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  • Televisão: Senhor Brasil - O melhor programa da TV aberta

    Há alguns anos, o melhor programa da televisão aberta, em minha opinião, é "Sr. Brasil". Produzido pela TV Cultura, apresentado por Rolando Boldrin e filmado no Sesc Pompéia, o programa é exibido tanto pela TV Cultura quanto pela TV Brasil e pelo Sesc TV. Por ser transmitido por emissoras de pouca audiência, ele acaba sendo desconhecido ou pouco visto pela maioria das pessoas. É uma pena porque seu conteúdo é excelente. "Sr. Brasil" tem como proposta divulgar a cultura brasileira. A diversidade cultural do país é retratada pelos diferentes artistas que vão ao programa apresentar suas obras e conversar com o apresentador. O critério para alguém ser entrevistado não é o quão midiático é o artista e sim seu conteúdo. Dessa maneira, muitas pessoas desconhecidas do grande público ou um tanto esquecidas pela mídia massiva deleitam a plateia com seu talento. Além dos convidados e dos entrevistados, "Sr. Brasil" só é o que é por causa do seu apresentador. Em toda edição, Rolando Boldrin, com seu jeito simples de matuto do interior, encanta a todos com seu talento. Além de ter ótimo domínio do palco, ele possui um carisma contagiante. É impossível saber se Boldrin se sai melhor quando conta seus "causos", quando canta ou quando conversa descontraidamente com os entrevistados. Em uma televisão onde Faustão, Eliana, Jô Soares, Marília Gabriela e Serginho Groisman são referências na apresentação de programas de auditório e de entrevista, é um oásis ter Rolando Boldrin como comandante de uma atração semanal. Tudo ali parece muito bem planejado e executado. Ninguém quer aparecer mais do que o outro. O objetivo de "Sr. Brasil" é mostrar a riqueza e a pluralidade da cultura nacional. Ali vale mostrar a prosa, a poesia, a música, as piadas, as histórias e o estilo de vida dos diferentes cantos do Brasil. Em nome disso, as entrevistas e os quadros são produzidos com uma brasilidade sincera e genuína, sem exageros ou artificialidades. Outro capítulo à parte do programa é sua produção. Apesar de utilizar a simplicidade de um palco de teatro, o cenário e os detalhes são dignos de elogio. A sensação para quem está na plateia ou para quem está em casa acompanhando Boldrin e seus convidados é que todos foram transportados para uma fazenda antiga do interior do país. Neste lugar mágico e mítico, tudo pode acontecer. "Sr. Brasil" completou 10 anos em 2016. Espero que este programa tenha vida longa e que possa ser apreciado por mais pessoas. Para apresentar suas qualidades para quem não o conhece, selecionei algumas passagens de edições dos últimos anos. Deleite-se porque vale a pena. E depois me fale se Rolando Boldrin é ou não é um dos principais artistas brasileiros da atualidade. Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em TV, Rádio e Internet. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #RolandoBoldrin #televisão

  • Livros: Suíte Tóquio - A terceira publicação ficcional de Giovana Madalosso

    Lançado em setembro de 2020, o novo romance da escritora curitibana discute aspectos delicados da maternidade enquanto tece fortes críticas sociais. Na semana passada, li “Suíte Tóquio” (Todavia), o mais recente romance de Giovana Madalosso. Provando que é uma das mais originais e talentosas escritoras da literatura brasileira contemporânea, a jornalista curitibana radicada há anos na cidade de São Paulo apresenta uma trama criativa, contundente e inquietante sobre a maternidade e a desigualdade social no Brasil. Confesso que fiquei extremamente encantado com a qualidade absurda desta publicação. Não à toa, decidi analisá-la hoje na coluna Livros – Crítica Literária, a seção do Bonas Histórias dedicada justamente ao debate mais detalhado e técnico das produções ficcionais. Como é bom ler títulos sagazes feitos por artistas que dominam os pormenores da língua, têm mensagens fortes para passar, navegam com perfeição na arte da contação das histórias e são grandes conhecedores das particularidades dos elementos da narrativa!!! “Suíte Tóquio” e o trabalho literário de Giovana Madalosso como um todo se enquadram perfeitamente em tal descritivo. Se esta não for a melhor obra ficcional que li neste ano (e acho que é!), ela está no top 3 sem sombra de dúvida. Pelo menos das publicações que comentei no Bonas Histórias em 2023, posso garantir sem hesitação que “Suíte Tóquio” ocupa a posição mais alta do pódio. Quando comparado às leituras de 2022 (afinal, ainda estamos no comecinho da nova temporada da coluna Livros – Crítica Literária e pegar um período maior como referência é mais pertinente), o romance de Madalosso está no patamar de qualidade de “Kim Jiyoug, Nascida em 1982” (Intrínseca), best-seller internacional de Cho Nam-Joo, “A Verdade e a Vertigem” (Emporium), melhor coletânea de contos de José Vieira, e “Refém da Memória” (publicação independente), thriller psicológico de Helio Martins Jr. Para quem não é leitor assíduo do blog, preciso avisar que esses foram os três melhores títulos ficcionais que li no ano passado. Publicado em setembro de 2020, em plena pandemia da Covid-19, “Suíte Tóquio” é o terceiro livro ficcional de Giovana Madalosso. A estreia da autora na literatura comercial aconteceu em 2016 com a coletânea de contos “A Teta Racional” (Grua). As narrativas curtas que giravam em torno dos problemas, das neuroses e da complexidade da maternidade foram finalistas do Prêmio Clarice Lispector de 2017. Em 2018, Madalosso publicou seu primeiro romance, “Tudo Pode Ser Roubado” (Todavia). O thriller da garçonete trambiqueira foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2019 e marcou a chegada em grande estilo da escritora paranaense no universo das narrativas longas. Segundo romance de Giovana Madalosso, mas sua terceira publicação ficcional, “Suíte Tóquio” foi finalista do Prêmio Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário. A obra foi traduzida para o espanhol e para o inglês e já foi lançada em alguns mercados internacionais. É interessante notar que “Suíte Tóquio” dialoga intimamente com “A Teta Racional” e “Tudo Pode Ser Roubado”. O novo livro traz a temática de “A Teta Racional” (maternidade tóxica e complexidade em ser mãe) e a estrutura estética de “Tudo Pode Ser Roubado” (aventuras criminosas de anti-heroínas apresentadas de um jeito leve, engraçado e dinâmico, mas sem perder a força, a contundência crítica e a riqueza dramática). Em outras palavras, “Suíte Tóquio” pode ser encarado como um título excelente se visto pela perspectiva individual (leitura isolada). E quando analisado dentro do portfólio literário de Giovana Madalosso (leitura integrada), ele ganha ainda mais colorido e beleza. Afinal, é possível enxergarmos uma autora jovem e talentosíssima já com um estilo narrativo bem definido e com temáticas bem específicas/particulares (elementos literários que normalmente os escritores levam um tempinho para adquirir, isso é, quando os adquirem). Quem curte os textos de Madalosso, a boa notícia é que desde janeiro de 2023 ela é colunista da Folha de São Paulo. Leitor assíduo que sou do jornal paulistano (sim, eu ainda leio jornal TODOS OS DIAS!!!), passei a acompanhar suas crônicas engajadas, ácidas, críticas e, muitas vezes, cômicas. E digo sem medo de soar exagerado que a coluna de Giovana Madalosso (publicada uma segunda-feira sim e outra não na seção Cotidiano do impresso) está entre as minhas favoritas, ao lado dos textos dos também competentes Antonio Prata, de “Nu, de Botas” (Companhia das Letras), Fernanda Torres, de “Fim” (Companhia das Letras), Tati Bernardi, de “Depois a Louca Sou Eu” (Companhia das Letras), Ricardo Araújo Pereira, de “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar” (Tinta da China), Sérgio Rodrigues, de “O Drible” (Companhia das Letras), Itamar Vieira Junior, de “Torto Arado” (Todavia), Marcelo Duarte, da série “O Guia dos Curiosos” (Panda Books) e “Jogo Sujo” (Ática), e Ruy Castro, de “Estrela Solitária” (Companhia das Letras). Sei que sou suspeito para falar, pois sou apaixonado pelas crônicas, ainda mais quando inseridas no meio do conteúdo jornalístico e quando produzidas por mãos tão competentes. De qualquer maneira, não dá para perder o que esse time de altíssimo quilate da literatura nacional produz seja nas páginas da Folha de São Paulo, seja nas publicações direcionadas às estantes das livrarias. “Suíte Tóquio” foi produzido ao longo de dois anos e pouco. A escrita do livro começou mais ou menos na época em que o texto de “Tudo Pode Ser Roubado” foi enviado para a Editora Todavia, a casa editorial da romancista paranaense. Mãe de uma menina que tem atualmente dez anos, Giovana Madalosso utilizou os passeios que fazia rotineiramente com a filha pequena por Higienópolis, bairro onde mora há muitos anos, como mote da nova narrativa. Ao observar a multidão de babás (chamada no livro de exército branco) que frequentava a Praça Buenos Aires com a criançada a tiracolo (ou nos carrinhos de bebê), surgiu a ideia de produzir a trama ficcional. O enfoque da história era realidade por vezes sofrida e quase sempre angustiante e contraditória das profissionais contratadas para cuidar dos filhos de outras mulheres. Obviamente, Madalosso utilizou-se da própria experiência de ter recorrido a alguém de fora da família para cuidar da filha pequena. O enredo de “Suíte Tóquio” começa em uma manhã de dia de semana em Higienópolis, bairro elitizado da cidade de São Paulo. Maria Júlia, mais conhecida por Maju, é a babá de Cora, menina de quatro anos e filha única de Fernanda e Cacá. Fernanda é produtora executiva de uma emissora de televisão. Cacá é um cara tranquilo que há muito tempo não possui emprego fixo nem remuneração gorda. O casal vive exclusivamente da renda da esposa e aguenta a monotonia da relação de longa data aparentemente sem grandes percalços. Sem tempo para cuidar da filha após a última promoção, Fernanda refez o contrato de trabalho de Maju. Em troca de um salário maior e de algumas regalias, inclusive com direito a habitar um quarto com banheiro totalmente reformado no fundo do apartamento dos patrões (apelidado carinhosamente de suíte Tóquio), Maju precisou se mudar definitivamente para a casa de Cora. A nova dinâmica trouxe vários dissabores para a babá de 44 anos. Indignado por não ter mais a esposa no lar todas as noites e aos finais de semana, Lauro, o marido taxista de Maju, a abandonou. Sem o companheiro por perto, a mulher encarregada de cuidar de Cora viu desmoronar o sonho de ser mãe. Por isso, naquela manhã aparentemente normal em Higienópolis, Maju resolve fazer algo diferente (e criminoso). Ao invés de levar a filha de Fernanda e Cacá para a escola e, na sequência, para a natação, ela resolve, em um surto psicótico, roubar a menina para si. Ainda pequena e sem entender direito o que está acontecendo, Cora adora a mudança repentina na rotina e a aventura que sua cuidadora está proporcionando. A dupla deixa o bairro onde mora e se dirige para a Rodoviária do Tietê. E de lá, Maju e Cora pegam um ônibus para Presidente Prudente. A ideia da babá é levar a menina até Pedro Juan Caballero. Uma vez no Paraguai, ela fará documentos novos para as duas e poderá exercer oficialmente o papel de mãe da garotinha. Pelo menos esse é o plano de Maju... Ao retornar para o apartamento no final do dia, Fernanda, que também tem 44 anos, estranha que Cora e a babá ainda não chegaram. Aonde as duas estariam?! Cacá não sabe de nada e o casal começa a sondar familiares, amigos, vizinhos e funcionários do edifício em busca de notícias. Como já trabalha há três anos naquela residência, Maju é de total confiança e ninguém imagina que ela poderia atentar contra a integridade da família. Curiosamente, Fernanda e Cacá demoram quase que 24 horas para notar a ausência de Cora. Em meio à gravíssima crise familiar, a mãe da menina parece muito mais preocupada com o andamento de seu relacionamento extraconjugal. Ela tem um caso amoroso com Yara, uma jovem diretora de TV especializada em produzir documentários sobre animais. Perdidamente apaixonada pela amante, Fernanda só pensa em se reencontrar com Yara e pular em seus braços (e entre suas pernas). Se até então a esposa de Cacá dizia que não tinha tempo para cuidar da filha, agora ela fará de tudo para não sair do lado da moça que lhe roubara o coração e que lhe proporcionara experiência sexuais inimagináveis. Entre as maluquices que a versão mais apaixonada de Fernanda irá forçá-la a fazer está pegar um avião até Rondônia e passar alguns dias em uma tribo isolada da Amazônia com Yara. A certeza de que Maju iria cuidar muito bem de Cora e que Cacá ficaria em casa sem reclamar dão tranquilidade à produtora executiva para se lançar em novas aventuras amorosas. Assim, está criado o impasse. A babá, que é a mãe na prática de Cora e demonstra ser muitíssimo zelosa e carinhosa com a menina, rouba para si o direito à maternidade que lhe fora usurpada pela patroa. A executiva bem-sucedida, que é a mãe teórica de Cora, mas que jamais demonstrou qualquer interesse, vocação e afeto pela filha, se vê de repente amputada daquilo que deveria ser o elemento mais importante de sua vida. Para quem torcer nessa disputa pouco usual, hein?! A resposta não é nada fácil e levará o leitor a se questionar quem é a heroína e quem é a vilã nessa história sobre maternidade e, por que não, sobre anti-maternidade. “Suíte Tóquio” possui 208 páginas. O livro de Giovana Madalosso está dividido em 35 capítulos. Trata-se, portanto, de um romance enxuto. Dá para lê-lo em um único dia ou mesmo em duas noites consecutivas. Foi o que fiz na semana passada. Precisei das noites de quarta e quinta, vésperas do feriado da Sexta-feira Santa. Basicamente, concluí a obra em aproximadamente quatro horas e meia. Li metade da publicação em uma noite e a outra metade na noite seguinte. No meu caso, foram basicamente duas sessões de leitura de duas horas e pouco cada uma. O primeiro elemento da narrativa que nos chama a atenção em “Suíte Tóquio” é a escolha dos narradores. Para ser mais preciso nas minhas palavras, o mais correto teria sido falar “das narradoras”. São duas: Maju e Fernanda. Elas se revezam na contação da história durante o livro inteiro. Os capítulos ímpares são narrados pela babá criminosa que anseia pela maternidade perdida. Nos capítulos pares, o texto em primeira pessoa é da mãe ausente que vê a filha ser levada de casa pela funcionária que deveria zelar pela harmonia e pelo bem-estar do lar. Essa alternância do narrador confere grande dinamismo à trama e maior emoção ao enredo. Curiosamente, quando uma parte do romance esfria, a outra esquenta. Ou seja, não faltam reviravoltas, tensão dramática e cenas marcantes nas páginas da nova publicação de Giovana Madalosso. Apesar de ser um expediente narrativo até comum na literatura contemporânea, a dupla narração caiu muito bem em “Suíte Tóquio” e potencializou o suspense. Outra consequência direta do fato de assistirmos à história sendo relatada simultaneamente por duas personagens é a possibilidade de compreendermos a gritante desigualdade (social, psicológica, cultural, financeira, religiosa, familiar e ideológica) existente entre as duas protagonistas. Maju e Fernanda vivem em mundos completamente distintos, apesar da proximidade diária e de habitarem a mesma casa. Só conseguimos entender o abismo entre elas quando mergulhamos em seus relatos. Ainda vamos falar mais sobre as características antagônicas dessas mulheres neste post da coluna Livros – Crítica Literária. Por ora, gostaria de salientar o efeito colateral que a dupla de narradoras gera para o enredo e, principalmente, para as sucessivas comparações que fazemos entre as personagens principais do romance. A segunda característica marcante de “Suíte Tóquio” é a mistura no corpo do texto da narração e do discurso, uma característica que não me lembro de ter visto nos outros livros de Giovanna Madalosso. Essa união siamesa das duas partes do texto ficcional (narrativa e diálogos) me fez lembrar muito as publicações de José Saramago, cânone da língua portuguesa que usava e abusava desse recurso em suas produções literárias. Quando o discurso vem integrado à estrutura textual da narração (não há qualquer sinalização para apontar quando começam ou quando terminam as falas das personagens), os leitores precisam de mais atenção para compreender o que está acontecendo em cena. Confesso que gosto quando o autor exige o máximo de nossa inteligência e de nossa concentração. E Madalosso é definitivamente uma escritora que não subestima a capacidade de seus leitores. Outro aspecto positivo de “Suíte Tóquio” é o seu início eletrizante. Já nas primeiras linhas do romance somos levados ao olho do furacão do thriller dramático. Esqueça o preâmbulo, a introdução, a contextualização da história e a apresentação das personagens. Aqui o que vale é o mergulho no momento-chave que dispara as ações que fazem a roda da ficção girar. O livro é aberto exatamente com Maju revelando o crime que está cometendo. Está duvidando do que estou falando? Então veja o trecho inicial do romance: “Estou raptando uma criança. Tento afastar esse pensamento, mas ele persiste enquanto descemos pelo elevador, cumprimentamos o Chico, saímos pelo portão. São coisas que fazemos todos os dias, descer, cumprimentar o Chico, sair pelo portão, andar pisando só nas pedras pretas ou nas brancas da calçada, mas hoje é diferente mesmo que eu não esteja fazendo nada diferente, porque tenho a sensação que o exército branco olha pra mim. Foi coisa da dona Fernanda, inventar esse nome, exército branco. E até que ela está certa mesmo, somos mesmo um exército, ainda mais a essa hora da manhã, quando todas vêm pra praça com seus uniformes brancos carregando bebês ou crianças, e então batem papo empurrando carrinhos e balanços com bebês ou crianças. Um mundo que até ontem era o meu mundo mas que agora parece me olhar com desconfiança. Será tudo loucura da minha cabeça? (...)”. Forte esse começo, né? Estou raptando uma criança. Se essa frase não chama sua atenção e não atiça a sua curiosidade, não sei mais o que poderá mexer com suas emoções, leitor(a) insensível e desalmado(a) do Bonas Histórias. O mais legal é perceber que a força do enredo não fica restrita ao começo impactante. À medida que os capítulos vão avançando, percebemos que o nível de intensidade dramática de “Suíte Tóquio” não cai, legitimando-o como um drama psicológico da melhor estirpe. A trama permanece em níveis elevadíssimos de tensão até o desfecho. Assistimos, ao mesmo tempo, à futilidade da classe alta e ao desespero existencialista da classe operária da cidade de São Paulo. Os ricaços descontam suas frustrações sentimentais e profissionais fazendo compras desnecessárias e realizando ações pretensamente altruístas. Para aplacar o marasmo do casamento infeliz e desgastado pelo tempo, engatam relações extraconjugais. E, como ninguém é de ferro, terceirizam a criação dos filhos porque não querem perder tempo com o cuidado das crianças que botaram no mundo. Por sua vez, os pobres são proibidos de terem uma vida normal, com família e filhos. As empregadas domésticas e as babás, por exemplo, não podem retornar para suas casas ao final do expediente nem conseguem exercer plenamente a maternidade. A vida dessas mulheres deve girar única e exclusivamente em torno da rotina, do lar e das vontades dos patrões. Onde já se viu querer ter marido, filhos e um cotidiano independente, hein? Isso não é algo que a classe operária, uma espécie de escravos do capitalismo contemporâneo, tem direito. Pelo menos, não do ponto de vista da elite egoísta da capital paulista. Minhas frases anteriores não devem ser vistas como um discurso puramente ideológico. Só fiz a contextualização do cenário do romance de Giovana Madalosso com tintas fortes e com tal viés para poder entrar no âmago do conflito de “Suíte Tóquio”. E qual é o conflito do livro? O exercício da maternidade! Repare que ser mãe é algo totalmente distinto para Maju e Fernanda, as protagonistas. Enquanto a babá exerce na prática o papel maternal de Cora (afinal, cuida da menina desde que a pequena cliente tinha um ano de idade), ela não tem esse direito na teoria (aos olhos da Lei). Já Fernanda é a mãe efetiva da menina (é a mãe biológica), mas jamais exerceu esse papel na prática (ao ponto de demorar quase 24 horas para perceber o sumiço da filha, pois estava mais preocupada com o fora que levou da amante). Maju sempre sonhou em ser mãe. Aos 44 anos, ela se vê frustrada desse direito natural pelo egoísmo das patroas e pela dinâmica social em que está sujeita. Como empregada doméstica e babá, ela nunca pôde ter uma vida normal, com marido e uma casa própria para frequentar diariamente. Presa no quartinho dos fundos do lar dos endinheirados e precisando estar disponível 24 horas por dia e sete dias da semana, Maju sequer podia transar ou mesmo engravidar. Essa questão não era exclusiva dela e sim de todas as mulheres que exerciam os mesmos empregos. Vejamos o caso de Neide, a melhor amiga da babá de Cora e uma das mais simbólicas personagens do romance. Quando se tornou mãe (quebrando a lógica social em voga), Neide ficou apavorada. Seu medo estava na reação dos patrões. Uma vez que vendera sua alma à família que lhe pagava um salário-mínimo em troca de dedicação integral e incondicional, onde uma criança (da empregada) entraria na rotina de todos? Quem iria cuidar do(a) filho(a) de Neide? Onde viveria o bebê dela? Sem encontrar respostas para tais questionamentos, a moça acabou tomando decisões radicais e assustadoras aos olhos da sociedade pretensamente civilizada. Já Fernanda nunca pareceu desejar ser mãe. O emprego de diretora de conteúdo na emissora de televisão não permitia que ela se dedicasse a mais nada fora do escritório (algo que mudaria só quando ela se apaixonou por Yara). Se pensarmos bem, a mulher de 44 anos também era uma espécie de escrava do emprego. Quando Cora nasceu, a alternativa escolhida foi a contratação de uma babá. Pronto, os problemas de Fernanda estavam resolvidos. O marido e a funcionária se revezariam nos cuidados da menina. Entretanto, quando foi promovida para produtora executiva, o sentimento de culpa se potencializou. Por isso, ela aumentou o salário de Maju, ofertou alguns mimos e decorou o quartinho do fundo do apartamento em Higienópolis para a empregada se sentir bem (a tal suíte Tóquio, conforme foi apelidada pelo tamanho reduzido e pelo conforto proporcionado). A partir daí, adeus maternidade efetiva. Tchauzinho, papel de mãe legítima de Cora. Bye, bye, contato profundo e mais próximo com a menina. Entendidas as dualidades de características e as contradições dos papéis exercidos por Maju e Fernanda, quem teria o direito de ficar com Cora e ser reconhecida como a mãe da garotinha, hein?! Saiba que a resposta não é nada fácil. Não temos claramente em “Suíte Tóquio” a figura clássica da heroína e a figura clássica da vilã. As duas protagonistas possuem elementos dos dois tipos de personagem (elas são figuras redondas). Como consequência, o leitor fica dividido. Em determinadas partes do romance, tendemos a torcer pela babá. Em outros momentos, a torcida é pela produtora executiva de TV. Não é preciso dizer que temos em “Suíte Tóquio” uma forte crítica social. Quem acompanha mais atentamente a literatura de Giovana Madalosso irá perceber que essa é uma das marcas de sua produção ficcional. Os dois livros anteriores da escritora curitibana também tinham esse viés de cutucão, de dedo na ferida das mazelas do nosso país. Não por acaso, as tramas são sempre protagonizadas por pessoas simples e de profissões mais humildes que transitam por áreas mais nobres da cidade de São Paulo. Lembro, por exemplo, da funcionária de uma agência de publicidade que não tinha tempo para amamentar a filha recém-nascida e precisava se esconder no banheiro do trabalho para extrair o leite do dia seguinte do bebê (do conto “A Teta Racional”, da coletânea homônima); e da garçonete de um restaurante da Avenida Paulista que visitava cladestinamente as mansões dos bairros nobres para furtá-los de madrugada (romance “Tudo Pode Ser Roubado”). Dessa vez (em “Suíte Tóquio), temos a denúncia do que babás e empregadas domésticas de Higienópolis passam nas mãos de patroas de mentes pouco esclarecidas e de corações gélidos. É legal destacar que a construção das personagens do mais recente livro de Giovana Madalosso é excelente. E não são apenas as protagonistas que possuem grande riqueza literária: Maju é religiosa, hipocondríaca, paranoica com higiene, conservadora e saudosista com a vida levada em Mandaguaçu, sua cidade natal no Norte do Paraná; e Fernanda é workaholic, descobre-se bissexual, é viciada em Rivotril e não atua plenamente no papel de mãe. Note que a beleza e a profundidade das personagens de “Suíte Tóquio” se estendem para as figuras coadjuvantes: Neide é a libidinosa empregada doméstica que tem sérios problemas com a maternidade; Yara é a riponga itinerante e adepta do amor livre e das relações homossexuais; Lauro é o taxista apaixonado, sensível e tímido; Ednardo é o caminhoneiro viciado em drogas (para se manter acordado) que canta diariamente “Pavão Mysteriozo” como promessa para a falecida mãezinha; Cacá é o marido caseiro e pouquíssimo preocupado com o trabalho; e Cora é a menina birrenta que adora sua ovelhinha de pelúcia. Este romance tem cada figuraça!!! Preciso também elogiar a pegada cômica da história. Tratar de sequestro infantil e de maternidade corrosiva poderia transformar “Suíte Tóquio” em uma trama noir e/ou em um romance profundamente sinistro. Contudo, a autora sabiamente temperou o texto com elementos engraçados e cenas tragicômicas. Dessa maneira, temos uma narrativa forte/impactante/contundente, mas ao mesmo tempo leve/espirituosa/gostosa. Gosto desse mix contraditório (e do tom de tragicomédia que o livro adquire ao longo dos capítulos). É até difícil relatar todos os momentos hilários do livro: a mãe que só percebe o desaparecimento da filha no final do dia; a menina que é “sequestrada”, mas não aceita abandonar a pelúcia de estimação; a babá que vai ao motel com a criança que cuida (não é o que você está pensando!!!); a mãe que compra um carro só para ganhar a vacina de febre amarela que a concessionária está oferecendo de promoção aos clientes; a mulher que não tem tempo para nada, mas aceita viajar por dias com a amante para o rincão da Amazônia; a menina que quer assistir a desenho animado na TV do motel; a moça naturalista que gosta de cozinhar carne de cordeiro; o caminhoneiro que canta diariamente “Pavão Mysteriozo” (sim, com essa grafia mesmo) como promessa para a mãe falecida (aquela canção do refrão: “Pavão misterioso/Pássaro formoso/Tudo é misterioso/Nesse teu voar”); e a criança que é roubada pela babá e não percebe o crime. Não preciso falar que temos em “Suíte Tóquio” um humor bem peculiar, né?! Peculiar, mas extremamente eficiente. Por fim, gostei bastante do projeto gráfico. A capa está espetacular. Ela dialoga perfeitamente com a proposta editorial do livro: uma narrativa pop, caótica, tragicômica, multifacetada, colorida e contraditória. Juro que não consigo imaginar uma a capa melhor do que essa que foi aprovada. Caso você tenha estranhado o fato de eu não ter tecido nenhuma crítica negativa nesse post do Bonas Histórias, preciso justificar minha conduta atípica. Simplesmente, não encontrei nada que faria de diferente neste romance. Além disso, não achei uma peça sequer que não estivesse excelente no que se refere aos elementos da narrativa ficcional. Até o desfecho é surpreendente e sublime. Como não me deparei com nenhum ponto negativo em “Suíte Tóquio”, não pude citar as possibilidades de melhoria. Se você encontrou algo que deveria ter sido feito de diferente pela autora ou que tenha sido concebido de forma equivocado por ela, por favor, me avise. Juro que não achei nadinha que abonasse este livro. Se esse romance não for perfeito, ele beira a perfeição. O que mais me encantou nessa leitura foi a originalidade de sua trama. É até comum encontrarmos obras que tratam das idiossincrasias da maternidade e da angústia gerada pelo sumiço/rapto de crianças (um dos crimes mais bárbaros que alguém pode sofrer é ver o filho desaparecer sem explicação). No primeiro grupo de títulos ficcionais enfocando a maternidade tóxica e os dramas maternos, posso citar como referência quase todos os romances de Elena Ferrante, como “A Filha Perdida” (Intrínseca), “Dias de Abandono” (Biblioteca Azul) e “História da Menina Perdida” (Biblioteca Azul). E vários livros de Xinran, como “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras), “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso) e “Compre-me o Céu” (Companhia das Letras). Mais pontualmente, essa é a mesma temática de “Kim Jiyoug, Nascida em 1982”, sucesso da sul-coreana Cho Nam-Joo que analisamos recentemente na coluna Livros – Crítica Literária. No segundo grupo de obras literárias cujo enredo gira em torno do sumiço de crianças, temos um leque até mais amplo: “Resta Um” (Companhia das Letras), thriller espetacular de Isabela Noronha; “Bom Dia, Camaradas” (Companhia das Letras), novela premiada de Ondjak; “A Turma da Rua Quinze” (Ática), clássico infantojuvenil de Marçal Aquino; “Cidades de Papel” (Intrínseca), romance de John Green; “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras), obra-prima de Mia Couto; e “Um Rosto no Computador” (Ática), sucesso de Marcos Rey da coleção Vaga-Lume. Isso foi o que minha memória me respondeu de prontidão. Deve haver muito mais tramas nessa linha, principalmente para aqueles com um repertório literário mais amplo do que o meu. Repare que mesmo abordando temáticas exploradas de maneira recorrente por vários outros títulos ficcionais e por muitos autores (me segurei para não chamar esses assuntos de batidos), encontramos em “Suíte Tóquio” uma narrativa totalmente nova e com elementos não utilizados pelos congêneres. Por isso, destaquei sua originalidade/criatividade. A inovação aqui está mais na maneira como o drama foi apresentado aos leitores (com humor e leveza - tragicomédia) e menos no enredo escolhido (dobradinha entre maternidade tóxica e rapto de criança). Às vezes é mais difícil trabalhar com astúcia um tema amplamente discutido (como Giovana Madalosso fez em “Suíte Tóquio) do que explorar com profundidade um conteúdo pouco habitual. Não por acaso, “Suíte Tóquio” é o melhor livro que li neste ano (saí de cima do muro à medida que desenvolvia este post e posso decretar agora sua liderança sem medo de cometer injustiças). Acho até que a nova publicação de Giovana Madalosso é superior a “A Tela Racional” e “Tudo Pode Ser Roubado”, títulos também muito bons. De qualquer maneira, “Suíte Tóquio” consolida a autora curitibana como uma das figuras mais promissoras da literatura brasileira contemporânea. Madalosso é uma romancista espetacular. Fiquemos de olhos abertos na sequência da construção de seu portfólio literário. Algo me diz que sua obra-prima ainda está para chegar e que irá abalar os alicerces da ficção nacional. Aguardemos. Aguardemos... Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Passeios: Pico do Jaraguá - Subida pela Trilha do Pai Zé

    Conheça os detalhes da caminhada pelo Parque Estadual do Jaraguá que leva o visitante ao ponto mais alto da cidade de São Paulo e que percorre uma reserva florestal da Mata Atlântica. Era sábado de manhã na cidade de São Paulo. O céu estava limpo de nuvens e não fazia muito calor. O clima agradável daquele dia era muito parecido ao que temos hoje. Aí pensei: por que não subir o Pico do Jaraguá, hein?! Este é um dos passeios gratuitos mais legais que temos à disposição aqui na capital paulista quando o assunto é contato com a natureza. A interação que temos com a fauna e a flora da Mata Atlântica é incrível! Podemos caminhar pela mata nativa sem encontrar qualquer indício de civilização. Não dá para acreditar que estamos dentro da maior cidade do país. Subir o Pico do Jaraguá a pé é um programa que sugiro para quem gosta de estar no meio da natureza, tem espírito de aventura e esteja bem condicionado fisicamente. Afinal, é preciso pique para caminhar alguns quilômetros morro acima em uma trilha rústica de terra batida e de grandes pedras no meio da floresta tropical. A recompensa de tanto esforço só chega ao final do trajeto. No topo da montanha, a vista da metrópole é de tirar o fôlego (admito que a subida até lá também). O Pico do Jaraguá é o ponto mais alto da cidade de São Paulo. Ele está a 1.135 metros do nível do mar. Lá do alto é possível avistar grande parte do município e compreender sua real dimensão. Fiz este passeio há um mês, mais precisamente no primeiro final de semana de março. Depois de muitos anos de ausência, resolvi revisitar o Parque Estadual do Jaraguá e seu pico. Acho que a última vez que fora até lá tinha sido em 2012 com a Fabrícia (beijo, Fab!). Só que naquela oportunidade, fomos de carro até o topo, o que evidentemente descaracterizou um pouco a graça do passeio e a diversão do programa. A Fabrícia nunca foi muito chegadinha às longas caminhadas (nem às médias e pequenas...), apesar de ter um espírito aventureiro bem superior ao meu. Desta vez, coloquei na minha cabeça que o passeio deveria ser completo. Por isso, tomei três importantes decisões: (1) levar o Paulo comigo – meu amigo não tem os encantos da Fab, mas não se importa de realizar longas caminhadas; (2) subir a montanha pela Trilha do Pai Zé, o maior, o mais difícil e, também, o mais divertido caminho a pé até o Pico do Jaraguá; e (3) relatar a experiência para os leitores do Bonas Histórias neste post da coluna Passeios. Para quem ainda não conhece o local, o Pico do Jaraguá fica dentro de uma reserva estadual. O lugar é uma área de proteção ambiental. A vantagem disso é que grande parte do parque permanece intocada, exatamente como era a cem, duzentos, quinhentos anos atrás. A vegetação é nativa e exuberante. Há também grande variedade de espécies de animais silvestres vivendo ali. Neste ponto, não podemos tecer qualquer crítica. A desvantagem é que a estrutura para o visitante é um tanto limitada. Esta é, infelizmente, a realidade de nosso país em quase todos os parques florestais administrados pelo poder público. Muitas vezes, os agentes governamentais são até eficientes em manter a proteção ambiental, mas são completamente inoperantes em promover o turismo e em conferir o mínimo conforto aos visitantes. Assim, o Parque Estadual do Jaraguá tem uma infraestrutura básica com banheiros, bebedouros e alguns itens de lazer para a criançada. O estacionamento é amplo e há espaço para se praticar caminhadas e corridas. Aos finais de semana, é comum encontrarmos grupos de pessoas orando e indivíduos praticando ioga e meditação. Os ambientes mais essenciais, tanto na base quanto no alto da montanha, estão limpos e minimamente conservados. Agora o restante... Não pense em encontrar lanchonetes, restaurantes ou qualquer apoio turístico aos frequentadores. Não há nada além do trivial. Os itens que não são essenciais, como o anfiteatro, as quadras poliesportivas e as mesas para as famílias fazerem piquenique, estão completamente abandonados pelo tempo. Minha impressão é que a maioria dos visitantes é formada por moradores da localidade e não por turistas que queiram aproveitar este oásis verde da cidade. Os turistas (muitos gringos) são encontrados com mais frequência no alto da montanha (onde há algum atrativo) e não na base do parque (onde não há muito o quê ser feito). Apesar da necessidade evidente de melhorias, o Parque Estadual do Jaraguá continua tendo seu charme. Na entrada principal (na base da montanha), somos recepcionados por um belo lago com cisnes (Ou seriam gansos? Talvez sejam patos barulhentos!). A grande atração do local é mesmo sua incrível vista (no Pico do Jaraguá) e a caminhada pela mata nativa até o alto da montanha. Estes dois pontos também estão bem conservados. A parte superior do parque é ampla, confortável e limpa, agradando aos usuários. As trilhas até lá foram reformadas há alguns anos e mantém-se em ótimas condições. Quem deseja chegar ao pico de carro, também encontrará uma estrada bem pavimentada. Só tome cuidado com os vários ciclistas que a usam aos finais de semana. E por falar em caminhada ao topo, o parque possui quatro trilhas disponíveis: a Trilha do Pai Zé, a Trilha da Bica, a Trilha do Silêncio e a Trilha do Lago. As duas últimas são as menores, tendo aproximadamente 800 metros de extensão cada uma. São também os caminhos mais simples de serem feitos, sendo aconselháveis para idosos, famílias com crianças pequenas e pessoas com deficiência física (estes locais são adaptados aos cadeirantes). O contato com a natureza é garantido pela farta vegetação nativa e pela presença de alguns animais silvestres. O único problema destes trajetos é que eles não chegam ao topo da montanha. Pelo contrário, pouco se distanciam da base do parque. Por isso, se você quer chegar ao pico para ver a vista da cidade, a Trilha do Silêncio e a Trilha do Lago irão decepcioná-lo(a) neste sentido. A Trilha da Bica é bem maior em extensão quando comparada à Trilha do Silêncio e à Trilha do Lago. Ela possui 1,5 quilômetros de tamanho. Seu nível de dificuldade também é superior, podendo ser classificado como mediano. Ou seja, não é um percurso indicado para quem tem dificuldades de locomoção. Aqui já é possível encarar as subidas que caracterizam a topografia da região. O grande atrativo deste trajeto é conferir os vários córregos e nascentes de água que brotam durante a caminhada (o nome Trilha da Bica não é por acaso!). As rochas de granito que enfeitam o percurso também conferem seu charme ao passeio. O único ponto negativo é que terminada a trilha, você terá de retornar sem ter chegado perto do topo da montanha. A Trilha da Bica, assim como a do Silêncio e a do Lago, não dá acesso ao Pico do Jaraguá. O único caminho que chega de fato ao topo é a Trilha do Pai Zé. Por isso, escolhemos esta opção para nossa caminhada. Com seus 3,6 quilômetros, este trajeto tem um nível de dificuldade bem maior. Afinal, percorremos toda a sua extensão no meio da mata fechada e em terreno acidentado. O que torna tudo mais complicado é a intensa subida. Praticamente todo o trajeto é feito morro acima! Em algumas partes, a ladeira no meio da floresta é de tirar o fôlego. É preciso tomar cuidado onde se pisa e com as pedras soltas que abundam o caminho. Se você desenvolver um bom ritmo, não parar em momento nenhum para descansar e não cair no chão ao tentar pular os obstáculos naturais, a subida pode ser feita em menos de uma hora. Porém, é preciso um bom preparo físico para isso. Uma caminhada lenta pode se estender por mais de duas horas. Como não há nada no meio do caminho além de árvores, terra e pedras, é bom estar munido de água e comida. Andar no meio da floresta é muito legal. A mata é tão fechada que raramente somos atingidos diretamente pelos raios solares. Você não acredita que ainda está na cidade de São Paulo. Se tiver sorte, verá alguns bichos que habitam o local (fique tranquilo que todos são inofensivos). A parte final da Trilha do Pai Zé é feita no meio de grandes pedras. Neste instante, o trajeto ganha o auxílio de pequenas pontes e escadas de madeira. O cenário lembra um pouco os primeiros filmes de Indiana Jones. Se você não tiver um bom preparo físico, será nesta hora que sentirá o esforço realizado até então. O sol passa a bater diretamente em sua cabeça (a mata fica mais rala no alto da montanha), tornando a caminhada um pouco mais cansativa e lenta. Ao final da subida é possível ver parte da tão aguardada vista da cidade. Quem quiser fazer a Trilha do Pai Zé é bom se ater a quatro dicas de segurança. Quem as faz não sou eu e sim os funcionários e administradores do parque. Conheça-as antes de visitar o local: 1) Jamais saia da trilha! Se você sair, é grande a chance de se perder no meio da mata fechada. Por mais que as placas durante o percurso deem este alerta, de vez em quando vemos nos jornais a informação que grupos de adolescentes se perderam no parque, sendo necessária a intervenção dos bombeiros. Por que os adolescentes têm esta mania de desobedecer aos avisos?! Nunca entendi este comportamento deles. 2) Não faça a subida depois das 15 horas. Afinal, você precisará retornar em algum momento. Parece óbvio falar isso, mas muita gente esquece que precisará descer tudo o que subiu. E se a tarde terminar e a claridade natural desaparecer do céu, há grande chance de você ficar no escuro. Não há iluminação natural no meio do mato, né? E no breu, você não conseguirá caminhar, além de ficar mais suscetível aos perigos naturais de um lugar com muitos animais. 3) Não inicie este caminho se o dia não estiver claro e, principalmente, se o tempo não estiver bem firme. A caminhada já oferece elementos com bastante dificuldade quando o sol estiver brilhando. Na chuva, você poderá ficar atolado(a) no meio da lama (o caminho é todo de terra). Não será nada agradável ter que superar lama atrás de lama por mais de três quilômetros. Vai por mim! No molhado, você terá a impressão de que está no meio de um trajeto repleto de areia movediça. Conclusão: se estiver chovendo ou estiver indicando a possibilidade de garoa, não comece a caminhada pela Trilha do Pai Zé. Volte para casa e planeje sua aventura para outro dia. 4) Não leve animais de estimação com você, principalmente cachorros. Eles são proibidos no parque. O Parque Estadual do Jaraguá é, como já falei, uma reserva de proteção ambiental e possui vários animais silvestres morando ali. É grande a chance do seu bichinho, mesmo na coleira, desgarrar de você e sair correndo no meio da mata atrás de alguma presa (é instinto dele fazer isso). Aí, adeus cachorrinho. E adeus bichinho preservado que teve a infelicidade de cruzar com seu cachorrinho. Não adianta depois pedir para os guardas florestais procurarem seu animal de estimação pela floresta. Eles não vão dar atenção ao seu desespero (eles têm mais o que se preocupar). Respeitando estes alertas, sua caminhada tem tudo para ser bem-sucedida. Eu e o Paulo completamos a Trilha do Pai Zé em uma hora (apenas a parte da ida). Fizemos o trajeto em um ritmo tranquilo com algumas paradas na parte final da montanha para ver a vista e para recuperar o fôlego. O mais legal é que fomos acompanhados o tempo inteiro por um cachorrinho que provavelmente vive ali. Como o Paulo é maluco por cão, o bichinho percebeu que era bem-vindo no nosso grupo e fez questão de nos mostrar o caminho a ser feito pela trilha. Isso é o que eu chamo de cão-guia! Uma vez terminada a Trilha do Pai Zé, é importante você saber que ainda não chegou exatamente ao Pico do Jaraguá. É divertida a cara de frustração das pessoas que descobrem isso lá em cima! É verdade que a trilha termina na parte superior do parque. Contudo, para chegar ao cume da montanha propriamente dito, é necessário encarar mais uma longa escadaria. São centenas de degraus pela frente. É preciso mais fôlego para concluir a última parte do trajeto. Por isso, é bom descansar ao terminar a Trilha do Pai Zé. Há vários bancos e espaço para o pessoal relaxar. Hidrate-se também. O parque oferece banheiros e bebedouros na sua parte superior. Se você tiver sorte, encontrará algum ambulante vendendo bebidas (refrigerante, suco, isotônico e água de coco). Comida é mais difícil (no dia em que fomos, tinha uma mulher vendendo algodão doce). A escadaria final irá levá-lo(a), enfim, ao topo. Lá será possível ter uma vista da Zona Oeste da cidade. Infelizmente, você não verá nenhum dos principais pontos turísticos da cidade de São Paulo (que não ficam nesta região do município). Alguém com um bom conhecimento da capital paulista e, principalmente, com uma boa visão poderá ter a sorte de encontrar naquela vista a Avenida Paulista, o Parque do Ibirapuera ou o aeroporto. Como o alcance dos meus olhos sempre foi limitado, juro que nunca vi nada disso. Porém, há muita gente que diz lá no alto: "Olha ali o Masp! Tá vendo? É aquele pontinho vermelho atrás daqueles prédios!" ou "Achei o prédio do Banespa! É aquele ali. Veja o formato. É ele mesmo. Ali é o centro da cidade!". Para mim, estes tipos de frase não passam de conversa de observador do pico. Assim como temos conversa de pescador na beira do rio, no Jaraguá temos conversa de observador da vista. Quem quiser fazer um passeio ecológico, divertido e aeróbico por São Paulo, lembre-se da opção pelo Pico do Jaraguá. Este passeio guarda muitas surpresas aos visitantes. Não quero ficar tanto tempo sem visitá-lo outra vez. Para quem curtiu este post da coluna Passeios, prometo retornar ao Bonas Histórias para relatar outras trilhas no meio do mato. A próxima caminhada montanha acima que quero fazer e comentar com vocês é a Trilha da Pedra Grande, no Parque Estadual da Cantareira. Ela não exige tanto esforço físico do visitante/trilheiro, mas oferece uma vista tão espetacular (ou até mesmo mais impressionante) da cidade de São Paulo. Até a próxima! Que tal o conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para conhecer os demais posts dessa coluna, clique em Passeios. E não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Músicas: Último Desejo - A obra-prima de Noel Rosa completa 80 anos

    Noel Rosa foi um sambista, ao mesmo tempo, de muito talento e extremamente polêmico. Ele morreu precocemente aos 26 anos deixando uma infinidade de ótimas canções e algumas brigas e confusões pelo caminho. Sua música mais famosa é "Com que Roupa?", de 1930. A canção foi criada porque a mãe do compositor, cansada da vida boêmia do filho, havia escondido as roupas dele para que ele não saísse de casa em determinada noite. Após o lançamento, "Com que Roupa?" adquiriu um caráter de crítica social bem-humorada (o país vivia a Crise do Café). Esse foi o primeiro sucesso do Poeta da Vila, como o rapaz era chamado. Depois desse vieram outros sucessos. "Feitio de Oração" (1933), "Feitiço da Vila" (1934) e "Pastorinhas" (1935), esta última feita em parceria com João de Barro, foram produções que se perpetuaram com vigor até os dias de hoje. Impossível apontar qual delas é a melhor. Contudo, os críticos musicais consideram outra música como sendo a melhor produção de Noel Rosa. Das 230 composições feitas pelo rapaz de queixo torto, "Último Desejo" seria sua obra-prima. "Último Desejo" foi criado em dezembro de 1936, alguns meses antes da morte de Noel Rosa por tuberculose. A canção foi gravada em 1937, meses após o falecimento do compositor. A primeira e mais famosa intérprete da música foi Aracy de Almeida, mas Marília Batista também gravaria a canção depois, tendo grande êxito comercial. A canção retrata o último pedido feito pelo sambista à Juraci Correia de Araújo, a Ceci, dançarina de cabaré que era a sua grande paixão. Noel se casou, em 1934, com Lindaura, porém nunca se esqueceu da dançarina que conhecera na boêmia Lapa carioca. Para desgosto do sambista, Ceci o trocou pelo compositor Mário Lago (da música "Ai que Saudades da Amélia"). "Último Desejo" conta um pouco do romance entre Noel e Ceci, sob o ponto de vista dele. Os primeiros versos da composição retratam o primeiro encontro, para depois contar a triste separação deles. Veja a letra da canção: "Último Desejo"(Noel Rosa - 1936): Nosso amor que eu não esqueço E que teve o seu começo Numa festa de São João Morre hoje sem foguete Sem retrato e sem bilhete Sem luar, sem violão Perto de você me calo Tudo penso e nada falo Tenho medo de chorar Nunca mais quero o seu beijo Mas meu último desejo Você não pode negar Se alguma pessoa amiga Pedir que você lhe diga Se você me quer ou não Diga que você me adora Que você lamenta e chora A nossa separação Às pessoas que eu detesto Diga sempre que eu não presto Que meu lar é o botequim Que eu arruinei sua vida Que eu não mereço a comida Que você pagou pra mim "Último Desejo" é, como não poderia ser diferente de uma música composta para descrever o rompimento definitivo de um romance, muito triste. É possível notar que o sambista estava ciente da sua iminente morte. Na época desta composição, Noel Rosa já estava preso à cama, muito debilitado pela tuberculose. Diz a história que Ceci foi a primeira pessoa a ver a letra da música. Noel pediu para seu amigo Vadico, que fez o arranjo de piano da canção, levar o poema para a dançarina ver. Vadico fez isso em uma noite antes da moça começar seu expediente no cabaré. Ouça a música na interpretação original de Aracy de Almeida, de 1937. Esta incrível composição da música nacional está completando 80 anos agora em 2017. É a obra-prima de Noel Rosa, composta meses antes da sua morte e que retrata a despedida fúnebre do seu grande amor. Incrível! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em setembro e outubro de 2020

    Pouco a pouco, o mercado editorial brasileiro vai se aquecendo. Porém, é inegável que os números e a qualidade de lançamentos estão bem distantes de, por exemplo, um ano atrás. Em outras palavras, a temperatura subiu um pouquinho, mas ainda é possível sentir o ar glacial rondando alguns corredores das livrarias e várias salas de reuniões das principais editoras do país. Apesar do marasmo insistente do setor desde março, vou apontar, no post de hoje da coluna Mercado Editorial, os livros de ficção e as coletâneas poéticas mais relevantes publicados no Brasil nos últimos dois meses (no caso, em setembro e outubro). Nas prateleiras dos títulos ficcionais, nossas editoras estão dando preferência para as republicações de clássicos estrangeiros. Esta tendência já foi identificada pelo Bonas Histórias há alguns meses. Basta olhar os posts dos lançamentos de maio e junho e dos lançamentos de julho e agosto para comprovar esta prática. Neste bimestre especificamente, assistimos à publicação de novas traduções dos cânones de Goethe, Henry James, Hermann Hesse, Juan Rulfo, Liev Tolstói, Luigi Pirandello, Samuel Beckett, entre outros. De novidade mesmo na literatura internacional, posso apontar oito livros (sete romances e uma novela) de autores contemporâneos de enorme talento. Dessa pequena lista, metade é composta por obras de escritores latino-americanos. São os casos das mais recentes narrativas longas das chilenas Alia Trabucco Zerán e Alejandra Costamagna, do cubano Leonardo Padura e do argentino Santiago H. Amigorena. Este quarteto está, indiscutivelmente, entre as principais figuras da literatura contemporânea em língua espanhola. Entre as boas ficções vindas de fora da América Latina, destaco os romances do congolês Alain Mabanckou e do norte-americano Josiah Bancroft. De Portugal, mais precisamente da encantadora Ilha da Madeira, recomendo a última novela de José Vieira, pseudônimo da talentosa Teresa Vieira Lobo. Na literatura infantil, a novidade é o lançamento do livro infantil da polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2018. Quando olhamos para a literatura brasileira, as principais novidades são os romances de Paloma Vidal, Giovana Madalosso, Márcio El-Jaick, Luiz Azevedo, Wagner G. Barreira e Ana Cristina Braga Martes, a coletânea de contos de Edu Carvalho e o título infantil de Emicida (sim, o rapper!). Nas outras áreas literárias, as surpresas deste bimestre vão para o aumento do número de livros de poesia (isto é, se compararmos com o que vinha sendo lançado nos dois bimestres anteriores) e a enxurrada de novas obras infantojuvenis (este é o único segmento que não diminuiu a quantidade de publicações durante a pandemia – pelo contrário, cresceu sensivelmente). Confesso envergonhado que não consigo justificar com precisão nenhum destes dois fatos. Talvez o que tenha ocorrido (aqui vão algumas hipóteses minhas, tá?) com a poesia foi um redimensionamento natural do número de lançamentos: como se estava publicando menos, aumentou-se, com o iminente encerramento das medidas de distanciamento social, um pouco a quantidade de publicações deste gênero. Já no caso da literatura infantil, trata-se de uma excelente oportunidade de mercado (que as editoras parecem estar aproveitando ao máximo). Com a criançada há meses sem aulas em quase todo o país, as vendas direcionadas a este público não param de crescer. Por isso, a proliferação de novos títulos para a meninada. Para ninguém perder os principais lançamentos do mercado editorial, preparei uma lista com os novos livros que chegaram às livrarias brasileiras neste bimestre. Entre títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e coletâneas poéticas, 100 obras foram publicadas em setembro e outubro de 2020 no Brasil. Confira, a seguir, a listagem completa: Ficção Brasileira: “Pré-História” (7 Letras) – Paloma Vidal – Romance – 128 páginas. “Suíte Tóquio” (Todavia) – Giovana Madalosso – Romance – 208 páginas. “Horas Vagas” (Edições GLS) – Márcio El-Jaick – Romance – 184 páginas. “A Manipulação das Ostras” (Figura de Linguagem) – Luiz Azevedo – Romance – 130 páginas. “Demerara” (Instante) – Wagner G. Barreira – Romance – 160 páginas. “A Origem da Água” (Confraria do Vento) – Ana Cristina Braga Martes – Romance – 196 páginas. “O Ateneu” (Hedra) – Raul Pompeia – Romance Ilustrado – 364 páginas. “Algum Amor” (Penalux) – Luiz Biajoni – Novela – 100 páginas. “Da Vida Nas Ruas ao Teto dos Livros” (Pallas) – Clarice Fortunato – Novela – 80 páginas. “Sete Dias Para o Fim do Mundo” (Planeta) – Daniel Bovolento – Novela – 63 páginas. “Estão Matando os Meninos” (Iluminuras) – Raimundo Carreiro – Coletânea de Contos – 128 páginas. “Na Curva do S – Histórias da Rocinha” (Todavia) – Edu Carvalho – Coletânea de Contos – 72 páginas. “Quase Música” (7 Letras) – Luiza Maria Camargo Xavier – Coletânea de Contos – 88 páginas. “O Espetáculo da Ausência” (Patuá) – Ney Anderson – Coletânea de Contos – 174 páginas. “O Velho que Não Sente Frio e Outras Histórias” (Jabuticaba) – Daniel Francoy – Coletânea de Contos – 80 páginas. “Contos de Monteiro Lobato” (Editora da Unicamp) – Monteiro Lobato – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Cronicamente” (Patuá) – Marcella Mattar – Coletânea de Crônicas – 152 páginas. “Almanaque do Marcelo – E da Turma da Nossa Rua” (Salamandra) – Ruth Rocha & Mariana Rocha – Literatura Infantojuvenil – 128 páginas. “Sete Cordéis para Sete Cantigas” (Edição do Autor) – Cristiano Gouveia – Literatura Infantojuvenil – 108 páginas. “Socorro em: Uma Vida Nada Fácil” (Escarlate) – Silvana Rando – Literatura Infantojuvenil – 88 páginas. “Rita e o Manual para ser Astronauta” (Melhoramentos) – Vinicius Campos – Literatura Infantojuvenil – 80 páginas. “Obrigado” (Pulo do Gato) – André Neves – Literatura Infantojuvenil – 66 páginas. “Este é o Lobo” (Pequena Zahar) – Alexandre Rampazo – Literatura Infantojuvenil – 64 páginas. “O Menino e o Mar” (Mil Caramiolas) – Lulu Lima & Lalan Bessoni – Literatura Infantojuvenil – 52 páginas. “Ana e os Palíndromos” (Editora do Brasil) – Fernando Vilela – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “A Coruja que me Contou” (Mil Caramiolas) – Lulu Lima & Jana Blatt – Literatura Infantojuvenil – 42 páginas. “Tanta Chuva no Céu” (Editora do Brasil) – Volnei Canônica & Roger Ycaza – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “A Roupa Nova de Doralice” (Saíra) – Monica Stahel & Luciana Romão – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Quarenceninhas: Quarentena em Histórias Curtinhas para Crianças” (InVerso) – Agláia Tavares – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “E Foi Assim que a Escuridão e Eu Ficamos Amigas” (Companhia das Letrinhas) – Emicida– Literatura Infantojuvenil – 34 páginas. “Morro dos Ventos” (Editora do Brasil) – Otávio Júnior – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Carona” (Companhia das Letrinhas) – Guilherme Karsten – Literatura Infantojuvenil – 30 páginas. “A Domadora de Palíndromos” (Cepe) – Fred Bellintani – Literatura Infantojuvenil – 28 páginas. “O Incrível Livro de Gildo” (Brinque-Book) – Silvana Rando – Literatura Infantojuvenil – 28 páginas. “O Menino Azul e a Família Colorida” (Contracorrente) – Zilah Ramires Ferreira & Lúcia Brandão – Literatura Infantojuvenil – 24 páginas. Ficção Estrangeira: “Black Bazar” (Malê) – Alain Mabanckou (Congo) – Romance – 220 páginas. “A Subtração” (Moinhos) – Alia Trabucco Zerán (Chile) – Romance – 204 páginas. “O Gueto Interior” (Todavia) – Santiago H. Amigorena (Argentina) – Romance – 128 páginas. “Água Por Todos os Lados” (Boitempo) – Leonardo Padura (Cuba) – Romance – 292 páginas. “A Ascensão de Senlin” (Morro Branco) – Josiah Bancroft (Estados Unidos) – Romance – 528 páginas. “Irmão de Alma” (Nós) – David Diop (Senegal/França) – Romance – 128 páginas. “Sistema do Tato” (Moinhos) – Alejandra Costamagna (Chile) – Romance – 144 páginas. “Como É” (Iluminuras) – Samuel Beckett (Irlanda) – Romance – 192 páginas. “O Lobo da Estepe” (Record) – Hermann Hesse (Alemanha) – Romance – 252 páginas. “Pedro Páramo” (José Olympio) – Juan Rulfo (México) – Romance –176 páginas. “O Falecido Mattia Pascal” (Editora Unesp) – Luigi Pirandello (Itália) – Romance – 264 páginas. “A Volta do Parafuso” (Nova Fronteira) – Henry James (Estados Unidos) – Romance – 152 páginas. “Homem Invisível” (José Olympio) – Ralph Ellison (Estados Unidos) – Romance – 574 páginas. “Drácula” (Nova Fronteira) – Bram Stoker (Irlanda) – Romance – 480 páginas (em dois volumes). “Götz von Berlichingen da Mão de Ferro” (Aetia) – Johann Wolfgang von Goethe (Alemanha) – Romance – 260 páginas. “Vontade de Ferro” (Jabuticaba) – Nicolai Leskov (Rússia) – Romance – 168 páginas. “Senhores do Orvalho” (Carambaia) – Jacques Roumain (Haiti) – Romance – 240 páginas. “Piano Mecânico” (Intrínseca) – Kurt Vonnegut (Estados Unidos) – Romance – 496 páginas. “Novelas Completas” (Todavia) – Liev Tolstói (Rússia) – Coletânea de novelas – 416 páginas. “A Dor do Esquecimento” (Chiado) – José Vieira/Teresa Vieira Lobo (Portugal) – Novela – 90 páginas. “Capitão Cueca e o Aterrorizante Retorno do Caído Tilintar de Calças” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 312 páginas. “Anne de Green Gables” (Ciranda Cultural) – Lucy Maud Montgomery (Canadá) – Literatura Infantojuvenil – 336 páginas. “Anne de Ingleside” (Ciranda Cultural) – Lucy Maud Montgomery (Canadá) – Literatura Infantojuvenil – 336 páginas. “Anne de Avonlea” (Ciranda Cultural) – Lucy Maud Montgomery (Canadá) – Literatura Infantojuvenil – 288 páginas. “Anne de Windy Poplars” (Ciranda Cultural) – Lucy Maud Montgomery (Canadá) – Literatura Infantojuvenil – 288 páginas. “Anne da Ilha” (Ciranda Cultural) – Lucy Maud Montgomery (Canadá) – Literatura Infantojuvenil – 256 páginas. “Anne e a Casa dos Sonhos” (Ciranda Cultural) – Lucy Maud Montgomery (Canadá) – Literatura Infantojuvenil – 256 páginas. “O Jardim Secreto” (Autêntica) – Frances Hogdson Burnett (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil – 240 páginas. “As Aventuras de Pinóquio” (Mojo) – Carlo Collodi (Itália) – Literatura Infantojuvenil – 196 páginas. “Sr. Boaventura” (HarperCollins) – J. R. R. Tolkien (África do Sul/Grã-Bretanha) – Literatura Infantojuvenil – 112 páginas. “O Mundo é Redondo” (Iluminuras) – Gertrude Stein (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 96 páginas. “O Mundo é Redondo” (Iluminuras) – Gertrude Stein (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 92 páginas. “Matemática até na Sopa” (Companhia das Letrinhas) – Juan Sabia (Argentina) – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “A Alma Perdida” (Todavia) – Olga Tokarczuk (Polônia) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Ô de Cima!” (Mil Caramiolas) – Popy Matigot (França) – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Viva as Unhas Coloridas!” (Livros Raposa Vermelha) – Alicia Acosta & Luis Amavisca (Espanha) – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Princesa Kevin” (Companhia das Letrinhas) – Michaël Escoffier (França) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Baleia na Banheira” (Companhia das Letrinhas) – Susanne Straber (Alemanha) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Eu sou uma Menininha!” (Brinque-Book) – Yasmeen Ismail (Irlanda) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “A Inacreditável, Porém Verdadeira, História dos Dinossauros” (Brinque-Book) – Guido van Genechten (Bélgica) – Literatura Infantojuvenil – 32 páginas. “Juntos e Misturados: Uma História de Galinhas” (WMF Martins Fontes) – Laurent Cardon (França/Brasil) – Literatura Infantojuvenil – 26 páginas. Poesia Brasileira: “Couraça: Poemas” (Laranja Original) – Dirceu Villa – 176 páginas. “O Desertor – Poema Herói-cômico” (Hedra) – Silva Alvarenga – 160 páginas. “69 Poemas e Alguns Ensaios” (Oficina Raquel) – Raquel Menezes – 144 páginas. “Diário de Porto Pim e Outros Poemas” (Iluminuras) – Fernando Moreira Salles – 134 páginas. “Corvos Contra a Noite” (7 Letras) – Diego Vinhas – 116 páginas. “Regresso a Casa” (Dublinense) – José Luís Peixoto – 112 páginas. “O Morse Desse Corpo” (7 Letras) – Ricardo Domeneck – 112 páginas. “Linha, Labirinto” (Macondo) – Mônica de Aquino – 102 páginas. “Pouso” (Moinhos) – Ágnes Souza – 100 páginas. “Eu Vou Piorar” (Figura de Linguagem) – Fernanda Bastos – 99 páginas. “Madame Leviatã” (Macondo) – Rita Isadora Pessoa – 84 páginas. “Sorry.gif” (Escamandro & Macondo) – Felipe André Silva – 80 páginas. “Pavilhão” (Macondo) – Daniel Arelli – 72 páginas. “Ovípara (Macondo) – Liv. Lagerblad – 68 páginas. “O Tempo Já Não Importa” (Artes & Ecos) – Lucas Barroso – 63 páginas. “Noite de São João” (Corsário-Satã) – Natália Agra – 46 páginas. Poesia Internacional: “Ancestral” (Âyiné) – Goliarda Sapienza (Itália) – 356 páginas. “Sou Uma Selva de Raízes Vivas” (Iluminuras) – Alfonsina Storni (Argentina/Suíça) – 200 páginas. “Poemas” (Iluminuras) – Sylvia Plath (Estados Unidos) – 142 páginas. “Percurso Livre Médio” (Jabuticaba) – Ben Lerner (Estados Unidos) – 136 páginas. “Investigações” (Chão da Feira) – Gonçalo M. Tavares (Portugal) – 122 páginas. “Tempo de Fantasmas” (Moinhos) – Alexandre O’Neill (Portugal) – 112 páginas. “Sara Luna” (Moinhos) – Tom Maver (Argentina) – 72 páginas. “Poema dos Árabes” (Tabla) – Chânfara (Arábia) – 64 páginas. Em dezembro, voltarei à coluna Mercado Editorial para trazer os lançamentos do último bimestre de 2020. Enquanto isso, continue aproveitando o conteúdo do Bonas Histórias! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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  • Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2022

    Saiu o ranking dos vinte títulos mais comercializados nas livrarias brasileiras no ano passado. Veja a lista dos best-sellers no país. Com o amadurecimento precoce de 2023 (o Carnaval está logo aí!), venho hoje à coluna Mercado Editorial para apresentar o balanço da colheita dos livros mais vendidos no Brasil em 2022. Os leitores mais antigos do Bonas Histórias (beijos, Vanessa e Thalita!) já estão familiarizados com a lista dos títulos de maior sucesso. Afinal, em todo janeiro, divulgo o ranking das publicações best-sellers nas livrarias do nosso paísno ano anterior. Faço tal relação desde 2015, quando o blog iniciou as atividades (na verdade, as boas-vindas aos leitores e a apresentação da proposta do Bonas Histórias e os primeiros posts são de dezembro de 2014, mas o primeiro ano efetivo de operação do site foi mesmo em 2015). Ou seja, essa é a oitava vez que debato os campeões de popularidade do mercado editorial brasileiro. E acredite: dessa vez temos boas novidades para quem curte, como eu, a ficção literária. E qual seria o grande destaque literário de 2022 no Brasil, hein? Quem ficou ligado mês a mês no ranking dos mais vendidos (confesso que tenho essa mania, tá?) saberá que o ano passado representou o auge do trabalho autoral de Colleen Hoover. A escritora norte-americana que se dedica à literatura infantojuvenil (tá bom, pode chamar esse gênero de literatura para jovens adultos, a tal young adult) vendeu mais do que água por aqui. Os livros da romancista texana de 43 anos foram tão comercializados, mas tão comercializados entre os brasileiros que eles representaram a incrível marca de um quarto do faturamento do Grupo Editorial Record (Walter Porto: 28 de dezembro de 2022, Folha de São Paulo). E olha que a Record não é qualquer player do mercado! A companhia é uma das grandes do setor no Brasil e tem sob seu comando selos como Galera, Galera Junior, Galerinha, Verus, Bertrand Brasil, José Olympio, Best Seller, Rosa dos Tempos, Civilização Brasileira, Paz & Terra, Difel, Best Business, Edição Best Bolso, Viva Livros e Nova Era, além do selo homônimo. Três dos 20 livros mais vendidos no Brasil em 2022 tiveram a assinatura de Colleen Hoover. Na liderança do ranking nacional surge “É Assim que Acaba” (Galera), com 127 mil unidades comercializadas de janeiro a dezembro. A norte-americana ainda teve “É Assim que Começa” (Galera) na sexta posição com 67 mil exemplares vendidos e “Todas As Suas (Im)Perfeições” (Galera) na 19ª colocação dos best-sellers das nossas livrarias com 37 mil unidades vendidas. “Até o Verão Terminar” (Galera) e “Verity” (Galera) também tiveram excelentes resultados no Brasil e quase entraram em nossa lista. Se tivéssemos um top 30 ao invés de um top 20, na certa Hoover teria cinco obras no ranking. Realmente, é um resultado espetacular!!! Antes que alguém me pergunte, eu informo que os dados comerciais que trago à coluna Mercado Editorial foram coletados e divulgados pelo PublishNews, a fonte da indústria brasileira do livro mais confiável na atualidade. Os números do PublishNews são obtidos diretamente dos sistemas de venda das maiores redes de livrarias do país. Dessa maneira, as estatísticas da empresa incluem tanto as operações físicas quanto as operações online dos principais varejistas nacionais. Além disso, os números do PublishNews são atualizados semanalmente, o que permite o acompanhamento periódico da evolução das vendas dos livros. Deixando um pouco de lado os aspectos mais técnicos do estabelecimento do nosso ranking e voltando ao tema do sucesso de Colleen Hoover, seria ele um fenômeno exclusivamente brasileiro? Nananinanão. Nos Estados Unidos, até o final de novembro, Hoover tinha seis entre os dez títulos mais comprados (Marisa Dellatto: 26 de dezembro de 2022, Forbes Brasil). Em outras palavras, o sucesso que ela tem no país natal é proporcionalmente maior (até outubro, seus títulos acumulavam 8,6 milhões de exemplares comercializados no mercado norte-americano) e acabou ecoando por aqui. Curiosamente, a base da estratégia mercadológica da escritora está nos vídeos postados no TikTok, a rede social favorita da molecadinha. Quem diria que o público leitor seria um dia fortemente influenciado por pequenos vídeos publicados nas redes, hein? De tempos em tempos, assistimos ao surgimento de fenômenos editoriais no Brasil envolvendo a ficção estrangeira. No ranking dos mais vendidos em 2014, por exemplo, vivenciamos a febre pela literatura de John Green. O autor norte-americano emplacou vários títulos entre as obras mais comercializadas em nosso país naquela temporada. O maior sucesso dele atendia pelo nome de “A Culpa é das Estrelas” (Intrínseca). Na esteira do êxito comercial desse romance, os leitores brasileiros correram às livrarias para adquirir “Quem é Você, Alasca?” (Intrínseca), “O Teorema Katherine” (Intrínseca) e “Cidades de Papel” (Intrínseca). Antes da coroação recente de Colleen Hoover (e de John Green há oito anos) ao posto de best-seller número 1 do Brasil, já tínhamos visto no século XXI os leitores nacionais alçarem Stephenie Meyer, da saga “Crepúsculo” (Intrínseca), e J. K. Rowling, da série “Harry Potter” (Rocco), a tal condição. As semelhanças entre o quarteto de romancistas best-sellers são que todos: (1) são autores estrangeiros; (2) escrevem em língua inglesa; e (3) têm obras voltadas originalmente para o público infantojuvenil. Pelo visto, a combinação dessas três características é fundamental para colocar a ficção literária no topo dos livros mais vendidos no Brasil. Por falar nisso, temos sete títulos da literatura infantojuvenil de língua inglesa no ranking dos 20 maiores best-sellers das livrarias brasileiras em 2022 (35% da lista dos mais vendidos). Além das três publicações de Colleen Hoover que já citei, surgem “Amor & Gelato” (Intrínseca), romance da norte-americana Jenna Evans Welch, “Heartstopper – Dois Garotos, Um Encontro” (Seguinte), romance da inglesa Alice Oseman, “A Garota do Lago” (Faro Editorial), romance do norte-americano Charlie Donlea, e “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (Seguinte), romance da norte-americana Casey McQuiston. Essas obras ocupam, respectivamente, a 5ª, 13ª, 18ª e 20ª posições entre os mais comercializados no ano passado. Da literatura ficcional adulta (acredite se quiser, mas ainda há obras de ficção direcionadas ao público mais exigente e experiente), temos cinco livros entre os best-sellers (25% do ranking). Dois deles são nacionais (10%). Enquanto “Nas Pegadas da Alemoa” (Buzz), romance de Ilko Minev, terminou 2022 como o terceiro livro mais vendido no Brasil, “Torto Arado” (Todavia), o premiado romance de Itamar Vieira Junior, encerrou a última temporada na sétima posição. Os títulos gringos da ficção adulta (15%) são: “Mulheres que Correm com os Lobos” (Rocco), coletânea de contos e crônicas da norte-americana Clarissa Pinkola Estés que ficou na quarta colocação; “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (Paralela), romance da norte-americana Taylor Jenkins Reid que terminou na décima posição; e “A Hipótese do Amor” (Arqueiro), romance da italiana Ali Hazelwood que surpreendeu ao atingir o 15º posto entre os mais comercializados. O renascimento da ficção literária entre os brasileiros é uma das boas notícias do mercado editorial no ano passado. Pela primeira vez em uma década, tivemos mais livros de ficção do que livros de não ficção entre os mais vendidos no país. Ao menos, quando usamos como referência a quantidade de títulos presentes no ranking dos best-sellers. Em 2022, foram 12 obras ficcionais na lista dos mais comercializados (60%) contra 8 obras não ficcionais (40%). É uma vitória apertada? É. Mas é uma vitória, né? Diria mais: é o primeiro triunfo depois de anos, anos, anos, anos, anos, anos, anos, anos, anos, anos e anos de derrotas amargas. É ou não é para comemorarmos, hein?! O fato é que há muito tempo não assistíamos aos livros de autoajuda, aos títulos religiosos, às obras voltadas para o universo das finanças e dos negócios (com fartas doses de autoajuda e religiosidade) e as biografias perdendo espaço nas estantes das livrarias brasileiras para a ficção literária. Ufa! Ainda há esperança. Minha relutância em aceitar o predomínio da não ficção no Brasil é que normalmente esse tipo de publicação possui qualidade discutível (reparou no uso do eufemismo?!). Confesso que não consigo ler os principais lançamentos dessa área que tratam invariavelmente dos seguintes temas: seja feliz; fique milionário; acredite em Deus; se torne milionário; você consegue/pode alcançar seus sonhos; conquiste o primeiro milhão; se torne um profissional mais produtivo; e vire um milionário da noite para o dia. Se você gosta desse tipo de livro, vou respeitar suas preferências. Como eu não gosto desse tipo de publicação, também quero ter minhas preferências respeitadas. Entre os escritores não ficcionais de destaque, Napoleon Hill emplacou duas publicações de autoajuda no ranking dos 20 mais vendidos em 2022 no Brasil: “Mais Esperto que o Diabo” (Citadel) apareceu na segunda posição; e “Quem Pensa Enriquece – O Legado” (Citadel) ficou na 17ª colocação. Os outros títulos de autoajuda que terminaram no alto do pódio foram: “O Poder da Autorresponsabilidade” (Gente), de Paulo Vieira, na oitava colocação, “Minutos de Sabedoria” (Vozes), de Carlos Torres Pastorino, na 11ª posição, e “Especialista em Pessoas” (Academia), de Tiago Brunet, no 16º lugar. “O Poder da Cura” (Petra), publicação religiosa de Padre Reginaldo Manzotti (nona posição), e “Do Mil ao Milhão” (HarperCollins), publicação de negócios de Thiago Nigro (14ª colocação), também podem ser encaradas como livros de autoajuda. No ano passado, nenhuma biografia se destacou. Para visualizarmos melhor o ranking dos livros mais vendidos no Brasil em 2022, aí vai a lista do PublishNews com os 20 maiores best-sellers em nosso país no ano passado em ordem decrescente. Confira: 1º “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 127 mil unidades. 2º “Mais Esperto que o Diabo” (1938) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda – Citadel – 95 mil unidades. 3º “Nas Pegadas da Alemoa” (2021) – Ilko Minev (Brasil/Bulgária) – Literatura Brasileira – Buzz – 90 mil unidades. 4º “Mulheres que Correm com os Lobos” (1992) – Clarissa Pinkola Estés (Estados Unidos) – Coletânea de Crônicas e Contos – Rocco – 70 mil unidades. 5º “Amor & Gelato” (2016) – Jenna Evans Welch (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 69 mil unidades. 6º “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 67 mil unidades. 7º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior (Brasil) – Literatura Brasileira – Todavia – 57 mil unidades. 8º “O Poder da Autorresponsabilidade” (2018) – Paulo Vieira (Brasil) – Autoajuda – Gente – 55 mil unidades. 9º “O Poder da Cura” (2022) – Padre Reginaldo Manzotti (Brasil) – Religioso – Petra – 52 mil unidades. 10º “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (2017) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Literatura Estrangeira – Paralela – 50 mil unidades. 11º “Minutos de Sabedoria” (1966) – Carlos Torres Pastorino (Brasil) – Autoajuda – Vozes – 48 mil unidades. 12º “Os Segredos da Mente Milionária” (2005) – T. Harv Eker (Canadá) – Autoajuda – Sextante – 45 mil unidades. 13º “Heartstopper – Dois Garotos, Um Encontro” (2019) – Alice Oseman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 45 mil unidades. 14º “Do Mil ao Milhão” (2018) – Thiago Nigro (Brasil) – Negócios – HarperCollins – 42 mil unidades. 15º “A Hipótese do Amor” (2021) – Ali Hazelwood (Itália) – Literatura Estrangeira – Arqueiro – 41 mil unidades. 16º “Especialista em Pessoas” (2020) – Tiago Brunet (Brasil) – Autoajuda – Academia – 41 mil unidades. 17º “Quem Pensa Enriquece – O Legado” (1937) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda – Citadel – 40 mil unidades. 18º “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Faro Editorial – 38 mil unidades. 19º “Todas As Suas (Im)Perfeições” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 37 mil unidades. 20º “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 37 mil unidades. Nos próximos meses, voltarei à coluna Mercado Editorial para detalhar os diferentes aspectos do ranking dos livros mais vendidos no Brasil em 2022. Minha ideia é apresentar, no Bonas Histórias, três outras listas com as publicações best-sellers em nosso país. Nesses futuros posts, trarei: as obras ficcionais mais comercializadas nas livrarias nacionais no ano passado (post sairá em março de 2023); os títulos ficcionais de autores brasileiros mais procurados pelos leitores tupiniquins na última temporada (post em maio de 2023); e os livros infantojuvenis com mais saída no Brasil em 2022 (post em julho de 2023). Ao concluir o quarteto de post com os maiores sucessos do mercado editorial brasileiro, acredito dar uma visão mais completa das preferências dos leitores nacionais. Enquanto isso, não deixe de acompanhar as análises da coluna Livros – Crítica Literária e não perca as novidades das outras colunas do blog. Afinal, enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê. Fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: As ficções mais vendidas no Brasil em 2022

    Apresentamos hoje o ranking dos 25 livros ficcionais mais comercializados nas livrarias brasileiras no ano passado. Em janeiro, eu trouxe para a coluna Mercado Editorial uma curiosidade que todos os leitores vorazes devem ter: a lista dos livros mais vendidos no Brasil em 2022. Quem acompanha o Bonas Histórias há mais tempo já sabe que tenho a tradição de apresentar o ranking dos best-sellers das livrarias de nosso país nos primeiros meses do calendário. Fiz isso com as obras mais comercializadas em 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e 2021. O problema é que sou apaixonado pela ficção literária. E na lista dos maiores sucessos dos meus conterrâneos temos invariavelmente poucas publicações ficcionais. O que predomina no topo dos mais vendidos do mercado editorial brasileiro são títulos de autoajuda, textos religiosos, material sobre negócios e biografias. Tenho grande respeito por quem produz e lê esse tipo de literatura. Eu confesso que não gosto. Por isso, não ligo muito pelo que estão lançando nessas áreas. Sabendo da incompatibilidade entre meus gostos de leitura e as preferências de compra da maioria dos meus compatriotas, eu também apresento anualmente no blog o ranking dos livros de ficção que foram mais adquiridos pelos brasileiros. Fiz isso em 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e 2021. Dessa forma, consigo ver melhor o que está rolando de bom na minha área de interesse. Sagaz, muito sagaz esse rapaz, né? Em 2023 não será diferente. Depois de dar um panorama geral, em janeiro, nas obras mais vendidas em 2022 no Brasil, no post de hoje da coluna Mercado Editorial vou focar exclusivamente nas publicações da ficção literária. Uhu! Agora chegamos aonde eu queria, senhoras e senhores. Logo de cara informo que algo beeeeeem atípico aconteceu em 2022. Tivemos, acreditem se quiser, o predomínio de livros ficcionais no alto da lista das obras mais vendidas no Brasil no ano passado. Bomba! Bomba!! E bomba!!! Três vezes bomba! Pela primeira vez desde que comecei a fazer tal levantamento no Bonas Histórias, os títulos de ficção bateram os títulos de não ficção entre os best-sellers nacionais. Sim, isso aconteceu mesmo nas primeiras posições do ranking. E eu achando que não viveria para ver algo do tipo ocorrendo em meu país, hein? Das 20 publicações mais comercializadas nas livrarias brasileiras em 2022, 12 eram romances. Comentei sucintamente sobre essa constatação no post de janeiro. Admito um tanto envergonhado que não sei explicar o que exatamente aconteceu para termos uma inversão tão acintosa na preferência do público no Brasil. Isso seria reflexo das mudanças dos hábitos de leitura trazidos pela pandemia? Ou seria a consequência natural do lançamento de bons livros de ficção na última temporada? Juro que não sei. A questão é verificar, nos próximos anos, se 2022 foi a exceção (que só confirma a regra da paixão do brasileiro pela não ficção) ou o momento decisivo de mudança de gosto dos leitores (provando que existe sim demanda pela ficção no Brasil e, por consequência, que Deus existe!). Outra surpresa (que eu chamaria de bomba – uma vez só bomba!) foi o domínio avassalador de Colleen Hoover na relação dos best-sellers nacionais. Ninguém vendeu mais livros do que ela por aqui. É interessante dizer que esse fenômeno editorial se repetiu nos Estados Unidos e em vários países. A romancista norte-americana não apenas estampou o título mais vendido em 2022 no Brasil, “É Assim que Acaba” (Galera) com 127 mil unidades comercializadas, como também colocou outras duas obras, “É Assim que Começa” (Galera) com 67 mil exemplares e “Todas As Suas (Im)Perfeições” (Galera) com 37 mil unidades, no topo do ranking geral das obras preferidas pelo público brasileiro em 2022. Quando olhamos apenas para a lista das ficções mais vendidas em nosso país, Hoover consegue ter números ainda mais impactantes. Ela tem nada mais, nada menos do que cinco títulos no top 25 da ficção. Sim, você leu direito. Eu disse/escrevi cinco! Uma autora sozinha é responsável por um quinteto de romances na lista dos 25 livros ficcionais mais vendidos em nosso país. Além dos já citados “É Assim que Acaba”, “É Assim que Começa” e “Todas As Suas (Im)Perfeições”, Colleen Hoover emplacou “Até o Verão Terminar” (Galera), com vendas de 19 mil exemplares, e “Verity” (Galera), com vendagem de 17 mil unidades. Nenhum escritor sorriu mais (tanto no Brasil quanto no mundo) em 2022 do que Hoover! Infelizmente, as novidades nas livrarias brasileiras no ano passado param por aí. Continuamos tendo uma avalanche de títulos da literatura infantojuvenil e da literatura de língua inglesa (leia-se, autores dos Estados Unidos e do Reino Unido) entre os best-sellers nacionais. Tratemos, primeiramente, da preferência pelas histórias direcionadas originalmente para crianças e adolescentes. E depois falemos da overdose de publicações de escritores gringos nas prateleiras das nossas lojas e nas estantes das casas dos nossos leitores. Dos 25 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2022, tivemos a inacreditável marca de 18 (eu disse 18!) obras infantojuvenis. O brasileiro médio até pode ter descoberto a ficção literária. Porém, como seu gosto de leitura continua ainda sendo extremamente inocente, pouco maduro e, por que não, infantilizado, ele acaba recorrendo aos livros e aos escritores que lá fora são lidos preferencialmente pela molecadinha. Ou você acha que a supremacia da literatura infantojuvenil é decorrência do elevado hábito de leitura de nossos jovens, hein? Sabe de nada, inocente!!! Para mascarar um pouco a falta de requinte de grande parte dos leitores mais velhos, o mercado editorial criou a classificação Young Adult. Costumo interpretar esse termo como a categoria de publicações na qual os adultos leem os livros dos adolescentes. Outra coisa que parece não mudar no Brasil é a hegemonia da literatura internacional em relação à literatura nacional. Dos 25 livros de ficção mais vendidos no Brasil no ano passado, apenas três foram escritos por autores brasileiros. Somente Ilko Minev, de “Nas Pegadas da Alemoa” (Buzz), romance com 90 mil unidades comercializadas, Itamar Vieira Junior, de “Torto Arado” (Todavia), premiado título com 57 mil exemplares comercializados, e Carla Madeira, de “Tudo é Rio” (Record), obra com 29 mil volumes vendidos, conseguiram fazer frente a enxurrada da ficção estrangeira. O trio pode ser visto como os heróis da literatura brasileira em 2022. Curiosamente, quando falamos em literatura internacional, estamos falando quase que exclusivamente da literatura ficcional praticada nos Estados Unidos e na Inglaterra. Dos 22 livros de ficção de autores gringos que caíram no gosto dos leitores brasileiros, 21 são exemplares da literatura norte-americana (15) e da literatura inglesa (6). A ovelha desgarrada do rebanho anglo-estadunidense foi “A Hipótese do Amor” (Arqueiro), best-seller da italiana Ali Hazelwood. Sua obra de estreia vendeu por aqui mais de 41 mil unidades. Em terra de Elena Ferrante, quem faz chover é Hazelwood. E assim caminha a literatura italiana, pelo menos para o público brasileiro. Pela perspectiva dos romancistas estrangeiros, depois de Colleen Hoover, quem mais se destacou em nosso país foi a inglesa Alice Oseman. Ela teve impressionantes três obras no top 25 da ficção: “Heartstopper – Dois Garotos, Um Encontro” (Seguinte), na sétima posição com 45 mil unidades vendidas, “Heartstopper – Minha Pessoa Favorita” (Seguinte), na 16ª colocação com 28 mil exemplares comercializados, e “Heartstopper – Um Passo Adiante” (Seguinte), no 20º posto com 22 mil livros transacionados. Em outras palavras, a “Série Heartstopper” beirou as 100 mil unidades vendidas em 2022 no Brasil. Nada mal, né? Para entender um pouco do apelo, da força e/ou da qualidade (vejam como quiserem) da literatura internacional, analisei no mês passado na coluna Livros – Crítica Literária um título best-seller de 2022. Os leitores mais atentos do Bonas Histórias vão se lembrar que debati todos os detalhes de “A Biblioteca da Meia-noite” (Bertrand Brasil) aqui no blog. Esse romance do inglês Matt Haig terminou a última temporada do mercado editorial brasileiro como a 13ª ficção mais vendida no país. Foram 29 mil unidades comercializadas. Confesso que achei a obra de Haig interessante, mas nada mais do que isso. Ela está longe (muito longe) de ser espetacular. Entretanto, como uma publicação voltada para o entretenimento dos adolescentes e jovens (o tal Young Adult, que ainda prefiro chamar de literatura infantojuvenil), “A Biblioteca da Meia-noite” cumpre bem seu papel. A seguir, apresentarei o ranking completo dos livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2022. Os dados estatísticos que estou usando neste post do Bonas Histórias foram coletados e divulgados pelo PublishNews, a principal fonte de informações e de números do mercado brasileiro de livros nos últimos anos. Exatamente por isso, recorro sem pestanejar ao PublishNews quando construo meus textos para a coluna Mercado Editorial. Então chega de papo e confira de uma vez por todas (e em ordem decrescente) a lista dos 25 maiores best-sellers ficcionais em nosso país no ano passado: 1º “É Assim que Acaba” (2016) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 127 mil unidades. 2º “Nas Pegadas da Alemoa” (2021) – Ilko Minev (Brasil/Bulgária) – Literatura Brasileira – Buzz – 90 mil unidades. 3º “Amor & Gelato” (2016) – Jenna Evans Welch (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 69 mil unidades. 4º “É Assim que Começa” (2022) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 67 mil unidades. 5º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior (Brasil) – Literatura Brasileira – Todavia – 57 mil unidades. 6º “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (2017) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Literatura Estrangeira – Paralela – 50 mil unidades. 7º “Heartstopper – Dois Garotos, Um Encontro” (2019) – Alice Oseman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 45 mil unidades. 8º “A Hipótese do Amor” (2021) – Ali Hazelwood (Itália) – Literatura Estrangeira – Arqueiro – 41 mil unidades. 9º “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Faro Editorial – 38 mil unidades. 10º “Todas As Suas (Im)Perfeições” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 37 mil unidades. 11º “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 37 mil unidades. 12º “Os Dois Morrem no Final” (2017) – Adam Silveira (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 34 mil unidades. 13º “A Biblioteca da Meia-noite” (2020) – Matt Haig (Inglaterra) – Literatura Estrangeira – Bertrand Brasil – 29 mil unidades. 14º “Tudo é Rio” (2014) – Carla Madeira (Brasil) – Literatura Brasileira – Record – 29 mil unidades. 15º “Coraline” (2002) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 28 mil unidades. 16º “Heartstopper – Minha Pessoa Favorita” (2019) – Alice Oseman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 28 mil unidades. 17º “A Rainha Vermelha” (2015) – Victoria Aveyard (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 25 mil unidades. 18º “Diário de Um Banana – Um Romance em Quadrinhos” (2007) – Jeff Kinney (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – VR Editora – 23 mil unidades. 19º “Os Últimos Jovens da Terra” (2015) – Max Brallier (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Milk Shakespeare – 22 mil unidades. 20º “Heartstopper – Um Passo Adiante” (2020) – Alice Oseman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 22 mil unidades. 21º “Mil Beijos de Garoto” (2016) – Tillie Cole (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Outro Planeta – 20 mil unidades. 22º “Até o Verão Terminar” (2020) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 19 mil unidades. 23º “A Seleção” (2012) – Kiera Cass (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 19 mil unidades. 24º “Eu e Esse Meu Coração” (2018) – C. C. Hunter (Estados Unidos) – Literatura Estrangeira – Jangada – 18 mil unidades. 25º “Verity” (2018) – Colleen Hoover (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera – 17 mil unidades. Para quem estiver curioso(a) para saber quais foram os outros autores brasileiros que caíram no gosto dos leitores nacionais em 2022, em maio retornarei à coluna Mercado Editorial com um novo ranking dos best-sellers em nossas livrarias. A ideia é listar apenas os livros da ficção brasileira que estiveram no topo dos mais vendidos no país no ano passado. Enquanto o novo ranking não chega, continue curtindo os demais posts do Bonas Histórias. O blog trará muita literatura, cinema, música, dança, cultura e entretenimento para vocês. Não percam! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. 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  • Livros: O Homem que Ria Demais - O segundo romance de Magela de Faria

    Publicado em setembro de 2022, o thriller fantástico do escritor mineiro apresenta a amizade de um universitário e um morador de rua na Belo Horizonte dos anos 1970. Na semana passada, li “O Homem que Ria Demais” (Páginas Editora), o segundo romance de Magela de Faria. Recebi esse livro no final do ano passado e só agora consegui lê-lo com a atenção merecida. Quem me enviou a nova obra ficcional de Magela foi Admilson Resende, diretor da Multi Comunicar. A Multi Comunicar é uma assessoria de imprensa de Belo Horizonte que trabalha, entre outros projetos de Comunicação, Marketing Digital e Produção Editorial, na divulgação de autores mineiros. Da última leva de publicações que Admilson me encaminhou, os títulos que mais gostei foram justamente “O Homem que Ria Demais” – nosso assunto de hoje na coluna Livros – Crítica Literária – e “O Coração do Imperador” (Gulliver) – romance policial de Guilherme Santos que rendeu uma análise detalhada no Bonas Histórias em janeiro. Parodiando o clássico dos Novos Baianos, chegou a hora dessa gente da literatura mineira mostrar o seu valor! Se eu já tinha achado “O Coração do Imperador” uma obra muito boa, confesso que considerei agora “O Homem que Ria Demais” uma publicação excelente. Adorei principalmente a originalidade da trama de Magela de Faria. Eita história gostosa de ler!!! E olha que não sou normalmente muito fã da literatura fantástica, gênero que o autor vem explorando. O novo romance de Magela é encantador por unir texto impecável com enredo perspicaz e personagens muitíssimo carismáticas. É até difícil olharmos o escritor como um novato no universo do fazer literário. Pelo que demonstrou nas páginas de “O Homem que Ria Demais” e “A Orquestra das Almas” (Literando Editora), seu título anterior, Magela de Faria se mostra um autor ficcional maduro, sagaz e com enorme repertório narrativo. Quem gosta das boas novidades da literatura brasileira precisa ficar de olho nos próximos lançamentos deste mineiro. Eu (e, como consequência, o Bonas Histórias) ficarei atento. “O Homem que Ria Demais” aborda a amizade sincera e bonita de um universitário com um morador de rua de traços indígenas. O cenário inicial do livro é a capital de Minas Gerais na segunda metade da década de 1970. Em troca de eventuais lanches e salgados, o mendigo do Centrão de Belo Horizonte parece proteger seu jovem amigo com dicas premonitórias. Guiado por uma forte intuição (ou seriam visões sobrenaturais?!), o velho índio não deixa que nada de mal ocorra ao estudante. Grato por tanta atenção, o rapaz faz uma promessa aparentemente banal ao morador de rua. Contudo, quase quarenta anos mais tarde, aquele compromisso levará o não-mais-garoto-universitário a uma aventura de tirar o fôlego pelo interior mineiro. Inicia-se, assim, um thriller emocionante com muito mistério, reviravoltas, ação, perigo e surpresas. Lançado em 24 de setembro de 2022, na Livraria Jenipapo, na Savassi, em BH, “O Homem que Ria Demais” é uma autopublicação de Magela de Faria. Para viabilizar o novo projeto editorial, o autor escolheu a Páginas Editora como parceira. Acho que já falei sobre essa editora belo-horizontina aqui no Bonas Histórias quando comentei “Andante das Gerais” (Páginas Editora), a primeira coletânea não ficcional de Roberto Marcio que foi publicada no finalzinho de 2020 (e analisada na coluna Livros – Crítica Literária em junho de 2021). Vale a pena dizer que Magela de Faria estreou na literatura comercial no ano retrasado com bastante brilho. Sua primeira obra foi o já citado “A Orquestra das Almas”, romance histórico ambientado na Romênia comunista da segunda metade da década de 1980. Ao longo de mais de 800 páginas, acompanhamos a saga de Iannus Maltiescu, um médico perseguido pelo governo ditatorial de Nicolae Ceauşescu. E qual teria sido o crime do doutor, hein? Ele só queria ter melhores condições de trabalho em seu hospital. Como punição pela ousadia de criticar a política de saúde pública de Ceauşescu, Iannus foi enviado para uma prisão agrícola no interior da Romênia. Uma vez atrás das grades, o protagonista sofre contra as perseguições e as injustiças perpetradas pelo comandante da penitenciária. Li esse livro no ano passado e o achei simplesmente espetacular. Até agora estou em dúvida qual título é melhor: se “O Homem que Ria Demais” ou “A Orquestra das Almas”. Se a narrativa de “A Orquestra das Almas” levou seis anos para ser concluída, a trama de “O Homem que Ria Demais” levou apenas um ano. Para produzir o novo romance, Magela de Faria utilizou como base uma crônica homônima que fora publicada em suas redes sociais há alguns anos. Ao lê-la depois de um tempinho, o autor achou que valeria a pena transformar a narrativa curta em romance. E não é que ele tinha razão! Curiosamente, o início do livro é idêntico ao começo da crônica: “Solitário, ele andava o dia todo pelas ruas do Centro de Belo Horizonte. Era enorme em altura e peso, de pele morena e cabelo liso e oleoso. Sempre que eu passava pela Avenida Paraná para pegar meu ônibus de volta para casa, já tarde da noite, ele estava lá conversando com uma daquelas garotas que ficavam encostadas na parede à espera de companhia. Naquela época, eu ainda não sabia o nome dele, mas como ele me chamava de Moleque, eu passei a chamá-lo de Pede. E não foi porque ele estivesse sempre me pedindo algo, mas tão somente porque eu queria dar sentido ao meu apelido e, juntos, nós passamos a ser o Pede e o Moleque (...)”. Nascido em Itaúna, em 1953, Geraldo Magela de Faria sempre morou em Minas Gerais. A infância e parte da adolescência foram vividas em Divinópolis. Para cursar o seminário, ele se mudou para Juiz de Fora. E a faculdade de Engenharia Metalúrgica foi realizada na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) em Belo Horizonte. Desde então, ele reside na capital mineira. Por várias décadas, Magela trabalhou na Acesita (atualmente chamada de Aperam), empresa especializada na produção de aço. Foi na siderúrgica que o engenheiro se aposentou em 2011. Mesmo assim, ele não parou de trabalhar no universo empresarial tão imediatamente. Mal deixou a Acesita/Aperam, o executivo foi atuar na Gerdau Açominas, em Ouro Branco. Só em 2014, a engenharia foi deixada definitivamente de lado em sua rotina. Apaixonado pelos livros, Magela sempre foi um leitor contumaz. Na época do seminário, ele devorava os clássicos da literatura brasileira e da literatura estrangeira. Seus escritores favoritos eram Fiódor Dostoiévski, Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Nada bobo ele, né? Entretanto, Magela de Faria só embarcou pra valer no ofício do fazer literário em 2015, após a conclusão da carreira de executivo na Acesita/Aperam e na Gerdau Açominas. Aí saiu de cena o experiente engenheiro metalúrgico e entrou no palco ficcional o promissor romancista. Com um pé na literatura fantástica e o outro no realismo fantástico, o mineiro de Itaúna já merecia ter recebido uma atenção maior das principais editoras do país. Olha a dica aí, editores do meu Brasil! “O Homem que Ria Demais” é narrado prioritariamente em primeira pessoa. O narrador central da trama é um universitário de Belo Horizonte que não tem o nome revelado em nenhum momento do livro. Em meados da década de 1970, ele faz faculdade de Engenharia. De manhã, o rapaz assiste às aulas na universidade e à noite ministra aulas em um cursinho para pré-vestibulandos. Ou seja, sua rotina é ficar correndo de um lado para outro na cidade. Como o cursinho fica no centro de BH, o jovem precisa caminhar invariavelmente por ruas escuras, sujas e perigosas. No ir-e-vir do trabalho, o narrador faz amizade com um mendigo com feições indígenas que vive pelas ruas rindo. Por não saber o nome um do outro, a dupla logo cria apelidos mútuos: o universitário chama o morador de rua de Pede por causa, obviamente, de viver solicitando comida; e o pedinte chama o rapaz de Moleque devido à juventude – tem vinte e poucos anos. Inicia-se, dessa maneira, uma bonita e sincera amizade entre os dois. O curioso da relação entre Pede e Moleque é que o universitário tem a impressão de estar sendo protegido pelo morador de rua. Além de ser extremamente generoso (está sempre ajudando as pessoas ao seu redor) e de rir com enorme facilidade (uma de suas características mais marcantes), Pede parece ter o dom da premonição. Sabendo exatamente o que vai acontecer na capital mineira, o índio orienta o jovem amigo de quais ruas evitar e o que não fazer em determinados dias e noites. Com as preciosas dicas e orientações do mendigo, Moleque sempre escapa de acidentes (enchente, queda de árvore, desabamento de viaduto), tiroteios (o centro de Belo Horizonte nos anos 1970 não era um dos lugares mais tranquilos do mundo, ainda mais à noite ou de madrugada), ações violentas de policiais e militares (era tempo da Ditadura Militar!) e pequenos inconvenientes da rotina urbana (chuva, trânsito, perda do último ônibus para casa, nota ruim na faculdade). Paradoxalmente, é o universitário que se sente mais acolhido por Pede e não o contrário. Em troca da proteção concedida, o morador de rua só solicita um pouco de comida. Isso é, quando o amigo mais jovem pode pagar um salgado ou um lanche. Se Moleque não está em condições financeiras para tal, tudo bem. Ainda há muitos motivos para o indígena passar o dia rindo, rindo e rindo. Certo dia, Pede faz um pedido inusitado para Moleque. Após dizer uma sequência de frases em seu idioma materno (“Tacuín-êré maludá tacón potaca-êré tétê. Bambuská-aré taquim gotétê”), o morador de rua quer que, no tempo certo, o rapaz procure a única pessoa no mundo capaz de traduzir aquelas palavras. Aquele é o pedido mais importante que ele poderia fazer e, portanto, está sendo direcionado para quem ele mais confia. Para não esquecer o que ouviu, o narrador anota a fala do amigo indígena em um caderno. E Pede complementa: – Na hora certa, de alguma forma, você vai chegar a essa pessoa. Mas não se apavore porque falta muito tempo. Antes você precisa acertar a sua vida, Moleque. Antes você vai se casar, vai ter suas filhas e trabalhar. Depois você faz isso por mim. Tacuín-êré maludá potacá-erê tacón tétê... Faça por mim! Por favor, Moleque... É claro que o narrador concorda. O problema é que, pouco tempo depois dessa inusitada conversa, Pede some das ruas de BH. Moleque nunca mais o encontra nem é encontrado pelo amigo. Querendo saber o que aconteceu com o mendigo que tinha poderes premonitórios, o jovem professor de cursinho passa a questionar os frequentadores habituais do Centrão da capital mineira. Ninguém parece saber o paradeiro de Pede. Somente uma prostituta informou que aquele morador de rua tão querido por todos morreu há pouco tempo. Ele foi encontrado, certo dia, inerte na sarjeta. Pede tinha os olhos esbugalhados de um jeito estranho e a boca um pouco aberta. O mais esquisito é que o pessoal do socorro, enviado para cuidar do caso, não conseguiu fechar os olhos do índio, que tinha uma cor diferente, meio esbranquiçada. Mesmo ficando muitíssimo triste com o fim melancólico do amigo, Moleque segue sua vida. Ele se forma, começa a trabalhar em Engenharia, se casa e tem filhas. Trinta e seis anos depois da morte de Pede, o narrador do romance encontra o velho caderno enquanto remexe em coisas antigas. E lá está a frase no idioma indígena: “Tacuín-êré maludá tacón potaca-êré gotétê. Bambuská-aré taquim tétê”. Comovido com as lembranças da época de juventude, Moleque resolve passear, como nos velhos tempos, pelas ruas do Centro de Belo Horizonte. E na caminhada pelas vias que tanto frequentou no passado, ele parece ouvir vozes em uma língua diferente: “Tacuín-êré maludá tacón tétê...”. Assustado e, depois, emocionado com a inexplicável voz que o acompanha pelo trajeto urbano, o agora senhor decide cumprir a promessa feita há pouco mais de três décadas e meia para o amigo indígena. Moleque irá atrás da pessoa que poderá traduzir a enigmática mensagem deixada nas folhas amareladas do caderno universitário. Assim, começa a investigação do narrador. Em primeiro lugar, Moleque descobre, através da ficha do amigo na prefeitura, que o nome de Pede é Horácio Taíurú. Ele nasceu em 1901 em Corungaguá e faleceu em Belo Horizonte em 1980. Contudo, não há qualquer referência na Internet e nos registros municipais de uma localidade cujo nome seja Corungaguá. Depois de bater muita perna perguntando para Deus e o mundo sobre o misterioso local, Moleque encontra Antônio Curió, um caminhoneiro acostumado a rodar pelo Brasil e por Minas. É ele quem revela que Corungaguá é uma fazenda no interior de Minas Gerais. O proprietário se chama Anastácio Virgilino e vive em São José do Esquecido, uma pequena cidade mineira próxima à fazenda Corungaguá. De posse de tal informação, Moleque larga a rotina na capital mineira e parte em viagem para São José do Esquecido. Chegando à casa de Anastácio Virgilino, o narrador é levado pelo proprietário da fazenda para Corungaguá. Lá, ele conhece Bambuská, a mãe de Pede (ou melhor, a mãe de Horácio). Aos 130 anos, a velha indígena é a última integrante da tribo taíurú. E ela é também a única pessoa que sabe o significado das palavras misteriosas do amigo falecido do Moleque. O problema é que a mãe de Pede/Horácio não fala nenhuma palavra de português. Para conversar com a índia, o narrador precisa da ajuda de Janaína, a filha de um funcionário de Anastácio. A moça tem algum conhecimento da língua taíurú e pode ajudar o forasteiro. O problema é que Janaína é aparentemente medrosa e Bambuská é considerada bruxa pelos moradores de Corungaguá e de São José do Esquecido. Mesmo com todas as adversidades idiomáticas, Moleque e Bambuská conseguem conversar. E aí surgem as revelações bombásticas sobre a vida de Pede/Horácio e a trajetória da tribo taíurú. De repente, o engenheiro se vê metido em uma trama perigosa que exige a produção de um livro que narra a história do povo indígena. Sem saber, existem inimigos sorrateiros que vão fazer de tudo para impedi-lo a escrever a saga do povo taíurú. Será que o narrador conseguirá superar os incontáveis desafios que vão aparecer no caminho? Ele cumprirá integralmente a velha promessa dos tempos de faculdade?! A sorte está lançada! “O Homem que Ria Demais” é um romance parrudo. Ele possui 360 páginas e está dividido em 31 capítulos. Na semana passada, levei cerca de sete horas e meia para concluir sua leitura. Para tal, precisei de três noites: terça, quarta e quinta-feira. Investi praticamente duas horas e meia em cada sessão noturna. Se você achou volumoso esse livro de Magela de Faria é porque não viu a publicação ficcional anterior do autor. “A Orquestra das Almas” tem 848 páginas. Está certo sim o que você leu – eu disse 848 páginas!!! É mais do que o dobro de “O Homem que Ria Demais”. Li a versão em ebook (Kindle) de “A Orquestra das Almas” no final do ano passado, mas não fiz um post sobre essa obra na coluna Livros – Crítica Literária. Se bem que pela qualidade absurda da narrativa, o título de estreia de Magela merecia com certeza uma análise pormenorizada aqui no Bonas Histórias. Acho que levei mais de uma semana para concluir a leitura de “A Orquestra das Almas” em dezembro (e olha que eu leio muito rápido). Por essa perspectiva, achei “O Homem que Ria Demais” um romance mais enxuto, quase uma novela (brincadeirinha!!!). Deixemos um pouco de lado “A Orquestra das Almas” e voltemos à análise propriamente dita de “O Homem que Ria Demais”. Para começo do nosso debate, preciso destacar a originalidade do enredo do novo romance de Magela de Faria. Se você gosta de tentar adivinhar para onde a história da obra ficcional vai caminhar (admito que eu sempre faço isso...), esqueça! O escritor mineiro nos surpreende a cada página. Eu fico encantado quando os autores brasileiros trazem tramas singulares e com as cores do nosso país. É o que encontramos nesse livro do início ao fim. Um dos elementos mais interessantes dessa leitura foi a mistura de gêneros narrativos. É verdade que “O Homem que Ria Demais” deve ser classificado como romance fantástico. Até aí beleza. Contudo, ele tem também características de trama investigativa, thriller dramático, narrativa indianista contemporânea, saga histórica, drama familiar, ação ao melhor estilo bang bang, pegada de road story e elementos de lenda folclórica. Impossível não curtirmos tal miscelânia literária. Curiosamente, por qualquer perspectiva que você olhe “O Homem que Ria Demais”, ele ainda sim é um excelente livro – ótimo romance fantástico, bela trama investigativa, impecável thriller dramático, muito boa narrativa indianista contemporânea, excelente saga histórica, memorável drama familiar, ótima história de ação bang bang, inusitado road story e maravilhosa lenda folclórica. Entre os principais destaques positivos de “O Homem que Ria Demais”, posso citar o ótimo primeiro capítulo, a belíssima ambientação, o excelente ritmo narrativo e a impecável construção das personagens. A qualidade do capítulo inicial é algo fundamental para qualquer publicação ficcional que possua maiores ambições literárias. E Magela de Faria vai direto ao ponto e nos entrega uma narrativa ao mesmo tempo gostosa e veloz desde as primeiras páginas. Além do texto muitíssimo bem escrito, a abertura do romance tem vários componentes que intrigam os leitores: suspense, drama, figuras peculiares e muita ação. Para completar, há eventos (até então) inexplicáveis que atiçam nossa curiosidade. O resultado concreto da excelência das 21 primeiras páginas (ou das 44 páginas iniciais se você considerar os dois primeiros capítulos como sendo a abertura da trama) é que o texto de “O Homem que Ria Demais” nos prende de um jeito que não queremos mais parar de lê-lo. Isso aconteceu comigo. Enfeitiçado que fiquei pelo enredo, comecei a ler sem parar a obra. Como li o livro à noite (em três noites consecutivas), só interrompi a leitura porque precisava acordar cedo nos dias seguintes (era meio de semana). Se não fosse por isso, acho que tentaria lê-lo em duas sessões ou mesmo em um único dia (se tivesse iniciado a leitura de manhãzinha). Gostei também da ambientação do romance. A obra ficcional caminha muitíssimo bem por diferentes regiões do país (interior de Goiás, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e interior de Minas Gerais) e por diferentes épocas (do início do século XX aos dias de hoje). Nem sempre é fácil dar o tom correto para o clima de um romance histórico e de um road story. Para isso, o escritor precisa de repertório. Afinal, construir ambientações fidedignas e convidativas é uma das peças-chaves da boa ficção. E Magela de Faria entrega (1) ótimos cenários (espaço narrativo), (2) clima certeiro das diferentes épocas e lugares retratados e (3) atmosfera por vezes árida, sombria, violenta e injusta (com a cara do Brasil). Misture esses três componentes (espaço narrativo, clima da história e atmosfera narrativa) e temos a ambientação. Por falar nisso, o interior de Minas Gerais de “O Homem que Ria Demais” se parece bastante com a ambientação dos melhores livros de Graciliano Ramos: uma localidade recheada de pobreza, opressão, violência, injustiças, desigualdade econômica e traições de todos os tipos. Seria Pede/Horácio uma versão indígena de Fabiano, protagonista de “Vidas Secas” (Record)? Seria Anastácio Virgilino uma espécie de Paulo Honório, narrador de “São Bernardo” (Martins)? E Moleque seria a reencarnação literária de João Valério, personagem central de “Caetés” (BestBolso)? Para quem se amarra em comparações intertextuais, a resposta pode ser positiva. Quando elogio o ritmo narrativo de “O Homem que Ria Demais”, preciso destacar que não é fácil acertar a mão quando o assunto é velocidade do romance. Somente escritores realmente talentosos conseguem unir tramas com grande riqueza literária e histórias ágeis. O mais comum é termos: livros com muitas descrições, mas de dinâmica mais lenta; e obras velozes, mas pobres literariamente. Estou falando isso porque achei “O Homem que Ria Demais” um romance perfeito em relação ao ritmo narrativo (principalmente na primeira metade). A agilidade da trama vem junto com a descrição inteligente de personagens, cenários, cenas e situações. Como Magela de Faria conseguiu tal (e)feito? Se eu soubesse como fazer, eu seria autor ficcional e não crítico literário, né? O que posso dizer é que “O Homem que Ria Demais” tem um ritmo narrativo invejável na maior parte do tempo. Uma das características do dinamismo do romance (usei o termo “característica” porque fiquei na dúvida se o dinamismo seria causa ou consequência da alta velocidade do ritmo narrativo) é a alteração do conflito à medida que as páginas avançam. É como se tivéssemos mais de um livro na mesma publicação. Note que, no início de “O Homem que Ria Demais”, o que move o narrador principal (há mais de um narrador, tá?) é descobrir a tradução para as palavras inexplicáveis de Pede, o mendigo simpático e altruísta que habitava as ruas do Centro de BH no final da década de 1970. Uma vez descoberto o significado da fala misteriosa do amigo falecido, o narrador mergulha nos dramas e nos segredos sombrios dos moradores da fazenda Corungaguá. Depois, ele precisará escrever o livro definitivo sobre os taíurús, conforme pedido de Bambuská, a mãe de Pede. E, por fim, como se fosse pouco, terá que sobreviver às investidas dos inimigos de Bambuská e Anastácio Virgilino, proprietário das terras de Corungaguá. Adoro quando o romance apresenta várias camadas narrativas e possui distintos (e complementares) conflitos ao longo dos capítulos. Outra questão que preciso comentar mais a fundo sobre esse romance é a belíssima construção das personagens. Quase todas as principais figuras retratadas na trama são redondas. Apenas uma ou outra pessoa (o protagonista e a vilã, no caso) são planas. A maior complexidade da psicologia e da moral das personagens de “O Homem que Ria Demais” confere nuances saborosos à história e dá margens para as incontáveis surpresas da narrativa. Afinal, ninguém (salvo a antagonista) é totalmente ruim e ninguém (salvo o herói) é totalmente bonzinho aqui. No caso de Pede/Horácio, ele é sim uma personagem plana (quase caricata). Entretanto, o protagonista (para mim, o protagonista é Pede e não Moleque) possui características tão peculiares e tão sensacionais que é difícil criticar sua construção ficcional. Curiosamente, esse mesmo efeito já tinha aparecido em “A Orquestra das Almas”. Iannus Maltiescu é uma figura extremamente plana. Ele não faz nadinha de errado ao longo de quase mil páginas. Mesmo assim, é uma personagem adorável e cativante, além de extremamente verossímil. Aproveitando que estou comparando “O Homem que Ria Demais” com “A Orquestra das Almas”, é legal comentar a diferença de gênero narrativo entre os dois romances. Na minha visão, a primeira obra de Magela de Faria deve ser classificada como um título do realismo fantástico. Já a segunda pode ser encarada como uma publicação fantástica. Digo isso porque temos, em “A Orquestra das Almas”, uma trama real com apenas um elemento fantástico – as conversas dos seres humanos com Sangue Bom e Sister, respectivamente, um morcego e uma ratazana. Portanto, é realismo fantástico (como o próprio nome já diz, algo real com uma pitadinha de sobrenatural). No caso de “O Homem que Ria Demais”, todo o enredo está ancorado em características sobrenaturais do protagonista e de sua família indígena. Ou seja, é uma história fantástica na sua essência (não tem o componente real enraizado na base da narrativa como lá no realismo fantástico). Em relação ao título de “O Homem que Ria Demais”, ele é uma mistura intertextual de “O Homem que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much: 1956), filme memorável de Alfred Hitchcock, e “O Homem que Ri” (Amarilys), clássico de Victor Hugo. Pelo menos eu sempre me lembro dessas obras quando falo/ouço/escrevo o nome do novo livro de Magela de Faria. Só não sei se o autor fez isso de maneira proposital ou involuntária. O que sei é que, por várias vezes, enquanto produzia este post para a coluna Livros – Crítica Literária, escrevi “O Homem que Sabia Demais” e “O Homem que Ri” quando me referia a “O Homem que Ria Demais”. Ainda bem que faço uma rápida revisão textual antes de publicar os posts no Bonas Histórias (acho que tirei todas as menções equivocadas ao nome do segundo romance de Magela). O projeto gráfico dessa publicação ficcional é extremamente caprichoso. “O Homem que Ria Demais” possui uma capa bonita (adorei a ilustração de Délcio Almeida!!!) e uma diagramação interna sensível e impactante (resultado do belo trabalho de Letícia Ribeiro Ianhez). O visual do livro tornou sua leitura ainda mais gostosa. Repare que a ilustração na capa de “O Homem que Ria Demais” lembra bastante as ilustrações das capas dos títulos espíritas – em uma associação direta ao conteúdo fantástico do romance (com muitas passagens de cunho espiritual). Já que estamos falando da equipe que deu apoio ao novo romance de Magela de Faria, preciso elogiar a revisão de Tulio Costa, da Versão Final. Não encontrei nenhum errinho nem qualquer equívoco textual em mais de três centenas de páginas, algo que normalmente surge em romances longos. Se a narrativa do livro já é naturalmente gostosa e encantadora, a revisão impecável do texto dá maior valor às páginas de “O Homem que Ria Demais”. Infelizmente, esse esmero não foi visto em “A Orquestra das Almas”. Pelo menos não considerei o texto da versão em ebook da obra de estreia de Magela tão caprichado. Ele continha muitos errinhos: de palavras repetidas e problemas de digitação até erros gramaticais. Mesmo com vários aspectos elogiosos, “O Homem que Ria Demais” também tem alguns elementos negativos que precisam ser listados em uma análise crítica imparcial (algo que o Bonas Histórias faz sempre!). É verdade que a maioria desses pontos não atrapalha substancialmente a excelência da narrativa ficcional nem prejudica a experiência de leitura. Mesmo assim, teria sido legal se tais pontos tivessem sido trabalhados de um jeito diferente, né? O primeiro componente negativo do livro surge na quarta-capa. No último parágrafo da apresentação de “O Homem que Ria Demais”, temos a seguinte frase: “Uma história inverossímil, mas tão sensível e dinâmica que parece ser baseada em fatos da vida de um de nós”. O problema, na minha opinião, está no uso do termo inverossímil. Por que acusar essa obra de Magela de Faria de atentar contra a realidade, hein?! Só porque se trata de um romance fantástico?!!! Acho isso um preconceito literário (para não dizer uma completa ignorância dos conceitos ficcionais). Do ponto de vista da Teoria Literária, uma narrativa fantástica não é necessariamente inverossímil. Ela só apresenta um tipo de realidade (a tão famosa realidade ficcional) diferente daquela que o leitor tem no dia a dia. Em nenhum momento, “O Homem que Ria Demais” quebra as regras propostas por seu pacto ficcional. Daí minha reticência quanto à expressão “uma história inverossímil”. Se a história não é inverossímil (mesmo com a série de passagens fantásticas), o mesmo não pode ser dito dos discursos e da narrativa em si. Apesar de possuir excelente qualidade textual, os diálogos de “O Homem que Ria Demais” pecam às vezes pela contradição. Ora Bambúska diz que não se apega à cronologia dos virgilinos, ora expressa a passagem do tempo em anos com enorme facilidade. Como isso é possível?! Não sei. A mãe de Pede também conversa em sua língua natal e, pela magia, suas palavras são automaticamente traduzidas na mente do narrador. Até aí beleza. Porém, muitas vezes a indígena não consegue expressar um termo específico ou uma palavra determinada em português. Como isso ocorre se sua fala está sendo automaticamente traduzida, né?! Juro que não entendi. Em alguns momentos específicos, os discursos se tornam ligeiramente artificiais. Tal fato ocorre geralmente quando as conversas ficam excessivamente didáticas e/ou muito descritivas (algo fundamental para a compreensão da trama pelo leitor, mas um aspecto totalmente incompatível com o diálogo normal das pessoas no dia a dia). Por exemplo, em cenas de altíssima tensão dramática ou de falta de tempo, as personagens proseiam com enorme didática e calma, como se fossem possíveis o controle emocional e a necessidade de explicações que elas já conhecem (mas os leitores não). Se pudesse dar um único conselho para Magela de Faria (olha as dicas de melhoria que você pediu, Admilson!), diria para ele trabalhar melhor os diálogos em suas futuras publicações ficcionais. Em “A Orquestra das Almas”, também é possível encontrarmos alguns vacilos nas conversas das personagens, principalmente pela priorização do discurso direto quando o mais pertinente, em alguns casos, seria o uso do discurso indireto ou mesmo do discurso indireto livre. Quando o romance só tem discurso direto, o texto corre o risco de ficar gigantesco, ter passagens repetitivas e se tornar cansativo (ao estilo de “senta que lá vem a história...”). Em relação à inverossimilhança da narrativa, ela se deve fundamentalmente às inovações trazidas por Magela de Faria. Aqui preciso fazer antes uma observação. A maioria dos capítulos de “O Homem que Ria Demais” é narrada em primeira pessoa pelo Moleque. Por isso, o chamei nesta análise crítica de narrador. Porém, há capítulos narrados em terceira pessoa (por um narrador onipresente e onisciente com liberdade para frequentar diferentes cenários e épocas e para acompanhar várias personagens) e em primeira pessoa por Janaína. Vale a pena dizer que essas partes mais alternativas (fora do padrão da narrativa em primeira pessoa feita pelo Moleque) são fundamentais para dar suspense e adrenalina à trama, apesar de prejudicar a qualidade do romance do ponto de vista do Foco Narrativo. Feita tal ressalva, voltemos à questão da inverossimilhança da narrativa. Achei pouco crível quando os narradores em primeira pessoa (Janaína e Moleque) descrevem em tempo real os fatos angustiantes vividos na fazenda Corungaguá. Por mais que esse recurso dê ação e emoção ao texto, nota-se um grande descompasso entre a realidade de testemunhar ao vivo os acontecimentos e o que eles expressam efetivamente na narrativa. Confesso que achei essas partes meio artificiais, meio forçadas. Como proposta experimental, esse expediente literário é válido e interessante. Porém, o resultado prático destoou do restante do livro quando o assunto é verossimilhança. Há sim problemas de Foco Narrativo em “O Homem que Ria Demais” (como também havia em “A Orquestra das Almas”). E eles se devem também às inovações narrativas que comentei nos dois últimos parágrafos. Até entendo que o narrador tenha justificado, nos capítulos finais do romance, que os textos em terceira pessoa foram construídos a partir de conversas posteriores com as personagens que estiveram nas cenas em que ele não esteve presente. Até aí, tudo bem. Quem sou eu para questioná-lo?! O que gera incômodo em quem conhece a Teoria Literária e os aspectos do Foco Narrativo é: e como Moleque teve acesso, então, aos pensamentos e aos sentimentos de personagens que ele não conversou depois, hein? É o caso de Dolores. Em várias passagens em terceira pessoa de “O Homem que Ria Demais”, o narrador tem acesso à mente e à emoção da vilã. E como foi possível isso se Moleque não conversou individualmente com ela?! Juro que não entendi. Além disso, há cenas em que só Dolores esteve presente. Como alguém saberia o que ela fez para contar para o Moleque, hein? Essas inconsistências são sim um problemão de Foco Narrativo, algo que na certa não irá incomodar os leitores recreativos, mas que poderá causar arrepios naqueles que estudam os detalhes da produção literária. Se eu pudesse dar um novo conselho para Magela de Faria (olha a segunda dica aí, Admilson!), diria para ele se atentar aos aspectos técnicos do narrador. A parte final do romance tem um caráter de dramalhão de telenovela mexicana ou de telenovela venezuelana. Também lembra um pouco os escândalos dos programas popularescos de TV, ao melhor estilo teste de DNA do Ratinho ou dos barracos ao vivo de Casos de Família. Em outras palavras, sabe aquela história em que os filhos descobrem paternidades e maternidades diferentes da que acreditavam, incontáveis casos amorosos ruidosos e segredos familiares inimagináveis?! Pois saiba que “O Homem que Ria Demais” tem tudo isso nos últimos capítulos. Se por um lado esse componente torna a trama surpreendente e imprevisível (uma qualidade indiscutível do romance de Magela de Faria), por outro lado tal característica confere tintas estereotipadas e exageradas ao enredo. É preciso alertar que há alguns clichês narrativos em “O Homem que Ria Demais”: disparo de arma de fogo que não sabemos de onde veio (aspecto comum nos romances policiais); descobertas surpreendentes obtidas quase que por acaso (qual thriller investigativo não tem esse componente, né?); grau de parentesco alternativo (como já disse, um elemento fundamental em qualquer telenovela latino-americana); e cegueira surpreendente do protagonista (à lá “Demolidor – O Homem Sem Medo” e “O Livro de Eli”). Agora vem a grande questão: isso me incomodou? Confesso que não. Prefiro um ou outro clichezão dentro de uma história excelente e em um texto maravilhoso do que uma narrativa sem qualquer clichê, mas com uma trama fraca e sem originalidade. Por tudo isso, admito que adorei a leitura de “O Homem que Ria Demais”. E, desde já, fiquei fã da literatura de Magela de Faria. Quando ele publicar os próximos romances, tenham certeza de que estarei na primeira fila da livraria para conhecer seus próximos passos na ficção comercial. Pelo que o autor me confidenciou há algumas semanas, ele está desenvolvendo neste momento sua terceira narrativa longa. O nome provisório do novo/futuro romance é “A Ressurreição dos Ossos”. A ideia de Magela é terminar o texto do livro até o final de 2024. Aí a publicação seria para o ano seguinte. Aguardemos, pessoal. Dessa cartola, tenho certeza de que ainda sairão muitos coelhos interessantes. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em setembro e outubro de 2022

    Confira as 100 principais obras de ficção e de poesia que foram publicadas no Brasil no penúltimo bimestre do ano. Enquanto o país pegava fogo à espera das definições políticas que vão nortear a nação nos próximos quatro anos, o mercado editorial brasileiro seguiu trabalhando. Alguém precisava fazer isso neste cantinho do mundo, né?! Hoje trago ao Bonas Histórias os principais lançamentos que chegaram aos leitores nacionais nos dois últimos meses. Se você só tinha olhos e ouvidos para as questões eleitorais, este é o momento de conferir o que escritores, editoras e livrarias trouxeram de interessante em setembro e outubro de 2022. E saiba que há muita novidade boa no universo da ficção literária e da poesia. Como é tradição da coluna Mercado Editorial, antes de apresentar a lista dos 100 principais lançamentos do último bimestre no Brasil, vou detalhar os títulos que mais me chamaram a atenção. Dessa vez, optei por comentar seis livros nacionais e seis livros estrangeiros. Acredito que essa é uma boa amostragem. Meu recorte equilibrado, contudo, mascara a primazia da literatura internacional sobre a literatura nacional entre as publicações dos dois últimos meses. Afinal, em setembro e outubro, tivemos a publicação de 36 obras nacionais (29 da ficção e 7 da poesia) e 64 obras gringas (63 ficcionais e 1 coleção poética). Para começo de conversa, trago quatro bons romances brasileiros. Na prateleira das figuras conhecidas do público, meus destaques vão para “Deus, o Que Quer de Nós?” (Global), o mais recente trabalho de Ignácio de Loyola Brandão, e “Com Todo o Meu Rancor” (Rocco), o primeiro romance da talentosa Bruna Maia. Já na estante dos autores novatos que estão em busca do reconhecimento da crítica e dos leitores, recomendo “O Velho e o Menino: O Rio” (Cria), narrativa longa de estreia de José Carlos Martins, e “O Coração do Imperador” (Gulliver), o segundo thriller de Guilherme Santos. Quem acompanha o Bonas Histórias (e a coluna Desafio Literário) há muito tempo, sabe que Ignácio de Loyola Brandão é um dos meus escritores brasileiros favoritos. Não por acaso, analisei em agosto de 2015 a literatura de Loyola Brandão. E o mais legal é notar que o autor de “Zero” (Global) e “Não Verás País Nenhum” (Global), clássicos da literatura brasileira, segue na ativa e produzindo excelentes romances. Depois do espetacular (e, por que não, premonitório!) “Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela” (Global), lançado em 2018, agora recebemos “Deus, o Que Quer de Nós?”. Neste novo romance, Ignácio Loyola Brandão segue denunciando as mazelas sociais e políticas do Brasil a partir do cotidiano de pessoas comuns. Na trama de “Deus, o Que Quer de Nós?”, acompanhamos a saga de Evaristo durante uma pandemia que perdura por anos e anos no país. Por sua vez, Bruna Maia é uma destacada cartunista, artista plástica e jornalista gaúcha que faz muito sucesso nas redes sociais. Seus tuítes e quadrinhos bem-humorados sobre feminismo, sexualidade, relacionamentos e política conquistaram milhares de fãs Brasil à fora. Provando que seu talento artístico é ilimitado, Bruna estreia na ficção literária com o ótimo “Com Todo o Meu Rancor”. O que torna esse romance tão interessante é a quebra de expectativas do leitor. Se Ana, a protagonista da trama, se mostra no início desequilibrada, neurótica e violenta, a culpa pode não ser dela e sim dos nossos olhos preconceituosos. Incrível como uma escritora perspicaz pode nos mostrar o quão machista é a sociedade sem recorrer aos velhos estereótipos, às personagens planas e às narrativas convencionais. A dupla de novos escritores brasileiros com bom potencial que gostaria de apresentar aos leitores do Bonas Histórias é formada pelos mineiros José Carlos Martins e Guilherme Santos. José Carlos Martins estreou na ficção literária com “O Velho e o Menino: O Rio”, trama sobre a amizade de um velho vendedor de mel com um menino de rua. Enquanto conversa com o garoto, o idoso fala sobre sua trajetória de vida, detalha suas crenças religiosas e políticas e aborda os causos do pequeno povoado do interior de Minas. Não quero falar muito sobre “O Velho e o Menino: O Rio” porque ainda neste mês vou discuti-lo com mais profundidade na coluna Livros – Crítica Literária. Aguardem! Já Guilherme Santos é especializado em suspense político com pitadas generosas de teoria da conspiração e de influência maçônica. Depois de seu romance de estreia “A Morte do Filho do Rei” (Gulliver), saga de um candidato à presidência da República, agora Guilherme publica “O Coração do Imperador”, seu primeiro romance policial. Para desvendar um chocante assassinato ocorrido em Porto, Portugal, o inspetor Afonso Henriques precisará mergulhar na história imperial brasileira e nos meandros da Maçonaria. Como ainda não acabei a leitura de “O Coração do Imperador” (estou na metade), ainda não tenho data de quando vou comentá-lo na coluna Livros – Crítica Literária. Entretanto, acredito que até o começo do ano que vem eu faça o post sobre essa obra. Para encerrarmos o capítulo da literatura brasileira deste post da coluna Mercado Editorial, trago uma novela e uma coletânea poética. A novela em questão é “O Colapso da Nova Ordem” (Alameda), novo trabalho de B. Kucinski. O autor dos espetaculares “K – Relato de Uma Busca” (Cosac Naify) e “Você Vai Voltar Para Mim e Outros Contos” (Cosac Naify) traz dessa vez a continuação de “A Nova Ordem” (Alameda), publicado em 2019. Dialogando o tempo inteiro com a realidade atroz, “O Colapso da Nova Ordem” é uma distopia em que os militares insistem em se manter no poder. Infelizmente, qualquer semelhança com o panorama real do Brasil atual não é mera coincidência. Por sua vez, a coletânea poética que gostaria de sublinhar é “Sonetos de Birosca e Poemas de Terreiro” (José Olympio), de Luiz Antonio Simas. Ambientado essencialmente na periferia do Rio de Janeiro e calcado na rotina simples de uma pessoa comum, esse livro mostra com rara beleza o dia a dia do poeta carioca. Aí ganham protagonismo o bar, a conversa com os amigos, a cerveja gelada do final de semana, o time de futebol, o jogo do bicho... Ler os versos de Simas é uma delícia. Virando a página, vamos para a literatura estrangeira. Dos seis títulos internacionais que gostaria de comentar com vocês neste bimestre, escolhi três europeus e três norte-americanos. As obras do Velho Continente são: “Dentes” (Todavia), novo romance do italiano Domenico Starnone, “Sátántangó” (Companhia das Letras), clássico do húngaro László Krasznahorkai, e “A Vergonha” (Fósforo), novela da francesa Annie Ernaux. Em “Dentes”, Domenico Starnone apresenta os dramas psicológicos, sentimentais, familiares e profissionais de um homem de meia-idade. A perda de dois dentes em um acidente faz com que o protagonista se lance na busca obstinada por um dentista, enquanto ele questiona sua existência até ali. Publicado na Itália em 1994 (e só agora traduzido para o português brasileiro), “Dentes” é um dos principais livros de Domenico Starnone, escritor napolitano apontado por muita gente como a real identidade da romancista Elena Ferrante. Clássico da literatura húngara, “Sátántangó” é outro título que chega, enfim, para o público brasileiro. Lançado em Budapeste em 1985, o romance de László Krasznahorkai, vencedor do International Man Booker Prize, possui um clima de mistério e pessimismo. A chegada de um forasteiro a uma aldeia do interior da Hungria suscita emoções contraditórias nos habitantes locais. Este é o tipo de livro para leitores atentos, corajosos e que não se incomodam com narrativas por vezes paradas e com longas frases. “A Vergonha” é uma das novelas de Annie Ernaux, francesa que conquistou no mês passado o Prêmio Nobel de Literatura. Demostrando um timing impecável (além de um trabalho editorial de enorme qualidade!!!), a Editora Fósforo está lançando em 2022 os principais livros de Ernaux no Brasil. E na leva de publicações da autora francesa em nosso país, meu destaque vai justamente para “A Vergonha”, um dos mais fortes relatos de Annie Ernaux que misturam passagens autobiográficas com doses de trama ficcional. Do outro lado do Oceano Atlântico, os lançamentos mais interessantes que tivemos em setembro e outubro foram “Conto de Fadas” (Suma), de Stephen King, “Outlander – Diga às Abelhas que Não Estou Mais Aqui” (Arqueiro), de Diana Gabaldon, e “A Casa de Doces” (Intrínseca), de Jennifer Egan. Na minha visão, esse trio de publicações é o que o leitor brasileiro recebeu de mais relevante dos Estados Unidos. O que preciso falar da literatura de Stephen King, hein? Sinceramente, nunca li nada ruim dele. E olha que fiz um Desafio Literário com as principais obras de King. Por causa de tal histórico, “Conto de Fadas” me parece apetitoso. Nessa trama, acompanhamos o drama de Charlie, um garoto de 16 anos abalado por traumas do passado. Os problemas do protagonista se multiplicam quando ele faz amizade com um vizinho estranho. Na casa do vizinho doente há um pastor alemão e uma fita cassete com propriedades mágicas. É o bom e velho enredo de Stephen King que sempre atiça a nossa curiosidade, né? Por sua vez, “Diga às Abelhas que Não Estou Mais Aqui” é o nono romance da série “Outlander”, best-seller de Diana Gabaldon. Curiosamente, citei essa saga e o novo volume da autora americana na semana passada, no terceiro post sobre As Séries da Ficção Literária Internacional que Valem Nossa Leitura. Se você ainda não conhece “Outlander”, você não sabe o que está perdendo. Não é verdade, Debinha?! Diana Gabaldon é uma das melhores escritoras norte-americanas da atualidade e uma romancista histórica de primeira linha. Vale a pena conhecer seu trabalho. Por falar nas minhas autoras favoritas, Jennifer Egan é uma das vozes mais inteligentes e inovadoras da literatura dos Estados Unidos. Sou fã da escritora desde a publicação de “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca), um dos romances mais surpreendentes que li nos últimos anos. Conhecendo a qualidade descomunal do trabalho ficcional de Egan, não duvido da excelência de “A Casa de Doces”, sua mais recente publicação. Lançado originalmente no começo deste ano na América do Norte, o novo livro de Jennifer Egan já ganhou uma tradução para nosso idioma pela Editora Intrínseca. Saiba que tal celeridade não é para qualquer autor nem para qualquer obra ficcional. Acho que é isso. Agora que apresentei os destaques da lista de lançamentos da ficção e da poesia, vamos para a relação completa dos 100 principais títulos que chegaram às livrarias brasileiras no quinto bimestre de 2022. Boa viagem pelo melhor da literatura brasileira e da literatura internacional, senhores e senhoras: FICÇÃO BRASILEIRA: “Deus, o Que Quer de Nós?” (Global) – Ignácio de Loyola Brandão – Romance – 192 páginas. “Com Todo o Meu Rancor” (Rocco) – Bruna Maia – Romance – 240 páginas. “O Velho e o Menino: O Rio” (Cria) – José Carlos Martins – Romance – 240 páginas. “O Coração do Imperador” (Gulliver) – Guilherme Santos – Romance – 246 páginas. “O Último Endereço de Eça de Queiroz” (Companhia das Letras) – Miguel Sanches Neto – Romance – 184 páginas. “Moeda Vencida” (Alfaguara) – Francisco J. C. Dantas – Romance – 192 páginas. “Mesmo Rio” (Record) – Elisama Santos – Romance – 240 páginas. “Agora Agora” (Todavia) – Carlos Eduardo Pereira – Romance – 216 páginas. “Entre as Chamas, Sob a Água” (Labrador) – R. Colini – Romance – 160 páginas. “Em Câmara Lenta” (Carambaia) – Renato Tapajós – Romance – 192 páginas. “Via Ápia” (Companhia das Letras) – Geovani Martins – Romance – 344 páginas. “O Homem que Ria Demais” (Páginas Editora) – Magela de Farias – Romance – 356 páginas. “Trilogia Brasil: Essa Terra; O Cachorro e o Lobo; e Pelo Fundo da Agulha” (Record) – Antônio Torres – Coletânea de Romances – 532 páginas. “O Colapso da Nova Ordem” (Almeida) – B. Kucinski – Novela – 120 páginas. “A Cabeça do Pai” (Todavia) – Denise Sant´Anna – Novela – 80 páginas. “Vila Sapo” (Todavia) – José Falero – Coletânea de Contos – 80 páginas. “O Gato Solteiro e Outros Bichos” (Record) – Carlos Drummond de Andrade – Coletânea de Contos, Crônicas e Poesias – 302 páginas. “Só Prosa” (Companhia das Letras) – Armando Freitas Filho – Coletânea de Crônicas e Memórias – 160 páginas. “Gay de Família” (Paralela) – Felipe Fagundes – Infantojuvenil – 272 páginas. “Romance da Onça Malestrosa” (Labrador) – Carmelo Ribeiro – Infantojuvenil – 160 páginas. “Óculos de Cor – Ver e Não Enxergar” (Companhia das Letrinhas) – Lilia Moritz Schwarcz (autora) e Suzane Lopes (ilustradora) – Infantojuvenil – 144 páginas. “Amanhã” (Pequena Zahar) – Lúcia Hiratsuka – Infantojuvenil – 64 páginas. “Lá Fora” (Companhia das Letrinhas) – André Neves – Infantojuvenil – 64 páginas. “O Círculo – Conversando a Gente se Entende” (Escarlate) – Carolina Nalon – Infantojuvenil – 56 páginas. “Cocarzinho Amarelo” (Globinho) – Yaguarê Yamã (autor) e Uziel Guaynê (ilustrador) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Djarama” (Globinho) – Eliseu Banori (autor) e Luyse Costa (ilustradora) – Infantojuvenil – 40 páginas. “O Viajante” (Rocquinho) – Caulos – Infantojuvenil – 36 páginas. “Os Óculos do Lucas” (Brinque-Book) – Bel Tatit e Natalia Timerman (autoras) e Veridiana Scarpelli (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Cachorrinha Chamada Calça” (Labrador) – Liège de Oliveira Cypriano – Infantojuvenil – 16 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Dentes” (Todavia) – Domenico Starnone (Itállia) – Romance – 176 páginas. “Conto de Fadas” (Suma) – Stephen King (Estados Unidos) – Romance – 624 páginas. “Outlander – Diga às Abelhas que Não Estou Mais Aqui” (Arqueiro) – Diana Gabaldon (Estados Unidos) – Romance – 1.056 páginas. “Sátántangó” (Companhia das Letras) – László Krasznahorkai (Hungria) – Romance – 232 páginas. “A Casa de Doces” (Intrínseca) – Jennifer Egan (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “O Caso Alaska Sanders” (Intrínseca) – Joël Dicker (Suíça) – Romance – 512 páginas. “As Vitoriosas” (Intrínseca) – Laetitia Colombani (França) – Romance – 224 páginas. “Confiança” (Intrínseca) – Hernan Diaz (Argentina) – Romance – 416 páginas. “A Abadia de Northanger” (Penguin-Companhia) – Jane Austen (Inglaterra) – Romance – 304 páginas. “O Amor Não Morreu” (Intrínseca) – Ashley Poston (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “A Cidade e a Casa” (Companhia das Letras) – Natalia Ginzburg (Itália) – Romance – 304 páginas. “Lições (Companhia das Letras) – Ian McEwan (Inglaterra) – Romance – 568 páginas. “De Passagem” (Penguin-Companhia) – Nella Larsen (Estados Unidos) – Romance – 168 páginas. “O Evangelho do Novo Mundo” (Rosa dos Tempos) – Maryse Condé (França) – Romance – 294 páginas. “Carrie Soto Está de Volta” (Paralela) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Greenwich Park” (Record) – Katherine Faulkner (Inglaterra) – Romance – 448 páginas. “Memórias do Subsolo” (Todavia) – Fiódor Dostoévski (Rússia) – Romance – 200 páginas. “O que o Vento Sussurra” (Verus) – Amy Harmon (Estados Unidos) – Romance – 378 páginas. “Amanhã, Amanhã, e Ainda Outro Amanhã” (Rocco) – Gabrielle Zevin (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “Boa Garota, Segredo Mortal – Volume II do Manual de Assassinato para Boas Garotas” (Intrínseca) – Holly Jackson (Inglaterra) – Romance – 432 páginas. “Desenhos Ocultos” (Intrínseca) – Jason Rekulak (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Ana Karenina” (José Olympio) – Liev Tolstói (Rússia) – Romance – 770 páginas. “Ao Paraíso” (Companhia das Letras) – Hanya Yanagihara (Estados Unidos) – Romance – 720 páginas. “O Mistério das Irmãs Hollow” (Galera) – Krystal Sutherland (Austrália) – Romance – 280 páginas. “O Primeiro a Morrer no Final” (Intrínseca) – Adam Silvera (Estados Unidos) – Romance – 544 páginas. “Abraço Apertado” (Todavia) – Émile Ajar/Romain Gary (Lituânia) – Romance – 224 páginas. “Através de Você – Volume II de Os Irmãos Hidalgo” (Intrínseca) – Ariana Godoy (Venezuela) – Romance – 336 páginas. “Áureo” (Rocco) – Marissa Meyer (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “O Perfume” (Record) – Patrick Süskind (Alemanha) – Romance – 266 páginas. “Um Duque À Paisana” (Arqueiro) – Sabrina Jeffries (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “A Caçada Real” (Arqueiro) – Rhys Bowen (Inglaterra) – Romance – 272 páginas. “As Vantagens de Ser Invisível” (Rocco) – Stephen Chbosky (Estados Unidos) – Romance – 288 páginas. “A Cidade das Feras – Volume I de As Aventuras da Águia e do Jaguar” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – Romance – 308 páginas. “O Reino do Dragão de Ouro – Volume II de As Aventuras da Águia e do Jaguar” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – Romance – 322 páginas. “Quatro Casamentos e Uma Moeda da Sorte” (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Mentiras Perdoáveis” (Arqueiro) – Jacqueline Winspear (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Amor à Luz do Dia” (Verus) – Laura Kaye (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “A Luz Através da Janela” (Arqueiro) – Lucinda Riley (Irlanda) – Romance – 448 páginas. “O Litoral das Sirtes” (Carambaia) – Julien Gracq (França) – Romance – 304 páginas. “Tudo Pode Mudar” (Arqueiro) – Jil Mansell (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “A Vergonha” (Fósforo) – Annie Ernaux (França) – Novela – 88 páginas. “As Primas” (Fósforo) – Aurora Venturini (Argentina) – Novela – 160 páginas. “Amor na Escuridão” (Verus) – Laura Kaye (Estados Unidos) – Novela – 112 páginas. “Xis e Outras Histórias” (Carambaia) – Ievguêni Zamiátion (Rússia) – Coletânea de Novelas – 328 páginas. “Disque T Para Titias” (Intrínseca) – Jesse Q. Sutanto (Indonésia/Singapura/Inglaterra) – Coletânea de Crônicas – 352 páginas. “Destruidor de Espadas” (Seguinte) – Victoria Aveyard (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 560 páginas. “A Aposta Final” (Alt) – Jennifer Lynn Barnes (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 448 páginas. “A Noite Passada no Telegraph Club” (Verus) – Malinda Lo (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 420 páginas. “Nada a Declarar” (Galera) – Karen M. McManus (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 416 páginas. “Livro da Noite” (Galera) – Holly Black (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 364 páginas. “Delilah Green Não Está Nem Aí” (Arqueiro) – Ashley Herring Blake (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Estupidamente Apaixonados” (Arqueiro) – Lyssa Kay Adams (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Uma Magia Destilada em Veneno – Volume I de Os Livros do Chá” (Galera) – Judy I. Lin (Taiwan/Canadá) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Um Drama de Verão” (Alt) – Susan Lee (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Vê Se Cresce, Eve Brown” (Paralela) – Talia Hibbert (Inglaterra) – Infantojuvenil – 296 páginas. “A Lista de Convidados” (Paralela) – Rebecca Serle (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Já Disse que Sinto Sua Falta?” (Arqueiro) – Estelle Maskame (Escócia) – Infantojuvenil – 288 páginas. “A Garota do Mar” (Galera) – Molly Knox Ostertag (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “O Peixe Mágico” (Galera) – Trung Le Nguyen (Vietnã/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 256 páginas. “O Homem-Cão – Mamãe dos Ventos Uivantes” (Companhia das Letrinhas) – Dav Pilkey (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Somos Uma Família” (Rocco Digital) – Lebron James (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 208 páginas. “Pequenino na Cidade” (Pequena Zahar) – Sydney Smith (Canadá) – Infantojuvenil – 48 páginas. “A Arca do Coala” (Brinque-Book) – Stephen Michael King (Austrália) – Infantojuvenil – 36 páginas. “A Pele que Eu Tenho” (Boitempo) – bell hooks (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 36 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Sonetos de Birosca e Poemas de Terreiro” (José Olympio) – Luiz Antonio Simas – 120 páginas. “Quero-Quero na Várzea” (Todavia) – Sylvio Fraga – 80 páginas. “Pincelando Palavras” (Labrador) – Celine Hallak – 176 páginas. “Gramática Expositiva do Chão” (Alfaguara) – Manoel de Barros – 88 páginas. “A Rosa do Povo” (Record) – Carlos Drummond de Andrade – 240 páginas. “As Impurezas do Branco” (Record) – Carlos Drummond de Andrade – 180 páginas. “Quando É Dia de Futebol” (Record) – Carlos Drummond de Andrade – 232 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Poesia Completa de Ricardo Reis” (Companhia das Letras) – Fernando Pessoa (Portugal) – 256 páginas. Em janeiro de 2023, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar os lançamentos do sexto e último bimestre de 2022. Até lá, continue acompanhando as novidades literárias do Bonas Histórias. Afinal, enquanto o mundo gira e o tempo corre, a gente lê. Fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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  • Celebrações: Bonas Histórias - 100 meses de publicação do blog

    Lançado em dezembro de 2014 e considerado atualmente um dos principais sites de literatura, cultura e entretenimento do Brasil, o Bonas Histórias alcança uma marca centenária em março de 2023. Onde você estava e o que fazia a exatamente cem meses atrás, hein? Não, esse não é o começo de um romance policial, não estamos em uma investigação criminal e não padeço de voyerismo. Portanto, muita calma nessa hora! A interrogação é só curiosidade mesmo da minha parte (e uma estratégia dialética para se começar um novo post da coluna Premiações e Celebrações). Pense um pouco na minha pergunta, tá? Eu disse cem (100) meses!!! Sei que a resposta pode parecer um tanto difícil no primeiro momento, principalmente para quem não está acostumado(a) à marcação do tempo dessa maneira (que Paulo Sousa chamaria com certeza de calendário centumenses). Porém, com o acesso perspicaz aos arquivos recôncavos da memória, talvez você consiga se lembrar. E aí, descobriu? O que meu/minha estimado(a) leitor(a) fazia de bom há cem meses?! No meu caso, eu me lembro muitíssimo bem o que estava aprontando. Em dezembro de 2014 (não precisa ficar fazendo contas pois já dou a cola: uma centena de meses atrás desemboca na folhinha de dezembro do calendário de 2014), eu ainda morava em Minas Gerais (na verdade, mantinha um pé por lá e já colocava o outro de volta a São Paulo) e queria ingressar de cabeça no mundo da literatura. A literatura era uma paixão antiga (que sempre mexe com a gente, é tão difícil esquecer. Basta um encontro por acaso e pronto! Começa tudo outra vez...). Daí surgiu na minha cachola a ideia de criar (e, por consequência, manter) um blog literário. Como sei que nem todo mundo curte livros com a mesma devoção que a minha pessoa, resolvi estender um pouco mais o leque temático da então novíssima empreitada. Pitadas generosas de cinema, música, teatro, dança, exposição, gastronomia e passeio/turismo foram acrescentadas à receita blogueira. E foi o que fiz lá atrás (há exatos cem meses). Assim, nascia há oito anos e três meses (em uma cronologia mais popular, mas menos impactante do que a agenda centumense – abraço, Paulo!) o Bonas Histórias, o blog de literatura, cultura e entretenimento que temos hoje. Se você está no meio dessas mal traçadas linhas, meu amor, acho que não preciso detalhar do que estou me referindo, né? O mais curioso é perceber que desde então faço postagens regulares com análises de obras artístico-culturais. Há uma centena de meses (eu disse 100 meses!!!), um dos meus trabalhos diários é alimentar o conteúdo do blog. Nesse período (que confesso ter passado em um piscar de olhos), já foram mais de 1.300 posts publicados no Bonas Histórias. Isso é, se não me perdi nas contas – algo bastante comum de acontecer para alguém do universo das letras... Se nos primeiros anos priorizávamos a quantidade de análises (eram 15 a 16 posts por mês, com uma média de 2 a 3 laudas em cada um), nos últimos anos enfocamos mais a qualidade (são agora de 5 a 6 posts mensais, com pelo menos 10 laudas em cada texto). Em outras palavras, aumentamos a produção total de conteúdo: são menos posts, mas eles são mais extensos e completos. Nosso lema é: fazer análises definitivas, aprofundadas e originais dos temas tratados. Acho que estamos conseguindo. Pelo menos os feedbacks recebidos têm sido os mais satisfatórios possíveis. E aí, valeu a pena? Caso essa seja a sua pergunta, respondo sem titubear: siiiiiiiiiiiiiiim! Atualmente, o Bonas Histórias é um dos principais blogs de literatura, cultura e entretenimento do nosso país e em língua portuguesa. Se ele já não tiver assumido a primeira posição (algo que acredito ter ocorrido no meio do ano passado – não disponho das informações mais recentes da concorrência), ele está no pior dos mundos no top 3 dos blogs literários, culturais e de artes. Obviamente, meu parâmetro é o número de acessos tanto no Brasil quanto entre os internautas lusófonos. Afinal, estamos falando de 20 mil a 30 mil visitantes mensais no Bonas Histórias. Você conhece outro blog (site estritamente textual) em nosso idioma e/ou no nosso país que aborde temas da seara artístico-cultural com tais indicadores? Admito que eu só tenho ciência de um ou de dois que aparentemente se aproximam dessa marca (contudo, não coloco minhas mãozinhas no fogo por ninguém). A previsão é que alcancemos até dezembro de 2023 a marca de 40 mil a 60 mil usuários únicos por mês. Utilizo como referência os números do Google Analytics (que por eles, eu coloco sim as mãozinhas na brasa quente). A tendência é dobrarmos a audiência do Bonas Histórias deste ano em relação ao ano anterior. Algo que já fizemos, vale ressaltar, com os indicadores de 2022 quando comparados aos dados de 2021. De 2021 para 2020, o crescimento do número de visitantes foi ainda maior: na casa de três vezes mais. E essas marcas quantitativas foram/são/serão conseguidas única e exclusivamente de maneira orgânica (diferentemente da nossa concorrência, que é chegadinha em links patrocinados). Obrigado, Deus SEO! Obrigado, sistemas de busca! Obrigado, Tio Google. Em outras palavras, se ainda não formos o líder de audiência no segmento, seremos em poucos meses. É até interessante dizer que muita gente não enxerga o Bonas Histórias hoje em dia como um simples blog. O que mais ouço são frases como: (1) pela quantidade de material disponível, ele é na verdade um portal de notícias da área cultural; (2) com a qualidade das análises postadas, o Bonas Histórias é no caso uma revista digital de artes; e (3) ele é o UOL da literatura. Juro que já ouvi tais afirmações (que entendo serem elogios). Concordo com todas essas opiniões. E juro que não sei qual comentário eu mais gosto de ouvir. Para ser sincero, só mantenho a classificação de blog (por mais ultrapassado que possa parecer esse termo no comecinho da terceira década do século XXI) porque gosto de ver o Bonas Histórias como um pequeno filhotinho que coloquei no mundo e que continua pequeno e indefeso. A culpa, nesse caso, é da paternidade, entidade que teima em não ver que a sua cria cresceu e se tornou adulta. Fazer o quê? Não dá para brigar com a psique humana (ainda mais vinda de um pai coruja, neurótico, inseguro e atuante). Antes que você espere mais deste post da coluna Premiações e Celebrações, preciso alertar que ele só foi feito para comemorarmos a nova efeméride do blog (blog sim, com muito orgulho!!!). Se em dezembro de 2014 festejei o lançamento do Bonas Histórias, em dezembro de 2015 soltei fogos pela conquista de seu primeiro aniversário. Aí depois da sequência de alguns aniversários, em dezembro de 2019 a celebração foi pela chegada do quinto ano de vida do site. Pouco tempo mais tarde, em junho de 2020, a alegria era pelo alcance dos 1.000 posts publicados. E mais recentemente, em dezembro de 2022, o festejo foi pelos recordes alcançados pelo blog em seu oitavo aniversário. E agora, a celebração é pela marca de 100 meses de existência do Bonas Histórias. Nada mal para um projeto que começou por acaso e de forma beeeeem despretensiosa, né? Atualmente, o Bonas Histórias possui 19 colunas. São sete as seções sobre literatura, a essência do blog: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas e Mercado Editorial. O conteúdo literário é responsável pela metade das visualizações do site. Outras partes relevantes e populares do blog que abrangem os demais assuntos artístico-culturais são: Cinema, Músicas, Teatro, Dança, Exposições, Gastronomia e Passeios. Essas sete colunas multitemáticas são responsáveis por basicamente a outra metade de acessos ao Bonas Histórias, o que indica o gosto versátil dos nossos visitantes. As cinco seções complementares do site são: TV, Rádio e Internet, Cursos e Eventos, Premiações e Celebrações, Melhores Músicas Ruins e Recomendações. Admito que esse quinteto é pouco visitado. Quando falo pouco, põe pouco nisso!!! Para encerrar este balanço mais recente sobre o Bonas Histórias, informo que, entre janeiro e junho de 2023, temos quatro parceiros comerciais que estampam suas marcas no site. Nossos patrocinadores atuais são: Epifania Comunicação Integrada, agência/consultoria de Marketing e Publicidade; Dança & Expressão, tradicional escola de dança do bairro de Perdizes, em São Paulo; Mandarina, livraria de rua diferenciada do bairro de Pinheiros, na capital paulista; e Eduardo Villela, o principal book advisor brasileiro há alguns anos. Agradecemos a tais marcas e profissionais pelo apoio e pela parceria de longa data. Sem eles, na certa o blog não teria a força e o alcance que tem hoje. Valeu, pessoal! Essa é a pequena história da nossa longa caminhada. A estrada até pode ter muitas pedras, incontáveis buracos e desmedidos perigos. Mesmo assim, preciso reconhecer que o trajeto pelo caminho da literatura, da cultura e do entretenimento é sempre encantador, enriquecedor e desafiador. Se houver alguma outra dor, tenho certeza de que ela desaparecerá na primeira curva da vida e sumirá da memória dos mais corajosos viajantes. Pelo visto, ainda temos muito a percorrer nos próximos anos. Quando piscarmos, já será hora de comemorarmos os 10 anos de vida do blog e de festejarmos os 2.000 posts publicados. Não há dúvida que essas efemérides ganharão destaques aqui na coluna Premiações e Celebrações. Ou você acha que eu vou perder a oportunidade de gritar aos quatro ventos as novas façanhas do meu pequeno e lindo filhotinho digital, hein? Espero que você continue conosco por essas páginas por muito tempo ainda. Afinal, nada disso existiria e/ou prosseguiria se não tivéssemos a sua presença (e a dos demais amigos leitores) do outro lado da tela, né? Obrigado pela sua companhia, por sua leitura e por sua torcida! É com vocês e para vocês que o Bonas Histórias irá continuar sendo feito e desenvolvido. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Filmes: M3gan - A eletrizante ficção científica de Gerard Johnstone

    Lançado nos cinemas brasileiros na segunda metade de janeiro, esse longa-metragem apresenta a história aterrorizante de uma boneca assassina que é guiada pela Inteligência Artificial. As últimas semanas de janeiro e as primeiras semanas de fevereiro costumam reservar ótimas opções para quem visita as salas de cinema. Afinal, temos à disposição, neste período, boa parte das produções que concorrem ao Oscar. Às vezes, é até difícil escolher o que assistir tamanha é a variedade de ótimos longas-metragens em cartaz. Em 2023 não foi diferente. O mais legal é que neste ano os cinéfilos brasileiros tiveram uma vantagem extra: a Semana do Cinema. Na nova edição do evento organizado pela Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (FENEEC) e apoiado pela Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadores de Multiplex (ABRAPLEX), os ingressos das principais redes (Cinemark, Espaço Itaú de Cinema, Petra Belas Artes, Kinoplex, Playarte, Cinesystem, Arteplex, Cineart e Cinépolis) saíam pelo valor fixo de R$ 10,00. A promoção da Semana do Cinema durou de 9 a 14 de fevereiro. Não preciso dizer que visitei diariamente as salas de cinema de quinta-feira da semana passada até ontem, né? Acabei frequentando o Cinemark do Tietê Shopping (o mais pertinho de casa) e o Espaço Itaú de Cinema do Bourbon Shopping Pompeia (aquele com o melhor cardápio do evento na cidade de São Paulo). E o que vi de bom nos últimos dias, hein?! Confesso que fiquei encantado com “Os Banshees de Inisherin” (The Banshees of Inisherin: 2022), filme do britânico Martin McDonagh que é ambientado na Irlanda. Essa produção é, desde já, a minha favorita para angariar uma infinidade de estatuetas na cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles em 12 de março. Não ficarei nem um pouco surpreso se essa memorável comédia dramática (“Os Banshees de Inisherin” começa como uma comédia singela para se transformar em um terror psicológico dos mais intensos) levar para a casa a maioria dos prêmios das categorias de interpretação: melhor ator (Colin Farrell), melhor ator coadjuvante (Brendan Gleeson) e melhor atriz coadjuvante (Kerry Condon). Também acredito que o longa-metragem anglo-irlandês poderá voltar com a estatueta de melhor direção (McDonagh), melhor roteiro original (McDonagh) e melhor filme da temporada. Pelo menos essas são as minhas apostas para o Oscar 2023. Por que estou falando isso? Porque há muito tempo não via um filme que aliasse um roteiro tão inteligente com um elenco tão capacitado. Além disso, “Os Banshees de Inisherin” consegue proporcionar uma variedade de sentimentos contraditórios na plateia. É impossível ficarmos indiferentes ao seu conteúdo e ao seu conflito de tirar o fôlego. Se você ficou curioso(a) para conhecer em detalhes essa produção, não se desespere. No mês que vem eu irei comentá-la em profundidade aqui no Bonas Histórias. Quero fazer um post sobre esse longa-metragem antes da cerimônia do Oscar. Aí ninguém poderá dizer que só analisei a obra-prima de Martin McDonagh porque ela ganhou o Oscar na categoria de melhor filme. Também fiquei impressionado positivamente com “Tár” (2022), drama de Todd Field. Esse título é tão fidedigno, mas tão fidedigno que até parece uma cinebiografia. Porém, não caia nas armadilhas das aparências. O longa não retrata uma história real. Ele é apenas (apenas?!) uma ficção da melhor qualidade. Só (só?!) isso. Por falar nas estatuetas de interpretação, me parece barbada o Oscar de melhor atriz ir para o espetacular desempenho de Cate Blanchett. Nicole Kidman e Margot Robbie que me desculpem (vocês sabem que eu amo vocês!), mas não há atriz australiana melhor do que Blanchett na atualidade. Ela dá um verdadeiro show de interpretação em “Tár” e potencializa o já ótimo enredo do longa-metragem de Field. Vale a pena conferi-los (o filme e o trabalho da atriz). A decepção ficou por conta de “Babilônia” (Babylon: 2022), drama histórico de Damien Chazelle. O novo filme do diretor de “Whiplash – Em Busca da Perfeição” (Whiplash: 2014) e “La La Land – Cantando Estações” (La La Land: 2016) não é ruim, não. Se você é um(a) cinéfilo(a) inveterado(a) como eu, na certa irá curtir as confusões semibiográficas que rolavam no início do século XX nos bastidores da indústria do cinema dos Estados Unidos. Além de ter uma trama interessante, “Babilônia” traz um elenco estrelar. Brad Pitt e Margot Robbie estão em ótima forma e seguram a bomba em uma trama exigente. O problema, na minha visão, é que esse longa-metragem está aquém das outras produções de Chazelle que comentamos aqui na coluna Cinema. Para mim, “Whiplash – Em Busca da Perfeição” e “La La Land – Cantando Estações”, por exemplo, são muito melhores do que “Babilônia” (e foram realizados com orçamentos mais modestos). Admito que esperava mais dessa superprodução e do trabalho de Damien Chazelle, um dos meus diretores favoritos. Infelizmente saí da sala de cinema com uma ponta de frustração e com algumas dores nas costas com as mais de três horas de sessão. Ficar velho não é fácil, meus amigos e minhas amigas. Contudo, da perspectiva da edição de fevereiro de 2023 da Semana do Cinema, o filme que achei mais apropriado para ser comentado com vocês, hoje, no Bonas Histórias é outro. Ufa! Enfim cheguei ao assunto principal deste post da coluna Cinema. Minhas introduções estão assustadoramente maiores a cada semana. Ai, ai, ai. Estou desviando do tema do post de novo. Foco, Ricardinho. Foco, meu rapaz! Você consegue terminar essa análise com o mínimo de dignidade. Reconheço que o longa-metragem escolhido para este debate (viu, retornei para o assunto novamente!) está distante de concorrer às principais estatuetas do Oscar (sequer teve uma única indicação à premiação de março). Mesmo assim, creio que essa produção tem a capacidade de entreter a plateia com uma história mais ou menos original, cenas eletrizantes, ótimas personagens e um conflito extremamente atual. Estou me referindo, claro, a “M3gan” (2022), o novo longa-metragem do neozelandês Gerard Johnstone que chegou aos cinemas brasileiros na segunda metade de janeiro. Justamente no instante em que assistimos ao impacto do lançamento comercial e/ou do uso mais disseminado de ferramentas como Dall-E e do ChatGPT, conferir uma ficção científica que trata dos perigos da Inteligência Artificial é tarefa providencial. Orçado em US$ 12 milhões, “M3gan” foi roteirizado pela norte-americana Akela Cooper, mais conhecida pelos trabalhos nas séries de televisão. Cooper usou como base para seu roteiro uma trama que escreveu em conjunto com o malaio James Wan, figurinha carimbada nas produções cinematográficas de terror nos últimos anos. Celebrado pela série “Annabelle”, Wan é um dos produtores aqui, ao lado de Jason Blum. É importante dizer que “M3gan” foi o segundo longa-metragem dirigido pelo jovem Gerard Johnstone, que atua mais comumente como roteirista e diretor de séries de TV. Seus trabalhos televisivos de maior destaque até aqui foram “The New Legends of Monkey” (2018), “Terry Teo” (2016) e “The Jaquie Brown Diaries” (2008 e 2009). Nas telonas, a estreia de Johnstone na direção se deu com “Housebound” (2014), filme neozelandês de terror. No elenco principal de “M3gan”, temos Amie Donald, Jenna Davis, ambas estreantes no cinema comercial, Allison Williams, de “Corra!” (Get Out: 2017), e Violet McGraw, de “Doutor Sono” (Doctor Sleep: 2019). Na equipe de apoio, o filme de Gerard Johnstone ainda traz os atores Ronny Chieng, Brian Jordan Alvares e Stephane Garneau-Monten e as atrizes Jen Van Epps e Lori Dungey. Gravado entre junho e agosto de 2021 em Los Angeles, nos Estados Unidos, e em Auckland, na Nova Zelândia, “M3gan” ainda teve no pós-produção a inserção de efeitos especiais. O uso da tecnologia se deu para que a boneca que protagoniza o longa-metragem tivesse a mescla ideal de parecer um brinquedo em alguns momentos e de emular o comportamento de uma criança real em outros momentos. O resultado, admito, ficou espetacular, ainda mais para uma produção com um orçamento limitado (para os padrões de Hollywood)! Lançado em 6 de janeiro nos cinemas norte-americanos e canadenses (e duas semanas depois no restante do planeta), “M3gan” surpreendeu positivamente a crítica cinematográfica. A imprensa especializada rasgou elogios à mistura bem azeitada de ficção científica e trama de terror. A resposta dos espectadores também foi satisfatória. O filme angariou ótima bilheteria tanto na América do Norte quanto nas praças do exterior desde a primeira semana em cartaz. Só no primeiro dia nos cinemas dos Estados Unidos e Canadá, “M3gan” arrecadou surpreendentes US$ 11 milhões e terminou a semana de estreia na segunda posição – atrás apenas de “Avatar – O Caminho da Água” (Avatar – The Way of Water: 2022). Algo que ajudou bastante na divulgação do longa-metragem foram as cenas da boneca assassina dançando ao som de “Dolls”, música de Bella Poarch, e “Walk the Night”, canção de Skatt Brothers. As dancinhas da menina-robô viralizaram nas redes sociais, principalmente no TikTok, e foram parodiadas pelo público antes mesmo do filme chegar às telonas. Até meados de fevereiro, para termos uma ideia de seu êxito comercial, “M3gan” se aproximava da belíssima marca de US$ 170 milhões obtidos exclusivamente com a venda de ingressos (aproximadamente US$ 90 milhões nos Estados Unidos e Canadá e cerca de US$ 75 milhões nos demais países). Nada mal para uma produção que custou um décimo desse valor, né? O enredo de “M3gan” começa com a viagem de carro da família de Cady (interpretada por Violet McGraw), uma menina de aproximadamente dez anos e filha única, para as montanhas nevadas. Os pais da garotinha querem que ela conheça a neve e passe algumas horas ao ar livre. Contudo, durante o trajeto pela estrada, uma forte nevasca encobre a visão dos viajantes e um caminhão de limpeza de neve acerta violentamente o veículo onde Cady e seus parentes estão. Os adultos morrem na hora e a menina sobrevive por sorte. Como os avós da agora órfã moram na outra parte do país, Cady é enviada, assim que deixa o hospital, para os cuidados da Tia Gemma (Allison Williams), a pessoa mais próxima tanto em parentesco quanto em geografia. O problema é que Gemma não esperava cuidar de uma criança após a tragédia ocorrida com a irmã e o cunhado. Na verdade, ela não está preparada para conviver com a sobrinha e com nenhum outro ser humano na mesma residência. Workaholic, solitária e pouquíssimo comunicativa fora do ambiente de trabalho, a moça é uma graduada executiva de uma das maiores empresas de brinquedo dos Estados Unidos. Sua função é desenvolver bonecas e bonecos robóticos que a meninada ame e queira comprar custe o que custar. E como roboticista, vale a menção, Gemma é uma profissional genial. Depois de emplacar um dos mais incríveis sucessos mercadológicos do universo infantil dos últimos anos, a executiva tem como próximo projeto a criação de um robô chamado M3gan, acrônimo de Model 3 Generation Android. A proposta da M3gan é ser uma mistura de melhor amiga das crianças e babá cuidadora. Com o robozinho por perto, os pais não precisarão mais se preocupar em ficar o tempo inteiro de olho na criançada. Atire a primeira pedra quem nunca sonhou com um produto desse tipo, hein?! A boneca com traços humanos e guiada pela Inteligência Artificial se encarrega de tudo para que os adultos tenham momentos de tranquilidade e paz no lar. E M3gan ainda tem a capacidade para entreter a meninada de uma maneira lúdica, divertida e segura. Se você conhece um brinquedo melhor do que esse, me avise, por favor, porque eu desconheço! Pressionada pelo chefão da multinacional em que trabalha (Ronny Chieng) a lançar mais uma grande novidade e angustiada por não ter tempo e paciência para cuidar da sobrinha, Gemma tem uma ideia aparentemente perfeita. A solução para seus problemas profissionais e domésticos está ali do lado. E se ela levasse para casa um protótipo de M3gan para que Cady testasse?! Assim, a tia poderia ver na prática o desenvolvimento de seu novo robô e, para completar, não precisaria mais se preocupar com a educação e os cuidados da pequena hóspede (ou seria a mais nova moradora de sua casa?!). Com tal tacada de mestre, a executiva mata dois coelhos com uma cajadada só (eita expressão mais politicamente incorreta, meu Deus!). E, assim, Cady conhece M3gan (interpretada por Amie Donald e dublada por Jenna Davis). Carente de afeto e de atenção, a menina rapidamente adora o presente que a tia lhe oferece (com segundas e terceiras intenções, claro!). Em pouco tempo, Cady e M3gan se tornam melhores amigas e não conseguem mais ficar separadas um segundo sequer. Além disso, a robozinha, que tem o tamanho, a fisionomia e os trejeitos hiper-realistas de uma garota de verdade, consegue resultados inacreditáveis logo de cara quando o assunto é educação infantil. Basta uma palavra de M3gan para que Cady a obedeça instantaneamente. Empolgadíssima com os resultados iniciais do protótipo de sua invenção, que tem potencial revolucionário no mercado mundial de brinquedos, Gemma sente-se segura para deixar a sobrinha em casa sob os cuidados do robozinho e voltar a mergulhar no trabalho. O objetivo da ambiciosa executiva é terminar o quanto antes a versão definitiva e comercial de M3gan e lançá-la para os consumidores finais. Não é preciso dizer que o chefão da companhia está encantado com a chance de faturar uma pequena fortuna com o novo invento de sua talentosa projetista. De repente, tudo está perfeito outra vez na rotina de Gemma. O problema (ou você achou que não teríamos um conflito aqui?!) é que, pouco a pouco, M3gan começa a sair do controle. Conforme as instruções programadas por Gemma, a boneca humanoide tem a missão de proteger Cady física e emocionalmente e não a deixar sozinha. E guiada pelos avançados recursos da Inteligência Artificial e por uma forte proximidade/sincronia com a sua proprietária mirim, M3gan irá fazer qualquer coisa para que a sobrinha de Gemma não sofra nenhum tipo de frustração nem entre em perigo iminente. Você reparou no que eu disse na frase anterior: a boneca-robô fará qualquer coisa para proteger Cady. Qualquer coisa!!! Ao enxergar inimigos em todos os lugares, o robozinho se tornará violento, possessivo e extremamente ciumento, tal qual uma pessoa com distúrbios de psicopatia. Aí nada e ninguém poderão impedi-lo de ficar ao lado de sua melhor amiguinha, como se ele fosse um soldado sanguinário. A partir desse ponto do filme, temos uma trama de terror psicológico das mais interessantes e movimentadas. Quando uma tecnologia avançada sai do controle, nós todos sabemos o quanto de dor de cabeça ela poderá trazer para a sociedade. E eu reclamando da queda eventual da Internet ou do travamento ocasional do meu notebook... No caso específico do enredo deste longa-metragem, a destemperada M3gan se transforma em um boneco com instintos assassinos, capaz de atentar contra a vida dos funcionários da empresa de Gemma e, principalmente, da família da roboticista. Incrível, não? Com duração aproximada de uma hora e quarenta minutos, “M3gan” pode ser descrito como uma das surpresas positivas do cinema norte-americano nesse comecinho de ano. O filme de Gerard Johnstone não conquistará, como já disse no início deste post da coluna Cinema, as principais premiações da sétima arte e de Hollywood. Acredito que nem seja essa a sua real pretensão. Todavia, ele tem o poder de agradar em cheio quem procura um entretenimento inteligente, uma produção bem-feita e uma narrativa cinematográfica saborosa. Ou seja, é o título ideal para levar uma multidão às salas de cinema no primeiro trimestre de 2023. Se esse também é o seu desejo, aconchegue-se na poltrona porque você está na sessão certa. Vamos analisar com mais detalhes, no Bonas Histórias, essa encantadora e astuta produção de Johnstone. Para começo de conversa (conversa analítica, tá?), “M3gan” tem um roteiro redondo, redondinho. Sua narrativa não tem qualquer falha aparente (eu pelo menos não achei!) e as peças do enredo se ajustam perfeitamente entre si. Essa característica fica mais evidente na metade final do longa-metragem, quando surpresas e novidades pertinentes à trama surgem e conseguem empolgar a plateia. É muito legal acompanhar um roteiro coeso e perspicaz do início ao fim. Exatamente por isso, precisamos tirar o chapéu para o trabalho espetacular de Akela Cooper neste filme. A roteirista norte-americana transformou uma boa história ficcional em um excelente enredo cinematográfico. É claro que a direção impecável de Gerard Johnstone ajudou a potencializar a produção para um nível elevado de excelência. Acho importante destacar que o conflito do longa-metragem se dá porque M3gan é ainda um protótipo. E a boneca-robô não foi configurada com as leis da robótica que Isaac Newton imortalizou tão brilhantemente na ficção. Quem leu “Eu, Robô” (Editora Aleph) sabe o que estou dizendo. A primeira regra que o autor clássico da ficção científica desenvolveu foi: “Um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal”. Pelo visto, Gemma, por mais competente que seja, se esqueceu de colocar esse item na programação de M3gan. E sem essa linha no código fonte do brinquedo, você é capaz de imaginar o que pode acontecer de errado daí em diante, né? A trilha sonora de “M3gan” está impecável e merece sim ser elogiada. O mais legal é notar o contraste das músicas calmas, doces e até mesmo infantis com o comportamento transloucado, psicopata e, por que não, adulto da menina (menina?!) M3gan. Além das já citadas “Dolls” e “Walk the Night”, canções de Bella Poarch e Skatt Brothers, respectivamente, que dão um colorido especial às cenas mais midiáticas do filme (aquelas das dancinhas da boneca em acesso de fúria assassina), essa produção também traz “It´s Nice to Have a Friend”, de Taylor Swift, e “Freedom Fry”, de Le Point Zéro. Essas são as faixas comerciais de “M3gan”, se assim podemos chamá-las. Além do quarteto de músicas comerciais, o longa-metragem tem quase três dezenas de trilhas instrumentais que foram criadas por Antony Willis, um dos bons compositores da sétima arte na atualidade. Em seu portfólio artístico, Willis tem participações em “Bela Vingança” (Promising Woman: 2020), “Monsters Trucks” (2017) e “Perdido em Marte” (The Martian: 2015). Não é errado dizermos que este é um filme para se ver e, obviamente, para se ouvir. Por falar em música, não dá para comentar “M3gan” e não falar das cenas do robô-brinquedo dançando alegremente enquanto caça os humanos por aí. O uso desse recurso tem dois efeitos mais imediatos. Em primeiro lugar, ele potencializa a divulgação do filme nas redes sociais. Trata-se de algo fundamental em uma época de onipresença do marketing digital em nosso cotidiano. Acredite em mim: teve uma época em que os profissionais da comunicação e publicidade trabalhavam sem usar a Internet. Bons tempos aqueles! Depois, esse expediente narrativo e cinematográfico traz leveza e humor para vilã da história. Impossível não nos encantarmos e nos solidarizarmos com uma garotinha dançando feliz da vida (mesmo quando se prepara para matar as pessoas ao seu redor). Ainda versando (no caso, proseando) sobre esse tema, note que M3gan é uma boneca-robô com pegada pop. Ela brinca, dança, canta e tem um apurado senso de humor. No aspecto cinematográfico, a vilã (ou a anti-heroína do longa-metragem para respeitarmos os elementos da narrativa ficcional e, principalmente, a classificação dos tipos de personagem) pode ser vista como a versão contemporânea, feminina e robótica de Chucky, o protagonista de “Brinquedo Assassino” (Child´s Play: 1988). Aí saem de cena os elementos sobrenaturais e fantasmagóricos que comandavam o boneco (algo, convenhamos, démodé no século XXI) e entra no palco da sétima arte os perigos da Inteligência Artificial (esse sim um elemento com a cara dos novos tempos). De alguma maneira, M3gan pode ser vista como a mistura de Chucky e HAL 9000, do clássico “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (2001 – A Space Odyssey: 1968). Os(as) cinéfilos(as) de plantão também podem enxergar a boneca robótica como a união de Brahms, de “O Boneco do Mal” (The Boy: 2016), e Johnny 5, de “Um Robô em Curto-circuito” (Short Circuit: 1986). Ou como o improvável fruto do casamento de Ted, protagonista de “Ted” (2012) e “Ted 2” (2015), com Rachael, de “Blade Runner – O Caçador de Androides” (Blade Runner: 1982). Ainda no campo das comparações, M3gan seria a integração diabólica de Annabelle, da série homônima, com a personagem principal de “Chappie” (2015). Como deu para ver, não faltam referências para esta personagem. Para quem gostou desse exercício intertextual, digo que Gemma pode ser a versão contemporânea e feminina de Nathan Bateman, o criador de Ava, o robô humanoide de “Ex_Machina – Instinto Artificial” (Ex Machina: 2014). E Cady seria a versão infantil e inocente do pobre Caleb. Seguindo essa linha, não é preciso listar as semelhanças de M3gan e a própria Ava, né? Por falar nisso, há mais semelhanças entre o novo filme de Gerard Johnstone e a antiga produção de Alex Garland do que a vã psicologia cinematográfica poderia supor. Se você tem um bom repertório dentro da ficção científica quando o assunto é Inteligência Artificial (ou assistiu a “Ex_Machina – Instinto Artificial”), talvez você não seja tão impactado(a) com o enredo de “M3gan”. Ainda falando das características da personagem principal do novo filme, achei impecável a mescla de artificialidade e humanidade do robô. Quando começamos a ver M3gan como uma menina real, entram na tela cenas da boneca como um brinquedo. Quando vislumbramos M3gan como um mero aparelho eletrônico, a Inteligência Artificial e o design ultrarrealista entram em ação e nos surpreendem como se ela fosse uma garota de fato. Admito que gostei bastante dessa dicotomia. Por isso, achei perfeitamente aceitável quando M3gan começa a agir (tanto em relação aos movimentos quanto em relação aos aspectos psíquicos) muito mais como uma menina real do que como um robô. Não há nada de inverossímil nisso! Outro aspecto do roteiro que preciso elogiar é o excelente ritmo narrativo de “M3gan”. Em poucos minutos, assistimos ao drama de Cady (por ficar órfã) e o desespero de Gemma (por ter que cuidar da sobrinha). Aí, a tia apresenta M3gan à menina e as “duas crianças” se tornam as melhores amigas. Essa série de fatos ocorre rapidamente, sem enrolação. A partir daí, vamos para a segunda etapa do longa-metragem, justamente aquela que possui maior tempo de duração e maior número de cenas. Nessa nova fase, a preocupação é mostrar o processo de aprendizado de M3gan que é baseado na Inteligência Artificial e na sintonia com a sua proprietária. Nada mais justificável, né? A boneca vai adquirindo vontades próprias e age cada vez mais de maneira independente. Nessa segunda parte da produção cinematográfica, o suspense e a tensão se elevam a níveis louváveis. A preocupação da plateia agora não é tanto com o que a boneca-robô faz de fato e sim com o que ela poderá fazer dali em diante (até onde M3gan irá chegar em sua maluquice psicopata?!). Quando a roboticista e seus colegas de trabalho percebem que há algo de muito errado com o protótipo que está para ser lançado no mercado, já é tarde demais. M3gan saiu do controle e se torna uma boneca assassina. Quando a ficha da equipe de desenvolvedores do brinquedo cai, o filme chega ao clímax. Ou seja, temos a terceira e última parte do longa-metragem. A partir desse ponto, a produção se torna uma legítima trama de terror com muitas cenas de ação. Aí a adrenalina correrá solta! Alguém conseguirá parar os instintos violentos e a sanha sanguinolenta da criatura concebida por Gemma? É essa a dúvida que irá atormentar a plateia até o final da sessão. Resumidamente, achei “M3gan” mais um thriller de ficção científica do que um filme de terror propriamente dito. Apesar de ter algumas (boas) cenas com forte pegada aterrorizante em seu desenlace, essa produção não é capaz de assustar os espectadores nas salas de cinema. Se você deseja levar sustos e passar realmente medo, há outros títulos melhores em cartaz. Contudo, não vejo essa característica de “M3gan” como um demérito do filme. Gostei de como ele foi concebido. Na minha visão, ele ficou até mesmo mais interessante e rico como suspense do que como uma trama de terror. Por falar nisso, é curioso relatar que o longa-metragem precisou passar por uma nova bateria de gravações porque a versão inicial tinha ficado justamente muito violenta. Na hora da edição, o diretor ficou assustado com as cenas que tinha à disposição e temeu dar uma conotação mais pesada ao filme. Assim, na segunda fase de filmagens de “M3gan”, a proposta foi amenizar o conteúdo. Por tal perspectiva, Gerard Johnstone foi bem-sucedido. Talvez seus críticos mais ferrenhos possam dizer que aí ele amenizou demais. Tudo é ponto de vista. Eu, como já falei, gostei do resultado. Confira, a seguir, o trailer legendado de “M3gan” (2022): Se você gostou da proposta de “M3gan”, saiba que seus produtores já programaram a continuação do filme da boneca robótica assassina. “M3gan 2.0” deverá ser lançado em janeiro de 2025 e trará mais uma vez Akela Cooper como roteirista e a dupla de atrizes Allison Williams e Violet McGraw como as protagonistas. Só falta mesmo a definição se Gerard Johnstone seguirá na direção. O neozelandês está neste momento em negociação com o estúdio hollywoodiano. Torçamos para que as duas partes cheguem a um acordo vantajoso para ambas. A produção de “M3gan 2.0” deverá permanecer com James Wan e Jason Blum. Afinal, em time que está ganhando... Por falar em continuação, quero trazer para a próxima análise da coluna Cinema a minha avaliação completa de outro longa-metragem que vi nesta Semana do Cinema e que me encantou. Estou me referindo, claro, a “Os Banshees de Inisherin”. Comentei rapidamente no início deste post do Bonas Histórias o quanto esta produção anglo-irlandesa de Martin McDonagh é diferenciada e possui uma qualidade absurda. Como estou com fortes suspeitas (no caso, é mais intuição do que suspeitas, tá?) que esse filme será o grande destaque positivo da próxima cerimônia do Oscar, não quero deixar de comentá-lo antes da entrega das estatuetas pela Academia de Los Angeles. Vai que a comédia-dramática de McDonagh ganha e os leitores da coluna Cinema vão dizer: e o Ricardo nem discutiu o vencedor?! Para evitar um constrangimento deste tipo, quero debater com vocês “Os Banshees de Inisherin” em todos os detalhes até 13 de março. Aí ninguém poderá me acusar de omissão ou descaso. Dessa forma, não se sintam sozinhos, cinéfilos e cinéfilas do meu Brasil recheado de confete e serpentina! Nós estaremos sempre sincronizados. Até a próxima! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Filmes: Os Banshees de Inisherin - A obra-prima de Martin McDonagh

    Um dos favoritos ao Oscar de 2023, o longa-metragem anglo-irlandês apresenta uma comédia dramática das mais ácidas, perturbadoras e originais. No mês passado, aproveitei a Semana do Cinema, promoção realizada pelas principais redes exibidoras, para conferir uma série de bons filmes que estão em cartaz no circuito comercial brasileiro. O começo do ano reserva geralmente um cardápio de títulos cinematográfico farto e de ótima qualidade e em 2023 não foi diferente. Na lista de excelentes longas-metragens à disposição dos cinéfilos nacionais, meus destaques vão para: “Os Banshees de Inisherin” (The Banshees of Inisherin: 2022), “Tár” (2022), “Babilônia” (Babylon: 2022), “M3gan” (2022), “Os Fabelmans” (The Fabelmans: 2022), “Triângulo da Tristeza” (Triangle of Sadness: 2022), “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” (Everything Everywhere All at Once: 2022) e “Nada de Novo no Front” (Im Westen Nichts Neues: 2022). Não por acaso, a maioria dessas produções foi indicada ao Oscar de 2023, cuja cerimônia de premiação será realizada neste final de semana, 12 de março. Com uma safra de filmes tão reluzente, na certa a festa deste ano da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles deverá girar em torno do debate sobre a qualidade e os méritos dos longas-metragens finalistas. Ou seja, não deveremos ter polêmicas banais trazidas natural ou artificialmente (entenda como quiser) pelos participantes da cerimônia do Oscar, algo que geralmente acontece quando o acervo cinematográfico à disposição do público e dos jurados não é lá muito apetitoso. Não é mesmo Will Smith e Chris Rock? Antes que os envelopes com os vencedores do principal evento do cinema internacional sejam abertos na noite/madrugada de domingo, resolvi revelar neste post da coluna Cinema quem é o meu favorito à estatueta de melhor filme de Hollywood em 2023. No caso, já adianto (não sou chegado a grandes suspenses, pelo menos não em meus textos analíticos) que minha torcida vai inteiramente para o espetacular e inesquecível “Os Banshees de Inisherin”, produção anglo-irlandesa dirigida por Martin McDonagh. Apesar de saber que “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” é apontado como barbada pelos críticos de cinema (com “Nada de Novo no Front” correndo por fora), ainda sim reafirmo minha confiança em “Os Banshees de Inisherin”. Para começo de conversa, ainda bem que tenho um blog e não um vlog. Juro que nunca consigo falar direito o nome deste filme! Repita comigo três vezes, rapidinho e em voz alta: Os Banshees de Inisherin. Os Banshees de Inisherin. Os Banshees de Inisherin. Eu não consigo. O que eu consigo expressar sem dificuldade é o impacto que senti na sala de cinema. Essa comédia dramática de McDonagh proporcionou uma das experiências mais angustiantes que já vivenciei em uma sessão cinematográfica. Admito que saí do cinema tenso e nervoso com o conflito assistido. Aí está justamente o maior mérito deste título. Ele foi desenvolvido exatamente para incomodar, para cutucar visceralmente a plateia. A trama de “Os Banshees de Inisherin” é ao mesmo tempo perturbadora, reflexiva e pitoresca, além de extremamente original. O filme também flerta o tempo inteiro com a dinâmica teatral, algo inusitado para uma produção cinematográfica e uma característica que lhe caiu muito bem. Minha confiança é tanta na consagração do longa-metragem de Martin McDonagh que pensei com os botões inexistentes da minha camiseta: vou escrever um post sobre “Os Banshees de Inisherin” no Bonas Histórias para o pessoal, depois da cerimônia do Oscar, ler a respeito. Justo. Muito justo. Justíssimo. Minha ideia brilhante para maximizar o SEO do blog só tem um probleminha... Todo ano, eu tenho a mania de apontar o meu filme favorito ao Oscar. E sempre quebro a cara redondamente. Quem acompanha a coluna Cinema já está acostumado com o meu pé frio. Tal sina começou em 2015, justamente quando o Bonas Histórias foi criado. Naquela primeira temporada do blog, apontei “Boyhood – Da Infância à Juventude” (Boyhood: 2014) como o meu queridinho à principal estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Deu, claro, “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance: 2014). A partir daí foi uma coleção interminável de apontamentos equivocados da minha parte. Em 2017, por exemplo, cravei: o Oscar vai para “La La Land – Cantando Estações” (2016). Não tinha como dar errado, pensei com minha típica ingenuidade. Deu “Moonligh – Sob a Luz do Luar” (Moonligh: 2016), um título de qualidade beeeeeeem discutível (qualidade bem discutível é um eufemismo, tá?). Em 2020, fiquei dividido entre os espetaculares “1917” (2019) e “Coringa” (Joker: 2019). Por entender que a experiência cinematográfica proporcionada pelo drama histórico fosse mais completa, decretei o filme de Sam Mendes como o meu predileto. Contudo, não descartei totalmente a chance da consagração do vilão de Batman que fora transformado em anti-herói. A estatueta foi então entregue para “Parasita” (Gisaengchung: 2019), o surpreendente título de Bong Joon Ho. Desde então, confesso que entendi que estava fadado a jamais acertar previamente quem seria o vencedor do Oscar. Portanto, caberia, como único remédio a essa amarga maldição cinematográfica, parar com as previsões, certo? Nananinanão. Como sou brasileiro, não desisto nunca! Agora é questão de honra acabar com a invencibilidade reversa (soou até bonitinho esse termo: invencibilidade reversa). Preciso acertar ao menos um vencedor até o dia do meu encontro inadiável com a Senhora Misteriosa. Não sossegarei enquanto não vier à coluna Cinema e gritar a plenos pulmões: “Estão vendo? Acertei!”. Se os palmeirenses creem que um dia vão conquistar o título mundial, por que eu não poderia vislumbrar minha conquista pessoal com as estatuetas do Oscar, hein? Pensando bem, acho que o que acontece comigo é uma espécie de praga familiar. A minha mãe tem o mesmo problema, só que relativo à previsão do tempo. Há quatro décadas (é o tempo em que a conheço – a maldição pode ser até mesmo mais longa...), ela decreta diariamente feliz da vida o que acha que vai acontecer com o clima na cidade de São Paulo. Inclusive, orienta as pessoas ao seu redor (conhecidos ou desconhecidos) do que elas devem fazer para não serem surpreendidas por São Pedro. E minha querida e estimada mãezinha erra dia a dia TODAS as suas previsões!!! Eu não estou exagerando quando usei a palavra TODAS (e quando coloquei os três pontos de exclamação) na última frase. Acredite se quiser, mas ela NUNCA acertou um único e mísero palpite meteorológico. Se fala que vai chover, faz sol. Se diz que vai esquentar, faz frio. Se alguma vez, por ventura, escapar um palpite que não vai nevar, é capaz de termos uma tempestade de neve nas ruas da capital paulista. Com seu impressionante histórico de erros (100%), Dona Cidinha deveria amolecer e parar de tentar adivinhar o que vai acontecer com o céu paulistano, né? O problema é que ela não para. E todo dia temos uma nova previsão furada. Acho que vou repetir seu entusiasmo de não desistir nunca (e de se esquecer das previsões fracassadas de outrora). Acredito sim que um dia ainda vou adivinhar o vencedor do Oscar. Talvez o único que não fique muito feliz com minha iniciativa em 2023 (um ditado que adoro é: o pior burro é aquele que tem iniciativa) seja Martin McDonagh. Realmente, o cineasta inglês não merecia a minha torcida pela sua mais recente produção. Fazer o quê? Cada um tem a torcida que merece... Por falar em McDonagh, é legal dizer que ainda é um pouco estranho chamá-lo de cineasta. Aos 52 anos e filho de pais irlandeses que se mudaram para Londres, Martin Faranan McDonagh se consolidou como um dos mais talentosos e originais dramaturgos ingleses de sua geração. Suas peças geralmente transbordam humor negro e nonsense e conquistaram uma infinidade de prêmios, principalmente pela estética inusitada e pelo conteúdo corrosivo. Depois da consagração nos palcos de West End e da Broadway, McDonagh, que possui tanto a cidadania inglesa quanto a irlandesa, passou a investir em trabalhos autorais no cinema. Sua primeira produção cinematográfica foi o curta-metragem “Six Shooter” (2004). Já o primeiro longa-metragem, “Na Mira do Chefe” (In Bruges: 2008), chegou aos cinemas quatro anos mais tarde. Adaptado de uma de suas peças (como todos os seus filmes, vale a pena ressaltar), o longa de estreia do anglo-irlandês foi indicado ao Oscar de 2009 na categoria Melhor Roteiro Original. Até o lançamento de “Os Banshees de Inisherin”, Martin McDonagh só tinha dirigido mais dois longas-metragens: “Sete Psicopatas e Um Shit Tzu” (Seven Psychopaths: 2012) e “Três Anúncios para Um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri: 2017). Ambos os títulos foram indicados ao Oscar e conquistaram alguns relevantes prêmios no Globo de Ouro e no BAFTA Awards. Apesar do êxito dos quatro filmes iniciais de McDonagh, o melhor ainda estava por vir. E ele veio agora com o sensacional e incomparável “Os Banshees de Inisherin”. Escrito, dirigido e coproduzido pelo próprio dramaturgo-cineasta britânico, este longa-metragem concorre em oito categorias do Oscar 2023: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Montagem. Por isso, já é possível dizer que este trabalho colocou Martin McDonagh definitivamente como uma das estrelas de primeira grandeza do cinema internacional. Se as estatuetas da Academia de Los Angeles não vierem dessa vez (lembre-se da minha previsão/torcida!), na certa elas não tardarão em chegar para sua galeria de troféus. Orçado em US$ 20 milhões, “Os Banshees de Inisherin” estreou nos cinemas da Inglaterra, Irlanda e Estados Unidos em outubro de 2022. No Brasil, ele aportou em nossas salas no comecinho de fevereiro de 2023. Dono de três prêmios no Globo de Ouro (melhor filme na categoria musical/comédia, melhor ator em musical/comédia e melhor roteiro) e de quatro no BAFTA em 2023 (melhor filme britânico, melhor roteiro original, melhor ator coadjuvante e melhor atriz coadjuvante), “Os Banshees de Inisherin” foi rodado inteiramente na costa Oeste da Irlanda, onde se passa a história ficcional. As filmagens foram feitas basicamente entre agosto e outubro de 2021 em Inishmore, a maior das Ilhas Aran na Baía de Galway, e Achill, uma das ilhas do condado de Mayo. Além do roteiro impecável e da fotografia deslumbrante, o que mais chama a atenção nesta nova produção cinematográfica de McDonagh é o elenco extremamente gabaritado que foi escalado para atuação na frente das câmeras. Por conhecer os principais atores e atrizes da Inglaterra e da Irlanda (essa é uma das vantagens de ser dramaturgo, né?), o diretor anglo-irlandês geralmente utiliza nas telas o que há de melhor nos palcos. E em “Os Banshees de Inisherin” não foi diferente. Com um elenco formado 100% por atores e atrizes irlandeses de enorme experiência e competência (muitos deles já tinham inclusive trabalhado em filmes e peças anteriores de Martin McDonagh), o resultado não poderia ter sido outro além do sublime. Os destaques vão para Colin Farrell, de “Minority Report” (2002) e “Por Um Fio” (Phone Booth: 2003), Brendan Gleeson, de “No Coração do Mar” (In The Heart of the Sea: 2015) e “Assassin's Creed” (2016), Kerry Condon, de “Capitão América – Guerra Civil” (Captain America – Civil War: 2016) e “A Casa do Medo” (Bad Samaritan: 2018), e Barry Keoghan, da série “Chernobyl” (2019) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (The Killing of a Sacred Deer: 2017). O quarteto constitui o time de protagonistas do filme. A equipe de atores e atrizes é complementada por Gary Lydon, David Pearse, Pat Shortt, Sheila Flitton, Jon Kenny, Aaron Monaghan e Bríd Ni Neachtain. Por trás das câmeras, os profissionais técnicos de “Os Banshees de Inisherin” são Ben Davis como diretor de fotografia, Carter Burwell como responsável pela produção da trilha sonora e Mikkel E. G. Nielsen como diretor de montagem e edição de vídeo. Além da participação de McDonagh, a produção do longa-metragem foi realizada em conjunto com os britânicos Graham Broabent e Peter Czernin. Acho legal destacar que toda a equipe já tinha trabalhado em algum dos filmes anteriores do diretor. Ou seja, não faltou entrosamento entre eles e McDonagh. O enredo de “Os Banshees de Inisherin” se passa na ilha irlandesa (fictícia) de Inisherin durante a Guerra Civil. Em 1923, logo após a independência da Grã-Bretanha, a Irlanda é palco de sangrentas batalhas internas. Em jogo está a política do país dali em diante: reintegração com os vizinhos ou sequência da postura autônoma. A sorte (e, ao mesmo tempo, o azar) dos moradores de Inisherin é que a ilha está distante de tudo e de todos, quase que esquecida da civilização e dos compatriotas. Por ser pequena, distante do continente, muito pacata e não ter absolutamente nada de economicamente interessante, além de alguns pequenos criadores de gado, a localidade passa imune ao conflito armado. Dessa maneira, o dia a dia dos habitantes de Inisherin se mantém rigorosamente dentro da rotina entediante e calma de sempre. Para se ter uma ideia do quão tranquilo é o cotidiano local, a grande novidade no povoado é a desavença curiosa e inexplicável entre Pádraic Súilleabháin (interpretado por Colin Farrell), um humilde criador de ovelhas, e Colm Doherty (Brendan Gleeson), um músico erudito. A amizade de algumas décadas dos dois sujeitos simplesmente acaba de uma hora para outra para perplexidade de todos os moradores da ilha. Como fazia todos os dias, Pádraic procura Colm para eles tomarem uma cerveja no bar/pub de Jonjo Devine (Pat Shortt). Contudo, o criador de ovelhas não consegue falar com seu melhor amigo, que parece evitá-lo e até mesmo fugir de sua companhia. Quando enfim consegue se encontrar com Colm, Pádraic ouve do então parceiro de bebedeiras que não quer mais ter aquela amizade pouco salutar e muitíssimo improdutiva. O músico diz que acha a companhia de Pádraic uma enorme perda de tempo e um desserviço à sua atividade intelectual. Além de chato e burro, o criador de ovelhas não tem mais nada a acrescentar à vida sociocultural de Colm, que quer a partir dali se dedicar mais às composições de suas canções e às aulas de música que ministra para os alunos de fora da ilha. Seu sonho é compor uma obra-prima da música erudita, que ele batizou de Os Banshees de Inisherin. Por isso, o amigo revoltado pede para Pádraic não lhe dirigir mais a palavra. Sem entender o que está acontecendo, Pádraic Súilleabháin fica perplexo e assustado. Como assim, ele não terá mais a companhia do melhor amigo e as conversas animadas no pub?! O que será que ele fez para ter ganhado a antipatia daquele que até ontem o estimava tanto? Desnorteado e sem reação, o rapaz não esconde dos demais moradores de Inisherin a tristeza pelo novo tipo de relacionamento com Colm Doherty. Sensibilizados com amargura do criador de ovelhas, a maioria dos habitantes da ilha decide ajudá-lo a solucionar a questão. A primeira a conversar com o músico para entender o que está acontecendo é Siobhan Súilleabháin (Kerry Condon), irmã de Pádraic. A moça vai tirar satisfações com o antigo amigo do irmão. Ela quer saber os motivos do comportamento ingrato e transloucado de Colm. Mais uma vez, ele explica o quão imbecil é Pádraic (algo que ninguém melhor do que a irmã para saber), o que o faz ser uma enorme perda de tempo para aqueles que o rodeiam. Agora idoso e se aproximando da morte, Colm Doherty quer usar o tempo que lhe resta de um jeito mais produtivo e intelectualmente saudável. E para tal, ele quer distância das asneiras e das conversas fiadas de Pádraic Súilleabháin. Simples assim. Depois de Siobhan, outros moradores de Inisherin tentam remediar a situação sem sucesso. Até o padre (David Pearse) entra em cena e não é bem-sucedido em restabelecer a união dos velhos companheiros. Alguns preferem consolar Pádraic. Outros optam por lhe fazer companhia. O candidato a novo “melhor amigo” do criador de ovelhas é Dominic Kearney (Barry Keoghan), um rapaz solitário, melancólico e com sérios problemas de relacionamento. Aproveitando-se para criar um laço de amizade com Pádraic, Dominic começa a aconselhá-lo sobre o que fazer em relação à postura estranha do músico. O problema é que Colm está realmente irredutível na decisão tomada. Mesmo assim, Pádraic insiste em conversar com o antigo amigo e quer a todo custo retomar a velha camaradagem. Vendo que não terá sossego, Colm Doherty resolve radicalizar. Sem alternativa, ele faz uma ameaça sinistra para Pádraic Súilleabháin. Toda vez que o criador de ovelhas voltar a falar com ele, o músico simplesmente arrancará um dedo da mão e ofertará de presente para o sujeito sem noção que insiste em conversar. Será que a companhia de Pádraic é tão repugnante que mereça uma ação tão radical quanto aquela? E Colm terá coragem de levar à sério a ameaça de autoimolação?! O fato é que a trama chega a um impasse. Pádraic Súilleabháin não se contentará em viver sem o contato próximo com o melhor amigo. Por sua vez, Colm Doherty não aceitará de jeito nenhum retomar a amizade nem voltar a manter a mínima interação com alguém tão estúpido. E ninguém ao redor da dupla parece conseguir fazê-los mudar de ideia. O conflito com jeitão de humor nonsense e de paródia de costumes está armado. O que irá surpreender a plateia é para onde essa história caminhará. Pouco a pouco, o tom de comédia existencialista dá lugar para um drama psicológico dos mais aterrorizantes, ácidos e, por que não, violento. Exatamente por isso, não é errado enxergarmos esta produção como uma tragicomédia. Com aproximadamente duas horas de duração, “Os Banshees de Inisherin” é uma narrativa histórica com forte conotação filosófica e política. Para compreender a evolução do enredo, o comportamento das personagens e a dinâmica do conflito, o público precisa olhar a trama pela perspectiva da paródia e, principalmente, da alegoria. Sim, temos aqui uma história de certa forma alegórica. Em outras palavras, a maior força do roteiro está no subtexto (repito: de ordem existencialista e ideológica) e não na camada externa dos acontecimentos (que parecem banais e até mesmo sem lógica à primeira vista). Daí a riqueza e a profundidade do filme. Se você não mergulhar no que está escrito nas entrelinhas, na certa não achará este longa-metragem tão interessante. Se conseguir se aprofundar, aí ele se descortinará de um jeito impecável aos seus olhos. Você pode me perguntar: mas afinal de contas, do que fala esse longa-metragem propriamente dito, hein?! O conflito (no caso, a vontade de Colm Doherty em encerrar abruptamente a amizade com Pádraic Súilleabháin) tem várias interpretações possíveis. Várias!!! Atire a primeira pedra quem não cortou ou não quis cortar relações com pessoas próximas com visões políticas opostas e/ou com atitudes corrosivas ao bem-estar coletivo. Tenho amigos e amigas que foram simplesmente expelidos do grupo de convívio por causa, por exemplo, de visões negacionistas na época da pandemia da Covid-19 e de crenças preconceituosas alimentadas por extremistas nas redes sociais (que de sociais, convenhamos, não têm nada!). Sei que é polêmica essa questão do cancelamento, mas ela está aí. Fazer o quê?! Atire a segunda pedra quem nunca se questionou se aquele(a) amigo(a), irmão/irmã, namorado(a), companheiro(a) ou colega de profissão um tanto burrinho(a) não estava, depois de certo tempo, te jogando para baixo, fazendo tua vida regredir. Conheço um amigo muito bonzinho e legal (sem formação universitária, sem grande intelecto e com uma rotina simples e banal) que levou um pé na bunda da noiva (uma moça culta, com doutorado e com um dia a dia movimentado intelectualmente) algumas semanas antes do casamento. A justificativa que ela me deu (repare que foi para mim, um amigo dele, que ela deu explicações!) é que ela não conseguia se ver casada com alguém tão fútil e limitado cognitivamente, apesar de achá-lo bonito e divertido. Fiquei em choque. Aqui não estou colocando em debate as diferenças de classes sociais, de níveis educacionais ou de hábitos culturais. Não é isso, por favor! O que separou o casal (visto até então como perfeito aos olhos de quem estava de fora do relacionamento) pouco antes de subir ao altar é o choque cultural e de afinidade intelectual, independentemente dos preconceitos que esse assunto possa suscitar. E, lá vamos nós de novo, atire a terceira pedra quem não conhece alguém que deixou a tranquilidade e a segurança de seu mundo (até parece letra de música do Legião Urbana....) pela ambição de progredir. Quase todos os meus colegas de faculdade deixaram suas cidades de origem e se mudaram para São Paulo com a meta de evoluir profissionalmente. Largar pessoas amadas, mudar rotinas estabelecidas e se aventurar pelo ambiente inóspito da metrópole são pré-requisitos para alguém que anseia crescer em muitas profissões. Repare que essas são três interpretações possíveis de “Os Banshees de Inisherin”, que tive o cuidado de apresentar bem sutilmente neste post da coluna Cinema para não influenciar a visão de ninguém nem dar o spoiler do filme. Há outras possibilidades. Caberá a você, como já disse, achar a razão do comportamento aparentemente transloucado de Colm Doherty em relação ao pacato e simplório Pádraic Súilleabháin. Adoro filmes que me fazem pensar e exploram a minha (possível) inteligência. E esse longa-metragem de Martin McDonagh faz exatamente isso. Ele é espetacular!!! Além do roteiro excelente (e impecável), a ambientação ao estilo noir potencializa ainda mais a experiência cinematográfica. Note como a equipe técnica de “Os Banshees de Inisherin” construiu a fotografia do filme. Basicamente, temos duas classes de cenários e enquadramentos neste longa-metragem: o aberto (arejado e luminoso) e o fechado (claustrofóbico e escuro). O que determina qual abordagem será utilizada é o tipo de ambiente filmado. Quando as cenas acontecem na parte externa, temos o primeiro tipo de fotografia: cenários abrangentes, muita luz natural, paisagens de tirar o fôlego e enquadramentos que valorizam o gigantismo da ilha). Quando as cenas acontecem na parte interna das construções da ilha, temos o segundo tipo de fotografia: cenários apertados e pobres de mobília, pouquíssima luz natural (a escuridão domina o palco), ausência de paisagem e takes de câmera que mal enquadram as personagens. Não por acaso, temos no filme uma dicotomia entre dia (usado mais nas cenas externas) e noite (explorada mais nas cenas internas). Em outras palavras, a fotografia é um dos pontos altos desta produção anglo-irlandesa e ela demonstra com vigor as inquietações íntimas das personagens. É verdade que o clima noir é reforçado pelas temáticas utilizadas em “Os Banshees de Inisherin”. O que prevalece nessa história são assuntos de opressão social e de violência. Não se engane com a aparente singeleza do longa-metragem nos minutos iniciais. Seu enredo irá desaguar em um mar caudaloso de dor e tragédias, causando uma forte sensação de inquietude na plateia. Por exemplo, é até difícil apontar todos os tipos de violência, crimes, atitudes eticamente questionáveis e aspectos sociais muitas vezes ocultados que a trama do filme faz questão de escancarar. Posso citar alguns dos elementos narrativos mais delicados: suicídio, assassinato, traição, autoimolação, incesto, estupro, mentira, corrupção, guerra, machismo, misoginia, bullying, etarismo, homofobia, voyeurismo, orfandade, solidão, masturbação, deficiência física e mental, fofoca, loucura, bruxaria, cultura do cancelamento, injustiça social, ameaça física, chantagem, tortura, invasão e depredação de patrimônio, abuso de autoridade etc. Já deu para ver o quão pesado é o filme, né? Juntamente com a temática polêmica, a ambientação pesada e a exploração de vários tipos de violência, “Os Banshees de Inisherin” traz alguns componentes cênicos bem sutis que dialogam de maneira singela com o enredo. É até bonito/poético procurar (e achar) esses vários aspectos subliminares na trama. Posso apontar, para começo de citação, os animais de estimação da dupla de protagonistas. Enquanto Pádraic Súilleabháin tem um pônei (com cara, jeito e comportamento de jumento), Colm Doherty possui um cachorro. Não é preciso dizer que o jumento faz referência à burrice e o cachorro remete à lealdade. Antes que alguém me questione sobre a lealdade de Colm, é preciso olhá-la em relação à música e à sua paixão pela composição de Os Banshees de Inisherin (e não ao antigo amigo). Nesse caso, o cãozinho faz todo o sentido. Esse é apenas um elemento que extraí da trama e que debati rapidamente com você. Há muitos outros em “Os Banshees de Inisherin”. As profissões das personagens (o fato de o protagonista ser um criador de ovelhas e o antagonista ser um músico não é por acaso), a guerra, o bar, a música, a postura da irmã de Pádraic, o fogo e os dedos da mão de Colm são componentes que dialogam por si só com o conflito apresentado. A profundidade do debate existencialista sobre a vida que levamos e o alcance da discussão sobre o tipo de amizade/relacionamento que escolhemos ter passam diretamente pela representação narrativa desses elementos simbólicos do filme. Por isso, vale um esforço extra da plateia para procurar e interpretar cada peça semiótica deixada por McDonagh. Ainda falando na estética do longa-metragem, tive a impressão de que “Os Banshees de Inisherin” flerta o tempo inteiro com a dinâmica teatral. Será que mais alguém teve essa percepção ou só fui eu que tive, hein? Certamente, Martin McDonagh não conseguiu abandonar totalmente o dramaturgo que há dentro de si. Ainda bem! Confesso que gostei bastante dessa particularidade do filme. O tom teatral não é parecido com o que vimos em “Dogville” (2003), clássico contemporâneo de Lars von Trier que aboliu totalmente os cenários, o figurino e os efeitos sonoros artificiais e realizou as filmagens em uma espécie de palco. Em “Os Banshees de Inisherin”, temos um tipo de produção cinematográfica aparentemente convencional. Afinal, há cenários, cuidado com a fotografia, investimento no figurino, trilha sonora e mudança de set de filmagem. Até aí nada de novo no Reino de Abrantes. A novidade está na maneira como as cenas foram captadas e, principalmente, como são apresentadas ao público. Com poucos cortes de câmera, com a priorização dos diálogos à ação das personagens, com pouquíssimas figuras em cena e com o foco na expressividade corporal (facial e gestual) dos atores e das atrizes, elementos tipicamente teatrais, a sensação é de estarmos acompanhando mais uma peça cênica e menos um filme. Incrível, né? Considerando o caráter teatral de “Os Banshees de Inisherin”, algo que ajudou sensivelmente na excelência desta produção foi a atuação impecável do elenco. Não é errado afirmar que todos (eu disse TODOS!!!) os atores e atrizes deram show de interpretação. O resultado é que quatro deles concorrem à estatueta do Oscar em 2023: Colin Farrell (melhor ator), Kerry Condon (melhor atriz coadjuvante) e Brendan Gleeson e Barry Keoghan (melhores atores coadjuvantes). Curiosamente, não foi apenas o elenco principal que conseguiu roubar as cenas toda vez em que aparecia na tela. A equipe de apoio também foi muitíssimo bem. Destaque para Gary Lydon (o policial cruel), David Pearse (o padre vacilante), Pat Shortt (o dono do pub local), Sheila Flitton (a bruxa) e Bríd Ni Neachtain (a fofoqueira profissional da ilha). Como estamos falando de uma história alegórica, era importante que cada personagem extrapolasse suas ações individuais e representasse um tipo popular. E eles conseguiram fazer isso com louvor. Confira, a seguir, o trailer legendado de “Os Banshees de Inisherin” (The Banshees of Inisherin: 2022): Por tudo isso, reafirmo minha torcida por “Os Banshees de Inisherin” no próximo domingo. Sei que meu gosto cinematográfico é distinto ao do júri da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. E também sei que “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” reúne todas as condições para sair consagrado da cerimônia como a melhor produção da temporada passada (ele é outro filmão!!!). Todavia, um dia a minha sina em relação ao Oscar terá que acabar. Vai que em 2023 acontece o milagre que tanto espero, hein? Aguardemos a abertura dos envelopes, ladies and gentlemen. A esperança é a última que morre, como já sabia a boceta de Pandora. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

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