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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Filmes: Zafari – A distopia neonaturalista de Mariana Rondón

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • há 6 minutos
  • 18 min de leitura

Lançado no início do mês nos cinemas nacionais, o longa-metragem da diretora venezuelana apresenta, através de uma alegoria sagaz do regime ditatorial de seu país, a atroz realidade de uma família de classe média que é vizinha ao zoológico de Caracas.


Zafari (2025) é o sexto filme de Mariana Rondón, uma das principais cineastas venezuelanas da atualidade

Neste que é o último post da coluna Cinema antes da cerimônia do Oscar de 2026, pensei em fazer a análise de um dos títulos candidatos à estatueta dourada da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Afinal, há cada produção espetacular em cartaz nos cinemas brasileiros desde o começo do ano, né? Certamente, vários filmes merecem os olhares atentos e estão no centro das discussões dos cinéfilos de plantão.


Na categoria geral, acho que o favorito à glória máxima na maior premiação mundial da Sétima Arte é “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” (Hamnet: 2025), drama histórico de Chloé Zhao (nota 9,5 no RCR – Ranking Cinematográfico do Ricardinho). Confesso que não vi nenhum concorrente nessa temporada que chegasse próximo à excelência deste memorável longa-metragem da diretora chinesa. Ele é até melhor, acredite se quiser, do que “Nomadland” (2020), trabalho que coroou Zhao como uma das principais cineastas de sua geração.


Na ala internacional, me parece barbada a vitória de “O Agente Secreto” (2025), thriller policial de Kleber Mendonça Filho (nota 9,25 no RCR). Sem qualquer ufanismo, ele é muuuito mais completo e interessante do que “Valor Sentimental” (Affeksjonsverdi: 2025), drama psicológico de Joaquim Trier (6,0 no RCR), e “Foi Apenas Um Acidente” (Yek Tasadef Sadeh: 2025), tragicomédia de Jafar Panahi (9,0 no RCR), seus principais rivais. Para ser bem sincero, a nova produção de Mendonça Filho é até superior a “Ainda Estou Aqui” (2024), o vencedor do Oscar do ano passado na categoria Melhor Filme Internacional. Daí o meu otimismo para o bicampeonato do Brasil neste evento que é a Copa do Mundo do Cinema.


Diante de tantos títulos com enorme qualidade cinematográfica, cogitei até mesmo outra ideia: comentar na publicação de hoje do Bonas Histórias um dos belos thrillers de terror que conferi na 1ª Semana do Cinema de 2026, promoção nacional ocorrida entre 5 e 11 de fevereiro. Para quem não ficou sabendo (perdeu, playboy!), várias redes de exibição ofertaram ingressos a R$ 10,00 para as sessões vespertinas e R$ 12,00 para as sessões noturnas. Isso no período do Pré-Carnaval. Dessa forma, conseguiram competir com alguma condição de igualdade (ou não!) com as folias que se alastraram pelas ruas de Norte a Sul do país. Não é preciso dizer que, por mais que goste dos bloquinhos, visitei diariamente as salas de cinemas na semana retrasada.


É claro que, pela perspectiva ventilada no parágrafo acima, o enfoque do meu texto crítico da coluna Cinema teria uma pegada muito mais comercial, o que também é muito bem-vindo para os verdadeiros cinéfilos. Muitas vezes, tudo o que desejamos é assistir a um bom entretenimento e nada mais. Jogue a primeira pedra quem nunca vivenciou esse sentimento!


Nova parceria da venezuelana Mariana Rondón com a peruana Marité Ugas, Zafari (2025) é o filme cuja produção envolveu seis países: Venezuela, Peru, México, Brasil, Chile e República Dominicana

Nesse caso, os suspenses aterrorizantes que mais curti nas visitas pré-carnavalescas às salas escuras foram “Socorro!” (Send Help: 2025), tragicomédia de Sam Raimi (nota 8,0 no RCR), e “A Empregada” (The Housemaid: 2025), thriller psicológico de Paul Feig adaptado do belíssimo romance homônimo de Freida McFadden (também 8,0 no RCR). Por falar nesse último filme, preciso deixar registrado: como a Sydney Sweeney é gaaata, Santo Deus! Se eu não fosse tão fiel a Scarlett Johansson, juro que... esqueça. Acho que já comecei a divagar. Desculpe-me Scarlettinha pelos pensamentos impuros que podem às vezes me perturbar. Deixe-me retomar, o quanto antes, ao fio da meada da publicação pretensamente séria de hoje!


Diante de tantos ótimos títulos, resolvi subverter a lógica e trazer para esta avaliação cinematográfica um longa-metragem que não figura na lupa dos jurados da Academia de Los Angeles nem ganhou a atenção de vultuosas plateias no circuito comercial. Quem disse que eu não consigo fugir do convencional, hein? Provando que também posso quebrar as expectativas, apresento, a seguir, a produção que mais me surpreendeu até aqui neste ano. Além de não ser cult nem blockbuster, adianto que o filme vem de um país com pouquíssima tradição na Sétima Arte, o que confere ainda mais graça a esta escolha pelo Bonas Histórias.


Acabando de vez com o suspense (inexistente pois o mistério está explicitado no título, no subtítulo e na imagem de abertura deste post), estou me referindo a “Zafari” (2025), o sexto longa ficcional dirigido pela venezuelana Mariana Rondón. Vale dizer que a cineasta, que hoje vive parte do ano no Peru e outra parte no México, vem obtendo cada vez mais destaque internacional, principalmente na América Latina. Esse drama extremamente ácido está em cartaz há duas semanas e meia no Brasil, mas não contou com grandes investimentos publicitários. Por isso, aposto que muitos assíduos visitantes das telonas não o notaram nas recentes idas às redes de exibição.


Mas será que o Cinema Venezuelano é mesmo bom, Ricardo?! Por favor, caros leitores deste blog cada vez mais esquecido nos recôncavos da internet em língua portuguesa! Deixem, por um momento, os velhos preconceitos e deem uma chance às novas possibilidades da Sétima Arte do nosso continente. Admito que foi exatamente o que fiz com “Zafari”. Essa é a primeira vez que discuto profissionalmente uma produção audiovisual dos queridos vizinhos do Noroeste da América do Sul e estou adorando a experiência.


Para quem pensa que a Venezuela só tem culinária apetitosa (dale arepas, taqueños, patacones, empanadas, dulce de lechosa y papelón con limón), mulheres bonitas (beijão, Ana Maria), vastos campos de petróleo (salve, salve, agente laranja!), educação pública de música erudita para crianças e adolescentes (alguém aí se lembra do Gustavo Dudamel?!), bons jogadores de beisebol (admito não conhecer nenhum por nome), música divertida (sou fã de Los Amigos Invisibles)  e praias paradisíacas (o que são as águas do Caribe venezolano, hein?!), alerto para a enorme injustiça cometida. Em um cenário artístico com cores próprias, há cinema de qualidade, sim, na terra de José Balza!


Thriller aterrorizante ambientado em Caracas no pior período socioeconômico do regime bolivariano, Zafari é o filme de Mariana Rondón que retrata o drama recente dos venezuelanos

Antes que alguém confunda o que disse nos últimos parágrafos, vou repetir: “Zafari” foi o filme mais surpreendente que vi neste bimestre. Isso não quer dizer que foi o melhor, tá? Ele recebeu nota 9,0 no Ranking Cinematográfico do Ricardinho. O posto de melhor é ocupado, até esse momento, por “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, a produção da Sétima Arte mais impactante e bonita desta temporada (e um dos melhores longas-metragens que vi na vida). Juro que ainda quero comentá-lo na coluna Cinema. Quem sabe não faça um post sobre esse trabalho impecável de Zhao logo depois de sua conquista no principal troféu do Oscar, né? Seria bem legal!


Ainda assim, é válido contar que “Zafari” vem logo em seguida de “Hamnet” no meu ranking de excelência do cinema de 2026. Ele está empatado com o espetacular “Foi Apenas Um Acidente”, melhor trabalho da carreira de Panahi. Portanto, o novo filme de Rondón superou vários candidatos à estatueta dourada de Los Angeles, como o chatérrimo “Valor Sentimental”, o pueril “F1 – O Filme” (F1 The Movie: 2025), ação de Joseph Kosinski com um roteiro inverossímil (RCR 7,0), o superestimado “Marty Supreme” (2025), drama histórico de Josh Safdie recheado de clichês (RCR 8,5), e o bom “Uma Batalha Após a Outra” (One Battle After Another: 2025), distopia cômica de Paul Thomas Anderson que chama mais atenção pelo conteúdo político-ideológico do que pela experiência proporcionada na sala de cinema (RCR 8,25).


E “O Agente Secreto”, Ricardinho do meu coração?! Não vai nos contar que você não o colocou na sua listinha mixuruca, né? Calma, calma, galerinha verde-amarela ora animada, ora raivosa. O longa de Mendonça Filho não foi citado aqui porque o assisti no ano passado. Portanto, ele foi colocado no RCR de 2025 – no segundo lugar, logo atrás de “O Brutalista” (The Brutalist: 2024), saga histórica de Brady Corbet. Assim, não é uma questão de esquecimento ou de omissão da minha parte. E sim de critérios objetivos de classificação.


De qualquer maneira, é incrível que um filme venezuelano possa bater superproduções hollywoodianas e europeias! Agora vocês entenderam a minha empolgação para fazer esta análise no Bonas Histórias (e o motivo do uso do termo “surpreendente” em meu texto)?! Juro que senti que devia priorizar o longa de Mariana Rondón diante de tantos títulos mais famosos e conhecidos, mas inferiores no impacto da experiência cinematográfica. Ainda não foi dessa vez que veremos a La Vinotinto jogar uma Copa do Mundo de Futebol. Porém, é bom notar que seu cinema faz bonito nas telonas internacionais.


Se alguém me perguntasse nos últimos dias: “Se eu pudesse ver só um filme neste mês no cinema, Ricardo, qual você indicaria?”. Juro que responderia na lata: “Hamnet” e “Foi Apenas Um Acidente” são os melhores, mas logo estarão disponíveis no streaming, sendo possível assisti-los mais tarde sem qualquer complicação. Assim, optaria por conferir “Zafari” nas telonas, pois não sabemos onde e quando será retransmitido tão logo deixe o circuito comercial de cinema. Isso é, se algum streaming o adquirir. E se já não deixou a programação das redes de exibição do nosso país, né? Ai, ai, ai. Tá vendo como é difícil ver títulos fora do eixo convencional?


Filme mais forte e simbólico de Mariana Rondón, cineasta venezuelana premiada internacionalmente, Zafari (2025) foi estrelado por Daniela Ramirez e Francisco Denis

Lançado no Brasil em 5 de fevereiro, “Zafari” – não o confunda, POR FAVOR, com “Safári” (Safari: 2018), documentário do austríaco Ulrich Seidl – é uma produção de vários países: Venezuela, Peru, México, Brasil, Chile e República Dominicana. Vamos combinar que sem esse apoio internacional, o novo trabalho de Mariana Rondón seria inviável. Ou alguém acredita que ela conseguiria angariar recursos da ditadura de Nicolás Maduro para rodar um filme extremamente crítico ao sistema bolivariano? Claro que não! Para termos uma noção do desafio da cineasta, “Zafari” sequer foi rodado em Caracas. Ele foi gravado em Lima e na Cidade do México, locais em que Rondón vive há mais de uma década. Assim como um quarto dos venezuelanos, ela teve que emigrar. Essa é a realidade que vemos justamente no enredo de seu trabalho mais recente.


Quando ainda vivia em sua terra natal, Mariana Rondón roteirizou e dirigiu “Postales de Leningrado” (2007) e “Pelo Malo” (2013), títulos que foram premiados em âmbito nacional. Em parceria com Marité Ugas, uma das principais cineastas peruanas da atualidade, Rondón também foi corroteirista e codiretora de “A La Medianoche y Media” (2000), “Lo Que Se Hereda No Se Hurta” (2007) e “El Chico Que Miente” (2011). Uma vez morando em Lima, continuou trabalhando com Ugas. Como roteirista, contribuiu com “Contatado” (Contactado: 2019), cuja direção foi da própria cineasta peruana, e com “Boca Chica” (2023), direção da dominicana Gabriella A. Moses.


Em suma, Mariana Rondón é uma profissional com vasta experiência na Sétima Arte. Após duas décadas e meia de ofício, ela chega agora à maturidade profissional. Não é exagero apontá-la como uma das principais figuras do cinema sul-americano e do cinema latino-americano da atualidade. “Zafari” é um longa-metragem brilhante, daqueles que ficam mexendo conosco muitos dias depois da sessão. Falo sobre isso com propriedade de causa. Quase um mês depois de tê-lo conferido na telona, sua narrativa e várias cenas ainda estão cristalinas na minha memória. Em outras palavras, esse é um filme perturbador!


No elenco de “Zafari”, temos o protagonismo da chilena Daniela Ramirez, de “Morte a Pinochet” (Matar a Pinochet: 2023) e “Quarteto Amigo” (Swing: 2018), e do venezuelano Francisco Denis, de “Uma Cidade de Loucura” (Chilangolandia: 2021) e da segunda temporada do seriado “Narcos” (2015-2018). Completam o time de atores e atrizes desta produção: os venezuelanos Samantha Castillo, Varek La Rosa e Alí Rondón (não, ele não é parente da cineasta apesar do sobrenome igual), o argentino Juan Carlos Colombo, o peruano Claret Quea e o mexicano Beto Benites.


É válido dizer que Marité Ugas participou, ao lado de Mariana Rondón, da confecção do roteiro deste filme. Para ser sincero com vocês, até hoje não consigo desvincular os trabalhos das duas cineastas. Tenho a sensação de que elas fazem tudo a quatro mãos. Talvez o correto seria pensarmos no cinema de Rondón-Ugas (ou de Ugas-Rondón, como queira) e não num cinema de Mariana Rondón e outro de Marité Ugas.


Lançado nos cinemas brasileiros em fevereiro de 2026, Zafari (2025) é o longa-metragem de Mariana Rondón que apresenta, através de uma alegoria do regime ditatorial da Venezuela, a atroz realidade de uma família de classe média que é vizinha ao zoológico de Caracas

Conferi “Zafari” em seu evento de pré-estreia no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, em 4 de fevereiro. Na sessão inaugural promovida pela Folha de São Paulo, estavam presentes os produtores brasileiros, a jornalista e historiadora Sylvia Colombo (por muito tempo correspondente em Mi Buenos Aires Querido), a escritora e roteirista venezuelana María Elena Morán e a repórter Daniela Arcanjo. Ao final da exibição do filme, houve um debate interessante sobre o título cinematográfico que vimos e a situação no país vizinho.


Mariana Rondón não participou da pré-estreia brasileira de “Zafari” porque estava na Cidade do México cuidando do lançamento de seu próximo longa-metragem, obviamente em nova parceria com Marité Ugas. Trata-se de “Ainda É Noite em Caracas” (Aún es de Noche en Caracas: 2025), adaptação do romance homônimo de Karina Sainz Borgo. Essa produção cinematográfica deve chegar nos próximos meses nos cinemas sul-americanos de língua espanhola. Por aqui, não há ainda previsão de estreia (provavelmente, não virá em 2026).


“Zafari” estreou em vários países (inclusive na América do Norte e Europa) em setembro de 2025. O motivo de seu atraso de aproximadamente cinco meses em terras brasileiras não foi divulgado. Minha suspeita é que a produtora brasileira comeu bola, mas isso é só uma ligeira suspeita da minha parte, tá?


A trama desta distopia política foi inspirada em fatos verídicos ocorridos em Caracas em 2017, no auge da crise econômica e social da Venezuela. No pior momento do regime criado por Hugo Chávez e mantido por Nicolás Maduro, quatro de cinco venezuelanos foram atirados à pobreza. Pesquisas de 2021 da Encovi, feitas pelas principais universidades locais, vão além e afirmam que o índice de pobres por lá chegou a 90%. A título de comparação, segundo a FGV Social (2025), 21,8% da população brasileira vive atualmente na pobreza, o que já é um valor bem elevado.


Voltando à realidade venezuelana daquela época... A inflação atingia índices de quatro dígitos (um dos maiores do mundo), a violência nas ruas se tornou epidêmica e a comida era artigo escasso, o que provocou uma forte onda de fome e, por consequência, migração para o exterior. Estima-se que sete milhões de venezuelanos tenham deixado o país nos últimos anos, algo como 25% de seus habitantes. Os principais destinos foram Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Equador, Brasil, México, Estados Unidos e Espanha.


Sexta produção ficcional da venezuelana Mariana Rondón, Zafari (2025) é o filme inspirado em uma história real ocorrida no zoológico de Caracas em 2017

Foi justamente nesse momento histórico que surgiu a informação de que a população vizinha ao zoológico de Caracas estava roubando animais selvagens para se alimentar. Obviamente, tratava-se de um caso extremo de desespero de pessoas famintas por qualquer tipo de proteína, mesmo de carnes exóticas. Dá para imaginar a cena, hein? Realmente é assustador!


Paradoxalmente, o governo venezuelano não viu o trágico episódio como um sinal da falência do seu sistema econômico. Para os poderosos do regime bolivariano, o roubo foi um crime comum, igual a tantos que ocorriam em todas as partes do planeta. Por isso, correram para repor rapidamente os animais surrupiados, para não afetar a experiência dos visitantes do zoológico. Vamos combinar que, muitas vezes, a realidade é mais atroz do que qualquer obra ficcional sanguinolenta escrita por romancistas, cineastas e dramaturgos.    


A partir das lembranças desse caso emblemático de seu país, Mariana Rondón construiu o enredo de “Zafari”. Como omitiu o espaço temporal e o espaço físico do drama da população faminta do filme, sua história adquiriu caráter atemporal e universal. Entretanto, pela composição da ambientação desta alegoria com fortes críticas sociais, conseguimos identificar claramente o cenário e o período da narrativa do longa-metragem: Caracas na pior fase da ditadura de Nicolás Maduro.       


O título deste thriller aterrorizante de Rondón remete ao nome do hipopótamo adquirido pelo zoológico ficcional. Sim, senhoras e senhores, já adentramos na descrição da trama do filme. Zafari é o animal de quase uma tonelada comprado do exterior pelo governo para abrilhantar as visitas do público no lindo parque natural no meio da capital do país. Como não têm dinheiro para contratar funcionários para o zoológico (o país está falido), as autoridades escalam uma família simples de uma favela próxima para cuidar da alimentação e do dia a dia do bichano. Em troca, vão receber algumas regalias do Estado.


A chegada da nova estrela do zoológico é conferida de camarote por outra família, a dos protagonistas. Eles têm um apartamento em frente ao parque, o que permite uma visão privilegiada da movimentação de Zafari. Ana (interpretada por Daniela Ramirez) é casada com Edgar (Francisco Denis). Bruno (Varek La Rosa) é o filho adolescente do casal. Apesar de residirem num edifício (que um dia foi) de classe média, nota-se que os tempos áureos ficaram para trás. A construção está abandonada pois muitos moradores já emigraram, sonho de quase todo mundo ali. Além disso, há falta sistemática de luz e água, um problema crônico da nação.


Um dos melhores exemplares do cinema venezuelano contemporâneo, Zafari é o filme de Mariana Rondón que retrata uma tragédia real ocorrido em Caracas durante a fase socioeconômica mais difícil do regime ditatorial de Nicolás Maduro

Ana e Edgar não saem do condomínio onde vivem. Temem a violência nas ruas promovida, principalmente, por gangues de motoqueiros, a versão local dos motochorros, chamados em Caracas de colectivos. Os criminosos, alguns com relação íntima com os governantes (não tente entender as particularidades sul-americanas, por favor!), vivem de saques indiscriminados a residências e comércios e atacam quem se arrisca a colocar os pés fora de casa.


Como a família não tem emprego ou qualquer remuneração, Ana passa o dia roubando os apartamentos vizinhos de seu condomínio. Ela busca comida e artigos de primeira necessidade, como sabonete, papel higiênico e remédio. Alguns lares estão desabitados há muito tempo enquanto outros foram deixados há pouco por seus moradores em fuga para o exterior, o que permite o saque pelos vizinhos. O dia a dia de Ana é constituído de furtos aos demais condôminos e, a partir do que adquire nessas visitas clandestinas pelo prédio, da preparação da refeição cada vez mais minguada para sua família.  


Por sua vez, Edgar vive em eterna prostração. Desempregado e sem ter o que fazer no lar, ele observa de binóculos a rotina do hipopótamo, que recebe diariamente bastante comida e tem uma rotina pra lá de tranquila, com direito a mergulhos na piscina natural do zoológico. Afinal, não há nada melhor para espantar o forte calor da metrópole caribenha do que banhos e mais banhos, né?


Contudo, o que mais deixa Edgar indignado é a presença cada vez maior dos vizinhos pobres na área de lazer de seu condomínio. Como ninguém do prédio usa o espaço da piscina, alguns moradores da favela ao lado se viram no direito de se banhar naquelas águas até então exclusivas aos moradores do edifício de classe média. Assistir aos invasores pobretões usufruírem de um bem particular do condomínio deixa o patriarca da família de protagonista revoltado. Mesmo com a fome generalizada e as situações de miséria absoluta em casa, o pior problema, na cabeça de Edgar, é aquela gente estranha usar a “sua” piscina.


Curiosamente, o único que parece gostar da chegada dos invasores folgados ao condomínio é Bruno. O filho de Ana e Edgar tem agora com quem brincar e conversar, estabelecendo amizade com boa parte da comunidade pobre da vizinhança. Enquanto interage naturalmente com os estranhos, o rapaz, como um típico adolescente, não abre a boca em casa, interagindo minimamente com os pais. Acabamos nem sequer ouvindo sua voz.


Filme mais surpreendente em cartaz nas salas de cinema do nosso país, Zafari é a nova produção da venezuelana Mariana Rondón que narra o drama de uma família vizinha ao zoológico de Caracas

Assim, o clima doméstico se torna cada vez mais tenso, insustentável. Quanto mais as carências básicas se acentuam, mais e mais os indivíduos passam a viver como animais e agir com extremo egoísmo. É cada um por si e Deus por todos. Ana não vê mais Edgar como marido. Ele não sente mais desejo pela esposa. E ambos se tornam estranhos para o filho. É o colapso total daquele clã, que uma vez já fora unido, feliz e harmônico.


Enquanto o bem-estar e a integridade familiar dos protagonistas entram em colapso total, os vizinhos pobres parecem viver muitíssimo bem, principalmente a família que cuida do hipopótamo. Eles promovem festas na favela, se divertem na piscina do condomínio dos bacanas, têm algum acesso a comida e artigos de primeira necessidade. Seria fruto de privilégios com o governo? Provavelmente. E até mantêm a vida sexual ativa, um luxo impensável para Ana e Edgar. Como consequência, são invejados pela antiga família de classe média, o que potencializa os atritos entre os dois lados. Afinal de contas: quem agora é miserável e quem tem um padrão de vida acima da média dos venezuelanos, hein?!


Enquanto acompanhamos um duplo confronto, entre a própria família de Ana e Edgar e deles com os vizinhos pobretões, Zafari segue com sua vidona de luxo e tranquilidade no zoológico. Entretanto, não demora para o hipopótamo se tornar alvo da inveja dos seres humanos da redondeza, cada vez mais desesperados por causa da miséria extrema e da fome absoluta, realidade que une a todos no país.


A esperança de Ana e Edgar é vender o jazigo da família no cemitério localizado fora do perímetro urbano de Caracas. Assim, terão dinheiro para fugir ao exterior, única solução para o problema que vivenciam. Diante de tantas dificuldades e carências, conseguirão encontrar uma luz no fim do túnel (que não seja um trem vindo em alta velocidade em suas direções)?! Uma vez se mudando para o estrangeiro, conseguirão retomar a vida como uma família normal e feliz? Esses são os grandes questionamentos das personagens principais do longa-metragem de Mariana Rondón. 


Com aproximadamente uma hora e meia de duração, “Zafari” é um suspense dramático com fortes tintas de Naturalismo. Talvez o mais correto seria classificá-lo como um título neonaturalista. Afinal, as pessoas adquirem, ao longo da trama, comportamentos animalescos e os animais ganham certa humanidade. Não por acaso, podemos ver este filme também como uma inteligente fábula contemporânea sobre as idiossincrasias dos regimes políticos autoritários dos séculos XX e XXI.


Filme mais forte e simbólico de Mariana Rondón, cineasta venezuelana premiada internacionalmente, Zafari (2025) foi estrelado por Daniela Ramirez e Francisco Denis

Aí não é uma questão meramente de ser uma narrativa sobre um governo de esquerda ou de direita, como algumas pessoas gostam de apontar o dedo dependendo de suas concepções ideológicas. Até porque, convenhamos, os polos políticos opostos são bastante parecidos quando resolvem esmagar a democracia e subjugar a massa populacional, né? Não há nada mais parecido com uma ditadura de esquerda do que uma ditadura de direita.


Por seu fortíssimo tom de denúncia social, “Zafari” é o melhor retrato artístico da realidade da Venezuela dos últimos anos. É curioso falar sobre isso, mas não temos, na Argentina e no Brasil, onde moro, a noção exata do que nossos vizinhos passaram/passam no sistema bolivariano da dupla Chávez/Maduro. Tenho amigos e familiares venezuelanos (a maioria emigrou há muito tempo para os Estados Unidos) que não conseguem externar (até hoje) tudo o que passaram em seu país natal. Obviamente, não contam as coisas mais pesadas que vivenciaram por lá. Daí a importância de filmes (e livros) que apresentem a vida nua e crua do povo comum. Muitas vezes, não há nada mais real e cruel do que uma boa ficção, né?


Em muitos sentidos, o longa-metragem de Rondón dialoga com o “Nós Que Vivemos” (Minotauro), romance clássico de Ayn Rand. A russa naturalizada norte-americana denunciou pelas páginas ficcionais as mazelas do autoritarismo soviético no início do século passado. Numa comparação mais cinematográfica e recente, “Zafari” complementa o conteúdo de “Uma Batalha Após a Outra”, título que mostra outro tipo de reação popular e várias dificuldades enfrentadas pela população em regimes autoritários de extrema-direita.  


Algo que me chamou muita atenção nesta trama de Mariana Rondón foi o excesso de confrontos simultâneos. Na telona, vimos os embates entre marido versus mulher, pais versus filhos, classe média versus pobres, velhos contra jovens, vizinhos contra vizinhos, população versus Estado, desfavorecidos (todos aqueles que não usufruíam das regalias do governo) versus casta de privilegiados (representada pela prima de Ana que a visita), seres humanos versus animais e carência nacional versus fartura do exterior. O tom de enorme tensão dramática de “Zafari” passa exatamente por esse acúmulo de conflitos, que se sobrepõem e só crescem durante a sessão.


Quem gosta de Semiótica (coloca o dedo aqui que já vai fechar!) ou da análise dos elementos simbólicos das tramas ficcionais, esse filme é um prato cheio (desculpe-me pelo infame trocadilho involuntário). Note a gigantesca carga representativa da piscina do condomínio, componente de segregação social e de afirmação de status econômico. Nesse sentido, o melhor paralelo a ser feito é com o filme brasileiro “Que Horas Ela Volta?” (2015), obra-prima de Anna Muylaert.


Novo longa-metragem dirigido por Mariana Rondón e coescrito por Marité Ugas, uma das principais duplas do cinema sul-americano contemporâneo, Zafari (2025) é a distopia política que apresenta o horror do regime ditatorial da Venezuela

E o que dizer do hipopótamo, hein?! O bichano pode ser visto como símbolo tanto do leviatã do Estado venezuelano – alguém aí se lembrou do longa-metragem russo "Leviatã" (Leviathan: 2014) de Andrey Zvyagintsev? – quanto da selvageria de Jean-Jacques Rousseau – juro que me recordei de “Flow”, a animação letã que conquistou a estatueta do Oscar de 2025.


Para os amantes da Sétima Arte, a intertextualidade cinematográfica vai além. Em muitos momentos, este filme remete diretamente a “Janela Indiscreta” (Rear Window: 1954), suspense clássico de Alfred Hitchcock ambientado na observação explícita aos vizinhos.


Quando encaramos a história de “Zafari” pela perspectiva simbólica, entendemos o papel alegórico de cada figura retratada no filme. Aí a produção de Mariana Rondón ganha ainda mais força narrativa e riqueza conceitual. As personagens extrapolam suas individualidades e representam determinados agentes sociais. Impossível não se encantar com essa expansão da realidade ficcional.  


Para completar, a fome extrema corrói a humanidade e a dignidade das pessoas. Alguém faminto perde o amor-próprio, além do amor pelo cônjuge, pela família, pela comunidade, pelo país, por sua espécie e pela natureza no geral. Uma vez ativado o modo sobrevivência, não há mais certo e errado. Na fome absoluta, não existem parâmetros ético-morais tão rígidos para serem seguidos. O que os indivíduos famintos são capazes de fazer?! Este longa-metragem venezuelano nos ajuda a responder a tal questionamento, como “A Sociedade da Neve” (La Sociedad de la Nieve: 2023), drama verídico do espanhol J. A. Bayona, fez de outra maneira.


A pegada aterrorizante de “Zafari” é construída também por elementos audiovisuais. O silêncio e a solidão das personagens são emblemáticos, principalmente quando elas são retratadas vagando sozinhas ou ficam muito tempo imóveis em ambientes claustrofóbicos. Os urros animalescos (vindos do zoológico ou das residências humanas), a cacofonia externa e o barulho incompreensível das ruas potencializam o medo da plateia. Tudo isso em contraste com a trilha sonora por vezes animada (mas com letra ácida), que promove a vontade das personagens em dançar. Os jogos de claridade (luz) e escuridão (sombras) dão certo aspecto noir à produção da diretora venezuelana e demonstra com exatidão a confusão psicológica, emocional e moral das pessoas retratadas.  


Assista, a seguir, ao trailer de “Zafari” (2024) para vocês terem a noção se minhas palavras aqui derramadas são exageradas ou se estão equivocadas:



Já aviso que esse é um filme forte, muuuito forte. É preciso coragem para encarar os dramas vivenciados pelas personagens de “Zafari”. Nesse sentido, achei seu desfecho contundente e acertadíssimo. Claro que não vou contar o que ocorre no desenlace do longa de Mariana Rondón, pois não damos o spoiler na coluna Cinema (e em nenhuma seção do Bonas Histórias). Ainda assim, adianto que o final desta história é fooorte! Um pouco previsível? Sim. De qualquer maneira, gostei de sua contundência e dramaticidade.


Talvez o maior problema de “Zafari” seja achar um cinema em que ele ainda esteja sendo exibido. Sei que há muitas cidades brasileiras (incluindo capitais estaduais) que não o receberam (e nem vão recebê-lo). Em São Paulo, até semana passada, ele podia ser conferido em uma sessão diária no Espaço Petrobras de Cinema, na Rua Augusta. No Rio de Janeiro, “Zafari” já deixou a programação do Kinoplex tanto do Shopping Boulevard quanto do West Shopping na metade do mês. Confesso que achei uma pena seu breve intervalo de exibição na metrópole carioca.


Por isso, quem encontrar esse filme em cartaz em sua cidade, corra para vê-lo. Certamente vocês não se arrependerão e dificilmente terão outra oportunidade para conferir “Zafari” nas telonas. E para os eternos foliões, peço desculpas por interromper momentaneamente seus festejos com pormenores da Sétima Arte.  Desejo um excelente Pós-Carnaval para todos, cinéfilos ou não.


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