• Ricardo Bonacorci

Livros: A Valsa dos Adeuses - O terceiro romance de Milan Kundera


A Valsa dos Adeuses de Milan Kundera

Neste final de semana, li “A Valsa dos Adeuses” (Companhia de Bolso), o terceiro romance de Milan Kundera. Achei este livro na biblioteca do meu pai alguns dias atrás e não resisti – peguei emprestado e o devorei. Quem acompanha o Bonas Histórias há algum tempo sabe o quanto adoro a literatura de Kundera. O autor tcheco se tornou best-seller mundial nas décadas de 1980 e 1990. Sua obra mais famosa é “A Insustentável Leveza do Ser” (Companhia das Letras), romance obrigatório em qualquer biblioteca contemporânea de bom gosto.


As tramas de Milan Kundera misturam a filosofia existencialista com conflitos amorosos com uma pegada ácida, melancólica, soturna e pessimista. Normalmente, os leitores com paladares mais refinados, os apreciadores de leituras com sabores agridoces (ou seriam sabores cítricos?!) e os corajosos que se arriscam por narrativas com fortes componentes filosóficos são os que mais curtem os títulos deste escritor. Contudo, nos últimos anos, Kundera deixou de frequentar a lista dos romancistas mais vendidos da atualidade. Aos 91 anos, ele publicou sua última ficção, “A Festa da Insignificância” (Companhia das Letras), em 2014. É uma pena esse esquecimento porque o tcheco merece ser lembrado e citado sempre como um dos grandes nomes da literatura da segunda metade do século XX.


O trabalho artístico de Milan Kundera já foi analisado em detalhes aqui no blog. No Desafio Literário de setembro de 2019, comentamos seis de suas principais obras: “A Brincadeira” (Companhia de Bolso), “Risíveis Amores” (Companhia de Bolso), “A Insustentável Leveza do Ser”, “A Arte do Romance” (Companhia das Letras), “A Imortalidade” (Companhia das Letras), e “A Festa da Insignificância”. Infelizmente, “A Valsa dos Adeuses” não foi incluída no estudo naquela oportunidade. Agora, resolvi consertar esse possível tropeço da minha parte.

Milan Kundera

Lançado em 1976, “A Valsa dos Adeuses” foi o primeiro livro de Milan Kundera publicado depois que ele se mudou de Praga para Paris. A chegada do autor à capital francesa aconteceu em 1975. Alvo da perseguição dos comunistas soviéticos que interviram militarmente na Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, Kundera foi censurado em seu país natal no final da década de 1960. Calado e ameaçado pelas autoridades, o romancista achou melhor ir para um lugar livre e mais seguro.


Entretanto, mesmo vivendo na Europa Ocidental, sua literatura continuou abordando a opressão dos sistemas políticos socialistas. Nesse sentido, “A Valsa dos Adeuses” segue a linha iniciada em “A Brincadeira” e estendida para “Risíveis Amores”, “A Vida Está em Outro Lugar” (Companhia de Bolso), “O Livro do Riso e do Esquecimento” (Companhia de Bolso) e “A Insustentável Leveza do Ser”. Esse padrão estético-narrativo só mudaria a partir de “A Imortalidade”, primeiro romance ambientado em Paris e com uma trama mais universal (sem tantos componentes políticos).


Como aconteceu com todos os livros depois de “A Brincadeira” (o escritor lançou antes três coletâneas poéticas, mas esses títulos não tiveram grande repercussão de público nem de crítica), “A Valsa dos Adeuses” foi publicado primeiramente na França e só depois chegou à Tchecoslováquia. Lembremos que Milan Kundera era um artista censurado em seu país e que teve a cidadania tcheca cancelada pelas autoridades soviéticas. E assim ele ficou por muitos e muitos anos nessa condição (em 1980, adquiriu a cidadania francesa). Para se ter uma ideia do quão absurda era essa situação, basta dizermos que “A Insustentável Leveza do Ser”, o título mais famoso de Kundera, só foi lançado em tcheco em 2006; e que o autor só teve de volta a cidadania tcheca no ano retrasado.

Livro A Valsa dos Adeuses de Milan Kundera

Mesmo tendo sido publicado antes na França (e, obviamente, em francês), “A Valsa dos Adeuses” foi escrito na Tchecoslováquia (alguns anos antes da mudança do escritor para Paris) e na língua materna de Milan Kundera. Só depois o texto original foi traduzido para o francês e, a partir daí, para os demais idiomas. O primeiro título de Kundera escrito diretamente em francês foi “A Imortalidade”, obra que representou o início de uma nova fase na literatura de Kundera. Algo que marcou “A Valsa dos Adeuses” foi o emprego acentuado da ironia. Com um humor sutil e extremamente inteligente, Milan Kundera expõe os absurdos tragicômicos das relações amorosas a partir de reflexões existencialistas e da crítica aos sistemas ditatoriais dos países socialistas.


O enredo de “A Valsa dos Adeuses” se passa em uma pequena estação de águas em um povoado turístico no alto das montanhas da Tchecoslováquia. O local é muito procurado por mulheres com dificuldades para engravidar. Ali, elas fazem tratamento médico na clínica do Doutor Skreta, um respeitado ginecologista. Ele é especializado em fecundidade e consegue resultados espantosos com suas pacientes. A trama se passa em cinco dias de Outono.


Ruzena, uma jovem enfermeira da equipe do Dr. Skreta, telefona para Klima, um famoso trompetista que mora em Praga. Na ligação feita ao teatro da capital tcheca onde o músico ensaia com sua orquestra, a moça comunica que está grávida dele. Os dois tiveram uma relação sexual ocasional na noite em que Klima fez uma apresentação musical na estação de águas há dois meses. Evidentemente, a notícia assusta o trompetista. Klima é casado com Kamila, uma ex-cantora que é muito ciumenta. Ele ama a esposa e não quer se separar dela. Ao mesmo tempo, ele não pode ter o filho com a amante de uma única noite. Por outro lado, Klima sabe que não deve abandonar Ruzena, uma jovem solteira que passa por um momento extremamente delicado. O que fazer?!

Livro A Valsa dos Adeuses de Milan Kundera

Querendo resolver a situação de maneira satisfatória para si, Klima viaja no dia seguinte para a estação turística. Nessa viagem, ele tentará convencer a amante a abortar. Para tal, ele irá fazer falsas promessas de amor à moça. Em seu discurso, devidamente ensaiado, o trompetista dirá que deseja há muito tempo largar a esposa e viver com quem realmente ama. Nesse caso, sua verdadeira paixão é a enfermeira. Na empreitada de convencer a pobre Ruzena a não ter o bebê (o nascimento da criança iria atrapalhar o início do relacionamento do novo casal), o músico da capital irá contar com a ajuda do Dr. Skreta, que além de médico é um baterista amador, e de Bertlef, um excêntrico milionário norte-americano. O trio tentará enganar a mulher para ela aceitar a realização do aborto.


O problema é que Ruzena, apesar de inocente, contará com o apoio das colegas enfermeiras para não cair na armação dos homens inescrupulosos. Além disso, ela tem um namorado ciumento, Frantisek. Ele não deseja abandonar a amada em hipótese nenhuma. O rapaz, mais jovem do que a enfermeira, é desprezado por Ruzena por ter uma origem humilde e uma profissão simples (ele é mecânico).


Enquanto acompanhamos o duplo triângulo amoroso dos protagonistas (Ruzena–Klima–Kamila e Klima–Ruzena–Frantisek), assistimos também aos dramas sentimentais de Olga, uma paciente de Ruzena/Dr. Skreta, com Jakub, um psicólogo que está prestes a deixar a Tchecoslováquia para sempre. Olga é apaixonada pelo amigo mais velho, que de certa maneira a adotou quando ela perdeu os pais ainda pequena. Porém, Jakub vê a moça apenas como uma filha adotiva e não como uma parceira sexual ou uma mulher para amar como esposa. Ele viajou para a estação de águas para se despedir de Olga e do Dr. Skreta, seu amigo de longa data. Sua mudança para o exterior está programada para dali a poucos dias. O último encontro com o psicólogo será a chance de Olga mostrar que é apaixonada por ele.

Livro A Valsa dos Adeuses de Milan Kundera

“A Valsa dos Adeuses” possui 248 páginas e está dividido em 5 partes (“Primeiro Dia”, “Segundo Dia”, “Terceiro Dia”, “Quarto Dia” e “Quinto Dia”). Em se tratando da literatura de Milan Kundera, essa divisão é algo inusual (ele é conhecido por fracionar suas tramas em sete partes). O romance tem 85 capítulos e sua leitura é super rápida. Li esta obra em um único dia. Levei pouco mais de 5 horas para concluí-la. Comecei a ler “A Valsa dos Adeuses” na manhã do último sábado e no final da tarde, comecinho da noite já o tinha terminado.


Quem leu “A Insustentável Leveza do Ser” irá notar muitas semelhanças entre os dois romances: triângulos amorosos como base da narrativa, conflito duplo (são dois os casais de protagonistas), personagens melancólicos, infiéis e atormentados, forte intertextualidade musical e literária, sexo e paternidade/maternidade desassociados do amor romântico e doses generosas de reflexões filosóficas. Não é errado enxergar “A Valsa dos Adeuses”, publicado sete anos antes de “A Insustentável Leveza do Ser”, como uma prévia do best-seller de Milan Kundera.


Talvez a grande diferença entre esses títulos seja o tipo de narrador utilizado. Enquanto “A Valsa dos Adeuses” é narrado em terceira pessoa por um narrador observador onisciente e onipresente (com acesso ilimitado aos pensamentos e sentimentos das personagens), “A Insustentável Leveza do Ser” é narrado em primeira pessoa por alguém misterioso e que não participa efetivamente da trama (mesmo assim, tem acesso ilimitado aos pensamentos e sentimentos das personagens a partir da observação dos acontecimentos).

Livro A Valsa dos Adeuses de Milan Kundera

Apesar das incontáveis semelhanças, acho equivocado olharmos para “A Valsa dos Adeuses” como uma simples prévia (ou esboço) de “A Insustentável Leveza do Ser”. Este livro de Kundera que estamos analisando hoje possui seus próprios méritos e tem um texto com uma qualidade indiscutível. Algo que mais me chamou a atenção nesta leitura foi o humor de Milan Kundera. Achei esse romance o mais irônico do autor. É verdade que este não é um título que provoca gargalhadas no leitor (humor e ironia não são sinônimos de risada!). O humor irônico de Milan Kundera é inteligente e bastante sutil.


Note a série de paradoxos de “A Valsa dos Adeuses”: a enfermeira de uma clínica de fertilidade cogita o aborto (em um caminho oposto ao desejado pelas suas pacientes); o médico especialista em fecundidade (e com vários filhos espalhados pelo país) sonha em ser adotado depois de adulto; o embate quase bélico entre os homens e as mulheres em relação à gravidez (em contraste com a paixão carnal dos dois lados na hora da procriação); e o sentimento de tranquilidade de Jakub ao se imaginar como responsável por um assassinato arbitrário (e ele é justamente o crítico mais ferrenho do governo de seu país, que provoca prisões, maldades e crimes sistemáticos e injustos). A cena mais cômica é a de Jakub (lembremos: um psicólogo) acompanhando o Dr. Skreta em suas consultas ginecológicas (para desespero de um leitor mais pudico e para desespero de alguém minimamente ético!).


As reflexões de Milan Kundera dialogam intimamente com os conceitos filosóficos de Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Jean-Paul Sartre e com as narrativas existencialistas de Albert Camus, Fiódor Dostoiévski, Sófocles, Robert Musil e Henry Fielding. Minha impressão é que Kundera constrói suas tramas ficcionais apenas para debater com maior profundidade os temas niilistas que tanto aprecia. Por isso, não espere enredos tão elaborados nos livros do tcheco (se bem que “A Valsa dos Adeuses” tem até um conflito interessante, alguma ação e várias reviravoltas que contagiam os leitores). O foco de seu texto está principalmente na discussão filosófica (a história ficcional é mero pretexto para suscitar os debates existencialistas). Portanto, se você não gosta desse tipo de reflexão, talvez não curta muito as obras de Milan Kundera.

Livro A Valsa dos Adeuses de Milan Kundera

Os temas abordados em “A Valsa dos Adeuses” são: amor, inclinações sexuais, felicidade e infelicidade conjugais, paternidade/maternidade, orfandade, suicídio, morte, assassinato, esperança, liberdade, prisão, patriotismo, individualidade, desejo de ordem social, sacrifício, opressão, misoginia, preconceito estético, beleza versus feiura, coragem, realidade, imaginação, ciência versus arte, leitura da história, prática política, religião/fé/Deus, desejo de admiração, ilusão e aspiração de justiça. Deu para ver que são assuntos pesados.


Em meio a tantos temas debatidos, o principal mote deste romance é mesmo a paternidade. Milan Kundera apresenta um panorama variado e profundo sobre a representatividade paternal e a prática da criação dos filhos. Na maior parte do tempo, o enfoque da trama é feito a partir da visão masculina. Por isso, não se espante se o conteúdo textual trouxer algum machismo intrínseco (algo corriqueiro em se tratando de personagens masculinas da década de 1970).


A maternidade/paternidade, o casamento, a monogamia, o sexo e o amor são descritos prioritariamente como algo negativo. Kundera expõe o lado sombrio do ser humano e de suas relações sentimentais. Não se assuste, portanto, se homens e mulheres forem retratados como adversários ferrenhos e não como cumplicies em parcerias conjugais (leia-se matrimônios) sólidas e duradoras. Por uma perspectiva mais moderna, Milan Kundera pode ter apresentado um mundo em que o sexo, o casamento e a maternidade/paternidade são elementos totalmente desvinculados um do outro.


Quanto às intertextualidades literária e musical presentes nesta obra, “A Valsa dos Adeuses” é um típico romance de Kundera. O universo musical e o panorama literário são citados o tempo inteiro pelo narrador e pelas personagens, o que dá um colorido especial ao texto. Para quem não sabe, o escritor tcheco foi filho de pianista e tocou Jazz na noite de Praga por muitos anos (antes de se enveredar pela ficção).

Milan Kundera

Outro ponto bastante positivo deste livro é o ótimo conjunto de diálogos. Os discursos (conversas das personagens) de “A Valsa dos Adeuses” são geralmente reveladores e fazem a narrativa girar (assim como os pensamentos e os sentimentos das figuras retratadas nas páginas do romance). Milan Kundera é um autor que produz diálogos profundos e impactantes. Muitas vezes, eles são até mais importantes do que a própria sucessão de ações dos protagonistas. Incrível reparar nesse aspecto da construção narrativa.


Também gosto muito do ambiente construído por Kundera em “A Valsa dos Adeuses”. Nesta obra, como ocorre em “A Brincadeira”, em “Risíveis Amores” e em “A Insustentável Leveza do Ser”, a ambientação é de grande opressão. A culpa é obviamente da ditadura comunista, que está presente o tempo inteiro na história, atormentando a consciência das pessoas e pautando suas ações. As personagens, já melancólicas, egoístas, hedonistas e complexadas por natureza, vivem diante de uma sociedade autoritária, violenta e intransigente. O resultado é o medo constante de ser a próxima vítima do sistema político que mói pessoas.


“A Valsa dos Adeuses” é um dos livros de Milan Kundera que mais gostei. Seria ele, então, um dos melhores trabalhos do autor?! À princípio, fiquei inclinado a responder de forma positiva a essa questão. Porém, após uma reflexão rápida, mudei totalmente de opinião. Acho que apreciei mais esta obra porque agora entendi a dimensão literária e a estética narrativa propostas por Kundera (e não tanto por sua qualidade ser tão superior aos demais títulos). Pensando assim, me senti mais motivado para ler os livros do tcheco que ainda não conheço. Não se surpreenda se nos próximos meses eu comentar na coluna Livros – Crítica Literária novos títulos de Milan Kundera.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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