• Ricardo Bonacorci

Livros: Uma Casa no Fundo de Um Lago - A novela de terror de Josh Malerman


Há exatamente cinco anos, eu comentei no Bonas Histórias a estreia de Josh Malerman na literatura. Confesso que não esperava o sucesso acachapante que “Caixa de Pássaros” (Intrínseca), romance de terror ao melhor estilo apocalipse, teria dali em diante. O livro do norte-americano se tornou best-seller nos Estados Unidos, no Brasil e em alguns países da Europa. Essa história de Malerman foi adaptada, mais tarde, para as telas. O filme lançado pela Netflix no finalzinho de 2018 teve Sandra Bullock no papel principal. Nada mal para o título inicial de um jovem escritor, não é mesmo?


No começo deste ano, lembrei muito de “Caixa de Pássaros”. Afinal, o ambiente e o enredo desta obra eram parecidíssimos à situação e ao clima que estávamos vivenciando durante a tragédia sanitária provocada pela COVID-19. O elevado número de mortes, a reclusão necessária, o medo de sair às ruas, as incertezas sobre a saúde pública e os questionamentos sobre nosso estilo de vida atual saíram do mundo ficcional e ganharam contornos verídicos. Não por acaso, incluí esse romance no post da coluna Recomendações que apontava os doze livros que mais dialogavam com o cenário da pandemia do novo coronavírus.


Após a trajetória exitosa de “Caixa de Pássaros” nas livrarias e na televisão (e olha que isso aconteceu antes que a COVID-19 aparecesse), ninguém do mercado editorial se surpreendeu com a decisão de Josh Malerman de dividir seu tempo entre os palcos (ele é compositor e vocalista da banda de rock High Strung)e sua produção ficcional. Para falar a verdade, nos últimos cinco anos, ele tem se dedicado mais à carreira literária do que à carreira musical (neste período, lançou apenas um álbum). Surgia, assim, um novo (e carismático) autor do gênero de suspense e de terror.

Em uma comparação despretensiosa, Josh Malerman pode ser visto como uma espécie de Toni Bellotto da literatura norte-americana. Se bem que o brasileiro me parece muito mais talentoso do que o colega estrangeiro quando o assunto é a produção de textos literários marcantes e a publicação de livros de qualidade. Considero Belloto (remanescente da formação clássica dos Titãs, uma das principais bandas de rock da história do nosso país) um nome promissor do romance policial nacional e da literatura contemporânea brasileira - algo que não dá para ser dito sobre o norte-americano. Ao compararmos Malerman aos seus conterrâneos dos gêneros terror (por exemplo, Stephen King) e suspense (Harlan Coben), notamos que ele precisa comer muito arroz com feijão (ou, nesse caso, hambúrguer com batata frita) para se aproximar dos melhores.


De 2014, ano em que “Caixa de Pássaros” foi publicado nos Estados Unidos e na Inglaterra, para cá, Josh Malerman já lançou outros sete romances, três novelas e mais de três dezenas de contos. No Brasil, seus livros são editados pela Intrínseca. A editora carioca lançou, além de “Caixa de Pássaros”, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” (Intrínseca), novela de terror com tons de realismo fantástico e com uma pegada infantojuvenil, e os romances “Piano Vermelho” (Intrínseca), suspense de 2017 ambientado no universo musical, “Inspeção” (Intrínseca), trama policial de 2019 e “Malorie” (Intrínseca), obra de 2020 que dá sequência à trama de estreia do autor (e até aqui o seu maior sucesso comercial).


Curioso para conhecer os passos seguintes do norte-americano na literatura após “Caixa de Pássaros”, li, no último final de semana, “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. Esta novela foi publicada, em 2016, pela This Is Horror, uma conceituada editora dos Estados Unidos do gênero de terror. Ou seja, este foi o segundo livro de Malerman a chegar às livrarias – “Ghastle and Yule” (sem edição para o português), outra novela lançada em 2016, foi publicado apenas em versão eletrônica. No mercado brasileiro, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” foi lançado em julho de 2018, pouco antes da estreia do filme “Caixa de Pássaros” na Netflix.

O enredo desta novela inicia-se com a visita de Amelia, uma adolescente de dezesseis anos, à loja de ferramentas do pai de James. Ela precisa comprar uma nova mangueira para sua casa. Ao ver a moça bonita nos corredores do estabelecimento, James, que também tem dezesseis anos e trabalha naquele local, cria coragem e chama a cliente para um primeiro encontro. Apesar de não conhecer Amelia tão bem, é apenas a quarta vez que a jovem visita a loja, ele passa por cima de sua timidez e a convida para um passeio de barco na manhã do sábado seguinte. A moça acha ótima a proposta. Afinal, é início de Verão, ela não está saindo com ninguém e o jeito meigo do rapaz a cativa.


Na data e no horário combinados, os adolescentes seguem para o lago da cidade, onde o tio de James tem uma casa. O lago fica à beira das montanhas e é rodeado por uma floresta sinuosa. Para o passeio do jovem casal, o tio de James emprestou um barco à remo. É com esse barco que James e Amelia navegam pelas águas enquanto aproveitam o cenário romântico para jogar conversa fora e tentar se conhecer um pouco mais.


Após remarem pelo lago principal, maior e mais popular, a dupla entra em um lago menor. O novo local é mais restrito e desconhecido pela maioria dos habitantes e visitantes da cidade. Encantados com a natureza exuberante, James e Amelia descobrem, sem querer, um pequeno túnel que dá acesso a um terceiro lago. Totalmente desabitado e quase camuflado pela vegetação, o novo lago atiça a curiosidade dos garotos. Eles se sentem escondidos ali, quase como os únicos frequentadores do lugar.


Não demora muito e o terceiro lago revela uma particularidade inusitada: no meio dele, há uma grande casa submersa. Apenas os telhados da construção ficam fora da água. Excitados para explorar a descoberta, James e Amelia fazem mergulhos para entender as características daquela construção. Para perplexidade de ambos os adolescentes, eles descobrem que a casa no fundo do lago é mobiliada e tem objetos que não flutuam. É como se o interior daquela residência não respeitasse algumas leis da física – como a gravidade e o empuxo, por exemplo.

Maravilhados com a mágica e com a beleza da casa submersa, James e Amelia combinam de retornar, em segredo, mais vezes àquela localidade oculta da sociedade. Só que nas novas visitas, eles trazem equipamentos de mergulho. Assim, podem descobrir as novidades daquele lago com ares de contos de fada. E, dessa maneira, eles voltam uma, duas, dezenas de vezes. Em cada mergulho, novas surpresas são reveladas para a dupla de protagonistas do livro. Cada vez mais apaixonados um pelo outro e pelo lugar que só eles sabem que existe, James e Amelia não conseguirão mais viver sem frequentar a misteriosa residência no fundo das águas.


“Uma Casa no Fundo de Um Lago” possui 160 páginas e está dividido em 37 capítulos. Levei aproximadamente três horas para concluir esta leitura no sábado passado. Considero essa obra mais uma novela do que um romance. Falo isso não pelo número de páginas (que se aproxima mais, é verdade, de um romance), mas pela complexidade enxuta de sua trama (típica das novelas). Afinal, temos aqui só duas personagens, um único cenário principal e apenas um conflito que se estende da primeira à última página. Também vejo este título mais como um exemplar da literatura infantojuvenil do que uma obra para o público adulto (apesar do autor e da editora não terem feito qualquer menção a esse fato).


Por ser narrado em terceira pessoa por um narrador próximo aos dois protagonistas (o narrador ora acompanha física, mental e emocionalmente James, ora acompanha física, mental e emocionalmente Amelia), este livro me passou a sensação de ser uma trama com baixo nível de sofisticação. Até aí não é surpresa nenhuma em se tratando de ficção comercial (talvez eu estivesse exigindo muito de Josh Malerman após o sucesso de “Caixa de Pássaros”). Porém, ainda sim fiquei com a impressão de estar diante de uma trama de qualidade muito inferior (até mesmo para o padrão comercial). Sabe quando você lê um livrinho bobo que baixou no Kindle de um autor desconhecido e provavelmente novato? Foi este o sentimento que tive durante a leitura de “Uma Casa no Fundo de Um Lago”.

Apesar da impressão geral negativa, reconheço algumas qualidades desta novela. Gosto do jeito como Malerman constrói suas personagens. A mania dele de não revelar os sobrenomes das pessoas nos faz ficar próximos (quase íntimos) delas. Essa é uma característica, vale a pena destacar, presente em quase todos os seus livros. Além disso, a narrativa com uma dupla de adolescentes é bacana de se acompanhar – os protagonistas trazem medos, inseguranças e desejos típicos da entrada na vida adulta. James e Amelia são personagens cativantes e constituem um casal que merece ser seguido pelos leitores.


O principal aspecto positivo de “Uma Casa no Fundo de Um Lago” está em seu ritmo narrativo. Muito bem escrito por Malerman, este livro permite uma leitura ágil e rápida. Uma vez começada a leitura, ficamos grudados nas páginas da novela até o final. Portanto, não se surpreenda se você a ler em uma tacada/sentada só. Como thriller e como história de terror, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” funciona muito bem. Temos a sensação de que a qualquer momento pode acontecer algo grave e impactante que mudará o destino de James e de Amelia.


Entretanto, pouco a pouco, esse ritmo ágil e o clima de permanente tensão vão se diluindo. Isso ocorre à medida em que nada de importante/errado acontece na história relatada. Entre um sustinho e outro que os protagonistas levam em algumas cenas, a sensação é que a narrativa caminha sem grandes sobressaltos. Aí, o livro perde gradativamente sua força.


Já enfraquecido, “Uma Casa no Fundo de Um Lago” chega ao seu desfecho com o leitor já duvidando que fez uma boa escolha de leitura. E essa impressão é acentuada quando não recebemos explicações para os eventos extraordinários que aconteceram ao longo de todo o enredo. Como assim Josh Malerman não explica os fatos mágicos de sua história, hein?! Para quem se surpreendeu com a falta de justificativas da trama, é importante lembrar que essa foi a minha principal crítica em relação a “Caixa de Pássaros”. O escritor norte-americano se preocupa mais em construir narrativas pretensamente criativas e impactantes do que amarrar as pontas soltas deixadas ao longo de suas histórias. Não sou contrário aos finais abertos. Pelo contrário: adoro-os. O que não gosto é de ler um livro e não encontrar respostas às perguntas suscitadas durante a leitura.

Para completar, temos em “Uma Casa no Fundo de Um Lago” uma série de equívocos narrativos que colocam em xeque a verossimilhança da trama (e olha que não estou falando dos elementos relacionados ao Realismo Fantástico da obra). Por exemplo, como dois jovens trabalhadores de estabelecimentos varejistas podem ficar vários dias ausentes dos seus serviços? E como suas folgas sempre coincidem? Depois de semanas explorando avidamente a casa misteriosa, não me parece natural haver qualquer porta/cômodo que não tivesse sido visitado pela dupla de adolescentes. Infelizmente, o autor passou por cima dessas evidências óbvias.


Em suma, não gostei de “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. Trata-se de um livro muito aquém das qualidades exigidas para uma obra de ficção comercial dos gêneros terror e suspense. Não é errado dizer que este é o título mais fraquinho de Josh Malerman. Se compararmos “Uma Casa no Fundo de Um Lago” a “Caixa de Pássaros”, veremos que o autor norte-americano andou para trás (ou desaprendeu a escrever). Minha sensação é que esta obra não foi tão bem trabalhada como merecia e ficou apenas em um esboço. A pressa para publicar novos títulos de um escritor best-seller deve ter forçado o artista e sua editora a precipitarem o processo de maturação deste texto. Um pouco mais de cuidado com a história, a apresentação de explicações plausíveis para o enredo e a busca por recursos mais sofisticados de narração ficcional, na certa teriam feito muito bem a “Uma Casa no Fundo de Um Lago”. O gosto final é de desapontamento. Uma pena!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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