes de eu sair de casa. Ela sentou-se comigo no quarto e falou: "Emília, você estará na televisão. Não fale tantas besteiras. Controle um pouco essa sua língua, por favor!". Darico Nobar: Você fala muitas asneiras? Emília de Rabicó: Não! Não é verdade. Antigamente, eles achavam isso porque não me compreendiam bem. Sou uma personagem do início do século XX. O pessoal daquele tempo não estava preparado para uma boneca tão progressista. Hoje, o que digo parece normal. Ninguém mais se espanta comigo. Darico Nobar: Realmente, Emília, você foi uma personagem à frente do seu tempo. Há quem a considere uma feminista. Emília de Rabicó: O que é uma feminista para você, Darchico? Darico Nobar: Não me faça este tipo de pergunta. [O apresentador fica com o rosto vermelho]. Qualquer resposta que eu dê, serei na certa criticado. Emília de Rabicó: Uma feminista seria alguém que batalha para que as mulheres tenham os mesmos direitos do que os homens? Ela defende as mulheres para que possam ter um estilo de vida mais condizente com suas vontades e aspirações? Darico Nobar: Talvez essa não seja a melhor definição, mas de maneira genérica, concordo com ela. Emília de Rabicó: Ótimo. Então, não sou uma feminista coisa nenhuma! Darico Nobar: Como não, Emília?! Você foi uma das primeiras personagens a questionar o casamento convencional na literatura brasileira. Sempre foi contra a obrigatoriedade de a mulher ficar em casa cuidando dos filhos. Se não estou enganado, você queria se separar do Marquês de Rabicó para se casar novamente com alguém que amasse. Você também não temia expressar o que pensava e o que sentia. Emília de Rabicó: Tenho a impressão de que as feministas são pessoas muito chatas e um tanto frustradas. Não me identifico com elas nem um pouquinho. E se eu fosse tão feminista assim não continuaria sonhando em me casar com um príncipe encantado, alguém bem rico e que me desse uma vida de muito luxo. Darico Nobar: Não fale asneiras, Emília. Isso não é feminismo. Emília de Rabicó: Acho que hoje sou mais romântica do que revolucionária. Darico Nobar: As crianças da nova geração veem você como romântica? Emília de Rabicó: Acho que sim. Sou uma personagem careta na visão das pessoas. Na última feira de brinquedos que visitei, todas as bonecas falavam. Todas! Ninguém mais se surpreende quando me vê falando. Além disso, havia muitas bonecas que faziam coisas que me recuso a fazer... Darchico, você sabe do que estou falando, né? Coisas que os homens fazem com as mulheres na cama. Quando digo que não faço o que essas bonecas novas fazem, me chamam de carola, de ultrapassada... Darico Nobar: Nossa! Tinha esse tipo de boneca na feira de brinquedos? Emília de Rabicó: Tinha cada coisa... Acho que fiquei conservadora depois de passar muito tempo fazendo programas de TV. Provavelmente, esse foi o maior erro da Turma do Sítio do Pica-pau Amarelo. Só na Rede Globo ficamos quase dez anos. Lá, a gente não pode ser revolucionária, sabe? Se não causa muitos problemas ao país. O Brasil corre o risco de entrar em ebulição. Chegaram a proibir que a gente cheirasse pó. Plateia: Ohhhhhhhhhhhh. Darico Nobar: Vocês cheiravam pó?! Emília de Rabicó: Claro. Sempre cheiramos pó de pirlimpimpim. Não há nada melhor para deixar você loooooouco. A gente faz cada viagem maluca para os reinos encantados. O problema é que ele é viciante e, segundo dizem, faz mal à saúde. Darico Nobar: Vocês eram viciados em pirlimpimpim? Emília de Rabicó: Sim. Quase todos éramos. A única que não experimentou foi a Tia Nastácia. A empregada preta... [A entrevistada fica um segundo em silêncio e, em seguida, faz voz mecânica, como se tivesse decorado o discurso]. Ou melhor, a colaboradora residencial afrodescendente da Dona Benta dizia que isso não prestava e que era o fim do mundo as crianças usarem pirlimpimpim. Até a Dona Benta provou e gostou. A mais viciada sempre foi a Lúcia. Não é à toa que seu apelido seja Narizinho. Plateia: Ohhhhhhhhhhhh. Darico Nobar: O que é isso, Emília?! Não fale asneiras. O pó de pirlimpimpim é inofensivo. E a Narizinho não é viciada coisa nenhuma. Emília de Rabicó: Como não?! A quem você quer enganar, Darchico? Você nunca estranhou as crianças do Sítio do Pica-pau Amarelo começarem a viajar para lugares mágicos depois de cheirarem o pirlimpimpim? Depois de uma cheiradinha, falávamos com os bichos, os sabugos de milho se tornavam seres inteligentíssimos e víamos todas as personagens dos contos de fada. Era uma maravilha! Darico Nobar: Você está fazendo apologia às drogas, é isso? Emília de Rabicó: Não, não estou. Acho que as crianças não deveriam embarcar nessa. Só estou explicando o que aconteceu com a gente naqueles anos... Darico Nobar: Vamos mudar de assunto, está bem? [A boneca concorda com a cabeça]. Muitos apontam Narizinho Arrebitado, de 1921, que dez anos mais tarde viraria Reinações de Narizinho, como a primeira obra da moderna literatura infantil brasileira. O que Monteiro Lobato fez para ter se tornado um ícone da literatura infantil? Emília de Rabicó: O Seu Lobato sempre deixou a gente ajudar na criação das histórias. Pouca gente sabe disso. Todas as personagens podiam falar abertamente o que gostariam de fazer em cada uma das tramas. E ele acatava muitos dos nossos pedidos. Éramos crianças brincando de escrever. Não tinha como dar errado, né? Por isso, sempre recomendo que os novos autores deem mais atenção às suas personagens, ouvindo-as regularmente. Infelizmente, a maioria dos escritores se comporta de maneira autoritária e arrogante, desprezando as opiniões dos outros. Darico Nobar: O que mais o Monteiro Lobato fazia de inovador? Emília de Rabicó: A grande sacada do Seu Lobato foi ter entendido o que as crianças queriam ler e ouvir. Ele escrevia diretamente para elas. E também deu livre voz aos nossos diálogos. A gente se expressava nos livros como falava no dia a dia, sem a preocupação com o formalismo bobo da gramática. Para completar, as viagens que fazíamos pelos universos infantis eram muito, muito divertidas. A gente convivia com a Cinderela, com a Branca de Neve, com o Peter Pan e com o Gato de Botas. Darico Nobar: Digo por mim: quando pequeno, eu era maluquinho pela Turma do Sítio do Pica-pau Amarelo. [O entrevistador solta um suspiro saudosista]. Eu continuaria essa conversa até amanhã, mas, o programa de hoje chegou ao seu final. Plateia: Ahhhhhhhhhhh! Darico Nobar: Obrigado, Emília, pela sua participação. [A convidada é aplaudida mais uma vez pelo público, que parece idolatrá-la.] Emília de Rabicó: Seu Darchico, eu poderia levar esse microfone comigo? Darico Nobar: Preciso ver com nosso diretor se temos outro... Então é isso, pessoal! O Talk Show Literário volta no mês que vem com... Emília de Rabicó: E você me daria uma dessas câmeras? Não tenho nenhuma e vocês têm várias aqui. Com uma, eu poderia filmar as brincadeiras da turma lá no sítio. Darico Nobar: As câmeras não podem sair do estúdio. Usamos todas, Emília. Pessoal de casa, eu espero todos vocês na próxima entrevista. Boa noite! Emília de Rabicó: E se eu levasse esta poltrona também? [As letras dos créditos do programa começam a subir na tela.] Com um microfone e um sofá como este eu poderia entrevistar a Narizinho e o Pedrinho. Seria tão legal! Eu posso trocar essas coisas por pirlimpimpim, Darchico. Dou quinhentos gramas de pó da melhor qualidade e levo para casa o microfone, a câmera e o sofá. Que tal? Negócio fechado?! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #MonteiroLobato

  • Talk Show Literário: Riobaldo Tatarana Urutú-Branco

    Darico Nobar: E aí, pessoal animado do Talk Show Literário, tudo bem? Plateia: Ehhhhhhhhhhhhhhh! [É possível ver faixas e cartazes com mensagens de carinho ao programa e ao apresentador sendo erguidas no meio do auditório. Os fãs mais empolgados são filmados aos gritos histéricos]. Darico Nobar: Vou falar uma coisa do fundo do meu coração: se vocês estão gostando de nossas entrevistas, saibam que irão adorar o programa desta noite. Hoje, nosso convidado é ninguém mais, ninguém menos do que o mais famoso protagonista roseano. Agora, em nosso palco, Riobaldo! [O entrevistado recebe muitas palmas da plateia.] Tudo tranquilo com você, meu amigo? Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Sêo Darico, comigo tudo bom e com o senhor? Darico Nobar: Tudo ótimo. E melhor neste instante que estou na sua companhia. Depois de tanto tempo sem nos vermos, você, enfim, aceitou meu convite e veio me visitar. Já estava na hora, né? Fez boa viagem? Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Araviva! O que Deus obra, obra bem e no tempo certo. Viajei amiúde até esta cidade de muitos rios, mas de nome de um só, aquele pregado no começo do calendário. Mas confesso que já tardava sim para nos rerevermos. O senhor se alembra quando foi a última vez que nos avistamos? Darico Nobar: Sim. Faz mais de sessenta anos que fui visitá-lo em sua fazenda em Minas Gerais, Riobaldo. Pouca gente sabe, mas você estava conversando comigo quando narrou Grande Sertão: Veredas. Foram três dias inteiros ouvindo você falar sem parar. Admito que não foi fácil, mas eu sobrevivi ao seu interminável monólogo. [Apresentador e convidado riem enquanto prolongam um novo abraço desajeitado]. Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Uma prosa nonada, Sêo Darico. Já fui Asa Branca que piava noite e dia, alvo de estilingadas de tudo quanto é montaria. Agora, sou apenas anta empoçada, ninguém me quer como caçada. Da vida pouco me resta - só o deogratias, e o troco. Bobéia. Já fui professor, assessor de contar, jagunço, chefe de bando, criador de gado e de palavras e lavrador. Para outras coisas não fui parido não, seu moço. Hoje sou só mais um velho a insistir em não esquecer o passado que me persegue a venta. Às vezes sou eu quem acossa por vontade minhas memórias, nas outras é o povo quem clama pelas minhas histórias. O senhor é um desses, Sêo Darico: faz questão que eu requente cada pedacinho do meu Sertão-mundo que guardo preso dentro do alçapão da alma. Darico Nobar: Afinal, Riobaldo, seu romance, um indiscutível clássico da nossa literatura, fala prioritariamente do quê? É um livro sobre a fé religiosa, sobre a dureza do Sertão, sobre o amor verdadeiro ou sobre a guerra entre os sertanejos? Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Olhe: conto ao senhor... Para compadre meu Quelemém, uma história sempre fala do geral e não do particular. A parte maior da vida sempre ganha da menor. Sempre. Tudo é e não é. Em relação à minha terra, Sertão é uma enorme espera. A rotina lá é baseada na arte do persistir. É provocar a lógica e insistir. Manter-se vivo é fim e meio. Viver é negócio muito perigoso, principalmente embaixo do sol sertanejo. O senhor não duvide - tem gente, naquela aborrecida terra, que mata só para ver careta... A vida é ditada pela boca do trabuco: é no té-retê-retém. O Sertão é só braveza. Vi tanta crueza em minhas andanças que o senhor nem atina. O senhor sabe: Sertão é onde manda quem é forte, onde sobrevive quem tem astúcia nas mãos. Lá, o homem tem que ter a nuca dura e a mão quadrada. Deus mesmo, quando vier, que venha armado. Darico Nobar: Por falar em Deus... Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Deus?! Não se engane, meu velho amigo. Ele é traiçoeiro! Ah, uma beleza de sujeito traiçoeiro - dá gosto de ver! A força Dele quando quer - moço! - me dá um baita medo pavorado só de pensar! Ele ninguém vê. Vem de mansinho e ataca sem alarde. Enquanto Deus come escondido, o Diabo sai por toda parte lambendo os beiços... Careço ter coragem para encará-los. Não sei de quem mais temo: Deus perdido no coração da gente ou o Demo no meio do redemunho... Para jagunço certo das ideias, é Deus no Céu e Joca Ramiro na outra banda do Rio. O Demônio, esse pode ficar pousado na ponta do trabuco que é lugar quente para ele viver. Darico Nobar: Quando pensamos... Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: O senhor conhece Joca Ramiro, não é? Como ia falando, acho uma penação o povo jovem do agora não se atinar para as figuras importantes do ontem. Ninguém mais se alembra de Zé Bebelo, de Medeiro Vaz ou do Urutú-Branco aqui! Nem de Joca Ramiro, o maior de todos, o povo reconhece seja na palavra falada ou na voz escrita. Às vezes, me pego a matutar que o único a ficar no pensado geral foi Virgulino Ferreira da Silva, por cunha Lampião, e sua mulher Maria Bonita, nessa confusão do povo de agora entre jagunço e cangaceiro, como se tudo fosse a mesma coisa. Uma pena! Estou contando ao senhor, Sêo Darico, porque carece de um explicado. Ave, vi de tudo neste mundo. Compadre meu Quelemém é um homem sabido de engenharia. Ele disse, certa vez, que amor é bicho burro que ataca a gente derepentemente e sem lógica nenhuma. Uma vez mordido no coração pela perigosa praga, caímos doentes da cabeça e cegos da visão. Comigo acorreu exatamente assim. Eu gostava mesmo de Diadorim. Não era só gosto de gostoso, era amor mesmo de gastoso. Que culpa tinha eu de Reinaldo ser homem e estar em corpo amancebado?! Que culpa nós tínhamos se éramos jagunços destemidos que botávamos medo em meio Sertão e, mesmo assim, nos queríamos amasiados?! Não me culpe, meu bom senhor, por favor. Isso é praga ou peça que nos afeta o sentimentar. No início, pensei que era trem trazido pelo Que-Não-Há. Onde já se viu Deus deixar homem gamar em homem, em desejar corpo de companheiro? Só podia ser manobração do Tinhoso mesmo... Não entendia como jagunço obreiro e macho como eu podia cair em tentação... É vera que Reinaldo não era igual aos outros jagunços. Bonito de rosto e de alma. Rapaz cheiroso e sempre limpo. Olhos verdes como esmeraldas a olhar para gente com anseio. Ele tinha o nariz fininho, a boca pequena e as mãos macias como seda. O corpo delicado e as maneiras graciosas escondiam o gosto por matar. De corpo-fechado, não havia lutador mais brabo no campo de batalha, seu moço. Dava gosto estar ao lado dele. Certa vez, perguntei para Diadorim se ele não tinha uma irmã. Não tinha, me respondeu atravessado. Meu gostar dele só aumentou com o tempo. Nossa amizade nunca invejou os outros. Ou quase nunca... O senhor conhece jagunço de verdade? Digo de verdade, porque esses que os homens cantam em prosas e versos são só gentes genéricas. Jagunço é homem já meio desistido por si. Ele não se escabrêia com perda nem com a derrota - quase que tudo para ele é igual. Nunca vi. Para ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar muito e esperar o fim final. Jagunço é isso. Não mais, mas também não menos. A guerra distrai e diverte ao mesmo tempo - Demo concorda e Deus não opina. O que Deus sabe, Deus sabe. E o que Ele não se opõe, o Tinhoso se manifesta a contento. Viver é coisa muito perigosa. É preciso ter coragem... Desculpa me dê seu moço, sei que estou falando de mais, de lado. Resvalo. Assim faz a velhice. Também, o que é que vale e o que não vale? Tudo. Mas conto. Conto para mim, conto para o senhor, conto para o público sentado aí na frente. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniões... O Sertão está em toda parte: em mim, em ti e no Diadorim. Falar da minha vida é falar da minha terra. Falar do Sertão é traçar a linha da jagunçagem, dos meus companheiros. E dos chefes dos bandos, nunca houve homem mais correto do que Joca Ramiro. Muita gente me pergunta: o que Joca Ramiro fez de tão relevante para ser tão venerado? Ora - respondo - fruto dele foi Reinaldo, o moço mais bonito do mundo. Diadorim era filho de Joca Ramiro, o senhor sabe. Tem melhor realização para um sujeito ostentar? Nonada! Darico Nobar: Riobaldo?! Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Com amigo Reinaldo, eu ia até o inferno por Joca Ramiro e pelos seus. Falando assim, posso ser mal compreendido, não é? Sou homem que gosta de mulhê, Sêo Darico. Vá pensar mal de mim não, hein?! Por minha cama se passaram muitos rabos de saia de bom gabarito e damas de primeira linhagem. Nem sei se consigo contar todas. Além da bela Otacília, a maioral, na minha mão comeram e se lambuzaram Nhorinhá, filha de Ana Duzuza, Rosa'uarda, Maria-da-Luz, Hortência, Bruna Surfistinha, Hilda Maia Valentim e Maria Machadão. Atente-se, meu senhor, que eu disse Maria Machadão e não Maria Machodão. Macho para mim só o Reinaldo, e olha que ele não era assim tão másculo como supúnhamos. Mas ponho minha fiança - nunca tive inclinação pra os vícios desencontrados. Repilo o que, o sem preceito. Então, o senhor me pergunta, o que era chamego com Diadorim? Ah, lei ladra, o poder da vida. Direitinho declaro sem medo o que, durante sempre, mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela amizade pouco preta no branco, mas também não chegada a toda colorida. Eu não pensava em adiação nenhuma, de pior propósito. Mas eu tinha gosto por ele, dia mais dia, noite mais noite, eu gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso mesmo. Feito coisa-feita. Como coisa-boa-ruim. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia o sossego e as estribeiras. Era ele estar por longe, e eu não via graça neste mundo. Eu mesmo não entendia então o que era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que... Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro bão do corpito dele, dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Me alembro, por exemplo, daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo ou quando cuidou dos meus ferimentos. Sempre. Do Demo: digo? Ou trem de Deus: pode ser? Tolêima! Juro que sempre me pus a calcular isso, seu moço. Com que entendimento eu entendia, com que olhos eram que eu olhava? Eu conto. O senhor vá ouvindo. Darico Nobar: Eu preciso perguntar algo para você! [O apresentador se aproxima do entrevistado e pega com delicadeza em um de seus braços.] Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Para que a perguntação se estou a responder tudo de antemão, meu bom amigo de estimação? Acalme-se! Compadre meu Quelemém é que está sempre certo. Não existe vida bandida. Vida é para ser vivida. Quanto mais estendida, menos compreendida. Constrangida é a vida ressentida sem amor e sem despedida. Pensar mal é fácil, porque esta finita existência é embrejada. A gente vive, eu acho, para se desiludir e para se desmisturar. A senvergonhice reina tão leve e leve pertencidamente, que primeiro não se crê no sincero sem maldade. [Enquanto o entrevistado fala, as letras dos créditos do programa começam a subir na tela. O apresentador tenta dizer algo mais uma vez, mas não obtém êxito. Ao perceber que não conseguirá interromper o convidado, Darico Nobar encosta-se em sua cadeira e solta um suspiro. Com a mão direita, ele acena timidamente para o público no auditório e, depois, para as câmeras. É sua despedida daquela noite]. Riobaldo Tatarana Urutú-Branco: Sêo Darico, releve o tanto dizer, mas foi assim que tudo se passou e eu penso ser. Ah, eu só queria era ter nascido em cidade, feito o senhor, jornalista e escritor, para poder ser instruído e inteligente também! E tudo conto, como está dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma nem de falar pela metade. Tudo precisa ser posto na horizontal para dúvida ou não-entender não nos atacar na diagonal. Podem me acusar de língua solta e de falador, mas nunca de omissão ou de mentidor. Uma vez, compadre meu Quelemém, que tudo sabe e sempre fala, contou que... [Mal a imagem da dupla de personagens desaparece da tela, os comerciais da nova atração da emissora entram no ar. Um novo programa está para começar.] ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JoãoGuimarãesRosa

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