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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Filmes: O Agente Secreto – O melhor longa-metragem de Kleber Mendonça Filho

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • há 11 horas
  • 20 min de leitura

Ambientado em Recife durante o Carnaval de 1977, o thriller noir do cineasta pernambucano é estrelado por Wagner Moura e será o representante brasileiro na próxima edição do Oscar. Lançado nos cinemas brasileiros em novembro, o quarto longa-metragem ficcional de Mendonça Filho já conquistou dois importantes prêmios na última cerimônia do Festival de Cinema de Cannes: melhor direção e melhor ator.


O Agente Secreto (2025) é o quarto longa-metragem ficcional de Kleber Mendonça Filho, um dos principais cineastas brasileiros da atualidade

Parece que o Brasil está virando o país do cinema. Depois do recente sucesso de público e de crítica de “Ainda Estou Aqui” (2024), obra-prima de Walter Salles que ganhou, entre outros importantes prêmios internacionais, o Oscar de 2025 na categoria Melhor Filme Internacional, temos agora um novo título com o qual nos orgulhar. “O Agente Secreto” (2025), quarto longa-metragem ficcional de Kleber Mendonça Filho, foi lançado no circuito comercial nacional em novembro e já coleciona algumas conquistas marcantes no exterior. Há até quem sonhe com o bicampeonato na cerimônia de março da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles (estou nesse grupo!) e quem considere esta produção até melhor do que a de Salles (também compartilho dessa opinião!).


Estaríamos vivendo, portanto, a melhor fase do cinema brasileiro do ponto de vista da qualidade de seus títulos mais chamativos?! Querendo responder a tal questionamento, e ciente do enorme potencial de “O Agente Secreto” tanto em termos de bilheteria quanto de competitividade nos mais relevantes festivais de cinema mundo a fora, corri para a sala de exibição no início de dezembro. Queria conferir esta produção o quanto antes para compartilhar com os leitores do Bonas Histórias minhas impressões. Afinal, a coluna Cinema não estaria atualizada e não se mostraria atenta às grandes novidades da Sétima Arte sem um post do filme brasileiro mais badalado da atual temporada, né?


Nesta ida à sala escura mais perto de casa, só não levei a Bruxinha comigo porque ela torceu o nariz quando a convidei para ver “O Agente Secreto”. “Filme nacional, Ricardo!? Tô fora!”, bradou como uma especialista em destruir meu coraçãozinho e como propagadora do velho preconceito contra nossa indústria cinematográfica. Por ser fã inveterada de terror, é difícil (para não dizer quase impossível) fazê-la ver outra coisa que não provoque susto e pânico. Às vezes, até assistimos a uma comédia romântica aqui e um thriller policial acolá. Mas isso é exceção da exceção e só ocorre no streaming. No cinema, o cardápio é sempre o mesmo: terror. Sabendo que não teria a viciante companhia da linda trambiqueira da Freguesia do Ó, fui sozinho ao Cinesystem do Bourbon Shopping Pompeia. Recém-chegado a São Paulo, confesso que me surpreendi (talvez o correto fosse falar que me entristeci) com o término do Espaço Itaú de Cinemas, que por muito tempo ocupou aquele local.   


Caso os leitores da coluna Cinema tenham estranhado a demora para eu analisar o thriller noir que é certamente a produção brasileira mais importante da temporada 2025/2026 (do segundo semestre do ano passado ao primeiro semestre deste ano), preciso justificar o meu ligeiro atraso. Dezembro é um mês complicado para apresentar críticas literárias e cinematográficas no blog. Nesse período, o conteúdo do Bonas Histórias acaba voltado mais para a comemoração do nosso aniversário, para a cerimônia do Melhores Músicas Ruins, para as retrospectivas do que melhor avaliamos na temporada passada e para os festejos de Réveillon.  Dessa forma, acabamos tendo pouca ou nenhuma publicação nas colunas Livros – Crítica Literária e Cinema, as mais populares do site e as mais recheadas de matérias.


Ambientado em Recife durante o Carnaval de 1977, O Agente Secreto (2025) é o thriller noir de Kleber Mendonça Filho que foi estrelado por Wagner Moura e que será o representante brasileiro na próxima edição do Oscar

Porém, isso não quer dizer que não esteja devorando livros da minha biblioteca doméstica e do Kindle. Nem que tenha abandonado as visitas semanais às salas de cinema. Além de “O Agente Secreto”, aproveitei o finalzinho de 2025 e o começo de 2026 para conferir “Foi Apenas Um Acidente” (Yek tasadef sadeh: 2025), suspense dramático do iraniano Jafar Panahi – que é outro favorito para o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026 –, “Sorry, Baby” (2025), drama ácido da norte-americana Eva Victor, “Vizinhos Bárbaros” (Les Barbares: 2024), comédia inteligentíssima da francesa Julie Delpy, e “Milonga” (2023), drama musical da uruguaia Laura González.


Desses títulos, uma verdadeira Copa do Mundo da Sétima Arte, o que mais gostei foi justamente o de Kleber Mendonça Filho. E aí não é patriotada da minha parte, não! Até porque tenho horror a esse termo. Lembremos da frase emblemática de Nelson Rodrigues (extraída da literatura de Samuel Johnson no século XVIII): o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Ao acompanharmos a política nacional e internacional contemporâneas, é impossível não concordarmos com essa mensagem, né? De qualquer maneira, quando o assunto é literatura, cultura, arte e entretenimento, o foco do Bonas Histórias desde o seu início em 2014, garanto ser totalmente imparcial nas minhas avaliações. Juro até que me esqueço que sou brasileiro.


Orçado em R$ 27 milhões, “O Agente Secreto” é o filme mais ambicioso de Mendonça Filho. O pernambucano de 57 anos é atualmente um dos nomes mais destacados do nosso cinema. Sem gravar no eixo Rio-São Paulo, ele roda suas produções invariavelmente no Nordeste e, ainda assim, coloca seus trabalhos em evidência tanto nacional quanto internacionalmente. Com um portfólio original e títulos ficcionais de ótima qualidade, Kleber Mendonça Filho se consolidou como um dos cineastas brasileiros mais criativos e autorais de sua geração.


Seu primeiro longa-metragem ficcional foi “O Som ao Redor” (2013). Orçada em R$ 1,8 milhão, essa trama girava em torno da dificuldade de uma rua de classe média de Recife em manter a paz e a ordem. Após alguns casos de violência, os moradores aceitaram (ou tiveram que aceitar!) a instalação de segurança privada no local, que rapidamente adquiriu tons de milícia. Além dos problemas típicos entre vizinhos, agora as famílias daquele cantinho da capital pernambucana passaram a conviver com novas questões envolvendo os seguranças privados que se sentiam donos do pedaço. A receptividade desta produção foi tão positiva que “O Som ao Redor” foi o representante brasileiro no Oscar de 2014. Contudo, não conseguiu passar da fase de pré-seleção.


O segundo longa de Mendonça Filho foi “Aquarius” (2016), história de uma senhora que resiste à especulação imobiliária na orla de Boa Viagem, bairro de classe alta de Recife. Enquanto a construtora e os vizinhos a pressionam para vender seu apartamento, um dos últimos com arquitetura antiga à beira-mar naquele pedaço da cidade, a protagonista se apega às lembranças, memórias e saudosismo dos bons tempos passados no antigo lar. Estrelado por Sonia Braga e com o dobro do orçamento do título anterior, “Aquarius” foi destaque em vários festivais cinematográficos internacionais, principalmente na França. Para termos uma ideia, ele foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e ao troféu de Melhor Filme Estrangeiro no Prêmio César de 2016. Contudo, perdeu para “Que Horas Ela Volta?” (2015), drama de Anna Muylaert, a indicação brasileira ao Oscar.


Longa-metragem mais ambicioso de Kleber Mendonça Filho, cineasta pernambucano premiado internacionalmente, O Agente Secreto (2025) foi estrelado por Wagner Moura e é um dos favoritos ao Oscar de 2026 na categoria Melhor Filme Internacional

“Bacurau” (2019) foi o terceiro filme ficcional do cineasta recifense. Orçado em R$ 7,7 milhões e novamente com Sônia Braga no elenco, a distopia que mescla pegada de Western com terror de ficção científica trata dos apuros de uma pequena vila do interior de Pernambuco que perde o contato com o mundo exterior. De repente, o povoado, que já era extremamente isolado no Sertão, sai literalmente do mapa e não tem mais acesso às demais cidades e aos habitantes da região. Sem entender o que está acontecendo, os moradores são atacados violentamente. Como ocorreu com os longas anteriores de Kleber Mendonça Filho, “Bacurau” foi aclamado pela crítica e fez bonito nos festivais internacionais, conquistando o Prêmio do Juri no Festival de Cannes. Inclusive, comentamos essa produção na coluna Cinema na época de seu lançamento no circuito comercial brasileiro. 


Pouco antes de “O Agente Secreto” ser produzido, Mendonça Filho dirigiu e roteirizou “Retratos Fantasmas” (2023), documentário sobre a história do Cine São Luiz, tradicional casa de exibição de filmes no Centro de Recife que foi inaugurada em 1952 e que ainda está em operação. No caso, o correto seria dizer que essa produção trata dos altos e baixos do edifício que é ícone da sétima arte da capital pernambucana e símbolo máximo da resistência cultural dos cinemas de rua no Brasil. Como esse cineasta não faz filme ruim, “Retratos Fantasmas” foi escolhido como representante brasileiro no Oscar de 2024, mas não foi finalista na categoria Melhor Documentário. É bom esclarecer que, além de ficcionista, Kleber Mendonça Filho é um documentarista de mão cheia. Entre longas e curtas-metragens documentais, ele possui oito títulos nessa categoria.


Por mais brilhante que seja seu portfólio cinematográfico até aqui, “O Agente Secreto” é indiscutivelmente a obra-prima do diretor pernambucano, ápice de sua carreira na sétima arte e na ficção. Em uma comparação inevitável, esse filme está para a cinebiografia de Mendonça Filho assim como “Ainda Estou Aqui” está para a trajetória de Walter Salles, “Cidade de Deus” (2002) para Fernando Meirelles, “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980) para Hector Babenco, “Bye Bye Brasil” (1979) para Cacá Diegues, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) para Glauber Rocha, “Vidas Secas” (1963) para Nelson Pereira dos Santos e “O Pagador de Promessas” (1962) para Anselmo Duarte. Essas citações não foram por acaso, senhoras e senhores. Elas integram, na minha visão, o panteão do cinema brasileiro.


Como é típico dos filmes de Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” tem em seu elenco a mescla de atores e atrizes conhecidos nacionalmente e intérpretes desconhecidos do grande público ou mesmo amadores. De figuras populares no Brasil, podemos destacar Wagner Moura, em outra atuação impecável, Maria Fernanda Cândido, Roney Villela, Gabriel Leone e Hermila Guedes. De gringos, cito a portuguesa Isabél Zuaa e o alemão Udo Kier, que faleceu no mês retrasado. Já a parte do elenco menos badalada, merece menção Tânia Maria, Alice Carvalho e Carlos Francisco. E quem debutou no cinema nesta produção ou apareceu pela primeira vez em destaque foi Laura Lufési, Kaiony Venâncio e Enzo Nunes.


O roteiro levou três anos para ser desenvolvido. As gravações ocorreram entre junho e agosto de 2024 em São Paulo e Recife. Coprodução de quatro países (Brasil, França, Holanda e Alemanha), “O Agente Secreto” foi lançado no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2025. Na badalada premiação europeia, o filme brasileiro recebeu muitos elogios da crítica e foi indicado à Palma de Ouro, mas perdeu para “Foi Apenas Um Acidente”. Ainda assim, Kleber Mendonça Filho e Wagner venceram, respectivamente, nas categorias Melhor Diretor e Melhor Interpretação Masculina, um feito histórico para o cinema brasileiro. A partir daí, o longa enfileirou várias indicações e algumas importantes conquistas nos festivais internacionais, o que o credencia como um dos favoritos à Premiação do Oscar de 2026 na categoria Melhor Filme Internacional.


Representante brasileiro no Oscar de 2026, O Agente Secreto (2025) é o quarto longa-metragem ficcional de Kleber Mendonça Filho e sua produção mais cara

No circuito comercial brasileiro, “O Agente Secreto” estreou em 6 de novembro. Enquanto nos Estados Unidos o lançamento ocorreu no final do mês retrasado (data limite para que dispute as estatuetas da Academia de Los Angeles), nos principais mercados da Europa ele deve chegar às salas de cinema até o fim de fevereiro de 2026. Em Portugal e Alemanha, por exemplo, o novo título de Kleber Mendonça Filho já está sendo exibido desde novembro. Na França, a estreia ocorreu em dezembro. Na Inglaterra, a previsão é que chegue aos cinemas só no mês que vem. Na América do Sul (abraço à galerinha de Mi Buenos Aires Querido), a expectativa é para a estreia no fim de fevereiro, poucas semanas antes da cerimônia do Oscar.   


Vale a pena dizer que a receptividade do público foi excelente no Brasil e no exterior. Com apenas um mês em cartaz, o suspense pernambucano, que tem fortes tons de ação policial e aventura de espionagem, levou aproximadamente um milhão de espectadores às salas escuras do nosso país e arrecadou mais de R$ 20 milhões por aqui. Assim, foi alçado à posição de filme brasileiro mais visto em 2025, ultrapassando “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” (2025), título infantil dirigido por Fernando Fraiha baseado no universo de Maurício de Souza. Os dados apresentados nesse parágrafo são da Comscore, empresa especializada na mensuração da audiência televisiva, cinematográfica, teatral e digital.


Vamos agora falar do enredo de “O Agente Secreto”. O filme começa às vésperas do Carnaval de 1977. Marcelo (interpretado por Wagner Moura) viaja de carro até Recife, sua cidade natal. Ele está de volta à capital pernambucana depois de muitos anos morando no Sudeste. Sua chegada, contudo, é envolta em mistério e muita apreensão. A única certeza é que o retorno não tem qualquer relação com os festejos de fevereiro que alegram a população local e os vários turistas. Com medo da polícia e do ambiente de violência que afeta tanto o país quanto a metrópole nordestina, o rapaz se abriga num apartamento alugado.


O edifício do novo apê de Marcelo é comandado por Dona Sebastiana (Tânia Maria), uma simpática e falante senhora que exerce o papel de síndica e mentora dos moradores. Ela explica ao recém-chegado que aquele lugar hospeda muitas pessoas que precisam se manter na clandestinidade. Do contrário, seriam alvo da ira dos militares, que permanecem no poder em Brasília e intensificaram, na virada dos anos 1960 para os anos 1970, a perseguição aos oposicionistas. Inclusive, a inquilina anterior do apartamento onde Marcelo está sumiu sem deixar notícias, o que entristeceu os vizinhos e Dona Sebastiana. No fundo, ninguém tem esperanças de que a jovem volte ou que seja encontrada viva.


Para a segurança de todos no prédio, cada morador do condomínio precisa utilizar um nome falso. Obviamente, Marcelo não é o nome verdadeiro do novato, que recebe documentos falsos com tal identificação assim que coloca os pés em Recife. Uma rede de apoio secreta é a responsável por fornecer o novo RG do rapaz e o abrigar naquele edifício. De maneira irônica, os residentes provisórios do prédio de Dona Sebastiana se autointitulam “refugiados”. Em comum, vivem escondidos, não podem revelar quem são, o que sabem e o que temem e são protegidos pela mesma organização clandestina. Os vizinhos de Marcelo são desde conterrâneos foragidos do governo brasileiro até perseguidos em Angola, que está mergulhada em uma ditadura de esquerda.


Em cartaz nos cinemas brasileiros desde novembro de 2025, O Agente Secreto (2025) é o quarto longa-metragem ficcional de Kleber Mendonça Filho, cineasta pernambucano com um impecável portfólio de filmes autorais

Para dar um ar mais normal à rotina de Marcelo na capital pernambucana, a equipe por trás de Dona Sebastiana (e da movimentação do rapaz para sua cidade natal), um grupo sem fins lucrativos que dá apoio oculto às vítimas da Ditadura Militar, emprega o protagonista do filme em uma repartição pública. Ele será o funcionário que cuida do arquivo do órgão que emite RG. Aproveitando o acesso à documentação antiga do Estado de Pernambuco, Marcelo procura por informações da mãe. Ele quer o RG materno como recordação da falecida mulher que o gerou. Obviamente, precisa fazer isso sem levantar suspeitas dos novos colegas.


Paralelamente, Marcelo contacta sua família verdadeira em Recife. Ou melhor, ele volta a interagir com os parentes de Fátima (Alice Carvalho), sua esposa recém-falecida. Nesse instante, descobrimos que o nome da personagem central do longa-metragem é Armando. O rapaz tem um filho, Fernando (Enzo Nunes), de mais ou menos 8 anos. O garotinho está sendo criado pelo avô materno, Seu Alexandre (Carlos Francisco), e sonha em voltar a viver com pai. O sogro de Armando trabalha no Cine São Luiz, no centro da cidade, e se mostra feliz com o retorno do genro, por mais que a presença dele suscite lembranças da filha morta.


Armando é um pesquisador acadêmico que teve problemas com Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), um industrial poderoso de São Paulo. O motivo da desavença foi uma patente científica desenvolvida pelo pernambucano quando atuava na principal universidade paulista. Esse trabalho traria problemas financeiros e mercadológicos para o rico empresário, que obviamente tinha amigos no comando do Estado de São Paulo e em Brasília. Assim, Ghirotti fez o possível e o impossível para destruir a carreira de Armando/Marcelo, inclusive manchando a reputação do acadêmico.


Vendo que suas intimidações não estavam resolvendo o problema com o desafeto, o industrial contrata dois matadores de aluguel: Augusto (Roney Villela) e Bobbi (Gabriel Leone). A missão da dupla é liquidar Armando, que desapareceu após a morte de Fátima. Dessa maneira, Augusto e Bobbi não perdoarão nenhum vacilo de seu alvo. Em outras palavras, a reaproximação de Armando/Marcelo com o sogro e o filho, contrariando as orientações do grupo de Dona Sebastiana para se manter oculto, se torna um movimento perigosíssimo para alguém jurado de morte.


Conseguirá Armando/Marcelo escapar da sanha sanguinolenta dos inimigos e voltar a viver com o filho de forma minimamente normal? É esse o suspense da produção cinematográfica brasileira mais ambiciosa desta temporada (e da carreira de Kleber Mendonça Filho).


Com Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Roney Villela, Gabriel Leone e Tânia Maria no elenco, O Agente Secreto (2025) é o filme brasileiro com maior potencial para conquistar prêmios internacionais em 2026

“O Agente Secreto” tem aproximadamente duas horas e 40 minutos de duração. Trata-se realmente de um filmão, merecedor dos elogios da crítica cinematográfica e da empolgação do público nas salas de exibição. Além disso, faz todo sentido a alta expectativa dos brasileiros por mais uma estatueta dourada na cerimônia da Academia de Los Angeles em março. Pelo que assisti até agora, o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026 deverá ficar entre “O Agente Secreto” e “Foi Apenas Um Acidente”, disparadamente o melhor longa-metragem da carreira de Panahi. Esses dois títulos são espetaculares. Como o foco deste post da coluna Cinema é o mais recente blockbuster brasileiro, comecemos agora mesmo a análise técnica dele. Afinal, foi para isso que viemos até aqui, né?


O primeiro aspecto que gostaria de enaltecer é o enredo inteligente e dinâmico de “O Agente Secreto”. Talvez esse comentário não surpreenda quem esteja acostumado a ver os filmes de Kleber Mendonça Filho. Conforme comprovado em “O Som ao Redor”, “Aquarius” e “Bacurau”, estamos diante de um excelente roteirista, que domina como poucos a arte da contação das histórias ficcionais. Ainda assim, o que me encantou nessa produção foi a maneira pouco didática da apresentação da trama, o que explora a inteligência do espectador. Por exemplo, existem dois tempos narrativos: o passado da Ditadura Militar (trecho relatado na sinopse do filme há alguns parágrafos) e o presente Democrático (que propositadamente ocultei para não estragar parte das surpresas do longa). O vai e volta das duas partes temporais é livre. Cabe a plateia entender o que ocorre em cada fase, o que convenhamos não é algo tão difícil de distinguir nesse caso.


O suspense também é potencializado com a exibição da narrativa a conta-gotas. No início, não sabemos quem é exatamente Marcelo e o que ele faz em Recife. Também não conseguimos desvendar qual é o interesse de Dona Sebastiana e os problemas do grupo de “refugiados”, apesar de desconfiar. À medida que sabemos a identidade do protagonista e o que Armando está fazendo na capital pernambucana, a história ganha um caráter metalinguístico. O passado da personagem de Wagner Moura é também a fonte da curiosidade da pesquisadora contemporânea da ONG que investiga as mortes e os desaparecidos da fase mais sombria da última ditadura brasileira. Aí se dá a brincadeira entre presente e passado. Em seguida, somos instigados a saber se o protagonista conseguirá escapar dos matadores de aluguel. Esse ar de mistério é a mola que faz o filme girar do início ao fim, em um excelente ritmo narrativo.


Por mais que o enredo e a cadência de “O Agente Secreto” sejam elementos elogiáveis, o diferencial desta produção de Kleber Mendonça Filho (principalmente se comparado a “Foi Apenas um Acidente”, seu maior rival no próximo Oscar) está nos aspectos não verbais. Melhor dizendo: o que salta aos olhos dos cinéfilos mais exigentes é o colorido da fotografia e a reconstituição impecável de Recife dos anos 1970. Por isso, tiro o chapéu para Thales Junqueira, diretor de arte, e Rita Azevedo Gomes, figurinista. O mais legal é notar o quão fidedignos eles foram com o passado e com a pernambucanidade da ambientação. Nos sentirmos realmente no Carnaval de 1977 e em Recife, em um mergulho profundo pela história e pela cultura local. 


Depois de ganhar duas premiações no Festival de Cinema de Cannes em 2025 (Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura), O Agente Secreto (2025) foi indicado a representante brasileiro na próxima edição do Oscar

Outro ponto que não pode passar batido nessa análise pormenorizada da coluna Cinema é a trilha sonora do blockbuster brasileiro. Aí os méritos são de Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, dupla encarregada da constituição musical de “O Agente Secreto”. As canções selecionadas conversam intimamente com o período histórico da trama e/ou com a identidade pernambucana do filme. Meus destaques vão para “Guerra e Pace, Pollo e Brace 1” na voz de Grazie Zia, “Retiro: Tema de Amor Número 3” do Conjunto Concerto Viola, “Love To Love You Baby” de Donna Summer e “Não Há Mais Tempo” de Angela Maria. É bom dizer que esta é mais uma produção ficcional de Mendonça Filho com trilha sonora impecável. Seus três títulos anteriores possuem essa mesmíssima característica. Ou seja, suas produções são completas da perspectiva audiovisual: servem para a contemplação visual e sonora.  


A atuação do elenco deste longa-metragem também deve ser elogiada. E aí não é apenas Wagner Moura quem brilha. Tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes vão muitíssimo bem. Prova maior do que estou dizendo é acompanhar o desempenho fantástico de Tânia Maria. Há seis anos, a artesã e costureira potiguar atuou como atriz pela primeira vez, aos 72 anos, em “Bacurau”. Ela foi tão bem naquela oportunidade que foi chamada mais uma vez para participar de um filme de Mendonça Filho. Em “O Agente Secreto”, seu papel foi maior. E novamente, Tania Maria encantou as plateias do mundo inteiro, chegando a roubar as cenas em que estavam presentes atores e atrizes profissionais de enorme fama e bastante experiência. Incrível, né?  


A graça deste longa-metragem está justamente no mix de atores e atrizes conhecidos do grande público com rostos desconhecidos ou em busca de ascensão na Sétima Arte. Essa mistura foi a maneira inteligente do cineasta recifense para explorar o colorido do Nordeste brasileiro (boa parte do elenco é de Pernambuco ou dos estados vizinhos) e para preencher os vários papéis que a história demandava. Repare na quantidade absurda de profissionais em cena. É muita, muita gente, o que exigiu um delicado trabalho de direção e a construção de um enredo que não confundisse a plateia. E posso garantir que o resultado é acima da média. Ninguém destoa e cada personagem retratada adquire particularidades marcantes.


Por mais que todos vão muito bem, Wagner Moura é a face visível da excelência como intérprete. As últimas cenas do filme comprovam a sua enorme competência para a atuação. Em seu melhor papel desde o inesquecível Capitão Nascimento, de “Tropa de Elite” (2007) e “Tropa de Elite 2” (2010), filmes de José Padilha, o ator baiano vem sendo muito elogiado nos festivais internacionais de cinema. Se 2025 foi o ano de Fernanda Torres, que chegou a disputar a estatueta de Melhor Atriz no Oscar, 2026 deverá ser o ano de Moura, que tem grandes chances de conseguir uma indicação da Academia de Los Angeles na categoria Melhor Ator. Torçamos por ele, senhoras e senhores!


Filme nacional mais assistido nas salas de cinema do nosso país em 2025, O Agente Secreto (2025), thriller noir roteirizado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, é um dos favoritos para conquistar o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026

Ainda que o público estrangeiro não consiga notar, “O Agente Secreto” tem um colorido regional. Sua história se passa em Recife e explora a cultura pernambucana com enorme felicidade. É uma delícia ver o sotaque, a paisagem, a música, a culinária, as roupas e a ambientação desse pedaço tão rico artisticamente do nosso país. Ou seja, ao mesmo tempo em que faz a reconstrução histórica da década de 1970, o longa-metragem de Kleber Mendonça Filho foca na realidade recifense. Adorei esse tempero nordestino do filme. É muito legal mostrar, por exemplo, que a violência estatal da Ditadura Militar não ocorreu apenas no eixo Rio-São Paulo, como muitos brasileiros do Sudeste acreditam. Ela se espalhou pelo país e atingiu a todos de Norte a Sul de diferentes maneiras.


Cinéfilo que é cinéfilo de verdade deve ter notado a forte intertextualidade cinematográfica desta produção. Há várias menções diretas e indiretas a outros filmes nesta obra. A citação mais explícita é de “Tubarão” (Jaws: 1975), clássico de terror de Steven Spielberg que completou no ano passado seu primeiro cinquentenário. Inclusive, fiz uma análise completa do blockbuster norte-americano há pouco tempo na coluna Cinema. Também há indicação a “Retratos Fantasmas”. Afinal, o Cine São Luiz é um importante componente da trama, se constituindo quase como uma personagem do enredo. O que pouca gente nota é que o nome de “O Agente Secreto” não tem relação com o papel desempenhado por Wagner Moura na narrativa. Ele não é um agente secreto. Esse é o título de um filme homônimo dos anos 1970 que está estampado nos letreiros do Cine São Luiz em uma cena. Confesso que não conheço esse título.


Terminada a seção de pontos positivos, preciso adentrar nesse momento nos pontos que ficaram aquém das expectativas. Afinal, estamos no Bonas Histórias, não é mesmo?! Aqui as avaliações das obras analisadas são imparciais e completas. Apresentamos simultaneamente o que gostamos e o que poderia ser melhorado. Com essa postura isenta e honesta, acreditamos que nossos leitores adquirem uma visão integral e real das manifestações artístico-culturais que debatemos.


O primeiro componente que não gostei em “O Agente Secreto” foi das passagens sobrenaturais da trama, que deram um caráter de filme B à produção brasileira. Por mais que os episódios que embasaram o roteiro de Mendonça Filho, como “a Perna Cabeluda” e “o gato de duas caras", tenham registros jornalísticos, ainda assim eles não combinaram em nada com o realismo brutal do restante da história nem se encaixaram à linha narrativa principal do longa-metragem. Ou seja, os considerei destoantes e desnecessários, além de reforçar no exterior o estereótipo de que a América do Sul é um lugar farto em eventos fantásticos. Vamos combinar que os episódios aparentemente sobrenaturais trazidos por “O Agente Secreto” foram muito mais recursos para vender jornal durante a década de 1970 e para desviar a atenção da população da verdadeira violência da época (aquela promovida pelo próprio Estado) do que acontecimentos que a ciência não soube explicar.


Roteirizado e dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, “O Agente Secreto” (2025) é o filme brasileiro ambientado em Recife durante o Carnaval de 1977

Outro elemento que pode prejudicar os voos desta produção em direção às estatuetas do principal festival do cinema internacional é a repetição temática. Lembremos que “Ainda Estou Aqui” ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional há menos de um ano ao explorar o assunto da perseguição da Ditatura Militar à população civil. Em nome do combate aos comunistas e aos terroristas de esquerda, o Estado brasileiro torturou e matou sistematicamente vários inocentes, sem se importar com Justiça e Direitos Humanos.


E agora temos outra vez essa mesmíssima linha narrativa, apesar das nuances distintas entre “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui”. Será que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles irá dar de maneira consecutiva o prêmio de melhor produção internacional para um país que traz temática similar à do ano anterior? Acho difícil. Diante de tantos assuntos para serem abordados, bater na mesma tecla parece uma perda de tempo e/ou uma forçação de barra. Acho que essa deve ser a visão e a crença da maioria dos jurados do principal prêmio cinematográfico mundial.  


Ainda assim, é bom dizer que a Ditadura Militar da América do Sul é um tema apreciado pelo público gringo e pelo júri da badalada premiação norte-americana. Nos recordemos que das quatro estatuetas do nosso continente na categoria Melhor Filme Internacional (antigamente chamada de Melhor Filme Estrangeiro), três títulos abordavam justamente os horrores perpetrados pelos fardados: os argentinos “O Segredo de Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009) e “A História Oficial” (La Historia Oficial: 1985) e o brasileiro “Ainda Estou Aqui”. A exceção (que só confirma a regra) é o chileno “Uma Mulher Fantástica” (Una Mujer Fantástica: 2017), longa-metragem que tratava do drama de uma cantora e dançarina trans em Santiago do Chile.


Do ponto de vista político, os Estados Unidos e boa parte da Europa estão atualmente muito parecidos com a América Latina das décadas de 1960 e 1970. Daí a força de livros e filmes latino-americanos que retratam seus antigos sistemas antidemocráticos. Essas histórias ganham um colorido especial aos olhos do público norte-americano e europeu de hoje. Ao mesmo tempo, pela perspectiva religiosa e ideológica, o país mais poderoso do mundo também se aproxima perigosamente das características das nações mais fechadas do Oriente Médio e do Golfo Pérsico. Por isso, acho que dessa vez os anseios da Academia de Los Angeles se voltarão para o trabalho cinematográfico de Jafar Panahi. O iraniano não apenas traz nessa temporada seu melhor filme como coloca o dedo na ferida da ditadura religiosa do seu país.


Assista, a seguir, ao trailer de “Agente Secreto” (2025):



Em suma, achei “O Agente Secreto” um filme impecável. Pela experiência cinematográfica, ele é até mesmo superior a “Ainda Estou Aqui”. Só não é melhor, em uma comparação nacional e histórica, a “Cidade de Deus” (2002), até hoje nossa melhor produção da Sétima Arte. Assim, o novo filme de Kleber Mendonça merece estar entre os favoritos ao Oscar de 2026 (pelo menos na categoria dos títulos internacionais). Também acho que ele deve conseguir mais de uma indicação na próxima cerimônia (de melhor ator para Wagner Moura e/ou de melhor direção para o próprio Mendonça Filho). Contudo, confesso que não estou tão otimista quanto a conquista da nossa segunda estatueta dourada. O motivo? A sensação de que a preferência de Los Angeles, em março, estará concentrada no trabalho de Jafar Panahi.


“Foi Apenas Um Acidente” é uma produção audiovisual melhor e mais completa do que “O Agente Secreto”? Minha resposta é convicta: NÃO! Como experiência cinematográfica, o longa-metragem brasileiro ganha de 7 a 1 do iraniano. A superioridade do título de Kleber Mendonça Filho está na fotografia, figurino, maquiagem, direção de arte, trilha sonora, filmagem e efeitos visuais. Já a produção de Panahi vence quanto à construção do roteiro. O enredo de “Foi Apenas Um Acidente” é espetacular, com direito a um desfecho aberto que faz a plateia sair do cinema se questionando sobre o que faria no lugar do protagonista e discutindo o que o vilão fará. Por sua vez, as interpretações do elenco principal e de apoio me pareceram parecidas nos dois filmes, não dando para apontar qual dos times de atores e atrizes se saiu melhor.


Se “O Agente Secreto” é tão superior a “Foi Apenas Um Acidente”, por que, então, o filme iraniano é o grande favorito ao Oscar, hein?! Aí entra o contexto de como as duas obras foram produzidas, algo relevante para os jurados das principais premiações internacionais. Enquanto Mendonça Filho recebeu apoio de produtoras de seu país e do exterior, teve acesso a políticas de incentivo ao cinema e administrou um orçamento polpudo para o padrão sul-americano, Panahi filmou na clandestinidade. É isso mesmo! Ele é um dos artistas censurados pela teocracia de Teerã e só consegue desenvolver seus longas-metragens na surdina.


Imagine você escrever o roteiro, planejar o filme, selecionar o elenco e os profissionais de apoio, angariar verba, filmar as cenas em locações externas, editá-las e lançar o título (no exterior) com a polícia, a Justiça e as autoridades de seu país o perseguindo e o ameaçando de prisão! Pois é nesse cenário que Jafar Panahi trabalha há muitos anos. Será que Kleber Mendonça Filho (e qualquer outro cineasta de destaque nos quatro cantos do planeta) teria conseguido apresentar um longa com a qualidade de “Foi Apenas Um Acidente” se estivesse na mesma condição do colega iraniano? Dificilmente. Por isso, essa produção persa é tão simbólica e emblemática. Ela representa a vitória da cultura (e do cinema) sobre a tirania (e a proibição de governos autoritários).


Se eu conseguir um espaço na coluna Cinema nas próximas semanas, prometo fazer um post sobre “Foi Apenas Um Acidente”, um filme realmente espetacular que merece uma análise pormenorizada no blog (e a estatueta dourado). O que dá para dizer, desde já, é que “O Agente Secreto”, por sua excelente qualidade técnica e pela belíssima experiência cinematográfica que nos proporciona, tem totais condições para concorrer com o novo título de Panahi em qualquer premiação internacional. Torçamos para que, dessa vez, os critérios objetivos da produção audiovisual superem os critérios simbólicos na escolha do próximo Oscar. Só assim veremos o Brasil conquistar sua segunda estatueta dourada. Saravá!


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