• Ricardo Bonacorci

Livros: Até o Fim - O trigésimo romance de Harlan Coben


Até o Fim de Harlan Coben

Os jornalistas esportivos de antigamente gostavam de dizer que Garrincha era o jogador que só tinha um tipo de drible: ele parava na frente do adversário, gingava para lá e para cá sem tocar na bola e, então, arrancava pelo lado direito do oponente (para delírio dos torcedores nas arquibancadas). A questão que intriga até hoje os apaixonados pelo esporte bretão é que, apesar de todos saberem o que o camisa 7 iria fazer em campo, ninguém conseguia pará-lo. Garrincha se tornou um dos maiores dribladores do futebol nacional e mundial nas décadas de 1950 e 1960. Foram poucos os defensores que pararam o Mané sem cometer faltas e sem recorrer a subterfúgios que atiravam por terra os princípios do fair play e das regras do jogo. Com seus “movimentos previsíveis”, Garrincha conquistou, entre outros títulos, a Copa do Mundo de 1958 e a Copa do Mundo de 1962 com a camisa da Seleção Brasileira.


Antes que alguém estranhe o começo atípico deste post da coluna Livros – Crítica Literária, vou logo dando as letras – relembrei o mítico atacante de pernas tortas porque há escritores que também surpreendem o público apesar de aplicarem o mesmo receituário narrativo em todos os seus livros. Em outras palavras, existem autores que já sabemos o que vão entregar (para qual lado vão driblar). Ainda assim, não conseguimos parar de lê-los (eles passam tranquilamente pelas marcações que fazemos). Quem se enquadra perfeitamente nessa definição é o norte-americano Harlan Coben, um dos principais best-sellers contemporâneos quando o assunto é tramas de mistério e literatura de suspense. Com mais de 30 romances publicados ao longo de três décadas de carreira e traduzido para mais de 40 idiomas, Coben raramente sai da receita literária que o levou ao topo da lista dos escritores mais lidos no mundo (com vendas que já superaram a marca dos 70 milhões de exemplares).

Harlan Coben

Os leitores do Bonas Histórias já foram agraciados com um estudo aprofundado da literatura de Harlan Coben. Em setembro de 2015, analisamos na coluna Desafio Literário os principais títulos do norte-americano. Naquela oportunidade, comentamos cinco romances: “Quebra de Confiança” (Arqueiro), de 1995, “Não Conte a Ninguém” (Arqueiro), de 2001, “Confie em Mim” (Arqueiro), de 2008, “Refúgio” (Arqueiro), de 2011, e “Seis Anos Depois” (Arqueiro), de 2013. A ideia agora é falarmos dos mais recentes lançamentos de Coben, que continua produzindo anualmente novos títulos. O questionamento que me fiz foi: teria este autor alterado algo em sua literatura nas últimas publicações ou ele continua usando os mesmos expedientes narrativos do início de carreira?


Para responder a tal inquietação, li “Até o Fim” (Arqueiro) neste final de semana. Este romance de Harlan Coben foi publicado nos Estados Unidos em 2018 e no Brasil no ano seguinte. Trata-se, portanto, de uma das mais recentes obras do escritor. Para ser mais preciso em minha descrição, esse é o seu antepenúltimo livro, o trigésimo de sua carreira. “Até o Fim” foi sucedido por “Custe o que Custar” (Arqueiro), de 2019, e “The Boy From The Woods” (ainda não traduzido para o Português), de 2020. No próximo mês, é esperado o lançamento em inglês de “Win” (não há ideia de como será o nome deste livro em português), o mais novo romance de Coben a chegar às livrarias mundiais. É importante frisar que nenhuma dessas obras integra a série “Myron Bolitar”, o maior sucesso do norte-americano até aqui. A última publicação protagonizada por Bolitar foi “Volta para Casa” (Arqueiro), no já distante 2016.


“Até o Fim” é um romance policial construído a partir de episódios verídicos ocorridos em Nova Jersey durante a juventude de Harlan Coben. Quando garoto em Livingston na década de 1970, o futuro escritor ouvia corriqueiramente dois boatos sobre sua cidade natal, Newark. Na boca dos moradores de Livingston, um poderoso chefão da máfia local morava em uma mansão de Newark. Protegida por guardas fortemente armados, a propriedade possuía um crematório, usado para incinerar os desafetos do mafioso.

Livro Até o Fim de Harlan Coben

O segundo boato era que, perto da residência do criminoso e ao lado de uma escola, ficava uma base de mísseis antiaéreos das Forças Armadas dos Estados Unidos. Apesar de placas informarem se tratar apenas de um terreno particular, os vizinhos jamais acreditaram na versão oficial das autoridades, que nunca admitiram a existência de instalações secretas em Nova Jersey. Segundo o diz-que-me-diz da época, aquele local era usado para guardar armas nucleares e para a realização de pesquisas sigilosas dos militares, além de abrigar mísseis de defesa. A partir dessas lembranças de sua mocidade, Harlan Coben criou um thriller que mistura dramas pessoais e intrigas políticas.


O enredo de “Até o Fim” se passa em Westbridge, uma cidadezinha suburbana (e fictícia) do Estado de Nova Jersey, e é protagonizado por Napoleon Dumas, um detetive local. Aos trinta e três anos de idade, o policial é um cara solitário e muito amargurado. Nap (como é chamado carinhosamente por todos) perdeu o irmão gêmeo, Leo, há quinze anos. O garoto foi atropelado por um trem poucos meses antes de concluir o ensino médio. Nesse episódio que permanece mal explicado até hoje, Leo teria consumido muitas drogas e bebidas alcoólicas na fatídica noite do acidente e não percebeu que estava ao lado dos trilhos do trem. Ele morreu ao lado da namorada Diana Styles. Ao menos foi essa a versão dada pelos policiais que investigaram o caso na época.


Dias depois da morte do irmão, Nap viu Maura Wells, seu grande amor na adolescência, fugir misteriosamente de Westbridge. A moça não se despediu do namorado, para desespero dele, e nunca mais deu sinal de vida. Ela simplesmente desapareceu da face da Terra. Para completar o quadro desolador do protagonista, alguns anos depois de entrar na polícia, o detetive Dumas assistiu à morte do pai (a mãe já tinha abandonado a família quando os filhos eram pequenos).

Livro Até o Fim de Harlan Coben

Melancólico e com pouquíssimos amigos (as exceções são Ellie, uma ex-colega dos tempos de escola, e Augie Styles, um experiente policial que era pai da falecida Diana), Nap passa os dias remoendo as saudades de Leo e de Maura. Apesar de não ver a antiga namorada há uma década e meia, ele não consegue esquecê-la. Ela é o grande amor de sua vida. A rotina entediante e banal de Napoleon Dumas em Nova Jersey só é quebrada quando ele se lança em ataques impiedosos contra homens acusados de violência doméstica e de comportamento abusivo. Querendo fazer justiça com as próprias mãos, o detetive espanca, na surdina, pedófilos, maridos violentos, pais assediadores e estupradores.


O dia a dia do protagonista muda sensivelmente quando um crime é praticado na Pensilvânia. Rex Canton, o antigo amigo de Leo Dumas que trabalhava como policial local, é assassinado em uma blitz rodoviária. Ao colaborar com a investigação das autoridades da Pensilvânia, Nap descobre que Maura Wells (sim, ela mesma!) estava na cena do crime (mas sumiu logo em seguida). Atordoado com o aparecimento da ex-namorada depois de tanto tempo, o detetive Dumas vê seus pesadelos de quinze anos atrás (morte do irmão, fuga de Maura...) ressurgirem com força.


Não demora para ele descobrir que há algo muito estranho ocorrendo! Os antigos amigos de Leo Dumas começam a morrer ou a desaparecer inexplicavelmente. Haveria uma relação entre o sumiço atual dos antigos amigos do irmão falecido e o acidente trágico que vitimou Leo há uma década e meia? A investigação particular iniciada por Nap irá suscitar fatos que muita gente poderosa não quer ver reativados. Por outro lado, essa é a única maneira da personagem principal esclarecer de uma vez por todas a morte esquisita do irmão e o inexplicável sumiço de Maura, que tanto o machucou lá atrás e que ainda machuca muito até hoje.

Livro Até o Fim de Harlan Coben

“Até o Fim” possui um tamanho parecido aos demais romances de Harlan Coben, que têm em média entre 200 e 300 páginas. Este livro tem 272 páginas e está dividido em 34 capítulos. Há também um preâmbulo (uma espécie de capítulo zero) e um pequeno prefácio do autor (no qual ele explica sua ideia para a produção dessa história). Precisei de apenas um dia para concluir essa leitura. Comecei a obra na manhãzinha de sábado e no começo da noite já a tinha terminado. Devo ter levado pouco mais de seis horas de leitura ao todo.


Comecemos a análise de “Até o Fim” respondendo à questão que deu origem a este post do Bonas Histórias: teria Harlan Coben alterado algo em sua literatura nas últimas publicações ou ele continua usando os mesmos expedientes narrativos do início da carreira? A partir da avaliação de “Até o Fim”, a resposta é um acachapante “O AUTOR NÃO MUDOU NADINHA DE NADA!”. Sinceramente, não sei se isso é um indicativo decepcionante (admiro escritores que evoluem e procuram constantemente novos caminhos artísticos) ou se é admirável (Coben continua produzindo bons romance com os velhos ingredientes). Admito um misto dos dois sentimentos – desapontamento por um lado (esperava novidades) e empolgação do outro (“Até o Fim” é sim um ótimo romance policial).


Das principais características da ficção de Coben, este livro apresenta os seguintes pontos: o narrador-protagonista lança-se em uma jornada para descobrir os segredos do passado que o atormentam até hoje; os acontecimentos trágicos e mal explicados de vários anos atrás fizeram a personagem principal perder o amor de sua vida e o deixaram em estado de prostração; o enredo se passa em uma cidade de Nova Jersey; o clima de mistério e de suspense permeia a narrativa inteira; os enigmas da trama são elaborados e intrigantes; o ritmo da narrativa é veloz (ação o tempo todo); os primeiros capítulos são tão instigantes que é quase impossível interromper a leitura; o protagonista é um homem melancólico, desiludido, solitário, saudosista, traumatizado e ainda apaixonado pelo seu antigo amor de adolescência; o quebra-cabeça narrativo é de tirar o fôlego; e a investigação realizada vai contra interesses escusos de autoridades poderosas (mesmo assim, o herói não desiste em obter respostas às suas perguntas).

Livro Até o Fim de Harlan Coben

O único aspecto original de “Até o Fim” é a inserção de elementos políticos/geopolíticos na trama (algo que não me lembro de ter encontrado com tanta ênfase nos outros títulos de Harlan Coben). Admito ter gostado dessa novidade. O livro adquire um quê de Frederick Forsyth e John Le Carré.


A narração do romance é prioritariamente em primeira pessoa (feita por Nap Dumas). Apenas em dois momentos, no preâmbulo (capítulo zero) e no capítulo 22, o texto está em terceira pessoa (feita por um narrador observador colado à Maura Wells). Os estudiosos da Teoria Literária e do Foco Narrativo podem até torcer o nariz por essas trocas de narrador (principalmente em relação ao capítulo 22, que quebra a estética da história), mas que elas funcionam, isso sim funcionam! As duas seções em terceira pessoa conferem mais dramaticidade à trama e potencializam o suspense. Em uma obra de entretenimento sem grandes preocupações estilísticas, não vejo problema no uso desse expediente.


Gostei também da intertextualidade literária proposta em “Até o Fim”. Além de fazer referências a outros livros, Harlan Coben insere sua personagem mais famosa no meio da narrativa. Assim, os fãs de Myron Bolitar têm a oportunidade de matar as saudades do ex-jogador de basquete que se tornou investigador particular (mesmo que por uma cena rápida).


Algo que não me canso de elogiar nos livros de Harlan Coben é dos seus inícios arrasadores. “Até o Fim” não foge a essa tradição. Suas primeiras páginas são impecáveis quando olhamos para o que deve conter um thriller voltado para o grande público. O autor norte-americano dá uma verdadeira aula prática para os jovens escritores que desejam se lançar pelo suspense comercial e, assim, querem encantar os leitores que procuram leituras agradáveis e impactantes. Confesso ser fã do estilo de Coben.

Harlan Coben

Admiro também a maneira como o autor faz o desenrolar de suas tramas. O ótimo mosaico narrativo de “Até o Fim” vai sendo (re)construído pouco a pouco e de um jeito lógico e fidedigno pelo narrador-protagonista. A montagem do quebra-cabeça é capaz de empolgar os leitores que curtem os melhores romances policiais e a boa literatura de suspense. Há várias revelações bombásticas ao longo das páginas de “Até o Fim” e não faltam grandes reviravoltas no enredo.


O único ponto negativo de “Até o Fim” é que o leitor que já conhece a dinâmica dos livros anteriores de Harlan Coben (como é o meu caso) conseguirá sacar facilmente para onde a história desembocará. Por exemplo, desde o começo do romance (mais ou menos na página 70, 75), eu já tinha descoberto quem era o grande vilão da obra. Seria eu um Sherlock Homes? Não. O que eu fiz foi deduzir, a partir dos antigos romances do autor, quem poderia ser o antagonista. E não é que acertei na mosca! Por isso, não fiquei surpreso com o desfecho.


“Até o Fim” é um ótimo livro. Fiquei com a impressão de que Harlan Coben continua em ótima forma (literária) e segue produzindo novas tramas com a mesma qualidade das primeiras décadas de carreira. Fiquei feliz de saber que é possível ler seus novos romances e extrair uma boa experiência de leitura.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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