Sistema de Pesquisa
Resultados encontrados para busca vazia
- Contos: Paranoias Modernas - Idealismo
Mário Jorge queria mudar o mundo. Quando pequeno, ficava indignado com as famílias morando em favelas e com as crianças mendigando nas esquinas. Ficava horrorizado com a injustiça social e com a miséria por todos os lados. Nesta época, sonhava em ser banqueiro. Enquanto seus coleguinhas de escola queriam ser jogadores de futebol, ele queria ter um banco só seu. Com o dinheiro dos rendimentos da sua empresa, iria construir gratuitamente uma casa para cada família carente. E aproveitaria para enviar mensalmente uma cesta básica para cada uma dessas residências. Se dependesse dele, de fome e frio os seus conterrâneos não sofreriam mais. Mário Jorge tentou mudar a realidade. Na adolescência, transformou-se em guerrilheiro comunista. O rapaz, nesta fase, entendia que a justiça social e o enriquecimento da população mais humilde só seriam conquistados com a mudança de regime político. E para tal, precisava pegar em armas e partir para o confronto direto contra o inimigo capitalista. Enquanto seus colegas prestavam vestibular e entravam na faculdade, ele combatia os soldados do governo no meio da floresta equatorial. Mário Jorge teimou em desafiar o destino. Ao completar vinte e sete anos, o jovem, depois de passar três anos preso, saiu da cadeia e voltou a estudar. Por insistência dos pais, se dedicou aos livros e entrou em uma universidade federal. O curso escolhido foi medicina. A proposta era se tornar médico e trabalhar em comunidades pobres e isoladas da nação, oferecendo um serviço digno aos menos favorecidos. Foi o que fez. Enquanto seus amigos empreendiam ou se empregavam em estimadas companhias privadas, ele não abria mão de ser um leal funcionário público mal remunerado. A vida mostrou a Mário Jorge o quão complexa e pragmática ela pode ser. Os dois anos de namoro com uma ambiciosa arquiteta transformaram-no em marido e pai de família. Fixando residência em uma bucólica cidade do interior, o casal teve três meninos. Agora, o médico tinha muitas obrigações e contas a pagar. Mesmo assim, ele não desistiu totalmente dos seus sonhos. Tornou-se também professor universitário. Queria contribuir com a formação doutrinária da nova geração. Se ele não tinha conseguido o que pretendia originalmente, pelo menos seus alunos poderiam continuar lutando por um mundo mais igualitário. Nesse momento, o mundo quis mudar Mário Jorge. Conciliando o trabalho na faculdade com os plantões nos hospitais municipais, o agora homem grisalho tornou-se muito conhecido no município. Vários admiradores foram conquistados sem que ele fizesse qualquer esforço para isso. Após algumas recusas, acabou se filiando a um partido político e foi eleito o vereador mais votado da cidade. Sua plataforma de governo era educação e saúde para todos. Após dois mandatos como presidente da Câmara Legislativa, virou prefeito. Uma administração para os pobres foi a sua meta. A realidade de Mário Jorge alterou-se sensivelmente. O sucesso em âmbito local o catapultou para o governo estadual. De governador, transformou-se em senador da República. Trabalhando no Distrito Federal, conquistou o respeito dos principais políticos do seu partido e do presidente da nação. A pasta da Saúde foi conferida a ele. Agora, era ministro. Todos diziam que se tratava da pessoa mais preparada para este cargo. Enquanto seus antigos amigos precisavam se preocupar com as coisas mundanas, ele aproveitava as regalias e as benesses do poder. O destino teimou em desafiar Mário Jorge. Hoje, o antigo médico e ex-professor universitário vê sua família uma vez por mês. A esposa é a única a visitá-lo na penitenciária de segurança máxima. Os filhos não vão. Os avós não querem que os rapazes sejam constrangidos ao ver o pai em tal situação. Ele foi preso há dois anos, acusado de comandar um grande esquema de corrupção no ministério. Os crimes praticados foram variados: formação de quadrilha, desvio de recurso público, apropriação indébita, enriquecimento ilícito e ocultação de patrimônio. E a sentença do juiz foi implacável. Enfim, Mário Jorge parou de enganar os outros e a si mesmo. Em uma cela superlotada, reflete às vezes em que ponto em sua trajetória teria fraquejado. Os sonhos infantis eram legítimos ou meramente invenções para ganhar a simpatia dos adultos? A juventude rebelde era algo ideológico ou ele buscava simplesmente uma aventura romântica para contar aos amigos? O espírito altruísta era verdadeiro ou uma simples estratégia para ocultar a busca por uma vida melhor para si e para os seus? Por que ao invés de mudar o mundo, ele deixou que o mundo o mudasse tanto? Haverá muito tempo para pensar a este respeito. Para ser preciso, ainda restam 1.975 dias e 1.974 noites para essa reflexão ser concluída por Mário Jorge. ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Paranoias Modernas - Em Pele de Onça
Era início de noite de lua cheia quando a doce e tímida Leonarda se recolheu aos seus aposentos. Ela precisava de um bom banho. O dia tinha sido agitado na fazenda: os trabalhadores colhendo a cana no campo, os feitores preparando a produção do caldo no engenho e o senhor tratando das preliminares da venda do açúcar. Cabia às funcionárias domésticas organizar a casa-grande para a recepção daquela noite. Todas estavam sob a supervisão da esposa do proprietário do latifúndio. Por isso, Leonarda estivera tão ocupada o dia inteiro. Os negociantes da metrópole eram os convidados do Sr. Ramires para o jantar que selaria a transação da última safra. Ao se despir em sua suíte, Leonarda sentiu algo cair por entre suas roupas. Na hora, ela não viu o que era. Preferiu mexer nos cabelos loiros para soltá-los um pouco antes do banho. Somente quando chegou à porta do banheiro, notou que a carta que recebera de manhã estava no chão. Com as várias tarefas sob sua responsabilidade, Leonarda não pôde se ater à correspondência entregue pelo negro Pastorinho. Não havia mensageiro mais confiável do que seu velho amigo, sempre disposto a atender aos caprichos da moça de beleza felina. Os dois estavam juntos desde o nascimento dela em um isolado povoado do interior da província. Desde então, eram inseparáveis. O negro era uma mistura de servo e de tio adotivo da jovem, sempre disposto a orientá-la e a auxiliá-la no que fosse possível. Quando Leonarda nasceu, coube a Pastorinho proteger aquele bebê misterioso e especial dos preconceitos dos colonos. Até aqueles dias, ele sempre desempenhou aquele papel com orgulho e disposição. Havia sido ele quem cuidara da pequena órfã nos seus primeiros anos de vida. Fora ele quem se esforçara para afastar a menina pobre e potencialmente perigosa dos olhares inquisitores dos habitantes do povoado. Ele sabia que ninguém a aceitaria se soubessem o que acontecia com ela durante as noites mais iluminadas do mês. Aquilo, com certeza, não devia ser obra divina. Os únicos que ofereceram algum abrigo e carinho à jovem foi um casal mameluco, conhecedor profundo das particularidades da mãe-natureza. Quando os colonos descobriram a ferocidade de Leonarda, Pastorinho se encarregara de levar a moça, já adolescente, para bem longe do povoado natal. A vida da dupla se transformara, a partir daí, em uma constante migração de cidade em cidade. Isso até o casamento da loira com o Sr. Ramires. O matrimônio trouxe certa estabilidade para Leonarda e para seu fiel amigo. Os últimos cinco anos passados na fazenda canavieira eram, sem dúvida nenhuma, os melhores das vidas dos dois. Ao abrir o envelope que passara o dia alojado em seu espartilho, a jovem esposa do Sr. Ramires ficou desesperada. Onde estavam os brincos de brilhante que lhe foram enviados?! Aquela joia era o único recurso que Leonarda tinha para ocultar sua verdadeira identidade. Os brincos foram mandados sigilosamente do seu humilde povoado natal e possuíam propriedades especiais. Ao colocá-los na orelha, a dama poderia se apresentar normalmente aos convidados do marido. Ela precisava usá-lo quando os relógios registrassem meia-noite. Entretanto, eles tinham sumido! No envelope, havia ficado apenas o bilhete: “Pra minha piquena jaguaretê, os brinco pra vosmecê ficar a mais bunita da festança. Com eles nas oreia, não precisa se preocupar com a iscuridão. Tia Sissê”. Sr. Ramires estranhou a demora da sua jovem esposa. Ela lhe assegurara que compareceria ao jantar de negócios daquela noite, mas ainda não tinha deixado o quarto. Depois de tanto tempo casada, enfim ela concordara em aparecer a um evento noturno. As ausências da Sra. Ramires neste tipo de encontro já estavam provocando certo falatório na comunidade local. A questão só não havia se tornado mais crítica porque o casal era amável e muito cortês com todos, tendo adquirido um grande respeito das outras famílias ricas da província. Além disso, Sr. Ramires sempre se curvava às exigências da sua querida mulher, por mais esquisitas que elas pudessem parecer. Aquela noite, contudo, seria diferente. Com a demora de Leonarda, coube ao marido ir buscá-la à força. Ela tinha que se apresentar aos convidados em sua própria casa. Sr. Ramires não iria aceitar, dessa vez, as extravagâncias da amada. Assim, Leonarda chegou à sala com as orelhas nuas e visivelmente incomodada com algo. Ela até tentou ser paciente e polida com os visitantes. Porém, à medida que a noite transcorria, a senhora se comportava de maneira muito estranha e nervosa. Era evidente que ela não queria estar ali. Parecia desejar fugir de uma tocaia preparada especialmente para abatê-la. Às onze e meia da noite, Leonarda retornou apressada ao quarto, escapando da presença de todos. Sua saída gerou certo desconforto, pois a dama não se despediu nem pediu licença aos visitantes. A maioria achou que tivesse sido uma saída rápida da moça, que logo mais ela iria voltar para a sala. Ao chegar ao seu quarto, a jovem senhora encontrou sua ama Mundé desfilando com os brincos diante do espelho. Surpreendida com o aparecimento da patroa, a empregada alegou que havia achado, naquela tarde, a joia no chão, caída em um canto da varanda principal da casa. Afirmou também que não iria devolver algo que lhe pertencia por justiça e sorte. Um brinco achado não podia ser tachado de roubado. A funcionária não se curvou aos apelos insistentes de Leonarda, desaparecendo da vista da patroa com as orelhas devidamente decoradas. Na manhã seguinte, o negro Pastorinho correu até a casa-grande para dar a notícia: Mundé estava morta nos alojamentos dos empregados da fazenda. Uma onça havia atacado a ama de Leonarda e lhe arrancado as orelhas. Enquanto lavava as mãos de sangue, o fiel servo da Sra. Ramires explicava que ninguém havia encontrado o animal assassino. Debruçada sobre o corpo do marido, Leonarda agradeceu mais uma vez ao velho e prestativo amigo pelos serviços executados. Ela aproveitou e prometeu ao Sr. Ramires que da próxima vez iria ficar até o final da noite junto aos convidados, sem desaparecer inexplicavelmente. Paciente, ele concordou. De tão feliz que estava com o valor da safra vendida na véspera, o proprietário não se importou que a esposa ficasse mexendo sem parar no telefone celular durante o restante da manhã. ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Paranoias Modernas - A Moça da TV
Estou apaixonado! Depois de um longo tempo solteiro, voltei a namorar. Em plena era dos romances digitais, conheci minha amada através da boa e velha televisão. Se comparada às mídias sociais e aos sites de relacionamento, a TV continua sendo, pelo menos para mim, muito mais eficiente como cupido. Meu primeiro amor, ainda na infância, foi a apresentadora Angélica. Ficava encantado ao ver a loira cantando e dançando em um shortinho minúsculo. Não deixava que minha irmã nem minha prima trocassem de canal. Inexplicavelmente, uma preferia a Mara Maravilha e a outra a Xuxa. Que péssimo gosto! Nunca achei graça em outra apresentadora que não fosse a loira com a sexy pinta na perna. Meu sonho, naquela época, era ir ao programa da Angélica e falar "pra você" se ela me perguntasse para quem eu mandaria um beijo. Nada de "pro meu pai e pra minha mãe". O beijo seria só para ela. Só! Quando os adultos me questionavam sobre o que desejaria ser quando crescesse, sentenciava sem hesitação: taxista. Nunca ninguém entendeu essa minha fascinação. Fazer o quê? Contudo, aquele foi um amor inocente e platônico. Sabia que ela jamais iria se interessar por um menino simples, inexperiente e dez anos mais novo do que ela. Minha primeira namorada foi uma jovem gaúcha que informava o boletim do tempo no telejornal local. Seu nome era Patrícia Poeta. Na época em que a conheci, eu já havia saído da adolescência. Fazia estágio durante o dia e cursava faculdade à noite. Com a rotina corrida de ambos, só conseguíamos nos encontrar ao meio-dia. Lembro que saía pontualmente para o almoço e escolhia sempre um restaurante que tivesse um aparelho de televisão sintonizado na emissora correta. A Paty era extremamente carinhosa! Adorava quando ela me avisava: "Não se esqueça de pegar o guarda-chuva hoje. Vem chuva forte no final da tarde!". Achava meiga aquela preocupação dela. Esse é o amor de verdade! Mesmo distante, ela cuidava diariamente de mim. Para minha tristeza, a linda morena desapareceu repentinamente. Em uma segunda-feira nublada, ela não compareceu ao nosso encontro. Naquele dia, meu coração chegou encharcado na faculdade. Fiquei sem saber seu paradeiro por muito tempo. Quando nos reencontramos, ela já estava casada e apresentando um programa dominical. Respeitei suas escolhas, mas admito ter ficado ressentido com a forma como nosso relacionamento foi interrompido. Meu segundo namoro foi um tanto clandestino. Ela era casada... Sei que é errado, mas não podia fazer nada. Não controlamos nossos corações, né? Minha amada era uma cantora e estava no auge. Seu nome era Kelly de Almeida e tínhamos a mesma idade. Eu a chamava de Kellinha, mas a maioria a conhecia como Kelly Key. Nosso relacionamento foi intenso e breve. A agenda de shows dela era insana, assim como minha rotina. Nesse período, minha carreira executiva exigia muitas viagens. Praticamente não parávamos em casa. Para atrapalhar, o marido dela era do tipo latino ciumento que não desgrudava da esposa. Não dava para dar certo mesmo! Após ficar um tempo mal, conheci outra jornalista, três anos mais jovem do que eu. Como dizia a música, ela era carioca. Encontrei-a em um programa esportivo. Estava de férias quando a Fernandinha veio me visitar na sala de casa. Além de ser muito bonita, ela me conquistou pela simpatia. Sempre de bom humor, ela contava piadas e tinha um sorriso maravilhoso. Não à toa seu sobrenome era Gentil. Por algumas semanas, nos encontrávamos diariamente. Quando precisei voltar ao trabalho, nosso namoro esfriou. Por isso, não foi surpresa nenhuma quando soube que fora trocado por um amigo dela de infância. O casal se casou no Rio e, obviamente, não me convidou para a cerimônia. Entendi perfeitamente e não reclamei. Também não fiquei mal dessa vez. Ao término do relacionamento com a Fernanda, meu coração já tinha uma nova dona: uma mineirinha temperamental. Conheci a Paula em um show em Belo Horizonte. A moça era cantora sertaneja e passara aquela noite em cima do palco. Rapidamente, ela se tornou famosa. Mesmo sendo eu seu único namorado, as pessoas teimavam em dizer que ela estava tendo um caso com o Roberto Carlos. Aquilo machucou de mais meu já sofrido coraçãozinho. Depois de segui-la por três meses, tive a certeza da sua fidelidade. Dessa vez, quem acabou o romance fui eu. O problema é que minha família não aceitou o relacionamento. A moça, segundo minha mãe, era muito arrogante. Minha irmã a considerava falsa. Minhas tias a definiam como nojentinha. Até meu pai, que não fala mal de ninguém e nunca se mete em meus namoros, certa vez disse: "Esta cantora não sabe tocar violão. Repare! Ela só está fazendo tipo que está tocando". Aquilo foi demais. Não podia viver com alguém que era odiada pela minha família inteira. O pior é que eles estavam com a razão. Um pouco antes de eu dar um basta no namoro, a Paulinha, pressentindo o rompimento, resolveu me denunciar para a polícia. Era o seu jeito de se vingar de mim. Dá para imaginar o barraco que a desalmada armou?! O delegado disse que eu a estava perseguindo e sendo inconveniente. Justo eu que só queria o melhor para ela! O mais cruel foi o juiz. Ele me condenou a dois anos e meio de prisão. No mínimo, aquele desgraçado nunca amou ninguém de verdade. Contei um pouco do meu histórico afetivo para explicar como foi natural me apaixonar outra vez por alguém da televisão, mesmo depois de tudo o que passei. O nome da minha nova namorada é Patrícia Levy. Ela foi bailarina e atriz. Hoje é apresentadora de um canal a cabo que vende tranqueiras para o lar. Basta ligar e pedir os produtos anunciados que eles chegam sem complicação em sua casa. Meu namoro com a Patrícia não começou instantaneamente como os anteriores. Admito: não foi paixão à primeira vista. Só depois de convivermos alguns meses, nosso amor amadureceu. O que mais gosto nela é sua preocupação com a minha residência. Ela vive falando: "Você vai receber visita na hora do almoço? Então, veja a praticidade desta panela de arroz elétrica" ou "Como você consegue ficar em uma sala com um sofá tão velho?! Compre agora mesmo este de três lugares!". Ou seja, além de linda, a Patrícia está o tempo todo preocupada com o meu bem-estar. Nem tudo, porém, são alegrias. Minha nova paixão me trouxe alguns probleminhas. Primeiro que não é barato namorar uma mulher de classe. Minha conta bancária está no vermelho. É caro comprar tantas coisas que ela me pede diariamente. Só de panela de pressão elétrica já comprei cinco. Como não preciso de tantas, estou presenteando todo mundo que conheço com elas. Trata-se de um ótimo presente, me assegurou a Paty. Até agora, somente o Juvenal, meu vizinho do apartamento de baixo, não gostou de receber uma panela desta de aniversário. O velho muquirana disse que ela puxava muita energia. Outra dificuldade que estou tendo é com o ciúme alheio. Parece que ninguém a minha volta aprecia o meu novo romance. Meus amigos vieram no final de semana passado aqui em casa e saíram bravos. Não aceitaram que eu tirasse do futebol para colocar em um canal de venda de produtos. Eles não entenderam que o programa da Paty era justamente na hora da partida. Como iria explicar depois para ela minha ausência em nosso encontro?! Até minha família está indignada com meus novos hábitos. "Onde já se viu ficar na frente da televisão vendo um canal destes?" resmunga minha mãe. "O pior é a mania dele de comprar coisas que não precisa" provoca meu pai. Nada supera a desfeita da minha irmã. Certa noite, ela disse: "Esta apresentadora está um pouco gordinha, não está? Uma dietinha não faria mal!". Fiquei tão envergonhado. Não se fala isso na frente de ninguém. Ainda bem que a Patrícia é educada e fingiu não ouvir. Apesar de um ou outro aborrecimento, sigo apaixonado. Com o tempo, todos que estão à minha volta entenderão o quanto o namoro é sério. Pensando nisso, vou viajar ao Rio no próximo final de semana. Quero fazer uma surpresinha para a Paty. Já tenho o endereço da casa dela e vou aparecer lá sem avisar. Aposto que o coração dela vai explodir de emoção quando me vir na sua porta. Quem sabe não aproveitamos e marcamos o casamento, hein? A Patrícia, inclusive, me deu algumas indiretas sobre isso outro dia. Em seu programa, ela apresentou um par de alianças e até colocou no dedo para mostrar como ele ficava bem em sua mão. Mulheres! Tem horas que elas não são nada sutis. ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Paranoias Modernas - Vestido
- Querido, como estou? Era sexta-feira e o casal se aprontava para ir ao trabalho. A esposa vestia-se olhando para o espelho. Sua indecisão era sobre qual roupa usar. Na porta do quarto, o marido dava o nó na gravata e observava a movimentação dos filhos se arrumando para a escola. As crianças não pareciam preocupadas com a pontualidade. Henrique era químico industrial e Inácia era psicóloga. Daniela e Marcelo, os filhos, estudavam em uma escola particular. A vida naquele lar era tranquila e harmoniosa. Isso até aquela manhã... - Amor, este vestido vermelho ficou bom? - Ele não é vermelho, Naná - Um olhar estranho apareceu no rosto de Henrique - Sua roupa é azul! Ao perceber que o marido não estava brincando, Inácia se revoltou. Onde já se viu falar tamanho disparate? Assim, o bate-boca começou. Cada lado apresentava seu ponto de vista e se indignava com a opinião contrária. Para resolver a questão, o casal chamou os filhos. O que era para apaziguar os ânimos acabou ressaltando-os. Daniela concordou com o pai e Marcelo ficou ao lado da mãe. Com a entrada das crianças no debate, a discussão pegou fogo. De repente, ninguém mais se lembrava dos compromissos matinais. Por causa do barulho, os vizinhos tocaram a campainha. O que estaria acontecendo naquela residência onde a paz sempre imperara? Quando questionados sobre a cor do vestido, os visitantes também ficaram divididos. O entrevero parecia não ter fim. As horas foram passando e não se chegava a uma definição. Henrique chamou seus irmãos. Inácia telefonou para os pais. Os filhos convocaram os amiguinhos. Os vizinhos chamavam alguém de sua confiança para opinar. No meio da tarde, uma pequena aglomeração zanzava pelo apartamento. Naquele dia ninguém ali foi trabalhar nem estudar. Quem entrava naquela discussão não conseguia mais sair dela. Afinal, o vestido era vermelho ou azul? A intensidade do debate provocou sequelas. Os grupos passaram a se ofender mutuamente. Quem entendia que o vestido era azul passou a formar uma panelinha, conversando e se preocupando apenas com seus interesses. O pessoal que enxergava a cor vermelha se uniu e passou a desprezar os adversários. Rapidamente, o assunto chamou a atenção dos habitantes da cidade. Todos queriam opinar e ficavam surpresos com a visão oposta. No início da noite, uma multidão se deslocou ao edifício de Henrique e Inácia. Uma equipe de repórteres foi enviada ao local. O debate ganhou a televisão. Era noite avançada quando o assunto ganhou dimensão nacional. Os comentaristas das emissoras se digladiavam. Especialistas em moda foram chamados. E nada de um consenso aparecer. Cada um entendia que sua opinião era a correta, desprezando a visão contrária. A coisa começou a fugir do controle na madrugada. Pessoas na rua se agrediam e brigavam por causa da cor do vestido. Em várias cidades, houve quem se ferisse gravemente nas discussões mais acaloradas. Na capital do país, um adolescente foi assassinado enquanto brigava com um grupo rival. Na manhã seguinte, Inácia pediu para chamar o marido para uma conversa. Henrique tinha passado a noite na sala com seu grupo e ela havia ficado fechada no quarto com seus apoiadores. Eles não se falavam há horas e ostentavam pesadas olheiras. - Não dá mais! - disse a mulher em tom de rendição. - Também não aguento mais esta situação! O casal tomou a única decisão possível: separaram-se. Com o anúncio, os visitantes se sentiram constrangidos e pouco a pouco deixaram o apartamento. No final do dia, ninguém mais se lembrava do vestido. Inácia e Henrique passaram a se evitar e nunca mais conseguiram conversar como antes. O amor que sempre nutriram se transformou em indiferença. Alguns veem certa raiva quando eles rememoram os tempos antigos. Até hoje ninguém sabe ao certo a cor do vestido, que se perdeu na mudança de Inácia para a nova casa. ----------------- Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa
- Contos: Diálogos Urbanos - Apresentação
Em 2019, a coluna Contos & Crônicas do Bonas Histórias chega à sua quinta temporada. A proposta para este ano é darmos alcance às vozes entrecortadas da cidade de São Paulo. De certa maneira, o escritor sai um pouco de cena e quem ganha o protagonismo artístico é a massa anônima que transita diariamente pela maior metrópole do país. Serão os rostos desconhecidos dos habitantes da capital paulista os responsáveis por produzir a coletânea de contos de “Diálogos Urbanos”, a nova série narrativa que irei apresentar periodicamente neste blog. A ideia de “Diálogos Urbanos” nasceu depois que li algumas obras da chamada Escrita Não Criativa. Para ser sincero, não fiquei totalmente fã deste tipo de técnica literária em um primeiro momento. A maioria dos livros de Kenneth Goldsmith me pareceram vazios, sem qualquer atrativo. “Day” (Edição no Brasil), de 2003, e “Traffic” (Também sem edição em português), de 2007, são publicações que dão ao leitor a vontade de atirá-las pela janela de casa antes mesmo de se concluir suas leituras. Por outro lado, acabei conhecendo algumas derivações da técnica da escrita do norte-americano que me agradaram muito mais. “Sessão” (LunaPARQUE), do carioca Roy David Frankel, e “Trânsito” (LunaPARQUE), versão nacional de Leonardo Gandolfi e de Marília Garcia de “Traffic”, são bastante interessantes e obtiveram um resultado narrativo e estético muito melhor. Tendo essas obras como inspirações (positivas e negativas), resolvi utilizar em “Diálogos Urbanos” várias das técnicas literárias da Escrita Não Criativa: citação (ao estilo de Eliot e dos poetas modernistas brasileiros, Bandeira e Drummond, por exemplo), writing through (de John Cage a Pablo Katchadjian), restrição (como a feita por Georges Perec) e cut-up (de Tristan Tzara a Brion Gaisin e William S. Burroughs). Admito que a proposta é ousada e possui um aspecto de experimentalismo que me preocupa. Sinceramente, não sei onde isso vai dar. O resultado pode ser satisfatório. Contudo, também pode não ser. Explicarei de forma geral como serão desenvolvidos os contos de “Diálogos Urbanos”. Em um primeiro momento, sairei pela cidade capturando os sons urbanos em um gravador portátil. Andarei pelas avenidas movimentadas das áreas centrais e pelas ruas tranquilas dos bairros periféricos. Pegarei os ônibus municipais e os trens da CPTM e do Metrô. Além disso, estarei atento às conversas nas mesas dos restaurantes, nas bancadas das padarias e nas praças da cidade. As palavras ditas nos elevadores, nas filas do supermercado e nas reuniões empresariais estarão no meu radar. Os pronunciamentos dos políticos, as transmissões das rádios, os programas de televisão, as mensagens e os vídeos virais da Internet, os bate-papos no bar, as trocas de confidências entre casais de namorados na calçada, os alertas do sistema de som do aeroporto, os telefonemas aos call centers, a pregação do pastor no culto, a explicação da professora em sala de aula... Cada conversa, cada barulhinho, cada mensagem e cada som produzidos em São Paulo poderão ser alvo do trabalho incansável do meu gravador. Por questões éticas, o que for registrado deverá se manter no anonimato, preservando a identidade e os aspectos pessoais dos envolvidos. Depois de registrar esse material em arquivos de som, começará a segunda parte da empreitada: a transcrição. Passarei tudo o que estiver nas palavras faladas do gravador para as palavras lidas/escritas do Word do meu notebook. Assim, tentarei passar a diversidade, a complexidade e a polifonia da cidade de São Paulo para o registro textual. Por fim, a terceira e última fase do processo de construção das narrativas será selecionar os trechos mais interessantes de todo o material coletado. Para tal, poderei fazer combinações de textos diferentes e usar a imaginação para mesclar ficção e não ficção. O ideal é que cada conto de “Diálogos Urbanos” tenha elementos verossímeis ou próximos da realidade, mas que sejam comoventes e emocionantes para o leitor. Não falei que a proposta era ousada e diferente? O resultado é imprevisível. De março a dezembro, vou postar, em média, um conto de “Diálogos Urbanos” a cada dois meses no Bonas Histórias. Ou seja, até o final do ano esta série narrativa terá mais ou menos cinco histórias. Não há um tema central. O único elemento que todas essas histórias produzidas deverão ter em comum é o diálogo com a realidade urbana da cidade de São Paulo. Suas personagens, seus conflitos e seus dramas deverão girar em torno do cotidiano dos paulistanos. Esse é o único ponto obrigatório de “Diálogos Urbanos”. Desde já confesso estar sentindo um friozinho na barriga. Esse desconforto ainda não é capaz de tirar meu sono à noite, mas já provoca uma sensação de incomodo. Conseguirei apresentar uma coletânea de qualidade para os leitores do Blog Bonas Histórias? Confira a nova série narrativa da coluna Contos & Crônicas ao longo de 2019 e responda você mesmo à questão que tanto me intriga nas últimas semanas. Bom trabalho para todos nós! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa
- Contos: Diálogos Urbanos - Controle Remoto
Mamãe, queria conversar umas coisinhas com a senhora. Sobre o que você quer conversar? Sobre casamento. O que você quer saber sobre isso? Como que eu devo fazer quando chegar a hora? A sua irmã não lhe explicou já esse assunto? Não! Ela me disse que a senhora já sabe que ela se deitou com o Matteo, só isso. Que mais que você quer saber? Como é que uma mulher deve fazer? Como todas as mulheres fazem. Sim, mãe, mas eu vou ter que me desnudar na frente dele? Se ele pedir... De luz acesa? Você pede para ele apagar. E se for de dia? Você se vira de baixo dos lençóis. E se ele puxar o lençol, se ele ficar nu na minha frente?! Então você fecha os olhos. E depois, o que eu faço? Não faça nada. Você fica quieta e deixa que ele sabe o que fazer. Vamos mudar de assunto? Smack! Uh, ah. Smack, smack. No, non qui no, Augusto. Então vamos lá para a minha casa, ahã? Meu pai está viajando. Ele foi ver a fazenda que ele está querendo comprar. Quello mio padre ha una parte? Se você ficar comigo... Ma io já sou tua, amore. Smack, smack. Andiamo, andiamo. Para onde? Para casa tua! Ah. Mais de mil e quinhentos. Quanto você faz nesta semana? Pessoal, nesta semana, só setecentos e cinquenta reais a peça e nada mais. Tem que vir para cá. Tem uma variedade enorme... É um tapete mais lindo do que o outro. Aonde? Vem para loja, aqui no Morales, na Rebouças. Vinte um, sete, cinco. Morales ponto com ponto br. Todos os dias, aqui, aguardando você. Tá falado, aproveitem! É um ambiente mais lindo do que o outro. Eu tó aqui no Lar Center, unidade da Plenitude Design. São onze lojas. Você vai encontrar loja dentro do Shopping Móveis Moema, a fábrica fica no Arujá. Enfim, dá uma entrada no site que você localiza. Deixa eu te falar, gente, dessa novidade. Esse aqui é o famoso tecido boucle. Olha o teste da tesoura. Você que tem gato, cachorro, eles vão poder pular em cima que não estraga mais. Tó sentada no Gênova, gente, um exemplo de retrátil todo trabalhado na costura matelassê. Gostou? Vamos lá, porque é o seguinte. O que eu tenho para te dizer é que são cinco anos de garantia na espuma, dez na estrutura. E tem promoção! Tudo com setenta por cento de desconto, dá para pagar à vista, dá para facilitar em dez, dá para fazer boleto. Olha o sofá-cama Samba chegando para você. Mil, quinhentos e noventa em dez vezes ou uma à vista de novecentos e noventa ou em três de trezentos e trinta. Esse é o Tóquio, um retrátil muito procurado. Ó o teste da mãozinha. Travou, ele não volta mais. Mil, quinhentos e noventa em dez. Quer pagar à vista, novecentos e noventa. Ou três de trezentos e trinta. E o famoso tchanananá reclinável. Primavera! Mil, novecentos e oitenta. Ou três de trezentos e sessenta. Kevin, para você: Plenitude. Pensando até que poderia ir a óbito. Dali meia hora, o doutor chama: eu não entendi nada, o homem tá bem aqui. O braço ficou bom, a perna ficou boa. Parece até aqueles filmes em que o bicho lá recupera. Cai no chão, depois que recupera, volta tudo. Quem é de Deus já sai recuperado na presença de Deus. Amém! Vamos agora à primeira pergunta? Por favor. Missionário, é pecado as pessoas fazerem fofoca? É igual matar os outros. Ahahahahahah. É igual matar os outros. Ahahahahahah. E as vezes a senhora está fazendo fofoca de sua vizinha que gosta de fazer fofoca, hein? Também é pecado. Segunda pergunta. Missionário, por que têm acontecido tantos desastres com a natureza? Ah, sempre aconteceram essas coisas. A gente pensa que não, mas o desastre maior foi quando Deus mandou o dilúvio e acabou com toda a vida na Terra. Quando eu era pequeno, já acontecia. Mas antes da volta de Jesus, quando seu retorno estiver próximo, mais coisas vão acontecer. Terremotos, maremotos, tufãomotos, furacãomotos e tudo aí que vem de moto ou sem moto. Ahahahahahah. Vamos agora abrir o coração, por favor. Missionário, tenho passado por dias difíceis. Estou precisando de muita ajuda pois sinto muita tontura e cheguei ao ponto de não conseguir andar sozinha. Além desse incômodo físico, sou atormentada por pensamentos ruins. Quero ficar livre desses males, mas não sei o que fazer para alcançar minha libertação. Missionário, preciso de uma orientação. Você precisa ir a uma Igreja da Graça, principalmente às sextas-feiras, e falar tudo isso com o pastor. O pastor, cê sabe, ele está consignado, vai mandar esse mal embora para você receber a benção. Procure o endereço mais perto da sua casa e vá. Ih, onde eu moro não tem Igreja da Graça. Então procure outra igreja. Jesus fala com o pastor. E se ele falar “Eu não expulso o demônio”, então o senhor é rebelde! Jesus mandou expulsar o demônio. Manda o bicho embora de mim, que ele mandou todo mundo expulsar o demônio. Aqueles que creem em meu nome, expulsarão demônios. Qualquer pastor ou crente que crê em Jesus pode expulsar demônios porque Jesus autorizou. Amém! Vamos agora ao momento Nossa TV. Os canais abertos não tinham nada para me oferecer. Cada coisa que a gente vê na televisão aberta que eu optei por assinar Nossa TV. Eu tenho... Hoje é o dia mais feliz da minha vida e acredito que o dela também. Acabei de pedir minha mulher em casamento aqui. Que esperar que nada! Dez dias depois do pedido de casamento, Jéssica e Sandro Pedroso se casaram em um espaço de eventos em Goiânia. E foi a própria Jéssica que contou a novidade no Instagram. Em vários vídeos, os noivos aparecem fazendo juras de amor e estão bastante emocionados. O cantor Leonardo e o irmão da noiva, Zé Felipe, não aparecem nas filmagens. O noivo da cantora Jennifer Lopez, Alex Rodriguez, mostrou o momento do pedido de casamento. Todo romântico e na praia, o ex-jogador aparece ajoelhado na frente de Jennifer colocando o anel em seu dedo. A joia é um diamante de dez quilates feito com cortes esmeraldas e está avaliada em um milhão de dólares! São cerca de três milhões e oitocentos mil reais. Vinte e uma e trinta e sete. Agora eu tenho uma excelente notícia. Dia do Ultradescontão Ultrafarma tá chegando! Sabe quando? Amanhã! Amanhã, dia treze do três. Amanhã, quarta-feira, é o dia de economizar ainda mais com a Ultrafarma. Você não vai perder, né? Prepare-se para vinte e quatro horas... Mais experiente, jogou no Grêmio, tá no banco. Então o Riveros é um jogador que recompõe melhor, tem mais velocidade para ajudar o Cougo, que vai ao ataque e deixa espaços em suas costas. É um bom lugar ali para o Marinho apostar porque o Cougo, volto a dizer, ataca bem, mas não defende tão bem assim. Sabia que parte do valor da sua assinatura vai para seu clube? Ajude seu time do coração: acesse assine Premiere ponto Globo ponto com. Paulo toca de cabeça, Cougo não evita a saída. A bola é do Grêmio. O tempo vai passando e o Grêmio dá sinais de colocar a bola no chão e a cabeça no lugar. Maicon domina. Leonardo, ele recomeça a jogada com Geromel. Aí o Maicon tentou o Cortez, enfeitou, perdeu, contra dois jogadores ficou difícil. Óscar Cardozo fica com ela. A bola é do Grêmio. Vem Luan. Abre Everton, tá pedindo aqui embaixo. Luan prefere afunilar. Vizeu dá de primeira. Fica difícil. E o árbitro dá a falta. O Grêmio acha, ganha uma falta. A jogada era perdida. O tapa do Vizeu foi no alto, o Luan não tem nem porte físico, nem estatura para brigar com os dois zagueiros da equipe do Libertad. Olha só. Veio o Berria de um lado, sanduíche no Luan e o Luis Cardozo atropelando por cima. Olha que aí, tá distante é verdade, mas está mais próxima do que a outra. Vai daí, será, Luan? Será que o Luan bate daí? Esse gol aí não costuma dar sorte para o Martín Silva, não. Depois a gente conta a história. O Lédio dá a manchete. Quem sabe a sorte está com o Luan? Ajeita o camisa sete do Grêmio. O Rei da América de dois mil e dezessete, campeão, grande destaque da competição, tendo que se recuperar em dois mil e dezenove. Marinho, passa da bola. Vem o Luan, só cavou. Levantou... Era para o Geromel. Tira a defesa! Ah, não, hoje não. Só um beijinho de boa noite. Já estou dormindo. Tá nada. Não quero papo, sei que você está com o gravador ligado. Eita mania mais besta, parece criança com brinquedo novo... Já desliguei. Então desligue também a TV que amanhã a gente acorda cedo. Sua pele está tão macia. Você não tem jeito, né? Ai, amor. Não puxe o lençol! Você é tão linda. O que é isso na sua mão? Nada. Se o gravador está desligado porque a luzinha tá acesa? Para alguém dormindo, você é quem está bem acesinha. Desligue isso! Qual o problema? É um gravador de som, não é de vídeo. Não gosto dessas coisas, você sabe. Só mais um pouquinho. Se você não desligar agora, eu viro para o outro lado. Pronto, prontinho! Desligado. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa #conto
- Contos: Diálogos Urbanos - Comentários
Vocês estão falando sobre algo que deveria ficar apenas na intimidade do casal. Não dá para afirmarmos se houve ou não traição. Parece que o povo gosta das desgraças nas casas dos outros. Para mim, ela não pulou a cerca e ponto final. Não acho que ela iria trair aquele marido lindo dela com aquele cara feio e sem graça da novela. Vocês notaram que ele tem a boca maior do que o rosto e um corpo de franguinho pirracento? Só os que têm dor de cotovelo podem escrever essas barbaridades sobre ela. Mulher invejada por seu talento, sua beleza e seu sucesso. Felicidades para você e sua família, minha diva!!! O pessoal só está falando isso porque ela é linda e contracena com ele na novela que não está bem de audiência. Ele sim deve ter traído a esposa com várias outras. Mas não com ela. Ela é gatíssima, deve ser assediada o tempo inteiro por esses atores metidos a gostosões. Ainda mais esse daí que já pegou uma colega de elenco e acha que pegaria ela também. Coitado desse caboclo, jogou a reputação dele e da família na lama. Nunca mais deveria fazer novela. Se tivesse um pouco de vergonha na cara ou fosse homem de verdade, viria a público dizer a verdade e não bancar o covardão. Até na vida real, você é um péssimo ator. Muito ruim!!! Não caíam nas mentiras dos fofoqueiros de plantão. As pessoas são mesmo muito maldosas. Só porque o cara se separou depois de pegar ela na novela, ficam inventando coisinhas. Não se pode misturar trabalho com relação afetiva. O marido dela deveria saber disso já que ela já tinha feito muitos trabalhos desse tipo antes do casamento. Vida de atriz é assim mesmo: precisa ficar nua na frente de todos e tem que dar para um monte de homem em cena. Se o marido dela é um cara ciumento, que não se casasse com uma mulher linda e obrigada a se sujeitar a esse trabalho. Deixem o cara em paz, porque amanhã ele bate o carro e vão dizer que é culpa dos nossos comentários. A ilusão da relação monogâmica exclusivista, assim como todas as ilusões necessárias para a convivência em sociedade, como crença em seres míticos, a alegria com eventos folclóricos tradicionais, a fuga da realidade com o uso de entorpecentes (álcool e medicações inclusos), são uma conditio sine qua non para o ser humano no atual estágio evolutivo. Entendo muito bem o que o marido dela está passando. Já fui apaixonado por uma garota muito parecida e que tinha os mesmos comportamentos. É incrível como somos inclinados a acreditar nas explicações mais estapafúrdias que esses rostinhos de anjo nos dão. Só posso dizer que esse rapaz apenas adiou a imensa dor que uma hora ou outra irá passar. Muitas vezes, acabamos perdoando as mulheres com sorrisos bonitos por medo de as perdermos para sempre. No fundo, sabemos a verdade, mas não queremos acreditar no que nossos corações insistem em não ver. Que essa conversa dela com o marido tenha acontecido me parece óbvio. Onde já se viu o país inteiro discutir a traição dela e o maridão ficar quietinho a noite no outro lado da cama? Isso não existe! Acho até que não foi conversinha que eles tiveram. O jornalista escreveu “conversa forte”. Isso me parece um eufemismo. Deve ter sido aquelas brigas de fazer gato e cachorro saírem correndo de casa. O cara tem que tirar satisfações mesmo da mulher. Chegar junto, questioná-la. Certa vez, minha esposa chegou em casa de madrugada em uma Saveiro. Uma Saveiro! Fiquei indignado. Aí fui logo perguntando de quem era aquele carro. Ela disse: amor, é o Uber. Acreditei, né? Mulher séria chega de Uber em casa de madrugada, mesmo sendo de Saveiro. Não que os motoristas de Uber não aprontem, mas precisamos acreditar na honestidade deles. A melhor coisa do mundo é você poder se casar com um manso... Ele não vai se abalar nunca com nada. O casal de fato viverá até ficar velhinho! O amor é lindo! A única dúvida que tenho é: eu conto para ele ou vocês mesmo contam? Ahahahahahah. A água de salsicha não tem nenhum talento e precisa polemizar para estar na mídia. Quanto ao marido, a vida é feita de escolhas. Se o cara aceita esse tipo de mulher tá tudo certo! Só não venha reclamar depois. Resumo da novela de hoje: o marido dela foi chifrado, mas para o bem da imagem dos dois é melhor eles continuarem juntos, ao menos nas aparências. Vamos ver daqui há alguns meses se ela foi perdoada mesmo. A única dúvida é o tamanho do galho na cabeça dele. Porque o amor é lindo e ele é aquele tipo de marido que não vê um elefante branco passando do seu lado. Sabe de nada inocente! Isso é que é maridão. Além de rico, é manso de tudo. Eu queria um assim lá em casa. O otário não consegue nem se defender sozinho. Mas o chifre não deve doer muito na cabeça dele. Afinal, o que é uma surubinha a mais ou a menos para esses artistas de TV? O que é um galhinho em uma floresta Amazônica, hein? O importante é ser feliz. O pior cego é aquele que não quer ver. Como diria o Coronel Candinho, personagem famoso do Chico Anysio, teve explicação tudo bem, mas se não tiver, é shlep, shlep, shlep. Chifre é como consórcio, um dia você será contemplado. O mais triste não é ver as pessoas ocupando-se com a vida alheia. O mais triste é ver pessoas julgando outras desta maneira. Deus está vendo. E o diabo também. E o pior de tudo é que ninguém tem nada a ver com isso. Nem conhecer as pessoas da notícia eles conhecem e se acham no direito de opinar. Ninguém tira da minha cabeça que quem comenta esses assuntos são homens casados com mulheres feias. Vão cuidar de suas vidas e deixem os problemas do casal para eles mesmos cuidarem. A verdadeira história passa longe da infidelidade conjugal. Ela pode estar no fato de tudo isso ser uma artimanha para tentar alavancar a audiência da próxima novela. Tenham certeza de que a história real está bem camuflada. Por que o pessoal se preocupa apenas com o marido dela? E o ponto de vista da esposa dele, ninguém se interessa em ouvir? Por que a traída não vem a público e diz o que pensa disso tudo? Acho que isso é machismo da nossa sociedade e do jornalismo de maneira geral. As pessoas se preocupam apenas com o corno e nunca com a corna. Tá faltando matéria aí????? Se quiserem, podemos dar sugestões de pauta. Não faltam assuntos relevantes para serem discutidos no site. Se houve ou não traição, isto não vai mudar em nada a minha vida (e acredite, nem a sua). O que me impressionou mesmo foi a convicção com que o jornalista escreveu a matéria. Se são pessoas próximas ao casal que noticiaram os fatos ocorridos na casa deles, como o repórter mesmo diz, eles não vão ficar dando detalhes sobre um assunto tão particular. O cara deve ter colocado uma câmera escondida na mansão para ter tamanha certeza disso ou inventou tudinho. E depois o povão fica comentando a notícia por horas, dias, semanas. Meu Deus, ainda estão falando desse assunto?! Afffff. Ok, mas que ele deve ter levado chifre, isso deve. Chifre é um negócio que é colocado apenas na cabeça dos outros. Só quem ama tem ouvido capaz de ouvir e entender as estrelas da televisão e do cinema. Bilac, que saudades do seu tempo.... Ma che ctaso!!!!!! O assunto é particular do casal. Pode isso, Arnaldo?!?! A conversa foi séria. Mas ele demorou a se pronunciar. Se passarem o Réveillon casados para mim já será uma grande surpresa. As duas colocações do pronome "onde" estão incorretas. Cadê a revisão do texto, minha gente?! Por que deixam jornalistas analfabetos escreverem nesse site? Depois a imprensa entra em crise e ninguém sabe o porquê. Não nos precipitemos. Deixemos o barco navegar porque a viagem é longa! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa #conto
- Contos: Diálogos Urbanos - Caminhada
Papaiz. Consigaz, a chama que faz sua vida melhor. Promoção. Aceitamos Visa e Mastercard. Correio. Tamo junto, EJ. Proibido jogar lixo. Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Bela Imobiliária vende. Bela Imobiliária vende. Acácia Imobiliária vende. Éden Imóveis aluga. Éden Imóveis vende. Entupiu? Não quebre, ligue. SP Cidade Limpa. Inácio Luís. Rua Inácio Luís da Costa, Sé 10, São Domingos, 656 a 710. CEP 05112-010. Promoção Vapt-Vupt. A partir de R$ 54,90, período de 2 horas, de domingo a quinta das 6h às 17h. América Motel. A Rede de Postos Camargo Lima só trabalha com combustível carregado na base da Petrobrás. Abasteça e confira o rendimento do seu carro. Proibido estacionar. Outlet. Móveis Rústicos. Propriedade Flora Desenvolvimento Imobiliário Ltda. Gol Incorporadora Ltda. Matrículas: 144.664/ 114.666/ 114.668/ 114.665/ 114.667/387. Todas do 16º Cartório de Registro de Imóveis. Ande de Bike. 60 km/h. Vila Leopoldina e Lapa em frente. Morro Doido, aloprado. Rodízio Municipal: verifique o final da placa e o dia da semana. CCR AutoBan. Passarela Jefferson Peres. Como cu de mulher casada. Nada a Temer. Marta & Roberto, amor eterno. Pedestre use a calçada. Complexo Viário Pref. Olavo E. Setúbal. Km 3, Sentido Leste. Eight King Size. A special blendof the world´s finest tabaccos. Nderyegua súrõ ha repih nembyaita. BIS. CET São Paulo. CAST IRON NBR 10160-FE50007 RM-NODULAR B125 2014 230714. Razzi Delivery. Pizzaria e eventos. Pedidos online. RICARDO. Ponte Atílio Fontana. 5,4 m. Coca-Cola. Got, temporada final, 14 abril, HBO/HBO GO. Aberto 24 horas. Etanol comum: 2,759. Diesel S10 aditivado: 3,509. Gasolina comum:4,159. Árvore – corte e poda, ligue. Proibido estacionar, dia e noite. Mais amor, por favor. CNH suspensa/cassada, exame toxicológico, bloqueio de veículo. Ligue. Tem sabor, tem leveza, tem H2O. EMBRATEL CAST IRON. 12:15. 27ºC. Ar bom. Padaria 24h. Lombada a 30 m. Ponto de táxi, ligue. 40% off. Vendo, ligue. Tomás Imob. vende. Maia Imóveis vende. Carlos vende. Pare. Protegido 24h - Teleatlantic Monitoramento de Alarmes 24h. Marginal Tietê, SP BR 116 – Pres. Dutra, SP 70 – Ayrton Senna à direita. Nessa faixa 50 km/h. Caminhões de 2ª a 6ª feira: 5h – 9h e 17h – 21h e Sábado: 10h - 14h Faixa restrita. Milk-shake por R$ 6,90. Veículos batidos, pagamento em 12x no cartão e 12x no cheque. Aberto aos sábados. Saída de Veículos. Atenção: reduza a velocidade ao mudar de faixa. Faixa exclusiva de ônibus a 150 m. Devagar. Só atravesse no verde. Escolha dois clássicos por R$ 14,90. Em breve autoposto Ilha de Bali. Valentina Caran Imóveis vende. Vidente garante união definitiva. Pague após resultado. Ligue. Verisure Alarmes com registro de imagens. Aviso a polícia. Ligue. Cuidado veículos. Fóssil. Usaflex caminhe mais: você encontra aqui. Agata Administradora aluga. Coelho da Fonseca vende. Financie com Bradesco. Br Passagem. Rua Barão da Passagem, Sé 9, 511 a 365, Vila Leopoldina. CEP: 05087-000. Vende-se. Visitas com agendamento. Ligue celular. Ciclista só atravesse no verde. As coisas das crianças e para crianças somente se aprende com crianças – Loris Malaguzzi. Educação é a arma mais poderosa que você pode usar para salvar o mundo – Nelson Mandela. A educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo – Paulo Freire. Passava o dia quieto no meio das coisas miúdas e me encantei – Manoel de Barros. Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas – Rubem Alves. O segredo não é correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você – Mário Quintana. Tenho em mim todos os sonhos do mundo – Fernando Pessoa. Shopping House - Juntos venceremos - Vende/Aluga. Neto Imóveis aluga. Bossa Nova Sotheby's International Realty vende/aluga. Protegido por sistemas de segurança – Central 24 horas. Ligue. Cartas. Acácia Imobiliária aluga. Pç Augusto. Praça Augusto Ruschi, Sé 9, Vila Leopoldina. CEP: 02262-100. Estacionamento: por gentileza, colabore. Parada rápida para a banca. Vivo. 12:48. 28ºC. Ar bom. Proibido Caminhões. Proibido estacionar – garagem. Luz e água. Segurança Aster. Monitoria 24h. Ronda. Porto Seguro Monitoramento. Monitoria 24h. Não escavar – Comgás. Senhores clientes, informamos que a partir de 03/03/2019 não abriremos aos domingos. Indicamos a nossos clientes o restaurante Itoshi Sushi que está localizado na Rua Carlos Weber 1.446. Desde já agradecemos a colaboração. Atenção: porteiro automático. Não buzine. Neste condomínio usamos água de reuso. Para atravessar aperte o botão. Leituras de água e luz, por favor, bater no portão e aguardar. TELESP. Coma à vontade ou por quilo. Entre, experimente. Seja bem-vindo. Polícia bandida x Bandido polícia. Escolha o lado. Não me deixe só. Abandonar é crueldade e crime. Lei Federal 9605/98. Fundação Florestal. Alugou + 1. CHS Imobiliária. Proibido estacionar – entrada e saída de veículos. Cuidado veículos. Aluga. Central de Imóveis aluga. Lilian Ruiva. 104 de bumbum cintura fina. Confira rego freitas. Ligue. Samantha Travesti. Estilo mulherão ativa e passiva bem carinhosa. Ligue. Cris 19 anos. Linda morena de corpo escultural. Greluda ativa com acessórios. Confira, ligue. 13:14. 28ºC. Ar bom. Cartas. Segurança Particular – Proteja-se. Ciclista. Proibido parar e estacionar. Paulista Segurança e Monitoramento. Monitorado 24h. Ligue. Cuidado: cerca elétrica. Agaplan. Monitorado 24h. Ligue. Cuidado veículos. Lombada. Reduza a velocidade. Policial, seja bem-vindo. Aqui você encontra: água, café, WC, internet, apoio e amizade. Aqui nós respeitamos e valorizamos seu trabalho. Vizinhança solidária. Monitorado 24 horas, Siemens. Eu jogo limpo com São Paulo. Cartel de Imóveis vende. Imobiliária Cordilheira aluga. Admite-se. Valentina Caran Imóveis vende. A. J. Valdujo aluga. Lopes Consultoria de Imóveis vende e aluga. Vende, tratar com o proprietário, ligue. Mello Roberto Aluga. Sorria, você está sendo filmado. Mega lançamento Vila Leopoldina. O ponto mais nobre do bairro. A partir de... 2 dormitórios com suíte e varanda grill. Ligue. Mq. Paraná. Rua Marquês de Paraná, Sé 10, 380 a 542, Vila Leopoldina. CEP: 05086-010. 100 anos de Fátima. Vende. Lula livre. Dei e agora? Devagar. Escola. 50 km/h. Insufilm, Som, Acessórios. K. M. ama P. K. Y, 14/06/10. Proibido estacionar. Cuidado: saída de veículos. Freegells Vit. C. Rico em vitamina C. Sabor artificial de citrus. Dropes sabor artificial de frutas cítricas. Caramelo duro sabor de frutas cítricas. 10 unidades. 4º BPM – Sede. Por motivo de segurança uso exclusivo de idosos e emergência. Táxi. Água de coco bem gelada. Yara Orixá. Quer seu amor de volta melhor do que antes? Trabalhamos para todos os fins. Búzios, cartas e tarô. Eu não prometo, eu faço (na sua presença). Ligue. Favor não jogar lixo. Entrada social. Proibido parar e estacionar. Lave seu sofá hoje. Contrate caçamba cadastrada. Fora Dilma. Fora PT. Uso exclusivo. Seu cachorro é de estimação. Nosso jardim também. Este condomínio usa água de reuso. Vendo apartamento neste condomínio e na região. Ligue. Retorno. Cuidado: veículos. Nunca pare em fila dupla. DSV/CET. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Mobilidade e Transporte. Vida segura. Aviso: seja cidadão, recolha as fezes do seu cão. Colabore. A calçada é de todos nós. Obs: calçada não é privada, é pública. Recolha os objetos dos animais. Promoção de hoje: filet mignon, ancho e alcatra. Alugo comercial, fone. Schilling. Rua Schilling, 157 a 363, Sé 9, Vila Leopoldina. Cep: 05302-000. Estamos de olho: área protegida. Programa Vizinhança Solidária. Área vigiada pela comunidade. Comunicamos todas as suspeitas imediatamente à polícia. Ligue 190. Conseg Leopoldina. Polícia Militar. Amocity – Associação de moradores da City Lapa Canto Noroeste. 13:26. 28ºC. Ar bom. É nóis, RZZT. Lava-jato é a mãe! Salve geral, LLT. Fany, te amo, mas vai cagar. Paz. Foda-se o Bolsonada (e todos os machistas que ainda não saíram do armário). Só ônibus: 2ª a Sab. das 6h – 22h. Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Pç Mylce. Praça Mylce Alexandre Campos Mello, Sé 9, Alto de Pinheiros. Permitido cartão caminhão. Pare. Só ônibus. Só conversão Pinheiros. Retorno. Coelho da Fonseca vende. Novo proprietário vende. Na linha branca táxi comum. Ponto 3 vagas. Rota de bicicleta. Respeite a travessia de pedestres. DSV/CET. Prefeitura da Cidade de São Paulo. Mobilidade e Transporte. Vida Segura. 50 km/h. Protegida por ADT. Cuidado: cão bravo. Esta área é conservada por SAB e você. www.vocesab.org.br. Subprefeitura da Cidade de São Paulo. Prefeitura trabalhando. Jesus voltará. Ciclo Sampa. Seu transporte alternativo. Patrocínio Bradesco Seguros. Motoristas, ciclistas e pedestres convivendo em harmonia. Ônibus. @maisa. Eu pedi pizza, não a sua opinião. Se ela é divertida em uma frase, imagina em uma hora? Programa da Maisa. Sábado, 14h15. SBT. Proibido estacionar – dia e noite. Sujeito a guincho. Pe. Pereira. Av. Padre Pereira de Andrade, Sé 8, 622 a 570, Alto de Pinheiros. CEP: 05469-000. Correio. Caldo de cana, água de coco, suco, refrigerante, cerveja e água. Aceitamos cartão de débito e crédito. Água mineral natural sem gás. 500 ml. Nova embalagem eco. Mais fácil de reciclar. Com 20% menos plástico. Torça, faça um pedido e atraia coisas boas. Composição química (mg/L). Bário: 0,134. Bicarbonato: 108,32. Brometo: 0,02. Cálcio: 4,220. Cloreto: 2,38. Estrôncio: 0,046. Fluoreto: 0,26. Fosfato: 0,51. Magnésio: 0,999. Potássio: 2,262. Sódio: 38,299. Sulfato: 7,32. Características físico-químicas. PH a 25ºC: 7,28. Temperatura da água na fonte: 23,8ºC. Condutividade elétrica na fonte: 197μS/cm. Resíduo de evaporação a 180ºC, calculado: 152,20 mg/L. Nós reciclamos. Parque Villa-Lobos, portão 3, nº 1025. Horário do parque: abertura 6h, fechamento 18h. Horário de verão: abertura 6h, fechamento 19h. Proibido estacionar término. Local Imóveis vende. Imóvel em exposição. JS Vendo. Coma beterraba. Red Bull Ladeira Abaixo 2019. São Paulo, 14 de abril. A carne é fraca, coma coxão duro. Vergonha! Cadê o prefeito dessa porra? Tecnews Monitoramento 24 horas. Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Vagas de estacionamento exclusivas para clientes. Sujeito a guincho. Monitorado por câmeras. 14:39. 28ºC. Ar bom. Sem Deus! Sem Pátria! PUNX. Araçuaí. Rua Araçuaí, Sé 8, Alto de Pinheiros. CEP: 05467-070. Cuidado: saída de veículos. Devagar. Rua sem saída. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa #conto
- Contos: Diálogos Urbanos - Tarô
Então vamos lá, na sua Cruz Celta. A sua Cruz Celta vai falar de alguma coisa específica da sua vida. Então vamos começar. Aqui a gente tem o que a vida tá querendo que você vivencie hoje. A vida tá querendo que você se entregue mais às suas emoções, que você não tenha medo de ir em frente para alguma coisa que você queira fazer, tá? Oi? Enfim, a vida tá querendo que você vá em frente em alguma coisa. Algo mais ou menos assim, né? E que você não tenha medo de se entregar em alguma coisa, em alguma coisa também ligada às suas emoções. O que tá impedindo de você fazer isso hoje é a Morte. O que a Morte tá dizendo? Que você tá com alguma sensação de que você está perdendo alguma coisa ou tá com medo de perder alguma coisa. Talvez se você pensar em ir para frente em algum sentido, você acha que vai perder por um outro lado. Então, isso tá te dando um obstáculo. Você está ficando preso a isso, né? Ou, então, está querendo cortar tudo da sua vida. Tá querendo tirar tudo da sua vida. Mas a vida não quer isso de você agora. Ela quer que você cuide mais das suas emoções e se entregue a alguma coisa aí sem medo para continuar. Aí a gente tem no seu consciente, na sua cabeça, né, como você está vendo a situação... Até que tá bem. Assim, não está de todo ruim. Porque você está com o Três de Paus. O Três de Paus tá dizendo que você já está planejando alguma coisa. Que você está planejando fazer alguma coisa, né? É? Você já deve ter algum projeto aí em fases iniciais para começar. Enfim, é isso. Se for algum projeto em grupo isso seria bom. Enfim, você está pensando em alguma coisa nesse sentido, tá? Só que ao mesmo tempo é alguma coisa lá no seu íntimo que você ainda é... Tá com uma pouca... Como eu posso dizer? Pouca emoção nisso! Ainda tá muito só no planejamento. Mas lá dentro de você, você não tá, é muito seguro disso. Então, tá faltando você ficar mais seguro. É... Isso. Isso mesmo. Tá tudo muito no comecinho. Então você não está muito seguro. Tá precisando trabalhar mais essas emoções. O que é justamente o que a vida quer que você faça agora. Num passado recente, a gente tem aqui o Diabo. Olha: é muito interessante! O que que diz aqui? Sabe por quê? Depois eu te falo. Oh! O que que diz aqui o Diabo? O Diabo diz que num passado recente, você tava ainda um pouco imaturo ou agindo de uma forma um pouco inconsequente. Não tava... Deixa eu confirmar direitinho porque não gosto de falar besteira. É isso mesmo, né? Isso, isso... Tá aqui, olha. Ou tava tendo algum momento de muita irritação, de muita irritabilidade. Mas você mudando essa sua postura aqui para o que a vida realmente quer que você faça agora, né? Aqui você já vai entrar na Rainha de Ouro no seu futuro. Aqui tá ligado a alguma mulher na tua vida com muito dinheiro. Então, ou é alguém que vai te dar um trabalho, que vai ser através de uma mulher. Mas é uma mulher que vai te possibilitar um ganho financeiro muito bom. Muito grande, tá? Então é isso. Não sei. É uma mulher. Aí, a gente tem como você tá no momento. Como tá a pessoa agora. E você tá com a Imperatriz. Ou seja. É... Você tá, para as suas escolhas que você for fazer, você tá protegido para ir em frente nelas. Então você tá com essa proteção. Aqui vai ter alguma coisa de novo para entrar também. Alguma coisa que vai ser revelada de novo para entrar nisso. Mas você tá num momento um pouco mais criativo. Você pode sim usar isso a seu favor, tá? E buscando uma segurança na vida. Agora, como as pessoas estão te vendo? As pessoas estão te vendo, estão vendo você como o Quatro de Copas. O Quatro de Copas é... Pode até ser, mas aqui não é assim. Aqui o que está falando? Na verdade, as pessoas te veem... Ah... Com um pouco de desinteresse na vida. Como se você não tivesse interesse por nada. Desinteressado, sabe? Meio desanimado, apático. Então, aqui é assim: a sensação como as pessoas conseguem te ver, tá? E uma pessoa não tão sociável. Uma pessoa mais introvertida. Agora, na casa dos nossos temores, anseios e esperanças, a gente tem o Sete de Paus. O Sete de Paus, ele diz assim: o que a gente mais quer muitas vezes é o que a gente tem mais medo. Então, o que você mais quer e você tem medo é justamente você conseguir lutar contra coisas que você acha negativa na sua vida ou contra a própria negatividade de um modo geral. Você quer defender o que você acha que é importante. Então, você luta para defender as coisas que você acha importante. Isso é o que você mais quer. Mas ao mesmo tempo, você não tem segurança total para fazer isso, tá? Mas é uma coisa que você quer muito: lutar por aquilo que você acredita e por aquilo que você acha que tem importância. Mas aí, olha só, quando a gente converter isso aqui. Essa parte do Diabo, ou seja, de você estar irritado, um pouco, né, imaturo com a vida e tudo mais, já é passado. Você já tá entrando agora para essa parte aqui. Que assim que você conseguir inverter isso, né, ou seja, agir mais como Rei de Copas para conseguir chegar aqui na Rainha de Ouro, quando você conseguir chegar aí.. O que vai acontecer? Você vai entrar em um processo... Não fala de espiritualidade. Não! O Quatro de Espadas não fala de espiritualidade, mas fala de um momento de calmaria, de tranquilidade, sem nenhuma turbulência na vida nem na mente. Então, esse é o jogo da Cruz Celta. Gostou? Agora vamos para o jogo das Dezesseis Cartas. Não! Você vai fazer o das Dezesseis Cartas sim. Olha o Rei de Copas aqui de novo. Não pode ficar espiando as cartas. Escolhe e tira. Parece criança, né? Então agora você vai tirar e cortar. Corta em dois. Aí você vai me tirar uma carta e depois mais dezesseis cartinhas... Isso. Com a mão esquerda, como da primeira vez. Sim! Mais uma. Então vamos lá. Olha, essa carta saiu também para mim, o Sol. Hummm. Ó, então, assim. É... No momento, você tá... Vixe. Desculpa, mas eu preciso atender porque é do escritório. Alô. Oi, tudo bem? Sim, doutora. Ontem, eu fui ver as petições. Saíram. Só que eu.... Não. Sim. Não tó podendo falar agora. Posso ligar para a senhora em meia hora? Ótimo! Obrigada, doutora. Tá. Aí eu explico em detalhes. Não. Ainda não. Ainda nem foi, mas eu explico direitinho daqui a pouco. Está bem. Até mais. Obrigada, doutora. Desculpa. Era lá do escritório. Sabe como é, eu preciso atender. Mas agora vou deixar desligado. Não seremos mais interrompidos, tá? Onde nós paramos? Ah, tá, lembrei. No atual momento, você... Neste instante... Assim... Como eu posso dizer? Quando a gente faz a abertura das cartas, elas dizem o que você está esperando. E você está pensando, está querendo ter um auxílio. Você quer é ter alguma ajuda, alguma coisa nesse sentido, das próprias cartas, do próprio jogo, tá? É como se você fosse utilizar o tarô para fazer alguma coisa: tomar uma decisão, começar algo... Você tá pensando em fazer um filme, um livro, uma peça ou, sei lá, um evento cultural? Porque é isso o que está aparecendo aqui. Você vai usar o tarô para construir alguma coisa criativa e importante na sua vida. Não sei se agora, mas vai. E você sabe disso, ou tem uma forte intuição. Você é muito intuitivo, sabia?! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #SérieNarrativa #EscritaNãoCriativa #conto
- Desafio Literário de outubro/2020: Isabel Allende
Depois de analisar a literatura de Rubem Fonseca em setembro, o Desafio Literário deixa o território brasileiro, atravessa a Cordilheira dos Andes e chega ao Chile. A escritora que será estudada em outubro no Bonas Histórias é Isabel Allende, uma das vozes latino-americanas mais populares da atualidade. Traduzida para quatro dezenas de idiomas e com mais de 70 milhões de livros vendidos, Allende é a autora viva de língua espanhola mais lida no mundo. Ela é dona de best-sellers internacionais como “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), “Eva Luna” (Bertrand Brasil) e “Paula” (Bertrand Brasil). É impossível falar da literatura contemporânea sul-americana sem citar o nome de Isabel Allende. Nascida em Lima, no Peru, em agosto de 1942, quando seu pai, Tomás Allende, trabalhava como diplomata, Isabel tem a nacionalidade chilena. Atuando como jornalista desde os 17 anos, ela foi repórter de televisão, redatora e editora de revista em Santiago até o golpe militar de 1973. Sobrinha de Salvador Allende (portanto, o mesmo sobrenome não é mera coincidência - Tomás Allende era primo em primeiro grau do presidente deposto/assassinado), Isabel e sua família precisaram deixar às pressas o país tão logo Augusto Pinochet assumiu o comando do Chile. Assim, ela foi morar na Venezuela, onde passaria os 13 anos seguintes. Em Caracas, Isabel Allende continuou trabalhando como jornalista, mas agora como freelancer. Como ganhava pouquíssimo dinheiro nos serviços jornalísticos esporádicos que apareciam, precisou trabalhar também em uma escola. De dia, ela ficava na escola e à noite, começou a produzir ficção. Seus livros iniciais foram obras infantis e coletâneas de crônicas, escritas quando ainda vivia no Chile. E, em 1982, Allende lançou seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil). Sucesso imediato de público e de crítica, este livro foi lançado com êxito também no exterior. A partir daí, nascia uma escritora original de alcance internacional. Até hoje, “A Casa dos Espíritos” é considerado a principal obra da autora chilena. Ainda na década de 1980, Isabel Allende lançou outros quatro livros: os romances “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil), de 1984, e “Eva Luna” (Bertrand Brasil), de 1987; e as coletâneas de contos “La Gorda de Porcelana” (ainda inédito em nosso país), de 1984, e “Contos de Eva Luna” (Porto Editora), de 1989. Uma vez alcançado o posto de escritora de sucesso, ela abandonou definitivamente o jornalismo e passou a se dedicar exclusivamente à ficção. No final dos anos 1980, Isabel se separou de seu primeiro marido e se casou com um advogado norte-americano. Assim, a partir de 1988, ela se mudou para os Estados Unidos, onde mora desde então. Nos anos 1990, Allende publicou mais quatro romances: “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), de 1991, “Paula” (Bertrand Brasil), de 1995, “Afrodite” (Bertrand Brasil), de 1998, e “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil), de 1999. Destas obras, a mais impactante foi ”Paula”, um texto autobiográfico escrito para sua filha que permanecia em coma no hospital depois de sofrer um ataque de porfiria. A primeira década do século XXI foi a mais produtiva para a autora chilena. Neste período, ela lançou nove livros (quase um por ano). Foram oito romances e uma obra de memórias. O destaque entre os títulos ficcionais foi “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil), de 2005. Já o livro de memórias foi “Meu País Inventado” (Bertrand Brasil), de 2003. Nos últimos anos, Isabel Allende se manteve ativa, lançando novidades frequentes. Seu último romance é “Longa Pétala do Mar” (Bertrand Brasil), publicado no ano passado. Outro título recente bastante exitoso foi “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil), de 2014. É esta a escritora que vamos investigar neste mês no Bonas Histórias. A proposta é fazermos inicialmente a análise individual de seis de seus principais livros. A partir daí, será possível, no dia 29 de outubro, encerrarmos o Desafio Literário deste mês com a análise aprofundada sobre a literatura de Isabel Allende. Confira, a seguir, o cronograma de posts do blog para as próximas cinco semanas: - 5 de outubro de 2020 - "A Casa dos Espíritos" (1982) - 9 de outubro de 2020 - "Eva Luna" (1987) - 13 de outubro de 2020 - "Paula" (1995) - 17 de outubro de 2020 - "Meu País Inventado" (2003) - 21 de outubro de 2020 - "Zorro – Começa a Lenda" (2005) - 25 de outubro de 2020 - "O Jogo de Ripper" (2014) - 29 de outubro de 2020 - Análise Literária de Isabel Allende Isabel Allende será a segunda escritora chilena que vamos analisar no Desafio Literário. O primeiro foi Pablo Neruda, em julho de 2016. Boa leitura para todos! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: A Casa dos Espíritos - O romance de estreia de Isabel Allende
Comecemos a análise da literatura de Isabel Allende, a escritora chilena que será estudada em profundidade no Desafio Literário deste mês, pelo seu romance de estreia. “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) não é apenas o primeiro romance de Allende como é sua obra mais famosa até hoje. Sucesso instantâneo de público e de crítica, este livro se tornou um best-seller em vários países. Li esta publicação no último final de semana e confesso que fiquei maravilhado com seu conteúdo. Ao lado de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), de Kazuo Ishiguro, e “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), de Kenzaburo Oe, “A Casa dos Espíritos” é um dos melhores títulos que li neste ano (e, sem dúvida nenhuma, é também um dos romances históricos mais impactantes que conheci). Publicado em 1982 por uma editora de Buenos Aires, “A Casa dos Espíritos” nasceu de uma carta que Isabel Allende escreveu, no ano anterior, para seu avô, então com 99 anos e que parecia estar à beira da morte. Nesta época, Isabel vivia em Caracas e trabalhava como jornalista freelancer. Ela tinha deixado o Chile em 1973, após o golpe militar que derrubou Salvador Allende da presidência. Salvador era primo de primeiro grau do pai da autora (daí o sobrenome em comum). A família inteira do presidente deposto e morto (ou você acredita naquela historinha de suicídio, hein?) teve que abandonar o Chile às pressas. A carta ao avô, que tinha o propósito de ser uma homenagem à sua memória, logo se transformou em um livro em que Isabel denunciava os abusos cometidos pela ditadura de Augusto Pinochet. Com passagens biográficas de seus familiares e com elementos de Realismo Fantástico, “A Casa dos Espíritos” retrata a saga de uma família chilena por quatro gerações. Por fazer duras críticas à violência, às injustiças sociais, à corrupção e aos desmandos do governo militar de seu país natal, o livro de Isabel Allende não podia ser publicado no Chile. Afinal, a nação andina vivia, naquele momento da história, sob implacável censura. Depois de incontáveis recusas de várias editoras sul-americanas, enfim uma editora de Buenos Aires decidiu lançar “A Casa dos Espíritos”. E tão logo a obra chegou às livrarias argentinas, ela se tornou um grande sucesso. Entre 1982 e 1983, o romance de estreia de Allende foi publicado na Espanha e em vários países latino-americanos. Antes do final da década de 1980, após ganhar várias edições em língua espanhola, “A Casa dos Espíritos” foi traduzido para dezenas de idiomas e lançado com êxito na Europa e nos Estados Unidos. Impulsionada pelo interesse do público internacional pelo Realismo Mágico do continente, movimento chamado de Boom da Literatura Latino-americana, Isabel Allende se tornou uma autora best-seller nos quatro cantos do mundo. Curiosamente, até os chilenos tiveram que se render à força narrativa de “A Casa dos Espíritos”. Mesmo sob as pesadas críticas dos militares do país, o livro foi eleito o melhor romance chileno de 1982 e sua escritora recebeu o Prêmio Panorama Literário de 1983 pela sua fabulosa criação ficcional. Nos anos seguintes, à medida que a obra foi sendo lançada no exterior, os prêmios internacionais foram se acumulando na prateleira da casa de Isabel Allende. Ela conquistou importantes troféus literários na Alemanha, França, Estados Unidos, México, Bélgica, etc. No início dos anos 1990, a história deste romance foi adaptada para o cinema. O filme “A Casa dos Espíritos” (The House of The Spirits: 1993) foi dirigido pelo dinamarquês Bille August e teve um orçamento aproximado de US$ 40 milhões. Em seu elenco, o longa-metragem contou com a participação de uma constelação de Hollywood: Meryl Streep, Antonio Banderas, Winona Ryder, Jeremy Irons e Glenn Close. Já no século XXI, a trama de “A Casa dos Espíritos” foi adaptada também para o teatro algumas vezes. E há sempre quem cogite a transformação do romance de Allende em um seriado televisivo, algo que não aconteceu até agora. O enredo de “A Casa dos Espíritos” começa mais ou menos na virada do século XIX para o século XX. Em um Chile pós-colonial, a família Del Valle tem uma vida confortável na capital do país. Severo, um advogado com pretensões políticas, é casado com Nívea, uma engajada feminista. O irmão de Nívea é Marcos, um aventureiro que realiza proezas que ora envergonham os familiares, ora enchem a todos de orgulho. Severo e Nívea têm alguns filhos. Clara, a caçula de 10 anos, possui mediunidade aflorada. Além de ver espíritos, de ter presságios e de movimentar objetos com a mente, a menina tem telepatia. Para não assustar as pessoas (e principalmente o temido Padre Restrepo), os Del Valle escondem dos visitantes os poderes paranormais de Clara. Rosa, a filha mais velha, tem 18 anos e é conhecida pela beleza estonteante. Ela é noiva de Esteban Trueba, o filho de um decadente fazendeiro. Outro descendente direto de Severo e Nívea Del Valle é Luis, um rapaz que teve o quadril deslocado na infância e que, por isso, anda coxeando. Ele parece seguir os caminhos do pai e sonha em se tornar um respeitado advogado. Então com vinte e cinco anos, Esteban Trueba, o noivo de Rosa Del Valle, é filho de Dona Ester, uma mulher paralítica que vive sob os cuidados diários de sua filha Férula. O pai de Férula e Esteban morreu há alguns anos, deixando a família em dificuldades financeiras. Com o intuito de voltar a ficar rico e de poder se casar com Rosa, Esteban trabalha nas minas no norte do país à procura de ouro. Assim que descobrir uma pedra preciosa, o rapaz planeja chegar à casa de sua noiva e levar a moça para o altar. Com esse sonho em mente, ele não reclama de precisar passar anos longe de Rosa e de viver dentro dos insalubres campos de mineração. Contudo, o destino será impiedoso com o jovem Esteban. Tão logo ele se torna rico ao descobrir uma pepita grande de ouro, ele recebe uma carta de Férula. Na mensagem, a irmã avisa ao rapaz que Rosa morreu. Desolado, Esteban Trueba retorna para a capital para o enterro da noiva. Para perplexidade geral, a moça foi envenenada. As investigações indicam que alguém tentou matar Severo Del Valle, que dava os primeiros passos na política. Por engano, ao invés do advogado morrer, quem morreu foi sua filha mais velha. Para comprovar tal teoria, o médico Cuevas e seu assistente fazem a autópsia da falecida. Clara, a caçula de Severo e Nívea Del Valle, assiste à cena dos médicos trabalhando e fica impressionada com aquela prática invasiva no corpo da irmã. Traumatizada, a garota ficará dez anos sem emitir qualquer palavra. Ela só quebrará o silêncio quando for anunciar aos pais o seu casamento. Com a morte de Rosa Del Valle, Esteban decide largar definitivamente a mineração. Com o dinheiro adquirido com a pepita de ouro, ele viaja para a fazenda de Las Tres Marias, no sul do Chile. A antiga propriedade da família Trueba estava abandonada desde o falecimento do marido de Dona Ester. Após muito trabalho, Esteban Trueba consegue tornar a fazenda novamente próspera e rentável. Os tempos de dificuldade financeira do rapaz ficaram definitivamente para trás. Agora, ele é um fazendeiro rico. Para aplacar a libido, o solteirão estupra várias camponesas da região. Por ser o homem mais poderoso daquela localidade, ninguém nunca o importunou quanto aos crimes sexuais praticados à torto e direito. Indiferente aos filhos bastardos que brotavam pelos quatro cantos de Las Tres Marias, Esteban jamais reconheceu qualquer uma das crianças das mulheres atacadas por ele. Após dez anos vivendo em Las Tres Marias, Esteban Trueba recebe uma nova carta da irmã. Segundo Férula, quem está morrendo agora é a mãe deles. Ao visitar a capital chilena para testemunhar os últimos momentos de Dona Ester, o filho promete à mãe que irá se casar com uma mulher de sua classe social. Após o enterro de Dona Ester, Esteban vai à residência dos Dell Valle para saber se há outra moça solteira ali. E há. Clara, agora com 19 anos, deixa o fazendeiro encantado. Ela não é tão bonita quanto Rosa, mas é bastante formosa. Além disso, Clara é muito mais simpática do que a irmã mais velha. Sendo bastante transparentes com o candidato a noivo da filha, Severo e Nívea Del Valle explicam para Esteban as particularidades de Clara: ela tem poderes paranormais, é péssima dona de casa e ficou quase uma década em total silêncio. Já encantado pela beleza da moça, ele não vê problema no que enxerga ser características excêntricas da personalidade da mulher amada. Uma vez casados, Clara e Esteban são, à princípio, muito felizes. Enquanto ele cuida dos negócios na fazenda do interior e entra na política (torna-se senador da República), ela realiza trabalhos sociais e ações religiosas na residência dos Trueba na capital. Um não se mete nas atividades do outro. Não demora e o casal tem três filhos: Blanca, a mais velha, e os gêmeos Jaime e Nicolau. Para ajudar Clara na administração do lar, Férula vai viver com o irmão e com a cunhada logo após o casamento. Entretanto, os gênios tão diferentes de Clara e Esteban irão colocá-los em campos opostos. À medida que os anos passam, a esposa odiará o marido, cada vez mais truculento e insensível quanto às necessidades do povo carente do Chile. O mesmo conflito será protagonizado, mais tarde, entre os filhos de Clara e o pai deles. Blanca se envolverá com Pedro Tercero Garcia, um jovem trabalhador de Las Tres Marias. Jaime se tornará um médico engajado socialmente. E Nicolau terá gosto pelas aventuras exóticas como o tio Marcos tinha no passado. Ninguém da família parece nutrir bons sentimentos por Esteban, cada vez mais velho, rabugento e solitário. A única que irá dar alguma atenção e algum carinho ao velho senador é Alba, a sua única neta. A moça é filha de Blanca e Pedro Tercero Garcia. E assim como a mãe, Alba irá se apaixonar por um revolucionário marxista, Miguel, o que trará problemas para todos quando o Golpe Militar de 1973 for decretado. Aí tempos sombrios se abaterão sobre a casa dos Trueba. Insistentemente, Esteban resistirá às dificuldades do presente com a força inabalável do passado e com a convicção típica de sua personalidade. “A Casa dos Espíritos” é um romance do tipo tijolão. Com 448 páginas, ele possui 15 capítulos. Precisei do final de semana inteiro para concluir esta leitura. Comecei o livro na sexta-feira à noite e o terminei no domingo à noite. Devo ter investido cerca de treze a quatorze horas de leitura. E esse tempo valeu a pena. “A Casa dos Espíritos” é uma trama emocionante e impecável. O mais impressionante é notar que este romance representou a estreia de Isabel Allende nas narrativas longas. Até a publicação desta obra, a chilena só havia lançado livros infantis e peças teatrais. Há muito tempo não lia um título de estreia tão excelente quanto este (isso é, se algum dia já li). Vários elementos de ordem narrativa chamam a atenção do leitor em “A Casa dos Espíritos”. Em primeiro lugar, temos cenas maravilhosas durante quase todo o livro. É até difícil apontar quais são os momentos mais marcantes desta longa trama. A impressão que tive é que este romance começa e termina em alto nível. Apesar da passagem do tempo, da mudança de cenários e da troca paulatina de protagonistas, uma coisa não muda em suas quase 500 páginas: a sucessão de cenas contagiantes. Outra questão a ser elogiada é a construção das personagens. Figuras memoráveis desfilam pelos capítulos deste livro. E não são apenas os protagonistas que se destacam em “A Casa dos Espíritos”. Há vários coadjuvantes com força para encantar os leitores. De cabeça, lembro-me de Padre Restrepo, do Doutor Cuevas, de Ama, de Pedro Garcia, de Pedro Segundo Garcia, de Barrabás, de Férula Trueba, das três irmãs Mora, do tio Marcos, do conde de Satigny e de Tránsito Soto. Note que quase todas as figuras retratadas nesta obra são personagens redondas. Não há indivíduos totalmente bonzinhos nem pessoas totalmente vilãs. Quem melhor representa essa contradição é Esteban Trueba. Ora ele é o típico caudilho sul-americano, capaz de estuprar as mulheres pobres e indefesas do seu vilarejo e de mandar matar seus desafeitos políticos, ora é o marido apaixonado e o avô zeloso, capaz de fazer qualquer coisa para agradar as mulheres de sua família. Por falar nas mulheres da família Del Valle/Trueba, vale a pena citar a força delas. Tanto Nívea Del Vale quanto Clara Trueba, Blanca Trueba Satigny e Alba Trueba desafiam a sociedade patriarcal e o machismo de suas épocas. Cada uma das integrantes das quatro gerações deste clã (bisavó, avó, mãe e filha) se impôs e deixou legados incontestáveis. Apesar da trama ser narrada em boa parte por Esteban Trueba, uma figura proeminente da sociedade chilena e um sujeito extremamente rico, as verdadeiras protagonistas desta história são as mulheres que agiram na surdina para promover a igualdade social em uma nação tão desigual. Não à toa, elas padeceram, muitas vezes, pela falta de recursos financeiros e de confortos mínimos. Incrível acompanhar suas trajetórias. Por falar em personagens, há algumas figuras reais que são citadas em “A Casa dos Espíritos”, mas que não são mencionadas nominalmente. Isso fica mais evidente no caso do Presidente socialista derrubado pelo golpe militar e do Poeta conhecido internacionalmente e perseguido pelos militares do seu país. Não é difícil perceber que o primeiro é Salvador Allende e o segundo é Pablo Neruda. Os dois são chamados, respectivamente, o tempo inteiro apenas de Presidente e de Poeta. Já que estamos tratando das omissões, é importante dizer que não há a caracterização do espaço narrativo nem do tempo narrativo neste livro. Em nenhum momento, Isabel Allende cita seu país como palco desta trama ficcional. Porém, é perceptível que a história se passa no Chile durante o final do século XIX e boa parte do século XX (são 75 anos de história). O tom de realismo fantástico, mais acentuado nos primeiros capítulos de “A Casa dos Espíritos”, lembra muito “Cem Anos de Solidão” (Record), romance clássico de Gabriel García Márquez. Porém, o livro de Isabel Allende não se limita aos eventos mágicos protagonizados principalmente por Clara Del Valle Trueba. À medida que sua história evolui, o livro muda frequentemente de característica estilística: ele adquire tom de drama romântico, de saga política, de conflito agrário e de thriller de terror. Parte do charme desta obra de Allende está em suas transmutações ao longo dos capítulos, o que confere grande agilidade à narrativa e não deixa os conflitos esfriarem. Neste sentido, o contexto político do Chile no século XX serve de ambientação para toda a narrativa de Isabel Allende. Vale lembrar que Rosa Del Valle morreu envenenada quando seu pai se filiou ao Partido Liberal, de esquerda, e não ao Partido Conservador, de direita. E, dali em diante, os conflitos de natureza política irão influenciar as brigas e os conflitos de quase todos os protagonistas. Os capítulos finais de “A Casa dos Espíritos” servem de alerta para todos aqueles que ainda hoje insistem em apoiar medidas autoritárias, não democráticas e à margem do Estado de Direito. Por mais absurdo que pareça, ainda há pessoas em países da América Latina que parecem não ter aprendido nada com o passado! Em uma ditadura militar, ninguém escapa das mãos pesadas, injustas e inconsequentes dos idiotas fardados no poder. Não é, Esteban Trueba?! Apesar das cenas fortes, de muita violência e maldade explícita, “A Casa dos Espíritos” não é uma narrativa pesada. O que abranda a ambientação é o humor de Isabel Allende. Ao longo de todo o texto, somos brindados com cenas divertidas e comentários espirituosos. Algumas passagens são hilárias: o destino da cabeça de Nívea Del Valle, a transformação da pele de Barrabás em enfeite e a agonia de Esteban Trueba toda vez que sua mulher fazia as malas para viajar para Las Tres Marias, por exemplo. Como já deve ter dado para perceber, o humor típico desta obra é o humor negro. “A Casa dos Espíritos” é uma narrativa entrecortada por relatos em primeira pessoa e em terceira pessoa. Quem narra a história é Esteban Trueba e sua neta Alba. Porém, há trechos extraídos de anotações de Clara (daí a explicação para as partes em terceira pessoa). Este talvez seja o único ponto negativo do romance de Allende – a inverosimilhança do foco narrativo. É difícil engolir que Esteban e Alba Trueba tivessem acesso aos detalhes da vida de todos os personagens citados. Além disso, não me pareceu crível que Esteban Trueba criticasse abertamente seu próprio comportamento (intransigente, mesquinho e extremamente violento). Como um “bom” caudilho nascido no final do século XIX, ele jamais iria reconhecer seus excessos e nunca os apontaria como algo negativo de sua personalidade. Ao terminar este livro, juro que pensei: “Se Isabel Allende tiver escrito outro romance com 50% da excelência de “A Casa dos Espíritos”, ela merece um Nobel de Literatura”. Para descobrir a qualidade das demais obras da escritora chilena (Teria “A Casa dos Espíritos sido sorte de principiante, hein?!), vou continuar as leituras do Desafio Literário de outubro. O próximo título que vou comentar no Bonas Histórias é “Eva Luna” (Bertrand Brasil), o quarto romance de Allende. Publicado em 1987, este livro também se tornou um grande sucesso. O post sobre “Eva Luna” estará disponível no blog na próxima sexta-feira, dia 9. Não perca! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
- Livros: Eva Luna - O terceiro romance de Isabel Allende
Li, nesta semana, “Eva Luna” (Bertrand Brasil), o terceiro romance de Isabel Allende. Após o sucesso meteórico de “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), sua primeira narrativa longa e também seu primeiro best-seller internacional (livro este analisado na segunda-feira, dia 5, no Bonas Histórias), a escritora chilena passou a investir na produção de romances históricos ambientados no conturbado cenário político-social da América do Sul. Com pitadas generosas de realismo fantástico, personagens encantadoras, humor inteligente, cenas inesquecíveis, críticas sociais pesadas, sátiras políticas divertidíssimas e dramas sentimentais contundentes, Allende criou um receituário narrativo original e de enorme repercussão comercial na década de 1980. “Eva Luna”, o segundo dos seis livros da autora que serão comentados no Desafio Literário de outubro, é peça fundamental para compreendermos este início arrebatador da carreira literária de Isabel Allende, um dos mais populares nomes da ficção contemporânea em língua espanhola. E o que seria, afinal de contas, um começo de carreira exitoso, hein?! Basta dizer que em apenas cinco anos, Allende lançou três obras de enorme sucesso tanto de público quanto de crítica: “A Casa dos Espíritos”, em 1982, “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil), em 1984, e “Eva Luna”, em 1987. Enquanto as histórias dos dois primeiros romances foram logo adaptadas para o cinema, a trama do terceiro romance originou uma bem-sucedida coletânea de contos. “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil) foi publicado em 1989 e é narrado pela mesma protagonista do título de dois anos antes. Não à toa, há muitos críticos literários que apontam estes quatro primeiros livros de Isabel Allende, juntamente com “Paula” (Bertrand Brasil), lançado em 1995, como seus mais importantes trabalhos ficcionais. Concordo em número, gênero e grau com essa opinião. Por isso, não confunda as bolas, por favor! Há “Eva Luna”, o romance que vamos discutir no post de hoje do Bonas Histórias, e existe “Contos de Eva Luna”, a coleção de 23 narrativas curtas ambientada e protagonizada pelas mesmas personagens do livro anterior (um dia ainda vou analisar esta obra aqui no blog, pode apostar nisso... só não será no Desafio Literário deste mês). Ou seja, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa (apesar dos nomes parecidos). Quem tiver a vontade de conhecer também a coletânea de contos, recomendo lê-la após o romance. Dessa maneira, o leitor conhecerá previamente as principais personagens, as situações gerais e a maioria dos cenários criados por Isabel Allende. Aí ficará mais fácil acompanhar as aventuras deliciosas de “Contos de Eva Luna”. Este livro é, até hoje, a principal publicação da escritora chilena no gênero das narrativas curtas. O que faz “Eva Luna” (voltemos ao romance e deixemos os contos um pouco de lado) uma narrativa tão especial é, em grande parte, o carisma absurdo de sua narradora-protagonista. Não é errado pensarmos que Eva, a personagem central deste livro, é a figura mais marcante da literatura de Allende (e, portanto, uma das principais criações da literatura chilena e da literatura sul-americana contemporânea). Se você já tinha gostado de Clara Del Valle Trueba, Blanca Trueba Satigny e Alba Trueba, de “A Casa dos Espíritos”, e de Irene Beltrán e Evangelina Ranquileo Sánchez, de “De Amor e de Sombra”, você precisa conhecer Eva Luna. A moça obstinada e corajosa é filha de Dona Consuelo, uma empregada pobre e solitária, e de um índio desconhecido de olhos amarelos. Órfã desde os seis anos, Eva teve que se virar sozinha em um mundo violento, machista, injusto e em constante ebulição (estamos na América do Sul, meu amigo!). Apesar de permanecer analfabeta até o início da adolescência, Eva se tornou uma contadora de história fenomenal, capaz de hipnotizar quem ouvia seus relatos. Assim, ela pôde extrapolar a dimensão do seu próprio romance e se tornou a narradora de uma obra de contos. É incrível acompanhar essa transformação metalinguística! Sinceramente, não me recordo de outro protagonista que tivesse tamanha força literária para ganhar o papel de destaque em um título de outro gênero narrativo. Não conte para ninguém, mas desconfio que Eva Luna seja o alter ego de Allende. Por falar na importância literária de Eva Luna, a própria Isabel Allende, no meio do texto do romance de 1987, compara sua personagem à Sherazade, figura central de “As Mil e Uma Noites” (Biblioteca Azul). Se a esposa do Rei Xariar criava histórias todas as noites como estratégia de sobrevivência, a protagonista de “Eva Luna”, por sua vez, desenvolveu a habilidade de contar suas tramas simplesmente pela beleza de apresentá-las aos outros. Em comum, as duas mulheres eram exímias narradoras e prolíficas contistas. No caso da personagem chilena, ela ainda era dona de uma força de vontade incomparável. Eva apresenta muitas das características das principais personagens feministas da literatura moderna. Confesso que durante esta leitura lembrei muito de Léa Delmas, de “A Bicicleta Azul” (BestBolso), e de outras protagonistas memoráveis de Régine Deforges. A trama de “Eva Luna” é narrada em primeira pessoa por sua heroína homônima. Ao mesmo tempo em que apresenta suas memórias para o leitor, Eva também conta o drama de Rolf Carlé, um alemão que emigrou para a América do Sul logo após a Segunda Guerra Mundial. Assim, o livro tem uma dupla narrativa. As duas histórias caminham paralelamente na primeira metade da obra (cada capítulo é dedicado a um dos seus protagonistas). Na metade final do livro, obviamente, as narrativas de Eva e de Rolf se unem. Na parte do enredo dedicada a Eva Luna, conhecemos sua trajetória de vida desde o nascimento da mãe, Consuelo. Abandonada pelos pais assim que veio ao mundo, Consuelo foi criada, primeiramente, por missionários no interior e, depois, em um convento de freiras na capital. Ao ficar adulta, ela arranjou trabalho como empregada doméstica. Seu patrão era o Professor Jones, um médico estrangeiro que sabia embalsamar corpos como ninguém (seus mortos ficavam com aspecto de vivos por anos e anos). Foi na residência do doutor que Consuelo engravidou de um índio que estava à beira da morte. Com pena do rapaz que aparentava ter poucas horas de vida, a empregada fez sexo com ele. Nove meses depois, nasceu Eva. Como a mãe não sabia nem seu sobrenome nem o sobrenome do índio, a menina ganhou o apelido de Luna (por causa da Lua). Eva Luna cresceu com grande liberdade na casa do Professor Jones, que parecia dedicar-se apenas à arte de embalsamar os defuntos e não notava a presença da criança em seu lar. Contudo, quando Eva tinha seis anos, Consuelo morreu. A garota foi deixada aos cuidados da cozinheira da casa, sua madrinha. A mudança radical na vida de Eva aconteceu mesmo quando o Professor Jones faleceu. Aí ela, então com sete anos, precisou ganhar o mundo. Ao se separar da madrinha, Eva Luna trabalhou como empregada doméstica. No início, serviu dois irmãos solteirões. Depois, ela foi atuar na casa de um importante oficial militar que nutria aspirações políticas. Era o início da saga da menina pobre e órfão. Em sua luta pela sobrevivência, Eva conheceu várias pessoas que puderam ajudá-la: Huberto Naranjo, menino de rua que vivia de pequenos trambiques, Elvira, colega de trabalho que a garota chamava de avó, a Senhora, importante meretriz da capital, Melecio/Mimi, transexual que ganhava a vida cantando em bares, Riad Halabi, turco de lábios leporinos que tinha uma mercearia em Água Santa, e Coronel Tolomeo Rodríguez, renomado militar. Nos momentos mais difíceis, Eva Luna via e conversava com o espírito da mãe. De certa forma, Consuelo nunca abandonou sua filha. Por sua vez, a trajetória de Rolf Carlé começou na Alemanha no período de Entreguerras. Ele era filho de Lukas Carlé, um professor sádico. O menino era vítima sistemática das maldades tanto do pai em casa quanto dos colegas na escola (que para se vingar do odiado professor, batiam sem dó no seu filho). Quando explodiu a Segunda Guerra Mundial, Rolf, seus irmãos e sua mãe ficaram extremamente felizes. Lukas Carlé foi enviado para o front e ficou vários anos sem poder aparecer em casa. Aqueles foram os melhores momentos da infância de Rolf, que não se importava com as limitações financeiras e de comida. A alegria da família acabou com o término do conflito. O professor regressou ao lar ainda mais cruel com os filhos e com a esposa. Certo dia, para perplexidade geral, Lukas foi encontrado morto no meio do mato. A família suspeitava que ele tivesse sido assassinado pelos alunos da escola, que também o odiavam tanto quanto os parentes mais próximos. Como a polícia acreditou tratar-se de uma morte natural, ninguém desmentiu as autoridades de segurança pública. Sem o patriarca, os Carlé passaram a viver sem a opressão brutal de outrora, mas tiveram que conviver também com a crise econômica de uma Alemanha devastada. Sem dinheiro no bolso, a mãe de Rolf decidiu enviar o filho para a América do Sul. Sonhando em recomeçar a vida em um lugar mais tranquilo, o garoto embarcou sozinho e atravessou o Oceano Atlântico sob insistentes lágrimas. Chegando à América do Sul, Rolf foi viver junto com os tios e com as primas em Colônia, um povoado de origem alemã encravado no alto das montanhas. Agora no seio de uma família feliz e estruturada, ele arranjou uma profissão, aprendeu a falar espanhol, se esqueceu do passado terrível que tivera na Europa e conquistou seus primeiros amores. Era uma nova vida que Rolf Carlé tinha pela frente. A paixão por contar histórias irá aproximar os dois protagonistas deste livro. Enquanto Eva mergulhará na literatura e na produção de telenovelas, Rolf se tornará cineasta e um importante produtor de documentários para a televisão. A indignação de ambas as personagens pela difícil realidade político-social do país em que vivem irá uni-las. “Eva Luna” é um romance de 294 páginas e está dividido em 12 capítulos. Precisei de dois dias para concluir a leitura integral desta obra. Devo ter levado aproximadamente 10 horas, entre segunda e terça-feira, para ir da primeira à última página. Em extensão, este livro é bem menor do que os caudalosos “A Casa dos Espíritos” e “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), mas é ligeiramente maior do que “De Amor e de Sombra” e “Contos de Eva Luna” - para ficarmos em uma comparação com as primeiras publicações da autora. Vale a pena começarmos os elogios da última edição deste livro pelo seu projeto gráfico. A nova capa da versão brasileira de “Eva Luna” está simplesmente fantástica. O visual desenvolvido pela Bertrand Brasil faz agora justiça à qualidade do conteúdo textual de Isabel Allende, algo que tinha ficado aquém na primeira edição nacional. Repare na intertextualidade bíblica da imagem da capa. Se o ilustrador responsável por esta obra de arte não ganhou prêmios de design, na certa cometeram uma enorme injustiça. Curiosamente, a capa brasileira está até mais impactante do que a versão original do livro (em espanhol). Como romance histórico, “Eva Luna” é um livro impecável. Ele é muitíssimo parecido com a narrativa de “A Casa dos Espíritos”. Assim como o primeiro best-seller de Isabel Allende, esta obra tem como características fundamentais: o excesso de personagens (que vão e voltam o tempo inteiro na história); o humor é ao mesmo tempo escrachado e inteligente (coisa que só os grandes gênios da literatura conseguem fazer); a ambientação está ancorada na política e na história real do continente (assistimos à trajetória de um país sul-americano em constante crise a partir do enredo particular das personagens principais e secundárias do romance); as cenas são impecavelmente construídas; as personagens quase sempre são do tipo redondo (Coronel Tolomeo Rodríguez é um ótimo exemplo desta prática) e estão magnificamente desenvolvidas (Melecio/Mimi e Riad Halabi são excelentes exemplificações); há grande agilidade narrativa (está sempre acontecendo alguma coisa diferente nas páginas); as personagens reais têm nomes velados/apelidos (Homem da Gardênia, Benfeitor, General...); há intensa intertextualidade histórica e literária; o realismo fantástico marca presença (os acontecimentos envolvendo o Professor Jones são divertidíssimos); e o texto é extremamente engajado (fortes críticas à religião, às injustiças sociais, ao sistema político, à ação dos militares, ao machismo, ao conservadorismo da sociedade latino-americana, ao preconceito aos indígenas, à censura da imprensa e dos artistas, à ditadura militar e à violência urbana). “Eva Luna” traz também algumas novidades de ordem narrativa: temos forte metalinguagem literária (a narradora-protagonista constrói na frente do leitor uma de suas histórias); há indefinição do espaço narrativo (fiquei na dúvida se a nação retratada era o Chile ou a Venezuela – talvez seja o híbrido de ambos os países); temos maiores doses de humor (dá para soltar muitas risadas nessa leitura); encontramos uma protagonista que, enfim, encara de frente a opressão militar e enfrenta de forma mais direta o status quo político (algo que ficou faltando às mulheres de “A Casa dos Espíritos” – a única que tinha uma atuação mais forte era Nívea Dell Valle, mesmo assim ela promovia mais o feminismo do que a luta pela igualdade social; mas que já tinha aparecido nas protagonistas femininas de “De Amor e de Sombra”); este romance tem uma maior pegada de road story (Eva Luna e Rolf Carlé estão sempre viajando); e o tempo narrativo é pontuado apenas de forma indireta (a partir exclusivamente da citação de eventos históricos). Como já falei, o ponto alto de “Eva Luna” está em sua narradora-protagonista. A órfã pobre que precisa encarar um mundo de adversidades é quase uma versão feminina e latino-americana de Forrest Gump, a personagem central do romance mais famoso do recém-falecido Winston Gordon. Assim como Forrest, Eva está direta e indiretamente envolvida com os acontecimentos mais sensíveis do seu país, adora contar histórias, chega ao estrelato e sempre se reencontra com os conhecidos do passado. É incrível acompanhar suas aventuras. Outro ponto que adorei em Eva Luna é sua personalidade (moderna). Ela não é a heroína clássica que fica esperando o amado aparecer nem teme se envolver com os problemas sociais do seu país. Nananinanão! Eva é mulher de fibra e tem total ciência do que pode fazer com sua vida e com seu corpo. Assim, ela tem liberdade sexual, não fica glorificando o homem por quem está apaixonada (quando se apaixona realmente), encara os problemas de frente, não leva desaforo para casa e não tem medo de cara feia. E, o que é mais legal, ela parece não ter qualquer preconceito. Impossível não gostar de alguém assim. Apesar de excelente, “Eva Luna” está meio degrau abaixo de “A Casa dos Espíritos”. Mesmo com uma narrativa mais redondinha do que o romance de estreia de Isabel Allende (lembremos que o título anterior do Desafio Literário tinha alguns problemas de foco narrativo, devidamente corrigidos agora), “Eva Luna” peca pela falta de novidades estéticas impactantes. A sensação é que a partir do mesmo receituário do primeiro sucesso, a autora chilena desenvolveu suas novas tramas. Para quem está lendo os livros em sequência como eu, falta aquele quê de surpresa. Por outro lado, quem não leu nada de Allende ainda (repita em voz alta três vezes rapidinho este trecho: nada de Allende ainda!), na certa não terá essa impressão negativa. Aí “Eva Luna” se mostrará uma leitura grandiosa. O próximo livro que será analisado no Bonas Histórias é "Paula" (Bertrand Brasil), a obra mais intimista de Isabel Allende. Escrito para a filha da escritora quando a moça de 28 anos se encontrava em coma em um hospital de Madrid, este romance autobiográfico será comentado no post de terça-feira, dia 13. Até lá! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.
















