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  • Livros: Uma Questão Pessoal - O romance mais famoso de Kenzaburo Oe

    Li, neste final de semana, o livro mais famoso de Kenzaburo Oe, o escritor japonês que estamos analisando em junho no Desafio Literário. Se na semana passada comentamos, no Bonas Histórias, “A Captura” (Luna), o romance/novela de estreia de Oe, hoje vamos discutir “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), sua obra mais celebrada e, por que não, polêmica. Publicado originalmente em 1964, “Uma Questão Pessoal” foi inspirado em um episódio real: o nascimento do primeiro filho de Kenzaburo. A criança veio ao mundo, em 1963, com sérios problemas cerebrais. A partir desse fato, o autor criou um romance semi-autobiográfico no qual o protagonista, um professor de inglês, se questiona sobre o que realmente deseja para seu primogênito, uma criança fadada a uma vida vegetativa. Em um relato sincero e quase sempre aterrorizante, Kenzaburo Oe aproveita-se de uma tragédia pessoal para construir uma das narrativas mais dramáticas do século XX. “Uma Questão Pessoal” ganhou o Shinchosha Literary Prize, em 1964, como o melhor romance japonês daquela temporada. Quatro anos depois, o livro foi traduzido para o inglês e lançado nos Estados Unidos e na Europa. Não é preciso dizer que a obra se tornou um sucesso de crítica e de público no exterior. Era o início da carreira internacional de Kenzaburo Oe. Essa nova etapa profissional culminaria com a conquista do Prêmio Nobel de Literatura de 1994. A produção de “Uma Questão Pessoal”, um romance naturalista irretocável, ajudou em muito o autor a se consagrar fora das fronteiras japonesas e em arrematar a maior honraria da literatura mundial. No Brasil, “Uma Questão Pessoal” foi publicado pela primeira vez em 2003. A tradução para o português foi feita por Shintaro Hayashi para a Companhia das Letras. Ex-lutador de judô e dirigente esportivo, Hayashi é atualmente um dos principais tradutores da literatura japonesa para nosso idioma (ele só trabalha com a tradução direta). Confesso que, mesmo não sendo fã do naturalismo, movimento literário no qual Oe é um dos principais adeptos, fiquei abismado com a qualidade absurda deste romance. Sem dúvida nenhuma, esse foi o melhor livro que li até agora nesse ano, ao lado de “Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), romance de Kazuo Ishiguro, curiosamente outro escritor japonês agraciado com o Prêmio Nobel. É a literatura japonesa bombando em 2020 no Bonas Histórias, hein?! E imaginar que há muitos brasileiros que acreditam piamente que a boa ficção asiática se limite aos trabalhos de Haruki Murakami. Sabe de nada, inocente! Narrado em terceira pessoa (por um narrador colado ao protagonista), “Uma Questão Pessoal” apresenta o drama de Bird, um professor de inglês de um cursinho em Tóquio. Aos 27 anos de idade, dos quais dois são como homem casado, Bird (esse é seu apelido, não sabemos seu nome verdadeiro) está aflito com o nascimento do seu primogênito. A chegada da criança irá podar sua pretensa liberdade. Ele sonha em viajar para a África, mas com um filho nas costas, ele não poderá concretizar suas aspirações mais íntimas. Para piorar, a criança o deixará ainda mais ligado à esposa, alguém que ele definitivamente não ama. A agonia do protagonista se transforma em tragédia quando ele descobre que seu filho nasceu com uma hérnia cerebral. Com a séria deficiência na cabeça, o menino está fadado a ter uma vida vegetal para sempre, isso é, se sobreviver às primeiras horas de vida. O estado do recém-nascido apavora Bird. O jovem pai passa, então, a torcer descaradamente pela morte do filho, o que aliviaria sua dor de uma vez por todas. Por isso, ele fica indignado com os trabalhos dos médicos do hospital, que tentam a todo custo melhorar a condição de vida do bebezinho. Para completar o drama (calma que tragédia pouca é bobagem!), Bird precisa esconder da esposa as condições clínicas do filho. Em um plano concebido pelos sogros, o protagonista não deve revelar o real estado do recém-nascido para a mãe. Ninguém quer assustá-la. Se ela souber que concebeu um pequeno monstro (termo usado no livro!), na certa nunca mais vai querer engravidar. Sem alternativa, cabe a Bird concordar com os sogros e esconder a verdade da mãe de seu filho. Nesse cenário macabro, Bird, um rapaz evidentemente egoísta, inconsequente, melancólico, insensível, covarde, com problemas de alcoolismo e com uma moral para lá de questionável, se lança em aventuras pueris por Tóquio. No fundo, ele quer esquecer a dura realidade em que está metido. Assim, a personagem principal procura Himiko, uma velha amiga dos tempos de faculdade. Instalado na casa de Himiko (uma das poucas personagens do romance com nome próprio) de mala e cuia enquanto a esposa se recupera na maternidade e o filho é tratado em um hospital universitário, Bird aproveita para realizar suas antigas fantasias sexuais. No passado, ele tentou estuprar a amiga universitária, até então virgem, mas não conseguiu consumar o ato. Agora, ele se vê livre da família para aproveitar a vida como um homem solteiro e desimpedido. “Uma Questão Pessoal” possui 224 páginas. Elas estão divididas em 13 capítulos. Li esta obra em um único dia. Comecei na manhã de sábado e a concluí na mesma noite (com óbvios momentos de intervalo entre as sessões de leitura). Devo ter levado ao todo cinco horas e pouquinho para percorrer todo o conteúdo do livro. E que conteúdo, hein?! Para começo de conversa, “Uma Questão Pessoal” não é uma narrativa nada agradável do ponto de vista temático. Se você estiver depressivo, por favor, nem comece esta leitura! E se você for do tipo de leitor que não aguenta o tranco, também é bom repensar se não seria melhor escolher um título mais ameno. O bicho pega para valer aqui. A sensação de desespero da trama torna essa experiência de leitura realmente angustiante. Confesso que enquanto lia “Uma Questão Pessoal”, lembrei muito de “Primeiro Amor” (Nova Fronteira), novela de Samuel Beckett, de “Memórias do Subsolo” (Editora 34), obra ficcional de Fiódor Dostoiévski, e de “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), romance de Clarice Lispector, três dos livros mais inquietantes em que me aventurei. Parte da força dramática de “Uma Questão Pessoal” está em sua temática delicadíssima, abordada sem qualquer receio pelo corajoso Kenzaburo Oe. Nota-se que o escritor japonês não teve receio de criar um protagonista recheado de defeitos morais e que causa ojeriza no leitor desde as primeiras páginas. Além disso, o clima preponderante da trama é de violência, injustiças, claustrofobia, tensão psicológica e sujeira por todos os lados. Contudo, o que torna realmente a ambientação deste romance insalubre é a atitude de suas personagens. Não apenas o protagonista possui comportamentos eticamente condenáveis como todas as pessoas ao seu redor o seguem em gestos e atitudes inexplicavelmente insensíveis/desumanas. Vejamos isso na prática. Enquanto a esposa está na maternidade aguardando o parto, o que Bird faz? Ele passeia tranquilamente por Tóquio: faz compras de mapas do continente africano em uma livraria; briga com jovens arruaceiros pelas ruas da cidade; cogita um encontro homossexual com um travesti; e brinca em lojas de jogos eletrônicos (junkbox). E a preocupação com a esposa, hein? Ele não está nem aí com ela! Prova disso é que o protagonista só a visita no hospital, depois do parto, uma única vez. E a visita é breve e protocolar (e recheada de mentiras e de falsidades). Na maior parte do tempo, quando não está passeando por aí, o jovem pai passa na casa da nova amante, Himiko, personagem esta que irá aparecer em outras obras de Kenzaburo Oe. Bird é um típico anti-herói. Se isso já fica nítido desde as primeiras páginas de “Uma Questão Pessoal”, quando ele passa a torcer e a trabalhar pela morte do próprio filho, a narrativa fica irrespirável. Há muito tempo não lia algo tão desconfortante e que mexesse tanto comigo. Juro que minha vontade era esmurrar a cara do protagonista. Quando o cara não gosta do próprio filho, de quem mais ele pode gostar, além de si próprio? Não é errado apontar Bird como um dos grandes anti-heróis da literatura contemporânea. Curiosamente, o protagonista de “Uma Questão Pessoal” não é o único com uma postura incompatível com a gravidade da situação. Repare na postura dos médicos do bebezinho, por exemplo. Eles não têm qualquer sentimento para com o próximo. O obstetra soltou uma gargalhada quando viu o recém-nascido com problemas no cérebro. Onde está a graça disso?! Não sei, mas ele ridicularizou o estado da criança. Depois, o diretor do hospital pergunta ao pai se ele não quer ver a “mercadoria”. Como alguém chama uma criança de mercadoria? Inacreditável! Todos os médicos com quem Bird tratou do caso do seu filho excepcional tiraram sarro da condição da criança. A sensação é que ninguém nessa história possui um mínimo de sentimento nobre nem parece preocupado com a tragédia pessoal e familiar na qual o protagonista está metido. Esse clima pesadíssimo é proposital. A narrativa naturalista de Kenzaburo Oe pretende associar as pessoas ao comportamento dos animais. Essa relação fica evidente desde as primeiras páginas do livro. Todas as personagens são associadas fisicamente com algum bicho (não à toa, o protagonista é chamado de Bird). A animalização não fica restrita à descrição física das pessoas, mas também aos seus comportamentos brutos, insensíveis e por vezes irracionais (desumanos). Exatamente por isso, ninguém possui nome próprio. As exceções são Himiko, Deltcheff e Kikuhiho, três amigos antigos do protagonista. Junto com a violência da narrativa (estupros, assassinatos de pessoas e animais, suicídio, traições, intrigas internacionais, uso de armas nucleares, roubos, espancamentos, ameaças, humilhações...), temos muita sujeira, coisas quebradas, ambientes insalubres e escatologias (vômitos, suores excessivos, arrotos, excrementos, urinas, sangue...). Até o sexo é descrito como um ato somente animalesco, sem qualquer componente romântico ou amoroso entre os casais. No meio da trama densa e angustiante, Kenzaburo Oe brinda seus leitores com um bom papo existencialista. Ele aproveita a condição delicada do protagonista para debater algumas questões pertinentes da essência humana. Nesse instante, lembrei um pouco de Albert Camus, não por acaso um dos autores admirados e estudados por Oe. A discussão filosófica é complementada com um debate crítico sobre o uso e a produção de armas nucleares pelas principais potências do mundo (uma causa social defendida publicamente pelo autor japonês). Ou seja, a sensação de tragédia pessoal de Bird também adquire conotação de tragédia coletiva quando a energia nuclear é usada para destruir o planeta e os seres humanos. O final de “Uma Questão Pessoal” não deixa de ser surpreendente (cuidado, aí vai o primeiro spoiler deste post!). Depois de tanta violência, pessimismo e atitudes egoístas, o desfecho do romance sinaliza para um inexplicável acerto de contas do protagonista com sua consciência (sim, ele possui uma!). Bird se torna, de repente, um homem sentimental, consciencioso, altruísta e honrado. Como assim?! Não é essa a personagem que conheci no restante do livro. Obviamente, Kenzaburo Oe investe na preferência da maioria do público por um final feliz e, dessa maneira, explora a formação completa da trajetória do herói em busca da redenção. Admito que achei meio forçado o desenlace deste livro, principalmente com a mudança repentina de condição médica do recém-nascido (cuidado, lá vem mais um spoiler!). Em um estalar de dedos, filhinho de Bird parece curado e bem, sem qualquer problema neurológico. Pode isso, Arnaldo?! Se a narrativa de “Uma Questão Pessoal” é, como um todo, muito mais forte e melhor tecnicamente do que a de “A Captura”, achei o final do primeiro romance de Oe mais adequado ao estilo da história proposta. Pelo menos, em “A Captura”, não temos uma mudança repentina de condição das personagens nem a entrega de um fim condescendente com as preferências dos leitores. Sinceramente, achei o último capítulo de “Uma Questão Pessoal” um recuo tático de Kenzaburo Oe. Faltou coragem para o escritor avançar até o último estágio de sua trama dramática. Mesmo com essa escorregadinha no desfecho (derrapada para quem gosta de uma narrativa verdadeiramente arrojada e condizente com a lógica do início ao fim), “Uma Questão Pessoal” é um romance maravilhoso. Agora entendi o motivo de Oe ter conquistado o Nobel de Literatura e ser apontado até hoje como um dos principais escritores vivos do planeta. Realmente sua literatura é incrível e “Uma Questão Pessoal” é o retrato mais concreto de como é possível produzir uma narrativa de altíssimo nível com tantos elementos pessimistas. Incrível! O Desafio Literário de junho seguirá para a análise do terceiro livro de Kenzaburo Oe. A próxima obra que vamos analisar no Bonas Histórias é “Um Grito Silencioso” (Francisco Alves), outro romance marcante do autor japonês. Publicado em 1967, “Um Grito Silencioso” só perde em popularidade, entre os títulos do portfólio de Oe, para “Uma Questão Pessoal”. O post desse outro livro estará disponível no blog no próximo sábado, dia 13. Se você é fanático pela boa literatura, não perca as próximas etapas do Desafio Literário de Kenzaburo Oe. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: A Captura - O romance de estreia de Kenzaburo Oe

    Em 1958, Kenzaburo Oe era um jovem escritor em início de carreira. Recém-formado em Literatura Francesa pela Universidade de Tóquio, o autor japonês, então com 23 anos, possuía uma pegada naturalista. Tímido e muito incomodado com o estilo de vida na cidade grande (ele nasceu em um povoado interiorano na Ilha de Shikoku e por lá viveu até os 19 anos), Oe retratava em seus primeiros textos a realidade nua e crua de um país ainda agrário, violento e pobre. No ano anterior, ele havia estreado na ficção com a publicação de três bons contos em revistas literárias. Contudo, foi a partir do lançamento de seu primeiro romance, “A Captura” (Luna), que ele entrava para o primeiro escalão da literatura japonesa. “A Captura” conquistou o Prêmio Akutagawa, o principal do país, como a melhor narrativa curta japonesa de 1958 (sim, o romance foi classificado originalmente como um conto!). O livro curtinho, quase uma novela, impressionou positivamente a crítica literária com uma trama densa, incômoda e profundamente cruel. A linguagem espontânea de Oe, as personagens quase animalescas, a ingenuidade infantil do narrador e a aspereza do ambiente pobre e sujo do interior do país saltaram aos olhos dos leitores mais exigentes e dos apreciadores da estética naturalista. Apesar de, nesta época, ainda estar muito distante do posto de best-seller, Kenzaburo se tornou, com o sucesso de “A Captura”, um nome conhecido no mercado editorial local. Seu romance de estreia foi inspirado em um episódio real. Aos dez anos de idade, Kenzaburo Oe, ainda morando nas montanhas de Ose, em Shikoku, no sul da península japonesa, teve o primeiro contato com pessoas estrangeiras e com a cultura ocidental. No final da Segunda Guerra Mundial, a tropa norte-americana desembarcou no povoado interiorano do Japão em uma ação de estreitamento diplomático e de combate às ideias comunistas. Diferentemente do que era dito até então pelos governantes japoneses, os soldados dos Estados Unidos trouxeram comida, chocolate, doces e brinquedos para a população local. Com uma postura amigável e proativa, eles se empenharam na reconstrução do país asiático. Maravilhado com aquele comportamento altruísta dos estrangeiros (nessa época, o garoto não conhecia os detalhes sobre os lançamentos das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki), o pequeno Kenzaburo passou a nutrir grande admiração pela cultura ocidental. Não à toa, “A Captura” mostra a reação de encantamento de um garoto com a chegada repentina de um soldado negro em seu povoado. “A Captura” foi editado em português apenas em julho de 1995. A tradução da obra ficou a cargo de Tomi Okiyama. Editado pela Luna Books, o livro tem uma introdução de Montse Watkins, esposa de Tomi Okiyama, e foi impresso no Japão (coisas do início do Plano Real!). Até hoje, essa é a única versão desse título em nosso país. Para conseguir comprar essa obra, só mesmo recorrendo aos sebos. Foi o que fiz no finalzinho de maio. Narrado em primeira pessoa por um menino de um povoado isolado nas montanhas do Japão, a história de “A Captura” retrata um verão atípico que marcou para sempre seu protagonista e os demais habitantes daquele lugar. Em plena Segunda Guerra Mundial, um avião com três soldados estrangeiros caiu naquela região interiorana e paupérrima. Dois combatentes morreram na queda da aeronave, mas um soldado, um rapaz negro, sobreviveu. Ele teve a sorte de conseguir pular de paraquedas antes do avião se espatifar no chão. Sabendo da presença do inimigo nas redondezas, os adultos do povoado montaram uma força-tarefa armada para capturar o invasor. Uma vez pego, o soldado negro foi feito prisioneiro da comunidade. Acorrentado no porão de um estabelecimento até que as autoridades da capital decidissem o que devia ser feito, ele era alimentado pelo pai do narrador (um caçador pobre e aparentemente viúvo) e pelo protagonista (o menino que nos conta a trama). Ainda uma criança ingênua e sonhadora, o narrador ficou fascinado com a aventura de interagir com uma figura tão diferente da sua cultura. A chegada do homem negro foi o acontecimento mais marcante dos últimos anos para a meninada do vilarejo. Todos queriam ver e interagir com o inimigo. Contudo, esse privilégio, entre os menores, ficou no início a cargo apenas do filho mais velho do caçador (nosso narrador), seu irmãozinho menor e o melhor amigo deles, um garoto apelidado de Lábio Leporino. O trio podia entrar no porão várias vezes ao dia e conviver diariamente com o soldado. Eles eram invejados pelos amiguinhos por ficarem lado a lado do estrangeiro misterioso e ganhar sua intimidade. Pouco a pouco, com a demora da resposta do que devia ser feito com o soldado adversário preso, os adultos do povoado deixaram de se interessar pelo visitante e voltaram a sua rotina normal. Calmo, pacato e extremamente inofensivo, o estrangeiro se tornou a diversão da garotada naquele verão. Depois que foi desacorrentado do porão, o negro foi rapidamente incorporado à comunidade local e ao círculo de amizade dos pequenos. Sem dominar a língua japonesa, o soldado se comunicava por mímicas e podia passear pelas redondezas ao lado da criançada. Segundo o texto do livro, em uma de suas partes mais despudoradas, o homem negro se tornou o animalzinho de estimação favorito dos meninos e das meninas do vilarejo. “A Captura” é um romance enxuto. Seus dez capítulos estão distribuídos em 128 páginas. É possível ler essa obra em menos de três horas. Acho que levei aproximadamente duas horinhas para concluir todo o seu conteúdo na última quarta-feira à tarde. Esse é aquele tipo de obra que dá para consumir em uma batida só. Por isso, chamá-lo de romance me parece um tanto equivocado. O mais correto seria classificá-lo como uma novela. Porém, não foi assim que as editoras que trabalham com Kenzaburo Oe fizeram (e quem sou eu para questioná-las?). O que mais chama atenção nesse livro é o clima pesado de sua narrativa. A violência é geral e aparece explicitamente em cada linha, em cada página e em cada cena desta trama. A sujeira, o fedo, a escatologia, a pobreza e o desprezo pelos seres humanos, pelos animais e pela vida em geral potencializam ainda mais a morbidez e a insalubridade da história. É preciso estômago forte para encarar os acontecimentos nada nobres desse livro! Curiosamente, por mais que a Segunda Guerra Mundial estivesse distante do dia a dia do povoado montanhoso e isolado do Japão, seus habitantes conviviam com os seus próprios preconceitos, com a carência material e afetiva, com a brutalidade e com as injustiças. Vale a pena notar os recursos narrativos usados por Kenzaburo Oe para criar esse tipo de ambientação. Ele utiliza-se principalmente da sinestesia do jovem narrador para puxar o leitor para dentro da ficção. Repare na quantidade absurda (e acertada) de elementos visuais, olfativos, auditivos e táteis trazidos pelo filho do caçador. A sensação é que estamos ao lado dele acompanhando minuto a minuto os fatos narrados. Incrível! A questão mais delicada de “A Captura”, típica das narrativas naturalistas, é a equiparação das pessoas aos animais. Assim, homens e mulheres são descritos mais como bichos selvagens do que como seres racionais. Quem leu, por exemplo, “O Cortiço” (Ática) e “O Mulato” (Ática), de Aluísio Azevedo, ou “A Carne” (Martin Claret), de Júlio Ribeiro, sabe bem o que estou dizendo. Todos os indivíduos mencionados neste romance de Kenzaburo Oe estão mais próximos do universo animalesco do que do universo civilizatório. Essa prática, independentemente da época em que o material foi escrito, suscita inevitáveis polêmicas. Não é apenas o soldado negro, portanto, que é retratado como um bicho (o que poderia configurar um claro sinal de racismo). Os próprios moradores do povoado em que o avião estrangeiro caiu são vistos de maneira profundamente negativa pelos cidadãos da cidade mais próxima. Prova maior disso é a recusa das professoras da área urbana de lecionarem para um bando de crianças sujas, burras e fedidas. Nesse caso, os pequenos não passam de animais irrecuperáveis. Diante desse quadro extremamente indigesto, o romance de Oe torna natural a violência e o comportamento bruto das pessoas. O ápice desse retrato animalesco dos seres humanos se dá pela total ausência de nomes próprios. Nenhuma personagem tem seu nome revelado. Como se chamam o narrador, seu pai, seu irmãozinho ou mesmo o soldado negro? Não sabemos. E isso parece não interessar a ninguém. Afinal, são todos animais brutos, né? Nem mesmo o povoado interiorano em que a história se passa tem sua designação revelada. As únicas personagens citadas mais nominalmente são o Lábio Leporino e o Empregado. Mesmo assim, esses são seus apelidos e não seus nomes reais. Não por acaso, o texto de “A Captura”, assim como boa parte das narrativas naturalistas, pode ser visto hoje como politicamente incorreto. Chamar um homem negro e estrangeiro de animalzinho de estimação dócil da criançada é algo, no mínimo, questionável (para não dizer revoltante). Porém, nota-se que a pretensão de Kenzaburo Oe foi além do retrato racista e xenofóbico da sociedade rural japonesa. Os próprios cidadãos do lugarejo montanhoso sofrem preconceitos sociais dos seus compatriotas, mesmo possuindo a mesma cor de pele. Sabe aquela história do roto falando do esfarrapado? Pois é o que temos aqui. Homens, mulheres e crianças desprezados pelos moradores das grandes cidades japonesas encontram alguém para desprezar – e esse alguém é o estrangeiro negro. O preconceito, no texto narrativo de Oe, parece ser algo intrínseco à natureza humana e com uma capacidade ilimitada de propagação. A linguagem seca e direta do livro é muito parecida ao cenário árido de sua história. Confesso que me lembrei das características dos textos ficcionais de Graciliano Ramos. A objetividade narrativa de Oe é exemplar. O escritor japonês não é chegado ao ornamento nem ao supérfluo. Ele simplesmente vai direto ao ponto de maneira nua e crua, doa a quem doer. Nesse sentido, a tradução de Tomi Okiyama é primorosa e respeita o estilo original do autor. Outra questão acertada trazida por Kenzaburo Oe em “A Captura” é a mistura da ingenuidade infantil com a brutalidade do mundo dos adultos. O caos do mundo cão do lugarejo esquecido por Deus e pelos homens é descrito pela visão até então pura, inocente e sonhadora de um menino. Apesar de não sabermos sua idade, percebemos que o narrador-protagonista está na transição entre a infância e a idade adulta. E o que decreta essa mudança definitiva de status é a cena final do romance. Da pior maneira possível, o garoto é levado a entender que o universo idílico e sonhador da sua infância ficou para trás. Por falar nisso, o desfecho deste romance é um dos mais trágicos que eu já li. Se o texto de Oe já alimentava certa sensação de incômodo e desconforto no leitor mais sensível desde as primeiras páginas, é no seu desenlace que ele potencializa toda a violência, os preconceitos e as injustiças do mundo dos homens. Não dá para ficar indiferente aos acontecimentos surpreendentemente cruéis do final dessa obra. Sinceramente, não achei “A Captura” um romance de grande envergadura, principalmente para quem não é muito fã da literatura naturalista (como eu). Como material de estreia de um autor novato, beleza! Aí sim podemos dizer que ele possui certa qualidade e estilo. Porém, esse livro está muito longe de ser um grande título, merecedor de importantes honrarias literárias. Acredito que “A Captura” só conquistou o Prêmio Akutagawa por ter sido classificado como um conto. Como narrativa curta, ele é sem dúvida nenhuma espetacular. Trata-se de um drama inesquecível, capaz de chocar o leitor. Agora, chamá-lo de romance e apontá-lo como uma narrativa longa de grande qualidade me parece um duplo equívoco ou mesmo um exagero imperdoável. Em suma, como conto, “A Captura” é ótimo. Como novela, é bom. E como romance, é regular. Tudo depende de como você enxerga essa narrativa. Eu a vejo como uma boa novela (é longo demais para ser um conto e pequeno demais para ser um romance). O segundo livro de Kenzaburo Oe que vamos analisar no Desafio Literário de junho é sua obra mais famosa: “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras). Esse romance também possui elementos autobiográficos e retrata o drama de um professor de inglês abalado pela descoberta que seu filho recém-nascido possui sérios problemas cerebrais. O post desse título de Oe estará disponível no Bonas Histórias na próxima terça-feira, dia 9. Não perca as novidades do blog! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Filmes: Rock´n Roll, Por Trás da Fama - A comédia de Guillaume Canet

    No começo de maio, comentei na coluna Cinema do Bonas Histórias as novidades do Festival Varilux de Cinema Francês desse ano. Fiz isso no post de “A Excêntrica Família de Gaspard” (Gaspard Va Au Mariage: 2017), o mais recente filme do polêmico Antony Cordier. Com o fechamento das salas de cinema em nosso país, a organização do evento adiou para o segundo semestre a exibição da mostra de 2020 e lançou uma edição comemorativa online. Chamada de Festival Varilux em Casa, essa edição complementar apresenta um pot-pourri com cinquenta longas-metragens apresentados nas últimas edições. Assim, quem aguarda a chegada do novo festival fechadinho em sua residência pode assistir pelo site do evento aos títulos que perdeu nos últimos anos. Mesmo não sendo muito fã das plataformas de streaming, admito que estou matando as saudades da sétima arte com vários dos títulos do Festival Varilux em Casa. Nesse final de semana, por exemplo, conferi “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017), a comédia do ótimo Guillaume Canet. Canet tem se caracterizado por misturar, nos últimos anos, realidade e ficção em seus filmes e por protagonizar nas telonas as histórias que ele mesmo cria e dirige. Não por acaso, em “Rock´n Roll”, o diretor-ator junta essas duas características. Guillaume Canet interpreta a si mesmo em uma trama intimamente ancorada em sua biografia. A junção de realidade e ficção se intensifica ainda mais com a presença de Marion Catillard, atriz francesa que é a namorada de Canet na vida real. Nesse filme, ela também interpreta a si mesma, dando ainda mais verossimilhança à narrativa. Grande parte da graça e do charme dessa produção está justamente na mistura íntima entre o que é verdade e o que é invenção do seu roteiro. Não são apenas Guillaume Canet e Marion Catillard, os protagonistas, que se auto interpretam nesse longa-metragem. Quase todas as personagens são encenadas por suas versões verídicas: Philippe Lefebvre, Camille Rowe, Gilles Lellouche, Yvan Attal, Johnny Hallyday, Maxim Nucci, Kev Adams, Ben Foster, Andy Picco, etc. Muitas delas são figurinhas carimbadas do Bonas Histórias. No ano passado, por exemplo, analisamos “Um Banho de Vida” (Le Grand Bain: 2018), a criativa comédia de Gilles Lellouche na qual Guillaume Canet foi um dos intérpretes. Orçado em 18 milhões de euros, um valor elevado para o padrão europeu, “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” foi lançado em fevereiro de 2017 nos cinemas franceses e, no Brasil, integrou o Festival Varilux daquele mesmo ano. Apesar de ter conseguido um público superior a dois milhões de espectadores em seu país natal, o filme foi considerado um fracasso do ponto de vista comercial. Ele gerou um prejuízo na casa de 9 milhões de euros (metade de seu custo), o que representou a maior derrapada de Guillaume Canet à frente de um longa-metragem. Como prêmio de consolação, o ator foi indicado ao César de 2018 pelo papel desempenhado em “Rock´n Roll” – estatueta essa conquistada por Swann Arlaud em “O Pequeno Fazendeiro” (Petit Paysan: 2017). No enredo de “Rock´n Roll - Por Trás da Fama”, Guillaume Canet é um ator consagrado em seu país. Aos 43 anos de idade, ele estrela boas produções, é admirado pelo público, foi indicado ao último César, o Oscar francês, e tem uma condição financeira invejável. No momento, ele roda um filme em que interpreta o pai de Camille Rowe, atriz de 23 anos. Como Rowe, no filme dentro do filme, teve um garotinho, Guillaume é, portanto, avô de um recém-nascido em seu novo trabalho nas telas. Na vida particular, Guillaume Canet vive há anos com a namorada Marion Catillard, uma das principais estrelas do cinema europeu. O casal mora junto (apesar de não se considerar casado) e tem um filho, Lucien, de oito anos. Quase tudo parece em ordem para o protagonista de “Rock´n Roll”. Com exceção de um leve desconforto em um dos testículos, o ator tem uma rotina saudável, tranquila e agradável. Até que... Após uma entrevista para a imprensa cinematográfica, Canet fica indignado com a postura de uma jornalista que teria insinuado que ele não pertencia mais a nova geração de atores da França. Como assim?! Ele tenta argumentar que só tem 43 anos. Ela, então, tenta sair da saia-justa dizendo que ele não tem mais a imagem de garotão de outrora. Guillaume fica bravo e, após a entrevista, questiona sua colega, Camille Rowe, sobre a discussão com a jornalista. Camille concorda com a profissional da imprensa. Canet não é mais o garotão de duas décadas atrás. Segundo Camille, ele passa agora a imagem de um jovem senhor: casado, pai de família, com uma rotina assentada e dono de uma vidinha convencional. Aquelas palavras caem como uma bomba na cabeça do ator. Desejando readquirir a juventude perdida, Guillaume Canet passa a ansiar por uma atitude mais rock´n roll (essa é sua definição para o que deseja). Assim, ele tentará mergulhar no mundo das bebidas, das drogas, do flerte com os jovens, do sexo casual, das roupas da moda, da boemia e das festas descoladas de Paris. O objetivo, acima de tudo, é passar a imagem de um jovem inconsequente que aproveita os prazeres carnais da vida como se não houvesse amanhã. Não há nada pior, em sua visão, do que o símbolo do homem pacato, pai de família e que leva uma existência regrada e cumpridora de horários. Contudo, para o desespero de Canet, seu corpo dá sinais de que a nova vida pretendida não é mais para alguém da sua idade. Além disso, os profissionais do cinema francês, os amigos mais próximos e os familiares parecem querer fechar as portas para suas novas pretensões como artista e indivíduo. Ninguém entende sua necessidade por uma aparência e uma postura mais jovens. Por isso, o ator de meia idade irá romper com tudo e todos em busca da fórmula mágica da juventude eterna. Assim, é iniciado o processo de transformação física e mental que trará consequências inimagináveis para ele, seus colegas e sua família. “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” tem pouco mais de duas horas de duração. A mistura bem azeitada de ficção e realidade confere certo ar de documentário à produção. Porém, não nos esqueçamos: esse filme é uma mera ficção. Ele trata, ora com leveza encantadora, ora com acidez mordaz, um tema cada vez mais comum em nossa sociedade - a disputa desesperada dos homens vaidosos contra os efeitos da passagem do tempo em seus organismos. Não à toa, as transformações (ou seriam transmutações?) faciais e corporais que a personagem de Guillaume Canet passa no filme a deixa parecida a várias personalidades bizarras do nosso mundo artístico. Por exemplo, seu rosto adquire a aparência estranha da face de Nelson Rubens, de Diogo Vilela e de Walter Mercado (lembra dele?) depois das sucessivas plásticas (que, obviamente, todos eles sempre negaram). No caso do novo corpo de Canet, ele fica idêntico ao Marcos Mion, artificialmente bombado depois de chegar à meia-idade. Na mentalidade, as semelhanças são mais com Stênio Garcia, que insiste em parecer jovem aos quase 90 anos. Essas são algumas associações que me vieram agora à mente. Se você for procurar, na certa levantará facilmente mais uma dezena de artistas brasileiros reais que passaram pelo mesmo drama de Guillaume Canet. “Rock´n Roll” não é uma comédia que faça o espectador sair rolando de rir. O filme possui uma pegada mais de tragicomédia. Isso fica mais claro em sua metade final. As cenas mais engraçadas são aquelas que exigem certo repertório da plateia em relação à língua francesa (sotaque antigo de Quebec, por exemplo), à dinâmica da cidade de Paris (o que foi moda na década de 1980 e 1990 e que não existe mais por lá), ao panorama musical francês (dicotomia entre músicas bregas antigas e canções contemporâneas de sucesso), à biografia de Guillaume Canet e Marion Catillard (por exemplo, o fato de eles não serem casados no papel, mas viverem juntos há anos atiça a curiosidade da imprensa local) e à simbologia de algumas das personagens secundárias retratadas na trama (como o roqueiro Johnny Hallyday). Infelizmente, isso tudo passa batido pela maioria do público brasileiro, que não conhece tão detalhadamente a cultura francesa. Não é que o longa-metragem de Canet não seja muito engraçado. Somos nós que não entendemos muitas de suas piadas sutis (direcionadas especificamente para seus conterrâneos). O filme ganha em dimensão narrativa quando o enredo embarca nas divagações, nos sonhos e nos desejos da personagem principal. As brincadeiras entre realidade (dentro da ficção) e imaginação (o que o protagonista gostaria que fosse verdade) oferece boas cenas líricas e cômicas. Basta assistir a alguns minutos de “Rock´n Roll” para notar o desempenho extraordinário de Guillaume Canet e Marion Catillard. Não é possível tecer uma crítica completa sobre esse filme sem elogiá-los. Eles estão ótimos na difícil arte de interpretar a si mesmos. Só não entendi o porquê Guillaume foi indicado ao César de melhor ator e Marion não foi lembrada na categoria melhor atriz coadjuvante (chamada na França de atriz secundária). Em vários momentos, é ela quem rouba a cena, seja no aspecto cômico ou dramático. O principal ponto negativo desse longa-metragem está em seu desfecho. Ele é fraquíssimo! O desenlace é ingênuo, infantil, fútil e extremamente condescendente com as maluquices do protagonista de “Rock´n Roll”. Ao invés de jogar a versão ficcional de Guillaume Canet à realidade bruta e impiedosa da passagem do tempo, o roteiro mascara com tintas coloridas o destino dessa personagem. Ou seja, o epílogo é idílico e convenientemente raso. Achei-o bastante ridículo – uma afronta à inteligência dos espectadores. O único aspecto que se salva na parte final é (cuidado: aí vai um spoiler!) a crítica sutil ao cinema norte-americano e, por consequência, à cultura dos Estados Unidos, que valorizam muito mais a beleza estética de seus artistas do que o conteúdo deles. Repare nisso! Uma figura vazia conceitualmente como o protagonista desse filme, mas dono de um corpão admirável e de um rostinho juvenil, irá surfar por muitos anos ainda na América e no show business de lá. Hilário! Em suma, “Rock´n Roll - Por Trás da Fama” não é o melhor trabalho recente de Guillaume Canet. Mesmo assim, é interessante conferi-lo principalmente pela temática abordada. Se você olhar esse filme pela perspectiva de um drama cômico irá gostar mais do que se vir pelo lado de uma comédia dramática. Assista, a seguir, ao trailer de “Rock´n Roll - Por Trás da Fama”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: O Cachorrinho Samba – O início da série infantil de Maria José Dupré

    Chegamos ao sexto e último livro de Maria José Dupré deste Desafio Literário. Depois de analisarmos, nas últimas semanas, três romances adultos da autora paulista, “Éramos Seis” (Ática), “Gina” (Ática) e “Os Rodriguez” (Ática), e duas obras infantojuvenis, “A Ilha Perdida” (Ática) e “A Mina de Ouro” (Ática), vamos comentar hoje no Bonas Histórias uma publicação de sua literatura infantil. Neste final de semana, li “O Cachorrinho Samba” (Ática), o primeiro livro da série homônima produzida por Dupré ao longo de quase duas décadas. Nesta coletânea infantil, a escritora nascida em Botucatu coloca Samba, um Fox simpático e corajoso, como protagonista de suas tramas. O bichinho já havia estreado na ficção em “A Mina de Ouro”. Contudo, foi só a partir de “O Cachorrinho Samba” que o cãozinho foi alçado ao plano principal das histórias da autora. Não é errado dizer que ele se tornou a principal personagem da literatura jovem de Maria José Dupré. Curiosamente, Samba foi inspirado no próprio cachorrinho que a escritora teve. Não à toa, a proprietária do Samba na ficção é uma mulher chamada de Dona Maria, escritora que desenvolve romances adultos e narrativas infantojuvenis. Ou seja, quaisquer semelhanças entre a literatura e a realidade não são meras coincidências... Maria José Dupré usou sua imaginação para construir aventuras sob o ponto de vista do Fox. Nascia, assim, uma das mais originais e ousadas séries infantis da literatura brasileira. A magia da ficção permite que animais conversem entre si e que sejam humanizados nas páginas dos romances. O resultado é um debate aberto por parte dos bichos sobre questões como desigualdade social, liberdade, gratidão, amizade, fidelidade e amor. Incrível como uma escritora criativa consegue levar o leitor atento (e mais velho) a um patamar de discussão mais elevado e, ao mesmo tempo, instruir as crianças de uma maneira divertida e profunda. A literatura infantil de Dupré, portanto, pode ser direcionada para toda a família. Na certa, os adultos que leêm essas obras para a meninada também irão sair maravilhados dessas leituras. Publicado em 1949, “O Cachorrinho Samba” fez tanto sucesso na época de seu lançamento que seu protagonista deu origem a mais cinco obras. A série “O Cachorrinho Samba”, que foi traduzida para outros idiomas e lançada também no exterior, é completada por “O Cachorrinho Samba na Floresta” (Ática), de 1950, “O Cachorrinho Samba na Bahia” (Ática), de 1957, “O Cachorrinho Samba na Fazenda Maristela” (Ática), de 1962, “O Cachorrinho Samba na Rússia” (Ática), de 1963, e “O Cachorrinho Samba entre os Índios” (Ática), de 1966. Dessas tramas, a mais importante para Maria José Dupré foi “O Cachorrinho Samba na Rússia”. Esse título conquistou o Prêmio Jabuti de 1964 como melhor obra da literatura infantil. Ao lado do Prêmio Raul Pompéia recebido, em 1944, por “Éramos Seis”, o Jabuti de 1964 foi a principal honraria literária recebida pela autora em sua carreira. O livro “O Cachorrinho Samba” apresenta a chegada do Fox à casa de Dona Maria e do Doutor. É nesse lar que o cãozinho de apenas dois meses passa a morar. Completam esta família a menina Vera, filha de Dona Maria e do Doutor, e a Vovó. Dermina e Pedro são os funcionários da residência, que também é habitada por Whisky, um Vira-lata encrenqueiro que gosta de passear sozinho na rua. Assim que Samba é incorporado ao lar de Dona Maria, ele é bem-recebido por todos, que não se cansam de distribuir carinhos e afagos ao novo morador. O único que parece um pouco enciumado é Whisky. Porém, não demora muito até o Vira-lata se tornar amigo do Fox. Samba ganha esse nome porque sua chegada à casa de sua família acontece em fevereiro. Por ser época de Carnaval, os sambas entoam na maioria das estações de rádio. Por gostar de brincar e de pular, o cãozinho não para quieto. Vendo a animação do pequeno cachorrinho, os moradores da residência dizem que o Fox parece passar o dia dançando. Assim, não demora muito para todos passarem a chamá-lo de Samba. A vida de Samba na residência possui muitos prazeres diários. O cachorrinho pode brincar no quintal da casa, onde corre atrás de borboletas e de passarinhos. O pequeno animalzinho de estimação se diverte observando os bichinhos que transitam pelo jardim. O Fox tem uma alimentação muito boa. Dermina reserva parte da comida feita aos patrões para o cachorrinho. Ele também pode tirar longos cochilos no colinho da Vovó. À tarde, Samba faz sua caminhada pelas ruas do bairro. Ele é levado por Vera ou por Pedro em um passeio de coleira. O que mais um cachorrinho pode querer da vida, hein?! Samba sabe a boa-vida que tem na casa de Dona Maria. Por isso, ele fica intrigado com as reclamações que Whisky faz diariamente. O velho Vira-Lata vive inconformado por estar preso dentro dos muros daquela residência. Por isso, ele gosta de pular o portão e fazer longos passeio sozinho pelas ruas do bairro. Esse hábito de Whisky deixa todo mundo na casa muito preocupado. Uma vez fora do portão de seu lar, um cachorro fica sujeito a incontáveis perigos. Samba concorda com a visão dos seus donos sobre os perigos das ruas e não entende o comportamento arruaceiro de Whisky. Mesmo com as diferenças de opiniões sobre a vida canina, os dois cachorros se dão muitíssimo bem. Certo dia, Samba encontra o portão da sua casa aberto. Por mais que tenha medo de encarar sozinho os desafios do exterior, a curiosidade por dar um passeio sem coleira é mais forte. Assim, o cãozinho resolve dar uma voltinha pelas redondezas do bairro. Nessa caminhada, Samba encontra Cricri, um cão que mora na vizinhança. A dupla resolve perambular junta e conversar sobre a vida. Quando fica tarde, Cricri, que é mais velho e muito mais experiente nas saídas para a rua, decide retornar para seu lar. Samba, querendo se mostrar valente e descolado, resolve estender um pouco mais seu passeio, não retornando com o amigo. O problema é que logo escurece e o cãozinho de Dona Maria se perde. Sem encontrar o caminho de volta para sua casa, o Fox acaba vagando perdido pela cidade. É o início do drama de Samba. Ele precisará ser muito esperto para sobreviver aos perigos e as maldades da cidade grande. “O Cachorrinho Samba” possui 128 páginas, que estão divididas em 26 capítulos. Diferentemente de “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro”, que eram obras infantojuvenis, este livro de Maria José Dupré possui uma pegada mais infantil. São várias as descrições de cenas corriqueiras da vida canina: caçada às borboletas no jardim, conversa com Whisky, viagem com a família para o interior, brincadeira de pega-pega com as crianças e espera da volta dos donos das férias, por exemplo. Dessa maneira, este título é mais indicado às crianças (até dez anos) do que aos adolescentes. Li esta publicação em aproximadamente duas horas no último domingo. Como obra infantil, é inegável sua qualidade. Quem gosta de animaizinhos de estimação e adora apresentar narrativas literárias com bastante conteúdo para os jovens leitores, “O Cachorrinho Samba” é um livro excelente. Comparando com os títulos infantojuvenis anteriores de Maria José Dupré, “O Cachorrinho Samba” possui algumas semelhanças, mas também tem algumas importantes diferenças. As semelhanças são relativas ao enredo, ao tipo de narrador, à escolha das personagens e à atemporalidade da trama. Como já havia ocorrido com “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro”, temos novamente uma história em que o protagonista fica preso em um lugar perigoso e tem que encontrar sozinho (sem a ajuda dos adultos) um caminho de volta para sua casa. O narrador permanece sendo de terceira pessoa e do tipo observador. A maioria das personagens usadas neste livro, principalmente os integrantes da família de Dona Maria, já é velha conhecida dos leitores de Dupré. Quase todos já foram citados nas obras anteriores da escritora. E, por fim, temos mais uma vez uma trama atemporal. A história do Fox que se perde na rua continua atualíssima ainda hoje. A primeira grande diferença de “O Cachorrinho Samba” está no papel desempenhado pelas crianças da família. Se anteriormente Vera, Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Lúcia e Cecília eram protagonistas das tramas de Dupré, agora eles são meros coadjuvantes. O protagonismo passa a ser totalmente de Samba. O narrador cola no cachorrinho e acompanha todos os seus passos por onde ele vai. Outra mudança sensível é na velocidade da narrativa. Ao invés do ritmo ágil e com muitas ações de “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro”, “O Cachorrinho Samba” apresenta uma história muitíssimo mais lenta e com muitas descrições banais da rotina do cãozinho. Essa nova velocidade fica nítida já nos primeiros capítulos. A contextualização da chegada de Samba à nova residência leva intermináveis 50 páginas. Só a partir daí, estabelece-se o conflito do romance infantil (o protagonista faz um passeio sozinho na rua e não consegue voltar para casa). Ou seja, precisamos ler quase metade do livro para alcançarmos seu conflito. Vale lembrar que Dupré usou apenas quatro páginas (sim, eu disse quatro páginas!) para chegar a este mesmo ponto em “A Mina de Ouro”. Os dois aspectos que mais gostei deste livro foram as conversas entre os animais e a pegada de crítica social desses diálogos. Em muitos momentos desta leitura, recordei de “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), clássico de George Orwell que se utiliza desses dois expedientes. É legal saber que a fábula do inglês tinha sido lançada quatro anos antes da publicação de “O Cachorrinho Samba”. Muito provavelmente, Maria José Dupré conhecia a obra de Orwell e se inspirou nela para construir sua história voltada para o público infantil. A conversa entre os bichos permite que olhemos a vida do ponto de vista deles. Essa nova perspectiva abre caminhos para uma narrativa mais rica e inusitada. A crítica social surge quando os animais mostram as diferenças entre as famílias de humanos das classes altas e das classes baixas. Eles também expõem a maldade praticada pelos homens à natureza e aos bichos e a vida dura na rua. Por outro lado, os cachorros sabem valorizar a amizade, a gratidão, o amor e a fidelidade. Quem gosta de procurar passagens intertextuais nos romances lidos, “O Cachorrinho Samba” possui algumas. Há citações diretas a “A Montanha Encantada” e a “A Ilha Perdida”, duas obras infantojuvenis de Maria José Dupré. E há a menção a uma história real de um Akita japonês que esperava seu dono retornar do trabalho todos os dias na estação de trem. Essa trama se transformou recentemente em um filme protagonizado por Richard Gere, “Sempre ao Seu Lado” (Hachi - A Dog's Tale: 2009). Dos livros de Maria José Dupré desse gênero literário, “O Cachorrinho Samba” foi o único que eu não havia lido em minha infância/adolescência. Admito que gostei bastante desta obra e de sua proposta de promover a narrativa do ponto de vista do Fox. A perenidade da literatura infantojuvenil e infantil da escritora paulista é explicada fundamentalmente pela qualidade do material produzido. Com tramas ricas, atemporais e criativas e um estilo de escrita bastante moderno, os títulos de Dupré permanecem como ótimas opções de leitura para crianças e adolescentes do século XXI. Na próxima sexta-feira, dia 29, retornarei ao Bonas Histórias com a missão de fazer uma análise completa da carreira e da literatura de Maria José Dupré. A partir dos seis livros da autora comentados até agora no Desafio Literário, acredito já estar em condições para apresentar um compilado sobre o estilo literário e a trajetória profissional desta importante escritora brasileira do século XX. Não deixe de acompanhar o último post do nosso estudo sobre a literatura de Maria José Dupré. Até sexta, pessoal! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Os Rodriguez – O romance mais ácido de Maria José Dupré

    O tempo... Ah, o tempo! Ele pode ser cruel com pessoas, com objetos, com ideias e com organizações. E ele também pode ser implacável com as obras literárias. Há livros de grande qualidade que se tornam esquecidos do grande público com o passar dos anos. São vários os exemplos de publicações que saem do interesse do mercado editorial depois de uma, duas ou três gerações, mesmo mantendo um conteúdo relevante e interessante. Quando isso acontece, as editoras passam a não mais editar essas histórias, o que acentua ainda mais o processo de esquecimento delas. Aí, o leitor só consegue encontrar esses títulos em alguns sebos ou em boas bibliotecas espalhadas pelo país. Quando, obviamente, alguém se recorda de procurá-los. Estou falando neste post do Bonas Histórias sobre tal questão porque acredito que “Os Rodriguez” (Ática) se enquadra perfeitamente nessa categoria. O romance mais ácido de Maria José Dupré não tem uma nova edição desde o início da década de 1980. São quase 40 anos sem uma reedição. Pouco a pouco, infelizmente, este livro foi sendo esquecido e hoje ele pode ser classificado como um título desconhecido do grande público. É uma pena pois se trata de uma obra-prima da literatura brasileira. Publicado originalmente em 1946, “Os Rodriguez” é o quinto romance adulto de Dupré, a escritora paulista que está sendo analisada neste mês no Desafio Literário. Ele chegou às livrarias do país três anos depois de “Éramos Seis” (Ática) e um ano após “Gina” (Ática), os maiores sucessos da autora. Com uma figura arrogante, orgulhosa, racista, egoísta e avara no papel de protagonista da trama, esta história é a mais incômoda da carreira de Maria José. Se os principais títulos da autora são uma bofetada na cara dos leitores, “Os Rodriguez” é um murro violento que expõe os preconceitos, o falso moralismo e a leviandade de parte de nossa sociedade. Diferentemente de “Éramos Seis” e “Gina”, a história de “Os Rodriguez” não foi adaptada para as telenovelas. Isso talvez explique um pouco o seu esquecimento nas últimas décadas, apesar do seu sucesso nas livrarias do país entre os anos de 1940 e 1970. Infelizmente, o Brasil ainda é um país em que a popularização de uma obra literária passa muitas vezes por sua veiculação na televisão. Uma vez na TV, uma trama é lembrada por muito e muito tempo. Ah, o tempo! Não sei o porquê “Os Rodriguez” não ganhou uma versão televisiva já que possui todos os elementos de uma boa telenovela: personagens fortes, uma anti-heroína da pior espécie, dramas sem fim, conflitos contemporâneos, narrativa histórica que acompanha uma família por setenta anos e uma trama alicerçada na lição de moral. Dramaturgos atuais, vejam esta dica! Na época do seu lançamento, “Os Rodriguez” se tornou um dos grandes sucessos de Maria José Dupré. Em número de edições e de exemplares vendidos, ele só perde para “Éramos Seis” e “Gina” entre os romances adultos da autora. Foi por este motivo que o inseri na lista de títulos do Desafio Literário. Esta obra também foi traduzida para vários idiomas e lançada com êxito no exterior. Curiosamente, “Os Rodriguez” foi publicado no mesmo ano em que “A Mina de Ouro” (Ática), um dos best-sellers infantojuvenis de Dupré. A narrativa de “Os Rodriguez” começa com Dora Laura Vidal, a protagonista do romance, ainda menina. Aos nove anos de idade, ela morava na fazenda Boa Vista no interior do Estado de São Paulo com os pais. Filha temporona, a garota feia, fraca e pequena vivia sozinha e de maneira melancólica na propriedade rural. Seus irmãos mais velhos já tinham saído de casa e Dora não tinha nenhuma criança de sua idade para brincar. Mesmo assim, os tempos na fazenda Boa Vista eram bons e tranquilos para a família. Isso até uma nuvem de gafanhotos exterminar a plantação da fazenda, levando os pais da menina à falência. Sem dinheiro, não sobrou outra alternativa para a família do que vender a propriedade rural e se mudar para a cidade de São Paulo. Na capital, os pais de Dora compraram uma grande casa na Rua Marquês de Itu, no centro, e a transformaram em pensão. Enquanto viviam em um quartinho pequeno nos fundos do imóvel, eles alugavam os demais cômodos. Era assim que conseguiam dinheiro para se manter. A vida dura dos pais se tornou um estorvo para Dora à medida em que ela foi crescendo. A jovem sentia vergonha da sua pobreza e da sua feiura. Para completar, ela tinha profunda inveja da Tia Elisinha Rodriguez, uma rica moradora de um palacete na Rua Maranhão, em Higienópolis. Elisinha havia se casado há muitos anos com Paulo Rodriguez, um espanhol de origens aristocratas que possuía fábricas de tecidos em São Paulo e em Taubaté. A vida luxuosa da parte rica da família angustiava Dora, que odiava a Tia Elisinha e todos os Rodriguez. Já adolescente, Dora fazia de tudo para não visitar a residência da Rua Maranhão. Ela se sentia humilhada pela tia e pelos primos nos eventos sociais promovidos ali. Muitas vezes, a jovem invejosa conseguia escapar das festas em Higienópolis, mas em outras oportunidades ia arrastada pela mãe e pela avó, que gostavam de conviver com os parentes ricos. Expor sua aparência modesta e suas roupas simples para os Rodriguez era o pior suplício de Dora, ainda mais quando Alexandre Paulo Vidal Rodriguez estava por perto. O filho mais velho de Tia Elisinha e do Tio Paulo era o estereótipo do rapaz de ótimo berço: culto, bem-educado, bem vestido e de gosto apurado. Ciente da sua posição inferior, Dora odiava quando o primo mais velho ficava olhando-a. Na certa, pensava, ele estaria julgando sua pobreza e ridicularizando com os olhos a sua falta de beleza. O tempo foi passando e Dora concluiu a escola e o magistério. Pouco a pouco, seu corpo de menina deu lugar ao de uma mulher vistosa. Se não era uma moça muito bonita, ao menos a feiura havia ficado para trás. Uma vez professora, ela foi trabalhar no interior em uma escola pública. O salário da docente ajudava muito em casa. Os pais voltaram a morar em uma propriedade rural e lá a família levava uma vida extremamente simples. Para perplexidade de Dora, um dia Alexandre Rodriguez apareceu por lá para visitar os tios. O rapaz dizia estar na região para comprar propriedades, mas ele estava na verdade encantado com a beleza da prima. Os dois começaram a namorar. Quando Alexandre manifestou interesse em se casar com Dora, a Tia Elisinha entrou em desespero. Como assim seu filho rico e culto teria como esposa uma moça feia e pobre? O que a alta sociedade paulistana iria pensar ao ver um legítimo Rodriguez se juntando a uma pé-rapada?! Na certa, seria uma grande vergonha para a família aristocrata. Elisinha foi terminantemente contra o matrimônio entre os primos. Se Dora já a odiava, depois disso passou a não suportar a sogra. Digo sogra porque Alexandre e Dora acabaram se casando. O jovem casal se mudou para São Paulo. A vida de pobreza e de limitações da protagonista ficaram terminantemente para trás. Morando em um casarão, dona de ótimos e incalculáveis vestidos e possuindo joias raras, Dora passou a frequentar assiduamente os principais eventos da alta sociedade paulista. Se antes do casamento ela era uma zé-ninguém, agora ela era uma Rodriguez. A nova vida aflorou o lado orgulhoso da jovem. Com vergonha da pobreza dos pais, Dora Laura Vidal de Rodriguez passou a evitá-los o quanto podia. Além disso, no papel de esposa e de mãe de família (Alexandre e Dora tiveram quatro filhos: Lilian, Alexandre, Dorita e Paulo), ela tornou-se extremamente arrogante, racista e elitista. A riqueza transformou Dora em uma personagem profundamente antipática. Emergia, assim, a anti-heroína do romance, que iria atormentar a vida de todos os seus familiares dali para frente. “Os Rodriguez” é um romance histórico de 256 páginas. Essas páginas estão distribuídas em 15 capítulos. Li esta obra em três noites consecutivas. Comecei a leitura no domingo e a concluí na última terça-feira. Devo ter levado aproximadamente sete horas para ir do início ao fim deste livro. Admito que gostei muito do conteúdo de “Os Rodriguez”. Das publicações de Maria José Dupré, esta é, sem dúvida nenhuma, a que possui o conteúdo mais mordaz. Esta narrativa apresenta as falsidades, as maldades, os preconceitos, o falso moralismo e as futilidades da aristocracia burguesa da metade do século XX. Dora de Rodriguez é uma das mais cínicas, cruéis, orgulhosas e mesquinhas protagonistas da literatura nacional. É duro o leitor engolir as atrocidades cometidas por ela durante a trama. A vontade que dá é de estrangulá-la. Tem coisa melhor do que odiar intensamente a anti-heroína de uma história ficcional, hein?! O grande mérito de Maria José Dupré não está apenas na vilania da personagem principal. O mais legal deste romance é que o comportamento de Dora se torna quase idêntico ao de Tia Elisinha à medida que a história avança. Todas as características e hábitos que a moça pobre mais odiava na parente rica, ela incorpora com o tempo. Uma vez integrada à família Rodriguez e ao elevado padrão de vida, Dora passa a agir igual ou até mesmo pior do que a tia. Incrível perceber essa transmutação página a página. E para agravar ainda mais o quadro, quanto mais envelhece, Dora de Rodriguez fica ainda mais orgulhosa, egoísta e avara. Aí, quem sofrerá será seu marido, o bom e pacífico Alexandre. Os filhos e os netos do casal também passarão maus bocados nas mãos de Dora. “Os Rodriguez” é parecido a “Éramos Seis” e “Gina” ao retratar o drama de uma mulher de personalidade forte. O enredo do livro acompanha essa personagem ao longo de sua vida inteira. Assistimos, assim, à protagonista desde quando ela era uma menina simples do interior até sua velhice no Rio de Janeiro. Boa parte dos conflitos do romance está relacionada com a questão financeira. Esses conflitos não envolvem apenas a personagem principal, mas também sua família (pais, filhos, tios e primos). Outras semelhanças entre esses três romances são: boa parte de suas tramas são ambientadas na cidade de São Paulo; a morte dos patriarcas ocasionam graves crises financeiras nos seios familiares; os preconceitos da sociedade aristocrata são impiedosos com as personagens mais humildes dos livros; há graves brigas entre mães e filhos; e acompanhamos indiretamente vários episódios históricos durante as narrativas (neste caso específico, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Civil Espanhola). As particularidades de “Os Rodriguez”, por sua vez, são: a protagonista tem muitas características negativas (algo impensável em “Gina” e em “Éramos Seis”); não há a definição precisa dos anos em que a história se passa (é preciso fazer associações com eventos históricos para identificar a datação dos acontecimentos da vida de Dora); e a filha da protagonista é a boazinha da trama enquanto a protagonista é a mulher ruim (inversão do que aconteceu nos romances anteriores de Dupré). É difícil dizer qual é a melhor parte deste romance. A infância e a juventude complicadas da protagonista apresentam um conflito sensível e humano. A vida de riqueza e glamour de Dora de Rodriguez também expõe uma trama complexa e sutil. Contudo, para mim, o ponto alto da narrativa está em seu desfecho. O último capítulo de “Os Rodriguez” é simplesmente espetacular. Nele, Maria José Dupré consegue desnudar a psicologia da personagem principal. É nesse momento em que Dora consegue compreender o tipo de vida que levou e valoriza a filha que tanto desprezou. Incrível! O único aspecto negativo desta obra está em seu Foco Narrativo equivocado. Assim como já havia acontecido em “Gina”, “Os Rodriguez” tem um erro gravíssimo na maneira como sua história é relatada. O narrador em terceira pessoa acompanha Dora desde a primeira página. Ele não desgruda da protagonista, observando tudo o que ela faz, fala e pensa. Até aí beleza. Contudo, em determinado momento do livro, o narrador simplesmente esquece a personagem principal, passando a acompanhar Dorita, a filha desprezada da protagonista. Isso é um problema gravíssimo de Foco Narrativo. Depois de alguns capítulos colado à Dorita, o narrador larga a filha e volta a acompanhar a mãe. Juro que não entendi esse vai-e-volta. Adorei a trama ácida e incômoda de “Os Rodriguez”. Ao invés de sofrer com a protagonista, como ocorre normalmente nos romances adultos de Maria José Dupré, aqui o leitor sofre com o que a personagem principal apronta. Essa mudança de perspectiva acentua ainda mais o drama da narrativa e o torna em muitos momentos sufocante. Para quebrar o tom amargo da história, Dupré insere elementos de pura ironia. Eles são sutis, é verdade, mas são extremamente contundentes. O leitor fica de boca aberta toda vez em que se depara com algum comportamento contraditório de Dora ou presencia alguma passagem trágico-cômica dela. É uma pena que este romance tenha sido esquecido pelo grande público (e pelas editoras) com o passar das décadas. “Os Rodriguez” é uma obra espetacular e permanece sendo extremamente atual, mesmo depois de três quartos de século de sua publicação. Quem gosta de boa literatura, precisa conhecê-lo. O Desafio Literário de maio prossegue na próxima segunda-feira, dia 25. Nesse dia, o Bonas Histórias analisará o sexto e último livro de Maria José Dupré desse estudo. A obra em questão será “O Cachorrinho Samba” (Ática), um exemplar da literatura infantil da escritora paulista. Não perca as novidades deste Desafio Literário. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Mercado Editorial: As ficções mais vendidas no Brasil em 2019

    Em fevereiro, divulguei na coluna Mercado Editorial os dez livros mais vendidos no Brasil em 2019. Desde 2015, faço as medições dos sucessos editoriais e as divulgo no Bonas Histórias. Mensurar o êxito comercial das publicações é uma maneira de compreender tanto o que as editoras e os autores estão oferecendo de interessante quanto as nuances do gosto dos leitores. E mais uma vez tivemos, no topo do último ranking dos livros mais comercializados em nosso país, o predomínio de títulos de autoajuda, obras religiosas e produções de celebridades da Internet. Como sou apaixonado pela ficção literária, fiquei me perguntando quais seriam os best-sellers dessa categoria. Afinal, não tivemos nenhum romance, nenhuma novela e nenhuma coletânea de contos entre as obras mais vendidas no Brasil entre janeiro e dezembro de 2019. Durmamos com mais essa aterradora notícia sobre as preferências dos nossos conterrâneos. Para formular o novo ranking das ficções mais vendidas do Oiapoque ao Chuí, utilizei os dados do PublishNews, a fonte mais confiável atualmente do mercado editorial do nosso país. Segundo o PublishNews, dos dez livros ficcionais mais exitosos da última temporada, tivemos seis obras estrangeiras e quatro brasileiras. Apesar de ainda ser minoria, os títulos nacionais tiveram, em 2019, o melhor desempenho proporcional dos últimos cinco anos. Vale a pena lembrar que em 2018, do top 10 da ficção, apenas três foram títulos brasileiros. Em 2017 e 2015, a coisa foi pior: não tivemos nenhuma publicação nacional na parte mais alta desse ranking. E em 2016 e em 2014, tivemos, respectivamente, uma e duas obras brasileiras entre os dez mais vendidos. O romance mais comprado pelos brasileiros em 2019 foi “A Garota do Lago” (Faro Editorial), do norte-americano Charlie Donlea. Publicado nos Estados Unidos em 2016, este thriller policial chegou ao Brasil um ano mais tarde. Depois de apresentar ótima vendagem desde o seu lançamento, no ano passado as vendas desse título de Donlea explodiram de vez por aqui - foram mais de 90 mil unidades comercializadas. Em segundo lugar vem um velho conhecido da lista dos mais vendidos: Augusto Cury. Seu novo sucesso é “Prisioneiros da Mente” (HarperCollins), romance de 2018 que se aproximou de 70 mil unidades comercializadas no ano passado. Na sequência do ranking dos best-sellers da ficção, temos pouquíssimas novidades. “O Conto da Aia” (Rocco), de Margaret Atwood, “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt), de Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira, “O Homem de Giz” (Intrínseca), de C. J. Tudor, “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras) e “1984” (Companhia das Letras), ambos de George Orwell, são velhos frequentadores da lista dos maiores sucessos do PublishNews. Prova disso é que a maioria dessas obras já foi analisada na coluna Livros – Crítica Literária aqui no Bonas Histórias. Surpresa mesmo (positiva, claro!) foram os aparecimentos de “Eleanor & Park” (Novo Século), do norte-americano Rainbow Rowell (sétima posição com 37 mil exemplares vendidos), e “Essa Gente” (Companhia das Letras), de Chico Buarque (décima posição com 27 mil unidades comercializadas). Apesar de veteranos no ofício, os dois escritores debutaram no ano passado nas primeiras posições. Muito legal ver o trabalho literário de Chico sendo reconhecido também pelos leitores após a conquista do Prêmio Camões. Veja, a seguir, o ranking dos 10 livros ficcionais mais vendidos no Brasil em 2019, segundo o PublishNews: 1º) “A Garota do Lago” (Faro Editorial) - Charlie Donlea (Estados Unidos) - 94 mil unidades vendidas. 2º) “Prisioneiros da Mente” (HarperCollins) - Augusto Cury (Brasil) - 69 mil unidades vendidas. 3º) “O Conto da Aia” (Rocco) - Margaret Atwood (Canadá) - 60 mil unidades vendidas. 4º) “Textos Cruéis Demais para Serem Lidos Rapidamente” (Globo Alt) - Igor Pires da Silva e Gabriela Barreira (Brasil) - 58 mil unidades vendidas. 5º) “O Homem de Giz” (Intrínseca) - C. J. Tudor (Inglaterra) - 52 mil unidades vendidas. 6º) “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras) - George Orwell (Inglaterra) - 45 mil unidades vendidas. 7º) “Eleanor & Park” (Novo Século) – Rainbow Rowell (Estados Unidos) - 37 mil unidades vendidas. 8º) “Textos Cruéis Demais Para Serem Lidos Rapidamente: Onde Dorme o Amor” (Globo Alt) - Igor Pires da Silva, Gabriela Barreira, Leticia Nazareth e Malu Moreira (Brasil) - 37 mil unidades vendidas. 9º) “1984” (Companhia das Letras) - George Orwell (Inglaterra) - 28 mil unidades vendidas. 10º) “Essa Gente” (Companhia das Letras) - Chico Buarque (Brasil) - 27 mil unidades vendidas. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: A Mina de Ouro – A aventura infantojuvenil de Maria José Dupré

    Um dos livros mais marcantes da minha infância foi “A Mina de Ouro” (Ática), romance infantojuvenil de Maria José Dupré. Grande sucesso da autora nascida em Botucatu em 1905, este título integra a Série Vaga-Lume, muito provavelmente a mais bem-sucedida e longeva coleção editorial do Brasil quando o assunto é literatura jovem. “A Mina de Ouro” é o quarto livro de Dupré que leio e analiso neste mês no Desafio Literário. Até agora, já foram comentados no Bonas Histórias “Éramos Seis” (Ática), romance histórico de 1943, “A Ilha Perdida” (Ática), livro infantojuvenil de 1944, e “Gina” (Ática), drama de 1945. Nas próximas semanas de maio, ainda virão posts sobre “Os Rodriguez” (Ática), romance adulto de 1946, e “O Cachorrinho Samba” (Ática), trama infantil de 1949. Passadas quase três décadas da primeira leitura de “A Mina de Ouro”, ainda me recordava com certa exatidão do drama das crianças presas em uma caverna no Morro do Jaraguá. Por que esta obra ficou em minha memória de maneira quase intacta enquanto outras lidas no mesmo período foram totalmente esquecidas?! Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a narrativa criada por Dupré é excelente. E, depois, eu morava quando garoto em uma casa que dava vista para o Pico do Jaraguá (meus pais ainda moram por lá). Subir o morro sempre foi um dos mais divertidos passeios de minha infância e de minha adolescência. Juro que muitas vezes ia para lá torcendo para ficar preso em uma caverna como as personagens de Maria José Dupré (algo que nunca ocorreu...). Confesso, agora envergonhado, que achava excitante quando a televisão noticiava que um grupo de jovens tinha ficado perdido no meio da floresta do Parque Estadual do Jaraguá por alguns dias. Eita pessoal sortudo, pensava eu com meus botões. Por isso, para mim, “A Mina de Ouro” foi uma leitura meio que catártica. O livro expressava o sonho de aventura que um menino tímido como eu poderia passar perto de casa... Feita essa pequena retrospectiva e entendido o valor sentimental deste título para mim, não é difícil imaginar minha empolgação ao poder lê-lo pela segunda vez, agora adulto. Surpreendentemente, “A Mina de Ouro” continua, assim como “A Ilha Perdida”, sendo uma obra emocionante e atemporal. Em poucas páginas e de maneira direta, Maria José Dupré construiu uma narrativa com muito mistério, bastante ação e várias surpresas. Dificilmente um jovem hoje em dia não irá curtir uma leitura como esta. Publicado pela primeira vez em 1946, “A Mina de Ouro” é a quarta narrativa infantojuvenil desenvolvida pela autora paulista. Assim como aconteceu com as obras anteriores de Dupré deste gênero literário, “Aventuras de Vera, Lucia, Pingo e Pipoca” (Saraiva), de 1943, “A Ilha Perdida” e “A Montanha Encantada” (Ática), de 1945, “A Mina de Ouro” acompanha as peripécias da criançada de uma mesma família: Henrique e Eduardo, protagonistas de “A Ilha Perdida”, Vera, colocada em primeiro plano em “Aventuras de Vera, Lucia, Pingo e Pipoca”, e Cecília, Quico e Oscar, coprotagonistas de “A Montanha Encantada”. A novidade agora é que a trupe tem a companhia do simpático e corajoso cachorrinho Samba. Ele substitui Pingo e Pipoca, os cachorrinhos de Vera e Lúcia, que participaram das narrativas anteriores. Ou seja, em todas as histórias da escritora, a meninada está acompanhada de algum bichinho de estimação (no caso de “A Ilha Perdida”, os animais são silvestres, mas ainda sim adquirem o status de bichos de estimação). Com o sucesso de “A Mina de Ouro”, Samba ganhou grande destaque na literatura infantojuvenil de Maria José Dupré. O cãozinho deu início a uma coletânea própria de novas histórias direcionadas às crianças. A série “Cachorrinho Samba” foi escrita ao longo de duas décadas e possui seis livros: “O Cachorrinho Samba” (Ática), de 1949, “O Cachorrinho Samba na Floresta” (Ática), de 1950, “O Cachorrinho Samba na Bahia” (Ática), de 1957, “O Cachorrinho Samba na Fazenda Maristela” (Ática), de 1962, “O Cachorrinho Samba na Rússia” (Ática), de 1963, e “O Cachorrinho Samba entre os Índios” (Ática), de 1966. Desses títulos, o mais marcante foi “O Cachorrinho Samba na Rússia”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1964 na categoria de melhor obra de literatura infantil. Há quem opte por colocar “A Mina de Ouro” como um dos títulos da série “O Cachorrinho Samba”. Segundo essa concepção, este livro seria o primeiro volume da coletânea. A Editora Ática fez isso quando relançou, no início dos anos de 2000, as principais obras infantojuvenis de Dupré em uma nova edição com um belíssimo projeto gráfico. Em minha visão, trata-se de um grande equívoco esse tipo de classificação. O famoso cachorrinho, a principal personagem da literatura infantojuvenil de Maria José Dupré, só se tornaria protagonista das narrativas da autora no livro “O Cachorrinho Samba”, esse sim o primeiro livro da série homônima. Em “A Mina de Ouro”, ele é um dos coprotagonistas. O bichinho divide a cena de igual para igual com os meninos e as meninas de sua família. Por isso, não podemos colocar esse livro como um título da coleção. No mesmo ano em que “A Mina de Ouro” foi lançado, chegou às livrarias brasileiras “Os Rodriguez”, romance adulto de Dupré. Durante toda a sua carreira literária, a paulista intercalou lançamentos de obras adultas com infantis. Em alguns momentos, principalmente na década de 1940, quando sua produção literária atingiu o ápice, ela lançou no mesmo ano um livro para o público maior de idade e outro livro para o público menor de idade. Isso ocorreu, além de 1946, em mais três oportunidades: 1943, 1945 e 1949. Vale a pena lembrar que mais da metade das obras da escritora, onze dos seus vinte títulos, foram publicados na década de 1940. Dessa forma, muitos lançamentos foram quase que simultâneos. “A Mina de Ouro” começa com os preparativos de Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera e Cecília para um piquenique no Morro do Jaraguá em um domingo de abril. O sexteto formado por primos de onze a quatorze anos decide levar também o cachorrinho Samba, que além de fazer companhia à criançada poderá protegê-los. Dessa forma, ainda de madrugada, a turminha acorda cedo e é levada de carro pelo Padrinho até a base do parque estadual da Zona Oeste da cidade de São Paulo. O combinado é que a garotada passe o dia caminhando sozinha pela montanha e esteja de volta no finalzinho da tarde no ponto de encontro estipulado pelo Padrinho. Assim, poderão regressar para a casa de carro em segurança e sem problema. O passeio dos primos começa muito divertido. A meninada caminha pela montanha aproveitando as belezas da natureza. Na hora do almoço, eles param e fazem a refeição levada por eles em cestos. No piquenique, comem os sanduíches preparados pelos pais e bebem água e refrigerante. Até esse momento, o domingo está sendo excelente. Na hora de prosseguir com o passeio, a turminha encontra algo extraordinário atrás de uma pedra: um buraco grande no chão. Curiosos para saber aonde aquele caminho leva, as seis crianças e o cachorrinho descem pela fenda no solo. Ali, encontram uma caverna subterrânea. Com a ajuda da lanterna levada por Henrique, o mais velho dos primos e, por isso, nomeado líder da expedição, os meninos e as meninas descem as escadas que levam à caverna. É o início da aventura que ganha tons perigosos quando as crianças, em meio à escuridão, não encontram, depois de alguns minutos de caminhada, o caminho de volta para a superfície. Sem eles perceberem, a caverna tinha várias passagens ao estilo de um labirinto. Para desespero de todos, eles acabam presos no subsolo da montanha. Enquanto tentam achar a saída da caverna, Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera, Cecília e Samba encontram uma mina de ouro (daí o nome do livro!). O subsolo do Morro do Jaraguá é riquíssimo em pedras preciosas. Porém, aquela descoberta em nada servirá se eles não encontrarem um jeito para sair dali. A situação piora sensivelmente para as crianças quando a comida e a bateria da lanterna de Henrique acabam. Para agravar ainda mais a condição já calamitosa do grupo, barulhos estranhos são ouvidos pela garotada o tempo inteiro. Seria aquele túnel subterrâneo moradia de algum animal perigoso? Como os meninos farão para sobreviver no interior da caverna? Conseguirão eles avisar o Padrinho do perigo em que estão metidos? Esses são os maiores desafios que as personagens desta trama precisam encarar. “A Mina de Ouro” possui 136 páginas. O livro está dividido em trinta capítulos. Um adulto consegue ler este romance em algumas horinhas. Eu, por exemplo, gastei aproximadamente duas horas para concluí-lo na última sexta-feira à noite. Obviamente, uma criança e um adolescente percorrem todas as páginas da obra em um ritmo mais lento. Dependendo da idade do jovem leitor, será preciso mais de um dia para ele finalizar esta leitura. Como é típico dos romances infantojuvenis de Maria José Dupré, “A Mina de Ouro” é narrado em terceira pessoa. O narrador é do tipo observador que conhece apenas o que as personagens a sua volta veem. Ele não desgruda do grupo de meninos em nenhum momento da história. Esse recurso potencializa ainda mais o suspense da trama. Portanto, não estamos falando aqui de um narrador onisciente e onipresente. De certa forma, os ingredientes narrativos utilizados por Dupré para a construção de “A Mina de Ouro” foram similares aos usados para o desenvolvimento de “A Ilha Perdida”. Afinal, mais uma vez temos os meninos de uma mesma família presos em um lugar isolado e inabitável. Longe dos adultos, as crianças padecem de fome, frio e medo. Elas precisarão usar a inteligência, a coragem e o trabalho em equipe para sobreviver em um local aparentemente inóspito. Também precisarão encontrar uma saída que os leve de volta à “vida normal”. Se antes isso acontecia em uma ilha aparentemente inabitável, agora a trama se passa em uma caverna misteriosa. Esse receituário narrativo é criado a partir do ritual do sobrevivente/náufrago. Nesse tipo de narrativa, a(s) personagem(s) precisa(m) passar por algumas etapas: encontrar água, localizar um ponto seguro para pernoitar, fazer/manter fogo, achar comida e, por fim, descobrir uma saída. Qualquer história bem-construída sobre sobreviventes/náufragos obedece obrigatoriamente a essa sequência lógica tanto na literatura quanto no cinema. E Maria José Dupré respeita essas etapas em sua trama. Um leitor atento perceberá claramente essas divisões na narrativa de “A Mina de Ouro”. O uso desse expediente por parte da autora é o que confere verossimilhança à sua história. Por mais que encontremos uma ou outra passagem mais forçada (crianças fazem fogo, aprendem rapidamente a pescar, sabem cozinhar e escolhem as folhas certas para fazer chá), a sensação final do leitor é de estar lendo um conflito narrativo genuíno e intenso. Outras características deste livro que precisam ser elogiadas são o ritmo veloz das ações e o clima permanente de mistério da trama. Por essas duas perspectivas, podemos dizer que “A Mina de Ouro” é um romance infantojuvenil impecável e com uma proposta extremamente atual. Dupré se mostra uma escritora moderna ao produzir histórias atemporais e com uma estética contemporânea (velocidade e mistério em doses cavalares). Incrível notar que ela fez isso há aproximadamente 75 anos. A literatura de Maria José é tão moderna que não duvido que haja leitores desavisados que acreditem estar diante de uma autora e de um livro do final do século XX. “A Mina de Ouro” é uma obra tão boa porque o tempo inteiro está acontecendo alguma coisa que atrai a atenção do leitor. O ritmo da narrativa é alucinante. Isso fica evidente já no começo da publicação. Entre os preparativos do piquenique da criançada e o encontro da caverna no meio da montanha são necessárias apenas quatro páginas. Quatro páginas, eu disse! E uma vez embaixo da terra, as personagens se metem em incontáveis aventuras. A impressão que temos é que de um capítulo para outro muita coisa muda. Há sempre alguém sumindo, um novo barulho despertando a curiosidade e o medo da turminha, um novo plano para a fuga e a necessidade de se resolver imediatamente algum problema diferente (fome, frio, fogo, sede, etc.). Ao mesmo tempo que a trama avança em meio a incontáveis cenas de ação e de aventura, temos a perpetuação do clima de suspense. Isso é mais um dos elementos que dão força e charme a esta narrativa. O mistério permanecerá até o final do romance, quando serão devidamente explicados. O leitor acaba ficando com o coração na boca por quase todo o livro. Saiba que será difícil desgrudar dessas páginas até chegar ao desfecho da história. E por falar em final, o desenlace deste romance possui uma pegada meio filosófica. Se em “A Ilha Perdida” tínhamos uma proposta de defesa ao meio ambiente e de gratidão pela ajuda do próximo, em “A Mina de Ouro” a questão é sobre o amor à vida. Afinal de contas, o que é mais importante para uma existência saudável e feliz? Como lição de moral, acredito que este livro de Dupré enriqueça a formação pessoal de crianças e adolescentes por falar de liberdade e da busca pelo enriquecimento a qualquer custo. O debate proposto, apesar de parecer um tanto batido para um leitor adulto (que obviamente não é o público-alvo deste tipo de material), é salutar quando direcionado ao público mirim. Gostei também do “novo” projeto gráfico da Coleção “Cachorrinho Samba” desenvolvido pela Editora Ática no início dos anos 2000. Usei a palavra “novo” na frase anterior porque estava acostumado com a edição da década de 1980 e 1990 da série Vaga-lume, quando li pela primeira vez boa parte das histórias produzidas por Maria José Dupré. Na “nova edição” de “A Mina de Ouro“, temos muito mais ilustrações e um projeto gráfico mais compatível com o público-alvo da obra. Como pontos negativos deste romance, temos a construção apenas de personagens planas (uma marca da literatura infantojuvenil de Dupré) e a forçação de barra em algumas passagens da narrativa (algo até esperado em se tratando de uma trama de aventura infantil). Quanto à primeira questão, Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera e Cecília não possuem, por exemplo, defeitos que atrapalhem o convívio do grupo no ambiente fechado. Todos eles são pessoas perfeitas. É difícil conceber algo assim. Quem assistiu a qualquer reality show de confinamento sabe disso! Os comportamentos e as atitudes dos meninos e das meninas são sempre impecáveis (nota 10 para eles o tempo inteiro e em todos os quesitos). Ao longo dos dias de prisão na caverna, não assistimos a nenhum deslize de ninguém. Difícil acreditar nisso, né?! Quanto à forçação de barra, me parece pouco crível as crianças (cuidado: aí vai um grande spoiler!) só conseguirem sair da montanha depois de esvaziarem seus bolsos que estavam repletos de barra de ouro. Como assim, alguém fica mais fino quando esvazia os bolsos?! Sinceramente, achei absurda a relação entre conseguir passar por uma fenda e tirar tudo do bolso. Uma autora com o talento e a criatividade de Dupré poderia ter pensado em algo mais factual. Além disso, há outras pequenas passagens que não são compatíveis com o restante da narrativa. Como crianças corajosas e inteligentes que enfrentam um milhão de desafios (fazem fogo, sabem cozinhar e são peritas em pescar, por exemplo) podem pensar que as luzes de dois vaga-lumes (mais um spoiler, cuidado!) são os olhos de um monstro! Difícil conceber algo assim, ainda mais no final da história. Mesmo com uma ou outra escorregadinha de ordem narrativa, “A Mina de Ouro” continua sendo uma leitura deliciosa até hoje para crianças e adolescentes. Não à toa, ele é o meu romance favorito da Série Vaga-lume. Na próxima quinta-feira, dia 21, irei analisar no Bonas Histórias o quinto romance deste Desafio Literário. A obra em questão será “Os Rodriguez” (Ática), narrativa adulta de Dupré lançada no mesmo ano que “A Mina de Ouro”. Não perca a continuação do estudo da literatura de Maria José Dupré! Até semana que vem. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Gina – O romance mais ousado de Maria José Dupré

    Neste final de semana, li mais um livro do Desafio Literário de maio. Após “Éramos Seis” (Ática) e “A Ilha Perdida” (Ática), eu me aprofundei, desta vez, na leitura de “Gina” (Ática). Este é o quarto romance adulto lançado por Maria José Dupré, a escritora paulista que está sendo analisada neste mês pelo Bonas Histórias. Esta obra também é uma das mais famosas da carreira da autora nascida em Botucatu no início do século XX. Depois de “Éramos Seis”, indiscutivelmente o maior sucesso de Dupré, “Gina” é a sua história mais comovente e forte. Além disso, esta publicação é a que apresenta um dos enredos mais ousados da literatura brasileira da primeira metade do século XX. Afinal, colocar como heroína de uma trama ficcional, em plena década de 1940, uma moça que recaí à prostituição para fugir da pobreza extrema não era algo nada habitual. Por isso, a coragem de Maria José na construção de sua protagonista e no desenvolvimento deste drama singular. Para muita gente, eu me incluo neste grupo, este é o melhor trabalho de Dupré na ficção adulta. Assim como aconteceu com “Éramos Seis”, transformado em telenovela pela Tupi em 1977, o livro “Gina” foi adaptado para a TV. A Rede Globo ficou impressionada com o sucesso da telenovela lançada pela Tupi e decidiu gravar outro romance de Maria José Dupré em 1978. A versão televisiva de “Gina” foi escrita por Rubens Ewald Filho e teve Christiane Torloni no papel da protagonista. Curiosamente, em pleno horário da novela das seis (quando a família inteira estava reunida em casa ou estava chegando ao lar) e em plena Ditadura Militar (na qual a censura era implacável), a mais popular emissora do país resolveu adaptar um dos romances mais polêmicos da literatura nacional. Como consequência, os livros de Dupré alcançaram, nesta época, o auge de popularidade, sendo discutidos nas ruas e pelos telespectadores do Brasil inteiro. Incrível notar como foi possível um enredo tão delicado como “Gina” ganhar o horário nobre da grade da TV. Tal decisão teria sido uma aposta arriscada da Rede Globo atrás de audiência e/ou um deslize dos órgãos de censura da época? A década de 1970, vale a pena lembrar, foi um dos períodos mais conservadores do nosso país. Com medo da reação negativa do público (e da opinião das autoridades de Brasília), a telenovela “Gina” sofreu tantas alterações em relação ao texto original do romance que acabou totalmente descaracterizada. Maria José Dupré não se cansou de reclamar das mudanças promovidas pela emissora carioca. Para a escritora paulista, sua história foi completamente desfigurada quando levada às telas das casas dos brasileiros. Publicado em 1945, o livro “Gina” foi baseado em uma história real. Dupré conheceu uma mulher muito bonita que lhe bateu à porta dizendo que precisava narrar sua vida. Por educação, a escritora começou a ouvir o relato da desconhecida, que garantia que seu passado difícil daria um bom romance. A mulher vinha de uma família miserável e ainda tinha sido perseguida pela mãe e pela irmã mais velha. Como era jovem e bela, a única alternativa da Gina real (que obviamente tinha outro nome fora da ficção) para superar a pobreza e a fome foi aceitar a companhia e os agrados dos homens ricos da cidade de São Paulo. Assim, seus tempos de dificuldade financeira ficaram para trás. Por outro lado, ela passou a ser malvista pela sociedade paulistana, que não aceitava uma mulher de vida fácil circulando entre os seus. Estupefata com o que ouviu da visitante, Maria José Dupré escreveu seu livro mais original e contundente. Realmente, aquela história deu um belíssimo romance. Em termos de drama e de força narrativa, “Gina” é até mais intenso do que “Éramos Seis”. Perto das dificuldades passadas por Gina, os problemas vivenciados por Dona Lola parecem agora simples e corriqueiros. Incrível essa mudança de ponto de vista! A trama de “Gina” inicia-se em 1902. Uma família pobre se muda do porão do cortiço da Rua Antiga Amélia para um apartamento alugado na Rua São Caetano, no bairro da Luz, em São Paulo. Tal família é constituída por Pasquale Franceschini, um italiano que dá aulas de escultura no Liceu de Artes e Ofícios, e por Julica Torres, uma dona de casa nascida no interior do Estado. Ela é vinte e cinco anos mais jovem do que o marido. Ambos possuem uma filha, Georgina, de oito anos. A menina é chamada por todos de Gigina ou simplesmente por Gina. Julica ainda tem uma filha mais velha, Zelinda, do primeiro casamento. A garota de 14 anos vive com a mãe e odeia a irmã mais nova. A vida na casa dos Franceschini é muito difícil. O salário do Professor Pasquale mal dá para as despesas básicas. Por isso, sempre falta comida na mesa e as meninas andam com roupas e sapatos rotos. Para ganhar uns trocados, Dona Julica aproveita a ausência do marido para se deitar com homens da vizinhança em sua cama. Nessa hora, ela tira as filhas de casa e as proíbe de entrar enquanto o visitante estiver por lá. Resignadas, as meninas só conseguem ouvir os urros vindos do lado de dentro da residência. Nos dias de chuva e de frio, elas têm que permanecer no relento custe o que custar. A infância de Gina é um grande tormento. Além da fome e do frio constantes e de sua aparência de indigente, a garota sofre a humilhação das crianças do bairro e a falta de carinho dentro de casa. Sem poder ir para a escola (os pais não se preocupam em matriculá-la), Georgina é alvo de chacota da meninada da vizinhança que a chama de burra e analfabeta. No lar, a rotina não é nada diferente. Dona Julica é uma mulher insensível, implacável e egoísta. Ela parece se interessar unicamente pela companhia de Giacomo, o amigo da família que a visita frequentemente. Na ausência do parceiro vespertino de cama, a mãe dá atenção apenas à filha mais velha, a sua favorita, desprezando Gina. A caçula também é maltratada e xingada constantemente por Zelinda. O único que parece dar alguma atenção e afeição à Georgina é o seu pai. O Professor Pasquale é louco pela filha e sempre que possível tenta agradá-la. O problema é que ele fica pouco em casa e quase não tem dinheiro. Assim, fica complicado para oferecer uma vida digna à sua família e à filhinha do seu coração. Se as coisas já eram difíceis na infância, elas se tornam insustentáveis quando Gina chega à adolescência. A doença e a morte de Pasquale Franceschini transformam sua família pobre em um clã miserável. Dona Julica não tem dinheiro para sustentar sozinha as duas filhas, por mais que queira receber muitos visitantes em sua casa. A chegada da idade e a perda da beleza espantam os homens que outrora a procuravam. Nesse cenário de grande escassez, Zelinda e Gina são obrigadas a trabalhar logo cedo. Zelinda, a mais velha, arranja um bom emprego na Companhia Telefônica, sendo o único sustento da casa. Gina, por outro lado, não dá sorte em arranjar trabalho. Por mais esforçada que seja, a jovem só arranja serviço como vendedora de rua. E no contato com as pessoas pela cidade, ela acaba sendo alvo constante do assédio masculino. A beleza de Gina chama à atenção dos homens que passam a se insinuar descaradamente para ela. Tímida e honrada, ela foge de todas as investidas. Em alguns casos, a jovem é obrigada a recorrer à força para escapar das tentativas de estupro. Assustada com a violência, Georgina não fica muito tempo nos empregos de vendedora. Sem conseguir dinheiro, Gina é alvo de humilhação também dentro de casa. Dona Julica e Zelinda não se cansam de jogar na cara da moça o quanto ela é uma imprestável. Sem alternativa e desesperada para conseguir uma grana, Gina aceita os conselhos de Pascoalina, sua melhor amiga. Para Pascoalina, uma moça tão bonita quanto Gina precisa aceitar os cortejos feitos pelos homens ricos da cidade. E, assim, ela começa a sair com os endinheirados de São Paulo. Georgina transforma-se, do dia para a noite, na amante de homens casados. Os mais empolgados prometem dar à bela jovem casa própria, conforto, joias, roupas caras e luxos inimagináveis. Os tempos das vacas magras ficam definitivamente para trás. Gina torna-se extremamente rica e passa a ajudar não apenas sua família como os amigos mais próximos. A generosidade da moça não tem limites. Se ela vira uma heroína para os conhecidos, ela também passa a ser malvista pela sociedade paulistana, implacável com as mulheres de vida fácil. Essa questão se tornará um grande problema quando Gina se apaixonar pela primeira vez. Seu amado e a família dele aceitarão o comportamento polêmico da moça? Essa é a grande dúvida que atormenta a personagem principal da narrativa ficcional. Apesar da riqueza, do conforto material e da beleza, o drama de Gina continuará e se intensificará ao longo dos anos. Seu passado de imoralidade irá persegui-la sempre, atormentando-a para onde ela for. Georgina conseguirá ser feliz algum dia depois de ter tomado a decisão de enriquecer de maneira polêmica?! Este romance de Maria José Dupré tem 352 páginas e possui 22 capítulos. O livro está dividido em três partes. Na primeira, acompanhamos o período de pobreza de Gina e de sua família de 1902 a 1909. Na segunda parte, a protagonista, então com 17 anos, aparece rica e com amantes endinheirados. O drama agora está no fardo que a família interesseira representa para Gina e nas dificuldades que os assuntos sentimentais proporcionam à moça. A fama adquirida não a ajudará em nada a contornar os preconceitos sociais. A história se passa, agora, de 1912 a 1915. E, por fim, a última parte da obra é reservada à vida de casada de Georgina. A trama vai de 1920 à primeira metade da década de 1930. Se ao mesmo tempo em que adquire a tranquilidade da maturidade e tem um matrimônio feliz, a heroína sofrerá com os velhos pesadelos de seu passado. A forma como enriqueceu na juventude irá persegui-la implacavelmente. Aos olhos do povo, uma meretriz será sempre uma meretriz. O peso desse rótulo será mais enfadonho quando Gina se tornar uma mulher casada e com filhos. O que sua família dirá no instante em que esse assunto chegar aos seus ouvidos? “Gina” é o tipo de romance histórico que parece dar vazão aos dramas mais intensos de sua protagonista. Quando você acha que os sofrimentos e as dificuldades da personagem principal vão ficar para trás, novos e mais complicados aparecem na trama. Portanto, temos uma sucessão interminável de dissabores de todos os tipos. Se você for ler este livro, prepare seu espírito e seu coração para encarar uma história com mais de 300 páginas de tristeza e de tensão dramática. Sem dúvida nenhuma, temos aqui uma obra literária dirigida para leitores corajosos! A narrativa possui incontáveis passagens de violência, pobreza, doença, maldade, injustiça e descaso. Para quem adora uma boa intriga dramática, “Gina” é um prato cheio. A realidade apresentada por Maria José Dupré é nua e crua. Ao mesmo tempo em que a escritora mostra explicitamente cenas fortíssimas (tentativa de estupro, criança passando frio e fome, acidente fatal no circo, ataque de loucura do pai, etc.), ela também sabe ser sutil quando precisa. Essa segunda característica fica mais evidente, por exemplo, quando Gina e sua mãe recebem visitas masculinas em casa, quando as personagens questionam a paternidade de Georgina ou mesmo quando Dona Julica dá diferentes versões sobre a origem de sua família no interior paulista. Seria tão errado assim se encontrar com homens em casa? Seria mesmo o Professor Pasquale o pai verdadeiro de Gina?! E a mãe da protagonista estaria mentindo sobre o passado de seus familiares? Esses pontos aparecem delicadamente no texto, exigindo uma atenção maior do leitor para entendê-las. Gostei desse expediente narrativo. Se algumas partes da história fossem expostas de maneira muito direta (prostituição, infidelidade conjugal e vergonha dos antepassados), elas poderiam assustar os leitores mais conservadores. Aí, o romance corria o risco de se tornar inviável comercialmente. A grande temática envolvendo “Gina” está no falso moralismo da sociedade brasileira da metade do século XX. De forma astuta, Dupré apresenta essa questão sob dois pontos de vista complementares: o micro e o macroambiental. Dona Julica não aceita que sua filha mais nova trabalhe como copeira na casa de uma família rica. Para a esposa do Professor Pasquale, ver Gina como serviçal na residência de madame e ganhando um salário mínimo é o fim do mundo. Por sua vez, ela não se importa quando a caçula começa a se prostituir. Deitar-se na cama do marido da madame e trazer bastante dinheiro para casa é visto pela mãe como algo positivo que a filha faça. Da perspectiva mais geral, a sociedade é implacável em sentenciar Gina, mesmo depois de ela já estar casada e com uma família exemplar, como alguém desprezível. Aos olhos da sociedade preconceituosa, ninguém consegue superar um passado maculado. Curiosamente, Georgina já era vista de maneira negativa quando era uma jovem “honrada” e pobre. Afinal, a miséria em que vivia era um sinal de sua fraqueza moral. Ou seja, o destino da protagonista era ser malvista e mal falada, independentemente da escolha que fizesse. É inegável o tapa na cara que o romance dá na sociedade puritana, elitista e preconceituosa. O principal mérito de “Gina” está exatamente na exposição desse falso moralismo e, principalmente, na forma como sua heroína encarou o julgamento alheio. Maria José Dupré conseguiu criar uma das mais incríveis personagens da literatura brasileira. Georgina pode ser comparada, em dimensão e profundidade narrativa, à Aurélia Camargo (de José de Alencar), Maria Moura (de Rachel de Queiroz), Gabriela (de Jorge Amado), Maria Capitolina Santiago (de Machado de Assis), Emília (de Monteiro Lobato) e Virgínia (de Lygia Fagundes Telles). Ela também foge do estereótipo da prostituta, como retratado, por exemplo, por Plínio Marcos em “Navalha na Carne” (Azougue Editorial). Gilda é totalmente diferente de Neusa Sueli. Em alguns sentidos, a protagonista de Dupré me lembrou muito Léa Delmas, a personagem de “A Bicicleta Azul” (BestBolso), o romance mais famoso da francesa Régine Deforges. Em relação à dimensão dramática e à composição psicológica, tanto Léa quanto Gina são mulheres jovens com doses intermináveis de coragem e de perseverança. Elas encaram de frente todos os problemas e todas as dificuldades, independentemente de suas complexidades. Além disso, elas jamais abandonam suas famílias e seus amigos e nunca dão ouvidos aos preconceitos sociais. Há poucas figuras femininas na literatura tão generosas, tão destemidas e tão progressistas quanto Léa e Gina. Importante dizer que Maria José Dupré criou sua personagem três décadas e meia antes de Régine Deforges. Se a francesa é vista pela crítica literária como uma autora ousada e visionária para a década de 1980, o que poderíamos falar então da brasileira que produziu suas principais obras na década de 1940, hein? Outro aspecto elogiável de “Gina” está na forma como sua história é apresentada ao público. Esqueça os romances água com açúcar que muitas vezes inundam as estantes das livrarias e das bibliotecas. O que temos aqui é uma trama água com limão, para usar a mesma analogia. Este romance de Dupré escancara o quanto a vida pode ser amarga e difícil de ser ingerida. O lado doce da sociedade humana passa longe dessas páginas. A batalha para ganhar dinheiro pode ser árdua e um tanto injusta para aqueles que nascem pobres e precisam encarar os desafios monumentais de uma das sociedades mais díspares do mundo. Se comparado a “Éramos Seis”, “Gina” possui algumas diferenças de ordem narrativa. Esta obra é narrada em terceira pessoa (narrador observador), sua história não é ambientada apenas na cidade de São Paulo (há longas passagens pelo interior do Paraná, pelo Rio de Janeiro e por Milão, na Itália), não há a preocupação da datação exata dos episódios relatados (eles são usados apenas para mostrar a variação do tempo), as personagens principais estão sempre se mudando (na minha conta, Gina morou em onze casas diferentes) e o desfecho é feliz (ufa, ao menos isso!). As semelhanças entre os livros ficam com o retrato cruel dos perrengues de uma família pobre (ao menos na primeira parte de “Gina” é assim), no sacrifício que a protagonista faz a vida inteira para o bem dos parentes (nesse sentido, Gina é parecidíssima à Dona Lola), no drama financeiro provocado pela morte do patriarca (semelhança entre Júlio Abílio de Lemos e Pasquale Franceschini), na sucessão incansável de dramas (a situação sempre parece piorar mais e mais), na crítica contundente à desigualdade social (infelizmente, uma marca da sociedade brasileira) e na contextualização histórica do período relatado (Primeira Guerra Mundial, surgimento do Anarquismo na Europa, a crise de 1929, etc.). “Gina” é um romance espetacular. Seu único defeito está no seu Foco Narrativo extremamente equivocado. Para quem gosta de Teoria Literária e estuda os Elementos da Narrativa, temos aqui um ótimo exemplar de como não construir uma trama ficcional. Obviamente, para o leitor recreativo essa questão passa longe das preocupações na hora da leitura, mas para um crítico literário esse ponto é central na análise do livro. O narrador em terceira pessoa de “Gina” é do tipo observador que vive grudado à protagonista. Portanto, ele só deveria ter acesso ao que Georgina vê, pensa e sabe. Contudo, isso não ocorre o tempo inteiro. Há alguns deslizes imperdoáveis. O tal narrador tem acesso aos pensamentos de outras personagens (Zelinda, Helena, Fernandinho e Ana Luísa). Para piorar, na parte final do livro, o narrador desgruda de Gina e passa acompanhar seus filhos. Como assim?! Sinceramente, isso me incomodou muito durante a leitura. Na certa, a mudança do narrador em primeira pessoa (como em “Éramos Seis”) para o de terceira pessoa (em “Gina”) deveria ter sido feita de um jeito mais cuidadoso por Maria José Dupré. Com exceção desse problema de Foco Narrativo, “Gina” é uma obra impecável. Seus dramas, seus conflitos e suas personagens conseguem emocionar o leitor de maneira profunda. Gostei muito desta leitura. Acho que já posso dizer que dos romances adultos de Dupré, este é o meu favorito. Mesmo não sendo um fã de livros com dramas intermináveis, admito que adorei “Gina”. A construção de uma protagonista ousada e de uma trama original fazem desta publicação uma narrativa imperdível. Por falar em livro imperdível, no próximo domingo, dia 17, retorno ao Bonas Histórias para apresentar a análise do quarto livro de Dupré deste Desafio Literário. A nova obra que será comentada no blog será “A Mina de Ouro” (Ática), um bom exemplar do portfólio infantojuvenil da autora paulista. Não perca a próxima etapa deste estudo sobre a literatura de Maria José Dupré. Até domingo! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. 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  • Livros: A Ilha Perdida – O clássico infantojuvenil de Maria José Dupré

    Nesta semana, li “A Ilha Perdida” (Ática), o segundo livro de Maria José Dupré do Desafio Literário de maio. Esta obra representou o maior sucesso da escritora paulista na literatura infantojuvenil. Publicado há 76 anos, “A Ilha Perdida” é considerado hoje em dia um clássico do seu gênero. A trama dos meninos que ficaram presos em uma ilha aparentemente deserta foi também o primeiro livro da Série Vaga-Lume, famosa coletânea da Editora Ática lançada em 1973 e destinada ao público mirim. Para muita gente, esta publicação é a melhor história da coletânea da Ática, ao lado de “A Turma da Rua Quinze” (Ática), de Marçal Aquino, e “O Rapto do Garoto de Ouro” (Ática), de Marcos Rey. Há quem vá além, colocando esta obra de Dupré no patamar de “O Gênio do Crime” (Global), romance investigativo de João Carlos Marinho da Silva, na lista dos melhores títulos infantojuvenis da segunda metade do século XX. Além do grande sucesso de crítica, “A Ilha Perdida” se tornou um dos maiores best-sellers nacionais de sua categoria. Com sete dígitos em vendas, o livro de Maria José Dupré divide com “A Turma da Rua Quinze”, “Açúcar Amargo” (Ática), de Luiz Puntel, “O Escaravelho do Diabo” (Ática), de Lúcia Machado de Almeida, “Deu a Louca no Tempo”, de Marcelo Duarte, e “O Mistério do Cinco Estrelas” (Ática), de Marcos Rey, o posto de obra mais comercializada na história da Série Vaga-Lume. É quase impossível não encontrarmos este livro em uma boa biblioteca pública ou particular do Brasil. Suspeito também que, em qualquer roda com mais de dez pessoas com idades abaixo dos cinquenta anos, seja improvável não encontrarmos ao menos um leitor deste romance. Publicado em 1944, “A Ilha Perdida” aproveitou-se de algumas personagens apresentadas ao público no primeiro livro infantojuvenil de Maria José Dupré, “Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca” (Saraiva), de 1943. Essas mesmas figuras seriam exploradas com mais intensidade em “A Montanha Encantada” (Ática), livro de 1945, e “A Mina de Ouro” (Ática), de 1946. Afinal, em “A Ilha Perdida”, Vera e Lúcia, assim como seus cachorrinhos Pingo e Pipoca, surgem apenas no final da narrativa e são meras coadjuvantes da trama. Nos demais romances da escritora paulista, elas são alçadas novamente ao primeiro plano do enredo. Foi com “A Ilha Perdida” que Maria José Dupré se consolidou como uma das grandes autoras infantojuvenis de nosso país. Leitura obrigatória nas escolas brasileiras há pelo menos quatro gerações, muita gente conhece mais os romances para os pequenos desta escritora do que os seus romances adultos. Com exceção de “Éramos Seis” (Ática), o principal trabalho literário de Dupré, os demais livros adultos da autora se tornaram, infelizmente, um tanto esquecidos nas últimas três décadas. Curiosamente, esse envelhecimento do portfólio de Maria José não aconteceu na parte das obras infantojuvenis. “A Ilha Perdida”, “A Montanha Encantada”, “A Mina de Ouro” e “O Cachorrinho Samba” (Ática), por exemplo, são títulos atualíssimos e ainda podem ser encontrados nas principais livrarias do Brasil. Ou seja, para as crianças e adolescentes de hoje, Maria José Dupré permanece como uma autora viva e atuante (ela faleceu em 1984). “A Ilha Perdida” é narrado em terceira pessoa e aborda as aventuras dos irmãos Henrique e Eduardo, de quatorze e doze anos, respectivamente, pelo interior do Estado de São Paulo. Os garotos da cidade grande foram passar as férias de Verão na fazenda de seus padrinhos no Vale do Paraíba. Lá, a dupla de adolescentes conhece a história intrigante de uma ilha misteriosa localizada bem no meio do Rio Paraíba, descrito como caudaloso e bastante extenso. A ilha fluvial é chamada de Ilha Perdida pelos moradores da região por seu caráter isolado e pouquíssimo frequentado. Dizem que o lugar é totalmente inabitado. A Ilha Perdida exerce fascínio e medo em Quico e Oscar, os primos mais jovens de Henrique e Eduardo. Os meninos não se cansam de narrar aos primos visitantes o sonho de um dia visitar a misteriosa ilha no meio do rio. Depois de descobrirem uma velha canoa estacionada às margens do Rio Paraíba, Henrique e Eduardo decidem visitar de maneira clandestina a tal ilha. Sem contar para ninguém sobre o itinerário do passeio (nem para Quico e Oscar eles divulgaram o plano), os dois garotos saem da fazenda dos padrinhos de manhãzinha munidos de água e de lanche e partem em direção à Ilha Perdida. A dupla chega ao destino sem problema nenhum. Maravilhados com a natureza virgem e exuberante, eles passam o dia explorando o local. Contudo, Henrique e Eduardo se perdem na floresta e não conseguem mais voltar até a canoa, deixada em uma das prainhas da ilha. Só no dia seguinte os protagonistas do romance encontram a velha canoa. Porém, uma forte chuva tornou as águas do rio muitíssimo revoltas. O Paraíba está inavegável. Enquanto esperam a maré abaixar para retornar à fazenda dos padrinhos, os irmãos são surpreendidos por uma grande onda. Ela engole a canoa da dupla, levando-a para o meio do rio. Sem um veículo para voltar, Henrique e Eduardo ficam presos e, por consequência, incomunicáveis na Ilha Perdida. Para piorar, ninguém sabe que os adolescentes estão por lá. Como os garotos farão para retornar à fazenda dos padrinhos?! Enquanto tentam bolar um plano para construir uma nova jangada, Eduardo e Henrique são separados um do outro. O irmão mais velho vira refém de Simão, um eremita que defende a ferro e fogo o isolamento da ilha que habita. O homem com hábitos aparentemente estranhos não aceita que ninguém volte daquele lugar, com medo que a beleza da floresta seja divulgada para os homens cruéis e predadores do “continente”. No pensamento pessimista de Simão, se alguém souber da riqueza da fauna e da flora da ilha, na certa vai querer invadir o local e destruir tudo. Por isso, ele não quer liberar Henrique de jeito nenhum. O rapaz se torna seu prisioneiro. “A Ilha Perdida” tem pouco menos de 140 páginas que estão divididas em 16 capítulos. Para um adulto, esta leitura é extremamente rápida. Devo ter levado entre duas e três horas para percorrer integralmente o conteúdo da obra. Li tudo em uma única noite nesta semana. Na certa, uma criança e um adolescente demoram três ou quatro vezes mais do que isso para navegar por todas as páginas do livro. O resultado de “A Ilha Perdida” é realmente impressionante. Este romance é impecável. Eu o li pela primeira vez na minha infância e ainda hoje, antes desta segunda leitura, me recordava de algumas passagens. O mais incrível de “A Ilha Perdida” é a sua atemporalidade. A obra não envelheceu nadinha de nada desde a sua publicação. Trata-se de um feito para uma história desenvolvida há três quartos de século. A sensação que temos durante esta leitura é de estar acompanhando uma narrativa contemporânea. Maria José Dupré construiu uma trama extremamente atual, com temas típicos do século XXI, como a sustentabilidade e a proteção ambiental. Maravilhoso notar que a autora paulista se preocupava com esses temas já na primeira metade do século passado. Essa pegada ecológica do texto mistura-se a uma intrincada história em que a fauna, a flora e o morador isolado da Ilha Perdida (um homem com um forte ideal de defesa do meio ambiente) são os responsáveis por solucionar o conflito dos garotos. O lado fantástico de “A Ilha Perdida” está relacionado à vida harmônica e inteligente dos animais na floresta. Os vários bichos se comunicam e agem integrados em prol do bem comum. De certa forma, eles são os olhos, os ouvidos e, por que não, as mãos e os pés de Simão na ilha. A compreensão do quão bela e conectada pode ser a vida na natureza é parte do charme deste romance. Impossível não se emocionar com a alegria e as peraltices protagonizadas pelos vários amigos do morador isolado da floresta. Em alguns capítulos, os animais acabam roubando para si o protagonismo da narrativa, configurando-se em importantes personagens desta aventura. Outro aspecto elogiável do romance está na construção das personagens. Dupré criou um romance sem vilões explícitos (talvez a enchente do rio e/ou os caçadores que invadem a ilha exerçam esse papel na prática). Como isso é possível?! O aparente antagonista, Simão, é muito mais uma personagem redonda do que necessariamente uma figura que possa ser demonizada pelos leitores. O desenvolvimento das características psicológicas, sentimentais e comportamentais de Simão é magnífico. Arrisco-me a dizer que Simão é uma das grandes criações da literatura infantojuvenil brasileira. O verdadeiro papel desta figura misteriosa só fica claro no desfecho do livro. Em um primeiro momento, o leitor até pode pensar que a trama está se estendendo muito depois que os irmãos retornam para a fazenda dos padrinhos. Porém, é preciso atenção para notar os nuances desta trama. As páginas finais são decisivas para esclarecer o que de fato se passou nos dias em que os protagonistas permaneceram “isolados” e “indefesos” na ilha. Como é típico da Série Vaga-Lume, o livro de Maria José Dupré é ilustrado com cenas da história. Essas ilustrações ajudam o jovem leitor a construir as imagens mentais da narrativa da escritora paulista. O único problema desse recurso é quando a ilustração se antecipa ao texto, quebrando parte das surpresas da narrativa. Infelizmente, isso acontece uma ou duas vezes durante os capítulos. Além do respeito à natureza e aos animais, outro ponto sensível desta história é a relação de amizade entre Simão e Henrique. Diferentemente do que se aparenta em um primeiro momento, o morador da ilha não é a figura monstruosa que pinta. É legal ver a filosofia e o estilo de vida de Simão e o sentimento de gratidão de Henrique por tudo o que o amigo fez por ele e por seu irmão. O único ponto negativo de “A Ilha Perdida” é a inverossimilhança de sua trama. Como pode haver uma ilha no meio de um pequeno rio do Estado de São Paulo com uma proporção tão gigantesca e com um ecossistema tão variado?! E como é possível essa ilha ser desabitada e, mesmo assim, não atiçar a curiosidade de nenhum adulto da região para dar uma passadinha por lá? Difícil colar essa história. Talvez se ela fosse ambientada em um rio amazônico ou do pantanal a verossimilhança fosse atingida. Mesmo com essa pequena pisadinha de bola de Dupré, “A Ilha Perdida” não perde em nada em sua relevância e na emoção do seu conflito. Temos aqui um romance memorável que encanta ainda hoje tanto os pequenos/jovens quanto os grandes/velhos leitores. Não sei se esse livro de Maria José é o melhor da Série Vaga-Lume, mas na certa ele está entre os melhores. O mesmo conceito se aplica quando analisamos toda a literatura infantojuvenil brasileira. “A Ilha Perdida” deve sim ser colocado em uma posição de destaque nas nossas estantes. Na quarta-feira da semana que vem, dia 13, darei sequência ao Desafio Literário de maio. A terceira obra de Maria José Dupré que será analisada pelo Bonas Histórias é “Gina”, romance adulto lançado em 1945. Este livro foi transformado em telenovela pela Rede Globo em 1978. Não perca a continuação da investigação sobre a literatura de Maria José Dupré. Até a próxima semana! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Filmes: A Excêntrica Família de Gaspard - O terceiro longa de Antony Cordier

    Com o fechamento dos cinemas há mais de um mês e meio por causa da pandemia do Covid-19, os cinéfilos só podem recorrer, desde então, aos serviços de streaming e/ou à velha televisão para aplacar seus vícios de sétima arte. Como não sou fã de nenhuma das duas modalidades (gosto mesmo é das salas de cinema, por mais perigosas que elas possam parecer agora), confesso que estava há quase sessenta dias sem assistir a uma produção cinematográfica. As últimas tinham sido o belíssimo “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018), no distante comecinho de março, e o encantador “Jojo Rabbit” (2019), visto no Carnaval (alguém aí se lembra como eram nossas vidas no longuíssimo Carnaval?). Por falta de matéria-prima, a coluna Cinema do Bonas Histórias ficou sem nenhum post por oito semanas (um recorde negativo em cinco anos e meio de blog). Já sofrendo os primeiros sinais de abstinência da sétima arte, fiquei empolgado com a notícia de que o Festival Varilux de Cinema Francês desse ano não seria cancelado. Normalmente realizado em junho, ele foi remarcado para o segundo semestre. Além disso, uma versão adicional e alternativa foi criada para esse período delicado em que estamos passando. Chamado de Festival Varilux de Cinema Francês em Casa, a edição extra terá algumas particularidades. Ao invés de ser transmitido pelas salas de cinema (por razões óbvias!), o novo evento migrou integralmente para a Internet. Com acesso gratuito, o público pode assistir a cinquenta longas-metragens franceses, entre comédias, dramas, animações, tramas históricas e produções infantis, que estiveram em cartaz nos últimos anos por aqui e que fizeram parte da programação das últimas edições do Festival Varilux de Cinema Francês. É ou não é uma excelente notícia, hein? Em cartaz desde o começo desse mês, o Festival Varilux de Cinema Francês em Casa estará disponível para acesso até o dia 27 de agosto. Para acompanhá-lo, basta entrar no site do evento: festivalvariluxemcasa.com.br. Aí os internautas são direcionados para uma plataforma de streaming (OK, fazer o quê?!). Após um rápido cadastro (nome, e-mail e telefone), já é possível escolher o título e assistir na hora ao(s) filme(s) desejado(s). Foi o que fiz nesse domingo à tarde. Minha escolha foi pela comédia dramática “A Excêntrica Família de Gaspard” (Gaspard Va Au Mariage: 2017). Lançado no circuito comercial brasileiro no final de novembro de 2018, esse filme integrou a edição retrasada do Festival Varilux de Cinema Francês. “A Excêntrica Família de Gaspard” é o terceiro longa-metragem do promissor diretor Antony Cordier. Seus trabalhos anteriores foram o picante “Para Poucos” (Happy Few: 2010) e o premiadíssimo (mas não menos picante) “Douches Froides” (2005). De forma geral, os filmes de Cordier retratam os dramas sexuais de homens e mulheres de todas as idades. Por isso, o cineasta francês não economiza nas cenas de nudismo e de sexo explícito. Como consequência, muitas vezes suas produções são classificadas como pornográficas e vão parar no centro das polêmicas criadas pelo público e pelos críticos mais conservadores. Em “A Excêntrica Família de Gaspard”, Antony Cordier pegou um pouco mais leve (leve para o seu padrão, mas não para o que estamos acostumados a ver nas produções comerciais). Portanto, se você for assisti-lo, prepare-se para encontrar ainda sim um universo despudorado. No elenco desse longa-metragem temos um time de atores experientes e bastante talentosos do cinema francês. Félix Moati, de “Um Banho de Vida” (Le Grand Bain: 2018), Laetitita Dosch, de “Jovem Mulher” (Jeune Femme: 2016), e Christa Theret, de “A Filha do Patrão” (La Fille du Patron: 2014), são acompanhados de Johan Heldenbergh, Guillaume Gouix e Marina Foïs no protagonismo da trama. “A Excêntrica Família de Gaspard” começa na viagem de trem de Gaspard (interpretado por Félix Moati), um rapaz de 25 anos que trabalha como garçom e na manutenção de elevadores na cidade grande. Ele volta para a casa de sua família depois de um longo período de ausência. Seu retorno tem uma finalidade nobre: assistir ao novo casamento do pai. Na viagem de trem para a sua terra natal, no interior francês, Gaspard conhece Laura (Laetitita Dosch), uma jovem solitária, de poucas posses e que parece ter um parafuso a menos na cabeça. Com vergonha de chegar sozinho ao evento familiar, o rapaz faz uma proposta inusitada para a moça que acabou de conhecer: ele pagará € 50,00 por dia para ela acompanhá-lo e, principalmente, para fingir ser sua namorada. Precisando de dinheiro, Laura prontamente aceita o acordo, apesar de deixar claro que não fará sexo com ele. Assim, o mais novo casal francês ruma alegremente para a casa do pai de Gaspard. Chegando ao destino, Laura é surpreendida logo de cara com o tipo de residência da família do pseudonamorado. Eles moram dentro de um zoológico particular. O pai de Gaspard, Maxime (Johan Heldenbergh), é o proprietário e os irmãos de Gaspard, Virgile (Guillaume Gouix) e Coline (Christa Theret), tratam dos animais e cuidam da administração do local. Até a noiva de Maxime, Peggy (Marina Foïs), atua como veterinária do empreendimento. A visitante fica encantada com a rotina do lugar e com a dinâmica do zoológico. Por sua vez, Gaspard também é surpreendido, porém de maneira negativa. Ele recebe algumas notícias pouco animadoras de seus parentes. O rapaz fica sabendo que o casamento do pai corre sérios riscos de não acontecer. Peggy descobriu que Maxime a traiu recentemente e não aceita mais subir ao altar. Na verdade, o noivo é viciado em sexo e não consegue controlar seus instintos sexuais. Apesar da idade, ele tem várias namoradas espalhadas por aí e reluta bastante em largá-las. As confusões não param por aí. Virgile e Coline guardam segredos que vão chocar, quando revelados, Gaspard e Laura. As relações entre os três irmãos são um capítulo à parte do filme. Os sentimentos de Virgile e de Coline em relação a Gaspard são, respectivamente, de ódio e de amor platônico. É até difícil classificar esse turbilhão emocional dos irmãos. Em meio ao caos familiar que se instala nos dias precedentes ao casamento (Maxime insiste no matrimônio, enquanto Peggy continua relutando em se unir ao proprietário do zoológico), os pseudonamorados podem se conhecer melhor. A paisagem bucólica do interior francês, a beleza da natureza selvagem e a sensação de férias são propícios para a aproximação do jovem casal. Gaspard e Laura se tornam cada vez mais próximos, unidos e confidentes um do outro. “A Excêntrica Família de Gaspard” tem pouco mais de uma hora e quarenta minutos de duração. Trata-se de um filme mais voltado para o drama do que para a comédia (sinceramente, não me lembro de nenhuma cena realmente muito engraçada). Ou seja, ele é muito mais um drama cômico do que uma comédia dramática. Conhecendo o histórico cinematográfico e o estilo narrativo de Antony Cordier, achei esse seu último trabalho mais soft quanto ao erotismo e aos dramas sentimentais. Por outro lado, a pegada naturalista permanece intacta, igualzinha a seus primeiros longas-metragens. É verdade que a cada dez, quinze minutos de “A Excêntrica Família de Gaspard”, alguém aparece totalmente pelado em cena. O nu frontal masculino é algo corriqueiro nessa produção. Os parentes do protagonista não têm qualquer pudor de expor seus corpos. O pai, por exemplo, nada peladão em um aquário na frente da filha (e dos outros dois filhos) sem qualquer constrangimento de nenhum deles (só da plateia!). O irmão mais velho e a irmã caçula dividem a banheira e não se furtam em se ensaboarem mutuamente. Se o nudismo é escancarado, ao menos não temos cenas de sexo explícito como em “Para Poucos” e “Douches Froides”. Por isso, considerei o novo filme de Cordier mais leve. O turbilhão emocional dos protagonistas também é mais sutil e estritamente introspectivo nesse filme. Os segredos sentimentais e sexuais da família de Gaspard não surgem rapidamente em cena. Eles estão ocultos em meio à rotina e ao passado familiar. Para descobri-los, os espectadores precisam de paciência e de sagacidade. Justamente aí reside a graça desse longa-metragem. Por falar nisso, há várias questões delicadíssimas tratadas em “A Excêntrica Família de Gaspard”: o amor incestuoso, a traição conjugal, o vício em sexo, a inveja/ódio fraternal, etc. Por trás de uma trama aparentemente leve e banal, existe um universo caótico e profundo de temas espinhentos (o habitat natural de Cordier). Se o nudismo excessivo incomoda a plateia mais conservadora, por outro lado, esse expediente tem uma explicação plausível dentro da narrativa do filme. Assistimos a uma trama com características profundamente naturalistas. A família Gaspard, nesse contexto, não é muito diferente dos animais do seu zoológico. Acostumados à natureza selvagem e ao manuseio dos corpos dos bichos em exposição, nada mais lógico do que a falta de pudor das personagens em relação a suas intimidades corporais e biológicas. Sob esse ponto de vista, cada integrante do núcleo familiar pode ser comparado a um animal do zoológico. Essa relação pode ficar mais explícita (como no caso de Coline) ou ser mais velada (como no caso de Virgile). Gaspard é o único que tenta fugir dessa sina, o que explica sua longa ausência de casa e sua fuga para a cidade grande. Como ponto alto de “A Excêntrica Família de Gaspard” temos a atuação impecável do time de atores. De forma geral, o elenco inteiro de protagonistas está ótimo. Destaque especial para a equipe feminina. Christa Theret é a melhor, roubando a cena como a menina-ursa. Laetitita Dosch encanta o público com graça e leveza. E Marina Foïs sabe se impor nas poucas cenas em que aparece. Perto desse trio magnífico, Félix Moati, Johan Heldenbergh e Guillaume Gouix parecem ficar um pouco ofuscados. Porém, isso é só impressão. Eles também estão muito bem em seus papéis. Outro aspecto positivo do filme é a multiplicidade dos seus dramas sentimentais. Cada personagem possui um mundo próprio de angústias, medos, paranoias e desejos reprimidos (prato cheio para os psicólogos). De forma inteligente, as câmeras de “A Excêntrica Família de Gaspard” não escolhem uma única pessoa para acompanhar. Opta-se aqui por uma visão do coletivo e não do particular. Com isso, essa produção de Antony Cordier não fica restrita a um único conflito, mas a vários, enriquecendo a experiência cinematográfica. Do lado negativo, o principal problema de “A Excêntrica Família de Gaspard” está em sua narrativa. Não dá para fugir da sensação de déjà vu. O enredo do filme é uma mistura de “Compramos um Zoológico” (We Bought A Zoo: 2011) com “Muito Bem Acompanhada” (The Wedding Date: 2004). A diferença essencial é que a produção francesa possui mais conteúdo dramático. Mesmo assim, achei equivocada a escolha do enredo. Com um pouco mais de criatividade e empenho na hora de construir o roteiro cinematográfico, dava muito bem para fugir dos clichês narrativos. Outros elementos que me incomodaram bastante são o excesso de personagens problemáticas e o nível de suas esquisitices. Não duvido que haja famílias tão estranhas quanto a de Gaspard, mas tudo que é pintado em cores muito fortes tende a cair na caricatura, além de afetar a verossimilhança da história. Ninguém é 100% anormal (como Maxime e Coline) nem é 100% normal (como Gaspard e Peggy). A falta de nuances entre os polos opostos estraga um pouco o debate proposto. O desfecho do filme também é decepcionante. Além de ser óbvio, ele é simplista e condescendente com as vontades da plateia. Em um piscar de olhos, tudo se resolve e o longa-metragem termina bem. “Como assim?”, pergunta-se o espectador mais exigente. “Se os problemas eram graves, como eles podem ser equacionados de forma quase instantânea, hein?”. É inexplicável. Sinceramente, não gostei tanto assim de “A Excêntrica Família de Gaspard”. Se seus conflitos dramáticos são ótimos (até mais profundos do que nos dois filmes iniciais de Antony Cordier), sua narrativa deixa um pouco a desejar. Porém, é melhor assistir a um filme decepcionante do que não assistir nada, não é? Nesse sentido, saí leve e realizado dessa primeira sessão doméstica do Festival Varilux de Cinema Francês. Consegui, enfim, acabar com o meu jejum cinematográfico. Uhu! Inclusive já tenho uma lista de novos títulos para acompanhar do festival. Os próximos filmes deverão ser: “Primeiro Ano” (Première Année: 2018), “Um Amor à Altura” (Un Homme à la Hauteur: 2016), “Beijei Uma Garota” (Toute Première Fois: 2014), “Tour de France” (2017) e “Um Gato em Paris” (Une Vie de Chat: 2010). Assista, a seguir, ao trailer de “A Excêntrica Família de Gaspard”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Éramos Seis - A obra-prima de Maria José Dupré

    O Desafio Literário de maio começa justamente com o maior sucesso literário de Maria José Dupré, a autora que o Bonas Histórias analisará neste mês. “Éramos Seis” (Ática) foi o segundo romance lançado pela escritora paulista nascida em Botucatu no finalzinho do século XIX. A obra conquistou o Prêmio Raul Pompéia de 1944, honraria oferecida pela Academia Brasileira de Letras ao melhor romance publicado no ano anterior. Não é errado dizer que este livro se tornou um clássico da literatura brasileira. É quase impossível hoje um adulto em nosso país não se lembrar deste título ou não ter ouvido ao menos uma menção sobre ele ao longo de sua vida. É claro que, assim como aconteceu com boa parte do portfólio literário de Jorge Amado, as várias adaptações da trama de “Éramos Seis” para a televisão e para o cinema ajudaram substancialmente na popularização da narrativa de Maria José Dupré. Há quatro décadas, a TV tem um poder disseminador da cultura no Brasil muito mais forte do que a literatura. O livro ainda é, infelizmente, um artigo raro no cotidiano nacional independentemente da classe social da família, da região do país e da faixa etária do indivíduo. Já em 1945, um longa-metragem argentino foi produzido com base no enredo do romance de Dupré. Treze anos depois, a Rede Record lançou a primeira telenovela adaptada do livro. Depois disso, foram mais quatro telenovelas de “Éramos Seis”: duas pela extinta Rede Tupi (em 1967 e em 1977), uma pelo SBT (em 1994) e uma recente pela Rede Globo (em 2019/2020). Outro fator que ajudou bastante na popularização desta obra foi sua inclusão na Série Vaga-Lume, famosa coleção infantojuvenil lançada em 1973 pela Editora Ática. Apesar de não ser um título direcionado exclusivamente às crianças e aos adolescentes, a Ática inseriu o romance de Dupré no catálogo de sua exitosa coletânea. Por isso, muita gente leu “Éramos Seis” na fase escolar. Eu não tive essa sorte. Fiz minha primeira leitura deste livro no último final de semana. Esta perenidade da trama de “Éramos Seis” foi decisiva para alçar a obra de Maria José Dupré ao status de clássico literário. Curiosamente, a escritora paulista passou a se dedicar à literatura somente após o casamento, no final da década de 1930, com Leandro Dupré, um engenheiro que morava na cidade de São Paulo. No início da carreira, ela assinava suas narrativas com o pseudônimo de Mary Joseph (obviamente uma versão anglicanizada de seu nome) e, depois, com a alcunha formal de Sra. Leandro Dupré. Até a década de 1960, a escritora foi mais conhecida profissionalmente como Sra. Leandro Dupré do que como Maria José. Por isso, não estranhe se você se deparar com diferentes nomeações na capa dos livros da autora. Somente na década de 1960, suas obras ganhariam o nome verdadeiro e completo da romancista. Em 1939, Maria José estreou na ficção comercial com a publicação de um conto no suplemento literário do jornal O Estado de São Paulo. O primeiro livro seria lançado dois anos mais tarde. “O Romance de Teresa Bernard” ganhou novas edições até a década de 1960. Hoje em dia, esse título só está disponível em sebos (e é um pouquinho difícil achá-lo). Os anos de 1940 representaram a fase mais produtiva de Maria José Dupré na literatura. Ela publicou mais da metade (onze de vinte) dos seus livros naquela década. Além de escrever romances adultos, a autora paulista passou a desenvolver tramas infantojuvenis, outra faceta bem-sucedida de sua carreira. Metade das obras da autora foi direcionada ao público mirim. “A Ilha Perdida” (Ática) e “A Montanha Encantada” (Ática), ambos de 1945, “A Mina de Ouro” (Ática), de 1946, e “O Cachorrinho Samba” (Ática), de 1949, são os títulos mais famosos de Dupré neste gênero literário. Ela chegou a conquistar um Prêmio Jabuti, em 1964, por este trabalho na área infantojuvenil. Publicado em 1943, “Éramos Seis” pode ser classificado tanto como um romance histórico quanto como um romance dramático. O livro acompanha a trajetória da família Lemos por três décadas. A trama é narrada em primeira pessoa pela matriarca, Eleonora de Lemos, apelidada de Dona Lola pelos amigos, vizinhos e familiares. A protagonista relata o que chama de “melhores anos de sua vida”, época passada na casa da Avenida Angélica, em São Paulo, quando seus quatro filhos eram pequenos e seu marido era vivo. O sucesso da obra foi tão grande que, em 1949, Maria José Dupré lançou uma continuação. “Dona Lola” (Saraiva) aborda partes do enredo que ficaram ocultas na trama original (principalmente os acontecimentos que envolviam os filhos de Eleonora que saíram precocemente de casa). Infelizmente, este livro é ainda mais raro de ser encontrado do que “O Romance de Teresa Bernard”. Sua última edição é do distante ano de 1968. A história de “Éramos Seis” inicia-se a partir da visita de Eleonora de Lemos ao bairro em que viveu por muitos anos. Agora velha e solitária, ela caminha pela Avenida Angélica e rememora o saudoso tempo em que morou em uma pequena residência daquela rua. A visualização do imóvel depois de tanto tempo serve de estopim para a narradora-protagonista relembrar seu passado e começar o relato sobre a trajetória dos integrantes de sua família. Dona Lola se mudou para o imóvel da Avenida Angélica no final do ano de 1914. Naquele momento, ela era casada com Júlio Abílio de Lemos, um simplório funcionário de uma loja de tecidos. O casal tinha, então, dois filhos pequenos, Carlos e Alfredo. Lola veio de uma família pobre de Itapetininga, cidade do interior do estado de São Paulo. O casal Lemos comprou sua casa em longas (e pesadas) prestações anuais. O endividamento obrigou a família a passar por sérias dificuldades financeiras nos anos seguintes. Arcar com as obrigações da residência nunca foi algo fácil para os Lemos. Para agravar ainda mais o quadro financeiro, Lola e Júlio tiveram mais dois filhos, Isabel e Julinho. Daí o título da obra – eram seis os moradores da residência. A alegria de ter uma família grande e saudável se contrastava com as constantes dificuldades monetárias para a manutenção do lar. O livro de Maria José Dupré narra o drama de Eleonora de Lemos por aproximadamente três décadas. A história avança até 1942. Como uma típica mãe de família da metade do século XX, Dona Lola se sacrifica em nome dos filhos e do marido. Para a personagem principal, não há nada mais importante do que estar junto de seus familiares e vê-los bem. Isso é buscado obsessivamente nem que para isso ela precise padecer ou passar por graves privações. À medida que Carlos, Alfredo, Isabel e Julinho crescem, as dificuldades para se pagar a casa da Avenida Angélica prosseguem. Saldar a dívida do imóvel é questão de honra para a matriarca. Como pouca desgraça é bobagem, em meio aos vários conflitos pessoais e familiares que surgem em propulsão ao longo dos anos na residência dos Lemos, as personagens do romance ainda se veem diante de graves questões políticas, sanitárias e ideológicas típicas daquele período histórico. Nem mesmo o macroambiente ajuda Eleonora! Enquanto São Paulo passa por duas revoluções, as de 1924 e de 1932, e vivencia um rápido e desordenado crescimento urbano, o Brasil percorre tempos extremamente turbulentos. Temos nessa época, por exemplo, o surto de gripe espanhola, a Crise do Café, a Revolução de 1930 e a Ditadura Vargas. Para completar, no cenário internacional, esse período é marcado pela Segunda Guerra Mundial e o início da tensão ideológica entre capitalistas e comunistas, que mais tarde culminaria na Guerra Fria. É nesse cenário de graves conflitos e grande violência que a família de Dona Lola precisa encarar os obstáculos diários que teimam em aparecer. “Éramos Seis” é um romance impecável. A sucessão de conflitos dramáticos torna sua leitura saborosa e sua narrativa atemporal. O livro de Dupré possui pouco mais de 250 páginas. Elas estão divididas em 16 capítulos. Li esta obra no último final de semana. Comecei na sexta-feira à tarde e finalizei sua leitura no domingo à noite. Confesso que fiquei muito entretido com as peripécias dos Lemos. A história é boa, as personagens são carismáticas, a linguagem é acessível e os conflitos são bastante verossímeis. Há também ótimas e marcantes cenas ao longo do romance. A primeira questão que chamou minha atenção neste livro foi a da composição das personagens. Maria José Dupré dá uma aula de como construir figuras literárias redondas. Isso vale tanto para os protagonistas quanto para os coadjuvantes do romance. Sinceramente, não me recordo agora de nenhuma personagem plana em “Éramos Seis”. Todos parecem possuir contradições que alimentam a trama de maneira convincente. O pai, Júlio Abílio de Lemos, pode ser muito durão com os filhos em alguns momentos, mas também é bondoso e carinhoso em outros instantes. A própria Dona Lola oscila entre uma mãe zelosa (dá dinheiro para Alfredo e Julinho) e egoísta (quer Julinho perto dela e não aceita a paixão de Isabel por um homem casado). A dualidade das personagens fica mais nítida quando analisamos os comportamentos de Alfredo e de Tia Emília. O primeiro parece se aproveitar levianamente do altruísmo materno. Ele é malandro e irresponsável quando o assunto é dinheiro e trabalho. Por outro lado, Alfredo é descrito por Eleonora como seu filho mais carinhoso. Ele não se furta em presenteá-la sempre que possível e faz de tudo para estar ao lado da mãe. A tia rica de Dona Lola, por sua vez, é dura na hora de conceder um empréstimo a Júlio. Em outros momentos, Emília é a primeira a ajudar financeiramente a família da sobrinha, geralmente com encomendas. Incrível como Maria José Dupré construiu as personagens de “Éramos Seis”. Todos os escritores iniciantes deveriam conhecer esse trabalho magistral da escritora paulista. Em termos de desenvolvimento das personagens, ela é perfeita. Outro aspecto interessantíssimo deste romance é a reconstrução histórica da São Paulo da primeira metade do século XX. Na certa, Dupré utilizou-se de extensa pesquisa documental, jornalística e bibliográfica para recriar os acontecimentos e o clima de um período em que ela ainda era criança e adolescente. A sensação que o leitor tem é de estar vivenciando realmente aquele período. Muitas passagens esquecidas de cem anos atrás (Gripe Espanhola de 1918 e Revolução Paulista de 1924, por exemplo) são peças fundamentais do enredo. Também adorei a descrição do bairro de Higienópolis e da Avenida Paulista no início do século passado. Caminhar pelas páginas de “Éramos Seis” é percorrer o passado da cidade de São Paulo com um olhar atento e bonito da autora. Para quem gosta de um bom dramalhão, este livro é um prato cheio. Do início ao fim, a obra de Maria José Dupré reserva uma sucessão de dificuldades para seus protagonistas. A impressão que temos durante a leitura é que as coisas só pioram para a família à medida que os capítulos avançam. Quando você acha que as personagens principais chegaram, enfim, ao fundo do poço, as páginas seguintes mostram que o tal fundo ainda era uma miragem. E, curiosamente, a narradora disse no começo do romance que iria descrever o tempo em que foi mais feliz... Sinceramente, não quero estar por perto quando Eleonora de Lemos for relatar os instantes mais difíceis de sua vida! Apesar desse melodrama rasgado (não à toa, o livro é um dos favoritos para ser adaptado para as telenovelas), “Éramos Seis” tem uma excelente história. A maneira precisa e elegante como Dupré narra os acontecimentos transforma esse enredo em uma trama carismática e bastante verossímil. Em poucas páginas, o leitor acaba sensibilizado com o drama das personagens (principalmente de sua narradora-protagonista) e acaba mergulhando de cabeça nesta história. A parte final do romance é marcada por uma longa discussão ideológica que ainda hoje muita gente tem. Alfredo é um defensor contumaz do socialismo enquanto Carlos é um adepto incondicional do capitalismo. Uma boa quantidade de páginas é destinada para as discussões travadas entre os irmãos. Se na época do lançamento do livro este tipo de conteúdo era visto como algo ousado e novo na ficção comercial, hoje a impressão que temos é que esse debate é um tanto batido e está desgastado (pelo menos quando inserido no meio de um romance). Contudo, é preciso considerarmos a perspectiva histórica para tecermos uma opinião coerente sobre isso. Esse tema (comunismo soviético versus capitalismo norte-americano) era uma questão sensível nos anos de 1930 e 1940, quando a trama se passa. Assim, sua pertinência no enredo do romance faz todo o sentido do ponto de vista narrativo. O desfecho do livro é implacável com sua protagonista. Não espere nenhum alento ou boa notícia vinda para os lados de Eleonora. O retrato final que temos dela é de uma mulher velha, triste, pobre, amargurada e muito solitária. Infelizmente, o tempo e o destino podem ser muito cruéis com aqueles que tanto batalharam ao longo dos anos para a felicidade da família. Por fim, “Éramos Seis” é um romance que apresenta de forma sublime a mentalidade e a realidade brasileira (e, por que não, paulistana) do início do século passado. Vemos, assim, os vários preconceitos da sociedade burguesa da época (por exemplo, o machismo), o papel da esposa no casamento tradicional (a mulher é alguém que precisa se sacrificar ou mesmo se anular em nome dos filhos e do marido), a religiosidade, o conservadorismo e a transformação urbana que o Brasil passou. Aos olhos dos leitores atuais, muitas cenas e passagens do romance podem parecer exageradas e piegas, mas eram exatamente assim que a sociedade lá trás enxergava sua vida e vivenciava sua realidade. Portanto, Maria José Dupré é mestre em retratar os dramas de seus contemporâneos. Uma vez terminada a leitura inicial do Desafio Literário deste mês, já posso começar a me preparar para a segunda obra de Dupré que será analisada no Bonas Histórias. O próximo livro da autora que veremos no blog será “A Ilha Perdida” (Ática). Esse título é o primeiro romance infantojuvenil da escritora e um dos maiores sucessos da Série Vaga-Lume. Vou ler “A Ilha Perdida” nessa semana e no próximo sábado, dia 9, posto uma análise crítica sobre ele. Não perca as próximas etapas do estudo sobre a literatura de Maria José Dupré. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Desafio Literário de maio/2020: Maria José Dupré

    Se no mês passado o Desafio Literário analisou um ícone norte-americano, Jack Kerouac, vamos focar em maio na literatura brasileira. A autora escolhida para nosso novo estudo é Maria José Dupré. Um dos principais nomes da ficção nacional na metade do século XX, Dupré produziu grandes sucessos como “Gina” (Ática) e “Os Rodriguez” (Ática). Alguns de seus principais títulos são lidos até hoje e foram traduzidos para outros idiomas. Sua principal obra é indiscutivelmente “Éramos Seis” (Ática), romance publicado em 1943 e que foi adaptado inúmeras vezes para a televisão. Há inclusive uma versão de telenovela da Rede Globo baseada nessa história que saiu do ar recentemente. Além da literatura para adultos, Maria José Dupré também escreveu vários livros infantis e infantojuvenis de grande sucesso de crítica e de público. “A Ilha Perdida” (Ática), “A Montanha Encantada” (Ática) e “A Mina de Ouro” (Ática), por exemplo, foram best-sellers da famosa coleção “Vaga-Lume”, febre editorial nas décadas de 1980 e 1990. A série infantil “O Cachorrinho Samba” (Ática) recebeu os principais prêmios literários no Brasil em sua categoria e é, até hoje, uma narrativa com a capacidade de emocionar a criançada. Apesar de sua inegável importância histórico-literária, Maria José Dupré foi renegada, nas últimas décadas, ao segundo plano dos autores clássicos da literatura brasileira. Isso explica o porquê de muitos leitores contemporâneos não a conhecerem à fundo. Sinceramente não sei o motivo para essa desvalorização precoce. O que sei é que a ideia de incluirmos seu nome nos estudos estilístico do Bonas Histórias é uma maneira de nos redimirmos dessa falha imperdoável. Maria José nasceu, em 1898, em Botucatu, no interior paulista. Foi ali onde passou toda a infância. Na juventude, mudou-se para São Paulo, formando-se no magistério. Trabalhou alguns anos como professora, até se casar com o engenheiro Leandro Dupré. Somente após o matrimônio é que Maria José começou a se dedicar ao ofício de escritora. Ela foi muito incentivada pelo marido, que ficava encantado com suas narrativas. Após a publicação pontual de alguns contos nos jornais da capital paulista entre o final da década de 1930 e o início dos anos de 1940, Maria José Dupré estreou na literatura comercial com o lançamento, em 1941, de “O Romance de Teresa Bernard” (Brasiliense). Assim como aconteceu durante boa parte de sua carreira, ela usou o nome Sra. Leandro Dupré para estampar a capa desse primeiro livro (a denominação Maria José Dupré surgiria apenas na década de 1950). O lançamento de “O Romance de Teresa Bernard” marcou o início do período de ouro da produção literária da autora paulista. Nos dez anos seguintes, ela escreveria seus principais livros. Em 1943, “Éramos Seis”, o segundo romance de Dupré, chegava às livrarias. Sucesso quase instantâneo, a obra conquistou o Prêmio Raul Pompéia da Academia Brasileira de Letras, a honraria literária mais importante daquela época. Empolgada com o êxito do livro, a escritora passou a se dedicar à literatura como profissão. Anos mais tarde, em 1949, uma continuação da história clássica de “Éramos Seis” foi lançada. “Dona Lola” (Brasiliense) relata mais detalhes sobre os perrengues da família Lemos. Além de “Éramos Seis” e “Dona Lola, Maria José Dupré publicou outros sete romances adultos. As tramas desses livros giram quase sempre em torno dos dramas femininos. Os maiores sucessos dessa lista são: “Luz e Sombra” (Ática), de 1944, “Gina”, de 1945, e “Os Rodriguez”, de 1946. Em 1943, a escritora de Botucatu estreou na literatura infantojuvenil com “Aventuras de Vera, Lúcia, Pingo e Pipoca” (Brasiliense). Nos títulos seguintes dessa categoria, Dupré deu sequência à trama da animada e corajosa turma de amiguinhos. “A Ilha Perdida”, de 1944, “A Montanha Encantada”, de 1945, e “A Mina de Ouro”, de 1946, são seus maiores sucessos infantojuvenis. Em 1949, Dupré iniciava a série “O Cachorrinho Samba” com o livro homônimo. Ao todo, essa coletânea infantil sobre o carismático e endiabrado Fox teve seis títulos. Para contemplarmos todas as facetas da literatura de Maria José Dupré, escolhemos analisar, em maio, três romances adultos e três livros infantojuvenis da escritora paulista. Segue, a seguir, a programação desse mês do Desafio Literário do Bonas Histórias: - 6 de maio de 2020 - Análise de “Éramos Seis” (1943). - 10 de maio de 2020 - Análise de “A Ilha Perdida” (1944). - 14 de maio de 2020 - Análise de “Gina” (1945). - 18 de maio de 2020 - Análise de “A Mina de Ouro” (1946). - 22 de maio de 2020 - Análise de “Os Rodriguez” (1946). - 26 de maio de 2020 - Análise de “O Cachorrinho Samba” (1949). - 30 de maio de 2020 - Análise da literatura de Maria José Dupré. O primeiro livro do Desafio Literário de Maria José Dupré que vamos discutir na próxima semana é justamente seu maior sucesso, "Éramos Seis" (Ática). O post com a análise deste romance será publicado no blog na quarta-feira, dia 6. Boa leitura para todos nós! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. 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