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  • Análise Literária: Paulo Coelho

    Este mês já está terminando. E com seu desfecho é chegada a hora de concluirmos o Desafio Literário de setembro. O autor analisado ao longo das últimas quatro semanas no Blog Bonas Histórias foi Paulo Coelho. Para conhecê-lo bem, lemos cinco de suas obras. Elas foram publicadas entre 1987 e 1998. Nossa lista tem "O Diário de Um Mago" (Rocco), "Alquimista" (Planeta), "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" (Rocco), "O Monte Cinco" (Objetiva) e "Veronika Decide Morrer" (Objetiva). Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, em uma família de classe média alta. Desde pequeno, seu sonho era ser escritor. Contudo, a família sempre se opôs a este plano, desencorajando-o, pois acreditava que ele não ganharia dinheiro desta forma. Depois de um curto período como diretor e autor teatral, Paulo trabalhou como compositor musical, jornalista e produtor em uma gravadora de discos entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Nesta época, foi parceiro de Raul Seixas, tendo criado músicas antológicas como "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás", "Al Capone" e "Gita", e produziu a revista "2001", sobre o estilo de vida alternativo daquele período. Somente na década de 1980, ele decidiu abandonar a vida de executivo da indústria musical e partir para a produção dos livros, seu sonho de infância. Suas duas primeiras obras foram "Arquivos do Inferno", de 1982, e "O Manual Prático do Vampirismo", de 1985. Enquanto a primeira não apresentou grande repercussão, a segunda foi retirada das livrarias, pouco tempo depois do lançamento, pelo próprio autor, envergonhado com a qualidade do trabalho apresentado. O sucesso literário veio com a terceira publicação, em 1987. Após realizar uma jornada pelo místico Caminho de Santiago, Paulo lançou a autobiografia da viagem: "O Diário de Um Mago". Neste livro, narrou em detalhes a viagem de três meses a pé pelos mais de 700 quilômetros entre o sul da França e a cidade espanhola de Compostela. "O Diário de Um Mago" é um bom livro de ficção. É difícil para quem não é crente acreditar em tudo o que é relatado. Ele possui muitos elementos religiosos, rituais secretos e componentes mágicos. Os personagens principais conversam com espíritos, movimentam objetos pelo pensamento, enfrentam demônios, entre outras práticas mágicas. Depois de realizar exercícios banais, eles passam a possuir poderes sobrenaturais. Apesar da boa vendagem deste livro, o sucesso literário de Paulo Coelho chegou de forma retumbante com a publicação, em 1988, da sua quarta obra. "O Alquimista" é o livro de maior sucesso internacional produzido por um escritor brasileiro. A obra teve mais de 80 milhões de unidades vendidas, sendo traduzida para mais de 60 línguas. Este romance é uma parábola sobre a importância das pessoas seguirem seus sonhos e confiarem em seus potenciais. Ou seja, através de uma história simples de um jovem pastor de ovelhas chamado Santiago que deseja viajar para o Egito, o autor transmite ensinamentos de autoajuda e moral para os leitores. "O Alquimista" é um livro bem curto (tem pouco mais de 100 páginas). Admito que gostei muito de seu conteúdo (por mais que chovam pedras em cima de quem fale algo do tipo). Paulo Coelho construiu uma trama de caráter universal e filosófica. Seus ensinamentos são transmitidos por uma prosa recheada de simbologia. Assim, este livro se parece muito, neste sentido, com "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry, com o "Conto da Ilha Desconhecida" de José Saramago e com "A Cabana" de William P. Young. Em 1994, Coelho publicou seu sétimo livro: "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei". Esta obra veio após a publicação dos romances "Brida" (Rocco) de 1990 e "As Valkírias" (Rocco) de 1992. Nesta história, conhecemos o conflito amoroso de uma jovem espanhola e um homem com poderes mediúnicos. Aqui temos um livro apenas razoável. O que incomoda mais em "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" é a repetição da fórmula literária usada por Paulo Coelho. Isso ocorre novamente em "O Monte Cinco", publicado em 1996, um romance ainda mais fraco. Baseado em um pequeno trecho da Bíblia, este livro mistura ficção com passagens religiosas, expandindo a narrativa do Velho Testamento. A história de "O Monte Cinco" é sobre a fé de Elias, jovem profeta israelense que precisa deixar sua terra natal, Israel, para atender a um pedido de Deus. O problema aqui está na religiosidade excessiva e no alongamento da trama. Praticamente esta é uma obra de evangelização do autor para com os leitores. Além disso, a transformação dessa história em um romance foi fatal para a queda de sua qualidade. Esta história poderia ter sido contada através de um conto ou de uma novela (narrativas menores e mais enxutas). Ao alongá-la, o autor conseguiu torná-la enfadonha. "O Monte Cinco" é um livro fraco. A história é até boa (costumeiramente o Velho e o Novo Testamentos trazem boas narrativas), mas a forma como ela é contada torna tudo cansativo. Em 1998, foi lançado "Veronika Decide Morrer". Esta obra tem muitos elementos autobiográficos, pois o escritor foi internado, quando adolescente, em um hospício do Rio de Janeiro após tentar se suicidar (basicamente o mesmo enredo do livro, só que passado com uma personagem feminina nos dias atuais - final da década de 1990). A história foi adaptada para o cinema duas vezes. "Veronika Decide Morrer" segue o padrão dos romances de Paulo Coelho - rápido e fácil de ser lido. O ponto positivo deste livro está em sua história. Aproveitando-se de uma experiência real, o autor consegue construir um enredo interessante sobre a loucura e a vida em um hospício. As formas como ele retrata a clínica e seus pacientes são incríveis. A discussão de quem é ou não louco em nossa sociedade, apesar de não ser original, é ótima. O problema deste livro não está em seu conteúdo e sim em sua forma. Infelizmente, o escritor transforma uma ótima ideia em um romance mediado. O excesso de religiosidade, o romantismo barato e algumas cenas paranormais (almas que deixam momentaneamente os corpos e ficam flutuando pelo ambiente, por exemplo) tomam espaço da narrativa, empobrecendo a história. Depois de ler estas cinco obras, acredito que cheguei a uma conclusão sobre o estilo literário de Paulo Coelho. Suas principais características são: trabalhar com romances breves (no máximo 200 páginas), linguagem simples, predomínio de diálogos e reflexões, personagens com problemas existenciais, religiosidade excessiva, amor platônico, crença no sobrenatural e proposta do livro servir como um guia de autoajuda ao leitor. A linguagem e o estilo narrativo do livro são simples e objetivos. Paulo Coelho escreve fácil e de maneira coloquial. Ele não perde tempo descrevendo cenários, caracterizando personagens ou apresentando perfis psicológicos. Ele vai direto ao ponto, em uma narrativa seca. Em suas histórias, só há espaço para o essencial. Se o texto fica curto e direto, ele também fica sem qualquer sofisticação literária. Isso pode incomodar os leitores mais exigentes e críticos. O ponto mais interessante, em minha opinião, é o debate filosófico e humanista protagonizado pelos personagens. Se as histórias têm pouca ação, elas são recheadas de bons diálogos. Se esses diálogos não são sempre de alto nível, pelo menos levam o leitor a refletir sobre os temas tratados. Sempre é possível extrair algo de positivo dessas discussões. Os principais problemas estão na forte religiosidade e na necessidade de todo momento querer transmitir uma lição de moral ao leitor. Em determinados momentos, as tramas demoram muito para avançar, deixando o leitor entediado. Em outras partes, os diálogos se tornam desnecessários e repetitivos. Isso acontece principalmente nas últimas obras lidas. Em muitos casos, se excluirmos a mensagem religiosa, não sobra nada (ou quase nada) da história. É como se estivéssemos ouvindo um padre/pastor na missa/culto de domingo descrevendo as aventuras religiosas de personagens comuns. Nada contra a religião, mas ancorar boa parte da literatura neste tema torna tudo muito chato. A impressão é que Paulo Coelho já transmitiu todas as "lições de vida" que poderia passar para o leitor com seus dois grandes sucessos da década de 1980 ("O Diário de Um Mago" e "O Alquimista"). A partir daí, ele fica se repetindo, reciclando seus conceitos e sua religiosidade. Os diálogos perdem força e a mensagem se torna vazia. Se no começo os protagonistas com poderes mediúnicos, com romantismo platônico (as personagens se apaixonam sempre ao primeiro olhar) e com necessidades de deslocamento (estão sempre com problemas existenciais e, por isso, precisam viver na estrada, viajando de uma cidade para outra) são legais, depois de alguns livros esses recursos se tornam infantis e pobres. Minha conclusão é que Paulo Coelho escreveu um grande livro: "O Alquimista". Realmente gostei muito desta obra. Como parábola, ela é excelente. Contudo, assim como ocorre com a maioria dos escritores de autoajuda, suas histórias se tornam enfadonhas e fracas literariamente quando repetidas incansavelmente. Meu veredito é: "O Alquimista" é um ótimo livro; "O Diário de Um Mago" é uma obra de boa qualidade (se a considerarmos como sendo uma ficção e não como relatos reais de uma viagem); "Veronika Decide Morrer" é razoável; e "Na Margem do Rio Piedra, Eu Sentei e Chorei" e "O Monte Cinco" são publicações fraquíssimas. Na média, Coelho fica com nota 6. Com esta pontuação, ele passa de ano, porém não se torna o melhor da classe. Assim, não concordo com aqueles que criticam acidamente o escritor brasileiro mais vendido no mundo (colocando o no patamar dos piores autores da atualidade) nem com aqueles que o louvam (colocando-o como um dos melhores autores de nossa literatura). Os dois lados estão equivocados tanto ao subestimá-lo quanto ao supervalorizá-lo. Não acho este radicalismo, seja para qualquer um dos lados, correto. Paulo Coelho é um autor mediano no geral, porém com ótima capacidade para construir parábolas, obras de autoajuda e livros com alto teor religioso. Neste segmento, ele pode ser visto com destaque e ser uma referência mundial. Precisamos respeitar suas opções literárias e reconhecer seus méritos neste tipo de livro. O Desafio Literário de 2016 irá prosseguir no próximo mês. Em outubro, o autor que será analisado no Blog Bonas Histórias é Khaled Hosseini, romancista afegão naturalizado norte-americano. Continue acompanhando as análises literárias do Desafio Literário no Bonas Histórias! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PauloCoelho #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Agatha Christie

    Anna Mary Clarissa Miller entrou para a história como a maior escritora de romances policiais da literatura mundial. Seu pseudônimo: Agatha Christie. O primeiro nome é uma invenção sua, enquanto o sobrenome é do primeiro marido. Nascida em 1891 na cidade de Torquay, localizada no sul da ilha britânica, perto do Canal da Mancha, a autora que ficou conhecida como a "Rainha do Crime" faleceu em 1976 em Wallingford, pequeno município no sudeste da Inglaterra. Agatha Christie começou a escrever para provar para a irmã que era possível desenvolver uma história policial que surpreendesse o leitor no final da trama, algo que a irmã duvidava. Sua primeira história foi publicada em 1920, quando a escritora tinha quase trinta anos. A partir daí foram mais de oitenta livros produzidos, onde foram assassinadas mais de trezentas pessoas. O ritmo de produção foi avassalador. São quase dois livros publicados por ano. A maioria dessas obras era romances policiais, mas ela também atuou como contista, dramaturga e poetisa. Seus livros venderam conjuntamente mais de quatro bilhões de exemplares no mundo todo. “O Caso dos Dez Negrinhos" (também chamado de "E Não Sobrou Nenhum"), sua obra mais conhecida, atingiu a marca de 100 milhões de livros vendidos nos quatro cantos do planeta. Traduzida para mais de 100 idiomas, a inglesa criou um ícone da cultura contemporânea: o investigador Hercule Poirot. O detetive belga é o responsável por desvendar os crimes na maioria dos romances da inglesa. Ela também criou outros personagens de sucesso. O casal Thomas Beresford (Tommy) e Prudence Cowley (Tuppence) foi protagonista de cinco romances. Miss Jane Marple, uma solteirona que resolvia seus casos de maneira nada convencional, esteve presente em doze romances e vinte contos. Agatha Christie promoveu algumas inovações na literatura policial. Ela foi a precursora em terminar suas histórias com um final surpreendente, não permitindo que o leitor descobrisse facilmente os mistérios durante a leitura das suas tramas. Assim, o clima de mistério e suspense permanece durante toda a narrativa. A iniciação na literatura profissional ocorreu com “O Mistério Caso de Styles”, publicado em 1920. Nesta época, Agatha Christie ainda estava unida com o piloto das Forças Armadas inglesa com quem fora casada por doze anos. O casal teve uma única filha. Já nessa primeira história somos apresentados ao pitoresco detetive Poirot. Nos três anos seguintes, são publicados cinco livros, a maioria com o personagem do investigador belga no enredo. É desse período a publicação de “O Inimigo Secreto”, a primeira aventura do casal de detetives amadores Thomas Beresford e Prudence Cowley, mais conhecidos como Tommy e Tuppence, respectivamente. O casal acompanharia a “Rainha do Crime” ao longo dos anos e por mais quatro livros: “Sócios no Crime” (1929), “M ou N” (1941), “Um Pressentimento Funesto” (1968) e “Portal do Destino” (1973). Thomas Beresford e Prudence Cowley foram os personagens mais populares de Agatha Christie depois do detetive Hercule Poirot. Tommy e Tuppence formaram o único casal criado pela mente da britânica que esteve em mais de uma história dela. Ao longo dos livros, é possível acompanhar a evolução da vida da dupla. Curiosamente, o envelhecimento das personagens respeita a passagem cronológica do tempo entre as publicações dos livros. No início, eles são apenas jovens, solteiros e amigos de infância que se arriscam em uma investigação amadora. Depois, se apaixonam, casam e tem um filho, tornando-se detetives profissionais. Na última história, temos os dois já idosos e aposentados, vivendo tranquilamente em uma cidadezinha do interior da Inglaterra. “O Inimigo Secreto” é recheado de intrigas, assassinatos, suspense, perseguições e reviravoltas. Com pouco mais de 200 páginas, é possível ler este livro em um único dia. Basta ler o primeiro capítulo para ter vontade de ir até o final. Realmente, o casal Tommy e Tuppence é muito carismático. Não foi à toa que Agatha Christie quis dar continuidade a vida fictícia da dupla. O mais interessante nessa história é que apesar de poucos personagens suspeitos, ainda sim a escritora consegue ludibriar o leitor, provocando uma reviravolta no final da trama, surpreendendo a todos. A história é bem amarrada do início ao fim, com boas doses de política e romance. O tempo inteiro está acontecendo alguma coisa e a sensação é que a ação domina toda a narrativa. Tudo tem um motivo e uma razão de ser. Só não gostei da sequência de coincidências que abre a trama. Essa é a única parte que foge da verossimilhança. Em 1926, veio o retumbante sucesso com o lançamento de “O Assassinato de Roger Ackroynd”. Essa obra foi a responsável por tornar a escritora nacionalmente conhecida. Das obras lidas da inglesa neste mês de Junho, esse foi o meu livro preferido. Parte do charme dessa obra se deve a polêmica criada em relação ao seu desfecho. A solução do enigma da narrativa contrariou a lógica até então em voga nos romances policiais da época, despertando a ira dos mais conversadores. Como ocorria nas obras em que Hercule Poirot era o protagonista, esta história é escrita em primeira pessoa por um dos personagens da trama. A narrativa é ágil e prende o leitor. Os mistérios se tornam intrigantes e a pergunta “Quem foi que matou?” fica o tempo inteiro martelando na cabeça de quem lê as páginas dessa publicação. Como de hábito, a escritora inglesa deixa um monte de pistas durante a narrativa que só iremos sacar quando a trama é elucidada por Poirot. Até isso acontecer, a cada momento, acredita-se que um personagem diferente é o responsável pelo assassinato, o que gera muitas reviravoltas. Por ser narrada em primeira pessoa por um dos personagens aparentemente secundários do livro, não temos uma visão completa da situação (sabemos apenas o que esse personagem tem consciência e quer nos mostrar). Além disso, esse recurso torna mais verossímil a investigação, pois parece que estamos participando dela como os demais envolvidos. O final de “O Assassinato de Roger Ackroyd” é espetacular!!! Sem sombra de dúvida, os últimos capítulos dessa obra são os melhores que já li em um romance policial. Somente um leitor muitíssimo atento consegue descobrir o verdadeiro responsável pela morte do Sr. Ackroyd um pouco antes dele ser anunciado pelo investigador Poirot. Mesmo assim, essa revelação é chocante. Não é à toa que ela tenha provocado tanta polêmica na época do lançamento do livro (óbvio que não vou contar quem era o assassino). Além do assassino ser uma das pessoas menos óbvias da história, o recurso narrativo utilizado por Agatha Christie foi de uma ousadia digna de aplauso. Ficou evidente toda a maestria dessa escritora durante o desfecho dessa trama. No mesmo ano da publicação de “O Assassinato de Roger Ackroyd”, o marido de Agatha Christie pediu o divórcio, fugindo de casa para viver com uma nova mulher. Assim, a escritora passou a cuidar sozinha da filha e enfrentou uma série crise emocional, o que a fez interromper por algum tempo a escrita. Em 1930, a romancista se casa novamente, agora com um jovem arqueólogo, catorze anos mais novo do que ela. Esse matrimônio durou até o falecimento dela, em 1976. Ao lado do segundo marido, Christie viajou o mundo, construindo cenários e novos enredos para os seus livros. Um bom exemplo disse é “Morte na Mesopotâmia”. A partir de uma visita ao sítio arqueológico de Ur, no atual Iraque, a escritora criou uma trama que se passa nessa localidade e tem novamente o protagonismo do detetive belga. Em suas 220 páginas, temos novamente o melhor de Agatha Christie: mistério, surpresas, reviravoltas, suspense, intrigas e dúvidas. Muitas dúvidas, por sinal! A cada momento o assassino parece ser um e no final é a pessoa em que menos acreditássemos que era. Nesse sentido, a escritora inglesa é mestre. A trama dessa obra é boa, ágil e interessante. Contudo, a estrutura de "Morte na Mesopotâmia" é basicamente igual ao do livro "O Assassinato de Roger Ackroyd". Uma série de assassinatos acontece em determinado lugar e o culpado é um dos moradores daquela localidade. A história também é contada em primeira pessoa por um personagem "secundário". Cabe ao detetive Poirot esclarecer o que parece ser um crime quase perfeito. A única diferença é que esta trama se realiza no interior do Iraque enquanto a outra acontecia no interior da Inglaterra. Ou seja, só muda-se o cenário. Com o segundo casamento, a carreira da escritora deslancha. Ela passa a escrever ininterruptamente, lançando ao menos uma nova obra por ano até a metade da década de 1970. Durante os anos de 1930 e 1940, a média de lançamentos é de dois livros inéditos por ano. O maior sucesso chegou em 1939. “O Caso dos Dez Negrinhos” é o nome original da obra. Devido à acusação de racismo no título, ela também pode ser encontrada como “E Não Sobrou Nenhum”. A mudança no nome do título de "O Caso dos Dez Negrinhos" para "E Não Sobrou Nenhum" se deu quando a obra chegou ao mercado norte-americano. Lá a palavra "negrinho" foi encarada como um possível sinal de preconceito racial. No Brasil (onde a influência norte-americana é maior), o livro foi publicado como "E Não Sobrou Nenhum", enquanto em Portugal (onde a influência britânica é mais acentuada), o título ficou "As Dez Figuras Negras". Polêmicas a parte, trata-se de um grande sucesso editorial. Mais tarde, essa história foi adaptada para o teatro e para cinema com grande êxito. Em 1943, a trama foi teatralizada com o nome "O Caso dos Dez Negrinhos". Dois anos mais tarde, o diretor René Clair lançou o longa-metragem com esse enredo com o nome "O Vingador Invisível" (And then There Were None: 1945). Nas décadas seguintes, mais um punhado de filmes foram lançados com essa temática tanto na televisão quanto no cinema. "E Não Sobrou Nenhum" é uma história incrível. Ela possui todos os elementos de um grande suspense: ilha deserta, uma mansão misteriosa, personagens contraditórios e suspeitos, ambiente fantasmagórico e mistério envolvendo um poema antigo. O clima é de tensão do início ao fim. Não é à toa que mais tarde muitos desses elementos foram banalizados pelas futuras tramas de mistério. A narrativa é feita em terceira pessoa, algo incomum em se tratando de Agatha Christie (os outros quatros livros lidos neste Desafio Literário foram escritos em primeira pessoa). Além disso, a história não possui como personagens principais os investigadores (Hercule Poirot, a dupla Thomas Beresford e Prudence Cowley e Miss Jane Marple nem aparecem por aqui). Na verdade, os detetives e a polícia só surgem no final, de forma um tanto tímida. Os principais envolvidos nessa trama são os dez habitantes da residência, que ao mesmo tempo são vítimas e suspeitos. A construção psicológica desses personagens merece uma exaltação. Não há nenhum bonzinho ou santinho no grupo. Contudo, eles sofrem com a tensão do ambiente e ficam sujeitos aos dramas que qualquer um sentiria se fosse abandonado para o sacrifício em uma ilha deserta. Assim, é difícil saber se, como leitores, tememos ou torcemos pelas personagens. É um misto de curiosidade e resignação. Outro ponto positivo dessa narrativa é a sua velocidade. Ela se desenvolve muito velozmente. O livro não é longo e é possível lê-lo em uma tarde. Tudo acontece rapidamente por aqui. O estilo de escrita é direto e focado na ação. Não há enrolação ou componentes supérfluos. A linguagem é simples e clara. "E Não Sobrou Nenhum" é realmente um livro digno da fama alcançada. A história é muito interessante e o final é tipicamente Agatha Christie, ou seja, surpreendente. Só iremos saber o que aconteceu de fato quando percorrermos todas as linhas da publicação. É no último capítulo em que o mistério é finalmente desvendado. Curiosamente, sabemos do desfecho porque o(a) assassino(a) resolve nos contar. Ele(a) escreve uma carta, coloca-a em um garrafa e a joga ao mar. Afinal, este é um daqueles típicos assassinatos perfeitos, em que a polícia não consegue desvendar os fatos. O último livro da série do detetive Poirot foi publicado um mês antes da morte da escritora. Em dezembro de 1975, depois de ficar mais de três décadas trancado em um cofre, chega às livrarias "Cai o Pano". Nessa trama sabemos o desfecho da história de um dos mais importantes personagens da literatura mundial. Se eu acreditava que já tinha visto de tudo com o final de “O Assassinato de Roger Ackroyd”, agora sei que estava redondamente enganado. Agatha Christie consegue novamente surpreender com um final incrivelmente original. E o grande lance do desfecho da obra não está na morte de Poirot (algo que os fãs já previam que iria acontecer). A surpresa está na solução do último enigma do detetive belga e em como o assassino é, enfim, contido. Agatha Christie escreveu “Caiu o Pano” na metade da década de 1940. Já prevendo que um dia precisaria contar os últimos dias e o último caso do detetive Poirot, ela o fez antecipadamente. Assim, terminou essa história e a guardou no banco. A ordem era clara: esse livro só poderia ser publicado quando sua autora não tivesse mais condições de escrever. A assim aconteceu. Ela publicou mais algumas dezenas de livros em que o investigador belga é o protagonista até o ano de 1975. Percebendo que não conseguiria mais escrever, Agatha autorizou a publicação da última história de Poirot. “Caiu o Pano” chegou às livrarias do mundo todo no segundo semestre daquele ano. Em janeiro de 2016, Agatha Christie faleceu. Ou seja, essa foi a última obra da escritora inglesa lançada em vida. Não é errado afirmar que a autora e sua principal criatura/personagem morreram quase que ao mesmo tempo. Em “Caiu o Pano”, temos um Hercule Poirot já bem idoso, sofrendo de vários problemas de saúde. Sem conseguir se locomover (suas pernas já não lhe obedeciam), o detetive resolve se hospedar no hotel Styles, mansão que fora palco de sua primeira história, “O Misterioso Caso de Styles” (Nova Fronteira), publicado em 1920. Assim como no primeiro livro, o narrador é Arthur Hastings, amigo de Poirot. Agora viúvo e com filhos já crescidos (na obra de estreia, ele era um jovem solteiro), Hastings aceita o convite de Poirot e também se hospeda alguns dias na velha mansão Styles. Para surpresa de Hastings, a proposta de Poirot não é para ambos reviverem os “bons tempos” nem para tirarem um período de férias juntos. Logo de cara, o belga informa seu amigo que eles estão lá para solucionar um crime. O último da carreira do famoso detetive e, possivelmente, o mais complicado de todos. Esta obra foge um pouco do convencional de Agatha Christie e das histórias de Poirot. Ao invés de investigar um crime, trabalha-se para evitar um. Além disso, não estamos falando unicamente de um caso do presente e sim de vários episódios do passado distante entrelaçados em si. Ou seja, o quebra-cabeça é um pouco mais elaborado e complexo. E para dificultar ainda mais as coisas, Poirot apresenta sérias limitações físicas que comprometem seu trabalho, apesar de afirmar a todo instante que está bem e que está em condições de resolver qualquer caso. Logo no início de “Caiu o Pano”, somos remetidos a algumas passagens de “O Misterioso Caso de Styles”. Quem leu esta publicação irá se lembrar de alguns personagens e citações. Contudo, quem não leu o antigo livro poderá acompanhar tranquilamente essa “nova” história. O interessante desse recurso literário utilizado por Agatha Christie é que ela amarra a primeira e a "última" narrativa de Poirot, conferindo um ar de continuidade à carreira do investigador belga. Gostei muito desta trama. O ponto alto, como na maioria das histórias de Christie, está em seu desfecho. Novamente a escritora consegue surpreender o leitor de uma forma que ele suspira para si: “Nossa! Juro que não tinha imaginado isso!!!”. Diria que o encerramento dessa publicação é tão inovador quanto em “O Assassinato de Roger Ackroyd”. Pensei que era impossível Christie ser mais espetacular em um final do que ela tinha sido naquele livro. E ela conseguiu!!! Além de o assassino ser alguém inimaginável, alguns episódios são completamente extraordinários, jamais passando pela cabeça do leitor que fossem possíveis de acontecer. Como última história de Poirot, achei o livro perfeito. Ele consegue retratar a astúcia do detetive ao mesmo tempo em que consegue mostrar a passagem do tempo e os efeitos da idade. Além disso, há a inserção de um elemento moral/ético novo (e maravilhoso) nas histórias de Poirot que nos faz refletir. Obviamente não citarei qual é para não estragar a leitura de quem não o fez. Depois de “O Assassinato de Roger Ackroyd”, essa é minha obra favorita de Agatha Christie. Agora entendi porque sua autora deixou os originais dessa publicação guardados por três décadas no cofre de um banco. Trata-se de uma joia dos romances policiais modernos. Gostei muito de ter acompanhado a carreira e as obras de Agatha Christie durante o Desafio Literário de junho. Realmente ela foi uma mestre no desenvolvimento de tramas policiais, levando o suspense e o mistério das suas histórias ao ponto máximo. Vale a pena muito lê-la. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AgathaChristie #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Graciliano Ramos

    Conclui a leitura e a análise das cinco obras de Graciliano Ramos que havia me proposto no início do mês para o Desafio Literário do Blog Bonas Histórias: "Vidas Secas" (Record), "Caetés" (Record), “São Bernardo” (Martins), "Insônia" (José Olympio)" e "Memórias do Cárcere" (Record). Assim, me sinto agora mais preparado para emitir uma opinião sobre este escritor. Graciliano Ramos realmente foi um dos melhores escritores modernistas de nosso país. Suas obras estão situadas na segunda fase do Modernismo Brasileiro, também chamada de Regionalista. Coloco a qualidade de seus livros ao lado das de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha e José Lins do Rego. Nesse sentido, acredito que Ramos até seja pouco lido e pouco conhecido pela sua dimensão literária. Graciliano atuou como romancista, contista, cronista e memorialista, tendo se destacado mais no primeiro gênero. Apesar da sua obra mais conhecida ser “Vidas Secas”, não a considerei como sendo a melhor. Admito que fiquei apaixonado por “São Bernardo”, um dos melhores livros que li na vida, e fiquei positivamente admirado com “Caetés”. “Memórias do Cárcere" é uma obra densa e profunda, apesar de um pouco longa. É uma pena que ela tenha ficado inacabada. O único livro que não gostei foi “Insônia”. Os contos mórbidos e com ambiente pesado não me agradaram. Lamentei também não ter conseguido ler “Angústia”, para muitos o melhor livro do autor alagoano. As características de Graciliano Ramos que mais chamaram minha atenção foram: temática social, cuidado com o retrato psicológico das personagens, trama mais descritiva do que narrativa e o realismo dos cenários e das situações. A temática social fica evidente na escolha das personagens e do enredo das histórias. A vida levada pela família de Fabiano e Dona Vitória (em “Vidas Secas”), o jeito como o fazendeiro Paulo Honório trata os vizinhos e os funcionários (em “São Bernardo”), a dinâmica social em Palmeira dos Índios (em “Caetés”) e os relatos dos vários prisioneiros da ditadura varguista (em “Memórias do Cárcere”) evidenciam o aspecto político da literatura de Ramos. O autor parece sempre se posicionar com o intuito de dar voz aos oprimidos. Nesse sentido, ele se parece muito com Jorge Amado. É uma literatura mais esquerdista. O retrato psicológico das personagens também é muito apurado. É possível definir quem é Fabiano, Dona Vitória, Paulo Honório e João Valério, por exemplo, pelos seus anseios e pela forma como falam e se comportam. Ás vezes, parece que adentramos na mente desses personagens. Ao compreendermos suas angustias e privações, passamos a entender e aceitar seus atos. “Insônia” é essencialmente um thriller psicológico angustiante. De certa forma, o que lemos é sentido pelo nosso corpo. Poderia dizer que o escritor alagoano tem capacidade de provocar emoções e sensações sinestésica em seus leitores. Algo que me incomodou um pouco nos textos de Graciliano Ramos foi a tendência pela descrição. Na maioria das vezes, os acontecimentos são descritos e não narrados. Assim, a trama se torna lenta e um pouco enfadonha. “Vidas Secas” é um livro em que quase não acontece nada (pelo menos é essa a sensação ao fechá-lo). Em “Memórias do Cárcere”, temos a impressão que o mais importante é excluído da trama, ficando apenas a descrição dos colegas presidiários do escritor. Isso me incomodou um pouco durante a leitura. Um ponto positivo de Ramos é a forma como ele monta o cenário das histórias. Nos sentimos dentro daquele ambiente. O realismo é total. A impressão é que o autor viveu aquilo ou sabe com propriedade o que seus personagens estão vivendo e sentido. É raro encontrarmos um escritor que consiga transmitir tanto realismo nas páginas de suas publicações. Gostei muito de ter lido Graciliano Ramos agora em maio. A escolha do alagoano para fazer parte do Desafio Literário desse ano se mostrou acertada. O próximo autor que será analisado no Blog Bonas Histórias será a romancista policial inglesa Agatha Christie. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnáliseLiterária #GracilianoRamos

  • Análise Literária: Stephen King

    Neste mês, analisei cinco obras de Stephen King: "Carrie, a Estranha" (Suma de Letras), "O Iluminado" (Suma de Letras), "A Dança da Morte" (Suma de Letras), "À Espera de um Milagre" (Suma de Letras) e "Sob a Redoma" (Suma de Letras). Os posts com as análises de cada um desses livros podem ser acessados no Blog Bonas Histórias. Também deixei esses links aqui neste post para quem quiser se aprofundar nos estudos desse autor e destas cinco publicações. Sei que a necessidade de se escolher apenas cinco obras para esta análise acaba naturalmente deixando uma infinidade de grandes livros de King de fora. Os fãs do escritor que me desculpem. Saibam que eu também fico com o coração partido por não incluir nesta lista "It - A Coisa" (Suma de Letras), "Christine" (Suma de Letras) e, principalmente, a série "Torre Negra" (Suma de Letras). Quem sabe eu não opte, em outro momento, por deixar a "Torre Negra" como escopo de um estudo à parte. Afinal, os oito livros desta série merecem um mês de análise só para eles. Admito, também, que falar de Stephen King é especial para mim. Desde a minha adolescência, ele é meu escritor favorito. Eu e minha irmã não perdíamos nenhuma de suas publicações nem os lançamentos de suas histórias no cinema. Lembro-me da empolgação em minha casa quando descobríamos algo novo sobre o autor e suas tramas misteriosas. Por isso, antes de iniciar este Desafio Literário, eu já havia lido, em algum momento da minha vida, todos os livros que aqui estamos discutindo. Esta, portanto, é a grande diferença desta versão do Desafio Literário de outubro. Enquanto nas outras edições eu precisei ler a maioria das obras dos escritores analisados, dessa vez meu trabalho foi de rememorar as histórias e suas características. Esse trabalho me foi facilitado, reconheço, porque Stephen King é tema de um curso que ministro regularmente na The Open Mind School, escola de cursos livres que aborda temas como Cultura e Literatura. Chega de lenga-lenga e vamos para o que realmente interessa: a análise literária! Considerado um dos principais escritores de horror fantástico de sua geração, Stephen King é aclamado pelo público e se tornou um dos autores mais populares da atualidade. Seus livros atingiram a incrível marca de 350 milhões unidades vendidas no mundo todo. Muitas de suas histórias foram depois adaptadas ao cinema, transformando-se em blockbusters e em importantes ícones da cultura popular. Atualmente com 68 anos, Stephen é casado com a também escritora Tabitha Spruce. Ambos possuem três filhos e moram em Maine, nos Estados Unidos. Multimilionário, o escritor passou nas últimas décadas por sérios problemas pessoais. Ele foi internado em uma clínica de reabilitação para curar seu antigo vicio pela bebida e pelas drogas. O autor também foi vítima de um atropelamento que quase abreviou sua vida. Stephen nasceu em 1947, na cidade de Portland, Maine. Seu pai abandonou a família quando o menino tinha apenas dois anos de idade. Assim, o pequeno Stephen e o irmão mais velho e adotivo, David, ficaram sob os cuidados apenas da mãe. A matriarca precisou se virar para criar os dois garotos. Eles se mudaram várias vezes de cidade e passaram por algumas privações. Na infância, o principal acontecimento do menino Stephen foi ter presenciado um acidente de trem com um amigo seu. O fatídico episódio que matou o amiguinho pode ter influenciado o lado negro e fantasmagórico do escritor (algo negado pelo próprio autor em suas entrevistas). Na pré-adolescência, após pegar uma doença que o obrigou a ficar alguns meses de cama, Stephen King se tornou um leitor voraz. Preso no leito (e mesmo depois de curado), ele lia todo tipo de narrativa. Sua preferência, obviamente, estava nas histórias de terror dos quadrinhos EC Comics, importante editora deste gênero. Ele também gostava de ver filmes de horror no cinema e na televisão. Desde cedo, o garoto, com a ajuda do irmão David, escrevia histórias fantástica. A dupla chegou a vender algumas destas tramas escritas por Stephen na escola para os coleguinhas. Aflorava aí o lado escritor do rapaz tímido e introspectivo. Stephen King se formou em Inglês na Universidade do Maine. Foi durante seu curso universitário que o escritor conheceu sua futura esposa, Tabitha. O amor pela literatura uniu o jovem casal. Quando ainda estavam na universidade, Tabitha engravidou. Stephen não pensou duas vezes e se casou com a moça imediatamente. Para sustentar a família, King dava aulas de inglês em escolas locais e trabalhava em uma lavanderia. Ele também vendia contos de terror para revistas masculinas, o que ajudava no orçamento familiar. Até então, o autor jamais havia pensado em escrever romances. Para ele, este tipo de gênero dava muito trabalho e não era tão lucrativo como as narrativas curtas. Por insistência de Tabitha, que pegou a parte inicial de "Carrie, a Estranha" literalmente da lata de lixo e obrigou o marido a prosseguir na história, Stephen finalizou seu primeiro romance. Publicado em 1974, rapidamente a trama da menina que tinha poderes telecinéticos (de movimentar objetivos através da mente) caiu no gosto popular, se transformando em sucesso editorial. Dois anos mais tarde, Brian de Palma adaptou "Carrie, a Estranha" para sua primeira versão cinematográfica (depois viram outras). O novo sucesso, desta vez, nas telas, aumentou ainda mais a visibilidade do jovem Stephen King. Diferente do que a crítica literária aponta, não considero "Carrie, a Estranha" como sendo um livro de terror. Vejo-o mais como sendo uma obra de suspense. Como a personagem principal e heroína Carrie é quem possui dons excepcionais, não podemos considerar que ela vá fazer o mal (apesar de aprontar muitas destruições e mortes). Por isso, não há terror e sim suspense durante a narrativa. Se fossem as vilãs (neste caso, a mãe de Carrie e a colega da menina na escola, Chris Hargensen) que tivessem os poderes telecinéticos, aí sim seria um livro de terror. O livro seguinte, "O Iluminado", representou novo sucesso editorial e nova adaptação para o cinema, desta vez pelas mãos de Stanley Kubrick. A história narra os destemperos emocionais de Jack Torrance, que é enviado com sua família para cuidar de um hotel abandonado durante o período de inverno nas gélidas montanhas do Colorado. Esta sim é uma obra de terror. O hotel, por si só, é o ambiente ideal para os acontecimentos sobrenaturais e fantasmagóricos relatados na trama. Jack Torrance também se torna, em determinado momento da narrativa, o grande vilão, disposto a matar a esposa e o filho pequeno. Sem ninguém para recorrer, Wendy (a esposa) e Danny (o filhinho) precisam encarar os fantasma do passado do hotel e a insanidade de Jack para sobreviverem. É ou não é uma bela história de terror, hein? Claro que é! O "Iluminado" é um livro mais bem acabado do que "Carrie, a Estranha". Mesmo assim, ele não foge do estilo popular que caracterizou seu autor ao longo dos anos. A linguagem continua sendo direta e simples. King é adapto da objetividade e não faz rodeios para contar a história. Ele se utiliza de recursos convencionais e sua literatura não é das mais requintadas. O seu grande mérito é criar um clima de suspense que prende o leitor nas páginas do livro. Seus personagens também são muito bem construídos, exalando complexidade e alguma dubiedade. O melhor exemplo é Jack Torrance. Ao mesmo tempo em que ele é o vilão (e por isso não torcemos para ele em alguns momentos), Jack age de forma maléfica por causa dos espíritos maus que habitam o hotel (portanto, o zelador não tem culpa e, assim, acabamos torcendo por ele para vencer os fantasmas que o influenciam negativamente). É possível perceber muitas semelhanças entre esta e a obra anterior do escritor: o personagem principal é uma criança (ou adolescente, no caso de Carrie) com poderes psíquicos; um dos pais (sempre um louco) é o causador dos problemas do filho (no caso de Carrie, era a mãe a causadora dos problemas); as habilidades incomuns do personagem principal são encaradas como um fardo e não uma dádiva; e o ambiente no qual a criança está é perigoso e agressivo (o hotel para Danny e a escola para Carrie). Se formos analisar, a estrutura das duas obras é muito parecida. A base das histórias e a estrutura narrativa é a mesma. Ainda na década de 1970, Stephen King publicou "A Dança da Morte". Aclamado por muitos como sendo a melhor obra deste escritor e considerado pelo próprio autor como seu livro favorito, "A Dança da Morte" é um envolvente romance pós-apocalíptico. A história se passa nos Estados Unidos e descreve um mundo devastado por uma misteriosa praga que exterminou 99,9% da população do planeta. O que impressiona logo de cara neste livro é o seu tamanho. São mais de mil e duzentas páginas. Li esta romance no meio do ano passado. Demorei quase um mês para concluí-lo. Aproveitei minhas viagens de ônibus por Minas Gerais para percorrer as intermináveis páginas desta publicação. O lançamento original de "A Dança da Morte" foi no ano de 1978, logo após a publicação de "O Iluminado". Curiosamente, a editora norte-americana responsável pela edição obrigou, naquela época, Stephen King a cortar mais da metade do livro. "A Dança da Morte" precisava ficar em um tamanho mais condizente com o padrão editorial em voga. Afinal, quem seria o louco de comprar um livro com tantas páginas?! Foi com muito pesar que o escritor retirou mais de 150 mil palavras daquela versão. Apenas em 1990, King, agora um dos escritores de maior sucesso mundial e com poder para impor algumas exigências à editora, pode finalmente lançar a história exatamente como pretendia (ou seja, gigantesca). A edição ampliada ganhou as 500 páginas que foram inicialmente suprimidas e mais algumas centenas que seu autor acrescentou na revisão. O livro ficou "mais completo" segundo a definição do seu autor. Realmente, Stephen King estava certo. A nova versão ficou incrível! Quem tiver fôlego para este tipo de leitura, vale muito a pena. Em minha opinião, esta é a melhor história do norte-americano. "A Dança da Morte" não é um romance convencional. Ela é na verdade uma saga. A quantidade de personagens é absurda. O tempo inteiro está acontecendo alguma coisa com alguém. As histórias paralelas são tão interessantes quanto a trama principal. A narrativa do livro vai crescendo e melhorando à medida que a história vai ficando clara para o leitor (no começo é uma confusão dos diabos!). O que diferencia "A Dança da Morte" das obras precedentes é o seu aspecto político e sua análise social. À medida que as pessoas do planeta vão morrendo (uma gripe é a causadora da hecatombe), o governo até então constituído vai perdendo força até desaparecer por completo. A saúde, a segurança e a educação públicas, as leis, a ordem e a civilidade desaparecem. Roubos, estupros e assassinatos passam a vigorar em uma terra sem ordem. Praticamente assistimos as teorias sociais de Thomas Hobbes se materializarem diante dos nossos olhos. A humanidade, de certa forma, regride ao seu Estado Natural. Aí está a graça do livro. Com os sucessos destes três romances, Stephen King se transformou, no final da década de 1970, em um dos mais populares escritores norte-americanos da sua geração e um dos principais do gênero de terror de todos os tempos. Por mais que tentasse desvincular do rótulo de "Mestre do Terror" nos anos seguintes, ele jamais conseguiu. Para o público leitor, King sempre será o escritor de histórias fantásticas e ponto final. King é um escritor prolífico. Ao longo de seus 40 anos de carreira, ele escreveu aproximadamente 80 livros. Ou seja, são aproximadamente dois por ano, uma marca realmente incrível. Na década seguinte, vieram "Christine" e "It - A Coisa". Nos anos de 1990, os destaques ficaram por conta de "À Espera de Um Milagre", "Jogo Perigoso", "Eclipse Total" e "Saco de Ossos". "À Espera de Um Milagre" é o meu livro favorito de King. Diferentemente da maioria das suas obras, nesta Stephen procurou emocionar o leitor sem apelar ao terror e às cenas de mortes, violência, destruição e sangue. Este romance, que nada tem de horror, possui forte carga de suspense e comove com um belo drama existencial. O enredo é sobre um homem que adquire um dom sobrenatural que ao mesmo tempo em que traz benefícios também traz sérios problemas. É nesta história que podemos conferir todo o talento do escritor. Ambientada na década de 1930, "À Espera de Um Milagre" também pode ser classificado como um romance de época. Além de a história ser muito boa, os personagens são riquíssimos e muitíssimo bem construídos. A forma de escrita da obra também merece destaque. Ela parece mais bem trabalhada do que normamente encontramos em outros livros do autor. Com um pouco de esforço, há quem encontre uma beleza poética nesta trama. Além disso, temos um elemento totalmente novo aqui: as lágrimas. Sim! Stephen King é capaz de fazer seu leitor chorar. Por mais que a história também tenha a magia, o sobrenatural e a fantasia, marcas do autor, há também uma forte carga dramática que emociona verdadeiramente o público. Assim, aqueles possuidores de almas mais sensíveis preparem os lenços de papel porque a chance das lágrimas brotarem é grande. Nos anos 2000, o escritor concluiu, com o lançamento de quatro dos oito livros, a série "Torre Negra". A coleção foi iniciada em 1982 com o livro "O Pistoleiro". É desse período também "Sob a Redoma", um grande romance de ficção científica ao estilo de "A Dança da Morte", mas com um viés ecológico. Sua história se passa na pequena cidade norte-americana de Chester, que de repente se vê isolada do mundo por causa do aparecimento de uma redoma gigante e transparente. A primeira questão que surge nesse livro é o debate é ecológico. "Sob a Redoma" é uma manifestação direta de Stephen King para o tema da sustentabilidade e da importância dos cuidados com o nosso planeta. O mais legal é que esta reflexão sobre a sustentabilidade e o aquecimento do nosso planeta é sutil e pouco ideológica. Ela está inserida no meio da trama sem nenhuma ênfase a este tema. Não há, portanto, uma crítica direta ou qualquer debate enfadonho. Outra questão que permeia toda a história é a briga política e as intrigas entre os habitantes da pequena cidade. Mesmo nos momentos mais críticos, quando era natural se imaginar o apoio de todos às ações coletivas e a integração das pessoas para o bem comum, o que prevalece é o individualismo e a mesquinharia. Ou seja, trata-se de uma contundente crítica aos nossos valores sociais. Além de romances, King também escreveu livros de não ficção (cinco) e de contos (onze). Também criou um pseudônimo (Richard Bachman) para uma nova leva de histórias. Depois de tentar desvincular-se do pseudônimo por alguns anos, o escritor admitiu sua autoria depois que as suspeitas que era ele por trás de Bachman aumentaram. Além do portfólio de obras extenso e de grande impacto popular e da vendagem absurda na casa das centenas de milhões de unidades, o grande feito de Stephen King talvez seja o número impressionante de adaptações das suas histórias para o cinema. Acredito que não haja um escritor vivo ou morto com mais livros adaptados à sétima arte. Em uma conta rápida, eu calculei mais de cinquenta filmes produzidos. Nesta matemática, acabei excluindo as séries e os programas televisivos. São ou não são números incríveis? A primeira característica de Stephen King que me vem à mente vai contra o seu apelido de "Mestre do Terror". Não o considero um escritor do gênero de horror e sim um autor de suspense. Das cinco obras lidas, apenas "O Iluminado" eu classificaria como sendo uma história de terror. As demais, ou são enredos de suspense ("Carrie, a Estranha", "Dança da Morte" e "Sob a Redoma") ou dramas ("À Espera de Um Milagre"). Talvez este apelido e esta característica (ser um autor do gênero de terror) tenham acompanhado por tantos anos o escritor por causa do final de suas histórias. E como é um típico encerramento de uma trama de Stephen King? Ele envolve necessariamente uma catástrofe de proporções bíblicas. Há, portanto, várias mortes, explosões, destruição e sangue para todo o lado. Praticamente não sobra (quase) nada e (quase) ninguém para contar a história. Não é raro sobrarem só um ou dois personagens vivos no final. O encerramento também tem um aspecto catártico, com os personagens liberando seus sentimentos e suas emoções de maneira escancarada. King também não faz nenhum tipo de concessão em seus finais. Eles não seguem, geralmente, o final feliz hollywoodiano, com tudo dando certo e cada um vivendo "feliz para sempre". Por isto, não se surpreenda com o que pode acontecer. Tudo pode acontecer! E normalmente, o final é trágico. O escritor é chegadinho em uma tragédia espetacular. Outra característica marcante é a linguagem simples e direta utilizada pelo escritor. King escreve de maneira clara e objetiva, não fazendo rodeios para contar suas histórias. Ele se vale de recursos convencionais e sua literatura não é das mais requintadas. Às vezes, temos a sensação que o texto é de baixa qualidade. O excesso de coloquialismo e a escolha de expressões populares reforçam essa sensação. Stephen King é muito associado a livros volumosos. O autor gosta de escrever e escreve bastante. Não é incomum encontrarmos obras com mais de mil páginas. Por isso, tenha fôlego para encarar qualquer um dos seus livros. Se você encontrar uma publicação com "apenas" 300 ou 400 páginas, fique feliz: você irá ler um Stephen King econômico nas palavras. O grande mérito de Stephen King, a meu ver, está em criar histórias envolventes e interessantes, em um clima de suspense e de mistério que prende o leitor. Sua narrativa é bem dinâmica. Sempre está acontecendo alguma coisa diferente com alguém. Há geralmente ótimas cenas e personagens marcantes. Seus protagonistas são muito bem construídos, exalando certa complexidade psicológica e alguns poderes especiais. O lado negativo é que os personagens quase não possuem dubiedade. Ou eles são bonzinhos ou são vilões. Desde o início já sabemos qual o papel deles na trama. Definitivamente, os diálogos não são o forte deste autor. King acaba priorizando as descrições aos debates. Os acontecimentos sobrenaturais e, por vezes, fantasmagóricos estão presentes em quase todas as tramas. A magia, o sobrenatural e a fantasia são elementos indispensáveis nas histórias de Stephen King. Esses elementos podem conferir, às vezes, certa infantilidade às tramas. O principal ponto negativo das obras do norte-americano está relacionado ao maniqueísmo acentuado. As histórias, normalmente, se resumem à disputa entre o bem contra o mal. Geralmente, temos dois grupos antagônicos disputando o poder. Um é formado pelos vilões e o outro pelos mocinhos e mocinhas (os bonzinhos). Esta dicotomia, de tão evidente e manjada, acaba tornando as tramas um pouco previsíveis e um tanto óbvias. É claro que sabemos de antemão para qual lado vamos torcer, expondo os clichês desta alternativa. Stephen King é daqueles escritores que ou você ama ou odeia. Não existe meio termo. Eu faço parte do primeiro grupo e por isso sou suspeito em afirmar qualquer coisa a respeito dele. E você, faz parte de qual grupo? Gostou desta análise literária? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário. Para conhecer as análises de outros autores, clique em Desafio Literário. Se você aprovou o conteúdo do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnáliseLiterária #StephenKing

  • Análise Literária: Ignácio de Loyola Brandão

    O Desafio Literário deste mês foi ler e analisar as obras de Ignácio de Loyola Brandão. As matérias-primas para este estudo foram os livros: "Não Verás País Nenhum" (Global), "Zero" (Global), "O Menino que Vendia Palavras" (Objetiva), "Melhores Crônicas de Ignácio de Loyola Brandão" (Global) e "Melhores Contos de Ignácio de Loyola Brandão" (Global). Loyola Brandão nasceu em 31 de julho de 1936, em Araraquara, no interior de São Paulo. Por causa da data de nascimento, dia de Santo Ignácio de Loyola, recebeu o nome do santo. Depois de trabalhar na adolescência como crítico de cinema e jornalista em pequenos periódicos da sua cidade natal, Ignácio se mudou para São Paulo, em 1957. A ideia era prosseguir na carreira de jornalista. E foi o que fez. Trabalhou nos jornais "Última Hora" e no "O Estado de São Paulo", em revistas da editora Abril - "Cláudia", "Setenta" e "Realidade" - e em revistas da editora Três - "Planeta", "Ciência e Vida", "Status", "Vogue", "Homem Vogue" e "Lui". A partir de 1965, Ignácio de Loyola Brandão passou a publicar livros. Estava inaugurada a carreira de escritor, seguida concomitantemente a de jornalista. Como escritor, ele se caracterizou como um autor eclético. Escreveu contos, romances, crônicas, obras infantis, bibliografias, livros especiais com a história de algumas empresas e livros de viagens e de esportes. Até peças de teatro e roteiros de cinema chegou a produzir. São ao todo mais de 40 livros editados. Com um estilo próprio, alinhando sarcasmo, preocupação ambiental, críticas sociais, inovações estéticas e linguagem coloquial, o paulista marcou época, principalmente na ficção. Os prêmios recebidos foram variados. Em 1968, o escritor recebeu o Prêmio Especial do I Concurso Nacional de Contos do Paraná por "Pega Ele, Silêncio" (Global) e o Prêmio Governador do Estado pelo roteiro do filme "Bebel que a Cidade Comeu". Em 1976, o romance "Zero" recebeu o prêmio de "Melhor Ficção", concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal. A Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) concedeu ao romance "O Ganhador" (Global), de 1987, o título de melhor livro daquele ano. "Não Verás País Nenhum" recebeu o Prêmio Instituto Ítalo-latino-americano como o melhor livro latino-americano publicado na Itália no biênio 1983-1984. Em 1997, "Veia Bailarina" (Global) ganhou o Prêmio da APCA como melhor livro do ano e, em 1999, "O Homem que Odiava a Segunda-Feira" (Global) conquistou o Jabuti como o melhor livro de contos. No finalzinho de 2000, "Zero" foi eleito pelo jornal "O Globo" e pela revista "Manchete" como um dos 100 melhores romances brasileiros do século passado. Em 2008, foi a vez das premiações incluírem o gênero infantil. "O Menino que Vendia Palavras", lançado naquele ano, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção e o Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, como melhor livro infantojuvenil. O maior sucesso editorial de Loyola Brandão foi "Não Verás País Nenhum". Sua vendagem alcançou a casa dos 600 mil exemplares. O romance teve traduções para o inglês, o italiano, o alemão e o norueguês. "Não Verás País Nenhum" é um livro espetacular. Além de divertido, ele consegue ainda ser muito atual. Afinal, estamos falando da destruição da floresta Amazônica (a cada dia ela fica menor), os efeitos do clima em nossa vida (o superaquecimento planetário não para), a falta de chuva e de água (principalmente em São Paulo, que passa por uma crise hídrica sem precedentes), os conflitos sociais e regionais (as últimas eleições provaram o quanto ainda há embates políticos entre as diferentes regiões do país) e a violência policial em nossa sociedade (não mais aplicada pelos militares, mas pelas forças de segurança pública). Se considerarmos o número de exemplares vendidos, na segunda posição do ranking particular de Ignácio de Loyola Brandão aparece "Zero". Foram comercializadas aproximadamente 300 mil unidades deste título. Além da versão em português, ele teve traduções para o inglês, o italiano, o alemão, o francês e o coreano "Zero" é um livro único e extremamente inovador. Com humor ácido, notas de rodapé corrosivas, uma violência descomunal e a linguagem coloquial, ele conseguiu marcar história no mercado editorial brasileiro. Apesar dos prêmios conquistados, o governo militar brasileiro censurou a obra por alguns anos. Sua proibição, é claro, atiçou a curiosidade do público leitor. Muitos críticos consideram essa a melhor obra da carreira de Loyola Brandão. Em seguida, no critério de vendas, surgem "Verde Violentou o Muro" (Global) e "Manifesto Verde" (Global). O primeiro vendeu 260 mil e o segundo 200 mil livros. Ou seja, estamos falando de um escritor brasileiro com mais de 2 milhões de livros vendidos durante sua carreira. Trata-se de um grande feito, principalmente pela literatura de Ignácio de Loyola Brandão jamais ter se curvado aos apelos populares e à escrita fácil das massas. Os romances de Loyola Brandão, principalmente "Zero" e "Não Verás País Nenhum", misturam ativismo ecológico com críticas político-sociais. A destruição do meio ambiente é denunciada pelo autor, assim como as mazelas sociais e as falcatruas e os descasos dos políticos nacionais. Os grandes responsáveis pela degradação ambiental, econômica e social que o país viveu nas décadas de 1960, 1970 e 1980 (e ainda vive) são os políticos, culpados por depredar o patrimônio nacional em benefício próprio. A população brasileira também foi, de certa forma, culpada pelos acontecimentos, por ser passiva e leniente aos desmandos das autoridades. Com um humor pesado, recheado de ironias ácidas e com uma atmosfera sufocante, as obras de Ignácio de Loyola Brandão são pautadas com várias discussões reflexivas. Ora são os diálogos travados pelos personagens que enriquecem o debate com temas polêmicos, ora são os pensamentos e as divagações dos personagens principais, que tentam entender o que está acontecendo a sua volta. A grande ousadia estética do escritor surge em "Zero" Ao lê-la, me senti em uma música da Tropicália. Ou em um videoclipe da MTV. Ou mesmo no meio do filme "Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância" (Birdman: 2015). Afinal, as coisas vão acontecendo no livro sem uma lógica pré-definida. Sua história é contada por meio de fragmentos, textos desconexos e imagens atiradas aos olhos do leitor perplexo. A narrativa é ao mesmo tempo caótica e muito engraçada. Este é realmente o livro mais inquietante e inovador do paulista. A violência, o pessimismo, a sátira, o grotesco e a desconexão estética e conceitual dão o tom na maioria dos romances. Como pano de fundo, temos a repressão (da Ditadura Militar) e o desejo de liberdade (política e de expressão, tão presentes nas décadas de 1970 e 1980). O tom dos livros é ácido, cheio de explicações corrosivas por parte do autor. A linguagem é popular, com grande oralidade e (propositadamente) um tanto desbocada. Não há pudor em descrever cenas de sexo, violência ou as deformações físicas das personagens. O estilo jornalístico das narrativas aparece não apenas nos romances, mas também nos contos e nas crônicas. Apesar de não ter obtido tamanho sucesso com seus contos quanto teve com os romances, o escritor natural de Araraquara acabou escrevendo mais livros deste tipo de gênero do que propriamente romances. A primeira obra dele foi justamente um livro de contos: "Depois do Sol" (Global), publicado em 1965. Depois vieram mais seis obras do gênero: "Cadeiras Proibidas" (Global), de 1976, "Pega Ele, Silêncio" (Global), de 1976, "Obscenidades para uma Dona de Casa" (Global), de 1981, "Cabeças de Segunda-feira" (Global), de 1983, "O Homem do Furo da Mão" (Global), de 1987, e "O Homem que Odiava Segunda-feira" (Global), de 1987. Como contista, Loyola Brandão mantém as características já constatadas nos romances: linguagem coloquial, estilo jornalístico, humor ácido e histórias com certo devaneio narrativo. A maioria dos contos tem tramas em primeira pessoa, geralmente com um homem expondo seu ponto de vista sobre um acontecimento inusitado. O tom das histórias mistura o sobrenatural com a denúncia social. Esse estilo pode ser evidenciado na coletânea “Melhores Contos de Ignácio de Loyola Brandão”. A obra reúne pequenas narrativas publicadas originalmente pelo autor entre 1976 e 1987. As histórias do livro foram selecionadas por Deonísio da Silva, importante crítico literário brasileiro. As histórias infantis, por sua vez, são leves e envolventes. Com muitas ilustrações e pouquíssimas páginas (uma característica deste gênero como um todo e não da literatura deste autor específico), estes livros agradam em cheio a criançada. As obras apresentam a importância da leitura para a meninada, da proteção do meio ambiente e das relações humanas. Ou seja, é em parte a mesma temática dos livros adultos, porém, adaptados para a linguagem infantil. Muitas vezes, Loyola Brandão utiliza-se de fatos verídicos para elaborar essas tramas infantojuvenis. Situações pessoais vivenciadas pelo escritor em sua infância servem de mote para a criação ficcional. Um bom exemplo disso é “O Menino que Vendia Palavras”. Este livro é maravilhoso! As crônicas abordam assuntos do dia a dia do escritor: o cotidiano em uma grande cidade como São Paulo, as lembranças do passado vivenciado no interior, em Araraquara, as pessoas curiosas que o escritor conheceu ao longo da vida, as relações com amigos e familiares e as análises culturais. A coluna assinada semanalmente no jornal "O Estado de São Paulo" por mais de uma década foi a responsável por abastecer a literatura de Loyola Brandão com textos deste tipo de gênero narrativo. Boa parte delas é apresentada no livro "Melhores Crônicas de Ignácio de Loyola Brandão". A coletânea organizada por Cecília Almeida Salles, professora de Comunicação e Semiótica da PUC, reúne 111 crônicas publicadas por Loyola Brandão entre 1993 e 2004 no jornal paulista. Ignácio de Loyola Brandão é, sem dúvida nenhuma, um dos principais escritores brasileiros da atualidade. Não ficarei surpreso se nos próximos anos ele for agraciado com o Prêmio Camões, o mais importante da Língua Portuguesa. Acho que ele e sua obra estão à altura do legado de Alberto da Costa e Silva, Dalton Trevisan, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro e Lygia Fagundes Telles, autores nacionais que receberam tal premiação nos últimos anos. É interessante notar que próximo de completar 80 anos de idade, Loyola Brandão se mantém ativo e publicando novidades. Ele aparece com regularidade em eventos do mercado editorial e na mídia. É muito bom ver alguém que é apaixonado pela literatura se dedicando com tanto prazer e afinco aos seus livros. Admito ter adorado o Desafio Literário de agosto. Com a análise do estilo narrativo, a discussão das principais obras e a apresentação do panorama geral da carreira de Ignácio de Loyola Brandão, acredito ter cumprido a missão que me impus neste mês no Blog Bonas Histórias. Em setembro, a proposta é analisar outro escritor, dessa vez estrangeiro. O alvo do estudo do Desafio Literário será Harlan Coben, best-seller norte-americano especializado em thrillers. Não perca as próximas análises literárias do Bonas Histórias. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #IgnáciodeLoyolaBrandão #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Jorge Amado

    Jorge Amado, o autor analisado neste mês no Desafio Literário do Blog Bonas Histórias, é um dos escritores mais conceituados do país, tanto nacional quanto internacionalmente. A sua literatura possui marcas próprias, caracterizando seu autor como um dos mais influentes propagadores da cultura brasileira no mundo. Da primeira obra publicada em 1931, "O País do Carnaval" (Companhia das Letras) à última, em 2008, "A Hora da Guerra" (Companhia das Letras), livro póstumo de crônicas, o portfólio do artista conta com quase 50 livros. Em sua fase mais prolífica, Amado praticamente escreveu um livro por ano. Além da grande quantidade de obras, a carreira deste escritor ficou marcada pela qualidade das suas publicações. O baiano foi o responsável pela criação de alguns clássicos da literatura nacional. "Gabriela, Cravo e Canela" (Companhia das Letras), "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (Companhia das Letras) e "Tieta do Agreste" (Companhia das Letras) permanecem até hoje no imaginário popular. "Capitães da Areia" (Companhia das Letras) é um manifesto em defesa dos menores abandonados e uma excelente crítica social. O mesmo se aplica a "Tenda dos Milagres" (Companhia das Letras), uma ode ao fim do preconceito racial e uma apologia à miscigenação. "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" (Companhia das Letras), por sua vez, é uma novela cômica e inovadora. Não se pode esquecer da força narrativa e da dramaticidade de "Teresa Batista Cansada de Guerra" (Companhia das Letras). As forças destas histórias e de suas personagens permitiram que as obras de Amado ganhassem, ao longo do tempo, novos formatos, além das páginas impressas. Elas se transformaram em minisséries televisivas, em produções cinematográficas e em peças teatrais. Essas expansões das narrativas, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, ajudaram a popularizar ainda mais seu autor e suas tramas. Vale destacar que Jorge Amado é o segundo escritor brasileiro mais vendido no exterior em toda a história. Ele só foi superado recentemente por Paulo Coelho no topo desta lista. Contudo, ele permanece sendo considerado o autor brasileiro mais famoso de todos os tempos lá fora. Suas obras foram traduzidas para 80 países, em 49 idiomas, e ele recebeu uma infinidade de prêmios. O título mais importante veio em 1994, o Prêmio Camões, o principal da Língua Portuguesa. Em 2001, após sucessivas internações decorrentes de problemas de saúde, Amado morreu alguns dias antes de completar 89 anos. A carreira de Jorge Amado pode ser classificada em duas fases distintas. Na primeira, de 1931 a 1954, o escritor optou por romances com temática mais social, criticando a exploração do povo ("Cacau" de 1933), denunciando a luta de classes ("Suor" de 1934), discutindo o preconceito racial ("Jubiabá" de 1935), apontando o abandono e a marginalização das crianças de rua ("Capitães de Areia" de 1937) e denunciando a luta contra a fome por parte dos sertanejos ("Seara Vermelha" de 1946). É verdade que depois deste período, o escritor também lançou algumas histórias com este apelo, como "Tereza Batista Cansada de Guerra" de 1972 (exploração sexual da mulher) e "Tenda dos Milagres" (preconceito racial e imposição cultural). Porém, o foco maior na denúncia social ficou mesmo nesta primeira parte da sua carreira. Desta fase, podemos destacar "Capitães da Areia" e "Tenda dos Milagres". O primeiro foi o maior sucesso editorial do escritor (vendagem de 5 milhões de cópias em todo o mundo), tendo sido também o livro que mais trouxe problemas para seu autor. A obra foi considerada, na época do seu lançamento, um manifesto comunista, teve exemplares queimados em praça pública e foi proibida pelo governo. Por causa desta publicação, Jorge foi preso pela Ditadura Vargas pela primeira vez. A história de "Capitães da Areia" é sobre os meninos pobres e abandonados que viviam nas ruas de Salvador. "Tenda dos Milagres", por sua vez, é sobre um mulato simples e pobre da capital baiana que escreveu livros enaltecendo o poder da miscigenação e a força de caráter dos negros. Ele tornou-se um intelectual respeitado internacionalmente depois da sua morte. A partir do lançamento de "Gabriela, Cravo e Canela", em 1958, a literatura de Amado se transforma. Entramos, assim, na segunda fase da carreira do escritor. Ele abandona a crítica social (pelo menos ela deixa de figurar como o ponto principal das tramas, sendo colocada em um segundo plano) e passa a descrever as crônicas de costumes da época. Ele aborda mais intensamente os tipos populares, os coronéis, as mulheres sensuais, as damas conservadoras, os homens libertinos, os artistas, os empresários, os jovens, os idosos e as crianças das classes sociais mais desfavorecidas. O foco recai nas pessoas e nos tipos mais simples da Bahia, seu ponto de referência. Jorge Amado confronta os valores éticos e culturais do seu povo, narrando seus hábitos, seus costumes, sua cultura e seus ideais. São exemplos desta nova etapa, além de "Gabriela, Cravo e Canela", "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Tieta do Agreste". Podemos colocar também "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" nesta categoria. É essa segunda fase do artista a que mais se popularizou na mente do público leitor. "Gabriela, Cravo e Canela" é o meu livro favorito de Jorge Amado e acredito que seja também a história predileta de muita gente. Talvez "Dona Flor e Seus Dois Maridos" consiga rivalizar, em popularidade e em preferência, com a trama de Gabriela. O mais interessante desse primeiro livro da nova fase é que ele consegue abordar ao mesmo tempo acontecimentos gerais da cidade de Ilhéus (onde a história se passa) e da política local (confronto entre o Coronel Ramiro Bastos e Mundinho Falcão) e o impacto desses fatos na vida das pessoas comuns (principalmente de Nacib e da sua cozinheira sertaneja). "Dona Flor e Seus Dois Maridos", apesar de possuir muitas características parecidas com a obra anterior, foca mais na vida da professora de culinária Florípedes e no dilema moral de possuir dois esposos (um vivo e outro finado, mas ainda presente). "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" é uma novela divertidíssima na qual se narra as "duas mortes" de um ex-funcionário público que abandonou a vida regrada para viver da malandragem e da vadiagem pelas ruas da capital da Bahia. A grande sacada desta história está na inovação no formato, dando voz e "vida" para alguém falecido. A primeira grande característica que podemos ressaltar de Jorge Amado é sua alta dose de sinestesia. Ao ler suas páginas, praticamente temos todos os nossos sentidos aguçados. O olfato é estimulado ora pelo cheiro expelido pelas cidades (Ilhéus, por exemplo, tem o perfume do cacau, fruto plantado em grande escala na região) e ora pelos corpos das mulheres (o perfume natural das mulatas é um importante afrodisíaco para os homens). O paladar é estimulado pela culinária. As personagens principais de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Gabriela, Cravo e Canela" são exímias cozinheiras. Em todos os livros, os pratos típicos e a culinária baiana são retratados com destaque. A visão, outro sentido muito explorado na narrativa, está intimamente ligada à sexualidade das mulheres (principalmente das mulatas) e à pluralidade cultural dos locais retratados (a Tenda dos Milagres, por exemplo, é descrita como um cenário idílico da cultura popular baiana; com os relatos de Salvador, é possível visualizar as ruas da capital baiana, com suas comidas, suas práticas religiosas, os hábitos dos seus habitantes e as intrigas sociais estabelecidas). O tato, por sua vez, aparece mais evidentemente nas relações carnais dos personagens (Vadinho e Gabriela são extremamente táteis). E este aspecto não é exclusivo dos amantes (Nacib & Gabriela e Vadinho & Flor), mas também dos amigos (os meninos de "Capitães da Areia" estão sempre se tocando). E, por fim, a audição é aflorada no linguajar do povo e pelas músicas populares, que são retratadas em quase todos os livros. A segunda característica importante do escritor baiano é a alta dose de sensualidade e sexualidade de seus personagens. Cada livro possui pelo menos um personagem com alta dosagem de erotismo (Gabriela, Vadinho, Archanjo, Gato e Quincas Berro D'Água). A castidade e o puritanismo da menina Dora, em "Capitães da Areia", é uma exceção. A sensualidade e a sexualidade são indiferentes à idade, à classe social e ao gênero. Esses personagens de Jorge Amado vão para cama com muitos parceiros por vontade própria e geralmente sem pudor ou ressentimento. Não há medo, preocupações ou receio religioso. O sexo é descrito como algo que confere liberdade aos seus praticantes, sendo natural dos corpos humanos. Os personagens não têm ciúmes dos parceiros (Vadinho chega a chamar o outro marido de Flor de sócio) e são muito bem resolvidos sexualmente. A maldade, assim, está nos olhos da sociedade puritana, nas regras “absurdas” da crença monogâmica e nos julgamentos presunçosos das pessoas conservadoras, e não nos atos em si desses personagens. A questão social, que tem maior peso nas obras da fase inicial de Jorge Amado, não some totalmente nos livros da segunda fase. Ela apenas se situa em um segundo plano. O debate entre o progresso e o atraso, a disputa política entre os poderosos, as críticas dos costumes da sociedade, o preconceito religioso, a distinção entre pobres e ricos, as questões raciais e a polêmica sobre qual é a melhor forma de sistema econômico (socialismo ou capitalismo) estão presentes o tempo inteiro nas histórias. Ler Jorge Amado, de certa forma, é vislumbrar um aspecto político (ele sempre foi comunista) e interagir com uma ideologia sobre a cultura e a sociedade brasileira (ele sempre foi um entusiasta dos pobres, dos oprimidos e da cultura popular). Outro elemento marcante de Jorge Amado está em retratar os tipos populares. O baiano adorava colocar como personagens centrais das suas tramas os tipos mais simples da sociedade: o vagabundo, o retirante, o menino de rua, o malandro, o capoeirista, o praticante de Candomblé, a prostituta, a cozinheira, etc. Todos esses personagens foram descritos com o respeito e a profundidade narrativa que eles merecem. Outra questão relevante na obra de Amado é a religiosidade de origem africana. Na maioria dos seus livros, são citadas e narradas as práticas do Candomblé. Mesmo sendo católico, o escritor nutria uma admiração e um grande respeito pelas crenças trazidas pelos africanos e exercidas pelos baianos de origem mais humilde. O Candomblé é descrito em detalhes, com citações minuciosas dos deuses e de suas práticas, além da perseguição religiosa aos praticantes desta religião e o preconceito de parte da sociedade para com esta fé. Com Amado, mergulhamos na cultura e na fé dos negros da Bahia. Os demais elementos da cultura popular baiana de origem africana surgem nos relatos da vida do povo simples, das festas populares, das comidas, da música e do folclore local. Jorge Amado é um grande apreciador e conhecedor da cultura popular do seu estado, não se cansando de relatar nas páginas dos seus livros os hábitos da sua gente. Assim, é com admiração que encerro a leitura das obras de Jorge Amado deste Desafio Literário. Este gênio da nossa literatura deixou alguns clássicos para nosso povo que são motivos de orgulho para a nossa gente até hoje. Sua literatura é ao mesmo tempo popular e cativante, com histórias envolventes e polêmicas. Conhecer mais sobre os livros e a carreira de Amado é, de certa forma, mergulhar na cultura popular da Bahia e conhecer um pouquinho mais do nosso povo e da nossa gente. No mês que vem, o Blog Bonas Histórias traz a análise de mais um escritor renomado. O autor que terá sua literatura estudada em julho será John Green, o best-seller norte-americano da atualidade. Não perca os próximos capítulo do Desafio Literário. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #AnáliseLiterária #JorgeAmado

  • Análise Literária: Mia Couto

    Como prometido, durante o Desafio Literário de Abril, li e comentei as cinco principais obras de Mia Couto, escritor moçambicano agraciado com o Prêmio Camões de 2013, principal honraria da Língua Portuguesa. Os livros contemplados nesse estudo foram: "O Fio das Missangas" (Companhia das Letras), "Terra Sonâmbula" (Companhia das Letras), "E Se Obama Fosse Africano?" (Companhia das Letras), "O Gato e o Escuro" (Companhia das Letrinhas) e "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" (Caminho). Por isso, me sinto agora em condições para analisar a contribuição artística deste grande autor com mais propriedade, concluindo, portanto, a apresentação de seu perfil literário aqui no Blog Bonas Histórias. Mia nasceu em Beira, segunda maior cidade de Moçambique, em 1955, e atualmente mora em Maputo, a capital do seu país. Depois de iniciar o curso de Medicina, Couto se formou em Biologia, área de atuação na qual se dedica até hoje. Ele se apresenta como biólogo, jornalista e escritor. No livro de crônicas "E Se Obama Fosse Africano?", ele comenta a relação entre as letras e o estudo da fauna e da flora: "Pois venho falar ao mesmo tempo como escritor e biólogo (...). Hoje não sei como poderia ser escritor caso não fosse biólogo. E vice-versa. Nenhuma das atividades me basta. O que me alimenta é o diálogo, a intersecção entre os dois saberes". Assim, enquanto viaja pelo seu país e pelo continente africano estudando a natureza, o escritor-biólogo aproveita para conhecer a cultura e as pessoas do seu povo, depois retratados com brilhantismo em suas obras. Couto adquiriu o pseudônimo Mia (o verdadeiro nome dele é Antônio Emílio Leite Couto) pela sua paixão por gatos. Na infância, aproveitando-se que seu irmão não conseguia falar seu nome, o autor adotou o apelido extraído do som típico destes felinos. Mia Couto escreveu mais de trinta livros em vários gêneros literários. Sua primeira publicação aconteceu quando ele tinha apenas catorze anos. Foi um conjunto de poemas que saíram no jornal "Notícias de Beira", da sua cidade natal. O primeiro livro editado foi "Raiz de Orvalho", de poesias, publicado em 1983. O grande sucesso, porém, foi creditado a um romance, "Terra Sonâmbula", de 1992. Considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX pelo júri da Feira do Livro de Zimbabwe, a obra catapultou a carreira de Couto internacionalmente. Além do Prêmio Camões de 2013, Mia recebeu também o Prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra, em 1999, e o União Latina de Literaturas Românticas, em 2007. Quando analisamos as obras deste moçambicano, a primeira característica a ser evidenciada é a pluralidade de gêneros. Ele trabalha com a poesia, com a prosa (tanto o romance quanto os contos), com a crônica e, ainda, se aventura pelo universo da literatura infantil. Para contemplar todas essas dimensões, foi preciso ler um pouco de cada gênero. Escolhi, assim, para análise "Raiz de Orvalho e Outros Poemas", livro de poesia, "O Fio das Missangas", que é de contos, "Terra Sonâmbula", um romance, "O Gato e o Escuro", uma obra infantil, e "E Se Obama Fosse Africano?", uma publicação de crônicas. Qual escritor da atualidade atua com tanta desenvoltura em todas essas áreas ao mesmo tempo, hein? Poucos. E Mia Couto faz tudo isso com grande excelência. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de um escritor completo. As obras de Mia Couto possuem uma beleza e uma singularidade incomparáveis. Sua linguagem é recheada de lirismo. A prosa se mistura o tempo inteiro com a poesia, com a rima e com a sonoridade musical. Veja alguns exemplos: "O gesto contido, o olhar regrado, o silêncio esmerado. Até o seu sentar-se era educado" (O Fio das Missangas); "Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra" (Terra Sonâmbula); "A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro" (O Gato e o Escuro); e "E, agora, pronto: ponho ponto. Nem me alongo para não esticar o engano" (O Fio das Missangas).. O autor também usa muitas metáforas em sua prosa, geralmente fazendo comparações com a natureza física, com a condição do ser humano e com as particularidades da vida. Veja alguns casos: "Molhado, quase líquido, o dia brotava das fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto de carne e lua" (Terra Sonâmbula); "A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas..." (O Fio das Missangas); "Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos" (O Gato e o Escuro); e "Minha alma era um rio parado, nenhum vento me enluava a vela dos meus sonhos. Desde a morte de meu pai me derivo sozinho, órfão como uma onda, irmão das coisas sem nome" (Terra Sonâmbula). As histórias de Mia Couto são repletas de fantasia e de acontecimentos mágicos, tão típicos da cultura africana. As citações sobre as magias, os fantasmas e as crendices populares permeiam grande parte de suas narrativas. Em "Terra Sonâmbula", por exemplo, o pai de Kindzu recebe previsões sobre o futuro através de sonhos e, depois de morto, aparece para o filho constantemente. Em determinada passagem do mesmo livro, explica-se o motivo das panelas começarem a rachar quando aquecidas no fogo: "Se as panelas começaram a rachar é porque alguém andou namorando esta noite. Quintino me explicou: num lugar novo, como aquele, ninguém pode fazer namoros, nos primeiros tempos. Para os que chegam, aquele campo era recente, cheio de interdições. Violar essa espera iria trazer grande desgraça. Agora os velhos do centro queriam saber quem foram os autores da desobediência". A narração de Couto é marcada pela oralidade. Escreve-se como o povo moçambicano retratado fala. "É que estou grávida, maistravez" (O Fio das Missangas); "Esse monhé, cabrão, ainda lhe lixam antes de eu sacar vantagem do meu negócio..." (Terra Sonâmbula); e "Mulato cornudo, despacha-te!" (Terra Sonâmbula). Ler os diálogos e os pensamentos das personagens é, de certa maneira, viajar para a África. Assim, temos contato com muitas palavras tipicamente moçambicanas. Na passagem "No sossego, sou cego; na timaca não vejo" (Terra Sonâmbula), timaca é confusão, briga. Em "Veja essa corda, satanhoco. Veja!" (Terra Sonâmbula), satanhoco é uma espécie de impropério similar a sacana. E em "Matem-me esse muenhé, eram os gritos do mandador dos assaltantes" (Terra Sonâmbula), muenhé é a forma informal de expressar a palavra monhé, um depreciativo da palavra indiano. Uma das características mais marcantes do autor moçambicano é a criação de muitos neologismos. Praticamente há pelo menos um por página. Dessa maneira, Couto é muito comparado a Guimarães Rosa, escritor brasileiro que ficou famoso por criar novas palavras. Veja esse trecho do livro "O Fio das Missangas": "A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito bumbumbava, acelerado”. Em uma única frase há três neologismos (ondeava, adormentada e bumbumbava). Incrível! Em "O Fio das Missangas" há vários outros como "zaranzeando", "pressentimental" e "talvezmente". Em "Terra Sonâmbula" há dezenas. Pontapina, choraminguante, cantarinhar, escãozelada, direitamento, Carolinda, exactamesmo e administraidor são alguns destes. A literatura de Couto é do estilo militante. Ele aborda e denuncia vários temas sociais e políticos do seu continente e do seu país, debatendo cada assunto com grande rigor intelectual e com uma forma poética de apresentar seu ponto de vista. Ele usa muitos exemplos do cotidiano, apresenta histórias interessantes e constrói personagens curiosas. Ao invés de ir de um ponto a outro em linha reta, como seria de se imaginar, Mia prefere sempre utilizar curvas e desvios, enriquecendo suas denunciais. Assim, as narrativas se tornam saborosas e mais impactantes. A guerra é um assunto recorrente em suas histórias (é o tema principal de "Terra Sonâmbula") e em sua poesia ("Raiz de Carvalho e Outros Poemas"). Vale lembrar que Moçambique ficou quase 27 anos em conflitos permanentes, primeiro com a Guerra de Independência, de 1965 a 1975, e depois com a Guerra Civil, de 1976 a 1992. As mortes, a destruição, a fome, a miséria e as atrocidades deixadas pelas brigas de poder marcaram não apenas a nação e seu povo como também deixou marcas na literatura nacional. Em vários dos poemas de "Raiz de Carvalho e Outros Poemas" é possível constatar a referência às perdas e às mortes provocadas pelas guerras: "Não saberei nunca/ dizer adeus/ Afinal/ só os mortos sabem morrer/ Resta ainda tudo/ só nós não podemos ser" (Poema da Despedida); e "Nada me alimenta/ porque sou feito de todas as coisas/ e adormeço onde tombam a luz e a poeira/ A vida (ensinaram-me assim)/ deve ser bebida/ quando os lábios estiverem já mortos/ Educadamente mortos" (Manhã). Couto também aborda temas como a opressão contra a mulher pela sociedade machista e patriarcal moçambicana. "O Fio das Missangas" relata principalmente o abandono, a violência e o desprezo dos homens às suas esposas, filhas, irmãs, vizinhas e conhecidas. O preconceito racial contra os negros também é denunciado. "Eu tinha a raça errada" (O Fio das Missangas); "Ainda lhe veio à cabeça responder: preto não pensa, patrão" (O Fio das Missangas); e "Nós, sendo mulatos, tínhamos sorte em receber as simpatias do chefe" (O Fio das Missangas). O autor não esquece de escancarar o preconceito social contra os pobres. "Sonhe com cuidado, Mariazita. Não esqueça você é pobre. E um pobre não sonha tudo, nem sonha depressa" (O Fio das Missangas). No livro de crônicas "E Se Obama Fosse Africano?", o autor consegue apresentar melhor seus pontos de vista sobre esses assuntos, avançando em suas críticas sociais. Ele comenta a atitude dos africanos de descrença em relação ao futuro e de vitimização em relação ao seu passado, debate a violência e a opressão contra as mulheres, as crianças, os idosos e algumas etnias na África, apresenta as formas de violência oculta na sociedade moçambicana, discute o mito de que os moçambicanos são um povo pacífico e analisa os pecados do esquecimento dos ensinamentos dos períodos de guerra. Mesmo com uma temática envolta em guerras, fome, medo, violência, corrupção, maldades e privações, o que gera a decadência moral do seu país e da sua sociedade, as quebras dos laços familiares e a deterioração dos valores morais, as histórias de Couto conseguem trazer uma leveza e uma beleza ímpares. O texto não é pesado nem trágico. O autor com seu lirismo, sua sensibilidade e sua construção poética consegue deixar belo até o que poderia ser retratado como feio. Além disso, Mia Couto mostra a importância de sonhar e de ter esperanças que os dias melhores virão. Ele ilumina os amores entre homens e mulheres, as amizades genuínas e as lutas pela sobrevivência de maneira positiva e alegre. As metáforas utilizadas para explicar o cotidiano também ajudam a suavizar algumas passagens. Como consequência, temos histórias essencialmente tristes amenizadas pela sensibilidade do autor e contadas com extrema delicadeza. Por exemplo, em "O Fio das Missangas", Couto compara as mulheres aos objetos descartáveis do dia a dia, como saias velhas e cestos de comida. A forma poética de Mia escrever transforma o tom sombrio das suas tramas em algo belo e, até mesmo, agradável. Até na poesia temos um Mia Couto militante. Em "Raiz de Orvalho e Outros Poemas", principal livro de poesia do autor moçambicano, o tema principal dos poemas é a tradição e a memória cultural da África. Couto, assim, analisa aspectos da identidade do seu povo, o engajamento político e as transformações sociais sofridas após a descolonização e a independência de Moçambique. Quem espera ver poemas românticos e de amor, pode tirar o cavalinho da chuva. Em "Raiz de Orvalho e Outros Poemas", o escritor se apresenta como libelo do engajamento político, sendo o porta-voz de algumas causas. Mia Couto, nessa obra, alia a excelência estética com a preocupação ideológica. A entrada no universo infantil foi uma consequência natural após o escritor passar a contar histórias para os seus filhos. "Nunca acreditei que, um dia eu escreveria uma história que iria constar de um livro infantil. Mas sucedeu assim. À força de contar histórias para meus filhos adormecerem, inventei uma convicção para mim mesmo e acredito que invento histórias para a Terra inteira adormeça e sonhe. O escritor traria, assim, o planeta ao colo", escreveu na introdução ao livro "O Gato e o Escuro". Dessa forma, termino aqui a análise crítica de Mia Couto. Considero que valeu muito a pena ler seus livros e estudar suas obras neste Desafio Literário. Trata-se realmente de um escritor talentosíssimo, completo e de uma literatura bem peculiar. Quem gosta de boas histórias, de uma escrita poética e humana e admira a diferença cultural dos povos, irá, com certeza, adorar Mia Couto. Recomendo essa leitura! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MiaCouto #AnáliseLiterária

  • Análise Literária: Nick Hornby

    Estamos no finalzinho de maio e, por isso, é chegada a hora de fazermos aqui no Blog Bonas Histórias a análise da literatura de Nick Hornby, o escritor foco deste mês do Desafio Literário. Para discutir com precisão as características e as marcas estilísticas deste autor, precisei ler cinco de seus livros nos últimos trinta dias: "Febre de Bola" (Companhia das Letras), "Alta Fidelidade" (Companhia das Letras), "Uma Longa Queda" (Companhia das Letras), "Um Grande Garoto" (Rocco) e "Funny Girl" (Companhia das Letras). Com as leituras e as análises individuais de cada uma dessas publicações (ver os posts do mês de maio), agora estou preparado para fazer os comentários gerais sobre o escritor e seu trabalho. Nick Hornby nasceu em Maidenhead, uma cidade situada na margem ocidental do Rio Tâmisa a cerca de 40 quilômetros de Londres, em 1957. Formado em Literatura Inglesa na Cambridge University, Nick passou a trabalhar como professor de inglês até virar escritor em tempo integral. Com dezoito livros publicados, sendo que aqui no Brasil a Companhia das Letras editou nove deles, Hornby possui uma vendagem na casa dos cinco milhões de exemplares. As obras de maior sucesso do autor foram transformadas em filmes: "Febre de Bola" (Fever Pitch: 1997), "Alta Fidelidade" (High Fidelity: 2000), "Um Grande Garoto" (About a Boy: 2002) e "Amor em Jogo" (Fever Pitch: 2005). O escritor também enveredou por outros caminhos nos últimos anos, passando a escrever roteiros de filmes para o cinema e para a televisão e letras de música.. Nick Hornby tornou-se cultuado ao longo da década de 1990 por expor a cultura pop em seus livros e por retratar uma geração de jovens problemáticos, imaturos e presos na "eterna adolescência". Nas páginas dos seus livros, há a citação predominante de músicas, de futebol, de filmes e de personalidades artísticas. Assim, os vários universos do entretenimento popular, MTV (emissora de televisão famosa nas décadas passadas, especializada em música), cinema, TV e esporte, praticamente entraram na literatura contemporânea por meio de Hornby. Ao mesmo tempo em que abordava assuntos do dia a dia dos jovens modernos, o escritor montou seus enredos a partir de personagens problemáticos, obsessivos e psicologicamente vulneráveis. As histórias tradicionalmente giram em torno de problemas de relacionamento e conflitos pessoais. O típico protagonista das tramas hornbianas é um homem na casa dos trinta anos que não soube fazer a transição da adolescência para a fase adulta. Esse tema me faz lembrar um trecho da música de Aldir Blanc e Cristovão Bastos chamada "Resposta ao Tempo": "No fundo é uma eterna criança/ que não soube amadurecer/Eu posso, ele não vai poder me esquecer/ No fundo é uma eterna criança/que não soube amadurecer". Assim, os personagens de Nick Hornby não conseguem encarar os desafios de sua vida profissional, pessoal, financeira e matrimonial como alguém da sua idade. Nick Hornby traz para a literatura contemporânea, dessa maneira, a figura do que alguns especialistas chamam de "adultescentes", indivíduos presos na mentalidade adolescente mesmo depois de terem envelhecido. Se pensarmos bem, trata-se de um mal cada vez maior em determinadas gerações. Vejamos esse fato na prática. "Febre de Bola" é um livro autobiográfico cujo personagem principal narra suas experiências de torcedor fanático do Arsenal, colocando o futebol como o ponto mais importante da sua vida. Mesmo depois de adulto, o narrador continua se comportando como na época da adolescência, tendo a paixão clubística como sua prioridade. Em "Alta Fidelidade", o protagonista é um trintão apaixonado por música e dono de uma loja de discos. O rapaz não sabe lidar com o fim do relacionamento amoroso e com as obrigações financeiras e profissionais. "Um Grande Garoto" conta a história de amizade entre outro trintão, dessa vez um milionário que passa o dia sem saber o que fazer além de gastar o dinheiro recebido da herança paterna, e um adolescente pobre com problemas na escola e em casa. Em "Uma Longa Queda", o enredo é sobre um grupo de suicidas. Eles se conheceram na noite do Ano-Novo no terraço de um prédio de Londres. O grupo pretendia pular do alto do edifício e colocar fim em suas vidas porque nenhum deles não sabia lidar com as adversidades do cotidiano. E, para terminar, "Funny Girl", a única obra que destoa das características marcantes de Hornby, narra os bastidores de um programa de televisão dos anos de 1960 e a vida da sua protagonista. Grande parte do sucesso do escritor inglês com seu público deve-se, a meu ver, ao fato dele ter construído ótimas personagens. Tanto os protagonistas quanto a maioria das figuras secundárias das suas histórias são compostas por pessoas com sérios problemas emocionais. Os desequilíbrios psicológicos desses indivíduos trazem consistência às tramas e desencadeia as narrativas dos livros. Além disso, Nick Hornby consegue retratar como poucos o dia a dia dos jovens modernos. Ele descreve os gostos, os hobbies, os defeitos, os hábitos e as obsessões de uma geração. As histórias criadas em seus livros são muito parecidas à vida e ao cotidiano de muitos dos seus leitores. O público do escritor, assim, se identifica com essas criações, amando as histórias e louvando o autor. Uma característica presente em todas as obras de Nick Hornby é o humor autodepreciativo. O escritor utiliza das suas tiradas humorísticas ácidas para dar mais leveza, graça e descontração para suas histórias. Com isso, a leitura fica agradável e não há a sensação de um clima pesado, algo que seria natural pela temática densa dos problemas apresentados. Esse ponto demonstra também muita coragem do autor. O inglês não tem medo de ser politicamente incorreto em muitas passagens. Ele faz graça de tudo, até de assuntos delicados como suicídio, separação dos pais, pedofilia, bullying na escola, violência das torcidas nos campos de futebol, deficiência física, envelhecimento, depressão, etc. Ou seja, o autor encara todos os temas espinhosos com coragem e sinceridade. A ironia, a abordagem direta e a reflexão das personagens são as armas do escritor para debater esses assuntos. A linguagem é leve e descompromissada, o que às vezes passa a impressão de ser pobre e limitada. Muitas histórias (principalmente as primeiras) foram escritas na primeira pessoa, o que reforça um pouco mais a sensação de baixa qualidade do texto. Portanto, não espere encontrar grande sofisticação literária ou interessantes recursos linguísticos nestas obras. O livro que mais gostei foi "Uma Longa Queda". Essa obra é incrível! A história é original e bem amarrada. Há ótimas cenas e os diálogos são reveladores. As personagens, todas malucas, são excelentes. Não me recordo de ter visto em outra publicação tantas figuras problemáticas juntas. Martin, Maureen, Jess e JJ colecionam uma variedade exorbitante de traumas, bloqueios, medos e inseguranças psicológicas. Impossível ficar indiferente às dificuldades e aos problemas do quarteto. Também gostei muito de "Febre de Bola". É muito interessante conhecer a história do futebol inglês durante as décadas de 1970 e 1980 e no começo dos anos 1990, vendo a evolução da sua organização. Hornby traz suas memórias futebolísticas com emoção e saudosismo, enriquecendo os relatos dos jogos e dos campeonatos do seu time. "Funny Girl" e "Um Grande Garoto" são bons livros, cumprindo a função de entreter o leitor. O único que me decepcionou um pouco foi "Alta Fidelidade". Achei a história muito fraquinha. Talvez eu estivesse com uma expectativa muita alta quando comecei a lê-lo, o que gerou essa frustração. De modo geral, apreciei bastante o trabalho de Nick Hornby. Se pudesse resumir minha opinião sobre esse escritor, ficaria com as últimas palavras que escrevi no post sobre o livro "Uma Longa Queda": "Achei incrível este livro. Li rapidamente suas 328 páginas em apenas duas noites, tamanho foi o fascínio e o magnetismo que ele me proporcionou. Quando terminei a obra e fechei suas páginas, pensei: 'Nick Hornby é realmente um grande escritor!' . Se estivesse usando um chapéu, na certa o tiraria em reverência ao autor inglês". Acho que é uma ótima definição do meu sentimento. Terminado o Desafio Literário de Nick Hornby, já começo a pensar no próximo. O autor que será analisado em junho é o brasileiro Jorge Amado. Não perca as novidades do Blog Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #NickHornby #AnáliseLiterária

  • Desafio Literário de abril/2015: Mia Couto

    A partir de agora, farei algo diferente e divertido no Blog Bonas Histórias. Vou lançar mensalmente um desafio para mim mesmo: conhecer de maneira mais profunda as obras e a carreira de um escritor. Ou seja, todo mês irei ler os principais livros e analisarei as características do autor selecionado. Esta coluna será fixa e se chamará Desafio Literário. E o primeiro escolhido para estrear esta seção, já em Abril, é Mia Couto, principal escritor moçambicano e um dos mais importantes de língua portuguesa. Terei, portanto, trinta dias, a começar de hoje, para aprender sobre ele e sobre suas obras. É ou não é um belo desafio, hein?! Para quem não conhece este escritor, Mia Couto possui uma extensa e diversificada coleção artística, indo das poesias aos contos e dos romances às crônicas, passando pelos livros infantis. Nascido em Beira, capital de uma província moçambicana, em 1955, e formado em Biologia, Couto vive atualmente na capital do seu país, Maputo. Seus livros são publicados em mais de vinte países e muitos o consideram um dos principais escritores de língua portuguesa da atualidade. Em 2013, Mia Couto recebeu o Prêmio Camões, a mais importante honraria que um escritor lusófono pode conquistar. Ou seja, trata-se de uma boa fonte de estudo e de uma ótima matéria-prima para leitura. Assim, para conhecer mais sobre Mia Couto, vou ler várias de suas obras, estudar suas características literárias e analisar a formação histórica e cultural do seu país natal. No meu plano inicial, tenho como meta ler os seguintes livros: "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" (Caminho) de 1983, "O Fio das Missangas" (Companhia das Letras) de 2004, "Terra Sonâmbula" (Companhia das Letras) de 2007, "O Gato e o Escuro" (Companhia das Letrinhas) de 2008 e "E Se Obama Fosse Africano?" (Companhia das Letras) de 2011. Cada uma dessas obras abrange um gênero distinto explorado pelo autor: "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" é um livro de poesia, "O Fio das Missangas" é de contos, "Terra Sonâmbula" é um romance, "O Gato e o Escuro" é uma obra infantil e "E Se Obama Fosse Africano?" é uma publicação de crônicas. Acredito que a leitura desses cinco livros dará um bom panorama do portfólio literário de Mia Couto. Depois vou ler dois estudos que analisam a trajetória artística do escritor: "Mia Couto - um convite à diferença" (Humanitas) de 2013 e "Discursos Fantásticos de Mia Couto" (Dialogarts) também de 2013. A primeira obra é organizada pelo trio Fernanda Cavacas, Tânia Macelo e Rita Chaves, enquanto a segunda é de autoria de Flávio Garcia. Com essas atividades, acho que chegarei ao final de Abril com um bom panorama sobre Mia Couto e sobre seu legado artístico. Prometo compartilhar com vocês minhas descobertas dos próximos dias. Desejem-me boa sorte!Com essas atividades, acho que chegarei ao final de Abril com um bom panorama sobre Mia Couto e sobre seu legado artístico. Prometo compartilhar com vocês minhas descobertas nos próximos dias. Desejem-me boa sorte! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MiaCouto

  • Livros: O Selvagem da Ópera - O romance diferentão de Rubem Fonseca

    Chegamos à análise do quinto livro do Desafio Literário de Rubem Fonseca. Depois de comentarmos duas coletâneas de contos Brutalistas, "Lúcia McCartney" (Agir) e “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), e dois romances policiais noir, "O Caso Morel" (Biblioteca Folha) e "A Grande Arte" (Círculo do Livro), vamos discutir hoje, no Bonas Histórias, um drama histórico do autor mineiro. O título em questão é “O Selvagem da Ópera” (Companhia das Letras), o sexto romance de Fonseca. Nas páginas desta publicação, assistimos à reconstituição semi-biográfica da trajetória pessoal e profissional de Antônio Carlos Gomes, o principal compositor brasileiro de ópera. O portfólio artístico de Gomes abrange criações como “Fosca”, “Lo Schiavo”, “Condor” e “Colombo”. Contudo, sua obra-prima é “O Guarani”, ópera ballo baseada no romance homônimo de José de Alencar. Curiosamente, este livro de Rubem Fonseca foi construído para se parecer uma cinebiografia - o narrador prepara o texto de um filme e não um romance convencional. “O Selvagem da Ópera” é a narrativa longa que mais destoa da proposta literária de Rubem Fonseca. Dos oito romances do autor - não considero “E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto” (Companhia das Letras), “O Doente Molière” (Companhia das Letras), “O Seminarista” (Companhia das Letras) e “José” (Nova Fronteira) como sendo romances e sim como novelas -, “O Selvagem da Ópera” é o único que não é um thriller policial. Como assim o principal escritor policial brasileiro faz um livro fora de seu gênero preferencial?! A explicação para esta questão passa pela admiração que Fonseca tinha pela figura de Carlos Gomes e pela paixão do escritor pela ópera. Os leitores mais assíduos de Rubem Fonseca devem ter percebido isso. Invariavelmente, os protagonistas dos romances fonsequianos eram fãs de ópera e discorriam sobre os principais espetáculos com a naturalidade de quem discute futebol no bar da esquina. Sem dúvida nenhuma, “O Selvagem da Ópera” nasceu mais para atender às vontades íntimas de Rubem Fonseca do que para aplacar os desejos dos seus leitores. Em outras palavras, este é um livro do autor (e não tanto dos seus fãs tradicionais). Apaixonado por ópera e por cinema, nada mais natural do que Fonseca produzir uma cinebiografia de Carlos Gomes, até hoje a figura central da ópera nacional. Para desenvolver o texto deste romance, o escritor mineiro realizou uma extensa e profunda pesquisa documental e biográfica que consumiu alguns anos. A ideia era recriar fielmente as principais passagens e os dramas mais sensíveis da vida de Gomes, ao mesmo tempo em que enxertos ficcionais seriam inseridos na narrativa sempre que necessário. Daí a pegada semi-biográfica do texto. Como consequência desse processo criativo, “O Selvagem da Ópera“ foi a obra literária que mais exigiu tempo e esforço (principalmente de pesquisa) de seu autor. A ambição de Fonseca era criar, mesmo com o suporte ficcional, a mais fiel biografia do maior maestro brasileiro de todos os tempos. Publicado em 1994, “O Selvagem da Ópera” chegou às livrarias brasileiras quatro anos após “Agosto” (Companhia das Letras), o romance anterior de Rubem Fonseca e seu maior sucesso comercial. Entre esses dois títulos, o mineiro lançou também uma coletânea de contos, “Romance Negro e Outras Histórias” (Companhia das Letras), a primeira coleção de narrativas curtas depois de quase uma década e meia. Diante da repercussão do êxito de “Agosto” e da novidade de “Romance Negro e Outras Histórias”, “O Selvagem da Ópera”, apesar de sua qualidade narrativa, acabou decepcionando tanto os leitores (que, na certa, estavam esperando um novo romance policial) quanto a crítica (pega de surpresa com a mudança de proposta do autor). Não é errado enxergarmos este livro como o mais chato da carreira literária de Fonseca. O maior problema de “O Selvagem da Ópera” não está na qualidade de sua narrativa e sim na expectativa (não atendida) do leitor. Quando pegamos um livro de Rubem Fonseca (assim como acontece constantemente com os títulos de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Raymond Chandler, Andrew Vachss, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Raphael Montes), esperamos naturalmente encontrar uma investigação criminal. Do contrário, nos surpreendemos com a novidade lançada ou mesmo nos decepcionamos com o descumprimento do que imaginávamos ser o conteúdo do livro. Se “Selvagem da Ópera”, um dramalhão tórrido, fosse, por exemplo, uma publicação de Maria José Dupré (conhecida por seus dramas históricos), a aceitação teria sido diferente (provavelmente mais positiva). Prova maior do quanto este título foi subvalorizado pelo mercado editorial é que ele nunca foi adaptado para o cinema, como era a pretensão inicial de seu autor. Vale lembrar que na metade da década de 1990, alguns dos principais livros de Fonseca já tinham ganhado as telas tanto da televisão quanto do cinema ou estavam em processo de adaptação. “Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa” (1971) e “A Grande Arte” (1991), por exemplo, estrearam no cinema com boa aceitação do público. “Stelinha” (1991), um roteiro cinematográfico de Fonseca, ganhou vários prêmios. “Agosto” (1993), por sua vez, foi transformado em uma minissérie televisiva pela Rede Globo. Contudo, “O Selvagem da Ópera”, o texto mais fácil para ser levado para as telas, ainda espera por esta migração midiática duas décadas e meia depois de sua publicação em papel. Nos últimos anos, a Rede Globo até anunciou que faria uma minissérie de TV a partir desta trama de Rubem Fonseca. Uma vez cancelado o projeto, agora a emissora carioca fala em adaptar este texto fonsequiano para uma telenovela. De concreto, porém, ainda não há nada. O enredo do livro de “O Selvagem da Ópera” inicia-se em 1859. Nesta época, Antônio Carlos Gomes é um jovem estudante da Faculdade de Direito de São Paulo (Capítulo 1 – A Partitura Rasgada). Nascido em Campinas e com 23 anos, o rapaz sonha em se tornar maestro. Incentivado pelos amigos, Carlos abandona a faculdade e viaja, contra a vontade do pai, para a Corte do Rio de Janeiro para tentar a sorte. Na capital do Império, ele conhece pessoas influentes como Azarias Botelho e Condessa de Barral. Graças aos novos amigos, o jovem músico é apresentado a D. Pedro II. Com uma recomendação do imperador brasileiro, Carlos Gomes inicia seus estudos no Conservatório de Música do Rio. Não demora muitos anos para o obstinado estudante de música ganhar a medalha de ouro em um badalado concurso da Academia de Belas Artes. Uma vez maestro, ele compõe sua primeira ópera, “A Noite do Castelo”. Encenada no Rio de Janeiro, a peça recebe muitos elogios da imprensa carioca. Ao mesmo tempo em que o talento de Carlos Gomes é exaltado pela imprensa, nota-se certo preconceito pela origem humilde do músico e pela sua constituição física – o rapaz é moreno e possui traços indígenas. Aos 27 anos, Carlos Gomes estreia sua segunda ópera, “Joana de Flandres”, no Teatro Lírico Fluminense (Capítulo 2 – Storia Interessante Di Selvaggi Del Brasile – ou Non Per Solo Istinto Ma Per Profonda Cognizione). A crítica divide-se entre elogios e avacalhações. O importante é que D. Pedro II gostou ao ponto de patrocinar o desenvolvimento dos estudos do jovem músico na Europa. Desta maneira, Carlos Gomes viaja para Milão e se apresenta ao Conservatório de Música local. Contudo, ele é impossibilitado de ingressar na instituição. A justificativa é que aquele conservatório só aceita menores de idade. Por este ponto de vista, o brasileiro é muito velho. Não querendo voltar ao seu país, Carlos encontra uma solução intermediária – se não pode frequentar as aulas do Conservatório de Música de Milão, pode pelo menos fazer aulas particulares com o maestro Rossi, professor da escola, a fim de obter o atestado de conclusão de curso. E assim, o jovem músico inicia seus estudos. Uma vez formado maestro (sim, ele conseguiu o certificado de conclusão de curso), Carlos Gomes passa a trabalhar em Milão. Essa decisão é reflexo da Guerra do Paraguai. Por causa do conflito na América do Sul, os teatros cariocas precisaram ficar fechados. Sem alternativa, coube ao brasileiro permanecer na capital da Lombardia. Ali, ele consegue se tornar conhecido a partir de sua primeira criação na Europa, “Se Sa Minga”, que agrada ao público milanês, o mais exigente da Itália. Já naquele momento, Carlos Gomes trabalhava em sua mais ambiciosa ópera, “O Guarani”, baseada no romance de José de Alencar (Capítulo 3 – A Condessa Maffei e Il Povero Selvaggetto). Enquanto preparava sua obra-prima, o brasileiro estreou seu segundo trabalho em Milão, “Nella Luna”. Novamente, a crítica é extremamente favorável ao talento do brasileiro. Apaixonado por Adelina Peri, filha de um tapeceiro e que sonhava em ser concertista, o protagonista de Rubem Fonseca precisa conviver com a forte oposição da família da moça. Os Peri não viam com bons olhos a união de Adelina com um rapaz de traços indígenas. Enquanto saía escondido com a namorada, Gomes apresenta “O Guarani” no Teatro Scala, em Milão. O público vai ao delírio. Somente após uma carta de recomendação escrita por D. Pedro II, Carlos consegue vencer a resistência dos pais de Adelina e encaminhar seu casamento com a moça (Capítulo 4 – A Ovelha e o Leão). Logo em seguida, o maestro precisa retornar ao Rio de Janeiro para acompanhar a estreia nacional de “O Guarani”. Apesar das críticas negativas de José de Alencar pelo tipo de adaptação feita pelo compositor, a ópera é um sucesso. Assediado pelas mulheres, Carlos Gomes esquece por ora da noiva na Itália e não recusa nenhuma investida feminina. O sucesso com as cariocas não é acompanhado pelo dos políticos da Corte. Há quem duvide que Gomes tenha produzido suas obras e há quem conteste o alto investimento feito pelo governo brasileiro para bancar o artista na Europa - movimentos republicanos começam a ganhar força no Rio. Apesar das críticas quanto à bolsa recebida por D. Pedro II, o maestro brasileiro vive em certa penúria financeira. Com ajuda dos amigos, ele consegue dinheiro para retornar para Milão. Novamente na Itália, Carlos se casa com Adelina e tem três filhos: Carlota, Manuel José e Carlos André. A menina, infelizmente, morre com poucos anos de vida. Os problemas financeiros persistem, pois o brasileiro faz péssimos negócios – não sabe negociar os direitos de suas criações. Para aplacar as angústias, ele coleciona algumas amantes. Aos 38 anos, Carlos Gomes estreia “Salvator Rosa”, sua criação mais aguardada (Capítulo 5 – Na Casa Ricordi). Nesta época, ele mora com a esposa e os filhos em Lecco. Eles tinham deixado Milão após o músico receber uma bolsa mais polpuda do governo brasileiro. O sucesso de “O Guarani” enchera seus conterrâneos e principalmente o imperador brasileiro de orgulho. Por outro lado, o maestro também era chamado de parasita pelos parlamentares do Rio de Janeiro. Indiferente aos protestos dos políticos na capital do seu país natal, Carlos consegue colocar suas finanças, até então caóticas, em ordem. Depois da perda de mais um filho (dessa vez é Manuel José quem morre precocemente), ele e Adelina aguardam o nascimento de outra criança (Mário Antônio). Perfeccionista, Carlos Gomes não se cansa de revisar suas antigas criações (Capítulo 6 – A Extasiante Darclée). Com um novo contrato assinado, desta vez para produzir “Maria Tudor”, o maestro se vê impossibilitado de concluir este trabalho. As recorrentes viagens para acompanhar suas óperas e as várias amantes espalhadas pela Itália, a principal delas é Hariclée Darclée, consomem seu tempo e sua energia. Em casa, Adelina tem o quinto e último filho do músico, Itala. “Maria Tudor” é a sexta ópera de Carlos Gomes, a quarta produzida na Itália (Capítulo 7 – Miçangas Douradas). Depois de alguns atrasos, o brasileiro enfim a concluiu. Dessa vez, a estreia do novo trabalho é um fracasso. Deprimido com a crítica, o maestro briga com a esposa e se separa. Seu único consolo é a companhia cada vez mais frequente de Darclée. Para piorar ainda mais o cenário, Mário, o filho mais querido de Carlos, morre aos cinco anos. Ainda mais abalado, o músico passa a consumir ópio. Rapidamente, o ópio passa a ser usado dia e noite em doses preocupantes. Após se convencer dos malefícios do ópio, Carlos Gomes larga as drogas e volta ao Brasil ao lado do filho Carlos André (Capítulo 8 – O Pesadelo). Ele é recebido como herói em Salvador, Rio de Janeiro e Campinas. Na capital brasileira, se encontra com D. Pedro II. O imperador, neste momento, tem 55 anos e o maestro 44. Em sua cidade natal, Carlos Gomes descobre as verdades sobre a morte de sua mãe e sobre um pesadelo recorrente que tinha desde pequeno. O pai tinha matado a mãe por ciúmes quando o músico ainda era um garotinho. Por isso, seus sonhos perturbadores – uma mulher era assassinada por um homem misterioso. Em 1881, a Vila Gomes, um palacete em Maggianico, é inaugurada pelo seu proprietário, Carlos Gomes (Capítulo 9 – Dez Anos Improfícuos). Com as despesas volumosas de manutenção da nova morada e com o declínio das receitas de suas peças, o maestro brasileiro precisa fazer dívidas. Nesta época, morre Adelina. Sucumbindo ao alcoolismo, o brasileiro não consegue criar nada por quase uma década. Os resultados práticos desta fase nebulosa do artista são: a venda do palacete em 1887; a briga com Hariclée Darclée por ela se mudar para Paris; e o surgimento dos primeiros pensamentos suicidas. No Brasil, os movimentos republicanos ganham ainda mais fôlego. Enfim, Carlos Gomes conclui “O Escravo”, sua nova ópera (Capítulo 10 – O Escravo). Ele viaja para o Rio de Janeiro para supervisionar a estreia do espetáculo, que tem uma recepção apenas respeitosa pelo público. Alguns dias depois, a Monarquia brasileira é derrubada e a República é instalada. D. Pedro II deixa o país, rumo ao exílio na Europa. “Condor” (que mais tarde teria o nome mudado para “Odaléa”) estreia na Itália (Capítulo 11 – Odaléa, a Rainha de Samarcanda). Hariclée Darclée, que havia retornado de Paris e reestabelecido o romance com Carlos Gomes, ocupa o papel principal do espetáculo. A crítica italiana recebe com reservas a nova criação do maestro brasileiro. “Colombo”, o trabalho seguinte de Gomes, é apresentado primeiramente no Rio de Janeiro. Apesar das novas criações ganharem os palcos, a saúde financeira do artista se mantém em situação calamitosa. Suas dívidas só aumentam. Na Europa, morre D. Pedro II. Ao completar 60 anos, Carlos Gomes está muito doente (Capítulo 12 - Fim). Mesmo assim, ele decide viajar da Europa para o Brasil. Ao chegar ao Pará, acaba morrendo. É setembro de 1896. “O Selvagem da Ópera” é um romance histórico de 248 páginas. Para construir esta análise, reli este livro no último final de semana. As primeiras vezes que li esta obra foram em 2017 e 2018, quando estudava a literatura de Rubem Fonseca para o meu trabalho de Iniciação Científica. Nesta nova leitura, precisei de um único dia para percorrer seus 12 capítulos. Devo ter levado entre seis e sete horas ao todo para ir da primeira à última página (com algumas paradas no meio do caminho, obviamente). Tenho a impressão de que este é o livro mais chatinho de Rubem Fonseca (sensação tida nas minhas primeiras leituras deste título e confirmada mais uma vez agora). Acompanhamos meio passivamente a biografia do mais importante maestro brasileiro. O problema é que não há uma intriga forte a ponto de nos tirar da zona de conforto (talvez o leitor não tenha tanta curiosidade sobre a vida de Carlos Gomes como tinha o romancista policial). A trajetória do compositor de “O Guarani” é parecida a de muitos artistas: ascensão rápida, má gestão da carreira e das finanças, gênio autodestrutivo e ocaso físico, mental e profissional. Quem estiver acostumado com os suspenses e as cenas de ação dos outros livros de Fonseca, na certa irá se decepcionar com o ritmo mais lento e a falta de uma intriga envolvente. Se “O Selvagem da Ópera” tem uma proposta distinta às demais obras literárias de Rubem Fonseca (drama histórico semi-autobiográfico versus thriller policial ficcional), o mesmo não pode ser dito sobre o estilo deste texto. Rubem Fonseca continua sendo Rubem Fonseca mesmo quando abandona momentaneamente as narrativas criminais. Ou seja, “O Selvagem da Ópera” possui boa parte das marcas estéticas do autor: linguagem seca; intertextualidade envolvendo múltiplas áreas culturais (literatura, cinema, ópera, teatro, música); bom humor (mesmo em situações delicadas, o que dá o tom de humor negro); erotismo acentuado (Carlos Gomes é um predador sexual); ambientação noir; e inserção de trechos textuais em outros idiomas (no caso, italiano) sem a preocupação da tradução. Além disso, o próprio protagonista do livro se parece muito com as personagens principais dos romances tipicamente fonsequianos. Antônio Carlos Gomes de “Selvagem da Ópera” é um homem charmoso, hedonista, viciado em sexo, apaixonado por artes, promíscuo sexualmente (tem várias amantes simultaneamente), mentiroso contumaz e inconsequente quanto ao aspecto financeiro (vive endividado e precisando da ajuda dos amigos). Nesse sentido, ele é parecidíssimo com Paulo Morais/Paul Morel, de “O Caso Morel”, com Mandrake, de “A Grande Arte” e “Mandrake – A Bíblia e a Bengala” (Companhia das Letras), com Ivan Canabrava/Gustavo Flávio, de “Bufo & Spallazani” (Companhia das Letras), com Rufus, de “Diário de Um Fescenino” (Companhia das Letras), e com o protagonista sem nome de “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” (Companhia das Letras). O único aspecto que Gomes não tem (que seus colegas literários tinham) é a propensão para cometer crimes. Pela perspectiva deste último ponto, ele é, portanto, mais parecido a Alberto Mattos, de “Agosto”. “O Selvagem da Ópera” é um romance histórico que lembra um pouco “Agosto”, a narrativa longa anterior de Rubem Fonseca. Ambos os livros retrataram os dramas de protagonistas em ambientes conturbados do passado brasileiro (se o comissário Mattos padecia durante o fim do governo Getúlio Vargas, Carlos Gomes sofria com a transição da Monarquia para a República). Como construção histórica, “O Selvagem da Ópera” é uma narrativa impecável. A sensação que o leitor tem é de estar realmente acompanhando às passagens verídicas da segunda metade do século XIX. Incrível como Rubem Fonseca consegue transportar suas personagens (e, como consequência, seus leitores) pelo espaço temporal. Gostei também da brincadeira com o cinema. O texto de “O Selvagem da Ópera” é apresentado desde o início como um argumento cinematográfico. Daí a descrição das cenas do ponto de vista da câmera. O narrador do romance (evidentemente um cineasta fã de Carlos Gomes e de ópera) tem a liberdade para fazer explicações sempre que julga necessário (neste instante, ele abandona um pouco o tom de roteiro de cinema da narrativa e se ancora mais nos elementos das crônicas). Dessa forma, a narração é em primeira pessoa, mas tem uma pegada quase em terceira pessoa (quando a história fica focada na biografia do protagonista e o narrador se torna oculto). Dos livros de Rubem Fonseca, este é o que apresenta maior aspecto de road story. Desde a primeira cena, Carlos Gomes está viajando. Seus deslocamentos são frequentes durante o enredo e servem de composição narrativa. A vida caótica do protagonista do romance e seu intenso inconformismo (tanto no lado artístico e existencial quanto no lado pessoal e familiar) são, em parte, simbolizados pela necessidade urgente de pegar a estrada (estaria ele fugindo de algo?). O Desafio Literário de setembro terá prosseguimento na próxima sexta-feira, dia 25. O sexto e último livro de Rubem Fonseca que vamos analisar no Bonas Histórias, neste mês, é a novela semiautobiográfica “José” (Nova Fronteira). Nesta narrativa, o autor reconstrói, em uma mistura de ficção e memórias, sua infância, adolescência e juventude. Não perca a análise de “José” e a continuação do estudo sobre a literatura de Rubem Fonseca. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Grande Arte - O segundo romance de Rubem Fonseca

    O quarto livro de Rubem Fonseca que será analisado neste Desafio Literário é "A Grande Arte" (Agir). Este romance foi apenas a segunda narrativa longa do escritor mineiro, mas teve papel importantíssimo na redefinição da trajetória de sua carreira literária. Com o sucesso de "A Grande Arte" junto aos leitores e perante a crítica, Fonseca optou por escrever mais romances em detrimento aos contos, gênero em que era reverenciado como um dos melhores escritores da história nacional. Assim, nas décadas de 1980 e 1990, temos um Rubem Fonseca mais romancista e menos contista. Inicia-se, assim, o que podemos chamar de segunda fase da literatura fonsequiana: o período romancista. Publicado em 1983, "A Grande Arte" foi lançado dez anos depois de "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), a primeira narrativa longa de Rubem Fonseca. Naquela época, início dos anos 1980, a ditadura militar já não exercia um poder tão forte de censura sobre as obras artísticas produzidas no país. Além disso, desde 1975, o autor mineiro que vivia desde a adolescência no Rio de Janeiro não atuava mais como executivo – fora demitido da Light, estatal fluminense, após a publicação de “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), sua mais polêmica coletânea de contos. Desempregado, Rubem passou a trabalhar essencialmente como escritor e como crítico cinematográfico. Se até então a escrita/literatura era apenas um hobby, a partir da segunda metade dos anos 1970, ela se tornou sua principal profissão. "A Grande Arte" foi um sucesso retumbante tanto de crítica quanto de público. No ano seguinte ao seu lançamento, o livro recebeu o principal prêmio da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti, como o melhor romance daquela temporada. Este foi o único Jabuti de Rubem Fonseca na narrativa longa - os outros cinco foram conquistados pela produção de narrativas curtas: "Lúcia McCartney" (Agir), de 1969, “O Buraco na Parede” (Nova Fronteira), de 1995, “Secreções, Excreções e Desatinos” (Nova Fronteira), de 2001, “Pequenas Criaturas” (Nova Fronteira), de 2002, e "Amálgama" (Nova Fronteira), de 2013. Em 1991, a história de "A Grande Arte" foi adaptada para o cinema. O filme homônimo foi dirigido por Walter Salles. O longa-metragem recebeu, no ano seguinte, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como o melhor roteiro. Mais recentemente, entre 2005 e 2007, o canal de televisão fechado HBO Brasil lançou uma série televisiva inspirada em "A Grande Arte" e "Mandrake, a Bíblia e a Bengala" (Companhia das Letras), os dois romances protagonizados pela mesma personagem, um detetive particular mulherengo e hedonista. A produção televisiva chamada simplesmente de "Mandrake" teve duas temporadas e foi indicada duas vezes ao Internacional Emmy Awards, a principal premiação da TV mundial. Ou seja, “A Grande Arte” é uma das obras mais importantes da carreira romanesca de Rubem Fonseca. Muita gente considera esta publicação uma de suas melhores narrativas longas. Um dos grandes méritos deste livro está na transposição dos contos para o romance de uma das personagens mais marcantes da literatura contemporânea nacional: o advogado e detetive particular Mandrake, figura que caminha o tempo inteiro na linha tênue entre o heroísmo tradicional e o anti-heroísmo (característica esta típica do romance policial noir, também chamado no Brasil de literatura brutalista). Esta polêmica personagem foi apresentada pela primeira vez ao público no livro de contos "Lúcia McCartney" (Agir), de 1963. Depois, Mandrake ressurgiu em outro conto de "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), de 1976. Sua estreia nos romances viria justamente em "A Grande Arte". Depois, Mandrake ainda voltaria à literatura de Rubem Fonseca na novela "E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto" (Companhia das Letras), de 1997, e no romance "Mandrake, a Bíblia e a Bengala", de 2005. Isso é o que eu tenho conhecimento. Não duvidaria se o detetive particular mais cafajeste da ficção nacional tivesse participado de outras coletâneas de contos do autor. Para muitos críticos literários, Mandrake é o principal protagonista da literatura de Rubem Fonseca. Se não for o mais importante, ao menos é o mais recorrente, aparecendo em muitas das obras de seu autor. Além da grande incidência, Mandrake é relevante por representar perfeitamente o perfil da personagem masculina de Rubem Fonseca: homem bonito, hedonista, mulherengo, viciado em sexo, promíscuo sexualmente, propenso ao crime e à violência, erudito, bem-humorado, mentiroso e amante das artes. É o típico anti-herói charmoso que consegue cativar os leitores das tramas policiais modernas. O enredo de "A Grande Arte" começa com o assassinato brutal de três prostitutas no Rio de Janeiro. Os crimes acontecem dias após um programa do trio com Roberto Mitry, um cliente endinheirado. O figurão da alta sociedade carioca contratou as mulheres para uma tarde de muito sexo. Contudo, ao deixar o apartamento de Elisa de Almeida, a meretriz anfitriã cujo nome de guerra era Gisela, ele esqueceu uma fita de videocassete no local. Ao ser extorquido pela prostituta, Roberto Mitry contrata o escritório de advocacia de Mandrake e Wexler para cuidar do caso. O ricaço quer a fita de volta o mais rápido possível, custe o que custar. Roberto, porém, não informa qual é o conteúdo do vídeo. Antes que os advogados contratados possam fazer alguma coisa pelo novo cliente, as moças são assassinadas. Primeiro é Gisela/Elisa de Almeida. Depois, é Carlota/ Danusa. E por fim, Cila/Osvalda de Sousa/Laura Lins aparece morta (todas têm mais de um nome, usados dependendo da ocasião). A terceira e última vítima era rica. Ela tinha um apartamento abastado e uma loja de roupas na Zona Sul do Rio. As duas primeiras garotas de programa, após serem mortas, tiveram o rosto marcado à faca com a letra "P" pelo assassino. Trata-se da assinatura do criminoso. Mandrake, o narrador da trama, começa a investigar o caso. Ele quer descobrir quem é o responsável pelo triplo homicídio. Seu suspeito principal é o próprio cliente: Roberto Mitry. Enquanto procura a fita de videocassete para Roberto, Mandrake coleta evidências e provas deixadas pelo assassino nos locais dos crimes. Porém, na maior parte do tempo, o advogado aproveita para se deleitar com suas três namoradas: Ada (a oficial), Bebel (filha de uma investigada) e Lilibeth (uma cliente). Após passar um dia com as três amantes (cada uma de uma vez – elas não se conhecem), Mandrake é atacado por dois homens misteriosos quando chegava, à noite, em sua residência. Mandrake quase morre nesta ocasião e é salvo por ser levado às pressas ao hospital. No quarto do centro médico, após o atendimento, o detetive particular descobre que sua namorada (oficial) Ada tinha sido estuprada pelos criminosos que tentaram matá-lo. Assim, Mandrake jura vingança e se lança obstinadamente à procura dos responsáveis por aquela monstruosidade. Para não ficar novamente vulnerável a novas disputas corporais com os inimigos, o protagonista compra uma faca de um ex-militar e aprende os segredos do Percor, conjunto de técnicas e táticas de uso de armas brancas. A investigação do advogado/detetive particular o leva à cola dos seus dois agressores: Camilo Fuentes e Rafael. A dupla integra uma organização criminosa chamada de Escritório Central, que está envolvida com tráfico de drogas, prostituição e pornografia. O trabalho investigativo de Mandrake é compartilhado com Raul, seu amigo policial que é o responsável formal pela investigação do caso das prostitutas assassinadas. O Escritório Central é comandado por Thales Lima Prado, um riquíssimo empresário carioca dono de várias empresas. Descobre-se que a fita de videocassete que Roberto Mitry tanto anseia é na verdade de Thales. Enquanto investiga o caso, Mandrake continua levando uma vida promíscua. Além das três namoradas, o advogado ainda faz sexo com uma policial enquanto viaja para a Bolívia atrás de Camilo Fuentes. Na edição da Editora Agir, "A Grande Arte" tem 536 páginas. A obra é dividida em duas partes: "Percor" e "Retrato de Família". Enquanto a parte inicial possui 18 capítulos, a final tem 19 capítulos. Li este livro em apenas dois dias no último final de semana. Como sua trama é interessante e possui muito suspense, admito ter devorado as páginas da publicação sem titubear. “A Grande Arte” pode ser caracterizado como um conflito do tipo personagem versus sociedade. Neste romance de Rubem Fonseca, o adversário de Mandrake é aparentemente uma instituição criminosa chamada Escritório Central. Apesar de perseguir Camilo Fuentes, um dos seus agressores, o principal inimigo do advogado não é apenas o boliviano e sim a organização que ele pertence. Para elucidar o mistério de maneira global, Mandrake precisa entender quem está por trás da gangue e quais são as intenções de seus membros. Porém, querendo ou não, a criminalidade do livro não está restrita ao Escritório Central, mas está disseminada em toda a sociedade carioca. Não há nenhum santinho nem bonzinho nesta história (nem a polícia é uma instituição confiável!). As ações que permeiam o conflito de “A Grande Arte” são as aventuras sexuais do protagonista e dos antagonistas. O protagonista, Mandrake, é um advogado viciado em sexo e extremamente promíscuo. Ele tem uma namorada fixa (Ada) e duas amantes (Bebel e Lilibeth). Porém, ele não se contenta com essa variedade. Durante a narrativa, ele faz sexo com outras mulheres: a policial Mercedes e a prostituta Miriam, além de dar em cima da ex-esposa. Ele vai para cama várias vezes no mesmo dia com parceiras diferentes. Os antagonistas, Camilo Fuentes e Thales de Lima Prado, não ficam muito atrás quando o assunto é a libido e a busca por novidades sexuais. Eles também gostam de variar de parceiras, não sendo fiéis às suas companheiras. Outros aspectos que permeiam as ações de “A Grande Arte” são: a violência da sociedade brasileira, a impunidade ao crime (crime compensa no Brasil!), a incompetência policial na resolução dos casos, a corrupção epidêmica, a banalização e a comercialização do sexo, a visão negativa/preconceituosa (e sexualizada) da mulher, a imprecisão sobre a verdade (quase todas as personagens mentem recorrentemente durante a trama) e a injustiça. Em muitas das situações do livro, estes elementos são apresentados com um humor tragicômico. O protagonista e os antagonistas deste segundo romance de Rubem Fonseca são personagens redondas. Tanto Mandrake quanto Fuentes e Lima Prado possuem características psicológicas e morais complexas de difícil precisão (ora agem de forma elogiosa, ora agem de maneira vexatória). A maioria das figuras secundárias (os integrantes do Escritório Central, as mulheres de Mandrake, os policiais, o sócio de Mandrake e as prostitutas) também segue essa linha paradoxal (características positivas e negativas misturadas), sendo personagens redondas. Como já havia acontecido em "O Caso Morel", "A Grande Arte" possui espaços narrativos com grande contraste social. Há cenas que se passam em ruas, casas e ambientes degradados, sujos, poluídos, fedidos, pequenos, apertados, feios e perigosos, indicando a propensão ao aparecimento da violência. Muitas vezes, a pobreza é um componente complementar e a marginalização é uma consequência das condições desses lugares. Algo que chama a atenção nos ambientes retratados é a recorrência do autor em apresentá-los através do olfato. Na maioria das vezes, os cenários degradados são identificados pelo cheiro desagradável. Por outro lado, há cenas que se passam em ambientes requintados e muito agradáveis, gerando o contraste social. Em alguns casos, os contrastes entre os dois tipos de cenário (belo-feio, grande-pequeno, calmo-violento e rico-pobre) se dão na mesma cena. Este romance possui um clima acentuado de violência e erotismo. Essa mistura compõe boa parte do ambiente da trama. A violência é retratada principalmente pela série de homicídios que ocorrem do início ao fim da história. Não é apenas o trio de prostitutas (Gisela/Elisa de Almeida, Danusa/Carlota Ferreira e Osvalda de Sousa/Cila/Laura Lins) que é vítima de assassinato. Muitas personagens acabam sendo mortas barbaramente (cuidado aí vai parte do spoiler), como Roberto Mitry, Mercedes, Thales de Lima Prado, Rafael Marinho, Hermes de Almeida e Camilo Fuentes, por exemplo. Quem não morre, ainda assim é vítima de atos brutais. Mandrake quase foi morto em uma invasão a sua casa por bandidos. Ada foi vítima de estupro. José Zakkai se salvou por pouco de ser morto. É difícil encontrar alguém que não tenha passado por algo violento durante a história, seja como vítima ou autor de crimes. Ao lado da violência, há elevadas doses de criminalidade em “A Grande Arte”. Além dos assassinatos e dos estupros, o romance apresenta uma série de atividades ilegais: prostituição, pornografia, subornos/propinas a políticos e a policiais, tráfico de drogas, extorsão, contravenção, formação de quadrilha, etc. O romance mergulha no mundo do crime, seja ele praticado por ricos ou pobres e por pessoas comuns ou por influentes personalidades da sociedade. Talvez o ponto alto dessa questão esteja na cena em que uma mãe pobre tenta vender o olho (na verdade, a córnea) da filha jovem. Este trecho da narrativa é de arrepiar! O sexo aparece em todos os momentos da trama e das mais diferentes formas: consensual, não consensual (estupro), pago (prostituição), com interesses sociais, sádico, sadomasoquista, homossexual, orgia, extraconjugal, pedofilia, incesto, casual, etc. Quase sempre, o sexo é instrumento de dominação, de violência e de prazer hedonista, estando totalmente desassociado ao matrimônio, ao amor romântico e à fidelidade conjugal. A prostituição é um recurso corriqueiro de homens e de mulheres para fazer sexo ou para ascender financeiramente. O sexo, muitas vezes, é o eixo central da vida dessas personagens, sendo o elemento mais importante de suas rotinas. O ambiente também possui fortes elementos escatológicos (expressos na maioria das vezes pelo olfato) e muitas doses de humor (tiradas divertidas são ditas principalmente pelo narrador, uma pessoa irônica e espirituosa do tipo politicamente incorreta). Assim como já havia acontecido no primeiro romance de Rubem Fonseca, dois elementos da linguagem se destacam em "A Grande Arte": a variedade de códigos linguísticos e o contraste das linguagens. Este segundo romance de Rubem Fonseca foi escrito essencialmente em língua portuguesa, mas há outros cinco idiomas sendo utilizados simultaneamente na narrativa: inglês, francês, italiano, alemão e latim. Normalmente, esses códigos linguísticos estrangeiros são usados de maneira complementar: em uma palavra ou expressão no meio do texto em português, como citação literal ou na construção de parágrafos inteiros com pensamentos ou falas das personagens. Em nenhum desses casos, o autor se preocupa em fazer a tradução para o português. Esse trabalho cabe ao leitor. Outra característica desta obra está na mistura contraditória da linguagem formal e da linguagem cotidiana. Rubem Fonseca alterna as duas linguagens o tempo inteiro. Ora ele usa termos técnicos da medicina, da psicologia, do direito, da polícia e da literatura, ora se expressa com termos vulgares típicos da marginalidade (criminosos e prostitutas). Essa questão fica mais evidente no momento do sexo. O narrador e as personagens podem descrever de forma culta ou de maneira coloquial as partes dos corpos dos parceiros e as intimidades dos casais. Por fim, este livro possui uma forte intertextualidade com o universo cultural. Há grande número de citações à literatura, ao cinema, à mitologia grega, à psicologia, ao direito, à história, à política e à cultura popular. "A Grande Arte", assim como "O Caso Morel", é uma narrativa policial (a história aborda a investigação sobre uma série de assassinatos realizados contra prostitutas) do tipo romance negro (o protagonista tem moral e atitudes dúbias, possuindo mais defeitos de personalidade do que virtudes; o ambiente da história é violento, opressivo, sujo, amoral e repleto de cenas de sexo; as personagens são normalmente hedonistas, criminosas e viciadas em sexo; e a sociedade é machista, corrupta, injusta e cruel). Sem dúvida nenhuma, este é um dos romances negros mais famosos do nosso país, que vale a pena ser conhecido por quem gosta de literatura e das narrativas de Rubem Fonseca. O Desafio Literário de setembro retornará na próxima segunda-feira, dia 21, com a análise de mais um livro de Fonseca. A próxima obra a ser debatida no Bonas Histórias será "O Selvagem da Ópera" (Companhia das Letras). Publicado em 1994, este romance foge completamente do estilo literário do autor mineiro. Não perca esta nova análise. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: Feliz Ano Novo - A polêmica coletânea de contos de Rubem Fonseca

    Em 1975, Rubem Fonseca já era um autor consagrado no cenário nacional. Depois da publicação de quatro ótimos livros de narrativas curtas, "Os Prisioneiros" (Agir), "A Coleira do Cão" (Nova Fronteira), "Lúcia McCartney" (Agir) e "O Homem de Fevereiro ou Março" (Nova Fronteira), e um romance, "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), o escritor mineiro resolveu radicalizar. Lançou naquele ano "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), uma coletânea de contos em que potencializava a violência, as cenas de sexo, a desigualdade social e a imoralidade do país. Ou seja, foi mais Rubem Fonseca do que nunca. O resultado desta ousadia literária foi um novo sucesso de público e de crítica. Em poucos meses, "Feliz Ano Novo" se tornou um best-seller nas livrarias com mais de 30 mil unidades comercializadas em três edições sucessivas. Para interromper a venda de uma obra tão incômoda, a ditadura militar resolveu censurá-la. O ministro da Justiça da época, Armando Falcão, alegou que o livro de Fonseca ia contra a moral e os bons costumes da sociedade brasileira. Com isso, "Feliz Ano Novo" ficou mais de uma década sem ser publicado e vendido no Brasil. Entre 1976 e 1989, quem quisesse adquirir a coletânea de contos precisava comprá-la em versões editadas no exterior. Na França e na Espanha, por exemplo, a obra continuou sendo publicada normalmente. A censura atrapalhou sim as vendas do livro, mas tornou Rubem Fonseca um escritor ainda mais conceituado perante a crítica literária e aos olhos do público leitor. Indiretamente, a medida radical dos governantes de Brasília (violência maior do que aquela retratada pela publicação proibida) jogou mais luz sob o trabalho artístico do escritor brutalista (algo inversamente proporcional à pretensão dos militares – normalmente, uma obra ganha em dimensão e visibilidade depois de ser censurada). "Feliz Ano Novo" só seria relançado no Brasil em 1989, com o fim da ditadura e a redemocratização do país. Outra consequência da censura (e da perseguição dos militares contra o escritor) foi a demissão de Rubem Fonseca do cargo executivo que ele ocupava na estatal fluminense de energia elétrica, a Light. Naquela época, ele trabalhava na Light durante o horário comercial e (acredite!) escrevia apenas nas horas de folga e aos finais de semana. A literatura, de certa maneira, era ainda um hobby. Entretanto, uma vez desempregado, Fonseca passou a se dedicar com mais afinco à escrita (ela se tornou sua verdadeira profissão). Assim, inicia-se uma nova fase da carreira do autor: a de romancista. Dedicando-se exclusivamente à arte de escrever, ele passaria a produzir também narrativas longas nos anos seguintes. Ou seja, o tiro dos militares saiu pela culatra. Se era para calar a voz literária de Fonseca, sua demissão do trabalho convencional apenas conferiu mais tempo para ele construir suas tramas policiais. Ainda bem! "Feliz Ano Novo" possui cerca de 100 páginas e apresenta 15 contos. Suas histórias são: "Feliz Ano Novo", "Corações Solitários", "Abril, no Rio, em 1970", "Botando pra Quebrar", "Passeio Noturno (Parte I)", "Passeio Noturno (Passeio II)", "Dia dos Namorados", "O Outro", "Agruras de um Jovem Escritor", "O Pedido", "O Campeonato", "Nau Catrineta", "Entrevista", "74 Degraus" e "Intestino Grosso". Em "Feliz Ano Novo" (estou agora me referindo ao conto que empresta o nome ao livro), temos o relato de um latrocínio praticado por um trio de homens pobres e sádicos. "Corações Solitários" apresenta o novo trabalho de um jornalista policial que passa a escrever uma coluna sentimental em um jornal destinado às mulheres. Em "Abril, no Rio, em 1970", vemos o drama de um jogador de futebol que sonha em ser descoberto por um olheiro de um time de primeira divisão. "Botando pra Quebrar", por sua vez, trata das angústias sentimentais e financeiras de um homem desempregado. Em "Passeio Noturno (Parte I)" e "Passeio Noturno (Parte II)", o leitor fica diante de um homem de boa posição social (empresário) que esconde um segredo aterrorizante: seu prazer sádico por praticar violência banal. A vida do outro não tem qualquer valor para ele. Assim, assassina as pessoas como quem vai à padaria comprar pãozinho. "Dia dos Namorados" e "O Outro" narra, respectivamente, um conto do detetive particular Mandrake - personagem apresentada em "Lúcia McCartney" e que seria explorada mais intensamente no romance "A Grande Arte" (Companhia das Letras), publicado na década de 1980 - e a história de um empresário que é incomodado pelo stress do trabalho e por um mendigo que vive lhe pedindo dinheiro. Em "Agruras de um Jovem Escritor", um rapaz aspirante a artista acaba recorrendo a violência após brigar com a mulher. "O Pedido" narra o drama de um português falido no Rio de Janeiro que vai pedir empréstimo para um conterrâneo bem-sucedido. "O Campeonato" é um divertido relato sobre um torneio em que os homens duelam para provar quem tem a capacidade de praticar sexo por mais tempo. "Nau Catrineta" e "Entrevista" apresentam, respectivamente, a história de uma família que tem a tradição de praticar canibalismo e a descrição de uma conversa sincera entre um homem e uma mulher. Por fim, temos "74 Degraus", relato passo a passo do assassinato de dois homens por duas mulheres, e "Intestino Grosso", a irônica entrevista com um autor famoso especializado em romance policial do tipo noir (seria ele Rubem Fonseca?!). "Feliz Ano Novo" é realmente um livro espetacular. É difícil apontar qual é o seu melhor conto. Gosto muito de "Passeio Noturno (Parte I)", "Feliz Ano Novo", "Corações Solitários", "Entrevista", "Campeonato" e "Dia dos Namorados". Ou seja, listei praticamente metade das tramas. Para se ter uma ideia da força narrativa destas histórias, "Passeio Noturno" e "Feliz Ano Novo" estão na lista dos melhores contos da literatura brasileira de todos os tempos. Em qualquer bom ranking que englobe as 100 melhores narrativas curtas nacionais, lá estão estes dois contos de Fonseca. Nada mal, hein? Quem está acostumado com as tramas de Rubem Fonseca pode se perguntar hoje em dia: afinal, o que tem "Feliz Ano Novo" de tão especial para ter se tornado uma obra tão marcante na carreira deste escritor? O questionamento aparentemente faz algum sentido. Afinal, este livro tem várias das características que pontuam a literatura de Fonseca desde o começo: violência acentuada, erotismo, tramas velozes e cosmopolitas, estilo seco e cortante, humor negro, enredo ao estilo cinematográfico, podridão moral em todas as escalas sociais, clima sombrio e mistura entre o popular e o erudito. O que não percebemos logo de cara é que foi a partir de "Feliz Ano Novo" que Rubem Fonseca potencializou essas características ao extremo. Se até então ele utilizava cada um desses expedientes literários com certa parcimônia, foi depois do sucesso do livro de 1975 e da censura do governo militar que ele passou a abusar dessa receita ao limite máximo. Aí, sua literatura adquire um tom ainda mais marcante, tornando-a inconfundível. De fato, "Feliz Ano Novo" é uma obra singular. Mergulhar no universo de violência, sexo, imoralidade, banalidade e humor de Rubem Fonseca é uma experiência interessantíssima. Vale a pena conhecer esta que é uma das mais importantes obras da literatura contemporânea brasileira. Das coletâneas de contos do autor, este livro é o meu favorito! Dando prosseguimento ao Desafio Literário de setembro, o próximo trabalho de Rubem Fonseca que será analisado pelo Bonas Histórias é "A Grande Arte" (Companhia das Letras), romance publicado em 1983. Essa obra representou a estreia de Mandrake nas narrativas longas. Além disso, esta obra rendeu o segundo Jabuti para o escritor mineiro. O post com os comentários de “A Grande Arte” estará disponível na próxima quinta-feira, dia 17. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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