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  • Talk Show Literário: Marcelinho

    O quarto entrevistado da oitava temporada do TSL é Marcelinho, o narrador-protagonista de Feliz Ano Velho, romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva que se tornou best-seller na década de 1980. Darico Nobar : Boa noite, Marcelinho. Como vai este meninão carismático e desbocado? Marcelinho : Vai bem, meu velho amigo gorducho e fofinho. Darico Nobar : Olha o respeito, garoto! Senão eu te coloco de castigo e você não participa do Talk Show Literário . [Os dois riem, o que evidencia o clima de descontração e intimidade. O cenário do programa é bem diferente do habitual. Ao invés do estúdio da emissora de TV no Rio de Janeiro, as câmeras foram instaladas num quarto apertado de hospital em São Paulo. O entrevistado, um rapaz de vinte anos, careca e cheio de espinhas no rosto, está totalmente imobilizado no leito. Seu pescoço é sustentado por um colar metálico ortopédico cheio de pinos e parafusos. Ele veste um cinto que envolve sua coluna. O entrevistador, um senhor septuagenário de volumosos cabelos brancos, aparece sentado na poltrona ao lado da cama. Pelo barulho, nota-se que há muita gente em volta]. Marcelinho : Tá bom, Daricóviles. Dessa vez, só dessa vez, vou me comportar. Prometo não pegar o violão para tocar um bom Rock dos anos 1970. Darico Nobar : Não dá para começarmos essa conversa de outro jeito, meu amigo. Preciso perguntar o que aconteceu. O que se passou para você vir para cá?! Marcelinho : Nada demais. Só quebrei a quinta cervical num passeio de fim de semana com a rapaziada. Estávamos em um lago às margens da Rodovia dos Bandeirantes e subi numa pedra para mergulhar. Queria fazer como o Tio Patinhas na piscina de moedas. Meu movimento foi perfeito, só não contava que não havia profundidade na água. Aí bati a cabeça no chão. Quem nunca, né? Darico Nobar : Meu Deus! Isso é muito sério! Marcelinho : Não esquenta a cabeça, que caspa vira Mandiopan. Darico Nobar : O que você vai fazer agora? Marcelinho : Agora?! Minha vontade é transar com a Lídia Brondi, mas como ela não apareceu no hospital, estou me resguardando e fazendo tratamentos paliativos.  Darico Nobar : Claro... [O apresentador não se aguenta e cai na risada]. Por falar nisso, parece que você tem recebido muitas visitas. Seu quarto é tão movimentado e barulhento como as quadras das escolas de samba nos ensaios pré-Carnavalescos. Marcelinho : Assim que as visitas foram liberadas, acabou o sossego do hospital. Começou a chegar gente, mais gente e não parou mais. Tios, tias, amigos, todos querendo me ver. Eles precisam falar comigo, não sei o porquê. Aliás eu sei, é que estou com preguiça de explicar. Os primeiros a aparecerem foram Cassy, Laurinha, Ana, Gorda, Big, Bunds, Nalu, Eliana. Acho que gostam do meu quarto, do astral daqui. Todo dia é uma festa. Cassy me disse que fica o dia inteiro esperando chegar a hora de vir me visitar. É incrível o espírito de ajuda que se criou em volta de mim. Cada um querendo dar um pouco de si, e é por isso que é tão gostosa a presença deles. Darico Nobar : Conversando com Dona Eunice, soube que você teve inclusive visitantes famosos nos últimos dias. Marcelinho : Visitinhas políticas. Chegou um telegrama dizendo que o Leonel Brizola viria me ver. Ele, que foi colega do meu pai antes do Golpe de 1964, acabou de chegar no país, beneficiado pela Anistia. Mas quem pintou por aqui foi sua mulher, uma senhora loira, simpática e bonita. Depois, numa tarde qualquer, entraram pela porta do meu quarto o Eduardo Suplicy, o João Breda e a Irma Passone. Queriam saber minha opinião sobre a mudança deles do MDB para o PT. Quem diria, eu, que nunca trabalhei na vida, convencendo uns deputados a irem pro Partido dos Trabalhadores.     Darico Nobar : Olha só. Não sabia disso. E qual é a sua rotina hospitalar? Marcelinho : O ritual é o seguinte, Daricóviles. Café de hotel, papo com Chico e Santista na hora do banho e fisioterapia com Helô. Almoço, jornal com vovó e colete. Tiro uma soneca à tarde de mais ou menos uma hora, visitinhas. Fisio com Nana e Big, jantar, mais visitas e colete. Novela, fisio com quem estiver no quarto, relaxamento da Veroca, pensar na medula, sonífero e dormir. O maior programão, né? Darico Nobar : Ninguém gosta de hospital, mas você parece satisfeito com o atendimento recebido. Marcelinho : É uma pseudo-satisfação. O hospital é a droga da sociedade, o carro-chefe da segurança, das ilusões. Pode pôr sua vida em risco, que ele garante. Estropie-se, que não estará sozinho. Com o pouco que você sofre em nossas mãos, e alguma paciência, estará pronto para viver novamente entre os filhos do senhor, compartilhar com eles o sofrimento de uma vida cheia de buscas, riscos e frustrações.   Darico Nobar : Qual a pior parte da internação e do seu tratamento médico? Marcelinho : Não aguento pedir pros outros coçarem a minha cabeça. Como não mexo nada, você pode imaginar a agonia de uma simples coceirinha. Se a Lídia Brondi estivesse aqui, acho que ela faria isso nos intervalos do nosso sexo selvagem.   Darico Nobar : Às vezes, acho que é difícil falar sério com você. [Ri da ironia do jovem]. A sensação que tenho é que, de alguma forma, você já estava preparado para encarar os desafios dessa infelicidade. Loucura pensar assim, não? Marcelinho : Mais estranho ainda, e disso eu fui testemunha, foi o sonho que a Eliana, minha irmã, teve comigo uma semana antes do acidente. Ela sonhou que eu estava me afogando e não conseguia levantar a cabeça. E que, depois de eu ser salvo, ela só me via do pescoço pra cima. Isso, numa sexta-feira. Como de costume, sábado fui de Campinas onde estudo para São Paulo, e ela me abraçou assustadíssima, quase chorando. “Tive um pesadelo horrível com você, ainda bem que você está vivo”. Darico Nobar : Além da sua mãe e da sua avó, suas irmãs são muito presentes? Marcelinho : Mais tarde, vem a Eliana ou a Veroca. Elas estão lendo para mim o novo livro do Gabeira. Você já leu O que é Isso, Companheiro?  [O apresentador balança a cabeça para cima e para baixo]. Na maioria das vezes, eu não consigo prestar a atenção. As dores de cabeça e de barriga são infernais, me tiram de órbita. Em compensação, quando eu presto atenção, as aventuras do Gabeira entram pelo meu ouvido e me fazem lutar junto dele. Tem momentos que me identifico profundamente. Principalmente na parte em que ele é perseguido pela polícia, é obrigado a ficar um mês no apartamento de uma pessoa desconhecida. Para não dar bandeira pros vizinhos, quando essa pessoa saía para trabalhar, ele não podia ouvir som, atender a porta, fazer nenhum barulho, pois podiam desconfiar. Era uma situação muito parecida com a minha, preso num lugar que não conheço, absolutamente sem nada para fazer. O Gabeira nem imagina o quão importante seu livro está sendo para mim.      Darico Nobar : Por falar em Ditadura Militar, quais as lembranças que você tem do seu pai? Marcelinho : Enquanto alguns pais levavam seus filhos pra jogar tênis, o Rubens levava o Marcelo pra Pavuna, um bairro operário da Zona Norte do Rio, onde ele estava construindo umas casas populares. Eu adorava, ajudava a fazer cimento, levantar muro, passar argamassa nas paredes. Aprendi a comer feijão com farinha na marmita, a beber café mineiro no copo, usar capacete de obra e carregar martelo na cintura. Meu pai me ensinou a andar a cavalo. Meu pai me ensinou a nadar. Me incentivou a ser moleque de rua. Me ensinou a guiar avião. Mas meu pai não pôde me ensinar mais. Darico Nobar : Lembro muito bem desse outro episódio delicado da sua família. Marcelinho, o que aconteceu exatamente naquele 20 de janeiro de 1971? Marcelinho : Quando todos se preparavam pra ir à praia, nossa casa foi invadida por seis militares à paisana, armados com metralhadoras. Enquanto minhas irmãs e a empregada estavam sob a mira, um deles, que parecia ser o chefe, deu ordem de prisão. Meu pai deveria comparecer na Aeronáutica para prestar depoimento. Ordem escrita? Nenhuma. Motivo? Só deus sabe. No dia seguinte, minha mãe e a Eliana, então com quinze anos, também foram levadas à força. Minha irmã ficou só um dia presa, mas minha mãe voltou depois de duas semanas. Meu pai... até hoje nada. Sumiu no quartel da Barão de Mesquita e ninguém do Exército se preocupou em nos dizer seu paradeiro. Darico Nobar : Triste, muito triste. Marcelinho : Revoltante! Meu pai não foi o único “desaparecido”. Há centenas de famílias na mesma situação – filhos que não sabem se são órfãos, mulheres que não sabem se são viúvas. Provavelmente o homem que me ensinou a nadar está enterrado como indigente em algum cemitério carioca. O que posso fazer? Justiça neste país é uma palavra sem muita importância. As pessoas de farda ainda se acham donas do Brasil, tem um código de ética para se protegerem mutuamente. Darico Nobar : Para terminarmos essa entrevista, você gostaria de deixar uma mensagem natalina para nosso público? As festas de fim de ano estão logo aí e essa data é muito importante para várias famílias brasileiras. Marcelinho : Nunca fui muito de Natal, exceto quando criança, óbvio. Mas apesar das dificuldades que enfrentamos, sabemos que sempre haverá celebrações em família no fim de dezembro. Porque não ter um momento de ternura e amizade com as outras pessoas, mesmo levando uma vida fodida o ano inteiro? Estamos todos na mesma. Não sejamos tão egocêntricos a ponto de querer, quando estamos mal, que esteja todo mundo péssimo. Foi o nascimento de um cara incrível, de um revolucionário que lembrou às pessoas que, acima do poder, o amor e a felicidade são mais importantes. E que poderemos construir um mundo melhor. Então, é um dia em que teremos a oportunidade de renascermos em nós mesmos. De brilhar, de ser gente. Lutar por aquilo que desejamos, defender a nossa condição. E como disse o poeta: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Darico Nobar : Belas palavras. Elas se casam com o que você está vivenciando. Mais uma etapa da recuperação vencida, certo? Mas a batalha prossegue! Marcelinho : Só vou vencer quando sair daqui andando. Esse papo de etapa superada parece uma coisa de conformista – se contentar com pouca coisa. Nada disso. A luta está começando, até agora não venci nada, quem está vencendo é a porra do meu destino. Puta que pariu. O homem foi à Lua e ninguém descobriu a cura para uma lesão de medula. Ora bolas, vão todos tomar no cu. Darico Nobar : Marcelo, obrigado por essa entrevista franca e direta. E agradeça também a Dona Eunice, essa mulher tão obstinada e inspiradora, por ter nos permitido conversar com o filho dela.   Marcelinho : Falô, meu chapa! O prazer foi meu de transar um lero contigo. Darico Nobar : Pessoal, o Talk Show Literário  dessa noite fica por aqui. [Olha diretamente para uma das câmeras]. No mês que vem, voltaremos com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva para vocês. Até lá! [Enquanto os créditos do programa sobem na tela, é possível assistir à entrada de várias pessoas no quarto. A maioria é de jovens que parecem sorrir e se divertir como se estivessem numa festa universitária]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Filmes: Golpe de Sorte em Paris – A comédia romântica de Woody Allen com Lou de Laâge

    Lançado nos cinemas brasileiros em setembro de 2024, o 50º longa-metragem do cineasta norte-americano é, segundo o próprio, seu último trabalho na direção. A nova produção é também a primeira de Allen na língua francesa e com o protagonismo da belíssima de Laâge. Preciso ser sincero com os leitores da coluna Cinema . Eu não ia fazer um post de “Golpe de Sorte em Paris”  ( Coup de chance : 2023), o filme  de Woody Allen  que estreou nas telonas brasileiras em 19 de setembro. Nananinanão! Para ser ainda mais franco com quem me lê (tem alguém aí?!), sequer estava com vontade de conferir o longa-metragem  que entrou em cartaz em 14 de novembro na Argentina, país em que vivo há um ano e meio. Só não me pergunte, por favor, qual o motivo do hiato de quase dois meses entre o lançamento da nova película nos dois maiores países sul-americanos. Não faço ideia. Talvez a culpa seja do radicalismo retrógrado de Milei ou do progressismo ilusório dos peronistas. Vai saber! Nas margens mais turbulentas do Rio da Prata, tudo é justificado por essas duas opções. O que posso garantir com alguma segurança é a razão da minha falta de vontade para assistir a “Golpe de Sorte em Paris”. Juro que pensava se tratar de mais do mesmo. Isso é tão verdade que, inclusive, tinha preparado um post para hoje sobre um assunto totalmente diferente: a experiência de visitar o Malba, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. Afinal, faz um tempinho que não alimento a coluna Exposições . E o passeio pelo Malba é realmente incrível. Portanto, sequer tinha cogitado analisar uma produção cinematográfica no Bonas Histórias  nesta semana pós-feriados. Apesar de Woody Allen continuar sendo um dos meus diretores favoritos (se não for “o” favorito), temia que ele estivesse caindo numa perigosa e entediante repetição. Alguém aí ouviu a palavra “ocaso” ecoando no ar?! Eu escutei – ou são coisas da minha perturbada mente. O que garanto com isenção é que “O Festival do Amor” (Rifkin's Festival: 2022) e “Um Dia de Chuva em Nova York” (A Rainy Day in New York: 2018), os últimos trabalhos woodyanos, foram engraçados e inteligentes, mas não entregaram nenhuma novidade aos antigos fãs do cineasta norte-americano. A sensação é que eram cópias fraquíssimas de títulos anteriores de Allen, conhecido justamente pela criatividade absurda e pela enorme capacidade de nos surpreender filme atrás de filme. Por isso, admito sem vergonha que risquei “Golpe de Sorte em Paris” da minha lista de programas do final de semana. Se não tivesse um bom terror ou um suspense mediano em cartaz nos cinemas portenhos, iria de animação infantil mesmo. A única certeza é que não perderia meu tempo vendo o novo filme de Woody Allen em hipótese nenhuma! Deu para entender o quanto “O Festival do Amor” me frustrou no ano retrasado, né? Até que “Um Dia de Chuva em Nova York” não me pareceu tão ruim, gerando até mesmo uma análise morninha na coluna Cinema  em dezembro de 2019 – já se vão cinco anos disso, meu Deus!!!! Convenhamos que é muito pouco para quem viu obras-primas como “Ponto Final – Match Point” (Match Point: 2005), “O Sonho de Cassandra” (Cassandra's Dream: 2007), “Vicky Cristina Barcelona” (2008), “Tudo Pode Dar Certo” (Whatever Works: 2009), “Meia-noite em Paris” (Midnight in Paris: 2011) e “O Homem Irracional” (Irrational Man: 2015). Entendeu agora o porquê Allen é meu cineasta favorito?! E olha que peguei como recorte a parte mais recente de seu longo portfólio cinematográfico. Sequer citei clássicos do cinema norte-americano como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall: 1977), “Hannah e Suas Irmãs” (Hannah And Her Sisters: 1986) e “Poderosa Afrodite” (Mighty Aphrodite: 1995), provavelmente seu auge artístico. Para quem ainda não sacou o quanto sou fã de Woody Allen, cheguei a cogitar fazer uma espécie de Desafio Literário  da Sétima Arte. Isso foi há seis ou sete anos. Acho que nunca comentei essa proposta amalucada (e divertida) no Bonas Histórias . Ao invés de ler vários livros de um autor ficcional e produzir seu perfil literário (dinâmica da coluna Desafio Literário ), faria a mesma coisa só que com um cineasta. Assistiria às suas principais produções audiovisuais e apresentaria um panorama completo de seu trabalho. E, adivinha, quem era o primeiro diretor da minha lista? Sim, senhoras e senhores, era justamente Woodyinho – Woodyinho é para os íntimos. No meu plano muito bem concebido (todos os meus planos são ótimos, o problema é só a execução), veria todos os seus longas-metragens e postaria análises individuais de cada um na coluna Cinema . Aí quando completasse a filmografia, montaria a avaliação completa no Desafio Cinematográfico. Na época em que tive essa brilhante ideia, o norte-americano tinha pouco mais de 40 filmes na bagagem. O problema do meu esboço para conquistar o mundo (ou melhor, para viabilizar o Desafio da Sétima Arte) foi arranjar tempo. Aí a coisa melou e a nova coluna do blog nunca saiu do papel. Para minha frustração, dos pouco mais de quinze filmes do diretor que assisti, só uma parcela mínima ganhou críticas no Bonas Histórias . Mas por que raios estou falando sobre isso agora? Ah, lembrei. Para dizer que mesmo sendo fã incondicional de Woody Allen, me recusei a ver seu mais recente trabalho. Acho que já falei isso um milhão de vezes. Com essa certeza em mente, entrei no site do Multiplex , rede de cinemas de Buenos Aires que frequento com mais assiduidade, na última segunda-feira. O feriado da semana passada na Argentina foi na segunda e não na quarta como no Brasil. Aí me deparei com o poster do filme. Para meu espanto cardíaco (meu coraçãozinho é muito sensível), quem estava nele? Nele, no caso, é o cartaz do longa-metragem e não o meu coração, tá? Quem? Quem? Quem? Ela, a minha, a sua, a nossa Lou de Laâge . Se você (ainda) não a conhece (não sabe o que está perdendo!), informo emocionado que de Laâge é a minha atriz francesa favorita. Desculpe-me, Isabelle Huppert. Como a personagem de Demi Moore em “A Substância”  (The Substance: 2024) descobriu da pior maneira, a fila da preferência do público cinematográfico anda. Sou apaixonado por Lou de Laâge desde quando conferia as primeiras edições do Festival Varilux de Cinema Francês em São Paulo. Posso assegurar que foi paixão à primeira vista. Para quem acha que estou blefando (nunca acredite em escritores metidos a falar sobre filmes – Ruy Castro é a exceção que só comprova a regra), tenho provas documentais para apresentar. A linda e competentíssima loirinha é figura carimbada na coluna Cinema . Entre os filmes de Lou de Laâge que assisti, posso destacar “Branca como a Neve” (Blanche Comme Neige: 2019), “Agnus Dei” (Les Innocentes: 2016) e “Respire” (2014). Suas atuações beiraram a perfeição nessa trinca. Para quem prefere testemunhas às evidências objetivas, posso dar voz ao Paulo, meu melhor amigo (ao lado do Eduardo). Diz aí, Pablito, El Canibal, El Regreso! Fala tudo (ou quase tudo) o que você sabe sobre meu fascínio pela pequena francesinha! Virava e mexia, o coitado do Paulinho era arrastado para o cinema só porque eu queria ver a nova produção da atriz que dominava meu combalido e cada vez mais roto coraçãozinho.    Por falar em ver, lembra que eu disse que não iria conferir “Golpe de Sorte em Paris”, né? Tá bom, vou parar de falar isso. Prometo. O fato é que, inclusive, usei o meu nananinanão, recurso máximo da minha negação, para expressar o quão resoluto era meu posicionamento. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante... soube que de Laâge estrelava o novo filme de Woody Allen. Aí não podia decepcioná-la. Depois de descobrir essa importantíssima informação, corri para a sala de cinema em Belgrano  no feriadão para ver a inusitada (e perfeita) união do meu cineasta norte-americano preferido com minha musa do cinema francês . Se isso não é graça do destino, não sei mais o que é sorte do acaso. Só quem já assistiu ao filme entenderá minha frase pretensamente filosófica. Juro que não me importei nem mesmo de levar um fora da gatinha arisca que convidei para me acompanhar à salinha escura. Fui sozinho ao cinemão. Feliz da vida!    “Golpe de Sorte em Paris” é o 50º filme de Woody Allen. Você leu corretamente. Ele tem em sua filmografia meia centena de títulos. Vamos às contas. Se o diretor tem 88 anos – completará 89 na semana que vem – e começou no ofício aos 30 anos de idade – com a comédia “O que é que Há, Gatinha” (What's New Pussycat?: 1965) –,  são 58 anos de carreira. Se ele possui 50 longas-metragens no currículo em 58 anos de atividade profissional, então dá quase uma produção por ano. É uma marca espetacular. Além de quantidade, é bom destacar a qualidade deste portfólio cinematográfico. Orçado em US$ 7,8 milhões e produzido numa parceria entre França e Inglaterra , “Golpe de Sorte em Paris” foi dirigido e roteirizado por, obviamente, Woody Allen. Além de Lou de Laâge, o filme é estrelado por Melvil Poupaud , Niels Schneider  e Valérie Lemercier . Aí surge a primeira grande curiosidade: o elenco é inteiramente francês. A ideia foi justamente filmar a trama que se passa na capital francesa no idioma local. Acho legal mencionar que essa foi a primeira vez que um longa-metragem de Allen não foi gravado em inglês. Confesso que adorei essa opção. Além de dar mais verossimilhança à história, ainda fomos brindados com um grupo de atores que, por mais experiente que seja no cinema europeu , ainda não tinha trabalhado com o cineasta norte-americano.     Outra curiosidade: “Golpe de Sorte em Paris” foi filmado entre outubro de 2022 e o início de 2023. O cronograma inicial indicava que as gravações aconteceriam em 2020, mas a famosa pandemia não deixou. Mesmo estando pronto desde o primeiro semestre do ano passado, esse longa-metragem teve sérias dificuldades para ser lançado no circuito comercial de cinema. Tudo por causa das polêmicas envolvendo antigas acusações de abuso sexual da ex-mulher de Woody Allen, que o fizeram se tornar figura tóxica em Hollywood nos últimos dez anos. É importante dizer que nunca houve qualquer comprovação dessas denúncias. Há inclusive o cheirinho de injustiça no ar e a impressão de uma mulher amargurada trocada por uma rival mais jovem (e de dentro da própria casa/família). Mesmo assim, o falatório geral foi capaz de cancelar o veterano diretor. “Golpe de Sorte em Paris” entrou em cartaz na França em 27 de setembro de 2023. Três semanas antes, ele fora apresentado no Festival Internacional de Cinema de Veneza com uma tímida receptividade do público e dos críticos. Nos Estados Unidos, o novo longa-metragem de Allen só foi lançado em abril de 2024. No restante do mundo, a data de lançamento foi mesmo o segundo semestre desse ano, conforme a plateia sul-americana descobriu. Um dos efeitos da falta de apelo da nova produção foi o desabafo do diretor norte-americano de que este seria seu último trabalho. Admito que fiquei dividido entre acreditar ou não em suas palavras. Por um lado, me parece lógico e natural que Woody Allen tenha se cansado de “remar em doce de leite”, para usar uma expressão argentina que adoro – algo como “remar contra os ventos”. Se o mercado não o aceita mais, para que insistir em lançar novos filmes?! Por outro lado, será que alguém que apresenta anualmente novidades há quase 60 anos conseguirá parar de trabalhar em um estalar de dedos? Acho difícil. Por isso, achei que seus desabafos nas coletivas de imprensa foram mais para promover o novo título que estava recebendo pouca visibilidade do público e da mídia do que uma vontade genuína de encerrar a carreira. Certamente muitos fãs correriam às salas de cinema para ver a despedida do grande cineasta. Mal imaginava ele que muita gente (coloca o dedo aqui que já vai fechar!) seria na verdade seduzido pelos encantos de Lou de Laâge.     Falei, falei e falei e ainda não apresentei o enredo de “Golpe de Sorte em Paris”. Bem-vindos ao Bonas Histórias , senhoras e senhores. A parada aqui é assim mesma – damos voltas e mais voltas como os cachorros que correm atrás do próprio rabo. Como diria o narrador de Rá-Tim-Bum: senta que lá vem a história!    O novo filme de Woody Allen começa com o caminhar matinal de Fanny Moreau (interpretada por Lou de Laâge) para o trabalho. A moça é funcionária em uma galeria de arte na capital francesa. Quando está se aproximando do destino, ela é abordada na calçada por Alain Aubert (Niels Schneider). O acaso é o responsável pelo reencontro da dupla depois de muitos e muitos anos. Ele, agora um escritor de volta à Paris para produzir um romance, se lembra imediatamente da antiga colega de escola. Afinal, ela era extremamente popular e linda desde a infância/adolescência. Não por acaso, Alain era apaixonado secretamente por Fanny no remoto passado, conforme faz questão de revelar naquela rápida conversa na calçada. Por mais que ela se esforce para se recordar dele, então um tímido e simples estudante, não consegue ter êxito. O reencontro mexe com as duas personagens. Eles trocam telefones e passam a se encontrar amistosamente na hora do almoço de Fanny. A curiosidade pelo outro e a grande afinidade intelectual da dupla os atraem mutuamente, apesar da jovem ser casada. Na cabeça da protagonista de “Golpe de Sorte em Paris”, seu casamento com Jean Fournier (Melvil Poupaud) é perfeito e não há nenhuma chance de seu coração ficar balançado por Alain. Em suma, Fanny é agora a Senhora Fournier e não mais a Senhorita Moreau. É bom que se diga que Jean faz o tipo de marido ideal: é milionário, carinhoso, elegante, organizado, trabalhador e sensato. E, o que é melhor, não se cansa de mimar a esposa com muito luxo. Fanny é tão paparicada que adquire uma rotina entediante. Na estrutura doméstica de muitos serviçais, armários com o que se pode comprar de melhor e eventos sociais classudos da elite francesa, a moça se sente quase como um bibelô para ser apreciado. Ela só tem um respiro quando vai ao trabalho – mais por necessidade psicológica do que por carência financeira.   Contudo, tal dia a dia extravagante e monótono não incomoda Fanny. Pelo contrário: ele a agrada bastante. Depois de passar por maus momentos no primeiro casamento, o surgimento de Jean em sua vida é encarado como um lance de sorte do destino. Quando ela iria imaginar ter um marido tão perfeito como aquele, hein? Por mais que Jean seja, às vezes, ciumento (tem a impressão de que alguns amigos olham com segundas intenções para a esposa), infantil (ele brinca com trenzinhos elétricos num cômodo da casa) e fútil (é complicado manter uma conversa profunda com ele sobre qualquer assunto), ele é no fundo um cara legal. O problema é que no meio do caminho (ao trabalho) tinha um escritor (jovem e inteligente), tinha um escritor (apaixonante e sensível) no meio do caminho (do matrimônio de Fanny). Alain é a antítese de Jean: simples, informal, compreensível, independente, espontâneo e intelectualmente desenvolvido. Com ele, Fanny compartilha impressões de filmes e livros, numa rara afinidade artística. Não é preciso dizer que a antiga amizade de Fanny e Alain e a compatibilidade de almas entre eles se transformam rapidamente em uma tórrida paixão extraconjugal. Assim, os encontros amistosos da hora do almoço nas praças parisiense são trocados pelas tardes de sexo na cama do apartamento do rapaz.    Novamente, a protagonista do filme se questiona se um novo lance do acaso é o responsável por trazer mais uma lufada de sorte para sua vida. E se ela não tivesse trombado naquela manhã com o antigo colega de escola? E se não tivesse se dado a possibilidade de o conhecer mais e melhor depois do reencontro inusitado? Será que teria conseguido ver que sua vida ao lado de Jean era na verdade sem graça e uma completa perda de tempo? Uma vez ciente da realidade, Fanny começa a questionar seus passos. Será que deve permanecer ao lado do marido zeloso na tranquilidade da rotina abastada ou pode abraçar a paixão improvável e inconsequente com o escritor humilde? Não é preciso ser um gênio para supor que uma mulher nessa posição e com tantas dúvidas estará em maus lençóis. Como Jean Fournier não é bobo, ele saca rapidamente que há algo de muito errado com seu matrimônio e com a postura da esposa. Quando a coisa aperta, quem socorre a heroína é sua mãe, Camille Moreau (Valérie Lemercier). No alto de sua experiência, a Sra. Moreau consegue ver o que a jovem filha não enxerga, por mais óbvio que pareça. O problema é saber se Fanny ouvirá as preciosas dicas maternas.    Com pouco mais de uma hora e meia de duração, “Golpe de Sorte em Paris” pode ser classificado tanto como uma comédia romântica  como uma tragicomédia . Quem preferir, pode vê-lo também como um drama satírico  sobre relacionamentos conjugais, como uma reflexão filosófica  sobre as incongruências do amor ou até mesmo como um suspense policial . Um suspense policial, Ricardinho? Exatamente, desconfiado(a) leitor(a) da coluna Cinema . Depois da metade do filme, desaparecem os componentes românticos e cômicos (ou, para ser mais exato em meu comentário, eles perdem bastante força, mas não somem totalmente) e surge uma trama investigativa ao melhor estilo dos thrillers noir  de Alfred Hitchcock. Aí o drama e o mistério  potencializam-se. Confesso que achei essa história uma mistura de “Madame Bovary” (Penguin-Companhia), clássico da literatura francesa criado por Gustave Flaubert, com “Crime e Castigo” (Editora 34), obra-prima da literatura russa concebida por Fiódor Dostoiévski. Quem é chegadinho em Teatro, talvez a associação mais pertinente seja com uma união entre “Macbeth”, de William Shakespeare, e “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues. Para os fãs da Sétima Arte, a comparação mais adequada é com “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train: 1951 ), longa-metragem de Hitchcock baseado no romance homônimo  de Patricia Highsmith . Para um bom entendedor poucas palavras bastam. Como não posso apresentar o spoiler do filme, essas referências intertextuais da literatura, do teatro e do cinema são capazes de mostrar para onde a história de “Golpe de Sorte em Paris” deságua. Convenhamos que se agora falta um pouco de criatividade para Woody Allen, não lhe faltam bagagens culturais. Para quem prefere olhar para dentro do portfólio do cineasta para fazer as devidas associações, posso dizer que o novo longa-metragem do norte-americano mescla a temática de “Ponto Final – Match Point” (lances de sorte pautando os destinos) com a atmosfera e as personagens de “Meia-noite em Paris” (devidamente encenado na charmosa capital francesa e com figuras redondas) e com o enredo de “O Homem Irracional” (personagem tirada da depressão e envolvida em uma série de assassinatos). Exatamente aí reside o grande problema da mais recente produção woodyaliana. Como suspeitava, temos mais do mesmo. Para entender o que estou dizendo, proponho uma experiência empírica. Pegue um grupo de pessoas com bom gosto que jamais assistiu aos filmes de Woody Allen e o coloque na sessão de cinema para conferir “Golpe de Sorte em Paris”. Certamente a avaliação será muito positiva. Por quê? Porque temos um longa-metragem redondo, redondinho. Seu enredo é instigante, os diálogos são extremamente inteligentes (marca dos roteiros de Allen), a história mistura humor, drama e romance em doses certeiras, a fotografia é espetacular (e algo filmado em Paris ficaria ruim?!), a trilha sonora é cativante, o ritmo narrativo é impecável e a atuação do elenco está muito acima da média. Até o design gráfico merece elogios, seguindo a identidade visual dos últimos filmes do diretor. Aos quase 90 anos de idade, precisamos reconhecer que Woody Allen sabe fazer um bom cinema e não perdeu a mão do ofício. Diante da empolgação do primeiro grupo de avaliadores, passamos para o segundo grupo de nossa experiência hipotética: aqueles que já conhecem boa parte do trabalho do norte-americano. Aí a sensação será de ligeira frustração. “Golpe de Sorte em Paris” tem, por exemplo, vários elementos das narrativas anteriores de Allen: “Vicky Cristina Barcelona” – mulher casada que não crê que pode ser infiel até ser; “Blue Jasmine” (2013) – busca pelo conforto e pela tranquilidade financeira de um marido rico; e “Magia ao Luar” (Magic in the Moonlight) – atração pelos opostos e ambientação francesa. Para completar, como já disse, a aproximação mais forte é com os dramas de “Ponto Final – Match Point” , “Meia-noite em Paris” e “O Homem Irracional” . Sabe quando a Rede Globo passa pela terceira ou quarta vez a mesma novela no “Vale a Pena Ver de Novo” – alguém aí se lembrou de “Chocolate com Pimenta”?! Ou quando os roteiristas tentam extrair mais uma história de uma saga por vezes requentada – impossível não relembrarmos dos títulos de “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida” (Raiders of the Lost Ark: 1981) e “Um Tira da Pesada” (Beverly Hills Cop: 1984) que ganharam recentemente novos e desnecessários episódios, né? Por melhores que sejam essas sagas, chega uma hora que elas cansam nossa beleza. Diante dessa enorme contradição, é difícil dizer se “Golpe de Sorte em Paris” terá a capacidade de agradar ou desagradar a plateia nos quatro cantos do planeta. Na minha visão, depende do referencial do público. Eu gostei da experiência na sala de cinema. Porém, o filme esteve muito, muito distante de me empolgar. Porque faço parte justamente do segundo grupo de espectadores que citei. Se estivesse no primeiro, talvez tivesse curtido um pouco mais. Do ponto de vista da estética do cinema woodyano, os dois elementos novos de “Golpe de Sorte em Paris” são o idioma francês e a atuação dos atores europeus. Em relação ao idioma, como já falei, acho que ele caiu muitíssimo bem nesta produção. A experiência é outra de você acompanhar a história na língua do país da encenação. Juro que não sei o porquê Woody Allen (e boa parte dos grandes cineastas) não utiliza corriqueiramente esse expediente. A experiência para o público é muito mais charmosa e fidedigna. Quanto ao elenco, não preciso dizer que Lou de Laâge está, como sempre, exuberante. Além de linda e com um carisma impressionante, ela dá conta do recado de ser protagonista de uma obra de Woody Allen, algo que poderia intimidar qualquer um. A sensação é que a atriz francesa brilha com naturalidade, sem se esforçar para se destacar. Contudo, o grande destaque em “Golpe de Sorte em Paris”, na minha visão, foi o desempenho de Melvil Poupaud. Ele está sensacional no papel do vilão da trama tragicômica. Como eu não o conhecia (pelo menos não me recordo de ter acompanhado nenhum de seus trabalhos anteriores), o achei talentosíssimo. Sempre que surge na tela, ele rouba a cena. Niels Schneider e Valérie Lemercier também estão ótimos, o que potencializa a qualidade do longa-metragem. Assista, a seguir, ao trailer de “Golpe de Sorte em Paris” (Coup de chance: 2023): Acho que por hoje é só, pessoal. Sei que essa foi uma análise diferentona da coluna Cinema . Afinal, falei muita coisa, mas pouco do filme em si – juro que isso não acontece normalmente. O que apresentar de novo para os leitores do Bonas Histórias  se não há qualquer novidade para o que conhecemos do trabalho de Allen em “Golpe de Sorte em Paris”?! Difícil. Juro que quando identificar uma produção realmente inovadora que entre em cartaz, retornarei para o blog para esmiuçá-la. Aí ficarei menos de papinho paro o ar, como aqui, e vou mergulhar de fato no trabalho analítico. E para quem ficou interessado no post sobre o Malba, saiba que ele foi reprogramado para janeiro de 2025. Ou seja, ele sairá sim na coluna Exposições . Só precisamos esperar mais algumas semaninhas para conferi-lo. Até lá, continue acompanhando o conteúdo das demais seções do Bonas Histórias . Tenho certeza de que há muita coisa interessante sobre as mais diferentes manifestações artístico-culturais do Brasil e do mundo para debatermos. Até a próxima! O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Filmes: Um Tira da Pesada - Ação policial da década de 1980

    Revi ontem “Um Tira da Pesada” ( Beverly Hills Cop : 1984), filme que marcou a infância e a adolescência daqueles que nasceram nos primeiros anos da década de 1980. Por muito tempo, essa era uma opção certeira para a Rede Globo exibir na “Sessão da Tarde”. Essa comédia-ação, estrelada por Eddie Murphy em início de carreira e dirigida por Martin Brest , foi um sucesso tão retumbante que gerou mais duas sequências nos anos seguintes (1987 e 1993). O quarto e último episódio da série, "Um Tira da Pesada 4" (Beverly Hills Cop IV: 2006), com Eddie Murphy novamente interpretando seu personagem mais conhecido, será lançado nesse ano, devendo chegar aos cinemas brasileiros nos próximos meses. “Um Tira da Pesada” foi o responsável por lançar Eddie Murphy, que viera da televisão (era do elenco do programa Saturday Night Live), ao estrelato no cinema. Apesar de ter ganhado o Globo de Ouro como ator revelação dois anos antes com o filme “48 Horas” (48 hrs: 1982), foi no longa-metragem de Martin Brest que o comediante seria alçado ao posto de um dos principais atores de Hollywood durante os anos de 1980 e 1990. Brest como diretor também deixou sua marca no cinema contemporâneo. Apesar de ter dirigido apenas meia dúzia de produções, a maioria delas obteve grande êxito, seja de crítica ou de bilheteria. São dele, por exemplo, “Perfume de Mulher” (Scent of a Woman: 1992) e “Encontro Marcado” (Meet Joe Black: 1998). Em “Um Tira da Pesada”, conhecemos o policial Axel Foley (Eddie Murphy) da cidade de Detroit. Ele possui um comportamento não convencional para uma profissão um tanto conservadora. Isso traz muitos problemas a ele (e também para seus colegas e, principalmente, para seus superiores). Seu chefe está para demiti-lo quando um amigo antigo de Foley chega à cidade. Mikey Tandino (James Russo) conheceu o policial na adolescência, porém acabou enveredando para o lado do crime. Mesmo estando em lados opostos, os amigos mantiveram a amizade ao longo do tempo. Em seu retorno a Detroit, Mikey Tandino é assassinado misteriosamente. Vendo que a polícia local não estava muito preocupada em desvendar o crime, Axel Foley inicia uma investigação particular. O chefe o proíbe de se envolver neste caso, mesmo assim o polêmico policial parte para descobrir o que realmente aconteceu com o amigo. As primeiras pistas indicam que os assassinos viram de Beverly Hills, onde Mikey morava nos últimos anos. É em Los Angeles que a maior parte da história se desenrola. Investigando o assassinato do amigo, o policial Foley provoca uma série de confusões pela cidade. Chega um determinado momento em que todo mundo corre atrás dele, da polícia aos criminosos locais. Destaque para a dupla de policiais de Beverly Hills que é encarregada de vigiar o abusado forasteiro. Os detetives William 'Billy' Rosewood (Judge Reinhold) e John Taggart (John Ashton) vivem um caso de amor e ódio com o rapaz vindo de Detroit. Como os métodos de trabalho deles são completamente diferentes (os policiais de Beverly Hills respeitam as leis e as regras, enquanto o de Detroit não), isso gera vários episódios inusitados e hilários. O filme é ótimo. Ele tem vários elementos que o tornam cativante: trilha sonora sensacional, personagens divertidos, uma trama envolvente e muita ação (perseguições e tiros). Além disso, há cenas muitos engraçadas. Eddie Murphy tem o time certo das piadas e consegue criar um clima especial para as situações mais embaraçosas. Judge Reinhold e John Ashton são ótimos coadjuvantes, conseguindo deixar o filme ainda mais engraçado. Quem deseja conhecer um pouco mais os filmes de ação da década de 1980, essa é uma boa escolha. Sem recursos tecnológicos e sem efeitos especiais, a trama é toda ela construída com boas cenas e situações divertidas. O roteiro é excelente, mostrando a sagacidade de Daniel Petrie Junior, de "Uma Dupla Quase Perfeita" (Tumer & Hooch: 1989) e "Um Maluco no Exército" (In The Army Now: 1994). Gostei tanto de rever esse filme que estou até planejando assistir outra vez as suas continuações. Assim, estarei preparado para conferir "Um Tira da Pesada 4" quando estrear nos cinemas por aqui. Veja o Trailer de "Um Tira da Pesada": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #EddieMurphy #MartinBrest

  • Livros: A Noite da Espera – O início da trilogia O Lugar Mais Sombrio de Milton Hatoum

    Publicado em outubro de 2017, este romance do escritor manauara é o primeiro volume da série literária sobre o drama de um exilado político brasileiro que vive na França na década de 1970 . Em uma semana literalmente explosiva em Brasília (sete meses depois do querido Tio Paulo virar manchete nacional ao morrer sem concluir o tão sonhado empréstimo bancário em Bangu, agora foi a vez do amalucado Tio França ganhar os holofotes da mídia por brincar de foguetório de São João na porta do STF), li “A Noite da Espera”  ( Companhia das Letras ), o quarto romance  e a sétima publicação autoral de Milton Hatoum . O mais interessante é que este livro ficcional  abre a Trilogia “O Lugar Mais Sombrio” , o trabalho literário mais ambicioso do premiadíssimo escritor manauara. Além disso, esta obra de Hatoum aborda com rara felicidade a polarização política e os tempos obscuros de um país engolido pelo terrorismo de extrema-direita. Queiramos ou não, é o presente e o passado dialogando intimamente, seja pelas páginas da literatura, seja pelas páginas dos jornais. Confesso que “A Noite da Espera”   estava adormecido na minha estante há muito, muito tempo (tal qual um defunto na agência bancária ou o corpo carbonizado na Praça dos Três Poderes). Sempre que o pegava para ler, uma leitura inesperada exigia minha atenção imediata. Ou a rotina e a ambientação doméstica não me pareciam suficientemente tranquilas para um bom mergulho dramático. Não sei se os leitores do Bonas Histórias também sentem algo parecido, mas eu preciso estar 100% focado para aproveitar os melhores títulos da literatura brasileira . Ainda mais quando tenho a certeza de que eles renderão posts para a coluna Livros – Crítica Literária , como foi o caso aqui.   Essa é a justificativa (verdadeira, tá?) para a longa demora em degustar “A Noite da Espera” – desculpe-me o trocadilho involuntário; só o notei quando fiz a vacilante revisão textual. Sem o devido cuidado e sem a máxima concentração, adiava, adiava e adiava o encontro face a face com o volume 1 da série “O Lugar Mais Sombrio”. Para minha aflição (sim, sou do tipo que fica angustiado quando deixo bons títulos fechados na minha biblioteca), a procrastinação durou alguns anos... Até que na última quarta-feira, milagrosamente, vários planetas do Sistema Solar se enfileiraram em um raro ballet cósmico. Terminei o trabalho simultâneo de edição de dois romances (não me pergunte como isso é possível!) para a EV Publicações  pela manhã. E a casa estava assustadoramente calma depois do meio-dia. Como não tinha nada urgente para entregar, não queria fazer nenhuma atividade doméstica (mesmo com o lar imundo e a geladeira totalmente vazia) nem podia ganhar a rua (coisas de joelhos estragados pelas corridas com tênis errado), pensei com a alegria de um menino que está prestes a fazer arte: “poderia ler algo bom nessa agradável tarde de Primavera em Buenos Aires, né?”. Ao jogar o olhar (verde é verdade, mas míiiiiiiiiiope de 10 graus) em direção à prateleira de livros da sala do apê em Saavedra, enfim eu e o livro de Milton Hatoum nos demos match. Uhu! Se não dá para conquistar o coraçãozinho da futura médica natalense da UBA, ao menos me contento em ter em mãos um dos melhores romances da ficção brasileira . Quem ainda duvida dos poderes de meus dois olhinhos claros e ceguetas, hein? E lá fui eu (com os óculos no rosto, claro!) para a tão aguardada leitura deste que é um clássico da literatura contemporânea nacional . “A Noite da Espera” é um romance histórico  protagonizado por um exilado político que vive/viveu, no fim dos anos 1970, em Paris. Misturando dramas familiares  e caos político na virada da década de 1960 para a década de 1970, justamente o momento mais tenso da Ditadura Militar brasileira , Hatoum descortina os passos de Martim, o narrador-protagonista recém-saído da adolescência, e de seus jovens amigos universitários. Em uma Brasília sob os efeitos do AI-5 (Ato Institucional Número 5) e da forte repressão policial, a juventude contestadora não mede esforços para confrontar os militares, enquanto vivencia as descobertas sexuais, os prazeres das drogas, as primeiras responsabilidades da vida adulta e a beleza das diferentes representações artísticas. É bom dizer que o segundo volume de “O Lugar Mais Sombrio” se chama “Pontos de Fuga” (Companhia das Letras), cuja publicação aconteceu em novembro de 2019. Estranhamente, o público leitor ainda não recebeu a parte final desta coletânea. É isso mesmo o que você leu: o tão aguardado terceiro volume da trilogia ainda não foi lançado nas livrarias. Há exatamente cinco anos, o Mercado Editorial  espera frustrado o desfecho desta trama de Milton Hatoum. Confesso que não vi a sinalização do autor nem da Companhia das Letras  sobre quando o próximo livro da série será disponibilizado. Se algum(a) leitor(a) do Bonas Histórias  mais bem informado(a) souber o motivo da longa espera, por favor, compartilhe conosco a solução deste mistério na caixa de comentários lá embaixo. Admito que tenho muita curiosidade para entender o que está atrapalhando a chegada do novo livro às lojas. Quando publicou “A Noite da Espera” há sete anos, Milton Hatoum já era um dos principais escritores brasileiros. Nascido em 1952 em Manaus, o autor ficcional também é tradutor, professor de Literatura e colunista de jornal. O mais interessante é analisar o quão premiado é seu portfólio ficcional. Não à toa, ele é um dos literatos nacionais que mais admiro. O primeiro romance de Hatoum é “Relato de Um Certo Oriente” (Companhia de Bolso), de 1989. O livro conquistou o Prêmio Jabuti como Melhor Romance daquela temporada. Nada mal para uma obra de estreia, né? A segunda narrativa longa é “Dois Irmãos” (Companhia de Bolso), título mais impactante até hoje de Milton Hatoum. Lançado em 2000, esse livro foi adaptado para a televisão, para o teatro e para os quadrinhos, além de ter sido traduzido para uma dezena de idiomas. O terceiro romance é “Cinzas do Norte” (Companhia de Bolso), de 2005. Só para variar, essa obra conquistou uma série de honrarias: Jabuti, Livro do Ano, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Tá bom ou você quer mais?! Além dos romances multipremiados, Milton Hatoum também publicou “Cidade Ilhada” (Companhia das Letras), coletânea de contos de 2006, “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras), novela de 2008 (que alguns críticos literários enxergam como sendo um romance), “Um Solitário à Espreita” (Companhia de Bolso) coletânea de crônicas de 2013, e “A Natureza como Ficção” (Valer), o recente ensaio literário de 2024. Assim, quando o renomado escritor do Norte do Brasil se propôs, em 2017, a apresentar uma trilogia ficcional, o mercado editorial e os leitores nacionais ficaram empolgados. A expectativa era que Hatoum mostrasse uma faceta mais madura, mais completa e mais impactante de um trabalho literário já sublime. Afinal, estamos falando de um autor com quase meio milhão de exemplares vendidos no país e no exterior. Não dá para fazer uma lista com os 10 ou 20 principais escritores ficcionais do Brasil da atualidade (e quiçá da língua portuguesa) e não colocar o manauara no bololo. Inclusive, não será surpresa nenhuma se ele receber em breve um Prêmio Camões. Entendeu agora o porquê esperei o melhor momento para ler o primeiro volume de “O Lugar Mais Sombrio”?!    O enredo de “A Noite da Espera” começa em dezembro de 1977. Martim, o narrador-protagonista, vive em um pequeno apartamento em Paris. O rapaz de 26 anos dá aulas particulares de português para alunos franceses e toca música no metrô e em bares em troca de alguns trocados. Ele é um dos tantos exilados políticos brasileiros que precisaram fugir para a Europa. Do contrário, seriam presos, torturados ou mortos pela Ditadura Militar instalada em Brasília 13 anos antes. Mas por que Martim precisou deixar o país natal e se esconder no exterior, hein? É esse o primeiro mistério  do romance, que a própria personagem se propõe a elucidar para os curiosos leitores. O jovem professor e músico datilografa na máquina de escrever do apertado apê parisiense sua história. Lembranças, sonhos, traumas e a antiga rotina no Brasil vem à tona enquanto o texto autobiográfico é produzido.    Assim, retornamos dez anos no tempo. Em dezembro de 1967, Martim, então com 16 anos, vive no bairro do Paraíso, na cidade de São Paulo. Ele mora com a mãe (Lina, uma professora de francês muito carinhosa e mente aberta) e com o pai (Rodolfo, um engenheiro civil religioso, conservador e pouquíssimo emotivo). Contudo, a harmonia familiar (se é que podemos chamar a dinâmica daquela casa dessa maneira) é destruída com o pedido de separação da mãe de Martim. Lina se apaixona por um pintor do interior de São Paulo e comunica sem pestanejar a Rodolfo que viverá com o novo amor em um sítio em Campinas. O abandono da mulher destrói psicológica e emocionalmente o pai do protagonista. E, claro, abala por consequência toda a estrutura familiar. Inclusive, o relacionamento de Lina com seus pais (os avós de Martim) que vivem em Santos é seriamente afetado. Ninguém concorda com sua decisão de romper o matrimônio. Lembremos que estamos na segunda metade da década de 1960, uma época muito, muito machista e religiosa. O divórcio era visto como uma mácula imperdoável, principalmente quando solicitado pela mulher. Indignado com o que considera uma traição conjugal, Rodolfo se muda para Brasília com o único filho. Ele quer ficar o mais longe possível da ex-mulher. E leva o adolescente consigo mais como uma punição à mãe do rapaz do que por vontade ou afinidade com o garoto. Assim, Martim se vê de repente na capital do país, uma cidade nova e sem nenhum vínculo social. A correspondência com a mãe em Campinas, os telefonemas dos avós em Santos e as ligações e cartas de tio Dácio (irmão de Lina, que é fotógrafo em São Paulo) são as únicas interações mais afetivas que ele tem. Em casa, Rodolfo sequer se preocupa em ver e conversar com o filho. Os dois vivem cada um sua própria solidão e amargura.   Ao entrar para a faculdade de Arquitetura do Instituto de Artes e Arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), Martim faz amizade com uma trupe artística: Lélio (cujo apelido é Nortista), Dinah, Fabius, Lázaro, Angela, Vana etc. Os jovens se tornam inseparáveis. Eles integram a companhia de teatro de Damiano Acante e criam a Tribo, uma revista de literatura e artes. Os amigos de Martim (exceção a Nortista, um rapaz de origem humilde vindo de Manaus – daí o apelido) são de famílias ricas e ligadas ao poder de Brasília (congressistas, empresários, embaixadores, juízes etc.). Para se sustentar, o protagonista do livro consegue emprego na livraria Encontro, de Jorge Alegre, um empresário amante da cultura e com forte engajamento de esquerda. Dessa forma, o filho de Lina e Rodolfo adentra o universo adulto. Ou melhor dizendo, se insere no mundo da juventude dos anos 1970. Além de se iniciar no sexo com Dinah, sua meio-namorada (a moça parece não ser fiel a nenhum parceiro), e nas drogas com os colegas universitários, o rapaz atua em apresentações teatrais e escreve e traduz poemas para a revista do grupo. Isso enquanto trabalha na livraria de Jorge Alegre e estuda arquitetura. Contudo, o ambiente político do país começa a pesar. Com a decretação do AI-5 em dezembro de 1968, os militares que se apoderaram do poder passam a perseguir os opositores e a censurar as vozes dissidentes. Qualquer movimento artístico e social é visto como intriga dos subversivos e ação dos terroristas à pátria. Com medo de ser preso, Martim tem uma relação conflituosa com os amigos. Ao mesmo tempo em que não quer perdê-los, teme se envolver em excesso com as causas de esquerda. Além disso, o que o jovem universitário mais anseia é retomar a comunicação com a mãe, que misteriosamente parou de escrever cartas e jamais o visitou no Distrito Federal. Afinal, quais os motivos do distanciamento de Lina? A partir daí, o romance caminha em duas linhas temporais distintas: Martim vivendo na França (espécie de presente ficcional) e Martim relembrando sua vida em Brasília (passado ficcional). No primeiro caso, a trama do livro vai da virada de 1977 para 1978 até o inverno parisiense de 1979. Ou seja, a história caminha em torno de dois anos. E no segundo enfoque, ela vai da virada de 1967 para 1968 até dezembro de 1972. Portanto, o caminhar dessa parte é um pouco mais longo: cinco anos. “A Noite da Espera” é um romance de tamanho mediano – à título de curiosidade, “Pontos de Fuga”, o segundo título de “O Lugar Mais Sombrio”, é 50% mais volumoso. Essa abertura da trilogia de Milton Hatoum tem 216 páginas, que estão divididas em 26 capítulos. Deles, 25 são numerados e um atua como introdução ou preâmbulo. Levei aproximadamente quatro horas e meia para percorrer integralmente o conteúdo desta obra. Para tal, recorri a duas sessões de leitura de pouco mais de duas horas cada na quarta-feira passada. O intervalo entre as seções também teve mais ou menos essa duração. Assim, comecei o livro às 14 horas e às 21h já o tinha finalizado. Afinal, o que achei de “A Noite da Espera”, hein? Para começo de conversa (um começo de conversa que já está entrando na quinta lauda – coisa da coluna Livros – Crítica Literária ), confesso que fiquei ligeiramente frustrado. Que Hatoum me desculpe pela franqueza excessiva (característica necessária para quem faz análise ficcional séria e independente), mas acho que criei uma expectativa muito grande em relação a esta obra. Quando isso acontece, geralmente as chances de decepção crescem bastante (beijo, Caro). Pelo menos comigo é batata. Então quer dizer que se trata de um romance ruim? Não! Não foi isso o que escrevi. Favor reler minhas últimas frases se você chegou a tal conclusão, querido(a) leitor(a) do Bonas Histórias . “A Noite da Espera” é uma publicação interessante, forte e sensível. E, claro, tensa e dramática. Só não acho que seja melhor que, por exemplo, “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, estes sim títulos espetaculares que deixam os leitores embasbacados. Note que a comparação foi feita propositada e elegantemente dentro do portfólio literário de Milton Hatoum – que apresenta um nível altíssimo de excelência. É verdade também que minha opinião tem como viés o fato de eu não ter concluído a série. Dessa maneira, meu comentário é referente apenas a experiência de leitura de “A Noite da Espera” e não considera a segunda e a terceira partes da trilogia “O Lugar Mais Sombrio” – nem sequer li “Pontos de Fuga”.   Decepção à parte, vamos combinar que este romance de Hatoum tem vários elementos narrativos positivos. Começamos pela metalinguagem ficcional. Martim, o narrador fictício, utiliza seu passado para construir um livro. Temos, portanto, uma obra literária dentro de outra obra. O mais legal é sentir que o autor real (Milton Hatoum) flerta o tempo inteiro com a autobiografia. Ainda assim, não dá para sabermos o que é verdade (passado do escritor) e o que é ficção (passado de sua personagem). Por exemplo, durante boa parte da leitura, achei que Martim fosse o alter ego do romancista. Às vezes, tive a impressão de que Lélio (o Nortista) tinha alguns elementos do autor real. Como um fã da Teoria Literária , confesso que adoro ser desafiado a tentar enxergar as várias camadas da Realidade Ficcional .     Outro elemento marcante de “A Noite da Espera” é que a trama acontece em vários espaços narrativos . O romance começa em Paris (Introdução/Preâmbulo). Depois, segue para São Paulo (Capítulo 1) e, enfim, chega à Brasília (Capítulo 2). Mesmo permanecendo quase sempre no Distrito Federal, a história passeia por Santos (Capítulo 3), Campinas (Capítulo 8), Goiânia (Capítulo 12), Ouro Preto (Capítulo 14) e Taguatinga (Capítulo 15). E, claro, vai e volta para a França, onde Martim está no presente ficcional. Quem gosta de um road story , é um prato cheio! Outra curiosidade desta obra é o tipo de narrador . Por mais que tenhamos um relato em primeira pessoa feito pelo protagonista, a sensação que tive durante a leitura era que estava diante de um romance com múltiplas vozes. Como Milton Hatoum conseguiu esse efeito estilístico? Em primeiro lugar, temos várias cartas sendo apresentadas nos capítulos. Como consequência, não é apenas Martim que fala diretamente para os leitores. Além disso, “A Noite da Espera” é um romance com muitos (e ponha muitos aí!) diálogos . Poderia descrevê-lo até mesmo como um livro com mais conversas do que ações ou descrições. Assim, a impressão é de estarmos diante de uma polifonia e não de um monólogo. Por falar no discurso , Milton Hatoum utiliza-se das aspas para apresentar as conversas de suas personagens. Isso se dá neste livro e nos outros romances do autor. Confesso que acho um tanto estranho esse recurso, mais comum na literatura norte-americana do que na literatura europeia e sul-americana (que preferem recorrer ao bom e velho travessão). Gostos à parte, não há nenhum problema em usar essa ou aquela sinalização de diálogo (há até quem não use nenhuma). Trata-se do estilo narrativo do romancista que precisamos respeitar e ponto final. Ainda assim, como estamos em uma análise literária que se propõe a esmiuçar os elementos da narrativa ficcional , destaco que não é tão comum de se encontrar na literatura brasileira as aspas. O que eu gostei bastante neste livro foi a mistura cronológica. O romance caminha em duas linhas temporais separadas por um hiato de uma década: a linha macro parte de dezembro de 1977/janeiro de 1978 e a linha 2 começa em dezembro de 1967/janeiro de 1968. O mistério é entender o que levou o jovem Martim, que foi viver com pai em Brasília, acabar exilado na Europa dez anos mais tarde. Para o leitor não correr o risco de se perder no meio do quebra-cabeça temporal, a abertura dos capítulos e das seções dentro dos capítulos informam previamente onde a trama acontece e quando o relato se sucede. No meio do parágrafo anterior, citei que o mistério de “A Noite da Espera” é o que o narrador-protagonista fez para precisar fugir do país – questionamento que liga as duas linhas cronológicas do enredo. Como o livro se passa no período mais violento da Ditadura Militar brasileira e conhecemos o círculo de amizade de Martim, não nos parece tão difícil assim fazer elucubrações. Agora se Milton Hatoum irá caminhar para a obviedade ou se irá nos surpreender lá na frente, não sei. Admito que minha intuição diz que será a segunda hipótese – não acredito que o exílio tenha motivos apenas políticos e que esteja relacionado com os colegas universitários de esquerda!   Por falar nisso, apontar tal suspense como o único mote do romance é uma meia-verdade. Outra curiosidade que mexe com o público leitor é entender os motivos que levaram a mãe de Martim a abandonar a comunicação e o convívio com o filho único. Não faz sentido Lina, uma mulher carinhosa e próxima à família, virar as costas para seu rebento. Por mais que criamos teorias para justificar esse fato (algumas até bem evidentes), ainda assim o livro mantém o mistério da verdadeira razão do abandono materno. Outra vez repito: Hatoum não é um autor que caia no senso comum. Minha vontade é ler “Pontos de Fuga” o quanto antes para entender quais as surpresas que essa história nos reserva. Já que estamos falando de mistério e suspense, preciso comentar o ritmo narrativo e o clima de tensão que permeia “A Noite da Espera”. Por um lado, a ação da trama é muito lenta. A sensação é que não acontece nada ou quase nada ao longo de vários e vários capítulos. Os leitores mais ansiosos certamente vão reclamar que as personagens ficam num trelelé danado e que nada de bom (ou ruim) se sucede. E quando acontece algo aparentemente impactante (prisão de Martim ao remar no Lago Paranoá, cerco da polícia aos integrantes da Tribo etc.), o desfecho não é tão trágico ou significativo como prevíamos. Se tivesse um termômetro para medir o clima dessa história, diria que ela dificilmente fica morna. Nesse sentido, este livro de Milton Hatoum me lembrou bastante “Gentlemen” (Record), o romance noir  que consagrou o Klas Östergren (que também demorou uma eternidade para publicar a sequência de sua trama mais ambiciosa). Apesar de não acontecer nada de mais nessas duas histórias (acompanhamos a rotina besta de adolescentes/jovens bestas), ainda assim não conseguimos desgrudar os olhos das páginas. Tanto o autor sueco quanto o autor brasileiro são mestres em tornar o cotidiano sem graça e pueril em algo significativo e sedutor. Porém, o elemento que dá liga a “A Noite da Espera” é a tensão dramática. Seguimos a leitura porque desconfiamos que algo de muito ruim irá acontecer em breve com o protagonista. A certeza disso é o destino de Martim em Paris. Entretanto, não sabemos o que se passou com ele em Brasília (e com sua mãe em Campinas). O clima de pânico social, desmandos políticos, violência estatal, injustiça social, caos matrimonial e angústia familiar é o que transforma a ambientação  do livro em uma narrativa pesada e asfixiante. O clima é de um legítimo romance de terror .  Aí surge algumas reflexões sagazes em minha nada tranquila mente. Em primeiro lugar, ouço muita gente falar que o Brasil atual vive um momento de grande polarização política e de tensão institucional (abraço, Tio França, e galerinha do Rio do Sul!). Só fala isso quem não conhece a nossa história e não sabe o que foi realmente o auge da Guerra Fria e a fase mais quente da Ditadura Militar Brasileira. Perto daquela época, muito bem retratada por Milton Hatoum em sua trama ficcional, os tempos contemporâneos parecem calmos e românticos (mesmo com uma ou outra ação terrorista no Distrito Federal). Outra questão que preciso comentar é que muitas pessoas têm a mania de florear os anos 1960 e 1970 como se eles não tivessem sido tensos e extremamente violentos. Minha impressão é que o clima bélico estava o tempo inteiro no ar. Sei da visão negacionista de parte da sociedade brasileira porque fiz, há alguns anos, um post sobre “O Casamento” (Nova Fronteira), único romance de Nelson Rodrigues, para a coluna Livros – Crítica Literária . E, para minha surpresa, alguns leitores do Bonas Histórias  afirmaram que o período da Ditadura Militar foi alegre, harmônico e sossegado (beijo, Regina Duarte!). Quem não acredita em mim, vá lá e veja com seus próprios olhinhos os comentários no final da análise. É assustador. Eu e Nelsão fomos acusados até mesmo de esquerdistas por denunciar o período de grande efervescência do país. Por isso, gostei do retrato panorâmico que Milton Hatoum deu para “A Noite da Espera”. Apesar de Martim vivenciar o período de descobertas, amores e aventuras artísticas (a juventude é geralmente a melhor fase da vida), algo que mexe com a imaginação e os sentimentos de qualquer um, não dá para dizer que o Brasil daqueles anos era uma maravilha nem um mar de tranquilidade. Se alguém pensa/pensava de maneira romântica ou idealizada, é porque está/estava brigando com a realidade. Aí não é uma questão de ideologia política ou preferência partidária. É uma mera constatação de um período em que dois lados antagônicos disputavam o poder de um jeito brutal e inconsequente. Note que usei o termo “dois lados” na minha última frase. Voltando para a narrativa propriamente dita, uma das sacadas geniais de Milton Hatoum em “A Noite da Espera” foi equiparar o ambiente externo (do país) ao ambiente interno (do lar do protagonista do romance). O clima na família de Martim é idêntico ao do Brasil ditatorial. A separação de Lina e Rodolfo é daquele tipo que causa grandes abalos sísmicos e provoca ações e reações intempestivas de todos os lados. O engenheiro civil representa o conservadorismo, a religiosidade e a falta de diálogo da direita. Por sua vez, a professora de francês encara o espírito progressiva, hedonista e inconsequente da esquerda. No meio do caminho tinha um filho. Tinha um filho no meio do caminho. Tal qual milhões de brasileiros inocentes, o pobre Martim se sente oprimido, solitário e abandonado pela família em meio às brigas políticas da nação e do mundo. Encarar a trama do romance pela perspectiva do subtexto potencializa a leitura. Por fim, destaco a forte intertextualidade artístico-cultural. As personagens estão sempre debatendo literatura, teatro, cinema, música e artes plásticas. O romance de Milton Hatoum se transforma quase que em um guia cultural da época retratada. É bom que se diga que as figuras ficcionais não apenas discutem como se propõe a produzir arte. Aí é um tal de peça de teatro para cá e uma tradução de poesia para lá. Dale gravação de documentário e lançamento de revista literária. E sempre há espaço para um mergulho na comercialização de livros e na busca pelo mecenato artístico. Impossível não achar incrível uma obra ficcional com tal qualidade, né? Porém, repare que é preciso sensibilidade e um olhar atento para entender as nuances da criação literária e a riqueza da composição narrativa. Certamente as almas mais afoitas e a galerinha com os paladares menos refinados para a produção artística sentirão falta de ação e adrenalina. Até pode ser. Mas não dá para falarmos que o livro é ruim ou mesmo que está abaixo da média do que encontramos nas estantes das livrarias nacionais. A literatura de Milton Hatoum é, mesmo que não surpreenda logo de cara, impecável. Reafirmo: ainda acho que os maiores e imprevisíveis lances da trama de “O Lugar Mais Sombrio” estão reservados para a segunda e terceira partes. No caso, “A Noite da Espera” é somente a peça introdutória. Se encarada como a apresentação da saga de Martim e de seus amigos, o resultado é brilhante. Contudo, se visto como uma publicação isolada (algo que nunca foi o seu propósito, vamos combinar, né?!), aí temos algumas reticências. Talvez o único elemento que senti algum desconforto mais significativo foi com o desfecho do romance. Porém, aí é outra vez um gosto pessoal meu. Não aprecio séries literárias que não tenham desenlaces conclusivos a cada obra. Mesmo sabendo que a história prossegue, gosto de ser impactado por um fechamento, mesmo que aberto. Como exemplos deste expediente narrativo, posso citar as séries “A Contrapartida” (Valentina), de Uranio Bonoldi, “O Bom Ditador” (Publicação independente), de Gonçalo J. Nunes Dias, e “As Aventuras do Inspetor Espinosa” (Companhia das Letras) de Luiz Alfredo Garcia-Roza, para ficarmos dentro da literatura contemporânea em língua portuguesa . Afinal, não quero o compromisso de ter que seguir com a coletânea de livros para chegar a um entendimento mesmo que parcial. Para não choverem pedras (ou fogos de artifício e bombas) sob minha frágil e inquieta cachola, destaco que essa observação está longe de ser uma verdade da Teoria Literária  ou um pré-requisito do Mercado Editorial . Há coleções de romances incrivelmente bons que usam a interrupção brusca como mola propulsora da leitura. De cabeça (ainda no lugar), me recordo de “A Tetralogia Napolitana” (Biblioteca Azul), de Elena Ferrante , “Millenium” (Companhia das Letras), de Stieg Larsson, e “A Bicicleta Azul” (BestBolso), de Régine Deforges . Nesses casos, usei como referência o melhor da literatura internacional. Infelizmente, não sei quando (ou se) vou ler “Pontos de Fuga”. Porém se eu prosseguir com a Trilogia “O Lugar Mais Sombrio”, saibam que vou compartilhar minhas impressões na coluna Livros – Crítica Literária . Ao mesmo tempo em que fiquei curioso para conhecer os próximos passos da misteriosa trama de Milton Hatoum, sei que as imposições de outras leituras podem atrapalhar meus planos. Além do mais, o apê de Saavedra está para receber nas próximas semanas uma enxurrada de visitantes do Brasil, o que abalará consideravelmente a pacífica rotina desse que vos escreve. Para ser bem franco com os leitores do Bonas Histórias , talvez espere o autor manauara lançar a última parte de sua coleção mais ambiciosa para aí sim me aventurar pelas próximas páginas. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Músicas: Detalhes - O cinquentenário do maior sucesso de Roberto Carlos

    Gravada em 1971, essa canção marcou a transição da carreira do Rei de um cantor juvenil e rebelde para um artista maduro e romântico. O ano de 1971 foi mágico para a música popular brasileira . Acho que já falei sobre isso aqui na coluna Músicas . Naquele ano, foram gravadas quatro obras-primas: “Construção” , de Chico Buarque, “Senhor Cidadão”, de Tom Zé, “Valsinha”, de Vinicius de Morais e Chico Buarque, e “Detalhes” , de Roberto Carlos e Erasmo Carlos . Esse quarteto musical figura em qualquer boa listagem das principais canções do Brasil no século XX. E olha que essa não é uma opinião minha, mas um apontamento dos principais críticos musicais do país – pode conferir! E nesse grupo de músicas cinquentenárias há duas das minhas canções favoritas – aí sim entra a minha opinião e meu gosto pessoal. Estou me referindo a “Construção” e a “Detalhes”. Acho essas composições simplesmente fantásticas. Como já tratei, aqui no Bonas Histórias , da primeira (em um post de julho desse ano), hoje quero analisar em detalhes (desculpe-me o trocadilho, foi mais forte do que eu) a segunda. “Detalhes” não é apenas a minha música favorita do Rei. Segundo o próprio Roberto, essa canção é a sua predileta, ao lado de “Eu Te Amo Tanto” (aquela de: Eu não me acostumo sem seus beijos/E não sei viver sem seus abraços/Aprendi que pouco tempo é muito/Se estou longe dos seus braços/E por isso eu te procuro tanto/E te telefono a toda hora/Para dizer mais uma vez te amo/Como estou dizendo agora ). Gosto tanto de “Detalhes” que confesso assistir aos shows de final de ano do cantor na Rede Globo só para ouvi-la mais uma vez. E quando essa canção não é colocada no repertório do programa (sim, há edições em que isso acontece!!!), fico indignado na frente da televisão gritando: “Eita, showzinho ruim o desse ano, meu Deus! O cara tem a coragem de cantar ´Jesus Cristo’ e não canta ´Detalhes´. Onde já se viu um sacrilégio como esse?!!!”. Lançada em dezembro de 1971, “Detalhes” é a faixa principal do décimo primeiro álbum do cantor capixaba. Esse LP tinha outras músicas marcantes de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que são conhecidas do grande público até hoje. Ou por um acaso você não se lembra de “Todos Estão Surdos” (mistura de ode religiosa com crítica político-social), “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” (feita em homenagem ao regresso de Caetano Veloso do exílio) e “Amada Amante” (canção traduzida para vários idiomas e regravada por vários artistas nacionais), hein? A dupla Roberto-Erasmo também produziu outras três faixas desse disco: “Traumas”, “I Love You” e “De Tanto Amor”. As demais músicas são de outros compositores: “Como Dois e Dois” (de Caetano Veloso), “A Namorada” (de Maurício Duboc e Carlos Colla), “Você não Sabe o que Vai Perder” (Renato Barros), “Eu Só Tenho Um Caminho” (de Getúlio Côrtes) e “Se Eu Partir” (de Fred Jorge). “Detalhes”, de uma beleza musical ímpar, ajudou a catapultar as vendas desse disco de Roberto Carlos. Para termos uma ideia do sucesso estrondoso desse LP, ele vendeu mais de 800 mil cópias entre o final do ano de 1971 e o começo de 1972. Até então, a maior vendagem de um álbum de Roberto tinha sido o de 1968, com 500 mil unidades comercializadas. Por muito tempo, o disco de 1971 figurou como o maior sucesso do Rei e um dos mais bem-sucedidos da indústria fonográfica nacional. A partir desse momento, Roberto Carlos se tornava um cantor extremamente popular. Não por acaso, ele é ainda hoje o artista número 1 em vendas – marca impressionante de mais de 140 milhões de cópias vendidas (o pódio é completado por Nelson Gonçalves, com 75 milhões, e Ângela Maria, com 60 milhões de discos comercializados). É legal notar que “Detalhes” marcou uma mudança significativa na carreira artística de Roberto Carlos. Até o final dos anos 1960, suas músicas eram inspiradas no rock and roll norte-americano e inglês (alguém aí pensou nos Beatles?!). As canções dessa época falavam prioritariamente das desventuras sentimentais (principalmente os primeiros amores, as baladinhas, a azaração) e da rebeldia tipicamente juvenil (a paixão masculina pelos carros velozes e a mania de usar cabelos compridos, beber e fumar). Para dar ares mais tropicais a esse gênero musical (que não passava de uma cópia às vezes velada e às vezes explícita do rock), o estilo musical de Roberto e de seus colegas foi chamado de Jovem Guarda (muito em função do nome do programa exibido pela Rede Record a partir de 1965). De 1963, quando lançou seu segundo álbum, “Splish Splash” (cuja faixa homônima dizia: Splish Splash fez o beijo que eu dei/nela dentro do cinema/todo mundo olhou me condenando/só porque eu estava amando ), até 1970, ano do seu décimo LP (que tinha entre suas faixas “120... 150... 200 km por hora”: Eu vou voando pela vida sem querer chegar/Nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar/Vivo, fugindo, sem destino algum/Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum ), Roberto Carlos era o principal nome da Jovem Guarda. Quer um bom exemplo de uma música da fase inicial da carreira do Rei? Então ouça “Nas Curvas da Estrada de Santos” , uma das últimas composições com pegada mais jovem-guardista. A partir de 1971, o cantor, então com 30 anos de idade, mudou seu estilo, se distanciando do gênero que o consagrara. Daí para frente, surgia o Roberto romântico, o Roberto mais maduro, o Roberto mais religioso, o Roberto marido, o Roberto pai, o Roberto família. A rebeldia juvenil e a passionalidade adolescente tinham ficado definitivamente para trás. Era o fim da Jovem Guarda, que sem sua principal figura não demoraria para declinar e sumir das rádios. Como consequência dessa mudança autoral-musical, Roberto Carlos conquistou um novo público, maior e mais diversificado. É verdade que a moçadinha que cresceu ouvindo as canções da Jovem Guarda acompanhou o amadurecimento do ídolo. O interessante é perceber que, a partir dos anos 1970 (e “Detalhes” exemplifica muito bem esse processo), Roberto passou a ser ouvido e admirado também pelo público mais velho (que até então torcia o nariz para o cabeludo que gritava iê-iê-iê ao microfone). Com músicas menos barulhentas (foi se embora definitivamente o rock) e com letras mais maduras, o cantor conquistou o coração da faixa etária que ainda não o escutava com o devido respeito. E, assim, surgiu o músico mais popular da história do país – com números imbatíveis até hoje. “Detalhes” é uma balada romântica de melodia simples, mas bonita e extremamente marcante. O arranjo da parte inicial da música (um de seus charmes – sempre me emociono ao ouvi-lo) foi feito por Jimmy Wisner , maestro norte-americano que trabalhou com Roberto e Erasmo em outras canções desse álbum (“Amada Amante”, por exemplo, contou com a contribuição de Wisner). Do ponto de vista melódico, “Detalhes” flerta com as músicas românticas das décadas de 1940 e 1950. Até a metade do século XX, as canções davam normalmente destaque para as interpretações dramáticas (diferentemente do que acontecia com a Jovem Guarda na década de 1960 que dava maior ênfase aos instrumentos musicais e aos refrões muitas vezes onomatopeicos). Não por acaso, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Dolores Duran, Cauby Peixoto, Silvio Caldas e Orlando Silva, para ficarmos em apenas seis figurões daquele período, tinham vozeirões capazes de quebrar o vidro das janelas das casas. Para entender o que estou dizendo, basta ouvir “Chão de Estrelas” e “Lábios que Beijei” para saber como eram as músicas românticas do período pré-Rock (ou pré-Jovem Guarda, se preferir). Contudo, Roberto Carlos nunca teve/tem uma voz tão poderosa. Aí está o grande pulo do gato de “Detalhes”. Mesmo com uma entonação e um timbre mais baixos do que os dos cantores da época de Ouro da Rádio, Roberto conseguiu, assim, ressaltar a letra dessa canção, seu verdadeiro ponto forte. O que temos no final das contas é o predomínio dos versos em relação à melodia. A força musical de “Detalhes” está na letra carregada de sentimentalismo e nos versos que expõem a desilusão amorosa. Não à toa, essas características se tornariam dali para frente uma das marcas principais das composições de Roberto Carlos (e de Erasmo Carlos). O eu-lírico da canção (construída essencialmente em quartetos e com rimas A, A, B, B – com exceção do primeiro quarteto que é A, B, A, B) é um homem que imagina como é o dia a dia da mulher que amou. O problema é que esse amor ficou no passado (juventude) e os dois seguiram a vida por caminhos distintos (agora na maturidade). Acreditando que ela jamais o esqueceu, ele canta o quanto os detalhes de sua personalidade e de seus hábitos (daí o título da composição!) fazem a ex-companheira lembrar dele a cada instante. Curiosamente, a impressão que temos ao ouvir “Detalhes” é oposto do que seus versos dizem. Por mais que o eu-lírico afirme por A mais B que a sua amada na juventude não o esqueceu, a sensação é que é ele quem não superou o amor do passado. Afinal, a obsessão dele em querer que ela se lembre dos seus detalhes só mostra o quanto o rapaz não superou o término daquela relação. Sinceramente, não sei se Roberto Carlos e Erasmo Carlos fizeram isso de propósito (até acho que sim). De qualquer maneira, essa inversão de valores (quem é loucamente apaixonado até hoje é ele e não ela) é magnífica. Outra questão interessante dessa canção é como Roberto Carlos olha para o seu passado (na verdade, para o passado do eu-lírico). Impossível não lembrarmos das músicas da Jovem Guarda quando ouvimos versos como “ Se um outro cabeludo aparecer na sua rua ” e “ O ronco barulhento do seu carro, a velha calça desbotada ou coisa assim ”. Isso é bem a cara das décadas de 1960, 1970, né? Ou seja, a transição para um novo estilo musical do cantor capixaba é citada (indiretamente) na letra da canção. Essa metalinguagem musical e essa intertextualidade autoral de “Detalhes” tornam sua letra ainda mais rica. Essa é a prova cabal que essa composição tem detalhes incríveis (eu e meus trocadilhos insanos – desculpe-me mais uma vez!). Veja, a seguir, a letra de “Detalhes” e a interpretação original de Roberto Carlos, conforme gravada no álbum de 1971: Detalhes (1971) – Roberto Carlos e Erasmo Carlos Não adianta nem tentar me esquecer Durante muito tempo em sua vida, eu vou viver Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes para esquecer E a toda hora vão estar presentes, você vai ver Se um outro cabeludo aparecer na sua rua E isto lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua O ronco barulhento do seu carro, a velha calça desbotada ou coisa assim Imediatamente você vai lembrar de mim Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido Palavras de amor como eu falei, mas eu duvido Duvido que ele tenha tanto amor e até os erros do meu português ruim E nessa hora você vai lembrar de mim A noite envolvida no silêncio do seu quarto Antes de dormir você procura o meu retrato Mas na moldura não sou eu quem lhe sorri, mas você vê o meu sorriso mesmo assim E tudo isto vai fazer você lembrar de mim Se alguém tocar seu corpo como eu, não diga nada Não vá dizer meu nome, sem querer, à pessoa errada Pensando ter amor nesse momento, desesperada você tenta até o fim Mas até nesse momento, você vai lembrar de mim Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada Do tempo que transforma todo amor em quase nada Mas quase também é mais um detalhe, um grande amor não vai morrer assim Por isso é que de vez em quando você vai, vai lembrar de mim Não adianta nem tentar me esquecer Durante muito muito tempo em sua vida, eu vou viver Não adianta nem tentar me esquecer Seria essa canção uma passagem autobiográfica de Roberto Carlos?! Muito provavelmente. O músico capixaba criava suas músicas a partir do que vivia/vivenciava de fato. Assim, possivelmente os versos de “Detalhes” tenham uma forte relação com a história do artista. Então, quem seria essa mulher que teria mexido demais com o coraçãozinho do Rei? Há várias lendas sobre a identidade da moça. Há quem diga que ela seria Magda Fonseca, o primeiro grande amor de Roberto. A jovem teria desmanchado o namoro quando se mudou com a família para os Estados Unidos. E há quem aponte Sílvia Amélia, uma socialite carioca, como a personalidade real por trás da personagem de “Detalhes”. Nesse caso, Roberto teria disputado (e perdido) o coração dela com o jornalista Tarso de Castro. Evidentemente, Roberto Carlos nega essas duas versões – se pensarmos bem, ele negou/nega sua biografia inteira, como pode atestar Paulo César de Araújo. O que é notório e inegável é a beleza musical (tanto da melodia quanto da letra) de “Detalhes”. Essa canção foi relançada várias vezes por Roberto e é presença obrigatória em qualquer coleção com suas principais composições (ouviram o final dessa frase, produtores do show do final de ano da Globo?!!!). Outros músicos famosos também gravaram essa faixa aqui no Brasil. De cabeça, posso citar Maria Bethânia , Ivete Sangalo , Bruno & Marrone e Gal Costa . Porém, não dá para ouvir essa música em outras vozes e não comparar com a interpretação de Roberto Carlos (talvez, por isso, muita gente por aqui não tenha se arriscado em regravá-la). Esse problema, evidentemente, não ocorre no exterior, onde “Detalhes” foi traduzido para o inglês e para o espanhol com enorme êxito. Lembro que quando morei na Argentina, coisa de quinze anos atrás, certa vez ouvi uma versão em espanhol dessa música tocando na rádio. “Detalhes” era cantada por um artista local que eu não soube identificar. Vale a pena dizer que essa não foi a única vez que ouvi uma canção do Rei sendo cantada em espanhol nas rádios de Buenos Aires. Isso aconteceu em um punhado de ocasiões (às vezes pelo próprio músico capixaba, às vezes por intérpretes argentinos). Em Portugal, que eu saiba, essa canção foi gravada por Raquel Tavares , uma das principais fadistas da nova geração. Para ser preciso no meu comentário, Raquel gravou, em 2007, não apenas “Detalhes”, mas um álbum inteiro com músicas de Roberto. No mês que vem, “Detalhes” completa oficialmente 50 anos de vida. Essa efeméride é motivo de muita celebração e alegria para quem gosta da boa música brasileira. Parabéns, Roberto. Parabéns, Erasmo. Parabéns, Jimmy. “Detalhes” é realmente uma obra-prima. E, por causa dessa canção, já marquei na minha agenda a data do show de final de ano do Rei na Rede Globo. Em 2021, o programa será exibido no dia 23. Em 2020, não tivemos o tradicional show de Roberto Carlos. O motivo é óbvio: a pandemia do novo coronavírus. Foi a segunda vez que o evento, criado em 1974, foi adiado. A primeira vez tinha sido em 1999, quando Maria Rita, a esposa do cantor naquela época, faleceu. Aguardemos o novo show! E esperemos que não tirem “Detalhes” do cardápio, por favor! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Músicas: Si Antes Te Hubiera Conocido - O grande sucesso de Karol G

    Cantora e compositora colombiana de 33 anos chega ao auge artístico com merengue contagiante que se tornou hit internacional no segundo semestre de 2024. Essa canção tomou conta da América Latina e rapidamente chegou aos Estados Unidos e à Europa. Conheça a febre do último Verão no hemisfério norte . Vamos começar este novo post da coluna Músicas  brincando de “Quem é?”. Quem é a cantora colombiana mais ouvida atualmente no mundo, hein?! Aí vão algumas dicas. Ela é linda, simpática, inteligente e extremamente carismática. Começou a cantar ainda na adolescência e passou por vários perrengues até se consolidar como uma estrela global. Se tornou símbolo sexual do pop hispano-americano  e é uma compositora que enaltece o empoderamento feminino. Mistura vários gêneros musicais, alguns pouco comerciais, e é capaz de emplacar um hit internacional atrás do outro, mesmo cantando em espanhol. E, antes que me esqueça, viveu há alguns anos uma ruidosa separação matrimonial, que a abalou bastante. Inclusive, um de seus sucessos recentes parece ser uma crítica nada velada às puladas de cerca do ex. Já descobriu de quem é a figura em questão, senhoras e senhores?! Que rufam os tambores... Se você ignorou o título e o subtítulo desta matéria do Bonas Histórias  (quem nunca?!) e/ou insiste em responder à minha charada com velhos parâmetros (essa foi uma indireta para você, Marita, a maior fã de Shakira que conheço em terras brasilis!), saiba que o mundo da música latina  gira tão veloz quanto o coração dos desalmados ex-zagueiros do Barcelona. A fila da música colombiana  caminhou tanto que a capital do pop sul-americano se deslocou de Barranquilla para Medellín – nesse sentido, Bogotá segue sendo uma cidade interiorana e periférica. Como descobriu Elisabeth Sparkle, a personagem de Demi Moore no imperdível filme “A Substância” ( The Substance : 2024), o reino do show business mundial é pródigo (ou deveria dizer cruel?) em promover mudanças de cetro. Como não sou de guardar segredo, anuncio que a personagem do desafio do “Quem é?” de hoje é Karol G , a cantora e compositora de reggaeton nascida em 1991, em Medellín. Ela se tornou a dona do principal hit do Verão europeu e norte-americano em 2024 . Talvez o público brasileiro não saiba (por causa dessa mania de não se atentar para o que acontece na parte hispânica do continente ou porque o Verão no hemisfério sul ainda não começou oficialmente), mas a música  do momento na América Latina e no mundo é “Si Antes Te Hubiera Conocido” . Nesse merengue  contagiante cantado em espanhol, acompanhamos a desilusão amorosa de uma jovem apaixonada pelo melhor amigo. Se a temática do recente sucesso não é nem um pouco original, ao menos precisamos reconhecer que a canção é divertida, gostosa e, claro, grudenta aos ouvidos da massa. Ou seja, depois de hits improváveis como o pop latino “Mambo Number 5”, do alemão Lou Bega, o sertanejo “Ai, Se Eu Te Pego”, do brasileiríssimo Michel Teló, do rap eletrônico “Gangnam Style”, do sul-coreano Psy, do reggaeton “Despacito”, do porto-riquenho Luis Fonsi, do raï “El Arbi”, do argelino Cheb Khaled, do pop latino “Macarena”, da dupla espanhola Los Del Rio, e do kuduro “Danza Kuduro”, do porto-riquenho Don Omar, chegou a vez do planeta se render às batidas constantes e ao drama sentimental do merengão de Karol G.     Não é exagero da minha parte dizer que, nos últimos dois meses, tenho ouvido diariamente “Si Antes Te Hubiera Conocido”. Teria eu virado fã da jovem colombiana? Acho que não... Kevin Johansen , No Te Va a Gustar (ainda vou falar na coluna Músicas  sobre a banda uruguaia que completa 30 anos em 2024) e Manu Chao continuam liderando as preferências na minha playlist castellana . A questão é que a música de Karol virou onipresente em Mi Buenos Aires Querido, cidade que insisto em viver apesar do câmbio cada vez mais desfavorável. E olha que os argentinos se dividem basicamente entre os apreciadores do bom e velho Rock e os adoradores da animada e popularesca Cumbia. Mesmo assim, este merengue está em todos os lugares das margens mais caóticas do Rio da Prata. No som ambiente dos supermercados em Núñez, nas caixas de som dos frequentadores mais ruidosos dos parques da Zona Norte, nas rádios dos Ubers portenhos, na trilha sonora do café em frente a minha casa e no Spotify da vizinha gatinha do andar de baixo, “Si Antes Te Hubiera Conocido” toca de manhã à noite. Impossível não ser captado por seus versos e por seu ritmo. Curiosamente, conheci Karol G (que, com o exagero e a pretensa originalidade das novas gerações, prefere ter o nome artístico grafado em letras maiúsculas – KAROL G ) só no começo deste ano. Como integrante do SOSAMOR (Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins), o comitê organizador do prestigiado Prêmio Melhores Músicas Ruins , trabalho há um tempinho monitorando o que rola no cenário musical. Se as principais canções brasileiras já estão no meu radar há muitos anos, em janeiro de 2024 passei a observar com mais atenção as canções lançadas em espanhol. Não era para contar, mas o Melhores Músicas Ruins  terá uma versão latino-americana a partir deste ano. Não falei que não conseguia guardar segredo... Porém, isso é algo para relatar aos leitores do Bonas Histórias só em janeiro de 2025. Por enquanto, seguimos falando de Karol G, o assunto deste post. Em março, fui impactado por “Contigo”, um irritante e fraquíssimo hit ao melhor estilo música pop comercial que gruda como chiclete nos tímpanos alheios e não diz absolutamente nada. Apesar de ter odiado a canção ( “contigo/con... contigo, eh/ contigo/ com... contigo, eh/ contigo/com... contigo, eh”  – sim, esse é o refrão de uma profundidade assustadora), admito que gostei bastante da cantora loira de mechas rosadas. Ana Castela, não fique com ciúmes, por favor: tem lugar para todas as novinhas em meu coraçãozinho. Ao pesquisar um pouco mais sobre a colombiana, descobri algumas músicas mais interessantes, como “Amargura”, “Mi Ex Tenía Razón” e “TQG”. Entretanto, o que mais apreciei em Karol G (não sei o porquê, mas preciso me segurar para não escrever Karol K – seria culpa de Karol Conká?!) foi sua atuação no palco. Seus shows são realmente admiráveis e empolgantes. Prova disso foi seu último c oncierto  na Costa Rica. “Mañana Será Bonito” (2023) conquistara o prêmio de melhor álbum no Grammy Latino e, assim, merecia ser visto por quem queria aumentar o conhecimento sobre o universo fonográfico latino-americano. O que eu não imaginava era me deparar com uma intérprete tão carismática e animada diante do público. O Estádio Nacional em San José, a capital costa-riquenha, veio abaixo, principalmente com (acredite se quiser!) “Contigo”. Assim, quando ouvi pela primeira vez “Si Antes Te Hubiera Conocido” em um domingão no fim de julho, já conhecia a cantora. Não sei se você vai crer em minhas palavras, mas sei exatamente onde estava quando fui apresentado a esta canção de Karolzinha – Karolzinha é para os íntimos, tá?! Minha memória auditiva é surpreendente até mesmo para mim... Estava na Costanera de Vicente López (uma espécie de Beira-Rio da Gran Buenos Aires) tomando sol (para espantar a friaca do Inverno portenho) e aprendendo a bebericar mate (para me aculturar ao país que escolhi como casa). Aí uns versos saídos de uma caixa de som de adolescentes esparramados no gramado assustaram meus combalidos tímpanos. Eles diziam: “ Yo me caso contigo/ Mi nombre suena bien con tu apellido/ Toy esperando el primer descuido/ Pa´ presentarte como mi marido”. Em meu espanhol ainda claudicante, juro que “ Toy esperando el primer descuido”  foi captado pelos meus ouvidos com peso na consciência (sim, meus ouvidos têm consciência!) como “ Toy esperando mi perrito Pescuitto” . É bom contar que Pescuitto é meu vira-latinha (que minha irmã insiste em dizer que é dela) que deixei no Brasil quando me mudei para a Argentina. Não é preciso dizer o pulo de pânico que dei ao ouvir uma canção que falava justamente do meu maior trauma emocional recente (maior até do que desconhecer o que fiz de errado para perder o afeto da Sub-30).  Abandonar o cachorrinho que não vivia sem mim é tão difícil que chego a ouvir cantoras gatinhas mencionando essa minha delicada passagem biográfica em suas músicas comerciais... Apavorado, voltei correndo da Costanera (correndo é modo de dizer, pois peguei o trem que aos domingos pode ser beeeeem lento) e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi pesquisar aquela música que mencionava “ mi perrito Pescuitto”.  Para meu alívio (ou não!), constatei que se tratava de mais um equívoco idiomático da minha pessoa cada vez mais confusa. Dessa vez, não foi algo tão grave quanto confundir tacones  com tapones  justamente em una primera cita nem tão constrangedor quanto mencionar a palavra correr  com sotaque brasileiro que soa para os argentinos como coger  – questões essas que juro que vou comentar no próximo texto de “Tempos Portenhos” , a coletânea de narrativas não ficcionais que estou publicando na coluna Contos & Crônicas . Duas semanas depois daquele domingo angustiante à beira-rio, ouvi novamente “Si Antes Te Hubiera Conocido” quando passeava pelo Parque Saavedra em um congelante fim de tarde. O pessoal que fazia ginástica com um personal trainer escutava essa música em um volume considerável (talvez para espantar o frio). A partir daí, o merengue se tornou onipresente em Buenos Aires. Pelo menos aonde eu ia, ele tocava como se fosse meu stalker. Às vezes, não precisava nem sair de casa para ser alvo de sua ação sorrateira. Os vizinhos e os comércios das redondezas tratavam de me expor ao hit colombiano sem qualquer pudor. Não é preciso dizer que, em uma nova pesquisa googleana, descobri que não se tratava de um stalker sonoro (juro que esse foi meu primeiro pensamento) e sim do novo sucesso de Karol G na Argentina. E para meu espanto, vi que o êxito da canção era mais abrangente do que supunha. Pelo visto, a América Latina fora contagiada por “Si Antes Te Hubiera Conocido”. Essa faixa é uma das mais tocadas em vários países do continente. Até o Brasil, resistente à influência dos vizinhos sul-americanos, assistiu recentemente ao brilho da cantora colombiana. Ela foi um dos destaques da última edição do Rock in Rio. Segundo as manchetes de alguns jornais nacionais, a loira foi apontada como a sucessora natural de Shakira. Tá vendo, Mara, não sou apenas eu quem está dizendo isso! Daí em diante, fiquei cada vez mais impressionado com a dimensão do sucesso de Karol G. No mês retrasado, conversei por videochamada com uma amiga (beijo, Carlinha). Em viagem pelo sul da Europa, ela me ligou para mostrar o luxo que era falar pelo celular no centro de uma cidade (algo que os brasileiros desconhecem e até acham impossível). Ou só estava interessada em me mostrar o peguete (literalmente) grego com quem ela estava naquele momento. De qualquer forma, o que chamou verdadeiramente minha atenção no rápido bate-papo foi a canção que estava tocando ao fundo na praia de Algarve. Ao ser questionada sobre o som ambiente, minha amiga se saiu com essa: “É uma música que tá em todo lugar. Não sei de quem é. Acho que é de uma cantora espanhola do tipo Anitta. Só sei que aonde vou, escuto essa droga”. Foi aí que descobrir que o hit de Karol G tinha tomado conta do Verão Europeu – pelo menos na Península Ibérica. Ao pesquisar um pouco mais o assunto, vi que seu efeito pandêmico atingira também os Estados Unidos. É, meus amigos do Bonas Histórias , “Si Antes Te Hubiera Conocido” se tornou febre no Verão do hemisfério norte. Daí minha vontade de comentar essa questão no post de hoje da coluna Músicas . Independentemente de nossas preferências sonoras, acho que vale a pena comentar um sucesso dessa magnitude, ainda mais vindo de uma artista com tantas qualidades. Antes de falar da canção que é o tema desta matéria, deixe-me dar um dedo de prosa sobre Karol G. Nascida Carolina Giraldo Navarro (é isso mesmo que você leu: o nome dela é Carolina com C e o G é de seu primeiro sobrenome), a então adolescente rechonchudinha de 14 anos se destacou na versão colombiana do programa The X Factor. Mesmo não tendo levado o principal prêmio da atração televisiva, a jovem (ao lado de seu pai, seu principal incentivador) ficou empolgada com o desempenho e resolveu investir na carreira musical. Foi nessa época que escolheu o nome artístico (que mantém até hoje) e optou pelo reggaeton, gênero nascido em Porto Rico que mistura o reggae jamaicano (daí a primeira parte do nome) com a salsa   cubana, o hip hop norte-americano e o pop latino .    Contudo, os primeiros anos foram duríssimos para a talentosa Karol G. O fato de ser muito jovem e mulher se constituíram em grandes empecilhos para seu crescimento profissional. Até então, o universo do reggaeton era dominado por homens tanto na Colômbia quanto no exterior – Ivy Queen é a exceção que só comprova a regra de exclusão das mulheres. Se você acha que o sertanejo e o funk brasileiro eram machistas, é porque você não conheceu a realidade do principal ritmo caribenho . No fim da primeira década do século XXI, é bom que se diga, a misoginia dominava o mercado musical do reggaeton tanto pela perspectiva dos profissionais e das gravadoras quanto pelos hábitos do público ouvinte e da imprensa especializada. Ninguém estava acostumado a acompanhar artistas femininas ao microfone e, com essa justificativa, quase todo mundo se opunha ferrenhamente à presença das mulheres. Por mais que o reggaeton tivesse deixado o campo underground dos anos 1980 e 1990, ele ainda carregava uma aura de música proibida (uma espécie de funk carioca dos países caribenhos) e possuía um forte clima de marginalidade (algo que o rap e o hip hop  tinham até pouco tempo atrás na maioria dos países).     O machismo apareceu na vida de Karol G de várias maneiras: do assédio de empresários e da má vontade das gravadoras até os comentários indelicados do público nos shows e na Internet (principalmente porque a cantora não tinha um corpo dentro dos padrões de beleza do show business internacional – ela sempre foi meio gordinha). Com as portas fechadas para a atuação como vocalista, sua alternativa foi compor canções para músicos mais famosos. Mesmo vendo o êxito de suas criações autorais nas bocas alheias, Karol queria ser cantora. Ela só conseguiu dar o primeiro passo nessa direção quando foi convidada para ser dançarina de Reykon, cantor colombiano cinco anos mais velho. O que parecia ser uma decisão equivocada se mostrou acertadíssima. Entre 2011 e 2012, a moça integrou a equipe do astro de reggaeton, que também nasceu em Medellín. Curiosamente, o talento musical de Carolina a fez deixar o bailado e pegar no microfone. No começo, era uma espécie de segunda voz de Reykon. Porém, quando compôs “301”, ela passou a dividir a interpretação de algumas canções com o cantor. “301” se tornou um enorme sucesso na Colômbia e nos países vizinhos. O público começou a enxergar Reykon e Karol G como uma dupla talentosa. Enfim, a bailarina virou verdadeiramente uma cantora. Nessa época, ela cursou música na Universidade de Antioquia, em Medellin, e aumentou a produção de canções autorais. Terminada a graduação e a parceria com Reykon, Carolina Giraldo Navarro se mudou para Nova York para aprender inglês e continuar sua evolução musical. Por alguns anos, fez parcerias artísticas com nomes mais famosos do pop latino e do reggaeton. Também lançou vários singles, que obtiveram boa receptividade entre os jovens colombianos. Nesse momento, ela já conseguira superar parte do machismo do mercado fonográfico local. Em 2017, Karol G lançou seu primeiro algum: “Unstoppable”. Dois anos depois, veio o segundo disco “Ocean” (2019). Ambos foram muito bem-recebidos na Colômbia, tornando a cantora famosa nacionalmente. Além das canções, a jovem ficou em evidência na mídia caribenha pelo namoro com o rapper porto-riquenho Anuel AA. Eles se conheceram logo depois do rapaz ter deixado a prisão. Prisão?! Sim, o músico sempre foi meio barra-pesada. O casal adorava expor nas redes sociais e na imprensa o amor mútuo. O noivado foi anunciado em pleno evento da Billboard Latin Music Awards com direito a anel de diamante. Contudo, o conto de fadas da princesa e o sapão acabou em abril de 2021, pouco depois de Karol ter lançado seu terceiro álbum, “KG0516”. O término do relacionamento foi duríssimo para ela, que flertou com a depressão.   O quarto disco, “Mañana Será Bonito”, veio em 2023, juntamente com o novo namoro. O felizardo dessa vez é Feid, outro cantor natural de Medellín (eu não disse que há algo de especial nessa cidade!). Porém, ele NÃO causa confusões e NÃO tem problemas com a polícia – ufa! A nova relação parece que deu sorte para a moça. “Mañana Será Bonito” estourou tanto na América Latina quanto nos Estados Unidos. Ele foi o primeiro disco gravado em espanhol por uma cantora a alcançar o posto de número 1 na Billboard 200 norte-americana. Depois do reconhecimento do público, veio a premiação da crítica especializada. Karol G ganhou o Grammy Internacional de Melhor Álbum de Música Urbana no ano passado. Na edição do Grammy Latino daquela temporada, ainda venceu como Melhor Álbum. Assim, a artista colombiana se tornou reconhecida e bem-sucedida globalmente. Contudo, ainda faltava uma canção bombástica que fizesse as estruturas da música mundial se abalarem. Por mais que tivesse alguns grandes hits na Europa e na América do Norte (“Provenza”, “Tusa”, “A Ella”, “Pineapple”, “Cairo”, “Ocean”, “Amargura” e “Bichota” são os mais famosos para os gringos), nenhum foi capaz de se tornar onipresente nos quatro cantos do planeta. Isso até “Si Antes Te Hubiera Conocido” pintar na área. Pronto, chegou a vez de falarmos exclusivamente dessa música, senhoras e senhores. Espero que ninguém tenha abandonado meu texto até aqui. Para começarmos os trabalhos de análise, nada melhor do que conhecer a letra da canção, né? Veja, a seguir, os versos do hit criado por Karol G com sua equipe de compositores: “Si Antes Te Hubiera Conocido” (2024) – Karol G, Édgar Barrera, Andrés Jael, Correa Ríos e Alejandro Ramírez Suárez ¿Qué hubiera sido? Si antes te hubiera conocido Seguramente Estarías bailando esta conmigo No como amigos Sino como otra cosa Usted cerca me pone peligrosa Por un besito hago cualquier cosa La novia suya me pone celosa Y aunque es hermosa, ey No te va a tratar como yo No te va a besar como yo No está tan rica así como yo Ella es tímida y yo no Con estas ganas que tengo yo Me atrevo a comerme a los dos Hoy estás jangueando con ella Pero, mmm, después tal vez no ¿Qué hubiera sido? Si antes te hubiera conocido Seguramente Estarías bailando esta conmigo No como amigos, ey Y yo te veo y no sé cómo actuar Bebé, pa' conquistarte que me pasen el manual Espero lo que sea, yo no me voy a quitar Tengo fe que esos ojitos un día me van a mirar Yo me caso contigo Mi nombre suena bien con tu apellido Toy esperando el primer descuido Pa´ presentarte como mi marido No has entendido que No te va a tratar como yo No te va a besar como yo No está tan rica así como yo Ella es tímida y yo no Con estas ganas que tengo yo Me atrevo a comerme a los dos Hoy estás jangueando con ella Pero, mmm, después tal vez no ¿Qué hubiera sido? Si antes te hubiera conocido ey, Seguramente Estarías bailando esta conmigo No como amigos, no, no, no O videoclipe oficial da canção está abaixo. Ele foi lançado em 20 de junho: É possível notar o tom divertido e empolgante do vídeo. A galera dançando na rua com Karol G e o povo pedindo bis no final são momentos impagáveis. Acho que essa sequência demonstra com clareza a febre que tomaria conta dos países latino-americanos nas semanas seguintes. Não é exagero dizer que “Si Antes Te Hubiera Conocido” se tornou a canção onipresente do Deserto de Chihuahua à Patagônia neste segundo semestre de 2024. Por onde andamos no lado espanhol do continente, ouvimos os versos: “ ¿Qué hubiera sido?/ Si antes te hubiera conocido/ Seguramente/ Estarías bailando está conmigo/ No como amigos, ey ”. Uma semana depois da divulgação do videoclipe oficial, foi lançado um vídeo mais formal (formal pela lógica latina, por favor!) e focado exclusivamente na execução da canção (o pessoal dançando atrás da cantora foi excluído da apresentação). É bom destacar também que, dessa vez, a produção audiovisual recebeu o patrocínio de uma famosa marca de refrigerantes, em uma ação de Merchandising ao mesmo tempo sutil e inteligente. Ou você vai me dizer que não reparou na propaganda indireta do refri do Papai Noel?! Porém, a apresentação mais emblemática para o público internacional foi a realizada por Karol G no MTV Video Music Awards no mês passado. Ver a plateia norte-americana sendo contagiada pelo merengue da colombiana mostrou o quão impactante é o ritmo desta canção. Além disso, o que podemos falar das cenas de Taylor Swift e Camila Cabello dançando o novo hit de Karolzinha, hein?! Para mim foi espetacular ver as estrelas da primeira prateleira da música mundial bailando ao som de uma canção em espanhol.    Depois de tanto blábláblá, preciso analisar efetivamente “Si Antes Te Hubiera Conocido” antes que os haters de plantão despertem dos recôncavos mais sórdidos da Internet para me criticar. Afinal, a proposta da coluna Músicas é debater as faixas com grande representatividade social, não é? Por mais interessante que seja a história por trás da composição de Karol G e da vida da artista colombiana, o que eu quero saber (e imagino que os leitores do Bonas Histórias  também queiram) é o impacto desta canção. Como não sei a reação das outras pessoas, terei que focar na minha própria experiência. Vou usar minha percepção pessoal como se ela fosse da galera, tá? O blog é meu e faço o que eu quero! Pronto, falei. Jejeje. Comecemos discutindo a melodia, senhoras e senhores. Como um legítimo merengue, a batida sonora de “Si Antes Te Hubiera Conocido” é muitíssimo simples e se mantém simétrica do começo ao fim. Nota-se a execução de apenas cinco notas ao longo dos 3 minutos e 15 segundos de execução da música. Os instrumentos utilizados são a conga/tumbadora  (tambor longo de origem cubana que foi inspirado no atabaque africano), o teclado, o baixo e o metrónomo (uma espécie de reco-reco caribenho). Obviamente, a homogeneidade melódica da canção de Karol G é uma faca de dois gumes. Por um lado, ela pode incomodar bastante os ouvidos mais sensíveis e exigentes, principalmente por se tratar de um hit muito executado. A repetição aliada à simplicidade da melodia a torna cansativa, enjoativa. Que Doutor Saraiva não escute essa música, por favor! Entretanto, foi exatamente essa característica que a tornou mundialmente viral, né? A pessoa ouve uma, duas vezes e já fica viciada. Quando a faixa toca pela terceira vez, já é possível identificá-la instantaneamente e o corpo automaticamente começa a remexer. Em muitos casos, o cérebro já envia informações para a boca cantarolar a letra: “ Yo me caso contigo/ Mi nombre suena bien con tu apellido/ toy esperando el primer descuido/ Pa´ presentarte como mi marido”.   É bom que se diga que a combinação de repetição melódica e simplicidade de notas não é algo exclusivo de “Si Antes Te Hubiera Conocido”. Trata-se de uma das marcas mais acentuadas do merengue. Lembro que quando trabalhava na Dança & Expressão , esse gênero dançante era um dos mais polêmicos entre os alunos de Dança de Salão . Na escola, havia o grupo que amava dançar merengue exatamente pela sua estrutura musical intuitiva, fácil e homogênea. Normalmente, eram os iniciantes que a apreciavam. E havia, obviamente, a galera que odiava dançar esse ritmo porque as canções não saíam (metaforicamente falando, tá?) do lugar. Não preciso dizer que eram geralmente os dançarinos mais experiente que nutriam a repulsão pelo marasmo e pela monotonia. Talvez isso explique o porquê não tenhamos faixas clássicas de merengue no imaginário popular. Você já parou para pensar sobre isso?! Qual é o merengue que nós brasileiros conhecemos de cabeça, hein? Peguemos o caso da salsa , outro estilo caribenho globalmente conhecido. Poderia passar algumas horas listando as canções de salsa  que aprecio e que até canto automaticamente: “Quizás, quizás, quizás”, “Bamboleo”, “La Vida es un Carnaval”, “El Bodeguero”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”, “Dos Gardenias” etc. Aposto que só de nome você irá se lembrar da maioria dessas faixas. Porém, confesso que não me lembro de nenhum merengue. Eu disse NENHUM! Ao mesmo tempo que a escolha melódica de Karol G me pareceu arriscadíssima num primeiro momento (pelo ponto de vista de quem desejava agradar ao mercado internacional), é impossível não associar “Si Antes Te Hubiera Conocido” ao universo musical do Caribe. Quando a canção começa, somos levados automaticamente à América Central e ao norte da América do Sul, uma das regiões musicalmente falando mais ricas do planeta. Acho que todos os hits mundiais considerados imprevisíveis (lembremos de “Mambo Number 5”, “Ai, Se Eu Te Pego”, “Gangnam Style”, “Despacito”, “El Arbi”, “Macarena” e “Danza Kuduro”, para ficarmos nos citados no início deste post) possuíam como charme o colorido de uma região específica. Em um mundo cada vez mais globalizado e padronizado, o que faz o público se empolgar pra valer é justamente notar o tempero da música local.   Portanto, “Si Antes Te Hubiera Conocido” é um merengue com M maiúsculo, seja para o bem, seja para o mal. O lado que você escolherá nesse embate maniqueísta dependerá das batidas de seu coração e das vontades de sua alma. Como me apaixonei pelo trabalho de Karolzinha, sinto que não preciso informar explicitamente minha posição nesse confronto musical. Entretanto, respeitarei sua decisão, mesmo se ela não coincidir com a minha, tá? Em relação à letra, temos que destacar o clichê temático. É mais uma história de frustração amorosa como tantas que existem por aí. Uma moça chora pelo amigo que tem uma namorada séria e bonita. Para desespero do eu lírico feminino, o rapaz não demonstra vontade de trocar a dona de seu coração. Dessa maneira, inicia-se a inevitável comparação com a rival (quem nunca?!). Como seria a vida se ela assumisse a tão desejada posição no centro do coração do amigo? Qual das duas mulheres merece realmente ocupar o posto de companheira do rapaz?! Por mais que esse seja o assunto de 99% das canções desde a Grécia Antiga (não sei o que os egípcios dos tempos dos faraós cantavam...), ainda assim “Si Antes Te Hubiera Conocido” tem ótimos versos.       Para mim, os aspectos mais charmosos da composição de Karol G são a simplicidade poética e o impacto de sua letra. Em seis versos curtos, temos a apresentação da cena que molda toda a trama musical: “ ¿Qué hubiera sido?/ Si antes te hubiera conocido/ Seguramente/ Estarías bailando esta conmigo/ No como amigos/ Sino como otra cosa”. Logo em seguida, surge a dupla de quartetos que expõe o conflito da história: “ Usted cerca me pone peligrosa/ Por un besito hago cualquier cosa/ La novia suya me pone celosa/ Y aunque es hermosa, ey” e “Y yo te veo y no sé cómo actuar/ Bebé, pa' conquistarte que me pasen el manual/ Espero lo que sea, yo no me voy a quitar/ Tengo fe que esos ojitos un día me van a mirar”. Sabendo da momentânea desvantagem na disputa pelo coração do amado, o eu lírico feminino só pode se utilizar do recurso da oratória. Assim, começam as associações, as comparações e até as ameaças veladas. Tudo para convencê-lo a efetuar a troca de namorada. Obviamente, na cabeça de quem canta, não há opção mais vantajosa do que ela para o posto de dona do coração do amigo: “ No te va a tratar como yo/ No te va a besar como yo/ No está tan rica así como yo/ Ella es tímida y yo no”; “Con estas ganas que tengo yo/ Me atrevo a comerme a los dos/ Hoy estás jangueando con ella/ Pero, mmm, después tal vez no”; e “Yo me caso contigo/ Mi nombre suena bien con tu apelido/ Toy esperando el primer descuido/ Pa´ presentarte como mi marido”. Vamos combinar que as rimas não são nem um pouco elaboradas. Para ser bem franco com você, beiram a rusticidade (não à toa, algumas rimas utilizam a mesma palavra). Porém, elas funcionam bem no contexto da música comercial da atualidade. Outro elogio é para a oralidade da letra da canção (“ toy” e “pa´” , por exemplo ) . Os compositores de “Si Antes Te Hubiera Conocido” usam e abusam das gírias ( “jangueando”  é a melhor para mim ) e do texto conotativo ( “comer”  e “rico” ).   Meu destaque vai, claro, para o sentido amoroso-sexual de palavras como “ comer”  e “ rico ” do castelhano colombiano. Neste caso, o idioma de Karol G é mais parecido ao português brasileiro do que ao espanhol rioplatense (que é mais literal para o verbo “comer” e para o adjetivo “gostoso/gostosa”). Já que estamos falando das partes mais picantes da música, o que dizer do verso “ Me atrevo a comerme a los dos”, hein? Acho que ele casa perfeitamente com o comportamento dos jovens atuais (a bissexualidade deixou de ser um tabu) e com o reconhecimento da beleza da rival pelo eu lírico feminino. A namorada do amigo é tão bonita que até mesmo a amiga rejeitada a pegaria. Faz sentido no contexto da história musical... E aí, o que você achou de “Si Antes Te Hubiera Conocido”, hein?! Na sua opinião, temos aqui um hit que merece o sucesso que atingiu ou se trata de mais uma maluquice superestimada pelo público contemporâneo? De tanto que ouvi essa canção nos últimos três meses, admito que passei a apreciá-la com bons olhos (ou seriam bons ouvidos?!). Independentemente da sua qualidade musical (que reconheço ser discutível), fiquei muito feliz ao constatar que o Merengue entrou no mainstream da música internacional e que Karol G atingiu o topo da parada mundial. A moça é gente boa, trabalhadora e talentosa. Merece, sim, o sucesso que está fazendo. Quem é a cantora colombiana mais escutada hoje em dia no planeta, hein?! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Talk Show Literário: Raquel

    Na terceira entrevista da oitava temporada do TSL, Darico Nobar bate um papo enigmático com a protagonista de A Bolsa Amarela, o livro infantojuvenil mais famoso de Lygia Bojunda. [Depois de uma frenética corrida pelo mundo televisivo, o controle remoto pede arrego. Em uma folga mais do que merecida no expediente noturno, ele descansa no Talk Show Literário . A imagem na tela mostra um senhor conversando com uma garotinha]. Darico Nobar : Tá bom, mas me diga o que tem aí nessa bolsa. Raquel:  Você tá falando dessa aqui? [Puxando pela alça, coloca a bolsa, que até então repousava tranquilamente no outro canto do sofá, mais perto do seu corpo]. Ela veio num pacote de enjoo da tia Brunilda. Darico Nobar:  Pacote de enjoo?! Raquel:  Ela enjoa depressa das compras. Acho isso tão esquisito! Usa três, quatro vezes e pronto: não presta mais. Aí manda um embrulho enorme com vestido, sapato, blusa, colar e cacareco lá para casa. Mamãe fala que a tia Brunilda é boazinha, sabe que a gente vive no maior aperto e cada vez manda mais roupa. Tio Júlio parece não se importar. Quando o pacotão chega, o pessoal sai correndo para pegar as coisas. Eu só fico espiando. Porque só tem roupa de gente grande, nada serve pra mim. Darico Nobar:  É só cortar, diminuir... Raquel:  Não adianta. Mesmo diminuindo, tudo continua com cara de roupa de gente grande. Pelo menos é o que dizem lá em casa. Darico Nobar:  Roupa não tem cara. Raquel:  As da tia Brunilda tem, sim senhor. É roupa de gente grande. Darico Nobar:  Tá bom. E essa bolsa amarela, hein? Continuo sem saber a história dela. Raquel:  Não tem mistério. Ela apareceu no último embrulho. Passou na mão de todo o mundo. Pegaram, examinaram, acharam feia e deixaram pra lá. No fim, alguém disse – toma Raquel, fica pra você. Peguei pra mim. Agora ela é minha. Só minha. Darico Nobar:  Entendi. Mas você ainda não respondeu a minha primeira pergunta. O que você guarda aí que não pôde deixar a bolsa em casa? Raquel:  O mais legal, Darico, é que ela é amarela. Para mim, o amarelo é a cor mais bonita que existe. Mas não é um amarelo sempre igual. Às vezes é forte, mas depois fica fraco. Não sei se porque já chegou desbotado um pouco ou porque já nasceu assim mesmo. De qualquer jeito, é bom porque ser sempre igual é muito chato. Darico Nobar:  Parece uma sacola de tão grande. Não sei como você consegue carregar isso para cima e para baixo. Raquel:  Eu sou forte. E ela não é tão grande assim. Vire e mexe, o pessoal tem que se apertar dentro dela para caber tudo. Darico Nobar:  Pessoal?! Raquel:  Olha, Darico, ela tem sete filhos! Darico Nobar:  Filhos?! Raquel: Sempre achei que, pelo nome, o bolso da bolsa é o filho dela. Os sete moram assim: os dois grandões ficam em cima, um de cada lado e com zipe. Eles tomam conta dos outros. Logo embaixo, vem dois bolsos menores, que fecham com botão. Num dos lados tem o magro e comprido, que achei que não cabia nada. No outro lado, tem o filho menor, que estica e diminui conforme colocamos a mão. Ele tem mania de sanfona. E, por último, tem o pequenininho, o bebê da bolsa. Pelo tamanho, é recém-nascido. Darico Nobar: É mesmo uma bolsa muito bacana, Raquel. [Coça a cabeça e fica alguns segundos em silêncio. Parece procurar uma nova estratégia para levar a inusitada conversa]. Mas pensando bem, acho que não cabe muita coisa nela... É uma pena porque é bom ter onde guardar o que vamos acumulando no dia a dia. Raquel:  É grande sim. Cabe as minhas principais vontades e os meus melhores amigos. Nunca deixei ninguém de fora. Darico Nobar:  Huuuuum... Então, é uma bolsa que guarda sentimentos e amizades. Raquel:  Não tinha parado para pensar nisso. Para mim é só uma bolsa. Coloco coisas dentro dela e pronto. É assim que funciona. Darico Nobar: Por que você guarda as suas vontades aí? Raquel:  Não são as vontades magras, pequenininhas, que nem tomar sorvete, dar sumiço na aula de matemática ou comprar brinquedo novo. Ponho só as vontades que vão crescendo e engordando que nem balão. Se as pessoas descobrirem, vão rir de mim. Os adultos não entendem essas coisas, acham que é infantil, não me levam à sério. Darico Nobar:  Cabem muitas vontades numa bolsa? Raquel:  Só coloquei três. Darico Nobar:  Acho melhor você não dizer quais. Raquel:  Por quê, Darico? Darico Nobar:  Para manter o segredo, né? Raquel: Para você eu posso contar de boa. Neste bolso aqui, eu escondo a vontade de crescer. [Indica os lugares à medida em que vai falando]. Neste outro, guardei a vontade de escrever. E neste que tem botão, espremi a vontade de ter nascido garoto. Agora elas estão presas na bolsa amarela. Darico Nobar:  Por que a vontade de ter nascido garoto? Não compreendo. Raquel:  Os meninos podem jogar bola, empinar pipa, ficar descalços, brincar na rua, andar de skate, voltar tarde para casa, se sujar... Darico Nobar:  Mas as garotas também podem fazer tudo isso! Raquel:  Foi o que descobri depois. Por isso, essa vontade foi emagrecendo, diminuindo, sumindo. Agora ela desapareceu. Olha só! [Ao abrir o bolso, não há mais nada. O público no auditório aplaude a cena com entusiasmo]. Obrigada, pessoal. Darico Nobar:  E as outras vontades? Elas cresceram ou diminuíram? Raquel:  A vontade de crescer não sumiu, mas está bem pequenina agora. Só não abro o bolso para mostrar porque ela pode cair no chão e aí vai ser difícil achar. A única que não diminuiu foi a vontade de escrever. Às vezes, ela cresce, cresce e cresce. Quando vejo que vai ficar muito pesada, sento e começo a escrever. Escrevo qualquer coisa – carta, romancinho, telegrama, o que me der na cabeça. Aí pronto, ela volta a diminuir. Darico Nobar:  Mas o pessoal não ri do que você escreve? Raquel:  Fazer o quê? Paciência. Melhor rirem de mim do que eu carregar esse peso dentro da bolsa amarela. Darico Nobar:  Essa é uma atitude muito madura da sua parte, Raquel. Raquel:  Obrigada. [A plateia parece concordar e manda mais uma rodada de aplausos para a menina]. Obrigada, obrigada. O Afonso disse a mesma coisa outro dia. Darico Nobar:  Afonso? Raquel:  Esse foi o nome que ele pegou dentro da bolsa. No começo, também achei que não combinava. Ele não tem cara de Afonso. Disse isso para ele e sabe o que ele me falou? [O apresentador balança a cabeça negativamente]. Posso não ter cara, mas tenho coração de Afonso. Comecei a chamar ele de Afonso e me acostumei. Até a Guarda-chuva se acostumou. Darico Nobar:  Guarda-chuva? Raquel:  São meus amigos. Eles moram na bolsa. Tem o Afonso, a Guarda-chuva, o Alfinete de Fralda, o Terrível... Darico Nobar:  O Alfinete de Fralda é terrível?! Raquel: Não, Darico! [A garota gargalha com gosto]. O Terrível é o galo de briga que estamos escondendo. [Aponta para o espaço maior que tem um fecho velho]. Darico Nobar:  Você esconde um galo na sua bolsa?! Raquel:  Não, não. Eu escondo dois. O Terrível e o Afonso. Darico Nobar:  O Afonso também é um galo? Raquel:  Ele é primo do Terrível. Mas não é galo de briga, é um galo-tomador-de-conta-de-galinha. Darico Nobar:  E o que seria isso? Raquel:  O galo-tomador-de-conta-de-galinha é o galo que toma conta de galinha. [Diante da cara de espanto do senhor à sua frente, a entrevistada continua a explicação]. Ele fica lá no galinheiro tomando conta das esposas. É a função dele. Darico Nobar:  Eita que vidão, meu Deus! Raquel:  Que nada. O Afonso não gostava. Ele fugiu do galinheiro porque queriam que ele fosse tomador-de-conta-de-galinha e ele tinha horror disso. Diz que era uma complicação danada, que não era justo só um ter que tomar as decisões. Ele morava com quinze galinhas e ficava sem jeito de ser o chefe de uma família tão esquisita. Darico Nobar:  Como você soube dessa história? Raquel:  Está escrita em um romance. Darico Nobar: Você leu esse livro? Raquel:  Não. Eu escrevi essa história. Darico Nobar:  Cada vez eu entendo menos o que você fala, Raquel. Acho que essa é a entrevista mais difícil que tive no Talk Show Literário . Raquel:  No duro? [Ele balança a cabeça para cima e para baixo com vergonha]. O que você não entendeu até agora? [O apresentador coloca as mãos novamente na nuca. Quando ele vai falar algo, o controle remoto, já com as energias restabelecidas pela folga maior do que o previsto, sente uma coceira incontrolável no botão que troca os canais. Na volta dele ao trabalho, as imagens da televisão passam a mudar em velocidade alucinante]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário . Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias . E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Premiações: Nobel de Literatura de 2024 - Han Kang

    Primeira integrante da literatura sul-coreana e primeira mulher asiática laureada pela Real Academia Sueca de Letras, a romancista e poetisa de 53 anos apresenta obras ficcionais com prosa poética, denúncia social e estrutura narrativa convencional. Na semana passada, foram revelados os vencedores do Prêmio Nobel de 2024 . Como o Bonas Histórias  é um blog de literatura, cultura e entretenimento (algo que agradeço todos os dias e todas as noites ao Deus Pai Todo Poderoso – mesmo sendo ateu), vamos focar na seção mais artística da honraria – o Nobel de Literatura . É sobre isso o que discutiremos no post de hoje da coluna Premiações e Celebrações . Até porque, admito sem um pingo de vergonha na cara, não saberia sequer começar os comentários sobre os premiados das outras cinco categorias: Medicina, Paz, Física, Química e Ciências Econômicas. Depois de dois autores europeus, o norueguês Jon Fosse  (em 2023) e a francesa Annie Ernaux (em 2022), a Real Academia Sueca de Letras, Histórias e Antiguidades  laureou Han Kang , a primeira representante da literatura sul-coreana  a conquistar o Nobel de Literatura. Ela também é a primeira figura literária efetivamente da Ásia a comemorar essa honraria desde o genial Kenzaburo Oe , japonês premiado em 1994 e autor de obras-primas como “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras) e “O Grito Silencioso” (Francisco Alves). Usei o termo “efetivamente” na frase anterior porque, convenhamos, os últimos asiáticos premiados são praticamente europeus ou foram ocidentalizados. Kazuo Ishiguro, vencedor em 2017 e romancista do maravilhoso “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), é naturalizado britânico e só escreve em inglês. Falar que ele é japonês é uma piada (de mal gosto). E o chinês Mo Yan, laureada em 2012, é mais lido no Ocidente do que em seu país natal. O motivo, claro, é a censura imposta pelo governo comunista de Pequim, que nunca viu com bons olhos a maioria das histórias do autor. Por isso, vejo o feito de Han Kang também como uma conquista da literatura e da cultura sul-coreana . Há alguns prêmios que conferem uma dimensão que extrapola o caráter individual do vencedor. Quando José Saramago , autor de “Ensaio sobre a Cegueira” (Companhia das Letras), “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras) e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras), ganhou o Nobel de 1998, a literatura em língua portuguesa celebrou a honraria recebida por extensão. Quando “O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos: 2009) levou para casa a estatueta do Oscar em 2010, o cinema argentino inteiro celebrou. E quando Karol G (sim, estou a colocando no mesmo parágrafo de Saramago e do trabalho cinematográfico de Juan José Campanella) se torna a cantora latino-americana mais ouvida no mundo (graças a onipresente “Si Antes te Hubiera Conocido” – ainda vou comentar essa canção na coluna Músicas ), o feito é indiretamente da música colombiana. O Prêmio Nobel de Literatura de 2024 só vem reforçar algo que até os extraterrestres devem ter notado lá do espaço: nas primeiras décadas do século XXI, a dona do campo artístico-cultural do planetinha azul é a Coreia do Sul . Depois da febre do K-Pop , da supremacia do cinema sul-coreano com a conquista do Oscar por “Parasita”   (Gisaengchung: 2019) e do sucesso internacional dos doramas, chegou a vez dos escritores do país mais charmoso do mundo (pelo menos segundo o conceito do soft power) demonstrarem seu talento. Há inclusive, segundo dizem, uma canção de um sambista de lá que fala justamente do florescimento da ficção e da poesia sul-coreanas . Os versos da música seriam mais ou menos assim: “ Chegou a hora desses escritores de olhos puxados mostrarem seu valor/Eu fui à Seul, fui pedir ao governo para me publicar/Salve as ruas de Insadong/Põe os óculos, eu quero ler/Eu quero ver o tio Sam aplaudindo os coreanos como todo mundo faz ”. Vale a pena citar que o movimento de ascensão da Coreia do Sul ao primeiro plano da arte e da cultura internacional se chama Hallyu . A Onda Coreana , como o esforço governamental é chamado popularmente, foi um programa estatal dos anos 1990 que estimulou o desenvolvimento da música, do cinema, da gastronomia, da televisão, da literatura, da língua e da moda locais. Além de reforçar a identidade cultural do país internamente, o Hallyu visava a exportação de produtos e serviços da indústria artística (também conhecida pelo termo “indústria criativa”). Pelo visto, os resultados são extremamente positivos e não param de dar novos frutos.   Aos 53 anos, Han Kang, o mais novo reflexo da Onda Coreana, nasceu em Gwangju e vive desde os dez anos de idade em Seul. Ela é filha de Han Seung-won, romancista que teve destaque exclusivamente nacional. Para falar a verdade, os vínculos da família da Nobel com a literatura não param por aí. Dois dos irmãos de Kang (como no coreano o sobrenome precede o nome da pessoa, Kang é o que chamamos no Brasil de primeiro nome e não a designação da família) são também romancistas. O marido dela é crítico literário e professor de literatura. E o filho do casal administra uma livraria na capital sul-coreana. Se isso não for um clã mergulhado no universo dos livros, não sei mais o que é imersão literária. Após se formar em Literatura, Han Kang trabalhou por muitos anos como jornalista em veículos impressos. Em 1993, estreou na literatura com uma antologia poética. A partir daí, lançou regularmente livros de vários gêneros: romances, novelas, coletâneas de contos e coleções de ensaios. Até pela preferência do público leitor nos quatro cantos do planeta, suas obras mais populares são os romances. Além de escritora ficcional e poetisa, Han é atualmente professora no Instituto de Artes de Seul. Ela só passou a ser vista com mais atenção pela crítica e pelos leitores internacionais quando “A Vegetariana” (Todavia), romance de 2007, foi traduzido para o inglês e conquistou em 2016 o Man Booker Prize, uma das principais premiações literárias do Ocidente. A partir daí, essa obra foi traduzida para vários idiomas: francês, italiano, alemão, espanhol, catalão, galego, português, sueco, finlandês, húngaro, grego, holandês, croata, polonês, russo, albanês, islandês, servo, tcheco, turco, indonésio, tailandês, chinês, japonês, vietnamita e árabe. Uma vez encantado com essa trama, o mundo foi atrás do restante do portfólio narrativo da autora. Além de “A Vegetariana”, os brasileiros têm à disposição em português outros dois livros da Nobel: “Atos Humanos” (Todavia) e “O Livro Branco” (Todavia), lançados respectivamente em 2014 e 2016 em coreano. Legal notar que a Editora Todavia  teve a preocupação de traduzir esses títulos diretamente do idioma original (e não das versões inglesas ou francesas, como se fazia comumente no Brasil há algumas décadas). A literatura de Han Kang , a primeira mulher asiática premiada pelo Nobel de Literatura (os outros laureados do continente foram homens: dois japoneses e um chinês – se você considerar Kazuo Ishiguro como asiático, então são três japoneses), tem como principais características a prosa poética, a denúncia social e a estrutura narrativa convencional. O que mais atrai os leitores ocidentais é o olhar sensível e o texto charmoso para complexos problemas da sociedade sul-coreana. Não por acaso, essas são marcas de alguns dos romancistas locais mais lidos no Ocidente – daí a minha afirmação que o prêmio é da literatura da Coreia do Sul  como um todo e não apenas do portfólio artístico de Han. Por exemplo, no finalzinho do ano passado, comentei na coluna Livros – Crítica Literária  o romance “Kim Jiyoug, Nascida em 1982” (Intrínseca), de Cho Nam-Joo. Essa obra denuncia o machismo da cultura do extremo oriente e se parece muitíssimo com a estética e o conteúdo das publicações da agora escritora Nobel. Para os leitores do Bonas Histórias  que ficaram interessados em conhecer o trabalho literário de Han, vou resumir os títulos que já entraram no radar da Todavia , a editora brasileira que tem os direitos autorais da sul-coreana em nosso país. Em “A Vegetariana”, conhecemos Yeong-hyn, uma mulher que decide abolir a carne de sua vida. Sua decisão envolve todo tipo de contato carnal, não apenas o aspecto gastronômico. Assim, ela deixa de fazer sexo com o marido, o que provoca um caos doméstico e simboliza a subversão feminina ao patriarcalismo e ao machismo da sociedade sul-coreana. Já a trama de “Atos Humanos” é construída com base em um episódio real: o massacre promovido pelo governo a um grupo de estudantes universitários que protestava em prol da democracia na cidade de Gwangju em 1980. Ao iluminar de forma ficcional as memórias de personagens que sobreviveram e morreram tragicamente, a autora descreve com beleza os dramas sentimentais e espirituais da população vítima dos desmandos do Estado. Por sua vez, “O Livro Branco” se passa em uma cidade europeia coberta de neve. No frio do Inverno do Velho Continente, uma escritora de origem asiática rememora a morte da irmã recém-nascida. Esse evento ocorrido na infância foi um enorme trauma para a família inteira e marcou a vida de todos. No que é considerada a sua obra mais pessoal, Han Kang mostra com força, beleza e simbolicamente o luto feminino. “작별하지 않는다” (ainda sem edição em português) é o mais recente romance da autora asiática. Lançado em 2021, ele será publicado no Brasil no primeiro semestre de 2025 pela Editora Todavia . Nessa narrativa, acompanhamos a relação de amizade de Inseon e Kyungha. Depois de um acidente, Kyungha viaja para a Ilha de Jeju para cuidar do passarinho de estimação da amiga.   E aí, ficou interessado(a) em conhecer mais o portfólio da escritora que acabou de adentrar ao panteão dos monstros sagrados da literatura?! Se a resposta foi positiva, saiba que você se juntará a uma pequena multidão. A premiação do Nobel já impactou a procura pelos títulos de Han tanto no Brasil quanto no exterior. Para termos a noção do impacto da honraria nas vendas, no dia seguinte ao anúncio da Academia Sueca, o site da Amazon Brasil registrou o crescimento de 15.000% (eu escrevi 15 mil por cento!!!) na comercialização dos livros da autora laureada. É mais ou menos essa a dimensão que o prêmio confere ao seu(sua) felizardo(a). Ou seja, Han Kang não só levou para casa o diploma mais invejável da literatura, a tradicional medalha de ouro 18 quilates com o perfil de Alfred Nobel e a bagatela de 11 milhões de coroas suecas (mais ou menos US$ 1 milhão). Ela também se tornou o foco da atenção do mercado editorial para sempre. Há uma brincadeira do mundinho literário que parece nunca perder a validade: a Real Academia Sueca de Letras não premia o escritor que o mundo conhece e admira; ela alça ao estrelato o escritor que o planeta vai ler e festejar dali em diante. Uma vez que entendemos essa particularidade da premiação, pergunto: é ou não é uma bela conquista da literatura sul-coreana, hein?! Para ser mais preciso em meu último comentário deste post da coluna Premiações e Celebrações , talvez fosse melhor chamar esse acontecimento como mais um feito da Hallyu, a Onda Coreana que não para de mostrar sua força em todas as vertentes artístico-culturais. Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias ? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações . E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Filmes: A Substância – O terror de Coralie Fargeat é o melhor do ano

    Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 19 de setembro, o segundo longa-metragem da diretora e roteirista francesa tem Demi Moore, Margaret Qualley e Denis Quaid no elenco. Em uma narrativa que faz o espectador desviar os olhos da telona, acompanhamos a obsessão feminina pela juventude e pela beleza. Na semana passada, fui todos os dias ao cinema . No caso, o correto seria dizer todas as noites. A rede Multiplex , uma das principais exibidoras de Buenos Aires, fez promoção em que os ingressos custavam 2.500 pesos argentinos (algo como R$ 11,00 no ingrato câmbio atual). Acho que o evento se chamava Semana do Cinema . Acho! Juro que não tive a menor preocupação de verificar o nome. O meu interesse se concentrou nos filmes  em exibição e, claro, no desconto de quase 50% nas entradas. Nessa bem-vinda promoção, apenas as sessões em 4D (sou da época em que o 3D já causava frenesi) eram mais caras: 5.000 pesos. Como um bom cinéfilo raiz que sou (esse lance de vários Ds é para o público Nutella) e um pé rapado que conta as moedas para terminar o mês próximo do azul (moedas argentinas, o que é pior), aproveitei a oportunidade para acampar na frente das telonas. Uhu! Assim, visitei de quinta-feira, 26 de setembro, a quarta-feira, 2 de outubro, a unidade de Belgrano do Multiplex , a mais perto da minha casa. Tão logo escurecia no charmoso e esverdeado bairro de Saavedra, minha rotina era correr para a sessão noturna a fim de conferir alguma novidade da Sétima Arte . No cardápio cinematográfico que pude provar, solicitei ao maître da bilheteria quatro produções argentinas e três produções norte-americanas . Seguindo minhas inconfundíveis preferências, as pedidas giraram em torno de terror , suspense psicológico , comédia dramática  e título com China Soares – minha atriz argentina favorita desde “El Duelo” (2023) e que, por isso, ganhou uma categoria própria em meu combalido coraçãozinho. O mais curioso da minha imersão na Semana do Cinema (vamos chamar a promoção desse jeito, apesar de não estar certo de sua verdadeira nomeação) foi que, a cada longa-metragem assistido, voltava para casa com a certeza de ter descoberto o filme que iria debater no Bonas Histórias . Contudo, na nova visita do dia (ou noite) seguinte, mudava meus planos. Aí pensava: será esse o título que vou comentar na coluna Cinema . A firmeza das palavras durava exatamente 24 horas. Nessa sucessão de ótimas experiências cinematográficas, vi “Joker” (2024), “Não Fale o Mal” (Speak No Evil: 2024), “El Aroma del Pasto Recien Cortado” (2024), “Longlegs – Vínculo Mortal” (Longlegs: 2024), “Linda” (2024) e “Culpa Cero” (2024). Foi exatamente essa a ordem cronológica de exibições e a ordem crescente de preferência. No caso dos recém-lançados títulos argentinos, não preciso dizer que eles ainda não foram traduzidos nem exibidos no nosso cada vez mais caloroso Brasilzão. Y por supuesto assisti a “A Substância”  ( The Substance : 2024), o novo filme da diretora e roteirista francesa Coralie Fargeat que foi a cereja do bolo (ou a dose extra de doce de leite do alfajor, como preferir) da minha movimentada semana à la Rubens Ewald Filho. Juro que quando deixei a sala do Multiplex Belgrano  na última quarta-feira, decretei em alto e bom tom: é esse o filme que vou debater no Bonas Histórias  e ponto final. E completei para espanto dos argentinos à minha volta: ele é o melhor terror que conferi nos cinemas neste ano; preciso fazer um post para a coluna Cinema  sim ou sim!!! Pensando agora com a devida calma (e longe dos olhares inquisitórios daqueles que não entendem português nem acham graça quando alguém fala sozinho na saída do cinema) e estendendo a comparação aos demais gêneros cinematográficos de 2024, “A Substância” só perde em qualidade para os imbatíveis “Pobres Criaturas” (Poor Things: 2023) e “Dias Perfeitos” (Perfect Days: 2023). Se lembrarmos que essa dupla foi lançada efetivamente no ano passado (eu é que demorei para vê-la), talvez possamos colocar a novíssima produção de Fargeat no alto do pódio da atual temporada de cinema até mesmo na categoria geral. Orçado em US$ 17,5 milhões, um trocado para as cifras hollywoodianas, mas uma pequena fortuna para o cinema europeu, “A Substância” traz em seu elenco Demi Moore , Margaret Qualley  e Denis Quaid . O primeiro sucesso que o filme fez foi no Festival de Cannes em maio, quando conquistou o prêmio de melhor roteiro. Naquela oportunidade, a crítica internacional se rendeu à força e ao vigor da trama de uma mulher que tenta combater a qualquer preço o envelhecimento e a perda da beleza. Agora “A Substância” arrebatou as plateias do circuito comercial. O longa teve ótimos números de bilheteria no final de semana de estreia tanto na América do Norte quanto no Velho Continente. Até no Brasil e na Argentina, esse fenômeno se repetiu. Vale lembrar que estamos falando de uma produção de nicho e não de um blockbuster convencional. Daí a surpresa do seu êxito junto ao grande público. “A Substância” é o segundo filme dirigido e roteirizado por Coralie Fargeat,   desde já   uma das cineastas mais promissoras da atualidade. Para ser correto na minha descrição, esta é uma coprodução entre Inglaterra, Estados Unidos e França. Portanto, quando eu disse lá no início do post que o longa-metragem era um exemplar do cinema norte-americano, contei meia-verdade. Saiba que ele é também produto do cinema inglês  e do cinema francês . Para ser preciso em minhas palavras, podemos enxergá-lo até mais como um título europeu do que um título hollywoodiano. Aos 48 anos, Fargeat conseguiu se destacar em trabalhos no cinema independente e em séries da televisão na França. Suas produções como diretora e roteirista têm quase duas décadas, apesar de elas não serem tão conhecidas pelos cinéfilos fora da Europa. Só recentemente, a cineasta teve a chance de atuar em estúdios com orçamentos e visibilidades um pouco maiores. Mesmo assim, é bom que se diga que ela ainda não conquistou o espaço merecido dentro dos grandes estúdios internacionais. “A Substância”, por exemplo, foi produzido pela Working Title Films , um estúdio inglês de cinema e televisão, e foi distribuído mundialmente pela Mubi , uma companhia mais artística do que comercial. O primeiro longa de Coralie Fargeat foi “A Vingança” (Revenge: 2017), um suspense aterrorizante de uma mulher vítima da violência brutal de um grupo de homens. Ao sobreviver à crueldade imposta pelos companheiros de viagem, a personagem principal busca fazer justiça com as próprias mãos. Confesso que fiquei dividido em relação à estreia da diretora no cinema. Apesar de ser um filme com narrativa forte, ter ótimas cenas, possuir tensão dramática do início ao fim e contar com um estilo visual marcante (repetido em “A Substância”, o que indica o esboço de certa unidade autoral pela cineasta francesa), “A Vingança” escorregou na originalidade do roteiro. Para mim, essa produção é uma cópia de “Doce Vingança” ( I Spit on Your Grave : 2010), o polêmico terror de Steven R. Monroe que fez muita gente se contorcer na frente da tela. Em outras palavras, o longa-metragem de estreia de Fargeat era muito bom, mas pecou por não trazer nadinha de novo. Curiosamente, “A Substância” guarda semelhanças estéticas, narrativas e estruturais com “A Vingança”. A sensação que o espectador tem no início da sessão do novo filme da francesa é de déjà vu. O público com mais repertório cinematográfico certamente irá pensar tão logo comece a exibição de “A Substância”: já vi essa história antes... Para mim, o segundo longa de Coralie Fargeat é uma mistura de “Homem Elefante” (The Elephant Man: 1980), clássico do suspense de David Lynch, “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard: 1950), obra-prima noir de Billy Wilder, e “Professor Aloprado” (The Nutty Professor: 1963), um dos maiores sucessos cômicos de Jerry Lewis. Por melhores que sejam as referências, ainda assim o peso da falta de originalidade do enredo do filme recém-lançado pesa. Aí alguém pode indagar: mas esse roteiro não foi premiado no Festival de Cinema de Cannes deste ano?! Respondo com a convicção dissimulada: foi, caro(a) e atento(a) leitor(a) da coluna Cinema , mas isso não se deu pela criatividade da história e sim pela belíssima construção narrativa. Se a originalidade não é o ponto forte do(s) roteiro(s) de Fargeat, a força de sua(s) trama(s) e a maneira como o(s) enredo(s) cinematográfico(s) é(são) apresentado(s) ao público são simplesmente sensacionais. Nesse sentido, o filme é realmente brilhante (e mereceu o troféu de melhor roteiro do badalado festival francês). “A Substância” é um filme de terror que traz muitos elementos satíricos , suspense psicológico ,  escatologias , reflexões filosóficas  e críticas sociais . É inegável o questionamento ao machismo na nossa sociedade, à opressão da indústria audiovisual ao padrão estético das mulheres e à obsessão feminina pela juventude e pela beleza eternas. Se esses aspectos não são novidade para ninguém minimamente esclarecido e se as peças da narrativa do longa-metragem de Coralie Fargeat podem ser vistas como clichês cinematográficos, ainda assim afirmo: temos aqui um filmão!!! É o bom e velho arroz com feijão que quando muito bem-feito, provoca sensações inesquecíveis. Não só saí embasbacado da sala de cinema (July, além de fantasmas e pinguins, agora não consigo dormir sozinho depois de ver filmes de mulheres monstruosas!), como voltei para Saavedra refletindo sobre uma série de temas. Se isso não é o efeito colateral de se assistir a uma ótima produção cinematográfica, não sei mais o que posso chamar de cinema de primeiríssima categoria. Gostei tanto da experiência que no dia seguinte estava enviando mensagens para vários amigos brasileiros assistirem a esse terror (abraços, Paulinho, Débora, Marcela, Luiz e Carlinha). O enredo de “A Substância” começa mostrando a construção de mais uma ala da calçada da fama de Hollywood. A nova estrela do cinema que é inserida no famoso piso de Los Angeles é Elisabeth Sparkle (interpretada impecavelmente por Demi Moore). Adorada pelos fãs, a atriz é linda, jovem e talentosa, uma combinação bombástica na indústria dos filmes. Contudo, o tempo é implacável e os anos passam rapidamente. Ao se reinventar, Sparkle consegue emprego em um programa de ginástica na televisão pelas manhãs. Esbanjando beleza, ótima forma e carisma, a personagem principal do longa-metragem vira a musa fitness dos Estados Unidos. Todos admiram seu corpo e comportamento em prol da vida ativa e dos hábitos saudáveis. O problema é que novamente o tempo (sempre ele!) segue sendo cruel para nossa linda heroína. Como diria Januário de Oliveira, ele é MUITO, MUITO CRUEL! Ao comemorar 50 anos, Elisabeth Sparkle é vítima de etarismo. Harvey (Dennis Quaid), o nojento presidente da emissora de televisão, acredita que a estrela está velha demais para comandar o programa que ela mesma consagrou por tantos anos. Onde já se viu uma mulher cinquentenária ser modelo de beleza e juventude na América contemporânea, hein?! Com essa visão machista, Harvey demite Sparkle sem piedade e começa a procurar uma substituta mais nova para o tradicional programa fitness de todas as manhãs. Deprimida e solitária, Elisabeth Sparkle não aceita o ocaso da carreira nem o peso da idade, por mais deslumbrante e talentosa que continue sendo. Vulnerável emocional e psicologicamente, ela se torna alvo fácil de uma companhia exclusivíssima que vende uma droga ao mesmo tempo misteriosa e poderosa. A aplicação do produto permite que seu usuário seja replicado. Em outras palavras, o cliente ganha uma versão mais jovem. A partir daí, a vida da pessoa se divide em uma semana com a réplica com menos idade e uma semana com a versão tradicional. Enquanto uma personalidade vive normalmente e usufrui do dia a dia, a outra personalidade fica dormindo e é alimentada por uma espécie de soro injetado diretamente no sangue. Não é preciso dizer que a protagonista do filme aceita sem titubear as regras e aplica em si a droga aparentemente milagrosa. A nova versão de Sparkle se chama Sue (Margaret Qualley). A moça, que beira os 20 anos, é realmente estonteante. Não por acaso, ela se candidata ao emprego da emissora de televisão e conquista sem dificuldade o posto de âncora do programa fitness. Surge, assim, uma nova estrela dos Estados Unidos. Sue revoluciona os exercícios aeróbicos e potencializa a audiência da atração matutina a níveis inimagináveis. Seu segredo é mesclar sexualidade, jovialidade e novos tipos de movimentos de ginástica. Não há corpo feminino mais admirado do que o dela no país. Todas as mulheres querem ser Sue. E todos os homens sonham em tê-la. Como novo símbolo sexual dos Estados Unidos, a moça é capaz de movimentar a publicidade e de catapultar a audiência como raras vezes se viu na história. Curiosamente, a maior adversária de Sue virá de onde menos se imagina. A única que não gosta da ascensão meteórica da jovem gatinha é Elisabeth Sparkle. Ao acordar para a sua semana de vida, a antiga estrela do cinema e da televisão sente ciúmes pelas conquistas instantâneas da versão mais jovial. Ao constatar que ninguém mais se lembra dela nem que a valoriza, Sparkle vai ficando mais e mais deprimida e com mais e mais raiva. A aparência que o espelho lhe mostra é injusta quando comparada às formas perfeitas de Sue. Assim, sair de casa e ter uma rotina convencional se torna um fardo pesado demais para a antiga atriz. A partir desse ponto do filme, inicia-se uma rivalidade feminina das mais perspicazes da história do cinema . A mulher disputa com ela mesma o protagonismo da própria existência. A versão mais velha e a versão mais jovem passam a se odiar. Nenhuma aceita o estilo de vida e as crenças da outra. Tentando a qualquer custo se sobressair em relação à rival, cada uma delas não mede esforço para ficar com mais tempo no controle da situação. Não é preciso dizer que essa disputa interna terá consequências terríveis para ambas. Quanto mais se confrontam, mais as duas metades perdem. O terror psicológico chega a níveis alucinantes e mostra o quanto a inveja e a competitividade femininas podem ser autodestrutivas.   “A Substância” possui cerca de 2 horas e 20 minutos de duração. É, portanto, uma produção maior do que a média em cartaz no circuito comercial. Gostei tanto da experiência cinematográfica que sequer senti o tempo passar durante a sessão. Prova disso é que saí inteiro da sala. Em títulos muito longos, costumo ficar com dores e mais dores por todo o corpo. Culpa, claro, da juventude perdida (em algum lugar que não consigo encontrar). De qualquer forma, somos bombardeados como espectadores por tantos sentimentos contraditórios durante esse filme que as horas voam na sala de cinema. Além disso, o ritmo narrativo é impecável (seu roteiro não foi premiado à toa, né?). O terror de “A Substância” é visceral e escatológico, uma combinação difícil de agradar aos melhores paladares. Porém, é preciso destacar que essa pegada se casou perfeitamente à proposta estética de Coralie Fargeat e à temática narrativa do seu novo filme. Fazia muito, mas muito tempo mesmo que não evitava olhar para a tela como fiz corriqueiramente nessa produção. Era um tal de desviar a vista para os lados ou fechar os olhos. Obviamente, o medo era de encarar de frente os absurdos que a câmera mostrava sem quaisquer receios morais e escrúpulos. Como falei, esse é um filme para os bravos e para as bravas (um perfil que percebi que infelizmente não integro). Quando digo que este é um filme para gente corajosa, não estou exagerando (apesar do exagero, como já cantava Cazuza lá no final dos anos 1980, ser uma de minhas características mais ruidosas). Na sessão em que estive presente (por sinal, o cinema estava quase lotado numa quarta-feira à noite), vi muitas pessoas saindo mais cedo ou dando uma pausa fora da sala. Juro que na hora não entendi o alucinante entra e sai (que prejudica os demais espectadores). Até pensei: eita pessoal mais mal-educado! Contudo, refletindo melhor agora, até faz sentido a fuga momentânea ou definitiva da frente da telona. Possivelmente, muitas pessoas não aguentaram encarar a experiência impactante de “A Substância”. Por mais besta (quase escrevi frouxo...) que eu seja, vale a menção que aguentei firme o tranco do longa-metragem até o final. Em tempos de overdose de operações bariátricas, de comprimidos de Ozempic tomados do café da manhã ao jantar, de cirurgias plásticas populares em todos os cantos do mundo, de cremes e mais cremes antienvelhecimento entupindo os lares e do uso indiscriminado dos filtros de imagem nas redes sociais, conferir os absurdos da vaidade humana que a ficção retrata com tanta propriedade não deve ser mesmo uma tarefa das mais fáceis para uma multidão! Por falar em falta de pudor do filme, nota-se pelos takes a obsessão pelos corpos femininos. Isso fica evidente na desinibição da câmera nos momentos de intimidade das mulheres no banheiro, na cama ou na hora da ginástica. Os closes e as tomadas de ângulo são totalmente corajosos (para não escrever despudorados), algo que certamente nem todas as atrizes consentiriam. Nesse caso particular, a presença de uma diretora ajudou no convencimento do elenco. Não se tratava de assédio ou perversão sexual de um cineasta babão e sim da proposta narrativa de “A Substância”. Para entender o que eu estou dizendo, tente contar quantas vezes Demi Moore e Margaret Qualley ficam inteiramente nuas (não estou reclamando, tá?). Ou quantas cenas têm as bundas das mulheres enfocadas (longe de mim chiar!). Esses números podem surpreender até mesmo os espectadores menos conservadores. Com tantas questões delicadíssimas trazidas pelo filme, ainda assim é possível soltar algumas risadas (nervosas) durante a sessão. O humor de Fargeat é carregado de sarcasmo e ironia, o que faz a plateia se sentir mal ao se divertir com os absurdos vivenciados pela protagonista de “A Substância”. Só notamos o quão inteligente e cômico é o roteiro quando analisamos seus detalhes. Por exemplo, o nome do dono da emissora é uma referência direta a Harvey Weinstein, o fundador da Miramax que foi condenado por abusos sexuais. O espelho gigantesco do banheiro que dá a tônica do drama de Elisabeth Sparkle lembra simbolicamente o da madrasta da Branca de Neve – só faltou a frase “Espelho, espelho meu, quem é mais bonita do que eu”. Até a passagem bíblica do nascimento de Eva aparece no instante em que a versão mais nova sai da espinha da mulher que tomou a droga (e não da costela do homem/Adão). É ou não é uma narrativa divertida e sagaz, hein?! Contudo, a chave do entendimento que faz de “A Substância” uma obra-prima da Sétima Arte contemporânea é a nova perspectiva da rivalidade feminina. Se o cinema  – como em “A Favorita” (The Favourite: 2018) – e a literatura  – como na “Tetralogia Napolitana” (Biblioteca Azul) de Elena Ferrante  – já mostraram embates memoráveis entre mulheres, não me lembro de ter assistido a um duelo tão íntimo vivido por uma mesma pessoa. O que o filme de Coralie Fargeat mostra é a disputa entre a antiga versão e a nova versão da mesmíssima personagem. No fim das contas, queiramos ou não, Sparkle e Sue são um único ser. Caso alguém possa questionar a validade desse embate das partes do mesmo indivíduo, lembro que isso é mais comum do que podemos supor. Nesse exato momento, meu eu do amanhã está brigando com o meu eu do presente. Enquanto o primeiro está pedindo para que eu pare de escrever esse post do Bonas Histórias , vá correr no parque, coma mais frutas e visite a bela vizinha paraguaia, o segundo insiste em trabalhar em longos textos, não quer se exercitar, adora devorar doces e prefere a braveza da milico da Província. Portanto, antes que você ache um absurdo a rivalidade retratada em “A Substância”, olhe para o seu umbigo. Suas versões também podem estar se digladiando e você ainda não percebeu a declaração de guerra.    Junto com o drama filosófico-existencial da protagonista, o filme também tece com perspicácia uma série de críticas sociais. As mais explícitas são o machismo e o etarismo da nossa sociedade. Enquanto as mulheres precisam ser jovens e lindas para sempre (do contrário, são trocadas por substitutas com a metade da idade), os homens, que se comportam quase sempre como predadores sexuais, podem envelhecer com naturalidade (note o perfil dos conselheiros da emissora de televisão que aparecem no final do longa-metragem, na festa de Ano-Novo). Nesse ponto, é chocante notar que se Elisabeth Sparkle, uma mulher belíssima, não gosta do que vê no espelho, imagine o que o restante da população feminina não pensa... Outros temas interessantes abordados nessa trama: a dinâmica perversa do show business, a solidão da sociedade contemporânea, a busca por soluções mágicas para problemas complexos, a melancolia da rotina moderna, a limitação do alcance da ciência, o peso da opinião alheia na vida das pessoas, o comportamento desumano de muitos homens etc. Isso foi o que me lembrei de cabeça. Deve ter mais um monte de assunto que o longa-metragem trata e que não me recordo agora. Além do excelente conteúdo da narrativa, “A Substância” se destaca pela inusitada experiência audiovisual. Curta o incrível jogo de luzes, cores e sons. As contradições luminoso-cromáticas e auditivas ficam mais evidentes quando há a alteração na rotina das versões da protagonista do filme. Sempre que a amargurada e arrependida Sparkle entra em cena, temos o predomínio de tons escuros e sombras, além de muito silêncio e ruídos desagradáveis. Quando a alegre e sonhadora Sue aparece, há uma avalanche de luzes, cores e músicas animadas. Além dessa dicotomia entre as duas facetas da personagem principal, é legal reparar no cuidado estético de vários elementos da produção e com o jogo de câmeras. Por exemplo, os frascos da droga possuem uma riqueza visual impressionante, assim como sua caixa e as mensagens escritas. Por vezes, eles tomam toda a tela, em um zoom que os transforma quase em personagens do filme. O corredor colorido que interliga o banheiro da mansão de Elisabeth Sparkle ao quarto não é por acaso. A overdose cromática indica os sonhos e o estado emocional da mulher. E o que falar da brincadeira de posicionar a câmera em ângulos inusitados. Achei espetacular esse efeito!!! A estética de “A Substância” é muito parecida a dos videoclipes da década de 1990. Aliando música (ou som) às várias imagens em sucessão, a cineasta conta rapidamente histórias que levariam muito tempo para serem narradas da maneira convencional. Gostei desse recurso. Ele foi tão bem usado que é outro elemento de contraste entre o dia a dia da versão antiga da protagonista (narrativa careta e lenta) com a rotina da versão jovial (narrativa moderna e alucinantemente rápida). A própria sonoridade do longa-metragem é um capítulo à parte. Há muitas passagens com ausência quase absoluta de música (ou canções de enorme sutileza que fazem a plateia achar que não há trilha sonora em várias cenas). Brinco ao chamar esse expediente de som de “Náufrago” (Cast Away: 2000), filme de Robert Zemeckis que tinha longos takes de total mudez. Claro que isso ocorre geralmente quando o drama da personagem de Demi Moore está sendo enfocado. Quando Margaret Qualley surge, o êxtase auditivo acompanha os estímulos visuais. Porém, o que talvez seja mais marcante é o conjunto de ruídos desagradáveis de “A Substância”. Eles são tão fortes (e, por que não, divertidos) que roubam a cena em vários momentos. Se você assistiu a “A Vingança”, o primeiro longa-metragem roteirizado e dirigido por Coralie Fargeat, notará a incrível semelhança visual e de recursos cinematográficos entre as duas produções da francesa. Isso é o que eu chamo de estética autoral – algo que só os grandes cineastas possuem. É muito legal descobrir as características marcantes do trabalho de Fargeat, mesmo com apenas dois longas-metragens no portfólio. Por tal perspectiva, “A Substância” dialoga intimamente com o conteúdo e, principalmente, com a experiência audiovisual de “A Vingança”. A beleza e a força de “A Substância” se dão também pela contundência das cenas. Esse é um filme com muitos instantes emblemáticos. Não por acaso, usei a palavra “muitos” na frase anterior. Entre as cenas memoráveis desta produção, posso citar: a inserção da estrela de Elisabeth Sparkle no hall da fama do cinema e a passagem rápida do tempo; a reunião no restaurante com o dono da emissora fazendo barulhos repugnantes ao comer camarão; a imagem da protagonista sendo trocada do outdoor na highway de Los Angeles; a divisão do corpo de Sparkle (ou seria o nascimento de Sue?) após a injeção da droga; o programa de estreia de Sue na televisão; o desespero da personagem principal ao se arrumar para um encontro amoroso e encarar a imagem de sua versão mais jovem; e a cena final de... Bem, essa última descrição vou ficar devendo. Não damos spoiler nos posts do Bonas Histórias , senhoras e senhores.   A atuação do elenco principal também é impecável. Muito tem se falado do desempenho absurdamente bom de Demi Moore, talvez o melhor de sua carreira. Concordo com os elogios. Contudo, saliento que Margaret Qualley e Denis Quaid também estiveram ótimos. Em muitos momentos, a dupla conseguiu ser até mesmo mais brilhante do que a protagonista. O que prejudicou um pouco o trabalho da atriz de “Ghost – Do Outro Lado da Vida” (Ghost: 1990), “Proposta Indecente” (Indecent Proposal: 1993) e “Striptease” (1996) é que da metade para o final do longa-metragem ela foi desaparecendo embaixo do figurino/composição de sua personagem (sem maiores explicações para não dar spoiler!). Nesse sentido, não deixa de ser curioso que em um filme em que se questiona o envelhecimento e a busca doentia pela beleza eterna no show business, a atriz principal conseguiu, enfim, mostrar seu talento artístico para a crítica cinematográfica e para o grande público. Pare para pensar. No auge da carreira, Demi Moore de 30 e pouquinhos anos sempre foi vista mais como símbolo sexual (numa rivalidade involuntária nos anos 1990 com a não menos deslumbrante Sharon Stone) do que uma ótima atriz. Agora como sexagenária, ela conseguiu provar seu valor (além de se manter deslumbrante). É curiosa essa contradição involuntária da nova produção de Coralie Fargeat. De pontos negativos, repito: “A Substância” flerta com as histórias de vários filmes. Além dos já citados clássicos de Lynch, Wilder e Lewis, me lembrei bastante durante essa sessão de “ Rock´n Roll - Por Trás da Fama” (Rock'n Roll: 2017), a excelente comédia dramática de Guillaume Canet. A diferença é que a produção francesa do namorado/marido de Marion Catillard retrata o mesmo problema pela perspectiva masculina e usando prioritariamente o humor. De resto, os enredos são quase idênticos. Se pegarmos a literatura  como comparação, há uma variedade de títulos com essa temática. Talvez a obra mais famosa seja o brilhante “O Retrato de Dorian Gray” (Penguin-Companhia), romance de Oscar Wilde publicado originalmente em 1891. Ou seja, esse é um tema que perturba a humanidade há muito, muito tempo. Outro aspecto que não gostei foi o desfecho. Se a narrativa caminha impecavelmente desde o início, seu desenlace se mostra aquém da qualidade do restante do longa-metragem. Enquanto o filme é excelente, a parte final é meramente protocolar. Além do mais, o fim de “A Substância” tem com o mesmo vício das tramas iniciais de Stephen King : com muitas explosões, sangue, caos e destruição. É o que chamo de fim apocalíptico, um recurso fácil que escritores e roteiristas possuem na maleta de ferramentas e que é usado quando se faltam soluções mais criativas. Mesmo assim, admito que a última cena dessa produção de Coralie Fargeat é de tirar o chapéu (e fecha o arco dramático de forma sublime). Outra questão que não poderia deixar de comentar nessa análise da coluna Cinema  é uma pequena contradição do enredo. Se Elisabeth Sparkle e Sue são as mesmas pessoas, elas não compartilhariam a consciência seja parcial ou total?! A impressão em alguns momentos do filme é que sim. Inclusive, a companhia que vendeu a droga para a protagonista vive batendo nessa tecla: vocês duas são apenas uma. Contudo, em nenhum instante o filme mostra esse tipo de interação e a partilha da memória. Por isso, fiquei com dúvida: as duas metades da laranja tinham ou não tinha alguma ligação de consciência, hein? Saí do cinema sem uma resposta clara para essa pergunta. Por fim, é preciso dizer que as personagens de “A Substância” são quase sempre caricatas (um problema que já havia notado no roteiro de “A Vingança”). Isso se aplica tanto as figuras masculinas (quase sempre desprezíveis, egoístas e nojentas) quanto as femininas (inseguras, fracas emocionalmente e fúteis) do novo filme de Fargeat. Como os leitores do Bonas Histórias  bem sabem, não gosto de personagens planas nem de acompanhar tramas em que elas se proliferam. O mundo real não é tão cartesiano nem tão maniqueísta quanto o retratado por histórias ficcionais que insistem no universo preto e branco. Assista, a seguir, ao trailer de “A Substância” (The Substance: 2024): Em suma, achei esse o melhor filme de terror do ano e um dos melhores longas-metragens que conferi em 2024 nas salas de cinema. Por mais brilhante que seja, ainda assim sei que as polêmicas de “A Substância” podem não agradar a todos os espectadores, principalmente as almas mais sensíveis. Quem tem estômago forte, gosta de ser desafiado intelectualmente e aprecia vivenciar experiência cinematográficas diferenciadas, acredito que irá adorar à nova produção de Coralie Fargeat. Para falar a verdade, fiquei fã desta cineasta francesa. Certamente, vou correr para o cinema quando ela lançar seu terceiro filme como diretora e roteirista (mesmo que não esteja tendo boas promoções nas redes de exibição que costume frequentar). Torçamos que seus trabalhos futuros tenham a qualidade do seu portfólio atual e mantenham a evolução narrativa que assistimos entre “A Vingança” e “A Substância”. O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema . E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Livros: Gosma Rosa - A intrigante distopia de Fernanda Trías

    Publicada em espanhol em 2020 e traduzida para o português em 2022, a ficção científica da escritora uruguaia mistura pandemia, caos ambiental e dramas familiares em um enredo extremamente premonitório . Ler ficção científica  é olhar para o futuro. Não se trata obviamente de realizar presságios ou adivinhações. Para o ótimo trabalho literário, usa-se os indicativos mais fortes da realidade para fazer suposições sobre o amanhã. Às vezes, as narrativas dos autores ficcionais chegam a ser assustadoramente certeiras. Nessa hora, pensamos boquiabertos: como eles conseguiram chegar tão próximos da verdade, hein?! É o que acontece, por exemplo, com “O Conto da Aia” (Rocco), distopia  de Margaret Atwood que descreve o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos da atualidade, “Não Verás País Nenhum” (Global), romance  clássico de Ignácio de Loyola Brandão  que é um alerta ecológico para o Brasil do século XXI, e “A Máquina Parou” (Iluminuras), novela de E. M. Forster que cita o desenvolvimento tecnológico que estamos visualizando recentemente. De tão reais, essas obras impressionam os leitores pelas semelhanças com nosso dia a dia e com a rotina contemporânea. Estou falando sobre isso na coluna Livros – Crítica Literária  de hoje porque no último final de semana fui positivamente impactado por um romance com tintas premonitórias. Estou me referindo a “Gosma Rosa”  ( Moinhos ), primeiro título ficcional da escritora uruguaia Fernanda Trías  a ser lançado no Brasil. O mais chocante dessa ficção científica é notar o timing impecável de sua publicação. No começo de 2020, quando o mundo vivia o confinamento provocado pela Covid-19, “Gosma Rosa” chegou às livrarias do país vizinho abordando um cenário pandêmico no qual as pessoas adoeciam, eram isoladas em hospitais e tinham a circulação restrita pelas cidades. Para quem ficou assustado com a coincidência entre o enredo da ficção  e a maior crise sanitária dos últimos 100 anos, aviso aos leitores do Bonas Histórias  que Trías foi ainda mais feliz nesta produção literária. Como um bom vinho Tannat, sua obra parece melhor com a passagem do tempo. Em “Gosma Rosa”, a autora apontou como causa do pandemônio social os efeitos da crise climática do planeta e não às ações do vírus que invade o sistema imunológico humano. Assim, o livro se torna ainda mais real para os brasileiros nesta incandescente temporada de 2024. Enquanto assistimos ao céu do nosso país ficar laranja, à lua se tornar vermelha, à chuva ficar preta e aos rios (que ainda não secaram totalmente) ganharem tonalidades inexplicáveis, sentimos na pele as temperaturas dispararem em pleno Inverno, vemos as florestas (e algumas cidades!) serem consumidas pelo fogo de incêndios incontroláveis e constatamos a mortandade da fauna e da flora nos vários biomas nacionais. Seria possível alguém ter previsto essa catástrofe há alguns anos? A romancista uruguaia conseguiu. Sua narrativa ficcional relata com fidedignidade esse mesmíssimo cenário. Incrível, né?! Publicado em meados de 2020 no Uruguai e no começo de 2021 nos demais países de língua espanhola, “A Gosma Rosa” é o quarto romance de Fernanda Trías. Ele sucedeu a “La Azotea” de 2001, “Cuaderno para un Solo Ojo” de 2002 e “La Ciudad Invencible” de 2014, nenhum com edição em português. No portfólio ficcional da autora de 47 anos ( su cumpleaños es el 12 de octubre, una fecha especial para alguien muy especial – beso Julie!!! ), ainda constam as coletâneas de contos “El Regreso” de 2012 e “No soñarás flores” de 2016, também sem tradução para nosso idioma. Nascida em 1976 em Montevideo, Trías é, além de escritora, tradutora e professora de Escrita Criativa na Universidad de los Andes. Vivendo há quase uma década em Bogotá, a capital da Colômbia, ela se consolidou como uma das principais figuras da Literatura Uruguaia Contemporânea  e da Ficção Literária Sul-americana . Não é errado enxergá-la como uma mistura, do outro lado do Río de la Plata, de Selva Almada, autora de “Não é Rio” (Todavia), e Mariana Enriquez, autora de “ Os Perigos de Fumar na Cama” . Pelo menos é assim que a vejo. “Gosma Rosa”, cujo título original é “ Mugre Rosa ”, foi produzido com o apoio do Prêmio SEGIB-Eñe-Casa de Vélasquez e com o incentivo do Programa de Escritor em Residência da Universidad de los Andes. O texto distópico ficou pronto em dezembro de 2019, três meses antes da América do Sul sofrer com os efeitos da Covid-19. Quando a população do continente e de boa parte do mundo precisou ficar confinada dentro de casa, o livro de Fernanda Trías que relatava justamente um perrengue pandêmico já estava indo para as gráficas. Por isso, a sensação de perplexidade que muitos leitores uruguaios tiveram ao ver a própria realidade transposta para as páginas da história recém-lançada. Este romance conquistou o Premio Sor Juana Inés de la Cruz na Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara (México) e o Premio Bartolomé Hidalgo (Uruguai). A edição brasileira teve a tradução de Ellen Maria Vasconcelos  e foi publicada pela Editora Moinhos  em julho de 2022, conforme apresentado no post dos lançamentos do quarto bimestre daquele ano  na coluna Mercado Editorial . Nos últimos anos, este livro ganhou versões em inglês, italiano, alemão e mais um punhado de idiomas. Atualmente, “Gosma Rosa” está à venda nas livrarias de vários países europeus, além da Espanha. Curiosamente, em Portugal, ele só está disponível no idioma original. Nenhuma editora lusitana se prontificou a adquirir os direitos autorais das obras da escritora uruguaia. Faço esse aviso antes que os leitores portugueses do Bonas Histórias  reclamem da dificuldade para encontrar a inexistente edição local. Talvez o caminho mais fácil para eles seja adquirir a versão do Kindle da Editora Moinhos . Morando em Buenos Aires há mais de um ano, essa foi a alternativa que precisei recorrer. Como uma boa distopia, o enredo de “Gosma Rosa” se passa numa data indeterminada do futuro e em um local não especificado. A trama é narrada em primeira pessoa por uma protagonista que também não tem o nome identificado. O que sabemos dela é que é uma mulher de mais ou menos 40 anos que vive em uma cidade litorânea assolada por uma pandemia. O litoral no caso é uma mescla de mar e rio – quem visitou Montevideo ou Buenos Aires entenderá essa confusão entre enxergar um mar quando se olha o horizonte quase infinito do Rio da Prata e se sentir num rio quando se adentra as águas doces da praia de cor barrenta. O drama da narradora-personagem é fruto tanto do caos externo quanto do caos interno. A cidade em que ela vive foi colapsada por um evento ambiental catastrófico. A poluição matou os peixes e fez com que as aves desaparecessem dos céus. O problema maior foi o surgimento de nuvens tóxicas em tom vermelho sobre o mar. Quando esses ventos sopram para a zona urbana do litoral, eles trazem doenças sérias que fazem a pele das pessoas cair e podem levá-las à morte. É tanta gente adoentada que foi criado hospitais para abrigar exclusivamente as vítimas da contaminação. Além disso, os bairros litorâneos foram abandonados por quase toda a população. Com medo das nuvens tóxicas, grande parte das pessoas se mudou para o interior. Para avisar da chegada dos ventos maléficos, foram criados protocolos. O governo controla a circulação dos cidadãos, a comunicação da mídia é supervisionada, áreas da capital do país foram evacuadas e hospitais de campanha são administrados com rigor. Ou seja, temos uma nação que é administrada quase que ditatorialmente. Esse é o cenário pós-apocalíptico que a protagonista precisa encarar. Por não querer abandonar sua casa perto do porto, a narradora é uma das poucas moradoras que permanecem vivendo no bairro perto do rio/mar. Ela visita rotineiramente a mãe, que se mudou para uma região outrora próspera da cidade, e o ex-marido, que está internado em um dos hospitais criados para a pandemia. Após a separação, Max foi atingido por uma nuvem tóxica, perdeu a pele e agora está na ala dos doentes crônicos. A única visita que recebe é da ex-mulher. Os dois se conheceram na infância, casaram-se e, após várias brigas matrimoniais, se separaram antes que tivessem tido um filho. Antes da pandemia, a personagem principal do livro trabalhava como editora de uma revista chamada Bem-Estar. Após o colapso climático, ela pediu demissão e agora atua como cuidadora de um menino obeso que tem uma síndrome rara. Ele sente uma fome incontrolável, capaz até de levá-lo à ingestão de lixo e de objetivos. Sem a supervisão integral de um adulto, a criança corre o perigo de se matar involuntariamente ao engolir o que não deve. Para distraí-lo da vontade de comer, a cuidadora precisa ter paciência e criatividade dia e noite. A mãe do menino, sem a menor didática para se relacionar com um filho tão diferente, preferiu contratar alguém para olhá-lo. Assim, o garoto passa longas temporadas na casa de sua cuidadora. Em troca deste trabalho, ela ganha um salário polpudo. É essa a rotina da protagonista do romance. Nas semanas que cuida do menino, ela fica fechada em casa com ele. Quando a mãe do garoto vem pegá-lo para uma curta temporada na residência familiar, ela aproveita para visitar a mãe e o ex-marido. Cada vez que circula pela cidade é uma aventura nova. Ao mesmo tempo que precisa ficar de olhos abertos nos ventos tóxicos e deve fugir da polícia que proíbe o ir e vir, ela tem que arranjar táxi (artigo cada vez mais escasso), comprar comida (vendida apenas em estabelecimentos clandestinos) e escapar da violência urbana (o caos ambiental e o abandono da cidade fazem obviamente o crime explodir). “Gosma Rosa” é um romance enxuto. Suas 226 páginas estão divididas em 26 capítulos. Levei aproximadamente quatro horas para concluir integralmente essa leitura no final de semana retrasado. Basicamente, fiz uma sessão vespertina de pouco mais de duas horas no sábado e uma sessão matutina de quase duas horas no domingo. Ou seja, essa é uma obra de leitura rápida que dá para se ir da capa à contracapa no mesmo dia. Quem tiver bom fôlego literário, tenha ciência que dá até para ler o mais recente romance de Fernanda Trías em uma única sentada. Contudo, creio que o melhor seja dividir a atividade em duas (como eu fiz), três ou quatro sessões. O primeiro elemento que gostaria de comentar nesta análise da coluna Livros – Crítica Literária  é a mistura de gêneros narrativos . “Gosma Rosa” mescla ficção científica, distopia, terror , romance noir , naturalismo , suspense dramático , drama pessoal , reflexões existencialistas  e thriller apocalíptico . Os leitores assíduos do Bonas Histórias  bem sabem que adoro obras literárias com versatilidade estilística. Por isso, aprovei o fato de a narrativa de Trías caminhar por distintas estantes ficcionais. Como prova desta pluralidade, gostaria de comentar com mais profundidade nos próximos três parágrafos o tipo de suspense da trama, o teor filosófico de algumas partes da obra e o tom naturalista do texto da escritora uruguaia. O suspense de “Gosma Rosa” não é sobre o que está acontecendo e sim sobre o que vai acontecer. É válido destacar essa distinção pois não há qualquer preocupação por parte da autora em explicar o que levou ao caos climático. Talvez nem mesmo as autoridades e as personagens do livro saibam exatamente o que está se passando com o planeta (qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência). Portanto, uma vez colocado o cenário pandêmico, a protagonista da ficção precisa se virar como pode. Aí está a tensão dramática da história. Por mais que a personagem principal viva olhando para o passado, é a indefinição de seu futuro o que atiça a curiosidade dos leitores do livro. Achei esse efeito narrativo espetacular. Todo início de capítulo tem um diálogo ou mensagem filosófica. O tom existencialista do texto é ora divertido, ora dramático. Para entender essa parte tragicômica do romance, é legal enxergar tais inserções como uma seção única (apesar de virem fragmentadas ao longo dos capítulos) e conectadas à trama principal da obra (quem seria o casal que vive discutindo, hein?). Certamente essas são questões que vão suscitar a curiosidade dos leitores mais exigentes. Juro que esse pedaço da ficção de Fernanda Trías me lembrou o conto “Colinas como Elefantes Brancos” de Ernest Hemingway, que li no primeiro semestre do curso da Pós-Graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz . Para completar o apanhado estilístico do livro (conceito que, segundo a Teoria Literária , também pode ser chamado de tipologia narrativa ), é nítido o tom naturalista do texto da escritora uruguaia. “Gosma Rosa” é quase uma obra neonaturalista por excelência. Suas páginas mostram a condição animalesca dos seres humanos e relatam as patologias das personagens ficcionais nas esferas biológicas, psicológicas e sociais. Exatamente por isso, talvez esta narrativa possa incomodar um pouco as almas mais sensíveis. Eu aprovei esse efeito no texto, pois a história se tornou mais potente, colorida e ácida. É impossível falar de “Gosma Rosa” e não comentar a sua atmosfera  sombria. Não por acaso, esse é o elemento narrativo  que salta aos olhos do público leitor desde as primeiras páginas. O clima  de terror é construído com névoas tóxicas, decadência ambiental, colapso social, sujeira, tristeza, solidão, bairros e cidades abandonadas, poluição, violência, zonas de exclusão, contaminação da água, do solo e do ar, restrição de circulação da população, governo opressor, comida artificial, famílias arruinadas, êxodo em massa, territórios do país abandonados, desaparecimento misterioso de animais, surgimento de doenças etc.      Como já disse, a narração  é em primeira pessoa. Ao contar a história, a protagonista mistura os diferentes acontecimentos do espaço temporal . Assim, presente e passado nos chegam embaralhados no texto. Não há, portanto, uma linha cronológica pré-estabelecida ou sequencial. Além disso, há a inserção de sonhos e de divagações da mente da personagem principal. Mesmo com esse pot-pourri narrativo, vale a pena dizer que o texto de Fernanda Trías é extremamente claro e convidativo. Dificilmente alguém ficará confuso por muito tempo ao acompanhar o relato da narradora-protagonista. Já que falei um pouco do espaço temporal , deixe-me contar sobre o espaço narrativo . Não por acaso, essa é uma das boas surpresas de “Gosma Rosa”. A cidade onde se passa a maior parte da ação é descrita como um local litorâneo. Contudo, muitas vezes há a citação de um rio ao invés de um mar. Então seria um município à beira-rio e não uma localidade à beira-mar? Sim e não. A explicação é que muito provavelmente a inspiração de cenário para o romance de Trías tenha sido Montevideo, sua cidade natal. É impossível não olharmos para a dimensão do Rio da Prata e não se sentir diante do mar. Portanto, não há equívoco nem confusão por parte da autora. A mistura de sensações é totalmente natural e fidedigna para os moradores às margens do rio com cara de mar. Diante do caos pandêmico e da destruição do ambiente natural, a personagem principal do romance segue com suas aflições de caráter pessoal. Também adorei isso! A protagonista vai se acostumando com a deterioração da cidade, do país e do meio-ambiente. O que ela não consegue superar são as aflições íntimas: o casamento arruinado (o ex-marido ainda assim exige atenção e cuidados, principalmente agora que está hospitalizado), a péssima relação com a mãe desde a infância, as lembranças amargas do passado, o sonho (ou a desculpa) de acumular dinheiro e o apego à criança que cuida. É legal o leitor notar as enormes contradições da figura central de “Gosma Rosa”. Ao mesmo tempo que diz o tempo inteiro que quer deixar o país e ir viver no Brasil – curiosamente uma vontade que constatamos em várias personagens da ficção argentina e uruguaia, como em “A Uruguaia” (Todavia), a divertida novela de Pedro Mairal –, ela não consegue largar sequer o bairro natal nem a rotina enfadonha, por piores que sejam no dia a dia. Andei notando que o Brasil permeia o imaginário rioplatense como um local quente, agradável, próspero, amigável e bom para se viver. Não é raro encontrarmos pessoas reais por essas bandas que sonham imigrar para nosso país (mesmo com o brasileiro que deixou São Paulo há pouco insistindo que essa não é a melhor ideia do mundo...). Esse talvez seja um traço cultural recente tanto dos habitantes da capital uruguaia quanto da capital argentina.   Outra questão marcante da personagem principal do livro de Fernanda Trías é a maternidade. Em “Gosma Rosa”, as figuras maternas permeiam todas as facetas do enredo. A protagonista tem uma péssima relação com a mãe desde pequena. Ela chega a considerar Delfa, a empregada doméstica e babá da infância, como sua segunda mãe – o que só prova o quanto a mãe biológica foi sempre ausente. De certa maneira, Delfa é a versão literária e uruguaia de Val (interpretação magistral de Regina Casé), a figura central do filme “Que Horas Ela Volta?” (2015). Para completar, a narradora chega aos 40 anos sem ter gerado filho. Não é por acaso o seu apego à criança com problemas psicológicos que tem que supervisionar. Ela não é apenas a cuidadora do menino gordo como se torna quase uma mãe postiça dele (portanto, assume o papel que um dia fora de Delfa). Além das incongruências da maternidade, acompanhamos uma protagonista extremamente solitária e angustiada. Por mais paradoxal que possa parecer, a maior tempestade acontece na cabeça e na alma da personagem central de “Gosma Rosa” e não no ambiente externo. É como se as pessoas do romance se acostumassem com os efeitos negativos do clima e da natureza, mas jamais conseguem superar as complicações emotivas e as frustrações pessoais. A realidade ficcional também merece destaque nesta análise do Bonas Histórias . No universo criado por Fernanda Trías, temos: autoritarismo (em períodos de crise, os governantes não resistem as tentações e se tornam déspotas), negacionismo climático e médico (diante do cenário de caos, tapar os olhos ou enfiar a cabeça no primeiro buraco do chão parece ser uma atitude irresistível de muitas pessoas) e propagação de fake news (os taxistas da trama têm uma forte pegada bolsonarista). “Gosma Rosa” também faz críticas sagazes à sociedade contemporânea. Em sua trama, Trías aborda: a obesidade, o descaso ambiental, as famílias desestruturadas, os casamentos efêmeros, a desconexão social, a aridez dos vários tipos de relacionamentos, a maternidade artificial, a solidão permanente, a força das companhias capitalistas, os alimentos industrializados etc. Boa parte desses elementos foi inserida de maneira sutil e inteligente no meio da narrativa. Assim, não temos nada muito panfletário nem acintoso.   A gosma rosa que foi parar no título do livro é um alimento industrial e artificial criado como substituto à carne in natura (uma heresia à cultura carnívora da Argentina e do Uruguai). Ele aproveita todas as partes do animal abatido e tem o aspecto e o sabor parecido a um chiclete de morango que foi muito mastigado. Obviamente, o nome do produto não é gosma rosa, mas ele é ironicamente chamado assim pela personagem principal da obra ficcional. Também é possível fazer o paralelo da cor e da textura do alimento industrial com a nuvem rosa e tóxica que vire e mexe invade a cidade causando doenças sérias. Foram poucos os elementos da narrativa  de “Gosma Rosa” que não gostei. Um deles foi a mistura dos discursos :  o direto e o indireto com o indireto livre. Essa última variação do diálogo ficcional  me pareceu esquisita no meio das duas mais comuns. Confesso que não gostei e a achei desnecessária. Dava muito bem para ter transformado o discurso indireto livre em discurso direto ou em discurso indireto simples. Entretanto, o que mais me incomodou foi a sensação de déjà vu. Sabe quando você percorre um romance e fica com a impressão de já ter lido algo parecido outras vezes? Pois foi exatamente o que senti durante a leitura de “Gosma Rosa”. Para mim, esse livro de Trías é uma mistura de “Não Verás País Nenhum” (pela denúncia ambiental), “Caixa de Pássaros” (Intrínseca), terror de Josh Malerman (pela indefinição do que causou o cenário apocalíptico), “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), ficção científica clássica de Ray Bradbury (pelo ambiente autoritário e pelo final ao mesmo tempo esperançoso e aberto) e “Sob a Redoma” (Suma das Letras), um dos melhores livros de Stephen King  (pelo reflexo social do pandemônio climático). Ou seja, apesar de muito bem escrito e das ótimas sacadas narrativas, ainda assim é uma obra pouco original. Mesmo com tais senões, é bom que se diga que “Gosma Rosa” é um título ficcional muito acima da média. Passada a pandemia da Covid-19, o que torna as páginas deste romance tão marcantes é o retrato ácido, soturno e realista da derrocada climática. Talvez não haja época mais propícia do que a atual para mergulharmos no drama mais premonitório de Fernanda Trías. Os brasileiros que estão padecendo do colapso ambiental ficarão certamente chocados em assistir o quão rapidamente a ficção apocalíptica se aproximou de sua realidade. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária . E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook , Instagram , Twitter e LinkedIn .

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em julho e agosto de 2022

    Saiba quais foram as 120 principais obras de ficção e de poesia que chegaram às livrarias brasileiras no quarto bimestre. Seguindo a tradição da coluna Mercado Editorial , venho ao Bonas Histórias para apresentar os principais livros de ficção e de poesia que foram publicados no Brasil no último bimestre . Contudo, não vou analisar qualitativamente os títulos recém-lançados em nosso país como costumo fazer. A proposta aqui é avaliar quantitativamente o trabalho das maiores editoras nacionais e dos mais destacados escritores (tanto os ficcionistas quanto os poetas). Afinal, o que nossos leitores receberam de novidades em julho e agosto de 2022 ? O que desperta mais atenção no público nas estantes das livrarias de Norte a Sul? E em qual direção o mercado editorial brasileiro caminha para agradar aos consumidores desse cantinho cada vez menos verde (e mais pobre) do planeta? Para começo de conversa, é preciso dizer que foram publicados 120 títulos ficcionais e poéticos nesse quarto bimestre. Obviamente, esse cálculo não abrange todos os lançamentos ocorridos no Brasil (além de excluir gêneros que não me interessam, como autoajuda, técnicos, religiosos e paradidáticos). Na minha conta (e pelo meu recorte temático), considerei apenas as principais obras das maiores editoras nacionais e dos mais destacados autores brasileiros e estrangeiros quando o assunto é FICÇÃO E POESIA . Por isso, se você é um(a) escritor(a) iniciante ou de pouca expressão não me envie mensagens, por favor, apontando possíveis descasos ou preconceitos da minha parte. Acreditem se quiser: mensalmente recebo reclamações nesse sentido de uma ou outra figura que nunca ouvi (ou li). Oh céus, oh vida, oh azar! Para quem fica bravo(a) comigo, respondo quase sempre diplomaticamente: ao invés de ficar revoltado(a) com o meu trabalho e o meu levantamento editorial, por que não me comunica previamente sobre seus lançamentos, né? Aí eu saberei que você existe e o que está fazendo de interessante. Simples assim! A partir do universo amostral de 120 livros recém-lançados, vamos às pinceladas quantitativas. Dois terços das publicações (80 títulos) são de autores estrangeiros. Ou seja, para cada obra da literatura brasileira que chega às livrarias do país (em julho e agosto foram apenas 40), duas outras são de literatura estrangeira . Pela perspectiva do placar internacional, está 2 a 1 para os artistas gringos. Na Copa do Mundo da Ficção e da Poesia, infelizmente, não somos (ainda) uma potência (nem mesmo quando jogamos em casa!). Pela perspectiva dos gêneros literários, metade dos lançamentos é de romances (60 títulos). Quem foi que disse que os romances estão morrendo, hein?! Das narrativas ficcionais longas, 45 são de autores estrangeiros e 15 são de escritores nacionais. Aí o placar fica um pouco mais elástico para eles: 3 a 1 para a Seleção do Mundo. No campeonato internacional dos romancistas, o predomínio é do time dos Estados Unidos. Dos 45 novos romances gringos que os leitores brasileiros receberam nesse bimestre, 23 (mais da metade!) são da literatura norte-americana . Alguém aí falou em imperialismo literário?!!! Analisando as outras categorias ficcionais, temos 32 livros infantojuvenis (13 nacionais e 19 estrangeiros), 11 novelas (6 brasileiras e 5 gringas) e 11 coletâneas de narrativas curtas (3 do nosso país e 8 de fora). Por esse novo recorte, nota-se que a literatura direcionada aos pequenos e aos jovens leitores tem muita força no Brasil (ela representa mais de 25% dos lançamentos). E é justamente nessa parte das estantes das livrarias que os autores brasileiros conseguem competir de igual para igual (lembram-se que essa análise é quantitativa, não qualitativa) com os escritores de fora. O jogo fica praticamente empatado em 1 a 1 no torneio da literatura infantojuvenil (perdermos apenas na prorrogação), placar similar ao da competição das novelas literárias (aí ganhamos nos pênaltis). Provando que não somos uma nação muito poética (pelo menos do ponto de vista literário), tivemos apenas 6 livros de poesia lançados nos últimos dois meses (3 obras nacionais e 3 títulos estrangeiros). Apesar da constatação do empate no confronto Brasil versus Mundo, o que chama atenção é o baixíssimo número de novas publicações desse gênero. E aí não culpem, por favor, as editoras pela falta de investimento no trabalho dos poetas. Elas só não lançam mais exemplares em versos porque, infelizmente, não temos um grande público leitor nessa área. Se tivéssemos mais consumidores, certamente teríamos mais novidades... Feitas as devidas divagações quantitativas, vamos à apresentação dos dados brutos do levantamento editorial do Bonas Histórias no quarto bimestre de 2022. Afinal, quais foram efetivamente os livros recém-lançados no mercado editorial brasileiro em julho e agosto? Então chega de papo furado e entremos de uma vez por todas na listagem dos novos títulos da ficção brasileira , da ficção internacional , da poesia brasileira e da poesia internacional feita pela coluna Mercado Editorial . FICÇÃO BRASILEIRA : “Os Perigos do Imperador” (Companhia das Letras) – Ruy Castro – Romance – 200 páginas. “A Filha Primitiva” (José Olympio) – Vanessa Passos – Romance – 176 páginas. “Estela Sem Deus” (Companhia das Letras) – Jeferson Tenório – Romance – 184 páginas. “Árvore Inexplicável” (Suma) – Carol Chiovatto – Romance – 328 páginas. “Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar” (Intrínseca) – Diego Bercito – Romance –216 páginas. “Vinco” (Companhia das Letras) – Manoela Sawitzki – Romance – 256 páginas. “Do Começo ao Fim” (Alfaguara) – Marcelo Rubens Paiva – Romance – 192 páginas. “Um Ponto de Interrogação é Metade de Um Coração” (Globo Livros) – Sofia Lundberg – Romance – 328 páginas. “A Vida Futura” (Companhia das Letras) – Sérgio Rodrigues – Romance – 168 páginas. “Humanos Exemplares” (Companhia das Letras) – Juliana Leite – Romance – 248 páginas. “Tom Vermelho do Verde” (Rocco) – Frei Betto – Romance – 208 páginas. “Diorama” (Companhia das Letras) – Carol Bensimon – Romance – 288 páginas. “Cartas para o Invisível” (Valentina) – Lincoln Aramaiko – Romance – 320 páginas. “Aurora em Dia Nublado” (Scortecci) – Fabio Porchat – Romance – 152 páginas. “Conflitos da Tabarana” (Publicação Independente) – Luís Fernando de Campos – Romance – 200 páginas. “Um Álbum Para Lady Laet” (Alfaguara) – José Luiz Passos – Novela – 128 páginas. “Mainá” (Todavia) – Karina Buhr – Novela – 136 páginas. “Newton” (Fósforo) – Luís Francisco Carvalho Filho – Novela – 136 páginas. “Corpo Desfeito” (Alfaguara) – Jarid Arraes – Novela – 128 páginas. “No Canto dos Ladinos” (Todavia) – Quito Ribeiro – Novela – 112 páginas. “A História Invisível” (Fósforo) – Sofia Nestrovski – Novela – 104 páginas. “Ficções Amazônicas” (Todavia) – Aparecida Vilaça e Francisco Vilaça Gaspar – Coletânea de Contos – 216 páginas. “Eu Já Morri” (Boitempo) – Edyr Augusto Proença – Coletânea de Contos – 96 páginas. “Meu Querido Vista Alegre” (Fontenele) – Marcelo Mendes Araújo – Coletânea de Contos e Crônicas – 80 páginas. “Confissões de Um Garoto Talentoso, Purpirinado e (Intimamente) Discriminado” (Arqueiro) – Thalita Rebouças – Infantojuvenil – 272 páginas. “A Cozinha Curiosa das Fábulas” (Companhia das Letrinhas) – Katia Canton – Infantojuvenil – 104 páginas. “Mary Anning e o Pum dos Dinossauros” (Companhia das Letrinhas) – Jacques Fux (autor) e Daniel Almeida (ilustrador) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Sovacos” (Globinho) – Johanna Thomé de Souza e Miguel Walcacer – Infantojuvenil – 48 páginas. “O Menino que Conhecia o Fim da Noite” (Rocco) – Miriam Leitão – Infantojuvenil – 48 páginas. “A Festa da Onça” (Brinque-Book) – Wilson Marques (autor) e Kássia Borges (ilustradora) – Infantojuvenil – 40 páginas. “Se Eu Tivesse Asas” (Brinque-Book) – Guilherme Karsten – Infantojuvenil – 36 páginas. “Dudu e o Mundo de Papel” (Companhia das Letrinhas) – Stela Greco Loducca (autora) e Rogério Neves (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Bruxa do Breu” (Companhia das Letrinhas) – Mari Bigio (autora) e Rodrigo Chedid (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Papaco e Lilico – A Floresta e o Circo” (Brinque-Book) – Adailton Medeiros (autor) e Bárbara Quintino (ilustradora) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Aliens – A Lição” (Companhia das Letrinhas) – Mari Bigio (autora) e Rodrigo Chedid (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. “A Sereia Garbosa” (Companhia das Letrinhas) – Mari Bigio (autora) e Rodrigo Chedid (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Uma Carta Para o Pirata” (Companhia das Letrinhas) – Mari Bigio (autora) e Rodrigo Chedid (ilustrador) – Infantojuvenil – 32 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL : “Uma Jornada Sem Fim” (Intrínseca) – R. J. Palacio (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Luzes do Sul” (Record) – Nina George (Alemanha) – Romance – 238 páginas. “O Livro dos Anseios” (Paralela) – Sue Monk Kidd (Estados Unidos) – Romance – 448 páginas. “Eliete – A Vida Normal” (Todavia) – Dulce Maria Cardoso (Portugal) – Romance – 256 páginas. “O Assassinato do Rei” (Suma) – Robin Hobb (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “O Mais Cruel dos Meses” (Arqueiro) – Louise Penny (Canadá) – Romance – 400 páginas. “Nós Somos Inevitáveis” (Arqueiro) – Gayle Forman (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “Segredos de Família” (Intrínseca) – Liane Moriarty (Austrália) – Romance – 544 páginas. “A Srta. Butterworth e O Barão Louco” (Arqueiro) – Julia Quinn (Estados Unidos) – Romance – 160 páginas. “Inglês, August – Uma História Indiana” (Carambaia) – Upamanyu Chatterjee (Índia) – Romance – 352 páginas. “Gosma Rosa” (Moinhos) – Fernanda Trías (Uruguai) – Romance – 226 páginas . “Família de Mentirosos” (Seguinte) – E. Lockhart (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Saboroso Cadáver” (Darkside) – Agustina Bazterrica (Argentina) – Romance – 192 páginas. “Para o Lobo” (Suma) – Hannah Whitten (Estados Unidos) – Romance – 392 páginas. “Derrubar Árvores – Uma Irritação” (Todavia) – Thomas Bernhard (Holanda) – Romance – 192 páginas. “Meridian” (José Olympio) – Alice Walker (Estados Unidos) – Romance – 280 páginas. “A Influencer” (Intrínseca) – Ellery Lloyd (Inglaterra) – Romance – 384 páginas. “Reino das Bruxas – Irmandade Mística” (Darkside) – Kerri Maniscalco (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Uma Noite na Itália” (Arqueiro) – Lucy Diamond (Inglaterra) – Romance – 368 páginas. “Um País Terrível” (Todavia) – Keith Gessen (Rússia/Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Tudo em Vão” (DBA) – Walter Kempowski (Alemanha) – Romance – 440 páginas. “A Estrada Lincoln” (Intrínseca) – Amor Towles (Estados Unidos) – Romance – 576 páginas. “A Hipótese do Amor” (Arqueiro) – Ali Hazelwood (Itália) – Romance – 336 páginas. “A Guerra da Papoula – Voluma 1” (Intrínseca) – R. F. Kuang (China/Estados Unidos) – Romance – 512 páginas. “O Tumor” (Tabla) – Ibrahim Al-Koni (Líbia) – Romance – 192 páginas. “O Teste do Casamento” (Paralela) – Helen Hoang (Estados Unidos) – Romance – 368 páginas. “A Morte de Vivek Oji” (Todavia) – Akwaeke Emezi (Nigéria) – Romance – 224 páginas. “A Pena Mágica de Gwendy” (Suma) – Richard Chizmar (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “Casas Vazias” (Dublinense) – Brenda Navarro (México) – Romance – 160 páginas. “O Medo Mais Profundo” (Arqueiro) – Harlan Coben (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Caso das Pernas Brancas” (Arqueiro) – Jacqueline Winspear (Inglaterra) – Romance – 336 páginas. “O Armário de Bebidas” (Globo Livros) – Leslie Jamison (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Fim dos Homens” (Verus) – Christina Sweeney-Baird (Inglaterra/Escócia) – Romance – 420 páginas. “A Filha do Guardião do Fogo” (Intrínseca) – Angeline Boulley (Estados Unidos) – Romance – 432 páginas. “Sequestros Na Noite” (L&PM Editores) – Andrea Camilleri (Itália) – Romance – 232 páginas. “Eu Beijei Shara Wheeler” (Seguinte) – Casey McQuiston (Estados Unidos) – Romance – 352 páginas. “A Promessa” (Record) – Damon Galgut (África do Sul) – Romance – 308 páginas. “Vergonha” (Record) – Brittainy Cherry (Estados Unidos) – Romance – 420 páginas. “A Última Filha” (Bazar do Tempo) – Fatima Daas (França) – Romance – 192 páginas. “A Última Livraria de Londres” (Arqueiro) – Madeline Martin (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Um Pequeno Gesto de Gentileza” (Arqueiro) – Lucy Dillon (Inglaterra) – Romance – 416 páginas. “Os Escolhidos – Volume 1” (Intrínseca) – Veronica Roth (Estados Unidos) – Romance – 464 páginas. “O Involuntário Ato de Respirar” (Dublinense) – JJ Bola (Congo) – Romance – 320 páginas. “Agente Oculto” (Globo Livros) – Mark Greaney (Estados Unidos) – Romance – 336 páginas. “Sozinho Para Sempre” (L&PM Editores) – Antonio Manzino (Itália) – Romance –352 páginas. “Advogado do Diabo” (Darkside) – Andrew Neiderman (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “O Grande Deus Pã” (Todavia) – Arthur Machen (País de Gales) – Novela – 120 páginas. “Flores de Verão” (Tinta-da-China Brasil) – Tamiki Hara (Japão) – Novela – 136 páginas. “A Floresta” (Darkside) – Thomas Ott (Suíça) – Novela/Conto – 64 páginas. “Noite no Paraíso” (Companhia das Letras) – Lucia Berlin (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 304 páginas. “Flecha – Histórias” (Editora 34) – Matilde Campilho (Portugal) – Coletânea de Contos – 352 páginas. “Colchão de Pedra” (Rocco) – Margaret Atwood (Canadá) – Coletânea de Contos – 304 páginas. “Pactos” (Darkside) – Edgar Allan Poe, Nathaniel Hawthorne, Mark Twain, Washington Irving, Stephen Vincent Benét e Harriet Beecher Stowe (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 208 páginas. “Um Cisne Selvagem e Outras Histórias” (Bertrand Brasil) – Michael Cunningham (Estados Unidos) – Coletânea de Contos – 120 páginas. “Não Me Pergunte Jamais” (Âyiné) – Natalia Ginzburg (Italia) – Coletânea de Contos e Crônicas – 256 páginas. “Por Que Eu Escrevo” (L&PM Editores) – George Orwell (Inglaterra) – Coletânea de Ensaios e Crônicas – 216 páginas. “Vai Doer” (Intrínseca) – Adam Kay (Inglaterra) – Coletânea de Crônicas – 272 páginas. “A Coroa de Ossos Dourados – Volume 3 de Sangue e Cinzas” (Galera) – Jennifer L. Armentrout (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 672 páginas. “O Reino dos Deuses – Volume 3 de Legado” (Galera) – N. K. Jemisin (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 624 páginas. “Supernova” (Rocco) – Marissa Meyer (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 512 páginas. “Heartstopper: De Mãos Datas – Volume 4” (Seguinte) – Alice Oseman (Inglaterra) – Infantojuvenil – 384 páginas. “Alguns Erros Cometidos” (Alt) – Kristin Dwyer (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 368 páginas. “Toda a Minha Ira” (Verus) – Sabaa Tahir (Inglaterra/Estados Unidos) – Infantojuvenil – 364 páginas. “Em Busca de Júpiter” (Alt) – Kelis Rowe (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 336 páginas. “Tudo que Eu Posso Ver” (Verus) – Marci Lyn Curtis (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 328 páginas. “Mansão Gallant” (Galera) – V. E. Schwab (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 320 páginas. “Animais Fantásticos – Os Segredos de Dumbledore – O Roteiro Completo” (Rocco) – J. K. Rowling (Inglaterra) e Steve Kloves (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 288 páginas. “Narval – O Unicórnio dos Mares” (Caveirinha) – Ben Clanton (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 64 páginas. “Balas Mágicas” (Companhia das Letrinhas) – Heena Baek (Coreia do Sul) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Como Ter Um Amigo Fantasma” (Caveirinha) – Rebecca Green (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Sou Mais Eu” (Caveirinha) – Richard Brehm (Estados Unidos; autor) e Rogério Coelho (Brasil; ilustrador) – Infantojuvenil – 48 páginas. “Guarda-chuva Amarelo” (Companhia das Letrinhas) – Ryu Jae-soo (Coreia do Sul) – Infantojuvenil – 36 páginas. “Uma Raposa” (Companhia das Letrinhas) – Kate Read (Inglaterra) – Infantojuvenil – 36 páginas. “A Marcha das Baleias” (Brinque-Book) – Nick Bland (Austrália) – Infantojuvenil – 32 páginas. “É Meu” (Globinho) – Laure Monloubou (França) – Infantojuvenil – 32 páginas. “Meu Corpo Pode” (Galerinha) – Katie Crenshaw e Ady Meschke (Estados Unidos) – Infantojuvenil – 32 páginas. POESIA BRASILEIRA : “Letras” (Companhia das Letras) – Caetano Veloso – 512 páginas. “O Amor Imaginário” (7Letras) – Denise Emmer – 116 páginas. “Fim de Verão” (Companhia das Letras) – Paulo Henriques Britto – 96 páginas. POESIA INTERNACIONAL : “Você Fica Tão Sozinho Às Vezes que Até Faz Sentido” (L&PM Pocket) – Charles Bukowski (Alemanha/Estados Unidos) – 320 páginas. “Ondula, Savana Branca” (Círculo de Poemas) – Ruy Duarte de Carvalho (Angola) –216 páginas. “Bendita Seja a Filha Criada Por Uma Voz Em Sua Cabeça” (Companhia das Letras) – Warsan Shire (Somália/Inglaterra) – 152 páginas. Em outubro, voltarei à coluna Mercado Editorial para apresentar os lançamentos do quinto bimestre de 2022. Até lá, não perca as demais novidades do Bonas Histórias . Enquanto o mundo gira e o tempo corre, você já sabe, a gente lê. Fazer o quê?! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. 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  • Livros: Fahrenheit 451 - A clássica ficção científica de Ray Bradbury

    "Fahrenheit 451" ( Biblioteca Azul ) é um clássico da ficção científica. Eu conhecia este livro, mas ainda não tinha tido a oportunidade de lê-lo. Aproveitando uma promoção da Livraria Cultura ocorrida neste último final de semana (o livro estava logo na entrada da loja, com um desconto de 20% e gritava por mim: "Me compre, me compre, me compre!"), adquiri a obra. Devorei a publicação em três dias (ou melhor em três noites). Escrito pelo norte-americano Ray Bradbury no começo dos anos de 1950 (a primeira publicação é de 1953), no período da Guerra Fria, "Fahrenehit 451" faz parte da lista dos principais livros do seu gênero, ao lado de "Revolução dos Bichos" e "1984" de George Orwell, de "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, de "Fundação" de Isaac Asimov e do "Guia do Mochileiro das Galáxias" de Douglas Adans (todos estes estão entre meus favoritos). Ray Bradbury descreve a cidade de Fahrenheit 451 (daí o nome do livro), localizada nos Estados Unidos em um futuro não tão distante (a história se passaria em um período de tempo próximo ao dos nossos dias atuais). A grande particularidade da cidade futurista está no fato dos seus habitantes serem proibidos de ler livros. Ler é extremante perigoso e contraprudente em uma sociedade totalitária e normatizada como aquela. Para entreter os habitantes da nação, o uso da televisão é massificado. A programação é variada e permite a interação dos telespectadores com os artistas e entre os próprios telespectadores. Basicamente as pessoas não possuem famílias ou amigos com quem conversar (conversar também pode ser muito perigoso). As relações são pautadas quase que exclusivamente pela programação da televisão, tornando os indivíduos fúteis e emocionalmente vazios. Neste cenário, o autor apresenta o personagem principal da obra, Guy Montag. Montag é um bombeiro. Entretanto, ao invés de apagar incêndios (não existe mais incêndios nas cidades do futuro), os bombeiros são responsáveis por localizar livros (item proibido na sociedade moderna), prender os seus usuários (criminosos) e colocar fogo nas obras localizadas (destruindo os itens ilegais). Assim, evitam que o conhecimento se propague como praga pela sociedade. A vida de Guy Montag transcorre normalmente, tanto no âmbito profissional (é um bombeiro cumpridor dos seus deveres) quanto no pessoal (sua esposa adora ver programas na televisão e interagir com artistas e outros telespectadores). As coisas começam a mudar para o protagonista quando ele conhece uma adolescente chamada Clarisse. A moça é diferente da maioria das pessoas. Clarisse gosta de ler, sabe conversar, tem emoções e parece não ter medo da sociedade. A curiosidade dela pelo conhecimento é inspiradora. Além disso, o bombeiro começa a ficar intrigado com as pessoas que ousam desafiar as leis e mesmo assim mantêm gigantescas bibliotecas em suas casas. Qual o efeito e a importância dessas obras na vida das pessoas para elas correrem o risco de serem executadas (essa era a pena para quem fosse pego com um livro)? Os livros deveriam conter coisas muito importantes para valer a pena as ameaças sofridas, começa a cogitar o personagem principal. A aproximação com os livros representará mudanças significativas na forma de pensar e agir de Guy. A vida dele sofrerá uma revolução, provocando incertezas e trazendo perigos. Praticamente, o personagem passa a desafiar a política estabelecida em sua sociedade. De profissional da segurança pública, Montag se torna um criminoso. De bom marido, ele se torna um péssimo companheiro. "Fahrenheit" é uma ficção científica do tipo distopia. A distopia é a descrição de uma localidade fora da história e da geografia convencional, em que as tensões sociais e de classes são evitadas por meio da violência governamental (exemplo o livro "1984") ou pelo controle social (no caso, o livro "Admirável Mundo Novo"). De certa forma, a distopia é o contrário de uma utopia. Ao invés de descrever um futuro idílico, ela retrata um cenário sinistro para o amanhã. Ray Bradbury conseguiu retratar nesta que é a principal obra de sua carreira (a história foi levada para o cinema por François Truffaut e para o teatro nas décadas seguintes) uma pesada crítica à repressão política e a superficialidade da era da imagem. "Fahrenheit" é um retrato sintomático da última década do século XX. Trata-se de uma leitura instigante e muito irônica. O livro é pequeno (pouco mais de 200 páginas, em letras grandes e grande espaçamento entre as linhas) e de rápida leitura. Vale a pena lê-lo e conhecer essa história pouco convencional. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias ? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros . E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook . #RayBradbury #Distopia #FicçãoCientífica #RomanceDistópico #LiteraturaNorteAmericana #literaturaclássica

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