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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural – literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura, gastronomia, turismo etc. –, o Blog Bonas Histórias analisa de maneira profunda e completa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 44 anos e mora com um pé em Buenos Aires e outro na capital paulista. Atuando como editor de livros, escritor (ghostwriter), redator publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural e pesquisador acadêmico, Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Peças Teatrais: Minha Estrela Dalva – A Rainha da Voz por Renato Borghi

  • Foto do escritor: Ricardo Bonacorci
    Ricardo Bonacorci
  • há 1 dia
  • 16 min de leitura

Em cartaz de 8 de março a 12 de julho de 2026, no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP da Avenida Paulista, o musical sobre a cantora Dalva de Oliveira estreou há 39 anos. Nesta nova edição, Soraya Ravante, Elcio Nogueira Seixas e Ivan Vellame dividem o palco com Borghi, que escreveu a peça em conjunto com João Elísio Fonseca.


Minha Estrela Dalva é a biografia musical de Dalva de Oliveira que foi escrita por Renato Borghi e João Elísio Fonseca e estrelada por Soraya Ravante

Na última sexta-feira de abril, fui ao Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP da Avenida Paulista, com minha irmã Marcela, também conhecida como a responsável pela confecção da coluna Dança e a diretora da Dança & Expressão. Nosso programa era ver um clássico da arte cênica brasileira. Afinal, tenho que aproveitar a temporada (mais longa do que desejava, admito!) pela cidade de São Paulo para mergulhar em sua efervescência artístico-cultural. E nada melhor do que conferir um espetáculo teatral com quase quatro décadas de existência e que se mantém bastante atual, né? Estou falando, conforme explicitado no título e no subtítulo deste post, de “Minha Estrela Dalva”, musical escrito por Renato Borghi e João Elísio Fonseca em meados da década de 1980. O tema da peça é a adoração de Borghi por Dalva de Oliveira, uma das cantoras mais destacadas da Era de Ouro do Rádio no Brasil e que faleceu em agosto de 1972.


Aqui vale uma observação, senhoras e senhores. Os leitores mais assíduos da coluna Teatro já devem ter percebido que gosto demais das peças teatrais que se tornaram cânones culturais. Curto tanto que vire e mexe as analiso no Bonas Histórias. Não por acaso, minhas duas últimas críticas nessa seara foram justamente de clássicos cênicos sul-americanos: “Made in Lanús”, drama argentino de Nelly Fernández Tiscornia que está completando 40 anos em 2026; e “Sex Shop Café”, comédia brasileira de Gilberto Amendola que integra há muitos anos o circuito nacional do teatro independente. Agora é a vez de conversarmos sobre “Minha Estrela Dalva”, que depois de muito tempo ganhou uma reencenação produzida por um de seus criadores. Impossível não me empolgar com tal espetáculo!


Lançado pela primeira vez em 1987, o musical de Renato Borghi enfocando a Rainha da Voz (ou a Rainha do Rádio, ou mesmo o Rouxinol do Brasil, os apelidos mais famosos de Dalva de Oliveira) foi originalmente estrelado por Marília Pêra. Não é preciso dizer que a peça se tornou um grande sucesso de público e de crítica naquela época. Uma década e meia depois da morte da cantora paulista, a plateia tinha a chance de rememorar no palco a trajetória e os principais sucessos da artista natural de Rio Claro que brilhou na primeira metade do século XX. Tudo isso em uma narrativa deliciosa de Borghi e Fonseca, que misturava passagens históricas, oníricas e metalinguísticas.


Lançado originalmente em 1987, Minha Estrela Dalva é a biografia de Dalva de Oliveira escrita por Renato Borghi e João Elísio Fonseca, que volta a ser encenada, em 2026, no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, na Avenida Paulista, em São Paulo

Agora, aos 89 anos de idade e com 68 anos de carreira artística, Renato Borghi, um dos líderes do Teatro Oficina e figura da primeira prateleira da arte cênica brasileira, retoma o espetáculo que remete à sua infância e juventude. Fã incondicional de Dalva de Oliveira desde pequenino, o dramaturgo nascido no Rio de Janeiro interpreta a si mesmo no palco. Obviamente que pela idade avançada, ele passa a peça inteira sentado numa poltrona. Mesmo assim, seu magnetismo é inegável. Ao seu lado nesta produção, estão Soraya Ravante, um dos principais nomes dos musicais nacionais, Elcio Nogueira Seixas, que também divide a direção do espetáculo com Elias Andreato, e Ivan Vellame, cantor e intérprete especializado em musicais.


Junto com o quarteto de atores, a banda comandada por William Guedes executa a trilha sonora ao vivo no palco. Eles ficam na parte superior, ao fundo do cenário. Nath Calan (bateria e percussão), Giancarlo Barletta (baixo), Gustavo Fiel (piano elétrico), Denise Ferrari (violoncelo), Eliza Monteiro (viola) e Mica Marcondes (violino) integram o conjunto musical de Guedes (violão). Note que, na dinâmica bem azeitada da peça, os músicos se tornam, em alguns momentos, participantes da própria história encenada. É hilário constatar que o jogo cênico entre músicos e atores faz parte das brincadeiras metalinguísticas do espetáculo. Da equipe técnica de “Minha Estrela Dalva”, destaco Márcia Moon como a responsável pelo cenário, Wagner Pinto pela iluminação e Fábio Namatame pelo figurino.


O mais interessante é que Renato Borghi foi mesmo superfã de Dalva de Oliveira, conforme está descrito no roteiro do espetáculo. Ele afirma que sua paixão pela cantora do interior de São Paulo o influenciou a ingressar na carreira artística. Inclusive, quando já era um destacado ator e diretor cênico no fim dos anos 1960, Borghi se tornou amigo de verdade da Rainha do Rádio. As constantes visitas à casa de Dalva em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, serviram de base para a construção do perfil dela, que a peça tão bem retrata.


É preciso dizer que o enredo de “Minha Estrela Dalva” foge bastante da biografia tradicional da cantora, principalmente para quem assistiu a “Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor” (2010), minissérie da Rede Globo. Aí está a graça e a força deste texto cênico. O musical de Borghi não se preocupa em apontar mocinhos e mocinhas nem vilões e vilãs desta história para lá de complexa. A proposta é simplesmente mostrar uma artista angustiada pelo ocaso profissional e vítima de mentiras proclamadas pela imprensa marrom do Rio de Janeiro, que influenciava a opinião pública. Assim, temos uma Dalva de carne e osso, cheia de acertos e erros. O ponto de vista é, obviamente, de um fã incondicional da intérprete, alguém que torce por ela de coração.


Clássico do teatro musical brasileiro, Minha Estrela Dalva é a biografia da cantora Dalva de Oliveira, que estreou em 1987 com Marília Pêra e que em 2026 ganhou uma nova encenação com Soraya Ravante

A trama da peça inicia-se com a visita de dois Renatos Borghi, um jovem (interpretado por Élcio Nogueira Seixas) e outro idoso (encenado pelo próprio Renato Borghi), ao camarim de Dalva de Oliveira (Soraya Ravante). A cantora que encantou o Brasil entre as décadas de 1930 e 1950, primeiramente como componente do Trio de Ouro (conjunto formado por ela, Herivelto Martins, seu marido na época, e Nilo Chagas) e depois em carreira solo, já não vive o apogeu artístico. Há até a possibilidade de que ela nem esteja viva (morreu, então?!). A angústia pelas decadências físicas, morais e artísticas a levou à embriaguez constante. Assim, Dalva protagoniza cenas lamentáveis nos palcos, em que mal consegue ficar de pé ou quando não se recorda da letra da canção executada.


Ainda assim, Renato Borghi, em suas duas versões, segue sendo seu grande fã. Por isso, ele (ou seriam eles?) convida a intérprete decadente para atuar em uma peça que está preparando. Trata-se da encenação nacional da “A Ópera dos Três” (Die Dreigroschenoper: 1928), de Bertolt Brecht. Na cabeça do dramaturgo brasileiro, Dalva de Oliveira é a pessoa certa para protagonizar a canção “Jenny dos Piratas” (Seeräuber-Jenny), cena marcante do musical alemão. Além da trajetória de vida dela ser muito parecida com a da personagem principal da ópera, Dalva segue sendo, na mente saudosa de Renato, o Rouxinol do Brasil. Quem teria melhor voz do que ela para interpretar a Jenny de Brecht, hein?! Ninguém.


Enquanto tenta convencer a antiga diva a participar de sua peça, Renato Borghi estabelece pouco a pouco uma amizade forte e sincera com Dalva de Oliveira. Assim, trocam confidências, falam do passado e comentam dramas presentes. A cantora discorre sobre seus casamentos tumultuados com Herivelto Martins, Alberto “Tito” Vicente Climent e Manuel Nuno Carpinteiro (trio interpretado no musical por Ivan Vellame). Por outro lado, o dramaturgo/ator, em suas versões de 1969 e de 2026, relata seu fascínio pela Era de Ouro do Rádio, pelo Teatro de Revista e, obviamente, pelo apogeu artístico da Rainha da Voz.


Dessa forma, a peça caminha tecendo uma dupla biografia: de Dalva de Oliveira como estrela da música nacional e de Renato Borghi como fã incondicional da cantora. Juntamente com a trama principal, há muitos elementos oníricos de ambos os protagonistas e intermináveis componentes intertextuais sobre a produção teatral. Para completar a riqueza de conteúdo do espetáculo, a linha narrativa não respeita a ordem cronológica. Tal qual o navegar caótico de uma conversa entre velhos amigos, a história vai e volta no espaço temporal.    


Escrito por Renato Borghi e João Elísio Fonseca, Minha Estrela Dalva é o musical sobre Dalva de Oliveira protagonizado por Soraya Ravante, Renato Borghi, Elcio Nogueira Seixas e Ivan Vellame

“Minha Estrela Dalva” reestreou em 8 de março em São Paulo e ficará em cartaz, no Centro Cultural FIESP, até 12 de julho de 2026. Por enquanto, não há qualquer menção sobre a extensão desta temporada cênica. Pelo menos não ouvi nem li nada a respeito. São normalmente quatro apresentações semanais (nas noites de quinta-feira a domingo). A duração da sessão é de aproximadamente 1h50. Aos finais de semana, o espetáculo tem acessibilidade, com intérprete de Libras e audiodescrição.


Entre os componentes elogiosos desta peça, começo destacando seu roteiro inteligentíssimo. Ele potencializa o humor e a metalinguagem teatral, o que confere certa leveza para uma trama tão densa e angustiante. Afinal, a vida de Dalva de Oliveira, convenhamos, não foi um mar de rosas, né? Ainda mais a partir do enfoque de seu desfecho melancólico, quando ela perdeu o encanto das massas e a voz portentosa e ganhou incontáveis haters (numa época em que esse termo não era usual, mas a prática já existia).


A graça do musical aparece de várias maneiras distintas: no deboche da protagonista com os erros de seu passado; nas dores pelo envelhecimento do dramaturgo; no uso de apelidos reais dos atores em cena (e não das personagens); na constante quebra da linha narrativa da encenação para citações de passagens reais da produção da peça e da biografia do elenco; e nos retratos de momentos tragicômicos de Dalva. Por mais que a história central tenha muitos elementos tristes, ainda assim o tom geral da peça não é de pessimismo. A tônica é de saudosismo e de admiração pelas proezas do passado, com ênfase ao humor autodepreciativo.


A intertextualidade teatral aparece de várias formas diferentes. Lembremos que a linha dramática de “Minha Estrela Dalva” é o convite de Renato Borghi para que Dalva de Oliveira protagonize a cena de “Jenny dos Piratas”, canção da ópera de Bertolt Brecht que ele está produzindo. Assim, o cenário do espetáculo remete justamente à montagem de uma peça real. As escadas indo e vindo no palco o tempo inteiro dão um ar de que a plateia está conferindo os bastidores da montagem clássica. As personagens aparecem, muitas vezes, se arrumando, como se estivessem no camarim antes ou depois do espetáculo. Por isso, o desfecho com Soraya Ravante se revelando por debaixo da protagonista que interpreta faz todo o sentido pela ordem narrativa. 


Em cartaz de 8 de março a 12 de julho de 2026, no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, em São Paulo, Minha Estrela Dalva é o musical sobre Dalva de Oliveira protagonizado por Soraya Ravante

É preciso salientar que o texto e a estrutura de “Minha Estrela Dalva” (não sei o porquê, mas sempre tenho a mania de querer escrever o nome da peça como sendo “Minha Querida Dalva”!) são extremamente modernos. Ao embaralhar as realidades (sonho, imaginação e concretude), os tempos (passado e presente), os lugares (São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Paris) e planos (céu e terra), a trama ganha naturalmente em riqueza e profundidade dramática. A plateia fica o tempo todo se perguntando onde e quando está ocorrendo a cena. Não por acaso, o musical adquire enorme dinamismo. Esqueça os musicais enfadonhos e cansativos que você possa ter visto. Definitivamente, não é o caso aqui. Se eu não pisquei nem bocejei, acho que ninguém o fará.


Pela perspectiva onírica e sobrenatural, o subir e descer dos atores pelas escadarias remete à comunicação entre céu/paraíso (onde Dalva reside depois da morte) e terra/realidade (onde Borghi permanece). A passagem entre os dois mundos está exatamente nos degraus, que também ganham caráter de apogeu e de decadência da artista retratada. No alto das estruturas itinerantes, Dalva de Oliveira segue sendo a diva do rádio. Já na base da estrutura móvel, se torna a cantora decadente. Por essas múltiplas leituras, as escadas são tão importantes para o enredo de “Minha Estrela Dalva”. Juro que não consigo imaginar essa peça sem os degraus espalhados pelo palco.


Outro elogio que tenho que fazer é pela falta de didatismo da apresentação das biografias de Dalva de Oliveira e Renato Borghi. A história é contada com velocidade e sagacidade, cabendo à plateia montar as peças do quebra-cabeça narrativo por conta própria. Por exemplo, não é explicado que a cantora sofreu um acidente de carro, já no fim da carreira, que a deixou com cicatrizes no rosto. O que o musical faz é mostrar os lamentos da artista com a face longe da perfeição e com vários pontos cirúrgicos. O mesmo princípio ocorre com o relato sobre o dramaturgo carioca. Ninguém cita explicitamente que ele é um dos fundadores do Teatro Oficina. Porém, é demonstrado no meio da história o seu lado empreendedor – vai produzir um novo musical.


Por isso mesmo, acho que quem conhece a história de Dalva e Borghi vai aproveitar muito mais o musical do que quem não conhece nada de suas trajetórias. Já o público que cai de paraquedas nessa trama, terá que exercitar a massa encefálica para compreender a trama de maneira abrangente. Confesso que gosto de obras artísticas que acreditem e, principalmente, estimulem nossa inteligência. Por outro lado, a plateia de paladar mais infantilizado, que não está acostumada aos mínimos exercícios intelectuais, certamente reclamará do tom anárquico da narrativa.


Minha Estrela Dalva é o musical que coloca Dalva de Oliveira e Renato Borghi frente a frente em cena

Por falar nisso, tenho que destacar a construção da protagonista de “Minha Estrela Dalva”. A Dalva de Oliveira de Renato Borghi e João Elísio Fonseca é uma personagem muito mais redonda do que plana. Na eterna briga entre quem estava certo e quem estava errado no conflito matrimonial que mobilizou o país no finalzinho da primeira metade do século XX e decretou o fim do Trio de Ouro, os dramaturgos são totalmente imparciais. Por mais que siga adorando a cantora, Borghi mostra que tanto Dalva quanto Herivelto Martins erraram. Não há, portanto, nenhum santinho nessa trama. O que se enfatiza neste musical é a enxurrada de mentiras que saíram na imprensa sobre Dalva de Oliveira. Sim, senhoras e senhores, as fake news são mais antigas do que podemos imaginar (só não tinha o nome em inglês, né?). 


Como um bom musical, “Minha Estrela Dalva” tem a exibição de várias canções imortalizadas na voz de sua protagonista. Curiosamente, por mais que os sucessos da cantora rio-clarense tenham quase um século de existência (principalmente os hits do Trio de Ouro), a maioria da plateia no Teatro do SESI-SP sabia cantá-los. Aí o mérito, creio eu, é da minissérie global de 2010, que recolocou na boca do povo as faixas exitosas de Dalva de Oliveira (e Herivelto Martins). Não é errado afirmar que a trilha sonora deste espetáculo é um de seus pontos fortes, assim como o trabalho do conjunto musical liderado por William Guedes. 


Meus destaques vão para as faixas: “O Dia Que Me Quieras” – tradução do tango “El Día Que Me Quieras” (1935) de Carlos Gardel –, “Ave Maria no Morro” (1942), “Segredo” (1947), “Cabelos Brancos” (1949), “Errei Sim” (1950), “Tudo Acabado” (1950), “Que Será” (1950), “Estrela do Mar” (1952) e “Bandeira Branca” (1970). Também me recordo de ter ouvido: “Dois Corações” (1942), “Teus Ciúmes” (1958), “Máscara Negra” (1967) e “Hino do Amor” – versão brasileira de “L'Hymne à l'amour” (1950) de Edith Piaf.


Curiosamente, a canção que mais gosto é “Cabelos Brancos”, composição de Herivelto Martins para a ex-esposa. Seus versos mais famosos são: “Não falem desta mulher perto de mim/ Não falem pra não lembrar minha dor/ Já fui moço, já gozei a mocidade/ Se me lembro dela me dá saudade/ Por ela vivo aos trancos e barrancos/Respeitem ao menos os meus cabelos brancos”. A letra mistura saudades, arrependimentos e, acima de tudo, resquícios de um grande amor. Nessa hora do espetáculo, juro que cantei a todo pulmão junto com Ivan Vellame. Ah, não se assuste com isso, tá? Muitas músicas ganham o coro da empolgada plateia, que conhece de cor e salteado as várias canções executadas no palco.


Na nova edição de Minha Estrela Dalva, musical sobre a cantora Dalva de Oliveira, Soraya Ravante, Elcio Nogueira Seixas e Ivan Vellame dividem o palco com Renato Borghi, que escreveu a peça com João Elísio Fonseca

A força das letras das músicas está na interação íntima com os dramas vivenciados por Dalva e seus maridos. Cada separação trouxe um caminhão de versos ao melhor estilo dor de cotovelo. Aí o ápice do melodrama sentimental é, sem dúvida nenhuma, a ruptura com Herivelto Martins. O mais interessante é que os turbilhões emocionais do antigo casal que monopolizou a atenção das plateias no país inteiro aparecem explicitamente nas músicas da dupla de cantores. Vamos combinar que isso é um prato cheio para a curiosidade alheia e, claro, para um musical autobiográfico, né? Portanto, mergulhe nos detalhes das letras das canções executadas em “Minha Estrela Dalva”. Elas falam tanto da protagonista da peça quanto o que as personagens conversam no palco.


Já que falei da excelência da banda de Guedes, tenho que apontar a atuação impecável de Soraya Ravante. Nas últimas três décadas, ela tem se provado a maior intérprete musical do Brasil. Ainda que seja apaixonado pelo trabalho de Sara Sarres, de “O Homem de La Mancha” (2014), tenho que reconhecer o primor da carreira de Ravante e as incontáveis premiações que recebeu. Sua caracterização de Dalva de Oliveira beira a perfeição, assim como seu desempenho como cantora. Lembro vagamente de Soraya Ravante da sua estreia na televisão, como Angela de “Vale Tudo” (1988) e, logo em seguida, Anete de “Que Rei Sou Eu?” (1989). Contudo, foi longe das telenovelas globais que ela marcou seu nome na arte cênica. Foi como atriz no teatro musical que despontou e atingiu a consagração. Das 32 peças teatrais realizadas, 30 foram musicais.


Dalva de Oliveira foi apenas mais uma cantora que Ravante interpretou nos palcos brasileiros. Ela já deu vida, por exemplo, a Dolores Duran, em “Dolores” (1999), Carmen Miranda, em “South America Way” (2001), e Isaura Garcia, em “Isaura Garcia, O Musical” (2018). No teatro musical, vale a lembrança, Soraya Ravante iniciou justamente como corista da versão original de “Minha Estrela Dalva”. Em 1987, aos 24 anos de idade, ela integrava a banda que acompanhava Marília Pêra, a primeira Dalva de Renato Borghi e João Elísio Fonseca.


Como parceiro de canto da protagonista desta nova edição do musical sobre Dalva de Oliveira, Ivan Vellame mantém o altíssimo nível da colega mais experiente. Ele se sai bem tanto na interpretação dos maridos de Dalva quanto nas cenas musicais, como cantor. Porém, o que mais gostei foi notar que seu espanhol rio-platense fluiu sem tropeços e com enorme naturalidade. Afinal, um dos esposos da Rainha da Voz foi um argentino. E clicar a “tecla SAP” em cima do palco nunca é tarefa fácil. Felizmente, Vellame foi muitíssimo bem nesse desafio.    


Clássico do teatro musical brasileiro, Minha Estrela Dalva é a biografia da cantora Dalva de Oliveira, que estreou em 1987 com Marília Pêra e que em 2026 ganhou uma nova encenação com Soraya Ravante

Por mais que “Minha Estrela Dalva” seja um musical brilhante, ele apresentou alguns tropeços. O maior deles foi o “desfecho falso”, que enganou a plateia e constrangeu os atores. Mas o que seria um “desfecho falso”? É aquele que nos faz acreditar que a peça se encerrou, ao ponto de nos levantarmos para aplaudir. Aí os artistas no palco se desesperam para mostrar que estávamos enganados. Quando isso acontece, vamos combinar que o problema não é de interpretação do público no teatro e sim da inconsistência da narrativa.


Outro ponto que não gostei foi o tom da personagem de Renato Borghi quando jovem. Achei sua caracterização exagerada, meio afetada até. Na minha visão, ela destoa da sobriedade das demais figuras retratadas. Juro que não sei se a culpa foi de Elcio Nogueira Seixas, que fez do Renato uma bichinha louca na juventude, ou se foi da linha narrativa construída pelos dramaturgos de “Minha Estrela Dalva”. E, antes que alguém me acuse injustamente de homofobia, meu questionamento tem mais a ver com o exagero da personagem no palco (que destoa da leitura geral da história) do que com seus trejeitos afeminados propriamente ditos.


Por fim, os apreciadores das boas histórias podem se incomodar com a forte sensação de déjà vu deste enredo. Por mais que a estética da narrativa seja realmente original, a linha dramática, infelizmente, não é nada inovadora. E olha que não estou me referindo às lembranças de “Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor”, que permanecem vívidas na memória do grande público depois de uma década e meia de exibição na televisão aberta. Como “Minha Estrela Dalva” é originalmente anterior à minissérie global, relevo essa associação automática. Minha observação é com outras duas questões delicadas, que precisei trazer para nosso debate sim ou sim.  


O primeiro déjà vu a que me refiro é com os dramas de artistas que não sabem lidar com a fase decadente e se autodestroem. Vamos combinar que esse é um assunto muito explorado no cinema, na televisão, na literatura e nos palcos há quase um século. Para mim, a maior referência nesse sentido é “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard: 1950), obra-prima noir de Billy Wilder, que um dia vou comentar na coluna Cinema. Mais recentemente, tivemos “A Substância” (The Substance: 2024), longa-metragem aterrorizante de Coralie Fargeat que tratava desta mesmíssima questão. Assim, acompanhar em pleno 2026 uma cantora padecer pelo ocaso profissional e pelo declínio físico me parece bater na velha tecla que tantos outros artistas já fizeram. Talvez em 1987 não fosse tão gritante tal sensação de repetição temática – vide sucesso que a versão original de “Minha Estrela Dalva” alcançou. Mas agora é, pelo menos para mim, um tanto desconfortante.


Em cartaz de 8 de março a 12 de julho de 2026, no Teatro do SESI-SP, no Centro Cultural FIESP, em São Paulo, Minha Estrela Dalva é o musical sobre Dalva de Oliveira protagonizado por Soraya Ravante

Outro incômodo é a overdose de biografias musicais que invadem, nos últimos anos, as salas de cinemas, os palcos cênicos, as telas de televisão e as estantes das livrarias. Nunca tivemos tantas histórias de cantores e cantoras reais sendo apresentadas para o grande público como agora. Só no teatro nacional recentemente, posso citar espetáculos sobre Rita Lee, Raul Seixas, Ney Matogrosso, Gal Costa, Cazuza, Clara Nunes, Gilberto Gil, Nara Leão... Confesso que chega uma hora que penso: será que não há outro assunto a ser abordado na dramaturgia e nos musicais nacionais, hein?!


Mesmo com esses pequenos deslizes, que precisei trazer para esta análise crítica, reconheço que “Minha Estrela Dalva” é um musical sublime. Não por acaso, resolvi produzir esse post para a coluna Teatro.


Para quem quiser conferir a peça de Renato Borghi sobre Dalva de Oliveira, aviso que os ingressos são gratuitos e devem ser reservados no site do SESI Eventos. A inscrição é simples e o passo a passo da navegação online é bastante intuitivo. O ideal é acessar a plataforma na segunda-feira de manhã porque a concorrência pelas entradas é enorme. Geralmente, na segunda à tarde, os ingressos para as sessões daquela semana já terminaram ou estão terminando. É possível fazer a reserva de apenas dois ingressos por usuário.  


De quinta a sábado, o espetáculo começa às 20h. Aos domingos, inicia-se uma hora mais cedo, às 19h. É bom chegar ao Centro Cultural FIESP com pelo menos 45 minutos de antecedência. Só assim dá para pegar um bom lugar no auditório. Como o tradicional teatro da Avenida Paulista está sempre lotado e não há ingressos numerados, os melhores assentos vão para quem primeiro adentra o recinto. O que vale, portanto, é a ordem de chegada, senhoras e senhores. Além disso, a fila geral é menor do que a fila preferencial. O motivo dessa bizarrice é que a maioria da plateia é composta por idosos.


Na sessão em que eu e minha irmã estivemos presentes, chegamos ao teatro com 45 minutos de antecedência e pegamos a fila geral. Assim, conseguimos nos sentar na segunda fileira, bem no centro do auditório. Ou seja, aproveitamos “Minha Estrela Dalva” em excelentes lugares e sem qualquer corre-corre ou complicação.


Escrito por Renato Borghi e João Elísio Fonseca, Minha Estrela Dalva é o musical sobre Dalva de Oliveira protagonizado por Soraya Ravante, Renato Borghi, Elcio Nogueira Seixas e Ivan Vellame

Para ser franco com vocês, colocamos os pés no Centro Cultural FIESP duas horas antes da sessão cênica começar. A razão da nossa chegada tão antecipada foi que aproveitamos a ida noturna ao espaço cultural para conferir a exposição “Pluralidades Insulares: Arte Latino-americana e Caribenha no Acervo do BID”. A mostra reúne mais de uma centena e meia de obras de 26 países do nosso continente e está incrível. Vale, sim, a visitação. “Pluralidades Insulares” ficará em cartaz até 5 de julho e está sendo exibido numa sala ao lado do Teatro do SESI. Dá muito bem para unir artes plásticas e teatro numa única tarde/noite. Quem sabe eu não comente também essa mostra na coluna Exposições, hein?! Vontade não me falta.


A última dica que deixo para os leitores do Bonas Histórias é que, conforme reza a cartilha do Teatro do SESI-SP, suas peças começam no horário exato. E quando digo “horário exato”, não estou exagerando. A sincronia beira a pontualidade das corridas de Fórmula 1, imortalizada na cena dos ponteiros do Rolex se juntando. Por isso, não se atrase a “Minha Estrela Dalva”, por favor. Se você não quiser correr o risco de sequer entrar no auditório, chegue com pelo menos 15 minutos de antecedência. Porque os lugares disponíveis são ocupados pelos interessados que estão sem ingresso, que formam uma fila à parte na entrada do teatro. Justo, muito justo, justíssimo.


Por hoje é só, senhoras e senhores. Até a próxima!


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