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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Filmes: A Conspiração Condor – Os horrores da Ditadura Militar por André Sturm

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • há 18 minutos
  • 15 min de leitura

A mais recente produção do cinema brasileiro sobre o regime político de exceção instituído pelo Golpe Militar de 1964 tem direção de André Sturm e é estrelada por Mel Lisboa. O longa-metragem aborda uma investigação jornalística sobre as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart ocorridas, respectivamente, em agosto e dezembro de 1976. Assim, o filme nacional mistura elementos ficcionais e episódios históricos para compor seu suspense dramático.


A Conspiração Condor (2026) é o filme brasileiro dirigido por André Sturm e estrelado por Mel Lisboa que está em cartaz nos cinemas nacionais

Nesta segunda quinzena de abril, dobrei as tradicionais visitas semanais às salas de cinema. O grande culpado foi a boa safra de títulos em cartaz. Obviamente que a queda súbita da demanda de trabalhos literários na EV Publicações me ajudou nesse recente mergulho no circuito comercial da sétima arte. É aquela velha história: há males que vêm para o bem. Ou deveria dizer que sei tirar leite de pedra? Escolha você o clichê que preferir. 


De forma sucinta, os filmes que conferi nos últimos dias foram: “Velhos Bandidos” (2026), produção nacional razoável de Cláudio Torres com Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta; “O Drama” (The Drama: 2026), thriller impecável de Kristoffer Borgli com Zendaya e Robert Pattinson; “O Estrangeiro” (L’Étranger: 2025), adaptação de François Ozon da novela homônima de Albert Camus; e “A Conspiração Condor” (2026), longa-metragem brasileiro dirigido por André Sturm e estrelado por Mel Lisboa.


Num primeiro momento, confesso envergonhado que fiquei inclinado a analisar, aqui na coluna Cinema, as duas produções internacionais. Afinal, como experiências audiovisuais, elas são muuuito mais interessantes e possuem beeem mais qualidades técnicas do que os títulos nacionais. Os fãs do cinema brasileiro que me desculpem pela sinceridade, mas o nível médio de nossos filmes continua abaixo do que vem sendo propagado como sendo a nova fase dourada da sétima arte do país. Não dá para acreditar nisso quando analisamos a maioria dos longas-metragens nacionais lançados no circuito comercial e, principalmente, quando os comparamos com os concorrentes estrangeiros.  


Suspense psicológico de patamar altíssimo, “O Drama” é aquele tipo de história que atiça nossas emoções e nos faz remexer na poltrona do cinema. Infelizmente, não levei a Bruxinha comigo nessa sessão. Aposto que ela iria adorar os sustos e as reviravoltas do enredo. Já “O Estrangeiro” é uma das poucas adaptações cinematográficas que concorre de igual para igual (isso é, se não for superior) com sua versão literária, clássico do existencialismo francês. Vamos combinar que ler Albert Camus nunca é algo fácil e tranquilo, né? Para completar, o filme de Ozon traz novos elementos quando comparado às várias produções da sétima arte dessa mesmíssima trama do Nobel de Literatura de 1957.


Roteirizado por André Sturm e Victor Bonini e protagonizado por Mel Lisboa, A Conspiração Condor (2026) é o thriller político sobre a Operação Condor

Por sua vez, “Velhos Bandidos” encanta pela qualidade técnica das filmagens e pelo elenco estrelado. Ainda assim, decepciona com um enredo previsível e uma trama pouquíssimo original. Além disso, não encerra a história no momento certo. Ao acrescentar uma cena a mais no desfecho, estragou a experiência da plateia. E “A Conspiração Condor” é um filme meramente regular. Seus principais atrativos são a atuação primorosa de Mel Lisboa, cada vez mais tida como uma das principais atrizes de sua geração, e o enfoque da Operação Condor, uma passagem política controversa da segunda metade do século XX. Porém, para quem conhece o mínimo de história (e não é negacionista das maldades promovidas pelos milicos), o longa de André Sturm não traz nenhuma novidade. Nenhuma!  


Agora deu para entender minha inclinação para debater “O Drama” e “O Estrangeiro”, hein? Porém, refletindo melhor aqui com meus botões, senti que “A Conspiração Condor” dialoga de maneira direta com “Ainda Estou Aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025), os filmes mais premiados do cinema brasileiro nas últimas duas décadas. É como se ele integrasse a recente trilogia cinematográfica dos horrores da Ditadura Militar brasileira. Enquanto a produção de Walter Salles mostra a perseguição real a uma figura pública (o engenheiro e deputado Rubens Paiva), o título de Kleber Mendonça retrata a caçada fictícia a um acadêmico pernambucano (personagem de Wagner Moura). Aí surge o novo longa-metragem de Sturm para jogar luz sobre a violência contra os jornalistas e os principais políticos do nosso país. Pronto: o ciclo se fechou.


“A Conspiração Condor” tem também tudo a ver com “Zafari” (2025), o drama da venezuelana Mariana Rondón que analisei em março no Bonas Histórias. Esse excelente representante do cinema sul-americano apresenta os horrores cotidianos que a população comum enfrenta sob o sistema ditatorial da dupla Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Ou seja, independentemente da matriz ideológica (direita ou esquerda), os regimes políticos baseados na censura, na violência e na imposição antidemocrática levam sempre as nações aos piores caminhos possíveis. Por mais claro que seja tal receituário, é bom sempre avisá-lo às novas gerações. Porque tem muitos povos que se esquecem disso e flertam com o autoritarismo.


Essa é a razão da minha mudança de planos e a confecção deste post sobre “A Conspiração Condor” na coluna Cinema. Se ele não é o melhor exemplar atualmente em cartaz nos cinemas (passa longe disso!), pelo menos tem aspectos que merecem nosso debate. Aposto que tem muita gente por aí que nunca ouviu falar da Operação Condor, né?! Tá vendo como é bom trazer antigos episódios do nosso país para o centro do debate!


Dirigido por André Sturm e estrelado por Mel Lisboa, A Conspiração Condor (2026) é o filme brasileiro que trata de uma investigação jornalística das mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart ocorridas em 1976

Lançado em 9 de abril no circuito nacional de cinema, “A Conspiração Condor” é o terceiro longa-metragem que André Sturm dirige. Suas produções anteriores foram “Sonhos Tropicais” (2001), drama sobre a Revolta da Vacina no fim do século XIX, e “Bodas de Papel” (2008), romance ambientado numa cidade fadada a desaparecer por causa da construção de uma hidrelétrica. Ou seja, todos os seus trabalhos na direção possuem olhares sobre eventos históricos marcantes do país, que afetam diretamente os protagonistas ficcionais dos filmes. Nesse sentido, “A Conspiração Condor” segue as propostas narrativas de “Sonhos Tropicais” e “Bodas de Papel”.


Enquanto ostenta um portfólio audiovisual extremamente tímido (três direções em um quarto de século) e de qualidade bem discutível (sendo muito otimista, seus filmes são meramente medianos), o cineasta gaúcho que completará em breve 60 anos de idade coleciona várias polêmicas. E quando emprego a palavra “várias”, não estou exagerando. Envolvido em uma série de denúncias de assédio sexual, assédio moral, conduta agressiva e abuso de poder, Sturm é provavelmente uma daquelas figuras tóxicas que nos lembram as personagens masculinas de “O Escândalo” (Bombshell: 2019), drama de Jay Roach baseado nas bombásticas revelações do que ocorria nos bastidores da Fox News, uma das principais emissoras de televisão dos Estados Unidos.


Nos últimos anos, o diretor brasileiro esteve mais envolvido com a política cultural do que com a produção artística propriamente dita. Por isso, até acho estranho seguir chamando André Sturm de cineasta. Juro que o vejo mais como ativista político (com propostas para lá de duvidosas) e operador cultural (com entregas risíveis). Por exemplo, à frente da gestão do Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) e da secretaria da Cultura da cidade de São Paulo, Sturm colecionou outra avalanche de polêmicas. Agora não estou falando de seus comportamentos controversos e sim dos resultados concretos de seus trabalhos. Ele é acusado pelo Ministério Público de São Paulo de organizar licitações fraudulentas e de promover o desmonte de programas artístico-culturais do Estado. Não por acaso, foi ejetado da administração pública.


Com o rabinho entre as pernas, André Sturm retomou à atuação na sétima arte, onde nunca foi uma figura bem-quista pela maioria dos colegas. Tenho uma amiga atriz, por exemplo, que o odeia profundamente. Seu ódio é tão grande ao ponto de só chamá-lo pelo apelido nada cheiroso de “Strume”. Mesmo não conhecendo o diretor pessoalmente e não sabendo se essa campanha contra sua imagem é “intriga da oposição” ou fruto de seu “caráter incompreendido”, confesso que acho hilário o apelido advindo de um anagrama da quinta série. É esse o cineasta, senhoras e senhores, que está por trás da produção que vamos debater hoje no Bonas Histórias. Como sabemos separar o artista da obra (um pré-requisito da crítica cultural), seguimos em frente diante de tanto barulho (e do odor nada agradável no ambiente).


Terceiro longa-metragem dirigido por André Sturm, A Conspiração Condor (2026) é o suspense dramático ambientado na década de 1970 que aborda um dos eventos mais polêmicos da Ditadura Militar brasileira

Sturm (acho que voltei a digitar corretamente seu sobrenome!) escreveu o roteiro de “A Conspiração Condor em conjunto com Victor Bonini, escritor, jornalista e documentarista paulistano. No elenco desta produção, além da já citada Mel Lisboa, temos Dan Stulbach, Maria Manoella, Nilton Bicudo, Zé Carlos Machado, Liz Reis, Lavínia Pannunzio, Luciano Chirolli, Marat Descartes, Douglas Simon e Bri Fiocca. Há também uma participação especial de Pedro Bial no final do longa-metragem. O apresentador global faz a versão ficcional de Carlos Lacerda. Provando que não perde a mania de querer aparecer, Sturm arranjou um jeitinho para atuar em algumas cenas do filme.


Com orçamento de aproximadamente R$ 7 milhões e apoio do ProAC (Programa de Ação Cultural), tradicional ferramenta de fomento da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Governo de São Paulo, “A Conspiração Condor” foi gravado no centro histórico de Iguape, cidade do litoral sul de São Paulo. As filmagens aconteceram entre novembro e dezembro de 2024. O filme aproveitou o ar nostálgico da arquitetura do município ao lado de Ilha Comprida para recriar a atmosfera da década de 1970.


Sua estreia ocorreu em outubro de 2025, no Festival de Cinema do Rio. É bom dizer que, naquele momento, “A Conspiração Condor” não chamou muita atenção do público e da crítica cinematográfica. A impressão é que todos só tinham olhares para “O Agente Secreto” e para o surpreendente “Pequenas Criaturas” (2026), drama histórico de Anne Pinheiro Guimarães que chegará neste ano às salas de cinema. Quando estrear no circuito comercial, quero comentar “Pequenas Criaturas” na coluna Cinema.


Antes de analisar detalhadamente “A Conspiração Condor”, acho válido apresentar seu enredo. O filme começa em agosto de 1976. O país é abalado por uma notícia trágica: o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK) morreu num acidente automobilístico na Rodovia Dutra. O veículo do político mineiro bateu num ônibus, atravessou a pista e se chocou de frente com um caminhão que vinha no sentido oposto. Com o impacto violento, tanto o motorista do carro de Juscelino quanto o ex-presidente morreram na hora.


A informação causa rebuliço na mídia nacional. Ciente da importância do caso, o Notícias de São Paulo, um dos principais diários da capital paulista, envia para Brasília uma dupla de repórteres: Marcela (Maria Manoella) e Silvana (Mel Lisboa). A ideia é que as jornalistas cubram de perto o funeral e o enterro de JK na Capital Federal. Assim, o periódico terá farto material exclusivo para destacar nas próximas edições. Enquanto Marcela, uma experiente e premiada profissional da mídia impressa, é a responsável pelas pautas políticas do jornal, Silvana, uma jovem jornalista em busca de espaço, é a encarregada de produzir a coluna social.


Estrelado por Mel Lisboa e dirigido por André Sturm, A Conspiração Condor (2026) é o thriller político nacional que retrata uma investigação jornalística da década de 1970

Alguns dias mais tarde, ao retornar para São Paulo após as cerimônias fúnebres, a colunista social nota que algumas testemunhas do acidente de JK apresentam depoimentos contraditórios com que está sendo divulgado pela imprensa. Cansada da rotina de escrever pautas fúteis da socialite paulistana, Silvana inicia uma investigação própria sobre o caso. Afinal, o que aconteceu naquele trágico episódio na Rodovia Dutra, hein? As únicas certezas são que a verdade passa longe do que seu jornal e os demais órgãos de imprensa estão divulgando e que tanto Marcela quanto o editor-chefe do Notícias de São Paulo não estão interessados em descobrir o que realmente levou à morte do ex-presidente.  


A suspeita da protagonista do filme é que Juscelino Kubitschek foi vítima de um atentado em dezembro de 1976. Outro ex-presidente carismático morreu em circunstâncias muito estranhas. João Goulart, que vivia no interior da Argentina desde que fora destituído do poder pelo Golpe de 1964, faleceu de um ataque cardíaco. Ele acabara de fazer uma bateria de exames clínicos que apontaram que sua saúde estava ótima. Ou seja, o infarto foi súbito e inexplicável. Seria coincidência que dois ex-presidentes brasileiros extremamente populares e críticos à Ditadura Militar morreram num intervalo de quatro meses?!


Com a ajuda de Juan (Dan Stulbach), um jornalista brasileiro radicado há muitos anos em Buenos Aires, Silvana viaja para o país vizinho para entrevistar a viúva de Jango. Quanto mais a moça investiga, maior é sua certeza de que as principais lideranças civis da política brasileira estão sendo assassinadas. Quem estaria por trás desses crimes?


É nítido que Silvana está remexendo em assuntos espinhosos. O Brasil é uma Ditadura Militar que governa à base da censura e da perseguição aos opositores. O AI-5 fora decretado em dezembro de 1968 e seguia em vigor. Por isso, todo cuidado é pouco na investigação da colunista social. Como únicos aliados, Silvana tem Juan, que além de colega é um amigo próximo, Marcela, que foi convencida pela jovem colunista social da gravidade da situação, e Floriano (Nilton Bicudo), o censor do jornal que nutre forte admiração pela bela moça. Esse trio dará, cada qual de uma forma diferente, apoio para que a personagem central do longa-metragem busque a verdade.


E qual é a verdade nesse caso, senhoras e senhores? Sem correr risco de dar spoilers aos leitores da coluna Cinema, até porque o título desta produção faz referência explícita à operação secreta fartamente divulgada por historiadores, os culpados são os milicos, claro. Afinal, quem são os grandes vilões da sétima arte brasileira contemporânea, hein? Eles! Os militares nacionais são retratados como os responsáveis por jogar o país num ambiente de obscuridade, violência e censura.


A Conspiração Condor (2026) é a mais recente produção do cinema brasileiro sobre o regime político de exceção instituído pelo Golpe Militar de 1964

A Operação Condor foi a parceria secreta estabelecida na década de 1970 entre as Ditaduras Militares da América do Sul para perseguir, torturar e eliminar os opositores que fugiam para o exterior. Em meio à Guerra Fria, os Estados Unidos incentivaram e participaram ativamente das ações internacionais que pudessem colocar em risco a manutenção do poder na região. Assim, a máquina de contraespionagem sul-americana foi direcionada à caça das principais figuras que ameaçavam a hegemonia política dos militares.


A partir desse cenário, JK e Jango (e mais tarde Carlos Lacerda) seriam vítimas da Operação Condor. É claro que não há provas concretas de que os populares políticos brasileiros foram assassinados por ordem dos milicos de Brasília. Contudo, as suspeitas se avolumam até hoje, o que alimenta as versões conspiratórias de historiadores e jornalistas. Se não é possível confirmar tais assassinatos, ao menos nos restam dúvidas sobre a parcialidade das investigações policiais realizadas na época. Como diria o velho bordão de Dona Milu, personagem clássica interpretada por Miriam Pires, na telenovela “Tieta” (1989): "Mistéeeerio!".


Com quase duas horas de duração, “A Conspiração Condor” é um thriller político ancorado na tensão dramática. Por mais que saibamos o que a investigação da personagem de Mel Lisboa apontará (afinal, os fatos relatados são de domínio público), a agonia da plateia é pelo que pode acontecer com a jovem jornalista à medida que se aproxima da verdade. Por isso, enxergo o novo filme de André Sturm como sendo um suspense psicológico. Obviamente, há também fortes características de drama histórico e de filme sobre investigação jornalística, uma linha narrativa mais comum do cinema norte-americano do que do cinema brasileiro. Vem daí a sensação de estarmos acompanhando a versão nacional (e de má qualidade) de “Todos os Homens do Presidente” (All the President's Men: 1976), clássico que está completando em 2026 meio século de lançamento.


Um dos pontos elogiáveis de “A Conspiração Condor” é a excelente tensão dramática gerada do início ao fim. O longa-metragem de André Sturm consegue prender a atenção do espectador e criar uma atmosfera de forte suspense. O empenho de Silvana para descobrir a verdade se choca frontalmente com a enorme teia de inimigos, muitos deles ocultos e poderosíssimos. Em quem a moça pode confiar? Quem são seus principais adversários?! Não sabemos até conferir o desfecho da trama. Enquanto isso, tememos o que pode acontecer com a destemida e bela jornalista.      


Estrelado por Mel Lisboa, A Conspiração Condor é o longa-metragem sobre uma investigação jornalística das mortes suspeitas de Juscelino Kubitschek e João Goulart em 1976

Outro aspecto positivo deste filme é a excelente reconstituição histórica. Nota-se o primor dos cenários, dos figurinos e da fotografia, que emulam os anos 1970. Nesse sentido, a escolha de Iguape como local das filmagens se provou acertadíssima. A cidade litorânea preserva casas e prédios que lembram bastante os da capital paulista de 50 anos atrás. Realmente, a plateia não tem qualquer dificuldade para se sentir num drama de época.


A sensação de estarmos num thriller histórico é potencializada pela mescla de cenas fictícias com filmagens reais. Adorei essa mistura. Como se fosse um documentário (e não um longa-metragem ficcional), “A Conspiração Condor” recorre a vários vídeos, áudios e fotografias da década de 1970. Estão ali o plantão do Jornal Nacional, gravações originais das multidões, cenas reais de políticos, imagens do acidente de JK e as manchetes dos principais jornais do país. Se é para recriar o ambiente da época, nada melhor do que se valer diretamente do acervo verídico que temos à disposição, né? O mérito aqui foi saber dosar as duas partes do filme: os elementos ficcionais (em imagens coloridas) e os elementos reais (em imagens em preto e branco).


Não dá para falar de “A Conspiração Condor” e não citar a atuação memorável de Mel Lisboa. Depois de um trabalho espetacular como Rita Lee nos palcos, que lhe rendeu o Prêmio Shell de Teatro de 2025, a atriz gaúcha de 44 anos volta a encantar a plateia. Não é errado vê-la atualmente como uma das melhores atrizes de sua geração. Talvez o grande público ainda se lembre mais de Lisboa como a Anita, de “A Presença de Anita” (2001). Apesar do começo em altíssimo nível (mostrando uma maturidade rara para alguém que acabara de se tornar maior de idade), ela seguiu se aperfeiçoando nos últimos 25 anos, principalmente no teatro. Agora temos uma intérprete que consegue brilhar mesmo em uma produção de qualidade discutível.


Para encerrar a seção de elogios deste post da coluna Cinema, tenho que reconhecer a boa construção de personagens de “A Conspiração Condor”. A maioria das figuras retratadas no filme é redonda. Algumas até possuem elementos bem particulares. Temos a jornalista política premiada que não é nada simpática com a jovem, charmosa e talentosa colega de outra área. Há o censor que demonstra, acredite se quiser, ter um coração que bate pela repórter que deveria bisbilhotar. Conhecemos o profissional de mídia independente e bon vivant que atua no exterior, mas que segue cultivando muitos contatos importantes no país. E conferimos o drama do editor-chefe do diário que age com pragmatismo: quer vender seu jornal e impactar os leitores, mas não pode contrariar os interesses do governo de plantão.


Dirigido por André Sturm e estrelado por Mel Lisboa, A Conspiração Condor (2026) é o filme brasileiro que trata de uma investigação jornalística das mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart ocorridas em 1976

Diferentemente das opiniões que li na imprensa, achei a própria Silvana uma personagem redonda. Sua obsessão pela investigação clandestina e sua inocência em desafiar os militares sem temores são marcas de uma alma romântica, desajustada e imprudente. Vamos combinar que essas são características negativas para uma repórter investigativa que cobre um atentado provocado pela Operação Condor em plena Ditadura Militar, não é mesmo?    


Em relação ao roteiro, achei-o oscilante. Por um lado, ele cumpre o que promete e está bem estruturado – tem começo, meio e fim. Também gera uma tensão dramática constante e de altíssima intensidade. Em outras palavras, a roda do drama cinematográfico gira sem problema. Por isso, não dá para criticar o trabalho de André Sturm e Victor Bonini como roteiristas. A construção da história de “A Conspiração Condor” tem desempenho que “passa de ano”, mantendo-se na média do que encontramos atualmente no cinema comercial brasileiro.


Por outro lado, é inegável que o roteiro não inova em absolutamente nenhuma parte. O final é extremamente previsível, não chegando a surpreender o público com um paladar mais apurado para a sétima arte. Talvez um desfecho aberto caísse melhor nesse caso. Já a apresentação inicial do enredo é até boa visualmente. Os eventos que precedem a trama são exibidos por manchetes jornalísticas de veículos impressos (juntamente com os créditos do filme). Porém, os relatos mostrados não dialogam com o conflito do longa-metragem. Afinal, o que deveria ser contado ao público como introdução é a decretação do AI-5 em dezembro de 1968 e a intensificação da repressão estatal na primeira metade dos anos 1970. E o que foi relatado foi o Golpe de 1964. Esse hiato temporal não faz o menor sentido do ponto de vista da lógica narrativa.  


Ainda assim, o que me causou mais incômodo foi que a trama não apresenta nenhuma novidade para quem já conhece a história do Brasil. Nenhuma! Sabe aquela sensação de se requentar uma conspiração há muito tempo debatida? Pois foi justamente essa a impressão que tive durante a sessão cinematográfica. O que Sturm traz como “grande revelação” é um compilado de “velhas informações” sobre um dos episódios mais sombrios da Ditadura Militar, que pode ser acessado pela imprensa contemporânea. É só ler jornais e revistas com o mínimo de qualidade para saber desses fatos.


Mas será que dava para fazer diferente? Acredito que sim. Prova disso é “Como Vender a Lua” (Fly Me to The Moon: 2024), a comédia romântica de Greg Berlanti protagonizada por Scarlett Johansson e Channing Tatum. A partir de uma velha teoria da conspiração (que as filmagens da chegada do homem à lua foram encenadas num estúdio de gravação na Terra), construiu-se um roteiro sagaz, divertido e encantador. Tá vendo como é possível, com talento e disposição, fugir do óbvio!  


Estrelado por Mel Lisboa e dirigido por André Sturm, A Conspiração Condor (2026) é o thriller político nacional que retrata uma investigação jornalística da década de 1970

Se os tropeços de “A Conspiração Condor” ficassem só no roteiro pouco inspirado, até avaliaria melhor essa produção. O problema é que, como produto cinematográfico, ele é tecnicamente muito, muito fraco. As tomadas de câmera beiram o amadorismo. A pegada deste filme é quase de telenovela. Há algumas cenas e efeitos visuais constrangedores.


O pior momento é quando as personagens de Mel Lisboa e Dan Stulbach se conhecem na Praça dos Três Poderes, no velório de JK. É evidente que os atores foram filmados num fundo verde e depois se acrescentou eletronicamente (mas de maneira muito porca!) a ambientação atrás. Meu Deus, vi filmes estrangeiros da década de 1960 e 1970 que conseguiram usar esse recurso de uma forma mais convincente do que “A Conspiração Condor”. Ao conferir essa cena, juro que minha vontade foi de me levantar da poltrona e deixar a sala imediatamente.


Por mais que o elenco de apoio tenha se mostrado esforçado, achei vários coadjuvantes muito fracos tecnicamente. E aí não estou comparando a produção de André Sturm com “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, filmes nacionais que se destacaram pelo trabalho de seleção e preparação do time de atores e atrizes, muitos deles amadores e/ou com pouquíssima experiência na sétima arte. O paralelo é com longas-metragens brasileiros mais comerciais que conferi recentemente, como “Velhos Bandidos” e “Barba Ensopada de Sangue” (2026), produção baseada no romance homônimo de Daniel Galera. No caso de “A Conspiração Condor”, as atuações de alguns atores e atrizes estão muuuito abaixo do que seria esperado para um título que chega ao grande circuito de exibição.


Um bom exemplo disso ocorreu com a escalação de Pedro Bial para interpretar Carlos Lacerda. Nota-se que o apresentador global não possui nenhuma similaridade física com o líder da UDN e não teve qualquer preocupação para emular a figura real que representava. Bial simplesmente foi Bial da primeira à última cena. Como permitem algo desse tipo num filme que se propõe a ser sério e recriar a ambientação de 50 anos atrás? Confesso que não tenho uma resposta plausível. Para mim, a atuação do antigo âncora do BBB como Lacerda foi uma das interpretações mais vergonhosas do cinema brasileiro recente. E digo isso com dor no coração, porque adoro o jornalista da Rede Globo (e ele não tem obrigação de ter talentos de ator).


A seguir, confira o trailer de “A Conspiração Condor” (2026), filme nacional que está em cartaz em várias salas de exibição do nosso país:



Sei que esse foi um post atípico da coluna Cinema. Quem está acostumado ao conteúdo do Bonas Histórias sabe que analisamos geralmente obras artístico-culturais de grande qualidade técnica e/ou trabalhos de figuras públicas que admiramos. Definitivamente, “A Conspiração Condor” não se enquadra em nenhuma dessas duas categorias. Ainda assim, vale destacar que o filme dirigido por André Sturm e protagonizado por Mel Lisboa merece nosso respeito e merece uma visita às salas de exibição. Se ele não chega aos pés de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, por exemplo, ao menos promove um diálogo interessantíssimo e complementar com os premiados títulos do cinema brasileiro. Só por isso, “A Conspiração Condor” tem a minha admiração.


Até a próxima crítica cinematográfica (literária ou cultural), senhoras e senhores.


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