Sistema de Pesquisa
Resultados encontrados para busca vazia
- Talk Show Literário: João Miramar
Darico Nobar: Salve, salve, público fiel do Talk Show Literário. Estou aqui nesta noite para apresentar mais um programa sobre os clássicos da literatura brasileira. E o convidado de hoje é uma das principais personagens modernistas do nosso país. Seja muito bem-vindo, João Miramar! [O entrevistado é aplaudido pela plateia presente em bom número no auditório da emissora carioca]. João Miramar: Oh, vida tortuosa, às vezes onerosa, em alguns casos furiosa, mas sempre prazerosa. És tu que nos chamas caprichosa para falarmos de ti, oh rainha temporal poderosa. [Mal se senta ao sofá, o convidado começa a recitar uma prosa poética]. Tua aparente aparência de parecer importante só reforça nossa reticência sobre tua incoerência de ser ou de não ser o que aparentávamos acreditar. Darico Nobar: Desculpe-me, João, mas não entendi nada do que você disse. João Miramar: Nem tudo o que um artista das letras, como eu, diz ou escreve é para ser entendido. Muitas vezes, o valor de algo está nas sensações transmitidas. Mais relevante do que compreender é emocionar-se! Darico Nobar: Ah, tá... [O apresentador faz cara de quem ainda não está entendendo nada. Para ganhar um tempinho e formular uma boa pergunta, ele toma um gole de água da sua caneca. Seu olhar para o convidado é de desconfiança]. A partir do lançamento das suas memórias, você se apresenta como um escritor, um homem das letras, certo? Você nunca pensou em concluir sua autobiografia? João Miramar: Não! Darico Nobar: Mas por quê? Tenho certeza que a maioria dos seus leitores deseja saber o desfecho da sua vida. João Miramar: Razões de estado... Sou viúvo de D. Célia. Darico Nobar: E daí? João Miramar: Isso basta para me definir. Disseram-me, certa vez, que um homem depois dos trinta e cinco anos deve zelar por uma vida sentimental discreta. Por isso, meu natural recolhimento e minha fuga dos holofotes da imprensa bisbilhoteira. Darico Nobar: O senhor não teme a reação da crítica literária? Ela pode acusá-lo de não se esforçar para finalizar algo ainda incompleto, apesar de estar no hall canônico. João Miramar: Não corremos, eu e minhas memórias, esse risco. Recentemente, li meu livro em uma viagem que fiz pelo país e posso garantir que ele está muito bom dessa maneira. Fui até onde devia e ponto final. Darico Nobar: Qual razão o faz ter tanta certeza disso? João Miramar: A minha obra lembra muito os trabalhos de Virgílio e de James Joyce. Em relação ao poeta romano, sou um pouco mais nervoso no estilo. E quanto à comparação com o romancista irlandês, padeço, reconheço, de mais profundidade. Darico Nobar: Que curioso isso, João! [O âncora do programa fica em silêncio meditando por alguns segundos]. Tenho a impressão de já ter presenciado essa conversa com você antes... Acabei de ter um déjà vu. João Miramar: Que déjà vu que nada! Nós já travamos esse diálogo no passado. Por isso, você está se lembrando dele agora. Darico Nobar: Impossível! Como podemos já ter conversado antes se esta é a primeira vez que nos encontramos em nossas vidas?! João Miramar: É duro falar com pessoas esquecidas, viu!? [O convidado cruza os braços e solta um suspiro impaciente]. Darico, você não está lembrado, mas após o último episódio-fragmento de Memórias Sentimentais de João Miramar, há uma entrevista que concedi para a televisão. Está lá no livro. Basta abri-lo que você verá. Podemos chamar essa parte da obra de conclusão midiática pré-sucesso comercial. O desfecho de minha obra é exatamente a entrevista que estou dando para você agora. Encerrei minha autobiografia com um trecho deste Talk Show Literário. Nada mal, hein? Darico Nobar: Não estou entendendo nada... [O apresentador está visivelmente atordoado]. Em primeiro lugar, não existia televisão naquela época. E depois.... Bem, você está dizendo que pegou uma parte da entrevista que estamos fazendo agora e a colocou em seu livro, publicado na década de 1920? João Miramar: Sim. Por que a dificuldade em acreditar nisso? Darico Nobar: Impossível! Não dá para publicar algo que ainda não tinha acontecido. João Miramar: Darico, você se esquece que meu livro foi pioneiro em muitos aspectos. De certa forma, ele representou o marco zero da prosa modernista brasileira, e quiçá mundial. Além de ter influenciado dezenas, centenas e milhares de escritores que vieram depois de mim, minha obra, através de suas diversas paródias, da sátira social e da técnica cinematográfica, antecipou tendências. Saiba que seu programa de entrevistas foi criado a partir do desfecho do meu romance. Essa é a verdadeira relação das coisas. Você e sua atração são frutos indiretos do meu livro. Talvez, minhas memórias tenham ficado em seu subconsciente e comandado, sem você saber, suas decisões. Darico Nobar: Nossa! Incrível isso, né? [O entrevistador coça a cabeça perplexo]. Nunca tinha parado para pensar nessas possibilidades. Acho que preciso entrevistar o finado Albert Einstein para entender melhor as mutações do espaço temporal ou o falecido Antônio Cândido para compreender todas as variáveis literárias em que estamos sujeitos. João Miramar: Fico feliz que você, enfim, tenha entendido algo do que eu disse no dia de hoje. [O entrevistado encosta as costas no sofá e ri sarcasticamente]. Darico Nobar: Além do meu programa, quais outros eventos culturais seu livro precipitou? João Miramar: São tantos que é até difícil de listá-los. Darico Nobar: Tente, por favor. Juro que estou realmente curioso. João Miramar: De cabeça, posso citar, por exemplo, a dinâmica dos videoclipes, o surgimento dos microcontos, o conteúdo dos blogs pessoais, a estrutura dos guias de viagem, a profundidade das reportagens das revistas de fofoca, a linguagem dos e-mails corporativos, a bagunça narrativa das redes sociais, os roteiros dos filmes mais nonsenses, o desenvolvimento dos trailers dos longas-metragens hollywoodianos, a relevância das entrevistas com jogadores de futebol à beira do campo, a sinceridade dos discursos políticos no horário eleitoral obrigatório, os enredos dos romances psicológicos... E o seu programa de entrevistas, é claro! Darico Nobar: Ao mesmo tempo em que sua história apresentou muitas inovações estéticas, estruturais, narrativas e linguísticas, o conteúdo da sua vida foi muito conservador. Afinal, você teve uma infância normal, viajou muito na juventude e casou-se cedo. Teve uma filha, depois traiu a esposa e terminou levando um pé na bunda. Antes disso, torrou a fortuna da sogra, ajudando na decretação da falência da família da sua mulher. Não há muita coisa interessante nisso, né? Histórias parecidas como a sua, eu conheço várias. João Miramar: Admito que minha vida foi bastante convencional, típica de um representante da elite cafeicultora paulista do início do século XX. Exatamente por não ter muitos elementos diferenciados para apresentar, é que resolvi escrever minha história de maneira, como dizem por aí, um tanto amalucada. Não é possível inovar em todos os campos ao mesmo tempo, já dizia W. Chan Kim e Renée Mauborgne. Assim, optei pela forma criativa em detrimento ao conteúdo. Se estou sendo entrevistado hoje, um século depois da publicação do livro, é porque minha decisão se mostrou acertada. Darico Nobar: Lendo suas memórias e ouvindo-o agora, lembrei-me muito do Brás Cubas. Você se considera muito parecido com essa personagem machadiana? João Miramar: Conheci o Senhor Cubas em simpósios de literatura que participamos. Ele me pareceu um burguês sério e honrado. Contudo, não vejo muitas semelhanças entre a gente. Ele passou a vida consumindo a fortuna do pai e não fez nada de produtivo. Nunca trabalhou nem se casou. Eu não sou tão imprestável assim. Darico Nobar: E quais são seus legados? No que você trabalhou? João Miramar: Diferentemente do Senhor Cubas, eu casei e tive uma bela filha. Em outras palavras, transmiti sim o legado da minha miséria. [O entrevistado ri do seu próprio comentário]. Além disso, trabalhei muitos anos como fazendeiro matrimonial. Depois, fui empresário do ramo cinematográfico. Comer a atriz principal do estúdio não deixa de ser um importante legado. Agora, para coroar de vez minha carreira, sou escritor canônico. Não está bom?! Darico Nobar: Você só escreveu um livro nos últimos cem anos! E essa obra é a sua autobiografia. Além do mais, ela me parece um tanto inconclusa... Mesmo assim, você se considera um escritor?! João Miramar: O mundo artístico é maravilhoso. Há cantores de uma só música. Há atores de um só papel. E há também escritores de um único livro. São as idiossincrasias do nosso mundo, meu querido. A arte é tudo, a vida não é nada! Darico Nobar: Nesse sentido, gostaria de saber de você o motivo para... João Miramar: Só um instante, Darico. Será que eu poderia ir ao banheiro? Darico Nobar: Agora, no meio da entrevista? Estamos ao vivo para todo o país! João Miramar: Será rapidinho. Prometo ir "em um pé e voltar no outro". Ninguém notará a minha saída. É um caso urgente urgentíssimo de máxima urgência. Darico Nobar: Tudo bem. Vai lá, então. Aguardaremos sua volta, fazer o quê? Banda, por gentileza, toque algo enquanto nosso entrevistado não retorna ao palco. [O quinteto musical entra em ação assim que o convidado dispara para o camarim. O grupo toca uma música. Duas. Três... Cinco... Dez canções são tocadas! Entre elas são inseridos dois intervalos comerciais. Passam-se vinte minutos sem que o entrevistado tenha voltado ao palco do auditório. Depois de um longo silêncio, o apresentador se manifesta. Ele está visivelmente constrangido]. Darico Nobar: Pessoal, acho que o João se perdeu dentro dos nossos estúdios. Vou ver se ele está bem. Estou realmente preocupado. Por hoje é só isso, galera. Espero que vocês tenham gostado do programa desta noite. Esse João Miramar é mesmo um pouco desregulado da cabeça. Saibam que entrevistá-lo não foi nada fácil para mim. Boa noite para todo mundo e até semana que vem com mais um Talk Show Literário inédito e exclusivo! Tchau! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #OswalddeAndrade
- Talk Show Literário: Maria Moura
Darico Nobar: Boa noite, galera do Talk Show Literário! No programa desta noite, vamos receber a mulher mais arretada da literatura nacional. Diante dela, não há marmanjo que não trema nas bases. Com vocês, Maria Moura! [O público aplaude a moça de cabelos curtos que entra no auditório armada e vestindo roupas masculinas típicas do Sertão. A impressão é que ela vai à guerra ou está voltando de uma batalha]. Maria Moura: Olá. [A visitante olha desconfiada. Em seu rosto, parece não haver espaço para sorrisos]. Darico Nobar: Dona Moura, você veio em paz, certo? Pergunto isso porque estou um pouco nervoso diante de tanta arma. Meus convidados não costumam subir ao palco para as entrevistas com pistolas e facas a tiracolo... Maria Moura: Vim em paz. O armamento é apenas força de hábito. Você e seus agregados [aponta para as pessoas da plateia] podem ficar tranquilos. Maria Moura é mulher direita. Como prova da minha boa vontade, também ficarei desarmada. [A moça desmonta seu bacamarte e coloca as partes da arma em cima da mesa do apresentador. Ela repete o gesto com seu punhal e com seu cinto de balas. Nesse momento, é possível notar que a entrevistada é uma mulher bonita, com um corpo bem delineado]. Darico Nobar: Obrigado. Agora posso fazer meu trabalho sem preocupação. Maria Moura: Só faço mal para quem me fez mal primeiro. Ou a quem eu sei que é ainda pior do que eu. Não uso o que tenho [indica as armas que jazem na frente do entrevistador] para tripudiar ninguém. O senhor nunca me viu e jamais me verá maltratando os homens, as mulheres ou mesmo as crianças com quem convivo. Darico Nobar: Soube que a senhora mandou matar algumas pessoas, roubou muito por aí... [O apresentador dá uma gaguejada neste momento]. Há quem diga que seu grupo produziu pólvora ilegalmente por muitos anos e, ainda por cima, deu proteção a vários criminosos lá na Serra dos Padres. Seu passado é um tanto controverso. Pela legislação, uma pessoa com esse perfil seria enquadrada como criminosa em vários artigos. O que a senhora tem a declarar em sua defesa? Maria Moura: A culpa não é minha se no Sertão se mata e se rouba muito. Lá, honra se lava com sangue e dinheiro se ganha colocando as mãos nele. Não prejudiquei ninguém que não merecesse. Geralmente, era ele ou eu. Preferi ficar viva e rica a morrer na pobreza. Quem não briga pelo que quer, se acaba rapidamente! Darico Nobar: A senhora é uma mulher jovem e bonita. Pessoalmente é até mais graciosa do que o descrito em Memorial de Maria Moura. Por que a necessidade de andar armada e vestida como homem? Isso não tira sua feminilidade? Maria Moura: E quem disse que eu me preocupo com essa tal feminilidade?! Até onde sei, ela não bota medo em ninguém nem enche o bolso de dinheiro. Sou mulher de respeito e de trabalho. Ninguém iria me temer se eu andasse por aí como uma donzela. A legítima Maria Moura é esta que o senhor está vendo: uma guerreira. Darico Nobar: A senhora acha que não seria respeitada se as pessoas a vissem como alguém mais feminina e não tão masculinizada? Maria Moura: Não acho, tenho certeza. Na sociedade sertaneja, mulher só é valorizada quando temida. Se o cabra não treme os joelhos, ele não te considera, não te obedece. Meu comando é feito com a garrucha na mão e o punhal na cintura. Talvez aqui no Rio de Janeiro, onde tudo é tão moderno, possa ser diferente. Tenho até curiosidade para saber como as mulheres fazem para se impor diante de seus bandos. Darico Nobar: Não tinha parado para pensar nessa relação... Maria Moura: Não deve haver muitas diferenças, não. Apesar da mudança de cenário, o bicho homem é igualzinho em todo lugar: ardiloso, pouco confiável, muito preguiçoso e acima de tudo ambicioso. Não podemos dar mole, jamais. Por isso, a mulherada que alcança o comando acaba obrigada, na maioria das vezes, a se comportar de forma agressiva. Do contrário, passam por cima da gente rapidamente. Darico Nobar: Quais os ônus da liderança, Dona Moura? Maria Moura: Sentimos uma grande solidão quando estamos no comando. Talvez, somos duronas para esconder um pouco nossos medos e nossas fraquezas. O problema é que mesmo assim, acabamos muito machucadas. Para mim, liderar é sofrer. Darico Nobar: Você diz isso por causa das frustrações amorosas que teve? Maria Moura: Não sou mulher de frustrações, fique você sabendo. [A entrevistada fecha o punho e dá uma batida forte na mesa]. Darico Nobar: Todos os seus relacionamentos afetivos foram, no final das contas, decepcionantes. Primeiro com Liberato, seu padrasto. Depois com Duarte, seu primo. E, por fim, com Cirino, seu grande amor. O que deu errado, Dona Moura? Maria Moura: O problema é que não há homem que preste nesse mundo. Se tivesse, as coisas seriam bem melhores para todos, tanto para nós mulheres quanto para vocês. Homem é bicho infiel, insensível e ganancioso. Não dá para confiar neles. Darico Nobar: Apaixonar-se novamente: esse é o seu pior medo? Maria Moura: Não tenho medo de paixonite nenhuma, fique sabendo. [A convidada cruza os braços e inclina levemente o tronco do seu corpo para frente]. As únicas coisas que temo nessa vida são morcego e cobra. Odeio bichos peçonhentos e traiçoeiros. Também não gosto de escuridão. Gosto de ver sempre o que há na minha frente. Darico Nobar: E da solidão, a senhora não tem medo? Maria Moura: O que é solidão para você pode não ser para mim. Esse é um conceito totalmente vago. O Beato Romano é quem dizia isso em suas pregações para os meus jagunços. Concordo com ele. Uma mulher que divide sua cama com o mesmo homem todas as noites ou aquela que sai sempre com vários homens diferentes podem ser, no fundo, mais solitárias do que outra que não sente o cheiro masculino há anos. Darico Nobar: Quando falo em solidão, quero dizer a falta que faz um relacionamento duradouro... A senhora não gostaria de estar agora casada e com filhos ao invés de viver perigosamente por esse interiorzão sem fim? Maria Moura: Se uma mulher disser que não sonha com casamento, com um homem bom ao seu lado, com uma rotina familiar satisfatória, com uma vida sexual ativa e com filhos ao seu redor, não acredite nela. Ou ela está mentindo ou há algo de muito errado com ela. Todas nós sonhamos com isso, não tem como negar. Por maior a fortuna da mulher, por mais poder e realizações profissionais que tenha, sua plenitude acontece, uma hora ou outra, em casa e na cama junto ao homem amado. Esse é um dos pressupostos da nossa espécie que jamais irá mudar. Digo espécie e não gênero. Isso se aplica tanto para as mulheres quanto para os homens. Darico Nobar: Sua violência é fruto dessas frustrações amorosas? Pergunto isso porque o fim do seu relacionamento com Cirino a modificou muito. Se eu não estiver enganado, você ficou mais audaciosa como cangaceira depois disso, não? Maria Moura: Acho que vou precisar disso mais cedo do que imaginei... [A entrevistada pega seu bacamarte de cima da mesa. Ela monta a arma e a coloca na sua cintura. Faz o mesmo com a faca e a cinta de munições, demonstrando muita raiva]. Darico Nobar: O que é isso, Dona Moura? A senhora ficou brava?! Maria Moura: E como ficar calma na frente de um sujeito burro e machista?! Quer dizer que quando o homem sai por aí matando e roubando é instinto dele. Quando uma mulher faz o mesmo é porque ela é "mal-comida". É isso o que o senhor pensa? Darico Nobar: Não, não! Não foi isso que eu quis dizer. Maria Moura: Se fosse assim, o Lampião não teria feito Maria Bonita tão feliz e o Padre Cícero teria dezenas de mulheres esperando por ele em casa. Darico Nobar: Desculpe-me, Dona Moura. Acho que me expressei mal. Maria Moura: As ações do grupo da Casa Forte ficaram mais poderosas com o tempo porque adquirimos mais experiência e recursos. [A convidada esforça-se para manter a serenidade]. Assim, me parece natural as investidas mais grandiosas da nossa parte. Ou você acha que eu ia ficar roubando galinha na beira da estrada a vida toda? Darico Nobar: Atualmente, qual é sua maior fonte de renda? Maria Moura: Hoje em dia, tenho uma empresa de armamentos. Ela é a maior do país, chegando a exportar para vários países as armas e as bombas que fabricamos lá na Serra dos Padres. Quem comanda essa empresa no dia a dia é o Duarte. O Beato Romano nos ajuda muito, sendo o responsável pelos Recursos Humanos. Darico Nobar: E sua fazenda? E o cangaço? Maria Moura: Minha fazenda continua produzindo, mas não dá tanto lucro quanto a empresa de armamento. No Sertão, matar as pessoas sempre foi mais rentável do que alimentá-las. E continuamos no cangaço mais por hobby do que por profissão. Agora, os crimes mais rentáveis do país são os de colarinho branco. Para ficar rico não é mais necessário pegar em armas e ameaçar diretamente as pessoas. Darico Nobar: A senhora se casou? Teve filhos? Diga-nos, por gentileza, mais sobre sua vida pessoal! Maria Moura: Por quê? [A convidada saca sua pistola e aponta na direção da cabeça do apresentador]. Está querendo mangar de mim, é isso? Darico Nobar: Não! É só curiosidade mesmo... [O medo é tão grande que ele treme]. Maria Moura: Não quero mais falar de mim nem da minha vida pessoal. Se eu não deixei a Rachel de Queiroz, uma amiga que estimava e respeitava muito, continuar o romance dela porque achei que já tinha exposto de mais minhas intimidades, imagine o que não faço com você, que tem uns pensamentos lesados sobre a minha pessoa e sobre as mulheres. Darico Nobar: Achei que ela tivesse terminado o livro porque você tinha morrido. Maria Moura: E você acha que existe cabra nesse mundo capaz de abater Maria Moura em combate? Não! Sou a "Rainha do Cangaço". Não nasci para ter esse tipo de fim. Darico Nobar: Dona Moura, acho melhor encerrarmos o programa agora mesmo. Maria Moura: Isso mesmo. Faça isso antes que alguém saia melado daqui. Darico Nobar: Pessoal, obrigado por assistir a mais um Talk Show Literário. Na semana que vem retornamos. Beijo a todos! [Quando a música de encerramento entra, o apresentador volta-se para sua entrevistada]. Agora dá para a senhora abaixar essa arma?! Maria Moura: Tome tino, seu machista desgraçado! [Ela abaixa a arma com alguma relutância]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #RacheldeQueiroz
- Talk Show Literário: Evangelista
[Quinteto musical termina de tocar a canção-tema do Talk Show Literário]. Darico Nobar: Olá, fãs da literatura brasileira. É com muita alegria que anuncio o início de mais um programa. Nesta noite, nosso convidado é o protagonista do Romance do Pavão Misterioso, uma das histórias de cordel mais famosas de nosso país. Com vocês: Evangelista! Plateia: Uhu! Lindo! Gostoso! [O público feminino aplaude e grita ao ver o entrevistado entrar no auditório]. Evangelista: Obrigado, pessoal, pelo carinho. Boa noite, Darico. Darico Nobar: Boa noite, meu amigo! Como é bom recebê-lo em nosso programa. Evangelista: Gostaria de iniciar esta entrevista parabenizando você e sua equipe pela iniciativa de incluir um representante da literatura de cordel no Talk Show Literário. Apesar de ser uma manifestação artística extremamente rica, o cordel, infelizmente, ainda é alvo de muito preconceito no Brasil. Darico Nobar: Você tem toda a razão, Evangelista. É uma pena, mas esse gênero tem sofrido com o paulatino esquecimento dos leitores e do mercado editorial. Por quê? Evangelista: Acho que é porque o cordel se desenvolveu principalmente no Nordeste brasileiro. Quando esse tipo de literatura veio de Portugal para cá, ele entrou com mais força em Pernambuco e nos estados vizinhos. Assim, muita gente ainda hoje vê o cordel como uma literatura exclusivamente nordestina. Ninguém se preocupa em verificar o quanto ele é praticado em outros lugares, inclusive no exterior, e o quanto é uma manifestação artística plural. Por isso, não acho que haja esquecimento e sim preconceito. Como tudo aquilo que não vem do eixo Rio-São Paulo, o cordel é muito estigmatizado. Darico Nobar: O fato de essa literatura ter um aspecto mais popular e de se utilizar da linguagem oral ajuda na sua discriminação? Evangelista: Evidente! A elite brasileira e os influenciadores culturais de nosso país têm grande ojeriza por tudo o que é popular. Eles imaginam que algo que tenha vindo diretamente das massas só pode ser feio, ruim e pobre intelectualmente. Vê se pode! Darico Nobar: O oposto do que é o cordel em sua essência... Sou suspeito para falar sobre isso, pois sou um grande fã desse gênero. Evangelista: Exatamente, Darico. A beleza do cordel está em suas rimas, em suas métricas, no conteúdo emocionante de suas tramas e nas xilogravuras. Seu texto é para ser lido e, principalmente, cantado. Juro que não consigo ler a literatura de cordel em voz baixa. Sua prosa poética precisa ser recitada a plenos pulmões. Darico Nobar: Romance do Pavão Misterioso é uma história passada parte na Turquia e parte na Grécia. São comuns as tramas ocorrerem no exterior? Evangelista: Sim. Nesse ponto, o cordel é parecido com as telenovelas da Rede Globo. Alguns sucessos brasileiros são ambientados lá fora. Há, sim, uma parte do cordel que se passa no meio rural nordestino. O cangaço, as figuras típicas do folclore nordestino, como Gonzaga, Padre Cícero e Patativa do Assaré, e os problemas sociais e ambientais da região, como a seca e a miséria do Sertão, são temas recorrentes. Por outro lado, há enredos medievais, contos de fadas, guerras históricas e criações fantásticas que se passam fora do Brasil. Essa é outra prova da riqueza literária desse gênero. Sua temática é muito variada. Darico Nobar: Ser uma personagem da literatura de cordel e, ainda por cima, ser estrangeiro aumenta o preconceito contra você aqui no Brasil? Evangelista: Talvez... Porém, não me preocupo com isso. Minha sorte é que sou um capitalista bem-sucedido. Como sou rico, graças às heranças deixadas pelo meu pai e pelo meu sogro, tenho uma ótima qualidade de vida. Assim, não sofro tanto preconceito. O principal preconceito que as pessoas sofrem no Brasil é de ordem financeiro/social. Se você é rico, você será benquisto em qualquer lugar. Se for pobre, aí sim a coisa complica para o seu lado... Darico Nobar: Evangelista, afinal de contas, quem foi o autor do Romance do Pavão Misterioso: João Melquíades Ferreira da Silva ou José Camelo de Melo? Evangelista: Sabe que todo mundo me faz essa pergunta... Até hoje tenho minhas dúvidas. [O entrevistado ri como se quisesse esconder a resposta]. Darico Nobar: Ah! Não vá ficar em cima do muro, por favor! Como personagem literária, você deve saber quem foi seu verdadeiro criador. Talvez, você seja o único que possa solucionar essa polêmica que já se arrasta por quase cem anos. Evangelista: Tenho um carinho especial pelos dois artistas. Tanto João Melquíades quanto José Camelo foram importantíssimos para o Romance do Pavão Misterioso e, de maneira geral, para o cordel brasileiro. Sem eles, eu não teria nascido nem me desenvolvido. É verdade que um foi o responsável pela minha construção como personagem e o outro deu uma melhorada na história. Ou seja, um inventou e o outro aperfeiçoou. Por isso, considero os dois como sendo meus criadores, tendo ambos os méritos autorais pela história. Sem um deles, eu não teria me tornado tão popular dentro do universo literário. Darico Nobar: Não conhecia esse seu lado tão diplomático, Evangelista. [O apresentador ri]. Falou, falou, falou e não respondeu a minha questão. Evangelista: Na Turquia, temos um provérbio que diz: "Quem te fala mal de outras pessoas, falará mal de ti também". Gosto de seguir sempre esse raciocínio. Darico Nobar: Entendo a sua posição. Escolher um dos lados nessa eterna discussão representaria a cisão automática com o outro autor. Prometo não perguntar mais nada sobre esse tema, está bem? Quero saber agora tudo sobre sua história com Creusa. Você não acha loucura ter partido da Turquia para a Grécia para conquistar o coração de uma moça que você viu em uma fotografia? Evangelista: E o que seria da gente se não fossem as loucuras pregadas pelos nossos corações, hein?! [O público no auditório aplaude as palavras do entrevistado]. Assim que vi aquela foto, percebi que a Creusa era a mulher da minha vida. Plateia: Ohhhhhhhh! Evangelista: Com essa crença, não achei errado pegar a parte da fortuna que meu pai me deixou e seguir para outro país para conquistar a Creusa a qualquer preço. Darico Nobar: Então você sabia desde o início que ela seria a mulher da sua vida? Evangelista: Claro. Existem amores para serem vividos de longe e outros para serem vividos de perto. A minha paixão por Creusa era do segundo tipo. Soube distingui-lo perfeitamente no exato instante em que meus olhos viram o retrato dela. Darico Nobar: Uma história de amor tão bonita e improvável é a principal explicação para o sucesso desse cordel? Evangelista: Há quem diga que sua graça esteja no humor da trama e nas invencionices do meu amigo Edmundo. Por falar nele: um abraço para você, Edmundo, se você estiver assistindo ao Talk Show Literário aí em Atenas. Darico Nobar: O lance de você ficar entrando e saindo do quarto da condessa com o aeroplano dá realmente um charme ao enredo. O aeroplano seria uma antecipação do helicóptero ou seria mais um drone tripulado? Evangelista: Prefiro pensá-lo como um pavão misterioso. Essa explicação é satisfatória tanto para mim quanto para a Creusa. E foi também como o Edmundo, esse animaaaaaaaaaaaal da Engenharia, chamou seu invento. Darico Nobar: Você acha que os irmãos Grimm ficariam frustrados se soubessem a solução que vocês encontraram para tirar a condessa do alto da torre? Evangelista: Não sei! [O entrevistado e o apresentador riem bastante]. A diferença é que a Rapunzel tinha aquelas longas tranças douradas e minha Creusa não. Portanto, não dava para me agarrar aos poucos cabelos da minha amada. Talvez a solução encontrada pelos irmãos Grimm, se pensarmos bem, seja menos tecnológica e muito mais criativa do que a do Edmundo. Só não pode a princesa deles ter pontas duplas ou fios enfraquecidos. Aí, fica perigoso demais para o escalador de janelas! Darico Nobar: Evangelista, como está sua vida de casado hoje em dia? Evangelista: Eu e a Creusa continuamos tão apaixonados como no primeiro dia em que nos conhecemos. Plateia: Ohhhhhh! [Alguém no fundo do auditório solta o grito de “Lindo”]. Evangelista: Nossa vida de casado daria um romance idílico. Devo agradecer muito ao meu sogro, o conde de Atenas. Darico Nobar: Por quê? Evangelista: Quando um pai tranca sua filha por dezoito anos em uma torre e não a deixa ter contato com ninguém, qualquer vida diferente dessa é uma maravilha. Definitivamente, Creusa não tem o que reclamar de mim e do nosso casamento. Darico Nobar: E você, tem motivos para lamentações e arrependimentos? Evangelista: Também não tenho o que lastimar. Uma mulher linda como ela é o sonho de qualquer homem. Além do mais, não precisei gastar uma fortuna para conquistá-la como havia imaginado. Assim que nos casamos, recebi a herança do pai dela para administrar. Tem coisa melhor do que essa combinação: esposa jovem e bonita e herança milionária do sogrão?! Plateia: Ahhhhhh! [Uma voz conhecida berra agora “Desgraçado”]. Darico Nobar: A Creusa não se sentiu culpada pela morte do pai? Evangelista: Fique você trancado em uma torre por quase duas décadas e saberá o motivo dela não ter derramado uma só lágrima no dia do enterro do pai. Darico Nobar: Evangelista, muito obrigado pela sua visita. Esta temporada do Talk Show Literário não estaria completa se você não tivesse vindo conversar conosco. Evangelista: Eu que agradeço o convite. É sempre um prazer viajar ao Brasil para falar com vocês, um povo bonito e inteligente. Plateia: Uhu! Lindo! Gostoso! [O público volta a aplaudir, gritar e se derreter pelo convidado]. Darico Nobar: Essa mulherada não pode ver homem rico que perde as estribeiras... Meninas, ele é casado! [O público feminino no auditório continua enlouquecido. Algumas pessoas invadem o palco para agarrar o entrevistado]. Evangelista, fique calmo porque temos seguranças treinados para conter a plateia. Seguranças!!! Pessoal de casa, até semana que vem. Abração e boa noite a todos! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JoãoMelquíadesFerreiradaSilva #JoséCamelodeMelo
- Talk Show Literário: Menino Maluquinho
Darico Nobar: Boa noite, galera! Plateia: Booooooooooooooa noooooooooooite! [A resposta vem em coro]. Darico Nobar: Isso é o que chamo de empolgação. E vocês ficarão ainda mais eufóricos quando o entrevistado de hoje for anunciado. Ele é uma das personagens mais célebres da literatura infantojuvenil brasileira. Com vocês, no palco do Talk Show Literário, o Menino Maluquinho! [Uma salva de palmas ecoa pelo auditório. Apesar da vibração inicial, todos estranham a figura que surge. Ao invés de uma criança, o convidado é um senhor de longos cabelos brancos. Ele usa terno e gravata]. Menino Maluquinho: Olá, Darico. Boa noite, plateia. Darico Nobar: Menino Maluquinho, é você mesmo?! Agora você está tão grande! É um homem adulto... Menino Maluquinho: O tempo passa para todos, inclusive para as personagens literárias. Não entendo essa surpresa dos leitores quando me vêem. Acho que vocês deveriam ficar espantados se eu não tivesse crescido depois de tantas décadas. Darico Nobar: É verdade... Talvez o que tenha acontecido com o Peter Pan seja mesmo uma exceção... O problema é que eu tinha me preparado para entrevistar um garoto. Inclusive, trouxe vários pirulitos e balas para distribuir durante nossa conversa. Menino Maluquinho: Dentro de todo homem existe um garoto. E ele é exatamente igual ao que foi no passado, em sua infância. Por isso, aceito sim esse afago. [Pega alguns doces das mãos do apresentador]. Obrigado! Darico Nobar: Vestido desta maneira [olha incrédulo para as roupas do convidado] e vendo-o conversar assim, tenho a impressão que agora você é um homem muito sério. Não consigo ver o Menino Maluquinho de outrora. Menino Maluquinho: Ao mesmo tempo em que o garoto continua existindo dentro da gente, é importante respeitar as características de cada fase da vida. [Coloca as balas e os pirulitos no bolso do paletó em um gesto teatral]. Não há nada mais triste do que um adulto infantilizado ou uma criança prematuramente envelhecida. Darico Nobar: Como assim? Menino Maluquinho: O livro do Ziraldo se tornou um clássico porque apresenta, de maneira bem-humorada, um tipo almejado de infância: a feliz. A criança pode brincar, aprontar, estudar, se sujar e se divertir. Ela faz amigos, aprende, namora, joga bola, empina pipa, come de tudo e passeia na rua e na casa dos avós. Assim, torna-se, mais tarde, um ser humano integral, completo na fase adulta. Darico Nobar: Não entendi aonde você quer chegar, Menino Maluqui... Posso continuar te chamando de Menino Maluquinho? Menino Maluquinho: Claro, pode sim. [Ele ri do receio do entrevistador]. Darico Nobar: Há algum problema na infância que as crianças levam hoje em dia? Menino Maluquinho: Infelizmente, a infância está sendo perdida. Desse ponto de vista, regredimos alguns séculos. Voltamos ao tempo em que a molecadinha se comportava como os adultos, emulando os hábitos e as atitudes dos mais velhos. Não havia, naquela época, a ingenuidade, a fantasia nem o encanto da rotina infantil. Não existia, na verdade, infância no sentido literal do termo, como o estabelecido por Jean-Jacques Rousseau. Darico Nobar: O que tem levado a essa situação? Menino Maluquinho: Não sei. Talvez a violência urbana, epidêmica em nosso país, impeça que a meninada ande livremente pelas ruas com seus amigos. As novas arquiteturas familiares isolam a criançada dentro de suas casas. A maioria não tem irmãos para partilhar as coisas e veem pouco os pais. Isso vale tanto para as famílias ricas quanto para as pobres. A tecnologia também as impede de viver plenamente a realidade prática do mundo. A rotina de muitos meninos e meninas se parece muito com a dos adultos. Ou porque precisam trabalhar cedo ou porque fazem um milhão de atividades que não são compatíveis com suas idades. Sinto que falta tempo para elas serem crianças e poderem brincar de maneira descontraída e livre. Darico Nobar: Qual a consequência da "desinfantilização" das crianças? Menino Maluquinho: A infantilização dos adultos. As pessoas demoram a amadurecer e, em alguns casos, jamais conseguem se desenvolver plenamente. Vejo senhores e senhoras, alguns com filhos e até netos, se comportando de maneira mimada, egoísta e impulsiva, como crianças. Tenho amigos da minha idade que passam várias horas do dia jogando videogame. Muitos continuam vivendo na casa dos pais, como se fossem adolescentes, sem qualquer responsabilidade doméstica ou financeira. Ou seja, vivem uma eterna adolescência ou mesmo uma infância tardia. Darico Nobar: Por isso você é tão sério? Menino Maluquinho: Eu não sou sério. [Solta involuntariamente uma risadinha]. Sou apenas adulto. É diferente. Uma pessoa adulta age e se comporta de maneira madura. A minha fase de criança foi maravilhosa, mas já passou. Agora quem deve aproveitar para fazer suas maluquices são meus netos. E olha que eles parecem curtir bastante essa experiência. Darico Nobar: Você está pregando que os adultos não devem se divertir, brincar? Menino Maluquinho: Não! Não é isso o que estou dizendo, Darico. Acredito que a vida seja uma grande brincadeira. Infeliz daquele que leva sua existência muito a sério. O que estou falando é que mesmo brincando e se divertindo, um adulto deve agir como adulto e não como criança. Uma pessoa idosa será sempre uma pessoa idosa, jamais conseguirá voltar a ser um adolescente, por mais que alguns tentem desesperadamente. Darico Nobar: Menino Maluquinho, você trabalha com o quê? Menino Maluquinho: Sou professor de português no ensino fundamental. Darico Nobar: É difícil ser professor hoje em dia? Menino Maluquinho: Há quem diga que só um maluco para ser professor no Brasil. Darico Nobar: Afinal, o salário não é tão alto e ainda é preciso aturar crianças cada vez mais mimadas, agressivas e mal-educadas, verdadeiros ditadores na sala de aula. Menino Maluquinho: Acho graça dessa visão. Com todo respeito, não concordo com essa perspectiva da educação e do comportamento estudantil. Ainda hoje, não há nada mais maravilhoso no mundo do que as crianças. Às vezes, acho que aprendo mais com elas do que elas comigo. A energia, a sinceridade, o entusiasmo e a alegria infantil continuam me encantando diariamente, me fazendo seguir para a escola com prazer. Educar as novas gerações é um dos trabalhos mais nobres e dignos que alguém pode ter. Darico Nobar: Como você descreveria a infância perfeita? Menino Maluquinho: Acho que não há uma fórmula única. Deve haver um milhão de receitas possíveis... A minha infância, pelo menos, foi com muito futebol com meus amiguinhos. Foi na rua empinando papagaio e descendo as ladeiras de Caratinga, em Minas Gerais, nos carrinhos de rolimã. Na casa dos meus avós, aproveitava para jogar futebol de botão, pião e bolinha de gude. E comia muitas guloseimas. Também não faltavam travessuras. Peraltices típicas dos meninos, sabe? Namoradinhas, eu tive dezenas, quem sabe centenas. Lembro que gostava de ir à escola para ver meus amiguinhos e conversar com eles. Estudávamos muito, mas nos divertíamos horrores. Darico Nobar: Você sente falta dessa vida? Menino Maluquinho: Apesar de me considerar um pouco saudosista, não trocaria minha vida atual de adulto pela que tive na infância, como menino. Tudo é fase e quando cada uma delas é bem vivida, conseguimos seguir em frente sem olhar muito para trás. Hoje, minha diversão é ver meus netos brincarem e descobrirem os desafios da vida aos poucos. Darico Nobar: O que eles fazem de tão empolgante? Menino Maluquinho: O meu neto mais velho, o Ziraldinho, está aprendendo a andar de bicicleta sem rodinhas. Eu me diverto vendo suas tentativas de se equilibrar em cima da magrela. Ainda acho essas pequenas cenas da infância maravilhosas. Acredito que seja mais interessante, eu como avô, participar desse momento com ele, apoiando-o, orientando-o e incentivando-o do que, por exemplo, eu tentar aprender a andar de moto, algo que nunca fiz. Darico Nobar: Essa não é uma visão pessimista da idade? Menino Maluquinho: De maneira nenhuma! É uma visão pragmática. Um senhor será sempre um senhor e uma criança deve ser uma criança enquanto tiver idade para isso. Não há nada mais deprimente do que um velho agindo como adolescente e, por outro lado, um marmanjo com comportamento de criança. Como disse: devemos respeitar as características de cada fase de nossas vidas. E para que nossos filhos e netos não se tornem adultos infantilizados, precisamos permitir que eles tenham uma infância sadia e plena. Nós na posição de adultos e eles na de crianças. Simples assim! Darico Nobar: Agora entendi seu ponto de vista. Há muitos pais, nos dias de hoje, agindo mais como crianças e filhos pequenos se comportando mais como adultos. Menino Maluquinho: E, aí, dá-se uma confusão danada! Darico Nobar: Pessoal, esta foi a entrevista com o Menino Maluquinho! [O público no auditório volta a aplaudir com entusiasmo]. Menino Maluquinho: Obrigado pelo convite, Darico. Tchau, pessoal! [Abre um grande sorriso, enquanto saúda os espectadores com as mãos]. Darico Nobar: Galera, o Talk Show Literário volta na semana que vem. Boa noite e até lá! [Enquanto a banda toca “Aquarela” e as letras dos créditos do programa sobem na tela, é possível ver apresentador e entrevistado conversando animadamente no centro do palco. Não se escuta o que dizem, pois seus microfones foram cortados. Nesse momento, o Menino Maluquinho pega uma bala do bolso, retira o papel e a atira para cima. Ela cai diretamente em sua boca. Ele chupa a bala com prazer. Depois, volta-se para a câmaras 2, que está dando um close em seu rosto, e pisca um dos olhos para os telespectadores]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #Ziraldo
- Talk Show Literário: Virgínia
Darico Nobar: Boa noite, amigos e amigas que sintonizam o Talk Show Literário. Vocês devem ter percebido que nosso programa já está no final da terceira temporada. [O apresentador olha fixamente para a câmera]. E para celebrarmos nossa décima entrevista deste ano, convidamos a protagonista de Ciranda de Pedra. Por gentileza, recebam com carinho Virgínia! [A plateia saúda com palmas a visitante que, surpreendentemente, não entra pela porta principal do auditório]. Virgínia: Boa noite, Darico. Obrigada pelo convite desta noite. Darico Nobar: Minha nossa!!! [O entrevistador pula do seu assento, derrubando algumas folhas que segurava. Na confusão, a caneca de água que repousava em sua mesa acaba virando]. Como você chegou até aqui sem que eu percebesse?! Até parece assombração. Virgínia: Enquanto você falava, caminhei até o palco e me sentei no sofá. Fiz mal? Darico Nobar: Não, não... Imagine! [Respira forte por alguns segundos]. Estamos muito felizes por recebê-la no Talk Show Literário. [O tom de voz não parece sincero. Ele aproveita para recolher as folhas e secar a mesa com um pano entregue por um assistente extremamente ágil]. Só me assustei um pouco com sua aparição repentina ao meu lado. Você deve ter andado nas pontas dos pés para ter chegado sem eu notar. Virgínia: Tenho essa mania de andar nas pontas dos pés desde criança. Darico Nobar: Esse foi o começo de entrevista com mais adrenalina até hoje, pelo menos para mim... [O âncora da atração toma um gole de água de sua caneca assim que seu assistente a abastece). Como foi difícil te localizar, Virgínia! Minha produção ficou meses tentando te contatar sem sucesso. Por que é tão difícil falar com você? Virgínia: Eu estava em uma nova viagem por esse mundão. Como não levo telefone celular nem costumo acessar o computador nesses longos períodos de ausência, realmente é difícil falar comigo. Agora que voltei ao Brasil, retornei as principais ligações perdidas e respondi algumas mensagens antigas. Darico Nobar: Você viaja muito, né? Virgínia: Sim. Estou vivendo uma fase de descobertas e preciso ficar longe da minha família para poder compreender algumas coisas do meu passado. Darico Nobar: Fase de descobertas? Você está viajando há mais de seis décadas! Virgínia: É sim uma fase, só não disse se era passageira ou perene. Quem sabe um dia ela termine. Só não sei quando isso irá ocorrer... Minha infância não foi nada fácil, fique você sabendo. Ainda não consegui superar muitos dos traumas daquela época. Darico Nobar: Sim, eu sei. Sinto que você é uma pessoa um pouco deslocada da sociedade, ainda não achou seu lugar no mundo. Você parece que não fica à vontade em nenhum lugar. Primeiro foi na casa da sua mãe. Depois na casa de Natércio e das suas irmãs. Isso também aconteceu no colégio interno... Virgínia: E quem disse que é fácil achar nosso lugar no mundo, hein?! Infelizmente, existem muitas pessoas como eu por aí. Só na minha família, conheço várias. Ao menos, estou tentando, estou procurando o meu lugar. Estou seguindo um antigo conselho que me deram: "Comece agora mesmo a vida que te resta". Darico Nobar: Sua história é uma das mais tristes da literatura brasileira. Nela há uma combinação explosiva de loucura, suicídio, traição, impotência, inadequação, revolta, desprezo, abandono... Virgínia: Um prato cheio para quem deseja produzir uma telenovela com muito dramalhão, né? Já me falaram que minha história daria uma telenovela mexicana. Darico Nobar: Sim... [O apresentador ri do comentário da convidada, que por sua vez permanece séria, sem esboçar um único sorriso]. Hoje em dia, você é feliz? Virgínia: Se sou feliz?! Essa é uma pergunta que me faço diariamente. O que posso responder é que hoje em dia eu sinto certa tranquilidade interior. No meu caso, isso já é um grande avanço. Digo uma pequena tranquilidade, mas não uma paz completa. Darico Nobar: Para você, tranquilidade é sinônimo de felicidade? Virgínia: Se você tivesse vindo da família que vim, entenderia que talvez os dois conceitos andem mesmo juntinhos. Darico Nobar: Sua tristeza esteve acompanhada pela das demais personagens de Ciranda de Pedra. Minha impressão é que em seu romance ninguém conseguiu ser feliz de fato. Você tem essa mesma sensação? Virgínia: Nem os anõezinhos de pedra que ficavam na fonte em frente à casa de Latércio pareciam felizes. Demorei a reparar nisso. Há alguns anos, ao retornar rapidamente de uma viagem ao exterior, notei a fisionomia das estátuas. Elas estavam tristíssimas. Algumas pareciam estar chorando. Darico Nobar: O pior é que a tristeza de uma estátua é eterna! Virgínia: Nesse sentido, somos muito parecidos aos seres de pedra. Muitas coisas em nossa vida também não podem ser mudadas. Jamais fugiremos de nossa essência e dos traumas do nosso passado. Somos animais engessados, imutáveis. Darico Nobar: Não é uma visão pessimista da vida? Virgínia: Que estranho isso, né? Como uma criança que viu a mãe endoidecer, que soube que o pai biológico se suicidou, que foi criada em um lar amargurado, que foi desprezada pelas irmãs, que perdeu a virgindade com a colega de quarto no colégio interno e que se apaixonou por um homem impotente pode ser tão pessimista?! Juro que não entendo essa minha característica... Darico Nobar: Também não conhecia esse seu lado irônico, Virgínia? Virgínia: Não é porque você leu algumas páginas do meu livro que deva saber tudo sobre mim. A vida de ninguém cabe em um romance de 200, 300 páginas. Darico Nobar: Você tem razão. Você se sentiu traída pelo destino? Virgínia: Destino?! As pessoas chamam o que não entendem de vários nomes: destino, Deus, sorte, fatalidade, acaso... Minha família é formada por uma legião de traidores, mas não sei se posso acusar o destino disso. Talvez ele tenha sido apenas cruel comigo. Muito cruel, diga-se de passagem! Darico Nobar: Qual a personagem mais melancólica de Ciranda de Pedra? Virgínia: Boa pergunta... [A entrevistada pensa alguns segundos antes de responder]. Talvez seja o Conrado. Um homem que ama a inutilidade, fazendo do banal e do trivial a essência de sua vida, só pode ser mesmo um poço de melancolia. Ele é nosso São Francisco de Assis, renegando todos os prazeres terrenos em prol da vida besta em sua fazenda. Juro que às vezes não entendo como posso ter me apaixonado por ele... Paixão de infância e adolescência é mesmo ridícula. Darico Nobar: Qual é o seu maior medo, Virgínia? Virgínia: Tropeçar e cair no chão. Darico Nobar: Como assim? Virgínia: Minha mãe sempre me alertou: "Besouro que cai de costas não levanta nunca mais". Por isso, tenho o maior cuidado ao andar. Nunca se sabe o que pode acontecer quando a gente perde o equilíbrio, né? Darico Nobar: Gostaria de falar um pouco sobre a cena de Natal em que você conseguiu desagradar quase toda a sua família. Está lembrada? Você se importa se tratarmos desse tema tão delicado? Virgínia: Claro que me lembro, mas não me importo de falar sobre esse assunto. Aposto que essa foi a parte do romance em que você mais se recorda. Acertei? Darico Nobar: Acertou em cheio! Não me lembro de um Natal mais infeliz protagonizado por alguém em toda a literatura. Sempre que alguém me fala "Meu Natal foi terrível", juro que penso "Para dizer isso, você não leu Ciranda de Pedra". Virgínia: Acho engraçado isso. A vida toda eu fui feita de besta pela minha família. Aí, quando jogo toda a falsidade, as traições e a tristeza deles no ventilador uma única vez, todo mundo fica inconformado com a minha atitude. Darico Nobar: Mas era uma ceia de Natal! Virgínia: Então é preferível você aprontar todas as noites do ano, mas se comportar na ceia natalina?! É isso o que você acha? Quanta hipocrisia! Darico Nobar: Você estragou o Natal de toda a sua família. Virgínia: E eles estragaram a minha vida. O que é pior? Darico Nobar: Por essa perspectiva você tem razão... Virgínia, agora que o programa está terminando, gostaria de saber se você deseja falar mais alguma coisa. Você tem algo para dizer que ainda não falou ou eu não perguntei? Virgínia: Sim. Gostaria de aproveitar essa oportunidade para avisar: O ideal é quando ela entra por um lado e sai pelo outro. Darico Nobar: O quê? Do que você está falando? Virgínia: Da bala. Darico Nobar: Que bala? Virgínia: Dessa! [A convidada retira calmamente um revólver da bolsa e atira contra sua própria cabeça. A bala entra por um ouvido e sai pelo outro, jogando pedaços de cérebro e sangue para todos os lados. Virgínia cai desfalecida no chão]. Darico Nobar: Ohhhhhhhh! [O apresentador está banhado de sangue. Por sorte, a bala foi para a direção oposta de onde ele estava sentado]. Plateia: Ahhhhhhhh! [Muitas pessoas no auditório gritam aterrorizadas com a cena presenciada]. Darico Nobar: Meu Deus, que tragédia! Chamem um médico! O que eu faço agora, diretor?! [Em questão de segundos o programa sai do ar]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #LygiaFagundesTelles
- Talk Show Literário: Vitorino Carneiro da Cunha
Darico Nobar: Boa noite, galera do Talk Show Literário! Plateia: Boooooooooooooa noite! Darico Nobar: A entrevista de hoje é com uma das personagens mais contraditórias, polêmicas e, por que não, engraçadas da literatura brasileira. Vamos receber com aplausos o Capitão Vitorino, a incrível criação de José Lins do Rego. Vitorino Carneiro da Cunha: Oi, Darico. Oi, pessoal! [Caminha em direção ao centro do palco. Usando roupas rotas, ele puxa por uma cordinha fina um burrinho extremamente magro e velho. A dupla é bastante aplaudida]. Darico Nobar: Capitão, quem é esse seu amigo? [Afaga carinhosamente o focinho do animal]. Vitorino Carneiro da Cunha: É o meu burro, o Sarney. [Senta-se no sofá ao lado do apresentador]. Vim de Pilar até aqui nele. Como não tinha lugar no prédio para deixá-lo, preferi trazê-lo para a entrevista. As ruas do Rio são muito barulhentas. Você não se importa, Darico? Darico Nobar: Claro que não! Só estou achando o bichinho magro demais. [Continua fazendo carinho no burro]. Também parece muito cansado e envelhecido. Vitorino Carneiro da Cunha: Não sei o porquê. Capim não falta lá na Paraíba. O Sarney é um bom animal, sabe. A gente se apega ao bichinho e depois não o troca por nada nesse mundo. É verdade que ele é genioso, empaca várias vezes no meio do caminho e já está muito velhinho, mas não o troco por nenhum potro puro sangue. O Coronel José Paulino, inclusive, quis comprá-lo outro dia e eu não aceitei a proposta. O burro já está acostumado comigo, não iria gostar de viver com outro no lombo, ainda mais com o coronel, que tem uma pança gigantesca. [A plateia aplaude o gesto do convidado]. Darico Nobar: Capitão Vitorino, explique-nos esse seu carisma com o povão. Por que você é tão querido por todos? Vitorino Carneiro da Cunha: Sinhá Adriana, minha esposa, diz que tenho bom coração. Acho que é porque tenho senso de justiça. Comigo o certo é certo e o errado é errado. Também não tenho medo de ninguém. Pode ser delegado, dono de engenho, prefeito, cangaceiro, artista ou mesmo presidente, Vitorino Carneiro da Cunha exige respeito de todos. Não tenho receio de puxar meu punhal e encarar cara feia. Lembre-se que desafiei o Capitão Antônio Silvino, um dos mais temíveis cangaceiros do Nordeste. Além disso, sou o defensor dos pobres e dos oprimidos. Sou o advogado de quem mais precisa. Darico Nobar: O senhor seria, nesse caso, uma versão brasileira do Zorro? Ou uma mistura de Don Diego de La Vega com o Robin Hood? Vitorino Carneiro da Cunha: Não gosto dessas comparações. Não existe sujeito mais valente do que eu por aí. Se o Zorro fosse mesmo tão corajoso quanto falam não andava por aí escondendo o rosto atrás de uma máscara. Para mim, isso é coisa de marica. O Robin Hood é um cangaceiro inglês da Idade Média. Não sou bandido para ser comparado a ele. Sou homem direito, honesto! Darico Nobar: Há também quem o compare a Dom Quixote. Vitorino Carneiro da Cunha: Um fidalgo combina mais comigo, devo admitir. Mas ele não era meio louco?! Darico Nobar: E quem não tem um pouco de loucura, hein?! Todos nós temos. Vitorino Carneiro da Cunha: Você precisa falar isso para a Sinhá Adriana. Ela me considera um amalucado. Às vezes, me trata como uma criança inconsequente. Onde já se viu o herói dos paraibanos ser ridicularizado em sua própria casa pela mulher com quem divide a cama? Darico Nobar: Mulheres, jamais vamos entendê-las... Menino: Papa-rabo! Papa-rabo! [Um garotinho se levanta no meio da plateia e interrompe a entrevista com seus xingamentos ao convidado. A imagem é captada pela câmera 3 e o som pelos microfones ambientes. Ele corre pelo auditório provocando Vitorino]. Vitorino Carneiro da Cunha: É a mãe... É a mãe! [Muito nervoso, ele não se aguenta e corre atrás do garoto pelo palco, enquanto o apresentador tenta contê-lo]. Darico Nobar: Calma, capitão! Volte aqui, por favor. Deixe o garoto em paz. Não ligue para ele. É apenas um menino malcriado. Só isso. Vitorino Carneiro da Cunha: Aonde vou tem um desses moleques impertinentes para me infernizar. Até aqui eles aparecem! Darico Nobar: Criança é assim mesmo, você não pode levá-las tão a sério. Vitorino Carneiro da Cunha: Se eu tivesse cortado o pescoço do primeiro que me chamou assim, essa brincadeira boba não teria prosseguido por tanto tempo. Às vezes, acho que ela pode afetar a minha imagem, a minha reputação de herói popular. Darico Nobar: Por falar nisso, com a publicação de Fogo Morto, sua fama saiu do interior da Paraíba e ganhou o país inteiro. Você se considera hoje em dia uma personagem de reputação nacional? Vitorino Carneiro da Cunha: Nacional no mínimo. Não há eleição em São Paulo ou no Rio de Janeiro que eu não seja chamado para opinar. Os últimos presidentes eleitos do Brasil contaram com o meu apoio. Ninguém conquista a simpatia do povo se o Vitorino Carneiro da Cunha não der sua chancela. Está para chegar o dia em que um presidente norte-americano só será eleito com meu apoio. Darico Nobar: Então, você apoiou os ex-presidentes Lula e Dilma em suas eleições? Vitorino Carneiro da Cunha: Sou contra tudo aquilo que é ligado às oligarquias. Sou correligionário dos movimentos populares e do pensamento mais a esquerda. Nesse sentido, é óbvio que fui a favor dos candidatos petistas nas últimas campanhas presidenciais. O Nordeste foi o lugar onde eles receberam mais votos, não foi? Por quê? Porque lá tinha o Capitão Vitorino trabalhando por eles. Inclusive, falei isso para o Lulinha e para a Dilminha: "Coloquei a faixa presidencial em vocês. Agora, vê se olhem para o povo pobre da Paraíba com mais carinho". Darico Nobar: E o que eles falaram? Vitorino Carneiro da Cunha: Concordaram comigo, né? Ninguém é maluco a ponto de desafiar as orientações do Capitão Vitorino. Darico Nobar: Você se decepcionou com os políticos petistas? Vitorino Carneiro da Cunha: Não! Eles foram alvos de grandes injustiças e de muitas perseguições políticas. É tudo culpa da elite econômica do eixo Rio-São Paulo, que é formada por gente rica, excludente, preconceituosa e mal-intencionada. Isso vai ficar provado quando os casos judiciais em que estou trabalhando forem concluídos. Darico Nobar: Não sabia que você era advogado do pessoal do PT. Não vi em nenhum lugar o seu nome nas notícias políticas. Vitorino Carneiro da Cunha: Não trabalho diretamente nesses casos, no dia a dia. Prefiro assessorar os advogados. Aí, eles vão aos juízes e fazem o que é preciso. Já imaginou a loucura que seria se eu cuidasse dos detalhes de todos os meus clientes? Darico Nobar: É verdade! Seria uma loucura mesmo.... Capitão Vitorino, há quem diga que o senhor é muito prosa... Fica por aí falando, cantando vantagem, mas no fim das contas não é nada disso o que afirma ser ou fazer. O que você tem a dizer para essas pessoas? Vitorino Carneiro da Cunha: Para esses caluniosos, peço que falem isso na minha frente. Que me contestem na minha cara. Vitorino Carneiro da Cunha é homem de olhos nos olhos e de falar o que pensa na frente do sujeito. Aí sim, você vai ver meu punhal trabalhar como nunca. Darico Nobar: Realmente, homem mais destemido que você não existe. Vitorino Carneiro da Cunha: E nem vai existir. Outro menino: Papa-rabo! Papa-rabo! [Assim como o garoto anterior, este grita no meio da plateia. Após a ofensa, ele corre em disparada. É possível ouvir sua risada]. Vitorino Carneiro da Cunha: É a mãe.... É a mãe! [Novamente exaltado, ele gesticula impacientemente para seu adversário mirim]. Darico Nobar: Capitão, diga-me: o Seu José Amaro era ou não era um lobisomem? Vitorino Carneiro da Cunha: Saudades do meu bom e velho compadre! [Por alguns segundos, parece se esquecer do menino que o aporrinhava]. Um homem simples e trabalhador como ele ser confundido com uma besta fera é muito triste. Isso é coisa da boca do povão que não sabe o que fala. Sei disso porque depois que o compadre morreu, o lobisomem continuou aparecendo lá pela Várzea do Paraíba. Darico Nobar: Nossa! Eu não sabia. O lobisomem continua aparecendo até hoje? Vitorino Carneiro da Cunha: Não mais. Depois que o encontrei perto do Engenho Santa Fé há algumas décadas, o proibi de circular por ali. Disse para ele com meu punhal enfiado em seu pescoço: "Já tenho problemas de mais por aqui para resolver. Preciso lidar diariamente com políticos corruptos, cangaceiros violentos, senhores de engenho inescrupulosos, policiais autoritários e, principalmente, com a miséria do povo simples. Lobisomem já é de mais, né? Suma daqui se não corto sua garganta!". Aí, ele nunca mais colocou os pés por aquelas bandas. Darico Nobar: Senhoras e senhores, esse é o grande e único Capitão Vitorino! [A plateia aplaude novamente o convidado com muita empolgação]. Obrigado pela sua presença em nosso programa, capitão. E, galera, não perca o próximo Talk Show Literário. Voltamos na semana que vem no mesmo dia e no mesmo horário. Espero por todos. Boa noite e até lá! [Os créditos do programa começam a subir na tela. Apresentador e entrevistado permanecem conversando animadamente no palco]. Terceiro menino: Papa-rabo! Papa-rabo! [A voz da criança vem do fundo do auditório]. Vitorino Carneiro da Cunha: É a mãe.... É a mãe! [Dessa vez, ele não aguenta e parte atrás do moleque, deixando o apresentador sozinho no palco. Levando junto o burrinho, o que dificulta ainda mais seu deslocamento entre as pessoas da plateia, o convidado corre obstinadamente atrás da criança. Sua raiva só aumenta com o riso dos presentes e com as novas ofensas do garoto]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JoséLinsdoRego
- Talk Show Literário: Edmundo
[Câmera 2 mostra, em take aberto, o público no auditório. A plateia bate palmas ritmadas e acompanha a música instrumental executada pela banda. O operador de imagens troca para a câmera 1. Na tela, o foco está agora no apresentador. No centro do estúdio, atrás de uma mesa, ele esboça uma dancinha mexendo apenas os ombros]. Darico Nobar: Boa noite, fãs do programa mais divertido da televisão brasileira. Hoje, no Talk Show Literário, vamos entrevistar uma das figuras mais simbólicas da moderna ficção infantojuvenil de nosso país. Gostaria de chamar para subir ao palco ele que é personagem do romance policial O Gênio do Crime - Edmundo! [A câmera 3 exibe um garoto franzino vestindo a camisa do time de futebol do Barcelona, bermudão, boné e tênis. Ele recebe os aplausos do auditório]. Boa noite, meu bom menino. [Entrevistador e entrevistado se cumprimentam com um leve aperto de mãos]. Edmundo: Muito prazer. Darico Nobar: Pelo que estou vendo, você mudou de time, né? Edmundo: Sempre fui Barça, seu Darico [olha orgulhoso para a camisa que está usando]. Darico Nobar: Nananinanão. Lembro de você, meu jovem, correndo atrás de um conjunto de camisas oficiais do Corinthians. Soube que chegou a ir aos treinos no Parque São Jorge para falar com os craques do Timão. Achei que você fosse corintiano, Edmundo. Edmundo: O senhor tem razão, mas isso faz muito tempo, Nossa Senhora. Darico Nobar: Não vai me dizer que virou palmeirense. Edmundo: Quando digo meu nome todos pensam que sou palmeirense ou vascaíno, mas não virei a casaca, não. Torço mesmo é para o Barcelona, a melhor equipe do mundo. Acho o Real um time metido a besta. Na Inglaterra, tenho simpatia pelo Chelsea. E na Itália, sou Torino Calcio com muito orgulho. Darico Nobar: Qual o problema dos clubes nacionais?! Por que você só torce para times estrangeiros? Edmundo: Porque sim [mostra as palmas das mãos como se nunca tivesse pensado a respeito]. Darico Nobar: Edmundo, porque sim não é resposta. Edmundo: O futebol brasileiro está à beira da cova, seu Darico. Acho tolice torcer para time daqui. A mania agora da garotada é futebol europeu. Mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixa pensar em mais nada. Ninguém mais vê campeonato estadual, Brasileirão. O negócio é Champions League, Premier League e La Liga. Lá que estão os craques de verdade. Darico Nobar: Nem a Libertadores você acompanha? Edmundo: Isso é coisa de gente velha [faz uma careta]. Darico Nobar: Você continua colecionando figurinhas? Edmundo: Batata! Futebol não tem graça sem álbum de figurinha. Darico Nobar: A Fábrica de Figurinhas Escanteio ainda existe? Nunca mais ouvi falar dela. Edmundo: Não. O seu Tomé faliu faz um tempão. Agora essa indústria é das modernas multinacionais de fora do país. Quem manda pra valer é uma empresa italiana. Coisa chique, não dá nem para falsificar as figurinhas como antigamente. Eles economizam o dinheiro dos prêmios para lançar campanhas de publicidade na televisão. É um tremendo estouro! Darico Nobar: Por falar em falsificação de figurinhas, você acha certo as crianças se meterem a procurar bandidos pela cidade de São Paulo? Edmundo: O seu Tomé merecia ser ajudado. Coitado! Estava em uma enrascada daquelas. E quando a polícia fracassou nas investigações, quando os detetives particulares da fábrica fracassaram em achar os criminosos, alguém precisava se mexer, fazer alguma coisa... Foi o próprio seu Tomé que pediu nossa ajuda. Ninguém foi metendo o bedelho aonde não era chamado. Darico Nobar: E o perigo? Vocês não calcularam os riscos que corriam? Acho que as crianças são para brincar e não para serem colocadas em investigações criminais. Isto de menino detetive funciona só em gibis, livrinhos de imaginação, mas a realidade dos bons romances policiais é a realidade da vida. Investigar é coisa para os adultos. Edmundo: As pessoas fazem pouco das crianças, mas é verdade, podemos realizar investigações melhores do que muita gente grande. Não estamos à altura do Mister John Smith Peter, o detetive invicto da Escócia, mas temos nosso valor. E ninguém se deu mal, seu Darico. Voltamos mais ou menos inteiros para casa. Darico Nobar: Você quase foi esfaqueado, menino! Edmundo: Como dizia o Mister, que era boa praça e falava pelos cotovelos, tudo na vida pode ser perigoso. O mais perigoso de tudo é ficar em casa e não viver a vida. Darico Nobar: E o que aconteceu com o Bolacha, hein?! Primeiro, ele caiu de um bonde em movimento. Depois, quase tomou um banho de ácido. Edmundo: Um banho não faria mal naquele tremelique de banha. Darico Nobar: Mas não de ácido?! O Bolacha não merece uma morte tão cruel. Edmundo: Não defenda aquele lambão na minha frente, por favor. Darico Nobar: Por quê? Vocês não são mais amigos? Edmundo: Amigo??? Só se o Gordo for amigo-da-onça. O que ele fez comigo e com o Pituca não se faz nem para um inimigo [a raiva era tão grande que quase que se enxergava ela parada no ar, como uma nuvem sob a cabeça do entrevistado]. Darico Nobar: O que ele fez de tão grave para você ficar assim? Edmundo: A besta roubou o meu protagonismo no romance. E, pior ainda, passou a estrelar a maioria dos demais livros da coleção. Tem gente por aí que conhece as nossas histórias como a Série da Turma do Gordo. Turma do Gordo?! Onde já se viu? Ele não é líder de ninguém. O certo seria falar na Turma do Edmundo ou, no máximo, na Turma do Edmundo & do Pituca. Darico Nobar: Não sabia dessa sua amargura. Edmundo: E justo o Gordo que não colecionava figurinhas, detestava futebol e tinha horror de história policial. É uma injustiça danada ele ter virado o grande herói da trama. Pior é que este tipo de roubo não dá para investigar nem rende um bom romance infantojuvenil. [Fica alguns segundos em silêncio]. Bem que o Pituca falou para não colocarmos o Gordo nisso... Darico Nobar: Sem ele, quem teria tido a ideia de seguir o cambista pelo avesso, hein? Ele foi importante para descobrir a fábrica clandestina de figurinhas. Edmundo: Re-co-nhe-ço! Aquela foi a ideia mais bigue que vi até hoje juro por Deus! Foi a primeira vez na história universal dos casos de polícia que se usava o curioso sistema que o Gordo inventou. Darico Nobar: O Bolacha era o mais inteligente da turma, não? Edmundo: Acho que não [balança a cabeça várias vezes]. Para mim, a Berenice sempre foi a mais esperta. Ela sacava tudo em um piscar de olhos. E ela só tinha oito anos. Aquela garotinha era a única capaz de solucionar o caso sozinha. A Berenice era trinta vezes mais inteligente que o Bola, mas o Mister era duzentas. Darico Nobar: Então por que o Bolacha ficou com a fama de herói? Edmundo: Sabe como é, ele saiu em tudo que é jornal, televisão, rádio. Toda a cidade queria ver o Gordo de perto. Falaram que o Gordo era o mais charmoso de São Paulo, gordo maravilhoso, gordo divino, gordo salvação da pátria, gordo nacional, gordo mais magro do mundo! Foi um rebuliço que durou uma semana inteira. Se o Gordo já tinha uma cara de quem se achava grande coisa, depois de aparecer na TV ele tinha a certeza de que era o verdadeiro sherloque. Darico Nobar: Me conte: a Berenice e o Bolachão estão namorando de verdade? Edmundo: Que nojo! [Faz outra careta]. O Gordo é crânio, tem esse monte de inteligência, tá certo; mas é filhinho de papai, feio como ele eu nunca vi, e não só a banha, tem aquele narizinho pequeno, olhinho miúdo, como é possível alguém cair em fascinação por ele? Só mesmo uma garota zureta como aquela. Não entendo, não entendo! Deve ser milagre ou macumba. Darico Nobar: Senti agora um certo ciúme do Bolacha no ar... [solta uma gargalhada ruidosa]. Não seria você o namorado ideal para a moreninha esperta? Edmundo: Deus me livre! Menina só serve para fazer chateação. E a Berenice é outra metida. Tem livros da nossa turma que ela é quem rouba a cena. Um absurdo! Darico Nobar: Afinal, Edmundo, a Turma do Gordo... ou melhor, a turma de vocês tem quantas crianças exatamente? Edmundo: Vamos ver [começa a contar nos dedos das duas mãos]. Tem eu, o Pituca, o Gordo, a Berenice, o Biquinha, a Mariazinha, o Godofredo, a Sílvia, o Hugo Ciência, o Zé Tavares, a Vera Xavier, o Alcides, a Nádia, o Paulo, a Simone. Somos em quinze. Se não me esqueci de ninguém. Darico Nobar: Quem são seus melhores amigos? Edmundo: Amigos de verdade, o senhor quer saber, são o Pituca e o Alcides. Ah, tem também o Pirata. Este sim é o melhor amigo do mundo, disparado. Darico Nobar: Edmundo, a prosa está boa, mas é hora de você ir para casa. Combinei com a Dona Elvira e com o seu Cláudio que o devolveria antes da janta. Edmundo: Foi um prazer, seu Darico, visitar a televisão. Muito obrigado. Darico Nobar: Você gostou? Edmundo: Iupi! Mais legal do que completar álbum de figurinha. Até logo, seu Darico. Darico Nobar: Tchau, meu bom menino. É isso aí, meu povo [olha diretamente para a câmera 1]. O Talk Show Literário desta noite fica por aqui. No mês que vem, voltaremos com mais um bate-papo sensacional com alguma grande estrela da ficção brasileira. Até lá! [A câmera 2 mostra os aplausos efusivos do auditório. Em uma imagem geral da câmera 3, apresentador e convidado se levantam e caminham, enquanto conversam, para a parte interna do estúdio. O operador de imagens aperta o botão vermelho em seu painel de controle]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #JoãoCarlosMarinhoSilva
- Talk Show Literário: Alfredo de Lemos
[A câmera 1 mostra o auditório em tomada geral. Aos poucos, a imagem direciona-se para o grupo de músicos ao lado do palco. A banda toca Samba da Benção. Pelas lentes da câmera 3, a plateia acompanha a canção balançando as mãos para o alto. O apresentador, atrás da mesa, assiste à cena com um sorriso. Sua expressão facial é captada pela câmera 2. Ao seu primeiro gesto, a música para imediatamente]. Darico Nobar: Salve, salve, amigos e amigas do Talk Show Literário. É ao som do genial Vinicius de Moraes que iniciamos o programa de hoje. E para mantermos o alto padrão artístico, tenho o prazer de anunciar o nosso entrevistado desta noite. Com vocês, o filho mais polêmico de D. Lola: Alfredo de Lemos! [A entrada de um rapaz alto, forte e bonito é bastante aplaudida. Ele veste camisa de seda e smoking com cara de novo. Na cabeça, um chapéu elegante esconde parcialmente os cabelos loiros. Ele sacode os ombros e caminha assobiando com a mão no bolso]. Alfredo de Lemos: E aí, bichão! Batuta? [Após se sentar no sofá ao lado do entrevistador, tira o cachimbo do bolso, bate na palma da mão, enche-o de fumo e acende]. Programa de televisão. Hein? Coisa mais pequeno burguesa. Darico Nobar: Boa noite, Alfredo. É muito bom tê-lo conosco. E para começarmos nosso bate-papo, gostaria de saber sobre a sua infância e adolescência. O que você tem para nos contar daquela época? Alfredo de Lemos: Não tenho saudade nenhuma da casa da Av. Angélica. Todo ano era uma tristeza diferente, uma aflição nova. [Lança para o ar grandes baforadas de fumaça]. Como é triste a vida de pobre! Vivia em uma família de gente pobre e trouxa, o que era pior ainda. Ralhavam comigo por qualquer motivo. Se tomava bomba na escola, acabava apanhando de cinto. Tive uma corja de irmãos. Todos querendo governar minha vida. Nunca tive um dia de sossego. Darico Nobar: O que você acha, em uma citação evidentemente adaptada, de que para se fazer um romance com beleza é preciso um bocado de tristeza? Alfredo de Lemos: Besteira! Não tem graça ser galinha morta. Para que estudar tanto, trabalhar como um escravo e sacrificar-se a vida inteira se no final você não terá aonde cair morto?! Só mesmo uma besta pode levar a vida tão à sério. Darico Nobar: Acho que você está se referindo à sua mãe. O que você poderia nos dizer sobre a Dona Lola? Ela era realmente uma mãe tão dedicada quanto imaginamos? Alfredo de Lemos: Foi a maior trouxa que vi. Se matava pela família e ninguém nunca ligou para ela. Eu era o único que chegava com um presentinho, uma palavra amiga, um gesto de carinho de vez em quando. Por isso, ela era louquinha por mim. Darico Nobar: E o que você nos diz do seu pai? Alfredo de Lemos: Um tirano. Só sabia gorar a família, explorar a esposa e dar surras inesquecíveis nos filhos. O que eu queria, ele não podia me dar. Darico Nobar: Não diga uma coisa dessas, Alfredo! Eles eram seus pais. Alfredo de Lemos: Não posso dizer o que eu quero? Será que na minha entrevista, não tenho liberdade? Na minha entrevista! Por que não hei de falar? Hein? [Enxuga o suor da testa com um lenço tirado do bolso]. Diga quem manda neste programa? Quem é a estrela principal? Hein? Por que não fala? Chego exausto da viagem de São Paulo, sento-me neste sofá para conversar e você já vem me dizer que não devo falar isto ou aquilo. Fique sabendo que digo o que quero e ninguém tem nada com isso. Ouviu? Ninguém! Darico Nobar: Peço desculpas se te ofendi, mas eu só queria que você não falasse... Alfredo de Lemos: Peço desculpas se te ofendi, mas eu só queria... [Imita direitinho a voz do entrevistador]. Não se fazem mais programas de televisão como antigamente. Tem cada apresentador inútil agora. São um bando de vagabundos! [Com os lábios trêmulos, sussurrou as duas últimas frases mais para si do que para o mundo. Seus olhos lançam chispas de ódio]. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um artista de TV entrar no Reino dos Céus. Darico Nobar: Alfredo, essa passagem das escrituras é relativa aos ricos. Alfredo de Lemos: Eles também são uns bandidos! São desgraçados e miseráveis, não se salva ninguém. Todos são iguais, não se pode contar com nenhum. Nenhum! Darico Nobar: Por falar em bandido, que história foi aquela que você foi demitido da oficina mecânica por roubo? Alfredo de Lemos: Mentira. Foi mentira daquele cachorro do Calucho. [Tirou o cachimbo da boca]. Não acredite nele. Peguei umas peças, mas eu ia repor na semana seguinte. Juro para o senhor. Deus me livre ficar com o que não é meu. Mas não deu tempo. Um colega me caguetou e aí já viu, né? Darico Nobar: Sua mãe ficou decepcionada com você. Alfredo de Lemos: D. Lola sempre armava um drama por qualquer coisa. O velho também. Mas o pior de todos sempre foi o Carlos. Não suportava aquele chofer do Diabo! Darico Nobar: Você trabalha no quê? Alfredo de Lemos: Não trabalho. Darico Nobar: Mas me falaram que você estava trabalhando! [Surpreso com a resposta, procura nos papéis em cima da mesa a anotação relativa a esta informação]. Alfredo de Lemos: Ah, sim. Estava, mas o serviço gorou. Não gostaram de mim. Falaram que não sirvo para trabalho pesado. Darico Nobar: No que você estava trabalhando? Alfredo de Lemos: Era... Era coisa de escritório, ou no comércio, eu acho. Sei lá. De qualquer forma, não era grande coisa, ganhava muito pouco. Não vale a pena perder tempo com empreguinhos. Vou arranjar um trabalho melhor, o senhor vai ver. Darico Nobar: Ouvi falar que você nunca foi chegado ao trabalho. Soube que você é um boa-vida: passeia com os amigos, viaja, vai às farras, se levanta ao meio-dia. Alfredo de Lemos: E que culpa tenho se eu não tenho sorte nos empregos? Pensa que não procuro? É a recessão. Parece que o Brasil vive em eterna recessão. Darico Nobar: Um dia você se endireita, rapaz! Alfredo de Lemos: Nunca! Jamais! [O rosto fica vermelho de raiva]. Sou de esquerda. ESQUERDA RADICAL, OUVIU?! E nunca vou mudar. Darico Nobar: Você é comunista? Alfredo de Lemos: Não. Sou socialista. Darico Nobar: E não é tudo a mesma coisa? Alfredo de Lemos: Claro que não. Comunismo é diferente. [De repente, o mau humor desaparece e, em seu lugar, surge uma genuína empolgação]. O socialismo existe em todos os países civilizados do mundo e o comunismo só existe na China, em Cuba e na Coreia do Norte. Karl Marx foi um homem formidável, fundador do Socialismo; tinha uma teoria notável sobre a reorganização social. Ele também inspirou a formação de uma liga internacional dos trabalhadores, a Primeira Internacional. Darico Nobar: Pelo que estou vendo, este assunto te deixa bem animado? Alfredo de Lemos: Eu gosto de política, seu Darico. Estudo por curiosidade. Darico Nobar: Por curiosidade?! Soube que você é filiado a um partido político em São Paulo e ao sindicato dos portuários em Santos. E que não perde uma reunião. Alfredo de Lemos: Vou por um ideal. Todo mundo precisa ter um ideal, um fim, uma qualquer coisa enfim. Não é viver por viver, assim sem querer nada, sem aspirações. Darico Nobar: E quais as suas aspirações, seus sonhos? Alfredo de Lemos: Ver a implantação do socialismo moderno no Brasil. Após a Revolução Social, seríamos uma nação com divisão de terras mais igualitária, meios de produção mais justos, propriedade verdadeiramente coletiva, fim da exploração do proletário pelos capitalistas e diminuição da desigualdade social. Darico Nobar: E isso tudo seria conquistado com o comunismo? Alfredo de Lemos: Comunismo não, socialismo! Darico Nobar: Sim, que seja. Então, um país socialista é essa maravilha toda? Alfredo de Lemos: Os países socialistas vivem admiravelmente bem governados. São os que vivem melhor. Darico Nobar: Cite-me ao menos um país socialista próspero. Alfredo de Lemos: Todos os países escandinavos são socialistas e lá existe a maior ordem do mundo e a maior organização. Vivem num equilíbrio perfeito; a Noruega, a Suécia e a Dinamarca. Vou dar uns livros para o senhor ler, depois vamos discutir. Darico Nobar: Vejo que você é um idealista. Alfredo de Lemos: Com muito orgulho. Nasci para semear ideias. [Sopra a fumaça do cachimbo para cima]. Então você está de acordo que existe a opressão dos ricos sobre os pobres? Concorda que é preciso acabar com os opressores da humanidade? Darico Nobar: Concordo com você que é preciso mudar muita coisa em nosso país. Se cada um fizesse a sua parte, já seria um bom começo, né? Alfredo de Lemos: Por falar em parte, o senhor me arranja uns cobres? Pagarei com juros depois. Darico Nobar: E para que o dinheiro? Alfredo de Lemos: Tenho vontade de vagar pelo mundo todo. Quero conhecer cidades… viver aventuras… descobrir povos… levar as palavras de Karl Marx para o maior número de pessoas. Tenho vontade de ir à África, não sei por que… à Índia também. Tenho loucura de conhecer Bombaim por causa de um livro que li. Vai mesmo me arranjar os cobres? Darico Nobar: Falemos disso depois. [Muda rapidamente de posição na cadeira e passa a olhar para a câmera 2]. Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. Plateia: Ahhhhhhhhhhhhh. Darico Nobar: Não fiquem tristes, no mês que vem voltaremos com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva. Tchau Alfredo, obrigado por vir. [O convidado balança a cabeça em sinal de aprovação]. Tchau, galera de casa, obrigado pela audiência. E tchau, plateia, obrigado pela animação. [Novos aplausos e gritos são disparados pelo auditório]. Até o próximo programa! ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Doutor Camarinha
Darico Nobar: Boa noite, Brasil! Plateia: Booooa nooooite! Darico Nobar: Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, informo que o Talk Show Literário já está no ar. [A vinheta do programa entra na tela. Depois de dez segundos, a imagem volta ao palco]. Nosso convidado de hoje é uma personagem rodrigueana. Com vocês: Doutor Camarinha! [O entrevistado entra sob aplausos]. Doutor Camarinha: Obrigado. [Ao se sentar, desabotoa o segundo botão do paletó. Por ser gordo e ter as mãos pequenas, tem dificuldade]. Boa noite a todos. Darico Nobar: Tudo bem, Doutor Camarinha? Doutor Camarinha: Não tão bem como Vossa Excelência. Mais ou menos. Darico Nobar: Gostaria de iniciar nossa conversa perguntando se o senhor não se arrepende de ter revelado ao Sr. Sabino o que viu em seu consultório na véspera do casamento de Glorinha. Doutor Camarinha: Ora pipocas. Por que me arrependeria? Darico Nobar: Porque a partir daí ocorreram sucessivas tragédias familiares... Doutor Camarinha: Vamos pôr os pingos nos is. A pouca vergonha dos Uchoa Maranhão passa longe de mim. Onde já se viu tanto assédio, incesto, mulher com mulher, homem com homem, feminicídio, voyeurismo, suruba, pedofilia, traição conjugal, prostituição, estupro, desfloramento antes do casamento, ménage, troca-troca, onanismo e sadomasoquismo em uma só família. Hem? A maioria dos casos é anterior às minhas revelações. Ou isso ainda é perversão pornográfica ou sou mesmo um démodé. Darico Nobar: Portanto, o senhor não tem qualquer responsabilidade sobre os acontecimentos envolvendo o Sr. Sabino e sua filha? Doutor Camarinha: Não faço questão de dizer coisas desagradáveis, mas eu precisava alertar meu amigo para a sem-vergonhice do seu futuro genro. Darico Nobar: Você está se referindo ao beijo na boca de Teófilo, o noivo de Glorinha, em José Honório, seu assistente? Doutor Camarinha: Os canalhas estavam de afetação embaixo do meu teto. O Zé Honório era como se fosse meu filho. Mas agora acabou, ele morreu para mim. Darico Nobar: Pelo que entendi, o senhor considera uma traição o fato de seu funcionário ser gay [cruza os braços]. É isso?! Doutor Camarinha: Escuta aqui, Darico. O negócio é o seguinte: a pederastia está comendo solta e eu não posso concordar [tira o lenço e enxuga as mãos; também limpa o rosto e a nuca]. Em Copacabana, os pederastas pingam do teto, escorrem das paredes. Não há o mínimo de pudor. Até nas favelas está virando moda. Sim, senhor, nas favelas! É na classe baixa, média e alta. Está tudo infiltrado, não escapa rato. Darico Nobar: O doutor sabe que hoje em dia homofobia é crime? Doutor Camarinha: Isso aqui o que é? [Ao mexer a xícara que estava junto à mesinha ao seu lado descobre sozinho a resposta]. Água? Água não! Não tem uísque? Quero uísque. [O apresentador faz um sinal para alguém da produção trazer o que foi solicitado ao convidado]. O que estava falando mesmo? Ah, sim. Ninguém nesse país enxerga o óbvio. Os pederastas estão destruindo o Brasil. A fome mata, a corrupção empobrece e a violência desestabiliza a sociedade. Mas a pederastia é a nossa autodestruição. Ainda bem que não tenho esse problema lá em casa. Dou graças a Deus de meu filho ser macho pra burro! Por ele, ponho a mão no fogo. Darico Nobar: Seu filho é casado? Doutor Camarinha: Não [pigarreia]. O Carlos Eduardo morreu solteiro. Desastre de automóvel. Como dizem, enfiou os cornos dentro do poste. Isso faz anos. O rapaz não era mau. Às vezes brigávamos, mas quem nunca brigou com o filho? Hem? O importante é que era macho. Dia e noite, o telefone não parava em casa. Eram mulheres chamando. Solteiras, casadas e até meninas. Como se apaixonavam por ele! A Glorinha que o diga... Visito seu túmulo quase todo dia. Sabe, prefiro um filho morto e macho do que um filho vivo e pederasta. [Algumas vaias já podem ser ouvidas no auditório]. Darico Nobar: Meu Deus, quanto preconceito! Doutor Camarinha: Conversa, conversa. É mil vezes melhor uma filha puta do que um filho puto! Plateia: Uhhhhhhhhhh! Doutor Camarinha: Tudo isso é sórdido demais! E falo mais: estamos mais preparados para a gravidez precoce da filha solteirona do que para a pederastia do filho. Plateia: Uhhhhhhhhhhhhhhhhh! [As vaias aumentam de intensidade e se tornam ensurdecedoras]. Darico Nobar: Calma pessoal, por favor [gesticula com as palmas das mãos]. Alguém na plateia: Enrustido! [Todos riem do grito, menos o convidado que se mantém sério e indiferente às críticas]. Darico Nobar: Doutor Camarinha, vamos mudar um pouco o rumo da nossa conversa. Se não o programa de hoje não terminará bem... [A última frase foi dita baixinho]. Falemos da profissão de médico. O senhor acha correto um ginecologista revelar para os amigos os segredos do seu consultório. Doutor Camarinha: Olha.... [Apanhou o copo e bebeu de uma vez só, com uma sede bruta; já que o uísque não chegou, foi de água mesmo]. Depende. Do que você está falando exatamente? [Limpa os lábios com o lenço]. Darico Nobar: De ética profissional. Doutor Camarinha: Sou um médico de princípios. Não examino nenhuma cliente, não faço certos exames, sem a presença da enfermeira. Não gosto. Não acho certo. Darico Nobar: E revelar os segredos das pacientes. Pode? Doutor Camarinha: Consultório não é sacristia e o trabalho do ginecologista não está sob sigilo como a confissão ao monsenhor [tira do bolso o maço de cigarro; pega um para si e oferece outro para o apresentador]. Caporal Amarelinho. Destronca peito. Darico Nobar: Obrigado [balança a mão negativamente]. Doutor Camarinha: Saiba decisão. Isso aqui é mata-rato. Vício indecente [procura algo mais no bolso]. Onde está a merda do isqueiro? Nunca acho. [O apresentador oferece prontamente uma caixa de fósforos. Assim que a pega, o entrevistado acende o cigarro]. Obrigado. Olha aqui [muda o tom de voz, demonstrando mais agressividade]. Também cumpri meu dever como amigo do Sabino [dá a primeira tragada]. Antes de ser médico de família, sou médico da família. Fui à imobiliária contar o que eu sabia. Mas ele é o pai. A decisão do que fazer com a bicha imunda do genro é dele. Darico Nobar: Doutor Camarinha, o que o senhor acha do episódio da... Doutor Camarinha: Só mais uma coisa [põe a mão no ombro do entrevistador e fala inflamado]. Eu não revelei segredo nenhum das minhas clientes. O cúmulo, o cúmulo. Só falei para meu amigo o que um futuro integrante da família dele estava fazendo com meu funcionário. O pai tem o direito de saber sobre a pederastia do genro. Do jeito que você fala parece que fiquei revelando o desfloramento prematuro de minhas clientes. Darico Nobar: Entendi. Não precisa se exaltar. Por falar na família Uchoa Maranhão, o que o doutor pode dizer sobre o Sr. Sabino? Doutor Camarinha: Sabino sempre foi um homem de bem. Darico Nobar: E o que seria um homem de bem em sua opinião? Doutor Camarinha: Como já dizia o saudoso Nelson Rodrigues, o homem de bem é o gângster da virtude. Darico Nobar: Definição interessante. E a Glorinha? O que você pode falar sobre ela? Doutor Camarinha: É a moça mais linda que já vi em toda a minha vida. Entre Glorinha e Ava Gardner, prefiro cem vezes Glorinha. Eu a queria como nora. [Olha para os dois lados de maneira impaciente]. Darico Nobar: O que foi? Doutor Camarinha: Cadê o garçom? Não mandou trazer o uísque? O garçom sumiu. Quero minha bebida. Darico Nobar: Um momento, doutor Camarinha. Sua esposa me pediu para não servir bebida alcoólica para o senhor durante a entrevista. E estou respeitando o pedido dela. Você sabe que não pode beber. Se bebe, dá vexame. Doutor Camarinha: Cafajestada! Mulher nenhuma sabe guardar segredo [atira o cigarro quase inteiro para longe]. Conta tudo às amigas, às vizinhas, às criadas. Mulher não tem caráter. Onde já se viu falar sobre meus pileques para um jornalista. É óbvio total que na primeira oportunidade ele ia expor minha intimidade em cadeia nacional. Darico Nobar: Não fale assim da sua esposa, doutor. É para o seu bem. Doutor Camarinha: Ela faz isso de pirraça, pensa que não sei. A brasileira é a melhor mulher do mundo porque tem bunda. E pensar que me casei com uma que não tem. Darico Nobar: O senhor parece ter a mania de ofender gratuitamente as pessoas. Por quê? Doutor Camarinha: Darico, você quer dizer que eu sou um pulha. Hem? Espalha para todo mundo que eu sou um pulha. É isso o que você quer? Darico Nobar: Não tinha pensado no termo pulha. Mas acho o senhor muito moralista. E, às vezes, bastante indelicado [por alguns segundos, os dois ficam em silêncio pensando a respeito]. Uma última pergunta para finalizarmos nossa entrevista. O casamento de Glorinha e Teófilo deu certo? Tenho uma curiosidade danada para saber. Doutor Camarinha: E desde quando um casamento dá certo? Os matrimônios felizes são aqueles em que os noivos não chegam ao altar. Darico Nobar: Pessoal, esse foi Doutor Camarinha, personagem clássica da nossa literatura [plateia aplaude timidamente]. Obrigado pela sua presença nesta noite. Doutor Camarinha: Sou eu quem agradeço a lembrança. Chau. Darico Nobar: Fãs do Talk Show Literário, voltaremos no mês que vem com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva para vocês. Até lá e boa noite! [Vinheta de fechamento da atração entra na tela]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Premiações: Oscar 2020 - Os melhores do cinema
A edição deste ano do Oscar reservou a maior surpresa dos últimos anos. Afinal, quem poderia imaginar que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles daria o prêmio de melhor filme, sua principal estatueta, para uma produção que não fora falada em língua inglesa, hein? Enquanto o mundo cinematográfico discutia se o prêmio maior da cerimônia de 2020 iria para “1917” (2019), do diretor Sam Mendes, ou para “Coringa” (Joker: 2019), do diretor Todd Phillips, os jurados escolheram o sul-coreano “Parasita” (Gisaengchung: 2019), do diretor Bong Joon Ho. Pela primeira vez, um longa-metragem falado em uma língua estrangeira conquistou a principal honraria do cinema norte-americano. Incrível! A questão que fica é: o surpreendente ganhador merecia realmente conquistar tal estatueta? Infelizmente, tal escolha se deu, a meu ver, mais por motivos político-ideológicos do que por questões meramente técnicas (como deveria ser em um mundo perfeito e justo – utópico?!). Essa é uma falha que o Oscar vem repetindo a pelo menos uma década (há quem diga que sempre foi assim...). Escolhessem o filme pelo que ele representa e não pelo o que ele é efetivamente. Isso não quer dizer que “Parasita” não seja um filmão. Sim, ele é! Tanto que a conquista da estatueta de melhor filme internacional foi justíssima. Agora, falar que “Parasita” é melhor do que “1917” ou “Coringa”, me soa um tanto exagerado. Até porque, como experiência cinematográfica, “1917” é muito mais filme do que qualquer outro longa-metragem de 2019. E quando olhamos a narrativa e a proposta do conflito principal da história, “Coringa” é o melhor indiscutivelmente desta temporada. Então por que “Parasita” ganhou?! Pelo mesmo motivo que “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker: 2009) venceu em 2010, “Moonlight - Sob a Luz do Luar” (Moonlight: 2016) ganhou em 2017 e “A Forma da Água” (The Shape of Water: 2017) conquistou o Oscar em 2018. Impossível alguém com bom-senso garantir, em uma escolha isenta e totalmente imparcial, que esses foram os melhores títulos de seus respectivos anos. O nome do jogo aqui é politicagem. Tão importante quanto selecionar o melhor, é mostrar que, em 2020, a Academia é plural e aberta às influências estrangeiras (algo que como nação, os Estados Unidos são uma negação). Portanto, não se surpreenda se mais filmes de outros países frequentarem, nos próximos anos, a categoria principal do Oscar. Quando olhamos em retrospectiva a cerimônia de 2020, podemos dizer que a surpresa já se emoldurava (a apresentação do melhor filme sempre fica para o final), apesar de na hora pouca gente perceber isso (eu confesso que não notei naquele momento a propensão para a escolha da produção sul-coreana). Antes de conquistar a estatueta de melhor filme, “Parasita” já havia levado outras três estatuetas: Melhor diretor (Bong Joon Ho), melhor filme internacional e melhor roteiro original. Por outro lado, “1917” só tinha vencido nas categorias técnicas (fotografia, efeitos visuais e mixagem de som). E “Coringa” tinha levado apenas os prêmios de melhor ator (Joaquim Phoenix) e de melhor trilha sonora original. Ou seja, as cartas já tinham sido colocadas na mesa. Mesmo assim, o impacto da escolha inédita pegou a maioria do público de supetão. Com exceção da surpreendente e polêmica decisão de melhor filme, as demais opções da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles foram de certa maneira óbvias. Renée Zellweger, de “Judy - Muito Além do Arco-Íris” (Judy: 2019) era dada como escolha quase certa como melhor atriz. Joaquim Phoenix também era favoritaço à estatueta de melhor ator. Sua atuação como Coringa foi impecável. Brad Pitt, de “Era Uma Vez em…Hollywood” (Once Upon A Time In...Hollywood: 2019) e Laura Dern, de “História de um Casamento” (Marriage Story: 2019), respectivamente melhor ator coadjuvante e melhor atriz coadjuvante, mereceram suas premiações. O mesmo se deu com a escolha do melhor documentário. Apesar de estar torcendo para o representante brasileiro, “Democracia em Vertigem” (2019), sabia que “Indústria Americana” (American Factory: 2019) ganharia. Afinal, quem poderia bater o carismático casal Obama em uma produção com forte denúncia social? Ou seja, ainda não foi dessa vez que nosso país terá a sua tão almejada estatueta. Talvez a outra surpresa da noite (em proporções infinitamente menores) tenha sido a escolha de “Jojo Rabbit” (2019) como melhor roteiro adaptado. O brilhante filme de Taika Waititi superou os favoritos “Coringa” e “O Irlandês” (The Irishman: 2019). Por falar no filme de Martin Scorsese, ele saiu de mãos vazias da cerimônia de domingo. Uma pena! A edição de 2020 do Oscar não teve nenhum momento marcante, como o dueto de Lady Gaga e Bradley Cooper no piano no ano passado ou a selfie feita por Ellen Degeneres com quase toda Hollywood em 2014. Para mim, a cena mais forte deste ano foi o discurso de agradecimento de Joaquim Phoenix. O ator que é conhecido por sua timidez e por ter um gênio forte (gênio forte é normalmente um eufemismo para a designação “pessoa insuportável”) embalou uma fala megalomaníaca no começo do seu pronunciamento. Nesta parte, ele discorreu sobre o egoísmo do ser humano de forma geral. Quando já começava a me decepcionar com suas palavras, Phoenix mudou de uma hora para outra seu discurso na parte final. Aí ele fez uma mea-culpa sincera sobre seu comportamento um tanto complicado nos sets de filmagens. Saiu aplaudidíssimo. E com humildade, deixou rapidamente o palco para não ouvir a aclamação dos presentes, como se seu comportamento equivocado não merecesse elogios. Maravilhoso! O momento mais animado da noite coube ao veteraníssimo Elton John, quando executou “(I’m Gonna) Love Me Again”, a música vencedora da canção original desta edição, trilha do filme “Rocketman” (2019). As piadinhas de Olivia Colman, vencedora do ano passado como melhor atriz e apresentadora dessa categoria neste ano, também renderam muitas risadas. Ela é naturalmente hilária (e sincera!). Como já havia acontecido em 2019, esta edição do Oscar não teve um mestre de cerimônias fixo. Esse modelo de múltiplos apresentadores parece ter dado certo mais uma vez e deve ser seguido nas próximas edições. A seguir, vai a lista completa dos vencedores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles deste ano: Melhor Filme: “Parasita” (Gisaengchung: 2019) Melhor Ator: Joaquin Phoenix – “Coringa” (Joker: 2019) Melhor Atriz: Renée Zellweger - “Judy - Muito Além do Arco-Íris” (Judy: 2019) Melhor Diretor: Bong Joon-Ho - “Parasita” (Gisaengchung: 2019) Melhor Ator Coadjuvante: Brad Pitt – “Era Uma Vez em… Hollywood” (Once Upon A Time In...Hollywood: 2019) Melhor Atriz Coadjuvante: Laura Dern – “História de um Casamento” (Marriage Story: 2019) Melhor Filme Internacional: “Parasita” (Gisaengchung: 2019) Melhor Documentário: “Indústria Americana” (American Factory: 2019) Melhor Animação: Toy Story 4 (2019) Melhor Roteiro Original: “Parasita” (Gisaengchung: 2019) Melhor Roteiro Adaptado: “Jojo Rabbit” (2019) Melhor Canção Original: “(I’m Gonna) Love Me Again” - Elton John – “Rocketman” (2019) Melhor Fotografia: “1917” (2019) Melhor Direção de Arte: “Era Uma Vez em… Hollywood” (Once Upon A Time In...Hollywood: 2019) Melhor Trilha Sonora Original: “Coringa” (Joker: 2019) Melhor Efeitos Visuais: “1917” (2019) Melhor Edição de Som: Ford vs Ferrari (2019) Melhor Mixagem de Som: “1917” (2019) Melhor Montagem: Ford vs Ferrari (2019) Melhor Figurino: “Adoráveis Mulheres” (Little Women: 2019) Melhor Maquiagem e Penteado: “O Escândalo” (Bombshell: 2019) Melhor Curta Metragem: “The Neighbors’ Window” (2019) Melhor Animação em Curta-Metragem: “Hair Love” (2019) Melhor Documentário em Curta-Metragem: “Learning to Skateboard in a Warzone - If You’re a Girl” (2019) Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Celebrações: 1.000 posts do Bonas Histórias
Esta é uma data especial para o Bonas Histórias. Com a publicação de hoje, chegamos aos 1.000 posts. Eu disse 1.000!!! Uhuuuuuuh! Esse número marcante foi atingido em cinco anos e meio de atividades ininterruptas do blog. Ao alcançar tal feito, sinto-me como o jogador de futebol que completou 1.000 gols na carreira (e sem usar subterfúgios estatísticos, viu Romário, Túlio e companhia!). Ou como o ator que registra quatro dígitos de trabalhos na frente das câmeras e dos palcos. Ou como o escritor que chega à sua milésima publicação. Uma marca tão expressiva como esta do Bonas Histórias merecia sem dúvida nenhuma uma menção de destaque em sua coluna Premiações e Celebrações. Por isso, a ideia de usar o post 1.000 para falar exatamente do post 1.000! Quem disse que o nosso blog não é chegadinho a uma metalinguagem, hein? Com uma média de uma publicação a cada dois dias desde 1º de dezembro de 2014, o Bonas Histórias consolida-se como um dos principais blogs de literatura, cultura e entretenimento em língua portuguesa. E quem diz isso não sou apenas eu e sim o mercado. Basta fazer uma pesquisa rápida no Google para ver a posição privilegiada que o Bonas Histórias se encontra entre os blogs de literatura e cultura. Além disso, nossa audiência tem crescido substancialmente nos últimos anos. É incrível notar que há milhares de leitores interessados em um conteúdo tão específico (infelizmente, a literatura e a cultura ainda são nichos de mercado em nosso país). 1.000 posts! Espantosa essa marca, hein? Admito que passaria o dia repetindo essas frases. Até agora não acredito nesse número. Ainda me lembro do post número 1 do Bonas Histórias, que anunciava a nossa proposta, Celebrações: Início do Bonas Histórias – O blog de literatura, cultura e entretenimento. Também recordo da análise da primeira obra literária, Livros: A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea - O best-seller de Romain Puértolas, do primeiro longa-metragem, Filmes: Homens, Mulheres e Filhos - Os efeitos danosos da tecnologia, do primeiro espetáculo cênico, Peças teatrais: O Homem de La Mancha - A beleza de um clássico, da primeira canção, Músicas: Todo Carnaval Tem Seu Fim - As sábias palavras de Marcelo Camelo, da primeira mostra, Exposições: WARM Art Space - A primeira do novo espaço cultural, do primeiro restaurante, Gastronomia: On Va Manger - Francês descolado, bem servido e barato, e do primeiro passeio cultural, Passeios: Diálogo no Escuro - Experimentando o mundo sem a visão. E o que dizer, então, do primeiro autor analisado no Desafio Literário, Análise Literária: Mia Couto, da primeira série narrativa, Crônicas: Eu e o Mundo – Apresentação da série, da primeira temporada da Teoria Literária, Teoria Literária: Análise Literária – Apresentação, da estreia do Talk Show Literário, Talk Show Literário: Apresentação do programa, do início do Miliádios Literários, Miliádios Literários: maio/2020, da primeira edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins, Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2015, e da primeira coletânea de Recomendações, Recomendações: Retrospectiva - Melhores livros do Bonas Histórias em 2015?! Não tenho palavras para expressar minha alegria. Por outro lado, olhando em retrospectiva, vejo o quanto eram mal escritos, curtinhos e pobres de conteúdo os posts de cinco anos atrás. Confesso que até sinto uma pontinha de vergonha deles. Contudo, sem suas publicações e considerando, obviamente, o processo natural de aperfeiçoamento e evolução, tenho certeza de que não chegaríamos ao padrão de qualidade dos conteúdos atuais, esses sim mais próximos do que almejamos. Hoje em dia, o conteúdo do Bonas Histórias é 75% voltado para a literatura. São sete colunas destinadas a este tema: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas e Mercado Editorial. Outros 20% dos posts são sobre Cinema. Os 5% restantes são dedicados às demais áreas culturais: Músicas, Teatro, Exposições, Gastronomia e Passeios. Há também colunas que apoiam todas as áreas: Rádio, TV e Internet, Cursos e Eventos, Premiações e Celebrações e Recomendações. Desses 1.000 posts, eu fui o responsável (ou deveria dizer culpado?) por 985 publicações. Paulo Sousa desenvolveu 14 posts, entre a narrativa Histórias de Macambúzios e a coluna Miliádios Literários, e Débora Pesso fez um post. Gostaria de agradecer tanto a eles quanto aos nossos parceiros comerciais nessa caminhada: Editora Pomelo, BonaBelle Design & Organização, Dança & Expressão, Epifania Conteúdo Inteligente, Casa com Afeto e Eduardo Villela Book Advisor. E eu não poderia deixar de agradecer também aos nossos leitores, que fazem a roda do blog girar diariamente. Muito obrigado a todos vocês! Saibam que agora vamos trabalhar para atingir a marca de 2.000 posts. Ao infinito... e além!!! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias, hein? Deixe seu comentário aqui. Para acompanhar os demais posts dessa coluna, acesse Premiações e Celebrações. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Tel Aviv em Chamas - A comédia sobre o conflito Israel-Palestina
Os cinemas reabriram na cidade de São Paulo. Uhu! Desde sábado, dia 10, já é possível pegar uma sessão em várias salas da capital paulista. Essa é, evidentemente, a boa nova dos últimos dias do setor cinematográfico. A má notícia é que nem todas as salas voltaram a operar - algumas por decisão momentânea, como as redes Cinemark e Cinépolis (elas estão voltando aos poucos), e outras em caráter definitivo (fecharam de vez). Como bom cinéfilo que sou, interrompi o jejum forçado de mais de seis meses sem filmes nas telonas na primeira oportunidade. Seguindo os protocolos de higiene, fiz uma visita, nesta terça-feira à tarde, ao Petra Belas Artes (ou Cine Belas Artes para quem for avesso aos naming rights). E minha escolha recaiu sobre o mesmo longa-metragem que iria assistir quando as medidas de distanciamento social foram decretadas na cidade em março: “Tel Aviv em Chamas” (Tel Aviv On Fire: 2018). Lembro-me, como se fosse hoje, que na fatídica semana do fechamento dos cinemas, em 24 de março, eu tinha me programado para ver dois filmes - este e “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020). Se a adaptação do romance clássico de H. G. Wells eu consegui conferir em julho, quando foi lançado nas plataformas de streaming, “Tel Aviv em Chamas” precisei aguardar até agora. E saiba que essa longa espera não foi por falta de iniciativa da minha parte. Procurei-o para alugar, mas não o encontrei em nenhum lugar. Acho que ele ainda não foi para o streaming. No fim das contas, achei até bom que não tivesse visto este filme. Como não há títulos novos em cartaz nas salas de cinema nesta primeira etapa da retomada das atividades (uma escolha mais dos estúdios do que dos distribuidores), o público só tem duas opções: conferir os clássicos (que ocupam mais da metade da programação dos cinemas) ou se ater ao que já estava sendo exibido antes da parada. Por estar ávido por novidades, fiquei com a segunda opção. “Tel Aviv em Chamas” é uma comédia dramática dirigida e roteirizada pelo israelo-palestino Sameh Zoabi, diretor de “Man Without a Cell Phone” (2010) e roteirista de “O Ídolo” (Ya Tayr El Tayer: 2015). Além de Zoabi, Dan Kleinman também participou do roteiro de “Tel Aviv em Chamas”. Coprodução de Israel, Luxemburgo, Bélgica e França, este longa-metragem representou Luxemburgo na última edição do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Porém, ele não chegou à final – quem venceu esta categoria foi o sul-coreano “Parasita” (Gisaengchung: 2019). Apesar de ser uma trama ambientada em Jerusalém e Ramallah, “Tel Aviv em Chamas” foi filmado quase totalmente em Luxemburgo por uma equipe local. As filmagens ocorreram entre 2017 e 2018. Daí a escolha deste país europeu por tê-lo como seu representante na maior premiação do cinema mundial. O lançamento internacional de “Tel Aviv em Chamas” se deu em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Nos meses seguintes, ele foi levado ao circuito comercial na Europa, Estados Unidos e Oriente Médio, onde faturou pouco mais de US$ 1,7 milhões em bilheteria. No Brasil, o filme de Sameh Zoabi já tinha sido apresentado, em 2019, no Festival Internacional de Cinema de Curitiba e no Festival de Cinema Judaico de São Paulo. Nos cinemas comerciais do nosso país, sua estreia só aconteceu em fevereiro de 2020. Em suas apresentações pelo mundo, “Tel Aviv em Chamas” conquistou alguns prêmios relevantes. Em Israel, o filme ganhou o Ophir Award, a principal honraria da Academia de Cinema e Televisão Israelense, como melhor roteiro original de 2019. No Festival Internacional de Cinema de Haifa de 2019, ele levou para a casa os prêmios de melhor filme e de melhor roteiro. E no Festival Internacional de Cinema de Seattle daquele mesmo ano, o longa-metragem de Zoabi foi o escolhido o melhor filme. “Tel Aviv em Chamas” é estrelado pelo palestino Kais Nashif, vencedor do prêmio de melhor ator do Festival Internacional de Veneza por este papel. Ao seu lado no elenco desta produção, temos a belga Lubna Azabal, o jordaniano Nadim Sawalha, os israelenses Yaniv Biton, Maisa Abd Elhadi, Yousef Sweid e Salim Dau, o palestino Amer Hlehel e a francesa Laëtitia Eïdo. Não é errado enxergar “Tel Aviv em Chamas” como uma Torre de Babel da sétima arte. Quem acompanha as análises críticas da coluna Cinema do Bonas Histórias, irá notar que este é o segundo filme de um cineasta palestino-israelense que comentamos em 2020. O primeiro foi, no comecinho de janeiro, o divertido e criativo “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019), a mais recente comédia dramática de Elia Suleiman. Ainda no universo cinematográfico árabe-israelense, só para citar os títulos dos últimos dois anos, analisamos em 2019 “Não Mexa Com Ela” (Isha Ovedet: 2018), drama do israelense Michal Aviad, e em 2018 "O Apartamento" (Forushande: 2016), drama do iraniano Asghar Farhadi que conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2017, "Clash" (Eshtebak: 2016), thriller de ação do egípcio Mohamed Diad, e "Shivá - Uma Semana e Um Dia" (Shavua ve Yom: 2016), comédia de estreia do israelense Asaph Polonsky. O enredo de “Tel Aviv em Chamas” se passa nos dias de hoje. Sua história começa quando Salam Abbass (interpretado por Kais Nashif), um palestino que vive na parte Oriental de Jerusalém, é contratado como assistente de produção de uma popular telenovela palestina. Com o nome de “Tel Aviv em Chamas”, a atração televisiva é um grande sucesso de audiência tanto em Israel quanto na Palestina. As populações dos dois lados da fronteira param o que estão fazendo para conferir a trama histórica que se passa pouco antes da Guerra dos Seis Dias (ou seja, no primeiro semestre de 1967). Nela, uma agente secreta palestina chamada Manal aka Rachel (Lubna Azabal) tenta descobrir os segredos do exército israelense. Em nome da segurança dos seus compatriotas, ela terá que seduzir um importante oficial inimigo, o General Yehuda Edelman (Yousef Sweid), apesar de ser apaixonada por um soldado palestino. A função de Salam em “Tel Aviv em Chamas” é ajudar a atriz principal da telenovela, Tala, que interpreta a heroína Manal aka Rachel, na pronúncia correta dos termos em hebraico. Por ser francesa, ela tem certa dificuldade para falar algumas palavras do roteiro. Bastante atrapalhado, muito inseguro e sem grande capacidade criativa, Salam Abbass só foi contratado para o cargo por ser sobrinho de Bassam (Nadim Sawalha), o produtor do programa. E por dominar o hebraico, é claro. Afinal, ele vive há anos em Israel e conhece profundamente o idioma deste país. Para Salam, seu novo emprego caiu do céu. Há muito tempo endividado, ele não sabia mais aonde recorrer para conseguir dinheiro. Para completar, tão interessante quanto o salário, é poder falar para todo mundo que agora está participando da produção de um programa de televisão popular. Ao ocupar, enfim, uma posição profissional aparentemente importante aos olhos dos telespectadores, o rapaz acredita ter mais chances de conquistar o coração de Mariam (Maisa Abd Elhadi), seu amor de infância. Para o desespero de Salam, a moça insiste em desprezá-lo há muito tempo. Por essas razões, o assistente de produção palestino não se importa em ter que atravessar diariamente o posto de controle (uma barreira militar) que separa Jerusalém, onde mora, da cidade palestina de Ramallah, onde “Tel Aviv em Chamas” é filmado. A rotina tranquila do protagonista no novo emprego infelizmente dura pouco tempo. Após dar vários palpites descabidos no roteiro da telenovela, Salam Abbass vê a roteirista do programa, Maisa (Laëtitia Eïdo), pedir demissão. Ela ficou brava com as tentativas de interferência em seu trabalho. Sem alternativa para a reposição de Maisa, Bassam coloca seu sobrinho no cargo. O problema é que Salam não tem criatividade para dar sequência à trama de “Tel Aviv em Chamas”. Para piorar, ele se torna alvo das chantagens do capitão israelense Assi Tzur (Yaniv Biton), responsável pelo posto de controle entre Jerusalém e Ramallah. O capitão Tzur vive uma fase complicada em seu casamento e quer impressionar positivamente a esposa, uma grande fã da telenovela palestina. Dessa forma, ele começa confiscando o roteiro da atração, que foi descoberto no carro de Salam. Com o texto do programa em mãos, ele pode contar à mulher o que irá acontecer nos capítulos seguintes da trama. Depois, o oficial do exército israelense quer interferir diretamente no roteiro da telenovela. Assi Tzur insiste que a história da TV não tenha um tom tão antissemita. Ele quer, por exemplo, que Manal aka Rachel e o General Yehuda Edelman fiquem juntos no final. Salam Abbass fica no meio de um triplo fogo-cruzado. Seu tio e os patrocinadores de “Tel Aviv em Chamas” querem escancarar a vilania dos israelenses na Guerra dos Seis Dias (e agradar ao público palestino). A atriz principal, Tala, por sua vez, exige um papel mais nobre para si (independentemente do que os fãs vão pensar). E Assi Tzur trabalha para transformar o programa em uma propaganda sionista que valorize os militares de seu país (e que engrandeça sua profissão aos olhos da esposa noveleira). O que Salam deve fazer em uma situação como esta, hein?! O filme “Tel Aviv em Chamas” tem aproximadamente 100 minutos. Ele é um longa-metragem engraçado para quem domina as nuances do conflito israelo-palestino e a cultura desta região. Estes aspectos, por sinal, são as principais características do humor do longa-metragem. A maioria das piadas exige da plateia profundo conhecimento sobre a história do conflito bélico entre israelenses e palestino e sobre os detalhes de suas culturas (alimentação, vestimenta e comportamento, por exemplo). Quem não está inserido nesse contexto histórico-social, certamente terá muitas dificuldades para entender grande parte da graça do que está acontecendo na tela. Além disso, o humor do roteiro de Sameh Zoabi e Dan Kleinman apresenta uma grande intertextualidade televisiva. Outra significativa parte da comicidade deste enredo está nas maluquices metalinguísticas: uma produção audiovisual que aborda a produção de outra obra audiovisual. Nesse aspecto, assistimos a uma hilária sátira sobre a importância das telenovelas para os espectadores. Muita gente acaba dando mais atenção aos dramas das personagens ficcionais do que às suas próprias vidas. Em muitos momentos da sessão de “Tel Aviv em Chamas”, lembrei-me de “Jojo Rabbit” (2019), a comédia do neozelandês Taika Waititi que foi indicada ao Oscar de 2020. Afinal, ambos os filmes abordam passagens delicadíssimas da história judaica. Se “Tel Aviv em Chamas” apresenta as consequências da Guerra Israel-Palestina, o longa de Waititi mostra os horrores da Segunda Guerra Mundial. E mesmo em ambientações nas quais a violência e a truculência imperam, as duas produções conseguem extrair graça, beleza e humor. Outra questão que gostei bastante em “Tel Aviv em Chamas” foi a agilidade de seu roteiro. A sensação é que sempre está acontecendo alguma coisa no filme. Algo que colaborou muito para esse dinamismo foi a característica tripla de sua história. A narrativa segue por três caminhos distintos: o suspense da telenovela histórica (qual o desfecho para as aventuras de Manal aka Rachel?), a tragicomédia da nova profissão de Salam Abbass (por qual caminho narrativo o agora roteirista deve optar?) e as desventuras sentimentais da personagem principal do longa-metragem (conseguirá Salam conquistar o coraçãozinho da bela Mariam?). De certa maneira, cada uma das pontas deste triângulo cênico interfere nas demais partes. Por isso, algo que acontece em um plano mexe substancialmente com os outros. Notar essa evolução do enredo (e a relação entre fatos do passado com a realidade no presente) é bem interessante. Do ponto de vista do roteiro cinematográfico, este filme é um exemplo impecável. Não dá para falar de “Tel Aviv em Chamas” sem enaltecer o trabalho primoroso de seu elenco de atores e atrizes. Não foi apenas Kais Nashif que deu um show de interpretação. Lubna Azabal também está ótima. E Nadim Sawalha, Yaniv Biton, Maisa Abd Elhadi, Yousef Sweid e Amer Hlehel não ficam muito atrás. Todos conferem graça e vivacidade às suas personagens. Assista, a seguir, o trailer de “Tel Aviv em Chamas”: “Tel Aviv em Chamas” é uma comédia inteligente e sutil. É preciso ter um bom repertório das culturas israelense e palestina para entender suas piadas e suas sátiras. Se pensarmos bem, acho que não podia ter escolhido um filme melhor para assistir nesta retomada dos cinemas paulistanos. De alguma maneira, “Tel Aviv em Chamas” dialoga intimamente com a necessidade de superação da realidade muitas vezes atroz, com a busca pela criatividade incessante e com a importância de atender a múltiplos interesses. É ou não é um pouco do que estamos vivendo atualmente, hein? Agora é torcer para que os cinemas não voltem a fechar (nunca mais)! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















