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- Livros: Sobre a Escrita - Os ensinamentos literários de Stephen King
Quem acompanha o Bonas Histórias regularmente deve ter percebido que de tempos em tempos analisamos alguns livros sobre o processo da Escrita Criativa. Esse tema me fascina há alguns anos. Desde que trabalhei com Teoria Literária em pesquisas acadêmicas e fiz a Pós-Graduação em Formação de Escritores, não deixo de procurar novas publicações a respeito do fazer literário. De cabeça, lembro de ter comentado no blog “Como Melhorar Um Texto Literário” (Gutenberg), da dupla de espanhóis Lola Sabarich e Felipe Dintel, “Manual do Futuro Redator” (Novatec), de Sérgio Calderaro, "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar" (Ateliê Editorial), de Nelson de Oliveira, e “Como Se Encontrar na Escrita” (Bicicleta Azul), de Ana Holanda. Pelos feedbacks que recebo dos nossos leitores, felizmente há cada vez mais pessoas interessadas nesse assunto. Um dos títulos desta área que estava mais curioso para conhecer era “Sobre a Escrita – A Arte em Memórias” (Suma das Letras), a obra de não ficção de Stephen King sobre o processo da escrita literária. Nesse livro, o escritor norte-americano, um dos maiores best-sellers da atualidade, debate abertamente com os leitores os principais aspectos de sua profissão e analisa os elementos da narrativa de seus romances mais famosos. Ou seja, trata-se de um prato-cheio para quem é fã da criação literária e para quem deseja enveredar por essa atividade. Depois de muito tempo ouvindo elogios sobre essa obra, enfim, consegui lê-la. Publicado originalmente no segundo semestre de 2000 nos Estados Unidos, “Sobre a Escrita” ganhou uma nova edição em inglês em 2010. Nela, Stephen King acrescenta alguns capítulos com sugestões de leituras e com relatos de algumas passagens recentes de sua vida. A versão brasileira é a tradução da segunda edição norte-americana. Acredito que este livro de King é leitura obrigatória para quem deseja começar ou avançar na carreira de escritor (amador ou profissional). O best-seller norte-americano que já vendeu mais de 350 milhões de exemplares em 46 anos de carreira fala de maneira didática e extremamente franca sobre os principais temas que um autor precisa saber para se lançar na produção literária. Curiosamente, este livro quase não foi finalizado. “Sobre a Escrita” começou a ser elaborado entre novembro e dezembro de 1997. E em junho de 1999, dezoito meses depois de iniciado, ele ainda estava inacabado. Tal fato é uma exceção na carreira de Stephen King. Escritor prolífico, ele é conhecido pela rapidez com que começa e finaliza suas obras. Contudo, “Sobre a Escrita” ficou inexplicavelmente parado na gaveta de sua escrivaninha. O problema é que em junho de 1999, King sofreu um sério acidente. Ele foi atropelado por um furgão nas redondezas de sua casa no Maine, quando fazia uma caminhada na beira da estrada. Levado ao hospital às pressas, o escritor ficou entre a vida e a morte. Depois de uma série de cirurgias e de intermináveis sessões de fisioterapia que duraram meses, Stephen retomou, enfim, seu ofício. E a primeira coisa que ele fez quando se sentou novamente em sua mesa de trabalho foi finalizar seu livro sobre a produção literária. Aí o projeto avançou rapidamente. Em questão de semanas, o título estava pronto e publicado. “Sobre a Escrita” possui 256 páginas. Li este livro no último domingo. Comecei a leitura de manhã e no começo da noite já a tinha concluído. Devo ter levado entre seis e sete horas para percorrer todos os seus capítulos. A obra está basicamente dividida em quatro partes, apesar de não ter formalmente essa estrutura. Na primeira parte, temos um conjunto de prefácios (são três ao todo). Nesse começo, o autor explica o que o motivou a escrever uma publicação sobre o processo de produção literária. Stephen King também fala um pouco de sua vida atual de romancista de sucesso e de integrante de uma banda de Rock formada apenas por escritores. “Currículo” é a segunda parte do livro. Nela, Stephen King faz uma retrospectiva de sua vida. Ele fala como se apaixonou pela literatura e como começou a escrever na infância. Também aborda como fez a migração de contista obscuro para romancista best-seller. Para quem é fã do autor e já conhece boa parte de sua trajetória pessoal e profissional (como é o meu caso), não temos aqui nenhuma novidade. Essa parte serve mais para contextualizar o leitor sobre quem é Stephen King e como ele chegou ao status de um dos maiores escritores contemporâneos da literatura norte-americana. A terceira parte da obra é a principal. Aqui temos o debate efetivamente sobre o processo da produção literária. Na primeira seção desta parte (sim, ela está fragmentada em duas), chamada de “Caixa de Ferramentas”, Stephen King fala dos aspectos gerais da literatura. Para ele, um escritor, assim como um bom mecânico, deve andar sempre com sua caixa de ferramentas à mão. Nas primeiras bandejas dessa maleta, temos os vocábulos, a gramática, o estilo literário e a estrutura do texto. Na segunda seção, que tem o nome de “Sobre a Escrita”, King fala de aspectos práticos do ofício de escritor. Nesse ponto, ele aborda de tudo um pouco: quando escrever, onde escrever, sobre o que escrever, por que escrever, como melhorar a escrita etc. Os temas debatidos vão desde a validade de se procurar um agente literário até o uso de substâncias tóxicas na busca pela criatividade. Ou seja, temos uma análise completa e profunda do ofício de um escritor. A quarta e última parte desta publicação refere-se às conclusões e aos anexos. Intitulada de “Sobre A Vida: Um Postscriptum”, Stephen King mostra sua lista de leituras recentes, apresenta um exemplo prático de revisão de um livro seu e relata o drama vivido após o grave acidente de 1999, que quase o vitimou fatalmente. De maneira geral, “Sobre a Escrita” é uma excelente obra informativa. Para os jovens escritores que já iniciaram ou que ainda pretendem se aventurar nessa profissão, o livro fornece um belo guia do que fazer e do que não fazer. O ponto que mais gostei deste título é o tom de conversa de Stephen King com o leitor. O texto de “Sobre a Escrita” parece um bate-papo entre amigos em uma sala de casa (ou seria na cozinha?). De um lado do diálogo (autor), temos um profissional experiente e gabaritado com a vontade de transmitir tudo o que sabe. Do outro (leitor), temos um novato ávido por descobrir os segredos e os atalhos do ofício almejado. Uma obra com essa pegada não tinha como ficar ruim. O mais interessante na conversa de King com o leitor é a forma como o escritor apresenta seu texto. Temos um autor muito franco e direto em sua abordagem. Ele não faz rodeios e não tem quaisquer melindres para falar o que realmente pensa e acredita. Em muitos momentos (principalmente na parte em que assistimos ao relato de King sobre seus abusos com álcool e cocaína), presenciamos uma overdose de realidade do tipo nua e crua. Nesse sentido, a apresentação da história pessoal e profissional do escritor também ajudou muito na criação da intimidade com o leitor. Sem essa retrospectiva histórico-artística, acredito que não chegaríamos ao nível de tanta proximidade com o autor. Quanto aos conselhos de Stephen King para a produção literária (o ponto principal desta obra do ponto de vista do jovem escritor), temos muitas coisas interessantes. Há tanto as dicas mais práticas (tenha um agente literário, trabalhe com porta fechada, faça a primeira revisão do material sozinho e com um intervalo de descanso/maturação e evite frases na voz passiva) quanto as dicas mais teóricas (tenha um Leitor Ideal, não contamine seu texto com a pesquisa realizada, construa conscientemente o pano de fundo e equilibre descrição e narração). Algumas são mais simples (leia bastante, tenha um local fixo para trabalhar, evite os advérbios, crie um grupo preliminar de avaliadores de sua obra e construa diálogos verossímeis) e outras são mais elaboradas (não se preocupe tanto com a construção prévia do enredo, deixe as personagens conduzirem sua história e nenhum escritor tem um depósito de ideias). No âmbito geral, esses conceitos são muito bons para quem deseja ser um escritor comercial. É inegável o talento de King para produzir obras best-sellers. Ele sabe disso e tem ciência dos mecanismos de seu sucesso. Por outro lado, algumas das dicas do autor podem não servir para todos os tipos de escritores. Afinal, nem todo mundo faz sucesso com textos pouco elaborados como Stephen King propõe com entusiasmo. Por exemplo, será mesmo necessário avisar o leitor que as personagens vão dizer algo quando se tem uma pontuação específica que indique isso no texto?! É viável todos os livros usarem apenas as palavras mais simples do dicionário? Deve-se mesmo evitar o uso de frases na voz passiva, independentemente da sintaxe? As oficinas literárias devem mesmo ser evitadas para quem deseja evoluir na produção ficcional? Acho radical apontar um ou outro lado para cada uma dessas questões. Por isso, não concordo com tudo o que King sugere. Por outro lado, há conselhos e sugestões que são inegavelmente bons. O leitor precisa ter discernimento para saber o que deve e o que não deve extrair dos capítulos desta obra. Além das generalizações sobre a literatura simplória e sobre a narrativa pouco elaborada do ponto de vista estilístico, outra questão em que fiquei muito incomodado foi com a parte final do livro. Achei desnecessários os detalhes sobre o acidente sofrido pelo autor e, principalmente, a justificativa de sua surpreendente recuperação (ele atribuiu o seu salvamento à vontade de retornar à escrita). Será mesmo?! Para mim, a descrição da fatalidade e da recuperação do autor deu a impressão de ser sensacionalismo barato (típico de livro de autoajuda). E “Sobre a Escrita” não precisava disso. Outro elemento supérfluo é a lista final de obras literárias que King sugere para o leitor. Para quê isso? Para mim, trata-se de uma encheção de linguiça. Apesar dos pequenos tropeços de “Sobre a Escrita”, é inegável que este livro tenha uma enxurrada de elementos positivos. Além dos já citados, posso apontar outros: o bom humor de King (há passagens bem engraçadas e o texto é na maior parte do tempo leve e descontraído), a preocupação do autor em ser didático em assuntos que poderiam enveredar por caminhos tortuosos (isso fica bem evidente quando ele entra nos aspectos gramaticais), a exemplificações de erros e acertos (interessantes revisões de textos reais do autor e boas exposições de trechos de trabalhos de outros autores) e a proposta de exercícios de escrita criativa (juro que fiquei com vontade de realizar alguns). A leitura de “Sobre a Escrita” é uma aula de como produzir literatura comercial. E nada melhor do que aprender esses ensinamentos diretamente com um mestre da literatura ficcional contemporânea. Stephen King é tão bom como professor quanto é como romancista dos gêneros de terror e de suspense. Esta obra é realmente espetacular! Se soubesse que ela era tão boa assim, já teria lido muito antes. 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- Filmes: O Homem Invisível - A nova adaptação do clássico de H. G. Wells
No já histórico 24 de março de 2020, quando foi iniciada a quarentena no Estado de São Paulo, eu tinha programado, entre outras coisas, assistir a “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020), que estava em cartaz nos cinemas, naquela noite. Para ser mais exato em meu relato, tenho em mente, até agora, os demais compromissos para a data fatídica, uma terça-feira até então com ares convencionais: consulta no oftalmologista de manhãzinha, discussão do novo livro do Paulo Sousa na Editora Pomelo no meio da manhã, almoço com a Naty na região da Avenida Paulista e reunião na Epifania Conteúdo Inteligente à tarde. Obviamente, tudo foi riscado da agenda. Por falar nisso, alguém aí se lembra como eram nossas vidas antes disso?! Pensando bem, o cancelamento de uma sessão de cinema foi o menor dos problemas, não é? Recordo-me desse fato, no post de hoje da coluna Cinema, porque entrou em cartaz, nos últimos dias, nas plataformas de streaming, “O Homem Invisível”. Se eu não pude ir até ele, ele veio até mim (uma tendência do Pós-pandemia). Quando vi este longa-metragem disponível para alugar/comprar no Looke e no NOW, minha sensação foi um misto de alegria (vou poder, enfim, assisti-lo!) e agonia (os cinemas continuam fechados e nossas vidas ainda estão longe de voltarem à normalidade). Além disso, como bom cinéfilo, sempre fico um tanto amargurado quando troco uma visita ao bom e velho cinema por uma sessão em casa na frente da TV. Quem me conhece sabe o ódio que sinto pelos aparelhos de televisão (há alguns anos até escrevi uma crônica sobre isso na série “Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora”). Essa nova versão de “O Homem Invisível” foi dirigida e roteirizada pelo excelente Leigh Whannell, que, além de trabalhar como ator por muitos anos, produz roteiros de enorme sucesso. Nos últimos anos, o australiano de 43 anos também enveredou pela direção. Podemos dizer, sem medo de errar, que ele é especializado em filmes de terror e de suspense. São de Whannell, por exemplo, a coautoria do roteiro do primeiro filme da série cinematográfica “Jogos Mortais” (Saw: 2004) e a concepção da franquia “Sobrenatural” (Insidious: 2010). Nada mal, né?! Na direção, seus trabalhos mais destacados, até aqui, foram “Sobrenatural – A Origem” (Insidious - Chapter 3: 2015) e “Upgrade – Atualização” (Upgrade: 2018). Após “O Homem Invisível”, disparadamente seu melhor longa-metragem na direção, a frase anterior precisará ser revista. Esse filme é uma nova adaptação de “O Homem Invisível” (L&PM Pocket), romance clássico de H. G. Wells publicado em 1897. Inclusive, comentei esse livro no início deste ano no Bonas Histórias. A produção de Leigh Whannell é mais uma releitura dessa história a chegar às telonas. O primeiro longa-metragem baseado em “O Homem Invisível” é, acredite, de 1933. Dirigido por James Whale e roteirizado por R. S. Sherriff, o filme da primeira metade do século passado é considerado até hoje um clássico do cinema. Até aqui, ele também é a versão mais fiel ao livro do inglês (apesar de também possuir várias diferenças em relação à edição literária). Depois desse filme de Whale, vieram incontáveis títulos baseados nessa mesma história: desde simples refilmagens para o cinema, como “The Invisible Man´s Revenge” (1944), e adaptações homônimas para a televisão, como as séries de 1958/1959 e de 1975, até continuações da trama original, como “A Volta do Homem Invisível” (The Invisible Man Returns: 1940), e versões criativas, como “The Invisible Woman” (1940). Repare que nessa lista não incluí as produções nacionais. Nesse caso, lembro do recente “A Mulher Invisível” (2011), série de TV da Rede Globo. Se fosse citar todas as versões inspiradas no livro de H. G. Wells, teria que mencionar muitas adaptações esdrúxulas: há desde desenhos animados com o cachorro invisível até histórias sobre a família invisível. Ai, ai, ai! Diante de tantas variações da mesma história, qual seria a validade de se realizar mais um remake de um enredo tão batido, hein? Essa pergunta tem cabimento só para quem ainda não assistiu ao filme de Leigh Whannell. De maneira inteligente, o cineasta traz a trama para o tempo presente e a contextualiza em cima de uma relação abusiva. O resultado é primoroso. Sem dúvida nenhuma, o novo “O Homem Invisível” é um dos melhores thrillers dos últimos anos. Quem gosta de uma produção de terror e suspense, não pode perdê-lo. No elenco deste “O Homem Invisível”, temos Elisabeth Moss, conhecida pelo protagonismo no seriado “The Handmaid´s Tale” (2017-2020), Oliver Jackson-Cohen, de “Rápida Vingança” (Faster: 2010), Harriet Dyner, mais atuante em seriados da TV australiana, Aldis Hodge, de “Straight Outta Compton – A História do N.W.A (Straight Outta Compton: 2015), Storm Reid, de American Girl: Uma Aventura no Brasil (American Girl: Lea To The Rescue: 2016), e Michael Dorman, do seriado “Patriot” (2017-2018). Esta trama se passa no século XXI, em São Francisco, nos Estados Unidos. Cecilia (interpretada por Elisabeth Moss) é uma arquiteta que vive um relacionamento abusivo com Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen), um empresário do setor ótico. A moça vive presa na mansão do namorado, que controla cada detalhezinho de sua rotina. Desesperada para sair dessa angustiante realidade, Cecilia consegue, certa noite, fugir da casa de Adrian. Para tal, ela conta com a ajuda de Emily (Harriet Dyner), sua irmã. Uma vez livre das garras do agora ex-namorado, um sujeitinho extremamente obsessivo e violento, a protagonista do filme continua abaladíssima, com medo de uma possível vingança de Adrian. Por isso, ela permanece escondida na casa de James Lanier (Aldis Hodge), um amigo de Emily. Isso até Adrian morrer misteriosamente. Além de ficar livre de seu perseguidor de uma vez por todas, Cecilia ainda recebe uma fortuna de herança, deixada por ele. Na carta póstuma, Adrian diz amá-la e que o dinheiro deixado é a prova de seu amor. Enfim, as coisas parecem que vão melhorar para Cecilia. Só parecem... Logo depois do recebimento de parte da grana, a moça começa a ser perturbada por algo/alguém muito estranho. O perseguidor é invisível, o que torna quase impossível para Cecilia provar o que está ocorrendo ao seu redor. Ninguém acredita em sua versão dos fatos, além de pensarem que ela se tornou uma louca. O homem invisível não descansará até destruir completamente a vida da pobre moça, cada vez mais em pânico. Com quase duas horas de duração, “O Homem Invisível” é um thriller de terror de ótimo nível. A tensão perdura do início ao fim de sua sessão. Desde a primeira cena, o espectador fica com o coração na mão. E essa sensação vai até o último segundinho. Incrível! É curioso analisar a construção da tensão dramática deste filme. Até sabemos, na maior parte do tempo, o que está acontecendo. Afinal, um filme que se chama “O Homem Invisível”, não precisa de muitas explicações. O público rapidamente entende as coisas estranhas que ocorrem em cena. Mesmo assim, é angustiante ver os percalços que surgem no dia a dia de Cecilia. Não à toa, a protagonista entra em um estado de nervos de cortar o coração. Pior do que saber o que está acontecendo, é imaginar tudo o que um vilão com poderes especiais pode realizar contra aqueles que ele quer se vingar. Não é possível analisarmos o novo “O Homem Invisível” sem falarmos de seu roteiro. Mais uma vez, Leigh Whannell arrebenta na construção dessa história. Há alguns anos, o australiano é um dos melhores roteiristas de terror de Hollywood. Juro que é difícil encontrar algo que possa ser melhorado em suas tramas. Tudo é meticulosamente pensado à ponto de cada peça narrativa se encaixar como um quebra-cabeça macabro. Isso aconteceu em “Jogos Mortais” e, agora de novo, em “O Homem Invisível”. O roteiro desta produção mistura alguns poucos elementos da história tradicional de H. G. Wells (o homem invisível é o vilão, a trama se passa em um ambiente frio e algumas cenas de perseguição são bem parecidas, como a do banheiro e a do bafo frio) com muitas novidades narrativas (violência doméstica, relações abusivas, tecnologias contemporâneas como celular e e-mail, maneira como a invisibilidade é construída, surgimento de um cúmplice para o vilão, heroína é uma mulher...). Não é errado enxergar este filme como uma história totalmente nova, desvinculada quase completamente de sua versão original. Confesso que gostei muito das mudanças trazidas pelo roteiro de Leigh Whannell. É verdade que essas alterações descaracterizaram bastante o enredo tradicional. Contudo, isso não é ruim. Pelo contrário, é ótimo! Os novos elementos dão uma lufada de inovação, modernidade, empatia e sedução à história. Além disso, todas as filmagens de “O Homem Invisível” fizeram essas adequações para suas épocas. O filme de 1933, por exemplo, tem a cara de seu tempo e não o da trama de 1897 (e, assim, tornou-se um clássico da sétima arte). Nada mais natural, portanto, que “O Homem Invisível” de 2020 fosse construído com base em nossa realidade atual. O ponto alto deste “O Homem Invisível”, em minha opinião, está na tensão e nas surpresas trazidas na segunda metade do filme. É aí que as reviravoltas começam a aparecer e não param mais até o finalzinho da sessão. Quando você acha que foi surpreendido o bastante pela trama, novas reviravoltas aparecem, mudando completamente o cenário. Incrível a criatividade desta história. Quando falo que o público fica com o coração na mão, não estou exagerando. Os últimos trinta minutos de sessão são de arrepiar. Outra questão que merece ser destacada é a atuação de gala de Elisabeth Moss. Mais confiante pela interpretação sólida em “The Handmaid´s Tale”, a atriz norte-americana está impecável em “O Homem Invisível”. Sem dúvida nenhuma, esse é o ponto alto de sua carreira até aqui. Grande parte da graça dessa história passa pela montanha-russa de emoções que sua personagem vivencia. E as reações de Moss frente às adversidades são dignas de uma estatueta. Se ela tivesse tido essa mesma atuação em um longa-metragem de maior verniz, já a colocaria como uma das favoritas ao próximo Oscar. Junto com uma ótima maquiagem, vemos em seu rosto o sofrimento da pobre Cecilia. Paradoxalmente, se Elisabeth Moss fica em cena 99% do tempo, Oliver Jackson-Cohen quase não aparece. Quem manda interpretar um homem invisível, hein? Após a cenas iniciais do filme, em que surge sutilmente (em segundo plano), Jackson-Cohen só enche a tela mesmo nos vinte minutos finais. É até engraçada essa questão de que o protagonista quase não aparece (na verdade, a protagonista mesmo é Cecilia, enquanto Adrian é o antagonista). De pontos negativos, achei algumas cenas com alguns equívocos leves de continuidade (por exemplo, nas perseguições de carro) e de lógica (como um homem invisível não desliga o som do celular?). Outra questão que compromete um pouco é o excesso de partes óbvias. O espectador consegue antecipar alguns fatos sem muito esforço. E quando falamos em suspense, nunca é legal descobrir previamente o que virá pela frente. Mesmo com essas pequenas falhas (algumas de roteiro e outras de filmagem/execução), “O Homem Invisível” é um filmão. Se você gosta de um thriller que não deixa você respirar, que oferece boas cenas de ação, que traz um drama psicológico denso e que não economiza em sangue espirrando para todos os lados, na certa você irá curtir esse longa-metragem. Para comprovar o que estou dizendo, assista, a seguir, ao trailer do novo “O Homem Invisível”: Este filme integra um projeto maior da Universal. O estúdio norte-americano quer regravar uma série de clássicos de terror. Entretanto, as novas histórias serão ambientadas no tempo presente. Além da trama de H. G. Wells, fazem parte dessa coletânea de sequências “A Múmia”, “O Lobisomem”, “A Noiva de Frankenstein” e “O Monstro da Lagoa Negra”. É aguardar as novidades. Tomara que a maioria desses filmes seja dirigida e roteirizada por Leigh Whannell. E torçamos também para que possamos vê-los no escurinho do cinema, né? Esperemos! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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- Miliádios Literários: novembro/2020
Qual o nome de um boneco de neve que completa um miliádio de vida? Água. Iniciamos esta coluna com humor infame pra celebrar os 17 miliádios de Ricardo Araújo Pereira no dia 12. Em “Se Não Entenderes Eu Conto de Novo, Pá” e “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar”, ambos pela Tinta da China, ele explana técnicas e tempos da comédia. Sempre com a fina ironia portuguesa. No dia seguinte, outro Ricardo ganha comemoração. É o Ricardo Silvestrin, poeta e autor de “Viagem dos Olhos” (Coolírica), “Bashô um Santo em Mim” (Tchê) e “O Baú do Gogó” (Sulina), que completa 21 miliádios. Ele é especialista em Haikais, poemas em tercetos que seguem regras definidas pelos japoneses há muitos miliádios. Mais uma sessão da coluna miliádica Hora da leitura Raphael Montes, autor de “Jantar Secreto” (Companhia das Letras), “Suicidas” (Benvirá), “O Vilarejo” (Suma das Letras) e “Dias Perfeitos” (Companhia das Letras), completa 11 miliádios no dia 3. O autor teve o primeiro conto publicado logo aos 7 miliádios de vida, uma carreira precoce e bombástica. Quem não teve a mesma oportunidade foi Cora Coralina. A autora de “Poema dos Becos de Goiás e Histórias Mais”, “Vintém de Cobre” e “Estórias da Casa Velha da Ponte”, todos pela Editora Global, completará 13 miliádios de falecimento no dia 12. Ela nasceu em Goiás, ainda no Brasil Imperial. Começou a escrever na adolescência, trabalhou como doceira, teve 6 filhos e só foi ter seu primeiro livro publicado aos 27 mil dias de vida. Coralina foi uma mulher forte, assim como é Lya Luft. A autora de “Perdas e Ganhos”, “O Tigre na Sombra”, “As Parceiras” e “Pensar é Transgredir”, todos pela Record, completa 30 miliádios no dia 3. Lya também é uma grande tradutora, tendo aportuguesado Virginia Woolf, Thomas Mann e Hermann Hesse. No mesmo dia em que nascia Lya Luft, outro grande escritor partia. Como a autora poderia dizer, perdas e ganhos são coisas humanas. Tom Wolfe completa 30 miliversários de morte no dia 3. O autor de “A Fogueira das Vaidades”, “Emboscada no Forte Bragg” e “O Reino da Fala”, todos pela Editora Rocco, é um dos expoentes do new journalism norte-americano. Finalmente, Bernardo Carvalho, autor de “Nove Noites: Reprodução”, “Simpatia pelo Demônio”, “Mongólia” e “O Filho da Mãe”, todos pela Companhia das Letras, faz 22 miliversários no dia 29. Como romancista, o autor já ganhou dois Jabutis e um APCA, mostrando que sua carreira não é uma piada. E voltamos ao mote inicial da coluna miliádica deste mês. É como fechar um ciclo, da piada viemos e à piada voltaremos. Mês que vem tem mais no Bonas Histórias. Até! Parabéns pelo miliversário... ... Klas Östergren, autor de “Gentlemen” (Record), pelos 24 miliádios no dia 5. ... James Lovelock, autor de “Gaia: Alerta Final” (Intrínseca), que faz 37 miliádios no dia 12. ... Orhan Pamuk, Nobel de Literatura, autor de “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), pelos 25 mil dias de vida a serem completados no dia 17. Em memória de... ... Almeida Garrett, autor de “Viagens na Minha Terra” (Melhoramentos), que completaria 81 miliádios no dia 12. … Benjamin Whorf, autor de “Language, Thought, and Reality: Selected Writings of Benjamin Lee Whorf” (The MIT Press), cujo falecimento completa 29 miliádios no dia 18. ... Aquilino Ribeiro, autor de “Terras do Demo” (Bertrand), que faleceu há 21 miliádios, completados dia 23. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Miliádios Literários: dezembro/2020
Querido leitor do Bonas Histórias, vamos fazer um exercício de imaginação. Imagine-se em um silogeu. Com quem conversarias? Qual crítica teceria? Por favor, só volte nesta leitura após 20 minutos de reflexão. Ficou na dúvida? A coluna Miliádios Literários deste mês cita grandes escritores que, com certeza, poderiam estar em nosso exercício. Começamos com Erico Veríssimo, que completaria 42 miliádios de vida no dia 13. O autor de “Olhai os Lírios do Campo”, “Incidente em Antares” e “O Tempo e o Vento”, todos pela Companhia das Letras, ganhou um Jabuti e dois Prêmios Machado de Assis. Quem traria boas ideias à conversa, com toda experiência de pertencer à Academia Paulista de Letras, seria Marcos Rey. O autor de “O Mistério do Cinco Estrelas”, “O Rapto do Garoto de Ouro” e “Um Rosto no Computador”, todos pela Ática, destacou-se como romancista juvenil. Escritor também de livros adultos e pornochanchadas, ele poderia nos deleitar com algumas piadas de sacanagem. No dia 15, completaria 35 miliádios. Sucesso de crítica entre as misses, Antoine de Saint-Exupéry teria lugar garantido em nosso silogeu. O autor de “Terra dos Homens” (Nova Fronteira) e “O Pequeno Príncipe” (Agir) faria 44 miliádios no dia 16. Filho de aristocratas, seguiu carreira militar e foi piloto na Segunda Guerra Mundial, falecendo numa operação contra os alemães. Será que aceitaríamos José de Alencar? Suas principais obras foram “O Guarani” (Paulus Editora), “Iracema” (Best Bolso) e “Senhora” (Penguin). Entretanto, de romântico, só tinha o estilo literário. Como Ministro da Justiça durante o Segundo Reinado, foi oposição à abolição da escravidão. Completaria 70 miliádios no dia 25. O responsável pela preparação do chá – bebida típica dos melhores silogeus – teria que ser um inglês. Chamemos, pois, Lewis Carroll. O autor de “Alice no País das Maravilhas” (Cosac Naify) e “Alice Através do Espelho e o que Ela Encontrou por Lá” (Martin Claret) faria 69 miliádios no dia 26. Com certeza, os comentários mais ácidos, as ofensas mais cabeludas, viriam de Lima Barreto. O autor de “O Homem que Sabia Javanês” (Itapuca) e “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Penguin) foi crítico ferrenho dos primeiros miliádios republicanos. Tentou três vezes um posto no Silogeu Nacional, falhou em duas e desistiu na última. Sofreu com alcoolismo ao longo da vida, e completaria 51 miliádios no dia 30. E quem seria o Presidente? Claro, não poderia deixar de ser Machado de Assis! Talvez o maior escritor brasileiro da história. É pai do mais importante silogeu do Brasil, a Academia Brasileira de Letras, que fundou aos 21 mil dias de vida, e seu nome é tão grande que dá nome a Prêmio. Sem dúvida é o mais apropriado pra presidir tão nobre casa. O autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Martin Claret), “Quincas Borba” (Principis) e “Dom Casmurro” (Ática) completa 41 miliádios de morte no dia 30. E assim, sem saber como, sobrevivemos a 2020. Encerramos este ano maldito com os votos desta coluna para miliádios mais felizes. Até 2021! Parabéns pelo miliversário... ... Flávio Assunção, autor de “O Outro Lado” (Lura Editorial), pelos 17 miliádios no dia 27. ... Catherine Ryan Hyde, autora de “Leve-me com Você” (Darkside), pelos 24 miliádios no dia 31. Em memória de... ... Qorpo Santo, autor de “Um Assovio” (Biblioteca Digital), que faria 70 miliádios no dia 13. ... John Steinbeck, que escreveu “Ratos e Homens” (L&PM Pocket) e “A Rua das Ilusões Perdidas” (BestBolso), cujo falecimento completa 19 miliádios no dia 27. ... Miguel Ángel Asturias, Prêmio Nobel e autor de “O Senhor Presidente” (ERA), cuja morte completa 17 miliádios no dia 24. Miliádios Literários é a coluna de Paulo Sousa, autor do romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da novela “Histórias de Macambúzios”, que apresenta mensalmente no Bonas Histórias as principais efemérides da literatura. Para ler os demais posts dessa seção, clique em Miliádios Literários. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Desafio Literário de junho/2020: Kenzaburo Oe
Depois de analisar a literatura de Jack Kerouac (Estados Unidos), em abril, e de Maria José Dupré (Brasil), em maio, o Desafio Literário viajará, neste mês, para o outro lado do planeta. Nosso destino é mais precisamente o Japão. A ideia é debatermos em junho o trabalho artístico de Kenzaburo Oe. Prêmio Nobel de Literatura de 1994, o escritor japonês se destacou na produção de romances, contos, crônicas e ensaios de teor naturalista. Seus títulos abordam invariavelmente questões políticas (democracia, armas nucleares, energia nuclear), sociais (não-conformismo) e filosóficas (existencialismo). Polêmico e extremamente popular em sua terra natal, Oe é ainda hoje uma das principais vozes da literatura contemporânea. Sua obra-prima é “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), romance com elementos autobiográficos sobre um professor de inglês que tem um filho com problemas cerebrais. Esse livro também foi publicado em língua portuguesa com um nome diferente: “Não Matem o Bebê”. Outro texto seu marcante foi “Notas Sobre Hiroshima”. Nesse ensaio crítico de 1965, o autor debate o lançamento da bomba atômica pelos Estados Unidos em Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial. Ao falar de Kenzaburo Oe, vale a pena comentar que o Naturalismo foi a principal corrente literária do Japão no século XX. Além de Oe, esse movimento teve a participação de Yasunari Kawabata, outro japonês vencedor do Nobel de Literatura, Shimazaki Toson, Akutagawa Ryunosuke, Junichiro Tanizaki, Mori Ogai, Natsume Soseki, Yukio Mishima e Abe Kobo. O naturalismo japonês teve forte influência da literatura ocidental, principalmente das ficções francesa e norte-americana, e se caracterizou pelo retrato da realidade de maneira nua e crua (em oposição ao mundo fantástico e místico da literatura do século XIX). Kenzaburo Oe possui atualmente 85 anos. Ele nasceu em Ose, um pequeno povoado montanhoso da Ilha de Shikoku, ao sul do arquipélago japonês. Se antigamente Shikoku foi um centro pesqueiro simplório, hoje é um dos principais destinos turísticos do país. Kenzaburo ficou órfão do pai no final da Segunda Guerra Mundial. O patriarca dos Oe era combatente do Império japonês e morreu no campo de batalha. Criado apenas pela mãe desde os nove anos, o futuro escritor só saiu de Ose pela primeira vez aos 19 anos, quando se mudou para Tóquio, em 1954, para fazer faculdade. Na capital do país, o rapaz tímido, amável e de óculos redondos e de lentes grossas se formou em Licenciatura em Literatura Francesa. A estreia de Kenzaburo Oe na literatura aconteceu em 1957 com a publicação de contos em revistas literárias. Já em 1958, ele conquistou o Prêmio Akutagawa, um dos principais do Japão, com seu primeiro romance, “A Captura” (Luna). Nessa obra, Oe retrata o drama de uma região simples e subdesenvolvida do interior do Japão. Sob o olhar de uma criança, assistimos à surpreendente chegada de um soldado inimigo. Em plena Segunda Guerra Mundial, seu avião caiu na área montanhosa do país e ele foi feito prisioneiro pela comunidade local. Seu livro mais famoso, “Uma Questão Pessoal”, foi publicado em 1964. É na segunda metade da década de 1960, já professor de literatura na Universidade de Tóquio, que Kenzaburo Oe se consolida como um escritor de primeira linha no Japão. Ele conquistou o Prêmio Tanizaki, um dos mais importantes do país, em 1967, por “Um Grito Silencioso” (Francisco Alves). Nesse romance emblemático, o autor aborda o drama de um acadêmico obcecado com o passado de sua família. Nas décadas seguintes, Kenzaburo Oe continuou publicando seus romances e suas coletâneas de contos e de crônicas. Das narrativas curtas, podemos destacar “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras), conjunto de sete crônicas em que expõe aspectos de sua vida pessoal e de sua formação como literato, e “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhia das Letras), material que abrange suas historietas escritas entre 1957 e 1990. A partir do final dos anos 1960, Oe também acrescentou ao seu portfólio os ensaios críticos. Nessa nova categoria textual, o autor japonês aborda de maneira direta e ácida as questões mais espinhentas do cenário político-social de sua nação. Não à toa, esses são seus materiais mais polêmicos até hoje. Para englobar todas as facetas da ficção de Kenzaburo Oe, selecionei seus principais romances e coletâneas de contos e de crônicas para análise. Assim, em junho, vou ler e comentar os seguintes títulos: - 5 de junho - “A Captura” (1958) - novela/romance - 9 de junho - “Uma Questão Pessoal” (1964) - romance - 13 de junho - “O Grito Silencioso” (1967) - romance - 17 de junho - “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!” (1983) - coletânea de crônicas - 21 de junho - “14 Contos de Kenzaburo Oe” (1957/1990) - coletânea de contos - 29 de junho - Análise Literária de Kenzaburo Oe Portanto, o primeiro livro do Desafio Literário de Kenzaburo Oe que vamos discutir no Bonas Histórias é seu romance de estreia, “A Captura” (Luna). O post com a análise desta obra será publicado na próxima sexta-feira, dia 5. Boa leitura a todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.
- Recomendações: Melhores livros de 2019
Na quarta-feira, dia 29, começamos a Retrospectiva de 2019 do Bonas Histórias com a seleção dos 10 melhores filmes do ano passado. No post de hoje da coluna Recomendações, vamos falar dos livros mais impactantes deste período. A ideia é apontar as 16 melhores obras literárias analisadas de janeiro a dezembro de 2019 pelo blog. Muito provavelmente, só haverá livrão nesta lista. Se você tem um gosto literário refinado, na certa poderá usar esse ranking como guia para suas próximas leituras. Duvido que alguém saia decepcionado depois de conhecer essa coletânea de publicações. Vale lembrar que a lista dos melhores de 2019 foi feita com base na leitura de 131 obras literárias. Sim, tenho uma média de leitura de quase 11 títulos por mês (o que dá um consumo de 2 a 3 livros por semana). Para quem não acredita nesta estatística (há sempre quem duvide da intensidade do trabalho dos críticos literários), basta contar quantos posts são publicados todos os meses no Bonas Histórias. Porque, além de ler, também faço a análise de boa parte dessas obras (diria que mais da metade das leituras se transforma em análises críticas). A coluna Livros - Crítica Literária serve exatamente para isso. Além disso, outras seções do blog são abastecidas regularmente com esse material: Talk Show Literário, Desafio Literário e Teoria Literária são as principais. Apesar das treze dezenas de livros ser um bom número, segundo às necessidades de alguém que tem como ofício o estudo da Crítica Literária e da Teoria Literária, essa quantidade de obras é ligeiramente inferior ao do ano retrasado. Em 2018, foram 140 publicações lidas. A pequena diferença (defasagem negativa de 9 livros) não deve afetar, creio eu, a qualidade do trabalho realizado no Bonas Histórias. Quem já está familiarizado com o blog sabe que a minha lista de leitura inclui tanto obras nacionais quanto internacionais. Nela, temos livros de ficção e de não ficção, títulos clássicos e contemporâneos, publicações comerciais e cults e uma multiplicidade significativa de gêneros e estilos. A palavra de ordem é pluralidade. O meu lema é: literatura sem frescura e sem preconceito! Feito esse pequeno preâmbulo, vamos à lista dos destaques de 2019. A seguir, apresento o ranking dos 16 livros lidos no ano passado que mais gostei. Nessa coletânea temos obras de José Saramago (Portugal), Gabriel García Márquez (Colômbia), Jennifer Egan (Estados Unidos), George Orwell (Inglaterra), Rachel de Queiroz (Brasil), Noah Gordon (Estados Unidos), Milan Kundera (República Tcheca), Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria), Colleen McCullough (Austrália), Marçal Aquino (Brasil), Orhan Pamuk (Turquia) e Raphael Montes (Brasil). É ou não é um grupo seleto de autores, hein?! Confira a lista completa de obras logo abaixo: 16º lugar: "Suicidas" (Benvirá) – Raphael Montes (Brasil) - 2012. Em seu romance de estreia, o jovem Raphael Montes impressionou a todos com uma obra madura e extremamente original. “Suicidas” foi escrito quando o autor carioca tinha entre 16 e 19 anos. Contudo, a trama policial só foi publicada dois anos depois de ela ter sido finalista do Prêmio Benvirá de 2010. Uma vez nas livrarias, este livro de Montes se tornou finalista do Prêmio Machado de Assis de 2012 e do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 na categoria autor estreante. Incrível! 15º lugar: "O Xamã" (Rocco) – Noah Gordon (Estados Unidos) - 1992. Segundo romance da “Trilogia da Família Cole”, a saga de médicos de origem britânica que possuem poderes mediúnicos, “O Xamã” continua a história de “O Físico” (Rocco), maior sucesso de Noah Gordon. Ao invés de ambientar seu drama na Idade Média, como sua antecessora, esta obra do escritor norte-americano narra as aventuras dos Cole em meio à Guerra Civil Americana. Curiosamente, este é o título literário mais premiado de Gordon, superando até mesmo “O Físico”. 14º lugar: “Eu Receberia as Piores Notícias do Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras) – Marçal Aquino (Brasil) - 2005. Marçal Aquino é um dos principais escritores e roteiristas brasileiros da atualidade. Seu portfólio é variado e de excelente qualidade. Para mim, sua obra mais marcante é o seu terceiro romance, “Eu Receberia as Piores Notícias do Seus Lindos Lábios”. Em meio aos conflitos entre garimpeiros e mineradoras no interior do Pará, Cauby e Lavínia tentam manter um relacionamento proibido e perigoso. Sete anos depois de publicada, essa história foi adaptada para o cinema pelo próprio autor. 13º lugar: "A Insustentável Leveza do Ser" (Companhia das Letras) – Milan Kundera (República Tcheca) – 1983. Obra mais famosa de Milan Kundera, “A Insustentável Leveza do Ser” é um clássico contemporâneo. Escrito quando o autor tcheco já morava na França, este título foi adaptado para o cinema em 1988. Neste romance existencialista, assistimos ao relacionamento tumultuado de dois casais: Tomas e Tereza e Franz e Sabina. Em meio à rotina cansativa do matrimônio e à vontade constante da infidelidade, as personagens de Kundera exalam uma versão particular e negativa do amor. Sublime! 12º lugar: "Hibisco Roxo" (Companhia das Letras) – Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria) - 2003. Primeiro romance de Chimamanda Ngozi Adichie, “Hibisco Roxo” não é a obra mais famosa da autora nigeriana. Contudo, para mim, ela é a melhor, superando até mesmo “Americanah” (Companhia das Letras), romance mais popular de Adichie, e “Meio Sol Amarelo” (Companhia das Letras), a narrativa mais forte da autora. Sua beleza está em mostrar o drama pessoal e familiar de Kambili Achike, uma adolescente tímida e solitária, em meio ao caos da Nigéria Pós-Independência. 11º lugar: “Caim” (Companhia das Letras) – José Saramago (Portugal) - 2009. Último romance de José Saramago, “Caim” é a continuação natural de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), a obra mais polêmica do autor português. Ambos os livros retratam a visão saramaguiana da Bíblia. No caso de “Caim”, a narrativa aborda o Velho Testamento. Com um texto engraçadíssimo, inteligente e extremamente ácido, Saramago apresenta sua crítica em relação ao catolicismo, a Deus e à Igreja Católica. Espetacular!!! 10º lugar: "Meu Nome é Vermelho" (Companhia das Letras) – Orhan Pamuk (Turquia) - 1998. Obra-prima de Orhan Pamuk, “Meu Nome é Vermelho” é o romance histórico do escritor turco que lhe rendeu fama internacional. Esta obra conquistou vários prêmios importantes mundo a fora, tendo sido decisiva para a escolha de Pamuk para o Nobel de Literatura de 2006. Nessa trama que mistura fantasia e realidade, um cadáver reencontra seu assassino, em um acerto de contas que engloba não apenas a trajetória pessoal deles como a história do país inteiro. 9º lugar: “Memorial de Maria Moura” (José Olympio) – Rachel de Queiroz (Brasil) - 1992. Clássico contemporâneo da nossa literatura, “Memorial de Maria Moura“ foi publicado quando Rachel de Queiroz tinha 82 anos. A maturidade e a excelência de uma das principais autoras brasileiras do século XX ficam evidenciadas no texto. Nesta trama, a protagonista precisa superar as intrigas, a violência e o machismo da sociedade nordestina. Maria Moura se transforma na líder de um bando de cangaceiros. Para tal, ela precisa esconder sua feminilidade e seus sentimentos. 8º lugar: “A Brincadeira” (Companhia das Letras) – Milan Kundera (República Tcheca) - 1967. O livro mais famoso de Milan Kundera é “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras). Para mim, a melhor obra do escritor tcheco é “A Brincadeira”, seu romance de estreia. Este título se tornou sucesso quase que imediato em seu país natal na época do seu lançamento. Adorada pelo público, esta publicação foi censurada pelo Partido Comunista local. Afinal, ela criticava abertamente o regime comunista da então Tchecoslováquia. 7º lugar: "O Físico" (Rocco) - Noah Gordon (Estados Unidos) - 1986. Grande sucesso do norte-americano Noah Gordon, “O Físico” inaugurou a “Trilogia da Família Cole”. A série literária é ainda composta por “O Xamã” (Rocco) e “A Escolha da Dra. Cole” (Rocco). Neste primeiro livro da saga dos médicos com poderes mediúnicos, Gordon vai até a Idade Média para mostrar o drama de Robert Jeremy Cole, um menino órfão e pobre que sonha em se tornar médico. Com esse objetivo em mente, ele será capaz de qualquer coisa para alcançar seus sonhos profissionais. 6º lugar: "Amor nos Tempos do Cólera" (Record) - Gabriel García Márquez (Colômbia) - 1985. Primeira ficção de Gabriel García Márquez publicada após o recebimento do Nobel de Literatura, “Amor nos Tempos do Cólera” é um romance histórico engraçadíssimo. A obra faz uma sátira aos perrengues dos idosos e dos dramas românticos. Misturando erotismo, passagens autobiográficas, palavrões, polêmicas, fantasia, reviravoltas e suspense, esta trama acompanha um homem que espera a mulher amada por mais de 50 anos. Depois de tanto tempo, ele conseguirá ficar com ela? 5º lugar: "Pássaros Feridos" (Bertrand) - Colleen McCullough (Austrália) - 1977. Maior sucesso da australiana Colleen McCullough, “Pássaros Feridos” é um romance forte, ousado e parrudo. Esta trama narra a mudança de Meghann, a protagonista, e sua família da Nova Zelândia para um povoado no interior da Austrália. Na nova localidade, a moça conhece o padre Ralph, um religioso bonito, inteligente e ambicioso. Esta história polêmica para sua época foi adaptada para a televisão norte-americana em 1983, dando origem a uma série de TV. 4º lugar: "A Revolução dos Bichos" (Companhia das Letras) - George Orwell (Inglaterra) - 1945 Os fãs de “1984” (Companhia das Letras) que me perdoem, mas o melhor romance de George Orwell, ao menos para mim, é “A Revolução dos Bichos”. Nesta fábula clássica, o escritor inglês tece uma crítica contundente, didática e divertidíssima aos regimes totalitários e, mais precisamente, ao sistema político implementado na União Soviética após a Revolução Bolchevique. Já li mais de cinco vezes esta obra e toda a vez que a releio saio encantado. Simplesmente espetacular! 3º lugar: “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca) - Jennifer Egan (Estados Unidos) – 2010. Ponto alto da carreira da escritora norte-americana Jennifer Egan até este momento, “A Visita Cruel do Tempo” propicia uma experiência literária única e surpreendente. Este quinto romance de Egan conquistou os principais prêmios do mercado editorial norte-americano principalmente por suas inovações narrativas, capazes de deixar até mesmo os leitores mais experientes de queixo caído. Esta publicação é memorável, digna de um Nobel de Literatura para sua autora. 2º lugar: "Cem Anos de Solidão” (Record) – Gabriel García Márquez (Colômbia) - 1967. Fenômeno da literatura em língua espanhola, “Cem Anos de Solidão” elevou o realismo mágico para um patamar até então intangível para os autores sul-americanos. Esta obra de Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de Literatura de 1982, é uma das publicações mais traduzidas e lidas do mundo. Este livro retrata o drama de gerações de integrantes da família Buendía-Iguarána, moradores do fictício povoado de Macondo. Toda vez que leio esse título saio extasiado de suas páginas. 1º lugar: "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (Companhia das Letras) – José Saramago (Portugal) - 1991. Até ler “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, achava a literatura de José Saramago meramente banal. Juro que não via graça nenhuma em suas narrativas. Aí li o romance com a versão saramaguiana sobre o Novo Testamento. E a achei espetacular! Agora tenho certeza de que o português é um gênio da ficção. Com a publicação deste livro, Saramago se tornou o inimigo número 1 da Igreja Católica. Polêmicas à parte, esta obra é uma das melhores que li na minha vida. Se você gostou da lista dos melhores livros de 2019, então você precisa conhecer as obras que o Bonas Histórias analisará em 2020. Para acompanhar as novidades do blog deste ano, fique ligado(a) diariamente no conteúdo da coluna Livros - Crítica Literária. Tem muita coisa interessante sendo discutida em nossos posts. Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos quatro anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook. #Retrospectiva #Literatura #RaphaelMontes #NoahGordon #MarçalAquino #MilanKundera #ChimamandaNgoziAdichie #JoséSaramago #ColleenMcCullough #OrhanPamuk #RacheldeQueiroz #GeorgeOrwell #JenniferEgan #GabrielGarcíaMárquez
- Livros: Minha Mãe Fazia - As crônicas culinárias de Ana Holanda
Em maio do ano retrasado, ganhei de aniversário o livro “Minha Mãe Fazia” (Bicicleta Amarela). Mais uma vez obrigado, Paulinho! O mais legal é que a obra veio com uma dedicatória personalizada feita pela própria autora, Ana Holanda. Impossível não se emocionar com essas delicadezas protagonizadas pelo meu amigo de longa data. Para quem não sabe, Paulinho é Paulo Sousa, escritor de mão-cheia e autor do divertido romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da coletânea de contos “Histórias de Macambúzios” (série narrativa disponível na coluna Contos & Crônicas do Bonas Histórias). Por me conhecer bem há tanto tempo (são quase quinze anos de amizade), ele sempre me presenteia com algo ligado à literatura brasileira. Com a empolgação natural para conhecer este título, li “Minha Mãe Fazia” no começo do ano passado. Gostei tanto de seu conteúdo que o reli nesse finalzinho de 2020. Minha releitura tinha um duplo propósito: fazer um post para a coluna Livros – Crítica Literária; e selecionar algumas receitas para as festas de final de ano. Em tempos de famílias confinadas em casa (quem diria que a segunda onda da Covid-19 iria chegar aos trópicos?), nada melhor do que um bom livro de culinária para nos inspirar. “Minha Mãe Fazia” é uma obra incrível e extremamente original sobre a culinária e a relação afetiva das pessoas com a comida. O mais interessante é que Ana Holanda mistura receitas caseiras extraídas diretamente dos cadernos de sua família com crônicas/memórias afetivas relacionadas à produção e ao consumo desses pratos. Como resultado, temos uma publicação espetacular! Com um texto sensível e introspectivo, degustamos ao mesmo tempo as receitas e a paixão da autora pela cozinha e pelas relações familiares. Ana Holanda é jornalista há mais de duas décadas e, desde 2011, é editora-chefe da revista Vida Simples, um dos meus periódicos favoritos. Ela também escreve a coluna “Comida de Alma” na Revista Máxima e é professora da The School of Life no Brasil, uma escola de cursos livres com uma proposta bem inusitada. Criadora da Escrita Afetuosa, uma forma mais sensível de construir narrativas ficcionais e não ficcionais, Holanda realiza workshops e palestras pelo país promovendo seu método de produção textual. Publicado em 2017, “Minha Mãe Fazia” é o primeiro livro de Ana Holanda. Em 2018, ela lançou outra obra, “Como Se Encontrar na Escrita” (Bicicleta Amarela). Já comentamos, no Bonas Histórias, esse título no início de 2019. Curiosamente, “Minha Mãe Fazia” nasceu de um projeto pessoal e online de Holanda. Em 2014, a jornalista criou uma página no Facebook intitulada “Minha Mãe Fazia”. Ali, ela divulgava as receitas dos cadernos de culinária de sua família. Ao mesmo tempo em que apresentava os pratos e a maneira de como fazê-los, Ana também narrava fatos íntimos relacionados a cada comida e aos ingredientes citados. Cada receita suscitava na autora memórias afetivas vinculadas à infância ou às pessoas amadas. Assim, junto com a descrição de cada prato, o leitor recebia também uma pequena crônica sobre o poder e o encanto da culinária no nosso dia a dia. O sucesso dessa iniciativa online foi estrondoso. Em aproximadamente dois anos, a página no Facebook já tinha 20 mil seguidores. Ou seja, não é surpresa nenhuma que o conteúdo de “Minha Mãe Fazia” tenha sido transformado em obra impressa e publicado nas livrarias do país. “Minha Mãe Fazia” é um livro de 240 páginas. Ele possui doze partes: “Receitas que Demandam Tempo”, “Receitas Tiradas da Gaveta”, “Receitas para Colocar a Mão na Massa”, “Receitas para Aquecer a Alma”, “Receitas para Serem Servidas no Pirex”, “Receitas que Favorecem a Conversa ou Aquietam o Coração”, “Receitas para Aproveitar o Melhor das Frutas”, “Receitas para a Lancheira”, “Receitas de Comidas para Presentear”, “Receitas Fáceis Demais”, “Receitas para Refeições em Família” e “Receitas que nos Levam para as Nossas Raízes”. Cada seção apresenta de quatro a oito pratos. Ao todo, a obra disponibiliza 68 receitas. A maioria é de pratos doces (bolos, brigadeiros, brownies, geleias) e salgados (carnes, sopas, massas, tortas, salgadinhos, pães, suflês, cuscuz, lanches), mas há também receitas de chá e de calda/cobertura. Li “Minha Mãe Fazia” em duas noites na semana retrasada. Comecei sua leitura na quarta-feira e na quinta já a tinha concluído. Devo ter levado aproximadamente seis horas para percorrer todas as páginas desta obra. Por se tratar de um texto leve, divertido e muito bonito, a leitura é bem rápida. Sinceramente não sei o que é melhor: as receitas ou as crônicas. Ambos os conteúdos são impecáveis. Como sou fã de crônicas e da Escrita Afetuosa de Ana Holanda, no início fiquei mais propenso em dizer que eram as narrativas da autora a minha parte favorita. Contudo, na sexta-feira à tarde me peguei com o livro aberto fazendo o brownie (da página 167) e a tapioca de queijo de coalho (da página 223). Aí a dúvida voltou com força. Esta publicação é, obviamente, para quem gosta de culinária e de comida caseira, mas também para quem se interessa por uma narrativa sensível e introspectiva. O jeito de Holanda de contar sua relação afetiva com cada prato, com cada comidinha e com cada ingrediente é realmente demais! Ela fala de tudo um pouco: relacionamentos, medos, frustrações, família, trabalho, infância, envelhecimento, criação dos filhos, sonhos etc. Tudo isso é embalado pela experiência de se sentar à mesa com as pessoas que você ama ou simplesmente ir para a cozinha e preparar algo que torne o dia delas mais feliz. Além do texto maravilhoso e das receitas imperdíveis, “Minha Mãe Fazia” possui um projeto gráfico deslumbrante. Este livro tem um visual de tirar o fôlego. Se eu disser que esta publicação é a mais bonita (ou uma das mais belas, para não parecer tão exagerado) que passou por minhas mãos nos últimos doze meses, isso não será nenhum absurdo. As ilustrações de Laura Nogueira são encantadoras. Os desenhos da ilustradora carioca estão no meio das crônicas e no início de cada seção. Repare em cada detalhe visual desta obra. Cada pequeno item da diagramação ou do projeto gráfico servem para impressionar o leitor. A sensação é de estarmos acompanhando Ana Holanda na preparação de suas receitas. Além disso, a colocação de uma menina em muitas ilustrações aumenta ainda mais a intimidade entre leitor e texto. Minha impressão era de estar vendo a filha da autora na cozinha enquanto Ana preparava os quitutes para a gente. “Minha Mãe Fazia” é o melhor exemplo de como podemos ser originais na produção de um título com uma proposta aparentemente batida. Afinal, pensariam muitos escritores, como elaborar um livro de receitas sem cair nas velhas fórmulas? Como diferenciar uma obra de um gênero que inunda as livrarias brasileiras há mais de um século? Impossível, alguém mais afoito poderia responder. Não para Ana Holanda, garanto. A jornalista simplesmente subverte a lógica por trás desse tipo de livro e apresenta aos leitores algo realmente novo, intenso e emocionante. Uma vez conhecendo “Minha Mãe Fazia”, juro que não imagino uma publicação sobre culinária com um formato melhor do que este. O livro de Holanda é tão interessante, mas tão interessante, que acredito que ele agrade até mesmo os leitores pouco chegados à cozinha ou que não possuam qualquer habilidade culinária. Como isso é possível?! Simples: as crônicas da autora são tão legais, mas tão legais, que elas sozinhas já valem, por si só, a leitura da obra. Se você vai ou não fazer as receitas apresentadas nas páginas de “Minha Mãe Fazia”, isso realmente não importa. O importante é conhecer as narrativas da jornalista sobre sua relação com a comida. É impossível não se emocionar com elas. Outro aspecto que precisamos elogiar neste livro é o uso da Escrita Afetuosa por parte de sua autora. Nota-se que Ana Holanda não fica apenas na teoria quando enaltece a importância da produção de textos mais intimistas, descontraídos e emotivos (conforme apresentado em “Como Se Encontrar na Escrita”). Os leitores da Vida Simples já sabem disso, mas ver esses princípios aplicados também em um livro de receitas é uma experiência espetacular. Admito ter ficado tão empolgado com esta leitura e com os textos de Ana Holanda que certamente comprarei, sem titubear, a próxima obra que ela vier a lançar, independentemente do tema. Física quântica, astrologia, respiração cutânea em moluscos, relação da besta com o apocalipse, importância do trabalho dos paparazzi, principais fofocas do mundo artístico ou contribuições da mitologia grega para a ciência moderna... Não importa o assunto. Acredito que Holanda saiba extrair beleza de qualquer temática. Seus textos e sua Escrita Afetuosa são maravilhosos e devem ser conhecidos por quem tem bom gosto e sensibilidade narrativa. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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- Celebrações: Feliz 2021 - Poema Primeiro Janeiro
Mais um ano vai. Mas um novo vem. A mudança no calendário lava as frustrações cinzentas de ontem e traz as esperanças luminosas do amanhã. O último ano foi diferente de todos os que já vivemos. 2020 nos mostrou o quanto podemos ser vulneráveis. O legado dos últimos doze meses é um conjunto variado de saudades: da presença física de quem amamos; dos beijos e dos abraços calorosos; da alegria barulhenta das aglomerações; da sensação de liberdade do ir-e-vir; da dinâmica concreta da vida fora de casa; da beleza do mundo real; e, por que não, de certa racionalidade há tempos perdida. Assim, a volta à normalidade deve ser o maior pedido de 2021 nos quatro cantos do planeta. Com a chegada do novo ciclo, renovam-se as oportunidades para construirmos uma história mais segura e mais feliz. Esperamos que 2020 tenha nos ensinado a degustar cada aspecto da nossa rotina, a não deixar nossa vida em segundo plano e a viver com amor e intensidade todos os dias. Para começar 2021 com um astral diferente, deixo aqui um poema singelo que fiz para cada um de vocês. Essa é a mensagem tanto da Dança & Expressão, escola que dirijo há dez anos, quanto do Bonas Histórias, blog que tenho o prazer de assinar a coluna Dança desde setembro do ano passado. Os versos de “Primeiro Janeiro” (esse é o nome do meu poema) devem ser vistos como uma lufada de esperança e de alegria. Desejo não apenas um ótimo Réveillon para todos, mas principalmente um excelente 365 dias. Feliz 2021! Primeiro Janeiro – Marcela Bonacorci (2021) Hoje, é válido sonhar. Neste momento especial do ano, devemos nossa mente libertar e traçar um grande plano. No Ano-Novo, tudo parece possível. Na lista do que iremos fazer, cada sonho é admissível se no fim das contas trouxer prazer. A coragem nos invade a alma. Somos entregues à esperança. O tempo se contrai e nos acalma. Revivemos à fundo o que ficou na lembrança. Porém, as novas semanas são implacáveis, nos fazem acreditar que o caminho é longo. E por razões inexplicáveis, nos derrubam como um pequeno pernilongo. Cada ataque atrevido, é um mortal espetáculo. Ficamos vulneráveis aos zumbidos e desistimos de dormir ao primeiro obstáculo. Onde foi parar a esperança? Cadê as glórias dos novos dias? Por que perdemos a confiança? Como espantar nossas covardias? Se queremos um ano diferente, não vamos permitir o engano de desistir. Deixemos a alegria ser recorrente, como a roupa que não podemos deixar de vestir. Façamos a nossa melhor versão, em cada dia, em cada amanhecer. E sempre teremos a diversão como algo que precisamos tecer. Feliz melhor ano de sua vida, feliz 2021, feliz cada amanhã, feliz cada hoje. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Teoria Literária - MAER - Etapa 5 - Análise Transversal
Um erro comum do analista literário é acreditar que concluídas a Análise Horizontal (Fase III do MAER) e a Análise Vertical (Fase IV do MAER) de um determinado portfólio, já é possível esmiuçar as características estilísticas do autor investigado. Esse equívoco é até justificável. Afinal, uma vez encontradas características predominantes nos materiais analisados, é de supor que esses elementos pertençam obrigatoriamente às marcas textuais daquele escritor. Entretanto, não é tão simples assim fazer tal dedução. Muitos componentes da narrativa podem ser marcas gerais, de determinado grupo de escritores, de uma escola literária específica ou mesmo de um gênero narrativo em particular. Ou seja, apesar de aparecerem frequentemente em um conjunto de obras, essas características não necessariamente representam aspectos individuais do estilo do artista. Para excluir tudo aquilo que não é particular das obras de um autor, usamos a Análise Transversal. Essa é a quinta e penúltima fase do Modelo de Análise Estilística de Romances (MAER), o tema dessa temporada da coluna Teoria Literária. Se você chegou agora ao Bonas Histórias, saiba que a Matriz Analítica Completa do MAER foi apresentada no post de junho. Ela resume bem o que estamos tratando aqui. Hoje, vamos falar apenas da Análise Transversal, uma das fases mais delicadas e importantes do Modelo de Análise Estilística de Romances. A Análise Transversal é a etapa do trabalho do analista literário de relacionar tudo o que encontrou até aquele momento da pesquisa (leia-se Análise Horizontal e Análise Vertical) com o que está/estava sendo feito na literatura de maneira geral no período do autor investigado. Em outras palavras, o analista precisa relacionar a produção literária estudada com as demais. Essa é, talvez, a parte mais difícil do MAER porque exige do pesquisador certa habilidade intertextual. Afinal, é preciso repertório e um conhecimento mais amplo de literatura para descobrir o que são elementos particulares e o que são elementos genéricos em um conjunto de narrativas. Vejamos um exemplo dessa prática. A Análise Horizontal e a Análise Vertical de um estudo sobre os romances de Rubem Fonseca indicaram algumas características recorrentes no trabalho do principal escritor policial brasileiro. Então, podemos considerar essas descobertas como marcas estilísticas do autor mineiro? Não. Ainda não! É preciso, antes, fazer a Análise Vertical. Dessa maneira, o analista literário precisa comparar os romances fonsequianos aos romances de outros autores policiais (brasileiros, estrangeiros, contemporâneos de Fonseca e mais antigos). É obrigatório relacionar o trabalho de Rubem Fonseca à literatura de João Antônio, Dalton Trevisan, Wander Piroli, Sérgio Sant’Anna, Ignácio de Loyola Brandão, Fernando Bonassi, Marçal Aquino e Patrícia Melo. E é essencial relacioná-lo à literatura de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Dashiell Shammett, Raymond Chandler, Patricia Cornwell, Patricia Highsmith e Harlan Coben. Só assim, conseguiremos saber o que são marcas gerais do gênero policial e o que são marcas pessoais das narrativas de Fonseca. No caso, seria equivocado um analista apontar: as tramas dos romances de Rubem Fonseca giram sempre em torno de investigações criminais – 87,5% de incidência – a única exceção é “O Selvagem da Ópera” (Companhia das Letras). Por mais que a Análise Horizontal e, principalmente, a Análise Vertical façam esse apontamento (ele é factual), a Análise Transversal vem para retificar tal informação (apesar de ser um dado concreto, esse é um dado vazio). O motivo: todo romance policial gira em torno de uma investigação criminal. Ou seja, essa não é uma marca estilística de Fonseca e sim do gênero narrativo por ele utilizado. Outro tropeço conceitual seria dizer que, nas narrativas longas, o discurso fonsequiano é essencialmente direto, com o uso complementar do discurso indireto e do discurso indireto livre – 100% de incidência. O problema é que essa é uma característica da maioria dos escritores contemporâneos. Quatro entre cinco autores devem usar o discurso direto na construção dos diálogos, deixando o discurso indireto e o discurso indireto livre em segundo plano. Portanto, não estamos aqui diante de uma marca da literatura de Fonseca (e sim de uma característica da literatura dos últimos dois séculos). A função da Análise Transversal (ela tem esse nome porque relaciona os trabalhos de um autor com os trabalhos dos demais) é evitar conclusões incorretas e abrangentes demais. Sem essa etapa, o analista literário corre o risco de classificar como características específicas do autor estudado alguns componentes de uso geral e corriqueiro da narrativa ficcional. Quanto mais escritores diferentes (dentro do gênero narrativo do estudo realizado) forem incluídos na Análise Transversal, mais minuciosa e rica será a conclusão da pesquisa. No mês que vem, a coluna Teoria Literária apresentará a sexta e última etapa do MAER: a Conclusão do Estudo. Não perca o encerramento do debate sobre o Modelo de Análise Estilística dos Romances. Bom Ano-Novo para todos (lembrem-se das medidas de distanciamento social para o controle da pandemia, hein?) e até janeiro! Que tal este post? Gostou do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre esse tema, clique em Teoria Literária. E não se esqueça de acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Sábado à Noite - O primeiro romance de Babi Dewet
Na semana passada, li algo que atiçava minha curiosidade há pelo menos cinco anos. “Sábado à Noite” (Generale) é o primeiro romance da trilogia homônima de Babi Dewet, escritora carioca especializada em literatura jovem (a nova nomenclatura para as velhas tramas infantojuvenis). Minha curiosidade tinha uma explicação lógica. Em 2015, eu trabalhava como ghost writer para a Editora Évora, dona do selo Generale (por falar nisso: Henrique Farinha, estou aguardando meu pagamento até hoje!!!). Naquele momento, os livros da série “Sábado à Noite” estavam no auge. O lançamento do terceiro título da coletânea de Dewet, no ano anterior, havia recebido grande investimento da editora e tinha mobilizado os fãs da autora. Todos pareciam ávidos por conhecer o desfecho da história. Sem tempo para ler a obra de Babi Dewet naquela época (na verdade, acabei priorizando outros títulos, como os posts da coluna Livros – Crítica Literária podem comprovar), acabei postergando esta leitura. E como adiei, né? Confesso que fui deixando para depois e depois e depois e nada de lê-lo. Aí já viu: cinco anos passam como um piscar de olhos. E quando puxei o romance de Dewet da prateleira de casa, no final de semana retrasado, ele acumulava alguma poeira. O importante é que, enfim, consegui mergulhar na narrativa dos garotos de uma banda de rock misteriosa que se apresentavam mascarados para os colegas da escola. Quem disse que o Bonas Histórias não é eclético, hein? Curiosamente, “Sábado à Noite” nasceu da experiência de Babi Dewet, cujo verdadeiro nome é Bárbara Dewet, como escritora de fanfictions. Fã da banda britânica de rock McFly, a carioca começou a escrever, em 2006, uma fanfic inspirada no universo musical dos seus ídolos estrangeiros. A trama era compartilhada em um site com os demais fãs do grupo, que podiam opinar e dar feedbacks sobre o que estavam lendo. Pouco a pouco, “Sábado à Noite” tornou-se um sucesso na Internet, atraindo um público diferente do original. Empolgada com a receptividade positiva dos leitores, Babi decidiu lançar esta história em um livro independente. Dessa forma, em 2010, a primeira parte de sua narrativa ganhou uma versão impressa. A partir da coragem e do empreendedorismo da jovem escritora, foram vendidas aproximadamente mil unidades deste título. A repercussão da iniciativa de Dewet atraiu a atenção da Editora Évora. E, assim, “Sábado à Noite” foi publicado, em 2012, pelo selo Generale. As sequências da trilogia não demoraram para sair. Já em 2013, chegava às livrarias do país “Sábado à Noite: Dos Bailes para a Fama” (Generale), a segunda parte da série de Babi Dewet. E em 2014, o público conheceu o desfecho desta história com a publicação de “Sábado à Noite: Com Amor e Música” (Generale), a terceira e última parte da saga. Formada em Cinema e apaixonada por música, Babi mora atualmente em São Paulo e continua escrevendo romances infantojuvenis com a temática musical. Sua série narrativa seguinte foi “Cidade da Música”. O primeiro título dessa coletânea se chama “Sonata em Punk Rock” (Gutenberg). Ele foi lançado em 2016. De certa forma, esse novo romance da autora pode ser visto como a versão feminina e mais velha de sua primeira coleção. Depois de “Sonata em Punk Rock”, Babi Dewet publicou outras tramas musicais: "K-pop – Manual de Sobrevivência" (Gutemberg), em 2017; "Allegro em Hip-Hop" (Gutemberg), em 2018; e "K-pop – Além da Sobrevivência" (Gutemberg), em 2019. “Sábado à Noite” se passa em um colégio particular de Alta Granada, uma cidade fictícia com ares de município pequeno do interior do país. Neste ambiente escolar, temos dois grupos antagônicos de jovens do segundo ano do ensino médio. O primeiro grupinho é formado por Amanda Mandy e suas amigas, Guida, Anna, Carol e Maya. As garotas são lindas e extremamente populares. Elas despertam a atenção e a admiração de todos os colegas. Na ponta oposta da hierarquia estudantil, temos Daniel Marques e seus amigos, Bruno, Rafael, Caio e Fred. Chamados de “Perdedores” pelos demais alunos da escola, esses meninos apresentam características ora de nerd ora de encrenqueiros. De qualquer maneira, a maioria dos estudantes evita falar e interagir com eles, principalmente as integrantes do grupo das belas e populares. Apesar do grande “abismo social” (ao menos do ponto de vista da hierarquia estudantil), Amanda e Daniel acabam se tornando namorados. Os dois adolescentes de dezesseis anos são apaixonados um pelo outro há muito tempo. O relacionamento do jovem casal é atrapalhado por um detalhe nada insignificante. Guida, a melhor amiga de Amanda, também é maluca por Daniel. Para não estragar sua amizade com Guida, Amanda sempre tentou abafar seus sentimentos pelo garoto que ama. Contudo, ela não conseguiu. Para não ser vista como a amiga traidora, Amanda Mandy pede para Daniel Marques manter o relacionamento amoroso deles oculto. Ninguém na escola pode saber que os dois estão juntos. Porém, ela não explica o motivo desse segredo para o namorado. Assim, o rapaz entende que a razão para a clandestinidade do relacionamento seja a vaidade da moça. Do ponto de vista de Daniel, Amanda não quer ser vista ao lado de um integrante da ralé, um dos Perdedores do colégio. Nesse meio tempo, a banda de rock de Daniel, Bruno, Rafael e Caio, chamada de Scotty, passa a se apresentar aos sábados à noite (daí o título da obra de Babi Dewet) nos bailes da escola. Para não ser reconhecido pelos colegas, o quarteto musical aparece sempre mascarado. O sucesso é imediato. Os rapazes se tornam admirados pelas garotas, que anseiam vê-los em cima do palco em todos os finais de semana. Assim, Daniel e seus amigos passam a ter uma “vida dupla”. Durante a semana são os Perdedores. E aos finais de semana, eles são os ídolos misteriosos dos colegas. Trata-se de um conto de fadas com uma pegada masculina, infantojuvenil e moderna. À medida em que o abismo das realidades de Daniel e Amanda vai se acentuando, o casal de adolescentes terá cada vez mais dificuldade para manter seu namoro escondido. Amanda ama incondicionalmente Daniel, mas ela também valoriza a longa e sincera amizade com Guida. A jovem protagonista do romance precisará fazer sua escolha: a amizade pela colega mais próxima ou a paixão pelo garoto encrenqueiro da escola? “Sábado à Noite” possui aproximadamente 330 páginas. Elas estão divididas em 45 capítulos. Demorei cerca de quatro noites para concluir esta obra. Iniciei a leitura no domingo retrasado e a finalizei apenas na quarta-feira passada. Para ser sincero, fiquei muitíssimo frustrado com o conteúdo deste livro. Essa avaliação talvez explique o ritmo tão lento da minha leitura. Uma obra desse tamanho, eu consigo devorar tranquilamente em dois dias/noites. Obviamente isso só acontece quando o título me seduz ou intriga, né? Definitivamente, não foi o caso dessa vez... “Sábado à Noite” deve ter sido a pior publicação que li neste ano. E tal fato não é pouca coisa. Como estamos no finalzinho de dezembro, devo estar próximo de atingir a marca de 150 livros lidos em 2020! Desculpe-me pela franqueza, Babi, mas fiquei profundamente decepcionado com seu romance de estreia. Tenho certeza de que de lá para cá sua literatura tenha se desenvolvido exponencialmente. Entretanto, seu primeiro livro beira o amadorismo. Não é porque um título seja direcionado ao público infantojuvenil que ele possa ter tantas inconsistências narrativas e tantas inverossimilhanças (os pecados mortais para qualquer obra literária). Recordo-me agora de excelentes livros para crianças e adolescentes, como “O Gênio do Crime” (Global), de João Carlos Marinho da Silva, “A Ilha Perdida” (Ática), de Maria José Dupré, “A Turma da Rua Quinze” (Ática), de Marçal Aquino, e “O Mistério do Cinco Estrelas” (Ática) de Marcos Rey. E em nenhum momento, essas tramas duvidaram da inteligência dos leitores mirins. Pelo contrário, elas exploraram a imaginação e a capacidade analítica da molecada. Por isso mesmo, são lidas até hoje e se tornaram clássicos de seu gênero. Entre os vários problemas deste romance de Babi Dewet, temos muitas passagens inverossímeis. Esse talvez seja o principal defeito de “Sábado à Noite”. Em primeiro lugar, garotos e garotas de dezesseis e dezessete anos não têm o hábito de dirigir carros no Brasil. Pelo amor de Deus, menores de idade NÃO DIRIGEM!!! Um ou outro pode até pegar de vez em quando o veículo dos pais para dar uma voltinha por aí. Porém, dizer que a maioria dos alunos do colégio vai e volta da escola e passeia aos finais de semana guiando seus carros é um grande absurdo. Ou a autora transfere sua narrativa para os Estados Unidos (onde isso realmente acontece) ou aumenta a idade dos seus protagonistas. E o que dizer, então, de duas grandes amigas que falam tudo uma para outra, menos o nome do(s) rapaz(es) em que estão apaixonadas?! Esse segredinho entre as melhores amigas não me parece nem um pouco factual. Amanda acreditar que Guida está apaixonada por Daniel é um absurdo gritante. Grandes amigas contam tudo uma para outra, INCLUSIVE o nome do amado. Por isso, a atitude de Guida, algo fundamental para a construção do conflito do livro, de esconder de Amanda a identidade do garoto por quem é apaixonada vai por água à baixo quando o leitor analisa minimamente esta trama. Para piorar ainda mais o cenário, fica evidente desde as primeiras páginas quem é o rapaz que Guida gosta (e ele não é Daniel!). Não apenas o leitor consegue perceber como as amigas mais próximas da moça também notam. Menos Amanda, é claro! Ai, ai, ai. Não gosto quando o autor acha que seu leitor é burro. Além das inverossimilhanças, este romance tem várias passagens que são uma afronta ao bom senso. Como ninguém ao redor de Daniel, Bruno, Rafael e Caio percebeu que eles praticam música?! E o que dizer da incrível coincidência da professora de Artes em reunir todos os casaizinhos da trama em duplas para um trabalho romântico (em um Dia dos Namorados fora de época)?! Por que quase todo mundo entra na casa alheia sem bater na porta ou tocar a campainha? Alguém acha real o fato de vários adolescentes morarem sozinhos, sem a presença frequente dos pais?! E por que Amanda e Daniel esperam a chuva passar para irem embora da praia se eles estão dentro do carro?! Pelo amor de Deus, “Sábado à Noite” é uma afronta à inteligência de qualquer leitor. Outra questão que não gostei foi da americanização (ou seria anglonização?) da trama. Além de dirigirem aos dezesseis anos (algo tipicamente dos Estados Unidos), os adolescentes do livro comem ovo e hambúrguer no café da manhã (ou seria no breakfast?), só ouvem bandas britânicas e se chamam pelo sobrenome (no Brasil de Babi Dewet, o sobrenome é mais usado pelas pessoas do que os apelidos!). Ou a autora leva sua narrativa para outro país ou ambienta corretamente suas personagens no lugar onde a história se passa (Brasil!). Sei que “Sábado à Noite” nasceu de uma fanfic de McFly (talvez a explicação para sua anglonização resida justamente daí), mas isso não o torna imune aos vários tropeços, principalmente em relação à ambientação. Também achei excessivos os erros de digitação e de pontuação para um romance publicado por uma editora tão renomada. Esse tipo de falha é até aceitável em fanfics, mas não em obras impressas. Nesse ponto, isento a autora de responsabilidade. A culpa é de quem fez a revisão ou de quem publicou o livro sem um olhar atento nesse sentido. Por fim, achei confusa a intertextualidade desta história. Dewet utiliza um amplo repertório pop para ambientar o dia a dia das suas personagens. Isso é muito legal. Além de um mergulho no universo musical (algo muitíssimo bem-feito), “Sábado à Noite” pode ser visto como uma imersão saborosa ao cinema das décadas de 1980 e 1990 e à literatura do finalzinho do século XX. Porém, Dewet derrapou ao misturar filmes, livros e músicas de diferentes épocas à realidade e aos gostos dos adolescentes de hoje em dia (mais uma grave inconsistência narrativa). Temos, por exemplo, jovens fãs de “E.T. – O Extraterrestre” (E.T. – The Extra-terrestrial: 1982) e de “De Volta Para O Futuro” (Back to the Future: 1985), filmes do início da década de 1980, de “Tartaruga Ninja” (Teenage Mutant Ninja Turtles: 1990), sucesso dos anos 1990, e “American Pie”, franquia cinematográfica popular nos anos 2000. Acredito que a autora seja fã desses clássicos, mas não me parece lógico acreditar que os adolescentes dos anos 2000 vão correr para uma locadora para assistir a “E.T.” em um final de semana ao lado de seus amigos. Talvez Babi fizesse isso na sua infância e adolescência, mas os jovens de hoje na certa não fazem. Minhas frustrações quanto à narrativa de “Sábado à Noite” são maiores porque em alguns aspectos a história do livro é interessante. Gostei muito do final aberto do romance, que dá margem para a sequência da trama. A pegada romântica é muito bem construída por Babi Dewet, assim como o ambiente musical e o universo dos estudantes na escola. Há boas cenas e personagens surpreendentes (Kevin e Fred são ótimos!). Admito que da metade para o final, “Sábado à Noite” se tornou uma leitura mais interessante. O drama do jovem casalzinho chega a empolgar os corações mais românticos. Por isso, achei uma pena as várias falhas do enredo e da narrativa. Babi Dewet é uma escritora que merecia um bom editor ao seu lado (e um revisor que arrumasse a versão final do texto). Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Análise Literária: Pablo Neruda
Pablo Neruda não foi apenas um dos melhores poetas da sua geração. Foi, talvez, o mais querido escritor do seu tempo. Idolatrado em seu país e reverenciado mundialmente, o chileno ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1971. Este foi o autor analisado em julho no Desafio Literário do Blog Bonas Histórias. Nascido na interiorana cidade de Parral, em 1904, como Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, o tímido rapaz sempre gostou de escrever. Iniciou sua trajetória como poeta na adolescência. Já prevendo sua futura profissão, adotou o pseudônimo de Pablo Neruda em homenagem ao escritor checo Jan Neruda. Formado em pedagogia e francês na Universidade do Chile, o Neruda chileno manteve carreiras paralelas de diplomata e de escritor ao longo de sua vida inteira. Como cônsul chileno, morou em vários lugares do mundo: países asiáticos, Argentina, México, Espanha e França, além de ter conhecido inúmeras outras nações (União Soviética, China, Brasil, Índia, etc.). A carreira diplomática se misturou com a atuação política. Filiado ao partido comunista, Pablo Neruda foi eleito Senador da República, se tornou pré-candidato a presidente do Chile e foi um dos principais apoiadores da eleição de Salvador Allende a presidência. Essa história de vida é muito bem retratada no livro de memórias do autor: "Confesso que Vivi" (Difel). Publicado alguns meses após a morte do escritor (de câncer na próstata em setembro de 1973), a obra se tornou um sucesso imediato após seu lançamento. Na Espanha, por exemplo, "Confesso que Vivi" foi o segundo livro mais vendido no país no ano de 1975. O livro é memórias é incrível. A primeira sensação que tive ao ler essa obra foi: "Uau! Que vida foi essa!". Pablo Neruda esteve sempre no lugar certo e no momento exato quando a história do século XX se escrevia. Ele se reuniu com Mahatma Gandhi nos primeiros encontros de Paz do líder indiano, esteve na Espanha quando Francisco Franco deu o golpe de estado e conheceu os japoneses que armaram o ataque a Pearl Harbor. Esteve na Rússia na época da formação do movimento literário "Formalismo Russo", atuou intensamente para a eleição do primeiro presidente comunista do Chile e esteve na França durante a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Além disso, foram seus amigos Pablo Picasso, Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Frederico García Lorca, entre outros. Conheceu Josef Stalin, Anastásio Somoza García, Fidel Castro, Che Guevara e mais um tanto de políticos. A impressão que tive é que Pablo Neruda foi um Forrest Gump do seu tempo. Você se recorda do protagonista do filme "Forrest Gump - O Contador de Histórias" (Forrest Gump: 1994)? Neruda esteve indiretamente ligado aos principais acontecimentos do século XX. Era como se ele estivesse sempre na antessala onde os principais episódios ocorreram. Isso é bem legal! Outra coisa que me chamou a atenção foi a forma descompromissada que Neruda escreve em prosa. Sua história de vida é narrada de forma gostosa, intercalando episódios relevantes, memórias de situações inusitadas e uma interpretação poética da vida. É impossível largar o livro depois que se começou a ler. A impressão que tive é que o poeta estava conversando comigo durante as 350 páginas de "Confesso que Vivi". A outra carreira de Pablo Neruda foi como poeta. Nesta, ele começou ainda na adolescência e desde jovem ganhou o reconhecimento dos críticos e dos leitores. Após premiações na capital do país e publicações de alguns poemas nas principais revistas de prestígio nacional, o jovem poeta publicou o seu primeiro livro com apenas vinte anos. Trata-se de "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" (Martins). Seu conteúdo está relacionado aos primeiros amores e, por consequência, as primeiras desilusões afetivas do escritor. Nessa publicação, Neruda relaciona o erotismo do corpo feminino aos fenômenos da natureza. O amor inocente e puro do poeta parece invocar o mundo externo em uma perfeita comunhão estética. A representação dos sentimentos das primeiras relações amorosas de Neruda surge metaforicamente encenada pela fauna e flora local. Assim, a solidão resultante da ausência da amada é comparável ao escurecer provocado pelo crepúsculo. Os beijos e os carinhos a dois são como a produção de mel pelas abelhas. A dependência atiçada pelo amor intenso é parecida com a necessidade de ar e de alimento pelos seres vivos. A doçura das partes do corpo da mulher é tão afrodisíaca para o homem como são as flores e o néctar das plantas para os pássaros. E os momentos carnais vividos com a outra metade são tão intensos como as tempestades no mar e as agitações do céu. Como toda poesia de amor juvenil, essas contêm o exagero e a extravagância do impulso do autor pouco contido e sem qualquer experiência de vida. Aí estão as principais qualidades e defeitos do texto. Em "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" temos um jovem Pablo Neruda extremamente passional e platônico. Assim, suas poesias se tornam sinceras (percebe-se que vieram dos seus mais nobres sentimentos) e imbuídas de uma força arrebatadora (como são típicas dessa idade) - essas são as qualidades. Ao mesmo tempo, elas são infantis e completamente desvinculadas da realidade - aqui estão seus defeitos. Por isso, a melhor parte do livro surge no final. Quando o escritor toma "um pé na bunda" da sua amada, ele escreve a tal canção desesperada que complementa o título da obra. Esse desfecho tem a profundidade da primeira parte, mas possui um tom realista e concreto que a outra não tinha. Já é possível notar em "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" o DNA de Pablo Neruda como poeta. Porém, para conhecermos o ápice da escrita desse autor, precisamos avançar na leitura dos livros. A fase mais madura é refletida em duas obras lançadas na década de 1950: "Canto Geral" (Bertrand Brasil) e "Cem Sonetos de Amor" (L&PM Pocket). Em "Cem Sonetos de Amor" é possivelmente a obra do chileno que se disseminou com mais intensidade na cultura contemporânea. Publicado originalmente em 1959, a coletânea de poemas amorosos tornou-se uma peça da cultura ocidental. Seus poemas foram citados no filme "Patch Adams - O Amor é Contagioso" (Patch Adams: 1998) e foram transformados em canção por Peter Lieberson. “Cem Sonetos de Amor” é dedicado a Matilde Urrutia, a terceira e última esposa do Nobel de Literatura. Matilde, uma soprano chilena, conheceu o poeta quando ele morava no México e trabalhava como diplomata. Nessa fase, ele era casado com Delia. Nem mesmo o matrimônio dele impediu os dois de iniciarem um tórrido romance. A relação extraconjugal se transformou em casamento quando ambos voltaram para o Chile. O túmulo do casal está até hoje na casa de Isla Negra, morada onde viveram entre 1966 e 1973 (ano na morte do poeta). O livro é dividido em quatro partes: "Manhã", "Meio Dia", "Tarde" e "Noite". Em cada etapa, Pablo Neruda caracteriza seu amor por Matilde de uma maneira diferente. A obra possui as características típicas do autor: criação de neologismos, comparação dos sentimentos e dos atos humanos com os acontecimentos da natureza, linguagem erótica e passionalidade exacerbada. Apesar de na edição aportuguesada os versos parecerem sem metrificação e as rimas livres, isso não acontece na versão original, escrita em espanhol. Nela, Pablo Neruda produziu os catorze versos alejandrinos (dois quartetos e dois tercetos) com rimas consoantes (a,b,a,b). A nomeação dos sonetos é feita em numeração romana (I, II, III, IV...) "Canto Geral", por sua vez, é considerado pelo próprio autor como sendo a principal obra de sua carreira. Escrito no final da década de 1940, o livro apresenta a história do continente americano em uma perspectiva inovadora. Os versos denunciam as injustiças históricas que os países da América Latina sofreram ao longo dos séculos. Vilões e heróis são reclassificados a partir da perspectiva do poeta. Publicado oficialmente no México em 1950 e clandestinamente no Chile no mesmo ano, "Canto Geral" se transformou em um clássico da literatura hispano-americana e mundial. "Canto Geral" é um livro distinto do portfólio de Neruda. A primeira diferença está em seu tamanho. Com mais de seiscentas páginas, essa publicação é muito grande. A outra particularidade está na temática. Ao invés de cantar em versos o mundo sentimental (seus amores e sofrimentos românticos), dessa vez Pablo compromete-se a narrar a história do continente americano. Sua poesia visa explicar os acontecimentos mais importantes ocorridos no território da América do Sul, da América Central e da América do Norte. Ele cita quase todos os países da região. Acredito que não falte nenhuma nação relevante. Assim, "Canto Geral" é a epopeia latino-americana. Se Homero cantou as aventuras gregas da antiguidade em "Ilíada" e "Odisseia" e Camões cantou as aventuras portuguesas em "Os Lusíadas", Pablo Neruda narrou em versos a história do seu povo neste livro. A obra é uma aula de geografia e de história da América. Ali desfilam os principais personagens do continente: reis indígenas, colonizadores espanhóis, revolucionários que lutaram pela independência dos países latino-americanos, os libertadores e os ditadores nacionais. A perspectiva do autor é inovadora e com um viés esquerdista. Isso é bem interessante e fica mais evidente quando ele cita o Brasil. Os dois personagens que mereceram ser descritos foram Castro Alves e Luis Carlos Prestes. Ambos foram considerados os libertadores do Brasil. O primeiro por ser abolicionista e por produzir textos poéticos em prol dos escravos negros. O segundo por pegar em armas e lutar contra a burguesia capitalista que oprimia o povo pobre. Em "Canto Geral", Pablo Neruda utiliza-se de rimas livres. Ele também não se preocupa com as métricas dos versos. O estilo de sua poesia é mais moderno. Isso confere certa leveza à obra. De certo modo, a forma mais descompromissada é compensada com a densidade temática. No final da vida, Neruda ainda lançou "Ainda" (José Olympio), coleção de poemas que narram o período da sua infância e adolescência. A obra retrata o Chile que o escritor conheceu em sua infância e adolescência. Acompanhando o pai que era maquinista de trem, o jovem Neruda pode conhecer de perto, no início do século XX, as várias regiões de seu país: Temuco, Yumbel, Angol, Boroa, o vulcão Osorno e a baleeira de Quintay. Há também muitas citações à Araucânia, onde ele nasceu e cresceu. O grande brilho desse livro está na comparação feita pelo autor. Assim como Ítalo Calvino descreveu as diferentes personalidades humanas narrando os vários tipos de cidade do mundo, em "Cidades Invisíveis" (Companhia das Letras), Pablo Neruda só consegue se caracterizar como homem e abordar sua vida e trajetória quando narra os detalhes da terra de onde veio e de onde cresceu. Assim, o deserto chileno é uma metáfora para o sentimento solitário do poeta. As geleiras nos cumes montanhosos do país, por sua vez, são semelhantes aos cabelos brancos dos homens idosos. Os vulcões são a força interna e a paixão que há dentro de cada chileno. O livro é muito bonito. Simples, porém muito impactante. A sensação que temos ao terminar "Ainda" é que Pablo Neruda conseguiu sintetizar sua vida e sua personalidade através da narração das paisagens que conheceu durante sua infância e adolescência. A conclusão que chegamos é que o homem adulto é formado essencialmente pelas experiências vividas na juventude e por sua interação com a terra natal. Essas foram as cinco obras que li neste mês de julho de Pablo Neruda: "Ainda", "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada", “Cem Sonetos de Amor”, "Canto Geral" e "Confesso que Vivi". Pablo Neruda se tornou um ícone cultural a ponto de se transformar em um personagem cinematográfico. Em 1994, o filme "O Carteiro e o Poeta" (Il Postino: 1994) narra uma história ficcional em que o poeta chileno, em exílio na Itália por razões políticas, ensina um carteiro analfabeto a escrever seus versos poéticos. Até hoje, Pablo Neruda é cultuado no Chile e um dos escritores mais marcantes do século XX. Foi muito legal conhecer sua vida, sua carreira e suas obras. Espero que todos aqueles que me acompanharam nessa aventura poética tenham também gostado. Eu adorei! O Desafio Literário prosseguirá em agosto com um novo autor. O foco de análise do Blog Bonas Histórias no próximo mês será o romancista norte-americano Sidney Sheldon, best-seller nas décadas de 1980 e 1990. Continue acompanhando o Desafio Literário de 2016! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #PabloNeruda #Poesia #AnáliseLiterária
- Novela: O Ghost Writer - Capítulo 5, Para Se Molhar
Meu celular tocou de um jeito bisonho. Demonstrando que não estava mais aguentando os dissabores recentes, ele resolveu protestar como podia: esperneando em tom baixo, inconstante e anasalado. Era o sussurro metálico de um aparelho a ponto de sucumbir. Infelizmente, eu entendia o seu estado de espírito naquela noite. A alteração de som devia ser consequência tanto da queda sofrida à tarde quanto da garoa que ele estava recebendo na última hora. Por mais que eu tentasse protegê-lo com o guarda-chuva aberto, sempre um pouco de água espirrava. Depois de ver de quem era a ligação, procurei um lugar menos molhado na calçada e atendi. Precisava me esforçar para parecer minimamente bem. – Alô. – Oi, amor! Tá tudo bem aí? – Sim, Dora. Está tudo ótimo. Melhor impossível. – Que bom. Fiquei preocupada. Tive pressentimentos ruins. – Pressentimentos ruins?! – Na verdade, não foram pressentimentos. Aproveitei que cheguei mais cedo hoje, aquele lance do eletricista que você tinha marcado, e pedi para a Layla jogar cartas para mim. E saiu que você ia ter sérios problemas nessa viagem. Tá tudo bem mesmo, amor? – É claro que tá, Santo Deus! – dessa vez não escondi a irritação. Eu tentando parecer feliz e ela me jogando para baixo. Essa mania da Dora de acreditar em tarô era o fim da picada. Onde já se viu uma advogada inteligente e intelectualizada ficar dando ouvidos a práticas anticientíficas? – Achei que você já tinha superado essa fase. – É... Não... Mais ou menos. Não chamei a Layla aqui para isso. Ela só veio para tomar um chá comigo. Fazia tempo que a gente não se via, né? Aí ficamos conversando, falei de você, do novo livro, da sua viagem, que as coisas estão melhorando. Foi quando ela perguntou se eu queria que ela jogasse cartas. Coisinha boba, sabe? Pra não ficar chato, eu falei que sim e ela desceu no apartamento dela, pegou as cartas e voltou para cá. Foi só isso. Nada demais. – Ah, tá. Eu te conheço muito bem, Sra. Isadora Maria. A Layla ainda tá aí? – Saiu faz meia horinha. E a sua reunião, me conte. Como foi? Já acabou? – Acabou há uma hora. Foi normal, mais ou menos como eu esperava: aquele blábláblá sobre o que escrever e o que não escrever. – E por que essa vozinha chocha de quem comeu e não gostou? – É que estou cansado... – respondi tentando parecer mais animado. Por mais que me esforçasse para mentir corretamente, sempre pecava em algum detalhezinho bobo. Admito que eu era péssimo em enganar as pessoas. Às vezes, penso que mentir é uma arte para poucos privilegiados. Nunca consegui esconder nada da minha esposa. Em alguns segundos, ela conseguia detectar minhas contradições. Por isso, minha tática sempre foi falar o máximo de verdades – Teve acidente na estrada, uma cena horrorosa. O ônibus atrasou muito e tive que sair correndo para a reunião. Ainda não consegui parar um minuto sequer. – Coitadinho! – não sei se ela foi sincera ou irônica – Você precisa descansar agora. Já tá no hotel? – Não. Ainda não. Saí agora, agorinha da casa do Roberto. Ainda estou na frente da porta dele. Do lado de fora. Tomando chuva na cabeça. Chuva não, garoa. De qualquer jeito é água na cachola. – Mas a reunião não tinha acabado faz tempo?! – Sim, acabou... – um pequeno engasgo interrompeu minha frase ao meio – Só que depois ficamos conversando. Tinha uma festinha rolando lá. Era aniversário do cara. Dá pra acreditar? Saí neste instante mesmo e estou esperando um táxi passar por aqui – vai que excepcionalmente minhas meias-verdades se sobressaiam às meias-mentirinhas. – Beleza. Faz assim: quando você chegar no hotel me liga. Preciso falar com você. – Falar comigo?! Aconteceu alguma coisa, Dora? Fale agora. Não sei quanto tempo ainda vou demorar para chegar lá. – Mas você não falou que estava esperando o táxi? – É. Mas sabe-se lá quanto tempo ele pode demorar. Estou em um bairro residencial meio deserto. O que está pegando, amor? Fale logo. Se for má notícia já estou preparado – Recebê-las estava virando minha especialidade. – Agora não. Não vou falar disso com você preocupado com outras coisas. – Se for sobre suas roupas, Dora, acho que podemos pedir para a Marlene cuidar disso enquanto... – Não tem nada a ver com a minha roupa! – É alguma coisa com sua mãe, né? Não vai me dizer que ela... – Não! Pare com essas besteiras – se eu tentava esconder meu mal humor, ela não tinha o menor receio de escancarar o seu – É sobre a gente! – Sobre a gente?! – Mais ou menos sobre a gente. Será que agora que você voltou a trabalhar como escritor pra valer, será que as coisas vão ficar melhor? Digo quanto à grana, sobre você ficar mais tempo em casa... – Dora, o que você andou perguntando para as cartas da Layla? – pergunta retórica, na definição formal, é o tipo de interrogação no qual você faz já sabendo da resposta. Acho que usei esse recurso no meio da conversa. Após segurar por alguns segundos o celular na orelha com o antebraço, troquei o guarda-chuva de mão. Sustentá-lo aberto já estava me cansando – Não vai me dizer que... – Amor, faz assim: a gente fala disso depois. Tá bem? Depois que você chegar no hotel, tomar um banho, trocar de roupa e relaxar um pouco, você me liga. Tá bom? – Não, Dora! – O pior é que eu não tinha hora para voltar. A imagem idílica de um quarto de hotel, um banho quente, roupas limpas e secas e uma cama confortável me esperando só acentuaram minha impaciência – Você vai falar de novo naquela parada de termos filho, de que estamos na idade de ter uma criança, que não podemos deixar para mais tarde, de que você passou dos trinta anos, que esse é o momento certo, que todas as suas amigas já têm pelo menos um bebê. – Acho que não liguei em boa hora. Era claro que aquele não era o melhor momento para discutirmos a ampliação da população do planeta, que já se encontrava superlotado. Há uma hora fui enxotado da casa do autor do meu principal (e único) projeto editorial em andamento. E pior: nem ao menos entendi o que havia feito de errado em minha apresentação. O resultado foi o recebimento de uma senhora portada na cara. Contando com algum mal-entendido que pudesse ser prontamente resolvido, preferi aguardar na calçada em frente à residência enquanto tentava falar com o Paulo pelo celular. E quem disse que o bonitão atendia às minhas ligações, hein? Já tinha tentado meia centena de vezes, mandado mensagens e deixado recados, mas ele simplesmente me ignorava. E isso porque foi o Paulo quem pediu para eu telefonar assim que saísse da reunião. Como minha fase não era das mais favoráveis, precisava espantar a chuvica que caía insistentemente. Mais importante do que me proteger da água era salvar minha mochila da umidade. Meu notebook estava lá dentro, além do gravador de áudio. Não queria estragá-los. Por isso, estava vestindo a mochila nas costas, embaixo do casaco, e a protegia com o guarda-chuva aberto. Não à toa, eu estava bem molhado na parte da frente. Justamente no instante em que tentava entender qual era o grande mal que eu cometera com o Roberto, com a Dora, com o Paulo, com o planeta e com Deus, o celular fez novamente barulhos esquisitos. O nome que aparecia meio apagado no visor do aparelho, em meio aos novos estampidos metálicos, indicava que meu querido editor ressurgia sabe-se lá de onde. Enfim, ele retornava minhas incontáveis chamadas. Saravá! – Dora, o Paulo está me ligando na outra linha. Preciso falar com ele sobre a reunião. Depois a gente se fala. – Tá bem, amor. Beijo. Pela rapidez com que desligou, ela não queria mais falar comigo naquela noite. Pelo menos não até que eu estivesse mais calmo. Há certos tipos de conversa que sempre me tiram do sério. E parece que a Dora escolhia os piores momentos para abordá-los. – Fala, meu escritor favorito!!! Por um acaso, você me traz boas novas?! Já temos o sumário do livro pronto? – O Roberto me expulsou da casa dele, Paulo. Isso não é uma boa notícia para ninguém. – Não acredito que ele te expulsou! – E com direito a batida de porta na minha cara. Se eu estivesse dez centímetros para frente, ele teria acertado meu nariz em cheio. E se estivesse meio metro dentro da casa, quem sabe ele não teria chutado minha bunda para que eu voasse em direção à sarjeta da rua. Para minha perplexidade, o Paulo, a quem eu, até então, nutria respeito e admiração, caiu em uma risada copiosa. Há muito tempo eu não via alguém rir tanto. Não entendi o porquê da graça. A cena tinha sido extremamente desagradável e humilhante. Nunca eu tinha sido expulso assim de um lugar. Tá bom, teve uma vez no cinema (culpa da intempestividade da Jéssica), outra no estádio do Canindé (entrei pelo portão errado usando a camisa do Grêmio) e mais uma na aula de química do colegial (aquele professor me perseguia). Se não fora a primeira vez, a expulsão da casa do Roberto foi a mais desconcertante (depois da do cinema). – Imaginei que ele ficaria bravo, mas não a este ponto – depois de parar de rir um pouco, Paulo conseguiu falar algumas palavras – Onde você tá? No quarto do hotel? Que mania era aquela de todo mundo achar que eu estava no hotel?! Só porque era uma noite chuvosa (garoenta!) e fria, eu não podia ficar zanzando por aí? E que história era aquela de “eu imaginei que ele ficaria bravo”? No fundo, eu sabia que o dono da editora estava mentindo. Se não estivesse me enganando, na certa omitia boa parte da história, o que no fim das contas dava na mesma. Não gostava de ser feito de trouxa, mesmo estando acostumado a exercer, nos últimos anos, esse papel (com a competência de um indicado ao Oscar). – Paulo, está na hora de você abrir o jogo. O que está rolando, hein? Só aí soube exatamente a enrascada em que tinha me metido. Com a serenidade típica dos mais respeitados profissionais do mercado editorial brasileiro, o dono da Pomelo colocou as cartas faltantes na mesa. Aconselho aos interessados deste triste episódio de minha vidinha a se sentar para ouvir o relato do Paulo. É bom também dar uma respirada antes e tomar um copo de água com açúcar. Se possível, indico descarregar a raiva e a adrenalina em atividades terapêuticas: espancar saco de boxe, praticar yoga ou meditação, fazer sessão de gritos, ir a sauna, receber massagem relaxante... Faço tais recomendações porque, infelizmente, não tive a oportunidade de amenizar o que meus ouvidos captaram da ligação telefônica. De pé, decepcionado, com raiva, cansado, molhado, preocupado e, graças a Dora, grilado, recebi como uma bomba a notícia de que o autor do livro pelo qual fora contratado para escrever jamais aprovara a ideia da produção daquela publicação. É isso mesmo o que você ouviu/leu! O Paulo jamais acertara com o Roberto a confecção da obra sobre Estratégia Empresarial. O editor estava tentando convencer o consultor há sete anos (repito: SETE ANOS) a ter um livro, mas jamais obtivera êxito. Soube que eu fora, neste período, o quarto ghost writer a ser enviado para São José dos Campos para convencer o autor a embarcar no projeto editorial da Pomelo. Paulo me contava em tom jocoso todas as tentativas anteriores. Depois de incansáveis reuniões, ligações e e-mails frustrados que duraram perto de dois anos, o proprietário da editora resolveu radicalizar: enviou um escritor de São Paulo com a missão de tratar pessoalmente do assunto com o Roberto. O rapaz chegou a ser recebido no escritório do consultor e a apresentar a ideia do livro. Com educação e elegância, Roberto respondeu negativamente à proposta. Dessa maneira, a única alternativa do (primeiro) escritor contratado do Paulo foi voltar para São Paulo com o rabo entre as pernas. Por duas vezes mais, Paulo repetiu essa estratégia pouco ortodoxa. Pouco ortodoxa e muito mal sucedida, diga-se de passagem. Nessas novas oportunidades, os escritores não conseguiram nem chegar perto do consultor. Ao anunciar que eram da editora do Paulo e que vinham tratar do livro de Estratégia, eles eram desprezados pelo autor (que até então não era autor de jossa nenhuma). Nenhum desses contratados do Paulo (chamados por ele de “segundo” e “terceiro”) conseguiu sequer entrar no escritório do Roberto. – Neste sentido, meu caro, saiba que sua viagem foi um sucesso – Em contraste com meu desespero, Paulo se divertia com a confusão – Não imaginei que você conseguisse entrar na casa do Roberto nem que conseguisse apresentar novamente a ideia do livro. Você foi muito bem! Estou orgulhoso. Só não o matei porque estávamos a 90 quilômetros de distância. Não o xinguei, pois, em estado de pânico, não conseguia pronunciar uma só palavra. Sabe quando a garganta seca totalmente e a pessoa perde a voz? Era o que tinha acontecido comigo naquele momento. E não desliguei a ligação na cara dele porque junto com o pânico e a secura nas cordas vocais, meu corpo entrara em prostração. Estava simplesmente sem reação. Agora entendia plenamente a minha contratação (será que ele estava me chamando de “o quarto” para os funcionários da Pomelo) e o pagamento antecipado. Paulo sabia que eu precisava de grana e que faria qualquer coisa para escrever um livro. Ou seja, eu era a pessoa mais indicada para aquela missão quase impossível. Além disso, ele me conhecia o suficiente para saber que eu não iria embolsar a bolada recebida previamente sem apresentar o texto da obra. Ou eu escrevia o livro e ficava com a remuneração ou não escrevia e devolvia o dinheiro. Como ele sabia disso? Era óbvio (pelo menos a partir daquele instante tudo ficou claro para mim). Se eu não fizera nada com as editoras que ficaram me devendo no passado, por que iria arranjar confusão dessa vez? Vale explicar que tanto a Dora quanto o Paulo tinham insistido para eu espernear, entrar na Justiça, invadir o escritório das editoras devedoras e ameaçar revelar minha participação nos livros se não recebesse os pagamentos, mas preferi a maneira mais sensata: não retaliar. Não sou de briga nem de confusão. Antes amargar o prejuízo do que começar um litígio ou uma guerra com alguém. E agora não seria diferente. Ainda mais porque era eu quem estava no débito e não a editora. Por tudo isso, Paulo tinha a certeza de que eu devolveria centavo por centavo do adiantamento, mesmo que levasse algum tempo (quem sabe anos, décadas, séculos ou gerações). Em outras palavras, eu era, desde o depósito na minha conta na quarta-feira da semana passada, a parte mais interessada em resolver o imbróglio. Ninguém queria ver aquele livro pronto mais do que eu. – Se o Roberto não quer o livro, é melhor não insistirmos mais – Paulo abandonava o tom brincalhão e voltava a falar com alguma racionalidade – Não precisa mais procurá-lo. Entendeu? Volte amanhã mesmo para São Paulo e na segunda-feira a gente conversa sobre como você fará o estorno do que depositamos em sua conta. Ah, e traga as notinhas das suas despesas. Não quero que você saia no prejuízo. Juro que fiquei imaginando a cena: eu entrando em casa com as malas na mão. A Dora atônita querendo uma resposta plausível para minha chegada tão antecipada. E eu, com o coração em frangalho, tentando achar as palavras para explicar do melhor jeito possível que fora até o fim da linha. Ao fim do livro que nunca existiu; do sonho de ser escritor; da nossa tranquilidade financeira que durara uma semana; da minha dignidade como marido e profissional que pensava saber o que estava fazendo; do nosso filho que estaria a caminho se o pai não tivesse falhado tanto; e, quem vai saber, até mesmo da nossa insipiente família, que a trancos e barrancos tentávamos construir em meio às adversidades. – Ei, você está aí, meu caro? Tá me ouvindo? Não. Eu não poderia voltar com as mãos abanando para a Dora. De jeito nenhum! Eu tinha que insistir. Devia persistir. Se eu contasse para o Roberto o meu drama, será que ele deixava eu escrever o livro por piedade? Acho que ele nunca mais deixará eu me aproximar dele. Entrei em sua casa sem ser convidado, sentei-me junto à sua família e aos seus amigos e, sem saber, provoquei-o novamente com a interminável história da obra que ele não queria saber de ver publicada. Em sua visão, eu devia ser alguém insensível e abusado por perturbá-lo até em sua festa de aniversário. Confesso que fiquei com vergonha de mim mesmo. Pensando bem, acho que dei sorte de ele não ter chamado a polícia. Ser preso só iria coroar a pior noite da minha vida. – Alô. Tem alguém aí? Responde! Por um acaso, você está... Talvez abalado com o que presenciara, meu celular resolveu encerrar por conta própria a ligação. No fundo, o Paulo merecia aquilo, apesar de eu não ter a coragem de desligar na cara de ninguém. Em seguida, o aparelho emitiu um estampido baixinho, uma espécie de gemido incompreensível para os humanos, e apagou. Não sei se foi morte definitiva ou morte provisória (frase esta que seria dita por João Cabral de Melo Neto se ele tivesse vivido no século XXI). A interrupção do funcionamento do telefone podia ser falta de bateria, defeito mecânico ou tristeza com a história que acabara de intermediar. Pensando bem, não deve ser fácil ser celular hoje em dia. Pior mesmo é ficar sem ele justamente quando um turbilhão de acontecimentos pouco satisfatórios invade nossa vida de repente. Na hora, minha vontade foi de atirá-lo longe. A raiva acumulada nos últimos minutos precisava ser canalizada, nem que fosse para uma vítima indefesa da situação. Não demorou, contudo, para eu perceber que o telefone não tinha culpa de nada. Ele era uma vítima tanto quanto eu das maluquices da existência patética que eu levava há algum tempo. O que fazer?! Sinceramente, não compreendia como podia agir para resolver o caô em que estava metido. Senti falta da Dora. Na certa, ela saberia me orientar. Ela sempre tinha uma resposta certeira para cada dificuldade. Apesar das dúvidas que brotavam em minha cabeça, uma coisa eu tinha certeza: não voltaria para minha cidade de mãos abanando. Iria ficar em São José dos Campos custe o que custasse. E eu escreveria um livro de Estratégia. Só não tinha visualizado ainda como faria para produzi-lo. Talvez eu precisasse seguir o Roberto como faziam os espiões secretos. Quem sabe não podia grampeá-lo sem que ele soubesse. Assim, teria acesso total às suas conversas e reuniões com os clientes. Ou será que eu precisaria sequestrá-lo, obrigando-o a transmitir seu conhecimento para mim? Ideias fervilhavam, enquanto eu permanecia estático na mesma rua do Jardim Aquarius. Indiferentes aos meus dramas, os convidados da festinha do Roberto foram embora. A maioria, em consideração, passou por mim e se despediu com rápidos “boa noite”, “tchau” e “boa sorte”. Um casal chegou a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Agradeci sensibilizado indicando que não. De dentro da casa, alguém fechou a cortina da sala. Em seguida, as luzes do térreo se apagaram e as do segundo andar começaram a trabalhar. Nesse instante, vi um vulto na janela olhando para mim. Não conseguir reconhecer quem era, mas tenho certeza, pela altura, que era o Roberto ou a Patrícia. Quando a pessoa se voltou para dentro, a residência ficou inteiramente escura. Com isso, a calçada onde eu estava foi dominada pela escuridão da noite. Indiretamente, era a luminosidade da construção à minha frente que me aparava na rua. No completo breu, assisti à noite se transformar em madrugada e à madrugada virar manhãzinha. A temperatura ambiente caía cada vez mais. Minha roupa molhada não ajudava a espantar o frio. Não reclamei porque ao menos a garoa cessou entre a madrugada e a manhã. Para dar descanso para as minhas costas tão combalidas, tirei a mochila e passei a segurá-la nas mãos. Minha sorte é que eu não tinha um espelho para ver minha imagem. Definitivamente, meu visual não devia ser dos mais agradáveis naquele início de sexta-feira. Quem disse que vida de escritor era fácil? Quando os primeiros raios solares apontaram no horizonte, eu senti falta mesmo foi do funcionamento do meu celular. Se ele estivesse com vida, confesso que teria feito uma ligação urgente. Indiferente ao horário, teria acordado a Layla. Na certa, gritaria ao telefone: “Pelo amor de Deus, mulher, o que suas cartas falaram?! Diga para mim se não vou enlouquecer!”. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















