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  • Livros: Pic - A novela póstuma de Jack Kerouac

    Hoje, o Bonas Histórias apresenta o sexto e último livro de Jack Kerouac do Desafio Literário deste mês. A obra é “Pic” (L&PM Editores), a novela póstuma do escritor norte-americano que foi um dos maiores expoentes da Geração Beat. Esta pequena narrativa é curiosa porque ao mesmo tempo em que possui características que fogem completamente do estilo de seu autor, ela também carrega algumas marcas estilísticas da literatura de Kerouac. Por exemplo, temos aqui uma surpreendente trama ingênua e sensível sobre a infância de um menino pobre e negro da Carolina do Norte. Quem leu “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Editores) jamais poderia imaginar algo tão delicado e sutil vindo de Jack Kerouac. Por outro lado, temos mais uma vez uma road story, gênero no qual o escritor norte-americano é ainda hoje uma das grandes referências. “Pic” foi publicado pela primeira vez em 1971, dois anos após a morte de Jack Kerouac por cirrose hepática aos 47 anos. Entretanto, esta obra foi produzida de fato na primeira metade da década de 1950. Ou seja, este título pode ser classificado como pertencente à fase inicial da carreira do norte-americano. Infelizmente, algumas editoras tentam “vender” “Pic” para o mercado como se ele fosse “o último romance de Kerouac”. Isso acontece tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Trata-se de um erro crasso. Em primeiro lugar, temos aqui uma novela e não um romance. Além disso, se nos basearmos na ordem cronológica de seu desenvolvimento, “Pic” é uma das primeiras narrativas de Kerouac e não uma das últimas. E, por fim, este livro também não foi o último do norte-americano a ganhar as livrarias. “Visões de Cody” (L&PM Pocket), outra obra póstuma, só foi publicado integralmente em 1972, um ano depois de “Pic”. Dessa forma, não entendo o porquê chamar esta novela do início da carreira do principal escritor Beat de “seu último romance”. Na época em que a história de “Pic” foi escrita, Jack Kerouac era ainda um autor desconhecido. Nessa fase de sua carreira, ele tinha sérias dificuldades para agradar os editores (algo que, para sermos sinceros, o acompanhou até o final da vida). As editoras insistiam em não querer publicar seus livros por vários motivos. As principais justificativas eram: obras extensas demais, tramas desconexas e fluxos de consciência excessivos no meio das narrativas. De certa forma, Kerouac sempre foi um escritor de maior sucesso de público do que de crítica. “Pic” é uma dessas criações renegadas pelo mercado editorial, que não viu valor em sua história. Acredito que ela tenha sido desprezada até mesmo pelo seu criador. Na década de 1960, Jack Kerouac já era famoso ao ponto de insistir na publicação de uma obra que achasse interessante. Contudo, ele não se esforçou nem um pouco para ver uma de suas primeiras tramas ficcionais impressas. Por quê?! Acredito que ele mesmo reconheceu que este livro era fraquinho... Comparado a “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), “On The Road”, “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket) e “Big Sur” (L&PM Pocket), “Pic” é disparado a pior obra. Esta novela é narrada em primeira pessoa por Pictorial Review Jackson, um menino de onze anos morador da zona rural da Carolina do Norte. Negro e pobre, Pic, como é chamado por todos, vive com seu avô em um barracão cedido pelo Sr. Otis, um rico proprietário de terras da região. O avô de Pic é um homem idoso, religioso e doente, além de paupérrimo. Ele cuida sozinho do neto desde que a mãe do garoto faleceu há alguns anos. O pai de Pic abandonou a família ao fugir de casa logo depois que o menino nasceu. A única companhia da família Jackson em seu barracão é um fiel e antigo cachorro. Apesar das carências materiais e afetivas, a vida de Pic é tranquila na Carolina do Norte. O garoto gosta de explorar livremente as fazendas e a natureza da região. Os dias de alegria de Pictorial acabam quando seu avô fica seriamente doente e morre. Sem ninguém para cuidar do menino, Pic é enviado para a casa da Tia Gastonia. Lá, ele é desprezado e humilhado pelos parentes. Por causa das estripulias antigas do pai, o protagonista da novela passa maus bocados na residência da tia. Seu drama acaba quando Slim, o irmão mais velho de Pic, aparece para buscá-lo. Slim leva o menino para viver em Nova York. É iniciada a fase de viagens do pequeno Pictorial. Em pouco tempo, ele cruzará junto com o irmão muitas cidades norte-americanas em uma jornada que parece não ter fim. Essa peregrinação toda é narrada com a inocência do olhar de alguém que começa a deixar a infância e pouco a pouco entra na adolescência. “Pic” possui 128 páginas. Elas estão divididas em 14 capítulos. É possível ler esta obra em uma única tarde ou noite. Foi o que aconteceu comigo na última sexta-feira à noite. Concluí esta leitura em aproximadamente três horas, em uma batida só (algo típico das novelas). O primeiro aspecto que chama a atenção em “Pic” é a linguagem usada por Jack Kerouac. A narrativa do livro tenta emular ao máximo o discurso do garoto pobre e de pouca instrução. Assim, temos neste texto erros gramaticais propositais, palavras simples e fortes marcas de oralidade. Se esse recurso se aproxima do diálogo do cotidiano das pessoas da base da pirâmide social, por outro lado ele acaba ficando um tanto caricato. É como se os negros pobres falassem sempre errado e os brancos ricos fossem os únicos que falassem corretamente. De certa maneira, “Pic” me lembrou a narração de “Ratos e Homens” (L&PM Pocket), novela de John Steinbeck da década de 1930. Steinbeck era um autor que buscava a oralidade de seu texto com esse tipo de recurso. Veja isso no primeiro parágrafo de “Pic”: “Ninguém nunca me amô como eu me amo, a não ser a minha mãe e ela já morreu. (O meu vô, ele é tão velho que lembra das coisa que acontecero há cem ano atrás mas o que aconteceu na semana passada e ontem ele não sabe). Meu pai foi embora há tanto tempo que já ninguém mais lembra como era a cara dele. O meu irmão, toda manhã de domingo com o terno novo na frente de casa, saindo pela velha estrada, e o meu vô e eu sentado na varanda balançando nas cadera e conversando, mas o meu irmão não dava a mínima e um dia foi embora e nunca mais voltô”. A escolha do narrador em primeira pessoa foi acertadíssima. Acompanhamos a trama a partir da perspectiva do garoto ingênuo e sonhador. Sua adoração pelo avô falecido também deixa o texto ainda mais introspectivo e emocionante. O menino narra sua história diretamente para o avô, como se o velho ainda estivesse vivo e próximo ao protagonista. Incrível! Em “Pic”, conseguimos ver na prática o racismo da sociedade norte-americana durante a metade do século passado. As personagens sofrem com a segregação racial em seu dia a dia. Um exemplo disso é a cena em que Pictorial e Slim não podem usar determinado assento em um ônibus por causa da cor de sua pele. Pic e seu irmão comentam de forma corriqueira sobre as diferenças entre a vida de negros e brancos. Dependendo da cidade dos Estados Unidos onde os negros moram, as coisas podem ser bem difíceis. Apesar da realidade dura (diria nua e crua!), o tom desta novela não é tão dramático como pensei que seria. Jack Kerouac opta pelo estilo tragicômico. Um bom exemplo dessa proposta é o capítulo em que Slim Jackson consegue e perde dois empregos em um mesmo dia. Como uma boa narrativa de Kerouac, “Pic” é um road story. Pic viaja primeiramente da Carolina do Norte para Nova York com seu irmão. Eles percorrem de ônibus Washington, Baltimore, Maryland, Filadélfia e Nova Jersey. Depois, a dupla segue de Nova York para a Califórnia. Esta segunda jornada é feita pegando carona nas estradas (ao melhor estilo mochilão, que Kerouac conheceu tão bem!). O maior problema deste livro é que sua história é recheada de banalidades. Em algumas partes, a trama fica sem sal. Não consegui visualizar um grande conflito do protagonista que motivasse a leitura. Apesar da beleza de boa parte da narrativa, é inegável a existência de muitas partes fracas. Minha sensação é que essa história precisava passar por uma boa edição, algo que definitivamente não aconteceu. Achei, por exemplo, desnecessários e sem graça os capítulos sobre as viagens dos irmãos pelos Estados Unidos (o que pode ser visto como um sacrilégio em se tratando de uma análise literária de Jack Kerouac). Por outro lado, esta novela possui um ponto positivo inegável: flerte com a crítica social, algo que ficara até então em segundo plano nos trabalhos ficcionais de Kerouac – mais preocupado com aspectos existencialistas dos indivíduos do que com os dramas coletivos de seus conterrâneos. Exatamente por isso, um leitor desavisado poderia acreditar que leu John Steinbeck e não um autor da Geração Beat. Além de “Ratos e Homens”, lembrei muito de “A Rua das Ilusões Perdidas” (BestBolso) durante esta leitura. Em suma, das obras de Jack Kerouac lidas até este momento no Desafio Literário de abril, “Pic” é o livro mais fraquinho. Se por um lado seu tamanho reduzido ajuda o leitor que deseja conhecer o trabalho literário de Kerouac de maneira rápida e introdutória, por outro esta novela não retrata exatamente a excelência das criações do autor norte-americano. Às vezes, vale mais a pena ler “On The Road”, que tem quase quatro vezes mais páginas e exige um esforço maior, do que “Pic”, aparentemente uma obra descartável. Feitas as críticas individuais dos seis livros de Jack Kerouac, o Desafio Literário de abril parte agora para a conclusão dos estudos sobre o principal escritor da Geração Beat. Na próxima quinta-feira, dia 30, apresento no Bonas Histórias a análise abrangente da carreira e do estilo literário de Kerouac. Não perca a última parte do Desafio Literário deste mês. Até mais! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Big Sur - Vícios e alucinações de Jack Kerouac no pós-fama

    Nesse final de semana, li “Big Sur” (L&PM Pocket), a décima primeira publicação de Jack Kerouac. Esse livro, o quinto do escritor norte-americano que analisamos no Desafio Literário de abril do Bonas Histórias, foi lançado originalmente em setembro de 1962. O romance narra as viagens feitas por Kerouac, dois anos antes, pela costa oeste dos Estados Unidos. Já um best-seller da literatura norte-americana após o estrondoso sucesso de “On The Road” (L&PM Pocket), título de 1957, Jack Kerouac deixou Nova York, onde morava com a mãe, e passou alguns meses ao lado dos velhos amigos de São Francisco. Quem leu “On The Road”, “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket) e/ou “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket) já está familiarizado com os principais integrantes da turminha do autor: Neal Cassady, Carolyn Cassady, Gary Snyder, Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti. Nos textos literários do pai da Geração Beat, os nomes reais de todas as figuras retratadas são sempre modificados de obra para obra (exigências das editoras para elas não terem problemas judiciais com nenhum dos envolvidos). Nos relatos dessa viagem de 1960, Jack Kerouac expõe um dos momentos mais difíceis de sua vida: a turbulenta fase do pós-fama. De certa maneira, o peso pelo sucesso repentino e o excessivo conforto gerado pela fortuna amedalhada agravaram o quadro depressivo e de vícios do escritor beat. Assim, ele foi levado à exaustão física, mental e emocional. Pensando em ajudá-lo, Lawrence Ferlinghetti, amigo que tinha uma cabana isolada no alto de uma montanha na região de Big Sur (daí o título do romance), convidou Kerouac para passar uma temporada na Califórnia. Na concepção de Ferlinghetti, o que Jack precisava era de tranquilidade, do contato maior com a natureza, de uma rotina simples, de mais introspecção e da distância dos amigos baladeiros. Concordando com essa proposta, Jack Kerouac voou para o outro lado do país. E lá ele passou alguns meses, oscilando períodos ao lado dos amigos em bebedeiras intermináveis e momentos totalmente isolados, mas sempre com as garrafas de bebidas alcoólicas à tira colo. Como é típico dos trabalhos do principal nome da Geração Beat, essa trama é narrada em primeira pessoa pelo alter ego de Kerouac (chamado aqui de Jack Duluoz). Além disso, temos uma obra calcada em muitas viagens, no melhor estilo road story, e uma estética narrativa com uma escrita caótica. Ou seja, trata-se de um romance tipicamente kerouaquiano. Porém, engana-se quem pensa que esse título não reserva boas surpresas. Dentro do portfólio literário de Jack Kerouac, “Big Sur” é importante por três motivos fundamentais: o livro marca o retorno do autor beat ao romance, gênero em que ele mais se destacou; é a primeira obra a retratar de forma semi-autobiográfica a vida do escritor após a fama; e sua narrativa expõe de um jeito corajoso e muito sincero o drama de Kerouac com o alcoolismo e o vício em drogas. Falemos mais, a seguir, sobre essas três características. “Big Sur” foi o primeiro romance de Jack Kerouac lançado depois de três anos. Vale lembrar que nessa época, o finalzinho da década de 1950 e o início dos anos de 1960, as livrarias foram invadidas por uma enxurrada de livros do autor, transformado do dia para a noite no queridinho tanto do público quanto da crítica literária. Entre 1959 e 1960, para se ter uma dimensão, nada menos do que sete obras de Kerouac foram lançadas nos Estados Unidos. Isso dá uma média superior a três títulos por ano. Contudo, antes de “Big Sur”, as cinco últimas publicações do escritor beat não foram romances: “Mexico City Blues” (sem edição em português), de 1959, era uma obra poética; “Livro dos Sonhos” (L&PM Pocket), de 1960, era uma autobiografia onírica; “The Scripture of the Golden Eternity” (sem edição em português), de 1960, era uma coletânea de poemas; “Tristessa” (L&PM Pocket), de 1960, era uma novela; e “Viajante Solitário” (L&PM Pocket), também de 1960, era uma coleção de ensaios. O último romance propriamente dito tinha sido “Maggie Cassidy” (L&PM Pocket), de 1959. O segundo aspecto relevante é que esse livro é pioneiro ao mostrar a vida de Jack Kerouac após o seu sucesso literário. Até então, todos os títulos do autor norte-americano ou foram escritos antes de 1957, o ano de publicação de “On The Road”, ou foram produzidos posteriormente à fama, mas com enredos baseados em acontecimentos anteriores ao apogeu profissional. Assim, o novo dia a dia de Kerouac, agora famoso e rico, se mantinha um mistério para o público leitor. “Big Sur” surge para aplacar essa curiosidade, revelando os primeiros elementos da nova rotina do escritor beat. E, por fim, esse romance, o sétimo de Jack Kerouac, é sua mais sincera e corajosa história. O livro é surpreendente porque seu autor consegue falar de suas paranoias, de suas angústias e de seus medos como se não os estivesse realmente vivenciando. É nesse instante que constatamos o talento literário desse homem. Mesmo abalado pelo álcool, pelos sinais de abstinência química e pelo descontrole psicológico, ele escreve sobre seus sentimentos e suas sensações com uma clareza assustadora. Prova disso é que a maior parte da narrativa de “Big Sur” é baseada nos pesadelos, nos delírios e na depressão do autor. Chega a ser aterrador acompanhar de perto esse drama! Confesso que essa é uma experiência de leitura única. Há oito anos, essa história foi adaptada para o cinema pelo diretor Michael Polish. Com Jean-Marc Barr, Kate Bosworth, Josh Lucas, Radha Mitchell e Antony Edwards em seu elenco, o longa-metragem integrou o Festival Sundance de Cinema de 2012 e, logo depois, chegou ao circuito comercial norte-americano em 2013. Com um orçamento muitíssimo longe dos blockbusters hollywoodianos, a versão cinematográfica de “Big Sur” teve uma bilheteria bem modesta. Logo depois de sair de cartaz, uma peça teatral inspirada no roteiro de Michael Polish foi lançada nos Estados Unidos. A versão literária de “Big Sur” é narrada em primeira pessoa por Jack Duluoz, um escritor rico e bastante famoso. A publicação de “On The Road”, romance sobre suas antigas viagens pelo país sem dinheiro e pedindo caronas, se tornou um ícone para os jovens beatniks. Por isso, todos querem se aproximar de Duluoz, visto pelo público ainda como um rebelde inconsequente de 26 anos que é amigo de todo mundo. O problema é que o escritor não é mais um garotão. Chegando à casa dos quarenta anos, o que ele quer na verdade é paz e tranquilidade para se dedicar à literatura. Assim, o peso pelo sucesso meteórico trouxe graves consequências para Jack Duluoz: agravamento do alcoolismo, vontade de fugir para um lugar que não haja ninguém, exposição excessiva de sua privacidade, intensos convites para a divulgação de suas obras e enorme expectativa sobre suas novas produções. Com tanta pressão, a cabecinha do escritor entrou em parafuso. Sabendo da depressão do amigo, que vivia com a mãe e um gatinho de estimação em Long Island, Lorenzo Monsanto, poeta beatnik, convidou Jack para passar uma temporada na Califórnia. Monsanto tinha uma cabana simplória no alto de uma montanha em Big Sur e ela poderia ser usada como residência pelo romancista. Ficar isolado do mundo por alguns meses poderia fazer bem para as emoções e para a mente de Jack. Concordando com o poeta, Duluoz pega um avião em Nova York e chega a São Francisco para seu período sabático. O problema é que antes de se encontrar com Monsanto, Jack Duluoz é descoberto, assim que chega a Frisco, por um grupo de fãs. A galerinha o chama para uma bebedeira. Aí o escritor passa a noite na esbórnia completa, perdendo, no dia seguinte de manhã, a carona de Monsanto até a montanha. Arrependido pela boemia desenfreada da véspera, Duluoz decide viajar sozinho para Big Sur. Depois de passar por muitos perrengues pelo caminho, ele chega, enfim, à propriedade do amigo. Lorenzo Monsanto o recepciona feliz da vida e lhe explica detalhes administrativos do lugar. Em seguida, volta para São Francisco, deixando o amigo sozinho em sua propriedade. Em Big Sur, Jack passa três semanas totalmente isolado de tudo e de todos em uma casinha sem energia elétrica e sem janelas. É o período ideal para ele se acalmar e botar os pensamentos no lugar. A tranquilidade da região e sua rotina pacata ali (ele passa os dias lendo, cozinhando, fazendo poesia, cortando lenha, indo à praia, contemplando a natureza, alimentando os animais, divagando sobre seu passado e refletindo sobre Deus e a humanidade) permitem que o best-seller beatnik se reconecte com a natureza e consigo. Essa é a fase de extrema calmaria, o que gera grande felicidade para Jack. O problema é que por mais que queira ficar sozinho, Duluoz não consegue permanecer em Big Sur por muito tempo. Depois de se estabilizar espiritual e emocionalmente, ele volta faceiro para São Francisco. E na cidade grande junto aos velhos amigos baladeiros, ele retorna à rotina de bebedeiras, aos maços diários de cigarro e ao consumo desenfreado de drogas, trocando quase sempre o dia pela noite. Diferentemente do passado, quando não tinha dinheiro para nada, agora é o escritor rico que sustenta as saídas libertinas com os companheiros. Mesmo sabendo que aquilo não é certo, Jack sucumbe aos prazeres carnais, vítima do alcoolismo e da dependência química. Ao mesmo tempo em que sabe que precisa ir a Big Sur para se acalmar, Jack Duluoz quer ficar ao lado dos amigos. Por isso, ele até retorna para a cabana de Monsanto algumas vezes, mas sempre levando seus parceiros de farra à tira colo. Além disso, ele inicia um relacionamento amoroso com Willamine Dabney, a linda amante de Cody Pomeray. Como os amigos sempre dividiram suas mulheres, ninguém estranha que Jack vá para a cama e viva como marido de Billie, como Willamine é chamada carinhosamente por todos. Os novos excessos de Duluoz não tardam em emitir a conta. Além de sofrer uma séria crise sacro-existencialista, ele é vítima de fortes pesadelos, de alucinações e de mania de perseguição. O leitor assiste, nas páginas desse romance, ao definhamento moral, psicológico, emocional, físico e espiritual de um homem prisioneiro dos seus vícios. Além de triste, é assustador acompanhar a confusão mental que o narrador-protagonista vivencie por vários e vários dias. “Big Sur” tem 192 páginas. Seu conteúdo está dividido em 38 capítulos. A obra possui também três prefácios: uma escrita pelo próprio Jack Kerouac, outra produzida por Allen Ginsberg (sua personagem nesse livro tem o nome de Irwin Garden) e a última desenvolvida por Aram Saroyan, dramaturgo e poeta contemporâneo. No final do romance, o leitor ainda pode ler “Mar – Sonhos do Pacífico”, poema escrito por Kerouac durante sua estada em Big Sur (e citada no meio da trama ficcional). Precisei do final de semana inteiro para concluir essa obra. Com algumas paradas no meio do caminho, iniciei a leitura na manhã do sábado e a finalizei na noite de domingo. Apesar de não ser um título extenso, ele exige muita atenção do leitor, o que nos obriga um ritmo de leitura mais lento do que o normal. Apesar de ter um texto um pouco mais comportado esteticamente do que “Os Subterrâneos”, ainda sim temos em “Big Sur” uma narrativa livre e, por vezes, caótica que caracteriza a “Escrita Automática” de Jack Kerouac. Longas frases, ausência de ponto final (ponto final para quê?!), mistura de planos (reais, oníricos e alucinações ao mesmo tempo; passado, presente e futuro integrados; e narrativas, pensamentos e discursos juntos) e mudança abrupta de situação na cena são algumas das características estilísticas desse livro. Quanto ao conteúdo, temos poucas mudanças conceituais em relação aos romances anteriores de Kerouac. Seu narrador-protagonista continua bebendo todas, usando drogas, fazendo sexo casual sem se importar com o sentimento de suas parceiras, realizando suas viagens intermináveis pelo país, não ligando para o dinheiro nem para o conforto material, questionando-se sobre aspectos filosóficos e religiosos e sendo apaixonado pela literatura e pela música. Sabe qual é a única diferença de Jack Duluoz para Peter Martin, de “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), para Sal Paradise, de “On The Road”, para Leo Percepied, de “Os Subterrâneos”, e Ray Smith, de “Os Vagabundos Iluminados”? O nome. Todos são a mesma pessoa - o alter ego de Jack Keroauc. Por falar em semelhanças, no seu comecinho, “Big Sur” se parece um pouco com “Vagabundos Iluminados” (a personagem principal acredita que irá encontrar a paz interior se isolando do mundo). Depois, o livro se assemelha a “On The Road” (viagens e carpe diem inconsequente). E por fim, o romance se torna parecidíssimo com “Os Subterrâneos” (dramas amorosos de um homem frio, hedonista e egoísta). O que muda em “Big Sur” é a maior introspecção e o desespero psíquico de seu protagonista. Aí, a obra se torna incomparável. Se você não gosta de viagens psicodélicas, talvez não curta tanto os delírios que Jack Duluoz vivencie nesse romance. A graça de “Big Sur” está justamente em tentar acompanhar a jornada da personagem principal pelos caminhos nebulosos da mente humana. Jack sabe que precisa mudar e até tenta alterar seus comportamentos. Porém, algo mais forte dentro dele insistirá em boicotar todas as suas tentativas de redenção, levando-o ao esgotamento completo. Se a ação concreta diminui ou mesmo cessa por várias páginas e por vários capítulos quando o protagonista da trama surta, o que compromete sim um pouco do ritmo do livro, por outro lado assistimos aos detalhes das reações físico-psicológicas de um viciado em um quadro severo de alucinação. Nesse sentido, até mesmo o estilo caótico do texto literário de Keroauc encaixa-se como uma luva nessa narrativa. Nunca a “Escrita Automática” fez tanto sentido como nessa história – ou alguém imagina que o narrador com sérios problemas mentais irá conseguir escrever seu texto direitinho, hein?! Gostei muito de “Big Sur”. Seu drama é genuíno e intenso. Sua proposta é, no mínimo, corajosa. Jack Kerouac é o tipo de escritor que não tinha medo de se expor e, até esse momento, não havia perdido a capacidade de trabalhar com a escrita - algo que infelizmente viria a acontecer mais para frente, quando o aumento do alcoolismo e dos vícios em drogas iria travá-lo. Até mesmo esse momento mais delicado da vida do autor pode ser vislumbrado nesse romance. Chega até a parecer incrível que Jack Kerouac tenha vivido por mais sete anos depois do lançamento de “Big Sur”. A análise dos livros de Kerouac irá prosseguir no próximo domingo, dia 26. Nessa data, retornarei ao Bonas Histórias para comentar “Pic” (L&PM Pocket), a novela do escritor norte-americano publicada postumamente. Esta obra encerra a fase das investigações individuais dos seis títulos do Desafio Literário de abril. Não perca o próximo post sobre a análise da literatura de Jack Kerouac. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? 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  • Livros: Os Vagabundos Iluminados - O romance budista de Jack Kerouac

    Depois de realizar as viagens que deram origem aos relatos de “On The Road – Pé na Estrada” (L&PM Pocket), o seu livro de maior sucesso, Jack Kerouac começou a se interessar cada vez mais pelo budismo. Em 1954, o escritor norte-americano já sinalizava para os amigos mais próximos e para os familiares sua identificação com os princípios e as crenças da religião chinesa. Contudo, foi no ano seguinte que Kerouac embarcaria de vez na nova experiência mística. Em uma de suas noites de bebedeiras por São Francisco, ele conheceu o poeta e ensaísta Gary Snyder. Praticante de longa data da filosofia zen e do montanhismo, apaixonado pela cultura chinesa e ferrenho ativista ambiental, Snyder influenciou significativamente o novo amigo pelos caminhos da religiosidade oriental. “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), o quarto romance semiautobiográfico de Kerouac que o Desafio Literário deste mês analisa no Bonas Histórias, narra justamente as viagens da dupla de escritores, até então desconhecidos, pelas montanhas dos Estados Unidos e pelo interior de suas almas. Como resultado prático dessa experiência, Jack Kerouac encontrou sentido para seu estilo de vida simples, anticapitalista, anticonsumista e mais próximo à natureza. Não à toa, essas eram as bandeiras levantadas com afinco por Gary Snyder. Assim, não é errado afirmarmos que o budismo caiu como uma luva para explicar a rotina e as aspirações do pai da Geração Beat. No período retratado pelo livro, Kerouac morava em Mill Valley, na Califórnia, ora como vizinho de Snyder ora na mesma casa com o amigo. O romance descreve o período entre setembro de 1955 e setembro de 1956 quando a dupla se tornou inseparável e capitaneou um bando de jovens escritores que nutria admiração pelo budismo. Os amigos só se separaram quando Snyder viajou para o Japão, onde viveu por vários anos e inclusive se casou e teve filhos. Por causa dessa pegada budista, o grupo de literatos se autointitulava, segundo a publicação ficcional, de “Os Vagabundos do Dharma”. Esse é justamente o título do livro em Portugal (e no original em inglês - “The Dharma Bums”). Confesso que acho mais adequado a tradução do nome da obra portuguesa (“Os Vagabundos do Dharma”) do que a da brasileira (“Os Vagabundos Iluminados”). Quem leu o romance anterior de Jack Kerouac, “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), irá se lembrar que naquele livro o nome do grupo de amigos escritores de São Francisco que flertava com as drogas, com o álcool, com o sexo promíscuo e com a vagabundagem explícita era outro: os Subterrâneos. “Os Vagabundos Iluminados” foi publicado em 1958, um ano após o lançamento estrondoso de “On The Road” e alguns meses depois de “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket). Essa overdose de publicações de Jack Kerouac, dois livros no mesmo ano (1958), mostrava o tamanho do interesse do mercado editorial e do público leitor pelo trabalho do autor beat, transformado de repente em figura central da literatura norte-americana. Escrito velozmente, como era hábito de Kerouac, “Os Vagabundos Iluminados” é um típico road story. O livro começou a ser produzido em 26 de novembro de 1957 e já estava finalizado em 7 de dezembro daquele ano. Ou seja, foram necessárias apenas quatro semanas de trabalho. Se por um lado essa agilidade é impressionante, por outro lado parece uma eternidade – lembremos que “Os Subterrâneos” foi escrito em impressionantes três dias e três noites! Utilizando-se da mesma técnica de produção dos romances anteriores, “On The Road” e “Os Subterrâneos”, Jack Kerouac digitou a história de “Vagabundos Iluminados” freneticamente em longos papéis de Telex. Assim, evitava a perda de tempo proveniente da troca constante das folhas na máquina de escrever. Com a agilidade conferida pelos papéis de Telex, o autor pôde dar vazão à sua técnica polêmica da escrita automática. Nela, ele escrevia o que vinha em sua cabeça, algo parecido a um fluxo de consciência do escritor. Muitos críticos literários consideram esta obra, ao lado de “Visões de Cody” (L&PM Editores), como sendo o melhor trabalho de Jack Kerouac. Afinal, se as viagens transloucadas de “On The Road” soam hoje sem muito sentido (parecem fruto da vadiação inconsequente de jovens arruaceiros), as jornadas pelas montanhas dos Estados Unidos pelo menos tiveram o propósito de descoberta pessoal e espiritual por parte do narrador-protagonista (algo ainda muito em voga nos dias de hoje). Como narrativa e conflito dramático, “Os Vagabundos Iluminados” dá de goleada em “On The Road”, apesar de não ter se tornado um livro tão icônico quanto o anterior. Para completar, Japhy Ryder (personagem baseada em Gary Snyder) é uma figura muito mais interessante do que Dean Moriarty (personagem baseada em Neal Cassady). Mesmo com a qualidade indiscutível de sua narrativa, “Os Vagabundos Iluminados” sofreu uma enxurrada de críticas logo que foi lançado. Os principais opositores à obra foram justamente quem praticava o budismo. Eles ficaram extremamente desconfortáveis com a forma como sua religião foi retratada por Jack Kerouac. Para muitos, o budismo do protagonista do livro era vazio conceitualmente e propenso a orgias. Até mesmo Gary Snyder chegou a declarar, anos mais tarde, que sua crença religiosa era bem diferente da descrita pelo amigo nas páginas do livro. Segundo o poeta e ensaísta, o budismo de “Os Vagabundos Iluminados” era misógino e bastante erotizado. Realmente, preciso concordar com ele. Foi essa a minha impressão durante a leitura. Apesar das críticas recebidas pelos budistas, “Os Vagabundos Iluminados” foi um sucesso de vendas. Parte do público que ficou encantada com “On The Road” não pensou duas vezes na hora de comprar o novo lançamento do principal autor da Geração Beat. Até hoje, essa publicação é uma das mais famosas de Jack Kerouac, ao lado de “Big Sur” (L&PM Pocket), romance de 1962, e “Anjos da Desolação” (L&PM Editores), romance de 1965 que justamente oferece mais detalhes sobre as aventuras de Kerouac por Desolation Peak, a montanha de Washington onde ele trabalhou como vigia de incêndios (relato iniciado na parte final de “Os Vagabundos Iluminados”). Todos esses livros, porém, estão bem atrás de “On The Road”, um clássico da literatura do século XX, quando o assunto é popularidade e importância. A história de “Os Vagabundos Iluminados” é narrada em primeira pessoa por Raymond Smith, um vagabundo metido a escritor. Com pouco mais de trinta anos, ele nasceu na Carolina do Norte, mas vive há algum tempo na Califórnia. Em setembro de 1955, quando a trama começa, Ray, como o protagonista é chamado por todos, mora em um chalé simples em Berkeley, cidade localizada na costa da baía de São Francisco. A residência é compartilhada com um amigo, Alvah Goldbook. Com pouco dinheiro no bolso, mas com um espírito para a aventura enorme, a personagem principal do romance gosta de viajar a esmo pelo país, conhecendo pessoas e lugares diferentes. Seu estilo de vida é o que podemos caracterizar como “inconsequentemente livre”. Após entrar de maneira clandestina em um trem de cargas em Los Angeles, Ray Smith chega à Santa Mônica. Lá, ele passa a noite na praia, onde pode contemplar as estrelas e a natureza. No dia seguinte, o escritor-andarilho pede carona até alcançar São Francisco. Em Frisco, Ray perambula pelas ladeiras do município vadiando descompromissadamente. Certa noite, em um bar local, ele conhece Japhy Ryder, o líder de um grupo de poetas praticantes do budismo e do montanhismo. Em meio à bebedeira geral, Ryder e sua galera promovem um recital poético. Fascinado pela figura excêntrica de Japhy Ryder e por aquela experiência etílico-literária, Raymond, fã incondicional da vadiagem, das bebidas alcoólicas, da literatura, da estrada e do estilo de vida alternativa, considera aquela noite mágica. Por isso, ele se torna amigo do poeta-budista. Nos dias seguintes, Ray Smith e Japhy Ryder viram uma dupla inseparável. O fato de morarem muito próximos em Berkeley só contribui para intensificar ainda mais a relação dos dois. O que Ray mais admira em Japhy é sua maneira serena e leve de encarar a vida. Adepto do budismo, leitor voraz, apaixonado pela simplicidade cotidiana, admirador da cultura chinesa, vegetariano, promotor do amor livre, amante da natureza, anticonsumista/antimaterialista, praticante da meditação, solidário e montanhista experiente, Japhy Ryder ensina diariamente ao deslumbrado Ray os conceitos de sua filosofia de vida e de suas crenças religiosas. Em outras palavras, a dupla exerce os papéis de mestre e de pupilo. Apesar de Ryder ser oito anos mais jovem do que Smith, é ele quem atua como mestre do narrador-protagonista da trama. Em uma das mais marcantes experiências até então vividas, Raymond acompanha Japhy Ryder e Henry Morley, um amigo de longa data de Japhy, na escalada ao Matterhorn Peak, o pico mais alto de Sierra Nevada, a cadeia montanhosa da Califórnia. A subida e a descida da montanha transformam Ray em um ser humano mais completo e íntegro, segundo suas palavras. A partir dessa viagem, a personagem principal do romance enxerga um novo sentido para sua existência e para as jornadas que realiza pelo país. “Os Vagabundos Iluminados” possui 256 páginas, que estão divididas em 34 capítulos. Precisei de dois dias para concluir integralmente sua leitura. Devo ter gastado algo em torno de nove a dez horas para percorrer todo o conteúdo dessa obra. Dos livros de Jack Kerouac que li até agora, esse foi o que mais me agradou. O que torna esse romance tão interessante é a quebra de expectativa. Quando li a primeira cena, de Ray Smith pulando no trem de carga para viajar de graça pela Califórnia, pensei: “Lá vem mais uma história de um jovem vagabundo que viaja a esmo pelos Estados Unidos”. Porém, o que vemos na sequência é uma admiração genuína do narrador pelo excêntrico Japhy Ryder. Daí seu mergulho pelo budismo e sua investida pelo montanhismo solitário não são apenas verossímeis como são também bastante contagiantes. Enfim, temos uma trama de Kerouac com algum sentido lógico - até agora estou buscando os motivos para as intermináveis viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty em “On The Road” e das revoltas de Joe, Francis, Peter e Elisabeth Martin com seus pais tão zelosos em “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Pocket). Com exceção do ótimo “Os Subterrâneos”, as histórias de Kerouac tinham me parecido até aqui extremamente banais: fuga da realidade (escapismo) de jovens que não queriam adentrar de jeito nenhum no mundo adulto (com as responsabilidades e as obrigações que tal transição exigia). Adicionado pela primeira vez na literatura de Jack Kerouc neste livro, o elemento religioso/místico de “Os Vagabundos Iluminados” confere maior força à sua narrativa e dá sentido ao conflito psicológico-existencialista da personagem principal. Se antes a vida largada de Raymond Smith parecia intuitivamente correta para si, sem que ele soubesse o porquê, ao conhecer Japhy Ryder ele pôde entender a lógica por trás da vida simples e espiritualmente profunda. Surgia, assim, um novo homem, mais completo e conhecedor da verdadeira natureza humana. Como romance de formação, temos aqui uma obra sensível e bonita. Por isso, gostei tanto dessa publicação. A inserção do componente religioso era o tempero que faltava para deixar a receita narrativa do escritor norte-americano no ponto certo. Ao lado de uma narrativa mais lógica, temos o estilo literário que caracterizou Kerouac em seus principais trabalhos: uso de sua biografia para ilustrar uma trama ficcional, frases longuíssimas, narração em primeira pessoa, fascínio do protagonista por um amigo subversivo socialmente, intermináveis viagens pelo país, exaltação à cultura beat (ou seria os primórdios do movimento hippie, hein?), mergulho no universo das personagens masculinas e intertextualidade cultural. Além disso, continuamos assistindo ao desprezo pelo capitalismo, pelo dinheiro, pelo casamento, pelas profissões tradicionais, pelo sexo monogâmico e pela relação sadia com as mulheres. Ou seja, quanto à estética narrativa de Kerouac, não temos qualquer novidade neste livro. Se bem que em termos estilísticos, “Os Subterrâneos” é melhor do que “Os Vagabundos Iluminados”. A viagem psicológica do romance anterior é uma experiência literária mais profunda e punk. Por falar em estética e em estilo, precisamos comentar a técnica da escrita automática desse autor. Infelizmente, o jeito frenético e compulsivo de Jack Kerouac em produzir seus livros traz alguns problemas. O maior deles é a falta de homogeneidade para a qualidade das obras. Mesmo sendo uma ficção muito boa, “Os Vagabundos Iluminados” padece de muitos altos e baixos, que poderiam muito bem ter sido superados com uma edição mais minuciosa ou com uma produção mais atenta (elementos esses inconcebíveis para a técnica da escrita automática). O escrever rápido e intenso de Kerouac sempre cobrou seu preço. Querendo ou não, a literatura de excelência exige o reescrever de suas tramas inúmeras vezes até elas ficarem no ponto certo – algo que o principal escritor beat nunca se preocupou em fazer. Assim, temos um romance com algumas partes ótimas, mas também com algumas partes lamentavelmente horríveis. As cem primeiras páginas de “Os Vagabundos Iluminados” talvez sejam as melhores que Kerouac já produziu em sua carreira. A história tem ação, ritmo, reflexões filosóficas interessantes (apesar de muitas vezes rasteiras), ótimas personagens, um conflito rapidamente identificável e cenas memoráveis. Para completar o quadro, ainda há o charme das viagens malucas pelos Estados Unidos que só Jack Kerouac consegue retratar tão bem. Porém, quando chegamos à metade do livro, a história simplesmente para de avançar e se torna muito repetitiva. Praticamente vemos as mesmas cenas da parte inicial, agora com situações banais (sem importância nenhuma para o leitor) e diálogos fraquíssimos, principalmente quando as personagens estão bêbadas (se já é chato ouvir as conversas de gente bêbada na vida real, imagina acompanhá-las na literatura?!). Além disso, a filosofia existencialista proposta por Japhy Ryder perde o ar de novidade e se torna previsível. Por mais que tentasse, Jack Kerouac não era um Albert Camus para produzir romances existencialistas profundos. É uma pena esse descambar da parte final. Se o livro tivesse terminado na metade (ou na página 100, 110), ele teria ficado perfeito. Além da intertextualidade cultural que já é tradicional nos livros de Kerouac (literatura, cinema, música, teatro, televisão) temos em “Os Vagabundos Iluminados” referências a novos campos sociais: religião, aventuras/aventureiros, naturalismo, botânica, geologia, etc. Esse expediente deixa a obra mais interessante (na edição da L&PM Pocket, a maioria dessas citações possui notas explicativas de rodapé). Outro ponto positivo desse romance está na construção de suas personagens. Elas são muito melhores do que as dos livros anteriores do autor (exceção feita, obviamente, a incrível Mardou Fox em “Os Subterrâneos”). À título de comparação, Ray Smith (tenta se manter em abstinência sexual enquanto seus amigos praticam orgias na sua frente; quer evoluir espiritualmente, mas não consegue largar o vício da bebida alcoólica; e adora os amigos, mas despreza a família) é muito mais interessante do que Sal Paradise (um zé mané que não sabe o que quer da vida); e Japhy Ryder (alguém que busca na meditação, na natureza e na simplicidade os alimentos da alma, no conhecimento o desenvolvimento da mente e no sexo tórrido a cura dos desejos do corpo) é um milhão de vezes mais fascinante do que Dean Moriarty (um delinquente juvenil egoísta e hedonista). Ao tratarmos das personagens, é importante salientar a relação das figuras reais com as fictícias. Se Jack Kerouac é nitidamente Ray Smith e Gary Snyder é indiscutivelmente Japhy Ryder, outras associações não são tão nítidas. Por exemplo, Allen Ginsberg é Alvah Goldbook, enquanto Neal Cassady é agora Cody Pomeray. E John Montgomery é o hilário Henry Morley. Vale a pena citar que Gary Snyder já tinha aparecido rapidamente em uma cena de “Os Subterrâneos”, só que com outro nome. Isso é uma das práticas de Jack Kerouac – seus amigos adquirem normalmente nomes diferentes de um romance para outro. Por exemplo, Neal Cassady foi Dean Moriarty em “On The Road”, Leroy em “Os Subterrâneos” e Cody Pomeray em “Os Vagabundos Iluminados”. O próximo livro de Jack Kerouac que será comentado no Desafio Literário deste mês é “Big Sur” (L&PM Pocket). Publicado em 1962, este romance narra a experiência de seu autor em passar alguns dias em uma cabana isolada da sociedade e sem eletricidade no alto de uma colina na Califórnia. O post sobre “Big Sur” estará disponível no Bonas Histórias na próxima quarta-feira, dia 22. Continue acompanhando no blog o estudo sobre a literatura de Jack Kerouac, um dos mais idolatrados autores norte-americanos do século XX. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? 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  • Livros: Os Subterrâneos - O drama sentimental de Jack Kerouac

    Neste final de semana, li “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), o terceiro romance de Jack Kerouac, o escritor norte-americano considerado o maior nome da Geração Beat. Não por acaso, esse é o terceiro título do autor que comentamos no Desafio Literário deste mês. Se analisarmos o portfólio de Kerouac, além de sua trajetória de vida, “Os Subterrâneos” pode ser classificado como sua obra mais surpreendente. Ou você consegue imaginá-lo escrevendo um drama sentimental, hein? Confesso que, até então, não tinha me atentado para o fato de Kerouac ter um coração pulsante (sim, ele tinha!). Pois saiba que “Os Subterrâneos” é exatamente isso – uma trama romântica. Porém, não vá pensar que esse livro é simplesmente uma narrativa convencional de um homem que sofre desesperadamente pelo amor de uma mulher. Nananinanão. Temos aqui uma das histórias mais densas, inovadoras, ácidas e amargas da literatura norte-americana - juro que me lembrei do angustiante “Primeiro Amor” (Nova Fronteira), clássico do irlandês Samuel Beckett escrito em 1945 que de amor não tinha quase nada. A palavra romantismo, em seu sentido convencional, passa longe (e põe longe nisso) dessa publicação de Jack Kerouac (e, de maneira geral, dos narradores-protagonistas do autor, quase sempre autobiográficos). Ou seja, esse é um romance de amor em que há mais elementos de loucura, depressão, abuso psicológico, violência moral, preconceitos sociais, dependência química e egoísmo do que sentimentos belos e nobres. Em uma definição abrangente, “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Pocket) é o título mais icônico de Kerouac. “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores) é a sua obra mais convencional. “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket) é a narrativa mais interessante conceitualmente (e minha favorita!). Por sua vez, “Visões de Cody” (L&PM Editores) possui a trama com a melhor construção de personagens. E “Os Subterrâneos”, que analisamos hoje no Bonas Histórias, é a o livro mais disruptivo do escritor norte-americano, seja em relação à estética (a técnica da escrita automática atinge seu ápice nesta publicação), seja em relação ao seu conteúdo (um autor beat falando abertamente de amor – amor segundo sua concepção, que fique bem claro). “Os Subterrâneos” foi escrito em apenas três dias e três noites, segundo Jack Kerouac. Este é, portanto, seu trabalho mais veloz – ele sempre foi reconhecido pela rapidez absurda com que produzia seus textos. Como praxe na literatura do norte-americano, esse também é um relato semi-autobiográfico. O romance aborda o relacionamento amoroso (breve, mas intenso) de Kerouac com Alene Lee, uma nova-iorquina negra. Os dois se conheceram no Verão de 1953, quando ela trabalhava digitando os manuscritos de William Burroughs e Allen Ginsberg, dois autores da Geração Beat amigos de Jack, e quando ele aguardava uma resposta positiva das editoras para a publicação de “On The Road”. O primeiro encontro de Kerouac e Lee foi no apartamento de Ginsberg, em Nova York. Segundo Jack, foi paixão à primeira vista. Publicado em 1958, um ano após “On The Road” ser lançado e alguns meses antes de “Os Vagabundos Iluminados” ganhar as livrarias, “Os Subterrâneos” é o livro mais polêmico de Jack Kerouac. Se o escritor foi bombardeado pelos budistas pela forma equivocada (leia-se erotização das sessões religiosas em grupo que acabavam sempre em orgias) com a qual descreveu a crença oriental em “Os Vagabundos Iluminados”, em “Os Subterrâneos” as críticas recaíram sobre o texto que quase sempre flerta com o racismo, com o machismo/misoginia e a homofobia. Nos dias de hoje, com certeza esse livro jamais seria publicado (ou teria muitíssima dificuldade para ganhar as prateleiras das principais livrarias do planeta). Curiosamente, para o editor da época, questões como racismo, misoginia e homofobia não eram problemas tão grandes assim. Uma das poucas mudanças que ele solicitou para o autor foi transferir a trama de Nova York para São Francisco (ah, tá!). Para se ter uma ideia do quão delicado é o relato despudorado e politicamente incorreto do narrador-protagonista da obra, essa história foi adaptada para o cinema em 1960. Contudo, para escapar das críticas e das polêmicas, o cineasta Ranald MacDougall trocou o perfil da protagonista feminina da trama. Assim, saía de cena a mocinha negra de Nova York e entrava em ação uma jovem branca de origem francesa (interpretada por Leslie Caron). Coisas de Hollywood, meu caro! Por isso, eu vou logo avisando: é preciso estômago forte para encarar essa narrativa. Se eu fiquei incomodado com a rebeldia desmedida de Joe, Francis, Peter e Elisabeth Martin em “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Pocket), com a infantilidade de Sal Paradise e Dean Moriarty em “On The Road” e com o vazio interior de Raymond Smith em “Os Vagabundos Iluminados”, em “Os Subterrâneos” eu fiquei enojado com o comportamento e as crenças de Leo Percepied. Ele é um psicopata egocêntrico e hedonista que não tem a mínima capacidade de se relacionar com uma mulher. Se o conteúdo de “Os Subterrâneos” é questionável (para usarmos um eufemismo), por outro lado a estética utilizada para a construção deste romance é espetacular. Até então, Jack Kerouac não tinha ousado tanto na técnica da escrita automática (em “On The Road”, ele estava aprendendo a usá-la). Como resultado, temos uma narrativa multifacetada que mistura diferentes vozes (Leo Percepied, sua namorada Mardou Fox e os amigos do casal), planos (realidade, pensamentos e sonhos das personagens) e épocas (presente, passado e, em alguns casos, futuro) em um texto que exige muito dos leitores. A história ficcional de “Os Subterrâneos” é narrada em primeira pessoa por Leo Percepied, um escritor iniciante de 30 anos de idade. Como parece óbvio, ele é o alter ego de Jack Kerouac. Amargurado pelas constantes recusas das editoras em aceitar seus livros e pela miséria que o ronda (ele não é chegado ao trabalho convencional), Leo mora com a mãe em São Francisco. Como válvula de escape para suas incontáveis frustrações, ele mergulha em homéricas bebedeiras e no consumo desenfreado de drogas com os amigos. O livro começa, em uma noite de Verão de 1953, na Montgomery Street, em frente ao bar Black Mask. O local é o ponto de encontro dos Subterrâneos, grupo de hipsters que aspiram se tornar artistas relevantes (algo que até aquele momento está muito longe de acontecer). A galerinha papo-cabeça e estilão descolado se encontra regularmente para beber (todas), consumir drogas (de todos os tipos) e azarar (o sexo é livre). O nome do grupelho deve-se à condição de outsiders de seus integrantes – eles vivem na camada mais baixa da sociedade norte-americana e no fundo do poço da cultura do seu país. Nota-se, logo de cara, um apurado senso de humor - foram eles que se autointitularam de Os Subterrâneos. Nesse encontro, Leo Percepied conhece Mardou Fox, uma negra dez anos mais jovem do que ele. Ela é muito amiga de Julien Alexander, um dos melhores amigos de Leo. Impressionado pela beleza estonteante da moça, que estava sentada no para-lama de um carro e conversava seriamente com Ross Wallenstein, amigo de Julien, o narrador não consegue mais tirá-la da cabeça. Seu primeiro pensamento é: “Preciso transar com aquela mulher”. Logo em seguida, o escritor se questiona: “Ah olha aquela menina que eu preciso transar, será que ela transa com esses caras (?)”. Leo tenta uma aproximação com Mardou naquela noite, mas não consegue ser bem-sucedido. Há muita gente ali e ela parece pouco interessada nele. Mais tarde, durante a madrugada, a galerinha ruma para a casa de Larry O'Hara, um dos integrantes dos Subterrâneos, para continuar a bebedeira e puxar um fumo. Aí o escritor consegue, enfim, conversar um pouco com Mardou. Ele fica completamente apaixonado por ela, mas não rola nada naquele dia. Leo está chapado demais, e a moça parece mais interessada em outros rapazes. Dessa forma, nos dias seguintes, Percepied tem várias fantasias sexuais com ela. Foi apenas no encontro seguinte dos amigos que Leo e Mardou se entenderam. Depois de uma festinha animada na casa de Adam Moorad, outra figurinha carimbada do grupo de literatos beats, o casal vai para o apartamento dela para transar torridamente. É o início do namoro de Leo Percepied e Mardou Fox. Em pouquíssimos dias, os dois se tornam inseparáveis. Nenhum deles consegue mais viver longe do outro. Por mais que fazem o tipo “sou independente e não vou ficar caidinho por ninguém”, a dupla sucumbe as imposições do coração. Entretanto, por mais apaixonado que esteja, Percepied não consegue levar aquele relacionamento muito bem. São vários os fatores que explicam sua insegurança: Mardou é negra (lembremos que nos Estados Unidos da década de 1950, o racismo e a segregação racial estavam regulamentados nas leis), faz tratamento psiquiátrico (o que para Leo provava que a moça era uma louca varrida), é pobre (assim como ele), já tinha ido para cama com vários amigos dele (o que despertava um ciúme doentio em Leo) e se diz independente (um sacrilégio na visão machista dos homens da Geração Beat). Por outro lado, Leo Percepied nunca tinha se sentido tão atraído por alguém. Estar ao lado de Mardou Fox era uma experiência única. Além de muito bonita, ela era carinhosa, inteligente e paciente com as bebedeiras intermináveis do namorado. Vale a pena citar que, na maioria das vezes, Leo não abria mão da companhia de seus amigos bebuns e drogados noite à dentro, o que alimentava certo rumor sobre sua homossexualidade. São essas contradições (elementos que atraem Percepied para manter o namoro com Fox e os elementos que o fazem terminá-lo) que configuram o conflito central deste livro. Para agravar mais a situação, temos a suspeita da formação de um triângulo amoroso: Yuri, amigo de Leo, torna-se cada vez mais próximo de Mardou. Conseguirá Percepied largar a esbórnia que é sua vida para ficar ao lado da mulher da sua vida?! “Os Subterrâneos” é um romance enxuto. Ele possui 144 páginas e está dividido em apenas dois capítulos. O capítulo inicial é sobre a primeira semana de namoro do casal de protagonistas. A segunda parte é sobre a continuidade desse relacionamento marcado por várias brigas e idas-e-vindas. Levei pouco mais de quatro horas para concluir essa leitura. Li a obra inteira no último sábado. Com duas ou três paradinhas no meio do caminho, comecei a leitura de manhã e a terminei no início da noite. Pela sua extensão diminuta e pelo drama compacto, não é errado classificar esta obra também como uma novela (preferi chamá-la de romance pois foi assim que sua editora e seu autor definiram). O que chama logo de cara a atenção do leitor em “Os Subterrâneos” é o estilo ousado do texto de Jack Kerouac. Temos nesse livro frases longuíssimas, parágrafos quilométricos, pontuações caóticas, o uso excessivo de gírias, a forte oralidade, a invenção de algumas palavras e a mistura de prosa com poesia (prosa poética). Além disso, a narrativa mistura vários planos (o real, o onírico e o mental/psicológico), discursos (ora é o narrador quem fala, ora são as demais personagens que se expressam) e períodos de tempo (passado, presente e futuro). E isso tudo vem junto, muitas vezes embolado na mesma frase: pensamentos e memórias do narrador, relatos do que acontece de verdade em cena, conversas com Mardou, narração do que aconteceu com ela lá atrás, pensamentos da moça, etc. É ou não é uma overdose de vozes e situações embaralhadas, hein? É como se o narrador relatasse sua história como ela veio em sua cabeça (fluxo de consciência). A experiência pode ser um pouco difícil de acompanhar no começo, mas é simplesmente sensacional. Em meio às agruras sentimentais de Leo Percepied e Mardou Fox, temos um contexto (cenário) riquíssimo. Assistimos aos bastidores da formação da Geração Beat: com detalhes picantes de quem ficou com quem, das fofocas da época, das influências literárias desses autores, das rivalidades pessoais e profissionais entre eles e do estilo de vida que tinham). Ao mesmo tempo, acompanhamos a efervescência musical dos Estados Unidos na década de 1950. Não por acaso, temos uma forte intertextualidade literária e musical neste romance. A cultura hippie também é retratada com tintas fortes: uso abusivo do álcool e das drogas (em níveis até então inéditos na própria literatura de Jack Kerouac), sexo livre (erotização acentuada), misticismo, anticonsumismo/anticapitalismo, busca pela liberdade existencial (daí a vontade de pegar a estrada o tempo inteiro e de viver de maneira nômade), repúdio ao casamento e aos relacionamentos amorosos convencionais, importância maior dos amigos/comunidade alternativa do que da família e flerte com o anarquismo. Só é possível entender os conflitos afetivo-psicológicos de Leo (ficar ou não ficar com Mardou?) se você compreender o ambiente e as crenças da personagem. O interessante em “Os Subterrâneos” é que a cultura hippie ficou apenas no contexto da trama e não foi alçada ao papel de protagonista, como ocorreu em “On The Road”, por exemplo. Além disso, esse é um dos poucos livros de Kerouac que não é um road story (acredite se quiser, mas Leo Percepied não realizou nenhuma viagem ao longo de quase 150 páginas!). Por falar em ambiente e no contexto narrativo, o racismo é peça fundamental nesse drama. Não apenas os Estados Unidos eram uma nação segregada racialmente como o narrador-protagonista de “Os Subterrâneos” também era um homem muito preconceituoso. Além de racista, ele era misógino e homofóbico. Isso fica claro no próprio discurso de Leo Percepied. Há passagens assustadoramente preconceituosas e indelicadas (muitas de cunho sexual sobre a namorada negra). Se ele falava dessa maneira da mulher que amava, fiquei imaginando o que ele não falava das outras pessoas... Por isso, saiba que “Os Subterrâneos” é capaz de chocar os leitores. Nesse sentido, Percepied age mais como um anti-herói do que como um herói convencional. Ao final da leitura, fiquei me questionando se Mardou Fox era mesmo desequilibrada psicologicamente, como foi retratada ao longo de toda a obra, ou se era seu namorado um louco tão depravado que a via equivocadamente dessa maneira. Juro que me inclinei mais para a segunda opção. De qualquer maneira, a Mardou Fox é uma ótima personagem. Ao mesmo tempo em que é bonita, inteligente, séria, carinhosa, honesta e paciente, Mardou é descrita como transloucada, pobre, ingênua, insegura, pouco confiável e (aí vai um spoiler, cuidado!) capaz de trair o namorado. A combinação das características desses dois protagonistas (o vagabundo insensível e a louca sentimental) é o que movimenta a trama de “Os Subterrâneos”. Esse livro de Jack Kerouac lembra muito os romances que canalizam o pior lado dos homens e das mulheres, apesar de aspirarem falar de seus amores. Além do já citado “Primeiro Amor”, de Samuel Beckett, lembro de cabeça de “Memórias do Subsolo” (Editora 34), de Fiódor Dostoiévski, “Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras), de Philip Roth, “A Filha Perdida” (Intrínseca), de Elena Ferrante, e “Dom Casmurro” (Ática), de Machado de Assis. Todos esses títulos navegam no pior do que há nos corações humanos. Mesmo com todas as polêmicas que possui e mesmo tendo sido escrito tão rapidamente (normalmente um convite para a baixa qualidade), “Os Subterrâneos” é melhor do que “On The Road” e “Cidade Pequena, Cidade Grande”, os trabalhos anteriores de Jack Kerouac. Esse terceiro romance do autor beat indicava o amadurecimento de sua prosa e o enriquecimento estético e narrativo de seu texto literário. O Desafio Literário de abril irá prosseguir no próximo sábado, dia 18, com o post sobre “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), o quarto romance de Jack Kerouac. Curiosamente, o livro “Os Vagabundos Iluminados” também foi publicado em 1958, mesmo ano do lançamento de “Os Subterrâneos”. Não perca os novos capítulos da investigação sobre a literatura de Jack Kerouac no Bonas Histórias. Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Passeios: Museu da Língua Portuguesa - Reinauguração no horizonte

    Em meio a cenários tão difíceis para a saúde pública, para a economia e para a cultura no Brasil (em especial para o mercado editorial, conforme apresentei, na última quarta-feira, no post “Crise sem fim ganha agora contornos apocalípticos”), trago, hoje, ao menos uma boa notícia. O Museu da Língua Portuguesa deverá ser reinaugurado no segundo semestre de 2020. Fechado desde dezembro de 2015 por causa de um incêndio que destruiu boa parte de seu prédio no bairro da Luz, na cidade de São Paulo, o museu precisou ser inteiramente reformado. As obras de reconstrução e recuperação arquitetônica duraram quatro anos e terminaram em dezembro do ano passado. Agora, o governo do Estado de São Paulo aguarda o desfecho do edital para a seleção da organização que cuidará da gestão do espaço. Uma vez definido o operador, o centro cultural abrirá novamente suas portas. Vale a pena destacar que o acervo do Museu da Língua Portuguesa, que sempre foi inteiramente digital, ficou a salvo do incêndio. Por isso, exposições itinerantes com seus materiais foram realizadas nos últimos anos tanto no Brasil quanto no exterior. Dessa forma, o museu não perdeu inteiramente seu vínculo com o público. Porém, a volta à casa própria, uma construção histórica e belíssima no centro de São Paulo, deverá intensificar as visitações. Com a proposta de conectar o público lusófono às particularidades do seu idioma natal, como a origem, a história, a cultura, as influências, os detalhes do cotidiano e as diferenças regionais, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em 2006. Em sua primeira década de vida, o local foi visitado por mais de quatro milhões de pessoas. Não à toa, o museu se transformou em ponto turístico da capital paulista. Com exposições modernas, divertidas, inteligentes e lúdicas, o espaço virou parada obrigatória para os apaixonados pelo universo das letras. Além disso, o sucesso foi tão grande que o Museu da Língua Portuguesa se tornou um dos museus mais visitados da cidade de São Paulo (a frente, por exemplo, do MASP). Exatamente por isso, a comoção pela destruição do prédio e seu fechamento no finalzinho de 2015 chocou tanto. A reinauguração do Museu da Língua Portuguesa tinha sido agendada inicialmente para 27 de junho. A ideia era reabri-lo com entrada gratuita em um sábado. Assim, uma multidão poderia saudar a volta da operação do espaço tão querido pela população. Contudo, com a confusão provocada pelo surto de coronavírus e pela quarentena decretada em boa parte do Brasil (e do mundo), os planos da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo foram completamente alterados. Agora, a previsão é que a reinauguração fique para o segundo semestre (ainda sem data definida). Não será surpresa se em um primeiro momento, dependendo das orientações dos responsáveis pela saúde pública, o fluxo de visitações fique restrito (aí a ideia de entrada franca deve ir por água abaixo). É uma pena, mas fazer o quê? Ao menos a parte mais difícil dessa história do Museu da Língua Portuguesa já passou (ele foi reconstruído e estará em poucas semanas prontinho, prontinho para operar). Para sua breve reabertura, algumas novidades estão previstas. A primeira é que haverá um acesso direto da Estação da Luz da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) ao museu. Esse é um pedido antigo dos visitantes do espaço que padeciam por circular em uma das regiões mais degradadas e perigosas da capital paulista. Assaltos eram frequentes nas ruas do entorno do museu, o que atormentava aqueles que faziam o trajeto entre a estação de trem e o centro cultural (e vice-versa). Com o novo acesso, a esperança é que os visitantes tenham mais segurança na chegada e na saída. Ufa! Outra atração aguardada é a inauguração de um café a céu aberto no alto do prédio do Museu da Língua Portuguesa. Além de vender comes e bebes aos visitantes, o local promete propiciar uma vista de tirar o fôlego para o Parque da Luz e para a Pinacoteca. Não será surpresa nenhuma se o café do museu se tornar um dos pedacinhos mais disputados pelo público (assim como aconteceu com o Café Terraço, localizado no último andar do Sesc Avenida Paulista, comentado no ano passado na coluna Gastronomia do Bonas Histórias). Para os interessados no acervo do Museu da Língua Portuguesa, a boa notícia é que as principais exposições fixas serão mantidas. “Palavras Cruzadas” e “Praça da Língua”, por exemplo, seguirão como antes. Ao lado delas, haverá exposições inéditas e sazonais. As primeiras serão: “Línguas do Mundo”, apanhado sobre as mais de 7 mil línguas faladas ainda hoje no planeta; “Falares”, apresentação das diferenças regionais de sotaques e de expressões da língua portuguesa em nosso país; e “Nós da Língua Portuguesa”, mergulho sobre a diversidade da língua portuguesa e a riqueza cultural nos países lusófonos. Em meio ao caos social que estamos vivendo nesses dias, pelo menos uma boa notícia no campo cultural, hein? Prometo avisar a todos quando o Museu da Língua Portuguesa tiver uma nova data de reabertura. Além disso, espero estar lá quando suas portas estiverem oficialmente abertas. Na certa, esse passeio valerá mais um post para o Bonas Histórias. Aguardem! Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook.

  • Livros: On The Road, Pé na Estrada - O clássico hippie de Jack Kerouac

    Nesta semana, li o segundo livro de Jack Kerouac do Desafio Literário de abril. A obra em questão foi nada mais, nada menos do que “On The Road – Pé na Estrada” (L&PM Pocket), o grande sucesso do escritor norte-americano. Com tintas autobiográficas, o romance ao melhor estilo road story se baseou nas viagens feitas por Kerouac, o maior expoente da Geração Beat, pela América do Norte entre o final da década de 1940 e o início da década de 1950. Ao seu lado nessa jornada, o autor teve, na maior parte do tempo, a companhia do amigo Neal Cassady. A dupla cortou as estradas dos Estados Unidos e do México por vários anos sem se preocupar com nada mais do que a aventura libertária (e, por que não, libertina) de acordar todo dia em um local diferente. Por que trabalhar, cuidar da família, conviver com os filhos, ganhar dinheiro e viver honestamente ao lado de uma única mulher se a alternativa de passar os dias vadiando por aí era mais prazerosa, hein? Essa era a concepção desses jovens aventureiros. Assim que foi lançado, “On The Road” se tornou imediatamente um título cultuado. A obra serviu de referência conceitual e estética para vários artistas de diferentes campos da cultura e das artes nos quatro cantos do mundo. Só para citar algumas personalidades que dizem ter sido influenciadas direta ou indiretamente pelo romance beat de Jack Kerouac: Bob Dylan, Jim Morrison, Bono, Beck, Chrissie Hynde, Lou Reed e Joni Mitchell na música; Francis Coppola, Wim Wenders, Hector Babenco, Gus Van Sant, Johnny Depp e Jim Jarmush no cinema; Tom Wolf, Charles Brukowski, Paulo Coelho, Reinaldo Moraes, Bret Easton Ellis, Hunter Thompson e Jay MacInerney na literatura; e Sam Shepard e Bob Wilson no teatro. Por sua vez, Kerouac diz ter sido influenciado pelos trabalhos de Thomas Wolfe e William Saroyan. “On The Road” é um clássico da literatura norte-americana do século XX. O livro adentrou na cultura sociocultural dos Estados Unidos e se alastrou depois para o planeta. Era o início da cultura hippie, que propagava, entre outras coisas, o desapego material, a simplicidade da vida cotidiana, a liberdade existencialista, as contradições do sistema capitalista, a falta de sentido do trabalho convencional, o uso das drogas, o abuso das bebidas alcoólicas, o sexo sem compromisso, a vida nômade, a formação de comunidades alternativas, o flerte com o anarquismo e a valorização da espiritualidade. Não à toa, esses princípios foram levados ao extremo pelos protagonistas do romance de Jack Kerouac. Segundo seu autor, “On The Road” foi escrito em apenas três semanas. Entre 9 e 27 de abril de 1951, Jack Kerouac datilografou sua história em folhas de papel de Telex. De acordo com a lenda por trás desse livro, o escritor passou esse período fechado em um quarto escrevendo compulsivamente a base de doses cavalares de Benzedrina e café. O resultado desse processo criativo é um material com mais de 40 metros ininterruptos de folhas com uma letra pequenina e quase sem espaço entre os parágrafos. Hoje, os originais da obra são relíquias cultuadas pelos fãs de Kerouac e da Geração Beat. Contudo, uma vez finalizado, “On The Road” recebeu a recusa de incontáveis editoras ao longo de cinco anos. Ninguém em sã consciência queria publicar um romance com quase 500 páginas sobre um grupo de arruaceiros que viajavam pelo país barbarizando. As constantes negativas mexeram com a autoestima do autor, que já duvidava de sua capacidade literária e do valor de sua obra. Apesar de jamais reconhecer publicamente isso, Jack Kerouac acabou fazendo incontáveis revisões em seu material para torná-lo mais palatável ao gosto do público e, acima de tudo, dos severos editores. Até mesmo quando, na metade de 1956, alguém resolveu investir no material (coube à Viking Press a ousadia de apostar no livro), Kerouac precisou fazer novos ajustes. Além de exigir o corte de mais de 120 páginas, Malcolm Cowley, o editor da Viking Press, mexeu diretamente no texto de “On The Road”, acrescentando pontuações nas longas frases e tornando a narrativa menos caótica. Ou seja, se o romance parece até hoje anárquico com as mudanças exigidas pela editora, imagine só como foi que Cowley o recebeu?! Em 1º de setembro de 1957, quando “On The Road” chegou às livrarias norte-americanas, Jack Kerouac, então com 35 anos, era ainda um autor ficcional iniciante. Esse livro foi apenas o seu segundo trabalho literário a chegar ao público (dos 23 que ele escreveria ao longo da carreira). Vale lembrar que seu romance de estreia tinha sido “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Pocket), obra publicada em 1950. Infelizmente, “Cidade Pequena, Cidade Grande” não foi bem recebido nem pela crítica nem pelos leitores, o que frustrou consideravelmente seu autor (algo que não foi citado em “On The Road”, que fala sucintamente sobre essa publicação e do recebimento dos seus direitos autorais). Obviamente, a trajetória do segundo romance de Kerouac foi totalmente distinta a do antecessor. Não é errado afirmar que “On The Road” se tornou um sucesso de público e de crítica tão logo foi publicado. Já no dia 4 de setembro de 1957, um artigo do The New York Times assinado por Gilbert Millstein dizia: “On The Road é o segundo romance de Jack Kerouac, e sua publicação é um evento histórico, na medida em que o surgimento de uma genuína obra de arte concorre para desvendar o espírito de uma época (...). É a mais bela execução, a mais límpida, e se constitui na mais importante manifestação feita até agora pela geração que o próprio Kerouac, anos atrás, batizou de beat e da qual o principal avatar é ele mesmo”. Se essa era a opinião do especialista em literatura do principal jornal norte-americano, quem iria contestá-la?! Nas semanas seguintes, a crítica literária do país curvou-se para o que, desde então, ficou celebrado como uma nova obra-prima da literatura contemporânea dos Estados Unidos. Não deixa de ser um contrassenso o sucesso de “On The Road” nos Estados Unidos no final da década de 1950. Afinal, o romance de Jack Kerouac ia totalmente contra o conservadorismo norte-americano. O livro é a antítese da família tradicional: rapazes que flertavam o tempo todo com a delinquência juvenil, com o sexo livre, com o abuso do álcool e das drogas, com o roubo, com o adultério e com a vida-livre. Foi justamente esse o parecer da revista Times, em 17 de setembro de 1957: “(On The Road) dá fundamento à explosiva juventude que, de um canto ao outro do país, se agrupa em torno de jukeboxes e se envolve em arruaças sem motivo em plena madrugada”. Por isso, podemos dizer que essa obra de Kerouac foi para a literatura o que “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause: 1955) significou para o cinema e Elvis Presley representou para a música. Essa trinca cultural guiou os novos padrões de comportamento dos jovens na metade da década de 1950 e sinalizaram os desejos até então reprimidos daquela geração. Poucos dias após o lançamento de “On The Road”, Jack Kerouac se tornou uma celebridade nos Estados Unidos, o tipo de autor que qualquer pessoa antenada precisava ler e conhecer. Parte desse status foi construída por uma excelente campanha publicitária em torno do seu romance e de sua figura polêmica. O escritor viajou pelo país participando de programas de televisão e de rádio, além de ser pauta obrigatória das principais revistas e jornais da época. Em pouco tempo, “On The Road” passou a ser visto como a obra literária mais importante de sua geração. O dinheiro obtido com esta publicação sustentou Kerouac até o final de sua vida. Por outro lado, o sucesso precoce (advindo logo no segundo romance) permitiu ao escritor norte-americano mergulhar mais fundo em sua proposta literária. Seus novos livros foram para um caminho cada vez mais hermético, radical e desconectado da preferência da maioria do público. Uma vez famoso e conceituado, ninguém mais tinha coragem de interferir no texto de Kerouac como Malcolm Cowley da Viking Press fez em 1956. Assim, o autor beat nunca mais repetiu o êxito comercial de “On The Road”, apesar de alguns dos seus títulos posteriores serem até mesmo melhores quando analisados pela perspectiva de suas narrativas. No Brasil, “On The Road” demorou para ganhar uma edição nacional. Por quase três décadas, os leitores brasileiros precisaram recorrer à versão original (em inglês), às edições feitas em Portugal (com o português do Velho Continente) ou às traduções em espanhol. Apenas em fevereiro de 1984, a editora Brasiliense lançou o livro, que ganhou por aqui o subtítulo de “Pé na Estrada”, no português brasileiro. A tradução foi feita por Eduardo Bueno. Duas décadas depois, a L&PM Editores também publicou o livro em uma tradução revista por Bueno. A edição de 2004 (assim como a de 1984) foi feita a partir do texto lançado em 1957 pela Viking Press. Há uma outra edição da L&PM Editores, essa de 2011, que foi feita a partir dos originais de Kerouac (aquele mesmo de 1951 que foi recorrentemente recusada pelos editores da época). Essa última tradução também foi feita por Eduardo Bueno, mas dessa vez ele contou com a colaboração de Lúcia Brito. Confesso que optei por ler a versão traduzida para o português a partir do livro de 1957. Achei meio arriscada a experiência literária advinda da tradução do original de Kerouac (como o autor escreveu “On The Road” em 1951). Como trabalho como editor há anos e sei que uma obra literária editada geralmente é muito melhor do que seu material bruto (se não fosse assim, as dezenas e dezenas de editores da época teriam aprovado a obra do autor beat sem pestanejar), preferi a versão que passou por mais de duas mãos. A história de “On The Road” é narrada em primeira pessoa por Salvatore Paradise, um jovem estudante universitário de Letras que aspira se tornar escritor profissional. No Inverno de 1947, quando o romance de Jack Kerouac se inicia, Sal, como o rapaz é chamado por quase todos os familiares e amigos, mora com sua tia em uma residência simples em Nova Jersey. Ele foi viver ali depois de se separar de sua primeira esposa. A vida tranquila do protagonista é obtida graças aos trabalhos eventuais que Sal consegue (se bem que ele nunca se preocupou muito com o trabalho nem em ganhar seu sustento) e à ajuda de custo oferecida pelo governo (periodicamente o universitário recebe o dinheiro de sua bolsa de estudo). Com uma rotina que não tem muitas pretensões além da produção literária, Sal fica encantado com o estilo de vida anárquico dos seus amigos da costa Oeste. O alvo principal do seu fascínio é Dean Moriarty, um sujeito trambiqueiro que saiu recentemente de um reformatório juvenil no Novo México e que tem duas mulheres (uma é Camille, sua esposa e a mãe de seu filho, e a outra é Marylou, sua amante). Viciado em sexo, drogas, bebidas, festas e azaração noturna, Dean gosta de sair viajando pelo país, mesmo quando não tem dinheiro para isso. Para pegar a estrada, ele pede carona, faz pequenos roubos e se aproveita da boa vontade e da receptividade dos amigos e até mesmo dos desconhecidos. Trabalhar? Bem, ele trabalhou algum tempo como manobrista em um estacionamento em São Francisco, mas não era chegado ao batente. Apesar do estilo de vilão inconsequente e egoísta (ele é quase um psicopata), Dean Moriarty possui certo charme que hipnotiza os amigos, as mulheres e, principalmente, Sal Paradise. Assim, os dois se tornam uma dupla inseparável que passa a viajar compulsivamente pelos Estados Unidos. Eles pegam a estrada por vários anos indiferentes à opinião das pessoas e aos compromissos familiares. Seus meios de transporte são os mais variados possíveis: trem, ônibus, carona de caminhão, carro de amigos, carro próprio, a pé... O importante é estar em movimento, independentemente de onde dormem e o que precisam conseguir para sobreviver. O estilo de vida anárquico e hippie dos amigos ganha alguns adeptos em um primeiro momento. É criada assim uma rede de apoio aos jovens vigaristas. Por algum tempo, Sal e Dean conseguem se hospedar na casa de conhecidos. Assim, caem na gandaia ao lado dos parceiros locais. Quando eles estão em São Francisco, querem viajar e morar em Nova York. Quando chegam à Big Apple, querem retornar para Frisco e viver na costa oeste. Depois de percorrer incontáveis vezes as estradas do Leste-Oeste, decidem ir para o Sul, para o México. “On The Road – Pé na Estrada” possui 328 páginas. O romance está dividido em cinco partes. A edição da L&PM Editores que li ainda possui uma introdução e um posfácio. Essas duas seções adicionais foram produzidas por Eduardo Bueno, o tradutor brasileiro. Nas páginas iniciais do livro, Bueno relata a importância histórica, literária e cultural da narrativa de Jack Kerouac. E na parte final, o tradutor detalha um pouco mais da vida do escritor norte-americano após a publicação de sua obra-prima. Li “On The Road” em cinco dias. Nada como uma quarentena de coronavírus para ajudar na imersão literária, hein? A primeira questão que coloco é: este livro de Jack Kerouac é tudo isso o que dizem? Sinceramente, não achei. Se você analisar sua narrativa, seu conflito, temos um romance bobinho. As personagens principais ficam viajando para lá e para cá sem qualquer sentido. Onde está a trama do livro então? Difícil apontar. Sal Paradise é maluco por Dean Moriarty e, por isso, segue seu amigo não se importando com o amanhã. Dean, por sua vez, é um vigarista hedonista que não gosta de trabalhar e pega a estrada para fugir de suas responsabilidades como marido, pai e cidadão. Apesar de existir menção sutil a um conflito amoroso (Sal está à procura de um amor verdadeiro em suas andanças pelo país), “On The Road” tem como cerne narrativo as experiências de viajantes transloucados de seus protagonistas (no que podemos chamar de flanar inconsequente de jovens vagabundos). Então, “On The Road” é um título supervalorizado? Não diria isso. Sua graça não está propriamente em sua narrativa (vazia), nem em seu conflito (inexistente), muito menos em suas personagens (planas). O aspecto mais interessante deste romance, para começo de conversa, está no retrato de uma época. Os anseios da geração beat (que mais tarde seriam adotados pelos movimentos hippie e punk) conferem grande charme aos relatos de Kerouac. O olhar atento a cada região dos Estados Unidos, a visão de mundo anticapitalista, a preocupação com as pessoas mais humildes (geralmente pobres e marginalizadas), o sexo casual, a imersão nas drogas e nas bebidas, o desapego material, a busca pela liberdade e pela felicidade genuínas, o sonho artístico, a adoração pelas artes e pela cultura e a procura pela vida com base em valores simples ainda hoje possuem certa beleza edílica. Aí começam justamente os pontos que fazem desta obra um clássico literário. Se como romance dramático “On The Road” não tem lá grande profundidade, como road story este livro é ainda hoje marcante. A geografia dos Estados Unidos e do México é detalhada com rara felicidade pelo seu autor. O encanto do narrador com o que vivencia em suas jornadas é genuíno e contagiante. Gostei muito dos relatos sobre as pessoas que a dupla encontrou no meio do caminho. Ao mesmo tempo em que conhecemos os homens e as mulheres que cruzam com os viajantes, passamos a entender melhor os próprios andarilhos. Pouco a pouco, Sal Paradise e Dean Moriarty se descortinam aos olhos dos leitores. Seus dramas são de natureza psicológica e existencialista. Por falar nas personagens principais de “On The Road”, é importante fazer uma distinção entre a ficção e a realidade. É inegável que os protagonistas do romance de Kerouac foram baseados em figuras reais. Assim, Salvatore Paradise é o próprio Jack Kerouac, Dean Moriarty é Neal Cassady, Carlo Marx é Allen Ginsberg (poeta e filósofo da Geração Beat, autor de “Uivo e Outros Poemas”), Old Bull Lee é William Burroughs (escritor e pintor beat, autor de “Almoço Nu”) e Camille é Carolyn Cassady (primeira mulher de Cassady e amante por muitos anos de Kerouac). Contudo, não podemos nos esquecer: essa é uma obra ficcional e não uma biografia. A partir de acontecimentos e pessoas verídicas, Jack Kerouac construiu uma narrativa própria (de sua cabeça). Com liberdade criativa, ele moldou como quis os fatos de “On The Road”, acrescentando, subtraindo e modificando cenas e situações que vivenciou ou que gostaria de ter vivenciado. Por isso, a classificação deste livro é como uma obra ficcional. Por mais fidedignas que sejam as ações e por mais elementos de concretude narrativa que tenhamos nessas páginas, é importante o leitor não se esquecer do aspecto literário desses relatos (por mais que na divulgação publicitária do livro na década de 1950, a editora e seu autor quisessem ressaltar o lado biográfico). Porém, o que torna “On The Road” uma obra marcante é o tipo de texto produzido por Jack Kerouac. Chegamos, enfim, ao ponto alto deste livro. Infelizmente, a tradução para o português (e para qualquer outro idioma) atrapalha consideravelmente a experiência literária (obtida em seu maior grau apenas na leitura em inglês). E não culpemos os tradutores, por favor. É impossível reproduzir para outra língua a avalanche linguística, literária, estética e narrativa da obra original. A prosa de Kerouac é rimada, o que deixa seu texto envolvente e bonito, quase como uma poesia. Obviamente, esse romance foi feito para ser lido em voz alta, como eram os textos gregos da Antiguidade. Se por um lado temos a preocupação do autor com a sonoridade das suas frases (uso de muitas aliterações), também temos o uso de várias gírias e do coloquialismo das diferentes partes dos Estados Unidos. É incrível essa mistura da prosa poética com a linguagem popular. O romance também tem longas frases que emulam o fluxo de consciência e o estado de espírito do seu narrador. Por isso, o leitor precisa ter fôlego para encarar sequências intermináveis de palavras, imagens, sentimentos, desejos e promessas de Sal Paradise que chegam muitas vezes misturadas no meio das frases. Se por um aspecto esse recurso tem tudo a ver com a proposta dos protagonistas e do narrador do livro (viver com liberdade, intensidade e coragem), por outro pode dificultar a leitura de quem exige construções frasais lineares. Outra questão marcante de “On The Road” é espírito espontâneo e de certa maneira anárquico do registro de sua narrativa. A impressão que se tem é que os acontecimentos relatados por Jack Kerouac estão ocorrendo efetivamente naquele instante. A sensação do leitor é que o livro foi escrito na própria estrada, ao vivo. Muito legal notar como o escritor conseguiu esse efeito. É verdade que “On The Road” perdeu, aos olhos do leitor contemporâneo, muito do seu ar de novidade e de rebeldia. Se lá atrás o romance escancarava uma nova visão de mundo da juventude das décadas de 1950 e de 1960, depois de Woodstock essa concepção hippie foi disseminada aos quatro ventos. E como tudo o que se torna comum perde o apelo de novo e de rebelde. Dessa forma, é complicado encarar hoje as personagens e a narrativa de Kerouac com o mesmo olhar de empolgação e de fascínio de sessenta anos atrás. Para mim, por exemplo, a obra pareceu ter uma trama infantojuvenil e seus protagonistas são mais dignos de pena do que de exaltação. Juro que deu vontade de gritar para eles ainda antes da metade do livro: “Vão trabalhar, bando de vagabundos! O que permanece intacto em “On The Road” é o espírito anárquico de sua literatura e a estética ousada da narrativa de Jack Kerouac. Se você procura uma leitura conceitualmente disruptiva, este livro irá, na certa, agradá-lo(a) bem mais do que seu conteúdo. Confesso que gostei do que li. Se pelo lado estético esta obra merece estar no panteão dos clássicos, por outro lado compartilho da opinião de quem se frustrou com o conteúdo dessa leitura. O Desafio Literário da literatura de Jack Kerouac retorna na próxima terça-feira, dia 14, com a análise de “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), o terceiro romance do norte-americano. Essa publicação foi lançada em 1958, um ano após “On The Road”. Continue acompanhando ao longo de abril os debates sobre as principais obras do maior nome da Geração Beat. Até a próxima! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? 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  • Mercado Editorial: Crise sem fim ganha agora contornos apocalípticos

    O mercado editorial brasileiro vive uma crise sem fim. Quem acompanha regularmente a coluna Mercado Editorial do Bonas Histórias já está familiarizado com este drama. De 2013 para cá, o setor sofreu uma queda vertiginosa. Neste período, de 30% a 40% do seu faturamento desapareceram. Como consequência, inúmeras livrarias e editoras precisaram fechar as portas. O pior é que o fundo do poço parece estar longe de ser atingido. Aí está a péssima novidade das últimas semanas. Para quem pensava que o cenário de história de terror não podia ficar mais dramático, saiba que o enredo do mercado editorial nacional ganhou agora tons de trama apocalíptica. Com o recente caos socioeconômico provocado pelo surto do coronavírus (Covid-19), há quem estime uma nova e expressiva queda nas receitas. E o que já era ruim deverá ficar ainda pior. Se a economia nacional deverá cair até 5% neste ano (maior depressão dos últimos cinquenta anos, superando as quedas provenientes da crise de 2014, de 2008, de 2000, de 1990 e de 1981), o mercado editorial deverá ter um decréscimo de dois dígitos. As previsões mais pessimistas apontam para inacreditáveis 70% de queda em 2020. 70%?! Sim, você leu direito. Há quem calcule um recuo de quase três quartos do faturamento de 2019 para este ano. Como isso é possível?! A explicação para essa deterioração acentuada do quadro setorial passa pela situação das duas maiores redes de livrarias do país: a Saraiva e a Cultura. Se elas entraram em 2020 em situação de recuperação judicial, é dado como quase certo de que ambas as livrarias vão falir nos próximos meses. Na semana passada, elas suspenderam o pagamento de fornecedores por tempo indeterminado. Ou seja, o cheirinho de calote geral ficou mais forte. Com a derrocada definitiva da Saraiva e da Cultura, muitas editoras de grande e médio porte deverão ter suas operações inviabilizadas (principalmente aquelas que concentravam suas vendas nas duas redes). Assim, a tempestade que já se mostrava grave ficou desta vez caótica. O mais triste é que a crise financeira do mercado livreiro não é uma exclusividade da Saraiva e da Cultura. Muitas livrarias, grandes, médias e pequenas por todo o Brasil, também lutam para sobreviver há alguns anos. Hoje, estima-se que 45% das vendas de livros no país ocorra pelo comércio eletrônico (o que afeta diretamente a operação física das livrarias). Com a paralização total das vendas nas últimas semanas, a maioria das lojas físicas de livros não conseguirá honrar suas pendências financeiras. A Livraria Martins Fontes, por exemplo, já comunicou ao mercado a suspensão de parte de seus pagamentos aos fornecedores. As grandes editoras, responsáveis por 70% do faturamento da rede, precisarão negociar o recebimento dos produtos consignados (praxe do setor). Apenas as editoras menores, responsáveis por 30% da receita da livraria, estão recebendo normalmente. Pelo menos até agora. Com este cenário desolador, as editoras brasileiras já se preparam para o pior. Afinal, a bola de neve que desce a montanha tende a ficar cada vez mais volumosa e perigosa. Sem receber, as editoras devem ter dificuldades para pagar seus autores, profissionais do setor (revisores, editores, ilustradores, capistas, ghost writers, etc.), gráficas e demais parceiros. Não à toa, novos lançamentos foram cancelados e a maioria dos projetos editoriais até então em andamento foi paralisado. O pessimismo é geral. Muitos executivos e empresários do setor acham que muitas empresas não sobreviverão a esses dias difíceis. O coronavírus jogou, querendo ou não, uma pá de cal em um segmento da economia que caminhava há anos de forma moribunda. Uma pena! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Cidade Pequena, Cidade Grande - O romance de estreia de Jack Kerouac

    Neste final de semana, li “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), o romance de estreia de Jack Kerouac. Nada melhor do que nos valermos da primeira publicação do escritor norte-americano considerado o pai da Geração Beat para darmos o pontapé inicial no Desafio Literário de abril. Para quem ainda não está por dentro das últimas novidades do Bonas Histórias, reafirmo nosso compromisso: neste mês vamos analisar a literatura de Jack Kerouac, um dos principais nomes da literatura dos Estados Unidos na segunda metade do século XX. Nas próximas quatro semanas, comentaremos no blog seis dos mais importantes livros de Kerouac. Ou seja, este título é apenas o primeiro que estudaremos. Quando “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi publicado pela primeira vez, em 2 de março de 1950, Jack Kerouac ia completar 28 anos de idade. A obra foi escrita entre 1947 e 1949, quando o autor ainda amador morava com a mãe no bairro do Queens, em Nova York. Foi a morte do pai de Jack, em 1946, vítima de câncer no estômago, que o estimulou a produzir este romance. Com fortes tintas autobiográficas (algo que marcaria a literatura de Kerouac ao longo de sua carreira), o livro narra a saída de Peter Martin, um dos oito filhos de uma família católica da Nova Inglaterra, de sua pequena cidade natal. Ele vai para Nova York, a fervilhante capital cultural dos Estados Unidos (daí o título da publicação). Não é preciso dizer que Peter é o alter ego do escritor norte-americano: ambos nasceram em Massachusetts em 1922, tinham mães de origem francesa, jogaram futebol na faculdade, tinham paixão pela literatura, aventuraram-se pela Marinha mercante e viajaram pelo país pedindo carona. “Cidade Pequena, Cidade Grande” é o único romance convencional de Jack Kerouac (convencional no sentido narrativo, pois aqui temos uma trama clara, dramas explícitos e um texto linear). Quando escreveu esse livro, o autor não tinha ainda desenvolvido a técnica polêmica da escrita automática, que seria apresentada ao público pela primeira vez em “On The Road” (L&PM Pocket), em 1957. Mesmo assim, a crítica literária considera esta obra de estreia de Kerouac como a gênese da Geração Beat. Afinal, já tínhamos aqui boa parte das características que marcariam a temática deste autor e de sua corrente literária: personagens desajustadas socialmente, retrato das angústias dos jovens da época, choque cultural entre as gerações (nova versus antiga), vontade descontrolada de viajar, necessidade de viver a “vida louca” (uso das drogas e das bebidas, propensão ao sexo livre e pouca preocupação com o dinheiro e com o trabalho), supremacia das amizades em relação à família e intertextualidade cultural (literatura, música, cinema, filosofia...). Mistura de saga familiar com romance de formação, “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi fortemente influenciado pelo estilo da literatura de Thomas Wolfe. O próprio Jack Kerouac afirmou várias vezes em entrevistas que sua pretensão era escrever um “grande épico wolfiano”. As principais críticas ao livro recaíram justamente neste ponto. Para a maior parte da imprensa norte-americana, Kerouac era um escritor talentoso e com potencial, mas que se perdia ao emular excessivamente seu ídolo literário. Assim, “Cidade Pequena, Cidade Grande” não passava de uma cópia bem-feita dos trabalhos de Wolfe. Na visão geral, Jack Kerouac era um escritor iniciante que ainda não tinha conseguido encontrar sua voz e seu estilo. Outra crítica que era feita de forma recorrente é que, nesta sua obra de estreia, Kerouac estava mais preocupado com a extensão do texto do que com a precisão da narrativa. Com isso, a trama se alongava desnecessariamente por dezenas, dezenas e dezenas de páginas, o que incomodava muitos leitores. Se eles reclamaram sobre a extensão do primeiro livro do autor é porque ainda não tinham lido “On The Road”, esse sim um romance caudaloso e excessivamente longo. Pelo visto, um trabalho mais intenso de edição/editoração não iria fazer mal ao primeiro livro de Jack Kerouac. Não é verdade o que se tem propagado por aí que “Cidade Pequena, Cidade Grande” foi um sucesso de crítica e de público. O que aconteceu foi exatamente o contrário. As baixas vendas e as enxurradas de comentários negativos abalaram fortemente a autoestima de seu autor, que triste ficou meses sem escrever. Se este livro ficcional de estreia de Jack Kerouac tivesse tido o êxito que alguns querem atribuir, na certa alguma editora teria desejado publicar a segunda obra do escritor, algo que não ocorreu nos sete anos seguintes. Curiosamente, quando este romance chegou às livrarias norte-americanas, o nome que estampava suas capas era de John Kerouac (primeiro pseudônimo do autor já que seu verdadeiro nome era Jean-Louis). Jack, outro nome tipicamente norte-americano (em contraste com o francês Jean-Louis), só apareceria ao público com o lançamento de “On The Road”. Narrado em terceira pessoa (uma exceção no portfólio literário de Kerouac), o enredo de “Cidade Pequena, Cidade Grande” inicia-se em 1935. George Martin é o respeitável dono de uma gráfica em Galloway, cidade fictícia de Massachusetts, na Nova Inglaterra. Vindo de New Hampshire, ele é casado com Marguerite Courbet, uma mulher descendente de família francesa. Os dois possuem oito filhos: Rose tem 21 anos e é a mais responsável da trupe; Ruth de 18 é querida e carinhosa com todos; Joe tem 16 anos e é o filho irresponsável; Francis tem 15 e é o mais deprimido, introspectivo e intelectual dos Martin; Peter, com 13 anos, sonha em ser jogador de futebol; Elisabeth tem 12 e desde cedo é muito solitária; Charles, de 9 anos, é o determinado; e Mickey, caçula de 6, faz o tipo de criança sonhadora. O casal ainda teve outro filho, Julian, que faleceu ainda pequeno. Os Martin vivem em uma grande casa no subúrbio de Galloway e possuem um bom padrão de vida. Até então, os negócios sempre caminharam muito bem para George. Sua gráfica tem muitos clientes, maquinário moderno e bons funcionários. Como consequência, ele é um homem muito respeitado na cidade, com muitos amigos e admiradores. Contudo, seu vício em jogos de cavalo pode lhe trazer sérios problemas financeiros. Além disso, sua inocência (não nota a aproximação de aproveitadores) e sua vaidade (sempre querendo mostrar que está bem aos “amigos”) podem agravar ainda mais a situação já delicada do patriarca dos Martin. Enquanto acompanhamos à derrocada lenta e gradativa de George Martin, assistimos simultaneamente à ascensão de seus filhos mais velhos. Rose se torna enfermeira, Ruth permanece ajudando a mãe em casa, Joe vai trabalhar como caminhoneiro, Francis deseja fazer faculdade de primeira linha, Peter vira o astro local de futebol americano e Elisabeth foge para se casar com um pianista. Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, George vai, enfim, à falência, perdendo tanto a gráfica quanto sua casa. Assim, ele, agora um homem de meia-idade e com problemas de saúde, precisa procurar emprego para continuar se sustentando. Nesta época, seus filhos maiores acabam saindo de casa e se espalhando pelo país. Este é o começo da separação e da desunião do clã. A história de “Cidade Pequena, Cidade Grande” acompanha a saga da família Martin por uma década. A trama vai de 1935 a 1945, justamente quando a Segunda Guerra Mundial termina. Ao final do conflito bélico, os Estados Unidos e o mundo já não eram mais os mesmos. E o clã até então capitaneado por George e Marguerite também não seria mais igual. Com a exceção do caçula, todos os filhos do casal seguiram por caminhos distintos ao dos pais e deixaram há muito tempo de viver em Galloway. O próprio casal abandonou a pequena cidade da Nova Inglaterra e foi morar em Nova York, onde George conseguiu se empregar em uma gráfica local. “Cidade Pequena, Cidade Grande” tem 392 páginas e está dividido em cinco partes. Li este romance no último sábado e domingo. Devo ter levado aproximadamente doze horas para percorrer todo o seu conteúdo. Confesso que gostei bastante desta obra. Apesar de ser mais extensa do que o necessário, trata-se de uma trama forte e sensível. Para completar, o livro possui o charme de desvendar um pouco do passado de Kerouac antes da fama e de indicar alguns detalhes de sua família. Por mais elementos ficcionais que a história tenha, ainda sim ela é calcada em elementos autobiográficos. Apesar de ter apreciado “Cidade Pequena, Cidade Grande”, admito que seu início é muito chato (e bota chato nisso!). Chega até a ser assustador! Por três dezenas de páginas, Jack Kerouac descreve sem pressa nenhuma as cenas mais banais da cidade de Galloway. Ao invés de focar em algo particular, ele prefere relatar cenas gerais daquela região do país. Parece que nada de importante acontece por ali. Aí não tem como o leitor se interessar pela trama, né? Se esse não for um dos começos mais entediantes (e equivocados, diria eu) da literatura norte-americana no século XX, não sei mais o que pode ser caracterizado como tal. Não me surpreenderia se soubesse que muitos leitores fecharam o livro nessa parte e se recusaram a continuar a sua leitura (isso quase aconteceu comigo, tá?). Só mergulhamos realmente em sua leitura quando a narrativa, enfim, volta-se para o dia a dia da família de protagonistas. Ufa! Primeiro são as diabruras dos meninos mais velhos de George e Marguerite pelas florestas da cidade. Depois, assistimos à rotina do Sr. Martin em sua gráfica, em casa e no hipódromo que ele gosta de frequentar. Depois de embalar, o romance pega fogo e aí não conseguimos mais largar as suas páginas. Para alívio geral da nação, apenas as primeiras 30 páginas do livro são chatas. Por falar em estranhamento inicial, demorei um pouco para entender a pegada plural dessa narrativa. O enredo de “Cidade Pequena, Cidade Grande” não foca em uma personagem em especial (como é comum na maioria dos romances) e sim na família inteira (ou quase inteira). Ao invés de termos um narrador próximo a alguém, temos um narrador que se desloca livremente pelos cenários e pelas figuras retratadas. São vários os integrantes dos Martin enfocados simultaneamente: George, Joe, Peter, Francis e Elisabeth. Uma vez compreendida essa dinâmica narrativa, fica mais fácil acompanhar a trama. À medida que a história vai se desenrolando, o conflito geracional (pais versus filhos) fica cada vez mais intenso e nítido para o leitor (é justamente esse o conflito principal de “Cidade Pequena, Cidade Grande”). No início, são desentendimentos pontuais ou briguinhas tolas que atingem o seio familiar. Depois, quando as crianças já não são mais tão crianças (se tornaram adultos e donos de seus narizes), as rupturas pelos estilos de vida distintos se tornam inevitáveis (daí a diáspora dos Martin). Não à toa, os filhos de George e Marguerite (Joe, Francis, Peter e Elisabeth) escolhidos para serem acompanhados pelo narrador são exatamente aqueles mais revoltados com a rotina paterna. Os descendentes que emulam a ideologia dos pais (Rose, Ruth, Charles e Mickey) quase não aparecem nas páginas do livro, assim como a mãe (Marguerite) que parece ficar feliz com qualquer decisão dos seus rebentos. Há ótimas cenas de futebol americano e de turfe nesse livro. O retrato das décadas de 1930 e de 1940 tanto do interior de Massachusetts quanto de Nova York é fascinante. A sensação é de estarmos realmente nesses lugares acompanhando as personagens. Incrível! A descrição das viagens pelo país (algo que já podemos chamar de princípio de um road story) também empolgam. Outro elemento que gostei foi da forte intertextualidade cultural presente em “Cidade Pequena, Cidade Grande”. Citações literárias, musicais, cinematográficas, filosóficas e psicológicas aparecem do início ao final da obra. As personagens principais também foram muito bem construídas. Por mais contraditórios que sejam os filhos de George, ainda assim torcemos e nos afeiçoamos por eles. O mesmo acontece com os patriarcas dos Martin. Eles são figuras extremamente reais e intensas. Incrível notar as diferenças e as semelhanças entre pais e filhos e entre os irmãos! Repare na estreita ligação de amizade das personagens principais com figuras do mesmo sexo: Peter com Alexandre Panos, Francis com Wilfred Engels, Joe com Paul Hathaway e Elisabeth com Patricia Franklin. Boa parte da literatura de Jack Kerouac foi construída em cima desta relação de grande proximidade de seus protagonistas com amigos do mesmo sexo. É só lembrar de Sal Paradise e Dean Moriarty, figuras centrais de “On The Road”, para entender o que estou dizendo. Quase sempre a amizade genuína é mais forte do que as relações familiares e conjugais. Segundo essa concepção kerouaquiana, você pode trocar várias vezes de mulher ao longo da vida e pode passar décadas sem ver seus parentes. Porém, o verdadeiro amigo estará sempre ao seu lado aconteça o que acontecer. Dos pontos que não gostei em “Cidade Pequena, Cidade Grande”, aponto em primeiro lugar os diálogos. Apesar de tensos e com aparência sincera/genuína, principalmente quando envolvem as discussões familiares, os discursos deste romance não são tão legais a ponto de impactar a trama ou de esclarecer os conflitos pessoais de cada personagem. Na certa, Kerouac ainda não havia se aprimorado, até este momento, como deveria nesse quesito. Outra questão delicada é a pouca participação do elenco feminino. Jack Kerouac mostrava já neste primeiro trabalho a força em descrever a rotina e o universo masculino. Por outro lado, as mulheres sempre tiveram papéis secundários em suas tramas e posições meramente decorativas em suas histórias. Elas quase sempre estão esperando passivamente seus homens voltarem de longas viagens e aceitam sem problemas as infidelidades conjugais dos parceiros. Chega a ser revoltante como muitas delas são tratadas. Curiosamente, Elisabeth é a única integrante feminina dos Martin que é retratada com um pouco mais de profundidade (e seu comportamento é quase idêntico ao dos irmãos). Concluída a análise da primeira obra do Desafio Literário de abril, vamos já planejar a próxima leitura deste mês. O segundo romance de Jack Kerouac que será comentado no Bonas Histórias é "On The Road" (L&PM Pocket), justamente o maior sucesso do autor beat. Esse romance foi publicado em 1957 e se tornou um best-seller imediato. Vou ler essa obra ao longo desta semana e, aí, na próxima sexta-feira, dia 10, faço o post com minhas impressões. Não deixe de acompanhar os novos capítulos do estudo sobre a literatura de Jack Kerouac, hein? Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? 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  • Desafio Literário de abril/2020: Jack Kerouac

    Começou! O Desafio Literário está de volta. Mesmo com o pânico mundial de 2020, teremos a sexta temporada da coluna do Bonas Histórias dedicada à análise dos estilos e das obras dos principais autores nacionais e internacionais de ontem e hoje. De abril a novembro, analisaremos um escritor por mês - totalizando oito nomes referenciais da literatura de quase todos os continentes (América do Sul, América Central, América do Norte, Europa, África e Ásia). Neste primeiro mês do Desafio Literário, o artista que será estudado é Jack Kerouac. O norte-americano foi um dos maiores expoentes da Geração Beat, movimento essencialmente literário de contracultura que vigorou nos Estados Unidos entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960. Os escritores beats enalteciam os valores que mais tarde resultariam nos movimentos hippie e punk. Seus ideais giravam em torno da liberdade existencialista (o que incluía o uso de drogas e o sexo sem compromisso), do desapego material, da vida nômade, da formação de comunidades alternativas, do flerte com o anarquismo e da valorização da espiritualidade. A Geração Beat teve, além de Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferllinghetti e Gary Snyder como suas figuras centrais. Nascido em 1922, em Massachusetts, Jack Kerouac veio de uma família de origem franco-canadense. Sua estreia na literatura aconteceu, em 1950, com a publicação de “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores). Infelizmente, o romance confuso e entediante foi um enorme fracasso de público e de crítica. Frustrado com a receptividade negativa de seu primeiro trabalho ficcional, Kerouac parou de escrever por um tempinho. Aí, lançou-se em viagens de mochilão pelos Estados Unidos. Uma dessas jornadas existencialistas pela América serviu de enredo para a obra que representaria a virada em sua carreira. “On The Road - Pé na Estrada” (L&PM Editores) foi publicado, depois de incontáveis recusas das editoras, em 1957. O livro apresentava uma estética livre e espontânea sobre os relatos da viagem do autor. O texto foi escrito no calor da emoção dos acontecimentos vivenciados. Nasciam, assim, um mito da literatura norte-americana e um clássico da literatura universal. Imediatamente após o sucesso de “On The Road”, Jack Kerouac resolveu se isolar. Vivendo totalmente afastado da sociedade, o escritor mergulhou no uso de drogas e no consumo desenfreado de álcool. Durante esse período, ele produziu “Os Vagabundos Iluminados” (L&PM Pocket), romance de 1958 que contém elementos autobiográficos de sua procura por uma vida mais livre, “Os Subterrâneos” (L&PM Pocket), outro romance lançado em 1958 e que foi produzido em apenas três dias e três noites, e “Big Sur” (L&PM Pocket), romance de 1962 em que narra as alucinações e as paranoias provocadas pelo consumo frequente de bebidas e drogas. Já com a saúde fragilizada, Jack Kerouac foi morar com a mãe na metade da década de 1960. Esses foram os últimos anos de sua vida. Em 1969, ele faleceu precocemente, aos 47 anos, vítima de uma cirrose crônica. Postumamente, foram publicados “Pic” (L&PM Editores), uma novela de cunho social lançada em 1971, e “Visões de Cody” (L&PM Editores), estudo metafísico sobre a personalidade do protagonista de “On The Road”. Esta última obra foi lançada em 1972 e se baseou nos manuscritos deixados pelo autor. Ficou interessado(a) em acompanhar os detalhes da literatura de Jack Kerouac? Então, anote aí o calendário de posts deste mês do Desafio Literário: - 6 de abril de 2020 - Análise de “Cidade Pequena, Cidade Grande” (1950). - 10 de abril de 2020 - Análise de “On The Road” (1957). - 14 de abril de 2020 - Análise de “Os Subterrâneos” (1958). - 18 de abril de 2020 - Análise de “Os Vagabundos Iluminados” (1958). - 22 de abril de 2020 - Análise de “Big Sur” (1962). - 26 de abril de 2020 - Análise de “Pic” (1971). - 30 de abril de 2020 - Análise da literatura de Jack Kerouac. Preparado(a)?! Então vamos começar logo esse Desafio Literário de abril! Hoje iniciarei a leitura de “Cidade Pequena, Cidade Grande” (L&PM Editores), o romance de estreia de Kerouac. Na próxima segunda-feira, dia 6, publicarei o post sobre esta obra no Bonas Histórias. Boas leituras e um ótimo Desafio Literário para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: O Vilarejo – Os contos de terror de Raphael Montes

    No finalzinho do ano passado, fiquei tão encantado com a leitura de “Suicidas” (Benvirá), o romance policial de estreia de Raphael Montes, que resolvi, dessa vez, ler outro livro do jovem escritor carioca. Minha escolha foi por “O Vilarejo” (Suma das Letras), sua coletânea de contos de terror. Li esta obra na noite retrasada e, agora, vou comentá-la neste post do Bonas Histórias. Raphael Montes, para quem ainda não o conhece, é um dos principais nomes da nova geração da literatura brasileira. Sucesso precoce de crítica e de público, o escritor de apenas 29 anos já foi traduzido para vários idiomas e teve suas obras lançadas no exterior. Finalista de vários prêmios literários importantes no Brasil e best-seller nas livrarias nacionais, Montes é especialista na produção de thrillers policiais e de narrativas aterrorizantes. Por isso, seu apelido de “Prodígio do Crime”. Além da literatura, o carioca tem se dedicado, nos últimos anos, também aos roteiros televisivos e cinematográficos. Trata-se de um autor que precisa ser conhecido por quem gosta da boa literatura praticada pelos escritores da nova geração. Publicado em 2015, “O Vilarejo” é o terceiro livro da carreira de Raphael Montes. Esta obra, a única coletânea de contos do autor até aqui, veio depois do lançamento dos romances “Os Suicidas”, de 2012, e “Dias Perfeitos” (Companhia das Letras), de 2014. O portfólio literário do escritor é completado por “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), livro de 2016, até agora a sua última publicação. “O Vilarejo” possui sete contos que, de alguma forma, se interligam. Daí a dúvida: esta obra seria uma novela ou uma coletânea de contos?! Preferi a segunda classificação, a escolhida pela editora responsável pela sua edição, apesar de reconhecer a linearidade narrativa do livro. Os elementos responsáveis pela interligação das histórias são: o mesmo ambiente (um antigo povoado sombrio de uma região remota da Europa Oriental), as mesmas personagens (que aparecem de maneira recorrente nas diferentes tramas) e a mesma temática (cada conto apresenta um pecado capital - influências essas dos sete demônios que atormentam a alma humana desde o começo dos tempos). No Prefácio de “O Vilarejo”, Raphael Montes se apresenta como o tradutor dos contos do livro e não como seu autor. A proposta faz parte da brincadeira literária do escritor carioca de misturar ficção e não ficção. Esse mesmo expediente narrativo já havia sido feito por ele com brilhantismo em seu romance de estreia, “Os Suicidas”. Segundo Montes, o proprietário de um sebo em Copacabana entregou-lhe três cadernos do acervo comprado de uma senhora muito idosa, falecida há pouco tempo no Rio de Janeiro. O caderno continha textos em uma língua estrangeira misteriosa. Interessado em descobrir o que os manuscritos diziam, Montes começou a investigar o conteúdo dos textos desses cadernos. Depois de muita pesquisa, ele descobriu que o material continha sete histórias de terror escritas em cimércio, uma língua morta. Com um dicionário dado pelo único estudioso desse idioma no mundo, um professor italiano, Montes passou a se dedicar ao ofício de traduzir os cadernos. Assim, pouco a pouco, começaram a surgir os relatos de um antigo povoado cimércio. Sem registros exatos de sua localização, a única coisa que se sabe é que o povoado ficava na Europa Oriental. As histórias foram possivelmente produzidas ou embasadas no trabalho de Peter Binsfeld, um teólogo que viveu na Alemanha no século XVI. De acordo com Binsfeld, cada um dos demônios dos Sete Reis do Inferno é responsável por invocar um pecado capital nos homens: Belzebu promove a gula, Leviathan a inveja, Lúcifer a soberba, Asmodeus a luxúria, Belphegor a preguiça, Mammon a ganância e Satan a ira. Esses demônios nomeiam os sete contos da coletânea. A primeira história se chama “Belzebu – Banquete para Anatole”. Nele, vemos as atitudes desesperadas de Felika. Em meio à fome e ao frio que castigam impiedosamente o povoado cimércio, ela precisa cuidar da casa e dos filhos enquanto aguarda a volta do marido, Anatole. Diferentemente dos demais habitantes da localidade que estão sofrendo bastante pela falta de comida, Felika, paradoxalmente, estoca uma boa quantidade de alimentos em sua residência. Em “Leviathan – As Irmãs Vália, Velma e Vonda”, vemos o relacionamento harmonioso de Vália, uma moça de dezessete anos, com seu namorado Krieger, um rapaz muito bonito e bondoso. Contudo, uma das irmãs de Vália, Velma, de apenas treze anos, passa a desejar Krieger. A menina não se importa com a diferença de idade entre eles nem com os sentimentos da irmã mais velha. A inveja pelo namorado bonito de Vália irá levar Velma a realizar monstruosidades. A garota prefere que os envolvidos padeçam de infelicidade a não ter seus objetivos conquistados. “Lúcifer – O Negro Caolho”, o terceiro conto do livro, aborda a atitude, à princípio, generosa da Sra. Helga. Ela salva Mobuto, um estrangeiro alvo do preconceito local por causa de sua pele escura, da execução que seria cometida pelo ferreiro Ivan. Solidária com o rapaz, a Sra. Helga o leva para sua casa e passa a alimentá-lo. Como gratidão, o rapaz começa a trabalhar de graça na propriedade da família Helga. Entretanto, à medida que o tempo passa, a proprietária vai ficando cada vez mais soberba, desprezando e agredindo Mobuto. “Asmodeus – A Doce Jekaterina” é a trama em que Mikhail, um homem obeso e feio, é acometido da luxúria. Na fase adulta, ele sempre recorreu aos préstimos sexuais das prostitutas locais. Na juventude, ele estuprava recorrentemente Jekaterina, sua vizinha de apenas treze anos. O jovem Mikhail forçava a menina a manter segredo do que fazia com ela. A quinta narrativa é “Belphegor – A Verdadeira História de Ivan, o Ferreiro”. Nela, conhecemos os segredos terríveis de Ivan, considerado um homem trabalhador e vigoroso por todos os habitantes do povoado. Porém, a realidade é bem distinta. O rapaz odeia o serviço de ferreiro e há muito tempo não faz nenhum esforço para manter seu ofício. A preguiça o domina. Seu trabalho é feito de maneira oculta por duas escravas, mantidas presas no porão de sua oficina. “Mammon – O Porquinho de Porcelana da Sra. Branka” relata o drama da menina Latasha. Órfã, a garotinha viveu com a avó, a Sra. Branka, desde o seu nascimento. A vida na casa da Sra. Branka sempre foi pautada por muitas economias. Avarenta, a avó não oferecia nenhum conforto para a neta. A situação de Latasha só piorou quando as duas receberam a visita do antigo contador da família. Ele alertou a Sra. Branka para a possibilidade dela se tornar pobre no futuro se novas economias não fossem feitas. “Satan – Um Homem de Muitos Nomes”, o último conto de “O Vilarejo”, narra a saga de Anatole Suhanov em busca de alimentos para sua família. Após dois meses percorrendo sem sucesso a floresta em busca de caça, Anatole sucumbe de frio e de fome. Nesse momento, ele recebe a ajuda de um senhor aparentemente altruísta. Mais tarde, sua verdadeira identidade será revelada, causando desespero no Sr. Suhanov. No posfácio, Raphael Montes volta a surpreender os leitores ao revelar quem é a autora dos cadernos oferecidos ficticiamente a ele. Trata-se de uma conhecida habitante do antigo povoado da Cimércia. Não posso adiantar mais nada, ao risco de estragar o desfecho brilhante desta coletânea de contos. “O Vilarejo” é um livro curtinho. Ele não ultrapassa as 100 páginas. É possível lê-lo em duas ou, no máximo, três horas. Para quem gosta de uma leitura rápida (para ser concluída em uma única noite) e de qualidade (ao ponto de tirar o sono ou render alguns suspiros de admiração), esta obra é uma ótima opção. Apesar de estarem interligadas, as sete histórias da coletânea podem ser lidas aleatoriamente. As únicas recomendações são: comece pelo prefácio e deixe o posfácio para o final. Sei que são recomendações óbvias, mesmo assim quis deixá-las explícitas. Assim, sua experiência de leitura não correrá o risco de ser prejudicada. Dois pontos chamaram mais minha atenção em “O Vilarejo”. Em primeiro lugar, o teor forte das histórias de terror contido em todos os contos deste livro. Esqueça as tramas leves e o tom infantojuvenil que muitas vezes inundam as obras desse gênero. Nesta coletânea de narrativas curtas de Raphael Montes, o que encontramos são temas pesados, cenas fortíssimas e personagens de crueldades sem limites. Estupro, canibalismo, infanticídio, tortura, mutilação, escravidão e traições são alguns dos expedientes corriqueiros das páginas desta publicação. É preciso estômago forte para percorrer este livro de ponta a ponta. Por outro lado, quem gosta de boas e fortes histórias de terror, aqui temos um prato cheio. As literaturas de Stephen King, de Edgar Allan Poe e dos irmãos Grimm parecerão coisas de criança perto das narrativas macabras de Raphael Montes. O segundo elemento interessante é a construção lapidar das histórias. É possível notar, desde o início, o trabalho coerente e profundo do escritor na produção dos sete contos. Cada um deles relaciona-se a um demônio e, por consequência, a um tipo de pecado capital. Durante a leitura podemos identificar com clareza quem é quem: a personagem gulosa, a invejosa, a soberba, a luxuriosa, a preguiçosa, a gananciosa e a irada. A trama geral do livro é tão bem amarrada que inevitavelmente achamos se tratar de uma novela e não de uma coleção de contos. Note também as ilustrações incríveis feitas por Marcelo Damm, que aparecem no meio das páginas. Alguns dos seus desenhos fazem o leitor se arrepiar, conferindo um aspecto ainda mais aterrorizante à publicação. E o que falar do trabalho gráfico feito por Rafael Nobre, hein? A palavra que me vem à mente é espetacular! “O Vilarejo” não é apenas um livro com um conteúdo textual muito bom (para quem gosta de tramas de terror intenso), mas é também uma obra literária que agrada muito aos olhos dos leitores mais exigentes. Os detalhes de sangue escorrendo nas páginas têm um efeito maravilhoso para quem gosta desse tipo de gênero literário. E como não poderia ser diferente em se tratando de um trabalho de Raphael Montes, o desenlace é mais uma vez incrível e muitíssimo surpreendente. O jovem escritor carioca sabe como impressionar seu leitor com um detalhezinho final que transforma completamente a experiência de leitura em algo inesquecível. Se em “Suicidas” as últimas duas palavras foram capazes de provocar uma grande surpresa no leitor, aqui é a imagem final que nos instiga. Por isso mesmo, não fique vendo as ilustrações de Damm antes da leitura (elas podem antecipar as surpresas que o texto revelará na hora certa). Tenho a impressão que cada vez que leio algo novo de Raphael Montes fico ainda mais impressionado com seu talento literário. Se o considerava um grande romancista policial, agora o vejo também como um exímio escritor de terror. Até onde esse rapaz chegará? Impossível saber. O que é possível dizer, desde já, é que é muito bom acompanhar sua trajetória artística. Quem acompanha as críticas literárias do Bonas Histórias, saiba que vou continuar apresentando regularmente as obras de Montes. Da nova geração de autores nacionais, o carioca é um dos meus favoritos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: O Curioso Caso de Benjamin Button – O popular conto de F. Scott Fitzgerald

    Li, na semana passada, “O Curioso Caso de Benjamin Button” (Dracena), uma das histórias mais populares de Francis Scott Fitzgerald. O conto do escritor norte-americano sempre foi muito famoso em seu país natal e em algumas nações de língua inglesa. Com o sucesso do filme homônimo, produzido por Hollywood em 2008 e inspirado na trama de Fitzgerald, este drama se tornou conhecido nos quatro cantos do planeta. Assisti no cinema, na época do seu lançamento, o longa-metragem e o achei sensacional. Curioso para saber quem é melhor (o filme ou o conto?), resolvi degustar, desta vez, “O Curioso Caso de Benjamin Button” em sua versão original, a literária. F. Scott Fitzgerald resolveu escrever “O Curioso Caso de Benjamin Button” após ouvir um comentário de seu colega Mark Twain sobre as fases da vida de um homem. Para o autor de “As Aventuras de Tom Sawyer” (Martin Claret), a melhor parte da vida é reservada para o início (infância e juventude), enquanto a pior está no final (velhice). “E se o ciclo natural da existência fosse invertido?”, pensou Fitzgerald. Nasciam, assim, o drama de Benjamin Button e uma das histórias mais pitorescas da literatura. Nesta trama, o protagonista já nasce idoso e vai rejuvenescendo à medida que os anos vão passando. De idoso, ele se torna um adulto maduro e depois um jovem adulto. Na sequência, ele vira jovem, adolescente, criança e termina como um bebezinho de colo. “O Curioso Caso de Benjamin Button” foi publicado inicialmente na revista Collier's Weekly, em maio de 1922, como conto independente. Ainda naquele ano, a narrativa seria incluída na coletânea “Contos da Era do Jazz” (Sem edição integral no Brasil), o segundo livro de contos de Fitzgerald. A obra reunia, além de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, outras dez pequenas histórias que já tinham sido publicadas anteriormente em periódicos norte-americanos. De todos os contos do livro, aquele que entraria na memória coletiva dos amantes da literatura era o episódio trágico-cômico do homem que já nasceu velho. Francis Scott Fitzgerald é um dos escritores mais importantes dos Estados Unidos no século passado. Seu trabalho literário se concentrou nas décadas de 1920 e 1930. O autor nascido em Minnesota, em 1896, era integrante da Geração Perdida, grupo de artistas norte-americanos que vivia na França no final da Primeira Guerra Mundial. Faziam parte da Geração Perdida nomes como T. S. Eliot, Ezra Pound e Ernest Hemingway. Fitzgerald atuou essencialmente como romancista e contista. Dos seus cinco romances, o mais famoso é “O Grande Gatsby” (Tordesilhas), de 1925, apontado como um clássico da literatura universal. Contudo, o maior volume de produções de F. Scott Fitzgerald se concentrou mesmo nos contos. Esses textos eram vendidos para os jornais e para as revistas da época e rendiam um bom dinheiro para o autor, algo que não acontecia com os romances. Foram mais de 160 pequenas narrativas desenvolvidas ao longo da carreira. Sua coletânea mais lembrada é “Contos da Era do Jazz”, livro de 1922. A relevância dessa publicação está em refletir o espírito da sociedade norte-americana no início do século XX. E também por perpetuar “O Curioso Caso de Benjamin Button” para as futuras gerações. Se os leitores brasileiros nunca tiveram uma tradução integral de “Contos da Era do Jazz” para o português, ao menos não faltam opções disponíveis no mercado nacional para “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Foram várias as editoras que lançaram esse conto em obra independente, algumas em versões ilustradas (para crianças). Escolhi a edição da Dracena por ela ser a opção mais barata das direcionadas ao público adulto. O enredo de “O Curioso Caso de Benjamin Button” inicia-se no Verão de 1860, em Baltimore. O Sr. Roger Button, um rico empresário local, vai ao hospital para saber como foi o nascimento do seu primogênito. Ao chegar lá, ele nota que todos os profissionais do estabelecimento, da recepcionista ao médico, estão em pânico. Sua esposa deu à luz a um homem idoso. Aparentando ter setenta anos, o recém-nascido mede 1,73 metros, tem cabelos ralos na cor branca e uma barba longa. Benjamin, como seria mais tarde batizado o “menino”, já veio ao mundo falando perfeitamente e com o cérebro desenvolvido. Apenas seu corpo parece muito fragilizado. Por isso, logo que vê o pai, o filho pede três coisas: uma cadeira de balanço (muito melhor do que o berço pequeno que tem à sua disposição), roupas (ele está com vergonha de sua nudez) e uma bengala (para caminhar com mais segurança). O Sr. Roger Button fica assustado, logo de cara, com a aparência do filho. O empresário faz de tudo para dar um ar de criança ao velho homem que nasceu de sua esposa. A família tenta evitar um grande escândalo em Baltimore, o que poderia atrapalhar os negócios. A aflição dos familiares é tanta que ninguém nota que ano a ano, Benjamin começa a rejuvenescer. Os Roger Button (é esse mesmo o sobrenome da família – Roger não é o primeiro nome do pai de Benjamin!) tentam colocar o “menino” na escola quando ele completa cinco anos, mas rapidamente o “garoto” desiste dos estudos. A escola parece muito chata para ele. Benjamin, mesmo tendo a idade de uma “criança”, prefere ir trabalhar com pai nos negócios da família. Ninguém nota na empresa que o filho do Sr. Roger Button não é um adulto. Aos dezoito, Benjamin não é aceito na faculdade pois o consideram muito velho (ao menos fisicamente). Nessa época, ele já tem a aparência de um cinquentão. Aos vinte anos, o rapaz se apaixona por Hildegarde Moncrief, uma linda e jovem moça da cidade. Por preferir homens mais velhos, Hildegarde gosta de Benjamin e os dois começam a namorar. Em pouco tempo, o casal já sobe no altar para selar o matrimônio. Aí começa o maior drama de Benjamin. Enquanto ele começa a ficar mais e mais jovem, sua esposa fica pouco a pouco mais velha. Em determinado momento, ambos têm a mesma aparência. Contudo, a partir daí ele será visto cada vez mais como um marido jovem casado com uma esposa cada vez mais velha. Será que o casamento irá dar certo? A fase final da vida de Benjamin será mesmo recheada de momentos de felicidade extrema?! Quais os desafios que esperam por Benjamin Button nos últimos anos de sua existência? Por ser um conto, “O Curioso Caso de Benjamin Button” é um livro curtinho. Ele tem apenas 76 páginas. É possível lê-lo em uma só batida (não se demora mais do que uma hora para percorrê-lo de ponta a ponta). Para quem gosta de leituras leves, rápidas e interessantes, as narrativas curtas de Francis Scott Fitzgerald são uma ótima opção. Lembro-me que, no final do ano passado, li “Berenice Corta o Cabelo” (Lote 42), outro conto famoso do escritor norte-americano que foi publicado em livro independente. Para ser sincero, não gostei tanto da versão literária de “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Como me lembrava de boa parte do filme, confesso que não me surpreendi com quase nada do conto de Fitzgerald. E se eu não tivesse assistido ao longa-metragem, talvez a trama poderia ter sido mais impactante? A resposta para essa questão, infelizmente, jamais vou saber. O que sei precisar é que achei o filme protagonizado por Brad Pitt incrível, mas o livro é apenas razoável. O conto não é ruim, mas ficou aquém da minha expectativa, que estava lá nas alturas. Algo que gostei na história literária de Benjamin Button é que ela caminha o tempo inteiro em uma linha tênue entre o cômico e o dramático. Sei que essa pegada trágico-cômica também aparece na produção cinematográfica, mas considerei-a mais forte no conto. A cena inicial do Sr. Roger Button no hospital é hilária. A deterioração do relacionamento do protagonista com sua esposa, por outro lado, acaba pendendo mais para o trágico. O vai e volta desses dois lados é intenso no livro. A mudança de tom muitas vezes ocorre de uma frase para outra. Apesar de arriscada, essa estratégia foi muito bem executada. A história do conto leva o leitor a reflexão. É inegável que “O Curioso Caso de Benjamin Button” tenha um tom de parábola. Cada acontecimento, cada situação e cada conflito criados por Fitzgerald nesta trama parecem ter um sentido filosófico maior por trás dos fatos concretos (e um tanto fantasiosos). Não à toa, este livro nos faz lembrar alguns dos contos, das novelas e dos romances de Franz Kafka, contemporâneo do autor norte-americano. Outro ponto que chama a atenção do leitor é a característica psicológica do protagonista da trama. Benjamin Button é uma personagem muito solitária. Ele precisa enfrentar muitos preconceitos sociais em cada fase de sua vida. A impressão é que ele encara um mundo hostil e implacável com quem é diferente ao padrão estipulado pela maioria das pessoas. Todos os seus relacionamentos são difíceis (com o pai, com a esposa, com o filho, com os colegas, etc.), sendo impossível estipular o quanto Benjamin é vítima ou culpado pela situação que se meteu. Adorei esse aspecto ácido da história. Basicamente, o livro é muito parecido ao filme quando analisamos seus enredos. A grande diferença entre as duas versões está no papel da esposa de Benjamin nas tramas. No longa-metragem, o relacionamento da personagem principal com Hildegarde Moncrief Button é muito mais romântico. Quando ela fica velha e ele se torna um rapaz, os dois continuam se amando, porém com um amor diferente ao de antes. Para quem é romântico, o longa-metragem é um prato cheio. No conto, entretanto, esse lado romântico não existe. Uma vez estabelecida a diferença acentuada de idade, o sentimento que ambos sentiam desaparece de uma vez por todas. Tanto a esposa se incomoda com um marido mais jovem quanto ele repudia estar ao lado de uma mulher mais velha. Ou seja, temos no livro a exposição nua e crua de um preconceito social que era muito forte no início do século XX: o relacionamento polêmico de um homem mais jovem com uma mulher mais velha. Nesse sentido, a versão literária da história é mais amarga do que a da versão cinematográfica. É preciso estômago forte para encarar a realidade pouco agradável exposta por F. Scott Fitzgerald nas páginas de sua obra. Talvez eu não tenha gostado tanto do conto exatamente pelo predomínio do tom melancólico, triste, frio e amargo de sua história. Se o filme explorou mais os aspectos cômicos e românticos do caso pitoresco de Benjamin Button, o conto, por sua vez, preferiu aprofundar o drama na angustia e no vazio existencial do protagonista. Assim, acabei me emocionando muito mais com o longa-metragem do que com o livro. Apesar de não ter gostado tanto da versão original de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, ainda sim ele é melhor do que “Berenice Corta o Cabelo”, a outra história de Fitzgerald que conheço. Ao menos este conto analisado hoje no Bonas Histórias possui mais elementos narrativos que suscitam debates e reflexões por parte dos leitores. Gostando ou não dele, é inegável a quantidade absurda de questões interessantes e ainda hoje atuais levantadas por Francis Scott Fitzgerald nesta história. Por exemplo: qual etapa da vida do protagonista foi a mais feliz?; por que seus relacionamentos tendiam a piorar a medida que iam avançando?; qual a influência da sociedade na vida de Benjamin?; por que o casamento da personagem principal se deteriorou tanto?; e por que ele não deu muita atenção ao filho? Se formos analisar em profundidade todos esses temas em um bar, nunca mais vamos nos levantar da mesa. A principal qualidade da literatura de F. Scott Fitzgerald está em suscitar debates inteligentes a respeito de aspectos sociais. Curiosamente, a maioria dos assuntos explorados por ele no início do século XX ainda continua válida e relevante hoje em dia. Não há prova maior da força literária de um autor do que a perpetuação da importância de um tema de sua obra ao longo das gerações. Daqui a cem anos, “O Curioso Caso de Benjamin Button” continuará sendo discutido e seguirá impressionando seus leitores. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: O Homem Invisível – O clássico da ficção científica de H. G. Wells

    Existem muitas definições do que é um clássico literário. Esse tema já foi debatido aqui no Bonas Histórias algumas vezes. Lembro, por exemplo, do post à respeito do livro “Por que Ler os Clássicos” (Companhia das Letras), de Italo Calvino, que falava sobre tal questão no Desafio Literário de 2016. Para mim, um livro clássico é, em poucas palavras, aquele que já sabemos boa parte de sua história antes mesmo de lê-lo. Como isso é possível? A explicação é simples: sua trama está tão disseminada em nossa cultura (se não fosse assim, não seria um clássico, né?) que sua narrativa é amplamente conhecida, até mesmo pelos não leitores. Então qual o motivo para se ler este tipo de publicação? Porque ela ainda sim nos reserva ótimas surpresas, além de ser na maioria das vezes de ótima qualidade. Estou tratando hoje desse assunto pois li, no começo dessa semana, o livro “O Homem Invisível” (L&PM Pocket), romance do inglês H. G. Wells. Lançada originalmente no final do século XIX, esta obra é considerada um clássico da ficção científica mundial. Sua história foi, ao longo do século XX, adaptada inúmeras vezes para o cinema, para a televisão e para o teatro. Há inclusive uma versão atual desta narrativa de H. G. Wells nos cinemas. O novo filme de “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020) é ambientado nos dias de hoje em Nova York. Confesso que foi ao ver o título do longa-metragem nas salas de cinema que fiquei curioso para conhecer o original da literatura. Sou daqueles que correm para ler primeiro o livro e, só então, assistem tranquilamente à reprodução cinematográfica. Além das adaptações, esta trama também deu origem a algumas variações, como a mulher invisível, a família invisível, o cachorro invisível (sim, você leu corretamente, há uma personagem canina invisível – algo típico dos desenhos animados da década de 1970!). Duvido que alguém em pleno século XXI não tenha visto uma trama ancorada em uma pessoa, um animal ou um objeto que se torne invisível e que, a partir daí, pode agir de maneira sorrateira pela sociedade. Ao pegar “O Homem Invisível” para ler, minha principal dúvida era: teria o romance de H. G. Wells envelhecido bem em mais de um século de sua publicação? Depois de devorá-lo em uma única noite na última segunda-feira (fui da primeira à última página em pouco mais de cinco horas), a resposta é positiva. Sim, “O Homem Invisível” é uma ótima obra de ficção científica, capaz de surpreender o leitor contemporâneo. Publicado em capítulos em uma revista semanal inglesa em 1897, “O Homem Invisível” foi lançado em livro naquele mesmo ano com grande êxito. Nessa época, H. G. Wells era um autor novato (“O Homem Invisível” é sua terceira criação ficcional), porém já impressionava positivamente os leitores e os críticos literários do Reino Unido. Curiosamente, “A Máquina do Tempo” (L&PM Pocket), de 1895, e “A Ilha do Dr. Moreau” (L&PM Pocket), de 1896, os livros precedentes, também estão entre os principais títulos do escritor inglês (e da história da ficção científica). As mesmas características se aplicam a “A Guerra dos Mundos” (Nova Fronteira), publicado em 1898 (sim, essa é a história que seria transformada em um programa polêmico de rádio por Orson Welles em 1938). Isso é o que eu posso chamar de um início de carreira extremamente marcante. Em seus primeiros quatro anos como autor ficcional, H. G. Wells já entrava para a história da literatura inglesa e internacional com quatro publicações memoráveis. Incrível! Nascido na região metropolitana de Londres, em 1866, Herbert George Wells atuou como vendedor têxtil, jornalista, professor e historiador, além de escritor. Foi produzindo ficção científica que esse inglês, que faleceu aos 79 anos, se tornou conhecido mundialmente. Suas narrativas inovaram ao abordar temas que seriam mais tarde explorados pelos demais escritores (guerra nuclear, manipulação genética, conflitos com extraterrestres e formação de estados totalitários). É assustador imaginar alguém criando histórias sobre esses assuntos tão atuais ainda no século XIX... A trama de “O Homem Invisível” começa em Iping, pacata cidade do interior da Inglaterra. Em pleno Inverno, um sujeito estranho vindo de Londres chega ao Coach and Horses, a hospedaria do Sr. e da Sra. Hall. O novo hóspede surge coberto da cabeça aos pés, não sendo possível ver seu rosto nem qualquer parte do seu corpo. O frio extremo parece ser a explicação para aquele excesso de roupa e de componentes de vestuário. O homem também vem com um conjunto interminável de bagagens. Em suas malas, há várias garrafas, livros e materiais de pesquisa de laboratório (tubos de ensaio, balanças de precisão e frascos com produtos químicos). Segundo comenta com os proprietários da hospedaria, ele trabalha com pesquisas experimentais e exige privacidade para realizar suas atividades. Contudo, o que chama mais a atenção dos Hall logo de cara é a maneira agressiva e muito mal-educada do visitante se portar. À medida que as semanas e os meses vão passando, o jeitão esquisito do sujeito começa a chamar à atenção dos demais habitantes de Iping. O clima de mistério vai se intensificando até que a população local descobre se tratar de um homem invisível (o que é uma grande surpresa para eles, mas não para o leitor, que sabe disso desde a leitura do título na capa do livro). E pior do que isso: o hóspede do Coach and Horses que tem o corpo transparente é suspeito de cometer roubos nas casas da cidade. É assim que ele consegue dinheiro para se sustentar. Perseguido pelos populares e pela polícia, o protagonista do romance consegue fugir de Iping. Uma vez sozinho no campo, o homem invisível traça um plano macabro para dominar as cidades daquela região da Inglaterra. Segundo sua mente insana, é através da violência e de uma série ilimitada de maldades que ele conseguirá demonstrar o seu poder e poderá saquear os demais moradores. Assim, o homem invisível invade Port Stowe e, depois, Port Burdock, dois pequenos povoados rurais ingleses. Suas visitas nada amistosas causam pânico. A notícia chega aos jornais das principais cidades e da capital do país. Há muita gente que não acredita no que os jornalistas escrevem. “O Homem Invisível” é um livro curtinho. Com 192 páginas, ele tem 29 capítulos (já incluindo o epílogo). O que faz sua leitura ser rápida é o bom texto e a ótima narrativa de H. G. Wells. São vários os pontos elogiáveis deste romance: seu começo objetivo, a excelente ambientação, o ritmo frenético da narrativa, a mudança constante de conflito à medida que a história avança, a mistura bem casada de humor, ação e terror (quase uma receita infalível para um thriller contemporâneo), a justificativa aparentemente factual para a condição física da personagem principal, a verossimilhança (acredite!) dessa história e a boa constituição do protagonista (um típico caso de um anti-herói). Debateremos cada um desses aspectos a seguir. Repare nos três primeiros capítulos (“A Chegada do Estranho”, “As Primeiras Impressões do Sr. Teddy Henfrey” e “As Mil e Uma Garrafas”) deste livro. A maneira como seus textos são construídos é exemplar. Em apenas três dezenas de páginas, Wells consegue cativar o leitor e, ao mesmo tempo, construir o clima de mistério e terror que permeará toda a sua trama. Além disso, seu estilo de narrativa é direto e reto. Não há perda de tempo nem qualquer excesso. Por isso, uma vez iniciada esta leitura, é quase impossível de largá-la. É até engraçado falar sobre isso, mas “O Homem Invisível” possui uma ótima ambientação. O clima de suspense e de terror é mantido mesmo com o leitor já sabendo o mistério do hóspede dos Hall. A graça desta história não está em saber o motivo que leva o protagonista a agir daquela maneira (todos nós já sabemos o porquê). O legal é ver como ele fará para manter seu segredo (no primeiro quarto do livro), como fará para fugir da população inconformada (no segundo quarto da obra) e, logo em seguida, como fará para colocar seu plano diabólico em prática (na metade final do romance). Conseguirá um homem invisível derrotar milhares (quem sabe milhões) de homens e mulheres visíveis? O ritmo da narrativa de H. G. Wells é frenético. Sempre está acontecendo alguma coisa. O leitor não consegue respirar tranquilo. Prova maior disso é a mudança constante de conflitos. Na primeira parte do livro, temos um protagonista tentando esconder sua condição. Depois, temos sua fuga. E por fim, ele contra-ataca, disseminando o mal por onde passa. A partir daí, o conflito passa a ser: alguém conseguirá colocar um ponto final na aventura sanguinolenta do homem invisível por Port Burdock e região? Há várias e boas cenas de ação até descobrirmos a resposta final para o enigma do romance. O jeitão leve e descontraído do texto de Wells também ajuda na criação da empatia entre leitor e obra/personagens. A narrativa do “O Homem Invisível” é muito engraçada. Apesar do clima de terror, há passagens cômicas e bastante espirituosas. Assim, humor, ação e terror se casam perfeitamente. Impossível não gostar de um romance com essas características. E o que dizer, então, das explicações científicas dadas pelo autor para a condição da sua personagem principal, hein? H. G. Wells é simplesmente fantástico ao tentar provar para o leitor que tal condição pode sim ser possível. Ele usa um pouco de elementos científicos e muito (e coloca muito nisso) do seu poder de oratória/convencimento. O resultado é excelente. Eu fechei as páginas do capítulo em que o homem invisível justifica suas particularidades totalmente crente que isso é sim possível de acontecer de verdade (não ria de mim, por favor!). É ou não é o trabalho de um gênio literário? A verossimilhança da trama (acredite, há!) é conseguida também com uma coletânea interminável de acertos narrativos. A impressão que tive é que o escritor inglês não deixou nenhuma ponta solta. A construção da credibilidade da sua história é feita com detalhes muito bem amarrados: o caminho da comida no interior do corpo do homem invisível, a reação dos cachorros à passagem do sujeito transparente, os espirros por causa do frio, as dificuldades de se andar descalço pelas ruas do interior da Inglaterra... Paro a descrição por aqui se não ficaria até amanhã escrevendo todos os detalhes da narrativa de Wells que lhe dão verossimilhança. Por fim, não podemos deixar de falar da construção espetacular do protagonista deste romance. Surpreendentemente (ao menos para mim), Griffin (só descobrimos ser esse o nome do homem invisível na metade final da publicação – até então ele só era chamado de “a voz”, “o homem estranho” e “o homem invisível”) é um anti-herói (antes de começar esta leitura podia jurar que ele era o herói da trama). H. G. Wells desenvolveu aqui uma das figuras mais malévolas de sua carreira literária. O homem invisível é egoísta, insensível, mal-educado, violento, instável psicologicamente (tem acessos frequentes de raiva), antiético, larápio e ambicioso. Não dá para torcer por ele em hipótese nenhuma. O antagonista da obra (que adquire ares de herói) só aparece no finalzinho do livro. Trata-se do Dr. Kemp, médico e antigo colega de Griffin nos tempos de faculdade. É o doutor que tentará dar fim à saga assassina do protagonista do romance. Gostei muito desta leitura. “O Homem Invisível” envelheceu muito bem e continua sendo uma história de ficção científica saborosa e surpreendente, mesmo com 123 anos de idade. Isso sim é o que podemos chamar de clássico literário! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

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