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  • Livros: Como Eu Era Antes de Você - O romance mais vendido em 2016 no Brasil

    Durante todo o ano de 2016, a escritora e jornalista inglesa Jojo Moyes esteve na lista dos livros mais vendidos do Brasil. Sua obra de destaque é "Como Eu Era Antes de Você" (Intrínseca). O romance foi adaptado para o cinema pela diretora Thea Sharrock e o filme foi lançado no circuito comercial em junho do ano passado. A chegada desta história às salas de cinema alavancou ainda mais a vendagem do livro nas livrarias. Segundo o Publishnews, ranking mais confiável do mercado editorial brasileiro, "Como Eu Era Antes de Você" foi o livro mais comercializado no país em 2016. No terceiro lugar desta lista aparece "Depois de Você" (Intrínseca), continuação desta trama. Ou seja, 2016 foi o ano de Jojo Moyes no Brasil. Desejando conhecer os segredos deste sucesso editorial, li no final de semana passado o principal best-seller da escritora inglesa.. "Como Eu Era Antes de Você" apresenta o relacionamento ora conturbado, ora apaixonante, entre duas pessoas com características bem peculiares. Louisa Clark tem 26 anos, mora em uma pequena cidade turística da Inglaterra e parece não ter muitas ambições na vida. Ela largou os estudos há muito tempo e namora, nos últimos sete anos, um rapaz que não dá muita bola para ela. A moça também se contenta em trabalhar em empregos simples, se diverte assistindo à televisão com a família e gosta de se vestir da maneira mais esdrúxula possível. A vida de Louisa sofre uma reviravolta quando ela é despedida do café onde trabalhava como garçonete. Com o fechamento do estabelecimento, a jovem precisa procurar um novo emprego. Precisando de dinheiro para sustentar a família pobre, Louisa aceita trabalhar como cuidadora de um rapaz tetraplégico. Will Traynor tem 35 anos e é o filho mais velho de um casal milionário. Inteligente, culto e elegante, mas muito arrogante e genioso também, o rapaz que antigamente era um ambicioso executivo em Londres e um amante de esportes radicais, hoje está preso em casa a uma cadeira de rodas. Sem qualquer movimento no corpo, Will padece há dois anos na nova condição, o que o deixa profundamente mal-humorado e infeliz. Tudo o que o rapaz deseja é praticar a eutanásia e acabar logo com aquela vida sofrida. É de Will que Louisa irá cuidar no período estipulado de seis meses. A mãe de Will incumbiu Louisa de reanimar o filho. A jovem deverá mostrar ao patrão os prazeres da vida e fazê-lo desistir dos planos mórbidos que vem alimentando há tanto tempo. O relacionamento entre Will Traynor e Louisa Clark é um choque cultural e filosófico para ambos. Com características totalmente distintas, tanto o paciente quanto a cuidadora passam a influenciar e a ser influenciado um pelo outro. Aos poucos, Will vai retomando o prazer pelas coisas simples da vida, enquanto Louisa compreende ser possível sonhar mais alto e ter ambições maiores. A relação profissional entre a dupla rapidamente transforma-se em um sentimento de amizade e de admiração mútua. Quando a amizade se transforma em paixão, os destinos dos protagonistas desta história sofrerão uma considerável alteração de curso. Publicado pela primeira vez, em 2012, na Inglaterra, "Como Eu Era Antes de Você" é um livro de 318 páginas. Com uma trama bem amarrada e de leitura fácil, é possível lê-lo em três noites. Jojo Moyes consegue construir um romance envolvente e cativante em que percorremos avidamente seus capítulos em busca do final da narrativa. São dois os principais méritos desta obra. O primeiro aspecto a ser ressaltado é a riqueza na construção das personagens. Aqui o realismo é acentuado e todos os envolvidos na história possuem traços marcantes e uma enxurrada de defeitos, inclusive o casal de protagonista. Esta característica do enredo dá mais veracidade à trama e, curiosamente, nos aproxima mais das personagens. Além disso, o abuso na caricaturização dos personagens por parte da autora confere elementos de humor e de leveza à narrativa. Impossível não se divertir com as criações amalucadas que desfilam pelas páginas do livro. Louisa, por exemplo, é uma heroína com comportamentos totalmente únicos na história da literatura. Ela se parece mais com uma protagonista de uma trama de humor pastelão do que de um livro de amor. Sua falta de habilidade para se vestir reflete muito da sua fraca condição psicológica e do seu alto grau de infantilidade. Will Traynor, por sua vez, não se enquadra no perfil de mocinho tradicional. Suas condições físicas (ou a falta delas) e, principalmente, seu comportamento de anti-herói surpreendem o leitor (principalmente no início). Impossível não se emocionar nem torcer por este casal completamente diferente de todos os outros pares românticos da literatura. O segundo aspecto interessante desta obra está no fato de Jojo Moyes não abrir mão do relato realista e do pragmatismo. O drama relatado no livro é totalmente verossímil e seus desdobramentos são completamente lógicos e sem invencionices. Ao invés de indicar uma falta de talento por parte da escritora, esta escolha narrativa demonstrou todo o talento de Moyes. A autora, em nenhum momento, utiliza de escapismo, de falsas esperanças e de recursos irreais para pontuar sua triste história (o que é bem comum de encontrarmos em romances com esta temática de superação e de limitações). Por isso, a forte carga dramática e os elementos reflexivos gerados ao final de "Como Eu Era Antes de Você". Moyes é bem perspicaz e detalhista em retratar o drama dos protagonistas, sem abrandar nem recair para desfechos ultrarromânticos e piegas. Por isso, gostei muito do final. Ele chega a surpreender por ser muito lógico e extremamente natural. Além disso, a autora não leva seu romance ao dramalhão sentimental. Apesar de mergulhar em um relato muito triste, o leitor raramente derrama lágrimas durante a leitura das páginas da publicação (pelo menos foi assim comigo). "Como Eu Era Antes de Você" é um livro gostoso de lerr e que cumpre bem a sua função de entretenimento. Ele chega até a gerar, no final, certa reflexão filosófica sobre o valor da vida e sobre nosso comportamento no dia a dia. Jojo Moyes sabe construir uma história delicada, envolvente e muito criativa, com personagens únicos. Sem sombra de dúvida, trata-se de uma talentosa escritora da nova geração deste gênero de ficção. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #JojoMoyes #LiteraturaInglesa #Romance #Drama

  • Livros: O Guarani - A criação de um mito nacional

    Peri e Ceci são dois dos mais famosos personagens da cultura brasileira. O sucesso de "O Guarani" (Paulus), publicado inicialmente em 1857, primeiro em folhetins e depois em livro, transformou seu autor em um dos escritores mais populares da sua época. Curiosamente, José de Alencar escreveu obras mais importantes. "Senhora", por exemplo, é considerado o seu principal romance, obra-prima do Romantismo nacional (este é o meu livro favorito deste período). Dentro da temática indianista, "Iracema" é muito superior em qualidade ao livro "O Guarani". Contudo, foi a história do índio Peri e da jovem filha de português Ceci que encantou o público, transformando estes personagens nos primeiros representantes da genuína literatura brasileira. Este romance de José de Alencar serviu de inspiração para outros artistas nacionais. Poucos anos depois do seu lançamento, em 1870, "O Guarani" foi adaptado à ópera por Carlos Gomes. Esta foi a criação mais famosa do músico. No século XX, o livro também foi levado ao cinema, à televisão e ao teatro com bastante êxito. A primeira versão desta trama a chegar ao cinema é datada de 1912, quando o cinema ainda era mudo. "O Guarani" foi o segundo romance publicado por José de Alencar. A obra de estreia foi "Cinco Minutos", que nunca teve grande repercussão entre o público e a crítica. Pertencente ao gênero romântico e sendo do tipo indianista, "O Guarani" representou um importante passo para a construção de uma literatura verdadeiramente brasileira. Ao elevar o índio ao protagonismo das tramas ficcionais, ao transformá-lo em herói e ao descrever as belezas do Brasil, o autor rompeu definitivamente com o perfil das narrativas portuguesas. Pela primeira vez na história, a grande colônia propunha um tipo de literatura único e singular em relação ao praticado até então na metrópole. A inspiração foi a figura romântica do "bom selvagem", criada pelo francês Jean-Jacques Rousseau no século anterior. Neste romance, a família Mariz vive em uma fortaleza particular construída em uma remota região entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. A história se passa na primeira década do século XVII, período inicial de colonização do Brasil. Ao redor da construção só há mata e tribos indígenas selvagens. O povoado mais próximo fica há dias de caminhada. O patriarca da família Mariz é Dom Antônio, um fidalgo português orgulhoso da sua nacionalidade. Ele vive com a esposa Dona Lauriana, uma dama paulistana. O casal teve dois filhos: Cecília e Diogo. Com a família, ainda mora Isabel. Considerada sobrinha de Dom Antônio, a moça é na verdade sua filha bastarda, fruto de um relacionamento extraconjugal do português com uma índia. Cecília e Isabel se dão muito bem, se comportando com legítimas irmãs. A proteção do isolado lugar é garantida por uma legião de bandeirantes que habita a fortaleza conjuntamente com a família Mariz. Os valentes homens são os responsáveis por fazer expedições ao interior do país em busca de minerais preciosos. Nestas viagens, eles aproveitam para abastecer a remota casa com todos os artigos e alimentos que ela necessita. Além disso, protegem a localidade da invasão e da agressão indígena. Os dois bandeirantes de maior destaque do grupo são Dom Álvaro de Sá e Loredano. Enquanto o primeiro é o chefe dos aventureiros e é leal às ordens de Dom Antônio de Mariz, o segundo é um traidor que desejava dar um golpe na família proprietária do lugar. Os dois rapazes também são apaixonados por Cecília. A linda moça de dezoito anos, loira e de olhos azuis, é a típica mulher romântica: lânguida, passional, idealista e fútil. Ela não ama nenhum dos dois bandeirantes. A jovem ainda não fora picada pelo "mosquito do amor". Cecília é protegida por um índio chamado Peri. O rapaz selvagem vive nas redondezas da fortaleza e venera a filha do fidalgo português com uma paixão religiosa. O rapaz chama a moça por um apelido carinhoso: Ceci. A palavra é oriunda do tupi-guarani e significa "aquela que provoca dor e desgosto". Peri faz tudo o que a jovem deseja, se comportando como um escravo leal a sua senhora. Ele encara o perfil do índio romântico: leal, corajoso, integrado perfeitamente à natureza, imbatível e de coração nobre. Será Peri o responsável por proteger Ceci dos planos cruéis de Loredano e de um grande ataque perpetrado por índios inimigos à fortaleza da família. "O Guarani" é um livro cativante. Para quem considera os romances românticos parados, sem aventura e desprovidos de ação, José de Alencar irá surpreender até mesmo os leitores mais reticentes. À medida que você começa a lê-lo, você não quer mais parar. O que atrai a leitura é a grande quantidade de acontecimentos paralelos. Esta característica confere muita ação e dinamismo à trama. Por exemplo, enquanto a fortaleza é alvo da ira de indígenas ferozes, há conspiração no seio dos bandeirantes responsáveis por dar segurança ao local. Ao mesmo tempo, existe um plano para raptar Cecília Mariz e há intrigas visando a expulsão de Peri da fortaleza. Tudo isso embalado com desencontros amorosos envolvendo variados personagens. O maniqueísmo, como ocorre na maioria das histórias românticas, é acentuado. Todas as personagens são do tipo plano. Os violões são repulsivos e incorrigíveis. Os heróis são descritos como pessoas perfeitas e com espírito nobre. O embate entre o bem e o mal acontece desde o início e vai até o final. A passionalidade também é exacerbada. Os ideais românticos forçam homens e mulheres a atitudes extremas. A morte geralmente é vista como a maior prova de amor. O que é curioso nesta história é o tipo de relacionamento entre Cecília e Peri. Os dois se amam, durante quase todo o livro, de uma maneira singular para uma obra romântica. Ela vê o índio como seu leal protetor e, depois, como um irmão. Ele, por sua vez, venera a moça como uma figura sacra. Não há desejo de nenhuma das partes para a formação de um casal típico. Eles não se veem como amantes e não enxergam o outro como um possível parceiro amoroso. Isso só irá acontecer no finalzinho, depois de quase 300 páginas de comportamento extremamente imaculado e inocente entre os protagonistas. Ou seja, o índio demora até se tornar efetivamente um homem aos olhos da moça. E Cecília demora até ser encarada como uma mulher de fato por Peri. Muito provavelmente, tal recurso do autor seja por causa do preconceito da época. Foi necessário preparar o leitor do século XIX para um tipo de relacionamento não habitual na literatura (moça branca com um índio). Além disso, os personagens principais representam a integração do brasileiro típico (indígena) com o europeu colonizador (a filha do português). Esta união não foi um processo célere durante a história do país e do continente americano. Foram necessários séculos para uma convivência minimamente harmônica. O final é interessante. Juro que me lembrei do Stephen King, um adepto de desfechos explosivos, trágicos e sangrentos. Quem diria que José de Alencar tivesse semelhanças com o escritor norte-americano da atualidade, hein? O final de "O Guarani" também permite uma dupla interpretação. O encerramento do romance é do tipo aberto. O que acontece de fato com os protagonistas? É esta a questão que o leitor se faz quando fecha o livro pela última vez. Eu tenho uma opinião a este repeito. Só não posso contar aqui porque estragaria a leitura de quem ainda não o fez. O que posso afirmar é que "O Guarani" é uma obra muito interessante e bastante divertida. Li o livro em dois dias, tamanho foi meu interesse. Trata-se de uma leitura que indico para todos os públicos. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? 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  • Filmes: Assassin's Creed - Os games invadem os cinemas

    Houve um tempo em que a indústria cinematográfica era muito maior do que a indústria de games. Naquela época, muitos jogos eram criados a partir de sucessos vindos da telona. Lembro, por exemplo, que na minha infância, joguei muito "Indiana Jones e a Última Cruzada" no Master System, videogame da Sega na década de 1980 e 1990. O jogo, obviamente, foi inspirado no longa-metragem de George Lucas, Steven Spielberg e Harrison Ford (OK, percebi que estou ficando velho...). Agora, a realidade é oposta. Muito maior, o mercado de games é quem serve de inspiração para as produções cinematográficas. O primeiro personagem dos videogames a virar protagonista no cinema foi o encanador italiano Mário Bros, em "Super Mario Bros" (1993). A partir dos anos 2000, exatamente quando a relevância das duas indústrias se inverteu, uma enxurrada de filmes nascidos dos games invadiu as salas de cinema. "Lara Croft – Tomb Raider" (2001), "Resident Evil" (2002), "House of the Dead" (2003), "Alone in the Dark" (2005), "BloodRayne" (2005), "Silent Hill" (2006), "Hitman" (2007), "Prince of Persia" (2010), "Red Faction – Origins" (2011), "Zombie Massacre" (2012) e "Kane & Lynch" (2013) são alguns destes exemplares. Muitos destes títulos ganharam várias sequências, comprovando o sucesso comercial que tiveram. Apesar do êxito nas bilheterias (principalmente entre os numerosos fãs dos games), estas produções se assemelham entre si na baixa qualidade. Nenhum destes longas-metragens conseguiu empolgar os cinéfilos e os apreciadores do bom cinema. O caso mais recente da tendência de adaptar ótimos jogos eletrônicos em péssimos filmes é "Assassin's Creed" (2016), lançado esta semana nos cinema de todo o país. Inspirado em uma das franquias de maior sucesso dos jogos eletrônicos, o filme traz para as telas o enredo criado pela Ubisoft. Ao longo dos seus dez anos de vida, as nove versões do game "Assassin's Creed" já venderam mais de 100 milhões de unidades em todo o planeta. Querendo aproveitar-se deste sucesso, o estúdio Fox produziu um longa-metragem com um enredo baseado na história de Callum Lynch, o protagonista de "Assassin's Creed". A promessa do estúdio norte-americano era terminar, de uma vez por todas, com a sina que os clássicos dos games sofrem nos cinemas. Para isso, não poupou investimentos. Além de abrir a carteira, a Fox selecionou um diretor de primeira linha, desenvolveu um roteiro com liberdade criativa em relação ao do jogo e escalou um time de atores experiente e com qualidade já comprovada. O sucesso da crítica, desta vez, não seria algo tão complicado, acreditava-se. Será mesmo? O orçamento de Assassin's Creed ficou na casa dos US$ 130 milhões. A direção é do australiano Justin Kurzel, do excelente "Macbeth - Ambição & Guerra" (Macbeth: 2015). Michael Fassbender, da série "X-Men" e de "Bastardos Inglórios" (Inglourious Basterds: 2009), e Marion Cotillard, de "Piaf - Um Hino ao Amor" (La Môme: 2007), são os principais atores em cena. A dupla já havia trabalhado junta com Kurzel. Em "Macbeth - Ambição & Guerra", Fassbender e Cotillard formavam o casal de protagonistas e deram um show de interpretação. Na versão cinematográfica de Assassin's Creed, Callum Lynch (interpretado por Michael Fassbender) é um presidiário norte-americano aguardando, na prisão de seu país, a execução da sentença recebida pelos crimes praticados. Ele havia sido condenado à morte pela Justiça dos Estados Unidos. Contudo, após a aplicação da injeção letal, ele acorda em uma sala misteriosa, em Madri. A Doutora Sofia (Marion Cotillard) explica ao antigo presidiário que ele fora salvo da morte pela sua equipe de trabalho. Como gratidão, ele é agora obrigado a participar de um projeto científico coordenado pela doutora. Nesta experiência, Sofia levará o rapaz para o passado medieval. Com o auxílio de uma máquina, Callum Lynch será transportado para a Espanha do século XV em meio à ebulição social provocada pela Inquisição. Sua missão nestas viagens ao passado é descobrir onde está a Maça do Éden. O artefato bíblico é alvo de intensas disputas entre duas sociedades secretas milenares: a Ordem dos Assassinados, entidade pagã, e a Ordem dos Templários, ligada à Igreja Católica. A Doutora Sofia quer se apossar da Maça do Éden para interromper a violência histórica causada pelos seres humanos. Como efeito colateral do estabelecimento da paz, todos os homens e mulheres do planeta perderão o livre-arbítrio. Os Templários são a favor desta medida. Os Assassinos, por sua vez, lutam pela liberdade da humanidade, apesar desta condição representar alguma violência eventual por parte dos indivíduos. Em meio às acirradas e sangrentas discutas entre as duas ordens, realizadas tanto na Idade Média quanto no século XXI, Callum Lynch precisará escolher para qual lado lutar. "Assassin's Creed" é um filme visualmente muito bonito, fazendo referências, obviamente, ao mundo dos games. Percebe-se, em todo momento, o cuidado com a fotografia, com o figurino e com os efeitos especiais. Cerca de 80% das cenas tiveram o auxílio ou a complementação de recursos computacionais. O roteiro parece, em um primeiro momento, muito interessante. Quem assiste ao trailer (foi o meu caso), fica empolgado para conferir a intrigada trama. Até mesmo aqueles que não são conhecedores ou fãs da série na plataforma dos jogos eletrônicos (novamente, este é o meu caso), vão querer correr para a sala de cinema assim que assistirem ao trailer. Contudo, o filme decepciona. E muito! Infelizmente, não foi desta vez que teremos uma produção trazida dos games que empolgue a plateia nos cinemas (que não seja fã do jogo). O que mais incomoda neste longa-metragem é o excesso de lutas banais (quem gosta de pancadaria pode até gostar um pouco do filme). As batalhas, apesar de esteticamente bem feitas, tornam-se rapidamente repetitivas e muito infantis. Não é errado afirmar que mais da metade das cenas é de luta ao estilo Jaspion (o herói japonês que ficava matando facilmente o exército inimigo, sem nunca conseguir pegar o grande vilão). A impressão que se tem durante a sessão é que você está assistindo seu filho ou seu sobrinho jogando videogame na TV de casa, algo tão interessante quanto conferir o vídeo de casamento da sua cunhada. Para piorar, a boa proposta do roteiro se torna confusa e muito simplória. Os personagens (com exceção dos protagonistas) também não são bem pontuados na trama, não conseguindo cativar a plateia. Assim, o período de uma hora e meia do filme se torna um tormento. Não se sinta mal se você dormir durante a sessão. A moça que estava sentada ao meu lado dormiu mais de uma hora. E olhe que a sala de cinema onde estávamos era uma das menos confortáveis de São Paulo (Centerplex do Shopping da Lapa). Confesso também que passei boa parte do longa-metragem lutando contra um cochilo que teimava em me pegar. Por sorte e com muita habilidade da minha parte, consegui vencê-lo (os méritos foram meus, não do filme). Muito provavelmente, "Assassin's Creed" será um dos maiores desperdícios do ano. Investir mais de uma centena de milhões de dólares e subaproveitar o incrível talento de profissionais do naipe de Justin Kurzel, Michael Fassbender e Marion Cotillard em uma produção tão fraca é para se lamentar. O filme só é indicado para quem tem problema de insônia. Se este é o seu caso, corra agora mesmo para a sala de cinema mais próxima de você. Ele será um santo remédio! Veja o trailer de "Assassin's Creed": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. 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  • Exposições: Santos-Dumont na Coleção Brasiliana - O Pai da Aviação

    Impossível recordarmos o ano de 2016 e não nos lembrarmos com saudades dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. E um dos momentos mais emocionantes do evento esportivo foi sua festa de abertura. Nela, os brasileiros puderam mostrar sua cultura e sua brasilidade para todo o planeta. Uma das cenas mais marcantes da cerimônia realizada no Maracanã foi o surgimento de uma réplica real do 14-Bis. O avião criado por Santos-Dumont em 1906 alçou voo no centro do estádio e deu uma volta pelo céu noturno do Rio. As imagens do antigo avião ganharam o mundo e mostraram a beleza da cidade carioca. Além disso, a escolha do brasileiro que é chamado até hoje de "Pai da Aviação" na Europa, em muitas antigas colônias francesas e no Brasil levantou velhas polêmicas nos Estados Unidos. Alguns telejornais norte-americanos voltaram a reafirmar que os inventores do avião são seus conterrâneos, os irmãos Wright. Para os jornalistas destes programas de notícias, a presença de Santos-Dumont na cerimônia de abertura das Olimpíadas não passou de um lapso ufanista dos organizadores brasileiros. Diante deste acalorado (e interminável) debate, ficamos sempre na dúvida. Afinal, quem é o verdadeiro pioneiro na aviação: os norte-americanos ou o brasileiro que viveu vários anos na França?! Para ajudar a esclarecer esta antiga questão e para explicar didaticamente o que aconteceu no início do século XX, o Itaú Cultural está com uma exposição chamada "Santos-Dumont na Coleção Brasiliana". Nesta mostra, os visitantes podem conferir a trajetória de Alberto Santos-Dumont da infância no interior de Minas Gerais (onde nasceu) e de São Paulo (onde foi criado) até sua morte. Cada período da vida do aviador está bem documentado. Destaque para a fase mais produtiva (e famosa) da carreira de Santos-Dumont. Este período foi vivido na capital francesa. Foi na Paris do início do século XX que as invenções do brasileiro foram apresentadas para o público. Os franceses ficaram maravilhados com os recordes superados pelas aeronaves construídas pelo mineiro. O segundo andar do prédio do Itaú Cultural está totalmente dedicado a "Santos-Dumont na Coleção Brasiliana". Ali há fotos originais, documentos, cartas, réplicas de jornais e protótipos de algumas invenções do brasileiro (além do avião, ele foi, por exemplo, o idealizador do relógio de pulso como conhecemos hoje em dia). Além disso, em uma das salas há a apresentação de um filme-documentário sobre a vida e os legados do "Pai da Aviação". Vale a pena assisti-lo. No fim, para coroar a visita à exposição, o público pode conferir de perto uma réplica em tamanho real do Demoiselle, o melhor avião desenvolvido por Santos-Dumont. Juntamente com a apresentação da mostra, o Itaú Cultural preparou alguns eventos utilizando a temática de Santos-Dumont. O principal deles é uma palestra marcada para hoje (quinta-feira, dia 19) que discutirá a relação entre empreendedorismo e inovação com a trajetória do aviador brasileiro mais famoso de todos os tempos. O bate-papo acontecerá às 19h na Sala Vermelha do centro cultural. Santos-Dumont na Coleção Brasiliana" tem entrada gratuita e estará em cartaz até o dia 29 de janeiro. As visitações ocorrem de terça a domingo na unidade da Avenida Paulista do Itaú Cultural. O horário de funcionamento do centro cultural é das 9h às 20h de terça a sexta-feira e das 11h às 20h aos sábados, domingos e feriados. Aos finais de semana e aos feriados, há visitas com educadores que explicam e comentam o acervo. Consulte os horários desta modalidade se esta for sua preferência. Não há restrições para a entrada de crianças. Pelo que vivenciei nesta semana, o público visitante é bem eclético. Havia, inclusive, muitos turistas estrangeiros no local. Não consegui identificar nenhum norte-americano... Reserve ao menos uma hora e meia para percorrer com calma e com atenção todas as salas da mostra. Eu gostei bastante da exposição e acredito que muita gente gostará. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #Mostra #Exposição #Fotografia #ArtesPlásticas #AlbertoSantosDumont

  • Filmes: Passageiros - Ficção científica existencialista

    Assisti, nesta quarta-feira, ao recém-lançado "Passageiros" (Passengers: 2016). Este filme do diretor norueguês Morten Tyldum, de "O Jogo da Imitação" (The Imitation Game: 2014) e "HeadHunters" (Hodejegerne: 2011), conta com os badalados Chris Pratt e Jennifer Lawrence como casal de protagonistas. Em suas quase duas horas de duração, "Passageiros" mistura ficção científica, comédia romântica e muita ação. Esta combinação, que ainda tem a injeção de boa dose de filosofia existencialista, se mostra acertadíssima. Não tenho dúvidas que este longa-metragem é a melhor produção em cartaz, neste comecinho de ano, no circuito comercial dos cinemas brasileiros. Vale ressaltar que ainda não vi o elogiado "La La Land" (2016), que entrará em cartaz na próxima semana A trama de "Passageiros" acontece em um futuro não determinado, quando viagens interplanetárias são corriqueiras para os seres humanos. Uma aeronave comercial sai da superpopulosa Terra e tem como destino um planeta recém-habitado que fica a cento e vinte anos de distância. Para viabilizar um deslocamento tão longo, todos os passageiros (cerca de cinco mil pessoas) e toda a tripulação (mais de duzentos indivíduos) foram alocados em cápsulas que os mantêm hibernando. Desta maneira, eles não envelhecem durante o translado interplanetário. Todos chegarão ao destino com a mesma idade que saíram da Terra. Passageiros e tripulantes serão despertados somente quando o veículo onde estão estiver próximo do novo planeta. Sem comando humano, o sistema da nave é totalmente automatizado. Enquanto robôs inteligentes fazem os serviços de manutenção e de limpeza, os supercomputadores da aeronave cuidam dos detalhes operacionais da viagem e ficam com a responsabilidade de despertar os seres humanos no momento certo. A companhia fabricante do veículo espacial garante que seu sistema é imune às falhas. Nunca um problema ocorreu em toda a história da empresa. Contudo, quando a viagem ainda está no começo ("só" se passaram vinte e poucos anos da partida da Terra), um dos passageiros é acordado por engano. Jim Preston (interpretado por Chris Pratt) é mecânico e desejava recomeçar a vida no novo planeta construindo e consertando coisas. Ele fica desesperado ao saber que faltam mais de noventa anos até sua chegada ao destino e que é o único ser humano acordado na nave. Jim até tenta voltar a hibernar, mas não consegue. Seu destino é passar o resto da vida na gigantesca aeronave sem companhia. Quando o veículo espacial desembarcar, provavelmente ele terá morrido de velhice. No começo, o rapaz até tenta se divertir com as variadas opções à sua disposição (a aeronave é como um transatlântico em um cruzeiro, com centenas de atrações para seus passageiros). Porém, depois de um ano em completa solidão, Jim fica depressivo. Seu único amigo é um robô-garçom chamado Arthur (Michael Sheen), que oferece conselhos baseados em velhos clichês e em autoajuda barata. Sem perspectivas, Jim acaba vendo uma bonita moça dormindo em uma das cápsulas de hibernação. Ele, então, investiga quem é ela. Trata-se de Aurora (Jennifer Lawrence), uma escritora nova-iorquina. Apaixonado platonicamente pela jovem, o mecânico acaba despertando-a manualmente. Sem saber que fora acordada propositadamente (acha que foi um novo erro do sistema do veículo especial), Aurora passa a viver com Jim na aeronave. Em pouco tempo, os dois se tornam um casal apaixonado, usufruindo as vantagens de uma paixão em um lugar tão pitoresco e sem a presença de ninguém. Entretanto, a paz do casal tem seus dias contados. As falhas da aeronave começam a se tornar cada vez mais constantes e sérias, colocando a vida dos que estão acordados e dos que estão hibernando em risco. Gostei muito deste filme. Sinceramente, esperava um longa-metragem bobinho. Acreditava que haviam colocado um casal bonitinho para agradar nossos olhos enquanto presenciávamos uma história mediana e meramente requentada de outras ficções científicas anteriores. Porém, não é isso o que recebemos do diretor Tyldum. "Passageiros" consegue realmente empolgar a plateia. Sua trama é muito bem construída e complexa, com algumas reviravoltas. Sua mensagem existencialista, apesar de pueril, é perfeita para os dias de hoje. O principal ponto positivo desta produção é seu roteiro. Escrito há mais de dez anos por Jon Spaihts, norte-americano especializado em ficções científicas, o roteiro de "Passageiros" fora apontado como um dos melhores do cinema atual, em premiações do gênero, enquanto ainda estava no papel. Outro aspecto que merece elogio é o dos efeitos especiais. A cena em que Jennifer Lawrence está nadando na piscina e falta gravidade é espetacular. Além disso, a constituição da aeronave e a caracterização dos sistemas computacionais de bordo são bastante verossímeis. As perspectivas em três dimensões também oferecem uma experiência interessante à plateia. Este é daquele tipo de filme para se assistir em uma sala 3D. É impossível não falarmos da atuação do casal de protagonista. Chris Pratt e Jennifer Lawrence monopolizam quase todas as cenas do filme (afinal, este é um longa-metragem com pouquíssimas personagens). A química do casal e o carisma que cada um deles carrega para seus trabalhos fazem com que a plateia não se incomode com suas presenças excessivas na tela. Pelo contrário, o público parece adorá-los cada vez mais. "Passageiros" tem praticamente três partes distintas. Em seu começo, prevalece o lado ficção científica da trama. Na metade do filme, o enredo se transforma é uma (boa) comédia romântica. O desfecho é recheado de cenas de ação e de suspense. É neste ponto que o longa-metragem ganha em adrenalina e emoção. Curiosamente, ao final da sessão, saí do cinema com a sensação de déjà vu. Apesar do roteiro do filme ser bem original, tive a impressão de já tê-lo visto, em partes, em outras produções. "Alien - O Oitavo Passageiro" (Alien: 1979), "O Náufrago" (Cast Away: 2000), "Gravidade" (Gravity: 2013) e "Perdido em Marte" (The Martian: 2015) foram alguns longas-metragens que me vieram à mente. Talvez "Passageiro" seja uma mistura de todos eles com uma pitada do mito de Adão e Eva. De qualquer forma, trata-se de uma ótima produção. Em um começo de ano tão chocho e carente de bons filmes, "Passageiros" propicia diversão na medida certa para quem deseja ir aos cinemas em janeiro. Veja o trailer do filme: O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MortenTyldum

  • Peças Teatrais: Ovono - O progresso apocalíptico em versão memorável

    Não é raro as pessoas deixarem uma peça teatral comentando passionalmente suas impressões a respeito da história e suas interpretações em relação ao desfecho da produção vista. Geralmente, isso ocorre entre grupos de amigos, familiares e namorados. O que é inusitado é os integrantes da plateia, mesmo não se conhecendo, quererem dividir opiniões, formando grandes rodas de discussão. Acredite: isso é possível e aconteceu! Eu fui testemunha de tal fato quando deixei o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil nesta segunda-feira. O público da peça "Ovono" saiu tão maravilhado do teatro que muitos não se contiveram. O café em frente à sala se tornou o centro de um acalorado debate, que depois se estendeu para a recepção do espaço e para a van que faz o transporte do público até o estacionamento e até a estação de Metrô. Ninguém se importou com o detalhe insignificante, naquele momento, que muitos não se conheciam. De repente, todos se tornam amigos de infância. Afinal, haviam presenciados juntos uma das peças teatrais mais interessantes da atualidade. "Ovono" é uma produção futurista que mistura recursos audiovisuais com a encenação tradicional no palco. O roteiro e a direção são de Ricardo Karman. Karman ficou conhecido na cena teatral de São Paulo na década de 1990 após produzir, em parceria com Otávio Donasci, "Viagem ao Centro da Terra", em 1992, e "A Grande Viagem de Merlim", em 1996. A direção de animação e vídeo ficou a cargo de Amir Admoni e a direção do projeto multimídia foi responsabilidade de Tito Sabatini. São seis os atores de "Ovono": Gustavo Vaz, Paula Arruda, Paula Spinelli, Fábio Herford, Bruno Ribeiro e Cesar Brasil. O sexteto se reveza na interpretação dos vários personagens. Além deles, há mais algumas atrizes que aparecem em encenações gravadas em vídeos. Nesta trama, a Terra está prestes a ser destruída. Um gigantesco osso interplanetário, cem vezes maior do que o asteroide que dizimou os dinossauros há milhões de anos, está viajando pelo espaço e sua rota de colisão encontra justamente nosso planeta. Será o fim da humanidade. Para deter tal ameaça, a presidente do Brasil marca um encontro com as líderes de todos os países do mundo (sim, o planeta é governado exclusivamente por mulheres). A proposta da nossa representante é enviar um foguete tripulado até o osso. Lá, uma bomba atômica será ativada, danificando o famigerado objeto espacial e desviando-o da sua rota original. Assim, a humanidade ficará salva. Para a missão não falhar, decide-se pela colocação no foguete do mais perfeito cérebro artificial já criado pelo homem. Acredite: esta é uma criação brasileira, fruto do trabalhado científico liderado pelos nossos militares. Chamada de Ovono, esta máquina superdotada é a última esperança de salvação da humanidade. Ela quem terá a responsabilidade de comandar a destruição do osso. Porém, a missão corre perigo quando o computador passa a pensar de maneira autônoma, criando sentimentos e elaborando suas próprias teorias a respeito da vida. A peça "Ovono" proporciona uma experiência inimaginável para sua plateia. Na certa, esta produção é uma das melhores peças que já assisti e a mais inovadora em cartaz neste início de ano no circuito paulistano. A união entre os recursos multimídias e a encenação dos atores no palco proporciona um ambiente futurista maravilhoso. Impossível não se sentir no final do século XXI ou mesmo em pleno século XXII. A sincronia dos elementos multimídias com os atores no palco é perfeita. Trata-se de uma avalanche de estímulos que despertam todos os sentidos dos expectadores. Em alguns momentos, tem-se a impressão que o computador que fica no meio do palco em uma gigantesca tela arredondada é mesmo um ator. Muito comovente. Em conjunto com os recursos tecnológicos que enriquecem a trama, a peça tem uma excelente produção cenográfica. O palco é embalado por uma redoma que faz o papel de atmosfera da Terra. Assim, temos a impressão que as personagens estão mesmo em um planeta à parte e que são observadas externamente por extraterrestres (que no caso somos nós, a plateia). Contudo, não pense que "Ovono" é daquelas produções cênicas muito modernas e tecnológicas e sem conteúdo. Não! O texto de Ricardo Karman é impecável. Ele produz um enredo riquíssimo pontuado com diálogos brilhantes. Seu texto é ao mesmo tempo ágil, crítico, bem-humorado e marcante. As várias referências utilizadas para a criação desta história também são explicitadas. Inspirado nas tramas de ficção científica das décadas de 1960 e 1970, principalmente "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (2001: A Space Odyssey: 1968) e "A Profecia" (The Omen: 1976), "Ovono" cita também elementos da Bíblia, do filme "Armageddon" (1998) e da revista do Pato Donald. Repare também em várias cenas em que se fazem alusões aos acontecimentos atuais: Impeachment da presidente, avanço da ala religiosa no congresso, paranoia contra o progresso científico e até mesmo o movimento Catraca-Livre. Para compreender a ironia fina do texto é necessário fazer paralelos com a realidade atual do nosso país e, principalmente, de nossa sociedade pretensamente progressista. Um mundo governado apenas por mulheres é muito representativo. Países trabalhando na criação de crianças-bombas indica o grau de violência que atingimos. E colocar a catraca como símbolo do diabo é de uma perspicácia impar. Para completar, a peça ainda conta com uma atuação primorosa dos atores. Gustavo Vaz rouba a cena e mostra toda sua competência cênica. Ele chega a estar perfeito na pele de Adão e do Bispo. Paula Spinelli e Fábio Herford também estão espetaculares em seus vários papéis. Quem for assistir à peça, repare atentamente em seu desfecho. Ele é simplesmente espetacular! As opções escolhidas pelo diretor para marcar o fim de "Ovono" são todas acertadíssimas, por mais estranhas que possam parecer, em um primeiro momento, para a plateia. Na apresentação desta segunda-feira, o público ficou pelo menos cinco minutos aguardando, em vão, alguma explicação ou conclusão. Como elas não vieram, o auditório foi invadido com as perguntas do tipo: "Acabou?", "Já podemos ir embora?" e "Os atores não vão voltar ao palco para agradecer?". "Ovono" é uma produção que mexe com todos os estímulos dos expectadores. Há muito tempo não via uma peça tão marcante. Sua apresentação inusitada, seu texto ágil, seu tom crítico e seu ritmo amalucado (os atores saem várias vezes do palco e transitam pela plateia) irão agradar quem estiver disposto a ver novidades. É também importante possuir alguma bagagem cultural para entender as referências feitas a todo instante. Quem for ao Centro Cultural Banco do Brasil com a expectativa de assistir a uma peça de teatro convencional poderá sair frustrado. Talvez tenha sido isso o que aconteceu com alguns expectadores na minha sessão. Uma grande quantidade de pessoas, a maioria senhores e senhoras de mais idade, preferiu deixar o teatro antes da metade. Juro que pensei: "Aonde esta gente vai? A peça está ótima!". A única explicação que encontrei é que ou eles não entenderam a pegada moderna do roteiro ou só foram lá para ver a cena inicial em que Paula Spinelli, interpretando a Eva Bíblica, fica totalmente nua em cena. Por mais gata que seja Paula Spinelli (e ela é mesmo!) e por mais excitante que seja vê-la nua (e é!), a peça é tão boa que vale a pena ficar até o final (verdade!). Esta hipótese surgiu depois que vi dois senhores (que aparentemente não se conheciam e foram sozinhos ao teatro) se sentarem na primeira fila bem enfrente aonde a atriz atuou sem roupa. Misteriosamente, eles deixaram a plateia após o término da cena inicial. Pelo visto, foram embora satisfeitos... "Ovono" ficou em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil durante boa parte do ano passado. Devido ao seu sucesso, os organizadores resolveram estendê-lo para 2017. Entretanto, esta nova temporada irá apenas até o final de janeiro. Por isso, se você quiser ver esta peça magnífica, corra! Você tem só até o dia 30 de janeiro. As apresentações ocorrem aos sábados (às 20h), domingos (às 19h) e segundas-feiras (às 20h). O valor do ingresso é de R$ 20,00. Como o Centro Cultural Banco do Brasil fica no centro velho de São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112), um local um tanto sombrio para se trafegar à noite, sugiro utilizar ao final do espetáculo o serviço de van que o centro cultural disponibiliza. O veículo leva os expectadores gratuitamente até o estacionamento ou até o metrô República. É mais seguro. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? 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  • Exposições: Ocupação Abdias Nascimento - Versatilidade e profundidade artística

    O Itaú Cultural está com uma exposição interessantíssima sobre uma das personalidades mais importantes da cultura negra do século XX. "Ocupação Abdias Nascimento" apresenta a trajetória artística e ideológica do homem que viveu intensamente em prol da igualdade racial e da promoção da negritude no Brasil e no mundo. Abdias Nascimento foi ator, dramaturgo, poeta, ensaísta, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis dos negros. Esta rica história de Abdias Nascimento é apresentada através de documentos, fotografias, pinturas, livros, roupas, partituras musicais, objetos pessoais, jornais, vídeos, poesias e entrevistas. A pluralidade dos materiais expostos é compatível com a versatilidade do artista e com sua profundidade ideológica. Com a realização desta mostra, as gerações que hoje possuem menos de quarenta anos de idade têm a oportunidade de conhecer este gigante da cultura afrodescendente do nosso país. Para mim, Abdias Nascimento é uma espécie de Pedro Archanjo da vida real. Para quem não conhece ou não se recorda, Archanjo é o protagonista do romance "Tenda dos Milagres", obra de Jorge Amado, de 1969. Apesar de a figura ficcional ter sido inspirada em Manuel Querino, sempre que ouço ou vejo algo relativo a Abdias Nascimento, recordo-me automaticamente de Pedro Archanjo. Afinal, ambos foram artistas versáteis, escritores atuantes, profundos conhecedores da cultura de origem africana, militantes engajados no combate ao racismo e, principalmente, negros orgulhosos de sua raça e de sua origem. Além de apresentar uma mostra de excelente qualidade ao público, "Ocupação Abdias Nascimento" ajuda o Itaú Cultural a amenizar um pouco a crise de imagem que o centro cultural sofreu no ano passado junto à comunidade negra. No primeiro trimestre de 2016, o Itaú Cultural precisou cancelar uma peça teatral que apresentava a realidade dos negros no Brasil. O problema é que todos os atores e atrizes selecionados para atuar na produção eram brancos. Eles seriam pintados de negros para interpretar personagens afrodescendentes. Diante da repercussão negativa, o centro cultural cancelou a peça. Contudo, as notícias negativas divulgadas na imprensa já tinham arranhado a imagem da instituição. Por isso, não é coincidência que no subsolo do prédio haja outra exposição chamada "Diálogos Ausentes", em que são apresentadas obras de quinze artistas e coletivos negros. "Ocupação Abdias Nascimento" está exposta no primeiro andar do prédio do Itaú Cultura na Avenida Paulista. Ela tem a curadoria conjunta do Itaú Cultural, do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros e de Vinícius Simões. A última esposa de Abdias, Elisa Larkin Nascimento, trabalhou ativamente na produção desta exposição. Vinícius Simões também foi o responsável pela cenografia da mostra. A exposição ficará em cartaz até este domingo, dia 15. Ou seja, faltam poucos dias para ela encerrar as atividades. A entrada é gratuita e liberada para maiores de 12 anos. As visitações ocorrem de terça a domingo. O horário de funcionamento do Itaú Cultural é das 9h às 20h de terça a sexta-feira e das 11h às 20h aos sábados, domingos e feriados. Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook. #AbdiasNascimento #Exposição #Mostra #OcupaçãoItaúCultural #Fotografia

  • Filmes: O Que Está Por Vir - A maturidade silenciosa

    Os primeiros dias do ano não são caracterizados, tradicionalmente, como um período muito farto em produções cinematográficas. As principais novidades chegam às salas de cinema apenas na segunda metade do mês de janeiro. Por isso, o consolo da plateia é aproveitar os títulos que acabaram preteridos em dezembro. Sabendo disso, assisti nesta terça-feira ao longa-metragem "O Que Está Por Vir" (L'Avenir: 2016), lançado aqui no Brasil um pouco antes do Natal. Esta é uma produção conjunta entre França e Alemanha. Dirigido e roteirizado por Mia Hansen-Love, responsável pela direção de "Eden" (Eden: 2014), "Adeus, Primeiro Amor" (Un Amour de Jeunesse: 2010) e "O Pai dos Meus Filhos" (Le Père de Mes Enfants: 2009), "O Que Está Por Vir" é a obra mais autobiográfica da diretora francesa. O roteiro possui tantos elementos reais que Mia enviou previamente o material para sua mãe aprovar. Na certa, não queria provocar qualquer problema no seio familiar quando o filme fosse rodado e lançado nas telas. O resultado final rendeu à diretora o Urso de Prata de Melhor Direção no Festival Internacional de Cinema de Berlin do ano passado. O enredo do filme gira em torno de uma professora universitária de meia-idade. Nathalie (interpretada por Isabelle Huppert) tem uma vida tranquila e feliz em Paris. Ela trabalha como docente e como escritora de Filosofia. Casada há vinte e cinco anos com Heinz (André Marcon), também professor universitário, Nathalie não tem muitos problemas em seu dia a dia. Os filhos já adultos saíram de casa e aparecem pouco. A situação financeira da família parece satisfatória. O único ponto que traz algum aborrecimento é a mania de Yvette, mãe de Nathalie (Edith Scob), de querer chamar a atenção da filha, telefonando nos momentos mais inapropriados e simulando males súbitos. O dia a dia da professora universitária é leve e alegre. Nitidamente, ela leva a vida que sempre sonhou. Sua felicidade é silenciosa. Ela não precisa gritar para o mundo que está feliz e satisfeita com sua existência. Nathalie encontra prazer em coisas simples do seu cotidiano como ler bons livros e travar boas conversas. Também valoriza as diferentes relações que possui tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Contudo, essa existência serena começa, pouco a pouco, a ruir. Primeiro é o marido que pede o divórcio. Ele tem uma amante há muitos anos e quer agora viver com ela. Depois, o problema é de ordem profissional. Os livros publicados por Nathalie deixam de ser interessantes para a editora e a professora é demitida. Para completar a maré desfavorável, a mãe de Nathalie morre. Isso tudo acontece em um momento em que a protagonista começa a sentir a chegada da velhice. Como ela vai reagir diante da constatação de que seu mundo, até então sólido e agradável, não existe mais e foi desmantelado completamente diante dos seus olhos? Esta é a pergunta que o expectador se faz à medida que compreende o drama da personagem. "O Que Está Por Vir" não é um filme indicado para quem gosta exclusivamente de ação nem para quem não acha graça em diálogos existencialistas e filosóficos. Na certa, quem tem pouca paciência e limitada sensibilidade para compreender as nuances de um roteiro mais introspectivo irá se entediar durante esta exibição. O longa-metragem de Mia Hansen-Love é lento, assim como a vida da personagem principal. Tudo nele transcorre calmamente e com poucas novidades, dando a entender que estas são características do dia a dia de Nathalie. Todas as mudanças demoram muito para ocorrer. Por exemplo, o divórcio pedido por Heinz, que precipita as transformações na vida de Nathalie, acontece apenas na metade da produção. O mais interessante do filme é notar como a protagonista encara as adversidades que aparecem bruscamente à sua frente. Seus comportamentos iniciais incomodam um pouco o expectador. Avessa às aventuras, aos riscos, às situações impulsivas e, principalmente, às mudanças, Nathalie frustra a plateia com seu conformismo e seu imobilismo. O melhor exemplo disso é a expectativa pelo início de um romance entre a professora e um antigo aluno, Fabien (Roman Kolinka). Vale ressaltar que esta é uma expectativa exclusiva do público, não das personagens. A maturidade e a compreensão das engrenagens da vida são tão fortes em Nathalie que ela não cai nunca em contradições nem se sujeita a fazer algo que vá contra suas genuínas vontades. Ou seja, a professora não joga para a plateia. Ela vive para se satisfazer da maneira como acredita ser mais interessante para ela. Por isso, Nathalie não se desanima em nenhum momento. O tempo inteiro ela consegue extrair o melhor da vida e degustar o prazer do dia a dia. Apesar do aparente caos a sua volta, seu mundo interno é extremamente sólido e bem construído. Outro ponto marcante de "O Que Está Por Vir" é o contraste entre a vida e a ideologia pregadas pela professora e as condutas e as preferências de seu antigo aluno. Os choques de opiniões de Nathalie e Fabien se intensificam e nos levam a questionar qual dos dois está realmente certo. Trata-se do eterno debate entre o poder mobilizador da juventude e a maturidade reflexiva da velhice. De certa forma, este é o componente por trás das greves estudantis retratadas no início do filme (oposição ideológica entre governo e jovens universitários). Também vale a pena perceber o quão metafórica é a situação do gato Pandora. Depois que a mãe de Nathalie, a primeira proprietária do bichinho, morre, ele passa a morar com filha da antiga dona. A cena de Pandora no sítio de Fabien (e o desespero infundado de Nathalie) é muito boa. "O Que Está Por Vir" é uma obra voltada à compreensão da maturidade feminina e da felicidade silenciosa da meia-idade. Curiosamente, são poucos os filmes que debatem estes temas. Os problemas juvenis e os dramas da velhice comumente rendem roteiros mais intensos e com maior apelo junto ao público. Por isso, é legal assistir aos conflitos corriqueiros de uma mulher comum ao enfrentar os desafios da meia-idade. Quem deseja ver um filme sensível, comovente e exigente intelectualmente, fica aqui a dica. Veja o trailer de "O Que Está Por Vir": O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MiaHansenLove

  • Livros: A Varanda do Frangipani - O sobrenatural por Mia Couto

    Um dos meus autores preferidos é o moçambicano Mia Couto. Ele navega maravilhosamente bem pelo romance, conto, poesia, crônica, novela e até pela literatura infantil. Vamos admitir que não é normal um escritor ser bom em gêneros tão distintos. Já tinha lido cinco de suas obras: "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" (Caminho), "O Fio das Missangas" (Companhia das Letras), "Terra Sonâmbula" (Companhia das Letras), "O Gato e o Escuro" (Companhia das Letrinhas) e "E Se Obama Fosse Africano?" (Companhia das Letras). As análises dessas obras, assim como a do autor, estão no Desafio Literário de abril de 2015. Nesta semana, li "A Varanda do Frangipani" (Companhia das Letras). Este é o segundo romance publicado pelo autor. Ele foi publicado pela primeira vez em 1996, quatro anos após a edição do grande sucesso do autor, "Terra Sonâmbula". A história de "A Varanda do Frangipani" se passa 20 anos após a Independência de Moçambique, ocorrida em 1992, e é protagonizada pelo falecido carpinteiro Ermelindo Mucanga (que na história é um fantasma) e pelo policial Izidine Naíta. O local desta trama é o asilo São Nicolau, que fica situado em uma antiga fortaleza colonial. Frangipani é a árvore que fica na varanda do casarão que abriga os idosos e onde está enterrado o antigo carpinteiro (daí o nome do livro). Mucanga abre a narrativa explicando que é um fantasma que não conseguiu "dormir eternamente". Como ele não foi enterrado corretamente, acabou vagando no limbo entre o mundo dos vivos e dos mortos. Agora, contudo, as coisas parecem piorar para ele. Seu "descanso" no além-vida está prestes a ser interrompido por causa do governo independente de Moçambique, que deseja torná-lo herói nacional. Para "morrer definitivamente", seu amigo pangolim (um tipo de tamanduá africano que teria a propriedade de frequentar ao mesmo tempo o mundo dos vivos e dos mortos) o aconselha a "morrer novamente". Para isso, ele deveria visitar o corpo de um homem que estivesse prestes a falecer. Assim, Mucanga poderia "descansar em paz" quando o corpo visitado morresse (e fosse devidamente enterrado). O corpo escolhido é de um investigador de polícia chamado Izidine Naíta. O policial visita o asilo São Nicolau, onde Mucanga está enterrado, para investigar o assassinato do diretor do asilo, Vastos Excelêncio. Uma vez partilhando o corpo do policial, Ermelindo Mucanga volta a sentir o prazer em viver e começa a torcer pelo seu "hospedeiro". Ele se envolve com os moradores do asilo e fica intrigado com o mistério sobre a morte do diretor do lugar. Afinal, durante a investigação quase todos os personagens afirmam ser os responsáveis pela morte de Vastos Excelêncio. As únicas que não se autoacusaram foram a enfermeira Marta e a esposa do diretor, Ernestina. Todos os idosos se declaram assassinos. Navaia Caetano afirmou ter matado Vasto Excelêncio por este ter difamado um ritual religioso. Domingos Mourão, por sua vez, matou por ciúmes (estava apaixonado pela esposa de Vastos). Nhonhoso afirmou tê-lo assassinado para proteger sua amada, Marta, que fora violentada pelo diretor. E, por fim, Nãozinha disse que Excelêncio morreu após fazer sexo com ela (ela estava envolta em uma magia que provocaria a morte do primeiro homem que praticasse sexo com ela). Será que é possível todos terem matado o homem?! "A Varanda do Frangipani" é um romance saborosíssimo, típico do autor africano. Ele é super-rápido de se ler, pois é bem pequeno (possui pouco mais de 100 páginas). Nele, é possível ver o que há de melhor na literatura de Mia Couto: narrativa com oralidade acentuada, a apresentação da cultura moçambicana, o lirismo da prosa coutiana, a escrita em tom poético e a explicação da história do seu país. Ler Mia Couto é viajar para Moçambique e conversar com seu povo. A criação de neologismos, uma marca de Couto, aparece com vigor neste romance. Logo no início temos o termo "remorrer". Esta palavra criada pelo autor serve para designar a volta à vida do fantasma do carpinteiro Ermelindo Mucanga. Morrer é passar do mundo dos vivos para o dos mortos. "Remorrer", portanto, seria vir do mundo dos mortos para o dos vivos. Outro aspecto forte neste livro é a narrativa fantástica. Mia Couto declara em seu livro de crônicas "E Se Obama Fosse Africano?" que sua geração de escritores africanos sofreu uma grande influencia do realismo fantástico sul-americano. Este movimento que marcou a literatura do nosso continente a partir da segunda metade do século XX (com Gabriel Garcia Marques, Manuel Scorza, Julio Cortázar, Jorge Luís Borges, Murilo Rubião, entre outros) misturava o mundo real com o imaginário e mágico. Os dois mundos conviviam corriqueiramente no cotidiano das populações locais. Em "E Se Obama Fosse Africano?", Couto afirma que se inspirou muito em Guimarães Rosa. Para o moçambicano, o autor mineiro seria um predecessor do Realismo Fantástico Sul-Americano. A mistura acentuada do mundo real com o imaginário/mágico está presente o tempo inteiro em "A Varanda do Frangipani". Para começo de conversa, é um tanto difícil imaginar um morto assumir o corpo de um vivo. Além disso, os espíritos da natureza (seja dos homens como dos demais elementos naturais) estão o tempo inteiro interagindo com a história. A cultura africana, fortemente aparada no transcendental, também está presente acentuadamente. No final, o leitor é agraciado com um desfecho surpreendente. Na investigação policial comandada pelo policial Izidine Naíta, temos um assassino improvável. Quem disse que apenas Agatha Christie tinha a habilidade de envolver e enganar o leitor, hein?! "A Varanda do Frangipani" é um livro gostoso para se ler neste começo de ano. Recomendo! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook. #MiaCouto #LiteraturaMoçambicana #Drama #Fantasia #LiteraturaContemporânea #LiteraturaAfricana

  • Celebração: Feliz Ano Novo!

    Bem-vindo ao ano de 2017. Que os próximos 365 dias sejam os mais maravilhosos de nossas vidas. Neste momento, o Blog Bonas Histórias só tem uma coisa para dizer. A mensagem é a mesma, o que muda é a forma de expressá-la: Feliz Ano Novo. Glückliches Neues Jahr. Nytar. Feliz Año Nuevo. Felicigan Novan Jaron. Heureuse Nouvelle Année. Feliz Aninovo. ShanáTová. Happy New Year. Felice Nuovo Anno. Akemashite Omedetou Gozaimasu. Ah, só mais uma coisinha. Não se esqueça de que somos nós quem fazemos o ano acontecer e não o contrário. Um ótimo 2017 para todos! Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para curtir a página do blog no Facebook. #celebração #AnoNovo

  • Desafio Literário: Balanço de 2016

    Terminamos o ano com mais um Desafio Literário concluído. Esta foi a segunda edição do Desafio que o Blog Bonas Histórias se propôs. Assim como aconteceu em 2015, foram sete os autores analisados. De maio a novembro, foi estudado um escritor por mês. Para tal, lemos suas principais obras e pesquisamos sobre sua vida e sobre sua carreira. Assim, ao longo de 2016, foram lidos 33 livros para o Desafio, o que totalizou aproximadamente 7 mil páginas. Vale lembrar que nos demais meses do ano, quando o Desafio Literário não esteve em vigência, lemos outras 17 obras de escritores diversos. Ultrapassamos, assim, a marca das 10 mil páginas lidas no ano. Foi, pelo menos para mim, uma jornada muito prazerosa e enriquecedora. Acredito que quem tenha me acompanhado nesta empreitada também tenha se divertido muito. Nada melhor do que ler para descobrir os segredos da literatura. Já estou com vontade do mês de maio do próximo ano chegar para retomar este divertido exercício de conhecimento. Espero contar com mais leitores e participantes nas futuras edições do Desafio. Para os interessados em fazer parte deste grupo de apreciadores da literatura, estaremos juntos outra vez aqui no Blog Bonas Histórias em 2017. Não perca! Aproveitando que estamos no finalzinho do ano, vou fazer agora um balanço da edição de 2016 do Desafio Literário. Como reza a tradição, procurei equilibrar o tipo de literatura lida. Em 2016, havia escritores nacionais (dois) e estrangeiros (cinco: um norte-americano, uma inglesa, um italiano, um afegão e um chileno). Tivemos autores vivos (dois) e já falecidos (cinco). Na lista, havia exemplares da literatura comercial (como Sidney Sheldon e Paulo Coelho) e da clássica (como Italo Calvino e Graciliano Ramos). E tivemos também poetas (Pablo Neruda) e romancistas (Khaled Hosseini), além de contistas, cronistas, memorialista e teóricos da literatura. O único desequilíbrio continua sendo em relação aos gêneros dos autores. Tivemos apenas uma mulher (Agatha Christie) contra seis homens. Apesar de este problema ainda persistir, vejo um avanço. No ano anterior, não tivemos nenhuma autora feminina. Prometo continuar melhorando neste quesito para que nos próximos anos tenhamos uma igualdade de sexos. Dos livros lidos, o que mais gostei foi "Cidades Invisíveis" (Companhia das Letras). Neste clássico, Italo Calvino consegue retratar as diferentes particularidades dos homens ao descrever as cidades construídas por eles. Trata-se de uma obra poética e com grande profundidade reflexiva. O autor fala de algo (cidades e construções) para dizer outra coisa indiretamente (essência humana). É preciso, portanto, alguma sensibilidade para entender a brincadeira de Calvino. Em seguida, vem "Se Houver Amanhã" (Best Bolso) de Sidney Sheldon. Neste romance, o norte-americano consegue criar uma trama criativa e com várias reviravoltas. É impossível não torcer por sua protagonista, mesmo quando ela mergulha no submundo do crime. Neste caso, a polícia se torna a vilã da história e os ladrões são os mocinhos. Este é um daqueles livros que gostaria de ter escrito. Além disso, se ele tivesse uma continuação, iria ler com certeza sua sequência. A terceira obra que mais gostei foi "O Assassinato de Roger Ackroyd" (Globo). Se Agatha Christie sempre foi conhecida por surpreender o leitor como um desfecho improvável, aqui ela chega ao ápice. O assassino desta história é tão incrível que cheguei a me assustar de verdade com sua revelação. O segredo da trama acabou revolucionando a lógica do romance policial moderno. A inglesa consegue proeza parecida em "O inimigo secreto" (Record) e "E Não Sobrou Nenhum" (Globo), porém para mim "O Assassinato de Roger Ackroyd" é o melhor dela. Logo depois, em minha lista de favoritos, vem "O Caçador de Pipas" (Nova Fronteira). Neste livro que tornou Khaled Hosseini mundialmente conhecido, encontramos beleza e poesia na tristeza e na violência da sociedade afegã. Esta trama é emocionante! Cheguei a compará-la aos dramalhões das telenovelas mexicanas. Apesar do cenário, dos fatos e dos personagens macabros, o romance é muito bonito. Hosseini é um exímio contador de histórias e consegue emocionar até os corações mais duros. O quinto melhor livro do Desafio Literário de 2016 foi "São Bernardo" (Martins) de Graciliano Ramos. Apesar de o alagoano ter outras obras mais conhecidas, como "Vidas Secas" (Record), "Memórias do Cárcere" (Record) e "Angústia" (Record), para mim "São Bernardo" é sua obra-prima. Paulo Honório, o protagonista, é um personagem clássico da literatura nacional. Seu relato em primeira pessoa desnuda um tipo muito comum que viveu e vive em nosso país: o coronel brucutu. Apesar do aspecto e dos comportamentos repugnantes de Honório, acabamos nutrindo certo apreso por ele. Ao longo da narrativa, acabamos compreendendo os motivos das ações do rico fazendeiro que construiu sua fortuna através da violência e da opressão. Na sequência, aparece "Confesso que Vivi" (Difiel) de Pablo Neruda. Apesar de o poeta chileno ter escrito obras melhores que esta, como "Canto Geral" (Bertrand Brasil) e "Cem Sonetos de Amor" (L&PM Pocket), acabei ficando fascinado pelo seu livro de memórias. O fato de eu não ser muito fã de poesia ajudou neste sentido. Além disso, a história de vida de Neruda, retratada em detalhes em "Confesso que Vivi", é espetacular. Até parece que o que estamos lendo é uma ficção, tamanha é a coleção de surpresas. Para completar, achei o título desta obra maravilhoso. Até quando escreve suas memórias, Neruda consegue ser poético. Incrível! Para terminar a lista dos sete melhores livros do Desafio Literário de 2016, coloco na sétima posição "O Alquimista" (Planeta). Sei que isso provoca certa polêmica. Afinal, há muita gente que detesta Paulo Coelho e não consegue encontrar qualidade em nenhuma de suas obras. Admito que os outros quatro livros do brasileiro que li são muito fracos. Contudo, "O Alquimista" é uma excelente parábola. A história é boa e ela é escrita como deve ser uma parábola: trama simples, linguagem informal, temática universal e personagens maniqueístas. Apesar de possuir um conteúdo fortemente religioso (algo que me faz sempre ficar com um pé atrás), esta narrativa, de uma maneira geral, é mais uma obra inspiradora do que dogmática (outra característica de uma boa parábola). Não é à toa que este seja o livro brasileiro de maior sucesso internacional. Ele teve mais de 80 milhões de unidades vendidas e foi traduzido para mais de 60 línguas. Não pode ser uma porcaria como alguns teimam em afirmar. Estes foram os setes autores lidos e analisados em 2016: Graciliano Ramos, Agatha Christie, Pablo Neruda, Sidney Sheldon, Paulo Coelho, Khaled Hosseini e Italo Calvino. Felizmente, foi possível extrair um pouco de cada um deles para compor os melhores livros lidos neste ano. Até o próximo Desafio Literário! Até 2017! Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

  • Livros: Triste Fim de Policarpo Quaresma - O deboche primoroso de Lima Barreto

    Lima Barreto foi um autor ousado. Em 1911, lançou em folhetim uma história que criticava os políticos nacionais, os funcionários públicos federais, a sociedade burguesa da época, o espírito patriota dos brasileiros, os ideais republicanos, e, principalmente, o Brasil do final do século XIX e do início do século XX. "Triste Fim de Policarpo Quaresma" (Paulus) foi publicado em livro em 1915, mas seu enredo ainda é atualíssimo. Foi este romance da fase Pré-Modernista que li no último final de semana. Ao concluí-lo, senti que estava diante do retrato do Brasil e do Rio de Janeiro dos dias de hoje. Até mesmo as intrigas políticas e a divisão ideológica que racharam nosso país em 2016 estão ali descritas. Incrível! "Triste Fim de Policarpo Quaresma" trata da vida de um homem apaixonadamente patriota. Policarpo Quaresma é provavelmente o protagonista literário que mais tenha amado o Brasil. Apelidada de Major (não tinha esta patente de fato, sendo um funcionário público convencional), a personagem vivia de enaltecer seu país e acreditava verdadeiramente que morava no melhor lugar no mundo. Em sua crença cega, nossos rios eram os maiores, nossas terras eram as mais produtivas, nosso povo o mais capacitado, nossa natureza a mais exuberante, nossas cidades as mais bonitas... Esta visão ufanista trouxe muitos problemas a Quaresma. Ele era visto por todos como excêntrico e amalucado. Apreciador das coisas brasileiras, valorizava tudo aquilo que fosse genuinamente nacional e desprezava o que fosse estrangeiro. Por isso, passou a estudar o nosso folclore e a língua tupi-guarani (em sua visão, este era o idioma genuinamente brasileiro). Policarpo chegava a se comportar às vezes como os tupinambás, tribo indígena que habitava o Brasil no período Pré-colonial. Uma cena em que ele entra chorando na casa da afilhada é sensacional. A moça imaginava que o pior tenha acontecido para o padrinho derramar tantas lágrimas. Perguntado por que agia daquela maneira, o protagonista foi enfático: aquele gesto era sinal de alegria. Afinal, os tupinambás, ao reencontrarem pessoas queridas, choravam. "Triste Fim de Policarpo Quaresma" é dividido em três partes. Na primeira, o protagonista morava no Rio de Janeiro e trabalhava como funcionário público. Nesta fase, vendo as vantagens e a importância de um estilo de vida genuinamente nacional, ele tentou fazer uma reforma cultural no país. Enviou um ofício para o presidente Floriano Peixoto apresentando sua proposta. Rapidamente, o patriotismo de Quaresma tornou-se alvo da zombaria de todos no Rio de Janeiro, sendo assunto nos jornais. Suas ideias e manias fizeram com que Policarpo fosse demitido do emprego e internado em uma clínica psiquiatra. Para a sociedade, ele estava louco. A segunda fase do romance inicia-se quando Policarpo Quaresma sai do hospício e se muda para o interior do Rio de Janeiro. Uma vez morando na zona rural, ele dedica-se a provar que a solução do Brasil está na agricultura. Gastando todas suas energias e dinheiro, ele investe no sonho de tornar seu sítio um grande produtor de alimentos. Empolgado com esta ideia, envia para o Marechal Floriano Peixoto um artigo no qual propõe uma Reforma Agrícola no país. Obviamente é outra vez ignorado. Na última fase da trama, Policarpo retorna para o Rio de Janeiro para defender o presidente de uma rebelião que acontecia na capital (Revolta da Armada). Patriota, ele não admitia que alguém impedisse que Floriano Peixoto fosse tirado do comando do Brasil. Além de defender o marechal, Quaresma apresentou ao presidente uma proposta de Reforma Política para melhorar as engrenagens do trabalho governamental. Não é preciso dizer o que aconteceu com suas ideias. Um dos principais representantes do movimento Pré-Modernista, "Triste Fim de Policarpo Quaresma" é um livro muito interessante. Ele possui pontos que marcaram a literatura de Lima Barreto. O estilo da narrativa é informal e possui uma linguagem despojada. Frases e expressões usadas no dia a dia daquela época são incorporadas ao discurso. Trata-se de uma narrativa que mistura o coloquialismo da linguagem oral das ruas com o estilo dinâmico do jornalismo. Além disso, o romance apresenta com clareza a realidade do país entre o final do século XIX e o começo do século XX. Ali estão o início da formação das favelas nos morros cariocas, as injustiças sociais, os preconceitos raciais de uma nação recém- abolicionista, as críticas aos valores burgueses e o princípio de um movimento feminista. Os pontos altos do livro estão em sua forte ironia e na construção primorosa do seu protagonista. Há cenas e, principalmente, várias personagens em que Lima Barreto provoca a sociedade da época. A coleção de irônicas é vasta: um médico que só obtém prestígio ao escrever obviedades porque usa uma linguagem pomposa e de difícil compreensão; um importante general do exército que nunca foi a uma batalha; o almirante que nunca teve um navio; o presidente, símbolo maior do funcionalismo público, é preguiçoso e incompetente; e para completar, a afilhada de Policarpo, Olga, é uma mulher que não acredita no casamento e não se empolga com o seu matrimônio. É ou não é uma bofetada na cara da sociedade da época?! Policarpo Quaresma é uma personagem carismática, caricata e engraçadíssima. Suas crenças e seus comportamentos divertem o leitor. Sua ingenuidade e sua visão irreal da vida o transformam em um Dom Quixote tupiniquim. Assim como o protagonista de Cervantes, Policarpo também possui o seu Sancho Pança (é o negro Anastácio). Impossível não rir com as ações e os pensamentos de Quaresma. O ponto negativo do livro está em focar desnecessariamente em algumas personagens secundárias. Por mais irônicas e interessantes que elas sejam, há um excesso de linhas dedicadas aos aspectos menores de suas vidas. Ao invés de concentrar mais nas trapalhadas de Policarpo Quaresma, Lima Barreto acaba preferindo detalhar, por exemplo, as agonias da família Albernaz com sua filha Ismênia. Achei pobre e desnecessária esta parte. Outro aspeto que incomoda um pouco a leitura é o excesso de descrições feitas pelo autor. As ações das personagens são sempre pontuadas com muitos detalhes do cenário e de componentes insignificantes da trama. De uma forma, esta característica se assemelha um pouco com os romances românticos em que se fala muito para dizer pouco. Lima Barreto foi um autor engajado socialmente e politicamente ativo. Comunista, ele gostava de denunciar as injustiças sociais e criticar a sociedade burguesa. "Triste Fim de Policarpo Quaresma" é sua obra mais irônica e contundente. Ao lê-la, percebe-se que o Brasil não mudou muito nos últimos 100 anos. Os problemas parecem os mesmos e o comportamento das pessoas se repete infinitamente ao longo do tempo. Este é um livro para ler, pensar e, por que não, rir das nossas próprias desgraças. Não é à toa que esta história seja ainda tão atual. Depois de um ano complicado politicamente como foi este de 2016 no Brasil, não poderia haver um livro mais apropriado para se ler em dezembro. "Triste Fim de Policarpo Quaresma" foi transformado em filme em 1998, em uma versão totalmente diferente do romance original de Lima Barreto. Por exemplo, no longa-metragem, o protagonista tem um romance com sua afilhada e acaba sendo fuzilado no final. Estes pontos não existem no livro. Há seis anos, Antunes Filho também tomou a liberdade de fazer uma produção teatral com várias modificações. A peça era ótima e tinha Lee Thalor interpretando o personagem nacionalista. Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. 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