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- Filmes: Turno - O documentário de Pauline Beugnies sobre a uberização do trabalho
Exibida na Mostra Futuros Presentes – Cinemas Europeus, a produção belga retrata o drama de um entregador de aplicativo. Na última quarta-feira, assisti ao filme “Turno” (Shift: 2021), a mais recente produção da cineasta belga Pauline Beugnies. O documentário retrata o drama verídico de Jean-Bernard Robillard, um entregador de bicicleta de Bruxelas que trabalhava para o Deliveroo, aplicativo de refeições muito popular na Europa. O rapaz tinha sido contratado, em 2014, como funcionário registrado da companhia multinacional que intermedia a relação entre restaurantes e consumidores finais. Com a mudança da política trabalhista da empresa em 2015, Jean-Bernard e seus colegas foram obrigados a se tornar autônomos, o que gerou protestos dos funcionários e brigas judiciais. De um lado da disputa, os trabalhadores exigiam a manutenção dos direitos legais por parte do Deliveroo. Do outro, a organização alegava que o novo vínculo trabalhista conferia mais flexibilidade aos entregadores e maior remuneração por hora. A confusão estava armada. O bafafá corporativo teve cobertura da imprensa belga e mobilizou os entregadores de aplicativo de vários países da Europa. “Turno” integra a seleção de filmes da Mostra Futuros Presentes – Cinemas Europeus. A proposta do festival cinematográfico é apresentar temas sensíveis e contemporâneos através de produções recentes do Velho Continente. Veja alguns temas dos filmes da mostra: crise climática, novas relações trabalhistas, poder negativo das redes sociais, maior inclusão social, desafios provenientes do fluxo migratório intercontinental, solidariedade como contraponto à intensificação da desigualdade social, força desproporcional das grandes corporações capitalistas. Futuros Presentes – Cinemas Europeus está sendo exibido nas salas do CineSesc desde 24 de fevereiro e na plataforma Sesc Digital desde 3 de março. São nove filmes disponíveis de nove países. Há ficções e documentários no cardápio da mostra. As produções vêm da Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Itália, Reino Unido e Suíça, além de ter um exemplar brasileiro. “Turno”, minha opção de título da Mostra Futuros Presentes – Cinemas Europeus dessa semana, é a quarta produção cinematográfica de Pauline Beugnies. Nascida em Charleroi, cidade do leste da Bélgica, e formada em Jornalismo e Fotojornalismo, Pauline tem 40 anos e é uma das principais fotojornalistas europeias de sua geração. Depois de rodar o mundo em coberturas jornalísticas (viveu por vários anos em Bangladesh, Albânia e Egito) e conquistar relevantes prêmios fotográficos, ela retornou para seu país natal no início da década passada e se lançou no cinema. Sua especialidade é a produção de documentários. Atualmente, ela é considerada uma das revelações do cinema não ficcional belga. A estreia de Pauline Beugnies nas telas ocorreu com “Rester Vivants” (2017), documentário sobre as consequências políticas e sociais da Revolução Egípcia de 2011. Quem acompanha a coluna Cinema há mais tempo irá se recordar que esse assunto já foi abordado por outro título que analisamos no Bonas Histórias. "Clash" (Eshtebak: 2016), longa-metragem de Mohamed Diad que foi indicado ao Oscar de 2017 como representante do cinema egípcio, trata exatamente do levante popular que ocorreu nas ruas do Cairo há onze anos. No caso de “Rester Vivants” (também chamado de “Still Alive” quando foi lançado internacionalmente), a produção belga nasceu da experiência real de Pauline Beugnies no país africano. Quando a revolta explodiu no Egito como um dos braços da Primavera Árabe, a jornalista vivia no Cairo como correspondente internacional de veículos europeus de comunicação. Após acompanhar in loco o conflito político-social, Pauline precisou voltar para a Bélgica quando a situação se tornou insustentável. “Rester Vivants” foi indicado como melhor documentário no Magritte Award, principal premiação do cinema belga. Na sequência, Pauline Beugnies dirigiu “Shams” (2020), curta-metragem ficcional sobre os dramas de uma funcionária belga de um centro cultural no Cairo que assiste ao desaparecimento da amiga egípcia, e “Petites” (2021), documentário com o testemunho de algumas das vítimas de Marc Dutroux, um dos maiores criminosos belgas do século XX (ele sequestrou, estuprou e matou várias meninas em Charleroi nas décadas de 1980 e 1990). Apesar de nenhuma dessas produções ter conquistado prêmios ou nomeações a premiações relevantes, elas consolidaram a migração da fotojornalista belga para o universo cinematográfico. Lançado em dezembro de 2021, “Turno” foi apresentado ao público poucos meses depois de “Petites”. O novo filme de Pauline pode ser descrito como seu trabalho mais ambicioso até aqui no cinema. O documentário tem uma proposta ousada de reconstruir fatos de alguns anos atrás como se estivessem ocorrendo agora aos olhos do espectador (o que confere, em alguns momentos, a impressão de estarmos vendo um filme ficcional) e de narrar os acontecimentos reais com uma pegada de videoclipe (o que potencializa a experiência cinematográfica). Assim, a história do entregador de bicicleta de Bruxelas enche nossos olhos tanto pela estética à la “Corra, Lola, Corra” (Lola Rennt: 1998) quanto pela linha narrativa extremamente atual, comovente e universal. Com 61 minutos de duração e dividido em três atos, “Turno” se passa entre 2014 e 2019 em Bruxelas. Paradoxalmente, o documentário começa pelo fim. Ou seja, estamos em 2019, poucos meses antes da pandemia do novo coronavírus abalar os alicerces da comunidade internacional, e Jean-Bernard Robillard se apresenta para o espectador. Ele era um funcionário belga do Deliveroo, aplicativo britânico de entrega de comida que atua nas principais cidades da Europa. Apesar de famoso por lá, o Deliveroo não é tão conhecido pelo público brasileiro. Por isso, precisamos dizer que a empresa é rival do Uber Eats, iFood, Rappi e 99 Food, esses sim mais populares por aqui. O drama de Jean-Bernard é que ele está sendo processado pelo aplicativo de comida. Processado pelo antigo empregador?! Como assim? Para explicar como aquela relação trabalhista chegou aos tribunais e está sendo alvo da curiosidade da imprensa local e de boa parte da sociedade belga, o rapaz de aproximadamente 40 anos decide contar sua história desde o início. Aí a trama retorna cinco anos no tempo. Em 2014, Jean-Bernard Robillard se tornava funcionário da Deliveroo meio por acaso. Sem perspectivas profissionais, ele começou a entregar refeições pelas ruas da capital da Bélgica. Como não tinha bicicleta própria na época, ele precisou pegar emprestado o veículo de um vizinho para realizar as primeiras entregas. Por cerca de um ano, Jean-Bernard rodou aproximadamente 20 mil quilômetros com a magrela e entregou mais de 5 mil pedidos. A nova profissão se encaixou perfeitamente na rotina do rapaz. Ele adorava pedalar, estava feliz com o salário recebido e achava perfeito a dinâmica do novo expediente. Como funcionário registrado da Deliveroo (no começo da operação, a empresa sediada em Londres registrava seus entregadores como funcionários com carteira assinada), Jean-Bernard Robillard tinha horário regular (dividido em três turnos ao longo do dia), não trabalhava aos finais de semana (quem é que gosta de trampar aos sábados e domingos, né?), recebia boa remuneração para alguém com baixa qualificação (cerca de mil e quinhentos euros mensais) e possuía benefícios trabalhistas (como seguro contra acidente, assistência médica, férias e contribuição previdenciária). Além disso, ele estava integrado a uma comunidade jovem, animada, saudável e valorizada, a dos entregadores de comida. Não podia haver vida melhor para o protagonista de “Turno”. Jean-Bernard gostava tanto do trabalho que não se importava com um ou outro aspecto negativo da profissão de entregador. Afinal, ele estava suscetível a intempéries climáticas (tomar chuva e passar frio ou calor, por exemplo, faziam parte da rotina), arriscava-se pelo trânsito de Bruxelas (o que rendia alguns acidentes) e precisava encarar rotas distantes em alguns pedidos (que exigiam muitas pedaladas extras). Pelo amor ao serviço, o rapaz se tornou o entregador número um da filial belga do Deliveroo. Mensalmente, ele era o campeão em quantidade de entregas e de quilômetros rodados. Vale a pena dizer que esses índices em nada afetavam sua remuneração – como assalariado, tinha o mesmo ordenado independentemente do rendimento obtido nas ruas. Pelo ótimo trabalho realizado, Jean-Bernard Robillard se tornou uma espécie de embaixador dos entregadores da Deliveroo. Ele participava de ações de endomarketing, tinha conversas com o diretor geral da filial belga, fazia reuniões com os funcionários das outras áreas da empresa e era o porta-voz dos colegas que passavam os dias pedalando nas ruas. Pela primeira vez na vida, o agora entregador-ciclista tinha achado um propósito claro para sua existência, estava integrado à sociedade e se sentia realizado pessoal e profissionalmente. Todavia, a alegria de pobre você sabe o quanto dura, né? Com nosso querido Jean-Bernard não foi diferente. Assim que outras empresas de aplicativo de entrega de comida entraram no mercado belga, como Uber Eats, o modelo de negócio da Deliveroo se mostrou obsoleto. Os concorrentes trouxeram políticas empregatícias e de remuneração distintas. Ao invés de funcionários registrados, elas tinham agora freelancers. Em outras palavras, adeus jornada regular de trabalho, folga aos finais de semana, limitação de horas trabalhadas por dia e benefícios como seguro acidente, plano de saúde e aposentadoria. Com a supressão dos direitos, os entregadores dos aplicativos se tornaram trabalhadores autônomos e não mais funcionários legais dessas companhias. A demissão de todos os entregadores registrados pela Deliveroo e a incorporação de novos funcionários como autônomos geraram revoltas e protestos. A imprensa local começou a realizar a cobertura do conflito, um prato cheio para a mídia sensacionalista, e a mobilizar os movimentos sindicalistas, inconformados com as perdas dos trabalhadores. Como melhor entregador da empresa, Jean-Bernard Robillard estava em uma posição conflitante. Ao mesmo tempo em que precisava defender a Deliveroo que tanto amava, ele não concordava com as novas diretrizes corporativas. Como atender aos pedidos do diretor geral da companhia, alguém que Jean-Bernard acreditava e estimava, e aceitar as solicitações dos colegas entregadores, que no fim das contas estavam certos em suas alegações? Atordoado e no meio do fogo-cruzado, nosso herói precisava se contorcer diplomaticamente para não desagradar a nenhum dos lados. Será que conseguiu? Só assistindo ao documentário de Pauline Beugnies para saber a resposta exata para essa questão. Porém, pelas primeiras cenas do filme que se passam em 2019, já é possível constatar que o gato subiu no telhado. “Turno” é um documentário interessante. Diria até muito interessante! Seu principal mérito está mais na forma como a história é contada do que necessariamente no conteúdo da trama em si. Afinal, não me parece uma surpresa tão bombástica assim a situação precária que os funcionários dos aplicativos são submetidos mundo à fora. Não à toa, o termo que se popularizou para descrever esse tipo de relação trabalhista mais flexível (leia-se desumana) é uberização – Uber foi a primeira grande plataforma online de transporte a colocar seus motoristas como equipe autônoma e não como funcionários próprios. Mesmo assim, nunca é demais jogar luz sobre a precarização do trabalho no século XXI. Ainda mais quando a produção cinematográfica consegue se destacar pela estética e pelo formato audiovisual. Basicamente, as cenas de “Turno” dividem-se em dois grupos: (1) a reconstrução da trajetória de Jean-Bernard Robillard e (2) a ilustração em estilo videoclipe dos acontecimentos relatados. Parte da graça do filme está nessa constante mescla de estilos tão antagônicos (e ao mesmo tempo tão complementares). Para entender os efeitos dessa produção de Pauline Beugnies no espectador e para compreender a singularidade do documentário belga, precisamos aprofundar nossa análise nas diferenças entre as duas partes do filme. Quando acompanhamos o relato do protagonista, as imagens possuem uma pegada mais crua, de câmera tremida e na mão, pouca luz e tomadas desfocadas. Visualmente, a impressão é de estarmos realmente em um documentário (um bom documentário, vale a pena ressaltar). Porém, a encenação é típica de uma produção ficcional (filme B, no caso). A atuação pouco espontânea da personagem central de “Turno” (em nenhum momento Jean-Bernard fica à vontade diante das câmeras) cria um clima de novela mexicana ao filme (abraço, Silvio Santos!). A escolha de Pauline Beugnies por reconstruir cena a cena a trajetória do entregador foge do que costumamos assistir nos documentários convencionais. Por isso, não se surpreenda se você tiver a sensação de estar, em alguns momentos da produção, acompanhando uma trama ficcional. Para contrabalancear essa primeira linha narrativa, “Turno” traz excelentes flashes no meio da história. Aqui temos um jeitão diferente de retratar rápidas e sensíveis passagens do filme. Nesse momento, a estética do documentário flerta com a linguagem dos videoclipes e da comunicação da Internet. Dessa maneira, vemos o discurso do presidente da Deliveroo como se assistíssemos a um vídeo de endomarketing; acompanhamos as notícias como se estivéssemos em um telejornal; recebemos as propagandas da plataforma de aplicativo como se fossemos os consumidores dela. De tempo em tempo, “Turno” traz essas pílulas visuais com elementos da história: entrevistas com os entregadores dos aplicativos, depoimentos de Jean-Bernard Robillard para TVs e rádios belgas, momentos da conferência de trabalhadores autônomos europeus, cenas no tribunal de Bruxelas, áudios de reuniões da Deliveroo, etc. Curiosamente, apesar do visual não ser típico dos documentários, essa parte da produção cinematográfica é a que se aproxima mais do gênero documental. Em relação à velocidade da narrativa, “Turno” tem dois momentos bem distintos. Na primeira metade do filme, o ritmo é mais célere, enquanto na segunda metade é mais lento. O que marca essa mudança é justamente o período temporal retratado. Quando Jean-Bernard rememora sua rotina de cinco anos atrás, temos o estágio mais empolgante de sua vida. Ele atingiu o auge pessoal e profissional em 2014 ao ingressar na Deliveroo, o que torna seus relatos tão empolgantes. Quando o documentário volta para o presente (ano de 2019), não temos o protagonista em seu esplendor. Pelo contrário, ele é um cara apático, perdido e envolto em chatos e complicados trâmites judiciais. Com exceção dos advogados, quem é que gosta de acompanhar detalhes burocráticos das ações dos tribunais, hein? Outro aspecto positivo de “Turno” foi a escolha e, na sequência, a construção do perfil do protagonista do filme. É interessante perceber que Jean-Bernard Robillard não é um entregador convencional da Deliveroo. Ele é simplesmente o melhor entregador do aplicativo de comida em Bruxelas e, quiçá, na Bélgica. Ninguém entrega mais pedidos e ninguém pedala tanto quanto o nosso herói. E a dedicação do rapaz pelo serviço vai além da questão da maior remuneração. Note que o salário do entregador é/era fixo. Sua paixão pela profissão é o que o estimula a ir além e a ser o melhor funcionário da companhia. Nesse sentido, suas alegações para a manutenção dos direitos trabalhistas ganham ainda mais força (se comparada às queixas de um entregador mediano). Para provar que estamos diante de alguém especial, Pauline Beugnies omite o nome do protagonista na primeira metade do filme. Afinal, até ali, ele não passa de um entregador comum. Quando o jovem funcionário da Deliveroo se torna o símbolo de uma causa e o empregado-modelo do aplicativo, aí sim ele passa a ser chamado com frequência pelo nome próprio. Gostei desse expediente narrativo, que pode ser simples, mas é extremamente eficiente. Na certa, o documentário não teria a mesma força dramática se tivesse escolhido outra figura para retratar e se não tivesse enfocado as inquietações de Jean-Bernard de forma tão sensível e humana. Em nenhum momento, o jovem belga quer uma remuneração maior, status social, poder, visibilidade e/ou ascendência sobre os colegas. Ele simplesmente quer de volta a sua vida normal, feliz e integrada à sociedade que tinha em 2014. Outros elementos de “Turno” que precisam ser elogiados são a trilha sonora e a fotografia. Se a excelência da fotografia era algo até esperado de uma diretora que atuara por quase duas décadas como fotógrafa internacional, a trilha sonora é a boa novidade do novo documentário de Pauline Beugnies. Ouso a dizer que a trilha musical de “Turno” é a melhor do portfólio cinematográfico de Beugnies até aqui. Em suma, temos vários aspectos para destacar de positivo nessa produção. As únicas menções negativas que preciso fazer vão para: algumas cenas captadas após a pandemia (é estranho ver pessoas usando máscaras nas ruas de Bruxelas, quando a história se passa em 2019); as legendas em português feitas porcamente (há várias palavras sem acentuação); e o peso desproporcional dado para os dois lados do conflito (mesmo sabendo que os funcionários estão cobertos de razão, acredito que “Turno” poderia ter se aprofundado nas alegações da empresa e nas escolhas dos entregadores que optaram pela nova modalidade de trabalho imposta pela Deliveroo). Em outras palavras, temos um bom filme, mas que não é perfeito. Confira, a seguir, o trailer original de “Turno”: “Turno” é um dos bons exemplares do cinema contemporâneo belga. Cinema da Bélgica, Ricardo?! Não conheço nada desse assunto. Se você não conhece, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias, então sugiro assistir, além do recente documentário de Pauline Beugnies, a “O Novíssimo Testamento” (Le Tout Nouveau Testament: 2014), comédia impecável de Jaco van Dormael, “Alabama Monroe” (The Broken Circle Breakdown: 2012), drama forte e intenso de Felix Van Groeningen, “Eu, Daniel Blake” (I, Daniel Blake: 2016), comovente crítica social de Ken Loach, e “Ninfomaníaca” (Nymphomaniac: 2013), aventura sexual dirigida pelo polêmico Lars von Trier. Acho que para começo de conversa, essa lista versátil (repare que há exemplares de gêneros distintos) irá agradá-lo(a) e, principalmente, mostrar a força e a pluralidade das produções cinematográficas desse pequeno país europeu, muitas vezes escondidinho entre França, Holanda, Alemanha e Luxemburgo. Se você gostou da proposta da Mostra Futuros Presentes – Cinemas Europeus é importante saber que a exibição dos filmes na plataforma Sesc Digital irá até o dia 30 de março. No formato online, as produções do festival são lançadas semanalmente e ficam disponíveis gratuitamente até o término da mostra. Nas salas das unidades do CineSesc, a programação de Futuros Presentes – Cinemas Europeus irá até 17 de março. Acho que vale a pena conferir o cardápio da mostra. E boa sessão a todos! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Crônicas: O Ano que Esperávamos Há Anos - Março de 2012
No mês decisivo da primeira fase da Copa Libertadores, a equipe corintiana tem problemas com as contusões de zagueiros e a demissão de sua maior estrela. 1° de março de 2012 – quinta-feira Março começou com a apresentação de mais um reforço para o elenco corintiano. Quem foi anunciado oficialmente dessa vez aos torcedores e à imprensa foi o chinês Chen Zhi Zhao. O jovem atacante de 23 anos veio para compor o grupo de jogadores do Timão que neste ano tem o desafio de conquistar a Libertadores da América, manter o título do Brasileirão e voltar a conquistar o Paulista. A festa organizada no anfiteatro do Parque São Jorge foi grande para o anúncio do atleta estrangeiro. O salão nobre do clube estava decorado ao estilo chinês, havia músicas típicas do país oriental e alguns conterrâneos de Zhi Zhao encenaram movimentos de dois dragões cenográficos. As imprensas nacional e estrangeira estavam presentes, com muitos jornalistas chineses. Até o cônsul da China presenciou o evento. Chen Zhi Zhao recebeu a camisa de número 200 em homenagem aos dois séculos da imigração chinesa no Brasil. Como seu nome é um pouco difícil de ser pronunciado em português, a equipe de Marketing do Corinthians tratou de colocar um apelido mais sonoro no atleta: Zizao. Com esse nome na parte de trás da camisa, o jovem beijou o escudo do clube e vestiu o uniforme. As primeiras palavras do novo contratado foram: "Quero agradecer aos presentes, aos amigos do Corinthians. Quero agradecer a cooperação com o meu clube na China e a oportunidade de poder jogar aqui no Brasil. Sempre adorei o futebol brasileiro e sempre assisti aos jogos de times brasileiros desde 1989. Então, estou muito feliz". Obviamente ele falou em chinês e uma simpática tradutora repetiu suas frases na língua da maioria dos presentes no anfiteatro. A verdade por trás da contratação de Zizao é que se trata de um esforço de Marketing da diretoria corintiana para fortalecer a marca do clube internacionalmente. Se pensarmos na qualidade técnica do novo contratado, dificilmente ele será melhor do que os atacante dos juniores do Timão que foram campeões da Copa São Paulo no início do ano. Assim, o chinês dificilmente conseguirá entrar em campo em um jogo importante. Sua função, ao longo dos dois anos de contrato, será meramente de divulgar o nome Corinthians no exterior, principalmente na China. Essa função é tão clara para os dirigentes que o próprio Luis Paulo Rosenberg, vice-presidente corintiano, deixou explícito tal objetivo em seu discurso: "A gente está trazendo um jogador de futebol da China. Não queríamos só fazer um amistoso e ganhar 1 milhão de dólares. Queríamos entrar no mercado chinês. Não entendo como a China não tem um time de futebol à altura de sua grandeza". Zizao, por sua vez, acredita ter condições de jogar no Corinthians. Ele declarou várias vezes na entrevista de apresentação: "Eu acho que vocês vão gostar de mim". Vamos esperar para ver. Porém, acho difícil o novo contratado ser o herói corintiano que nos levará às maiores conquistas futebolísticas da história do Parque São Jorge. Pensando bem, se ele não atrapalhar, acho que já cumprirá sua parte, não é? Seja bem-vindo, Chen Zhi Zhao, o Zizao da Fiel! 2 de março de 2012 – sexta-feira Ontem foi lançado o livro "O Jogo da Minha Vida" do zagueiro corintiano Paulo André. O evento realizado na livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista contou com a presença de jogadores do Timão, como Adriano, Alessandro, Leandro Castán, Bill e Fábio Santos. Boleiros de outras equipes também prestigiaram o colega, como foi o caso do ex-santista (e quem sabe futuro palmeirense) Wesley. Além dos atletas, aproximadamente três mil curiosos compareceram ao local para ver os astros das quatro linhas e para adquirir um exemplar da publicação. Para aumentar a confusão, a energia elétrica da região foi suspensa por algumas horas e os organizadores da sessão de autógrafos tiveram muita dificuldade para arranjar o fluxo intenso de pessoas. Um pouco constrangido com o imprevisto, o defensor corintiano e agora escritor contornou as limitações do espaço e recepcionou os fãs com simpatia. Como é difícil encontrar um jogador brasileiro em plena atividade com capacidade intelectual acima da média da população como é o caso do Paulo André! Além de ter escrito esse livro, no qual relata sua trajetória profissional dentro do esporte e os desafios encontrados ao longo da carreira como futebolista, o rapaz de 28 anos interage com o público através de um blog. Ele também gosta de pintar quadros, adora literatura e artes e é uma pessoa com conhecimento abrangente sobre tudo o que acontece ao seu redor (política, economia). Por várias vezes, Paulo já declarou sonhar em presidir, algum dia, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para moralizá-la e colocar o futebol nacional nos trilhos. Ao ver o grande destaque dado ao lançamento do "O Jogo da Minha Vida", me lembrei de uma entrevista concedida pelo autor do livro a uma emissora de televisão. Na reportagem, ele explicava quando nasceu o gosto pela pintura, pela literatura e pelas artes. Segundo tal relato, Paulo André jogava em um time francês quando uma séria contusão pareceu que iria abreviar sua carreira como atleta. Morando sozinho em terra estrangeira e sem poder exercer a profissão, ele se sentiu na obrigação de se interessar por outros assuntos além do esporte. Assim, começou a pintar telas, a visitar museus e a ler obras de literatura, filosofia e psicologia. Após algum tempo em tratamento médico e depois de várias sessões de fisioterapia, o jogador recuperou-se plenamente, ficando apto para voltar às atividades normais. Contudo, nesse momento ele já havia se apaixonado pelo universo artístico. Ganhava, além do prazer de jogar bola, novos hobbies, atípicos para os boleiros brasileiros. Paulo André é considerado atualmente uma das pessoas mais inteligentes dentro do futebol nacional e é um dos líderes do elenco corintiano. Infelizmente, nesse momento uma nova contusão séria o atingiu. Depois de passar por nova cirurgia (a sétima na carreira), o atleta já trabalha no CT do Parque Ecológico do Tietê. Em breve, estará de volta para comandar os mosqueteiros em busca de novas conquistas nos gramados do país e do exterior. Vou torcer muito para um dia o Paulo André se tornar, como deseja, presidente da CBF. No curto prazo, desejo mesmo é o título da Libertadores para o nosso zagueirão. 3 de março de 2012 – sábado Depois de dois dias de festas, com o lançamento de livro e a apresentação de um reforço gringo, as atenções dentro do Parque São Jorge se voltam para o jogão de domingo contra o Santos. A partida marcada para o estádio da Vila Belmiro, no litoral paulista, representa o clássico mais antigo do Estado de São Paulo. As duas equipes se enfrentam há quase cem anos. Mesmo os corintianos não vendo os rivais praianos como seus principais adversários (afinal, a maior rivalidade do Bando de Loucos é com o São Paulo e o Palmeiras, equipes da mesma cidade), os santistas têm o Corinthians como seu grande oponente. Sempre foi assim ao longo da história. A vontade de vencer o Timão é tamanha que a equipe da Baixada Santista marcou a reinauguração do seu estádio, fechado para reformas, justamente para o dia do clássico. A gana em nos vencer é sempre tão grande que me lembro do episódio do ano passado quando o Santos começou a temporada de 2011 com o técnico Adilson Batista. O jovem treinador estava invicto até enfrentar o Timão. A derrota no clássico foi decisiva para sua demissão, semanas depois. Sabendo disso, Muricy Ramalho, atual treinador santista, optou por colocar força máxima em campo, não se importando com a difícil partida no meio da próxima semana contra o Internacional pela Libertadores. Já pelo lado corintiano, a boa campanha no torneio estadual e a necessidade de vitória na quarta-feira pelo campeonato continental fizeram o técnico Tite optar pela escalação dos reservas. A grande novidade do time corintiano que jogará o clássico em Santos é a presença de Adriano no comando de ataque. O centroavante terá nova oportunidade de atuar desde o início e de provar as evoluções técnicas e físicas. Em sua última partida, contra o Botafogo no Pacaembu, o Imperador marcou um gol logo no início e teve boa atuação. A preocupação dos torcedores corintianos não é com o ataque (temos boas opções no banco) e sim com a defesa (onde há carência de peças de reposição). Querendo poupar os principais beques, o técnico Tite deverá escalar uma dupla de zaga novata (sendo um deles um garoto de 17 anos, o Marquinhos) e dois laterais com pouca rodagem. Enfrentar a dupla Neymar/Ganso já é normalmente complicado. Agora, quando o jogo é na Vila e entramos com a defesa totalmente reserva, a coisa piora ainda mais! O Timão entrará em campo com: Júlio César; Welder, Wallace, Marquinhos e Ramon; Ralf, Edenílson e Alex; Willian, Jorge Henrique e Adriano. Mesmo temendo um massacre santista no domingo, achei a atitude do Tite corajosa e acertada. O mais importante para o Timão nesse ano é a Libertadores. O próximo jogo pelo Campeonato Paulista não vale muita coisa. O Corinthians está fazendo uma boa campanha na competição e não será uma derrota amanhã que fará o time do Parque São Jorge deixar a primeira posição na classificação. Só não pode ser goleado pelo rival, tá? Pelo amor de Deus! Essa é a única preocupação que tenho. Quando goleámos o Santos por 7 a 1 em 2005, com show de Carlitos Tevez, aquele jogo entrou para a História. Só devemos ter o cuidado para não acontecer o mesmo domingo, dessa vez com o placar elástico para outro lado. 4 de março de 2012 – domingo O clássico entre Santos e Corinthians começou agitado. Segundo informações dos repórteres das rádios que cobriam o jogo, alguns torcedores do Timão foram proibidos de entrar na Vila Belmiro com a camisa comemorativa da grande goleada de 2005. Como assim?! Não puderam entrar com uma roupa festiva, hein?! Achei injusta a atitude dos policiais, principalmente porque a camiseta era muito bonita, sendo toda preta e com a inscrição "Eterno 7 a 1" na cor branca. Como era de se imaginar, a Vila estava lotada para o clássico. O gramado novinho em folha apresentava ótimas condições para a peleja. O técnico Tite, com uma equipe inferior tecnicamente, optou por uma postura bem defensiva. O objetivo era não deixar o Santos jogar. Ele queria voltar para casa com pelo menos um ponto. A primeira chance de gol surgiu dos pés de Neymar. O jovem atacante arrancou pela esquerda e finalizou. A bola foi para fora. Em seguida, quem teve boa oportunidade foi o Timão. Alex chutou de fora da área. O goleiro do Santos não conseguiu segurar. A bola foi na direção dos pés de Adriano. O centroavante não conseguiu dominar e desperdiçou a ótima chance. Confesso que depois de xingá-lo, ri sozinho da falta de habilidade do atacante do meu time. A defesa corintiana estava perfeita. O time do Parque São Jorge conseguia neutralizar todas as jogadas ofensivas do adversário. Ralf, nosso cão de guarda, não deixava Neymar respirar. Por causa da boa marcação recebida, o astro santista pouco produziu. O único susto aconteceu quando o Santos fez um gol de cabeça, após cobrança de falta. O bandeirinha anulou corretamente ao constatar impedimento. O segundo tempo começou como terminou o primeiro. Muita marcação do lado corintiano e pouca produtividade ofensiva do time da casa. Neymar estava irreconhecível. A defesa mosqueteira, formada por Wallace e pelo jovem Marquinhos, se mantinha inspirada! Quem estava muito mal pelo lado corintiano era, adivinhe, Adriano. Sem qualquer mobilidade em campo, o atacante não conseguia fazer nenhuma jogada certa. Ele chegou a perder um gol feito na metade da segunda etapa. Após receber cruzamento de Jorge Henrique, o Imperador ficou cara a cara com o goleiro. Aí ele chutou fraco e para fora. Realmente não dava para contar com ele! Quando o Corinthians estava melhor em campo, aconteceu o grande lance do Santos. Paulo Henrique Ganso pegou a bola na frente da defesa corintiana e com muita categoria fez um passe sensacional para Ibson. O santista ficou cara a cara com o goleiro Júlio César. Com precisão, estufou as redes. Gol do Santos. Perdendo, o Corinthians foi para cima e teve novas chances para marcar, mas não teve felicidade nas finalizações. Mesmo com a derrota de 1 a 0, a primeira no campeonato e em jogos oficiais em 2012, a sensação foi que o Timão atuou muito bem. O único problema foi a contusão, nos minutos finais, do zagueiro Wallace. Agora é torcer para que nada de sério tenha acontecido com ele. Bola para frente! 5 de março de 2012 – segunda-feira A principal discussão nesse começo de semana é sobre o baixo nível técnico do Campeonato Paulista. Os times grandes do Estado (Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras) chegaram a 42 jogos de invencibilidade (28 vitórias e 14 empates) contra as equipes do interior (aí incluindo a Portuguesa). Tal número é um recorde na história do Paulistão. A melhor marca havia sido estabelecida nos torneios de 1930 e 1972, quando os quatro grandes ficaram 36 partidas sem perder para os interioranos. Como agravante, hoje os principais clubes de São Paulo, diferentemente do passado, jogam muitas vezes com os jogadores reservas nos duelos com as equipes menores. E mesmo assim conseguem triunfar. Quando não saem com os três pontos, pelo menos empatam. O Timão escalou em várias oportunidades seus suplentes nos jogos do torneio estadual. Venceu vários deles. O Santos começou o campeonato com o time reserva (os titulares haviam disputado o Mundial em dezembro e estavam voltando de férias) e derrotou seus fracos oponentes sem problema. Alguns jornalistas são contra a disputa do Campeonato Paulista. Para eles, as equipes grandes deveriam atuar no Campeonato Brasileiro ao invés de ficarem perdendo tempo com jogos sem nenhuma importância no âmbito local. Outros são contra o excesso de times nas competições regionais. E há quem reclame também do excesso de datas para esse tipo de torneio. O Paulistão ocupa quase quatro meses do calendário esportivo nacional. Realmente, 20 clubes disputarem o torneio estadual é muita coisa. Há agremiações participando que não têm qualquer estrutura de um time profissional. Muitas dessas equipes do Campeonato Paulista são clubes de Verão. Elas contratam nos primeiros dias do ano entre 22 e 25 jogadores, além do técnico e da comissão técnica. Disputam a competição entre janeiro e o início de maio. Depois, com o término do campeonato, dissolvem o elenco e fecham as portas até o início do ano seguinte. Isso não é futebol profissional nem aqui nem na China (desculpe-me Zizao, mas usei uma expressão típica da nossa língua). Também concordo com os indignados com a extensão da competição. Não é possível deixar Corinthians, São Paulo, Santos e Palmeiras disputando o torneio local por intermináveis quatro meses. O Paulistão deveria ser um torneio de pré-temporada com no máximo cinco ou seis semanas de duração. Há também quem reclame da fórmula de disputa do torneio. Na primeira fase, todos se enfrentam em turno único. Os oito melhores avançam. Com tanto time fraco, é óbvio que as grandes equipes vão figurar entre as oito melhores. Sabendo disso, elas acabam colocando os reservas em campo, desvalorizando ainda mais a competição e desmotivando os torcedores a acompanhar os jogos. É necessário rever urgentemente o calendário do futebol brasileiro para os próximos anos! Infelizmente, conhecendo nossas federações estaduais e a confederação nacional, é ingenuidade imaginar que algo será feito tão cedo. Quem sabe um dia, né? Quem sabe eu esteja vivo para ver essas mudanças, hein? 6 de março de 2012 – terça-feira Uma péssima notícia chegou do Parque São Jorge trazida pela equipe médica do clube. O defensor Wallace rompeu os ligamentos do tornozelo esquerdo nos últimos minutos da partida contra o Santos. Em um lance isolado, Wallace ficou com a perna presa no gramado. Na mesma hora, acusou a lesão. Como o time já havia feito as três substituições, o atleta permaneceu em campo até o final do jogo, o que pode ter agravado a situação clínica. Mesmo "baleado", o jogador foi para o ataque e quase fez um gol nos descontos da partida (foi melhor no ataque do que o Adriano!). O zagueiro precisará agora passar por uma cirurgia. Será desfalque certo pelos próximos cinco meses. Em outras palavras, ele está fora da Libertadores de 2012. Revelado pelo Vitória, Wallace foi destaque no Brasileirão de 2010 jogando pela equipe rubro-negra de Salvador. Chamando a atenção dos dirigentes corintianos, sua contratação foi realizada no início do ano seguinte. Desde então, o bom baiano já disputou 35 partidas pelo Timão e ajudou o Corinthians na conquista do título nacional do ano passado. Wallace sempre foi o segundo reserva da defesa corintiana. Como os defensores do time sempre tiveram problemas (Paulo André e suas constantes contusões; Chicão com problemas pessoais; e os demais com as suspensões normais por cartões), o baiano acabou entrando em campo em jogos importantes. Foi até improvisado como volante no último jogo do Brasileirão de 2011 contra o Palmeiras, quando o Timão não tinha Ralf suspenso. Sua contusão é preocupante. Com Paulo André em fase de recuperação da cirurgia no joelho, agora o Corinthians tem apenas dois zagueiros inscritos na Copa Libertadores (Leandro Castán e Chicão). Nada de ruim pode acontecer com eles: não podem se machucar nem ser suspensos por cartão vermelho. Vamos orar para São Jorge proteger nossos defensores. Já que ele vai fazer esse favor para a gente, vamos pedir para proteger logo todos os jogadores do elenco. Afinal, quem protege um ou dois pode cuidar dos trinta atletas do grupo alvinegro, né? Por favor, São Jorge! O problema na defesa é maior ainda. Na lateral direita, Alessandro continua reclamando de dores e é dúvida. Welder, seu reserva imediato, está vetado para o próximo jogo. O substituto de ambos será o volante Edenílson. A questão é que Edenílson é o único volante verdadeiro no banco de reservas capaz de substituir Paulinho (Ralf, como sabemos, não tem um suplente à altura). Dessa maneira, o Corinthians jogará algumas partidas da primeira fase da Libertadores sem nenhum reserva para a defesa, sem um lateral-direito de origem e sem volantes no banco. Aí alguém pode perguntar: "O Tite não convocou 25 atletas para a competição sul-americana?". Sim, mas a maioria da nossa lista é de atacantes. Para não desagradar nenhuma das estrelas do setor de frente, o treinador não chamou os defensores na quantidade necessária. A partir desse equívoco, vamos sofrer agora por falta de peças de reposição. Viu São Jorge como você será importante a partir de agora?! 7 de março de 2012 – quarta-feira Era noite de Timão jogando em casa pela Copa Libertadores. O adversário foi o Nacional do Paraguai. A vitória era tida como obrigação por parte dos comandados de Tite. Afinal, o Cruz Azul, principal adversário do nosso grupo, havia vencido suas duas partidas e já somava 6 pontos na classificação. A boa notícia para a Fiel Torcida vinha do retrospecto em casa contra times paraguaios. Ao longo das participações corintianas na principal competição do continente, o Timão havia jogado quatro vezes em São Paulo contra os paraguaios. Vencera todos os confrontos, a maioria por goleada. Por outro lado, a má notícia para o bando de loucos estava na péssima pontaria de seus atacantes. Liedson não marcava desde o início do ano. Jorge Henrique, o outro atacante titular nessa noite, tinha um retrospecto pior. A última vez que balançara as redes foi em agosto do ano passado, em jogo do Campeonato Brasileiro. Precisando fazer gols e vencer a partida, o técnico Tite escalou o Corinthians com: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Jorge Henrique e Liedson. O jogo começou bem nervoso. Tentando ir para o ataque de forma afobada, o Timão errava as finalizações. Paulinho arriscou um chute de fora da área que foi defendido pelo goleiro adversário. Depois, uma série de arremates seguidos fizeram o camisa 1 paraguaio trabalhar muito. O gol ia amadurecendo. E ele veio em uma falha do arqueiro do Nacional, que até ali fazia uma boa partida. O goleirão soltou uma bola aparentemente fácil nos pés de Danilo. O meio-campista corintiano teve calma para empurrar a redonda para dentro das redes. 1 a 0 e festa preta e branca no Pacaembu. O gol obrigou o Nacional a atacar no segundo tempo. Os paraguaios tiveram algumas chances para marcar, mas pararam sempre nas defesas seguras de Júlio César. A arma corintiana era matar o jogo nos contra-ataques. Em um desses contragolpes, Edenílson iniciou a jogada pela direita e Jorge Henrique completou o cruzamento de peito. A bola morreu dentro da meta. O Timão fazia 2 a 0 e o camisa 23 decretava o fim do jejum de sete meses sem gol. Comemoração dupla no estádio. Alívio nas arquibancadas. Os 3 pontos pareciam garantidos. Os minutos finais de partida foram de mais pressão alvinegra. Liedson tentou fazer o seu, mas não conseguiu. Apesar do Levezinho não ter marcado, os atacantes corintianos tiveram boa atuação, o que deixa a Fiel mais tranquila para a sequência da competição. Agora o Corinthians soma 4 pontos e se isola na vice-liderança do grupo. Lá na frente estão os mexicanos do Cruz Azul com 6. Os venezuelanos do Deportivo Táchira mantêm o ponto ganho na primeira rodada (são os terceiros colocados), enquanto os jogadores do Nacional do Paraguai continuam sem marcar nenhum (estão na lanterna do grupo). A classificação corintiana para a próxima fase deverá ser decidida nos próximos dois confrontos, ambos contra o Cruz Azul. O primeiro jogo será no México e o segundo aqui em São Paulo. Para ficar em primeiro lugar no grupo, o Timão precisará, pelo menos, vencer um dos jogos contra os mexicanos e empatar o outro. Precisamos de 4 pontos nas próximas rodadas da Liberta. Essa é a nossa meta agora. 8 de março de 2012 – quinta-feira O dia seguinte à primeira vitória na competição continental foi de muita satisfação para jogadores e comissão técnica do Timão. O placar de 2 a 0 contra o Nacional do Paraguai demonstrou a estabilidade da equipe de Tite. O poder ofensivo também melhorou. Depois de muitas vitórias pela diferença mínima e conseguidas através de muito sufoco, o Corinthians finalmente venceu bem, sem agonia. “A equipe conseguiu uma vitória segura, tranquila e sem sustos, graças a Deus com dois gols”, disse Leandro Castán ao final da partida. Todo corintiano sabe como as vitórias e as conquistas de seu time do coração são sofridas e dramáticas. Entretanto, nesse ano, elas têm superado em muito os teores aceitáveis de dramaticidade. Se os jogos continuarem nessas condições, até o final do ano haverá dezenas, centenas ou quem sabe milhares de torcedores sofrendo de sérios problemas cardíacos. Eu, provavelmente, serei um deles. A vitória de ontem, pela maneira natural e tranquila como foi obtida, trouxe paz e serenidade para a alma da Fiel Torcida. Alguns amigos corintianos acharam que foi uma partida chata, sem graça. Possivelmente pensam assim por que não estejam mais acostumados a vencer sem sofrer tanto, ainda mais na Libertadores. Já pensando em obter o rendimento máximo de seus principais atletas na próxima semana contra o Cruz Azul, no México, o treinador corintiano já confirmou a escalação dos reservas para o jogo de sábado do Campeonato Paulista. O adversário será o Guarani. O adversário do Timão no próximo final de semana, após passar por grandes dificuldades durante todo o ano passado e cair para a Série C do Brasileiro, vive agora tempos melhores. O Bugre faz uma ótima campanha no estadual. Se o Guarani não assusta como em outros tempos, pelo menos tem um bom time em 2012. Com os reservas em campo, Adriano deve começar novamente uma partida desde o início. Se o Imperador realmente melhorar física e tecnicamente pode até ser aproveitado no jogo do México. Essa é a opinião do diretor de futebol, Roberto de Andrade. “Eu não posso responder pelo Tite, mas sábado ele vai jogar. Tudo indica que sim. Eu acredito que ele deva ir ao México. Também não sei se vai, mas acredito que sim. Agora, se joga ou não é o treinador quem escala. Se ele está apto a isso? Acredito que sim”, disse o cartola em uma entrevista à Rádio Bandeirantes. Até agora, o atacante carioca tem oscilado muito. Ele foi o melhor em campo na vitória sobre o Botafogo de Ribeirão. E foi o pior na derrota para o Santos. Um atleta com o nome do Adriano e com o seu potencial não pode ser tão inconstante assim. Para sábado, o ataque corintiano estará bem servido. Além do Imperador, devem entrar em campo, no Pacaembu, Douglas, Willian e Emerson Sheik. É um time de respeito do meio de campo para frente. Os corintianos podem esperar muitos gols dessa escalação. Há alguns anos, nos tempos das vacas magras, eu não acreditaria se me dissessem que esse seria o quarteto de frente do Corinthians em uma partida sem os titulares. Incrível como os tempos mudam, né? Vai Curintia! 9 de março de 2012 – sexta-feira A sexta-feira foi marcada pelas repercussões dos incríveis jogos ocorridos na noite anterior que envolveram dois grandes craques do futebol mundial. Lionel Messi fez cinco gols em jogo válido pela Copa dos Campeões da Europa. O seu Barcelona venceu o Bayer Leverkusen por 7 a 0. Somente o meio-campista argentino fez meia dezena, batendo o recorde de gols marcados por um jogador em uma mesma partida da principal competição europeia de clubes. Messi, indiscutivelmente, é hoje o melhor atleta em atividade do planeta. Se formos comparar, ele fez cinco gols em 90 minutos. Liedson e Jorge Henrique fizeram juntos apenas dois gols nos últimos três meses! Outro que encantou os torcedores foi Neymar. No clássico brasileiro da Libertadores da América, o Santos venceu o Internacional de Porto Alegre por 3 a 1. O jovem atacante anotou os três gols de seu time. Se Messi fez cinco contra "apenas" três do brasileiro, os dois últimos de Neymar foram duas obras-primas. Eles poderiam muito bem ter valido por dois gols cada um. Dessa maneira, os dois craques teriam marcado o mesmo número de tentos na noite. Os gols de placa de Neymar foram construídos em jogadas parecidas: o atacante arrancou do meio de campo, driblou quase o time inteiro do Internacional e empurrou a bola para dentro da meta. Ele fez isso duas vezes na mesma partida. Incrível! Já estou começando a ficar com medo de pegar esse cara nas fases finais da Libertadores. Já pensou? E o que dizer de enfrentar Messi e o seu Barcelona na final do Mundial Interclubes, hein? Seria sensacional! Enquanto as estrelas dos outros times surpreendem positivamente, o antigo craque Adriano surpreende negativamente. Sem maiores explicações, o atacante foi cortado da partida contra o Guarani. Até ontem, ele estava confirmado para disputar o jogo. Hoje à noite, contudo, chegou a notícia de que ele fora descartado pelo técnico Tite tanto do próximo confronto pelo estadual quanto da viagem ao México. Os indícios de haver algo de podre no reino corintiano foram percebidos na atividade da manhã. Tite escalou Élton para formar a frente do time com Emerson Sheik e Willian nas pontas. Onde estaria Adriano? A explicação veio na entrevista coletiva da tarde. O treinador justificou: "Adriano está fora da equipe, fora da concentração. Não treinou como eu gostaria que treinasse durante a semana. Por isso está fora". E depois complementou: "Os trabalhos (dele) nessa semana não tiveram aplicação, intensidade e dedicação tal qual os outros (jogadores). Essa situação foi determinante". Irritado com a situação, o técnico teve que responder inúmeras vezes aos questionamentos dos jornalistas. Mostrando-se muito decepcionado com o atleta, Tite finalizou: “Peço para vocês, de forma respeitosa, que não me perguntem mais a respeito do Adriano. Temos um jogo importante amanhã. Vivo um momento profissional importante. O Corinthians é maior que qualquer coisa. Sigam o feeling de vocês, a percepção de vocês. Futebol é alguma coisa muito responsável, importante”. Em suma, o Imperador deve ter aprontado mais uma das suas e dessa vez o técnico perdeu a paciência. Só pode ser isso! Como o gaúcho é um cara correto, não quis expor o real motivo à imprensa. Essa é a minha opinião, mas posso estar errado. 10 de março de 2012 – sábado Sem Adriano, a formação do Corinthians que entrou em campo contra o Guarani, no Pacaembu no sábado à noite, foi composta por: Danilo Fernandes; Edenílson, Marquinhos, Antônio Carlos e Ramon; Gomes, Ramírez e Douglas; Emerson, Willian e Élton. Destaque para a dupla de zagueiros: Marquinhos e Antônio Carlos. Ambos são campeões da Copa São Paulo de Juniores e vieram recentemente das categorias de base do clube. Como Wallace e Paulo André estão no departamento médico, os garotos precisaram ir ao gramado. Pouco mais de 15 mil pagantes compareceram ao estádio para ver o líder do campeonato. Uma vitória deixaria o Timão na ponta da tabela. Mesmo atuando com os reservas, o Corinthians era o franco favorito. O time campineiro era o sexto colocado do Paulistão com sete vitórias, um empate e quatro derrotas. O primeiro tempo foi bem equilibrado. Cada uma das equipes teve duas grandes oportunidades para marcar. As jogadas do Guarani pararam todas nas mãos do bom goleiro corintiano Danilo Fernandes. Já as chances do Timão foram de Edenílson e de Élton. A jogada do hoje lateral-direito foi para fora, enquanto a do centroavante substituto de Adriano foi parar dentro das redes. O gol aconteceu aos 25 minutos em grande jogada individual de Emerson. O atacante passou para o lateral-esquerdo Ramon, que cruzou. Na pequena área, Élton de maneira um tanto atrapalhada dominou a bola e chutou. Gol! Corinthians 1 a 0. O segundo tempo foi totalmente dominado pelo time da casa. As melhores jogadas do Timão eram criações de Emerson. Infelizmente, o goleiro bugrino não permitiu ao camisa 11 balançar as redes. Quem perdeu um gol incrível foi William. A jogada fez lembrar até o atacante Deivid do Flamengo, especialista nessa prática e famoso após desperdiçar lance inacreditável contra o Vasco há algumas semanas. William driblou o goleiro do Guarani e, sem ninguém à frente, chutou na trave. Santo Deus!!! As coisas pareciam ficar mais fáceis quando um zagueiro do Guarani foi expulso ao receber o segundo cartão amarelo. Com um a mais, ao invés de melhorar, o Corinthians misteriosamente piorou. É muito estranho como essa equipe se comporta quando fica em vantagem numérica em campo! Igualzinho ao que aconteceu no jogo em Mogi Mirim (quando vencendo e com um homem a mais, a equipe de Tite recuou, deu espaço para o adversário e tomou o empate no finalzinho), o Guarani fez seu gol no último minuto. O defensor Antônio Carlos, herói da conquista da Copa São Paulo com dois gols na final, falhou e cometeu pênalti infantil em cima do atacante campineiro. O capitão do time visitante cobrou bem e fez: 1 a 1. Obviamente, os jogadores corintianos saíram vaiados do Pacaembu. O Timão só não perdeu a liderança porque o vice-líder Santos, com os reservas, saiu derrotado do jogo para o Mogi Mirim no interior (foi a primeira derrota de um time grande para um clube pequeno nesse campeonato). Dessa maneira, o Corinthians foi para 30 pontos na classificação geral e o time praiano permaneceu com 27. 11 de março de 2012 – domingo De manhã, tinha acabado de chegar do parque, onde fui correr, quando Thalita me convidou para almoçar. Depois da refeição, pelos planos dela, iríamos ao cinema. Se eu não estiver enganado, acho que já falei da Thalita no O Ano que Esperávamos Há Anos. Ela me foi apresentada no ano passado por um amigo em comum. Se você não estiver lembrado(a), Thalita é aquela moça divertida que não entende nada de futebol (por isso é são-paulina) e que gosta de conversar enquanto assiste às partidas de tênis. Depois do almoço, rumamos para o cinema. Estando em débito comigo por ter escolhido os últimos filmes, minha amiga me deixou escolher o longa-metragem dessa vez. Aleluia, aleluia, aleluia! Para quem achou a atitude da Thalita fofinha, saiba que eu fui obrigado a ver algumas comédias românticas nas últimas visitas às telonas (incluindo uma sessão em pleno Corinthians e Palmeiras do primeiro turno do Brasileirão do ano passado!!!). Com o consentimento da dama ao meu lado, não precisei pensar muito para propor o que assistir. A opção foi por "Heleno", o filme do ex-jogador de futebol dos anos 1940. Thalita não gostou, à princípio, da minha escolha. Na entrada da sala, fui perguntado se eu estava me vingando dela. Imagina! O filme é muito bem-feito e poético. Diferentemente da expectativa inicial, o futebol fica apenas no pano de fundo da história. O longa-metragem retrata a vida pessoal e a trajetória profissional de Heleno de Freitas. Ele foi o primeiro jogador considerado craque em seu tempo e viveu como uma grande estrela da bola. Excelente atacante, Heleno tinha alguns comportamentos destrutivos. Era nervoso dentro de campo e boêmio fora dele. Fumava e bebia compulsivamente, não gostava de treinar, era muito namorador e brigava com os companheiros de time e com o técnico. Era também narcisista, intratável e levava um vidão de pop star. Ou seja, era o protótipo do jogador de futebol moderno. É só imaginarmos Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Ronaldo Fenômeno e Romário vivendo no Rio de Janeiro na metade do século XX. Por suas atitudes autodestrutivas, Heleno de Freitas rapidamente ficou doente e perdeu o esplendor dentro de campo. Criou também uma série de inimizades por onde passou. Com isso, acabou sendo descartado da Seleção Brasileira que jogaria a Copa do Mundo de 1950. Muito debilitado pelas complicações provocadas pela sífilis e viciado em lança-perfume e éter, o craque precisou ser internado em um sanatório. O filme é belíssimo, apesar da triste história narrada. Ao final da sessão, Thalita já estava novamente animadinha. Na certa, ficou desconcertada por não ter visto algo vinculado exclusivamente ao futebol e sim um ótimo enredo dramático. Ao retornar para casa à noite, acompanhei os resultados do Paulistão. O Palmeiras venceu o Botafogo em Ribeirão Preto por 6 a 2 e alcançou a vice-liderança com 29 pontos (1 a menos do que o Timão). O São Paulo venceu o clássico paulistano disputado contra a Portuguesa por 2 a 1 e ficou logo atrás com 28. O Santos vem em quarto com 27. Sabe de uma coisa: o filme do Heleno deveria ser passado para todos os jogadores atuais. Eles poderiam aprender alguma coisa com os erros alheios, né? 12 de março de 2012 – segunda-feira Essa segunda-feira foi a mais agitada do futebol brasileiro em 2012 até agora. De manhã, foi anunciada a saída definitiva do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ricardo Teixeira deixou o cargo de comando na entidade máxima do futebol nacional. A renúncia do cartola abrangeu a presidência do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014, acumulada por ele há alguns anos. A saída de Ricardo Teixeira foi motivada pela série de denúncias de corrupção que ele estava recebendo. Com isso, o genro de João Havelange perdeu o apoio conseguido em Brasília e junto à Fifa. As mídias nacional e internacional também eram contrárias à permanência do dirigente. Vários protestos e passeatas foram feitos em cidades brasileiras pedindo a saída do presidente da CBF. Desgastado, com problemas de saúde e com medo de ter seus bens bloqueados pela Justiça, Teixeira vendeu todos os seus negócios no país e fugiu para os Estados Unidos, onde planeja morar. Em seu lugar, ficou o vice-presidente da CBF, José Maria Marin. Ele é ex-governador do Estado de São Paulo. O grande feito de Marin, nesse ano, foi ter roubado uma medalha na final da Copa São Paulo de Juniores. Ao invés de colocar a medalha no pescoço do atleta campeão, ele sorrateiramente colocou-a no bolso da calça. Para seu azar, a cena estava sendo filmada pelas câmeras de televisão. Ou seja, as coisas mudaram na CBF para continuar exatamente iguais. A principal notícia da semana para a nação corintiana foi dada à tarde. Adriano não é mais jogador do Sport Club Corinthians Paulista. Em nota publicada pela diretoria alvinegra, após um entendimento entre as duas partes, o contrato do atleta foi rescendido amigavelmente. Está, portanto, explicada a ausência do jogador na partida de sábado passado contra o Guarani e a retirada de seu nome da delegação corintiana que viajou horas depois para o México. Naquela oportunidade, o técnico Tite ficou muito irritado. Ele disse ter preterido Adriano por causa da baixa dedicação do camisa 10 aos treinos. “Fizemos tudo que estava ao nosso alcance e chegamos à conclusão de que era melhor encerrar o contrato. Ele também achou isso”, disse à rádio Globo o diretor de futebol Roberto de Andrade. "Não seria motivo para dispensá-lo só treinar mal. No caso do Adriano é uma somatória (de fatos). Quantas e quantas vezes viemos a público para explicar situações do jogador. É uma gota d’água que, quando cai no copo cheio, transborda. Não foi um fato isolado”, complementou Andrade. A minha sensação é de alívio. Antes tarde do que nunca! Adriano não merecia estar no elenco corintiano há muito tempo. Sem vontade para jogar, ele faltou a vários treinos, estava gordo, não tinha mobilidade em campo e semanalmente se envolvia em confusões. Sua vida pessoal era um caos. E, acredite se quiser, era o jogador mais bem pago do elenco, com salário mensal de aproximadamente R$ 350 mil. Adeus, Adriano. Adeus, Ricardo Teixeira. O Timão e o futebol brasileiro ficam, respectivamente, melhores sem vocês. 13 de março de 2012 – terça-feira Amanhã, teremos o primeiro grande jogo do Timão na Libertadores de 2012: Cruz Azul e Corinthians na Cidade do México. O adversário vem de duas vitórias e lidera o grupo com 6 pontos. O alvinegro do Parque São Jorge vem de uma vitória e um empate. Temos 4 pontos e estamos na vice-liderança. O plano do técnico Tite é sair deste jogo com um empate. Aí na próxima semana, em novo duelo contra os mexicanos, em São Paulo, a ideia é vencer. Assim, poderemos roubar a ponta na tabela. O único problema é o retrospecto corintiano em jogos dos torneios continentais em território mexicano: são 4 jogos e 4 derrotas. O Timão não conseguiu fazer sequer um gol. Em 2000, derrota para o América por 2 a 0. Em 2003, goleada para o Cruz Azul por 3 a 0. Em 2006, derrota para o Tigres por 2 a 0. Essas partidas foram pela Copa Libertadores. Em 2005, o Corinthians foi novamente superado por 3 a 0 para o Pumas pela Copa Sul-Americana. Será necessário acabar com esse longo e incômodo tabu para a estratégia do técnico gaúcho dar certo. Pelas notícias vindas da América do Norte, o elenco corintiano está tranquilo e focado para o jogo. A confusão provocada, no Brasil, pela demissão de Adriano parece não ter causado mal-estar entre os jogadores. A sensação é de que muitos deles já até previam esse desfecho. A preocupação dos atletas é agora outra: a altitude de 2.400 metros da capital mexicana. Em um ambiente rarefeito, a respiração dos jogadores fica dificultada, além da bola ganhar velocidade. “Já tive outras experiências (com a altitude). Vim para cá para jogar contra o Pumas, quando estava no Grêmio. E contra o Chivas, pelo Inter. É preciso uma grande atenção na trajetória da bola. Com o gramado baixinho e o campo molhado, a velocidade (da bola) é maior. No tempo da bola aérea tem que ter atenção. Sente um pouco o nariz e a garganta, mas é do jogo”, comentou Tite sobre os efeitos climáticos da capital mexicana na entrevista coletiva para a imprensa brasileira. O Corinthians tem amanhã a responsabilidade de conquistar o primeiro ponto de sua história em terras mexicanas. A escalação será igualzinha a da vitória contra o Nacional do Paraguai, na segunda rodada da competição continental: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Alex; Jorge Henrique e Liedson. Algo que chamou a atenção dos brasileiros que foram ao México para acompanhar seu time foi o preço dos ingressos. Enquanto os tickets para os não-sócios do Fiel Torcedor custam entre R$ 200,00 e R$ 500,00 no Brasil (os outros ingressos já estão esgotados), os torcedores do Cruz Azul dispõem de entradas no valor de R$ 5,70 a R$ 11,50. Assim, se algum torcedor corintiano morador da cidade de São Paulo encontrar passagem aérea para a cidade do México em promoção ou utilizar suas milhas ganhas nos programas de fidelidade das companhias áreas, pode sair mais barato assistir ao confronto de amanhã no Estádio Azul do que acompanhar o jogo da próxima semana entre essas mesmas equipes no Pacaembu. Curiosa esta situação, né? 14 de março de 2012 – quarta-feira O jogo do Timão contra o Cruz Azul, pela Libertadores, começou às 22 horas. A única vantagem das partidas serem tarde da noite na quarta-feira é que é possível assisti-las mesmo quando você se atrasa muito. Podem-se marcar vários compromissos depois do trabalho, fazer cursos noturnos, passear com a namorada e até frequentar os happy hours mais animados da cidade. E mesmo assim, a chance de perder a partida é baixa. Lembro-me dos tempos da faculdade quando saía mais cedo da última aula da noite e ainda chegava em casa no início do segundo tempo. Ou quando namorava e tinha de abandonar a primeira-dama, correndo para o bar mais próximo para acompanhar os lances do Timão (desculpe-me, Íris, agora você descobriu o motivo das minhas fugas repentinas às quartas-feiras). Cheguei, hoje, em casa bem tarde para o meu padrão. Mesmo assim, o relógio da sala não marcava dez horas da noite. Faltavam três minutos para o pontapé inicial do grande jogo. Sem ter tempo para tomar banho ou para comer, me ajeitei no sofá, liguei a televisão e me preparei para acompanhar a saga corintiana em terras estrangeiras. O Estádio Azul não estava lotado, mas recebia um ótimo público. A partida começou com o Corinthians dominando o adversário e não dando espaço ao oponente. A primeira chance de gol foi do Timão. Alex chutou forte de fora da área. A bola saiu. Uhhhhh. O clube paulista tinha até um bom volume de jogo, mas seu ataque não era efetivo. Os atacantes não aproveitavam as chances criadas pelos meio-campistas e pelos laterais. Com o passar do tempo, o Cruz Azul passou a se aventurar ao ataque. Com o apoio de sua animada torcida, os mexicanos criaram três boas chances para inaugurar o placar. Todas foram defendidas pelo goleiro Júlio César. A melhor oportunidade foi corintiana e veio no finalzinho do primeiro tempo. O zagueiro do Cruz Azul tentou cortar uma bola e quase fez gol contra. Sorte dele que o goleiro do time da casa fez uma bela defesa e salvou o patrimônio. O segundo tempo foi muito mais emocionante. O Timão colocou os mexicanos na roda. As oportunidades de gols se intensificaram. Liedson (uma vez) e Paulinho (por duas vezes) perderam gols incríveis. Por muito pouco, o Corinthians não acabava com o tabu de não marcar naquele país em jogos oficiais. O problema maior de não ter aberto o marcador foi ter dado espaço aos mexicanos para eles contra-atacarem. Aos poucos, o Cruz Azul foi criando suas oportunidades. No último minuto, Chicão salvou um gol certo do adversário em cima da linha. Ufa! Essa foi por pouco. Na sequência, já nos descontos da partida, o Timão puxou um contragolpe veloz e Paulinho ficou novamente na frente do goleiro. O chute saiu forte, mas foi para fora. Placar final: 0 a 0. Apesar de o resultado ter sido bom para os brasileiros, ficou uma sensação um tanto estranha no ar. A impressão era que se o Corinthians tivesse caprichado um pouco nas finalizações, poderia ter saído com os três pontos do México. Essa equipe cria, cria e cria jogadas, mas não aproveita as oportunidades. Esse é o mal do time corintiano na Libertadores e no Campeonato Paulista. A defesa está dando conta do recado, enquanto o ataque está deixando a desejar faz algum tempo. 15 de março de 2012 – quinta-feira Após o bom empate fora de casa, a decisão pela liderança do grupo 6 da Liberta ficou para o jogo de volta no Brasil, na semana que vem. Os jogadores do Timão chegaram hoje à São Paulo, pelo aeroporto de Cumbica, esbanjando confiança. Todos ressaltavam a boa atuação e o ponto conquistado. O treinador valorizou a forma inteligente da equipe jogar, não dando espaço para o adversário e dominando, segundo suas palavras, dois terços do jogo. O único aspecto a se lamentar era a falta de pontaria do ataque. “Teve desempenho para vencer o jogo. Talvez por infelicidade ou maior treinamento (não conseguimos). Precisa traduzir esse volume maior em gol”, disse Tite. Segundo o Datafolha, o Timão chutou 14 vezes ao gol adversário. Somente uma bola foi corretamente na direção da meta (e foi defendida pelo goleiro do Cruz Azul). A outra bola que foi ao gol foi chutada pelo próprio defensor mexicano. Novamente, o goleiro salvou o que seria um gol contra. Liedson agora chegou a 10 partidas sem marcar em 2012. É muito pouco para quem foi artilheiro do time no ano passado. Obviamente, os jogadores não falaram sobre isso, mas a sensação unânime da Fiel Torcida é que o Cruz Azul não aguentará a pressão de jogar no Pacaembu lotado. Em casa, com o apoio de sua fanática e barulhenta torcida, o Timão deve vencer o jogo. Provavelmente não será fácil (afinal, quando o Corinthians venceu uma partida tranquilamente?!), mas a vitória deve vir. Conversei com vários amigos corintianos hoje e todos aprovaram a forma como o time está jogando. Para eles, o técnico Tite está colocando em campo uma formação com cara de Libertadores. A equipe defende bem, toca bem a bola e consegue dominar o adversário sem correr grandes riscos. O único problema é o baixo poder de conclusão dos atacantes. As finalizações equivocadas estão tirando o sono de toda a nação corintiana. Como será agora sem o Adriano, hein? Liedson está muito mal, tanto técnica quanto fisicamente. E, desde segunda-feira, não há um substituto à altura do Levezinho. Élton e Bill, os outros dois centroavantes do elenco corintiano, não têm a menor condição para entrar em campo em um jogo internacional, pelo amor de Deus! É preciso a contratação de um novo homem de frente com urgência. Trata-se da única peça faltante para a engrenagem corintiana ficar perfeita. Por isso, volta-se a especular sobre um provável retorno de Carlitos Tevez ao Parque São Jorge. De novo essa história??! Não entendo os dirigentes. Se o empresário do argentino já disse que ele irá continuar na Europa, por que insistir nessa questão e iludir o torcedor? Além do mais, essa é uma negociação muito cara. Sinceramente, não a considero boa financeiramente (tecnicamente, Tevez é melhor do que todos os atacantes corintianos juntos). Porém, contratação cara é quando o jogador fica ganhando sem mostrar interesse em jogar, como era o caso do Imperador. Essa sim foi uma contratação caríssima. Agora, se Tevez vier por alguns milhões de euros e conseguir conquistar a Libertadores para a gente, terá sido a contratação mais barata da história. Acho improvável ele vir, mas não custa sonhar. 16 de março de 2012 – sexta-feira A sexta-feira foi calma no Centro de Treinamento Joaquim Grava. Parte dos jogadores titulares apenas correu em volta do campo principal. Na lista de quem foi ao gramado para a corridinha marota tivemos Chicão, Ralf, Edenílson, Fabio Santos e Leandro Castán. Paulinho apareceu, mas ficou de chinelo acompanhando o treino dos reservas. Os demais atletas preferiram se recuperar na academia. A partida de quarta-feira foi desgastante e a longa viagem de volta da Cidade do México na quinta-feira também foi extremamente cansativa. Tite já definiu que vai escalar os jogadores suplentes para o jogo contra o Comercial no próximo domingo em Ribeirão Preto pelo Paulistão. A equipe corintiana será a mesma do empate com o Guarani na última rodada. A exceção será a entrada de Welder na lateral direita na vaga do agora integrante da equipe titular Edenílson. Dessa maneira, o Timão jogará com: Danilo Fernandes; Welder, Marquinhos, Antônio Carlos e Ramon; Gomes, Ramirez e Douglas; Willian, Élton e Emerson. Líder do torneio estadual com 30 pontos, o Corinthians está a apenas um ponto à frente do rival Palmeiras. Por isso, precisa vencer o próximo compromisso para permanecer na atual posição da tabela de classificação. O Comercial é o lanterna do Paulistão com apenas 7 pontos ganhos. Ou seja, não deve trazer muitos inconvenientes para os reservas corintianos. Vai para cima deles, Timão! Agora falemos um pouco de fofoca. A saída de Adriano ainda tem sido tema de conversas nos bastidores do clube. Alguns diretores afirmam que o afastamento definitivo do atacante do Parque São Jorge foi ocasionado por problemas com a bebida. O atleta teria dificuldade para ficar longe do álcool. Como consequência, engordava constantemente. Há quem diga que o Imperador já estaria negociando sua volta ao Flamengo. Diante de tantos boatos, é difícil saber em quem acreditar. Sem Adriano, o Corinthians também não terá Chen Zhi Zhao. O chinês contratado oficialmente no começo do mês se machucou nessa semana. Ficará, assim, 30 dias sem poder treinar. O problema com o atacante asiático foi ocasionado por uma luxação no ombro esquerdo quando realizava atividade com bola no Centro de Treinamento. Sinceramente, não se trata exatamente de um desfalque para Tite. A baixa será mais do departamento de Marketing. E por falar nisso, Zizao tem se destacado bastante fora das quatro linhas. Ele participou de vários eventos e se mostrou muito simpático. Dentro de campo, nos treinamentos, o desempenho do chinês ainda é uma incógnita. Já li matérias jornalísticas dizendo que Zizao é um ótimo chutador de bolas paradas, tendo alcançado excelente índice de acertos nos treinamentos. Em outras reportagens, os repórteres esportivos afirmam que o atacante asiático é um péssimo batedor de pênaltis, não acertando quase nenhuma cobrança. Como pode o cara ser bom em bola parada e péssimo em pênaltis, hein? Juro que não tenho uma opinião formada sobre a qualidade técnica do atleta. Prefiro vê-lo nas ações de Marketing a tê-lo dentro das quatro linhas jogando pelo meu time. 17 de março de 2012 – sábado Algo passou meio despercebido pela maioria dos torcedores do Timão no último jogo. Chicão voltou a ser o capitão do Corinthians. Além disso, o defensor foi decisivo para a manutenção do empate do time brasileiro na partida contra o Cruz Azul. Ele salvou uma bola em cima da linha no último minuto. Eu disse NO ÚLTIMO MINUTO!!! O camisa 3 já foi o capitão do time do Parque São Jorge. Ele carregava a braçadeira desde o início do ano passado. Chicão assumiu o posto de liderança do zagueiro William, seu antecessor, que se aposentou no término da temporada de 2010. Nascido em Mogi Guaçu, interior paulista, e atualmente com 30 anos, Anderson Sebastião Cardoso (Chicão é apelido) disputou a maioria dos jogos de 2011 como capitão. Isso até a fatídica tarde de 20 de setembro, véspera do jogo contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro. Desejando melhorar o sistema defensivo que estava tomando muitos gols pelo alto, o técnico Tite resolveu sacar o camisa 3 do time. Promoveu, assim, a entrada do zagueiro reserva Paulo André, mais alto e melhor nas cabeçadas. Chicão não gostou da atitude do treinador e pediu para não ficar no banco de reservas naquele jogo contra o tricolor paulistano. Sem nenhum defensor na suplência, o Timão foi para o Morumbi. Com muita raça, conseguiu segurar um empate na casa do seu grande rival. O placar final ficou em 0 a 0. A reação de Chicão foi recebida da pior maneira possível dentro do elenco de jogadores, pela comissão técnica, pelos dirigentes e pelos torcedores corintianos. Muita gente chegou a pedir que o atleta fosse negociado ou expulso do clube. Entretanto, Chicão foi apenas afastado pela comissão técnica por alguns dias. Percebendo seu erro, o camisa 3 pediu desculpas ao Tite e aos companheiros. Ele continuou treinando normalmente e foi escalado, mais tarde, em algumas partidas daquele campeonato. Afinal, os titulares precisaram se ausentar por suspensões ou contusões. O ano de 2012 começou com Chicão no banco. Paulo André e Leandro Castán se transformaram na nova dupla de zaga titular do Coringão. A função de capitão passou a ser desempenhada pelo lateral Alessandro. Com as recentes contusões do titular Paulo André e do reserva Wallace, Chicão voltou à equipe principal. E na partida contra o Cruz Azul, recebeu novamente a faixa de capitão (Alessandro estava ausente). "Eu me senti muito bem voltando a ter essa função. Já fui capitão da equipe e sei a responsabilidade que é. Independentemente de ser o capitão ou não, tento mostrar ao treinador e aos companheiros que podem confiar em mim dentro de campo para exercer essa liderança. Isso é o mais importante", disse o zagueirão na chegada ao aeroporto de Cumbica em São Paulo. Parabéns, Chicão! Você conseguiu dar a volta por cima, sem reclamar nem culpar os outros pelos seus erros. Para os que trabalham corretamente, as coisas boas acontecem naturalmente. Todos nós estamos sujeitos a cometer erros, mas o caráter das pessoas é medido pela forma como elas superam as adversidades. Chicão é o capitão perfeito para um time campeão. 18 de março de 2012 – domingo Estamos na 14ª rodada do Campeonato Paulista. Ontem, na abertura dos jogos do final de semana, o Palmeiras venceu em casa a Ponte Preta por 2 a 1. O Palestra pulou, assim, para a ponta da tabela de classificação. Além de líder, a equipe de Luiz Felipe Scolari continua invicta na competição (9 vitórias e 5 empates). Apesar dos palmeirenses estarem eufóricos, para mim o Palmeiras está um nível abaixo do São Paulo e dois aquém de Santos e Corinthians. Por causa da desgastante viagem ao México, os atletas titulares do Timão foram poupados do confronto desse domingo contra o fraco time do Comercial, em Ribeirão Preto. Os reservas foram enviados a campo mais uma vez no torneio estadual. O primeiro tempo foi bem movimentado. O Corinthians levou muito mais perigo ao gol adversário. Querendo mostrar ao técnico que estava recuperado de contusão e que poderia voltar ao time titular, Emerson Sheik se destacava positivamente. O atacante carioca chutou duas bolas na trave, sendo uma delas antecedida por uma arrancada magnífica do campo de defesa. Apesar do domínio corintiano, quem abriu o marcador foi o time da casa. Após um chute forte de fora da área, o Comercial fez 1 a 0. Não deu tempo para a equipe do interior comemorar. Logo em seguida, Élton foi agarrado dentro da área. O juizão marcou pênalti. Emerson cobrou e igualou o placar. No segundo tempo, o panorama mudou. Quem voltou melhor foram os atletas ribeirão-pretanos. Após cobrança de escanteio, o Comercial fez 2 a 1. Com o Timão olhando o adversário jogar, o Comercial chegou ao terceiro gol. Ainda bem que o juiz anulou. Contudo, mais alguns minutos e a equipe da casa fez outro gol, esse sim legítimo. Dessa vez, a defesa corintiana contribuiu para a bola alcançar as redes de Danilo Fernandes. 3 a 1 no placar do Estádio Palma Travassos. Vendo a apatia de seus comandados, Tite promoveu alterações no ataque. Colocou Gilsinho, Vitor Júnior e Bill. Com um time mais ofensivo, o Timão foi para cima do adversário. E o que parecia impossível aconteceu. No último minuto regulamentar, em cobrança de escanteio de Vitor Júnior, Gilsinho cabeceou para dentro do gol e diminuiu a diferença. Na sequência, já nos descontos da partida, Bill fez um cruzamento da direita. O goleiro do Comercial não conseguiu segurar a bola e ela caiu na frente do lateral-esquerdo Ramon. Rápido e decisivo, o lateral só precisou chutar a bola para dentro da meta adversária. Gol do Coringão!!! 3 a 3. Incrível empate! O Corinthians conseguiu um empate com sabor de vitória em Ribeirão Preto. Assim como havia acontecido na última quarta-feira no jogo do México, os corintianos saíram do estádio felizes com a igualdade no marcador. O problema ficou restrito à tabela de classificação. Com os dois pontos perdidos hoje, o Timão caiu para o terceiro lugar. O líder é o Palmeiras com um ponto a mais (32). O São Paulo é o segundo com o mesmo número de pontos do alvinegro da capital (31), mas com saldo de gols melhor (15 a 10). O Santos estacionou nos 27 pontos, na quarta posição. 19 de março de 2012 – segunda-feira Esta é uma semana decisiva para os atletas do Parque São Jorge. Os próximos dois jogos são de extrema importância para o clube e para os torcedores. Na quarta-feira, teremos um novo duelo com o Cruz Azul pela Libertadores. A partida será disputada dessa vez no Pacaembu. A vitória representará a tomada, pela primeira vez no ano, da liderança do Grupo 6 da competição sul-americana. Uma derrota não representaria a eliminação do time brasileiro, mas tornaria a classificação bem mais difícil, além de conturbar o calmo ambiente do clube. Logo em seguida, já no domingo, será dia de clássico com o Palmeiras. Os eternos rivais jogam no Pacaembu brigando pela ponta da tabela do Paulistão. Para o estadual, o jogo em si não vale muito. As duas equipes vão se classificar para a próxima fase. Por outro lado, para os torcedores, a partida representa muito. Vencer o clássico é certeza de passar alguns dias caçoando e fazendo piadas com os torcedores adversários. É uma delícia vencer o Derby! O técnico Tite já declarou que irá manter a formação dos últimos dois jogos da Libertadores (vitória contra o Nacional do Paraguai e empate com o Cruz Azul) na partida desse meio de semana. O quarteto ofensivo será composto por Danilo, Alex, Jorge Henrique e Liedson. Mesmo com as boas atuações de Emerson Sheik na equipe reserva, o gaúcho disse que prefere manter a formação que vem dando certo. "Tanto o Emerson quanto o Willian já tiveram suas qualidades comprovadas, mas é questão de momento. O Emerson saiu porque se machucou. Quem entra bem vai jogar. Tem um pouco dessa lei do jogo”, declarou o comandante campeão brasileiro. Emerson era o titular da equipe e só saiu do time devido a uma contusão. Como Jorge Henrique entrou muito bem (é impossível tirá-lo agora dos jogos mais importantes), restará ao Sheik esperar uma nova oportunidade. O camisa 11 parece entender bem a situação. Por falar em peças que estão dando certo, a lateral direita continuará sendo ocupada por Edenílson, mesmo com a recuperação clínica de Alessandro. Para nosso treinador, Alessandro precisa readquirir a forma física. Ele está muito tempo inativo. A única preocupação da nação corintiana continua sendo a defesa. Por causa da convocação de vários atacantes para o torneio continental (entre eles o demitido Adriano), Tite tem apenas quatro zagueiros aptos a jogar na Libertadores. Como dois deles estão machucados (Paulo André e Wallace), não resta nenhum reserva para Chicão e Castán. O mesmo ocorre com os volantes. O único reserva de Paulinho e Ralf era Edenílson. Com o rapaz se destacando positivamente na lateral, não há agora opção no banco de reservas para a contensão no meio de campo. Eu adoro o Tite e acho o seu trabalho à frente do Corinthians espetacular. Porém, ele errou feio na convocação dos 25 jogadores para o torneio continental. Ele pareceu um treinador amador por preferir os atletas mais badalados ao invés de se ater às posições necessárias. Ainda bem que a primeira fase da Liberta tem um nível técnico baixo. O Timão não terá dificuldades para avançar à próxima etapa mesmo se ficar sem defesa. A partir das oitavas de finais, será necessária uma readequação dos jogadores selecionados. Precisamos de mais gente lá atrás e menos na frente! 20 de março de 2012 – terça-feira Começam a chegar notícias mais esclarecedoras sobre a demissão de Adriano. Diferentemente das primeiras declarações oficiais, a rescisão contratual não foi selada amigavelmente entre as partes. A diretoria alvinegra veio a público informar agora que o atacante carioca foi demitido por justa causa. Dessa maneira, ele não terá direito aos salários dos próximos meses (como estipulado no contrato em caso de interrupção), nem receberá o valor da multa rescisória (como exigem seus empresários). Trata-se de uma ótima notícia. Até que enfim alguém acabou com as regalias e com os comportamentos antiprofissionais desse sujeito. A gota d'água teria acontecido na sexta-feira, 9 de março. Como não fora selecionado para o jogo contra o Cruz Azul pela Libertadores, Adriano não viajaria com o grupo principal para a Cidade do México. Ficaria, assim, concentrado com a equipe reserva para o jogo do dia seguinte contra o Guarani pelo torneio estadual. Como ocorria em todas às sextas-feiras, o preparador físico pediu para Adriano subir na balança para se pesar. O atacante, surpreendentemente, se negou a cumprir a obrigação. O Imperador xingou o profissional do clube e falou que não precisava se sujeitar àquilo. O técnico Tite foi chamado para interceder. Mesmo assim, Adriano novamente se posicionou contrário à pesagem. Evidentemente, já devia estar ciente de ter ganhado alguns quilos nos últimos dias. Não restou outra saída ao novo presidente corintiano, Mário Gobbi, a não ser demitir o jogador. Além desse problema comportamental, outros começam a chegar para a imprensa (e, como consequência, para o público geral). Segundo alguns profissionais de dentro do clube, Adriano teria faltado a mais de 60 sessões de fisioterapia. Repare que eu disse 60! Essas seções visavam a recuperação do tendão de Aquiles, operado no ano passado. As faltas e os atrasos aos treinamentos convencionais também eram públicos e notórios. Para terminar, havia boatos que ele tinha ido treinar algumas vezes alcoolizado. Isso eu já acho exagero. Não posso acreditar em algo do tipo, por favor! Nesse episódio marcante da atual temporada, devo ressaltar a atitude corajosa e destemida do presidente Mário Gobbi. Diferentemente do antecessor, muito amigo do jogador e conivente com os erros do Adriano, Gobbi foi perfeito ao não aceitar o antiprofissionalismo do centroavante carioca. Com um vasto arsenal de documentos coletados sobre as faltas do jogador nos últimos meses, o presidente não titubeou em mandá-lo embora. E em grande estilo: justa causa! Segundo as declarações dos advogados do clube que tiveram acesso ao dossiê do atleta, dificilmente o Corinthians perderá o litígio na Justiça do Trabalho. Além de ter sido um peso morto para a equipe ao longo do período passado no Parque São Jorge, Adriano poderia contaminar o bom ambiente entre jogadores e comissão técnica. Se a contratação do Adriano se mostrou um erro desde o começo, a sua manutenção por tanto tempo era ainda pior. Parabéns, Gobbi! Parabéns, Corinthians! Vocês se livraram de uma praga! A porta da rua é a serventia da casa. 21 de março de 2012 – quarta-feira Era dia de abertura do segundo turno da fase de grupos da Libertadores para as equipes de Cruz Azul e Corinthians. Depois do confronto no México, os times agora se enfrentavam no Pacaembu. A equipe do Parque São Jorge manteve os mesmos jogadores da boa atuação fora de casa: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Alex, Jorge Henrique e Liedson. Por volta das 19 horas, ligo o rádio para ouvir as últimas notícias sobre o duelo de logo mais. Um repórter situado em frente à entrada principal do estádio relatava haver ainda ingressos disponíveis para o jogo. Não havia filas nas bilheterias e quem tivesse interesse poderia comprar os tickets a partir de R$ 200,00. O empolgado profissional da imprensa chamava o público para comparecer ao espetáculo. Segundo sua avaliação, o estádio não estaria lotado e quem desejasse ir ao local em cima da hora podia ainda adquirir suas entradas facilmente. Definitivamente não era o meu caso. Por esse valor, eu preferia ver a partida pela televisão mesmo. Quando Cléber Machado iniciou a transmissão do jogo por volta das 22 horas, as imagens da Rede Globo me surpreenderam. O estádio estava bem cheio, quase lotado. Até mesmo os setores mais caros tinham um grande público. Com certeza, muitos interessados se prontificaram ao chamado do repórter radiofônico, comparecendo às bilheterias na última hora. O jogo começou morno. O Corinthians atacava sem levar grande perigo. Também não dava espaço para o time mexicano lá trás. As principais jogadas do alvinegro foram criadas em chutes de fora da área de Alex e Liedson. O centroavante esteve novamente mal e atrapalhou os esforços dos demais atacantes. O primeiro gol surgiu no final do primeiro tempo. Em cobrança de falta de Alex, Danilo se posicionou bem dentro da grande área e cabeceou para a meta mexicana. Corinthians 1 a 0. Festa da torcida no Pacaembu! O segundo tempo iniciou com o Timão botando grande pressão no adversário. Foram criadas várias oportunidades. Quem salvou o Cruz Azul foi o ótimo goleiro mexicano. Até parecia que o arqueiro estava com imãs nas mãos. Ele foi perfeito na segunda etapa e realizou uma série de defesas difíceis. Com a entrada de Emerson no lugar de Liedson, o Corinthians melhorou ainda mais. Novas chances para ampliar o marcador apareceram. Para facilitar as coisas para os mandantes, o juiz expulsou equivocadamente um jogador do Cruz Azul. Emerson simulou uma falta. O juizão caiu na dele. Como o atleta faltoso já tinha cartão amarelo, foi mais cedo para o vestiário. O Cruz Azul só teve uma chance de gol no segundo tempo. E que chance! No último minuto, o atacante mexicano chutou na trave de Júlio César. Um susto enorme para os corintianos no estádio e em frente à televisão. Após bater no poste, a bola ainda percorreu a pequena área até ser chutada para fora pela defesa. Essa foi uma típica vitória corintiana: 1 a 0 com susto no final. Somos líderes agora! A missão de vencer os jogos em casa e empatar os disputados fora estava se mostrando correta. 22 de março de 2012 – quinta-feira Como de costume, passei hoje na banca de jornal do meu bairro. Wagner, o proprietário, me avisou que já tinha chegado a revista Placar de março. Wagner é muito gente fina. Às vezes passo lá só para conversar com ele e trocar umas ideias. Como todo cara divertido e inteligente, ele é corintiano. Enquanto pagava a revista, falamos sobre a vitória do nosso time na noite anterior. Perguntei se ele achava que dessa vez iríamos ganhar a Libertadores. Com a sinceridade habitual, Wagner respondeu na lata: "Se as bolas como aquela aos 45 minutos do segundo tempo de ontem continuarem batendo na trave e saindo, esse título é nosso. O duro é se na fase do mata-mata essas bolas começarem a bater na trave e entrar. Aí vai ser dureza!". Sabe que ele tem razão, né? Não adianta nada o time jogar os 89 minutos super bem e só fazer um gol. Precisa abrir uma margem confortável no placar para não matar a Fiel do coração no finalzinho. Imagina só nas quartas de final ou em uma semifinal, uma bola como aquele no último minuto da partida! Não importa se ela entre ou não, o fato é que ela mataria de susto um monte de gente na arquibancada. Ao voltar para casa, fiz um lanche e fui para o quarto ler a revista recém-adquirida. Na capa, estava a dupla de volantes Ralf e Paulinho. O título da publicação era: "Feitos um pro outro - Eles são os melhores volantes do Brasil. E a base desse Corinthians que pode, enfim, conquistar a Libertadores". A manchete da Placar seria um presságio, hein? A revista antevia a nossa consagração definitiva no torneio sul-americano. Na reportagem, os dois jogadores tiveram suas características esmiuçadas. Enquanto Ralf é enaltecido pela força física, pela garra e pela marcação impecável, Paulinho é retratado como um meio-campista de excelente saída de bola e ótima chegada ao ataque. Em suma, enquanto um garante a paz da defesa, o outro é responsável por levar a bola ao ataque. As semelhanças entre eles estão na pouca idade (Ralf tem 27 anos e Paulinho 23) e no fato de terem jogado em times de menor expressão antes de aportarem no Parque São Jorge. Concordo com a matéria. Os dois volantes são a alma do time corintiano. Com eles em campo, o Corinthians é um. Sem algum deles (Deus não me permite imaginar a ausência de ambos ao mesmo tempo na equipe!), o time é outro: mais fraco e despreparado. Para alegria dos 30 milhões de loucos da República Popular do Corinthians, os contratos dos dois jogadores foram renovados nesse mês. Ralf fica pelo menos até o final de 2013. Paulinho permanecerá até a Copa do Mundo de 2014. Saúde, vida longa e muito futebol para os dois craques do meio campo do Timão! Na mesma revista, também há uma matéria falando de Montillo e sua permanência no Cruzeiro. O meio-campista argentino se mostra feliz com a renovação contratual com a equipe mineira. Porém, segundo dizem, o Corinthians ainda não desistiu de trazê-lo. Novamente essa história, Santo Deus! Quem tem Danilo e Alex não precisa de Montillo. Vamos seguir em frente e deixar o rapaz trabalhando tranquilamente na Toca da Raposa, por favor! Esse assunto é típico do mês de dezembro e janeiro. Agora já estamos entrando em abril e a vida e os campeonatos seguem. 23 de março de 2012 – sexta-feira Sexta-feira é dia de relaxar e não pensar em futebol. Por causa do O Ano que Esperávamos Há Anos, estou me sentindo pressionado. Acompanho diariamente os acontecimentos futebolísticos relacionados ao meu time. Costumeiramente, eu não ficava tão ligado assim aos episódios esportivos. Parece que esse assunto não sai agora da minha cabeça, mesmo quando não quero pensar a respeito. Em todos os lugares aonde vou, com todos com quem falo e tudo o que faço, me deparo sempre com algo relacionado à Libertadores e ao Corinthians. É de assustar! Foi o que aconteceu hoje. Como nos últimos finais de semana, saí com a Thalita. Não havia nada de errado com ela. O problema era a minha paranoia. Thalita foi vestida, para nosso encontro, com uma calça preta e uma camiseta branca com pequenas listras na vertical. Ou seja, ela foi com uma roupa que fazia referência ao uniforme corintiano. Quando a indaguei sobre a semelhança, ela não concordou. Por ser são-paulina, ela disse que jamais faria algo assim. Para completar, me acusou de ser muito fanático por fazer uma correlação como aquela. Ao invés de elogiá-la – pior (ou melhor) é que ela estava mesmo muito gata –, eu vinha com papinho de futebol. Apesar da minha gafe inicial, tudo bem até aí. O problema é que as coisas só pioraram ao longo da noite. Uma infinidade de outros aspectos me fazia lembrar do Coringão. O Santo Expedito pendurado no retrovisor do carro da Thalita tinha aparência de São Jorge. O veículo era da marca Hyundai, o possível novo patrocinador do Timão. Por morar na Zona Leste, Thalita queria visitar um barzinho dançante na Penha. O bairro é próximo de Itaquera, onde o Corinthians está construindo seu novo estádio (ela não quis dar uma passadinha lá para conferirmos as obras). O bar ficava entre as ruas Amorim Diniz e Dr. Almeida Abbade. Amorim e Abbade! Impossível não me lembrar do técnico Eduardo Amorim e do ex-juiz Cléber Wellington Abade. O primeiro levou o Corinthians ao primeiro título de Copa do Brasil, em 1995. O segundo foi o árbitro do confuso clássico entre Santos e Corinthians de 2005, quando a torcida santista invadiu o campo revoltada com a arbitragem. Nossa mesa ficava do lado de fora do estabelecimento (o interior era reservado à pista de dança e ao palco de shows). E quem fez a abertura musical naquela noite? As Poderosas do Funk. As Poderosas, entendeu? Como o Poderoso Timão! Na hora de pedirmos as bebidas, eu escolhi um chopp. A Thalita optou por um drink chamado Mojito mexicano. Mexicano! O país do Cruz Azul, último adversário do Timão na Liberta! Alguém pode dizer que estou ficando louco, mas Mojito não lembra o nome de um jogador argentino que o Corinthians queria contratar no início do ano, hein?! Outra coincidência: sabe quem estava naquele barzinho da Penha? Um ex-jogador do Timão da década de 1990. A Thalita também encontrou uma amiga dos tempos da faculdade chamada Marlene. Isso mesmo, Marlene, como Marlene Matheus, a esposa do folclórico presidente do Corinthians. Para completar, até nos momentos mais românticos com a Thalita, me lembrava das marcas patrocinadoras da camisa do Timão. Acho que O Ano que Esperávamos Há Anos está me deixando louco. 24 de março de 2012 – sábado Hoje, fui visitar minhas duas avós. Como nenhuma delas mora perto uma da outra, nem de mim, aproveitei para passar antes na banca de jornal perto de casa. Comprei algo para ler no caminho. Aproveitaria as horas passadas nos ônibus para me atualizar. Sabendo que amanhã tem Corinthians e Palmeiras, comprei o jornal O Lance! Peguei também uma revista Veja. Quando estava indo pagar as compras, vi uma revista com o título: "Timão: O Todo-Poderoso". É claro que a levei comigo. Tratava-se de uma revista desconhecida chamada Fut. Só comprei mesmo por causa da chamada de capa (acho que era essa a intenção do editor). Ao lê-la depois, descobri que a Fut era a revista mensal do grupo Lance! Na ida até a casa da minha avó que mora na Cachoeirinha, Zona Norte de São Paulo, fui lendo o jornal esportivo. Nele, descobri que Alex estava fora do jogo de domingo. Tite escalaria, em seu lugar, Emerson Sheik. Além disso, Alessandro continuava machucado e a lateral direita seria ocupada mais uma vez pelo polivalente Edenílson. Ou seja, duas ótimas notícias! Tanto Alex quanto Alessandro estão muito mal tecnicamente. Emerson sempre que entra na equipe é o destaque positivo do jogo. Edenílson também sempre faz boas atuações como lateral. Liedson, apesar da má fase, continua na equipe titular. O time corintiano está escalado para o clássico com: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho e Danilo; Jorge Henrique, Emerson e Liedson. No lado palmeirense, o ausente será Daniel Carvalho, machucado. Dessa maneira, Valdívia começará o jogo como titular. É curioso como os palmeirenses gostam desse jogador. Não consigo ver graça nenhuma no futebol do chileno. A presença de Valdívia é certeza de bom resultado para a gente. Sempre que joga, ele nunca faz nada e o Timão sempre vence o clássico. Perigoso mesmo é o centroavante Barcos. O argentino mal chegou ao Parque Antártica e desembestou a fazer gols de todos os tipos. Este sim é o gringo bom de bola do outro lado. Depois de ver a primeira das matriarcas da família, segui para a casa da outra avó, na Vila Madalena. No trajeto, li a tal revista Fut. Nela os jornalistas retratam, em sua matéria de capa, a evolução administrativa do Sport Club Corinthians Paulista nos últimos anos. Os títulos recentes, os grandes jogadores contratados, o aumento das receitas de patrocínio, de cota de televisão e de renda dos jogos, a construção do novo estádio, a finalização do centro de treinamento e o crescimento da torcida são apontados como um excelente case de negócios. O clube mais popular do Estado de São Paulo é considerado o mais bem organizado e lucrativo do país. Lendo a reportagem pude ter certeza de que anos melhores ainda virão. Diferentemente das equipes limitadas e das confusões nos bastidores, o Corinthians atual, enfim, se planejou para alcançar voos (e títulos) maiores. Voltei para casa mais tranquilo. Tenho agora certeza da conquista da Libertadores. O título é questão de tempo. Se o tão desejado troféu não vier em 2012, ele virá nos próximos anos. Ah, minhas avós estão ótimas. Obrigado por perguntar delas! 25 de março de 2012 – domingo Hoje teve Derby: Corinthians e Palmeiras. Assisti ao jogo pela televisão ao lado de minha mãe. É curioso assistir aos jogos ao lado dela. Ela grita, se preocupa e vibra com lances que eu não acho merecedores de tamanha emoção. Nos instantes para mim eletrizantes, ela não valoriza. Isso acontece quase sempre. Minha mãe não é fanática nem acompanha sistematicamente o futebol. Só de vez em quando, ela gosta de assistir à partida de domingo ao lado do filho. Como na maioria das vezes ela traz sorte, não me incomodo com sua presença, chegando até a gostar de suas reações. Como sempre faço antes do pontapé inicial, dou uma rápida explicação do contexto da partida para minha mãe. Falo sobre a importância do jogo e os desdobramentos dele para o futuro do Timão. Dessa vez, preferi ser curto e grosso: "Mãe, essa partida não é da Libertadores. É Campeonato Paulista! O jogo em si não vale muita coisa. Porém, como é contra o Palmeiras, precisamos ganhar". Ela entendeu o recado. Depois de me ver gritando em todas as faltas e escanteios cobrados pelo adversário, a mulher que me colocou no mundo perguntou: "Por que você fica agitado nas cobranças de falta e escanteio?". Aí tive que explicar que o nosso rival era time de uma única jogada: as bolas paradas cobradas por Marcos Assunção. Ela não acreditou em mim até o volante palmeirense acertar o primeiro chute. Do meio de campo, ele colocou a bola no ângulo. 1 a 0 para eles. Cadê o Júlio César nessa hora?! O Palmeiras continuou jogando melhor. Poderia ter feito mais gols no primeiro tempo. Apenas nos últimos quinze minutos da primeira etapa, o Corinthians resolveu acordar, começando a incomodar um pouco o gol defendido pelos palmeirenses. A alegria da minha mãe no primeiro tempo foi ver o Jorge Henrique apanhar. Em todo lance que ele pegava na bola, recebia um pontapé. Quase não parava em pé. Na quinta ou na sexta vez, minha mãe já estava com dó do jogador. Imediatamente, ele passou a ser o ídolo dela dentro de campo. "Esse sim joga com raça e dá o sangue pelo time", observou. É, literalmente ele estava dando o sangue em campo. O segundo tempo começou perfeito para os alvinegros. Aos três minutos, Jorge Henrique cobrou falta. A defesa palmeirense se atrapalhou e Paulinho empatou. Três minutos depois, nova falta cobrada por Jorge. E nova falha da defesa adversária. Dessa vez, o zagueiro palmeirense fez contra. 2 a 1 para o Timão e virada espetacular no Pacaembu! A partir daí, o show corintiano começou para valer. A equipe do Parque São Jorge criou uma infinidade de chances. A goleada só não aconteceu porque o camisa 1 do Palestra estava inspirado. Como esse time corintiano gosta de perder gol! Com a derrota, o Palmeiras perdeu a invencibilidade de 21 jogos e a liderança da competição. O Timão subiu para o segundo lugar, enquanto os palmeirenses caíram para terceira posição. Os próximos dias serão de grande felicidade para os corintianos. Já até consigo antever as inúmeras gozações que os palestrinos terão de suportar. Como é bom ganhar um clássico, né? 26 de março de 2012 – segunda-feira Na segunda-feira de manhãzinha, já era possível constatar as primeiras piadinhas relacionadas à vitória do dia anterior: "Ganhar do Palmeiras é que nem preparar Miojo. Em três minutinhos está pronto"; "Sabe qual é a diferença entre o Palmeiras e o Titanic? O Titanic afundou no mar e o Barcos do Palmeiras afundou no gramado do Pacaembu!"; "É mais difícil enfrentar o Guarani do Interior do que o Guarani da Capital (Palmeiras). Afinal, o primeiro empatou com o Timão e o segundo perdeu, merecendo ser goleado"; e "O Palmeiras na liderança é como um elefante em cima da árvore. Ninguém sabe como ele foi parar ali, mas todos sabem que ele vai cair logo mais". Essas foram as piadinhas mais recentes relacionadas à vitória corintiana no clássico. Entretanto, existem outras, coletadas ao longo de 2012. Elas também merecem ser citadas nessa data especial: "O goleiro Marcos parou de jogar. O Palmeiras deveria seguir o exemplo de seu maior ídolo e fazer o mesmo em consideração a sua torcida"; "Todo ano o Corinthians lança um filme no cinema sobre suas conquistas ou sobre a paixão de sua torcida. Pensando nisso, a diretoria do Palmeiras está cogitando copiar a ação do rival. O único problema é em relação ao nome do longa-metragem. O nome mais adequado, À Espera de Um Milagre, já foi usado..."; "Sabe por que a Kia Motors decidiu patrocinar o Palmeiras? Porque tanto na fábrica da montadora quanto no time palmeirense há um monte de besta"; "Você se lembra do último título importante do Palmeiras? Não vale citar o da série B! Não se lembra, não? Pergunte ao seu pai, ele talvez estivesse vivo na época e se lembre"; e "Os times favoritos para o título paulista desse ano são os quatro grandes de São Paulo: Corinthians, São Paulo, Santos e Portuguesa". Ah, não acabou não. Aí vão mais algumas piadinhas: “Depois de ir à Cracolândia, a PM (Polícia Militar) vai até o Palmeiras. Lá também não encontrou nenhum craque”; "Você sabe qual a semelhança entre o Palmeiras e o Guga? Nenhum dos dois sabe jogar na grama!"; e "a diretoria do Palmeiras vendo o público dos jogos da sua equipe diminuir a cada jogo resolveu fazer uma promoção: Quem for com a camisa do Palmeiras paga meia; quem for com a camisa e o short entra de graça; e quem for com o uniforme completo e chuteira joga no time...". Agora vão as anedotas criadas e divulgadas pelos profissionais de dentro do próprio clube da Pompéia. Afinal, palmeirense também é gente e merece se divertir um pouco, nem que seja com a própria desgraça. O vice-presidente do Palmeiras, Roberto Frizzo, antes da contratação do atacante argentino Barcos, disse: "O Palmeiras não é marina para ter Barcos". Como o dirigente explica a contratação posterior do avante, hein? O Palmeiras é mesmo uma marina então?! Esta veio do técnico Luiz Felipe Scollari em uma coletiva à imprensa: "O Palmeiras é como mulher feia. Tem dias que sem maquiagem, sem pintura, sem plástica é um verdadeiro diabinho. Só com amor mesmo...". Meu amigo, quando o técnico palmeirense diz algo tão franco e sincero, não sou eu quem dirá mais nada. Ele resumiu tudo. A segunda feira deve ter sido triste e muito longa para os palmeirenses. Que pena! 27 de março de 2012 – terça-feira Infelizmente, o clássico entre Corinthians e Palmeiras não foi só alegria. A notícia mais desagradável envolvendo a partida foi a briga entre as torcidas organizadas da Gaviões da Fiel e da Mancha Alviverde antes do jogo. Os anjinhos das duas facções combinaram pela internet para se encontrar e brigar na Avenida Inajar de Souza às 10 horas. Cerca de 500 torcedores foram até o local armados com barras de ferro, paus, pedras e garrafas. Havia alguns com armas de fogo. O resultado: dezenas de feridos, várias pessoas que passavam pela região agredidas, propriedades e carros danificados e dois palmeirense baleados. Um deles acabou, horas depois, morrendo no hospital. Segundo indivíduos ligados às torcidas organizadas, a confusão ocorreu por causa de uma revanche de uma briga ocorrida no ano passado. A repercussão da violência protagonizada pelos torcedores foi tamanha que o governador do Estado de São Paulo se reuniu com a alta cúpula da polícia para traçar estratégias para acabar de vez com esse tipo de crime. Vamos ver quais serão as ações tomadas pelos órgãos públicos. Até agora, apenas quatro pessoas foram presas. Creio que já devem ter sido liberados para voltar para suas casas. O palmeirense morto também não era nenhum santinho. Ele já tinha passagem pela polícia por vários crimes, entre eles brigas com torcidas rivais. Ou seja, ele era um criminoso assim como os seus amigos e adversários na confusão. Eu não ficarei com pena dele, como muitos que acham injusta a morte de um jovem nas ruas da cidade. Uma das consequências da briga generalizada de domingo foi a repercussão internacional da notícia. Vários veículos de comunicação da Europa noticiaram o episódio protagonizado pelos torcedores no Brasil. Eles começam a se indagar sobre a capacidade dos governos municipais, estaduais e nacional do país em garantir a segurança dos turistas estrangeiros durante a Copa do Mundo de 2014. Algumas emissoras de televisão de lá de fora já começam a se organizar para fazer reportagens retratando o que eles chamam de "hooligans brasileiros". Alguns jornais brasileiros também publicaram matérias sobre os torcedores intitulados de organizados. A reportagem que me chamou mais atenção descrevia como esses torcedores recebiam ingressos gratuitos dos diretores dos clubes para acompanhar as partidas tanto em casa quanto nos jogos fora. Alguns ainda recebiam as passagens para os deslocamentos e, quando necessário, o valor da estadia para pernoitar em outras cidades. Dependendo do time, a torcida organizada tem acesso às dependências dos clubes, aos centros de treinamento e aos vestiários. Contraditoriamente, muitas vezes a violência é praticada contra a própria equipe. Os diretores e os jogadores são alvo de ameaças e de chantagens de seus torcedores. Ao ler essas reportagens, lembrei-me de uma frase da Jaqueline, uma amiga muito querida (beijo, Jaquinha). Ela sempre falava: "Cada um tem o que merece!". Sabe que ela tem razão. Os cartolas quando permitem aos criminosos o acesso privilegiado ao clube e a intimidade da gestão do time, merecem sim sofrer nas mãos deles. Afinal, cada um tem o que merece! 28 de março de 2012 – quarta-feira O grande jogo do meio de semana não seria realizado no Brasil nem na América do Sul. Os apaixonados pelo futebol do mundo inteiro tinham suas atenções voltadas para Milan e Barcelona. Essa era a primeira partida das quartas de finais da Copa dos Campeões da Europa. Combinei de assistir ao grande duelo com meu amigo Paulo. Como a partida começaria apenas às 16 horas, decidimos assistir antes a um filme no cinema do Shopping Bourbon da Pompéia. O longa-metragem escolhido foi "Raul - o Início, o Fim e o Meio", documentário sobre a vida e a trajetória profissional de Raul Seixas. O cantor baiano foi o grande ídolo da minha adolescência. Eu adorava ouvir suas músicas. Sabia de cor as letras das suas melodias. Não é necessário falar que adorei o filme. Saí emocionado da sala de cinema, relembrando os bons tempos vividos há mais de vinte anos. Com o saudosismo aflorado, pude perceber que estou ficando velho... Ser do tempo de Raul Seixas não é algo moderno, né? Depois de assistir ao documentário, eu e o Paulo procuramos um bar na Pompéia para ver o clássico europeu. Achamos um barzinho na Avenida Turiassú, bem em frente ao velho Palestra Itália. O estabelecimento escolhido era decorado com bandeiras, flâmulas e decoração da Sociedade Esportiva Palmeiras. Diante de cenário tão inóspito para dois corintianos inveterados, escolhemos meio ressabiados uma mesa. Acompanhamos o jogo bebendo cerveja. Para minha surpresa, meu amigo tomou sua bebida simultaneamente com um suco de laranja. Realmente, o Paulo é meio estranho às vezes. Quando disse isso, ele me retrucou: "Estranho é estarmos assistindo a um jogo no meio de palmeirenses. Isso sim é muito esquisito!". Ele tinha razão. O bar recebia um bom número de clientes, todos interessados em ver o jogo. A partida realizada no San Siro foi equilibrada. No primeiro tempo, quem teve as melhores chances de gol foi o time milanês. Os atacantes da equipe italiana perderam duas grandes oportunidades. Poderiam ter ido para o intervalo com vantagem. No segundo tempo, as melhores jogadas foram do Barcelona. O time visitante perdeu ótimas oportunidades. O 0 a 0 foi um pouco decepcionante para quem estava interessado apenas no jogo. Como estávamos em um bate-papo animado, eu e Paulo não lamentamos a falta de gols. O assunto principal na nossa mesa era saber se o Corinthians seria ou não campeão da Libertadores nesse ano. Meu amigo estava confiante e depositava suas fichas na conquista inédita. Eu também reforcei a aposta no sucesso do Timão na competição continental. Para terminar o passeio pelo território dos rivais, entramos na loja oficial do Palmeiras localizada na entrada do estádio. Para nossa surpresa, a lojinha era muito sem vergonha. Quase não havia opções de produtos licenciados à venda. Imediatamente, comparamos aquele pequeno bazar às lojas da rede Poderoso Timão, do Corinthians. Não é porque somos corintianos, mas os torcedores do nosso time possuem uma variedade muito maior de artigos para adquirir nas lojas credenciadas. O Palmeiras está muito atrás de seus rivais em tudo: elenco, infraestrutura, Marketing, organização, categorias de base, estádio, nível dos cartolas, loja etc. Se eles não abrirem o olho, daqui a pouco não poderão mais ser chamados de time grande. 29 de março de 2012 – quinta-feira Ainda degustava a vitória no clássico contra o rival histórico quando descobri que meu time havia entrado em campo no dia anterior. O adversário foi o fraco XV de Piracicaba. O tradicional time do interior paulista voltou para a principal divisão do estadual depois de 16 anos de ausência. O clube tem um estádio aconchegante e uma torcida fanática, mas não tem dinheiro nem estrutura para reforçar a equipe. Assim, o Nhô Quim estava apenas na 17ª colocação, na zona de rebaixamento. Sabendo das limitações do adversário e desejando poupar alguns titulares (bastante exigidos nos últimos jogos), o técnico Tite colocou novamente vários reservas em campo. A principal novidade corintiana era a estreia do goleiro Cássio, contratado no começo do ano do PSV da Holanda. Vou ser sincero: não conheço o novo arqueiro. As informações sobre ele são as melhores possíveis. O camisa 24 é descrito como um goleiro alto, jovem e experiente. Vamos ver se não vai tremer com a camisa do Timão como o jovem goleiro Renan, do Avaí. Em 2011, Renan chegou a ficar na reserva de Júlio César. Quando o titular se machucou, o novato entrou em três partidas do Brasileirão. Tomou gol até do meio de campo. O garoto, visto até então como uma grande promessa, nunca mais foi relacionado para uma partida. No início dessa temporada foi mandado embora. Espero que Cássio tenha melhor sorte. Outro destaque do jogo era a volta do lateral Alessandro, após longo tempo parado por contusão. O Timão atuou com: Cássio; Alessandro, Marquinhos, Leandro Castán e Ramon; Ralf, Ramirez e Douglas; Gilsinho, Emerson e Élton. A noite fria atraiu o menor público do Timão no Pacaembu. A proibição da entrada de membros das organizadas também influiu para o baixo quórum: menos de 7 mil pagantes. Quem foi ao estádio viu um jogo muito chato. O Corinthians não demonstrou qualquer interesse em ganhar, não atacando o adversário. O XV, por sua vez, não tinha talento suficiente para proporcionar perigo. O jogo se resumiu a trocas de passe no meio de campo. Só no final do primeiro tempo, os jogadores do Parque São Jorge demonstraram algum empenho. O gol da vitória do time da casa aconteceu logo no começo do segundo tempo. Em jogada individual, o lateral-esquerdo Ramon passou por dois adversários e chutou forte. Gol! Corinthians 1 a 0. Depois disso, novas emoções só foram sentidas no final da partida. Cássio fez bela defesa e salvou gol certo do adversário. Em outro lance, o bandeirinha anulou acertadamente um gol dos visitantes. Ufa! Vitória sofrida do Timão. E mais três pontos computados na tabela. A nota triste da noite foi a nova contusão do lateral Alessandro. O jogador voltou a sentir, ainda no primeiro tempo, dores na perna. Saiu de campo chorando. Deverá ficar mais algumas semanas no departamento médico. O lado positivo foi a boa estreia de Cássio. Se no primeiro tempo ele só assistiu ao jogo, no segundo tempo teve oportunidade para mostrar sua competência em um lance complicado. Fez uma defesa difícil e passou segurança. Como Danilo Fernandes, o reserva imediato de Júlio César, também vem jogando bem, Cássio deverá permanecer como terceira opção no gol alvinegro. Pelo visto, estamos bem-servidos de arqueiros em 2012. 30 de março de 2012 – sexta-feira Após nova vitória pelo placar mínimo, as notícias vindas do Parque São Jorge nessa sexta-feira foram: Douglas decepciona torcida em regresso ao Timão; Alessandro volta depois de um mês de inatividade e se machuca novamente; briga jurídica entre Corinthians e Adriano prossegue; e especula-se sobre a contratação de Loco Abreu para o lugar do Imperador. Na partida de anteontem, o que chamou mais a atenção da torcida foi novamente o desempenho pífio de Douglas. Ele continua jogando muito abaixo das expectativas. O Maestro não está mais tão gordo como estava quando voltou do Grêmio, mas continua lento, errando muitos passes e não conseguindo correr. Acorda, Douglas! Não sei por que o Tite não escala o Vitor Júnior quando os reservas vão a campo. Vitor foi bem na maioria das vezes que vestiu a camisa corintiana. O técnico alvinegro parece não gostar dele. De volta ao time depois de um mês afastado por problemas musculares, o lateral Alessandro mais uma vez sentiu dores na coxa. Precisou deixar o campo mais cedo. A situação do titular da lateral direita (pelo menos foi com esse status que ele começou a temporada) preocupa muito o técnico Tite. Com um histórico de lesões musculares, o experiente atleta de 33 anos fica mais jogos fora do time do que dentro de campo. A piora de seu quadro clínico preocupa ainda mais os médicos e a comissão técnica. Provavelmente ele ficará mais algumas semanas no estaleiro se recuperando. Esquenta a briga jurídica entre Sport Club Corinthians Paulista e o atacante (ou seria ex-atleta?!) Adriano. O jogador exige o recebimento da multa contratual enquanto os diretores do clube paulista alegam não ter a obrigação de fazer o pagamento. Afinal, a demissão foi por justa causa. Quem manda não trabalhar direito! Alguns advogados esportivos ouvidos pela imprensa acham difícil o jogador ganhar na Justiça do Trabalho o processo contra o antigo patrão, pois este parece ter muito bem documentado os atrasos, as faltas e as insubordinações do funcionário demitido. Um dado revelador era o salário de Adriano. Diferentemente do que era informado até então, o carioca não recebia R$ 350 mil por mês e sim R$ 500 mil. Um absurdo! A bomba jornalística da vez é o rumor do interesse do Timão pelo atacante Loco Abreu. O uruguaio, ídolo do Botafogo, teria despertado a cobiça dos diretores paulistas. Abreu viria para reforçar o elenco corintiano na próxima fase da Libertadores e chegaria para o lugar de Adriano. A má fase do atacante uruguaio e o desprezo recente da torcida da estrela solitária por ele poderiam ajudar no desfecho do negócio. Sinceramente, não gosto da ideia. Considero El Loco muito ruim. Ele é grosso, caneludo! Se é para colocar em campo um atleta com baixa capacidade técnica, coloquemos o Élton que já está aí. Além disso, tenho medo do gasto elevado para a contratação de um atleta velho, em final de carreira. É verdade que precisamos de outro centroavante para a reserva imediata de Liedson. Vamos escolher, então, com calma um nome melhor, pelo amor de Deus! Melhores do que Abreu existem muitos por aí. É só procurar direito. 31 de março de 2012 – sábado Amanhã tem Coringão na televisão. O adversário será o Oeste de Itápolis. Como a cidade interiorana onde o clube está situado não possui um estádio com a capacidade mínima para abrigar um grande jogo, a Federação Paulista marcou a partida para o Estádio Eduardo José Farah, o Prudentão. Infelizmente, o campo de Presidente Prudente não traz boas recordações para a Fiel Torcida. O Timão não ganha lá desde fevereiro de 2009. Nesse intervalo, foram 3 derrotas e 3 empates. Para voltar a vencer no Prudentão, Tite usará a melhor formação disponível. Com a ausência de Jorge Henrique e Alex, contundidos, o gaúcho já definiu a entrada de Douglas no meio de campo e de William no ataque. William, considerado uma das revelações da equipe corintiana no último campeonato nacional, volta à formação titular após algumas semanas de ausência. Nos últimos jogos, o jovem atacante contratado do Figueirense no início de 2011 andava até mesmo fora do banco de reservas. A explicação para a sua reclusão forçada apareceu hoje. A comissão técnica não gostou do comportamento de William quando ele foi substituído por Gilsinho no segundo tempo da partida contra o Comercial em Ribeirão Preto há algumas semanas. O Timão perdia de 3 a 1 e o jogador reclamou muito por ter deixado o campo mais cedo. Ele chegou até a xingar o técnico. Para piorar a situação, William viu Gilsinho ter grande atuação e fazer o gol de empate do alvinegro no último minuto daquele jogo. Assim, a indisciplina do camisa 7 rendeu-lhe um gelo e Gilsinho passou a figurar no banco de suplentes. William pediu recentemente desculpas ao técnico pelo comportamento equivocado e voltou a frequentar o banco de suplentes. Agora, terá nova oportunidade de começar um jogo desde o início. Em mais um episódio de crise em gestão de grupo, Tite demonstra ter o elenco na mão e ser um ótimo líder. Ele não aceita indisciplina de ninguém. O time corintiano para amanhã será formado por: Júlio César; Edenílson, Chicão, Leandro Castán e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e Douglas; Emerson e Liedson. Já pensando nas próximas fases do torneio regional e na fase de mata-mata da Libertadores, os jogadores corintianos vêm treinando muitas cobranças de pênalti durante os treinamentos no Parque Ecológico do Tietê. Espero que esse tipo de atividade prossiga nas próximas semanas, o que deixará os atletas do Timão bem afiados em caso de necessidade de o jogo ser decidido pelos tiros livres. A única notícia preocupante de sábado foi sobre a possível nova terceira camisa do Coringão. Depois do roxo e do grená, há indícios que o novo uniforme da equipe será na cor cinza. Eu gosto particularmente dos terceiros uniformes criados para os clubes nacionais e internacionais. Só não gosto quando os designers exageram e criam algo completamente diferente das tradições das equipes. Eu gostei, por exemplo, do roxo e não apreciei o grená. Obviamente não comprei nenhuma das duas. No armário só tenho uniformes nas cores preta e branca, as tradicionais do meu clube. Por isso, não venha com modismos para cima de mim. Em termos futebolísticos, sou tradicional, tá? ----------- Oitava série narrativa da coluna Contos & Crônicas, “O Ano que Esperávamos Há Anos” é o testemunho dos doze meses de 2012. Este relato é uma espécie de diário feito no calor das emoções por um fanático torcedor corintiano. Ele previu as conquistas de seu time do coração naquela temporada que se tornaria mágica. Nessa coletânea de crônicas é possível acompanhar os jogos do Corinthians, relembrar as decisões do técnico, entrar nos bastidores do Parque São Jorge e conhecer a vida dos principais jogadores alvinegros. O leitor também sofrerá com as angústias dos torcedores do Timão, poderá acompanhar o desenrolar dos campeonatos e, principalmente, irá se emocionar com as maiores conquistas futebolísticas desse clube centenário. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Exposições: Gold, Mina de Ouro Serra Pelada – A afirmação de Sebastião Salgado
No último sábado, fui ao SESC Avenida Paulista para ver a exposição “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada”. A mostra apresenta uma das coletâneas fotográficas mais famosas de Sebastião Salgado, o principal fotógrafo brasileiro da atualidade. Conhecido internacionalmente por seus trabalhos relacionados à ecologia e à denúncia social, Salgado ficou um mês em Serra Pelada, então o maior garimpo à céu aberto do mundo, na década de 1980. É verdade que ele não foi o primeiro fotógrafo a chegar a esta região da Amazônia paraense que vivia na época a “febre do ouro”. Porém, seus registros rodaram o mundo e serviram de afirmação para o então jovem artista. Eu conheci essas imagens ainda na escola. No final dos anos de 1980, estava no ensino fundamental e meus livros escolares já estampavam algumas dessas fotografias de Sebastião Salgado. Muitas delas não saíram mais de minha mente e se transformaram em símbolo do Brasil daquela década. Não é errado afirmar que a trajetória de Salgado como fotógrafo independente mudou radicalmente depois de Serra Pelada. Até os anos de 1970, ele atuou como contratado de algumas das principais agências de fotografia do mundo: Sygma, Gamma e Magnum. Seus trabalhos naquele momento eram mais voltados para a cobertura de eventos políticos. Nos anos de 1980, há a grande guinada em sua carreira. Sebastião Salgado passa a visitar os recôncavos da África e da América Latina em busca do registro da pobreza e das injustiças sociais. E as imagens de Serra Pelada representam indiscutivelmente o ápice desta proposta ideológico-artística. As fotografias tiradas no garimpo do Pará transformaram-se em livro fotográfico e em exposições. Ambos rodaram o planeta. Agora, “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada” do SESC resgata um pouco da memória deste trabalho histórico do brasileiro. A mostra “Gold” possui cerca de 50 fotografias. Elas denunciam a realidade assustadora no garimpo paraense. O cenário grandioso, onde a multidão de trabalhadores se apequena (em muitas tomadas, a sensação é de vermos um formigueiro), é repleto de violência, descaso, condições insalubres, desumanidade e agressões ao meio ambiente. Ora as imagens são feitas em zoon out, ora em zoon in. Esse contraste entre o longe/grandioso/impessoal e o perto/arrebatador/individual é o elemento mais interessante desta exposição. De longe, vemos o drama social de um país que vivia a quimera pelo enriquecimento fácil e rápido. De perto, notamos a abissal distância entre o sonho e a realidade. O cotidiano desses brasileiros era constituído, na verdade, de uma brutalidade indescritível (ao menos em palavras, pois a câmera de Sebastião Salgado conseguiu fazer esse registro). Para completar, o uso do P&B (preto e branco) pelo fotógrafo acentuou ainda mais o drama humano no interior da Amazônia. Simplesmente incrível! Serra Pelada chegou a abrigar, na década de 1980, 50 mil pessoas. Elas eram atraídas pelo sonho de encontrar ouro e enriquecer rapidamente. Contudo, o dia a dia no garimpo não tinha nada de idílico. Os trabalhadores viviam em um sistema análogo à escravidão. Não havia qualquer segurança ocupacional nem infraestrutura básica. Os perigos e a precariedade eram rotina tanto no campo de extração quanto no alojamento. Era a polícia quem precisava apartar as brigas que aconteciam a todo instante (afinal, eram milhares de pessoas disputando cada centímetro quadrado de terra). Uma vez retirada a saca de terra do garimpo, o trabalhador precisava percorrer uma longa distância para saber se ali continha alguma pedra preciosa ou não. Tal deslocamento era feito com a carga nas costas ou na cabeça (as mãos eram usadas para apoiar o corpo). O trabalhador utilizava-se, acredite se quiser, unicamente cordas e madeiras rudimentares durante o trajeto de montanha acima e de montanha abaixo. As imagens fotográficas da exposição são chocantes pois elas denunciam essa realidade atroz. De certa maneira, as fotografias de Sebastião Salgado adquirem um tom de fábula dolorosa. Elas registram um momento histórico do país e, ao mesmo tempo, possuem uma contundência estética ímpar. Nunca o feio e o triste se transformaram em algo tão magnífico e belo do ponto de vista artístico. Contudo, do ponto de vista social, vale a pena ressaltar, Serra Pelada foi uma calamidade pública e vergonha até hoje para o Brasil. Assim, nas imagens do fotógrafo, os homens ganham tons animalescos. Os braços e as pernas musculosas dos trabalhadores e a combinação de pobreza e sujeira desses indivíduos, em muitos momentos, lembram as telas de Candido Portinari. Se procurar bem, o visitante da mostra poderá encontrar nas versões fotográficas de Salgado elementos típicos de “Os Retirantes” e de “O Café”, os quadros mais conhecidos de Portinari. É difícil dizer o que mais chama nossa atenção nas imagens de Sebastião Salgado: a brancura dos olhos dos trabalhadores (muitas vezes, ela é o único sinal de humanidade destes homens), a lama que se acumula nas roupas, o fluxo intenso de pessoas em um labirinto formado por cordas e pontes informais de madeira, a dimensão bíblica ou faraônica do garimpo, a musculatura robusta dos corpos desses indivíduos castigados pelo esforço físico extremo ou a falta de verde (lembremos que estamos no meio da Amazônia). As fotos de Salgado são apresentadas em grandes painéis. Elas ocupam o quinto andar inteiro do prédio do SESC da Avenida Paulista. As grandes dimensões das fotografias permitem ao visitante da mostra mergulhar nos detalhes das imagens do fotógrafo brasileiro. Por isso, reserve ao menos uma hora para sua visitação. Na certa, você ficará arrebatado na frente de tomadas de tirar o fôlego. A exposição “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada” foi inaugurada no dia 17 do mês passado e estará em cartaz até o dia 3 de novembro. A entrada é gratuita. Com curadoria de Lélia Wanick Salgado, esposa do fotógrafo brasileiro, a mostra traz um mix entre as mais famosas imagens de Sebastião Salgado feitas no Pará e algumas fotos inéditas daquela época. Juntamente com “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada”, Salgado lança o livro “Sebastião Salgado – Gold” (Editora Taschen). Com mais de 200 páginas com imagens do maior garimpo do mundo na década de 1980, a obra pode ser comprada nas Lojas do Sesc e nas principais livrarias do país. Seu preço é para poucos: aproximadamente R$ 400,00. Não tenho dúvida que uma visita à mostra de Sebastião Salgado vale a pena. Se você estiver na região da Avenida Paulista, dê uma passada no SESC de lá e confira “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada”. Durante a semana, o fluxo de visitantes é tranquilo e dá para conferir o evento confortavelmente. Aos finais de semana, entretanto, a pegada é punk. O fluxo intenso de pessoas e os confusos elevadores do prédio do SESC atrapalham a experiência dos visitantes (não se surpreenda se você ficar esperando mais de meia hora a chegada de um elevador minimamente vazio). Paradoxalmente, depois de constatarmos como é a vida real fora dos grandes centros urbanos brasileiros (Serra Pelada é só uma evidência disso), reclamar da demora do elevador pode parecer o maior contrassenso do mundo (e é!). Quando der, vá de escada (ninguém morrerá com um pouquinho de exercício, né?). Triste mesmo é saber que, infelizmente, a realidade captada pelas lentes das câmeras de Sebastião Salgado há quase 40 anos é ainda hoje atual e persistentes no Brasil (e há quem ainda insista que nosso país seja rico...). Se o local físico de Serra Pelada desapareceu com a extração mineral do garimpo (agora, a grande montanha virou um lago artificial no meio da floresta), outros bolsões de pobreza, violência, desumanidade, insalubridade, injustiça e agressão ao meio ambiente continuam crescendo nos rincões do Brasil. Isso sim é algo que devemos reclamar e nos envergonhar! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook.
- Exposições: Amazônia - A nova mostra fotográfica de Sebastião Salgado
Em cartaz no Sesc Pompeia até 15 de julho, a exposição apresenta imagens inéditas da floresta tropical que foram captadas pelo fotógrafo brasileiro. Nesse comecinho de abril, há várias exposições interessantes em cartaz na cidade de São Paulo. Dá para citar logo de cara “Beyond Van Gogh”, imersão audiovisual no trabalho do mestre holandês em exibição no MorumbiShopping, “Adriana Varejão – Suturas, Fissuras, Ruínas”, maior mostra da principal artista plástica brasileira da atualidade que está na Pinacoteca, “Espuma Delirante”, nova apresentação surrealista de Rafael Silveira trazida pelo Farol Santander, e “Cartas ao Mundo”, espécie de exposição-manifesto sobre Glauber Rocha desenvolvida por Bia Lessa e à disposição do público no Sesc Avenida Paulista. Diante de tanta opção com excelente qualidade, o que eu poderia visitar no último sábado, hein?! Minha escolha foi ditada pela proximidade geográfica de casa. Assim, fui conferir “Amazônia”, a nova mostra fotográfica de Sebastião Salgado que está em cartaz no Sesc Pompeia desde 15 de fevereiro. Afinal, podia ir e voltar caminhando do centro cultural da Zona Oeste, uma facilidade que nenhum paulistano abre mão seja em dias de semana, seja aos finais de semana. E para lá rumei, mesmo com a cara de garoa que permeou o sábado inteiro. Para felicidade geral do meu ser, tal alternativa se revelou acertadíssima, tanto que resolvi escrever esse post para a coluna Exposições. Se eu não estiver enganado, fazia um tempinho que não produzia algo com esse conteúdo para o Bonas Histórias. A última exposição que analisei no blog foi “Farsa: Língua, Fratura, Ficção – Brasil-Portugal”, que foi apresentada justamente no Sesc Pompeia no início de 2021. A nova exposição do principal fotógrafo brasileiro contemporâneo está simplesmente imperdível. Confesso que saí boquiaberto de suas instalações. Se já havia gostado bastante de “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada”, a última mostra fotográfica de Sebastião Salgado que recebemos em São Paulo, em 2019 (em um período pré-pandemia), agora posso dizer em letras garrafais que ADOREI “Amazônia”. A grande diferença entre as duas exposições está no ineditismo das imagens apresentadas (o que impacta, querendo ou não, em nossa receptividade). Se “Gold” trazia fotos clássicas de Salgado em Serra Pelada na década de 1980 (algumas delas estamparam os livros escolares da minha época de estudante do primeiro grau), “Amazônia” revela cenas inéditas capturadas na imensidão da maior floresta tropical do mundo. Impossível não se sentir mais impactado com as novidades recebidas dessa vez. A exposição “Amazônia” chegou a São Paulo após ser apresentada no exterior em cidades como Nova York, Londres, Roma e Paris. Por onde passou, ela foi muito elogiada. A impressão que temos é que o trabalho de Sebastião Salgado, sempre voltado para a crítica social e para a denúncia ambiental, está cada vez mais atual e relevante. As 205 fotografias, os sete vídeos, as duas projeções fotográficas e os quatro mapas ilustrativos de “Amazônia” contemplam pouco mais de duas décadas do clicar do fotógrafo por essa região do Brasil. Há imagens tiradas nos anos 1990, 2000 e 2010. A maioria delas, contudo, foi captada nos sete anos em que o fotógrafo acabou indo e vindo regularmente à floresta em meados da década passada. Vale a pena dizer que o projeto “Amazônia” começou assim que “Gênesis" foi concluído (e que tinha uma proposta mais internacional, mais global, mais genérica). Com a curadoria de Lélia Wanick Salgado (também conhecida por ser a esposa do fotógrafo) e com a trilha sonora do francês Jean-Michel Jarre (sim, temos uma trilha sonora que impacta diretamente na experiência do visitante), a mostra do Sesc Pompeia revela muitas imagens inéditas de Salgado para o público brasileiro – principalmente para quem não adquiriu o livro homônimo do artista que foi publicado pela Editora Taschen do Brasil no ano passado e que custa (segure-se na cadeira, por favor!) a bagatela de R$ 1 mil. Por integrar a classe dos falidos do Brasil Varonil, admito que preferi ir à exposição a adquirir a obra impressa. Não tive coragem sequer de abrir a publicação nas minhas visitas regulares às livrarias – vai que derrubo o bichano, uma página é rasgada e tenho que arcar com o prejuízo... Nascido no interior de Minas Gerais em 1944, Sebastião Salgado é um dos mais famosos e premiados fotógrafos da atualidade. Com mestrado e doutorado em Economia, ele se mudou para Paris no final dos anos 1960 e mora desde então na capital francesa. Sua trajetória na fotografia começou em 1974, quando ingressou na agência Sgyma. Após atuar por muitos anos na Gamma e na Magnum, prestigiosas agências internacionais de fotografia, Salgado fundou em 1994, ao lado da esposa, a Amazonas Imagens, sua própria companhia. Nas duas fases da carreira, funcionário e empresário, ele colecionou vários prêmios internacionais. Dá para apontar como as principais honrarias recebidas o Eugene Smith (Estados Unidos), World Press (Holanda), Oscar Barnack (Alemanha), Erna e Victor Hasselblad (Suécia) e International Center of Photography (Estados Unidos). O artista mineiro é também representante especial da Unicef e membro honorário da Academia das Artes e Ciências dos Estados Unidos. Nas últimas duas décadas e meia, os principais trabalhos fotográficos de Sebastião Salgado se transformaram em livros. Dá para apontar como suas obras editoriais mais relevantes “Trabalhadores” (Companhia das Letras), de 1997, “Terra” (Companhia das Letras), de 1997, “Serra Pelada” (Nathan), de 1999, “Êxodos” (Companhia das Letras), de 2000, “África” (Taschen do Brasil), de 2007, “Gênesis” (Taschen do Brasil), de 2013, e, claro, “Amazônia” (Taschen do Brasil), de 2021. Invariavelmente, esses títulos são publicações impecáveis e custam entre três e quatro dígitos. Por isso, cuidado ao folhear essas obras nas livrarias, meu(minha) caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias. Como o próprio nome já diz, a mostra “Amazônia” apresenta a riqueza natural e humana da Floresta Amazônica. Sebastião Salgado retrata, nesse trabalho, os rios, as matas, as montanhas, as nuvens, a chuva, a transpiração das árvores e os arquipélagos fluviais por uma perspectiva variada e inusitada. Ele captou as imagens por quatro pontos de vista diferentes: estando na água, no céu, na mata e no chão. O resultado é de tirar o fôlego. Esqueça tudo o que você conhece ou já viu da Amazônia. O olhar de Salgado nos leva para outro patamar. A prova concreta disso está nas fotos dos “rios voadores”, da “transpiração da floresta”, das tempestades tropicais (chuvas intensas) e da geografia de Anavilhanas, um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo. Além disso, o fotógrafo mineiro enfoca a vida de doze comunidades indígenas. É legal notar que Salgado teve a preocupação de apresentar cada tribo individualmente. Assim, conhecemos a história, as particularidades, a cultura, a intimidade, as crenças e os desafios de cada um desses povos amazônicos. A maioria dos vídeos apresentados na mostra tem como protagonistas justamente os índios, que falam abertamente sobre como é viver na floresta, suas relações com o ecossistema tropical, o medo da destruição acelerada do meio ambiente e o temor da ação criminosa e cada vez mais frequente de madeireiros, garimpeiros, traficantes de drogas e ruralistas. Como é característico do estilo de Sebastião Salgado, as imagens de “Amazônia” estão em preto e branco. Se por um lado esse recurso tira um pouco da exuberância da natureza, por outro lado as fotografias ganham em dramaticidade. Confesso que fiquei imaginando, no início da mostra, como seriam aquelas cenas coloridas. Será que seriam mais impactantes ou mais bonitas, hein?! Sinceramente não sei. O que eu posso garantir é que, depois da terceira ou quarta foto, nos esquecemos que elas estão em P&B. Repare nisso! Automaticamente, nossa mente já colore intuitivamente a paisagem: a mata é verde, o céu e a água são azuis, o topo da montanha é marrom, o sol é amarelo etc. Não duvido que tenha visitante de “Amazônia” que, ao final da visita ao Sesc, já se esqueceu da falta de cor das imagens contempladas. O que mais gostei dessa exposição foi a ambientação. Há muito tempo não visitava uma mostra que conseguisse colocar praticamente os visitantes no meio do cenário retratado. A impressão é de estarmos mesmo no interior da Floresta Amazônica. Os méritos desse feito/efeito são de Lélia Wanick Salgado, que além de curadora de “Amazônia” também ficou responsável pela cenografia. A riqueza da ambientação está nos detalhes. Repare que até o ar-condicionado não está tão forte, o que deixa a temperatura acima do normal (seria o calor tropical?!) para esse tipo de evento. Só senti falta de um jardim vertical (artificial ou natural, tanto faz) em uma parede do espaço. Seria um toque mais explícito de natureza para a exposição. Os efeitos sonoros também ajudam substancialmente na construção dessa atmosfera amazônica. Lembre-se que eu disse que a trilha da exposição foi desenvolvida por Jean-Michel Jarre. O francês conseguiu emular os barulhos da mata, dos animais, da chuva, dos índios etc. E ele fez isso de um jeito bastante sutil. As almas mais avoadas (e barulhentas) talvez não percebam os efeitos sonoros em sua totalidade. Eu achei incrível esse recurso. A construção da ambientação vai além dos elementos cenográficos, térmicos e sonoros. Por exemplo, os espelhos d´água presentes na Área de Convivência do Sesc Pompeia, local da exposição, parecem que foram colocados ali especificamente para “Amazônia” (não foram, eles são parte fixa do lugar). Os pequenos trechos com água dão um toque fluvial ao cenário. As paredes escuras dão um ar meio claustrofóbico, o que ajuda o visitante a se sentir em meio às altas árvores e à mata fechada. É espetacular esse efeito. Ele é simples, mas extremamente eficiente. Até o clima da cidade de São Paulo ajudou um pouco (REPARE que usei a expressão “um pouco”) na atmosfera da mostra fotográfica. O céu nublado, o ar úmido e a temperatura elevada da metrópole paulistana no sábado outonal me fizeram lembrar vagamente (olha a palavra VAGAMENTE aí, gente!), o clima abafado e úmido da região Norte do nosso país. É, talvez eu esteja exagerando um pouco, mas a ambientação de “Amazônia”, acredite, é ótima. A apresentação das fotografias de Sebastião Salgado também respeita certa lógica natural. Ao redor do espaço em U da Área de Convivência do Sesc Pompeia, temos as imagens da natureza (rio, nuvens, mata, chuva). As seções da mostra são divididas por temática. E no centro, simulando ocas, temos o retrato das comunidades indígenas em uma área específica e fechada. Faz todo o sentido, né? A impressão é que a natureza está abraçando os moradores da floresta. E para chegarmos a eles, precisamos desbravar os desafios naturais dessa parte do país. Por essas e outras, “Amazônia” é uma das melhores exposições fotográficas que pude frequentar nos últimos anos em São Paulo. A força dramática das imagens em preto e branco de Sebastião Salgado, seu olhar diferenciado por cenas pouco exploradas (ele foge do convencional e do óbvio), as perspectivas variadas e originais das fotos, a ambientação impecável e o retrato sincero e bonito da natureza e dos povos indígenas da região Norte fazem de “Amazônia” um passeio memorável. Entretanto, a mostra não é perfeita. Ela tem algumas poucas falhas, todas em relação à infraestrutura e à organização. O primeiro ponto negativo de “Amazônia” é a falta de legendas em inglês para os visitantes estrangeiros. Havia muitos gringos no Sesc Pompeia e reparei que vários buscavam informações adicionais sobre as fotografias e sobre as seções da mostra. E eles não as obtinham porque a exposição não era bilíngue (algo imperdoável em se tratando do trabalho de Sebastião Salgado e de um evento desse porte em São Paulo). Quem não tinha um intérprete pessoal ao lado (amigo, familiar ou cônjuge que falasse português), não aproveitou em sua totalidade o programa. Outra questão que me incomodou desde o início foi a péssima iluminação nas legendas das telas. Ao se aproximar do descritivo da imagem para lê-lo, a cabeça do visitante fica entre o feixe de luz (que está no alto e atrás) e a plaquinha informativa. Ou seja, o texto fica escuro (com sombra) justamente quando a pessoa se inclina para vê-lo. As fotografias estão impecavelmente iluminadas, mas a legenda... Juro que não entendi o porquê não investiram em legendas em inglês e em uma melhor iluminação para a parte textual das fotografias. Alguém aí pensou em contenção de custos?! Talvez. Por fim, há um espaço (a dos mapas ilustrativos, no lado oposto à entrada, na primeira sala) em que há telas muito próximas umas das outras tanto na parede externa quanto no miolo central. O resultado é o congestionamento inevitável de visitantes nesse trecho. Se você for em um dia de semana, talvez não consiga reparar no trânsito de pessoas nessa parte da exposição. Porém, se você for em um final de semana ou feriado, quando o movimento é muito maior, na certa ficará preso ao engarrafamento de cabeças e corpos nessa seção. Foi o que aconteceu comigo no sábado. Além do incômodo natural de atrapalhar e ser atrapalhado durante a apreciação das fotografias, esse problema ainda gera certo mal-estar em quem não quer se aglomerar em um local fechado (a pandemia parece estar terminando, mas ainda não terminou, né?). Como deu para perceber, esses são detalhezinhos que não impactam muito a experiência do visitante (se você for fluente em português, é claro). “Amazônia” é uma exposição imperdível para quem gosta de natureza, da maior floresta tropical do mundo, dos povos indígenas, de fotografia, de geografia e, principalmente, do trabalho de Sebastião Salgado. Prova maior da exuberância das imagens do fotógrafo brasileiro é que fiquei mais de duas horas nessa mostra. Duas horas?! Como você conseguiu, Ricardo? Aí que está o poder visual de “Amazônia”. Você passa algumas horas ali sem notar. Só reparei que os ponteiros do relógio haviam corrido velozmente quando saí do centro cultural e me assustei com o horário. E olha que eu não quis assistir a uma das projeções audiovisuais pois a fila estava enorme. Se tivesse ficado para vê-la, na certa teria permanecido por quase três horas no interior da exposição. “Amazônia” tem entrada gratuita e estará em exibição até 15 de julho na Área de Convivência do Sesc Pompeia. Para ingressar no espaço interno da mostra, há controle do número de visitantes. Contudo, isso não gera longas nem demoradas filas. Na minha visita do último sábado, havia muita gente e não fiquei sequer cinco minutos aguardando a liberação de entrada. Na portaria das unidades do Sesc, normalmente a espera é um pouco maior. Os visitantes são obrigados a mostrar o comprovante de vacinação da Covid-19 (e um documento com foto), o que gera uma pequena perda de tempo (justificável em tempos pandêmicos). Agora já é hora de eu pensar na próxima exposição que irei visitar. Quem sabe não vá a “Espuma Delirante” de Rafael Silveira no Farol Santander. Se bem que “Cartas ao Mundo” de Bia Lessa no Sesc Avenida Paulista não é nada mal, né? O bom é que tenho alguns dias até o final de semana para me decidir. Até o próximo post da coluna Exposições. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe, então, sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Talk Show Literário: Alberto
O sexto entrevistado dessa temporada do TSL é o protagonista de O Escaravelho do Diabo, o romance mais famoso de Lúcia Machado de Almeida. Darico Nobar: Boa noite, Brasil. [De pé no centro do palco, olha para o público presente no auditório. A imagem é captada pela câmera 1]. Plateia: Boooa noooite! [A resposta vem em um coro uníssono]. Darico Nobar: Você está ligado no Talk Show Literário, o programa de entrevistas da literatura brasileira. [Volta-se para a câmera 3, posicionada à sua frente]. É muito bom estar mais uma vez na sua companhia. Hoje, nós vamos conversar com... o quê? [Alguém nos bastidores parece interromper o apresentador. Não é possível ouvir nem ver o que acontece ali, pois não há microfone nem câmera na parte de trás do palco]. Darico Nobar: Um presente?! Opa. Por favor, pode trazer. [Caminha em direção à sua mesa]. É sempre muito bom receber lembranças. [Rapaz usando fone de ouvido gigante e camiseta branca com a logomarca da emissora de TV aparece no vídeo. A cena é mostrada em um take geral. Ele leva um embrulho para o âncora do programa, que já está sentado na cadeira]. Darico Nobar: Fazia tempo que eu não recebia um presente. [Pega o pacote e começa a abri-lo]. Quem é que enviou? [Novamente não se ouve a resposta]. Ah, entendi. Deve ser, então, de um fã misterioso. [Enquanto o embrulho é desfeito, a banda toca uma melodia de suspense]. Um besouro! [Dentro de uma caixinha, um pequeno escaravelho negro fincado numa rolha aparece nas mãos do apresentador]. Obrigado, né? É um presente, como posso dizer, diferentão. [Sua fisionomia é de surpresa]. Deve ter sido enviado por um entomologista. Não sei o que farei com isso, mas valeu mesmo assim. [Risadas vem da plateia]. Darico Nobar: Como eu ia dizendo, hoje vamos conversar com Alberto, um protagonista clássico dos romances policiais infantojuvenis. [Coloca o presente em um canto da mesa]. Com vocês, Alberto! [Vindo dos camarins, o entrevistado aparece no palco muito elegante em seu smoking. O rapaz, de vinte e tantos anos, tem olhos azuis e cabelos levemente ondulados]. Alguém na plateia: Lindo! [O grito é precedido por empolgados assobios]. Alberto: Muito obrigado. Boa noite, Darico. Às suas ordens. [De brincadeira, faz uma funda reverência antes de se sentar no sofá ao lado do apresentador]. Darico Nobar: Seja bem-vindo ao Talk Show Literário, Doutor Alberto. É muito bom conversar com você. Só não sabia que a mulherada do auditório ficaria tão assanhada. Plateia: Lindo, bonito e gostosão. Lindo, bonito e gostosão! Alberto: Desse jeito eu fico constrangido. Darico Nobar: Depois dessa recepção, não posso começar nossa entrevista de outra maneira. Diga-me, doutor, você pretende continuar solteiro? Alberto: Talvez. Amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar. Até hoje só encontrei uma criatura que poderia me fazer mudar de ideia. Darico Nobar: Quem foi? Alberto: Uma moça de minha terra. Darico Nobar: Bonita, simpática? Alberto: Vou lhe mostrar um retrato dela. [Tira a carteira do bolso, abre-a e mostra uma fotografia protegida por um celofane. A câmera 2 pega a foto de uma moça no meio de algumas pessoas]. É um instantâneo ligeiro que mandei ampliar. Darico Nobar: Qual o nome dessa formosura? Alberto: Verônica. Nessa época, ela tinha dezessete anos e era ainda estudante do conservatório. Ela é linda, é encantadora, é maravilhosa. Mas que geniozinho horrível tem esta criatura! Darico Nobar: Ela ainda mora em Vista Alegre? Alberto: Ela foi morar com o irmão, um juiz de Direito, noutra cidade, mas não sei qual. Ela me mandou um bilhete lacônico para não a procurar mais. Darico Nobar: E como vai o seu fraco por ela? Alberto: Cada vez mais forte! [Não se contém e solta um suspiro melancólico]. Mas agora ela está noiva. Vai ver até já se casou. Darico Nobar: Por que vocês não ficaram juntos? Alberto: É uma longa história... Nós estávamos namorando quando precisei ajudar o Inspetor Pimentel e o Subinspetor Silva em uma investigação criminal. Eu ainda não tinha me formado médico, mas fazia residência no hospital municipal. Darico Nobar: Ah, sim. Eu soube do caso. Morava em Minas nesse período. É o crime das cabeleiras vermelhas, né? Acho que virou notícia no Brasil inteiro. Alberto: Para minha infelicidade, Verônica era uma das suspeitas do assassínio. Darico Nobar: Vixe! Sua namorada estava envolvida com o serial killer? Alberto: Não posso lhe responder ao certo. Já se passaram quatro anos e o episódio das cabeleiras vermelhas continua no mesmo ponto em que o deixamos. A história foi arquivada pela Polícia na pasta dos casos sem solução. Assim, não temos uma resposta para quem seja o cafajeste que matou meu irmão e os outros ruivos de Vista Alegre. Darico Nobar: E a Verônica nisso tudo? Alberto: Ela e os demais suspeitos foram convenientemente defendidos pelos respectivos advogados. Apesar de serem olhados com desconfiança por todo mundo na cidade até hoje, eles são inocentes aos olhos da Justiça. Darico Nobar: Que encrenca, hem, meu velho? Alberto: Verônica nunca confiou em mim, essa é a verdade. Deve ter achado que eu estivesse contra ela. Mas, eu sei, Verônica é inocente. [Seu olhar é de pura aflição]. Darico Nobar: Também sou dessa opinião, doutor. Acho que tentaram incriminá-la por pura maldade. Alberto: Só pode ter sido alguém que tinha raiva dela. Mas quem seria? Quanto mais penso nisso, mais confuso me sinto. O pior é que todos os suspeitos eram criaturas aparentemente normais. E o que nos atrapalhou mesmo foi a fartura de gente suspeita. Nunca vi uma coisa assim! Darico Nobar: Quem sabe o assassino não tenha sido você mesmo, Doutor Alberto. [O convidado sorri amarelo e não diz nada]. Brincadeirinha! Essa sua experiência com investigação criminal não o fez cogitar a hipótese de virar detetive ou inspetor de polícia? Alberto: O Inspetor Pimentel disse que eu levava jeito para a coisa, que deveria trabalhar na Polícia Técnica ou no serviço de Medicina Legal. Darico Nobar: Estou de acordo com ele. Por que não, hem? Alberto: Adoro a profissão de médico e o atendimento no consultório. Talvez seja por isso que o trabalho tenha se transformado quase que num prazer para mim. Desde pequeno, queria essa vida. Ainda garotinho, vivia brincando de médico. É coisa que está no sangue. [Fica dois ou três segundos em silêncio para depois continuar]. Além do mais, essa atividade tem a sua dose de mistério. A medicina frequentemente me faz lembrar um verdadeiro romance policial. Sim, é preciso auxiliar o órgão atacado, descobrir o culpado através dos vestígios deixados, e depois guerreá-lo, vencê-lo a qualquer custo. É preciso dominar diariamente a grande inimiga, a morte, combatendo os seus cúmplices, aqueles terríveis seres minúsculos e invisíveis: os micróbios e os vírus. Darico Nobar: Por esse ponto de vista, o médico é ao mesmo tempo o investigador do crime e o policial que executa friamente os criminosos descobertos. Alberto: E nossos índices de resolução de casos são muito superiores aos das delegacias brasileiras. Não trocaria minha profissão por nenhuma outra nesse mundo. Darico Nobar: Por falar em mundo, soube que você tem uma viagem programada para os próximos meses. Alberto: Desde que terminei a especialização em cardiologia, pensava em fazer um curso de aperfeiçoamento nos Estados Unidos ou na Europa. Aí recentemente apareceu a oportunidade. No começo do próximo ano, vou para a França para trabalhar por alguns meses com o Doutor Jean Renaud, o mais famoso cardiologista de Paris. Darico Nobar: Parabéns! É uma baita oportunidade profissional, Doutor Alberto. Alberto: Aproveitarei para rever meus pais. Depois da morte do Hugo, eles não ficam muito tempo no Brasil. Vivem viajando pelo exterior. Acho que será bom... [Seus olhos se desviam para a mesa do entrevistador]. Darico, o que é isso aqui?! Darico Nobar: Não fique tão perplexo, doutor. É só um presentinho que recebi de um fã, provavelmente um entomologista ou alguém que pense que eu goste dessas coisas. Alberto: Quando chegou o pacote? [Pega o escaravelho e o analisa atentamente]. Darico Nobar: Agora pouco, pouco antes de iniciarmos a entrevista. Você não viu quando vieram me entregar o embrulho? Alberto: Não vi! [Sua fisionomia é de puro pânico]. Tem telefone aqui? Preciso chamar imediatamente o Inspetor Pimentel. Darico Nobar: Claro que temos. Produção! [Vira-se para a parte de trás do palco]. Por favor, arranjem um telefone para o Doutor Alberto. O que aconteceu? [Volta-se novamente para o convidado]. É algo muito sério? Alberto: Não posso explicar agora em detalhes, mas acho que o Inseto resolveu agir outra vez. [Olha minunciosamente para o apresentador]. Antes de esbranquiçar, qual era a cor natural dos seus cabelos, Darico? Darico Nobar: Ruivo. Quando jovem, tinha os cabelos vermelhos como fogo. Alberto: Ai meu Deus! [Dá um pulo do sofá e corre para fora do palco. De longe, é possível ouvir seus gritos]. Estou fazendo a ligação. Não saia dessa cadeira por nada nesse mundo, Darico. É caso de vida ou morte. Darico Nobar: Depois dessas palavras, não vou sair daqui. [Encara envergonhado a câmera 2, que dá um zoom em seu rosto]. Pessoal, preciso terminar o programa agora mesmo. Não sei o que aconteceu com nosso convidado, mas boa coisa não parece ser. De qualquer maneira, obrigado pela audiência e até o próximo Talk Show Literário. Volto na semana que vem. Até lá e uma ótima noite a todos. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Filmes: Parasita - O suspense sul-coreano de Bong Joon Ho
É inegável que Bong Joon Ho seja um dos principais nomes do cinema sul-coreano da atualidade. Quem assistiu aos excelentes “Memórias de um Assassino” (Salinui Chueok: 2003), “Hospedeiro” (Gwoemul: 2006) e “Mother - A Busca pela Verdade” (Madeo: 2009), conhece bem a força das narrativas deste cineasta. Depois dos bons “Expresso do Amanhã” (Seol Gungnyeo Cha: 2013) e “Okja (2017), Bong volta ao patamar mais alto de sua carreira. “Parasita” (Gisaengchung: 2019), seu sétimo longa-metragem, conquistou, em maio, a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Trata-se da primeira produção sul-coreana a ganhar tal prêmio e o primeiro filme, desde 2013, a vencer com votação unânime dos jurados. Não à toa, ele chega com certo favoritismo à disputa do Oscar do ano que vem (concorre na categoria Melhor Filme Internacional - chamada antigamente de Melhor Filme Estrangeiro). Conferi “Parasita” no final de semana retrasado, quando ele foi lançado no circuito comercial brasileiro. E é preciso admitir: realmente temos aqui uma produção digna dos principais prêmios do cinema mundial. Como é típico dos longas-metragens sul-coreanos, Bong Joon Ho mistura vários gêneros cinematográficos em uma mesma história. Assim, “Parasita” pode ser classificado como comédia, drama, suspense, terror e aventura. Desta vez, o que não temos é o elemento da fantasia, que permeia a maioria dos trabalhos anteriores de Bong. Com isso, o filme adquire um forte tom de realismo (realidade nua e crua!). Ao mesmo tempo, o novo título ganha uma intensa conotação de crítica social, algo inusitado quando pensamos em um país como a Coreia do Sul (entre os mais desenvolvidos e ricos do planeta). Em “Parasita”, Bong Joon Ho conta mais uma vez com Kang-ho Song, ator sul-coreano presente em quase todos os filmes do diretor. E mais uma vez, Song mostra todo seu talento cênico. Há quem o coloque (com justiça) até no páreo da disputa de melhor ator do Oscar de 2020. “Parasita” ainda tem em seu elenco: Hye-jin Jang, Woo-sik Choi, So-dam Park, Yeo-jeong Cho, Ji-so Jung, Hyun-joon Jung, Sun-kyun Lee e Jung-eun Lee. Além da ótima história, escrita por Bong, temos um trabalho impecável do time de atores. Orçado em US$ 11 milhões, “Parasita” foi lançado em maio na Coreia do Sul e entre outubro e novembro no exterior. Até o momento, seu faturamento é quinze vezes superior ao seu custo, o que o transformou, desde já, no maior sucesso comercial da carreira de Bong Joon Ho. O enredo deste filme focaliza o drama da família Kim, moradores pobres de um porão infestado por insetos e sujeira. Sem dinheiro e sem trabalho fixo, eles se viram como podem para conseguir comprar de vez em quando comida e bebida. A internet para seus celulares eles roubam dos vizinhos. O pai, Ki-taek (interpretado por Kang-ho Song), perdeu há anos o emprego e agora passa o dia dormindo em casa. A mãe, Chung-sook (Hye-jin Jang), só consegue de vez em quando um bico aqui e outro ali. A última ocupação que obteve foi montar caixas de pizza para um estabelecimento do bairro. Os filhos, Ki-woo (Woo-sik Choi) e Ki-jung (So-dam Park), não estudam nem trabalham. Apesar de muito inteligentes, eles passam o dia sem fazer nada de produtivo. Contudo, na hora de montar as caixas de pizza, a família se une. Se é para conseguir um trocado, eles colocam a mão na massa. Mesmo assim, o que ganham não dá para se sustentar. A vida de carências e de pobreza dos Kim parece ter fim quando Ki-woo consegue um emprego de professor particular de inglês na casa dos Park, uma família riquíssima. Mesmo sem ter fluência no idioma ou prática na docência, o rapaz se lança ao desafio de ensinar sua aluna adolescente. Rapidamente, os Park gostam de Ki-woo Kim. Com habilidade, certo charme, algum puxa-saquismo e muita trambicagem, o jovem professor consegue empregar seus parentes naquela mansão. É verdade que ele conta também com a ingenuidade da Sra. Park (Yeo-jeong Cho), o bom coração do Sr. Park (Sun-kyun Lee) e a paixonite da Srta. Park (Ji-so Jung). Assim, a irmã de Ki-woo é alçada à professora de artes do filho pequeno dos Park. O pai vira motorista da casa. E a mãe se torna a governanta. Os tempos de falta de dinheiro dos Kim ficaram definitivamente para trás. A rotina propiciada pelos novos empregos mexe com Ki-taek, Chung-sook, Ki-woo e Ki-jung. A vida de luxo e de glamour na residência dos patrões endinheirados sobe à cabeça dos quatro protagonistas. Os Kim passam, então, a ambicionar a posse daquela casa e a sonhar com um cotidiano de total tranquilidade e conforto. Como eles conseguirão isso se são meros funcionários? A grande oportunidade que o quarteto tem é uma viagem de final de semana dos patrões. Os Park passarão alguns dias viajando. E a casa ficará sem ninguém. O plano da família Kim é usar esse tempo para desfrutar ao máximo a boa-vida. Contudo, um inusitado contratempo colocará seus planos em risco. Eles não são os únicos larápios que estão enganando os moradores daquela residência... “Parasita” tem duração de 2 horas e 15 minutos. O filme é inegavelmente eletrizante. O que mais gostei nele foram: a mudança constante de tom narrativo, a forte crítica à ambição humana, a excelente construção das personagens, a profundidade dramática de sua história, a atuação primorosa do seu elenco, a coleção interminável de reviravoltas e o humor negro desta trama. Em relação ao primeiro elemento, o filme muda de tempos e tempos de panorama. No início, temos um drama social sensível e genuíno. Depois, ele se torna um thriller cômico. As trapaças da família Kim dão grande colorido às ações na telona. Na sequência, assistimos a uma narrativa melodramática. Pouco a pouco, a alegria pela conquista dos empregos pela família de protagonista se transforma em uma angústia existencial. Por fim, o longa-metragem descamba para o terror sanguinolento e, em seguida, para uma trama policial. As últimas cenas ainda possuem um tom onírico. Sinceramente, adorei esse choque de diferentes emoções. Se há uma coisa que não podemos reclamar de “Parasita” é de tédio. A todo momento está acontecendo alguma coisa distinta. Note o quão ácido é esta história. O filme de Bong Joon Ho aborda direta e indiretamente várias questões delicadas, interessantíssimas e universais da sociedade contemporânea. Se a crítica social estava em primeiro plano no começo do longa-metragem, o que vemos no meio da trama é a forte crítica ao comportamento inconsequente das pessoas ao tentar enriquecer. O que alguém é capaz de fazer para subir na vida? Já no final, a questão principal é o orgulho próprio e o desejo de vingança. Mais legal do que a proposta de debate é a maneira como esses assuntos são levantados. De certa forma, “Parasita” resvala na temática de “Que Horas Ela Volta?” (2015). Porém, o filme sul-coreano não poderia ser mais diferente do brasileiro em sua estética e na sua concepção cinematográfica. Incrível ver um mesmo assunto apresentado de jeitos tão distintos. Muito provavelmente, “Parasita” não teria tanta graça se não fosse a excelente construção de suas personagens. Todas as figuras retratadas no filme são personagens esféricas (não me recordo agora de nenhuma personagem plana). Todos possuem defeitos e qualidades evidentes. E, dependendo da situação, esses diferentes aspectos de suas personalidades são aflorados, tanto para o bem quanto para o mal. Em certo momento da trama, é difícil definir com precisão quem são os heróis do longa e quem são os vilões. Por isso, não se surpreenda se você torcer a favor dos anti-heróis, que apesar de todos os seus defeitos ainda sim conseguem nos cativar (eles são extremamente carismáticos). Essas overdoses de contradições dão grande profundidade dramática à história. Você só reparará nisso quando, ao final da sessão, alguém perguntar para um grupo grande de espectadores: afinal, sobre o que trata exatamente “Parasita”? Tenha certeza: as respostas serão muito variadas (e, por vezes, contraditórias). Cada um irá enxergar essa narrativa de uma forma particular. Eu, por exemplo, fiquei maravilhado com o espelhamento entre as famílias de protagonistas. De certa maneira, os Kim e os Park possuem comportamentos muito parecidos, apesar de serem de classes sociais opostas. Ambos expulsam aqueles que ousam atrapalhar a harmonia doméstica (lembremos como as personagens pobres tratam o mendigo bêbado que os visita todas as noites) e tem como ponto de referência suas janelas (com visões totalmente distintas da realidade sul-coreana). Incrível! Algo que inegavelmente ajudou na riqueza do conteúdo do filme foi a atuação primoroso dos atores e das atrizes (algo nem sempre comum de ser encontrado em uma produção em que oito, nove, dez pessoas dividem o tempo inteiro a cena). Se Kang-ho Song foi espetacular no papel de Ki-taek Kim, seus colegas não ficaram tão atrás. Sinceramente não sei qual núcleo esteve melhor: o da família Kim ou da família Park. Acho que os dois estiveram em um patamar altíssimo. É preciso falar também das várias reviravoltas que o filme dá. Se algumas mudanças narrativas são até previsíveis, outras são totalmente inesperadas. Em muitas oportunidades, o público é pego de calças curtas. Por isso, prepare-se para viver fortes emoções. Na parte final temos as maiores revelações, capazes de não apenas destruir as dinâmicas das famílias retratadas como de alterar completamente o panorama do longa-metragem. Por fim, “Parasita” pode ser classificado como um filme de humor negro. A comicidade é provocada na maioria das vezes pelo comportamento disruptivo, inconsequente, antiético e amalucado de suas personagens. É verdade que muitas passagens do longa-metragem são mais engraçadas para o público coreano, que entende melhor as referências (por exemplo, o discurso das apresentadoras da televisão norte-coreana) e a realidade retratada (a construção de abrigos contra-ataques aéreos, as casas pobres estão no subsolo da cidade e o hábito das classes média e alta de terem um nome americanizado). Mesmo assim, é possível dar boas risadas em sua sessão. A risada aqui é do tipo nervosa, aquela que você tem sabendo que daqui a pouco algo sairá do controle e vai se voltar contra você (no caso, contra as personagens). “Parasita” é um ótimo filme, que vale a pena ser assistido. Ainda bem que estamos em uma ótima fase. Várias excelentes produções estão em cartaz neste momento nos cinemas brasileiros. Fica até difícil dizer qual é a melhor. Dos meus favoritos, posso citar “Morto Não Fala” (2019), terror nacional, “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), suspense argentino, “Coringa” (Joker: 2019), drama norte-americano extremamente violento, “Rainha de Copas” (Dronningen: 2019), thriller sueco-dinamarquês, “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2019), comédia-romântica de Woody Allen, e “Doutor Sono” (Doctor Sleep: 2019), suspense baseado em obra de Stephen King. E, obviamente, agora incluo “Parasita” nesta lista. Que tal pegar um cineminha hoje à noite, hein? Assista, a seguir, ao trailer de “Parasita”: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Livros: Não é um Rio - A mais recente novela de Selva Almada
Publicado em 2020, o thriller dramático encerra a Trilogia dos Machos e mostra a força narrativa de uma das principais escritoras argentinas da atualidade. Nessa semana, li “Não é um Rio” (Todavia), a mais recente publicação de Selva Almada, uma das mais importantes e originais vozes da literatura argentina contemporânea. Especializada em narrativas curtas e em enredos dramáticos, Selva (sim, seu nome é Selva mesmo – não é Selma nem Silvia!) retrata como ninguém a violência, a opressão, a solidão, os preconceitos, os desencontros amorosos e as intrigas familiares do interior de seu país. Se a compararmos com a maioria dos escritores sul-americanos da atualidade que constroem tramas ancoradas em cenários cosmopolitas, já podemos apontar logo de cara um aspecto inusitado em seu trabalho ficcional. Contudo, o brilhantismo de Selva Almada como autora não fica restrito a essa particularidade temática de seus livros. Publicado originalmente na Argentina em 2020, “Não é um Rio” é a segunda novela da escritora. Traduzido para o português por Samuel Titan Jr. e lançado no Brasil pela Editora Todavia em agosto do ano passado, esse título é uma espécie de thriller dramático com elementos sobrenaturais e com fortíssima crítica social. Se você quiser classificá-lo como uma obra contemporânea do realismo fantástico ou como um título que denuncia o machismo da sociedade rural argentina também está correto. “Não é um Rio” é a terceira e última parte da “Trilogia de Varones” – “Trilogia dos Machos”. Essa série literária foi iniciada em 2012 com a novela “O Vento que Arrasa” (Cosac & Naify) e prosseguiu em 2013 com o romance “Ladrilleros” (ainda sem edição em português). Apesar de ser possível a leitura independente de “Não é um Rio”, acredito que seja legal conhecer previamente as obras anteriores da coletânea ficcional para compreender a dimensão da proposta narrativo-editorial de Selva Almada. Nascida em 1973 em Villa Elisa, pequena cidade interiorana de Entre Ríos, Selva Almada se mudou para Paraná, a capital da província natal (não confundir com o Estado homônimo brasileiro), para cursar faculdade. Uma vez formada em Literatura, a escritora se mudou no finalzinho dos anos 1990 para Buenos Aires, onde vive desde então. A rotina na metrópole a fez refletir sobre a vida que ela, seus familiares e amigos tinham/têm na zona rural de Entre Ríos. Surgia, a partir daí, o mote para suas tramas ficcionais. Invariavelmente, os textos de Selva retratam com tintas fortes os dissabores dos moradores do interiorzão da Argentina, um lugar tradicionalmente violento, opressivo (principalmente para as mulheres), muito reacionário e com incontáveis preconceitos. Qualquer semelhança com nossa realidade interiorana não é mera coincidência. Além de dirigir periódicos literários e comandar núcleos de estudos de literatura poética, Selva Almada se especializou na produção de narrativas curtas. Ou seja, ela é uma exímia autora de coletâneas de contos e crônicas. Não por acaso, sua principal obra até agora é “Garotas Mortas” (Todavia), coleção de crônicas sobre três casos reais de feminicídios ocorridos na Argentina na década de 1980. E seus livros mais premiados em âmbito doméstico são coleções de contos: “Niños” (sem tradução para o português), de 2005, “Una Chica de Provincia” (também sem edição no Brasil), de 2007, “El Desapego es una Manera de Querernos” (para variar, sem tradução para nosso idioma), de 2015, e “Los Inocentes” (adivinhe se ele foi editado por aqui, hein?!), de 2020. Apesar desse predomínio de narrativas curtas (tanto ficcionais quanto não ficcionais), é legal reparar que Selva Almada é uma escritora versátil. De suas onze publicações, apenas cinco são narrativas curtas (quatro coletâneas de contos e uma coletânea de crônicas). Seu portfólio literário é complementado com três novelas/romances (justamente os títulos de “Trilogia de Varones”/”Trilogia dos Machos”), uma coleção poética (sua estreia na literatura aconteceu pela poesia) e dois ensaios literários (lançados de maneira independente e em e-books). Em outras palavras, a autora argentina não fica presa a apenas um gênero narrativo. Gosto disso! Internacionalmente, Selva Almada se tornou mais conhecida do público e da crítica literária há exatamente dez anos, quando “O Vento que Arrasa”, sua primeira novela, foi publicado. Essa obra que dá início à trilogia concluída agora com “Não é um Rio” foi muito bem-recebida na Argentina. Logo em seguida, ela foi lançada com o mesmo entusiasmo na Europa (Espanha, França, Holanda, Alemanha e Reino Unido, por exemplo) e no restante da América Latina (Brasil, inclusive). O livro conquistou, em 2019, o First Book Award do Festival Internacional do Livro de Edimburgo, quando foi traduzido para o inglês. Desde então, Selva Almada integra a lista dos principais escritores argentinos e latino-americanos da atualidade. Por termos analisado, no ano passado, um dos grandes autores da literatura argentina clássica (estou falando de Julio Cortázar) no Bonas Histórias, achei interessante trazer para a coluna Livros – Crítica Literária um nome contemporâneo da ficção de nossos hermanos. O enredo de “Não é um Rio” se passa em um lugar indeterminado (no interior da Argentina) e em uma época indefinida (provavelmente no tempo presente). Enero Rey e Negro, dois cinquentões solitários, vão pescar em uma ilha fluvial. A atividade ocorre ao longo de alguns dias e inclui a necessidade de acampar no meio do mato. Para a viagem, a dupla leva o jovem Tilo. O rapaz de 21 anos é filho de Eusebio, o falecido amigo de infância de Enero e Negro. Eusebio foi o único do trio de companheiros a se casar e a ter filho. Infelizmente, ele morreu afogado naquela mesma ilha quando seu menino tinha apenas seis anos de idade. De tanto acompanhar o pai e os amigos mais velhos nas pescarias, Tilo se tornou membro honorário da trupe, substituindo naturalmente Eusebio. No primeiro dia de pesca, Enero Rey, Tilo e Negro pegam uma enorme arraia no rio que corta a ilha. O peixão tem entre 90 e 100 quilos. A batalha para vencer a arraia é árdua e só se concretiza porque, depois de algumas horas de luta insana, Enero saca a pistola e dá três tiros na cabeça do bichano. Orgulhosos da façanha, os amigos penduram a gigantesca pesca ao lado da choupana em que estão abrigados no acampamento. Não demora para o trio de pescadores ser alvo da admiração e, em doses mais elevadas, da inveja de visitantes e moradores da localidade. Todos ficam embasbacados pelo feito obtido no rio. Afinal, não é todo dia em que se pode exibir um pescado daquele tamanho, né? No dia seguinte, os protagonistas da novela se tornam inimigos de Aguirre e César, dois amigos de longa data que moram na ilha e que souberam da pesca da arraia. Aguirre fica injuriado ao descobrir que os turistas mataram a tiros o peixão, no que julga ser um ato de pura covardia de pescadores inábeis e insensíveis. Para completar, pouco tempo mais tarde, ele é informado que o corpo da arraia foi jogado de volta ao rio pelos homens da cidade. Ao invés de comerem o peixe ou darem para alguém que passasse fome, Enero Rey, Tilo e Negro simplesmente descartaram na água a carcaça do peixe porque ele começava a dar sinais de decomposição e a cheirar mal. Aos olhos de Aguirre e César, a atitude dos forasteiros é sinal evidente da maldade com o meio ambiente e do descaso com o estilo de vida simples na ilha. E eles, como bons moradores locais, não podem ficar indiferentes àquele tipo de comportamento predatório e mal-educado dos visitantes urbanos. O trio de turistas precisa sofrer as consequências pelas atitudes indecorosas. Portanto, Aguirre, César e seus comparsas terão a missão de dar uma lição de moral nos arruaceiros de fora. O grupo local prepara na surdina a vingança que Enero, Tilo e Negro merecem. Para piorar as coisas, Tilo se engraça com Mariela e Lucy, duas irmãs adolescentes que residem na ilha. As gurias são sobrinhas de Aguirre. Elas são filhas de Siomara, a irmã meio amalucada de Aguirre que fora abandonada pelo marido há muitos anos. Ao conhecerem por acaso Tilo em um bar, as jovens o convidam para ir à festa que reunirá os moradores do povoado. Encantado com a beleza e com a simpatia das moças, o filho de Eusebio acaba indo ao evento, o que potencializa a antipatia dos inimigos. Está armado o cenário de confusão e de intrigas entre os visitantes e os moradores daquele povoado. O passeio de Enero Rey, Tilo e Negro que deveria ser banal e pacífico pelo interior do país ganha, então, contornos possivelmente trágicos. Prepare-se para fortes emoções e, principalmente, para algumas surpresas de tirar o fôlego. “Não é um Rio” é um livro curtinho. Por isso mesmo, estou chamando-o de novela e não de romance – tanto a editora brasileira quanto a editora argentina preferiram a classificação de romance, uma opção que discordo. Essa obra possui 96 páginas e é apresentada em texto corrido (sem divisão de capítulos). Levei pouco mais de duas horas e meia para ir da primeira à última página da publicação. Viu só como é uma novela e não um romance! Praticamente li seu conteúdo em uma única sessão. Para ser sincero em meu relato, fiz um intervalinho rápido de quinze minutos no meio da atividade (devidamente excluído do tempo total de leitura). Porém, é possível ler tranquilamente essa trama dramática de Selva Almada em uma batida só. Alguns elementos narrativos chamam, logo de cara, a atenção dos leitores em “Não é um Rio”. O primeiro aspecto que gostaria de ressaltar nessa análise do Bonas Histórias é o tipo de linguagem empregado por Selva Almada. A escritora argentina utiliza um tom seco, cortante e áspero para narrar as aventuras do trio de pescadores da cidade que abalam a rotina de um pequeno lugarejo. Repare no uso das frases curtas, na descrição objetiva das cenas e na aplicação de palavras com jeitão meio agressivo. Em muitos momentos, “Não é um Rio” me lembrou a literatura praticada por autores como Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, J. M. Coetzee, Régine Deforges, Raduan Nassar e Rubem Fonseca, mestres na linguagem seca/brutal. Se tivesse que caracterizar Selma Almada em uma só linha, diria que ela é a versão feminina, argentina e mais contemporânea de Raduan Nassar ou de Graciliano Ramos. Afinal, esses autores apresentam os dramas interioranos com uma pegada ácida. Juntamente com a linguagem seca, temos em “Não é um Rio” uma ambientação extremamente pesada e desconfortável. O livro traz uma overdose de personagens solitárias e com enorme vazio emocional, o que confere ainda mais aridez à trama e ao cenário. As relações pessoais, amorosas, familiares e sociais dos protagonistas da novela de Selva Almada são frágeis e pouquíssimos confiáveis. A ambientação carregada e hostil é ainda complementada pela união de: violência endêmica (de diferentes estilos e formas) do interior da Argentina; opressão familiar e social que se perpetua ao longo das gerações; morte que teima em rodear as personagens; tragédias que não dão descanso a ninguém; insistentes preconceitos sociais; e loucura que surge de vários jeitos distintos em cada casa. Quem caminha pelas linhas das obras de Selva Almada percorre normalmente caminhos tortuosos e perigosos, apesar do enredo aparentemente tranquilo (uma pesca de final de semana, nesse caso). Portanto, cuidado ao virar as páginas. Você nunca sabe o que poderá encontrar logo em seguida. Algo que é perceptível desde o comecinho do livro é a apresentação diferenciada do discurso. Em “Não é um Rio”, os diálogos não são grafados com nenhuma das sinalizações características (travessão e aspas, por exemplo). As conversas das personagens vêm misturadas à narração. A separação entre o que é narrativa e o que é discurso se dá pela mudança de linha/parágrafo, o que evita qualquer tipo de confusão por parte dos leitores. E o apontamento de quem está se pronunciando só ocorre após a apresentação do discurso, em uma óbvia quebra de expectativa. Afinal, é mais comum encontrarmos na literatura o expediente inverso (primeiro se aponta quem está falando e só depois se mostra a fala) ou a simultaneidade dos dois elementos (discurso e personagem que fala vêm na mesma linha). Por falar em narração, o narrador dessa obra não fica colado a apenas uma personagem ou a um grupo específico de indivíduos (visitantes ou moradores da ilha). Ele trafega livremente pelo cenário e acompanha tanto Enero Rey, Tilo e Negro quanto Aguirre, César, Siomara, Mariela e Lucy. Grande parte da graça e do impacto da leitura de “Não é um Rio” está justamente nesse olhar completo e multifacetado pela trama. As surpresas que recebemos (e que não são poucas!) vêm da incongruência entre os diferentes planos narrativos. Esse olhar que chamei há pouco de multifacetado é potencializado pelo caminhar do enredo em dois períodos temporais: presente e passado. Simultaneamente à exibição dos dias de pescaria do grupo de amigos da cidade, Selva Almada descortina o passado das personagens de “Não é um Rio”. Aí somos levados aos dramas antigos das figuras retratadas pelo livro: a infância, a juventude e a maturidade de Enero Rey, Eusebio e Negro; e as intrigas sinistras (e, por vezes, inacreditáveis) na casa de Siomara, Mariela e Lucy. Ao mesmo tempo em que assistimos à dicotomia passado/presente, também precisamos, como leitores, compreender as diferenças entre o plano concreto e o universo onírico. Não posso falar muito sobre essa questão pois temo estragar as surpresas das últimas páginas de “Não é um Rio”. O que posso adiantar é que temos nessa obra muitos elementos sobrenaturais. Se você reparar no título do livro irá entender que a pegada fantástica é maior do que poderíamos supor inicialmente – o rio é, nesse caso, uma metáfora. Não à toa, essa história me lembrou bastante “A Terceira Margem do Rio”, um dos contos mais famosos de João Guimarães Rosa que está presente em “Primeiras Estórias” (Nova Fronteira). Acho que já falei demais sobre isso nesse post da coluna Livros – Crítica Literária. Desculpem-me! A única coisa que preciso acrescentar sobre os elementos fantásticos, sem risco de dar o spoiler, é que eles estão intimamente relacionados às reviravoltas que o livro nos reserva em seu desfecho. Por isso mesmo, se você, em uma leitura menos atenta, não pegar o aspecto sobrenatural da trama de “Não é um Rio”, na certa perderá grande parte da beleza dessa história. Se for esse o seu caso, volte para o início da novela e a releia com mais atenção, por favor. Por fim, temos nesse livro uma forte apresentação da cultura argentina. À medida que acompanhamos os relatos de Selva Almada, assistimos à apreciação do mate e do tererê, à preparação do churrasco na brasa, à disputa de culo sucio, à prática da cúmbia etc. Como já falei no início do post de hoje, esse mergulho pelo interior da Argentina e pelas particularidades da rotina rural do país é uma marca da literatura da autora. Não espere, assim, encontrar nos livros de Almada personagens cosmopolitas, cenários modernos, progressos materiais e culturas avançadas. Invariavelmente, ela prefere percorrer as estradas conturbadas e delicadíssimas dos rincões dos pampas. Gostei de “Não é um Rio”. É verdade que esse não é um livro daqueles memoráveis, que lembraremos por anos e anos. Porém, ele é interessante e vale a pena a leitura. Se você tiver disposição, leia a “Trilogia de Varones”/”Trilogia dos Machos” integralmente. A saga completa tem aproximadamente 400 páginas – tamanho de um romance mais parrudo. Se lido sozinho, “Não é um Rio” serve como base para conhecermos rapidamente a literatura de Selva Almada e como amostra do que está sendo feito na ficção argentina contemporânea. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Filmes: O Novíssimo Testamento - Quando Deus veio à Terra
A Bélgica é um pequeno país europeu espremido entre a França, a Alemanha e a Holanda. De lá, surgem filmes bem interessantes. O cineasta belga Jaco van Dormael de 58 anos é responsável pelas principais produções do seu país. É dele “Um Homem com Duas Vidas” (Toto le Héros: 1990), “O Oitavo Dia” (Le Huitième Jour: 1996) e o ótimo “Sr. Ninguém” (Mr. Nobody:2009). Esses longas-metragens misturam drama, humor e uma boa dose de fantasia. E é essa a receita do novo filme de Van Dormael em cartaz nos cinemas brasileiros há uma semana. “O Novíssimo Testamento” (Le Tout Nouveau Testament: 2014) é talvez a melhor produção do belga e com certeza a mais engraçada e polêmica. Nessa história, descobrimos a verdadeira face de Deus. Ele é rabugento, alcóolatra, machista e sádico. Morando em Bruxelas com a esposa e a filha de 10 anos (o outro filho, JC, fugiu de casa há muito tempo), Deus é mal-humorado e controlador. Além de oprimir a esposa, que se limita a cozinhar e a limpar a casa, ele também mantém a filha, Ea, sob rédeas curtas. A menina não pode fazer nada, se sentindo muito entediada. Naquela casa, a televisão só pode sintonizar canais de esportes e ninguém, além do patriarca, pode ter opiniões próprias. Indignada com aquela condição e sofrendo com os questionamentos típicos de uma adolescente, Ea resolve acabar com as maldades do pai. A principal diversão de Deus é provocar tragédias na Terra e prejudicar a vida dos seres humanos. Para dar um basta naquilo, Ea invade o computador do pai e envia uma mensagem para cada homem e mulher da Terra informando a data de morte de cada um (o que provocará o questionamento dos humanos e a mudança em seu estilo de vida). Além disso, a menina bloqueia o computador do pai, impossibilitando-o de continuar interferindo nos acontecimentos terrenos. E para completar, a menina foge de casa, vindo viver entre os homens (como seu irmão fizera há tempos). Na Terra, Ea resolve recrutar seis apóstolos para compartilhar seus ensinamentos. É iniciada, então, a jornada da filha de Deus para resolver os problemas do mundo e para revelar a verdadeira faceta de Deus. “O Novíssimo Testamento” é um filme divertidíssimo. O humor é sagaz e inteligente, brincando ora com os acontecimentos do cotidiano dos homens e ora com a história do cristianismo. Ninguém escapa do humor negro dos roteiristas. O retrato sádico de Deus e de sua família é sensacional. Nem nos piores pesadelos, poderíamos imaginar uma família celestial como esta. O curioso é que esse retrato divino é mais lógico e explica muito mais coisas do que acontece em nossas vidas do que o narrado tradicionalmente pelas religiões. A atuação dos atores também é algo a ser elogiada. Benoît Poelvoorde (como Deus), Yolande Moreau (interpretando a esposa do Divino), a jovem Pili Groyne (como Ea) estão ótimos. Para completar, ainda temos uma participação especial de Catherine Deneuve, como uma das novas apóstolas da filha de Deus. Os mais religiosos podem se incomodar um pouco com a descrição sem pudores de Deus e de sua família. Se lembrarmos que se trata de uma ficção, é possível se divertir com os absurdos dessa criação cinematográfica. A narrativa é ancorada na fantasia e na sátira. A história possui um enredo completamente desvinculado da realidade e, com isso, permite o tempo inteiro o diálogo com o contrassenso e o besteirol. Essa é uma comédia recheada de nonsense, mas que mantem o tempo inteiro um verniz inteligente, raramente recaindo para o deboche total. Tudo parece ter sido pensado de forma lógica. Gostei muito desse filme. Se no ano passado, nesta mesma época do ano, me diverti com “As Férias do Pequeno Nicolau” (Les Vacances du Petit Nicolas: 2014), que contou com a colaboração de Jaco van Dormael no roteiro, dessa vez me diverti com outro filme com o roteiro do cineasta belga. Veja o trailer de "O Novíssimo Testamento": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JacovanDormael
- Mercado Editorial: As ficções mais vendidas no Brasil em 2021
Veja a lista com os dezesseis livros ficcionais mais comercializados nas livrarias brasileiras no ano passado. Todo ano vivencio o mesmo drama literário. Em janeiro, preparo todo empolgado o ranking dos livros mais vendidos no Brasil. Não por acaso, esse já é um post tradicional da coluna Mercado Editorial. Aí quando apresento a lista com os nossos best-sellers para os leitores do Bonas Histórias, me bate certa frustração. Entre os maiores sucessos do nosso país temos, invariavelmente, quase que exclusivamente títulos de autoajuda, obras de negócios, exemplares religiosos e lançamentos de celebridades (e pseudocelebridades) da Internet. Não tenho nada contra esses tipos de publicação – tenho sim, mas para entrar sem aperto no figurino do politicamente correto, nego tal antipatia. O problema (seria problema?!) é que eu sou fã mesmo é de ficção. Viva a ficção literária, baby!!! Como essa categoria fica quase sempre soterrada pela avalanche da não ficção, preciso refazer o ranking. Aí apresento, semanas mais tarde, a seleção contendo apenas os livros ficcionais mais comercializados nas livrarias brasileiras. Como disse, todo ano é o mesmo martírio. E nesse comecinho de 2022 não foi diferente. No mês retrasado, trouxe a listagem com os dezesseis principais best-sellers do mercado editorial brasileiro em 2021. Dessa coletânea, dez eram títulos de autoajuda e apenas seis eram narrativas ficcionais. É importante salientar que, quando digo autoajuda, é autoajuda pessoal, profissional, religiosa/espiritual, afetiva e financeira. Vendo as obras mais comercializadas no ano passado, a conclusão que chegamos é que o brasileiro (ô, coitado!) está precisando urgentemente de ajuda em todas as áreas. Fazer o quê, né? Quem manda viver em um país que piora a passos largos a cada quadriênio. Voltemos ao assunto principal desse post que é a literatura ficcional. Hoje, retorno à coluna Mercado Editorial para trazer o ranking das dezesseis ficções mais vendidas no Brasil em 2021. Agora a coisa começa a ficar boa... O título ficcional mais comercializado em nossas terras no ano passado foi “Torto Arado” (Todavia), romance de Itamar Vieira com venda na casa de 74 mil unidades. Publicado em 2019, o livro de Vieira conquistou o Prêmio Jabuti de 2020 na categoria Romance Literário e se tornou um fenômeno de crítica e de público. A boa notícia é que a literatura brasileira chegou ao topo da lista dos mais vendidos com uma publicação de altíssimo nível. “Torto Arado” é realmente uma das melhores obras que foram lançadas recentemente – se você ainda não a leu, não perca tempo, leia! A má notícia é que esse é o único exemplar da ficção nacional no ranking. Os outros quinze títulos ficcionais mais vendidos no Brasil em 2021 são da literatura estrangeira. E, nesse caso, entenda a ficção internacional como a literatura em língua inglesa produzida no Reino Unido e nos Estados Unidos. Dos best-sellers gringos, dez vieram da América e cinco da Europa. Vejo esse predomínio de obras e de escritores norte-americanos e britânicos como símbolo máximo da força de suas indústrias literárias. Lá, eles têm uma indústria montada e ativa para a produção e venda de livros ficcionais – de escolas de Escrita Criativa e agentes literários que auxiliam os autores até premiações de todas as classes, incontáveis editoras e gigantesco público consumidor. Por aqui, não temos uma estrutura formal para a promoção literária (os best-sellers nacionais são geralmente esforços individuais e exceções à regra do setor). Além do magnífico “Torto Arado”, o pódio das cinco ficções mais vendidas no Brasil no ano passado é composto por quatro romances norte-americanos: “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (Seguinte), de Casey McQuiston, “A Garota do Lago” (Foro Editorial), de Charlie Donlea, “Mentirosos” (Seguinte), de E. Lockhart, e “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (Paralela), de Taylor Jenkins Reid. Enquanto “Vermelho, Branco e Sangue Azul” vendeu 56 mil exemplares, “A Garota do Lago”, “Mentirosos” e “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” tiveram, respectivamente, 56 mil, 50 mil e 46 mil unidades comercializadas de janeiro a dezembro de 2021. Se já não bastasse a quase onipresença de livros norte-americanos e ingleses na lista das ficções mais vendidas por aqui, outra questão que chama a atenção no ranking dos best-sellers nacionais é a grande quantidade de títulos infantojuvenis. Temos nada mais, nada menos do que onze exemplares da literatura infantojuvenil. Ou seja, dois terços da categoria ficção são obras com pegada adolescente. Costumo brincar que ou nossa juventude está lendo muito (mais do que os adultos) ou nossos adultos possuem gosto literário da molecadinha (essa segunda hipótese explica muita coisa...). Além de “Torto Arado” e “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (vejo “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, “A Garota do Lago” e “Mentirosos” como obras infantojuvenis, tá?), os romances verdadeiramente adultos do nosso ranking são os ingleses “Teto para Dois” (Intrínseca), de Beth O´Leary (37 mil unidades vendidas), “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), clássico de George Orwell (26 mil unidades comercializadas), e “O Homem de Giz” (Intrínseca), de C. J. Tudor (23 mil livros vendidos). Para montar o ranking dos livros ficcionais mais vendidos no Brasil em 2021, utilizei como referência as informações coletadas pelo PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial brasileiro há alguns anos. O PublishNews faz a mensuração do setor usando essencialmente os dados captados nas principais redes de livrarias (tanto nas operações eletrônicas quanto nas lojas físicas). Trata-se de um método de pesquisa que creio ser mais preciso. As únicas diferenças entre a lista de best-sellers do Bonas Histórias e do PublishNews são que (1) descartamos os mangás, os gibis e os graphic novels da nossa lista e (2) não dividimos o segmento ficcional entre literatura adulta e literatura infantojuvenil. Feitas essas pequenas (e rápidas) observações, podemos agora mergulhar no ranking dos principais sucessos das livrarias brasileiras no ano passado, né? Então, chega de blablablá e vamos a mais uma lista da coluna Mercado Editorial. Veja, a seguir, os dezesseis títulos ficcionais mais adquiridos em 2021 pelos leitores/consumidores brasileiros: 1º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior (Brasil) – Literatura Brasileira – Todavia – 74 mil unidades. 2º “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 56 mil unidades. 3º “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Faro Editorial – 56 mil unidades. 4º “Mentirosos” (2014) – E. Lockhart (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 50 mil unidades. 5º “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (2017) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Literatura Estrangeira – Paralela – 45 mil unidades. 6º “Box Harry Potter” (1997 – 2007) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Rocco – 40 mil unidades. 7º “Amor & Gelato” (2016) – Jenna Evans Welch (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 38 mil unidades. 8º “Corte de Espinhos e Rosas” (2015) – Sarah J. Maas (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 38 mil unidades. 9º “A Rainha Vermelha” (2015) – Victoria Aveyard (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 37 mil unidades. 10º “Teto para Dois” (2019) – Beth O´Leary (Inglaterra) – Literatura Estrangeira – Intrínseca – 37 mil unidades. 11º “A Seleção” (2012) – Kiera Cass (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 32 mil unidades. 12º “Um De Nós Está Mentindo” (2017) – Karen McManus (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 27 mil unidades. 13º “A Revolução dos Bichos” (1945) – George Orwell (Inglaterra) – Literatura Estrangeira – Companhia das Letras – 26 mil unidades. 14º “O Homem de Giz” (2018) – C. J. Tudor (Inglaterra) – Literatura Estrangeira – Intrínseca – 23 mil unidades. 15º “Coraline” (2002) – Neil Gaiman (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Intrínseca – 22 mil unidades. 16º “O Príncipe Cruel” (2018) – Holly Black (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Galera Record – 22 mil unidades. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Os livros mais vendidos no Brasil em 2021
Confira o ranking dos dezesseis títulos mais comercializados nas livrarias brasileiras no ano passado segundo os dados do PublishNews. Ao olhar a lista de livros mais vendidos no Brasil em 2021, vislumbrei um retrato interessante (quase que me escapou o termo tragicômico) de meu país e de meus conterrâneos. Logo de cara, o que se destaca é a quantidade absurda de obras de autoajuda. Alguns desses títulos estão camuflados como publicações de negócios. Porém, não se engane, caro(a) internauta assíduo das páginas do Bonas Histórias. No fundo, o que todos querem é transformar os leitores em pessoas melhores e mais ricas. Mais ricas não, milionárias! Em outras palavras, o mercado editorial brasileiro é constituído por escritores afortunados, autores filantropos (não guardam para si a receita fácil do enriquecimento) e literatos verdadeiramente plenos (sabem como tornar nosso dia a dia mais sereno e equilibrado). Sorte dos consumidores que possuem acesso direto aos segredos da felicidade e da abundância, né? Veja alguns exemplares dessa linha editorial que estão no topo da lista dos livros mais comercializados no ano passado: “Mais Esperto que o Diabo” (Citadel), de Napoleon Hill (primeira colocação no ranking de vendas das livrarias brasileiras); “O Poder da Autorresponsabilidade” (Gente), de Paulo Vieira (segundo lugar); “Mindset Milionário” (Buzz), de José Roberto Marques (terceira posição); “Do Mil ao Milhão” (HarperCollins), de Thiago Nigro (sexta colocação); “Pai Rico, Pai Pobre – Edição Especial de 20 anos” (Alta Books), de Roberto T. Kiyosak (nono lugar); “Os Segredos da Mente Milionária” (Sextante), de T. Harv Eker (décima segunda posição); “A Coragem de Ser Imperfeito” (Sextante), de Brené Brown (décimo terceiro lugar); “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (Intrínseca), de Mark Manson (décima quarta posição); “O Poder do Hábito” (Objetiva), de Charles Duhigg (décimo quinto lugar); e “O Homem Mais Rico da Babilônia” (HarperCollins), de George S. Clason (décima sexta colocação). Se minhas contas não estiverem equivocadas (o que invariavelmente acontece uma vez ou outra quase sempre às vezes...), 10 dos 16 livros mais vendidos em nosso país em 2021 integram a prateleira dos títulos de autoajuda – autoajuda pessoal, profissional, religiosa/espiritual, afetiva e financeira. É amigo(a), a coisa não está fácil para ninguém! Em seguida, temos um bom número de livros de ficção infantojuvenil entre os mais vendidos. Sim, a juventude brasileira está lendo. Está mesmo? Será verdade?! Ao menos, as publicações para esse público apresentaram ótimas vendagens no ano passado. Os destaques vão para: “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (Seguinte), de Casey McQuiston (sétimo lugar no ranking nacional dos mais vendidos), “A Garota do Lago” (Faro Editorial), de Charlie Donlea (oitava posição), e “Mentirosos” (Seguinte), de E. Lockhart (décima posição). Curiosamente, todas as obras do parágrafo acima são de autores norte-americanos. Estaria nossa juventude apaixonada pela literatura norte-americana, hein? Não querendo entrar nesse mérito, abordo imediatamente outra questão ainda mais polêmica: estariam os adultos brasileiros lendo muita literatura infantojuvenil?! Isso é, quando não estivessem com um título de autoajuda em mãos, né? Se essa minha teoria for válida, meus compatriotas estão, além de desesperados por publicações motivacionais e orientadoras, com um repertório juvenil e um gosto literário limitado (para sua idade). Ai, ai, ai. Como diria Renato Russo, que país é esse?! E, por um acaso, não haveria nenhum livro de ficção adulta na lista dos mais vendidos? Caso você esteja se fazendo essa pergunta, saiba que eu também me questionei a respeito. A exceção que só confirma a regra da supremacia estrangeira em nossas livrarias está na quarta colocação do ranking de vendas de 2021. Estou falando de “Torto Arado” (Todavia), o romance espetacular de Itamar Vieira Junior. Essa obra é justamente uma das gratas surpresas da literatura brasileira dos últimos anos. Temos aqui um raro exemplar que agradou simultaneamente aos críticos e aos leitores comuns. Vale a pena conhecê-lo! Outro integrante da ficção, só que dessa vez internacional, na lista dos mais comercializados em 2021 é “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (Paralela), romance da norte-americana Taylor Jenkins Reid. Essa obra ficou na décima primeira posição no ranking das livrarias brasileiras. Lançado originalmente em 2017, “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” ganhou uma publicação em português em outubro de 2019. Se em 2020 suas vendas não foram tão empolgantes, no ano passado os leitores nacionais se conectaram com esse título de Taylor Jenkins Reid. Como ainda não o li, não posso dizer se é bom. Quando o assunto é ensaio/crônicas, o destaque vai para a republicação de “Mulheres que Correm com os Lobos” (Rocco), coletânea não ficcional de Clarissa Pinkola Estes (quinta posição). Nessa obra da década de 1990, a norte-americana apresenta conceitos feministas a partir das análises de contos folclóricos aparentemente machistas. Trata-se, inegavelmente, de um título extremamente original, instigante e, infelizmente, atual. Para montar essa lista das obras mais vendidas de 2021, usei, como sempre, os dados do PublishNews, a fonte mais confiável do mercado editorial brasileiro. O PublishNews faz a medição do setor usando fundamentalmente as informações coletadas nas principais redes livreiras do país. É um método que se provou mais fidedigno (e honesto). E aí, está curioso(a) para saber em detalhes quais foram os best-sellers das livrarias brasileiras no ano passado, hein? Então, chega de papo furado e vamos sem mais delongas para ao novo ranking da coluna Mercado Editorial. Veja, a seguir, os dezesseis livros mais vendidos em 2021 no Brasil: 1º “Mais Esperto que o Diabo” (1938) – Napoleon Hill (Estados Unidos) – Autoajuda – Citadel – 109 mil unidades. 2º “O Poder da Autorresponsabilidade” (2018) – Paulo Vieira (Brasil) – Autoajuda – Gente – 87 mil unidades. 3º “Mindset Milionário” (2021) – José Roberto Marques (Brasil) – Negócios – Buzz – 85 mil unidades. 4º “Torto Arado” (2019) – Itamar Vieira Junior (Brasil) – Literatura Brasileira – Todavia – 74 mil unidades. 5º “Mulheres que Correm com os Lobos” (1992) – Clarissa Pinkola Estes (Estados Unidos) – Coletânea de Ensaios e Contos – Rocco – 73 mil unidades. 6º “Do Mil ao Milhão” (2018) – Thiago Nigro (Brasil) – Negócios – HarperCollins – 59 mil unidades. 7º “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 56 mil unidades. 8º “A Garota do Lago” (2016) – Charlie Donlea (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Faro Editorial – 56 mil unidades. 9º “Pai Rico, Pai Pobre – Edição Especial de 20 anos” (1997) – Roberto T. Kiyosak (Estados Unidos) – Negócios – Alta Books – 52 mil unidades. 10º “Mentirosos” (2014) – E. Lockhart (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil Estrangeira – Seguinte – 50 mil unidades. 11º “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” (2017) – Taylor Jenkins Reid (Estados Unidos) – Literatura Estrangeira – Paralela – 45 mil unidades. 12º “Os Segredos da Mente Milionária” (2005) – T. Harv Eker (Canadá) – Autoajuda – Sextante – 43 mil unidades. 13º “A Coragem de Ser Imperfeito” (2012) – Brené Brown (Estados Unidos) – Autoajuda – Sextante – 43 mil unidades. 14º “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se” (2016) – Mark Manson (Estados Unidos) – Autoajuda – Intrínseca – 42 mil unidades. 15º “O Poder do Hábito” (2012) – Charles Duhigg (Estados Unidos) – Negócios – Objetiva – 41 mil unidades. 16º “O Homem Mais Rico da Babilônia” (1926) – George S. Clason (Estados Unidos) – Negócios – HarperCollins – 40 mil unidades. Quem acompanha os posts do Bonas Histórias com alguma regularidade já sabe que os títulos que mais me atraem são os ficcionais. Não à toa, eles inundam as páginas da coluna Livros – Crítica Literária – temos por aqui uma infinidade de romances, novelas, coletâneas de contos e crônicas, infantojuvenis e infantis. Não é errado relacionarmos a existência desse humilde blog à investigação da literatura ficcional. Para conseguir definir com precisão quais foram as obras de ficção mais vendidas no Brasil no ano passado (minha grande curiosidade!), precisarei excluir da lista dos best-sellers todas as publicações de negócios, autoajuda, religião, biografia etc. Confesso que já fiz isso. Contudo, esse será um assunto para um próximo post da coluna Mercado Editorial. Em março, prometo retornar ao Bonas Histórias para apresentar quais foram os maiores sucessos da ficção no ano passado em nosso país. Até mais! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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- Livros: Jogo de Cena - O terceiro romance policial de Andrea Nunes
Lançada em 2019, essa obra é ambientada no interior de Pernambuco e mistura crimes misteriosos, sociedades secretas, intriga internacional e folclore brasileiro. Nesse feriado-não-feriado de Carnaval, li “Jogo de Cena” (CEPE Editora), a penúltima publicação ficcional de Andrea Nunes, um dos bons nomes da literatura nordestina contemporânea e do romance policial brasileiro. Assim que fechei as páginas da obra na segunda-feira, uma dúvida pintou na minha cachola: será que deveria analisar esse título de Andrea no Bonas Histórias, hein?! Tal questionamento surgiu porque não costumo apresentar na coluna Livros – Crítica Literária textos que eu não tenha gostado. Sei que o público pode ficar com a sensação, a partir dessa linha editorial, que o blog é uma rasgação de seda danada. Contudo, prefiro assim. Se leio algo que não aprecio, simplesmente não compartilho publicamente meu desapontamento (essa diretriz não se aplica à coluna Desafio Literário, tá?). Dessa forma, ninguém pode falar que deixou de comprar um livro ou não iniciou uma leitura porque eu desaconselhei. Regrinha justa, fácil de entender e prática. Para provar que toda regra tem exceção, resolvi debater “Jogo de Cena” no post de hoje do Bonas Histórias, mesmo não tendo gostado do livro. Na minha opinião, esse terceiro romance policial de Andrea Nunes apresenta equívocos narrativos tão sensíveis e numerosos que, queiramos ou não, acabam afetando significativamente a experiência de leitura. Ou a escritora errou a mão (como dizemos quando a receita literária desanda) ou ela duvida da inteligência dos leitores (erro imperdoável para qualquer artista talentoso). Por qualquer ponto de vista que tenhamos, essa impressão negativa vai contra o bom retrospecto do portfólio ficcional de Andrea. Se você leu, por exemplo, “A Corte Infiltrada” (Buzz), a publicação anterior da autora, sabe o que estou dizendo. Então quer dizer que “Jogo de Cena” é, no todo, um título muito ruim, Ricardo?! Aí está justamente a questão delicada que me fez refletir bastante nos últimos dias. A resposta pode parecer em um primeiro momento contraditória: sim e não. Sim e não? Sim e não! Como assim? Se você ler apenas a primeira metade da obra, na certa irá atestar: olha, esse livro é ótimo, a história é excelente, o ritmo é contagiante e a trama é pertinente. Onde já se viu, Ricardo, criticar negativamente um suspense tão eletrizante como esse, hein?! Preciso concordar com sua opinião, caro(a) leitor(a) do Bonas Histórias, porque foi exatamente esse o sentimento que tive. Pelo menos, foi desse jeito que vi os capítulos iniciais do thriller de espionagem de Andrea Nunes. Essa é a parte do não (não é um romance de todo ruim) à pergunta que abriu esse parágrafo. Porém, como repetem os comentaristas esportivos há décadas, o jogo só termina quando o juiz apita, certo? E no segundo tempo, quero dizer, na segunda metade de “Jogo de Cena”, temos a consumação da tragédia – tragédia literária nesse caso é quando o texto descamba para algo pouco crível e sem lógica. Fazia muito tempo que não via um desfecho tão absurdo como o desse romance. As inverossimilhanças são incontáveis e gravíssimas. Sabe quando o time desce para o intervalo ganhando de 3 a 0 e a torcida se enche de confiança para comemorar uma vitória brilhante? Aí na etapa complementar da partida, dá um apagão na equipe e a derrota chega de virada e por uma goleada humilhante, tipo 9 a 3. Foi mais ou menos isso o que se passou nessa publicação. Ai, ai, ai. Que vergonha! Em resumo, o que me deixou profundamente desapontado foi a baixíssima qualidade do desenlace (a exposição, a complicação e o clímax dessa trama até que são muito bons, bem acima da média). E, convenhamos, não há experiência de leitura que salve quando o romance deixa um gosto amargo no final. Repito em alto e bom som: até os capítulos derradeiros de “Jogo de Cena”, reconheço que o romance de Andrea Nunes estava indo maravilhosamente bem, caminhando quase que impecavelmente. Para entendermos o que aconteceu efetivamente para a receita narrativa ter desandado tanto, decide analisá-la em detalhes. Daí a ideia do post de hoje – que subverte a lógica da coluna Livros – Crítica Literária. Publicado em maio de 2019 pela Editora CEPE, “Jogo de Cena” mantém boa parte do estilo literário de Andrea Nunes. Temos aqui a atuação de um serial killer, intrigas internacionais/geopolíticas, sociedades secretas, muitos mistérios, jogos de poder tanto em âmbito político quanto na seara empresarial, protagonistas que engatam um romance pouco convencional (e meio proibido), personagens femininas fortes e cativantes, investigação criminal que dialoga com aspectos artísticos, religiosos e culturais (à la Umberto Eco) e forte brasilidade. Andrea Fernandes Nunes nasceu, em novembro de 1971, em João Pessoa, capital da Paraíba. Desde os 23 anos, quando se formou em Direito e passou no concurso do Ministério Público, ela vive em Pernambuco. Depois de morar em algumas cidades do interior do Estado (Arcoverde, Nazaré da Mata e Cabo de Santo Agostinho) por obrigações profissionais, a escritora fixou residência no Recife. É até difícil dizer se Andrea é, aos olhos atuais, mais paraibana ou mais pernambucana. Em 2014, ela recebeu o título de cidadã pernambucana. Por isso mesmo, diria que hoje em dia ela pode ser descrita (em uma licença poética) como uma autora paraibucana. Promotora de Justiça em Pernambuco desde 1995, Andrea Nunes é escritora ficcional há mais de três décadas. Ela começou produzindo obras infantis e infantojuvenis na década de 1990. Com apenas 16 anos, a autora viu sua obra de estreia, “O Diamante Cor-de-rosa”, ser premiada com o Troféu Parahyba de Imprensa na categoria melhor título infantojuvenil paraibano de 1990. Para completar, ela também conquistou o Troféu Baile dos Artistas pela adaptação desse texto para o teatro. Nada mal para quem ainda era uma adolescente, né? Nos anos seguintes, já adulta e trabalhando no Ministério Público de Pernambuco, Andrea continuou publicando livros tanto no universo ficcional quanto no mundo do Direito. Prova concreta disso são “Papel Crepom” (Editora Ideia), narrativa épica, e “Terceiro Setor – Controle e Fiscalização” (Método), livro jurídico. Desde o comecinho da década passada, Andrea Nunes mergulhou para valer nos romances policiais, sua especialidade e grande paixão literária. Fã do gênero desde menina, quando devorava, em João Pessoa, os clássicos de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle e as obras contemporâneas de Rubem Fonseca e dos autores norte-americanos do romance negro, ela sempre nutriu simpatia pelas investigações criminais. Não à toa, virou promotora de Justiça e romancista. Atualmente, Andrea é integrante da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial e Terror (Aberst). Sua primeira narrativa longa no universo do suspense e mistério foi “Código Numerati – Conspirações em Rede” (All Print). Essa obra de 2010 conquistou algum destaque na loja Kindle, onde teve uma vendagem interessante. O segundo romance policial de Andrea foi “A Corte Infiltrada”. Publicado originalmente em 2014 pela Carpe Diem e relançado em 2017 pela Editora Buzz, esse thriller é o trabalho mais valorizado da autora paraibana-pernambucana até aqui. Graças a essa publicação, Andrea Nunes recebeu, em 2014, menção honrosa na Premiação Dulce Chacon da Academia Pernambucana de Letras como a melhor escritora nordestina daquela temporada. “A Corte Infiltrada” também foi finalista do Prêmio Bunkyo de Literatura de 2019 – perdeu a primeira colocação para “Mundo Grave” (INCM), de Pedro Pereira Lopes, e ficou empatado no segundo lugar com “Royal Destiny” (Editora Astronauta), de Vera Carvalho. Em novembro do ano passado, saiu o quarto romance policial de Andrea, “Corpos Hackeados” (CEPE Editora). Se eu não estiver enganado, citei esse título no último post da coluna Mercado Editorial. Nessa matéria do Bonas Histórias, eu trouxe justamente os 100 principais lançamentos da ficção e da poesia que chegaram às livrarias brasileiras em janeiro e fevereiro de 2022. Obviamente, não podia deixar a autora nordestina fora da lista de obras que os leitores nacionais precisam ficar de olhos abertos nesse começo de ano. Voltando a falar especificamente sobre “Jogo de Cena”, nosso assunto de hoje, o enredo desse livro se passa essencialmente nos tempos atuais e em Mangueirinhas, pequena cidade (fictícia) do interior de Pernambuco (há cenas pontuais que são encenadas em Recife, Paris, Lyon, Rio de Janeiro e Brasília). A pouco mais de cem quilômetros do Recife e situada na fronteira entre a Zona da Mata e o Agreste, a localidade tem uma nova delegada. Alexandra se formou em Direito e passou recentemente no concurso público para comandar a força policial do município em que nasceu e cresceu. Ela assumiu há seis meses a delegacia que fora comandada justamente pelo pai, Doutor Siqueira. Aposentado por problemas de saúde que o obrigam a ficar em cadeira de rodas, Siqueira vê com orgulho a filha adotiva ocupar seu posto. Como delegada, Doutora Alexandra é ao mesmo tempo destemida, honesta, justa e solidária, o que faz com que ganhe rapidamente a confiança e o carinho da população. Todavia, Mangueirinhas irá viver tempos difíceis... O primeiro acontecimento estranho que a cidade pernambucana assiste é a morte trágica de Michel Simon, um perfumista francês que morava na casa paroquial e que tinha uma rotina pacata. Seu corpo foi achado inerte no rio, o que alimentou o boato de que fora morto pela Mãe d´água, uma famosa figura do folclore brasileiro. Por viver em uma região extremamente supersticiosa e mística, a maioria dos habitantes de Mangueirinhas acredita piamente na versão de que a lenda da belíssima mulher que enfeitiçava os homens teria matado Michel. Obviamente, Doutora Alexandra não acredita nesse componente fantástico e começa a investigar o caso com rigor científico. A opinião inicial da moça é que a morte do gringo foi acidental ou fruto de suicídio. Para perplexidade da protagonista, Michel Simon não era perfumista coisa nenhuma. A investigação preliminar de Alexandra mostra que o francês era apaixonado por Alquimia e trabalhava como engenheiro para uma companhia europeia interessada em desenvolver projetos secretos de energia nuclear. No Brasil há alguns anos, ele fazia experiências envolvendo fontes energéticas alternativas. Para tal, usava o laboratório montado na paróquia do Padre Joaquim, que o abrigava como hóspede (em troca de uma mesada). Antes de morrer, Michel avisou aos amigos próximos que estava sendo perseguido e, por isso, deixou mensagens enigmáticas para Jean-Pierre Burnier, seu colega mais jovem que morava em Lyon e com quem compartilhava suas descobertas. Para potencializar ainda mais o mistério, Alexandra descobre que os homens-caveira, soldados do braço armado da Skull and Bones também estavam envolvidos no caso e procuravam desvendar os segredos deixados pelo engenheiro francês. A Skull and Bones é uma poderosa organização secreta e paramilitar dos Estados Unidos com atuação mundial. De tão perigosos, os passos dos homens-caveira no Brasil eram monitorados pelos agentes da Abin e pelos funcionários de campo do departamento de Operações Nucleares Experimentais da Eletronuclear. Aparentemente, a alta cúpula da Skull and Bones estava muito preocupada com o desenrolar dos estudos energéticos da dupla Michel Simon e Jean-Pierre Burnier e não queria que os engenheiros europeus compartilhassem suas descobertas. Como desgraça pouca é bobagem, Alexandra ainda se vê no meio de uma intrincada disputa política. Gervásio Menezes, prefeito de Mangueirinhas, deseja desapropriar um terreno abandonado para construir moradias populares. Antigamente, o local era um engenho de cana de açúcar de uma família tradicional da região. Hoje, é apenas um espaço sem uso, tomado pelo mato e desabitado. Porém, Vado, o principal líder da oposição política ao prefeito, não quer que o velho engenho vire um condomínio de casas. Ele alega que a construção irá destruir a fauna e a flora locais, o que caracterizaria um crime ambiental. Vado recebe o apoio sutil do líder de uma seita religiosa que está situada ilegalmente no terreno em disputa. É, amigo(a), a vida da jovem delegada de Mangueirinhas não está fácil em “Jogo de Cena”! À medida em que ela aprofunda a investigação da morte de Michel Simon, novos assassinatos acontecem na cidade. E eles são atribuídos invariavelmente a lendas folclóricas: papo-figo, lobisomem, mula-sem-cabeça... Não é preciso dizer que a população do pequeno povoado pernambucano entra em desespero. Para auxiliar no trabalho policial de Alexandra, Doutor Siqueira sugere à filha adotiva que aceite a colaboração de Pedro, o filho biológico do velho delegado. Pedro é um famoso historiador especializado em folclore brasileiro e mora há anos na Europa. Justamente no período crítico que Mangueirinhas vive uma onda de crimes inexplicáveis, o rapaz passa férias em sua terra natal. Se por um lado ele tem muitos conhecimentos sobre História, alquimia e lendas brasileiras, o que pode ajudar na investigação de Alexandra, por outro lado o pseudo-irmão desperta fortes sentimentos de antipatia na delegada. Eles nunca se deram bem e a aversão que nutrem um pelo outro parece crescer com o tempo. Conseguirá Alexandra trabalhar em parceria com o irmão que sempre agira de maneira distante, arrogante e insensível? Saberá Pedro interagir com a filha da amante do pai, que fora adotada tão logo a primeira mulher do Doutor Siqueira faleceu? Em meio a desavenças e polêmicas familiares, a dupla de protagonistas precisará se unir para desvendar uma trama surpreendente e recheada de reviravoltas. Poupo a pouco, o romance policial atira suas personagens (e, como consequência, os leitores) em um conflito pontuado com questões de geopolítica, arte sacra, crenças populares, alquimia, segredos industriais, sociedades secretas, tabus familiares, forças militares e paramilitares, intrigas políticas, interesses capitalistas etc. “Jogo de Cena” é um livro de tamanho mediano. Ele possui 328 páginas que estão distribuídas em 48 capítulos (46 seções numéricas mais o prólogo e o epílogo). Apesar de não ser um tijolão, essa obra é a mais extensa do portfólio de Andrea Nunes. Os outros romances policiais da autora paraibana têm entre 222 páginas (no caso de “A Corte Infiltrada”) e 260 páginas (como “Corpos Hackeados”). Levei cerca de seis horas e meia, sete horas para concluir integralmente a leitura de “Jogo de Cena”. Praticamente li essa narrativa em três sessões na segunda-feira: duas horas e pouco no período da manhã, duas horas e pouco à tarde e duas horas e pouco à noite. Quem não for chegadinho(a) a longos períodos de leitura, saiba que dá para ler essa publicação de Andrea em dois ou três dias/noites numa boa. Confesso que li tranquilamente em um único dia porque a história ajudou nesse sentido. O texto é gostoso, o conflito é cativante e o suspense é chamativo. Apesar de não ter apreciado a qualidade geral de “Jogo de Cena”, preciso reconhecer que há vários aspectos positivos nessa obra ficcional. Em primeiro lugar, Andrea Nunes escreve muito, muito bem. Quem curte um bom romance policial e gosta de ficar ligado no melhor da literatura brasileira contemporânea precisa acompanhar de perto o trabalho da escritora. Nesse sentido, “Jogo de Cena” não foge muito das características estilísticas de Andrea: o texto é fluido, a linguagem é gostosa e a trama é bastante envolvente. Além disso, temos mais uma vez ótimas personagens mergulhadas em mistérios de tirar o fôlego. É verdade que elas são normalmente figuras planas e abraçam incondicionalmente a visão de mundo maniqueísta, mesmo assim gostei delas. Suas construções ficcionais foram bem realizadas. Ou seja, cada pessoa retratada nas páginas do livro possui características marcantes e está integrada intimamente ao conflito, o que deixa tudo bem amarrado. Dificilmente você, no meio da leitura, confundirá nomes ou ficará em dúvida sobre quem é quem em um enredo de Andrea Nunes. O que mais gostei em “Jogo de Cena” é a imersão na cultura brasileira e, principalmente, na cultura nordestina. De forma mais precisa, podemos dizer que assistimos, nesse romance, ao mergulho na pernambucanidade. Há incontáveis referências à história, à geografia, à arte, à economia, aos hábitos, à música, à dança, à culinária, à vestimenta, à religião, ao folclore e à formação sociocultural dessa região. A sensação é de estarmos realmente passeando por Pernambuco. As páginas desse livro de Andrea trazem, por exemplo, o carimbó, os maracás, Mestre Vitalino, o frevo, o passado colonial (economia canavieira e os engenhos de açúcar), a mistura da religiosidade católica com as crenças africanas, a colonização holandesa, o rico folclore local. Curiosamente, as referências nordestinas e pernambucanas surgem já na abertura da maioria dos capítulos. Há citações à literatura, à poesia, à música e às reflexões de muitos artistas naturais da região como Ascenso Ferreira, Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Antônio Maria, Joaquim Cardozo e Carlos Pena Filho. Por essa perspectiva mais bairrista, admito que fiquei um pouco frustrado com as referências aos artistas de outras nacionalidades como Florbela Espanca, Antônio Nobre, Ernest Hemingway, Charles Baudelaire e Fernando Pessoa. De certa forma, quando o livro traz figuras de fora do Nordeste (e do Brasil), perde-se um pouco da pegada arretada da peste que a trama possui. Outro elemento marcante de “Jogo de Cena” é o excelente ritmo narrativo. Não há capítulo morno ou parado nessa obra. Sempre está acontecendo algo nas páginas, o que atrai nossa atenção. Em termos de ação, o leitor mais exigente não tem o que reclamar. O que permite o ritmo mais acelerado (e a predominância de ação) é a característica da narração de Andrea Nunes. Com o texto em terceira pessoa e o narrador que não fica colado aos protagonistas (ele acompanha várias personagens, inclusive alguns coadjuvantes e os vilões), estamos sempre no olho do furacão. Apesar da escolha desse tipo de narrador ser normalmente questionável, é inegável seu efeito benéfico para o ritmo narrativo de forma geral. Indubitavelmente, não teríamos metade do suspense nem a maior parte da adrenalina se tivéssemos outro tipo de narrador (em primeira pessoa ou mais comportado em relação ao deslocamento no espaço narrativo). Ainda na seção de coisas que gostei em “Jogo de Cena”, posso citar a pluralidade da narrativa. Esse não é um romance policial convencional. Além da trama criminal em si, que faz o conflito efetivamente girar, Andrea Nunes nos apresenta uma história com muito romantismo (com direito a viagem a Paris), suspense internacional (intriga geopolítica envolvendo grandes interesses capitalistas) e mistérios pertencentes às sociedades secretas. Para completar o caldo, acrescente doses generosas de folclore brasileiro (lenda da mãe d´água, papo-figo, lobisomem, mula-sem-cabeça) e de filosofia, ciência e religião (Alquimia, Hermetismo, Arte Sacra, Pedra Filosofal). Se por um lado temos uma trama eclética, o que é muito legal, por outro lado “Jogo de Cena” transmite uma sensação de déjà vu. Sabe quando você lê algo e pensa na hora: já vi algo parecido em outras obras literárias? Pois foi exatamente essa a minha impressão. Em muitos momentos, o romance de Andrea me pareceu uma versão abrasileirada (e piorada!) das sagas policiais de Nora Roberts (a mocinha investiga um crime e, no meio do caminho, se apaixona pela pessoa errada), das aventuras históricas de Dan Brown (com direito a muitos enigmas guardados por sociedades secretas), dos suspenses políticos/geopolíticos de Frederick Forsyth (com o risco do planeta ser destruído ou cair nas mãos das forças malévolas) e das fantasias infantojuvenis de J. K. Rowling (todos buscam o poder conferido à Pedra Filosofal). Porém, esse não é definitivamente o pior aspecto de “Jogo de Cena”. O que me incomodou muitíssimo nessa narrativa é a interminável coleção de inverossimilhanças da trama. Há muito tempo eu não lia um livro de um(a) escritor(a) tão gabaritado(a) que afrontasse tanto a minha (possível) inteligência. Muitas escolhas narrativas do romance vão contra qualquer lógica e bom senso dos leitores. Não quero listar aqui todas as inconsistências (se não nunca mais terminaria esse post), mas posso apresentar algumas. Vamos lá! Parece-me pouco crível que pesquisas de fusão (ou seria fissão?) nuclear possam ser realizadas em laboratórios domésticos. Aí alguém pode dizer: mas o pesquisador tinha um supercomputador, o mais tecnológico do mundo. Como ele poderia ter algo desse tipo se nem mesmo países desenvolvidos têm máquinas dessa complexidade, Santo Deus!!! E sabe onde tal supercomputador de “Jogo de Cena” ficava? No Brasil, um dos países mais atrasados tecnologicamente, e no interior de Pernambuco. E ele estava em uma propriedade isolada e abandonada que nem mesmo possuía energia elétrica. E como o computador funcionava? Simples: gerador de energia. Não! Não pode!!! Qualquer pessoa com o mínimo de perspicácia sabe que um equipamento assim puxa tanta energia, mas tanta energia que é inviável um gerador doméstico dar conta. A interminável sequência de bobagens prossegue quando a pesquisa sobre energia nuclear chega às fases mais avançadas. Onde você acha que os cientistas franceses vão realizar testes práticos? Em um museu. Sim, é o que você ouviu. Eles vão para um museu em Recife. Esse local, segundo o narrador do romance, tem os equipamentos mais modernos de energia nuclear do mundo. Ai, ai, ai. Será que Andrea Nunes não percebeu os absurdos que estava escrevendo?! Não havia um(a) bom(boa) editor(a) na CEPE para colocar a mão no ombro da autora e falar: “precisamos conversar sobre alguns pontos desse livro, minha cara”? Também não me parece nem um pouco verossímil dois sujeitos trabalharem isoladamente em algo tão grandioso quanto a fusão nuclear (ou seria fissão, Santo Deus?!) e obterem descobertas que nem mesmo as maiores e melhores equipes do mundo conseguiram. Aí o leitor mais condescendente pode alegar: Ricardo, eles usaram algo que os demais não usaram – a Alquimia. Ai, ai, ai. Valer-se da Alquimia para decretar grandes descobertas pode fazer sentido nos livros de Paulo Coelho ou em tramas fantásticas, mas não em enredos pretensamente realistas. Porém, você está se esquecendo do Nióbio, Ricardo, essa matéria-prima revolucionária que só tem no Brasil. Meu Deus! Um presidente amalucado e sua corja de seguidores psicopatas acreditarem nessa teoria abestalhada é uma coisa. Uma escritora talentosa colocar essa questão em um livro ficcional como uma grande descoberta da ciência nacional é outra. Não é preciso ser um grande entendido no assunto para saber que o Nióbio é mais uma propaganda política do que algo valorizado pelos cientistas. Como falei, a coleção de inconsistências é enorme. Um homem foge para a floresta e é perseguido por um grupo de paramilitares altamente treinados. Cuidado, aqui vai um dos spoilers do livro – pule o restante desse parágrafo caso você não queira conhecê-lo. De repente, o fugitivo é capturado. Em um lance de astucia, ele se atira do alto de um penhasco. Prefere morrer a ser pego. Ok até aí, certo? Depois descobrimos que (não ria, por favor!!!), na hora de pular, ele enganou os soldados (NÃO RIA!). Ele pegou um corpo que tinha deixado ali, no meio da floresta, e atirou o falecido em seu lugar. Aí ele se escondeu. E, acredite se quiser, os soldados caíram na dele. Ai, ai, ai. Você já viu uma bizarrice maior do que essa?!!! Sei que Agatha Christie já usou expediente parecido algumas vezes, mas não dessa maneira tão tosca. E o que falar de dois adolescentes que se apaixonam perdidamente e eternamente sem que tenham convivido minimamente um com o outro? E o que dizer de um cadeirante que resolve sair pelas ruas à noite, na chuva e em um chão de terra batida (que virou lama). Não me parece muito lógico que ele consiga avançar muito. Mas ele conseguiu andar muitos metros, talvez quilômetros. E sua cadeira de rodas só ficou presa no barro quando ele se aproximou do serial killer. Ai, ai, ai. Chame-me de idiota que eu gosto. Essas maluquices aparecem prioritariamente na metade final do romance. Até a primeira metade de “Jogo de Cena”, era possível aceitar a trama como um todo. Admito que estava até gostando muito dessa narrativa. Contudo, quando chegamos ao desfecho, temos um final terrível, vergonhoso. Não tenho melindre em dizer que esse é o pior desenlace que li nos últimos anos. Ou a autora largou mão dos capítulos finais ou ela duvida da nossa inteligência. Além dos absurdos narrativos que listei rapidamente acima, ainda somos privados do melhor diálogo da obra. Cuidado, aí vai outro spoiler – pule para o próximo parágrafo, por favor, se você não tiver lido “Jogo de Cena”. O que Alexandra e Pedro falaram para Doutor Siqueira sobre o relacionamento amoroso deles, hein? Na hora que os pombinhos precisam conversar com o pai, esse diálogo é simplesmente suprimido do livro. A história já avança para o feliz para sempre. Meu Deus, onde já se viu omitir a discussão dos filhos e a reação do pai sobre a notícia mais bombástica de Mangueirinhas?!!! Como já falei, assim que concluí a leitura de “Jogo de Cena”, resolvi no calor da emoção não fazer essa análise crítica para o Bonas Histórias. Mas depois, pensando melhor, achei que valeria a pena discutir as questões que fizeram essa obra de Andrea Nunes cair tanto em qualidade. Fiquei tão decepcionado de ter conhecido um título com tantos problemas dessa boa escritora brasileira que desejo mudar em breve a percepção negativa que tive. Quero retornar à coluna Livros – Crítica Literária para comentar um exemplar mais qualificado da literatura de Andrea. Minha dúvida está em analisar o premiado “A Corte Infiltrada” ou conhecer o recente “Corpos Hackeados”. Se você curte a ficção de Andrea Nunes e os romances policiais nacionais, espere por novidades do blog. Quero trazer uma análise com viés mais positivo na próxima oportunidade. Até lá. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em janeiro e fevereiro de 2022
Conheça as 100 principais obras de ficção e de poesia que foram lançadas no Brasil no primeiro bimestre desse ano. Prepara! Que agora é a hora. Do show dos lançamentos. Que leiam e releiam. Compram nas livrarias. Só as de bom gosto. Expulsam os preguiçosos que ficam de cara quando leem. Prepara! Se não tô mais lendo, fecho por onde parei. Quando começo a ler eu te esqueço, eu sei. Minha biblioteca é pesada e o livro tem poder. Começo a ler e tipo vai. Volta para casa que agora eu tô lendo. Até você vai ficar esperto para a aula só de me ver lendo. Peça um romance de boa. Perde a hora, fica folheando. Os haters (e os fãs) da Anitta que me desculpem, mas deu vontade de começar o novo post da coluna Mercado Editorial com uma singela parodia de um dos mais famosos hits da cantora. Afinal, bimestralmente temos no Bonas Histórias um encontro para mostrar e debater os principais livros ficcionais e as melhores coleções poéticas recém-publicados no Brasil. Querendo ou não, é um show de lançamentos, né? Show de lançamentos! Sacou a brincadeirinha?! Tá bom, preciso reconhecer: a piadinha saiu fraca, infame. Desculpe-me. Prometo começar a falar sério a partir de agora (nunca é tarde para isso). Janeiro e fevereiro mostraram que o mercado editorial brasileiro está aquecido. Após um excelente 2021 (apesar de os dados finais do setor não terem saído, espera-se que o ano passado tenha sido a melhor temporada comercial do último quinquênio), era natural que o primeiro bimestre de 2022 fosse recheado de novas publicações. Mesmo não sendo uma época tradicionalmente farta de lançamentos, ainda sim consegui apontar os 100 principais livros que chegaram às nossas livrarias. Uso a expressão “principais” porque foram mais títulos recém-publicados. Se não tivesse estabelecido um limite (nosso teto é o primeiro número com três dígitos), na certa essa quantidade teria chegado a pelo menos uma centena e meia. É muita coisa, muito mesmo! Para se ter uma ideia do quão aquecido está o mercado nacional, em janeiro e fevereiro de 2021 consegui listar 88 novas publicações e em janeiro e fevereiro de 2020 apontei somente 37 novos livros. É verdade que agora o Bonas Histórias, com sete anos de atuação, possui um relacionamento muito mais forte com as editoras. Naturalmente, recebemos cada vez mais as informações do que está sendo lançado de maneira mais completa e ágil. Mesmo assim, é inegável que o aumento substancial de novos títulos se deva mais ao dinamismo das máquinas do setor do que as engrenagens do blog. É, amigo(a), será que estamos vivendo novos tempos? Tomara! Como é típico dos meses da virada de ano (primeiro e último bimestres), temos nessa época um maior número de publicações advindas da literatura estrangeira. E nesse começo de 2022 não foi diferente. Cerca de 70% das novas obras que chegaram aos leitores brasileiros são de autores internacionais. Meus destaques dessa prateleira vão para os romances “Violeta” (Bertrand Brasil), de Isabel Allende, “Como Poeira ao Vento” (Boitempo), de Leonardo Padura, e “A Casa Amarela” (Somos Livros), de Sarah Broom. “Violeta” é o mais recente trabalho da chilena, uma das minhas escritoras favoritas. Depois de flertar com vários gêneros narrativos diferentes (com resultados questionáveis), Isabel Allende retorna ao tipo de texto que a consagrou: os romances históricos. Nessa nova obra, ela apresenta a trajetória de Violeta Del Vall, uma menina que nasceu em 1920. Ao longo de quase um século, a protagonista precisa superar uma infinidade de desafios de natureza familiar, econômico, político, social e sentimental. Em outras palavras, temos aqui uma espécie de nova “Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) e nova “Eva Luna” (Bertrand Brasil), não por acaso os melhores livros da autora. “Como Poeira ao Vento” é a mais recente obra de Leonardo Padura que ganhou uma tradução para o português. Confesso que estou louquinho, louquinho para ler essa nova publicação do principal escritor cubano da atualidade. Só não a li ainda porque estou pensando em inserir Padura no Desafio Literário desse ano. Quero ler os mais importantes livros do autor e, na certa, “Como Poeira ao Vento” estará nessa lista. Se bem que a Editora Boitempo poderia me ajudar nessa empreitada ao me disponibilizar os livros dele, né? Pessoal da Boitempo, não se esqueçam desse crítico literário que tanto gosta da literatura hispano-americana!!! “A Casa Amarela” é o romance mais premiado de Sarah Broom. Nesse drama com fortes tintas autobiográficas, a norte-americana relata o drama de uma família de Nova Orleans que foi devastada material e emocionalmente pelo Furacão Katrina. Além da tragédia natural, Broom escancara as injustiças sociais e os preconceitos que a população negra do sul dos Estados Unidos sofre diariamente. Publicado originalmente em 2019, esse título é desde já um clássico contemporâneo da língua inglesa. Para ninguém dizer que só falo de romances na coluna Mercado Editorial, as boas novidades das novelas internacionais são “O Regresso de Júlia Mann a Paraty” (Oficina Raquel), da portuguesa Teolinda Gersão, e “Acima de Tudo, Heather” (Tusquets), do norte-americano Matthew Weiner. Até então, "O Regresso de Júlia Mann a Paraty” só estava disponível para o público brasileiro em versões publicadas pelas editoras lusitanas. Graças a Oficina Raquel, temos agora uma edição nacional de uma das mais marcantes vozes da literatura portuguesa. Por falar nisso, a editora brasileira está lançando vários livros de Teolinda Gersão. Vale a pena conferir essas publicações. No caso de “Acima de Tudo, Heather”, essa é a ficção literária de estreia de Matthew Weiner, mais conhecido pela criação da série televisiva “Mad Men” (2007 – 2015) e pela produção de roteiros da série de TV “Família Soprano” (1999 - 2007). Publicado nos Estados Unidos em 2017, “Acima de Tudo, Heather” foi considerado naquele ano como um dos bons lançamentos do mercado editorial local. A obra trata dos dramas da família Breakstone. Mark e Karen assistem ao crescimento de Heather, a filha única do casal. O conforto material do clã e a beleza cada vez mais estonteante de Heather terão desdobramentos sinistros. Esse thriller psicológico é capaz de surpreender os leitores mais exigentes. Outras três boas pedidas da literatura internacional nesse comecinho de 2022 são: “Contos da Era do Jazz” (Editora UNESP), coletânea de contos do norte-americano F. Scott Fitzgerald; “Uma Luz Inesperada” (Companhia das Letrinhas), narrativa do português José Saramago que foi transformada em título infantojuvenil com as ilustrações do mexicano Armando Fonseca; “Poemas Humanos” (Editora 34), coletânea de poesias do peruano César Vallejo. Entrando, enfim, na literatura brasileira, preciso ressaltar que não foram tantos os títulos recém-publicados em janeiro e fevereiro de 2022, mas temos sim bons lançamentos. É aquele famoso lance: se não temos quantidade, ao menos reconheçamos a qualidade. Os romances mais interessantes que chegaram às nossas livrarias recentemente são “A Contrapartida – Livro 2: O Contra-ataque” (Valentina), de Uranio Bonoldi, e “A Casa Mágica” (Globo Livros), de Stella Maris Rezende. O novo título de Bonoldi é a continuação de sua obra de estreia, o thriller aterrorizante “A Contrapartida” (Valentina). Se você leu, como eu, o primeiro romance da série, na certa estará ávido(a) para saber a sequência da trama sinistra de Tavinho, o Doutor Octávio Albuquerque Júnior. O que o rapaz que adquiriu poderes especiais ao tomar um elixir preparado por Iaúna, uma das últimas integrantes da tribo dos Moxiruna, irá aprontar para manter a inteligência e o vigor físico, hein? Admito que estou muito curioso para conhecer os detalhes desse título de Uranio Bonoldi. Não se surpreenda, portanto, se nas próximas semanas eu analisar “A Contrapartida – Livro 2: O Contra-ataque” na coluna Livros – Crítica Literária. Aguardem, por favor, novidades nesse sentido. “A Casa Mágica” é o romance de mistério de Stella Maris Rezende, uma das mais premiadas e prolíficas escritoras mineiras da atualidade. Na nova trama, Stella traz a investigação particular de Rosalina, uma jovem estudante do interior de Minas, pelos segredos de sua família e de sua cidade natal. Remoer o passado e a residência da Tia Felícia em Morada Nova será o pontapé inicial para uma aventura literária, fantástica e histórica. Avançando para a prateleira das narrativas curtas, encontro “Gótico Nordestino” (Alfaguara), coletânea de contos de Cristhiano Aguiar, e “Os Sabiás da Crônica” (Autêntica), coletânea de crônicas de Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, José Carlos Oliveira, Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta e Vinicius de Moraes. Para quem é fã desse tipo textual (estou nesse time – adoro tanto os contos quanto as crônicas!), esses títulos são imperdíveis. Em “Gótico Nordestino”, Cristhiano Aguiar apresenta nove histórias inspiradas no gótico e no folclore brasileiro. Suas tramas percorrem as diferentes épocas e regiões do país, sempre com enredos surpreendentes. Em “Os Sabiás da Crônica”, temos alguns dos melhores textos dos monstros sagrados da crônica nacional. As narrativas desse livro foram organizadas por Augusto Massi. Quando o assunto é literatura infantojuvenil, meus destaques vão para “Uma Aventura do Velho Baobá” (Pequena Zahar), de Inaldete Pinheiro de Andrade (autora) e Ianah Maia (ilustradora), e “Parabéns a Você” (Panda Books), de Marcelo Duarte. “Uma Aventura do Velho Baobá” é uma alegoria sobre as raízes culturais africanas. Nessa trama, um velho baobá natural da Savana africana viaja para o Brasil para encontrar seus parentes que foram trazidos para cá. Em “Parabéns a Você”, acompanhamos o enredo ficcional baseado na história real da criação da música que todos os brasileiros cantam nas cerimônias de aniversário. Mais uma vez, Marcelo Duarte consegue nos surpreender. Não à toa, sou fã de seu trabalho desde a época do “Guia dos Curiosos” (Panda Books). Para encerrar o show dos lançamentos, prepara, porque vamos para as poesias nacionais. “Obras Poéticas” (CEPE) é a antologia de Dimas Batista que reúne seus três principais livros (“Santa Rita de Cássia”, “Jesus Filho de Maria” e “Desafio – Dimas e Cabeleira”) e sonetos. Outro título clássico, “Dia Garimpo” (Fósforo) é o livro de Julieta Barbara que foi publicado originalmente em 1939. Oito décadas mais tarde, ele é resgatado pela Editora Fósforo e ganha uma edição caprichada. Quem curte o melhor da poesia brasileira, na certa se encantará tanto com “Obras Poéticas” de Dimas Batista quanto com “Dia Garimpo” de Julieta Barbara. Veja, a seguir, a lista completa com os 100 principais livros que foram lançados no Brasil no primeiro bimestre de 2022. Quem não estiver familiarizado com esse tipo de levantamento do Bonas Histórias, aviso que selecionamos as obras ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos, coleções de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e as antologias poéticas de maior destaque que foram publicadas ou republicadas em nosso país. Confira, então, as novidades editoriais de janeiro e fevereiro: FICÇÃO BRASILEIRA: “A Contrapartida – Livro 2: O Contra-ataque” (Valentina) – Uranio Bonoldi – Romance – 400 páginas. “A Casa Mágica” (Globo Livros) – Stella Maris Rezende – Romance – 240 páginas. “Nas Pegadas da Alemoa” (Buzz) – Ilko Minev – Romance – 176 páginas. “A Filha dos Rios” (Buzz) – Ilko Minev – Romance – 208 páginas. “Onde Estão as Flores” (Buzz) – Ilko Minev – Romance – 252 páginas. “Meu País é um Corpo que Dói” (Relicário) – Claudete Daflon – Romance – 292 páginas. “Cinco ou Seis Dias” (Dublinense) – Danichi Hausen Mizoguchi – Romance – 192 páginas. “Serafim Ponte Grande” (Companhia das Letras) – Oswald de Andrade – Romance – 216 páginas. “Um Dia Esta Noite Acaba” (Boitempo) – Roberto Elisabetsky – Romance – 248 páginas. “Corpos Hackeados” (CEPE) – Andrea Nunes – Romance – 260 páginas. “O Verão Selvagem dos Teus Olhos” (Todavia) – Ana Teresa Pereira – Novela – 112 páginas. “Balta: Fragmentos de Deformação” (Relicário) – Pedro Kalil (narrativa) & Patrick Arley (fotografia) – Novela – 126 páginas. “Gótico Nordestino” (Alfaguara) – Cristhiano Aguiar – Coletânea de Contos – 136 páginas. “Visão Noturna” (Todavia) – Tobias Carvalho – Coletânea de Contos – 112 páginas. “Verão” (CEPE) – Nivaldo Tenório – Coletânea de Contos – 168 páginas. “Praia Artificial” (Patuá) – Evandro Cruz Silva – Coletânea de Contos – 92 páginas. “Os Sabiás da Crônica” (Autêntica) – Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, José Carlos Oliveira, Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta e Vinicius de Moraes – Coletânea de Crônicas – 352 páginas. “A Vertical das Emoções: As Crônicas de Clarice Lispector” (Relicário) – Georges Didi-Huberman – Coletânea de Crônicas – 80 páginas. “A Soma de Todos os Afetos” (Faro Editorial) – Fabíola Simões – Coletânea de Crônicas – 176 páginas. “O Sistema e o Antissistema – Três Ensaios. Três Mundos no Mesmo Mundo” (Autêntica) – Ailton Krenak (Brasil), Helena Silvestre (Brasil) e Boaventura de Sousa Santos (Portugal) – Ensaios – 80 páginas. “Lira Mensageira – Drummond e o Grupo Modernista Mineiro” (Todavia) – Sergio Miceli – Ensaios – 264 páginas. “Uma Aventura do Velho Baobá” (Pequena Zahar) – Inaldete Pinheiro de Andrade (narração) e Ianah Maia (ilustração) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Parabéns a Você” (Panda Books) – Marcelo Duarte – Infantojuvenil – 104 páginas. “Dr. Alex & Vovó Ritinha – Uma Aventura no Espaço” (Globinho) – Rita Lee (narração) e Guilherme Francini (ilustração) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Rafa, O Piloto de Girafa” (CEPE) – Henrique Vale – Infantojuvenil – 32 páginas. “O que Dizem As Estrelas – Contos Astrológicos ou Astrocontos” (Seguinte) – Luly Trigo – Infantojuvenil – 336 páginas. “A Turma do Ferrinho” (Globinho) – Rogério Andrade Barbosa – Infantojuvenil – 40 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “Violeta” (Bertrand Brasil) – Isabel Allende (Chile) – Romance – 322 páginas. “Como Poeira ao Vento” (Boitempo) – Leonardo Padura (Cuba) – Romance – 544 páginas. “A Casa Amarela” (Somos Livros) – Sarah Broom (Estados Unidos) – Romance – 388 páginas. “Cães Negros” (Companhia de Bolso) – Ian McEwan (Inglaterra) – Romance – 168 páginas. “Inventando Anna” (Rua do Sabão) – Rachel DeLoache Williams (Estados Unidos) – Romance – 220 páginas. “As Maravilhas” (Todavia) – Elena Medel (Espanha) – Romance – 192 páginas. “Detalhe Final” (Arqueiro) – Harlan Coben (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “As Doenças do Brasil” (Globo Livros) – Valter Hugo Mãe (Angola/Portugal) – Romance – 208 páginas. “A Última Noite” (Planeta) – Catherine O’Connel (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “Ulysses – Edição Especial” (Companhia das Letras) – James Joyce (Irlanda) – Romance – 848 páginas. “Hiroshima Meu Amor” (Relicário) – Marguerite Duras (França) – Romance – Romance – 144 páginas. “Os Espectadores” (Rocco) – Jennifer Dubois (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “O Sanatório” (Intrínseca) – Sarah Pearse (Inglaterra) – Romance – 480 páginas. “Oito Assassinatos Perfeitos” (Jangada) – Peter Swanson (Estados Unidos) – Romance – 312 páginas. “Fidelidade” (Biblioteca Azul) – Marco Missiroli (Itália) – Romance – 248 páginas. “O Último Julgamento” (Record) – Scott Turow (Estados Unidos) – Romance – 462 páginas. “Através da Minha Janela – Livro 1 de Os Irmãos Hidalgo” (Intrínseca) – Romance – Ariana Godoy (Venezuela) 462 páginas. “A Estrela Mais Escura” (Valentina) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Romance – 356 páginas. “Sua Alteza Real” (Companhia das Letras) – Thomas Mann (Alemanha) – Romance – 448 páginas. “O Conde Enfeitiçado – Edição de Luxo” (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “Os Bridgertons – Um Amor de Família” (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “Na Estrada com o Ex” (Intrínseca) – Beth O´Leary (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “Sem Julgamentos” (Record) – Meg Cabot (Estados Unidos) – Romance – 322 páginas. “Continuem Dizendo Seus Nomes” (Rua do Sabão) – Simon Stranger (Noruega) – Romance – 352 páginas. “Uma Esperança Dividida – Livro 2 da Liga da Lealdade” (Harlequin Brasil) – Alyssa B. Cole (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “O Segredo do Oceano” (Alt) – Natasha Bowen (Nigéria/País de Gales) – Romance – 368 páginas. “Ritos de Passagem” (Alfaguara Brasil) – William Golding (Inglaterra) – Romance – 216 páginas. “Missão Romance” (Arqueiro) – Lyssa Kay Adams (Estados Unidos) – Romance – 320 páginas. “O Cão de Terracota” (L&PM Pocket) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 288 páginas. “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” (Planeta Minotauro) – Lois Duncan (Estados Unidos) – Romance – 192 páginas. “O Pequeno Café de Copenhague” (Arqueiro) – Julie Caplin (Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Quase Uma Família – Livro 3 de Doces Magnólias” (Harlequin Brasil) – Sherryl Woods (Estados Unidos) – Romance – 384 páginas. “Caráter” (Rua do Sabão) – Ferdinand Bordewijk (Holanda) – Romance – 346 páginas. “Um Homem Só” (Companhia das Letras) – Christopher Isherwood (Inglaterra/Estados Unidos) – Romance – 160 páginas. “Rosas Esquecidas” (Intrínseca) – Martha Hall Kelly (Estados Unidos) – Romance – 480 páginas. “História de Um Casamento” (Rua do Sabão) – Geir Gulliksen (Noruega) – Romance – 206 páginas. “Tempestade Selvagem” (Arqueiro) – Beverly Jenkins (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “Sobre Bêbados e Bebidas” (L&PM Pocket) – Charles Bukowski (Alemanha/Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Cidade nas Nuvens” (Intrínseca) – Anthony Doerr (Estados Unidos) – Romance – 752 páginas. “Você Viu a Melody?” (Rocco) – Sophie Hannah (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “Estado de Alerta” (Arqueiro) – David Klass (Estados Unidos) – Romance – 304 páginas. “Palácio de Papel” (Intrínseca) – Miranda Cowley Heller (Estados Unidos) – Romance – 400 páginas. “O Regresso de Júlia Mann a Paraty” (Oficina Raquel) – Teolinda Gersão (Portugal) – Novela – 128 páginas. “Acima de Tudo, Heather” (Tusquets) – Matthew Weiner (Estados Unidos) – Novela – 144 páginas. “Esse Cabelo” (Todavia) – Djaimilia Pereira de Almeida (Angola/Portugal) – Novela – 104 páginas. “El Cid: O Herói da Espanha – Versão Integral” (Principis) – Pierre Corneille (França) – Novela – 128 páginas. “Em Carne Viva” (Todavia) – Jacqueline Woodson (Estados Unidos) – Novela – 144 páginas. “Metamorfose – Edição Especial” (Faro Editorial) – Franz Kafka (República Tcheca) – Novela – 112 páginas. “Sede” (Tusquets) – Amélie Nothomb (Bélgica) – Novela – 128 páginas. “Contos da Era do Jazz” (Editora UNESP) – F. Scott Fitzgerald (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 322 páginas. “Três Ratos Cegos e Outros Contos” (HarperCollins) – Agatha Christie (Inglaterra) – Coletânea de Contos – 256 páginas. “Mais Pontas que Pés” (Biblioteca Azul) – Samuel Beckett (Irlanda) – Coletânea de Contos – 236 páginas. “Herbert West – Reanimator e Outros Contos” (Principis) – H. P. Lovecraft (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 160 páginas. “Nas Montanhas da Loucura e Outros Contos” (Principis) – H. P. Lovecraft (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 192 páginas. “Por que Olhar para os Animais?” (Fósforo) – John Berger (Inglaterra) – Ensaio/Coletânea de Crônicas – 106 páginas. “Disjecta” (Biblioteca Azul) – Samuel Beckett (Irlanda) – Ensaio/Coletânea de Crônicas – 224 páginas. “Uma Luz Inesperada” (Companhia das Letrinhas) – José Saramago (Portugal) e Armando Fonseca (México) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Pássaro Branco” (Intrínseca) – R. J. Palacio (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 224 páginas. “Os Similares” (Alt) – Rebecca Hanover (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 400 páginas. “Um Filho” (Rocco) – Alejandro Palomas (Espanha) – Infantojuvenil – 240 páginas. “Eu Sou a Gatinha Pusheen” (Valentina) – Claire Belton (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 176 páginas. “Os Seguidores” (Rocco) – Sara Shepard (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 272 páginas. “O Bosque das Coisas Perdidas” (Galera) – Shea Ernshaw (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Sonhador Impossível – Livro 2 de O Sonhador” (Verus) – Maggie Stiefvater (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Pudim – Não quebre as regras. Mude as regras! (Valentina) – Julie Murphy (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Obras Poéticas” (CEPE) – Dimas Batista – 268 páginas. “Dia Garimpo” (Fósforo) – Julieta Barbara – 112 páginas. “Robinson Crusoé e Seus Amigos” (Editora 34) – Leonardo Gandolfi – 322 páginas. “O Poeta dos Vaqueiros” (CEPE) – Pedro Amorim – 116 páginas. “Potlatch” (Todavia) – Guilherme Gontijo Flores – 128 páginas. “O Aventureiro e o Boêmio” (CEPE) – Marcos Nunes Costa e Raimundo Patriota – 280 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “Poemas Humanos” (Editora 34) – César Vallejo (Peru) – 328 páginas. “Cantos” (Editora 34) – Giacomo Leopardi (Itália) – 384 páginas. “Tempestade para os Vivos e para os Mortos” (L&PM Pocket) – Charles Bukowski (Alemanha/Estados Unidos) – 272 páginas. No mês que vem, retornarei à coluna Mercado Editorial para apresentar os livros ficcionais mais vendidos em 2021 no Brasil. E em abril, voltarei à coluna para listar os lançamentos de livros do segundo bimestre de 2022. Não perca as novidades do setor editorial de nosso país nem os demais conteúdos do Bonas Histórias. Até você vai ficar esperando. Para o post pra me ver informando. Perde a data, fica louca, fica louca. Fica louca, prepara! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















