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- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em julho e agosto de 2024
Conheça as 145 principais obras da ficção e da poesia que foram publicadas no Brasil no bimestre passado. Recém-terminada, a 3ª edição da Feira do Livro de São Paulo foi um enorme sucesso de público e de crítica. E a 27ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo começou neste final de semana com grande movimento e destaque na mídia. Como diria Christiane Torloni se tivesse ido embriagada a esses eventos, são tempos de literatura , bebê! Se você está nessa onda e procura algo novo nas estantes da ficção e da poesia para ler, cola no Bonas Histórias que trarei hoje mais um listão de lançamentos literários . A ideia é apresentar os principais títulos que chegaram às livrarias brasileiras em julho e agosto de 2024. Para os desavisados de plantão, informo que bimestralmente mostro na coluna Mercado Editorial as novidades mais interessantes entre romances, novelas, coletâneas de contos, coleção de crônicas, reunião de ensaios, títulos infantojuvenis, obras infantis e antologias de poemas. É literatura ficcional e literatura poética na veia, senhoras e senhores! A boa notícia é que o quarto bimestre está repleto de ótimas publicações. Para ser sincero, o maior mérito da última safra editorial foi a combinação de quantidade e qualidade. Ou seja, não apenas o conteúdo mereceu elogios. O volume de livros que saíram das gráficas recentemente também mostrou a força do atual momento da literatura no nosso Brasilzão cada vez mais quente, seco, caótico e, ao menos, literário. Prova disso é que o novo listão do Bonas Histórias tem nada mais, nada menos do que 145 títulos, recorde do ano. Só para relembrar, em janeiro e fevereiro , a coluna Mercado Editorial apresentou 115 obras recém-publicadas que me apeteceram. E no segundo bimestre e no terceiro bimestre foram, respectivamente, 125 e 112 lançamentos interessantes. Então, para os fãs do Castelo Rá-Tim-Bum, peço: senta que lá vem boas histórias! Como já é tradição da coluna, antes de apresentar a relação completa dos livros novinhos em folha (desculpe-me o trocadilho – além de perseguido pelos memes, parece que estou escorregando hoje em trocadilhos), comento algumas das principais novidades da temporada. Dessa vez, pincei três títulos da literatura brasileira e três títulos da literatura internacional para destacar aos leitores do Bonas Histórias . Para tal, procurei balancear as indicações em literatura clássica e literatura contemporânea , em narrativas longas e narrativas curtas e em títulos adultos e títulos infantojuvenis. Vamos combinar que em tempos de ápice de briga ideológica nas redes sociais e de palhaçada no horário político gratuito na televisão, só não lê nada bom quem não quer. Comecemos falando de literatura nacional . As obras ficcionais que mais chamaram minha atenção foram: “Vento em Setembro” ( Companhia das Letras ) de Tony Bellotto , “A Árvore Mais Sozinha do Mundo” ( Todavia ) de Mariana Salomão Carrara e “Chupim” ( Baião ) de Itamar Vieira Junior e Manuela Navas . O titânico Bellotto já se consolidou há muito tempo na literatura policial brasileira . Adoro suas histórias e sua pegada narrativa com muita ação , suspense , surpresas e intertextualidade cultural. Por isso, sempre que ele lança um livro, corro para conferir. É entretenimento puro! Confesso que (os fãs dos Titãs que me desculpem, tá?) vejo Tony Bellotto hoje mais como romancista do que como músico. Aproveitando que estou sendo bem franco com os corajosos visitantes da coluna Mercado Editorial , vou além e o acho (prepara-se para não cair da cadeira que vem bomba aí) até melhor como escritor ficcional do que como roqueiro (avisei!). “Vento em Setembro” é o 13º romance do músico-autor (ou seria agora autor-músico?!) paulistano. Nesta trama, somos levados a uma intrincada investigação conduzida pelo jornalista e escritor Davi, o narrador-protagonista especializado em arte. A solução para o recente mistério das várias pichações de locais históricos de Minas Gerais passa pela elucidação de mistérios dos tempos da Ditadura Militar no interior de São Paulo. Em duas histórias aparentemente desvinculadas, surge um road story alucinante que mistura política, história da arte, sexo e filosofia. O resultado é maravilhoso. Saindo um pouco da literatura de entretenimento e adentrando na alta literatura (uma distinção que não entra muito na minha cabecinha apaixonada por todo tipo de livro, mas que o mercado editorial usa cada vez mais, fazer o quê?), o segundo romance nacional que destaco é o novo trabalho de Mariana Salomão Carrara. A autora paulistana é uma das principais revelações da ficção brasileira nos últimos anos. De suas recentes publicações, “Se Deus me Chamar Não Vou” (Editora Nós) foi finalista do Prêmio Jabuti em 2020 e “Não Fossem as Sílabas do Sábado” (Todavia) conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2023. Portanto, estamos falando de um nomão da nova geração. Se você não a conhece, por favor, coloque essa moça na sua lista de próximas leituras. “A Árvore Mais Sozinha do Mundo” é a sétima publicação de Carrara. Neste drama familiar extremamente ácido, acompanhamos a rotina do casal Guerlinda e Carlos. Eles vivem com os filhos em um sítio no Sul do Brasil. No período do cultivo do tabaco, a mãe de Guerlinda é convocada para ajudar os parentes. Contudo, o que parecia uma boa ideia se transforma rapidamente na pior experiência possível para aquela família. Juro que me recordei dos relatos de uma amiga querida (beijo, Sub-30), que tem pais que vivem sob a mesma realidade dos protagonistas do romance de Mariana Salomão Carrara. Para mim, Guerlinda e Carlos são a personificação de figuras reais que conheci de ouvido. Vamos combinar que não há melhor experiência ficcional do que enxergar realidade em uma história inventada, né? Para encerrar o nosso rápido passeio pelas novidades da estante da literatura nacional, não poderia me esquecer de citar Itamar Vieira Junior. Depois de encantar os leitores no ano passado com “Salvar o Fogo” (Companhia das Letras), uma espécie de continuação do já clássico “Torto Arado” (Companhia das Letras), agora ele estreia na literatura infantil . Juro que queria ter um filho (na verdade vários) só para poder dividir com ele a leitura desse grande escritor. Antes mesmo do piá despertar, diria: “Menino, menino, leia isso!”. Fico imaginando um mundo em que a criançada lê figuras do porte de Vieira Junior. Certamente, o Brasil seria um país muito melhor. Em “Chupim”, obra com um projeto gráfico impecável e ilustrações da artista plástica Manuela Navas, o escritor baiano mostra a dura realidade na área rural do nosso país pela perspectiva infantil. Em uma fazenda de arroz, cabe aos adultos a realização da colheita dos campos, um trabalho pesadíssimo. Mas a molecada tem que ajudar. Cabe aos pequenos a tarefa de espantar os chupins. É isso o que o pequeno Julian, o protagonista da trama de Itamar Vieira Junior, vai descobrir em seu primeiro dia de labuta. Nesse título, temos outra vez a prosa lírica e a crítica social do interior do Brasil, características que marcaram a literatura do autor de “Torto Arado”. Para quem tem a percepção afiada, dá para ver uma relação íntima nos três livros nacionais que selecionei. Todos se passam no interior do país e enfocam a realidade agrária com uma pegada digamos ácida. O que isso quer dizer? Nada. Foi só coincidência mesmo, como diria Tadeu Schmidt. Na prateleira da ficção estrangeira , os livros que mais chamaram minha atenção foram: “Vidas de Meninas e Mulheres” ( Biblioteca Azul ), romance da canadense Alice Munro , “O Último Sonho” ( Companhia das Letras ), coletânea de contos do espanhol Pedro Almodóvar , e “Verão de Lenço Vermelho” ( Seguinte ), o polêmico infantojuvenil da ucraniana Katerina Silvánova e da russa Elena Malíssova . Alice Munro é uma das minhas escritoras favoritas. Li duas ou três de suas obras – Dani, favor me devolver “O Progresso do Amor” (Biblioteca Azul) que eu te emprestei há milhanos – e fiquei embasbacado com a qualidade de suas narrativas, que variam em extensão entre as novelas e os contos. Não à toa, a canadense foi coroada com o Prêmio Nobel de Literatura de 2013 e é considerada uma das melhores contistas contemporâneas (ela faleceu há três ou quatro meses, mas ainda acho que está viva). Suas especialidades são/eram os dramas amorosos , os dramas conjugais e os dramas familiares. E dale drama! A novidade é que a Editora Globo , pelo selo Biblioteca Azul , lançou no português brasileiro o único romance de Munro. Trata-se de “Vidas de Meninas e Mulheres”, obra publicada originalmente em inglês em 1971. A dúvida que ficamos é: como se sai a principal escritora de contos da virada do século XX para o século XXI nas narrativas longas?! É essa a curiosidade que quero elucidar em breve. Estou louquinho, louquinho para ler “Vidas de Meninas e Mulheres”. Quem sabe não comente esse título na coluna Livros – Crítica Literária ? Não é uma má ideia, como diria o saudoso Tio Luís. Já que estamos discutindo a inversão de papéis, por que não trazer para o debate a investida do cineasta Pedro Almodóvar na literatura, hein? É isso o que você leu. O espanhol que possui um portfólio audiovisual marcante e bem-sucedido (vira e mexe ele é indicado ao Oscar) apresenta um novo livro ficcional: “O Último Sonho”. Digo novo porque, no início dos anos 2000, Almodóvar lançou duas publicações literárias, que foram ignoradas pelo mercado editorial e por seus fãs da Sétima Arte. Em “O Último Sonho”, acompanhamos 12 histórias curtas que mesclam memórias do autor com devaneios narrativos . É um receituário que deu certo na maioria dos seus filmes. Nas tramas divertidas e um tanto amalucadas de “O Último Sonho”, acompanhamos as obsessões da meninice, a admiração pelas mulheres da família, a religiosidade do colégio, os inconvenientes da fama, o amor pelas diferentes artes etc. Se não fosse a genialidade de Pedro Almodóvar, essa publicação até poderia ser materializada como uma coleção de crônicas . Contudo, a criatividade dele liberou o lado ficcional e, voilà, surgiu uma coletânea de contos. De certa maneira, “O Último Sonho” é a versão literária de “Dor e Glória” ( Dolor y Gloria : 2019). E em uma brincadeira de uma coisa-puxa-a-outra, já que trouxemos Pedro Almodóvar para a cena da coluna Mercado Editorial , vamos seguir falando de polêmica e de homossexualidade. Mas não, não estou mais me referindo ao trabalho do cineasta espanhol e sim da literatura da dupla Katerina Silvánova e Elena Malíssova. Elas abalaram a conservadora Rússia de Vladimir Putin com a publicação de uma história de amor entre dois garotos. No livro, a paixão dos adolescentes é rememorada agora, mas ocorreu em plena União Soviética dos anos 1980. Não é preciso dizer que a homofobia do governo russo censurou a obra, o que a fez se tornar um enorme sucesso no exterior, principalmente entre a geração TikTok. “Verão de Lenço Vermelho” é um título infantojuvenil bem escrito, mas que não achei nada demais. Se não fosse a polêmica de sua censura no país natal, tenho sérias dúvidas se essa obra teria obtido tamanho sucesso mundo à fora. Me parece que esse é um livro mais para ser lido porque está todo mundo lendo e comentando do que um título que vai trazer grandes experiências literárias aos leitores. Porém, é bom explicar que há muito tempo (e põe muito nisso!) não sou o público-alvo de Silvánova e Malíssova. Talvez a garotada atual tenha visto elementos interessantes nesse romance russo-ucraniano que o tiozão aqui não reparou. Feita essa introdução (que alguns verão como longa e desnecessária, enquanto outros certamente acharão pequena e superficial diante da responsabilidade das indicações), podemos ir à lista completa dos lançamentos do mercado editorial brasileiro em julho e agosto de 2024 . Então, sem mais delongas, seguem os 145 melhores livros que chegaram às livrarias brasileiras no último bimestre quando o assunto é ficção e poesia : FICÇÃO BRASILEIRA: “Vento em Setembro” (Companhia das Letras) – Tony Bellotto – Romance – 296 páginas. “A Árvore Mais Sozinha do Mundo” (Todavia) – Mariana Salomão Carrara – Romance – 208 páginas. “Rio Sangue” (Alfaguara) – Ronaldo Correia de Brito – Romance – 320 páginas. “O Abismo de Celina” (Rocco) – Ariani Castelo – Romance – 256 páginas. “Bambino a Roma” (Companhia das Letras) – Chico Buarque – Romance – 168 páginas. “Infinita” (Autêntica Contemporânea) – Camila Maccari – Romance – 168 páginas. “A Sexta Estação” (Globo Livros) – Jorge Nóbrega – Romance – 192 páginas. “A Mulher de Dois Esqueletos” (Dublinense) – Julia Dantas – Romance – 160 páginas. “Nada Mais Será Como Antes” (Planeta Minotauro) – Miguel Nicolelis – Romance – 512 páginas. “Alfie” (Rocco) – Jonnie Dantas – Romance – 272 páginas. “Não Somos Melhores Amigas” (Verus) – Vanessa Airallis – Romance – 280 páginas. “Redenção de um Cafajeste” (Rocco) – Nàna Páuvoli – Romance – 384 páginas. “Búfalos Selvagens” (Companhia das Letras) – Ana Paula Maia – Novela – 136 páginas. “O Amor e sua Fome” (Todavia) – Lorena Portela – Novela – 136 páginas. “Tardes Brancas” (Autêntica) – Afonso Borges – Coletânea de Contos e Poesias – 88 páginas. “Romances de Cordel” (José Olympio) – Ferreira Gullar – Coletânea de Cordéis – 104 páginas. “A Torre do Pântano dos Ossos – Volume 2 da Série Caixa das Almas” (Gutenberg) – Paola Siviero –Infantojuvenil – 384 páginas. “Entre 3 Razões – Volume 3 da Trilogia Entre 3 Mundos” (Gutenberg) – Lavínia Rocha – Infantojuvenil – 336 páginas. “A História que Nunca Vivemos” (Alt) – Lucas Rocha – Infantojuvenil – 320 páginas. “O Amor é a Magia Mais Forte” (Outro Planeta) – Bianca Briones – Infantojuvenil – 224 páginas. “Minha Vida é um K-Drama” (Intrínseca) – Gaby Brandalise – Infantojuvenil – 224 páginas. “Mostruário” (Outro Planeta) – Renato Jardim – Infantojuvenil – 224 páginas. “Dez Mil Sóis” (Outro Planeta) – Renan Carvalho – Infantojuvenil – 208 páginas. “Luluca em Paris” (Outro Planeta) – Luluca – Infantojuvenil – 192 páginas. “A Morte e o Menino Sem Destino” (Escarlate) – Reginaldo Prandi (autor) e Pedro Rafael (ilustrador) – Infantojuvenil – 160 páginas. “Liz Sem Medo” (Escarlate) – Martha Batalha (autora) e Joana Penna (ilustradora) – Infantojuvenil – 136 páginas. “As Aventuras de Vitório” (Companhia das Letrinhas) – Veridiana Scarpelli – Infantil – 72 páginas. “Experiência Yellow – Série Caras e Máscaras” (Rocquinho) – Karen Acioly e Ciro Acioli – Infantil – 64 páginas. “Matemática do Urso” (Brinque-Book) – Blandina Franco (autora) e José Carlos Lollo (ilustrador) – Infantil – 56 páginas. “Antônio” (Yellowfante) – Hugo Monteiro Ferreira (autor) e Camila Carrossine (ilustradora) – Infantil – 56 páginas. “O Homem do Saco e o Poderoso Encanto da Perdição – Série Quebradas e Coladas” (Yellowfante) – Camila Piva (autora) e Jefferson Costa (ilustrador) – Infantil – 56 páginas. “O Jabutiquinho na Festa do Céu” (Editora 34) – Beto Furquim (autor) e Celia Catunda (ilustradora) – Infantil – 52 páginas. “O Raminho de Arruda” (Yellowfante) – Bel Assunção Azevedo (autora) e Luis Matuto (ilustrador) – Infantil – 48 páginas. “Encantarias Brasileiras” (Globo Clube) – Lia Neiva (autora) e Walter Lara (ilustrador) – Infantil – 48 páginas. “Sofia Marujo e a Escola de Piratas” (Yellowfante) – Estevão Ribeiro – Infantil – 48 páginas. “Puxa! Puxa!” (Brinque-Book) – Leo Cunha (autor), Tino Freitas (autor) e Weberson Santiago (ilustrador) – Infantil – 38 páginas. “O Dia em que Eu Entendi o Adeus” (Yellowfante) – Sophia Nogueira (autora) e Victoria Koki (ilustradora) – Infantil – 36 páginas. “Chupim” (Baião) – Itamar Vieira Junior (autor) e Manuela Navas (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Abayomi – O Reluzir dos Encontros Preciosos” (Yellowfante) – Chiara Ramos (autora), Lívia Sant'Anna Vaz (autora) e Bárbara Quintino (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Conversa Frutífera” (CEPE Editora) – Clara Nogueira (autora), Gilberto Clementino Neto (autor) e Kaká Leal (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “A Menina Pêssego – Coleção Contos Antigos Japoneses” (Companhia das Letrinhas) – Gustavo Hirga e Paola Yuu Tabata – Infantil – 32 páginas. “O Macaco e o Caranguejo – Coleção Contos Antigos Japoneses” (Companhia das Letrinhas) – Gustavo Hirga e Paola Yuu Tabata – Infantil – 32 páginas. “O Monge Ikkyuu – Coleção Contos Antigos Japoneses” (Companhia das Letrinhas) – Gustavo Hirga e Paola Yuu Tabata – Infantil – 32 páginas. “Shiro e Avós Sakura – Coleção Contos Antigos Japoneses” (Companhia das Letrinhas) – Gustavo Hirga e Paola Yuu Tabata – Infantil – 32 páginas. “Papai, Ó” (Pequena Zahar) – Marcelo Tolentino – Infantil – 32 páginas. “Tuiupé e o Maracá Mágico” (Companhia das Letrinhas) – Auritha Tabajara (autora), Paola Tôrres (autora) e Tai (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “O Pum da Minha Prima” (Companhia das Letrinhas) – Blandina Franco (autora) e José Carlos Lollo (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “Joana, a Janela, o Muro e o Cavalo” (Editora 34) – Flavia Maria (autora) e Veridiana Scarpelli (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “Maurício, o Leão de Menino” (Editora 34) – Flavia Maria (autora) e Millôr Fernandes (ilustrador) – Infantil – 24 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Vidas de Meninas e Mulheres” (Biblioteca Azul) – Alice Munro (Canadá) – Romance – 336 páginas. “Baumgartner” (Companhia das Letras) – Paul Auster (Estados Unidos) – Romance – 176 páginas. “Inés da Minha Alma” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – Romance – 308 páginas. “Nós, os Caserta” (Fósforo) – Aurora Venturini (Argentina) – Romance – 192 páginas. “Misericórdia” (Autêntica Contemporânea) – Lídia Jorge (Portugal) – Romance – 384 páginas. “Segurant – O Cavaleiro do Dragão” (Vestígio) – Emanuele Arioli (França) – Romance – 256 páginas. “Os Vulneráveis” (Instante) – Sigrid Nunez (Estados Unidos) – Romance – 176 páginas. “O Impulso” (Rocco) – Won-pyung Sohn (Coreia do Sul) – Romance – 272 páginas. “Refúgio em Black Hills” (Bertrand Brasil) – Nora Roberts (Estados Unidos) – Romance – 504 páginas. “A Amiga Maldita” (Intrínseca) – Beatriz Salvioni (Itália) – Romance – 256 páginas. “O Casal Perfeito” (Arqueiro) – Elin Hilderbrand (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Amarelo-Cromo” (Biblioteca Azul) – Aldous Huxley (Inglaterra) – Romance – 272 páginas. “A Despedida de Flor” (Record) – Elizabeth Acevedo (Estados Unidos) – Romance – 406 páginas. “Pura Cor” (Companhia das Letras) – Sheila Heti (Canadá) – Romance – 232 páginas. “Oreo” (Todavia) – Fran Ross (Estados Unidos) – Romance – 264 páginas. “Morte em Pleno Verão” (Companhia das Letras) – Yukio Mishima (Japão) – Romance – 240 páginas. “Tudo me Leva até Você” (Rocco) – Melissa Wiesner (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Juventude Sem Deus” (Todavia) – Ödön von Horváth (Croácia) – Romance – 176 páginas. “Martin Eden” (L&PM Pocket) – Jack London (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Doce Introdução ao Caos” (Dublinense) – Marta Orriols (Espanha) – Romance – 256 páginas. “Três Vidas” (Companhia das Letras) – Gertrude Stein (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “Sem Defeitos” (Arqueiro) – Elsier Silver (Canadá) – Romance – 320 páginas. “Powerless” (Rocco) – Lauren Roberts (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “Guerra” (Companhia das Letras) – Louis-Ferdinand Céline (França) – Romance – 160 páginas. “Sobre o Cálculo do Volume – 1” (Todavia) – Solvej Dalle (Dinamarca) – Romance – 152 páginas. “Sobre o Cálculo do Volume – 2” (Todavia) – Solvej Dalle (Dinamarca) – Romance – 168 páginas. “Amar e Reformar” (Rocco) – Lauren Asher (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Tudo o que Eu Não Te disse” (Alt) – Ann Liang (China/Austrália) – Romance – 280 páginas. “Sem Palavras” (Record) – Meg Cabot (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Amar é Assim” (Intrínseca) – Dolly Alderton (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “Ou-Ou” (Companhia das Letras) – Elif Batuman (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Vou Te Receitar um Gato” (Intrínseca) – Syou Ishida (Japão) – Romance – 224 páginas. “Amor em Primeiro Plano” (Rocco) – Jessica Joyce (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Receita da Esposa Perfeita” (Verus) – Karma Brown (Canadá) – Romance – 336 páginas. “Antes Ódio do que Nada” (Seguinte) – Chloe Liese (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Guerra dos Furacões” (Intrínseca) – Thea Guanzon (Filipinas) – Romance – 416 páginas. “O Resgate” (Arqueiro) – John Grisham (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Os Amantes de Casablanca” (L&PM Editores) – Tahar Ben Jelloun (Marrocos) – Romance – 256 páginas. “Como Terminar uma História de Amor” (Arqueiro) – Yulin Kuang (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Uma Alma pela Metade – Volume 1 da Série Contos de Fadas Regenciais” (Galera) – Olivia Atwater (Canadá) – Romance – 252 páginas. “Jogo dos Ladrões” (Intrínseca) – Kayvion Lewis (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “A Angústia do Rei Salomão” (Todavia) – Romain Gary/Émile Ajar (Lituânia) – Romance – 288 páginas. “Cinder” (Rocco) – Marissa Meyer (Estados Unidos) – Romance – 480 páginas. “Scarlet – Volume 2 da Série Crônicas Lunares” (Rocco) – Marissa Meyer (Estados Unidos) – Romance – 512 páginas. “A Montanha das Feras” (Wish) – Juliet Marillier (Nova Zelândia) – Romance – 250 páginas. “Cinco Lâminas Partidas – Volume 1 da Coleção As Lâminas Partidas” (Galera) – Mai Corland (Coreia do Sul/Estados Unidos) – Romance – 462 páginas. “O Gesto que Fazemos para Proteger a Cabeça” (Dublinense) – Ana Margarida de Carvalho (Portugal) – Romance – 320 páginas. “Impostora - Yellowface” (Intrínseca) – R. F. Kuang (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Tempo de Reacender Estrelas” (Gutenberg) – Virginie Grimaldi (França) – Romance – 288 páginas. “O que Resta de Nós” (Gutenberg) – Virginie Grimaldi (França) – Romance – 272 páginas. “As Pequenas Alegrias” (Gutenberg) – Virginie Grimaldi (França) – Romance – 256 páginas. “Acidentalmente Apaixonados” (Arqueiro) – Sabrina Jeffries (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Querido Babaca” (Fósforo) – Virginie Despentes (França) – Romance – 280 páginas. “Uma Maldição de Ruínas e Fúrias – Volume 1 da Série Despertar” (Galera) – Jennifer l. Armentrout (Estados Unidos) – Romance – 434 páginas. “O Manuscrito” (HarperCollins Brasil) – Elif Shafak (Turquia) – Romance – 352 páginas. “Pen Pal” (Arqueiro) – J. T. Geissinger (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Novelas Exemplares” (Penguin-Companhia) – Miguel de Cervantes (Espanha) – Coletânea de Novelas – 672 páginas. “Uma Tempestade” (Temporal) – Aimé Césaire (França) – Novela – 144 páginas. “O Último Sonho” (Companhia das Letras) – Pedro Almodóvar (Espanha) – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Tig & Nell e Outros Contos” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá) – Coletânea de Contos – 272 páginas. “Contos de Sebastopol” (Editora 34) – Lev Tolstói (Rússia) – Coletânea de Contos – 244 páginas. “Menina Deusa: Um Mito Moderno” (Darklove) – Nikita Gill (Irlanda do Norte) – Coletânea de Contos e Poesias – 368 páginas. “Use e Jogue Fora: Nosso Planeta, Nossa Única Casa” (L&PM Editores) – Eduardo Galeano (Uruguai) – Coletânea de Crônicas – 184 páginas. “Afrofutulírica” (Darklove) – Eve Ewing (Estados Unidos) – Coletânea de Poesia, Arte Visual e Prosa Poética – 112 páginas. “Os Bastidores – Como Escrever” (Companhia das Letras) – Martins Amis (Inglaterra) – Coletânea de Ensaios, Crônicas, Memórias e Ficção – 592 páginas. “Os Bastidores – Como Escrever” (Companhia das Letras) – Martins Amis (Inglaterra) – Coletânea de Ensaios, Crônicas, Memórias e Ficção – 592 páginas. “Chama de Ferro” (Planeta Minotauro) – Rebecca Yarros (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 784 páginas. “O Véu Escarlate” (Galera) – Shelby Mahurin (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 546 páginas. “Aprendiz do Vilão” (Alt) – Hannah Nicole Maehrer (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 544 páginas. “Verão de Lenço Vermelho” (Seguinte) – Katerina Silvánova (Ucrania) e Elena Malíssova (Rússia) – Infantojuvenil – 464 páginas. “Essa Dama é Minha” (Verus) – Francine Rivers (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 448 páginas. “Em Rota de Colisão” (Alt) – Bal Khabra (Canadá) – Infantojuvenil – 448 páginas. “Uma Luz Perversa” (Alt) – Emily Thiede (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 440 páginas. “Combina?” (Seguinte) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 432 páginas. “Suas Noites Solitárias Acabam Aqui” (Alt) – Adam Sass (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “A Maldição de Grimrose – Volume 2 da Série As Garotas de Grimrose” (Gutenberg) – Laura Pohl (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Como Eu Sou Agora” (Verus) – Amber Smith (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 378 páginas. “Melodia Prateada, Chamas da Noite” (Gutenberg) – Amélie Wen Zhao (França/China) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Infelizmente Sua” (Intrínseca) – Tessa Bailey (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Tudo que Nunca Dissemos” (Seguinte) – Sloan Harlow (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 328 páginas. “Um Amor de Cidade Pequena – Volume 2 da Série Lovelight” (Verus) – B. K. Borison (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 322 páginas. “Feita Pra Mim” (Paralela) – Lyla Sage (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 272 páginas. “Prazos de Validade” (Paralela) – Rebecca Serle (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 264 páginas. “Virando o Jogo” (Rocco) – Grace Reilly (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “Ajay e a Reportagem do Século” (Globo Clube) – Varsha Shah (Índia) – Infantojuvenil – 240 páginas. “O Dia em que Caí num Conto de Fadas” (Galera Junior) – Bem Miller (Inglaterra) – Infantil – 240 páginas. “Desenhando uma Peça da Escola” (Rocco) – Sara Shepard (Estados Unidos) – Infantil – 224 páginas. “Kitty e a Aventura da Meia-noite” (L&PM Editores) – Paula Harrison (autora; Estados Unidos) e Jenny Løvlie (ilustradora; Noruega) – Infantil – 128 páginas. “Isadora Moon no Parque de Diversões – Volume 5 da Série Isadora Moon” (L&PM Editores) – Harriet Muncaster (Arábia Saudita/Inglaterra) – Infantil – 128 páginas. “Lanche Noturno” (Companhia das Letrinhas) – Eric Fan (autor; Canadá) e Dena Seiferling (ilustradora; Canadá) – Infantil – 48 páginas. “Os Piratas Estão Chegando!” (Brinque-Book) – John Condon (autor; Inglaterra) e Matt Hunt (ilustrador; Inglaterra) – Infantil – 36 páginas. “Perla – A Cachorrinha Poderosa” (Reco-reco) – Isabel Allende (autora; Chile) e Sandy Rodriguez (ilustradora; Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Dissoluções” (Record) – Felipe Franco Munhoz – 160 páginas. “Quadril & Queda” (Círculo de Poemas) – Bianca Gonçalves – 64 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Carrossel dos Desejos” (Darklove) – Rachel Rabbit White (Estados Unidos) – 240 páginas. “200 Limeriques de Edward Lear para Ler e para Ver” (Todavia) – Edward Lear (Inglaterra) – 216 páginas. “Poemas para Meninas Esquecidas na Escuridão” (Darklove) – Cynthia Pelayo (Estados Unidos) – 144 páginas. “Feroz: Poemas para Corações Dilacerados” (Darklove) – Emily Skaja (Estados Unidos) – 96 páginas. Até a próxima, pessoal. E não se esqueçam: enquanto o mundo gira, a gente lê. Fazer o quê? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Talk Show Literário: Marta da Ala Vermelha
No segundo programa de 2024, Darico Nobar entrevista uma das personagens centrais de Em Câmera Lenta, o romance de Renato Tapajós que foi censurado pela Ditadura Militar brasileira. [No camarim, o apresentador do Talk Show Literário acabava de ser maquiado. Apenas base para correção das olheiras, sombreamento na pele do pescoço e corretivo para diminuir as marcas de expressão foram suficientes. Para um homem que trabalhava com literatura, as rugas eram bem-vindas, sinais de maturidade e conhecimento. Quando a maquiadora da emissora deixava o apertado cubículo localizado atrás do auditório, uma jovem de cabelos louros e longos entrou correndo pela porta do camarim. Ela tinha a expressão pisada da face, os lábios lívidos e as olheiras arroxeadas. Como se fugisse de alguém, abordou intempestivamente o velho entrevistador, que colocava o paletó que usaria nos programas daquela noite]. Darico Nobar: Que susto, menina! Quase me mata do coração. [A braveza era compatível com o sobressalto de ver alguém pulando do nada em cima dele]. Como conseguiu passar pelos seguranças?! Santo Deus, você surgiu como um fantasma! Marta da Ala Vermelha: De certa forma não deixo de ser um... Não tenho tempo, companheiro. Precisamos conversar e acertar os detalhes da operação. Todo o Comando Regional foi preso, pelo menos dois estão mortos. Se não agirmos agora, a nossa iniciativa esfriará. Precisamos reorganizar o Comando, programar algumas ações de emergência para garantir a sobrevivência do grupo. [A moça o encarava com ar de imenso cansaço e desânimo. Tinha os olhos vermelhos de quem há muito tempo estava tentando mudar as coisas e não conseguia. Ao desviar o olhar para a mesa, viu um antigo aparelho à manivela]. Marta da Ala Vermelha: Este mimeógrafo está funcionando? Darico Nobar: Não sei. Ninguém tentou usar. [O susto dava lugar à curiosidade na mente do apresentador]. Quem é você? Marta da Ala Vermelha: Me chame de Marta. Darico Nobar: Marta? Olha, se você é uma dessas fãs loucas do Talk Show Literário que acha que pode chegar aqui e... Marta da Ala Vermelha: Sou da Ala Vermelha. Darico Nobar: Ala Vermelha?! Marta da Ala Vermelha: Não tenho muito tempo. Os homens do DEOPS ou do II Exército podem chegar a qualquer momento. Muitos camaradas já tombaram. Todo cuidado é pouco neste jogo de armar. Darico Nobar: Jogo de armar?! Marta da Ala Vermelha: O jogo de armar está aí, para quem puder entender e encaixar todas as peças. Darico Nobar: Não vai me dizer que você é uma... uma guerrilheira. Marta da Ala Vermelha: É a luta, companheiro. Alguém tem que fazer o trabalho sujo para as famílias dormirem tranquilas. Podemos sentir uma ponta de arrependimento, mas a revolução prossegue e precisa de cada um de nós. Darico Nobar: Isso é loucura. Você vai acabar se estrepando. Marta da Ala Vermelha: Uma hora ou outra todo mundo cai. A diferença é o que fazemos até o tombamento. [Parou um pouco e contemplou a fisionomia do apresentador. Ela era fisicamente delicada, pequena, de gestos suaves, mas de uma imensa e tranquila coragem]. Você parece tão solidamente cartesiano. Não sei se irá ajudar na nossa causa, como o Fernando falou. Como saberei se posso confiar na sua disposição em relação à causa. Darico Nobar: Disposição? Causa?! Veja bem, Marta, eu sempre li muito e vivi pouco. Aprendi a conhecer o mundo pelos livros, e só depois, aos poucos, reconhecer na vida as palavras impressas. Sou um homem mais da reflexão do que da ação. Infelizmente, não poderei contribuir, seja lá de que maneira imaginaram que eu deveria agir. Marta da Ala Vermelha: Você não poderia entender, você não compreende nada. É um covarde! Darico Nobar: Os serviços de segurança consideram os livros altamente subversivos. [Após alguns segundos de silêncio, mostrou-se ofendido]. Você não pode entrar no meu camarim para me ofender, tá? Se recuso a me envolver nos seus planos terroristas, tenho lá meus motivos. Não sou criminoso! Marta da Ala Vermelha: Não é ofensa, é constatação. Quem conhece a morte de perto sabe que o único crime é permanecer na superfície da vida. Não existe pior falha de caráter do que ser isento e impassível. A Agência Nacional acabou de transmitir a decretação do Ato Institucional Número 5. Na minha cabeça ainda soam confusamente parágrafos, suspensão de habeas corpus para crimes políticos, recesso forçado do Congresso e novas cassações a critério do presidente. Darico Nobar: O quê?! De que tempo você veio? Marta da Ala Vermelha: É muito tarde. A imagem já se perdeu no tempo, mas está bem viva – como um corte de navalha. O tempo acabou e todos os gestos serão inúteis, mas serão feitos porque precisam ser feitos. [Pela primeira vez, ela vacila, como se tivesse uma vertigem passageira e fosse desmaiar. Mesmo assim, se mantém em pé e segura a pose de durona]. Darico Nobar: Você está bem? Não quer se sentar? Marta da Ala Vermelha: A sensação de perda é física, como se faltasse a laringe ou o esôfago e não vai passar; porque se ao menos tivesse servido para alguma coisa . [Atendendo à sugestão do anfitrião, ela senta-se num sofá do camarim]. Mas não, apenas acabou, e com isso acabou o tempo. Agora o tempo que há – é preciso chegar até o limite, deixar tudo lá e tentar chegar no ponto como aquela cara, pelo menos na repetição. Darico Nobar: Ser de esquerda é bom da boca para fora, mas na hora de fazer qualquer coisa é complicado. É preciso ter tantos cuidados que talvez fosse melhor ficar trancado em casa. Além do quê, revolução é algo para ser feita pelos jovens, não por alguém da minha idade. Marta da Ala Vermelha: Quando a guerrilha começar, aí sim, vamos mobilizar as massas. Nosso movimento será um polo de atração, um exemplo para todos os revolucionários e para o povo. Já há guerrilheiros na Amazônia. Manaus será a nova Havanna e o Amazonas se transformará na versão brasileira de Cuba. Darico Nobar: Li nos jornais. A grande máquina militar está procurando seis estudantes e um venezuelano. Você está envolvida com isso, Marta? [Ela fica em silêncio]. Tem valido a pena tanto sacrifício, tanto sofrimento?! [A moça coloca mão na testa como se medisse a temperatura ou tentasse aplacar a dor de cabeça]. Você quer um copo de água? Você não parece bem. Marta da Ala Vermelha: Às vezes me sinto morta, como se tivesse levado uma rajada na barriga . É como se meu fim pudesse salvar os companheiros, o povo, o país inteiro. Bonito, não? Darico Nobar: Não vejo beleza na violência. Marta da Ala Vermelha: Não nos resta outra opção. Uma metralhadora, uma .38 e uma escopeta têm suas eficiências no dia a dia, mas também são belas, como esculturas de traços precisos. Eu não sei explicar, companheiro. É uma coisa que a gente sente. É preciso transformar o ódio pessoal em ódio de classe. O sentimento mais forte que existe não é o amor e sim o ódio. Eu odeio todos os que mataram meus amigos. Se pudesse, destruiria um por um. Darico Nobar: Você parece gostar mais das armas do que de gente. Marta da Ala Vermelha: Isso é verdade. [Dá uma risada tímida]. O senhor não conseguiria entender. [Volta a ficar séria]. Sua alma é de um ingênuo. Vejo no seu olhar o conformismo. Sua fisionomia não traz a pretensão de mudar nada em nossa realidade. Para mim, a vida é apenas um adiamento da morte próxima, uma pausa entre quem sobrevive e aqueles que já morreram. Quem constrói o futuro são os que se foram, não os que ficaram. A maior contribuição para a vitória comunista é o legado dos mortos, dos presos e dos torturados pela Ditadura Militar. São eles que fazem a roda do mundo girar na direção certa. Porque foram nobres em sacrificar a vida, sinalizando o que acreditavam e insultando os que ficaram parados. A única ambição legítima é mudar o mundo. Todas as outras são mesquinhas. Um amigo me disse isso há algum tempo e nunca mais esqueci. Darico Nobar: Mas afinal, o que você deseja de mim? [Olha para o relógio de pulso]. Em cinco minutos irei para o palco. Tenho duas entrevistas para fazer hoje à noite. Marta da Ala Vermelha: Precisamos de uma ação que chame a atenção da sociedade. Não podemos mais ficar só de protesto isolado na universidade, panfletagem tola no centro da cidade e bombinhas aqui e ali. Só estamos arranhando a pele do monstro. Não conseguimos atingir seus músculos. A economia cresce, dizem todos os jornais, e na rua continuamos vendo os mesmos rostos ausentes, a saber que a mesma miséria continua e que os donos do país prosperam pisando no sangue, na demissão, na apatia, no medo daqueles que trabalham nos intestinos da pátria. Darico Nobar: Marta, ainda não entendi aonde você quer chegar. Seja mais clara, por favor! Marta da Ala Vermelha: Tudo se desencadeará a partir deste primeiro grande ato. Tenho certeza de que este gesto mudará o curso da história do Brasil. Não haverá programa de televisão mais vermelho do que o Talk Show Literário . [Como em câmera lenta, Marta se voltou para trás. Sua mão descreveu um longo arco, em direção ao sofá, mas interrompeu o gesto e desceu suavemente pela abertura da bolsa, escondida entre os pés. O rosto impassível olhava para o revólver que estava na bolsa e só ela via. O apresentador a encarou como se esperasse uma decisão. E, num movimento único, corpo, rosto e braço giraram novamente, o cabelo longo sublinhando o levantar da cabeça, os olhos, agora duros, apanhando de relance a imagem do apresentador que a encarava em busca de respostas. O revólver disparou, clarão e estampido rompendo o silêncio]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Músicas: 29 canções para (tentar) matar a saudade de você
Aproveitando uma data especial (para mim ou para você), listamos na coluna Músicas uma coletânea de hits que faz o coração bater descompensado ao lembrar daquela pessoa que se foi, mas que parece estar ainda muito perto da gente . Cresça. Independente do que aconteça. Eu não quero que você esqueça que eu gosto muito de você. E se eu disser que já nem sinto nada, que a estrada sem você é mais segura, eu sei, você vai rir da minha cara. Não se afobe que nada é pra já. Ele pode esperar em silêncio, num fundo de armário, na posta-restante, milênios, milênios no ar. Ai, ai, ai, ai, ai. Às vezes tudo é lindo, às vezes tudo engana. Pudera, você é a grande aniversariante de hoje. Esse 21 de julho é uma data especial (quase escrevi caótica) para mim ou para você. De tão relevante que é a efeméride, optei por adiantar a publicação do post desta semana do Bonas Histórias . Ai que saudade d´ocê. Ao invés de postá-la na segunda-feira às seis horas da matina, como reza a cartilha do blog, a ocasião exterminou a razão. E, assim, nesse desespero em que me vejo, já cheguei a tal ponto, de me trocar diversas vezes por você, só pra ver se te encontro, a nova matéria da coluna Músicas piscou nas telas no exato momento da virada do sábado para o domingo. Pensando bem, eu gosto mesmo de você. Pensando bem, quero dizer que amo ter te conhecido. E nada melhor do que eu deixar você saber da coleção de músicas que fazem o coração de quem padece de saudade da amiga querida ficar mais apertado . La conocí en una clase todo apretado. Nos tropezamos pero fui yo el que se puso colorado. Era distinta y diferente su meneada. Y un destello inteligente había en su mirada. A seguir, apresento a lista que contém 29 canções em português (a maioria) e em espanhol (três) com uma temática, digamos, de saudosismo explícito. Quem quiser ver sentimentalismo ou romantismo aí, fique à vontade. Quem sou eu para julgar opiniões alheias, né?! E por que espanhol? Porque me gustan los aviones. Me gustas tú. Me gusta viajar. Me gustas tú. Me gusta la mañana. Me gustas tú. Assim, temos exemplares da música brasileira , música argentina , música francesa (cantada em espanhol) e música porto-riquenha . 1) Ai que Saudade D´ocê – Zeca Baleiro 2) Ainda Bem – Marisa Monte 3) Você não Me Ensinou a Te Esquecer – Caetano Veloso 4) Quero Ser Feliz Também - Natiruts 5) Quem de Nós Dois – Ana Carolina 6) Eu Esqueci Você – Clarice Falcão 7) Ahora que Te Vas – Christian Daniel 8) Amei Te Ver – Tiago Iorc 9) Só Hoje – Jota Quest 10) À Primeira Vista – Chico César 11) Como Vai Você – Roberto Carlos 12) Apenas Mais Uma de Amor – Lulu Santos 13) Tocando em Frente – Almir Sater 14) Nosso Quadro – Ana Castela 15) Tive Razão – Seu Jorge 16) Ouvi Dizer – Melim 17) Futuros Amantes – Chico Buarque 18) Só Os Loucos Sabem – Charlie Brown 19) Na Sua Estante – Pitty 20) Gostava Tanto de Você – Tim Maia 21) Cumbiera Intelectual – Kevin Johansen 22) Mais Ninguém – Banda do Mar 23) O Telefone Tocou Novamente – Baila Nova 24) Aonde Quer Que Eu Vá - Paralamas do Sucesso 25) Fico Assim Sem Você – Adriana Calcanhoto 26) Me Gustas Tu – Manu Chao 27) Você é Linda – Caetano Veloso, Gilberto Gil e Ivete Sangalo 28) Por Causa de Você, Menina – Jorge Ben Jor Ah, antes que me esqueça: feliz aniversário, guria! Hoje preciso de você com qualquer humor, com qualquer sorriso. Hoje só tua presença vai me deixar feliz. Só hoje! Como presentinho singelo daquele que não consegue mais enviar comes e bebes para a ruidosa rua de Almagro, segue a vigésima nona, e última, música desta coletânea. Esta é só para você e só para esse 21 de julho. Por isso a coloquei em uma posição de destaque. Y ahora que te vas, recuerda que el amor espera. Y aunque no vuelvas más, prometo no olvidarme de ti. 29) Envelheço na Cidade – IRA! E desculpe-me pelos tropeços e pelos escorregões. Eu faço tudo errado sempre, sempre. É que o meu coração já estava aposentado, sem nenhuma ilusão. Ele já estava acostumado com a solidão. É verdade, eu não minto. Quanto mais o tempo passa, mais aumenta a graça em te ver. Amei te ver. E mais uma vez, feliz aniversário ! Para mim ou para você. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Filmes: Como Vender a Lua – A criativa comédia-romântica de Greg Berlanti
Em cartaz nos cinemas, a produção roteirizada por Rose Gilroy e estrelada por Scarlett Johansson e Channing Tatum tem como mote uma antiga teoria da conspiração que garante que os norte-americanos encenaram a chegada à Lua em julho de 1969. Fazia alguns meses que eu não alimentava a coluna Cinema . O último filme que analisei no Bonas Histórias foi “Pobres Criaturas” ( Poor Things : 2023), no longínquo, quente e caótico fevereiro. Bons tempos aqueles! Isso não quer dizer que não esteja frequentando semanalmente as salas de exibição ou que não haja excelentes opções em cartaz. Recentemente, quase comentei “Dias Perfeitos” (Perfect Days: 2023), “Rivais” (Challengers: 2024) e “Divertida Mente 2” (Inside Out 2: 2024). Gostei tanto dos longas-metragens de Wim Wenders, Luca Guadagnino e Kelsey Mann, cineastas que seguem com trabalhos geniais, que cheguei, acredite se quiser, a fazer suas análises. Porém, não as publiquei aqui. Coisa de um blog de literatura, arte e entretenimento com cada vez mais conteúdo multicultural. Parodiando Fabi Santina, como a vida não é uma linha reta, acabei quebrando o jejum de posts cinematográficos com o mais improvável dos filmes. Fui na sexta-feira ao Multiplex Belgrano de maneira despretensiosa. A ideia era conferir algo leve e divertido, sem qualquer compromisso profissional. Por isso, escolhi “Como Vender a Lua” ( Fly Me to The Moon : 2024), a nova comédia romântica de Greg Berlanti protagonizada por Scarlett Johansson e Channing Tatum . Juro que só queria, além de dar umas boas risadas e me proteger da friaca, matar as saudades da minha loira favorita de Hollywood – olha o complemento da frase antes de atirar pedras, por favor! Não via Johansson nas telonas desde Asteroid City (2023), o excelente drama histórico de Wes Anderson. Contudo, o roteiro de “Como Vender a Lua” é tão diferente, surpreendente e engraçado que não resisti. E cá estou comentando na coluna Cinema uma comédia romântica depois de muito, muito tempo. Quem me conhece sabe o quão crítico sou deste gênero cinematográfico. Preciso dizer que não há nada de errado com esse tipo de filme (nem com seu público). É apenas gosto pessoal, nada mais, nada menos. Quando vejo um terror ou um thriller, por exemplo, aceito com mais facilidade os títulos medianos. Por quê? Porque aprecio naturalmente esses estilos. Assim, consigo fazer análises de obras como “O Exorcista do Papa” (The Pope's Exorcist: 2023), “M3gan” (2022) e “Sorria” (Smile: 2022), para ficarmos nos longas mais recentes. Faço isso sem qualquer constrangimento ou dificuldade, mesmo sabendo que estão longe (muuuuuuuito longe) de proporcionar experiências marcantes para os cinéfilos. Tal princípio não vale para as comédias românticas. Como não acho normalmente graça nelas, não engulo qualquer produção e travo na hora de elogiá-las. Essa é a explicação para não ter comentado, por exemplo, “Todos Menos Você” (Anyone But You: 2024) e “Pedido Irlandês” (Irish Wish: 2024) no Bonas Histórias . Por mais que o pessoal tenha adorado e se divertido na sessão em que estive, admito envergonhado que não achei muita graça nem fui impactado por suas tramas. Culpa de um coração peludo, gélido e amargurado? Pode ser. O fato é que para me agradar, a comédia romântica tem que ser muito, muito, muito boa. Daí a justificativa para, de tempos em tempos, debater títulos como “El Duelo” (2023), “Belle Époque” (La Belle Époque: 2019), “De Quem é o Sutiã?” (The Bra: 2018), “Yesterday” (2019), "A Love You" (2015) e o hors-concours "Encontro Marcado" (5 to 7: 2014). Cada um deles traz algum elemento inovador ao gênero. Acho que “Como Vender a Lua” entrou nessa seleta lista de longas-metragens surpreendentes. O que faz o novo filme de Greg Berlanti, diretor do intrigante “Com Amor, Simon” (Love, Simon: 2018) e do tolinho “Juntos pelo Acaso” (Life As We Know It: 2010), tão especial é a mistura bombástica de fake news/teoria da conspiração, narrativa histórica, momentos hilários e, claro, Scarlett Johansson. Pegue uma panela e coloque “Teoria da Conspiração” (Conspiracy Theory: 1997), “Rebobine, Por Favor” (Be Kind Rewind: 2008), “Oppenheimer” (2023), "Ponto Final - Match Point" (Match Point: 2005) e “Querido John” (Dear John: 2010). Misture bem os ingredientes e ponha no set de filmagem a temperatura da Guerra Fria . O resultado é, voilà, “Como Vender a Lua”! A trama desta comédia romântica se baseia na maior teoria da conspiração do século XX: a ideia de que os Estados Unidos não pousaram na Lua em julho de 1969 e sim armaram um espetáculo audiovisual para ludibriar a população mundial. É uma espécie de avó das fake news atuais. Se hoje há quem acredite que as vacinas são prejudiciais à saúde, que a Terra é plana, que não há crise climática e que a pandemia foi armação da mídia e dos governos, há cinquenta anos a crença era de que a Apollo 11 jamais havia chegado ao seu destino. Para os novinhos que possam achar inacreditável essa linha de pensamento, relato que quando era criança (lá em Barbacena), tinha um tio que adorava falar que duvidava que os norte-americanos pousaram na lua. Certamente você conhece o tipo do ignorantão metido a sabichão. Um dos meus primos, nessa linha, garantia que tinha visto reportagens e documentos secretos (!?) que atestavam a armação das fotos e dos vídeos da missão da NASA . Ou seja, os encontros familiares há tempos eram recheados de barbaridade. Estou falando do início dos anos 1990... Não preciso dizer em qual candidato essa parte da família votou nas duas últimas eleições presidenciais no Brasil e os absurdos que seguem falando nas reuniões com os parentes, né? Orçado em US$ 100 milhões, “Como Vender a Lua” é a primeira parceria da Apple com a Sony Pictures depois de “Napoleão” (Napoleon: 2023). O filme de Greg Berlanti estreou nos cinemas brasileiros e internacionais na semana passada (mais precisamente em 11 de julho de 2024) e deverá entrar na programação da Apple TV tão logo deixe as salas de exibição (mais ou menos no final de agosto, início de setembro). O roteiro é da norte-americana Rose Gilroy , que apesar de não ser conhecida deu um show na construção dessa história ficcional. Além de Scarlett Johansson e Channing Tatum, que pela terceira vez trabalham juntos – as outras vezes foram “Como Não Perder Essa Mulher” (Don Jon: 2013) e “Ave, César!” (Hail, Caesar: 2016), mas nenhuma como par romântico –, o elenco desta comédia romântica tem nomes como Woody Harrelson , Anna Garcia , Ray Romano , Jim Rash , Joe Chrest , Noah Robbins , Colin Woodell , Christian Zuber e Donald Elise Watkins . Curiosamente, “Como Vender a Lua” recebeu apoio da NASA, que entrou no espírito da brincadeira e não boicotou o olhar alternativo para o seu momento histórico mais emblemático. A agência espacial dos Estados Unidos não só permitiu que as gravações fossem feitas em suas dependências como contribuiu tecnicamente com a equipe de cineastas. Em uma mistura de ficção e realidade, podemos dizer que foi um excelente trabalho de Relações Públicas e de Propaganda & Marketing da National Aeronautics and Space Administration. O enredo de “Como Vender a Lua” se passa no auge da Guerra Fria. Na intensa disputa para ver quem seria a primeira nação a levar o homem para a Lua, Estados Unidos e União Soviética disputavam a façanha de construir quase do zero a tecnologia aeroespacial. Para conseguir tal proeza, os dois governos despejaram vultuosas quantias de capital financeiro e alocaram riquíssimo capital humano nas pesquisas e no desenvolvimento desta indústria. Essa batalha tecnológico-científica começou no meio da década de 1950, dez anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Contudo, em meados dos anos 1960, os comunistas estavam na dianteira do que se convencionou chamar de Corrida Espacial . Eles colecionavam êxitos: enviaram o primeiro satélite artificial, o primeiro ser vivo e o primeiro cosmonauta para o espaço. Enquanto isso, os norte-americanos acumulavam fracassos e vexames. Essa é a parte histórica e real desse período marcante do século XX que o filme está ancorado. Agora entremos na ficção propriamente dita de “Como Vender a Lua”. Para dar fim a interminável lista de derrapadas da NASA, Moe Burkus (interpretado por Woody Harrelson), um dos principais assessores do presidente dos Estados Unidos, tem uma sacada aparentemente genial. Ele contrata Kelly Jones (Scarlett Johansson), uma picareta que está fazendo muito sucesso como profissional de Marketing em Nova York. A moça é escalada para cuidar da área de Relações Públicas (RP) da agência espacial. Na visão dos poderosos da Casa Branca, com a melhoria da comunicação e da imagem do projeto Artemis (no longa-metragem, o Projeto Apollo é chamado de Projeto Artemis), a opinião pública passaria a apoiar a iniciativa do governo, o que facilitaria a obtenção de recursos por parte de deputados e senadores. Ao invés de ser um poço de escândalos e polêmicas, a NASA seria fonte de orgulho e alavancagem da nação tanto interna quanto internacionalmente. Dessa maneira, Kelly Jones se muda para a Flórida para cuidar do RP do projeto Artemis. O problema é que o ambiente em que ela se insere é machista e pouco afeito às técnicas mercadológicas. Ninguém quer colaborar com a equipe de Kelly. Um dos principais oponentes é Cole Davis (Channing Tatum), o diretor de lançamentos da NASA. Ele não vê com bons olhos a chegada da linda e sagaz publicitária. Enquanto os engenheiros e cientistas precisam se desdobrar para encontrar soluções técnicas para os desafios espaciais, a publicitária e sua assistente (Anna Garcia) querem promover entrevistas com a mídia e fechar parcerias comerciais com as grandes empresas. Apesar da nítida atração entre a dupla de protagonistas desde o primeiro momento, eles possuem atividades e personalidades totalmente distintas. Kelly é extrovertida, engraçada, carinhosa, competente e, claro, trambiqueira. Muito trambiqueira! Beijo, Cidinha! Ela usa o charme, a inteligência e a moral torta para conseguir o que precisa. É o tipo de pessoa que acredita piamente que os fins justificam os meios. Se tiver que vender a mãe, ela negocia tranquilamente (exigindo pagamento à vista e sem direito à devolução). Por outro lado, Cole é introvertido, sério, frio, coleciona incontáveis erros e tem pouca afeição às maracutaias. Em um ambiente de tantos riscos e acidentes, ele sabe que precisa ser extremamente profissional e correto. Mesmo assim, convive com a consciência pesada pelos insucessos e pelas perdas de colegas e funcionários do passado. É, portanto, o tipo certinho que não permite nada fora do script e se culpa por tudo. Diante de tantas diferenças, é claro que a dupla vive em constantes brigas. Ao mesmo tempo, Kelly e Cole se sentem cada vez mais atraídos um pelo outro. O êxito profissional de Kelly enche os olhos do pessoal da NASA e, principalmente, de Moe Burkus. O assessor do presidente nota o poder do Marketing para o país e tem planos cada vez mais ousados para a talentosa publicitária. Assim, ele faz uma proposta para lá de polêmica à moça: coordenar a filmagem alternativa (no caso, falsa) do pouso na Lua. Imaginando que o projeto Artemis pudesse dar errado, nada melhor do que ter um plano B na gaveta. Se o foguete com Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin falhasse, o governo norte-americano colocaria no ar o filme produzido por Kelly. Aí pronto: o mundo acreditaria no êxito da empreitada espacial da NASA. Não é preciso dizer que a nova missão de Kelly é supersecreta. Ninguém pode saber da filmagem da chegada alternativa à Lua. Nem mesmo Cole. O que ele achará da publicitária se descobrir que ela está cogitando o insucesso de seu trabalho, hein? Ai, ai, ai. Essa história tem tudo para não terminar bem. Pelo menos pela perspectiva sentimental do casal de protagonistas. De certa maneira, Kelly Jones e Cole Davis acabam ficando involuntariamente em lados opostos na trama. “Como Vender a Lua” tem aproximadamente duas horas e 15 minutos de duração. Este filme não tem o primor visual de “Oppenheimer” nem a comicidade de “Pobres Criaturas” . Também está longe de exalar o romantismo de “Belle Époque” e "Encontro Marcado" , títulos que citei no início deste post da coluna Cinema . Apesar disso, eu adorei o resultado. Gosto de ser surpreendido e ver propostas originais nas telonas. Se você busca uma comédia romântica diferente, certamente curtirá esta experiência cinematográfica. Contudo, se estiver esperando por velhas fórmulas e viver preso(a) ao receituário convencional das tramas açucaradas, talvez saia desapontado(a) da sala de cinema. O primeiro elemento que merece elogio em “Como Vender a Lua” é o seu brilhante roteiro. Sei que já disse isso neste post do Bonas Histórias , mas repito sem medo de parecer repetitivo: Rose Gilroy arrebentou no desenvolvimento desta narrativa. Se não estiver impecável, a história do filme beira a perfeição. Além de todas as peças ficcionais estarem em seu devido lugar, temos humor, ação, drama, romance e muitas reviravoltas. Entretanto, o que mais gostei do longa-metragem foi o uso inteligente e cômico de uma velha lenda urbana. Ah que bom seria se o mundo mantivesse as fake news e as absurdas teorias da conspiração apenas no campo da ficção, né? A beleza e a sagacidade do roteiro ficam mais evidentes na metade final do filme. É aí que temos os instantes mais engraçados, dramáticos e surpreendentes. Isso não quer dizer que a primeira metade da produção não seja boa. Ela é. O que estou dizendo é que o clímax e o desfecho são excelentes. Outra questão marcante é que mesmo brincando com a fake news da encenação do pouso na lua, o longa-metragem se manteve acertadamente com os dois pés na realidade. Achei incrível essa mistura bem calibrada de divagação fantástica e concretude histórica. Gostei também do ritmo narrativo de “Como Vender a Lua”. Para um longa-metragem com mais de duas horas de extensão, ele até que passa rapidinho. Não fiquei cansado, incomodado nem entediado na sala de cinema – algo que geralmente acontece em sessões muito longas e/ou em comédias românticas fraquinhas. O segredo da boa fluidez está na delimitação mais ou menos clara das diferentes partes da história, algo que até o expectador recreativo consegue visualizar/sentir. Nesse caso, temos sete divisões: (1) a contextualização, (2) a apresentação das personagens principais, (3) o conflito profissional dos protagonistas, (4) o conflito sentimental dos protagonistas, (5) algumas reviravoltas, (6) clímax e desenlace da trama da NASA e (7) clímax e desenlace da trama afetiva do casal de heróis. Com tanta coisa acontecendo em cena, não dava mesmo para reduzir o tempo da produção. Apesar de não serem de outro mundo (desculpe-me pelo trocadilho involuntário), os efeitos visuais, a fotografia, o cenário, os figurinos e a trilha sonora de “Como Vender a Lua” são adequados. Se não passam vergonha, também não empolgam o público mais exigente. Em outras palavras, cumprem seus papéis com tranquilidade, mas sem grandes pretensões cinematográficas. O que é empolgante é a atuação do elenco. Scarlett Johansson e Channing Tatum mostram bom repertório cênico tanto para o drama quanto para a comédia. Obviamente por causa do seu papel mais rico, Johansson teve margem maior para demonstrar seu talento. Sua personagem é ótima! Kelly Jones é uma anti-heroína charmosa, inteligente e carismática. Não por acaso, ela vai roubar o seu coração já na primeira cena, por maior que seja o trambique protagonizado. Já Tatum fica limitado ao papel do militar bronco e melancólico. O diretor de lançamentos da NASA em “Como Vender a Lua” é a versão mais velha e traumatizada de John Tyree, de “Meu Querido John”, filme adaptado do romance de Nicholas Spark. Os coadjuvantes também se saem muito bem. Woody Harrelson, Anna Garcia, Ray Romano e Jim Rash roubam a cena em alguns momentos-chave do longa-metragem e potencializam o humor. Repare que não coloquei nessa conta o pequeno felino negro que pouco a pouco ganha espaço na trama até se tornar o grande vilão da história, em uma sacada criativa genial do roteiro. Além disso, o gigantesco elenco de apoio (estamos falando de quase uma centena de figurantes!) não atrapalha o desenvolvimento da produção, um risco sempre presente quando se trabalha com multidões de atores não profissionais. Para encerrar a seção elogiosa, me sinto na obrigação de reconhecer que desta vez acertaram na nomeação do filme para o português. Aleluia! Isso quer dizer que traduziram literalmente o título do inglês para o nosso idioma, certo? Não. Curiosamente, eles fugiram da tradução literal e, por isso mesmo, acertaram na mosca. Acho que “Como Vender a Lua” (nome no Brasil) é muito melhor do que “Fly Me to The Moon” (nome original em inglês). São dois os motivos principais da minha preferência: (1) a história principal não é sobre a viagem ao satélite natural da Terra e sim sobre o trabalho mercadológico da equipe comandada por Kelly Jones; e (2) existem vários filmes (só eu conheço três) com o nome “Fly Me to The Moon”. Por que colocar um título repetido (e, portanto, pouco original) que só vai causar confusão, hein?! Seria vontade para reverenciar a música que ficou imortalizada na voz de Frank Sinatra? Não sei. O que sei é que os norte-americanos chegam à lua, mas não conseguem usar a criatividade para escolher um bom nome para o longa-metragem. Falemos agora dos problemas de “Como Vender a Lua” (se bem que acho que já entrei nesse tópico no final do último parágrafo). Em primeiro lugar, o lado romântico da trama é fraquinho, muito fraquinho. Só chamei este filme de comédia romântica porque assim ele foi classificado pelo estúdio. Na minha visão, ele é mais um drama histórico ou uma aventura cômica do que uma história de amor . Por mais carismáticos que sejam, Scarlett Johansson e Channing Tatum não convencem no papel de casal apaixonado. Eles são bonitos, exalam sexy appeal e são cativantes, mas juntos não funcionaram. Sabe aquele casal que é lindo, mas que não tem química nenhuma? É o que temos aqui. Individualmente eles foram melhores do que em dupla. Sinto que o par romântico ideal para Scarlettizinha fora do cinema (desculpe-me, Colin Just ) é um brasileiro que ama literatura, tem olhos verdes e vive na Argentina. Olha a dica!!! É verdade que o roteiro não ajudou na criação do clima sentimental entre os protagonistas. Por mais engraçada que seja, a cena em que Kelly Jones e Cole Davis se conhecem no bar/restaurante na beira da estrada (e lançam as fagulhas das brigas e do amor) é forçada e um tanto inverossímil. Para piorar, não se explora a tensão sexual e sentimental dos dois ao longo da produção. A exceção é a bela cena do avião/visita ao senador religioso. Porém, é um único instante marcante de romance em um filme de mais de duas horas. Em resumo, Scarlett Johansson e Channing Tatum não convencem como casal porque o roteiro não os ajudou. Também não gostei do início do filme. Ele é extremamente didático e parece mais um documentário do que uma ficção. A sensação que tive é que “Como Vender a Lua” duvida da inteligência e do repertório cultural do expectador ao pontuar detalhadamente o contexto histórico. Será mesmo que precisava falar por A mais B o que era a Guerra Fria e a Corrida Espacial?! Sinceramente, acho que não. Essa mania de explicar tudo acabou refletindo em outras partes do longa-metragem. Mesmo sendo possível entender o que está ocorrendo em cena, uma personagem surge para explicar o que já compreendemos. Que raiva! O melhor exemplo disso é a listagem dos engenheiros no momento da decolagem. Outra questão que me incomodou um pouco foi a sensação de caricatura de personagens, figurinos e cenários. Na tentativa de reconstruir a década de 1960 com fidedignidade, por vezes “Como Vender a Lua” acabou escorregando em estereótipos. Assim, notamos o tom artificial e a pegada de Filme B em vários momentos. Juro que não sei se esse expediente foi proposital – possivelmente para potencializar o humor. De qualquer maneira, não gostei (até porque a comicidade maior do filme está nas sacadas inteligentes da trama e não no visual). Confira, a seguir, o trailer de “Como Vender a Lua” (Fly Me to The Moon: 2024): Confesso que adorei este filme. Sabe quando você entra na sala de cinema com a expectativa lá embaixo e sai maravilhado com a experiência obtida? Foi o que aconteceu comigo no último final de semana no Multiplex Belgrano . “Como Vender a Lua” tem roteiro inteligente, ótimas cenas, protagonistas cativantes, excelentes surpresas e atuações destacadas. Para completar, rende boas risadas e permite que matemos as saudades de Scarlettizinha. O que mais podemos desejar de uma sessão de sexta-feira à noite na Buenos Aires de Inverno polar, hein?! Se você está reticente (como eu estava!) em conferir o novo longa-metragem de Greg Berlanti, saiba que “Como Vender a Lua” está mais para “Com Amor, Simon” do que para “Juntos pelo Acaso”. Ainda assim, é infinitamente inferior tecnicamente a “Dias Perfeitos”, “Rivais” e “Divertida Mente 2”. Como deu para perceber, ainda não entendi o porquê não postei as análises desses títulos na coluna Cinema . Se bem que ainda não desisti de publicá-los, principalmente a animação da Pixar, que ainda permanece em cartaz no circuito comercial brasileiro. Por outro lado, é inegável que “Como Vender a Lua” é o filme mais surpreendente desta temporada cinematográfica. Daí a explicação da sua presença no Bonas Histórias . É verdade que o componente da comédia romântica não é o que mais chama a atenção neste caso. As almas mais sensíveis certamente vão reclamar. Se o seu mozão é assim, saiba que ele/ela poderá chiar com razão ao final da sessão. Porém, quem liga para isso quando os outros elementos compensam a falta de uma história de amor mais bem construída e empolgante, né? Lá vem o meu coração peludo atrapalhar mais uma vez a minha análise! Ai, ai, ai. Desculpem-me, senhoras e senhores, a falta de tato deste que vos escreve. Talvez o post da semana que vem explique melhor a recente falta de romantismo da minha parte (que atingiu níveis preocupantes até mesmo para mim). O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Livros: O Túmulo da Desconhecida - O romance de estreia de Janete Helena
Publicada em janeiro de 2024, a primeira obra ficcional da jornalista e escritora mineira foi inspirada na lenda de um patrimônio histórico e cultural de Resende Costa, cidade do interior de Minas Gerais que serviu de ambientação para o thriller . Em abril, li “O Túmulo da Desconhecida” ( Viseu ), o encantador romance de estreia de Janete Helena . A jornalista e escritora nasceu em Resende Costa, a pequena cidade do interior de Minas Gerais que serviu justamente de cenário para a obra ficcional. O mais interessante é que, além da ótima experiência literária que o livro nos proporciona, há um curioso bastidor por trás desta produção narrativa. Utilizando-se das pesquisas históricas sobre um famoso patrimônio cultural de sua terra natal, o tal túmulo de uma mulher desconhecida datado do início do século XX, Janete construiu uma trama envolvente, misteriosa e romântica. Impossível não comentar este título na coluna Livros – Crítica Literária . Conheci “O Túmulo da Desconhecida” no final de janeiro, época do seu lançamento. De maneira muito simpática, Janete Helena entrou em contato para apresentar seu trabalho. Ter um blog literário me confere o privilégio de conhecer os bons nomes da literatura brasileira contemporânea em primeira (ou segunda, como preferirem) mão. Contudo, naquele momento, admito envergonhado que não li o material com a devida atenção. Parei no final do terceiro capítulo, o suficiente para ver que ele tinha muita qualidade e que merecia uma apreciação posterior. Por isso, apenas comuniquei sua publicação no post dos novos livros de janeiro e fevereiro da coluna Mercado Editorial . Curioso para conhecer a trama de “O Túmulo da Desconhecida” com mais profundidade, incluí o romance de Janete na minha lista de próximas leituras. Como os leitores mais antigos do Bonas Histórias bem sabem, sou daqueles que têm uma pilha de livros para degustar com calma. E, para espanto de muitos, eu não sossego enquanto não faço a fila andar – ainda estou falando de literatura! Digo andar porque já entendi que será impossível zerá-la. Mal termino um título, já surgem dois ou três, que são incorporados à lista quase que por osmose. Se Xuxa Meneghel via duendes em seu quarto nos anos 1990, eu creio que no meu apartamento há um bando de pequenas criaturas verdes que trazem, enquanto estou dormindo ou batendo perna na rua, novas obras ficcionais e as empilham na minha estante (e no meu Kindle). Aí quando vou ver, a situação fugiu do controle. De qualquer forma, três meses mais tarde (do lançamento de “O Túmulo da Desconhecida” e não da suspeita da ação sorrateira dos duendes), me vi preparando a mochila para uma viagem de alguns dias para Montevideu. Sabendo que o deslocamento da Argentina, onde vivo, para o Uruguai demandaria algumas horas de ferry e estrada, tratei logo de rechear a bagagem com boas publicações ficcionais. Sou daqueles que tira algumas roupas da mala só para conseguir colocar mais brochuras. E, felizmente, essa opção se mostrou mais uma vez extremamente produtiva. As duas melhores obras lidas na viagem de abril renderam posts para a coluna Livros – Crítica Literária ! E para quem pensou em “A Uruguaia” (Todavia), a espetacular novela de Pedro Mairal, aviso que, infelizmente, não havia tchutchuquinha uruguaia nem punhado de dólares me aguardando no outro lado do rio. Por falar em análises, em maio, comentei “Amor Segundo Buenos Aires” (HarperCollins), o delicioso romance do paranaense Fernando Scheller. Agora é a vez de tratar da segunda boa surpresa daquela jornada pelo Rio da Prata, o thriller de Janete Helena. Para comentar com mais propriedade este título, o reli na semana passada – dessa vez no sossego do lar no bairro portenho de Saavedra. Curiosamente, achei esta obra ainda melhor nessa releitura. Se antes já havia gostado da sua história e da sua estrutura narrativa, agora confesso ter adorado. Como diria Raul Gil, é preciso tirar o chapéu para este trabalho literário de Janete. Lançado em janeiro de 2024, “O Túmulo da Desconhecida” é um mistério protagonizado por Luísa, uma jornalista paulistana que viaja ao interior de Minas Gerais para receber uma herança. Junto com o belo casarão deixado por um parente distante, a moça ganha de brinde antigos segredos familiares para desvendar. O mergulho pelo passado da bisavó materna também levará a protagonista a procurar respostas sobre um intrigante jazigo não identificado no cemitério local. A ideia do suspense dramático surgiu quando Janete Helena trabalhava na Secretaria de Cultura de Resende Costa, cidade conhecida como a Capital Mineira do Artesanato Têxtil. Em 2021, ela atualizava as fichas de bens inventariados do município. Foi aí que se deparou com o mistério em torno de um túmulo em particular. A identidade da sepultada era desconhecida, apesar do rigoroso livro de registros do cemitério e da paróquia. O jazigo chamado de “O Túmulo da Jovem Desconhecida” virou um patrimônio histórico e cultural da localidade e sempre alimentou várias lendas urbanas. Afinal, quem fora enterrada ali e por que os segredos sobre seu nome e sua biografia jamais foram revelados?! Nascia, assim, as bases do enredo de “O Túmulo da Desconhecida”. A versão mais aceita para a história real da famosa defunta de Resende Costa, mito que fora transmitido oralmente ao longo do último século, diz que se tratava de uma jovem de 15 anos. Após ajudar na construção do cemitério, ela fora a primeira a ser sepultada ali. Como o local acabara de ser entregue à população, a usuária debutante não foi devidamente registrada. Com o passar dos anos e o rigoroso controle dos demais enterros, aquela primeira e única personalidade não identificada ganhou ares de mistério. Até hoje ninguém sabe quem ela foi exatamente. A própria teoria de que se trata de uma moça de 15 anos é imprecisa – é só a hipótese mais aceita atualmente. Aproveitando-se da falta de fontes e da indefinição do caso, Helena criou sua própria (e fictícia) versão da trama. A escritora mineira concebeu a história do romance em uma tarde. Contudo, levou dois anos para amadurecer a ideia e colocá-la no papel. O tempo de maturação ajudou na resolução dos aspectos práticos da narrativa ficcional. Por exemplo, o nome da personagem principal é uma homenagem à Luísa, a arquiteta que trabalhava com Janete na atualização das fichas da Secretaria de Cultura. A profissão e a personalidade da protagonista foram inspiradas na própria realidade da autora. Para completar, as demais figuras ficcionais foram criadas a partir de elementos de pessoas verídicas e a ambientação da obra tem como referência direta Resende Costa, apesar de o município não ser identificado no thriller. Quem está no meio literário sabe que a combinação entre ficção e realidade é infalível quando utilizada por mãos (e mentes) habilidosas. Assim, quando se sentou para colocar a trama no papel, em janeiro de 2023, a romancista mineira já sabia exatamente o que iria produzir. Só o desfecho saiu diferente do que havia imaginado previamente. Não por acaso, finalizou o texto em apenas duas semanas e meia. Concluída esta parte do projeto editorial, começou o desafio de achar uma editora para publicar “O Túmulo da Desconhecida”. Depois de alguns contatos, Janete Helena optou pela Viseu , editora paranaense fundada em 2011 e que atua com autopublicação. A revisão textual foi feita pela própria escritora e a capa foi criada por um amigo tatuador. Tanto a narrativa quanto o projeto gráfico me pareceram impecáveis. Graduada em Recursos Humanos pelo Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste-MG), Janete trabalha como jornalista e, agora, escritora. Colaborando com diversos veículos de comunicação de Minas, ela produz crônicas e contos há alguns anos. Sua paixão pela escrita vem desde pequena. Aos nove anos, já tecia seus primeiros textos ficcionais. Contudo, só agora enveredou pelas narrativas longas. “O Túmulo da Desconhecida” é, como já disse, seu primeiro romance. O resultado positivo do material e os feedbacks do público empolgado têm estimulado a romancista a seguir com novas publicações. Felizmente, ela cogita transformar o livro de estreia em uma série literária e se sente mais encorajada a lançar coletâneas de crônicas nas livrarias. Contudo, ainda não há nenhuma definição clara sobre seus próximos passos na literatura. A única certeza é que, aberta a porteira, virão mais obras por aí. O enredo de “O Túmulo da Desconhecida” inicia-se nos primeiros meses de 2020. Luísa é uma jornalista paulistana de 40 anos que recém concluiu o doutorado. Cansada do trabalho acadêmico que a consumiu nos últimos anos, a protagonista do romance pede licença da função de professora universitária e interrompe momentaneamente os jobs como escritora freelancer. Sua ideia é sair em um período sabático. Como vive sozinha e conseguiu economizar, a proposta é passar os próximos meses viajando de carro pelo Brasil. Assim, acredita que conseguirá conhecer o país natal. Colocando o plano em prática já em janeiro, Luísa ruma pelas estradas do Sul. Contudo, após o Carnaval, a moça recebe uma mensagem inusitada que a faz mudar completamente os planos da viagem. A correspondência informa que ela recebeu uma herança no interior de Minas Gerais. Um parente distante que ela jamais ouvira falar morreu e deixou uma casa no testamento. Intrigada com tal situação, Luísa muda em 180 graus o trajeto e volta para o Sudeste. Chegando à pequena cidade incrustada no alto das serras mineiras, ela se encanta com a beleza e o bucolismo da localidade. O povoado, conhecido como a Capital Estadual do Artesanato Têxtil, é minúsculo, mas tem seu charme. Instantaneamente, a forasteira se torna alvo da curiosidade dos moradores. O que uma paulistana solteirona e independente estaria fazendo naquelas terras?! Sem se importar com olhares, comentários e perguntas dos bisbilhoteiros de plantão, Luísa procura se inteirar da herança. Dessa maneira, descobre que é dona de um belíssimo casarão centenário no Centro do município. Quem deixou o imóvel foi Gervásio, um tio que nunca fora citado pelos familiares. As surpresas não param por aí. Quando conhece a casa por dentro, Luísa descobre que a bisavó Rosária trocou cartas por anos e anos com o tal Gervásio. A correspondência da bisa está guardada em muitas caixas em um cômodo. Curiosa, a jornalista veste a carapuça de historiadora e começa a ler o material. Há ali um grande mistério. Por que Rosária fugiu em 1922 e nunca comentou sobre o passado vivido no interior de Minas com a família em São Paulo? Por que nunca voltou à terra natal se sentia tantas saudades? E porque manteve escondida da filha, da neta e da bisneta a intensa correspondência com Gervásio? Enquanto investiga lances mal resolvidos do passado familiar, Luísa também se vê fascinada por outro enigma. Na pequena cidade serrana, há o túmulo de uma mulher desconhecida. No cemitério, aquela é a única lápide que não possui qualquer identificação. Em contradição à carência de informações da falecida, os moradores do povoado ainda prestam homenagens para a misteriosa morta. Até hoje ela é reverenciada pela população, mesmo tendo o nome e a história ocultados. Inclusive, reza-se missa aos domingos para ela e se cria teorias de quem teria sido. Já que está desbravando a história da bisavó, Luísa se sente encorajada a procurar também explicações para o maior enigma daquela aprazível cidadezinha. O que a protagonista de Janete Helena não poderia imaginar é que os dias passados no interior de Minas Gerais fossem se tornar tão intensos. Em poucas semanas, a protagonista se enturma com Joana, a dona do bar, Jacira e Tonho, os proprietários da pousada, Geraldo, o fofoqueiro mor da praça, e Renato, o cozinheiro do bar de Joana. Para uma mulher solitária de uma metrópole, fazer amizade tão sincera e rapidamente é um feito notável. Ao mesmo tempo, Luísa se sente mal na presença de Egídio, o dono do cartório, e do Cabo Torres, o policial. O que torna a situação mais delicada é a eclosão da pandemia da Covid-19 no final de março de 2020. A grave calamidade sanitária fecha municípios e inviabiliza deslocamentos pelo país. Encantada com a cidade mineira, com a casa herdada e com as amizades feitas, Luísa já não tem mais pressa de ir embora e voltar para a estrada. Ela quer descobrir todos os segredos que insistem em desafiá-la. Guiada pela curiosidade e pela intuição, a paulistana aprofunda as investigações sobre o passado da bisavó e as imprecisões do cemitério local. Li “O Túmulo da Desconhecida” em duas sessões que totalizaram aproximadamente três horas. Comecei a leitura ao embarcar no Buquebus em Buenos Aires, no porto fluvial de Porto Madero, e a concluí quando estava chegando de ônibus à Montevideu. Só não devorei esta obra em uma única batida porque precisei sair do ferry em Colônia do Sacramento e pegar o ônibus que seguiria para a capital uruguaia. Se não fosse esse vai-e-vem burocrático, acho que teria ido da capa à contracapa de uma vez só. O livro possui 186 páginas e está dividida em 16 capítulos, sendo introdução, 14 capítulos numerados e epílogo. Há também o prefácio de Samantha Magalhães. Por sua extensão, este título de Janete Helena pode ser classificado tanto como um romance (narrativa longa) quanto como uma novela (narrativa mediana). É aquela velha dúvida: ele seria um romance breve ou uma novela estendida?! Como a autora e a editora o chamaram de romance, quem sou eu para falar algo diferente, né? Para começo de análise, é preciso dizer que “O Túmulo da Desconhecida” é uma obra deliciosa. Seu texto é elegante e a trama é bastante envolvente. Considerei essa publicação ótima para a sessão de leitura noturna, como companhia literária numa viagem rápida e para a diversão ficcional num final de semana de chuva e frio. Curiosamente, essas três situações foram os motivos das minhas leituras – a prévia de checagem em janeiro, a principal em abril e a releitura em julho. Cada vez mais aprecio livros que entregam tudo de maneira rápida e ágil sem enrolação nem frescura. Juro que fiquei com gosto de quero mais, principalmente na viagem para o Uruguai. Meu pensamento naquele momento foi: “que pena que não tenho outro romance com essas características e dessa autora na minha mochila para o restante da estrada!”. A estrutura narrativa de “O Túmulo da Desconhecida” é convencional e adequada. Escrevo isso como um elogio à Janete Helena. No meu trabalho de crítico literário e de editor de ficção, encontro uma enorme quantidade de autores iniciantes que tentam reinventar a roda da literatura e se perdem no meio do processo. Depois de desmontarem todas as peças dos romances, como se isso fosse genial, não sabem montá-lo. Aí o resultado é geralmente assustador, quando não trágico. Ainda bem que Janete teve a maturidade e a competência de impactar positivamente os leitores com um romance que não procurou inovações estéticas. Quando se tem uma história forte em mãos, ótimas personagens, um bom conflito, uma belíssima ambientação e, claro, o dom da narrativa, por que não os apresentar no formato padrão, hein? Foi o que a autora mineira fez com enorme brilhantismo. Por isso, a sensação é de que todas as partes de “O Túmulo da Desconhecida” estão no seu devido lugar. Repito: isso é algo que parece fácil de fazer na teoria, mas que na prática não é tão simples de ser executado. Tente você escrever um livro de 200 páginas para sentir o quão difícil é organizá-lo! Por ser um romance de estreia, seria natural encontrar aqui e ali alguns equívocos de ordem narrativa ou mesmo de estrutura. Porém, Janete Helena tira de letra o desafio da produção ficcional e entrega excelentes cenas, suspense na medida certa e emoção do início ao fim. Confesso que fiquei fã do seu estilo literário. O que mais gostei em “O Túmulo da Desconhecida” foi a variedade de gêneros literários abordados. Essa publicação é, ao mesmo tempo, um romance policial , um drama familiar , um suspense pandêmico , uma comédia romântica , uma narrativa histórica , um thriller de terror e um mistério com tintas contemporâneas . Como diriam os novinhos: tudo junto e misturado! Adorei essa mescla estilística. Indubitavelmente, o enredo fica ainda mais saboroso com esse mix de ingredientes. Por qualquer perspectiva que vejamos este livro (eu o definiria como um thriller histórico com generosas doses de comédia romântica), temos uma ótima experiência literária. Falando apenas dos elementos da narrativa ficcional , adorei principalmente a ambientação e a construção das personagens . Sobre a ambientação especificamente, ela está impecável. O clima de mistério, o choque cultural, a desconfiança e o incômodo da moça da cidade grande que vai para o interior de Minas são contagiantes da primeira à última página. É válido notar que a sensação de mal-estar é mútua: tanto de Luísa com os olhares dos moradores do povoado interiorano quanto dos habitantes locais em relação à postura e ao comportamento empoderado da forasteira. Como vivi mais de um ano numa pequena cidade de Minas Gerais (que saudades, meu Deus!), sei que isso acontece MESMO. Dos vários locais do Brasil em que morei, certamente os mineiros foram os mais desconfiados (quase escrevi ressabiados) com as intenções deste paulistano que por lá apareceu sem maiores explicações e sem pedir qualquer consentimento. Juro que, em várias cenas de “O Túmulo da Desconhecida”, me enxerguei na pele de Luísa. Essa parte da narrativa está extremamente verossímil e tocante. As cenas em que a protagonista é medida de cima a baixo pelos moradores curiosos me fizeram lembrar de quando passei (algumas vezes) por situações idênticas. Incrível como as páginas da ficção podem, nas mãos de autores habilidosos, imitar a vida real. De tão fidedigna que é Luísa, admito que pensei que Janete fosse uma escritora e jornalista paulistana que viveu efetivamente o que narra. A força da ambientação não está apenas na verossimilhança do cenário. A sensação, durante a leitura, é de estarmos mesmo fazendo a viagem com a personagem ficcional pelos recôncavos de Minas Gerais. Esse talvez seja o grande mérito do romance e o ponto mais difícil de ser obtido. Ao longo dos capítulos de “O Túmulo da Desconhecida”, vemos a paisagem, ouvimos os sons, sentimos os cheiros, provamos as comidas, apreciamos o sotaque, respiramos a atmosfera local, passamos frio da serra e assistimos ao conservadorismo do rincão do país. Ou seja, entramos de corpo e alma nesta trama. Falo sobre isso sem medo de parecer exagerado. Eu estava fisicamente em outro país (em alguns momentos, para ser mais preciso, estava na fronteira de duas nações vizinhas ao Brasil) e juro que me senti novamente na querida e inconfundível Minas. Incrível! Adorei também a construção das personagens do romance. Ao mesmo tempo em que são figuras alegóricas (a simpática proprietária da pousada, o policial mau, o cara interesseiro do cartório, o fofoqueiro da praça, a divertida dona do bar, o pinguço alegre, a forasteira emancipada etc.), as criações ficcionais de “O Túmulo da Desconhecida” têm várias particularidades bem acentuadas. Prova disso é que é (quase) impossível confundir as personagens durante a leitura. Uma vez que foi apresentado a elas, o leitor saberá exatamente quem é quem até o final do livro. Ainda nessa seara, outra questão que precisa ser elogiada é o uso dos apelidos e a ausência de sobrenomes das personagens na maior parte da trama. Esse recurso demonstra a informalidade e a proximidade do estilo de vida no interior de Minas. Juro que consegui visualizar na minha frente as principais figuras retratadas nesta obra. Elas são muito, muito reais, o que até nos faz pensar: “essa história é realmente verdadeira?!”; “essa trama aconteceu mesmo?”; e “essa gente foi inspirada em indivíduos de carne e osso?”. Acho que uma boa narrativa ficcional é justamente aquela que embaralha as linhas entre realidade e inventividade literária. Mais um ponto elogiável para o trabalho narrativo de Janete Helena. “O Túmulo da Desconhecida” tem ótimas cenas. É até difícil dizer quais são as melhores. Notamos a maturidade literária da autora mineira justamente nas escolhas do que encenar e do que sumarizar. Quando não se efetua boas escolhas nessa área, ou o romance se torna gigantesco e/ou ele fica com ritmo lento. Repare que não é o que acontece aqui. Temos uma narrativa ágil e um tamanho até econômico de páginas. Por isso a sensação de que ocorre muitas coisas nos capítulos. Eu, por exemplo, adorei o início. De maneira rápida, lúcida e bonita, a autora apresenta a protagonista, a viagem para Minas Gerais e o contexto da trama. Quando o leitor vê, já está envolvido com o enredo, conhecendo boa parte das personagens e ávido por saber o desfecho. Como estamos falando de um thriller, o texto precisa ser ágio e certeiro para prender a atenção do público. É exatamente o que ocorre nessa publicação. Não é só o início do romance que é muito bom. O final também é espetacular. Não por acaso, essas são as duas melhores partes de “O Túmulo da Desconhecida”. O desfecho é sensível e lógico. Para não dar o spoiler (não cometemos esse sacrilégio na coluna Livros – Crítica Literária nem nas demais seções do Bonas História s ), posso dizer que a brincadeira de misturar os diferentes planos literários (livro dentro do livro) foi uma excelente sacada (e foi muito bem executada). Gostei tanto desse recurso que achei que ele poderia ter sido mais explorado (conforme vou explicar mais à frente). Fazia tempo que não lia (e olha que leio bastante) uma história ficcional ambientada no período da pandemia da Covid-19. Por mais que tenhamos vivido há pouquíssimo tempo a crise de saúde pública mais grave do último século, esse período deixou de ser abordado na literatura comercial. Não sei o motivo desse silêncio. O que posso afirmar é que Janete Helena fez muito bem ao usá-lo como contexto de sua trama. Se o enredo já tinha elementos de suspense e terror suficientes para agradar aos leitores mais exigentes, a pitada de drama extra trazida pela pandemia do novo coronavírus potencializou ainda mais o conflito do romance. Por falar em Covidão, outro elemento curioso é que as personagens centrais da trama propagam a importância do distanciamento social (para prevenir o contágio do vírus, claro), mas adoram fazer encontros desnecessários no meio da pandemia. Chega a ser hilária essa contradição entre discurso e prática. Se bem que o livro é muito convincente ao explicar que é baixo o risco da maior proximidade entre as pessoas – a cidadezinha não tinha casos de Covid e se tornou uma ilha sanitária. Por isso, achei esse detalhe do enredo mais uma contradição das próprias personagens (algo perfeitamente real: atire a primeira pedra quem nunca...) do que algum problema mais grave da trama. É a cara do Brasil e dos mineiros do interior essa avidez por se encontrar e prosear, seja no meio de uma pandemia, seja no meio de uma guerra nuclear. Por mais prazerosa que seja a leitura de “O Túmulo da Desconhecida”, preciso reconhecer que o livro possui alguns pontos a melhorar. Ainda bem que não é nada que prejudique a qualidade geral da obra. Mesmo assim, são aspectos que os leitores mais atentos irão notar e que eu não poderia deixar de comentar neste post da coluna Livros – Crítica Literária . Em relação aos aspectos que poderiam ter sido mais bem trabalhados, começo relatando que constatei alguns erros de foco narrativo . O narrador em terceira pessoa é colado à protagonista. Assim, ele tem acesso aos pensamentos, sentimentos e história de vida de Luísa. Até aí beleza – não há problema nenhum nessa característica. Contudo, ele também acaba acessando pensamentos e sentimentos de outras personagens, inclusive de alguns coadjuvantes. E o que é pior, por vezes, o narrador abandona a protagonista para seguir outras pessoas em cena. Confesso que achei isso um tanto esquisito. Para uma leitura recreativa, obviamente, não tem problema nenhum o maior alcance da interferência e a extensão da ação do narrador. Entretanto, pela perspectiva da Teoria Literária , trata-se de um erro crasso (ou, no melhor dos casos, uma escorregadinha perigosa) de foco narrativo . O conflito é forte e interessante. Isso é inegável. Só achei que o mistério, a essência de um bom thriller, demorou um pouco para aparecer nas páginas de “O Túmulo da Desconhecida”. Por exemplo, o jazigo misterioso que dá origem ao título do romance só surge quando percorremos mais de um terço da obra – tempo excessivo em uma época com leitores tão ansiosos e imediatistas. Acredito que usando algumas técnicas mais sagazes da ficção literária, a autora poderia ter tornado o começo da obra ainda mais dinâmico e instigante. Do jeito que está, os capítulos de abertura priorizam a sumarização à encenação e a apresentação da protagonista ao conflito. A inversão da lógica narrativa nessa etapa (mais encenação e conflito e menos sumarização e apresentação didática) potencializariam o suspense já no pontapé inicial da trama. Se bem que é complicado falar de qualquer tipo de mudança na parte de abertura deste livro. Gostei tanto dele! Por isso, pode parecer até meio amalucado esse debate que estou propondo. Apesar de o conflito demorar para surgir, ainda assim a leitura me prendeu bastante. É engraçado comentar essa contradição do meu ponto de vista. Não foi necessário atirar o drama principal de Luísa logo de cara para que o enredo de “O Túmulo da Desconhecida” se tornasse atraente e convidativo. Pelo contrário. Somos envolvidos pela atmosfera e pela história de outra maneira. Se essa foi a intenção de Janete, reconheço que os primeiros capítulos estão impecáveis e não está mais aqui quem palpitou diferente. O que não dá para relativizarmos são os errinhos de lógica narrativa que aparecem aqui e ali no romance. Talvez o mais sensível seja o vacilo do ordenamento das cartas da bisavó de Luísa. A narrativa informa que a correspondência de Rosária está organizada cronologicamente e é dessa maneira que a protagonista as lê. Contudo, esse material é apresentado de maneira aleatória aos leitores do romance. Como foi possível essa contradição temporal? Juro que não entendi. Repare que não é um problema que estrague a experiência literária. É mais um detalhe que causa estranhamento nas almas mais observadoras. Pode parecer presunção minha (sou um paulistano da gema que mora na Argentina há um ano) questionar o discurso de “O Túmulo da Desconhecida” (feito por uma autora mineiríssima), mas achei as falas das personagens com pouca mineiridade. É delicado tratar dessa questão pois sempre me encantei com as particularidades do linguajar de Minas Gerais (principalmente do interior). Inclusive, continuo usando diariamente algumas expressões típicas desse pedacinho do Brasil: “bão”, “trem”, “não é coisa de Deus”, “tô besta”, “logo ali” e “nó/nú”. Não é preciso dizer o quão desesperador deve ser essa combinação idiomática para meus amigos argentinos (beso, Paola!). Vejo que eles não entendem ABSOLUTAMENTE NADA do que digo nessas horas! Sim, senhoras e senhores, tasco normalmente essas expressões no meio das conversas em castellano rioplatense – uma espécie de “mineiñol”, que só eu acho que faz sentido. É bom destacar que os mineiros têm um jeito próprio de se expressar que é quase uma marca cultural. Quando morava em Minas, adorava prosear com quem tinha o sotaque mais carregado e o vocabulário local na ponta da língua – e olha que eu nunca fui muito chegado em jogar conversa fora. Porém, ao ler o romance de Janete Helena, não encontrei essa riqueza linguística nos diálogos. Há pouquíssimas expressões da oralidade do Estado em “O Túmulo da Desconhecida”. Talvez a única personagem que puxasse mais o mineirês tenha sido Tonho, o marido da proprietária da pousada onde Luísa se hospedou. Toda vez que ele abre a boca é um espetáculo. Explorar a mineiridade no discurso , sem cair na caricatura ou no exagero, tornaria o livro ainda mais fidedigno e expressivo. Da maneira como está, a sensação é que as personagens criadas por Janete Helena poderiam ser de qualquer parte do país. A mineiridade acabou expressa em outros elementos da narrativa. Aí não há o que contestar. Ainda tratando dos diálogos , acho que eles estão em um nível um pouquinho abaixo da narração (essa sim impecável!). Em alguns momentos, senti que personagens diferentes diziam as mesmas coisas com os mesmos termos e expressões, algo que não fica legal em uma trama ficcional com este nível de qualidade. As pessoas até podem ter opiniões e pontos de vista semelhantes, mas certamente os expressariam de maneiras distintas. Como todo bom thriller dramático, “O Túmulo da Desconhecida” reserva muitas surpresas. Impossível não gostarmos do seu tom de mistério. É legal notar que são vários os segredos que são revelados apenas nos últimos capítulos, o que potencializa a experiência de leitura. O problema, na minha visão, é que algumas revelações são um tanto óbvias. Confesso que matei facilmente algumas charadas propostas pela obra, principalmente as iniciais. Em alguns casos, tratou-se da primeira hipótese que cogitei – algo que raramente acontece nos melhores suspenses, pois nunca acerto os palpites. Para minha perplexidade, as personagens do livro não pensaram igual a mim e tascaram frases como: “nunca pensamos nisso!”, “que surpreendente!” e “como foi possível isso acontecer?!”. Tive vontade de perguntar para elas: “É sério mesmo que vocês não consideraram essa possibilidade?! Ela é tão óbvia!”. Para ser justo em meu comentário, preciso dizer que as últimas revelações do romance são surpreendentes – aí não passei perto de adivinhá-las. O elemento que mais me incomodou no livro de Janete Helena foi disparado a postura pouco verossímil de Luísa em relação às cartas da bisavó. Sobre esse assunto, foram vários os inconformismos. Em primeiro lugar, jamais alguém com uma postura investigativa (seja jornalística, histórica ou acadêmica) delegaria a leitura do material bruto para amigos e conhecidos. Por mais interessante que tenha sido para o romance o fato de Luísa compartilhar a leitura do material com a trupe mineira (são divertidas as sessões de leitura coletiva na nova casa da moça!), na realidade ela jamais terceirizaria essa atividade. Se a protagonista estava realmente curiosa para descobrir as origens familiares, ela leria TUDO! TUDINHO!!! Não faz o menor sentido alguém que nutri devoção por um conteúdo dividir a leitura do material com outras pessoas. É a mesma coisa de eu dizer: estava gostando tanto de tal romance que, quando saí para comprar pão na padaria (no caso, medialunas en la panadería ), deixei minha namorada lendo o livro no meu lugar. Não tem lógica! Além disso, não me pareceu que a quantidade de cartas exigiria tantas horas, dias e semanas de análise, como mostrado na narrativa ficcional. E o que dizer, então, dos sustos e do pânico de Luísa com as descobertas do passado da família, hein? Achei a reação da moça (uma mulher cosmopolita, moderna, empoderada, madura e inteligente) um tanto exagerada e fora de contexto. Essa talvez seja a melhor definição do meu sentimento sobre esse assunto: a reação de Luísa é exagerada, infantil e, por isso mesmo, inverossímil. Como assim? Vejamos. Ela ficou várias semanas aflita para descobrir o conteúdo das cartas que faltavam do material coletado. Até aí tudo bem. Eu e os leitores também ficamos curiosos. O que ela faz quando realmente descobre o conteúdo misterioso que tinha desaparecido? Nada. Ela vai tomar um banho na cachoeira para relaxar ao invés de mergulhar na leitura do material. Ou prefere dormir porque está muito cansada. O quê? Impossível. Em condições normais de temperatura e pressão, a protagonista devoraria o material recebido sem respirar. E quando, enfim, poderia ler as cartas uma vez que voltou para casa e está descansada, Luísa não lê. Quem lê são os amigos e o namorado. Não, não e não! Isso é inverossímil, senhoras e senhores. Não tem o menor cabimento. Admito que esse foi o principal vacilo de “O Túmulo da Desconhecida”, algo que me decepcionou profundamente. Uma autora que construiu uma narrativa tão correta e interessante até o clímax poderia muito bem ter encontrado outras soluções ficcionais para alongar o suspense no desfecho da obra, né? Achei que faltou um melhor trabalho de edição nessa parte final. Mesmo tendo ficado perplexo com essa escolha narrativa, ainda continuo batendo na tecla: o desfecho é ótimo. Se não é perfeito, ainda assim é excelente. Por fim, tenho mais um ponto a comentar. Não se trata, provavelmente, de um ponto negativo da obra e sim algo que vejo que poderia ter sido feito de outra maneira. As cartas que Rosária enviou para Gervásio me parecem tão interessantes, mas tão interessantes que mereciam um maior destaque na narrativa de “O Túmulo da Desconhecida”. Ou seja, ao invés de apenas acompanharmos as reações das personagens contemporâneas à leitura do material e ver algumas poucas linhas das missivas (um ou outro trecho são realmente mostrados aos leitores), acredito que poderíamos ter acessado diretamente as partes mais significativas da correspondência. Assim, veríamos juntamente com Luísa e seus amigos as angústias e as emoções do texto investigado (e talvez concordássemos com suas reações mais passionais). Para completar, o romance ganharia um novo componente de intertextualidade literária: outro livro dentro do livro (o que conversaria perfeitamente com o desfecho proposto pela autora). Achei essa uma oportunidade perdida ou, no menor dos casos, uma excelente parte dramática não tão bem aproveitada pela história. Como falei, mesmo com esses aspectos a melhorar (a maioria deles, reconheço, é de pontos subjetivos e menores), é inegável que “O Túmulo da Desconhecida” seja um livrão e proporcione uma ótima experiência literária para quem gosta de boas histórias. Mais legal do que o enredo e a trama em si foi ter tido a oportunidade de retornar, mesmo que por três horinhas, para o inesquecível interior de Minas Gerais. Por isso, o meu muito obrigado a Janete Helena pela viagem agradabilíssima pelo cantinho do Brasil que mais amo. Gostei tanto deste romance que, quando a autora mineira lançar seus próximos romances, algo que tenho certeza de que irá acontecer em breve (do contrário, seria um desperdício de talento), não vou mais ficar enrolando para lê-los. Afinal, que vergonha falar disso na coluna Livros – Crítica Literária , minha fila de leituras tem alguns autores com certos privilégios. Eles passam na frente dos demais sem qualquer cerimônia. A partir de agora, saibam que Janete Helena está nesse hall de leituras prioritárias. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
- Músicas: Eu Te Amo - Clássico de Chico Buarque e Tom Jobim completa 40 anos
Quem foi o maior músico da história do Brasil?! A resposta para essa difícil questão não varia muito. Há quem veja Tom Jobim , o principal nome da Bossa Nova, como a figura mais importante da nossa música. E há quem aponte Chico Buarque , referência da MPB, como a maior estrela musical brasileira de todos os tempos. Confesso que não tenho uma opinião consolidada sobre esse assunto. Ainda fico em cima do muro (e dele não saio!). Prefiro enxergar essa disputa como um empate técnico. No alto do Olimpo da música nacional, não existe apenas um Deus e sim uma dupla divina. Encaro dessa maneira para não tomar partido definitivo por um deles. Agora imagine a união desses dois músicos de alto calibre. Parece impossível, né? Saiba, então, que isso aconteceu algumas vezes. Chico Buarque e Tom Jobim foram parceiros de algumas canções inesquecíveis. Uma das principais é “Eu Te Amo” . Lançada em 1980, esta música romântica expunha os dramas de um amante desesperado na hora do término da relação. Como seguir em frente após uma tórrida paixão, hein? Confira, a seguir, sua letra: Eu Te Amo (1980) - Chico Buarque e Tom Jobim Ah, se já perdemos a noção da hora Se juntos já jogamos tudo fora Me conta agora como hei de partir Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios Rompi com o mundo, queimei meus navios Me diz pra onde é que ainda posso ir Se nós, nas travessuras das noites eternas Já confundimos tanto as nossas pernas Diz com que pernas eu devo seguir Se entornaste a nossa sorte pelo chão Se na bagunça do teu coração Meu sangue errou de veia e se perdeu Como, se na desordem do armário embutido Meu paletó enlaça o teu vestido E o meu sapato ainda pisa no teu Como, se nos amamos feito dois pagãos Teus seios ainda estão nas minhas mãos Me explica com que cara eu vou sair Não, acho que estás te fazendo de tonta Te dei meus olhos pra tomares conta Agora conta como hei de partir? Assista, a seguir, à mais famosa execução desta canção. Em 1984, em um show transmitido pela extinta TV Manchete, Chico Buarque e Tom Jobim subiram juntos ao palco. Buarque dividiu a interpretação de “Eu Te Amo” com Telma Costa, cantora mineira que viveu seu auge artístico entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980. No piano, Tom Jobim reinou soberano. Veja: “Eu Te Amo” foi composto especialmente para a trilha musical do filme homônimo de Arnaldo Jabor. O longa-metragem foi lançado em 1981 e teve como uma de suas grandes atrações a canção criada por Chico Buarque e Tom Jobim. O roteiro cinematográfico apresentava a união de um industrial falido e recém-separado com uma mulher traumatizada por relacionamentos abusivos do passado. Ambos queriam ficar juntos, mas temiam as consequências de mais uma paixão arrebatadora. O elenco do filme teve atores de primeiro nível do cenário nacional: Paulo César Peréio, Sônia Braga, Regina Casé, Vera Fischer e Tarcísio Meira. Chico Buarque lançou a canção “Eu Te Amo” no álbum “Vida” (1980). Esse disco representou uma mudança importante em sua carreira. Depois de composições com forte carga política, nos quais as letras de protesto e de denúncias sociais predominaram durante a década de 1970, Buarque retornou ao lirismo da primeira fase de sua trajetória musical. Assim, os encantamentos amorosos, as desilusões afetivas, as crises existenciais do coração, as paixões inconsequentes e as particularidades das uniões conjugais voltaram ao primeiro plano de seus enredos musicais. E nada melhor do que chamar Tom Jobim para ajudar na composição das desventuras amorosas, né? Além de “Eu Te Amo”, as faixas de “Vida” que escancaram essa retomada são “Bastidores”, “Deixe a Menina”, “Já Passou”, “Qualquer Canção”, “Fantasia” e “De Todas as Maneiras”. É verdade que neste álbum ainda havia resquícios da fase anterior. As incríveis “Morena de Angola”, “Bye Bye Brasil” (outra canção feita sob medida para a trilha sonora de um filme) e “Não Sonho Mais” sinalizam para uma pegada crítica e de cunho social. Por isso, o disco seguinte de Chico Buarque, “Almanaque”, de 1981, representa a consolidação da retomada lírica. A diferença do lirismo de Chico Buarque da década de 1960 para o dos anos de 1980 está na acidez das letras deste segundo momento. Se no início da carreira o compositor carioca usava-se da inocência e da pureza dos relacionamentos amorosos como mote musical, depois ele passou a explorar a ironia, as contradições afetivas, as brigas conjugais e o erotismo mais acentuado para escancarar os traumas de paixões frustradas. Nesse sentido, “Eu Te Amo” é um ótimo exemplo dessa marca estilística. Enquanto seu título indica algo (união amorosa), o restante da canção vai para o lado oposto (desunião amorosa). Os versos “Como, se nos amamos feito dois pagãos/Teus seios ainda estão nas minhas mãos/Me explica com que cara eu vou sair/Não, acho que estás te fazendo de tonta/Te dei meus olhos pra tomares conta/ Agora conta como hei de partir?” e “Se nós, nas travessuras das noites eternas/Já confundimos tanto as nossas pernas/Diz com que pernas eu devo seguir/Se entornaste a nossa sorte pelo chão/Se na bagunça do teu coração/Meu sangue errou de veia e se perdeu” são de um humor negro ímpar. Minha parte favorita desta letra é o seu início: “Ah, se já perdemos a noção da hora/Se juntos já jogamos tudo fora/Me conta agora como hei de partir”. Simplesmente incrível! Se a letra de “Eu Te Amo” ficou à cargo de Chico Buarque, a melodia foi uma responsabilidade exclusiva de Tom Jobim. Nota-se, pelo piano e pelos arranjos da música, o estilo sereno, limpo e forte (passional) do mestre da Bossa Nova. Em 1980, Tom, que já entrava na fase final de sua carreira, também tinha lançado um novo disco. “Terra Brasilis” foi seu antepenúltimo álbum. Neste disco duplo, ele traz duas outras parcerias com Chico Buarque: “Olha Maria” e “Sabiá”. Como é maravilhoso ouvir as criações dos dois maiores gênios musicais do Brasil. Agora dizer qual deles foi maior, me parece quase impossível. Neste Fla-Flu musical eu não entro não! Prefiro ouvir “Eu Te Amo”, que completa, em 2020, 40 anos de existência. Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas . E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook .
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em maio e junho de 2024
Confira os 112 principais títulos ficcionais e poéticos que chegaram às livrarias brasileiras no terceiro bimestre. Quando o Inverno chegar, eu quero ler junto a ti. Para aqueles que têm a mania de mudar os versos de Tim Maia, aviso que o Inverno começou oficialmente na semana retrasada. Isso é: para os moradores do hemisfério sul do planetinha azul. Acho importante fazer esse tipo de aviso porque muita gente não deve ter percebido a chegada da estação mais fria. Ainda mais no Brasil de 2024. Com exceção do pessoal da região Sul, alguém se lembra da última vez que precisou pegar um casaco no armário, hein? Ou que tremeu pra valer de friaca em uma voltinha pelas ruas numa noite qualquer? Hoje o céu está tão lindo, vai chuva. Meus amigos e familiares da cidade de São Paulo me informaram recentemente que há quase um ano não sabem o que é sentir frio. Da Primavera do ano passado ao Outono desse ano, eles só transpiram o bafo quente do eterno Verão do fim do mundo. Se o Sertão ainda não virou Mar, Sampa se aproxima de virar Cuiabá (pelo menos no que se refere ao clima). Será que as previsões sagazes do grande Ignácio de Loyola Brandão em “Não Verás País Nenhum” (Global) vão acontecer antes mesmo do que os mais pessimistas poderiam considerar?! Ai, ai, ai. Trago este livro, para te dar. Por isso, a chegada do Inverno traz alguma esperança (ou seria alento momentâneo?). E, claro, boas perspectivas para os amantes da literatura. Afinal, uma das alegrias de quando as temperaturas despencam é ficar em casa embaixo das cobertas lendo uma boa obra literária. Para a galerinha que, como eu, não vê a hora desses dias (e noites) chegarem, preparei uma lista com as principais publicações das áreas da ficção e da poesia que foram lançadas nas livrarias brasileiras em maio e junho de 2024. Porque você está na coluna Mercado Editorial e não no caderno da previsão do tempo do jornal local. Como reza a cartilha do Bonas Histórias, a proposta aqui é indicar as boas opções que os leitores nacionais têm à disposição, seja na literatura brasileira, seja na literatura internacional. Porque é literatura, te amo, te amo, meu amor. Antes de apresentar os 112 novos livros que considerei mais interessantes das prateleiras dos romances, novelas, coletâneas de contos, crônicas e ensaios, títulos infantojuvenis, obras infantis e antologias poéticas neste terceiro bimestre, quero fazer um recorte ainda mais profundo. De bate-pronto (como se o planeta estivesse para acabar e não nos sobrasse muito tempo), já lanço mão dos seis livros (três nacionais e três gringos) que eu leria nos primeiros dias de Inverno. Para falar a verdade, alguns deles eu não fiquei só na intenção e acabei lendo efetivamente. Como estou morando em Buenos Aires, a sensação é que o Inverno portenho começou em março. Tão logo o Carnaval acabou, tenho passado um frio danado. Daí a sanha pelos cobertores e pelas leituras nos últimos meses. Pode o Outono voltar, eu quero estar lendo junto a ti. Da literatura brasileira, meus destaques são: “Carlabê” (Companhia das Letras), thriller de Isabela Noronha; “Melhor Não Contar” (Todavia), drama psicológico de Tatiana Salem Levy; e “Chá das 5 na Terra do Ouro” (Sete Autores), novela histórica de Roberto Marcio. Essa trinca de novas publicações é capaz de agradar até os leitores mais exigentes. Começamos pelo romance que mais me impressionou positivamente: “Carlabê”. Para mim, essa é a melhor publicação do bimestre passado. Depois de nove anos do lançamento de “Resta Um” (Companhia das Letras), sua magistral estreia nas narrativas longas, Isabela Noronha apresenta mais um thriller investigativo impecável. A diferença é que Saramara, a protagonista de “Carlabê”, procura desvendar o sumiço de uma amiga (e não o sequestro de uma criança como na obra anterior). O que não muda é a qualidade primorosa do texto da escritora mineira radicada há anos na capital paulista. A trama ao estilo quebra-cabeça, o suspense que deixa o coração na boca e a ambientação aterrorizante de uma São Paulo extremamente inóspita seguem como as principais marcas autorais da romancista. Vamos ser sinceros: Isabela até pode demorar (mais do que gostaríamos) para trazer novidades aos leitores. Porém, quando as exibe, somos atingidos pelo sentimento de “pare o mundo que precisamos lê-la urgentemente”. Além de um portfólio reluzente (pequeno ainda, mas brilhante), adoro o seu estilo narrativo – cada vez mais consolidado e impactante no campo do thriller nacional. Acredite em minhas palavras: “Carlabê” consegue ser melhor do que “Resta Um”. Isso é possível, senhoras e senhores?! Não é apenas possível como está aí para qualquer um comprovar com os próprios olhos. Logo depois no meu ranking pessoal das melhores obras ficcionais de maio e junho de 2024, vem outro romance de uma autora brasileira. Em “Melhor Não Contar”, Tatiana Salem Levy mistura ficção e realidade em um drama psicológico de tons extremamente ácidos. A narradora-protagonista relata suas desventuras com os homens desde a infância até a vida adulta. Em qualquer fase, é vítima da violência física ou psicológica daqueles que acreditava confiar. Seja o padrasto à beira da piscina quando ela tinha 10 anos, seja o marido quando já é adulta e vive no exterior, eles impõem suas vontades amparados pela desigualdade de gêneros e pelo desprezo pelos sentimentos alheios. Além do retrato angustiante da realidade feminina, o que por si só já vale a leitura deste romance, Tatiana Salem Levy ainda nos brinda com uma interessante discussão sobre a história do ofício da produção literária. Essa parte do livro tem um ar de Virginia Woolf em “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas). Afinal, existem diferenças entre as obras ficcionais produzidas por autores masculinos e por autoras femininas? De certa maneira, achei “Carlabê” e “Melhor Não Contar” leituras complementares. Os novos títulos de Isabela Noronha e Tatiana Salem Levy falam da mesmíssima temática, mas com linhas editoriais e estéticas narrativas diferentes. Se der, leia os dois romances em seguida. Falo por experiência própria: o impacto é ainda mais intenso. Outra grata novidade foi “Chá das 5 na Terra do Ouro”, a mais recente publicação de Roberto Marcio. Li essa novela no final de semana passado e fiquei encantado com a qualidade do texto e da trama. Na minha humilde opinião, essa é a melhor narrativa ficcional do escritor mineiro até aqui, fruto de um artista que chegou à maturidade no papel autoral. Se você já tinha gostado de “Deixe a Música Contar” (Sete Autores) e “Janelas Visitadas” (Sete Autores), saiba que “Chá das 5 na Terra do Ouro” consegue suplantá-los facilmente. Diria até que, do portfólio de Roberto Marcio, meus títulos favoritos agora são essa novela e “Andante das Gerais” (Páginas Editora), que não é uma ficção. Em “Chá das 5 na Terra do Ouro”, acompanhamos o relato de Diana, uma cuidadora de idosos que é apaixonada por literatura inglesa e pela história de sua cidade, Nova Lima. Ela escreve uma longa carta para uma jornalista portuguesa que tem um programa sobre literatura na terra de Camões. Nesse texto, Diana fala de sua trajetória de vida, do passado do seu município em Minas Gerais, da história da família inglesa do seu patrão e, claro, de muita, muita literatura. O que faz dessa obra uma pequena joia ficcional é a forte intertextualidade literária, a pegada de road story (que é a cara do trabalho de Roberto Marcio), o texto refinadíssimo e as personagens que fogem do senso comum. Adorei! Da literatura internacional, apreciei: “Noites de Peste” (Companhia das Letras), romance de Orhan Pamuk; “O Bebedor de Vinho de Palma e Seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos” (Carambaia), novela clássica de Amos Tutuola; e “Ilhas dos Deuses” (Rocco), fantasia infantojuvenil de Amie Kaufman. Depois que analisei Orhan Pamuk no Desafio Literário, tive a impressão de que não teria muito mais o que falar do principal escritor turco da atualidade. Contudo, fui atropelado pelos fatos. Após o Nobel de Literatura, o portfólio ficcional de Pamuk só evoluiu em termos qualitativos. Não é errado pensarmos que seus melhores romances são justamente os mais recentes. “Uma Sensação Estranha” (Companhia das Letras”, de 2014, e “A Mulher Ruiva” (Companhia das Letras), de 2016, são excelentes. Esse progresso fica ainda mais evidente em “Noites de Peste”, publicado originalmente em 2021. Para ser franco com os leitores do Bonas Histórias, não achei esse o melhor título do autor. Porém, ele é muito, muito bom. Nesse romance histórico volumoso (são quase 700 páginas), conhecemos o drama de uma ilha fictícia do Império Otomano no comecinho do século XX. O lugar é atingido por uma grave epidemia. Para resolver o problema, o Sultão envia o principal químico do Reino. Entretanto, mal chega à ilha, ele é misteriosamente assassinado. Para investigar o crime, o Sultão manda a princesa e o marido dela. Note que esses são elementos peculiares da literatura de Orhan Pamuk – até parece o enredo de “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras). Apesar dos ingredientes semelhantes, o prato servido é distinto e delicioso. São poucos os escritores contemporâneos que constroem uma trama histórica misturando tantos elementos culturais, religiosos e políticos como Pamuk. Ele e seus livros são sensacionais!!! Para não me acusarem de ter esquecido dos clássicos neste post da coluna Mercado Editorial, a quinta sugestão que deixo (a segunda da literatura internacional) é “O Bebedor de Vinho de Palma e Seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos”. Publicado em 1952 pelo nigeriano Amos Tutuola, esse romance, que enfim foi traduzido para o português no Brasil, é considerado um dos melhores títulos da literatura fantástica de todos os tempos e um dos cânones da ficção africana. Misturando magia, psicodelia, viagem pelo continente africano, surrealismo e natureza exótica, “O Bebedor de Vinho de Palma e Seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos” oferece uma experiência de leitura única. Por fim, terminamos essa rápida viagem pela ficção mundial com uma passadinha pela Oceania. Entre os livros infantojuvenis que os brasileiros receberam na última leva de publicações, aquele que mais me chamou a atenção foi “Ilhas dos Deuses”, fantasia histórica da australiana Amie Kaufman. Fiquei maravilhado com essa obra e com sua proposta literária. Em muitos aspectos, Kaufman me lembrou sua conterrânea Colleen McCullough, autora de “Pássaros Feridos” (Bertrand Brasil). Para mim, “Ilhas dos Deuses” é uma espécie de versão adolescente e mágica da série “Senhores de Roma” (Bertrand Brasil), saga impecável de McCullough (que li há alguns anos e sempre tenho vontade de comentar no Bonas Histórias). Depois desse apanhado geral pelas novidades das livrarias, vamos para a tão esperada lista completa com os lançamentos do mercado editorial brasileiro em maio e junho de 2024: FICÇÃO BRASILEIRA: “Carlabê” (Companhia das Letras) – Isabela Noronha – Romance – 200 páginas. “Melhor Não Contar” (Todavia) – Tatiana Salem Levy – Romance – 224 páginas. “Sopro dos Deuses” (Intrínseca) – Fábio Kabral – Romance – 272 páginas. “Vento Vazio” (Companhia das Letras) – Marcela Dantés – Romance – 224 páginas. “Soroca” (Hecatombe) – Angela Marsiaj – Romance – 320 páginas. “Três Camadas de Noite” (Fósforo) – Vanessa Barbara – Romance – 216 páginas. “Interseção” (Verus) – Vanessa Reis – Romance – 294 páginas. “O Outono dos Ipês-rosas” (CEPE) – Luis S. Krausz – Romance – 428 páginas. “Amor em 12 Meses Sem Juros” (Valentina) – Juliana Reis – Romance – 232 páginas. “O que Sobra do Fim” (Patuá) – Gabrielle da Mota – Romance. “Chá das 5 na Terra do Ouro” (Sete Autores) – Roberto Marcio – Novela – 160 páginas. “Ressuscitar Mamutes” (Autêntica Contemporânea) – Silvana Tavano – Novela – 120 páginas. “Jenipapo Western” (Todavia) – Tito Leite – Novela – 152 páginas. “Pelos Versos dos Nossos Corações” (Globo Clube) – Severino Rodrigues – Novela – 120 páginas. “Fora da Rota” (Todavia) – Evelyn Blaut – Novela – 112 páginas. “Tantra e a Arte de Cortar Cebolas” (Editora 34) – Iara Bidernan – Coletânea de Contos – 120 páginas. “Tá Todo Mundo Tentando” (Companhia Editora Nacional) – Gaía Passarelli – Coletânea de Crônicas – 184 páginas. “Canção dos Ossos” (Galera) – Giu Domingues – Infantojuvenil – 448 páginas. “O Segredo das Larvas” (Galera) – Stefano Volp – Infantojuvenil – 406 páginas. “O Legado das Águas” (Alt) – Sofia Soter – Infantojuvenil – 384 páginas. “Em Sintonia” (Seguinte) – Jéssica Anitelli – Infantojuvenil – 312 páginas. “O Porão” (Record) – Vitor Soares & Giovanni Arceno – Infantojuvenil – 192 páginas. “Vote Nelas” (Escarlate) – Marisa Diniz, Renata Miwa, Carla Mayumi e Pedro Markun – Infantojuvenil – 152 páginas. “Eram Muitos Leões” (CEPE) – Tom S. Figueiredo – Infantojuvenil – 120 páginas. “Um Rio que Canta e Encanta – Fala Rio!” (Autêntica) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantil – 64 páginas. “Agitando a Galera – Juntos Somos Mais Forte” (Autêntica) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantil – 64 páginas. “Nas Águas do Tempo – Viajando na Nossa História” (Autêntica) – Silvana Gontijo (autora) e Mirella Spinelli (ilustradora) – Infantil – 64 páginas. “O Astronauta” (Pequena Zahar) – Carol Fedatto (autora) e Amma (ilustradora) – Infantil – 48 páginas. “Um Lugar para Coraline” (Rocquinho) – Alexandre Rampazo – Infantil – 40 páginas. “Você Não Vai Acreditar no que Eu Vi” (Brinque-Book) – Fran Matsumoto – Infantil – 40 páginas. “Kuján e os Meninos Sabidos” (Companhia das Letrinhas) – Ailton Krenak (autor) e Rita Carelli (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “Bento Vento Tempo” (Companhia das Letrinhas) – Stênio Gardel (autor) e Nelson Cruz (ilustrador) – Infantil – 40 páginas. “Mãos” (Companhia das Letrinhas) – Kiusam de Oliveira (autor) e Natália Gregorini (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “O Quintal das Irmãs” (Pequena Zahar) – Waldete Tristão (autor) e Rodrigo Andrade (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “Um Dia de Vento” (Globinho) – Milton Célio de Oliveira Filho (autor), Theo de Oliveira (autor) e Thiago Buzzy (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “O Jeguinho Tenório” (Companhia das Letras) – Vienno – Infantil – 32 páginas. “O Baiacu que Adorava Fantasias” (Brinque-Book) – Banda Fera Neném (autores) e Rômolo D´Hipólito (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “O Cavaleiro da Lua” (Reco-reco) – Luiz Antonio Simas (autor) e Camilo Martins (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. “Coelhos Aventureiros em: Inverno na Caverna do Lobo Cinzento” (Appris) – Priscila Correia (autora) e Junior Marques (ilustrador) – Infantil – 28 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Noites de Peste” (Companhia das Letras) – Orhan Pamuk (Turquia) – Romance – 672 páginas. “Tese Sobre Uma Domesticação” (Companhia das Letras) – Camila Sosa Villada (Argentina) – Romance – 224 páginas. “Velar por Ela” (Vestígio) – Jean-Baptiste Andrea (França) – Romance – 416 páginas. “O Templo dos Meus Familiares” (José Olympio) – Alice Walker (Estados Unidos) – Romance – 518 páginas. “O Fim do Mundo e o Impiedoso País das Maravilhas” (Alfaguara) – Haruki Murakami (Japão) – Romance – 488 páginas. “Golpe de Misericórdia” (Companhia das Letras) – Dennis Lehane (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Fantástica Farmácia Literária de Monsieur Perdu” (Record) – Nina George (Alemanha) – Romance – 308 páginas. “Filho Nativo” (Companhia das Letras) – Richard Wright (Estados Unidos) – Romance – 504 páginas. “Os Maridos” (Intrínseca) – Holly Gramazio (Austrália) – Romance – 352 páginas. “Uma Noite na Livraria Morisaki” (Bertrand Brasil) – Satoshi Yagisawa (Japão) – Romance – 208 páginas. “Magia das Marés – Volume 1 da Série Deuses Afogados” (Intrínseca) – Pascale Lacelle (Canadá) – Romance – 480 páginas. “Ruídos de Outro Mundo” (Rocco) – Christopher Paolini (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Fim de Caso” (Biblioteca Azul) – Graham Greene (Inglaterra) – Romance – 280 páginas. “Canção das Chuvas Eternas” (Gutenberg) – E. J. Mellow (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Uma Hora de Fervor” (Companhia das Letras) – Muriel Barbery (França) – Romance – 224 páginas. “As Árvores” (Todavia) – Percival Everett (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Extraordinária Livraria de York” (Bertrand Brasil) – Stephanie Butland (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Enfermeira – Volume 13 da Série Rizzoli & Isles” (Record) – Tess Gerritsen (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Ponto Final” (Arqueiro) – A. J. Finn (Estados Unidos) – Romance – 480 páginas. “Os Sussurros” (Companhia das Letras) – Ashley Audrain (Canadá) – Romance – 252 páginas. “O Comprometido” (Alfaguara) – Viet Thanh Nguyen (Vietnã/Estados Unidos) – Romance – 360 páginas. “Shiang – Volume 2 da Série Império de Sal” (Record) – C. F. Iggulden (Inglaterra) – Romance – 322 páginas. “Não Sou a Filha Perfeita” (Intrínseca) – Erika L. Sánchez (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai” (Companhia das Letras) – Jenny Erpenbeck (Alemanha) – Romance – 368 páginas. “Dupla Tentação” (Gutenberg) – Tessa Dare (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Antes de Te Ver” (Verus) – Emily Houghton (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “As Quatro Vidas de Daiyu” (Verus) – Jenny Tinghui Zhang (China/Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Onde Repousam as Mentiras” (Editora Plataforma 21) – Faridah Àbíké-Íyímídé (Inglaterra) – Romance – 512 páginas. “Tom Lake” (Intrínseca) – Ann Patchett (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Família” (Autêntica Contemporânea) – Sara Mesa (Espanha) – Romance – 224 páginas. “Landon & Shay – Volume 2” (Record) – Brittainy Cherry (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Em Memória da Memória (WMF Martins Fontes) – Maria Stepánova (Rússia) – Romance – 520 páginas. “As Heroínas” (Arqueiro) – Kristian Hannah (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “O Bebedor de Vinho de Palma e Seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos” (Carambaia) – Amos Tutuola (Nigéria) – Novela – 144 páginas. “As Chaminés Tocam o Céu – Um Conto de Natal para Crianças Velhas” (Todavia) – Jean-Claude Grumberg (França) – Novela/conto – 72 páginas. “Literatura Infantil – Cartas ao Filho” (Companhia das Letras) – Alejandro Zambra (Chile) – Coletânea de contos e crônicas – 224 páginas. “Voando para Casa e Outras Histórias” (José Olympio) – Ralph Ellison (Estados Unidos) – Coletânea de contos – 240 páginas. “Mais Sombrio” (Suma) – Stephen King (Estados Unidos) – Coletânea de contos e crônicas – 528 páginas. “Quem Vai Te Ouvir Gritar” (Suma) – Jordan Peele (Estados Unidos; organizador) e John Joseph Adams (Estados Unidos; organizador) – Coletânea de contos e crônicas – 328 páginas. “Murdle – Volume 1” (Intrínseca) – G. T. Karber (Estados Unidos) – Coletânea de contos e desafios interativos – 328 páginas. “A Caminho de Macondo – Ficções 1950-1966” (Record) – Gabriel García Márquez (Colômbia) – Coletânea de novelas, contos, crônicas e ensaios – 476 páginas. “Herdeiro das Trevas – Volume 2 da Série Ascensão das Trevas” (Galera) – C. S. Pacat (Austrália) – Infantojuvenil – 490 páginas. “O Rei Aurora – Volume 2 da Série Artefatos de Ouranos” (Seguinte) – Nisha J. Tuli (Canadá) – Infantojuvenil – 456 páginas. “A Casa Marionne” (Livros de Alice) – J. Elle (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 440 páginas. “Uma Janela Sombria” (Alt) – Rachel Gillig (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 424 páginas. “Ilhas dos Deuses” (Rocco) – Amie Kaufman (Austrália) – Romance – 384 páginas. “Conversas na Madrugada” (Paralela) – Claire Daverley (Reino Unido) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Maame” (Paralela) – Jessica George (Inglaterra) – Infantojuvenil – 372 páginas. “Estrela da Sorte” (Harlequin) – Alexandria Bellefleur (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Clube da Leitura dos Corações Solitários” (Buzz) – Lucy Gilmore (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 358 páginas. “Minha Melhor Parte” (Alt) – Hannah Bonam-Young (Canadá) – Infantojuvenil – 352 páginas. “Lições sobre Afogamentos” (Galera) – Effy Sayre (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Os Caçadores do Coração Perdido” (Paralela) – Jo Segura (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Instinto Assassino – Volume 2 da Série Os Naturais” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 328 páginas. “O Primeiro Gato no Espaço e a Pizza (Quase) Impossível” (Baião) – Mac Barnett & Shawn Harris (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “No Calor do Momento” (Rocco) – Hannah Grace (Inglaterra) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Garota Tsunami” (Gutenberg) – Julian Sedgwick (Inglaterra; autor) e Chie Kutsuwada (Japão; ilustradora) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Morando com um Vampiro” (Intrínseca) – Jenna Levine (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Hora de Acordar – Volume 3 da Série Five Night at Freddy´s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawton, Andrea Waggener, Elley Cooper e Kelly Parra (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “Chegue Mais Perto – Volume 4 da Série Five Night at Freddy´s: Pavores de Fazbear” (Intrínseca) – Scott Cawton, Andrea Waggener e Elley Cooper (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Queria que Fosse Você” (Alt) – Eva Des Lauriers (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Contos de Fadas Japoneses” (Baião) – Yei Theodora Ozaki (Inglaterra; autora) e Janaina Tokitaka (Brasil; ilustradora) – Infantojuvenil – 192 páginas. “Verão” (Companhia das Letrinhas) – Suzy Lee (Coreia do Sul) – Infantil – 140 páginas. “O Primeiro Passo” (Editora 34) – Bethanie Deeney Murguia (Estados Unidos) – Infantil – 36 páginas. “O Lenço de Cetim da Mamãe” (Companhia das Letrinhas) – Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria; autora) e Joelle Avelino (Angola/Congo/Reino Unido; ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “O Luto é um Elefante” (Intrínseca) – Tamara Ellis Smith (Estados Unidos; autora) e Nancy Whitesides (Estados Unidos; ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “A Sopa Está Pronta” (Companhia das Letrinhas) – Susanne Strasser (Alemanha) – Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Geografia Íntima do Deserto” (Círculo de Poemas) – Micheliny Verunschk – 280 páginas. “Retorno ao Ventre” (Elefante) – Jr. Bellé – 168 páginas. “Languagem” (Iluminuras) – Edney Cielici Dias – 148 páginas. “Pequeno Caderno Maranhense” (CEPE) – Nilson – 112 páginas. “Ranho e Sanha” (Círculo de Poemas) – Guilherme Gontijo Flores – 32 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Seremos Chamados pelo que Levamos” (Intrínseca) – Amanda Gorman (Estados Unidos) – 224 páginas. É por isso que eu sempre digo: enquanto o mundo gira, a gente lê. Fazer o quê? Bom Inverno a todos! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em janeiro e fevereiro de 2024
Confira as 115 principais obras de ficção e poesia que foram publicadas no Brasil neste primeiro bimestre. Antigamente se falava que o ano só começava no país depois do Carnaval. Bons tempos aqueles... Agora há quem diga que o calendário somente se inicia depois da epidemia de Dengue/Zika/Chikungunya (ou alguma outra velha doença que sempre volta à moda pelas nossas bandas), da tragédia provocada pelas chuvas que fecham o Verão, da primeira grande crise entre os poderes de Brasília ou da eliminação vergonhosa do Timão no Campeonato Paulista. Para a coluna Mercado Editorial, a perspectiva é outra (ufa!). A nossa temporada literária dá a largada após a apresentação dos livros que foram lançados no Brasil em janeiro e fevereiro. Ou seja, por aqui as notícias são sempre mais positivas, agradáveis e culturais. E seguindo a tradição de quase dez anos do Bonas Histórias de exibir as principais publicações da ficção e da poesia no primeiro bimestre, damos oficialmente as boas-vindas para ele, o danadinho de 2024! Feliz Ano-Novo, senhoras e senhores que apreciam a boa literatura. O que os leitores nacionais receberam de bom dessa vez, hein?! Para responder a essa questão que intriga a humanidade (ou não), listei as obras que acredito que podem agradar aos leitores mais exigentes nesse começo de ano. Em meu recorte, contemplei apenas títulos da ficção literária (romances, novelas, coletâneas de contos e crônicas, ensaios literários, narrativas infantojuvenis e exemplares infantis) e da poesia. Considerei tanto as novidades da literatura brasileira quanto da literatura internacional que por aqui aportaram. E dei espaço simultaneamente para a literatura contemporânea e para a literatura clássica. Antes de apresentar a lista completa dos 115 principais livros que foram publicados em janeiro e fevereiro de 2024 em nosso país, quero comentar rapidamente aqueles que me chamaram mais a atenção. Na prateleira da literatura brasileira, meus destaques vão para “A Arte de Driblar Destinos” (Fósforo), o premiado romance de Celso Costa, “Detetive Vaga-lume e o Misterioso Caso do Escaravelho” (Panda Books), o título infantojuvenil de Marcelo Duarte e Rogério Borges que passa a integrar a Coleção Vaga-lume, e “Os Filhos da Coruja” (Baião), o polêmico título infantil (ou seria poético?) de Graciliano Ramos. Segundo título ficcional de Celso Costa, “A Arte de Driblar Destinos” conquistou o tradicional Prêmio Leya de 2022. Nessa narrativa histórica, o escritor e matemático paranaense que vive há anos no Rio de Janeiro apresenta o retrato violento, injusto e ácido de um garoto pobre do rincão do país nos anos 1960. Além de exibir com rara beleza a cultura interiorana em fragmentos autobiográficos, Costa tem um texto que encanta pela beleza estética. Como consequência, temos mais uma obra-prima publicada pela Editora Fósforo, talvez o selo com melhor acervo de lançamentos nos últimos dois anos no Brasil. Juro que tenho a impressão de que a editora paulistana só tem livrão em seu catálogo. Para os fãs da Coleção Vaga-lume, a melhor notícia do início de 2024 é a incorporação de mais um título para a famosa série infantojuvenil. E não se trata de qualquer livro. Em “Detetive Vaga-lume e o Misterioso Caso do Escaravelho”, Marcelo Duarte e Rogério Borges prestam uma linda homenagem à coletânea que encanta os jovens leitores há exatamente 50 anos. Em comemoração às cinco décadas de existência da Coleção Vaga-Lume completadas em 2023, a narrativa de “Detetive Vaga-lume e o Misterioso Caso do Escaravelho” faz referências aos maiores sucessos da série (pelo título, já é possível perceber a brincadeira intertextual). Enquanto acompanhamos o detetive Vaga-Lume e seu filho na investigação do roubo de uma valiosa joia em um hotel, precisamos encontrar as 50 citações (pode chamá-las de easter eggs se quiser) diretas ou indiretas sobre os demais livros da série que os autores deixaram escondidas nas páginas. É diversão garantida, principalmente para os fãs de longa data da Vaga-Lume! Para fechar o trio de destaques nacionais, trago “Os Filhos da Coruja” de Graciliano Ramos. Possivelmente esse será o título mais polêmico do ano no Brasil. Por que a polêmica?! Porque o autor alagoano deixou registrado por escrito aos filhos que não queria que sua rara investida na poesia fosse publicada. As palavras dele foram claras: esse livro não deve ser publicado em hipótese nenhuma!!! Segundo sua avaliação, a qualidade era sofrível. Por isso, não poderia ser lançada nem mesmo após sua morte. E o que os editores contemporâneos fizeram tão logo o acervo literário de Ramos caiu em domínio público no início de 2024? Lançaram o até então inédito “Os Filhos da Coruja”, para desespero dos familiares do escritor. Para completar a confusão, classificaram a obra como sendo infantil. Entre debates éticos se isso foi certo ou errado, o fato é que temos um novo exemplar do trabalho literário de Graciliano Ramos, um dos principais escritores nacionais, nas livrarias. Na prateleira dos romances gringos, selecionei três recentes joias contemporâneas: “A Vingança É Minha” (Todavia), o impactante thriller psicológico de Marie Ndiaye, “Estrela da Manhã” (Companhia das Letras), o último trabalho ficcional de Karl Ove Knausgård, e “Em Algum Lugar Lá Fora” (Instante), a narrativa histórica de Jabari Asim que se tornou best-seller nos Estados Unidos. Premiada escritora francesa, Marie Ndiaye apresenta em “A Vingança É Minha” o drama de uma advogada de Bordeaux atormentada pelas lembranças do passado e pelo desafio de defender uma mulher da acusação de assassinato dos três filhos. À medida que os capítulos avançam, assistimos ao desgaste psicológico da protagonista justamente quando está diante do caso mais importante de sua carreira. A tensão dramática, o suspense e as surpresas desse romance mostram o enorme talento de Ndiaye para a produção ficcional. Por sua vez, “Estrela da Manhã” é a primeira publicação do norueguês Karl Ove Knausgård após o enorme sucesso da hexalogia autobiográfica “Minha Luta” (Companhia das Letras). Por mais que o público tenha adorado a saga pessoal do autor, que tanta polêmica suscitou em seu país natal e no exterior, havia a expectativa para o lançamento de sua próxima narrativa literária. O enredo de “Estrela da Manhã” se passa em apenas dois dias de agosto. Enquanto uma estrela brilhante aparece no céu para surpresa da humanidade, nove personagens são acometidas por problemas dramáticos mais corriqueiros e pessoais. Apesar do livro ter me lembrado bastante o roteiro do longa-metragem “Melancolia” (Melancholia: 2011), suspense dramático do também polêmico Lars von Trier, o livro de Knausgård reservas alguns lances realmente interessantes. Podem falar o que quiserem do escritor norueguês. Só não questionem, por favor, sua habilidade para a contação das histórias! “Em Algum Lugar Lá Fora” é o maior sucesso até aqui do norte-americano Jabari Asim. Nesse romance histórico, acompanhamos o drama de um quinteto de negros escravizados do sul dos Estados Unidos em meados do século XIX. Do ponto de vista deles, assistimos à violência e às injustiças perpetradas pelo dono da fazenda em que vivem. A única alternativa para a sobrevivência do grupo é estabelecer uma forte amizade entre si. Considerado um dos melhores livros ficcionais de 2022 em língua inglesa, “Em Algum Lugar Lá Fora” é a primeira obra de Asim que chega ao público brasileiro. Em novembro, esse título foi enviado para os assinantes do Clube Tag Curadoria. E agora a Editora Instante o disponibilizou para a comercialização nas livrarias. Seria essa uma das publicações mais fortes e contundentes sobre a escravidão norte-americana desde “Doze Anos de Escravidão” (Seoman), clássico de Solomon Northup? Possivelmente sim. Feita essa longa introdução (uma das manias irritantes do Bonas Histórias que tanto nos orgulhamos), vamos à lista completa dos 115 principais lançamentos da ficção e da poesia em janeiro e fevereiro de 2024. Segue, abaixo, o mais recente levantamento da coluna Mercado Editorial: FICÇÃO BRASILEIRA: “A Arte de Driblar Destinos” (Fósforo) – Celso Costa – Romance – 288 páginas. “Minha Vida Fora de Série – 5ª Temporada” (Gutenberg) – Paula Pimenta – Romance – 624 páginas. “Na Corda Bamba – Memórias Ficcionais” (Record) – Daniel Aarão Reis – Romance – 476 páginas. “Avenida Beberibe” (Fósforo) – Claudia Cavalcanti – Novela – 88 páginas. “O Túmulo da Desconhecida” (Viseu) – Janete Helena – Novela – 186 páginas. “Te Vejo na Final” (Harlequin) – Ayslan Monteiro – Infantojuvenil – 320 páginas. “Detetive Vaga-lume e o Misterioso Caso do Escaravelho” (Panda Books) – Marcelo Duarte e Rogério Borges – Infantojuvenil – 160 páginas. “Diógenes, o Sócrates Enlouquecido – Um Conto Filosófico” (Yellowfante) – Samira Thomas (autora) e Christiane Costa (ilustradora) – Infantil – 48 páginas. “Sei Por Ouvir Dizer” (Global) – Bartolomeu Campos de Queirós (autor) e Suppa (ilustradora) – Infantil – 40 páginas. “O Menino Vegetariano” (Bertrand Brasil) – Fabricio Carpinejar – Infantil – 40 páginas. “Os Filhos da Coruja” (Baião) – Graciliano Ramos – Infantil – 36 páginas. “Dinorá Perdeu o Gato” (Yellowfante) – Sonia Junqueira (autora) e Cláudia Scatamacchia (ilustradora) – Infantil – 36 páginas. “O Peixinho Perdeu o Inho” (Yellowfante) – Sonia Junqueira (autora) e Cláudia Scatamacchia (ilustradora) – Infantil – 36 páginas. “Quem Comeu os Meus Biscoitos” (Globinho) – Alexandre de Castro Gomes (autor) e Vanina Starkoff (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Chapeuzinho Vermelho” (Global) – Ruth Rocha (autora) e Isabela Santos (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Sei por Ouvir Dizer” (Global) – Ruth Rocha (autora) e Camila Carrossine (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Tia Cotinha” (Ciranda na Escola) – Giba Pedrosa (autor) e Fernanda Rodrigues (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “Kunumã” (Globinho) – Ikanê Adean (autor) e Bruna Lubambo (ilustradora) – Infantil – 32 páginas. “A Ararinha-azul” (Global) – Bartolomeu Campos de Queirós (autor) e Mario Cafiero (ilustrador) – Infantil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “A Vingança É Minha” (Todavia) – Marie Ndiaye (França) – Romance – 200 páginas. “Estrela da Manhã” (Companhia das Letras) – Karl Ove Knausgård (Noruega) – Romance – 656 páginas. “Em Algum Lugar Lá Fora” (Instante) – Jabari Asim (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Mau Hábito” (Amarcord) – Ana S. Portero (Espanha) – Romance – 288 páginas. “Os Pecados de West Heart” (Intrínseca) – Dann McDorman (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O País das Mulheres” (Rosa dos Tempos) – Gioconda Belli (Nicarágua) – Romance – 384 páginas. “Dragão Vermelho – Volume 2 da Série Hannibal Lecter” (Record) – Thomas Harris (Estados Unidos) – Romance – 376 páginas. “Hannibal – Volume 3 da Série Hannibal Lecter” (Record) – Thomas Harris (Estados Unidos) – Romance – 472 páginas. “Tomás Nevinson” (Companhia das Letras) – Javier Marías (Espanha) – Romance – 656 páginas. “Mudar: Método” (Todavia) – Édouard Louis (França) – Romance – 240 páginas. “Sr. Loverman” (Companhia das Letras) – Bernardine Evaristo (Inglaterra/Nigéria) – Romance – 328 páginas. “O Fabuloso e Triste Destino de Ivan e Ivana” (Rosa dos Tempos) – Maryse Condé (Guadalupe) – Romance – 238 páginas. “Como Ser Lembrado” (Globo Livros) – Michael Thompson (Austrália) – Romance – 320 páginas. “A Rainha Ginga” (Tusquets) – José Eduardo Agualusa (Angola) – Romance – 208 páginas. “O Clube do Livro do Bunker” (Rocco) – Annie Lyons (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “O Experimento do Amor Verdadeiro” (Paralela) – Christina Lauren (Estados Unidos) – Romance – 456 páginas. “Prazer ou Negócios” (Verus) – Rachel Lynn Solomon (Estados Unidos) – Romance – 350 páginas. “Dengue Boy” (Amarcord) – Michel Nieva (Argentina) – Romance – 208 páginas. “A Outra Princesa” (Bertrand Brasil) – Denny S. Bryce (Estados Unidos) – Romance – 406 páginas. “A Tempestade que Criamos” (Companhia das Letras) – Vanessa Chan (Malásia) – Romance – 272 páginas. “Um Estranho no Ninho” (Amarcord) – Ken Kesey (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Se os Gatos Desaparecessem do Mundo” (Bertrand Brasil) – Genki Kawamura (Japão) – Romance – 176 páginas. “A Fúria” (Record) – Alexis Michaelis (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “A Vida Prodigiosa de Isidoro Sifflotin” (Bertrand Brasil) – Enrico Ianniello (Itália) – Romance – 252 páginas. “A Sociedade Oculta de Londres” (Harlequin) – Sarah Penner (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Lugar Errado, Hora Errada” (Record) – Gillian McAllister (Inglaterra) – Romance – 350 páginas. “O Jogo dos Desejos” (Intrínseca) – Meg Shaffer (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “O Navio da Morte” (Quimera) – B. Traven (Alemanha) – Romance – 320 páginas. “A Serpente e as Asas Feitas de Noite – Livro 1 da Duologia Nascidos da Noite” (Suma) – Carissa Broadbent (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Guardiã de Histórias” (Bertrand Brasil) – Sally Page (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “Que Vença o Pior” (Harlequin) – Rosie Danan (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Um Feitiço de Amor” (Verus) – Kate Robb (Canadá) – 308 páginas. “O Segredo da Empregada” (Arqueiro) – Freida McFadden (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “A Ampulheta” (Globo Livros) – Gareth Rubin (Inglaterra) – 448 páginas. “Babel – Uma História Arcana da Revolução dos Tradutores de Oxford” (Intrínseca) – R. F. Kuang (Estados Unidos) – Romance – 592 páginas. “A Volta do Parafuso” (Darkside) – Henry James (Inglaterra) – Romance – 192 páginas. “Sonhando com Você – Volume 2 da Série Clube de Apostas Craven´s” (Arqueiro) – Lisa Kleypas (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Drácula – O Homem da Noite” (Amarcord) – Bram Stoker (Irlanda) – Romance – 224 páginas. “Cemitério de Lunáticos” (Biblioteca Azul) – Ray Bradbury (Estados Unidos) – Romance – 424 páginas. “A Pequena Pousada da Islândia” (Arqueiro) – Julie Caplin (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “Arsène Lupin, o Ladrão de Casaca” (Autêntica) – Maurice Leblanc (França) – Romance – 232 páginas. “Dewey – Um Gato na Biblioteca” (Globo Livros) – Bret Witter (Estados Unidos) e Vicki Myron (Estados Unidos) – Romance – 232 páginas. “O Grande Deus Pã” (Darkside) – Arthur Machen (País de Gales) – Romance – 192 páginas. “Era Uma Vez Uma Cortesã” (Harlequin) – Lorraine Heath (Estados Unidos/Inglaterra) – Romance – 256 páginas. “Enterre Seus Mortos” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 416 páginas. “Quando a Luz Se Apaga” (Gutenberg) – Robert Bryndya (Inglaterra) – Romance – 320 páginas. “Uma Centelha na Escuridão” (Planeta) – Stacy Willingham (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Viver Depressa” (Tusquets) – Brigitte Giraud (França) – Romance – 160 páginas. “Necronomicon: A Vida & Morte de H. P. Lovecraft” (Darkside) – W. Scott Poole (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Afrodite e o Duque” (Verus) – J. J. McAvoy (Canadá) – Romance – 364 páginas. “O que Acontece no Baile – Volume 2 da Série Escola de Debutantes” (Arqueiro) – Sabrina Jeffries (Estados Unidos) – Romance – 240 páginas. “A Casa da Beleza” (Globo Livros) – Melba Escobar (Colômbia) – Romance – 224 páginas. “Estrelas Escuras” (Rocco) – Danielle Rollins (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “No Rastro de Amber” (Bertrand Brasil) – Christine Leunens (Nova Zelândia/Bélgica) – Romance – 252 páginas. “As Estrelas Esperam no Céu” (Verus) – Lori Nelson Spielman (Estados Unidos) – Romance – 350 páginas. “As Duas Vidas de Lydia Bird” (Bertrand Brasil) – Josie Silver (Inglaterra) – Romance – 364 páginas. “Entre Idas e Vindas” (Harlequin) – Ava Wilder (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “A Filha Cubana” (Arqueiro) – Soraya Lane (Nova Zelândia) – Romance – 272 páginas. “Um Verão Revelador” (Harlequin) – Jennifer Weiner (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “Distância de Resgate” (Fósforo) – Samantha Schweblin (Argentina) – Novela – 96 páginas. “O Gaucho Insofrível” (Companhia das Letras) – Roberto Bolaño (Chile) – Novela – 152 páginas. “Fim de Poema” (Poente) – Juan Tallón (Espanha) – Novela – 136 páginas. “Coelho Maldito” (Alfaguara) – Bora Chung (Coreia do Sul) – Coletânea de Contos – 232 páginas. “Vagamundo” (L&PM Pocket) – Eduardo Galeano (Uruguai) – Coletânea de Contos – 160 páginas. “Fúrias – Histórias de Mulheres Perversas, Selvagens e Indomáveis” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá), Susie Boyt (Inglaterra), Eleanor Crewes (Estados Unidos), Emma Donoghue (Irlanda) e outras autoras – Coletânea de Contos – 320 páginas. “O Último Verão de Klingsor” (Record) – Hermann Hesse (Alemanha) – Coletânea de Contos – 238 páginas. “Cidade da Lua Crescente – Volume 3 da Série Casa de Chama e Sombra” (Galera) – Sarah J. Maas (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 966 páginas. “Uma Alma de Cinza e Sangue – Volume 5 da Série Sangue e Cinzas” (Galera) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 644 páginas. “Assistente do Vilão” (Alt) – Hanna Nicole Maehrer (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 512 páginas. “A Rainha Negra” (Galera) – Jumata Emill (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 440 páginas. “Um Tom Mais Escuro de Magia – Volume 1 da Série Os Tons da Magia” (Galera) – V. E. Schwab (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 420 páginas. “Um Encontro de Sombras – Volume 2 da Série Os Tons da Magia” (Galera) – V. E. Schwab (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 560 páginas. “Uma Conjuração de Luz – Volume 3 da Série Os Tons da Magia” (Galera) – V. E. Schwab (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 728 páginas. “Hotel Magnifique” (Galera) – Emily J. Taylor (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Desejo a Você As Coisas Mais Belas” (Alt) – Mason Deaver (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Gwen e Art Não Estão Apaixonados” (Verus) – Lex Croucher (Inglaterra) – Infantojuvenil – 378 páginas. “A Aposta do Coração” (Alt) – Danielle Parker (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “De Novo, Outra Vez” (Seguinte) – E. Lockhart (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Wonka” (Roald Dahl) – Lex Croucher (País de Gales) – Infantojuvenil – 304 páginas. “Nunca Confie em Uma Geminiana” (Galera) – Freja Nicole Woolf (Inglaterra) – Infantojuvenil – 294 páginas. “Núbia: o Despertar” (Seguinte) – Omar Epps (Estados Unidos) e Clarence A. Haynes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Academia dos Casos Arquivados” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 264 páginas. “Stranger Things – O Voo de Ícaro” (Intrínseca) – Caitlin Schneiderhan (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 252 páginas. “Esquisitona” (Seguinte) – Sarah Andersen (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 120 páginas. “Caderno de Férias” (Baião) – Grassa Toro (Autor - Espanha) e Isidro Ferrer (Ilustrador – Espanha) – Infantil – 48 páginas. “Nem Sonhando!” (Companhia das Letrinhas) – Beatrice Alemagna (Itália) – Infantil – 48 páginas. “Uns e Outros” (Companhia das Letrinhas) – Dipacho (Colômbia) – Infantil – 48 páginas. “Cabelo Doido” (Intrínseca) – Neil Gaiman (Autor – Inglaterra) e Dave McKean (Ilustrador – Inglaterra) – Infantil – 40 páginas. “Que Planeta É Este?” (Pequena Zahar) – Eduarda Lima (Portugal) – Infantil – 36 páginas. “A Gangorra” (Companhia das Letrinhas) – Joaquín Camp (Argentina) – Infantil – 36 páginas. “A Fazenda dos Mirtilos” (Brinque-Book) – Stephen Michael King (Austrália) – Infantil – 32 páginas. “O Alfabeto Perigoso” (Intrínseca) – Neil Gaiman (Autor – Inglaterra) e Gris Grimly (Ilustrador – Estados Unidos) – Infantil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Poesia – 1969-2021” (Círculo de Poema) – Duda Machado – 272 páginas. Por hoje é só, pessoal. Em abril, retornarei à coluna Mercado Editorial para apresentar as ficções mais vendidas no Brasil em 2023. E no primeiro post de maio do Bonas Histórias, prometo trazer os livros que foram lançados em nossas livrarias no segundo bimestre de 2024. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Dança: Salsa – A história e as particularidades do contagiante ritmo cubano
Confira a origem, a evolução, as influências e as características da Salsa, a popular e animada modalidade dançante que nasceu no Caribe e se espalhou pelos quatro cantos do planeta. E aí, todos prontos para dançar?! Nossa viagem dançante de hoje é pela América Central, mais especificamente pela calorosa Cuba. Vou falar da Salsa, um dos meus ritmos favoritos. Neste post, a ideia é debatermos sua história, evolução, influências, características, particularidades e principais passos. Assim, deixo com o coração apertado a Argentina e o seu emblemático Tango, tema da publicação de fevereiro da coluna Dança, e pego o voo imaginativo em direção à emblemática Havana (ou La Habana, como preferirem). Quero bailar dessa vez a boa e velha Salsa Cubana. Venham comigo nessa aventura divertida pelo Caribe. Antes de entrar no assunto propriamente dito, preciso deixar registrado um receio. Às vezes, tenho medo de que os leitores do Bonas Histórias pensem que escolho minhas matérias de acordo com minhas preferências pessoais. Já aviso que não é bem assim. Embora seja professora de Dança de Salão na Dança & Expressão, sou apaixonada pela arte dançante como um todo. Por isso, tento trazer para a coluna Dança um pouco de cada modalidade. Já debati, por exemplo, Hip Hop, Dança do Ventre, Dança Solta, K-pop, Frevo, Ballet Clássico, Jazz Dance e Dança Moderna e Contemporânea. Porém, é inevitável que volta e meia trate do mundo da Dança de Salão, minha especialidade e algo que faço rotineiramente desde os 15 anos. Aí não resisto e coloco como pauta do Bonas Histórias o brasileiríssimo Forró, o argentino-uruguaio Tango e a universal Dança dos Noivos. Agora é a vez de um dos ritmos latinos mais populares. Para entendermos como surgiu e se desenvolveu a dança Salsa, precisamos olhar antes para a história musical da América Central. A sonoridade da Salsa se originou do Son Cubano. E ao longo do tempo, ela recebeu forte influência da Cumbia colombiana, do Merengue da República Dominicana, do Jazz norte-americano e de outras modalidades caribenhas. Até o Samba brasileiro contribuiu para sua formação melódica. Não à toa, depois de receber tantos temperos sonoros em sua composição, o ritmo cubano ganhou o nome de Salsa. De origem espanhola, esse termo significa “tempero”, “mistura”. Não poderia haver melhor definição para caracterizar o novo gênero musical (que mais tarde originaria a dança). O Son Cubano, que é a base da Salsa, surgiu nas áreas rurais de Cuba na segunda metade do século XVIII. Esse ritmo recebeu influência hispânica, francesa e africana. O resultado é uma melodia alegre e cativante que rapidamente se espalhou pelo arquipélago do mar do Caribe. Na década de 1920, surgiu o Sexteto Habanero. A banda produzia uma variação do Son Cubano, dissidência que conhecemos atualmente como Salsa. Seus instrumentos musicais eram principalmente a guitarra, o cravo, o contrabaixo e as maracas. Com o sucesso do Sexteto Habanero, outras bandas seguiram essa linha musical. Dá para citar Septeto Nacional, Trio Matamoros e La Sonora Matancera. O grande responsável pela evolução do novo gênero foi o músico Arsênio Rodríguez. Nos anos 1940, ele introduziu nas músicas outros instrumentos como piano, tumbadora e três ou quatro trompetes. Ao se mudar para os Estados Unidos em 1950, Rodríguez levou o ritmo latino para os norte-americanos, que influenciaram com mais temperos musicais. Foi justamente nessa época o auge da Salsa em Cuba. Benny Moré, um dos maiores intérpretes desse ritmo, fez enorme sucesso e colocou para sempre seu nome na modalidade. A partir de 1959, com a Revolução Cubana e o início do bloqueio norte-americano ao país comunista, a Salsa seguiu dois caminhos distintos: um dentro de Cuba e outro fora das ilhas de Fidel Castro. Foi inclusive nos Estados Unidos que ganhou o nome de Salsa, que o mundo inteiro conhece. Até então, esse ritmo era chamado simplesmente de Son. Em 1974, Willy Colón e Rubén Blades gravaram o disco que oficializou o termo Salsa para o universo musical. Curiosamente, só há aproximadamente dez anos é que os cubanos começaram a utilizar o termo Salsa. Em sua terra natal, ele seguia sendo chamado de Son. Não foi apenas a música Salsa que se modificou e evoluiu ao longo do tempo. A dança Salsa também seguiu o mesmo caminho de sucessivas transformações e influências. Vamos agora entrar no mundo dançante da Salsa e conhecer mais seus movimentos e estilos. Afinal, estamos na coluna Dança e não na coluna Músicas do Bonas Histórias. A forma que se dançava originalmente o Son Cubano não tem nada a ver com estilo atual da dança Salsa. À princípio, o casal de dançarinos não se abraçava, como é característico das modalidades da Dança de Salão. Os pares ficavam afastados a uma distância protocolar e faziam movimentos exagerados de pernas e tronco. Vamos lembrar que essa dança surgiu na área rural de Cuba no período colonial. Ou seja, na cultura conservadora da América espanhola, não caía bem homens e mulheres ficarem abraçados. Em meados do século XVIII, os franceses, que eram muito mais liberais nos costumes do que os espanhóis, chegaram ao Caribe e foram os responsáveis por unir os casais nas danças. Assim, o Son passou a ser executado com homens e mulheres mais próximos. Nessa época, os braços dos dançarinos já tinham a configuração tradicional das danças de casal: o cavalheiro envolvia a dama no seu braço direito e segurava a mão direita dela com seu braço esquerdo aberto; por sua vez, a dama colocava a mão esquerda sobre o ombro direito dele. Acho que os franceses foram bons professores para os cubanos. Se fosse hoje, eu os contrataria para a Dança & Expressão. Mesmo já abraçados, é bom que se diga que os casais cubanos não ficavam bailando tão agarrados como vemos na Salsa contemporânea. Quando falamos de mudanças culturais e de transformações comportamentais, a evolução é gradativa. O tronco dos dançarinos era unido pelos braços, mas da cintura para baixo era bem afastado. Nessa época, era muito comum as pessoas irem aos bailes com a família. E, convenhamos, não era bem-visto socialmente que homens e mulheres ficassem grudadinhos. Estamos ainda na virada do século XVIII para o XIX. Com a maior distância das pernas, o casal fazia passos grandes, largos. Como se dançava geralmente em chão de terra batida, não era possível deslizar os pés – a poeira subiria e sujaria a todos. Assim, eles tinham que ser bem erguidos. Também era característico bailar com os joelhos semiflexionados e soltos, o que fazia com que todo o corpo parecesse se movimentar ainda mais. Está aí a explicação para uma das principais particularidades da Salsa – o caminhar e o movimentar sem sair do lugar. À medida que o Son chegou às maiores cidades cubanas, a dança ganhou ares mais delicados e menos exagerados. O casal passou a ficar mais próximo, inclusive da cintura para baixo. A perna direita do cavalheiro permanecia entre as pernas da dama. E como não havia mais chão de terra, era possível deslizar um pouco mais os pés. Os joelhos passaram a ficar mais esticados e, como consequência, os movimentos se tornaram mais suaves. O passo básico era caminhar para frente e para trás. Uma das características mais marcantes dessa fase é que o tronco se inclinava bastante para as laterais, fazendo um balanço bem acentuado. Da mesma forma que a música evoluiu e ganhou novos elementos com o tempo, a dança também passou por esse processo de transformação. Na década de 1940, surgiram os primeiros giros. Não podemos compará-los aos rodopios atuais da salsa pois eram passos ainda bem simples, executados principalmente pelos homens. Eles se viravam sobre os próprios pés, sendo guiados pelas mãos das parceiras. Mesmo diferente do que temos hoje, é possível dizer que os elementos principais dessa modalidade dançante estavam configurados nesse momento. O progresso natural do ritmo nos 80 anos seguintes foi o responsável por moldá-lo. Vamos agora falar da Salsa do século XXI, aquela que eu pratico quando saio para dançar na cidade de São Paulo e que ensino aos alunos da Dança & Expressão. Como qualquer modalidade da Dança de Salão, asseguro que todo mundo pode aprender a dançar uma belíssima Salsa. Contudo, ainda há o mito que essa é uma modalidade difícil. Acredito que essa crença infundada é fruto essencialmente da rapidez da música. Além disso, os novatos ficam impressionados com os vários giros e os desenhos de pernas que parecem complexos num primeiro momento. Se você pensa assim, não se preocupe: trata-se de uma percepção equivocada. Vamos entender tecnicamente como essa dança funciona. Primeiramente, aviso que existem basicamente dois estilos de Salsa. Assim como a música teve uma ramificação, sendo um ritmo produzido em Cuba e outro nos Estados Unidos, a dança acompanhou essa dissidência. Hoje, temos a Salsa Cubana e a Salsa Americana, também conhecida como Salsa Los Angeles. Falemos o que ambos os estilos de dançar têm em comum. A Salsa é sempre dançada em quatro tempos, com movimentos quartenários. Se você já assistiu ou participou de uma aula de Salsa, certamente ouviu os professores contarem os passos. Eles falam: “Um, dois, três. Cinco, seis, sete”. Isso ocorre porque sempre separamos os passos em movimentos de quatro marcações. Os números quatro e oito nunca são cantados, pois se referem às pausas (há um breve descanso para o corpo). Um ponto bem característico da Salsa é que os dançarinos devem respeitar os tempos corretos da música na hora de executar os passos e de fazer os movimentos de enfeites de pernas e braços. Isso é ainda mais importante para as mulheres. Talvez seja a dança que mais exija musicalidade dos dançarinos. Geralmente os gracejos acontecem no tempo 1. Quem está no papel de condutor tem que começar a dançar no tempo 1 com a perna esquerda. Assim, quem está sendo conduzido inicia com a perna direita. Outro ponto em comum da Salsa Cubana e da Salsa Americana é que, por se tratar de um estilo de dança latino, os quadris precisam se movimentar. É o bom e velho jogo de cintura que nós brasileiros tão bem conhecemos. Para tal, deixa-se os joelhos mais soltos, sem esticar demais. Agora vamos debater as diferenças. A Salsa Cubana seguiu as raízes do Son e continua a ser dançada principalmente com o casal abraçado. O cavalheiro envolve a dama com o braço direito. Os movimentos são mais arredondados e possuem mais passos espelhados entre o par. Os giros da Salsa Cubana se assemelham bastante aos giros do Forró. Assim, os dançarinos marcam uma perna atrás para impulsionar o giro e podem trocar de lugar. A Salsa Americana sofreu influência de estilos dançantes como o Rock and Roll e o Cha-cha-cha. Dessa forma, sua estrutura principal não é dançada com o casal abraçado. Os pares ficam mais afastados e unidos apenas pelas mãos (mais ou menos como o Son do século XVIII). O condutor tem que estender as mãos para frente com as palmas para cima. É desse jeito que ele segura as mãos de quem está sendo conduzida, que fica com as palmas para baixo. Os movimentos, embora com muitos giros, seguem sempre a mesma linha corporal. Dança-se quase sempre respeitando o mesmo espaço no salão. Os dançarinos até podem mudar de lado, mas a inversão é de 180 graus. Ou seja, o casal troca de posição, mas continua ocupando o mesmíssimo lugar. Não por acaso, esse estilo é conhecido como Salsa em Linha. Que tal arriscarmos juntos um passo da Salsa, hein? Então, levante-se, afaste os móveis e faça os movimentos básicos. Para quem está conduzindo, a coreografia começa com a perna esquerda. Assim: a perna esquerda desloca para frente (tempo 1), perna direita marca no lugar (2), esquerda volta para trás (3); espera; depois a direita recua (tempo 5), esquerda marca no lugar (6) e direita volta para frente (7); e espera. Os pés nunca vão se juntar. A ideia é sempre passar uma perna pela outra. Já quem está sendo conduzida, a proposta é começar a marcar com a perna direita. Aí: a perna direita vai para trás (tempo 1), a esquerda fica no lugar (2) e a direita volta para frente (3); pausa; depois a perna esquerda desloca para frente (tempo 5), a direita marca no lugar (6) e a esquerda volta para trás (7); e espera. No geral, a Salsa envolve muitos passos, que são bem desenhados e estruturados. Seus vários giros e figuras de braço também conferem identidade própria à dança. Há movimentos de braços que são alinhados entre o casal, ocorrendo a partir da iniciativa do condutor. Os desenhos gestuais podem ser subindo e descendo ou girando em círculo de baixo para cima. E há muitos movimentos que são enfeites tanto para os cavalheiros quanto para as damas. Eles não precisam ser compartilhados pelo casal, sendo parte da performance individual dos dançarinos. Para quem está apenas de espectador, às vezes é difícil distinguir o que é só um enfeite e o que é efetivamente um passo. É isso o que confere um ar refinado e gracioso para a dança. Na Salsa, quem está guiando deve ter os braços bem firmes e resistentes, pois a condução se dá com a precisão dos seus movimentos. A dama é conduzida através de puxões, empurrões dos braços e mãos erguidas para avisar dos giros. A estrutura da Salsa é o casal dançando junto, unidos pelas mãos ou abraços. Porém, em alguns momentos, o cavalheiro pode soltar a dama para eles executarem os shining. Característicos da Salsa, os shining permitem que cada dançarino faça desenhos diferentes do parceiro no salão. São movimentos de pernas, braços e giros. Eles ocorrem até o condutor abraçar novamente a dama e eles voltarem a dançar juntos. Para alguém dizer que já dança Salsa, é fundamental ter o domínio de três passos: a base (que ensinei há pouquinho); os giros, que acontecem sem que o casal saia do lugar (podendo ser para direita ou para a esquerda e sendo executados tanto pela dama quanto pelo cavalheiro); e o Cross, que é a passagem da dama para o outro lado. A partir dessa estrutura básica da dança, parte-se para a multiplicação dos desenhos e para as variações de pernas e braços. E como se comportar na pista de dança durante a Salsa? Muitos ritmos da Dança de Salão precisam rodar o salão. Isso ocorre, por exemplo, no Samba, no Bolero, no Tango e na Valsa. O importante, nesses casos, é se deslocar no sentido correto, geralmente no anti-horário. Contudo, a Salsa é, como vimos, um ritmo sem deslocamento pela pista. Os casais começam e terminam a bailar no mesmo lugar. Se você estiver dançando o estilo cubano é ainda mais tranquilo. Afinal, ele não tem tantas regras. Já no estilo americano, a etiqueta exige que todos os pares dancem na mesma linha. Dessa forma, evitam-se trombadas, empurrões, batidas e quedas durante os giros. Portanto, se você for entrar na pista, observe previamente como as demais pessoas estão dançando. O posicionamento delas indicará a direção que você deverá seguir com seu parceiro. Em Cuba, a tradição apontava os cassinos como ótimos lugares para se praticar a Salsa. Obviamente, isso ocorria na época em que esse tipo de estabelecimento era permitido por lá. Os mais famosos eram o Casino Deportivo e o Casino De La Plava. Essa é justamente a origem do nome da modalidade de dança em grupo da Salsa Cubana: Roda de Cassino. Se você for convidado para uma Roda de Cassino, saiba que terá a oportunidade de praticar a forma mais divertida da Salsa Cubana. Meus alunos da Dança & Expressão adoram quando chegamos a essa etapa do curso. Vejo que muitos iniciam as aulas já ávidos por esse momento. Na Roda de Cassino, os casais se posicionam em um grande círculo no salão. Cada um começa a dançar com o seu par normalmente, ao estilo cubano tradicional. Entretanto, há sempre alguém que canta os passos a serem executados por todos os demais ao mesmo tempo. A dança fica bem dinâmica e alegre. Como a coreografia é a mesma, os pares vão sendo trocados, o que gera uma dinâmica diferente e uma euforia no pessoal. Na Roda de Cassino, os dançarinos executam diversas figuras de passos e há até momentos sincronizados para se bater palmas. A Salsa não para de evoluir. Atualmente, ela é praticada no mundo inteiro e se tornou uma modalidade de apelo internacional. Quem a aprende, pode dançar nas mais diferentes situações e cantos do planeta. Desde 1998, há inúmeros congressos e competições esportivas. Esse intercâmbio intercontinental permite que os dançarinos de Salsa se aprimorem tecnicamente e compartilhem o repertório de passos. Ao mesmo tempo que a dança se diversifica, ela também se torna mais conhecida pelos amantes da Dança de Salão. Os iniciantes que assistem às apresentações de Salsa executadas por profissionais nas competições esportivas podem se assustar com os movimentos extremamente rápidos, a sincronia perfeita dos casais, os incontáveis giros e os passos muito acrobáticos. Se esse for o seu caso, peço para não os usar como referência. Não é porque os jogadores de futebol são excelentes nos estádios que não vamos praticar partidas amadoras com os amigos aos finais de semana, em nosso ritmo e em nosso nível técnico. Na dança social é a mesma coisa. A Salsa é muito mais tranquila de ser praticada nos salões convencionais. Mesmo numa velocidade menor quando comparada à dança dos profissionais, ela segue sendo bem alegre e animada. Se você está querendo iniciar na Salsa não tenha medo. Entre numa turma de Iniciantes e comece devagar. Siga o exemplo do Ricardo lá na Argentina. Há algumas semanas, ele me contou todo animado que foi fazer uma aula desse ritmo em uma escola perto de sua casa. Para sua surpresa, ao final do encontro inicial, já estava praticando dois dos três passos fundamentais: a base e os giros. Só faltou o Cross, que provavelmente ele verá nas próximas aulas. Se até meu irmão, que fugia da dança como o diabo foge da cruz (agora só falta comprar um celular para ligar para a família de vez em quando), criou coragem para se aventurar na Dança de Salão, porque você não tenta também ingressar na Salsa, hein? Enquanto você pensa se deve começar agora ou já, adianto que o próximo assunto da coluna Dança será sobre outra modalidade que adoro: o Samba. Nos vemos, então, em outras páginas do Bonas Histórias, pessoal. E boa dança para todos nós! Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Uma Linda Mulher - O mais romântico dos últimos 25 anos
Aqui vai uma dica para os marmanjos neste inverno. Sabe aquele dia (ou noite) frio e chuvoso em que você tem uma bela companhia feminina em casa e quer assistir a um filme romântico com ela embaixo do coberto. Aí você olha para suas opções de filmes e não sabe o que sugerir para agradá-la. Quem nunca passou por isso? Minha sugestão para esta hora é um clássico das comédias românticas: "Uma Linda Mulher" (Pretty Woman: 1990). Este longa-metragem agrada dez entre dez mulheres. Ele é atemporal e possui um efeito romântico avassalador no público feminino. Não conheço uma mulher que não se derreta com esta produção que completou recentemente 25 anos. Até mesmo as mais duronas e as (aparentemente) pouco sensíveis acabam se emocionando com esta trama. "Uma Linda Mulher" foi dirigido por Garry Marshall, experiente cineasta especializado em comédias românticas. É dele "O Diário de Uma Princesa" (The Princess Diaries: 2002), "O Diário de Uma Princesa 2" (The Princess Diaries 2 - Royal Engagement: 2004), "Idas e Vindas do Amor" (Valentine's Day: 2010) e "Noite de Ano Novo" (New Year's Eve: 2011). O longa-metragem de 1990 foi protagonizado por Julia Roberts, em início de carreira, e Richard Gere, um ator já consagrado - fez "Cinzas no Paraíso" (Days of Heaven: 1978), "Gigolô Americano" (American Gigolo: 1980) e "A Força do Destino" (An Officer and a Gentleman: 1982). O entrosamento entre diretor e o casal de atores foi tão grande que eles voltariam a se encontrar em "Noiva em Fuga" (Runaway Bride: 1999). Marshall e Roberts também trabalharam juntos em "Idas e Vindas do Amor" (Valentine's Day: 2010). O enredo do filme junta por acaso o milionário empresário Edward Lewis (interpretado por Richard Gere) e a prostituta Vivian Ward (Julia Roberts). Em uma viagem a negócios por Los Angeles, o magnata contrata a garota de programa que conheceu na rua para guiá-lo pela cidade. A ideia dele não é fazer (apenas) sexo com ela. Ele quer principalmente uma companhia por alguns dias. Ele vive sozinho e precisa de alguém para conversar. Vivian, por sua vez, precisa de dinheiro e se empolga com o valor oferecido pelo cliente rico. Com a comissão recebida, ela conseguirá pagar os aluguéis atrasados do apartamento onde mora. Estabelecido o contrato de trabalho, os dois começam a se conhecer. Edward fica encantado com a espontaneidade e a alegria da moça. Ela fica maravilhada com a vida de luxo e a elegância dele. Rapidamente, os dois se apaixonam e a relação patrão/empregado desaparece. Contudo, o casal precisará lutar contra os preconceitos da sociedade (afinal, Vivian é uma prostituta) e contra seus próprios temores. Com orçamento de US$ 14 milhões, "Uma Linda Mulher" foi um sucesso de público e de crítica. Julia Roberts concorreu ao Oscar de Melhor Atriz no ano seguinte e ganhou o Globo de Ouro como Melhor Atriz de Comédia pelo papel de Vivian. Não é errado afirmar que o sucesso do filme catapultou a carreira da jovem ao estrelato. Nas duas décadas seguintes, Julia Roberts seria umas das atrizes mais bem pagas de Hollywood e uma das principais protagonistas das comédias românticas dos Estados Unidos. Apesar de já ser, na época, um nome consagrado de Hollywood, Richard Gere também foi muito beneficiado pelo sucesso de "Uma Linda Mulher". Depois de papéis relevantes interpretados entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, ele ficou vários anos acumulando péssimas escolhas profissionais. Com o longa-metragem dirigido por Garry Marshall, Gere retomou a fase ascendente, voltando a figurar entre os grandes atores do cinema norte-americano, posto que carrega até hoje. O que mexe com as emoções das mulheres que assistem ao filme é o fato de "Uma Linda Mulher" ser um conto de fadas moderno. O milionário solitário e bonitão faz o papel do príncipe encantado que tem a função de salvar a mocinha. A prostituta pobre e desprezada pela sociedade é a princesa ainda não relevada/descoberta. Por isso, as fortes paixões que esta produção despertam nos coraçõezinhos das expectadoras do sexo feminino. Todas alimentam, no fundo da alma, a esperança de serem salvas (de suas rotinas estafantes) por um Richard Gere e serem levadas para um palácio encantado. A personagem Vivian afirma este desejo no desfecho do filme. E o casal de protagonistas só irá conseguir ficar junto quando Edward compreende este sonho da sua parceira. Repare na cena final. Ela é uma ótima alegoria do conto de fadas contemporâneo (a chegada do príncipe encantado com o cavalo branco). Dois pontos merecem destaque neste filme: a química do casal principal e a excelente trilha sonora. Richard Gere e Julia Roberts vivem talvez seus personagens mais marcantes no cinema. Ambos estão sensacionais em seus papéis. Suas atuações e seus carismas junto ao público ajudam a minimizar aspectos delicados do roteiro. Não podemos esquecer que Edward Lewis é um homem de negócios arrogante, interesseiro e, por que não, mau caráter. Vivian Ward, apesar ser uma boa moça, trabalha na profissão mais descriminada socialmente da história (ela é uma meretriz). O carisma e a química do casal de protagonistas ajudaram o expectador a relevar estes elementos sensíveis da trama. As músicas também são ótimas. O público normalmente se recorda apenas de "Oh, Pretty Woman" na versão de Roy Orbison. Contudo, o longa-metragem tem outras canções contagiantes como "It Must Have Been Love" e "Wild Women Do". Este é aquele filme para se ver e se ouvir. O que mais me marcou neste filme foi o conjunto interminável de ótimas cenas. Além do bom roteiro, algumas sequências são por si só magníficas e possuem um conteúdo próprio. Não é à toa que quando trabalhava com treinamentos empresariais, gostava de mostrar várias cenas deste filme para discutir aspectos da relação humana. Vivian sendo maltratada na loja de roupa, ela sendo ajudada no momento de comer ostras no restaurante chique e a transformação visual que ela sofre durante o longa-metragem são cenas inesquecíveis. Outro aspecto legal é a composição das personagens. Os protagonistas são essencialmente esféricos. Ou seja, suas características vão sofrendo mutações durante a trama. Os vários defeitos de comportamento e de caráter que possuem são corrigidos pelo parceiro amoroso. O casal se redime dos pecados do passado através do amor que sentem um pelo outro. É difícil dizer quem é mais importante para quem. Se você, marmanjão pouco afeito às comédias românticas, não ficou convencido das qualidades de "Uma Linda Mulher", preciso ser mais direto. Este talvez seja o longa-metragem dos últimos 25 anos que consiga emocionar mais o coraçãozinho da sua companhia feminina. Por isso, assista ao filme ao lado dela neste inverno. Rapidamente, você perceberá o quão romântica sua casa ficará ao termino dele. Veja o trailer de "Uma Linda Mulher": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #GarryMarshall #RichardGere #JuliaRoberts
- Livros: Os Perigos de Fumar na Cama - A primeira coletânea de contos de Mariana Enriquez
Publicada em 2009, esta obra marcou o início da fase literária mais produtiva e exitosa da escritora argentina, um dos nomes contemporâneos mais proeminentes da ficção de terror na América do Sul. Os leitores mais antigos do Bonas Histórias já sabem: me amarro em literatura de terror. Essa preferência se estende automaticamente para o cinema. Quanto mais horripilante e apavorante for uma história, mais gosto da experiência artística. Se não bateu aquele medinho que nos faz temer o apagar das luzes à noite e/ou o barulho estranho na hora de dormir, então a publicação (ou o longa-metragem) não foi tão boa assim. E como estou morando na capital da Argentina há quase um ano, não poderia deixar de ler e comentar na coluna Livros - Crítica Literária uma das principais escritoras locais, da América do Sul e da língua espanhola deste gênero. Estou me referindo, por supuesto, à talentosa e carismática Mariana Enriquez. Imaginando que a maioria do público brasileiro não esteja muito familiarizado com a literatura argentina, sinto-me na obrigação de, logo de cara, apresentar esta autora para meus conterrâneos – algo que soaria estranhíssimo em terras portenhas, visto o frenesi causado pela participação de Enriquez na 48º Feria Internacional del Libro de Buenos Aires no mês passado. As cenas que presenciei no evento literário ocorrido na La Rural foram dignas de uma legítima pop star. Jogador de futebol, estrela da música, astro do cinema ou top model de renome internacional? Nada disso! Para um grupo especial de homo sapiens (e, parodiando a engenhosa Dilma, mulher sapiens), a profissão mais charmosa é a de escritor. Saravá! Em linhas gerais, posso dizer que Mariana Enriquez é jornalista, subeditora do suplemento Radar do jornal Página/12, professora e, obviamente, autora de ficção e de não ficção. Na literatura ficcional, sua especialidade é, como adiantei, a narrativa de terror. Nesse campo, ela produz tanto histórias curtas (contos) quanto tramas longas (romances). Além disso, seu portfólio literário é recheado com biografias e relatos de viagem. Até o momento, Enriquez já publicou 17 livros. Considerada uma das principais escritoras contemporâneas da Argentina e figura de destaque da intelectualidade e do jornalismo de Buenos Aires, Mariana Enriquez ganhou nos últimos dez anos o respeito da crítica literária e o carinho do público leitor. Com obras de sucesso dentro e fora do país, coleciona importantes condecorações artísticas tanto na Espanha quanto no Cone Sul do nosso continente. Chamada carinhosamente de Rainha do Terror pela mídia local, integra um grupo de autores conhecido por praticar a Nueva Narrativa Argentina. Apesar de seus títulos mais famosos e premiados serem os mais recentes – os romances “Nossa Parte de Noite” (Intrínseca) de 2019 e “Este é o Mar” (Intrínseca) de 2017, a coletânea de contos “As Coisas que Perdemos no Fogo” (Intrínseca) de 2016, e a biografia de Silvina Ocampo “A Irmã Menor: Um Retrato de Silvina Ocampo” (Relicário) –, quis ler (e compartilhar com os leitores do Bonas Histórias) algo que remetia mais à fase inicial da carreira literária de Enriquez. E aí minha escolha recaiu automaticamente a “Os Perigos de Fumar na Cama” (Intrínseca), sua primeira coletânea de contos. Essa obra foi publicada originalmente em 2009 em espanhol (com o título de “Los Peligros de Fumar en La Cama”), mas só em julho do ano passado ganhou uma edição em português, com tradução de Elisa Menezes. Para termos uma noção do quão atrasado o mercado editorial brasileiro estava, “Os Perigos de Fumar na Cama” foi traduzido primeiro para o inglês. Antes de chegar ao Brasil, portanto, foi lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra em 2021. Em outras palavras, esta obra ganhou o mundo antes de atravessar a fronteira interna do Mercosul. Ai, ai, ai. No Reino Unido, a coletânea chegou a ser finalista do Internacional Booker Prize de 2021. Nos Estados Unidos, este título alcançou o feito de ser nomeado tanto para o Kirkus Prize de 2021 quanto para o Ray Bradbury Prize de 2022. Ou seja, além de atemporais, essas tramas de terror psicológico se provaram universais. Acho essa publicação emblemática para a trajetória ficcional de Mariana Enriquez porque foi a partir dela que a jornalista portenha passou a se dedicar com mais afinco e regularidade à literatura. Não à toa, depois de 2009, ela lançou regularmente novos títulos, praticamente um por ano. Na última década e meia, para termos uma ordem de grandeza, foram 12 novidades entre romances, coletâneas de contos, biografias e crônicas de viagem. Seu trabalho mais recente é a coleção de histórias curtas “Un Lugar Soleado para Gente Sombría” (ainda sem versão em português), devidamente apresentado ao público argentino na Feira do Livro de Buenos Aires em maio de 2024. Até “Os Perigos de Fumar na Cama”, é bom que se diga, os esforços profissionais de Enriquez estavam concentrados quase que exclusivamente na atuação jornalística. A publicação dos romances “Bajar Es Lo Peor” (sem publicação no Brasil) no longínquo ano de 1995 e “Cómo Desaparecer Completamente” (também sem edição em nosso país) de 2004 e dos ensaios “Mitología Celta” e “Mitología Egipcia” (ambos sem tradução para o português) de 2003 e 2007, respectivamente, foram exceções que só ratificaram esta tese. Por isso, enxergo a coletânea de narrativas curtas de estreia da autora argentina como um dos pilares da literatura que praticaria dali para frente. Nascida em Buenos Aires há cinquenta anos, Mariana Enriquez passou a primeira infância em Lanús (para saber mais sobre essa cidade, recomendo a leitura do post da peça “Made In Lanús”, na coluna Teatro). Quando ainda era criança, sua família foi morar na Província de Corrientes e, em seguida, em La Plata. Foi na charmosa Universidad Nacional de La Plata que se formou em Jornalismo e Comunicação Social. Tão logo se graduou, se transferiu para a capital argentina para trabalhar nos principais veículos de comunicação do país. Desde 2009, vive no bairro de Parque Chacabuco, na região centro-sul de CABA – Ciudad Autónoma de Buenos Aires. As doze histórias de “Os Perigos de Fumar na Cama” são: (1) “O Desenterro da Anjinha”; (2) “A Virgem da Pedreira”; (3) “O Carrinho”; (4) “O Poço”; (5) “Rambla Triste”; (6) “O Mirante”; (7) “Onde Está Você, Coração?”; (8) “Carne”; (9) “Nem Aniversários nem Batizados”; (10) “Garotos Perdidos”; (11) “Os Perigos de Fumar na Cama”; e (12) “Quando Falávamos com os Mortos”. Em “O Desenterro da Anjinha”, a narrativa de abertura da coletânea de Enriquez, uma menina brinca no quintal de casa cavoucando a terra. Para espanto da família, a garotinha acha os ossos de uma criança que fora enterrada ali há muitos anos. A avó supersticiosa explica que são os restos mortais de Anjinha, uma de suas irmãs que morreu com alguns meses de vida. Surpreendentemente, esse episódio banal irá trazer repercussões perturbadoras para o futuro da narradora-protagonista do conto, a menina que desenterrou por acaso a tia-avó. “A Virgem da Pedreira” mostra as intrigas sentimentais de um grupo de moças recém-saídas da adolescência. As amigas são apaixonadas por Diego, um rapaz mais velho e bonito que as acompanha frequentemente em vários passeios. Contudo, ele só está interessado em Silvia, a mais velha do grupo e única que possui rotina independente. Isso é motivo para causar enorme inveja nas demais integrantes da trupe. Assim, as viagens das amigas à Lagoa da Pedreira da Virgem, onde é possível se refrescar do calor escaldante do Verão de Buenos Aires, acabam ganhando um desfecho trágico. “Carrinho” começa com o relato de uma tarde de domingo aparentemente normal em um bairro residencial de classe média baixa da capital argentina. Os moradores aproveitam a tranquilidade do dia de folga para lavar o carro, brincar na rua, se reunir no bar e colocar a conversa em dia. A calma só é quebrada com a chegada de um senhor desconhecido de aproximadamente 60 anos. O velho está bêbado, é pobre e empurra um carrinho cheio de bugigangas fétidas. Para desespero dos habitantes da localidade, o mendigo baixa as calças e defeca na calçada sem o menor constrangimento. A cena revolta principalmente Juancho, um vizinho que vive bêbado e que naquela altura do campeonato já está muito alto. Ele espanca o sujeito sem modos, expulsa-o do bairro e, ainda por cima, se apropria do seu carrinho de porcariada. O que ninguém poderia supor é que aquele fato iria disparar uma terrível maldição para quase todos os moradores do bairro. O quarto conto do livro é “O Poço”. Quando tinha seis anos, Josefina fez uma viagem de férias com a família para Corrientes, cidade que fica às margens do Rio Paraná. A lembrança mais marcante daquele período foi a visita ao lado da mãe, de uma tia e da irmã mais velha à casa de Dona Irene, uma mulher considerada bruxa. Foi a primeira vez que Josefina, até então uma garotinha corajosa e destemida, sentiu medo. A partir daí, ela se transformou em uma medrosa contumaz. Já adulta, a protagonista temia até mesmo passar pela porta de casa e ganhar a rua, o que transformou sua vida em um inferno. Em “Rambla Triste”, acompanhamos a viagem de Sofia à Barcelona. A portenha está hospedada na casa de Julieta, uma amiga que vive há muitos anos na Espanha. A cidade da Catalunha é descrita como um lugar de enormes contradições. Para os turistas endinheirados, o que chama atenção é a linda arquitetura, a boemia fascinante e os passeios atrativos. Para os moradores mais simples, o que se destaca são as histórias horripilantes do passado da cidade e a overdose de gente louca que perambula pelas ruas. A pobre Sofia terá a oportunidade de conhecer os dois lados de Barcelona. “O Mirante” tem como cenário um hotel em Pinamar, um tradicional balneário turístico da Província de Buenos Aires. O estabelecimento é meio assombrado e esconde histórias antigas e cabulosas. Por isso, a filha do dono do hotel, desde criança, não gosta dali. Agora adulta, ela tem medo de visitar o negócio da família no Inverno. Em um intrigado quebra-cabeça com doses generosas de terror, acompanhamos a viagem de Eliana até Pinamar. Recém-separada, a turista se hospeda no hotel sem imaginar o que lhe pode acontecer. Por sua vez, “Onde Está Você, Coração?” trata de um curioso e estranho fetiche. Uma moça sente atração sexual por pessoas com doenças pulmonares e, principalmente, complicações cardíacas. Não importa se é homem ou mulher, velho ou jovem, bonito ou feio, real ou literário. Se o(a) doente tiver arritmia cardíaca, cicatrizes provocadas por cirurgias e dificuldades respiratórias, a protagonista deste conto se sente atraída sexualmente. Isso começou quando ela era criança e viu algumas vezes o pai de uma amiguinha pelado. O homem tinha feito várias operações no coração e ostentava uma gigantesca cicatriz no abdômen. A oitava narrativa de “Os Perigos de Fumar na Cama” se chama “Carne”. Nesta trama, a imprensa argentina está em ebulição. O assunto que monopoliza a cobertura das televisões, rádios, jornais, revistas e portais da Internet do país inteiro, além das rodas de conversa das famílias e dos amigos no dia a dia, é a internação em uma clínica psiquiátrica de Mariela e Julieta. As duas são irmãs e têm 17 e 16 anos, respectivamente. Elas cometeram um ato inexplicável e bárbaro, que causou repulsão nacional. A loucura da dupla de adolescentes ocorreu após o suicídio de Santiago Espinho, uma estrela do rock argentino. Ele era amado pelas jovens do país inteiro. Em “Nem Aniversários Nem Batizados”, conhecemos Nico, um sujeito um tanto peculiar. Ele se tornou próximo da narradora do conto no Verão em que ela brigou com todos os amigos e familiares. O que os aproximou foi os hábitos noturnos, o gosto pelo cinema e, fundamentalmente, as conversas de madrugada nos chats online. Depois de largar o trabalho de passeador de cães, Nico se especializou em fazer vídeos estranhos. O rapaz era contratado geralmente por voyeurs. Suas gravações giravam em torno de casais com fetiche de serem vistos transando, de encomendas para pedófilos e solicitações de mulheres desfilando como modelos pelas ruas. Contudo, a solicitação que mais mexeu com ele foi a de Marcela, uma jovem que era atormentada por possessões demoníacas. Ninguém acreditava que ela era vítima de entidades paranormais. Assim, as filmagens de Nico poderiam ser a única prova que a moça e sua família tinham para colocar um ponto final naquela misteriosa e perigosa situação. “Garotos Perdidos” relata o trabalho de Mechi nos arquivos do Conselho dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes da Prefeitura de Buenos Aires. Funcionária pública há muitos anos, a protagonista se sente, pela primeira vez, gostando de algo que faz profissionalmente. Sua função é catalogar os casos de meninos e jovens desaparecidos na cidade. A maioria das ocorrências são de menores de idade que escaparam dos maus tratos e dos abusos em casa ou que foram sequestrados para integrar a rede de prostituição infantojuvenil da América do Sul. Não é preciso dizer que as principais vítimas são do sexo feminino. De todas as situações trágicas registradas, a que mais chama a atenção de Mechi é a de Vanadis, uma linda jovem de 15 anos. A menina está desaparecida há cerca de um ano e a família não parece nem um pouco preocupada. “Os Perigos de Fumar na Cama” é o décimo primeiro conto da coletânea de Mariana Enriquez e a narrativa que empresta seu nome ao título da publicação. Essa história começa em uma noite de Primavera um pouco fria em Buenos Aires. Paula é despertada pelo forte cheiro de fumaça que toma conta de seu apartamento. Pela janela, ela vê o incêndio no prédio em frente. Na manhã seguinte, o porteiro fofoqueiro conta em detalhes a tragédia para Paula. Uma velhinha paralítica adormeceu com o cigarro aceso entre os dedos. As cinzas caíram na coberta e, pronto, o fogo se alastrou rapidamente pelo cômodo. A senhora morreu queimada. Na noite seguinte, Paula tem uma ideia diferente para se masturbar no silêncio e na privacidade de sua cama. Por fim, “Quando Falávamos com os Mortos” mostra cinco amigas adolescentes que gostavam de interagir com os espíritos pela brincadeira do copo. Elas tinham um tabuleiro de ouija sensacional e haviam ficado muito boas na comunicação com o além. Depois de ser proibido de fazer as sessões mediúnicas na casa de Polaca, o quinteto passou a se reunir na residência de Pinóquio. Foi lá que testemunharam uma experiência estranhíssima, que até hoje não sabem explicar bem. “Os Perigos de Fumar na Cama” possui 144 páginas. Acho que levei em torno de três horas para percorrer integralmente seu conteúdo na semana passada. Minha leitura se dividiu basicamente em uma sessão noturna na quarta-feira (de aproximadamente duas horas) e algumas sessões diurnas na quinta-feira (que devem ter totalizado mais ou menos uma hora). Essa segunda perna do trabalho foi feita nos deslocamentos por Buenos Aires entre uma palestra e outra do Festival Borges, indicação preciosa de uma chica preciosa. A primeira característica que me chamou a atenção em “Os Perigos de Fumar na Cama” é a pegada escatológica de seus textos. Todas as narrativas de Mariana Enriquez usam e abusam de cenas e sensações nauseantes. Preparem-se, senhoras e senhores, porque é preciso ter estômago forte para percorrer esses contos. Nesta leitura, acompanhamos, por exemplo, uma morta se decompondo fetidamente, a jovem que coloca o sangue da menstruação na bebida do amado, as irmãs que comem carne de gente morta e a mulher que adora tocar em cicatrizes, pus e doenças. Vômito, catarro, fezes, suor e sangue aparecem do início ao fim desse livro. Por isso, considerei essa obra com fortíssimos componentes naturalistas. Talvez o correto seja apontá-la como sendo um título do Novo Naturalismo ou do Neonaturalismo. Outro elemento marcante desta publicação de Enriquez é a violência. É até difícil listar todas as atrocidades verificadas ao longo de “Os Perigos de Fumar na Cama”. Admito que comecei a anotá-las, mas depois perdi a conta. Racismo, assalto, assassinato, espancamento, machismo, estupro, canibalismo, pedofilia, suicídio, saques, rituais satânicos, vingança, corrupção, preconceito social, machismo, xenofobia e prostituição são alguns crimes e barbaridades que registrei. Contudo, saiba que há muito, muito mais. Quando disse que é preciso coragem para seguir nessa leitura, não estava me referindo apenas aos elementos nojentos. Ter que encarar tanta violência é algo difícil para as almas mais fracas e para os corações mais puros. Aí o Naturalismo dá lugar para o Brutalismo – abraço póstumo Rubem Fonseca. Essa mistura de escatologia e brutalidade confere uma marca extremamente pessoal à literatura de Mariana Enriquez. Por isso, acho graça quando alguém compare as narrativas da escritora argentina aos textos de Stephen King, autor de “A Dança da Morte” (Suma das Letras), e de Edgar Allan Poe, autor de “Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias” (L&PM Pocket). Apesar de adorar esse trio de artistas, acho suas produções bem distintas. A única semelhança é talvez o gênero literário: terror. Portanto, Enriquez não é apenas uma voz extremamente moderna e poderosa da ficção sul-americana contemporânea como é também muito original na produção das narrativas aterrorizantes. Junto com o Realismo nu e cru da vida real e com o Brutalismo do cotidiano da América do Sul, temos doses generosas de fantasia. O mais adequado seria dizer que vários contos de “Os Perigos de Fumar na Cama” bebem do Realismo Fantástico, linha literária que marcou o Boom Literário Latino-americano. Apesar de não gostar muito de tramas fantásticas, admito que adorei o tempero desse expediente narrativo no trabalho de Enriquez. A escritora portenha soube equilibrar muito bem cada um dos ingredientes nas camadas de suas tramas: a inocência e a pureza da infância/adolescência; a crueldade e os perigos do mundo adulto; e o sobrenatural e o místico que ninguém de bom-senso consegue explicar. Exatamente por isso, confesso que achei esse livro mais parecido com a literatura de Julio Cortázar, autor de “Histórias de Cronópios e de Famas” (Best Seller), do que com o trabalho ficcional de King e Poe. Também há um humor inteligente, fino e ácido. Diria até que essa publicação tem a cara da comicidade argentina! Ora os contos são sarcásticos, ora são ao melhor estilo nonsense. Mesmo diante de tanto terror, ainda assim conseguimos rir (risadas de nervoso e envergonhada, claro) do que se passa nas páginas da coletânea. O melhor exemplo disso é a tranquilidade com que a narradora-protagonista de “O Desenterro da Anjinha”, a primeira narrativa da coleção, nos conta seu infortúnio. São hilários os detalhes sórdidos com que a mulher revela que um espírito em decomposição a segue para todos os lados da casa e da cidade. Isso é Julio Cortázar puro, Santo Deus! Outro aspecto que não poderia deixar de comentar é a forte sinestesia dos textos de “Os Perigos de Fumar na Cama”. Praticamente os cinco sentidos são despertados nessa leitura: a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. Desses, achei o predomínio do olfato. Há muito tempo não lia uma publicação que explorasse tão fortemente o sentido do nariz. É impossível caminhar por essas histórias de Mariana Enriquez e não notar o odor exalado por suas palavras. Incrível! É óbvio que essa coletânea de pequenas narrativas pertence ao gênero de terror. Eu não seria maluco de vir aqui na coluna Livros - Crítica Literária e dizer o contrário. Contudo, acho importante salientar a mescla saborosa com outros estilos literários. Há, nos contos, suspense, drama psicológico, aventura policial, trama histórica, realismo fantástico, ação naturalista, acontecimentos sobrenaturais e comédia. Tudo junto e misturado, como diriam os mais novinhos. A atemporalidade e a universalidade das tramas de “Os Perigos de Fumar na Cama” são outras características relevantes dessa obra. Lembremos que o livro foi lançado originalmente há 15 anos na Argentina e retratava a realidade aterrorizante de bairros suburbanos de Buenos Aires e de algumas cidades do interior do país. Em um mundo tão veloz como o nosso, uma década e meia é um espaço temporal gigantesco. Além disso, havia grande chance deste cenário específico não ser interessante aos olhos dos leitores estrangeiros. Entretanto, precisamos reconhecer que os conflitos, as personagens e os enredos desta publicação seguem atuais e bastante impactantes. Prova disso foi a ótima receptividade da obra pelo público nos Estados Unidos e na Inglaterra no ano retrasado. Outro aspecto que gostei bastante foi dos desfechos das histórias de Enriquez. A escritora portenha não é do tipo que deixa tão fechados os desenlaces dos contos (o que inviabilizaria a viagem criativa dos leitores), mas também não os deixa tão abertos (o que impossibilitaria uma linha conclusiva). Ou seja, ela fica no meio do caminho entre abrir demais e fechar excessivamente. Se isso não for a comprovação cabal da maturidade ficcional da autora (e dos ensinamentos da produção contista de Jorge Luis Borges e de Ricardo Piglia), não sei mais o que é uma boa literatura ficcional. As personagens centrais e as narradoras deste livro são quase sempre mulheres jovens. Na maioria das vezes, a trama gira em torno de dramas adolescentes ou infantis, que podem respingar para a fase adulta e até mesmo para a velhice. Há alguns contos em “Os Perigos de Fumar na Cama” em que a ação ocorre ao redor de figuras masculinas (estrela do rock, cameraman de filmes estranhos, mendigo bêbado, jornalista investigativo) ou de mulheres mais velhas (avó supersticiosa, bruxa do interior, filha do dono do hotel já adulta). Porém, os conflitos dos contos enfocam invariavelmente meninas e jovens do sexo feminino. Elas são as figuras principais dessa publicação. Outro elogio que preciso fazer para essa coletânea de histórias curtas é a originalidade do espaço narrativo. Se você acha, como eu pensava, que os contos se passariam em Buenos Aires e nas regiões mais turísticas da capital argentina, certamente esse livro trará surpresas positivas. Os cenários das tramas de “Os Perigos de Fumar na Cama” são quase sempre bairros afastados do Centro e cidades do interior do país. Em um ou outro caso, a ação se passa no exterior. Gostei de assistir a um panorama mais completo da Argentina (e menos conhecido pelos brasileiros que cruzam as fronteiras a lazer). O país apresentado por Mariana Enriquez é mais misterioso, violento, sobrenatural e imprevisível. É verdade que, como a maioria das coleções de contos disponíveis nas estantes das livrarias, esse livro tem altos e baixos. Algumas histórias são ótimas e inesquecíveis. Adorei “O Desenterro da Anjinha”, “Onde Está Você, Coração?”, “O Poço” e “Quando Falávamos com os Mortos”. Por outro lado, há também algumas narrativas pouco significativas, como “Rambla Triste”, “O Mirante” e “Os Perigos de Fumar na Cama” – sim, o conto que empresta seu título à obra é fraquinho. Porém, é válido dizer que no geral, o livro é muito bom. Quem é fã do gênero de terror, curte narrativas mais rápidas e não teme encarar cenários, situações e personagens envoltos em escatologia e violência (coloca o dedo aqui que já vai fechar!), certamente gostará da experiência de leitura proporcionada por Mariana Enriquez. Admito que ao fechar esta publicação, o sentimento que me bateu foi: preciso conhecer os trabalhos ficcionais mais premiados e recentes desta escritora argentina. Minha curiosidade agora é saber como é a qualidade de “Nossa Parte de Noite”, “Este é o Mar” e “As Coisas que Perdemos no Fogo”. Por isso, não se surpreenda se em breve eu voltar ao Bonas Histórias e à coluna Livros - Crítica Literária para analisar esses outros títulos literários de Enriquez. Afinal, é como eu sempre digo: enquanto o mundo gira, a gente lê; fazer o quê? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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- Talk Show Literário: Helena Matoso
Na primeira entrevista de 2024, Darico Nobar conversa com a protagonista de A Carne, o romance mais polêmico de Júlio Ribeiro e da literatura naturalista brasileira. [Uma exalação capitosa subia do palco, casava-se estranhamente à essência sutil que se desprendia das câmeras curiosas. Era uma excitação suavíssima de ser vista e ouvida, que relaxava os nervos e adormecia o cérebro. Lenita hauriu a sorvos largos esse ambiente embriagador, deixou-se vencer pelos amavios da televisão. Apoderou-se dela um desejo ardente, irresistível, de banhar-se das palavras frescas, de perturbar a consciência até então pacífica da boa gente. Circunvolveu-se os olhos, perscrutou toda a plateia, a verificar se alguém a censuraria]. Helena Matoso: Obrigado pelo convite, Ilustríssimo Senhor Darico Nobar. É um prazer estar neste programa tão respeitado e apreciado pela boa família brasileira. Darico Nobar: O Talk Show Literário é quem agradece a tua nobre presença, Exrna. Senhora Dona Helena. É para mim uma surpresa, uma revelação. Sabia que eras muito bem-educada, mas te supunha como são em geral as moças com especialidade as brasileiras – piano, canto, quatro dedos de francês, dois de inglês, dois de geografia e... pronto. Pois enganei-me. A senhora dispõe de erudição assombrosa, mais ainda, tem ciência verdadeira, é um espírito superior, admiravelmente cultivado. [A sua roupa branca recendia a retiver, a sândalo, a ixora, a peau d´Espagne. Era uma formosa mulher de cabelos muito negros. Moreno-clara, alta, muito bem lançada, tinha braços e pernas roliças, musculosas, punhos e tornozelos finos, mãos e pés aristocraticamente perfeitos, terminados por unhas róseas, muito polidas. Por sob os seios rijos, protraídos, afinava-se o corpo na cintura para alargar-se em uns quadris amplos para arredondar-se de leve em um ventre firme, ensombrado inferiormente por velo escuro abundantíssimo. Os cabelos pretos com reflexões azulados caíam em franjinhas curtas sobre a testa indo frisar-se lascivamente na nuca. O pescoço era proporcionado, forte, a cabeça pequena, os olhos negros vivos, o nariz direito, os lábios rubros, os dentes alvíssimos, na face esquerda tinha um sinalzinho de nascença, uma pintinha muito escura, muito redonda]. Helena Matoso: É por demais bondoso, senhor. Darico Nobar: Acabemos com essas excelências, com essas senhorias. A partir de agora será Lenita para cá, Darico para lá e... toca! Cerimônias só para a Igreja. [Atrás da mesa, o apresentador sorria. Era evidente o seu contentamento por conversar com uma figura tão simbólica da literatura naturalista]. Darico Nobar: Menina, você sabe que sou quase seu tio. Seu pai, o Doutor Lopes Matoso que Deus o tenha, era um dos meus melhores amigos. Se precisar de alguma coisa, mande-me chamar a qualquer hora, não tenha receios de me incomodar. Helena Matoso: Obrigada, não quero coisa nenhuma. Meu único desejo é paz de espírito e controle emocional para lidar com os impulsos carnais que me dominam vez em sempre. E, convenhamos, isso só depende de mim. Darico Nobar: Por falar em amigos, conheceste Júlio Ribeiro. Como ele é? Helena Matoso: Um gramático que se pode parecer com tudo menos com um gramático. Não usa simonte, nem lenço de Alcobaça, nem pincenez, nem sequer cartola. Gosta de porcelanas, de marfins, de bronzes artísticos, de moedas antigas. Tem, ao que creio, uma quantidade adorável, um verdadeiro título de benemerência – nunca fala, nunca disserta sobre coisas de gramático. Darico Nobar: Que observação mais perspicaz! É com uma mulher como você que eu devia ter me casado. Burro eu não sou, mas teria atingido níveis inimagináveis de inteligência se a tivesse tido para minha companheira de prosa desde os princípios. Inda se tivesse um filho ou um neto da sua idade para se casar com você... Helena Matoso: Escusa que me diga, mas saiba que eu não me quero casar. Darico Nobar: Como?! És uma mulher virgem, moça, bela, sábia, ilustrada, nobre e rica. Olha que mais cedo ou mais tarde é preciso que o faças. Helena Matoso: Algum dia talvez, por enquanto não. Darico Nobar: São Benedito há de dar a senhorita um marido bonito. [A moça solta uma grande risada]. Não sente falta de companhia às vezes, minha amiga? Helena Matoso: Em um momento, como por uma intussuscepção súbita, aprendi mais sobre mim do que em todos os longos estudos de fisiologia. Reconheci que a mulher superior, apesar da mentalidade prodigiosa, com toda a ciência, não passava, na espécie, de uma simples fêmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade orgânica do macho. Ou de outra fêmea. Aí invadiu-me um desalento imenso, um nojo invencível da solidão. Uma falta de complemento, um vazio imensurável, uma letargia que pede movimento e fricção. Se os planetas giram e o tempo não para de correr, ficar estático é antinatural. Darico Nobar: O mundo é assim mesmo. O que não tem remédio remediado está. Helena Matoso: Há horas que não cabe a razão. O desabrochar do intelecto não preenche a necessidade da carne. É como se a realidade vigorasse, como se os arcanjos de Milton, do alto imaculado do céu para o lodo sujo da terra, sentissem feridos pelo aguilhão da volúpia dos desejos mais íntimos. Espolinhamos nas concupiscências do cio, como uma coelha albina, como uma cabra, como um animal qualquer... é a suprema humilhação da luz e a maravilha libertina da escuridão. Darico Nobar: Teria amantes? Helena Matoso: Por que não, Darico? Não me importa as murmurações, os diz-que-me-diz da sociedade brasileira, hipócrita, maldizente. Sou moça, sensual, abastada, culta e inteligente. Tenho mais que gozar a vida. Escandalizam-se? Pois que se escandalizem. Darico Nobar: Não temes se arrepender depois, Lenita? Helena Matoso: Depois, quando ficar velha, quando quiser me aburguesar, viver como toda gente, casar-me, ter filhos, aí que não vou me arrepender da minha juventude. Por ora, é muito fácil. Tenho dinheiro. Não há de me faltar titulares, homens formados que se submetam ao jugo uxório que vou impor-lhes. Ao menor dos pedidos de sua ama, eles se atiram aos meus pés como vassalos cumpridores das suas obrigações feudais. Darico Nobar: Me contaram que a senhorita e o Sr. Manuel Barbosa ficaram muito próximos. Helena Matoso: Ele é um pobre diabo, caipirão, velhusco, achacoso. Caça por caçar, sem intuição poética, bestialmente, como qualquer caboclo. Bebe pinga em excesso. Verdade que viveu na Europa, mas ter estado por lá não muda a constituição de ninguém. Ele é o que eu esperava encontrar nos recôncavos do interior paulista – um tipo sem imponência, reles, abaixo até da craveira comum. Além disso, é casado. Darico Nobar: A mulher de Lesseps era uma mocinha nova, quase uma criança, e se casara por paixão. Ademais, o Sr. Barbosa não é velho, é homem maduro apenas. E, até onde sei, para a senhorita o casamento é uma instituição egoísta, hipócrita, profundamente imoral, soberanamente estúpida. Helena Matoso: É uma instituição velha de milhares de anos. Exatamente por isso, nada mais perigoso do que arrostar, contrariar de chofre as velhas instituições. Elas hão de cair, sim, mas com o tempo, a mesma lentidão com que se formaram, e não de chofre, como um relâmpago. A sociedade ainda vai estigmatizar por muito tempo o amor livre, o amor fora do casamento. Não serei eu que forçarei as mudanças. Não tenho nem esse poder nem tal pretensão. Darico Nobar: Tem visto o Sr. Manuel Barbosa constantemente? Helena Matoso: Há semanas Manduca partira da fazenda. Só tinha escrito uma carta ao coronel, sobre negócios, na qual lhe dava esperanças de salvar parte da fortuna da família. Manduca está sempre na estrada. Sua alma é de viajante, andarilho, aventureiro. Darico Nobar: Você tem algum sonho especial, Lenita? Helena Matoso: Sonho?! Sempre sonho com um gladiador forte, másculo, viril. Às vezes ele é violento. Às vezes carinhoso. Darico Nobar: Não é esse tipo de sonho que estou me referindo... Helena Matoso: Ele se avoluma no meu leito, toma atitude de bicho indomável que não pode ser contrariado. Baixa os braços, endireita-se e desce pelo meu corpo lânguido. Rolo com as delícias no eflúvio magnético do seu toque, como na água deliciosa de um banho tépido. Darico Nobar: Entendi. Helena Matoso: Sinto tremores súbitos percorrer todos os meus membros. Meus pelos hispidam-se em uma irritação mordente e lasciva, dolorosa e cheia de gozo. O gladiador revela sua nudez provocadora de suas forças viris. O contato não é contato frio e duro de uma estátua de bronze grega; é o contato quente e macio de um homem vivo e com sangue a correr pelas veias. Darico Nobar: Já entendi!!! Podemos mudar de assunto? Helena Matoso: Os lábios dele colam-se nos meus, seus braços enlaçam-me, seu interminável peito cobre meus seios delicados. Estremeço de prazer, mas de prazer incompleto, falho, torturante. Quando me revolvo na besta-fera do ardor do cio, na tonicidade nervosa do erotismo, no orgasmo fantasmagórico, a alucinação revela-se uma alucinação. Acordo molhada e decepcionada com a vida que era para ser e não é. Darico Nobar: Oh! Meus pecados! [O grito do apresentador ecoou pelo estúdio]. Pois é uma louquinha que se está a tagarelar sobre o que se passa nos recôncavos de sua alma. Isto é dinamite puro para a nossa sociedade conservadora e de mente limitada. Com certeza vai pilhar um formidável rebuliço. Helena Matoso: O que tenho pilhado é um formidável apetite por falar. Hoje hei tagarelar por todas as damas. Darico Nobar: Ó produção, anda, vai, traz conhaque lá de dentro, depressa. Helena Matoso: Vai beber conhaque, Darico? Darico Nobar: Você vai beber conhaque. Helena Matoso: Nunca provei tal coisa. Darico Nobar: Pois agora há de prová-lo. É o único meio de ganhares lucidez. [Veio o conhaque, um conhaque genuíno, velho, de 1848. Lenita bebeu um calicezinho, tossiu. Lagrimejaram-lhe os olhos. Achou forte, mas gostou. Repetiu. E repetiu mais uma vez. De repente, sentiu o efeito da bebida. As verdades foram contidas impiedosamente e a entrevista perdeu o sentido. O Talk Show Literário prosseguiu por mais meia hora. Contudo, o mais importante que Lenita poderia dizer já havia sido revelado quando estava sóbria. Ou, quem sabe, quando estava embriagada pela sinceridade nua e crua]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .
















