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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 42 anos, mora em Buenos Aires e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

  • Foto do escritorPaulo Sousa

Passeios/Gastronomia: Buenos Aires – Experiências etílico-gastronômicas

Na crônica “CABA que não ACABA”, Paulo Sousa narra de maneira divertida e sincera sua aventura de 11 dias pela capital argentina. A viagem deste brasileiro teve muitos vinhos, carnes e surpresas da cultura local.


Passeios e Gastronomia – Relatos de Paulo Sousa sobre suas experiências etílico-gastronômicas em Buenos Aires, a capital culinária da Argentina e terra de ótimas carnes e excelentes vinhos

1) PREFÁCIO E SAUDAÇÃO:


CABA QUE NÃO ACABA – Março de 2024


Oh, CABA que não acaba!

Que saudades guardo de ti!

Cada gota de teu vinho levarei comigo em minha gordura subcutânea.

Cada fibra de tua carne levarei comigo em meu sangue na forma de colesterol LDL.

Cada preço que encontro divido por 200 com muita nostalgia.


2) DEDICATÓRIAS:


Quero dedicar esta breve descrição de minha viagem a meu grande amigo e irmão Ricardo Bonacorci, que me hospedou em sua residência, no bairro de Saavedra, na capital argentina. Você deve conhecê-lo como o autor do Bonas Histórias, este maravilhoso blog de literatura, cultura e entretenimento que está prestes a completar dez anos. Ele também me cedeu espaço nas colunas Passeios e Gastronomia para que eu narrasse como foram os meus 11 dias na encantadora e surpreendente Buenos Aires. Daí a ideia desse texto, “CABA que não ACABA”, que é uma espécie de crônica de minhas experiências etílico-gastronômicas pelos restaurantes, pizzarias, bodegones e bares portenhos.


Quero saudar também meu amigo Eduardo Vilella, que me deu a honra de suas ligações e lições de vida ao longo da viagem, além claro de ótimas indicações de vinhos e alfajores.


3) ESTULTÍCIAS


·       Coragem é decidir bêbado e manter a decisão depois de sóbrio;

·       Bêbado é quem vomita; tudo antes disso é classificado como alegrinho;

·       Reuniões de imigrantes são encontros de almas solitárias;

·       O que se leva da viagem é a viagem que se leva.


4) CARNES, VINHOS E MOMENTOS:


Chegar em Buenos Aires, depois de tantos dias de expectativa, foi uma alegria sem tamanho. Estava ávido para curtir a vida de um cidadão portenho, com as vantagens que só a efemeridade turística e uma moeda desvalorizada frente ao dólar podem me proporcionar. Por isso, evitei programas típicos dos turistas e preferi aqueles lugares cotidianos, que foram a maioria de minhas visitas.


Fui recebido por meu amigo Bona na área de desembarque do Aeroparque Jorge Newbery e logo pegamos um Cabify até seu apê em Saavedra. Devidamente instalado, fiz minha primeira caminhada pelo barrio, na qual compramos meu Whey Protein, item magnânimo que não pode faltar em minha dieta, mesmo sabendo que teria pela frente 11 dias de carne vermelha.


Paulo Sousa, escritor e empresário paulistano, apresenta suas impressões sobre a culinária e os vinhos argentinos e comenta o mergulho que fez na cultura portenha

Meu primeiro jantar foi na unidade de Saavedra do La Farola, uma rede famosa na cidade, lugar simples e honesto. Botando em jogo meu portunhol fluente, pedi “El cardápio”, e a garçonete não me entendeu. Percebi, então, que o muro linguístico não é tão baixo quanto pensara.


La Carta, por favor”, salvou-me Bona, o que me permitiu comer um Bife de Chorizo muito bom, nota 8,5 (no REPS, Ranking do Estômago do Paulo Sousa – que servirá de base para toda a pontuação gastronômica deste post e que vai de 0 a 10). Bem servido, generoso, um jantar pedestre em CABA (Ciudad Autónoma de Buenos Aires), mas que seria um banquete no Brasil. A carne foi acompanhada por papas fritas. Vale destacar que o argentino não tem o costume de comer arroz e, assim, as carnes são acompanhadas por batatas (fritas ou purê) ou legumes sortidos, salvo pratos mais elaborados.


O dia seguinte começou cedo, arrumando a casa para receber Jéssica, amiga do Bona que tive o prazer de conhecer. Ela é conteudista e professora de português para estrangeiros, e precisava gravar um vídeo promocional para a plataforma em que atua. Acontece que o imprevisível sempre mora nos pequenos detalhes. No nosso caso, residia no adaptador de tomada comprado na feirinha de Saavedra. Com certeza, um apetrecho sem o selo do Inmetro argentino, que explodiu quando colocamos o celular que filmava para carregar.


O curto-circuito apagou as luzes do apartamento. Os disjuntores locais estavam em ordem, o que causou estranheza. Ligamos para o vizinho e – pasmem – todo o prédio estava sem energia. Nesse momento, a angústia e o desespero típicos de um tango portenho invadiram nossos corações. Entretanto, somos brasileiros, e tomamos a madura decisão de irmos almoçar antes resolver o problema de 26 famílias.


Nós três caminhamos até a Parilla Jorge, local muito movimentado da região, que exala um perfume de churrasco pelas redondezas. Impossível não salivar. O ambiente estava muito agradável. O ponto negativo é que o toldo era vermelho e, com o sol escaldante, todo o ambiente se tornava rojo.


Tendo como mote a viagem de 11 dias à Buenos Aires, Paulo Sousa exibe no Bonas Histórias a crônica CABA que não ACABA, em que descreve sua rotina de comilanças e bebedeiras na capital argentina

Pedimos um Vacío (8,7) com fritas e provoleta (uma rodela grande de provolone assada). Para acompanhar, bebemos o vinho Vasco Viejo Tinto, nota 2,9 no Vivino, aplicativo para enólogos que permite dar notas de 1 a 5 para cada exemplar – e que servirá de base para toda a pontuação etílica deste post). O almoço foi muito tranquilo e, quando voltamos ao prédio – surpresa! –, o problema da energia elétrica estava resolvido em todos os apartamentos. Exceto no nosso.


Tivemos, então, um momento típico de Escape60, atração de escape games trazida para o Brasil pela dupla dinâmica Márcio e Jeannette. Ou seja, esse jogo é composto por salas temáticas nas quais um grupo tem 60 minutos para sair. A brincadeira é muito divertida pois emula cassinos luxuosos, invasões zumbis e garagens de serial killers, mas produz uma tensão extra quando praticada em apartamentos alugados na Argentina. Com breves ajudas do síndico pelo WhatsApp, conseguimos desvendar o mistério do local da chave. Abrimos vários cadeados até encontrar os disjuntores gerais no térreo e reestabelecer a ordem.


Saímos do desafio energizados, quase que literalmente, mas ele consumiu nosso tempo restante. Jéssica foi embora sem o vídeo gravado, mas com ideias na cabeça. Naquela noite, eu e Bona fomos ao bar Growlers em Chacarita para um encontro do Mundo Lingo, que reúne pessoas que querem aprender a falar qualquer idioma.


Conversei em inglês, espanhol e português com russos, argentinos, peruanos e brasileiros. Essa mistura fundiu meu cérebro, tal qual um adaptador de tomada de má qualidade, e chegou uma hora que eu não entendia nem o português. Conheci, então, Carmen e Julieta, argentinas que queriam falar inglês e tentaram me ajudar a hablar español. Porém, logo me senti um pez fuera del agua, sem entender absolutamente nada do que elas diziam. Decidi, então, tentar absorver mais do idioma local, fazendo perguntas perspicazes sempre que possível.


No dia seguinte, um sábado de sol, trabalhamos um pouco e fomos almoçar em outro bodegón, o A Morfar. Pedi um Bife de Chorizo a la Riojana, com ervilhas, ovo frito, presunto cozido e pimentão, acompanhado de fritas (9,6 no REPS). Uma epifania portenha, a melhor carne que comi durante a viagem inteira, com aquele gostinho de novidade e liberdade. “Suerte”, me desejou o portenho da mesa ao lado. Afinal, pedi um prato para dois que comi sozinho. Orgulhoso, bebi também o vinho Eugenio Bustos Malbec (3,3 no Vivino). A garçonete era muito simpática, sempre sorridente e solícita, me ensinou até que rolha em espanhol é corcha. Ela também ficou impressionada com meu apetite, e me senti orgulhoso por representar bem meu país.


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Após capotar no sono depois do almoço, fomos correr no Parque Saavedra no final da tarde, quando avistei um enxadrista sentado em frente a três tabuleiros. Ao seu lado, um cartaz anunciava suas aulas. Fiquei muito tentado a jogar uma partida de xadrez com ele, seria um embate Brasil e Argentina muito interessante, mas decidi deixar para outro dia.


Mais à noite, tive o prazer de acompanhar um jogo do novo time do coração do Bona, o Club Atlético Platense. Meu amigo me ensinou uma música da torcida para me sentir mais em casa. Cante conosco também!


Vengo del barrio de Saavedra,

Barrio de murga y carnaval,

Barrio que sueña con la vuelta,

En las malas siempre te va alentar,


Dale dale Calamar,

Ponga huevo y corazón,

Está hinchada se merece ser campeón,


En las buenas vamo a estar,

En la malas mucho más,

Vamos a quemar La Paternal.



Caminhamos algumas quadras até o Estádio Ciudad de Vicente López, local pequeno que deve comportar umas 12 mil pessoas, mas jacta-se de abranger 34 mil torcedores. O jogo foi Platense x San Lorenzo, pela Copa da Liga Argentina. Foi muita cantoria ao longo de 90 minutos, com direito a 2 minutos de acréscimo. Pela qualidade da partida, deveria ter sido 2 minutos de decréscimo!


O jogo em si foi muito ruim: 0 a 0 com direito a 1 gol anulado e 2 bolas para fora do estádio. O centroavante platense, Mateo Pellegrino, um corpulento de corpo lento, bem que tentou, mas não conseguiu marcar. Para efeito de comparação, ele é um Finazzi levemente piorado. A nota positiva foi a quantidade de famílias na geral, com direito a uma idosa que dava zoom numa foto da Nossa Senhora de Luján, padroeira da Argentina, e a beijava no celular, buscando proteção a cada momento crítico do jogo.


O domingo começou com um café da manhã no Cosecha, lugar zen e meio natureba de Saavedra. No café simples, o bom do momento foi o terraço com uma vista privilegiada para o Parque Saavedra. Aliás, a quantidade de parques e praças em Buenos Aires acompanha o crescimento da inflação! Por isso, na nossa primeira grande caminhada saímos do próprio Parque Saavedra e passamos por Parque Carlos Mugica, Parque General Paz, Parque Pioneros, Parque Alberdi e Av. Parque Roberto Goyeneche, cercada por dois parques. Ainda rodeamos o Parque Presidente Sarmiento, cuja entrada é paga.


No final da tarde, chegaram a CABA Daniella, prima de Bona, e Markinhos, o namorado da Daniella. O rapaz é alemão, mora na Suíça, já trabalhou nos Estados Unidos e quer morar na Espanha um dia. Mesmo com tantos dialetos, seu vocabulário em português se resume ao que Ricardinho ensina. São palavras simples como xixi, desculpa, vinho, cinemão, pão na chapa e vai Curinthiá.


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Fizemos os quatro um programa de turista pela Feira de San Telmo, foto ao lado da Mafalda e fomos jantar no La Brigada, restaurante chique focado em turistas em San Telmo. Bebemos algumas botellas de Sophenia Synthesis Malbec (4,1) e Gran Famiglia Bianchi Malbec (4,0). Para comer, pedi patitas de cordero de entrada (8,1), um prato exótico. As patinhas são servidas frias e com vinagrete. São pálidas e ricas em colágeno, valeram a pena. Foi nesse momento em que ganhei o apelido que o Bona me deu e que me acompanharia por toda a viagem – Pablito, El Caníbal.


Para o prato principal, eu e Markinhos dividimos um asado de tira (7,8), que poderia ser melhor. A carne foi muito bem-preparada, mas o corte não ajudou. Para finalizar a noite, fomos a Puerto Madero tomar um Negroni Tropical no Negroni Bistro & Sushi Bar.


O dia seguinte amanheceu bem chuvoso, com trovoadas e ventanias. Percebi que árvores caídas são uma característica de grandes centros urbanos sul-americanos. Eu e Bona encontramos o casal helvético na El Ateneu Grand Splendid, enorme e clássica megastore de livros e afins na Recoleta. Foi lá que tirei a foto mais emblemática desta viagem – eu em pose bíblica segurando os alfajores Mar del Plata da Havanna como se eles fossem sagrados. Pensamos durante bons minutos sobre o que faríamos em seguida, mas a chuva torrencial nos obrigou a voltar para casa.


No jantar, eu e Bona fomos ao Los Amigos de Siempre, bodegón raiz (o preferido dele em Saavedra). Eu pedi um Ojo de Bife e um Chorizo (linguiça) para arrematar (9). De vinho, um San Felipe 12 uvas (3,5). Uma refeição muito boa, em um ambiente acolhedor e com um mozo bem simpático, o Amadeu, que me ensinou a diferença entre papas e batatas. A saber: papas são batatas inglesas; e batatas são batatas-doces.


Para não sair muito da rotina maromba, fui no dia seguinte ao Gimnasio La Rosa, academia do bairro com relativamente aparelhos novos, mesmo que em número pequeno. Devido à chuva, não tivemos passeios a céu aberto e decidimos ir, junto a Daniella e Markinhos, ao cinemão – mais conhecido pelos locais como Cinemark Palermo.


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Escolhemos assistir a “Zona de Interesse” (The Zone of Interest: 2023), filme em alemão com legendas em espanhol. Muito chato. A película começa com um minuto de tela preta e um som grave que induz a um estado de calmaria cerebral. Acho que o diretor fez questão que só assistiria ao filme quem realmente estivesse MUITO interessado.


Confesso, o conforto da cadeira, as vozes monótonas, a agitação prévia e a quantidade excessiva de carne e vinho no meu organismo me fizeram dormir duas vezes e pescar algumas outras. Fiquei surpreso ao saber que meus amigos gostaram muito do filme, concordando com os jurados do Oscar. Mas, em minha defesa, nas partes que estava consciente, escutei alguns roncos na sala. Acho que não fui só eu que dormiu durante a sessão.


Mas o melhor do dia estava guardado para a noite: enquanto Daniella jantava com uma amiga argentina, Bona, Markinhos e eu curtimos a noite portenha. Primeiro, fomos ao Uptown, bar e restaurante feito para turistas que emula uma estação de metrô. Tudo muito bem-feito, mas como não havíamos reservado mesa, ficamos de pé. No pouco tempo que estivemos por lá, bebemos uma taça de DV Catena Malbec (4,3), o melhor vinho da viagem.


Depois, fomos ao Rock and Beer, bar famoso com algumas unidades em CABA. Como era terça-feira, estava vazio. Bebemos apenas uma taça do vinho da casa e partimos para a Plaza Serrano, point badalado de Palermo Soho. Fomos jantar no Arte de Mafia, restaurante italiano muito charmoso e com comida ótima.


Tomamos os vinhos Viña el Cerno Malbec (3,9) e La Posta Fazzio Malbec (3,9), ótimas escolhas. Pedi um Ossobuco com risoto de legumes (9), um prato maravilhoso que tornou a noite ainda mais especial. Conversamos bastante e demos muita risada, e assim continuamos depois de Daniella se juntar a nós.


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O garçom Marcelo foi muito educado e gentil, e reservou para nós um lugar no Karaoke Privado, no qual pude mostrar meu dom cantando “Just a Gigolo”, clássico de Louis Armstrong revitalizado e escrachado por Dave Lee Roth. Também cantei outras músicas mais. Muito mais.


Para evitar a ressaca, fui ao Gimnasio La Rosa logo que acordei para treinar costas e bíceps. Depois dos exercícios, voltei para o apê de Ricardinho e logo chegou o querido casal. Abrimos duas garrafas de Cordero con Piel de Lobo (3,8), vinho básico na Argentina, mas com certo requinte aqui no Brasil. Como estava faminto, pedi via Rappi um Milanesa Sweet Spicy (7), do El Club de la Milanesa. Um delivery honesto para matar a fome e trazer certo prazer gustativo, mesmo que um pouco industrializado.


À noite, fomos encontrar Jéssica no El Boliche de Roberto, em Almagro. Fundado em 1893, o bar traz muito da arquitetura original. Um charme, mas que traz certos perrengues, como a falta de mesa. Por isso, a botella seguinte de Cordero con Piel de Lobo foi tomada em pé.


Tenes cigarilla?”, perguntou uma mulher loira, na faixa dos trinta anos, para Jéssica no meio do bar. A amiga do Bona disse que não tinha, e a moça continuou sua busca por cigarro. Pouco depois, Patrícia, uma amiga de Jéssica se juntou a nós, e o tango muito bem executado começou. Foi um momento muito especial, no qual pude escutar várias canções de Gardel, Baltar e, claro, Piazzola. A foto de Evita e as palmas para Diego Maradona antes de seu tango preferido, “El Sueño del Pibe”, conferiram o verdadeiro clima portenho à noite.


Tenes cigarilla?”, voltou a mulher, dessa vez para a amiga da Jéssica, recebendo a mesma resposta e continuando seu périplo pelo tabaco. Os cantores foram muito simpáticos e carismáticos. Já no fim da noite, todos cantavam em uníssono os tangos famosos. Consegui puxar a letra de “Por una Cabeza”, a favorita do Bona, e me juntei ao coro.


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Depois, tivemos pique para ir ao La Catedral Club, outro bar muito interessante da cidade. Conversei com o segurança do local, e entendi que a casa fecharia às 02h da manhã. Porém, para minha alegria, percebi que foi outro erro de interpretação, e que a casa reabriria naquele horário. Ufa! E ficamos esperando um pouquinho.


Tenes cigarilla?”, nos perguntou a loira, que aparentemente tinha a memória fraca para encontrar fumantes. Ela também tinha deixado o El Boliche de Roberto e se aventurado pela La Catedral. Conversamos um pouco mais, e conheci aspectos mais profundos dela. Mesmo assim, quando entramos, passamos pelo fumódromo, e adivinha o que ela repetia insistentemente para os demais visitantes: “Tenes cigarilla?”.


No salão do La Catedral, tomamos um Hormiga Negra Malbec (3,1) enquanto escutávamos canções tradicionais de milonga – não confundir Tango com Milonga, por favor! O lugar era amplo, escuro e bem alternativo. Uma ótima pedida para o fim de noite, início de madrugada. Na volta, deixamos Jéssica em sua casa em Almagro. Em uma nova caminhada pela noite portenha, comprei o vinho Alambrado Malbec (3,5) num kiosko. Kiosko é um mercado de etílicos e conveniências aberto 24 horas e que está presente em todo quarteirão da cidade.


Só que, para minha surpresa, o lugar não vendia abridor de vinhos (também conhecido como saca-rolha), e comecei uma busca incessante por comprar a ferramenta. “Tenes abridor de vino?”. A cada kiosko que passávamos, repetia aquele que se transformou em meu mantra naquela madrugada. Infelizmente, quanto mais perguntava, mais negativas como resposta eu recebia. Será que ninguém vendia abridor de vinhos naquela cidade?!


Bem no final do bairro de Almagro, no último kiosko antes de seguirmos de volta para Saavedra, um vendedor iluminado resolveu me ajudar. Acostumado com bêbados desesperados por vinho, ele conseguiu abrir a garrafa sem o saca-rolha. O que o MacGyver argentino fez? Ele bateu na base do vinho e, em seguida, empurrou a corcha para dentro. Ainda teve a delicadeza de me dar um palito de sorvete para manter a rolha longe do gargalo e facilitar a degustação. Genial! A noite não poderia ficar melhor, mas ficou!


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Tenes cigarilla?”. Sim, a loira apareceu absolutamente do nada na frente do kiosko quando ia sorver o primeiro gole da tão desejada garrafa. Devido à aleatoriedade do encontro, minha alegria ao vê-la foi tão efusiva que dei um alto grito fraternal. A moça e um amigo deram um pulo assustados. Passado o espanto mútuo, trocamos algumas palavras e continuamos nossa jornada.


No quarteirão seguinte, pegamos um Uber para Saavedra. Às 5h30, chegamos em casa. Foi aí que percebi que eu praticamente não bebera o vinho que demandou tanto esforço para ser aberto, mesmo ele sendo superior aos outros dois rótulos da noite, segundo o Vivino. E na casa do Bona, acredite: na falta de um saca-rolha, havia dois!


Duas horas depois, já estávamos no Moshu, café meio chique do bairro e que fica bem frente ao apê do Bona. Era a partida de Daniella e Markinhos para o Brasil, antes de voltarem para a Suíça. Pedi uma fatia de bolo de chocolate que veio extremamente generosa e gostosa. Mesmo assim, não consegui evitar a ressaca forte, e dormi o restante da manhã (e início da tarde).


No final da tarde, já devidamente restabelecido, andei de trem e metrô até o Cine Gaumont, ao lado do Congresso, para conhecer uma tradição de CABA: os protestos contra Milei. Chegamos e já avistamos a multidão contra a privatização do Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA) ocupando toda a rua. As coisas estavam muito tranquilas, até os policiais da tropa de choque se aproximarem. Primeiro, um agrupamento fechou um lado do quarteirão e, logo depois, outro agrupamento se aproximou do outro lado.


Foi quando encontramos Jéssica, a moça que teve a ideia daquele passeio cultural, e ficamos observando tudo a uma distância segura. É interessante que, na mesma praça onde a tropa de choque do presidente enfrenta jovens protestantes como se eles fossem ingleses em uma ilha do Atlântico Sul, idosos passeiam com seus cães sem guia, adolescentes apaixonados tomam gelados de mãos dadas e casais empurram os carrinhos dos filhos pequenos. Tudo bem e tranquilo naturalizando a violência entre cidadãos e Estado.


Apaixonado por vinhos e carnes, Paulo Sousa detalha no Bonas Histórias como foi sua experiência etílico-gastronômica na capital da Argentina em março de 2024

Furtivamente, um terceiro agrupamento de policiais penetrou na massa e abriu à força uma faixa da Avenida Rivadavia. Aí, as coisas se animaram: as pessoas cantaram mais, os batuques aceleraram, algumas porradas aconteceram. Nenhum carro se atreveu a passar por lá, mesmo com a insistência dos policiais. Um deles acabou atropelando levemente alguns manifestantes, que gritaram de ódio, fazendo o carro acelerar. Só que ele parou no farol ao lado, e não teve jeito, foi cercado e teve vidros quebrados, lataria chutada e portas abertas visando o espancamento do motorista. Agora sim, tínhamos um legítimo protesto portenho.


Temendo por tiros e bombas de gás lacrimogêneo, decidimos abandonar o espetáculo pela metade, e caminhamos pelo centro até entrarmos no La Americana, pizzaria simples e popular, cheio de manifestantes de esquerda que decidiram interromper momentaneamente a revolução para uma medialuna ou uma empanada.


No La Americana (em uma enorme contradição entre o nome da pizzaria e o perfil político do público frequentador daquela tarde/noite), encontramos Débora e Juliana, brasileiras peronistas e amigas de Jéssica. Elas também estiveram no protesto (só que diferentemente da gente, estavam no meio da porrada-e-bomba). Conversamos bastante, comemos empanadas e bebemos um vinho da casa. A certa altura, uma salva de palmas ecoou, e vimos pela TV ligada que o Congresso havia recusado naquele instante o DNU, lei que daria superpoderes ao presidente Milei.


Milei, basura, vos sos la ditadura”, gritaram os manifestantes, satisfeitos com a vitória política e com a comida bem servida. Animados, decidimos continuar a noite no Bellagamba, restaurante menos barulhento a algumas quadras dali. No novo estabelecimento, bebemos algumas botellas de Portillo Chardonnay 2019 (3,6) entre um blackout e outro. Quando a luz voltou em definitivo, pedi como jantar a carne Bondiola com papas e batatas (8,0), que caiu muito bem. Terminamos a noite levando Jéssica e Débora para suas respectivas casas.  


Na sexta-feira, trabalhamos durante o dia inteiro e no final da tarde fomos caminhar pelo barrio de Núñez. Além de avistar o Monumental de Núñez, estádio do River Plate, passamos pelo recém-inaugurado Parque de la Innovación, que será um enorme hub de tecnologia algum dia. Mas, até lá, tudo bem, o importante é que já é um parque inaugurado.


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À noite, caminhamos pelo barrio Chino, visitamos uma agradável comissaria de policia na Calle Mendoza (coisas do Bona, vai entender?!) e voltamos para Núñez para jantar no bodegón Rox. Bebi um Portillo Malbec 2018 (3,6), e pedi um Bife de Chorizo Rox (8,8), com papas españolas, ramón cozido e huevo frito. Receita honesta executada de ótima forma.


Chegamos, então, ao meu último fim de semana na Argentina. Para coroar uma viagem maravilhosa, fomos ao Siga La Vaca, em Puerto Madero, casa tradicional de parrilla argentina muito visitada por turistas. O esquema é um pouco diferente do que estamos acostumados em um rodízio brasileiro: você se serve frente à grelha e depois tem à disposição um buffet de saladas e acompanhamentos. Foi a única vez que vi arroz em Buenos Aires, e fiz questão de não comer, por respeito à cultura local.


Incluído no pacote estava o vinho San Huberto Malbec Clásico (2,9), uma opção válida, mas muito abaixo do nível das carnes. Tive a oportunidade de comer Chorizo, Morcilla (a melhor da minha vida), Vacío, Picanha e Bife de Chorizo, além das achuras (entranhas): os chinchulines (tripa de boi) estavam suculentos, e as ruedas (região superior do intestino delgado) idem. Os riñones (rins) também estavam bem temperados, mas achei a carne muito forte e não comi muito. No total, o conjunto das carnes do Siga La Vaca recebeu nota 9,1.


À noite, Ricardinho (denominação alternativa do Bona que só fui conhecer em Buenos Aires) estava cansado e com muito trabalho a fazer, e resolveu ficar em casa. Eu relutei em sair, mas para dar um pouco de paz e privacidade ao meu amigo, que me acompanhava bravamente nas noitadas e na bebedeira, resolvi voltar para a rua. Fui ao aniversário de Juliana (amiga de Jéssica que conheci no protesto), e seu namorado Diego (nome comum entre os argentinos nascidos na década de 1980 – por que será?).


O rendez-vous aconteceu no Le Troquet Henry, um bar charmoso de Almagro. A temática foi fundo do mar, e colei alguns adesivos na minha Tech T-Shirt da Insider para estar à caráter. Não, isso não é uma publi da empresa de vestuário, mas bem que poderia ser – o Bonas Histórias merece! A festa contou com pessoas muito gentis, que me receberam muito bem. Mesmo sozinho, percebi que a barreira linguística já não era tão grande. Conversei bastante em espanhol com Hernán e Rosa, casal de amigos compreensivo com minhas perguntas sobre o espanhol, que visavam aumentar meu vocabulário minúsculo e consertar minhas bisonhas conjugações verbais. Bebemos um Etnia Malbec Roble (2,8), último vinho portenho e a pior nota no Vivino.


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Na saída, encontrei um mendigo bêbado e trocamos algumas palavras. Talvez pelo álcool, nossa comunicação fluiu de forma boa e, sei lá como, nos entendemos. Servi o restante de meu vinho a ele, até para não levar para casa mais uma garrafa aberta. A geladeira do Bona já não cabia – toda noite voltava com uma botella aberta.


Decidi estender a noite e caminhei um pouco até encontrar o Club Cultural Bula. Lugar bacana, no qual uma banda com gaita de fole se apresentava. Infelizmente, cheguei tarde para o show, e eles já estavam no bis. Começou, então, uma baladinha com a temática anos 1990, levando toda a geração Z ali presente ao delírio. Mas já estava tarde, e decidi voltar para o meu/nosso apê em Saavedra. Depois de nove dias em CABA, ele já era um pouco meu.


Finalmente, chegou o domingão, último dia portenho completo. Eu acordei animado pela noite anterior, mas já sentindo saudades do período festivo. Tomamos o café da manhã no Dandy Deli, lugar com algumas unidades em CABA e com um ambiente acolhedor e refinado ao ar livre. Pedi huevos revoltos con tostadas, uma omelete clássica e bem-feita.


Quis aproveitar a manhã e, finalmente, jogar aquela partida de xadrez com o professor do Parque Saavedra. Infelizmente, não o avistei. Entendi que nós devemos aproveitar as oportunidades assim que elas aparecem, pois nunca sabemos quanto tempo elas permanecerão à nossa disposição.


Após essa edificante lição de vida, caminhamos até o Parque de Los Niños, onde vi a imensidão do Rio da Prata, dos panapanás onipresentes e dos enxames de mosquitos. Eu já estava farto de tanto comer carne e, por isso, escolhi para jantar o restaurante italiano La Rossi Maniera. Mas não teve jeito, pedi um bife à milanesa.


Sem medo de se lançar aos prazeres da culinária e dos vinhos argentinos, Paulo Sousa passou 11 dias comendo e bebendo em Buenos Aires

Essa foi uma grande surpresa da viagem, porque a Milanesa a La Mama (9,3) estava maravilhosa, com pimentão, queijo, carne moída e tomate cereja, além das papas. Muita generosidade no prato, e um tempero caseiro que me marcou bastante.


No dia seguinte, bebi apenas um scoop de Whey Protein e parti para o Aeroparque. Foram dias maravilhosos, nos quais pude aproveitar uma liberdade grande, conversar com meu amigo Bona, conhecer pessoas bacanas, comer muita carne e beber muito vinho. E, claro, escrever para o Bonas Histórias. Que venham as próximas viagens! E mais posts etílico-gastronômicos na coluna Passeios e na coluna Gastronomia.


A seguir, vão os links dos locais visitados e as notas do que degustei, no caso de algum viajante se interessar por repetir minha aventura pelos prazeres das carnes e dos vinhos argentinos:


5) ANEXOS:


Anexo A - Instagram dos locais visitados


Club Atletico Platense - https://www.instagram.com/caplatense/


Anexo B - Ranking de Vinhos (segundo o Vivino)

Ranking dos vinhos argentinos degustados por Paulo Sousa em sua viagem para Buenos Aires, segundo relato da crônica CABA que não ACABA

Anexo C - Ranking de Carnes (segundo REPS)

Ranking das carnes argentinas apreciadas por Paulo Sousa em sua viagem para Buenos Aires, segundo relato da crônica CABA que não ACABA

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Paulo Sousa é escritor, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo), e da coletânea de haicais “Acinte 2020” (Pomelo), e diretor-geral da Epifania Comunicação Integrada, agência de marketing digital. No Bonas Histórias, ele produziu por duas temporadas a coluna Miliádios Literários e publicou a novela “Histórias de Macambúzios” na coluna Contos & Crônicas. Bom de garfo e de copo, Paulo (mais conhecido em CABA como Pablito, El Caníbal) está sempre contando boas histórias para diversão dos amigos. Isso é, quando não está comendo e bebendo.  

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