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  • Melhores Músicas Ruins: Premiação de 2022

    Saiu o resultado da oitava edição do tradicional evento musical do Bonas Histórias. Veja (e ouça) as 22 melhores canções ruins do ano passado. Por favor, tirem as crianças (os idosos, os portadores de comorbidade, as almas mais sensíveis, os coraçõezinhos mais delicados, as pessoas com o mínimo de bom gosto, aqueles que ainda não se vacinaram e todos os seres racionais que você conheça: homo sapiens, mulher sapiens, hétero sapiens e dog sapiens) da sala porque hoje é dia de Melhores Músicas Ruins. Sim, senhoras e senhores, o Bonas Histórias apresenta em primeira mão (na verdade, é em segunda mão mesmo – você já vai entender) o resultado da oitava edição da mais gabaritada premiação da música brasileira (depois de todas as outras, claro!). Antes que alguém proteste (não adianta ir para a frente dos quartéis, tá?) ou peça recontagem dos votos (a votação foi impressa e auditada!), preciso alertar: a gente poderia estar matando, roubando, pedindo intervenção militar, fazendo pirâmide financeira ou produzindo fake news. Mas não. Só estamos fazendo um concurso musical de maneira democrática e exercendo nosso direito constitucional à livre opinião. Assim sendo, que rufem os tambores. Lá vem o post mais esperado pelos fãs (e pelos haters) do Prêmio Melhores Músicas Ruins, um evento exclusivo e tradicional do blog. Quem será que conquistou o Orelhão de Ouro (1º lugar), o Orelhão de Prata (2ª colocação), o Orelhão de Bronze (3º posto) e os Orelhões de Lata (da 4ª à 22ª posições) do ano passado, hein? Tananananã. Segure um pouco, por gentileza, a curiosidade que já vamos à lista completa dos campeões nacionais. Antes preciso trazer algumas rápidas ponderações. Os vencedores do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2022 foram revelados, conforme reza a cartilha do evento (PEC 1.202-12 de 31 de abril de 2017, artigo terceiro, parágrafo último), no segundo sábado do ano. Portanto, a festa de entrega das estatuetas ocorreu em 14 de janeiro. Os trabalhos começaram a partir das 21h. Entendeu agora o porquê este post é uma apresentação de segunda mão e não de primeira?! A mais recente edição da premiação foi realizada no espaço da Dança & Expressão, em Perdizes, cidade de São Paulo, e teve o patrocínio master da Epifania Conteúdo Inteligente, agência paulistana de comunicação e marketing (ou seria uma consultoria de marketing e comunicação? – sei lá!). Mais uma vez os convidados da cerimônia foram exclusivamente personalidades (como o próprio nome já diz, né?) convidadas! Se você comprou ingresso para a nossa premiação, perdeu playboy, perdeu playgirl. Sinto informar novamente que você caiu no velho golpe da entrada falsa! No site oficial do Melhores Músicas Ruins (www.naovendemosingressos.com.br), cansamos de avisar ao longo do ano passado que não existe venda de ingresso para a cerimônia. Apesar de alertarmos insistentemente para a prática antiética e criminosa de cambistas oficiais e extraoficiais, há sempre quem se avoluma na frente dos nossos eventos querendo entrar de maneira irregular. Se você não tinha entrada legítima (e não subornou a equipe da portaria), não pôde entrar. Pronto! Juro que não entendo as reclamações nesse sentido. Feitas tais observações, voltemos ao que interessa: a lista das canções campeãs do ano passado. Se você passou os últimos meses sem saber o que estava rolando de mais interessante (ou não) no universo fonográfico nacional, agora é a sua chance de saber quais foram as 22 melhores músicas ruins lançadas no Brasil em 2022. Afinal, em ano em que tivemos Copa do Mundo, inacreditável polarização política, eleição presidencial disputadíssima, golpe militar em Brasília (espere 72 horas e consulte o WhatsApp novamente), volta à normalidade depois da pandemia (que pandemia?!), guerra na Europa, mortes de papa, rei e rainha, auge da crise climática, separação de Gisele e Tom e invasão alienígena (se você não souber o que estou falando, entre no Telegram o mais rapidamente possível), quem ia ficar ouvindo música, né? Só mesmo o SOSAMOR (a pronúncia correta é SOS AMOOOOOOOOOOR), a tão aclamada Sociedade Orelhuda Secreta dos Adoradores das Músicas Orgulhosamente Ruins, para ficar ligado nesses assuntos banais. Se você não souber (ou não se lembrar) o que são os Orelhões estrelados nem o que é o SOSAMOR (pronuncie corretamente, por favor; já disse que é SOS AMOOOOOOOOOOR), aconselho a ler (ou reler) as explicações dadas no post da última edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins. Lá estão a apresentação da dinâmica do evento e o detalhamento de como acontece anualmente a seleção das melhores canções brasileiras de baixo nível. Não vou ficar aqui fazendo você perder seu precioso tempo com um texto repetitivo e/ou sem importância, né? Sei que você tem mais o que fazer e não se sujeitaria a ler um post no Bonas Histórias com uma sequência interminável de besteiras. Cruz-credo! Por isso mesmo, vamos sem mais delongas aos vencedores. Os bolsonaristas que nos desculpem, mas o Orelhão de Ouro de 2022 foi para “Tá Na Hora do Jair Já Ir Embora”. O piseiro premonitório (ou seria simplesmente um diagnóstico político-social?!) de Juliano Maderada e Tiago Doidão é um hit nacional indiscutível desde setembro, quando o videoclipe oficial da música foi lançado e explodiu nas redes sociais. A canção que se popularizou entre os brasileiros (de bom senso) sofreu uma ligeira alteração em sua letra. Até agosto, “Tá Na Hora do Jair Já Ir Embora” possuía uma versão com críticas mais explícitas ao então presidente Jair Bolsonaro. Veja alguns versos da faixa original: “Catando dinheiro/e comprando Viagra/o Jair não vale nada/É um preguiçoso/que nunca trabalha/o Jair não vale nada/Tem apoio de Cunha/isso é laranjada/ o Jair não vale nada/O jovem sem emprego/e ele fazendo piada/o Jair não vale nada”. Na versão final que se tornou mais famosa, “Tá Na Hora do Jair Já Ir Embora” manteve a forte crítica política de um jeito indireto. A música passou a flertar sabiamente com uma possível desilusão amorosa, algo que não existia na primeira versão. Na nova letra, o tal Jair (que pode não ser necessariamente o agora ex-presidente, tá?) foi expulso de casa pela antiga companheira. Nada mais justo, já que “Ele te fez sofrer/Ele te fez chorar”. Confira a nova sequência de versos: “Eu bem que te avisei/Você não quis me ouvir/Agora tá sabendo/quem é esse Jair/Ele te fez sofrer/Ele te fez chorar/Arruma as malas dele/e bota ele pra vazar”. O refrão viciante se manteve: “Tá na hora do Jair/Tá na hora do Jair/já ir embora/Arruma suas malas/dá no pé e vá se embora”. Assim, “Tá Na Hora do Jair Ir Embora” se junta aos clássicos na música brasileira como “Tapão na Raba”, forró de Raí Saia Rodada (vencedor do Melhores Músicas Ruins de 2021), “Três Batidas”, sertanejo de Guilherme & Benuto (Orelhão de Ouro do Melhores Músicas Ruins de 2020), “Todo Mundo Vai Sofrer”, sofrência da hors concours Marília Mendonça (1º lugar do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2019), “Dona Maria”, sertanejo de Thiago Brava (principal hit do Melhores Músicas Ruins de 2018), “Fazer Falta”, funk de MC Livinho (campeão do evento do Melhores Músicas Ruins de 2017), “Essa Mina É Louca”, mistura de pop e funk de Anitta (Orelhão de Ouro do Melhores Músicas Ruins de 2016) e “Meu Amor é Dez”, obra-prima de Edson & Hudson (1ª posição no Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2015). A criação musical de Juliano Maderada e Tiago Doidão que embalou a campanha eleitoral petista superou por poucos votos (foi a eleição mais apertada da história) “Acorda Pedrinho”. O megassucesso da banda Jovem Dionísio ficou com o Orelhão de Prata de 2022. A canção de indie pop se tornou onipresente no Brasil em meados do ano passado e conquistou o coração de todos os integrantes do SOSAMOR (apesar dos abalos psicológicos provocados nos ouvintes mais assíduos – cuidado!). Nunca uma mera partida de sinuca foi tão viciante. Até quem passou os últimos meses residindo em Marte deve conhecer o refrão: “Acorda, Pedrinho/que hoje tem campeonato/Vem dançar comigo/Vai ver que eu te esculacho”. Já o Orelhão de Bronze foi entregue a “Desenrola Bate Joga de Ladin”, passinho interpretado por L7nnon e Os Hawaianos. Essa canção se tornou febre no país inteiro e nas redes sociais dos brasileiros (o que explica muita coisa...). A versão que ficou nacionalmente famosa contou também com a participação de DJ Bel da CDD e Biel do Furduncinho. Os versos principais dessa música memorável você já deve conhecer. Por isso, cante comigo: “Desenrola, bate, joga de ladin/Desenrola, bate, joga de ladin/Tá apanhando, tá lançando essa brava pro menorzin/Tá apanhando, tá lançando essa brava pro menorzin”. É ou não é um hit gostosin que vai parar o Carnaval, hein? Outras 19 faixas receberam o Orelhão de Lata e complementaram a lista das 22 melhores canções ruins do ano passado. O dado curioso da edição de 2022 é que ela se tornou a mais eclética da história. Os premiados abrangem oito estilos musicais: (1) piseiro/forró,(2) pop/indie pop/pop romântico, (3) passinho/funk, (4) sertanejo, (5) pagode, (6) trap/rap, (7) hip hop e (8) bachata. Se contarmos as variações de gêneros, são de 11 a 12 modalidades musicais distintas. É um recorde! Tem prova maior da riqueza e da pluralidade da música popular brasileira, hein? Mesmo com tanta variedade, o sertanejo (sempre ele!) continua sendo o estilo com mais representantes nos Melhores Músicas Ruins. Os petistas que nos desculpem, mas esse ritmo teve 7 faixas contempladas na lista dos vencedores do ano passado (32% dos premiados). É uma recuperação considerável em relação à edição de 2021, quando o sertanejo ficou com apenas 19% das estatuetas. Porém, o número atual é apenas uma fração do seu alcance de outrora. Nas primeiras edições, vale o registro, esse gênero musical reinava quase que absoluto. Na premiação de 2015, 100% dos selecionados eram faixas de sertanejo. E na premiação de 2016, o sertanejo era 60% dos campeões dos Orelhões. Para os interessados (ou desavisados), segue a lista completa do Prêmio Melhores Músicas Ruins de 2022: 22ª posição: “Tem Cabaré Essa Noite” – Nivaldo Marques & Nattan – Bachata 21ª posição: “Basiquinho” – Matheus & Kauan – Sertanejo 20ª posição: “Malvadão 3” – Xamã – Hip Hop 19ª posição: “Haja Colírio” – Guilherme & Benuto – Sertanejo 18ª posição: “Dengo” – João Gomes – Piseiro 17ª posição: “Cabo de Guerra” – Cleber & Cauan – Sertanejo 16ª posição: “Coração Cigano” – Luan Santana & Luísa Sonza – Pop Romântico 15ª posição: “Toma Toma Vapo Vapo” – Zé Felipe e MC Danny – Piseiro 14ª posição: “Bloqueado” – Gusttavo Lima – Sertanejo 13ª posição: “Vermelho” – Glória Groove – Pop 12ª posição: “Eu Gosto Assim” – Gustavo Mioto e Mari Fernandez – Sertanejo 11ª posição: “Sino” – Raffa Torres – Pop Romântico 10ª posição: “Tubarão Te Amo” – DJ LK da Escócia, MC Ryan SP, MC Daniel, MC RF, MC Jhenny e Tchakabum – Trap 9ª posição: “Comunicação Falhou” – Mari Fernandez e Nattan – Piseiro 8ª posição: “Termina Comigo Antes” – Gusttavo Lima – Sertanejo 7ª posição: “Erro Planejado” – Luan Santana e Henrique & Juliano – Pop Romântico 6ª posição: “Me Chama de Copo” – Atitude 67 e Grupo Menos É Mais – Pagode 5ª posição: “Propaganda” – Jorge & Mateus – Sertanejo 4ª posição: “Envolver” – Anitta – Pop/Funk 3ª posição: “Desenrola Bate Joga de Ladin” – Os Hawaianos, L7NNON, DJ Bel da CDD e Biel do Furduncinho – Passinho 2ª posição: “Acorda Pedrinho” – Jovem Dionísio – Indie Pop 1ª posição: “Tá Na Hora do Jair Já Ir Embora” – Juliano Maderada e Tiago Doidão – Piseiro Parabéns a todos os envolvidos (ou seriam culpados?!). Realmente, a oitava edição do Prêmio Melhores Músicas Ruins esteve terrivelmente impecável. No ano que vem, retornaremos com mais uma lista assustadoramente caprichada das principais canções brasileiras. Até mais! Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Se você é fã de canções boas de verdade, acesse a coluna Músicas. Para ver as demais edições deste prêmio, clique em Melhores Músicas Ruins. E não esqueça de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Mercado Editorial: Livros - Lançamentos em setembro e outubro de 2021

    Pelo segundo bimestre consecutivo, nossa lista de lançamentos tem 100 títulos de ficção e de poesia. Confira as principais novidades! Como diria minha falecida avozinha (salve, Dona Júlia!), o que é certo é certo. Nos dois últimos bimestres, eu enalteci, aqui na coluna Mercado Editorial, a quantidade, a variedade e a qualidade das ficções nacionais lançadas em nossas livrarias. Hoje, entretanto, preciso tirar o chapéu (salve, Raul Gil!) para os títulos ficcionais estrangeiros que chegaram às mãos dos leitores brasileiros. Os romances, as novelas e as coletâneas de contos gringas não apenas superaram em volume as obras domésticas como também se destacaram pela excelência do conteúdo. Obviamente, isso não quer dizer que não temos bons livros recém-lançados pelos escritores brasileiros. O que estou dizendo é que em setembro e outubro tivemos o predomínio da literatura estrangeira, ao menos quando o assunto é a relevância das novas publicações ficcionais. A boa notícia é que pela segunda vez consecutiva nossa listagem bimestral com os novos livros de ficção e poesia apresenta 100 títulos (eu disse CEM!!!). Os leitores mais assíduos do Bonas Histórias devem se lembrar que em julho e agosto desse ano também chegamos à marca de três dígitos em obras recém-publicadas. Essa é a primeira vez que uma dobradinha desse tipo acontece por aqui. Infelizmente, nos últimos anos, o mercado editorial brasileiro tem vivido de soluços. Quando um mês apresenta números positivos, logo os resultados negativos surgem no(s) mês(es) seguinte(s). E essa tendência, queiramos ou não, se estendia aos lançamentos. Estamos, enfim, assistindo ao fim dessa maldição? Tomara! Se os leitores nacionais não estiverem enchendo a sacola de compras, a culpa não pode ser atribuída às editoras e aos autores. Eles estão fazendo a parte deles e, como consequência, estamos recebendo, em 2021, várias novidades de alto nível. Comecemos os destaques desse bimestre pelos romances internacionais. Alguns dos meus escritores favoritos apresentaram novidades em setembro e outubro. O primeiro deles foi Mia Couto. O moçambicano trouxe “O Mapeador de Ausências” (Companhia das Letras), sua mais recente ficção. Nessa trama, Couto construiu um drama histórico com forte pegada autobiográfica. Afinal, o protagonista é um artista nacionalmente famoso que retorna à Beira, sua terra natal, para uma cerimônia de premiação. Essa volta às origens despertou, na personagem central do livro, lembranças da infância, período em que Moçambique era colônia portuguesa e enfrentou violentas guerras. Outra obra imperdível é “Sul da Fronteira, Oeste do Sol” (Alfaguara), o novo romance de Haruki Murakami. Essa narrativa tem tudo aquilo que marcou a literatura do mais popular escritor japonês da atualidade: personagens masculinas extremamente melancólicas, drama existencial, paixões impossíveis, famílias desajustadas, intertextualidade literária e musical e retrato das cenas banais do cotidiano. Se você gostou de, por exemplo, “Norwegian Wood” (Alfaguara) e “Minha Querida Sputnik” (Alfaguara), na certa irá curtir de “Sul da Fronteira, Oeste do Sol”. Duas boas pedidas são “Açúcar Queimado” (Dublinense), livro de estreia da norte-americana Avni Doshi, e “Caro Michele” (Companhia das Letras), da italiana Natalia Ginzburg. Enquanto a primeira obra, um drama familiar envolvendo encontros e desencontros de mãe e filha, foi finalista do Booker Prize de 2020, o segundo título, um romance político construído essencialmente através de cartas enviadas ao protagonista que raramente aparece, é um clássico da década de 1970. Se você for mais chegadinho(a) às narrativas mais curtas (na verdade, quero dizer de tamanho médio), temos cinco novelas estrangeiras, todas de autores argentinos ou angolanos. As obras que destaco aqui dos nossos hermanos são “Não É Um Rio” (Todavia), de Selva Almada, “Salvatierra” (Todavia), de Pedro Mairal, e “Janeiro” (Moinhos), de Sara Gallardo. Do outro lado do Atlântico, mas ainda em terras lusófonas, as novidades são “O Desejo de Kianda” (Kapulana), do magnífico Pepetela, e “Os Ventos ao Sul” (Aetia), de Fragata de Morais. Em média, esses títulos têm em torno de 100 páginas e podem ser lidos em um fôlego só. São, portanto, ideais para leitores apressados e pessoas que embarcaram de vez nos tempos pós-modernos (seja lá o que isso queira dizer...). Por falar em Argentina, outro livro de um autor que adoro é “Encaixotando Minha Biblioteca” (Companhia das Letras). Essa obra é a nova coletânea de crônicas, ensaios e memórias de Alberto Manguel. Sou fã desse escritor, um apaixonado pelos livros e pela literatura, desde que fui à exposição interativa “A Biblioteca à Noite” no Sesc Avenida Paulista. Nesse novo trabalho não ficcional, Manguel relata a aventura que foi transferir sua biblioteca particular com mais de 35 mil exemplares da França para os Estados Unidos. No processo de mudança do seu estimado acervo bibliográfico, o autor fala sobre a importância da literatura e dos livros. Entrando agora na literatura brasileira, os romances recém-lançados que mais chamaram minha atenção foram “O Pássaro Secreto” (José Olympio), de Marilia Arnaud, “Querida Cidade” (Record), de Antônio Torres, “Uma Tristeza Infinita” (Companhia das Letras), de Antônio Xerxenesky, e “Cidades Afundam em Dias Normais” (Rocco), de Aline Valek. “O Pássaro Secreto” é o romance vencedor do Prêmio Kindle de Literatura de 2021. Nessa prosa poética de Marilia Arnaud, acompanhamos o drama psicológico da narradora-protagonista que descobre, em plena infância, a existência de uma meia-irmã gerada fora do casamento. Por sua vez, “Querida Cidade” é a narrativa de Antônio Torres que retrata os desafios de um migrante. A personagem principal do livro deixou sua pequena cidade no interior do país e se mudou para a metrópole em busca de ascensão profissional e de uma vida melhor. Depois de um jejum de uma década e meia sem novos romances, o escritor baiano apresenta um texto ficcional repleto de elementos oníricos e uma trama entrecortada por diferentes períodos temporais. “Uma Tristeza Infinita” é o quarto romance de Antônio Xerxenesky. A nova história ficcional do escritor gaúcho é ambientada na Suíça e descreve os dramas pessoais e profissionais de um psiquiatra francês logo após a Segunda Guerra Mundial. E em “Cidades Afundam em Dias Normais”, a segunda narrativa longa de Aline Valek, é uma trama ambientada no Cerrado e protagonizada por uma fotógrafa que insiste em descobrir os antigos segredos da localidade onde nasceu. Para não me acusarem de ter esquecido de falar de outros gêneros narrativos e literários, ainda temos mais quatro livros de destaque dentro da literatura nacional. O primeiro dessa nova leva é “Diga que Não Me Conhece” (Todavia), novela de Flávio Cafiero. Sou fã das narrativas de Cafiero desde “O Frio Aqui Fora” (Cosac Naify). Como não perco nenhum lançamento do escritor carioca radicado em São Paulo, não poderia deixar de mencionar em minha lista “Diga que Não Me Conhece”. Essa história é protagonizada por um rapaz gay que ainda está abalado pelo término recente do último relacionamento amoroso. “O Mundo Desdobrável” (Relicário) é a primeira coletânea de ensaios da romancista Carola Saavedra.Nesse livro não ficcional, Saavedra questiona a importância da literatura em um planeta em franco colapso e em um mundo cuja realidade está baseada na desconexão e na pressa. Quem for apaixonado pela literatura ficcional, é legal ler essa obra juntamente com “Encaixotando Minha Biblioteca”. De certa maneira, os dois títulos são complementares. “Mamãe, Papai Fez Arminhas com a Mão” (Kotter) é o livro infantojuvenil de Venes Caitano, autor e ilustrador natural do Tocantins. De forma muito engraçada e inteligente, Caitano narra a perplexidade de uma menina de sete anos ao ver seu pai fazendo gestos sinistros. Impossível não relacionarmos essa trama aos recentes eventos políticos de nosso país. E, por fim, temos “Risque Esta Palavra” (Companhia das Letras), a coletânea poética de Ana Martins Marques, uma das grandes figuras da poesia brasileira contemporânea. Nessa obra, Ana reconstrói suas experiências afetivas com uma visão aguçada, inquietante e sensível do mundo interior e exterior. A lista completa do Bonas Histórias com os principais lançamentos desse quinto bimestre de 2021 está detalhada abaixo. Em nosso levantamento, vale a pena esclarecer, consideramos exclusivamente os títulos ficcionais (romances, novelas, coletâneas de contos e de crônicas, ensaios e literatura infantojuvenil) e as coletâneas poéticas que foram publicados ou republicados pelas editoras brasileiras entre setembro e outubro desse ano. Confira, assim, os 100 principais livros disponibilizados recentemente aos leitores nacionais: FICÇÃO BRASILEIRA: “O Pássaro Secreto” (José Olympio) – Marilia Arnaud – Romance – 200 páginas. “Querida Cidade” (Record) – Antônio Torres – Romance – 432 páginas. “Uma Tristeza Infinita” (Companhia das Letras) – Antônio Xerxenesky – Romance – 256 páginas. “Cidades Afundam em Dias Normais” (Rocco) – Aline Valek – Romance – 280 páginas. “Jamais Serei Seu Filho e Você Sempre Será Meu Pai” (Taverna) – Thiago Souza de Souza – Romance – 200 páginas. “É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém” (Nós) – Mariana Salomão Carrara – Romance – 272 páginas. “Homens Cordiais” (Rocco) – Samir Machado de Machado – Romance – 384 páginas. “Além das Horas” (S Guerra Design) – Rejane Markman – Romance – 136 páginas. “Os Bugres” (Urutau) – Rodrigo de Roure – Romance – 736 páginas. “À Meia-noite, Tudo Vai Estar Bem” (Ebook) – Matheus Lara – Romance – 280 páginas. “Diga que Não Me Conhece” (Todavia) – Flávio Cafiero – Novela – 112 páginas. “De Cada Quinhentos Uma Alma” (Companhia das Letras) – Ana Paula Maia – Novela – 112 páginas. “Vazão 10.8 – A Última Gota de Morfina” (Vento Leste) – Diógenes Moura – Novela/Autoficção – 104 páginas. “Florim” (Boto-cor-de-rosa) – Ruth Ducaso – Novela – 72 páginas. “A Dama de Branco” (Companhia das Letras) – Sérgio Sant´Anna – Coletânea de Contos – 192 páginas. “O Carro do Êxito” (Companhia das Letras) – Oswaldo de Camargo – Coletânea de Contos – 144 páginas. “Discurso Sobre a Metástase” (Todavia) – André Sant´Anna – Coletânea de Contos – 216 páginas. “Do Amor e de Outras Tristezas” (Urutau) – Rodrigo Novaes de Almeida – Coletânea de Contos – 64 páginas. “Qualquer Lugar Menos Agora” (Record) – J. P. Cuenca – Coletânea de Crônicas – 240 páginas. “Vida Desinteressante – Fragmentos de Memórias” (Companhia das Letras) – Victor Heringer – Coletânea de Crônicas – 264 páginas. “O Vento Mudou de Direção” (Fósforo) – Simone Duarte – Coletânea de Crônicas – 240 páginas. “Mas em que Mundo Tu Vive?” (Todavia) – José Falero – Coletânea de Crônicas – 280 páginas. “Vida, Morte e Outros Detalhes” (Companhia das Letras) – Boris Fausto – Coletânea de Crônicas/Memórias – 200 páginas. “Cartas – Constança Guimarães (1871-188)” (Quixote+Do) – Eliane Marta Teixeira Lopes (org.) – Coletânea de Crônicas/Memórias – 144 páginas. “Cartas Para Minha Avó” (Companhia das Letras) – Djamila Ribeiro – Coletânea de Crônicas/Memórias – 200 páginas. “O Mundo Desdobrável” (Relicário) – Carola Saavedra – Coletânea de Ensaios – 206 páginas. “Ficção em Pernambuco” (CEPE) – Pedro Américo de Farias, Cristhiano Aguiar e Socorro Nunes – Coletânea de Ensaios – 144 páginas. “Código de Machado de Assis – Migalhas Jurídicas” (Editora Migalhas) – Miguel Matos – Coletânea de Ensaios – 592 páginas. “Contos de Fadas e Histórias Clássicas” (Oficina Raquel) – Rui de Oliveira – Literatura Infantojuvenil – 160 páginas. “Criança Debaixo do Guarda-chuva” (Ubook) – Victor Viana – Literatura Infantojuvenil – 68 páginas. “O que Você Vê” (Boitatá) – Alexandre Rampazo – Literatura Infantojuvenil – 56 páginas. “As Roupas Novas do Rei” (Companhia das Letrinhas) – José Roberto Torero & Marcus Aurelius Pimenta – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Mamãe, Papai Fez Arminhas com a Mão” (Kotter) – Venes Caitano – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Formigável” (Aletria) – Janaína de Figueiredo & Rafa Antón – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. FICÇÃO INTERNACIONAL: “O Mapeador de Ausências” (Companhia das Letras) – Mia Couto (Moçambique) – romance – 288 páginas. “Açúcar Queimado” (Dublinense) – Avni Doshi (Estados Unidos) – Romance – 272 páginas. “Sul da Fronteira, Oeste do Sol” (Alfaguara) – Haruki Murakami (Japão) – romance – 176 páginas. “Caro Michele” (Companhia das Letras) – Natalia Ginzburg (Itália) – Romance – 200 páginas. “O Homem que Morreu Duas Vezes” (Intrínseca) – Richard Osman (Inglaterra) – Romance – 400 páginas. “Os Carregadores de Água” (Liberdade) – Atiq Rahimi (Afeganistão) – Romance – 256 páginas. “Poeta Chileno” (Companhia das Letras) – Alejandro Zambra (Chile) – Romance – 432 páginas. “O Arador das Águas” (Tabla) – Hoda Barakat (Líbia) – Romance – 240 páginas. “Terra Alta” (Tusquets) – Javier Cercas (Espanha) – Romance – 308 páginas. “Fachada” (DBA) – Elisabeth Sanxay (Estados Unidos) – Romance – 256 páginas. “A Universidade Desconhecida” (Companhia das Letras) – Roberto Bolaño (Chile) – Romance – 832 páginas. “A Biblioteca de Paris” (Record) – Janet Skeslien Charles (Estados Unidos/França) – Romance – 392 páginas. “Belo Mundo, Onde Você Está” (Companhia das Letras) – Sally Rooney (Irlanda) – Romance – 352 páginas. “Mundo Real” (Fósforo) – Brandon Taylor (Estados Unidos) – Romance – 296 páginas. “Memórias de Mama Blanca” (Oficina Raquel) – Teresa de La Parra (Venezuela) – Romance – 168 páginas. “O Redentor” (Record) – Jo Nesbo (Noruega) – Romance – 420 páginas. “As Aventuras da China Iron” (Moinhos) – Gabriela Cabezón (Argentina) – Romance – 176 páginas. “Ciropédia” (Fósforo) – Xenofonte (Grécia) – Romance – 400 páginas. “O Homem da Forca” (Alfaguara) – Shirley Jackson (Estados Unidos) – Romance – 224 páginas. “Gente Ansiosa” (Rocco) – Fredrick Backman (Suécia) – Romance – 368 páginas. “Essa Dama Bateu Bué!” (Todavia) – Yara Nakahanda Monteiro (Angola/Portugal) – Romance – 200 páginas. “Adeus, Gana (Tusquets) – Taiye Selasi (Estados Unidos/Inglaterra) – Romance – 352 páginas. “Longo e Claro Rio” (Trama) – Liz Moore (Estados Unidos) – Romance – 416 páginas. “Hamnet” (Intrínseca) – Maggie O´FreFarrell (Irlanda do Norte) – Romance – 384 páginas. “O Verão em que Mamãe Teve Olhos Verdes” (Mundaréu) – Tatiana Ţîbuleac (Moldávia) – Romance – 240 páginas. “Sarah é Isso” (Nós) – Pauline Delabroy-Allard (França) – Romance – 144 páginas. “Não É Um Rio” (Todavia) – Selva Almada (Argentina) – Novela – 96 páginas. “O Desejo de Kianda” (Kapulana) – Pepetela (Angola) – Novela – 102 páginas. “Salvatierra” (Todavia) – Pedro Mairal (Argentina) – Novela – 112 páginas. “Os Ventos ao Sul” (Aetia) – Fragata de Morais (Angola) – Novela – 132 páginas. “Janeiro” (Moinhos) – Sara Gallardo (Argentina) – Novela – 96 páginas. “O Livro do Xadrez” (Fósforo) – Stefan Zweig (Áustria) – Novela – 88 páginas. “Ficção 2006-2014 (Companhia das Letras) – Alejandro Zambra (Chile) – Coletânea de Contos e Novelas – 560 páginas. “Encaixotando Minha Biblioteca” (Companhia das Letras) – Alberto Manguel (Argentina) – Coletânea de Crônicas, Ensaios e Memórias – 184 páginas. “Atlas do Corpo e da Imaginação” (Dublinense) – Gonçalo M. Tavares (Angola/Portugal) – Coletânea de Crônicas e Ensaios – 528 páginas. “Antropoceno – Notas Sobre a Vida na Terra” (Intrínseca) – John Green (Estados Unidos) – Coletânea de Ensaios – 384 páginas. “Falso Espelho” (Todavia) – Jia Tolentino (Canadá) – Coletânea de Ensaios – 368 páginas. “A Decadência da Mentira e Outros Ensaios” (Nova Fronteira) – Oscar Wilde (Irlanda) – Coletânea de Ensaios – 176 páginas. “O Homem do Casaco Vermelho” (Rocco) – Julian Barnes (Inglaterra) – Coletânea de Ensaios – 272 páginas. “Jack e o Porquinho de Natal” (Rocco) – J. K. Rowling (Inglaterra) – Literatura Infantojuvenil – 320 páginas. “Um Dia de Neve” (Companhia das Letrinhas) – Ezra Jack Keats (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Serei Sempre o Teu Abrigo” (Globo Livros) – Valter Hugo Mãe (Angola/Portugal) – Literatura Infantojuvenil – 48 páginas. “Todos São Bem-vindos” (Nova Fronteira) – Alexandra Penfold (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 44 páginas. “Você é Importante” (Raposa Vermelha) – Christian Robinson (Estados Unidos) – Literatura Infantojuvenil – 40 páginas. “Dumazi e o Grande Leão Amarelo” (Brinque-Book) – Valanga Khoza (África do Sul) & Matt Ottley (Austrália) – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. “Os Cavalos de Patti” (Barbatana) – Pato Segovia (Uruguai) – Literatura Infantojuvenil – 36 páginas. POESIA BRASILEIRA: “Odes” (Editora 34) – Horácio – 616 páginas. “Poemas de Amor” (Nova Fronteira) – Walmir Ayala (org.) – 224 páginas. “Trabalho Poético” (Oficina Raquel) – Carlos de Oliveira – 192 páginas. “Coração Subterrâneo” (Todavia) – Olga Savary – 128 páginas. “Manhãs de Sabre” (Faria e Silva) – Luiz Ruffato – 128 páginas. “Tomar Corpo” (Jandaíra) – Lucila Losito Mantovani (org.) – 128 páginas. “Poetas Negras Brasileiras – Uma Antologia” (Editora da Cultura) – Jarid Arraes (org.) – 128 páginas. “Risque Esta Palavra” (Companhia das Letras) – Ana Martins Marques – 120 páginas. “Do Amor Perdido” (Livraria da Física) – Francisco Caruso – 120 páginas. “Do Amor Silenciado” (Livraria da Física) – Francisco Caruso – 120 páginas. “Azagaia” (Macondo) – André Capilé – 104 páginas. “Cine Studio 33” (Macondo) – Estela Rosa – 96 páginas. “Um Macunaíma Visual” (Iluminuras) – Sérgio Medeiros – 96 páginas. “Blues e Minotauros” (Editora Leve) – Bruno Gaudêncio – 88 páginas. “Extraquadro” (Impressões de Minas) – Ricardo Aleixo – 72 páginas. “Balé das Emoções” (Malê) – Geni Guimarães – 72 páginas. “Gaia” (Quelônio) – Antonio Martinelli – 72 páginas. “Dia Sim Dia Não Fazer Chantagem” (Quelônio) – Maria Isabel Iorio – 64 páginas. “Um Novo Mar Dentro de Mim” (Quelônio) – Maria Clara Escobar – 24 páginas. POESIA INTERNACIONAL: “50 Sonetos” (Nova Fronteira) – William Shakespeare (Inglaterra) – 160 páginas. No finalzinho de dezembro, retornarei à coluna Mercado Editorial para trazer as publicações do último bimestre de 2021. Enquanto isso, não perca os novos posts do Bonas Histórias, um oásis de literatura, cultura e entretenimento na Internet brasileira. Até lá! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você se interessa por informações do mercado editorial, deixe aqui seu comentário. Para acessar outras notícias dessa área, clique em Mercado Editorial. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: O Mapeador de Ausências - O romance mais recente de Mia Couto

    Publicada no Brasil em 2021, esta narrativa ficcional foi inspirada nas memórias familiares do escritor moçambicano e aborda dois momentos históricos de seu país, a Guerra de Independência nos anos 1970 e a devastação provocada pelo ciclone tropical Idai em 2019. Não é segredo para ninguém (ou pelo menos não deveria ser) que Mia Couto é um dos meus escritores favoritos. O vencedor do Prêmio Camões de 2013 (efeméride que está completando uma década!) e o único integrante africano da Academia Brasileira de Letras não é apenas o principal representante da literatura moçambicana. Ele é também um dos maiores nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa e da literatura africana de todos os tempos. Nada mal para alguém que se formou em Biologia e abandonou a faculdade de Medicina para trabalhar como jornalista na antiga Lourenço Marques (atualmente chamada de Maputo), a capital de Moçambique. Prova maior da adoração que tenho pelo trabalho de Couto é que ele foi o primeiro autor analisado no Desafio Literário, lá no longínquo ano de 2015 (nos primórdios do Bonas Histórias, quando só havia mato nas páginas desse blog). Na época, li um exemplar de cada gênero literário explorado pelo versátil e talentoso artista das letras: poesia com “Raiz de Orvalho e Outros Poemas” (Caminho); coletânea de contos com “O Fio das Missangas” (Companhia das Letras); coletânea de crônicas com “E Se Obama Fosse Africano” (Companhia das Letras); romance com “Terra Sonâmbula” (Companhia das Letras); e literatura infantil com “O Gato e o Escuro” (Companhia das Letrinhas). Dessa maneira, me senti preparado para construir um panorama completo sobre a literatura de Mia Couto na coluna Desafio Literário, que estreava justamente para apresentar o estilo autoral das grandes figuras da literatura. Depois disso, li outros títulos do escritor moçambicano, como a novela “A Varanda do Frangipani” (Companhia das Letras), que comentei na coluna Livros – Crítica Literária em 2017. Contudo, não sei o porquê, acabei lendo apenas obras antigas de Mia Couto. Talvez estivesse tentando entender como sua literatura foi construída. O fato, que só me atentei recentemente, foi que não tinha lido nada que Couto produziu nos últimos 20 anos. O que será que eu estaria perdendo? Se já tinha gostado de seus textos na fase inicial da carreira, o que não acharia após ele ter adquirido maturidade e expertise no ofício, hein?! Confesso que esses pensamentos só brotaram quando desenvolvi a análise da literatura de José Eduardo Agualusa, escritor angolano que foi tema do Desafio Literário em 2020. Muito amigo de Couto, Agualusa costuma brincar que é muitas vezes confundido no Brasil com o colega, o que gera situações engraçadas e gafes descomunais. E assistindo a algumas entrevistas de Agualusa para tentar entender seu trabalho ficcional, o vi comentar que a literatura de Mia Couto sofreu uma enorme transformação nas últimas duas décadas. Nas palavras do escritor de “O Vendedor de Passados” (Tusquets) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” (Tusquets), o autor moçambicano estava praticando ultimamente uma literatura totalmente distinta daquela que o consagrou em “Terra Sonâmbula”, “O Fio das Missangas” e “A Varanda do Frangipani”. Desde que ouvi tal comentário de Agualusa, juro que fiquei curioso para tentar descobrir o que mudou (e o que não mudou) no trabalho literário de Couto nos últimos anos. Por isso, aproveitei o final de semana sem trampo na EV Publicações (uma raridade no segundo semestre de 2023!) para conhecer “O Mapeador de Ausências” (Companhia das Letras), o romance mais recente de Mia Couto. É sobre essa obra que vamos discutir hoje no Bonas Histórias. Essa trama se passa em Moçambique em dois momentos históricos distintos: no presente (março de 2019, pouco antes do ciclone tropical Idai, o mais poderoso dos últimos anos, devastar grande parte do país africano) e meio século atrás (1973, quando os moçambicanos lutavam para deixar de ser uma colônia portuguesa e se tornar uma nação independente). Na parte contemporânea da narrativa, acompanhamos um prestigiado escritor que mora em Maputo em uma viagem à Beira, sua cidade natal. Entre eventos em sua homenagem, saraus literários, reencontro com conhecidos e a expectativa pela passagem de uma forte tempestade que deixa a população local muito preocupada, o narrador-protagonista revira o passado do seu pai, um jornalista e poeta português. Essa é justamente a parte histórica do livro. Por meio de documentos, relatos, cartas e diários antigos, o filho fica sabendo da ousadia paterna ao revelar as atrocidades cometidas pelo governo lusitano na então colônia africana durante a Guerra de Independência de Moçambique. Publicado em Portugal e em Moçambique em novembro de 2020 e no Brasil em setembro de 2021 (conforme destacado no post com os principais títulos lançados em setembro e outubro de 2021 em nosso país), “O Mapeador de Ausências” é o 20º livro de Mia Couto. E é a sua última narrativa ficcional longa a ter ganhado as estantes das livrarias dos países lusófonos. Quem acompanha o conteúdo da coluna Mercado Editorial sabe que a Companhia das Letras trouxe em julho de 2023 outra obra do moçambicano: “As Pequenas Doenças da Eternidade”, coletânea com contos que foram publicados na revista portuguesa Visão (informação devidamente relatada no post com as principais publicações no Brasil em julho e agosto de 2023). Ou seja, “O Mapeador de Ausências” é o mais novo romance do autor, mas não é o seu título mais recente (posto ocupado agora por “As Pequenas Doenças da Eternidade”). Os assinantes da TAG, vale a pena a menção, receberam em primeira mão “O Mapeador de Ausências” em julho de 2021, dois meses antes do lançamento comercial desse título nas livrarias do nosso país. Por isso, se você encontrar essa obra com capa e diagramação distintas à obra produzida pela Companhia das Letras em algum sebo por aí (algo que aconteceu comigo no ano passado) já sabe: ela é a versão da TAG. Por falar nisso, Mia Couto foi curador desse clube de assinatura em dezembro de 2020 e indicou a publicação de “Moisés Negro” (Malê), romance do congolês Alain Mabanckou que ganhou as lojas brasileiras em fevereiro de 2022. O que chama a atenção logo de cara em “O Mapeador de Ausências” é o caráter memorial da narrativa. Mia Couto não esconde de ninguém que utilizou as lembranças da época de criança e os acontecimentos familiares entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1970 para construir essa história ficcional. Portanto, ele misturou a realidade de parentes próximos com a liberdade criativa que a ficção literária permite. Assim, pôde tecer as linhas dramáticas do novo romance. Não é coincidência que o narrador-protagonista seja um escritor famoso nascido em Beira e que seu pai seja um português apaixonado pela poesia e que trabalhou como jornalista após imigrar para a África. Essas passagens são autobiográficas (no caso de Mia) e biográficas (no caso do seu pai, Fernando Couto). E qual o resultado prático dessa mescla entre passado real, memórias da infância e composição ficcional? Em Portugal, “O Mapeador de Ausências” conquistou o Prêmio Livro do Ano Bertrand em 2020, honraria conferida pelo tradicional selo da Editorial Caminho aos títulos que publica. Nascido em Beira, cidade da região central de Moçambique, em 1955 com o nome de Antônio Emílio Leite Couto (Mia é seu apelido de infância, fruto de sua paixão pelos gatos), Mia Couto é filho de um casal de portugueses que imigrou para a África para trabalhar no então governo colonial. Depois de passar a infância e adolescência em Beira, ele se mudou com a família para a capital do país, então chamada de Lourenço Marques (hoje o nome é Maputo). Depois de viver alguns anos em Portugal e visitar frequentemente o Brasil (um périplo compartilhado por autores moçambicanos e angolanos de destaque como José Eduardo Agualusa e Ondjaki), o escritor vive atualmente (até onde eu saiba!) um pouco na encantadora Ilha de Moçambique e outro tanto em Lisboa. Ele mora com a esposa e os três filhos. Formado em Biologia e tendo abandonado o curso de Medicina no meio, Mia Couto trabalhou por mais de dez anos como jornalista em seu país e é um autor de destaque internacional. Seus livros foram publicados em mais de 30 idiomas. Sua principal obra literária é o magistral “Terra Sonâmbula”, considerado por muita gente como um dos romances contemporâneos mais importantes da língua portuguesa e um dos melhores livros africanos do século XX (se você não leu esse título, leia!). As marcas mais relevantes da literatura de Mia Couto são: a prosa poética (que segundo o próprio autor foi inspirada em Guimarães Rosa, inclusive com o uso de muitos neologismos); a valorização da cultura e da história moçambicanas; a produção de narrativas ancoradas no realismo fantástico, na fantasia e no sobrenatural; a denúncia ao racismo, ao machismo e à violência do período colonial; o retrato da brutalidade da Guerra de Independência e da Guerra Civil (que vitimizaram o país entre as décadas de 1960 e as décadas de 1990); e a pluralidade de gêneros literários (que vai da poesia e das coletâneas de contos e crônicas ao romance e à literatura infantojuvenil). O enredo de “O Mapeador de Ausências” começa com a chegada de Diogo Santiago à Beira. É março de 2019 e o professor de literatura e poeta moçambicano que vive há anos em Maputo retorna para sua cidade natal depois de uma longa ausência. Ele sofre de depressão, o que acarreta, entre outros problemas, insônia, melancolia, perda de memória, algumas dificuldades psicomotoras e bloqueio criativo (o que lhe impede de ler e escrever). Quem o aconselhou a fazer aquela viagem foi seu médico. Segundo o diagnóstico do doutor, Diogo precisava reencontrar-se com seu passado e sua infância. Só assim, compreenderia o presente e aceitaria a realidade nua e crua. Por isso, na prescrição do médico havia alguns remédios e uma viagem. O quadro clínico do protagonista do romance de Mia Couto é ignorado pelos conterrâneos. Para o povo da Beira, Diogo Santiago é o famoso escritor local que ganhou fama nacional e internacional. Todos estão ávidos para recepcioná-lo e homenageá-lo. No primeiro evento literário em que participa, o poeta conhece Liana Campos, a charmosa mestre-de-cerimônias. Apesar de namorar o chefe da polícia da cidade, a moça se sente atraída por Diogo. Os dois ficam grudados a partir de então e Liana passa a ciceronear por Beira com o ilustre visitante. A busca de Diogo pelo seu passado ganha em dimensão dramática quando Liana Campos revela que está de posse de documentos relativos à família Santiago. Por um pedido especial do avô, a moça guardou o relatório da polícia sobre a prisão de Adriano Santiago, o pai de Diogo, nos anos 1970. Adriano era um poeta e jornalista que nascera em Portugal e imigrara para Moçambique. No novo país, dedicava-se à poesia, sua grande paixão, e ganhava a vida trabalhando como jornalista. Mulherengo e desconectado da realidade, Adriano parecia um sujeito pacífico e inofensivo aos olhos das autoridades. Até ser responsável por denunciar a chacina protagonizada por seus conterrâneos à população negra da vila interiorana de Inhaminga em 1973, no início da Guerra de Independência de Moçambique. A atitude do poeta e jornalista lusitano não foi bem-vista pelo governo da então colônia portuguesa, que o investigou por envolvimento com os rebeldes comunistas e o prendeu. Junto ao material investigativo que o avô de Liana pediu que ela guardasse estavam relatórios dos policiais, livros de Adriano, o diário do jovem Diogo, cartas, fotos e depoimentos de testemunhas, espiões e envolvidos no caso. Quase cinquenta anos mais tarde do fatídico evento que marcou a família Santiago, o filho de Adriano recebe esse material das mãos da nova amiga. Se estava em busca de respostas para seu passado, Diogo agora tem farta documentação para a sua pesquisa histórica. O acervo é tão rico que o escritor cogita utilizá-lo como matéria-prima de um novo livro. Além de entender o que se passou na sua infância e com seus parentes mais próximos, ele conhece detalhes da trajetória de funcionários da família, vizinhos, amigos e dos policiais que investigaram o pai, além do passado da própria Liana Campos, que de certa maneira está ligado à sua trajetória. Assim, enquanto passeia por Beira ao lado de Liana Campos rememorando passagens marcantes, visitando locais emblemáticos, reencontrando pessoas da sua infância e conhecendo os diferentes pontos de vista dos antigos acontecimentos, Diogo Santiago mergulha na vida do pai, o homem que lhe ensinou amar a literatura e a poesia, e de várias pessoas que o rodeava. A dupla jornada pelo presente e pelo passado reserva surpresas emocionantes tanto para a personagem central do romance quanto para os leitores de Mia Couto. “O Mapeador de Ausências” possui 288 páginas, que estão divididas em 24 capítulos (23 capítulos numerados e o epílogo). Por falar nas seções da obra, a história do presente (bloqueio criativo e depressão de Diogo em 2019) e a história do passado da família (prisão de Adriano em 1973) vêm intercaladas no romance: um capítulo fala de um tempo narrativo, o seguinte já fala de outro período. Assistimos a esse dueto temporal do início ao fim da narrativa. Como consequência, temos um bom dinamismo e muitas ações ocorrendo simultaneamente, além da interpolação das duas linhas narrativas. Levei aproximadamente seis horas e meia para concluir essa leitura no último final de semana. Li o livro de Mia Couto em praticamente duas seções: três horas na sexta-feira à noite e outras três horas e meia no sábado à tarde. O domingo deixei, obviamente, para acompanhar as eleições na Argentina (e estocar água, comida e produtos de primeira necessidade à espera da explosão de preços que virá ao longo das próximas semanas, conforme sugestão preciosa da preciosa Paula!). Se você não é fã de longas seções de leitura, dá para ler tranquilamente “O Mapeador de Ausências” em quatro noites consecutivas ou mesmo ao longo de três dias. Com tanto feriado rolando no Brasil ultimamente, ninguém tem a desculpa de dizer que está sem tempo para ler, né? Essa obra tem tantos elementos positivos para comentar que não sei nem por onde começar. Talvez seja melhor iniciar a análise propriamente dita de “O Mapeador de Ausências” por suas características estilísticas. Esse livro é classificado normalmente como um romance histórico. É assim pelo menos como eu o enxergo. Afinal, a trama ficcional mergulha no passado de Moçambique (tanto na história de 50 anos atrás do país africano quanto no passado mais recente, de apenas 5 anos). Contudo, esse livro também pode ser visto por outras perspectivas. Ainda dentro do universo da ficção, não é nenhum absurdo chamá-lo de drama, drama psicológico, suspense/thriller, mistério, road story ou até mesmo romance policial (o protagonista faz algumas investigações para entender o passado, com direito a dúvidas em relação a inexplicáveis desaparecimentos e assassinatos). O mais legal em “O Mapeador de Ausências” é que não temos uma narrativa longa tradicional. O leitor mais atento irá reparar que essa publicação possui elementos de outros gêneros literários, como o conto, a crônica e a poesia. Mia Couto faz isso de maneira sutil ao inserir no meio da trama principal pequenas histórias secundárias (contos), relatos da situação político-social de seu país (crônicas) e versos criados pelas suas personagens (poesia). A combinação é deliciosa. Dá até para, analisando a maneira como Mia Couto construiu esse livro e sendo bastante flexível e nem um pouco rigoroso com os conceitos literários, enxergá-lo fora do campo ficcional. Não por acaso, vi algumas pessoas na mídia chamando “O Mapeador de Ausências” de obra não ficcional. Aí a classificação escorrega para as categorias de memórias, autoficção, biografia e autobiografia. Exagero? Talvez. Errado? Não. Com pontos de vista distintos, é possível chegar a conclusões diferentes. Eu prefiro ver essa publicação como uma ficção e não como uma não ficção. O romance é tão plural que alguns conceitos ficcionais se tornam de difícil definição. Por exemplo, quem é o protagonista da narrativa, hein? Em um primeiro momento, a resposta parece óbvia: Diogo Santiago. Contudo, não é errado ver Adriano Santiago como uma segunda personagem principal. Teríamos, então, uma dupla de protagonistas? Para a resposta não soar tão simples, ainda é possível enxergar Moçambique, o país como um todo, como a verdadeira figura a embalar a trama ficcional de “O Mapeador de Ausências”. Isso justifica a presença de tantas personagens, algumas com maior ou menor destaque dependendo do capítulo e outras com evidente representação alegórica: o padre, o soldado, o político, o português, o policial, o gay, o comunista, o jornalista, a vizinha enxerida etc. A mesma complexidade é estendida para outros conceitos literários. Seria esse um texto em primeira pessoa? Mas com tantas vozes narrativas simultâneas, o livro não adquire quase que um tom de terceira pessoa, hein? E o enredo: deve ser descrito a partir de Diogo ou Adriano Santiago?! Ou seja, temos nesta obra o drama pessoal e profissional do famoso poeta do presente que investiga o passado paterno ou são os erros e segredos do poeta antigo que se refletem na agonia do filho nos tempos atuais? Adorei esse jogo literário, que flexibiliza e estende a corda até mesmo nos mais básicos conceitos da literatura ficcional. Ler Mia Couto é mergulhar na cultura e na história de Moçambique. O conteúdo de “O Mapeador de Ausências” não foge à regra. Mais do que um simples contexto do enredo, a ambientação é aqui quase que uma personagem onipresente da trama, que molda as pessoas, as situações e os dramas. Nas páginas do livro, conseguimos assistir à força religiosa, à dança, à música, ao misticismo, aos hábitos, à estrutura social, aos valores, às roupas, à culinária, às manifestações artísticas, às tradições, ao passado e à realidade dos moçambicanos. É verdade que quanto mais da história do país você souber, melhor será sua leitura. Como sou leitor assíduo de Mia Couto e de outros escritores de Moçambique – Paulina Chiziane, uma forte candidata a integrar o Desafio Literário, e Dany Wambire, de “A Mulher Sobressalente” (Malê) –, confesso que já estou familiarizado com termos como Guerra da Independência, Guerra Civil, PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado) e FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), por exemplo. Se você não for um grande conhecedor do passado colonial português na África, essa é uma ótima oportunidade para aprender. Por falar em familiaridade, é bom destacar que “O Mapeador de Ausências” está no português africano (mesmo na edição brasileira da Companhia das Letras). Assim, podemos vivenciar as variantes linguísticas do nosso idioma e o colorido do vocabulário do outro lado do Oceano Atlântico. Essa é outra coisa que adoro nos livros de Couto e dos demais escritores africanos de nações lusófonas, como José Eduardo Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares e Kalaf Epalanga. Por isso, considero um acerto dos editores nacionais a manutenção e/ou a proximidade com a narrativa original do autor. Por outro lado, os leitores mais preguiçosos podem não curtir a necessidade de mergulhar em outro cardápio lexical e no esforço extra para compreender algumas frases. Para ser sincero, se você for um(a) devorador(a) frequente dos textos originais de autores lusitanos (José Saramago, Manuel da Fonseca, Ana Teresa Pereira, António Lobo Antunes, José Vieira/Teresa Vieira e Gonçalo J. Nunes Dias, só para citar alguns que foram comentados no Bonas Histórias a partir de suas narrativas no português europeu), você conseguirá entender numa boa a linguagem de Mia Couto. Estão em “O Mapeador de Ausências” termos como chanata, paleio, secretária (no sentido de escrivaninha), pequeno almoço, comboio (trem), viatura (veículo), cancro, gaja, cubata, chávena, camarata e rapariga. Isso sem contar as palavras com grafias levemente diferentes da nossa (o que prova que o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa só é aplicado no Brasil): ingénuo, irónico, insónia, humidade e sujidade. As principais novidades para os leitores brasileiros devem ser as palavras do português africano: mata-bicho (a minha favorita, principalmente quando transformada em “mata-bichar”), meneia as ancas, pangolim, ganzá, capulana e cachopas. A dica para quem for novato na literatura de língua portuguesa fora da América é usar o Kindle. Assim, à medida que você for percorrendo as páginas da obra, dá para saber instantaneamente o significado das palavras – um recurso interessantíssimo que os ebooks possuem e que muitos leitores desconhecem e/ou não se utilizam. O que mais gosto na literatura de Mia Couto (e que encontro em todos os seus romances, novelas e coletâneas de contos e crônicas) é a sua prosa poética. Às vezes, não sei se ele é um poeta que produz ficção ou se é um autor ficcional com perfil de poeta. O fato é que seu texto é maravilhoso. Além de bonito, ele é sonoro (experimente ler o que você estiver lendo para entender os efeitos das palavras) e impactante (impossível não nos emocionarmos). E ele faz isso sem soar enfadonho, artificial ou hermético, como acontece em alguns casos quando a poesia invade a prosa de um jeito pouco natural. Com Couto não há esse problema. Suas narrativas não são forçadas nem piegas. Elas são impecáveis. “O Mapeador de Ausências” só segue essa tradição. Curiosamente, a beleza textual contrasta o tempo inteiro com o ambiente hostil, violento e injusto. Trata-se de uma dicotomia que enche os olhos dos leitores mais sensíveis. Nesse romance, que adquire muitas vezes tons de trama de terror, acompanhamos: guerras, calor excessivo, racismo, xenofobia, caos climático, perseguições políticas, suicídios, traições conjugais, assassinatos, elevada desigualdade social, chacinas, homofobia (uma novidade temática na literatura de Mia Couto), machismo, loucura, depressão, mentiras, atentados terroristas, feminicídios etc. A diferença é que esse clima aterrorizante vem expresso por lindas palavras. Por falar em poesia, note que os poetas dentro do livro do moçambicano, Adriano e Diogo Santiago, são a expressão máxima daquilo que Fernando Pessoa, autor de “Mensagem” (L&PM Pocket), traduziu em versos: “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”. A dupla de protagonistas de Couto mente, finge ter doenças e potencializa as dores em nome da produção artística. Incrível essa intertextualidade literária de “O Mapeador de Ausências”. Já que falamos um pouco mais dos protagonistas, deixe-me aprofundar nas características das personagens desse romance. Elas são quase sempre redondas (o que do ponto de vista literário é excelente!). A sensação que temos durante essa leitura é que não dá para confiarmos nas palavras e nas intenções de ninguém, nem mesmo dos protagonistas e daqueles que o cercam (como Liana Campos, por exemplo). Talvez a única figura plana seja o vilão (se assim podemos chamá-lo), o inspetor Óscar Campos. Por qualquer perspectiva que o analisemos (pelos olhos de Adriano Santiago, de Diogo Santiago ou de Liana Campos), o agente da PIDE não se sai nem um pouco bem, não sendo possível extrair qualidades positivas ou virtudes. Outra questão marcante (que sempre surge nos livros de Mia Couto) é a presença de personagens femininas fortes e emblemáticas. Aqui temos pelo menos meia dúzia delas. Em muitos momentos de “O Mapeador de Ausências”, as mulheres roubam as cenas e se tornam as verdadeiras protagonistas da trama. Mesmo com as incontáveis qualidades literárias que acabei de descrever neste post da coluna Livros – Crítica Literária, “O Mapeador de Ausências” não está imune aos problemas narrativos. Admito que achei duas questões delicadas: uma já antiga no portfólio de Mia Couto (discurso expresso em itálico) e outra nova (sensação de déjà vu do enredo). Em relação a grafia dos diálogos em itálico, essa é uma marca das tramas ficcionais do autor moçambicano. Porém, não consigo me acostumar a essa mania de Couto. Sinceramente, a acho totalmente desnecessária (até porque vem com os demais elementos do discurso direto como o travessão e a indicação da personagem que está falando) e com prejuízo considerável à estética do texto. É aquele velho lance: se um autor novato e desconhecido fizesse isso em suas narrativas ficcionais, a maioria dos críticos literários e do público cairia em cima chiando e condenando o recurso utilizado. Agora, como é Mia Couto, uma figura gigantesca da literatura em língua portuguesa e da literatura africana, a falha passa batida ou mesmo não é comentada. Como o meu compromisso é exclusivamente com os leitores do Bonas Histórias, sinto-me na obrigação de alertar: colocar os diálogos em itálico é um erro grave que prejudica a estética textual. Não façam isso, jovens escritores. Por favor! Quando enfocamos o enredo de “O Mapeador de Ausências”, o problema é outro. Pela primeira vez, tive a sensação de déjà vu lendo Mia Couto (algo realmente inusitado, visto que se trata de um dos autores mais inventivos da atualidade). É inegável a qualidade da sua nova história e a beleza desta trama. Também não podemos contestar a perspicácia de unir aspectos biográficos da família do autor e elementos da história e da cultura moçambicana em uma narrativa ficcional. Até aí beleza. O que me incomodou foi a impressão que já tinha lido algo parecido. “O Mapeador de Ausências” tem estrutura, linha narrativa, personagens e história muito parecidas aos elementos ficcionais de “Terra Sonâmbula”, publicação mais famosa de Mia Couto (livro dentro do livro, dois momentos narrativos distintos que se unem, ambiente de guerra e atmosfera com enorme violência e maldades), e de “Vendedor de Passados”, meu romance favorito de José Eduardo Agualusa (protagonista em busca de “suas memórias”, investigação ao passado da família e da própria trajetória e trama principal com várias subtramas periféricas). Por falar na literatura do angolano, “O Mapeador de Ausências” tem alguns elementos de “A Conjura” (Gryphus Editora), primeira narrativa longa de Agualusa (opressão aos movimentos separatistas nas colônias portuguesas da África; denúncia ao racismo; e exposição de uma sociedade fragmentada entre passado tribal, presente com a Europa e futuro autônomo). Dá até mesmo para fazermos uma ponte com outros autores e obras do continente. A questão religiosa, os dramas familiares, os preconceitos entre negros e brancos e a dúvida entre apoiar a ação violenta dos dominadores foram explorados, por exemplo, em “Hibisco Roxo” (Companhia das Letras), da genial Chimamanda Ngozi Adichi, e em “À Espera dos Bárbaros” (Companhia das Letras), do incomparável J. M. Coetzee. Se pegarmos o cinema como referência, a sensação de déjà vu é potencializada. Este romance de Couto lembra muito “Melancolia” (Melancholia: 2011), suspense dramático do polêmico e genial Lars von Trier (intrigas familiares afloradas na véspera de uma catástrofe ambiental/cósmica), e “O Cidadão Ilustre” (El Ciudadano Ilustre: 2016), comédia dramática dos ótimos argentinos Mariano Cohn e Gáston Duprat (retorno de um premiado escritor a sua terra natal, o que gera algumas confusões). Se você não tiver essas referências literárias e cinematográficas certamente não se incomodará com o enredo de “O Mapeador de Ausências”. No meu caso, mais do que incômodo, o sentimento foi de surpresa. Juro que pensei: então Mia Couto é capaz de produzir um romance menos original e até previsível, hein? Na posição de fãnzaço do autor moçambicano, admito que ainda não tinha passado pela minha cabeça essa possibilidade. Essas são as duas falhas principais da publicação. As outras que identifiquei são menores: excesso de coincidências (impressão de que as mesmas personagens se trombam o tempo inteiro, independentemente de os acontecimentos serem atuais ou de terem ocorrido cinquenta anos atrás); mania de todas as figuras ficcionais, até mesmo as que não são escritoras e poetas, registrarem seus pensamentos e biografia por escrito (em uma sociedade fundamentalmente oral como era a moçambicana nos anos de 1970); a menor dosagem de componentes fantásticos da trama (um dos aspectos mais charmosos da literatura de Mia Couto, que aqui ficou escanteado em poucas passagens secundárias); e a grafia do nome das famílias no plural (quando no Brasil e em Portugal o mais comum é vir no singular – os Santiago, por exemplo, e não os Santiagos). Colocado na balança os prós e os contras de “O Mapeador de Ausências”, volto às minhas dúvidas que originaram esta análise crítica. Afinal, conforme informado por José Eduardo Agualusa em algumas entrevistas, a literatura de Mia Couto teria mesmo sofrido uma enorme transmutação nos últimos 20 anos?! Em caso positivo, o que alterou e o que se manteve intacto no receituário ficcional do escritor da Beira que conquistou os leitores mundo à fora? Admito que, perto dos conhecimentos técnicos de Agualusa, me encontro em posição desfavorável para discordar de suas palavras. Mesmo ciente dessa condição de inferioridade literária que me encontro, tomo a liberdade para dizer que não concordo com o veredito do escritor luso-angolano. Pelo menos a partir da leitura exclusivamente de “O Mapeador de Ausências”, achei o Mia Couto atual muito parecido ao bom e velho autor que conheci no Desafio Literário há oito anos e meio. E não falo isso por uma perspectiva negativa. Pelo contrário! Foi ótimo perceber que o estilo, a técnica, a prosa poética, o mergulho na história e na cultura moçambicana e a contação das histórias continuam intactos e de excelente nível. A grande mudança (e isso deu para notar ainda na metade inicial de “O Mapeador de Ausências”) é que a narrativa de Mia Couto está mais madura. Não sei explicar exatamente o que significa essas minhas palavras. O fato é que notei que o novo romance possui muito mais camadas literárias do que as obras antigas do autor, aquelas do finalzinho dos anos 1980, da década de 1990 e do início do século XXI. Se você está duvidando do meu comentário, note o quão parecidos são Diogo e Adriano Santiago. Em muitos momentos da leitura, acabamos confundindo as duas personagens (até porque as narrativas de ambos vêm embaralhadas). Acho que isso foi proposital, para mostrar o quanto pai e filho estão unidos nos mesmos dramas, características, paixões, afinidades e medos. E esse aspecto não ocorre somente com os protagonistas. O passado e o presente de Moçambique estão próximos em diferentes tipos de tragédias: lá atrás social, racial e política, agora meteorológicas, econômicas e culturais. Se você procurar, encontrará uma série de figuras, fatos e situações ligadas umbilicalmente. Essa união é sutil e feita com extrema beleza poética por Mia Couto. Se isso não é um trabalho genial de alguém que domina o fazer literário como poucos, não sei mais o que podemos elogiar em matéria de narrativa ficcional. Em suma, temos aqui uma leitura mais profunda e com enorme riqueza temática. Esse livro merece uma segunda ou até mesmo uma terceira leitura da nossa parte. Aposto que vamos descobrir muitas relações que passaram batidas e ter vários insights sobre a história nos novos mergulhos pelas páginas de “O Mapeador de Ausências”. Possuímos em mãos uma obra que quanto mais lermos, mais bela e poderosa ela ficará. Tenha certeza disso! Por falar em novas leituras, talvez eu precise ler os demais livros (recentes) de Mia Couto para confrontar em melhor posição a opinião de José Eduardo Agualusa. Saibam que aos poucos farei isso. Como é bom termos grandes autores para conhecer, investigar e desfrutar, né? Então, vamos ler mais e melhor Mia Couto e os grandes nomes da nossa literatura. Como eu sempre digo aqui no Bonas Histórias: enquanto o mundo gira, a gente lê; fazer o quê? Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. E aproveite para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: Roberto Lopes Mascarenhas

    Na mais recente entrevista do TSL, Darico Nobar conversa com uma das personagens centrais de O Estudante, romance infantojuvenil mais famoso de Adelaide Carraro. [A campainha do camarim toca. Um funcionário da emissora vai à porta atender. Um menino de cabelos castanhos ricamente vestido de azul-marinho e gravata espera de pé com os olhos rasos d´água. Os lábios trêmulos contrastam com a postura ereta e altiva]. Roberto Lopes Mascarenhas: Por favor, meu nome é Roberto Lopes Mascarenhas, sou filho do engenheiro Mascarenhas, desejo falar com o entrevistador. Funcionário do staff: Sobre o quê? Roberto Lopes Mascarenhas: Vim denunciar um traficante de drogas, que as distribui entre os estudantes, e o assassino do Professor Mariano, meu Mestre. [O funcionário do staff o olha por muito tempo e, vendo o desespero no rosto do garoto, entra com ele no camarim. A dupla encontra o apresentador do Talk Show Literário sentado no sofá se penteando]. Roberto Lopes Mascarenhas: Darico Nobar? Darico Nobar: Sim. Roberto Lopes Mascarenhas: Meu nome é Roberto. Sou filho do Dr. Rubem Lopes Mascarenhas. Não sei se o senhor teve conhecimento da grande tragédia que abalou minha família. Darico Nobar: Li tudo a respeito, Roberto, no livro da Adelaide Carraro. Sinceramente, sinto muito! Roberto Lopes Mascarenhas: Doutor Darico, eu... Darico Nobar: Tire o doutor, tá? Roberto Lopes Mascarenhas: Obrigado. Bem, Darico, eu preciso muitíssimo do senhor. Darico Nobar: Sente-se. [Indica a poltrona ao lado. O menino se senta imediatamente]. Como posso te ajudar? Roberto Lopes Mascarenhas: Estou só, me sinto tão sozinho agora. [A voz sai embargada, enquanto os olhos se tornam ainda mais brilhantes com as lágrimas que se avolumam.] Não sei a quem recorrer. Meu mestre está morto, meu irmão foi enterrado há pouco, meu pai tornou-se um assassino e minha mãe está em estado de choque, internada em um hospital, e eu sem saber se encontrarei alguém com quem compartilhar amargura tão grande. Sinto-me sufocar. Não tenho frequentado o colégio, não vou ao clube, não saio. Juro que a vida acabou para mim. Acabou aos 15 anos. Darico Nobar: Se você me procurou, prometo fazer tudo para te ajudar. Fale sem acanhamento. Serei teu amigo. Agora deixe-me enxugar teus olhos. Pronto... Assim... Vou mandar servir um copo de água com açúcar. [Faz sinal para o funcionário que assistia à conversa. O rapaz do staff sai em disparada à procura da bebida solicitada]. Agora que estamos sozinhos, me diga, Roberto. O que você quer exatamente? Roberto Lopes Mascarenhas: Preciso que o senhor me entreviste no Talk Show Literário. Tenho que fazer chegar a todas as casas do Brasil meu relato. Não voltarei a ser um jovem feliz enquanto os estudantes do nosso país não souberem a verdade sobre as drogas e os traficantes de drogas que atuam nas portas das escolas. Darico Nobar: Mas você e a Adelaide já não fizeram isso com o romance O Estudante? Roberto Lopes Mascarenhas: Fizemos, mas parece que não está mais funcionando. A juventude voltou a se viciar. Está pior do que antes. Acho que não estão lendo mais o livro com a história da minha família. Por isso, quero sair na televisão. Quero alertar para o Brasil o mal que as drogas fazem. Todo mundo assiste ao seu programa, Darico. Agora vai dar certo, o povo vai ouvir minhas palavras. Darico Nobar: Como é bom ouvir isso de um jovem dessa época em que o que impera é o egoísmo e o salve-se quem puder. Como é divino ouvir tudo isso, ainda mais quando sai da boca de alguém que estudou no mesmo colégio que eu. Sinto-me como se estivesse flutuando em um mundo onde só o amor ao próximo existisse. Oh! Roberto, que Deus o conserve assim para sempre. Roberto Lopes Mascarenhas: O senhor também estudou no Rio Negro, né? Darico Nobar: Fui colega do seu pai em Higienópolis. Fomos alunos do PH, do Professor Eduardo, do Benê, da Maria Amélia e do Professor Mariano. Onde você acha que eu conheci seu pai, hein?! [O menino balança a cabeça para cima e para baixo em silêncio]. Rubão sempre foi um bom homem, saiba disso. Roberto Lopes Mascarenhas: Posso escutar o que o senhor tem a dizer sobre o meu pai? Darico Nobar: Claro, meu rapaz. Falo para você o que já disse muitas vezes para ele e para outras pessoas do nosso círculo de amizade. Rubens é a pessoa mais educada e altruísta que conheci. Se está na Avenida São João, na Rua São Luís ou na Barão de Itapetininga cheinhas de gente apressada, ele toma cuidado para não dar encontrões nos outros. Se defronta com uma pessoa idosa ou aleijada, cede-lhe a passagem. Se encontra uma criança ou uma pessoa incapaz, dá a mão ou o braço e a ajuda a atravessar a rua. Se vê alguém caído na calçada, chama a ambulância ou avisa a polícia. Nunca o vi rir de ninguém ou desviar o olhar. Ajuda o que cai a se levantar. Não corre nem grita. Se encontra algum animal abandonado, procura protegê-lo. Quando criança, ele levava vários vira-latas para a casa de seus avós. Se os brasileiros tivessem 10% do caráter do seu pai, seríamos a nação mais bondosa do mundo. Roberto Lopes Mascarenhas: Puxa, Darico, que discurso bonito! Darico Nobar: Rubão foi educado com métodos antigos. Ele diz que as técnicas do passado são mais eficientes. E sabe que ele tem razão!? Na educação antiga havia mais respeito, maior união. Os filhos não fumavam nem bebiam na frente dos pais. Também nunca se sentavam à mesa para qualquer refeição de camiseta ou pijama. Sair de casa sem pedir a bênção aos mais velhos era falta grave. Roberto Lopes Mascarenhas: Como gostaria que Renato estivesse aqui para te ouvir falando assim do nosso pai. Sabe que meu irmão até seguiu por bom tempo os conselhos do papai tintim por tintim. Mas aí deu-se a tragédia que o senhor já conhece. Darico Nobar: Qual imagem você tem do Renato? Roberto Lopes Mascarenhas: Jamais, nem que viva mil anos, me esquecerei da bonita figura do menino alto, magro, com os olhos brilhando, os cabelos compridos, no meio das pessoas. Ele estava sempre fazendo alguma coisa para ajudar os outros. Sua felicidade era ver crianças, adultos e velhos alegres e sorridentes. E como ele amava o Brasil. Dizia que a ordem e a disciplina eram muito importantes. Ter um povo assim tão ordeiro era uma carícia para um país com tanto potencial e abençoado por Deus. Ele gostava muito de fazer poesia ufanista, se achava um Castro Alves. Darico Nobar: Lembra-se de algum poema? Roberto Lopes Mascarenhas: Acho que eu me lembro... [Nota-se seu esforço para rememorar os versos]. O que vale mesmo é você oh! Meu céu de anil, meu Brasil. Mil Europas não valem uma árvore de seu solo! Brasil, minha terra, meu berço, eu o adoro! Darico Nobar: Lindas palavras, Roberto. Muito bonitas mesmo. Roberto Lopes Mascarenhas: Renato vivia recebendo medalhas no Colégio Rio Negro pela sua inteligência, pela boa vontade em ajudar o próximo, pelo coração enorme e pelo excelente caráter. Papai e mamãe se orgulhavam tanto dele. Acreditávamos que cresceria assim, temente a Deus, amando sua Pátria, encantando nossa família e contribuindo para a melhoria da vida do povo brasileiro. Darico Nobar: Mas afinal, o que saiu errado com ele? Roberto Lopes Mascarenhas: Não sei dizer exatamente... Talvez tenha sido responsabilidade do Mário Figueiredo. Ele sempre teve muita inveja do Renato lá na escola. Pode ter sido uma fraqueza momentânea do meu irmão, que o fez cair em um atoleiro difícil de sair. Ou culpa dos traficantes que se aproveitam da inocência dos estudantes carentes de autoestima e discernimento. Acho que nunca vou saber ao certo. Darico Nobar: Se eu o colocasse no programa, o que você diria para a plateia? Roberto Lopes Mascarenhas: De imediato eu seria muito grato ao senhor pela honra. [O menino abraça o velho apresentador e lhe beija as duas mãos com lágrimas nos olhos]. Eu só quero mostrar o que Mestre Mariano descobriu. Os criminosos que acabam com o futuro da juventude brasileira estão fazendo tanta maldade que sinto que o sangue nas minhas veias ferve de raiva. Meus colegas do Brasil inteiro precisam tomar conhecimento do plano escabroso dos traficantes de drogas. Se eles souberem uma pequena parte, já vão ficar revoltadíssimos, principalmente os que usam drogas. [O funcionário volta ao camarim com um copo de água e açúcar em uma bandeja. Ele serve ao menino que prontamente o toma em um único gole.] Darico Nobar: Carlos, avise o diretor, por favor, que teremos um novo entrevistado hoje. [Diante da cara de espanto do rapaz do staff, o apresentador acha por bem explicar melhor a ideia repentina]. Fale que o nosso amiguinho aqui, o Senhor Roberto, será o convidado. Ele tem muitas coisas interessantes para revelar para nosso público e não podemos perder essa oportunidade. Sei que não é normal gravarmos um programa sem nenhuma preparação prévia, mas podemos abrir uma exceção, não podemos?! Funcionário do staff: É, e, é. Tá bom. Não sei, temos que ver, pode ser. Vou falar com ele. [Depois de gaguejar, o rapaz sai novamente do camarim, dessa vez em direção à sala da diretoria]. Roberto Lopes Mascarenhas: E se o diretor não concordar? Darico Nobar: Ele vai concordar. Pense positivo. Você tem muito a dizer e isso é o que importa. [O olhar do garoto é de esperança]. Acho que nós já podemos ir para o auditório para você já ir se habituando com as câmeras. Venha comigo. [O apresentador se levanta do sofá e sai do camarim na companhia do novo entrevistado do Talk Show Literário. A dupla vai até o estúdio de gravação]. Darico Nobar: Será aqui a nossa entrevista. A única diferença é que as câmeras estarão ligadas e haverá plateia no auditório. Você está pronto? Roberto Lopes Mascarenhas: Darico, meu coração está maior do que o mundo agora. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Dança: Hip Hop - O cinquentenário de surgimento da mais famosa dança urbana

    Conheça a origem, a evolução, as influências e os diferentes estilos do Hip Hop, a modalidade dançante também chamada de Street Dance e Dança de Rua. Hoje vamos conhecer em detalhes o Hip Hop. A Dança de Rua ou Street Dance, como a modalidade também é chamada no Brasil, é o mais recente estilo dançante que apresento no Bonas Histórias. Pelas páginas da coluna Dança, vale a pena mencionar, já tratamos da Dança Moderna e Contemporânea, do Ballet Clássico, da Dança de Salão, do Frevo, da Dança Solta, do Forró, da Dança dos Noivos, do K-Pop, do Jazz Dance e da Dança do Ventre. Resolvi trazer agora o Hip Hop porque em novembro de 2023 comemoramos 50 anos do seu surgimento. A data é tão marcante que merece o meu registro e a nossa atenção. Portanto, esse é o momento ideal para discutirmos a origem, as influências, a história, a evolução, as características, as variações estilísticas e a dimensão cultural de uma das danças mais expressivas, engajadas e dinâmicas do século XX. Já adianto que, nesse meu novo post do Bonas Histórias, não vou conseguir falar só de dança. O Hip Hop é uma manifestação artístico-cultural que possui ramificações para outras áreas, como a música, a linguagem, as artes plásticas, a arquitetura urbana, a moda, a propaganda e os esportes. Bons exemplos disso são o Grafite, o uso do boné e de tênis, o Rap e o skate. O Hip Hop teve sua origem nos Estados Unidos, mas muitas pessoas ainda acreditam que esse movimento tenha surgido na Jamaica. Essa confusão se dá porque, na década de 1960, os bailes na ilha caribenha tinham como uma de suas principais propostas discutir assuntos como a violência das favelas de Kingston, a política, sexo e drogas. Os discursos eram comandados pelos Toasters, os MC’s (Mestres de Cerimônia), que abordavam os temas sociais através de um estilo de canto mais falado e menos cantado. Eles também introduziram nas festas pelas ruas jamaicanas o sistema de som chamado de Sound System, que consistia em aparelhos sonoros colocados no porta-malas dos carros. No final daquela década, a crise econômica e social da Jamaica impulsionou muitos jovens a emigrar para a América do Norte. Na bagagem, eles levaram essa forma de manifestação cultural. Nessa mesma época, surgiram nos Estados Unidos figuras e grupos da periferia de Nova York que ganharam voz ao protestar contra o Racismo e as injustiças sociais e ao lutar a favor dos Direitos Humanos. Os nomes de maior destaque foram os líderes negros Martin Luther King (1929-1968) e Malcom X (1925-1965) e o grupo Panteras Negras (Black Panthers). De certa maneira, a junção desses dois grupos marginalizados de Nova York (os imigrantes jamaicanos acostumados a extravasar suas angústias e a população negra norte-americana que começava a se despertar de séculos de opressão) gerou uma expressão artístico-cultural engajada, vibrante, poderosa e multidisciplinar, que se embrenhou na sociedade contemporânea. Com a proposta de expressar seus problemas pessoais, sociais e raciais, os MC’s ganharam força e voz através do Rap (Rythm and Poety). Esse estilo musical fundamental do Hip Hop nada mais é do que uma canção acompanhada por um canto falado através de rimas entoadas no ritmo da melodia. Um dos marcos do Hip Hop é a data de 11 de agosto de 1973. Não por acaso, ela aparece na história como o momento do surgimento deste gênero. Nesse dia, Clive Campbell (1955), jamaicano conhecido como DJ Kool Herc, promoveu uma festa para sua irmã, Cindy Campbell. Esse evento representou a primeira grande manifestação do Hip Hop. A festa aconteceu no número 1520 da Sedgwick Avenue, no bairro do Bronx, em Nova York. DJ Kool Herc foi o responsável por popularizar e promover o Hip Hop nos anos iniciais do estilo. O seu hit de maior sucesso é o clássico “Let me Clear My Throat”, popular até hoje. Falando em momentos marcantes, é preciso apontar o 11 de novembro de 1973 como outro dia marcante para o Hip Hop. Foi nessa data que foi fundada a ONG Zulu Nation. A organização promovia atividades culturais e ações artísticas como forma de manter os jovens da periferia longe da violência, das brigas e das drogas. E o gênero que melhores resultados apresentava, exatamente por ir de encontro aos gostos e vontades da juventude, era o Hip Hop. Quando estavam dançando e cantando, a moçada ficava longe dos problemas típicos das ruas das grandes cidades. Os grupos das periferias de Nova York e, depois, dos Estados Unidos, começaram a trocar as discussões e as brigas pelas competições saudáveis de dança e música. Inclusive, essa é ainda uma das características mais fortes e marcantes do Hip Hop. As batalhas, como são chamadas as disputas artísticas, são travadas entre os participantes. Eles podem competir duelando na música, na dança ou até mesmo na pintura, com os grafites. Um artista que não podemos deixar de mencionar aqui é Afrika Bambaataa, nome artístico de Lance Taylor (1957), líder da Banda Zulu Nation. Ele é considerado o grande fundador intelectual do Hip Hop. Foi ele quem introduziu a ideia das batalhas criativas como substituição aos combates violentos no subúrbio das metrópoles. Taylor também é o principal responsável por reunir os elementos centrais desse gênero que são: o Djing (base musical), o MCing (canto), o Break ou B-boying (dança) e o Graffiti Writing (arte visual). O nome Hip Hop surgiu através do movimento da dança Breaking. Hip que significa quadril e Hop saltar. Assim, com a ideia de saltar balançando o quadril, a característica da dança nomeou um movimento cultural que já nasceu multidisciplinar. O Hip Hop nunca parou de crescer e de inovar. Nos anos 1980, o surgimento da MTV fez com que a modalidade ganhasse mais visibilidade midiática, pois apresentava videoclipes com os rappers em ação. Nessa época, o Hip Hop ganhou novas sonoridades ao receber a influência de outros gêneros musicais como Rock, Pop e Reggae. Foi nesse período que surgiram nomes importantes como os rappers LL Cool J (1968) e Mc Hammer (1962) e os grupos Beastie Boys, Public Enemy, N.W.A., Salt-N-Pepa. Na década de 1990, o Hip Hop se consolidou como um fenômeno mundial. Seus artistas passaram a fazer parte das paradas de sucesso e ganharam diversas premiações da indústria musical. Novos elementos sonoros e visuais foram incorporados nos anos 2000. Nessa época, o gênero se expandiu ainda mais e alcançou as mídias sociais, o que permitiu a ampliação e a diversificação do público. Os artistas de destaque desse período são: Beyoncé (1981), Rihanna (1988), Jay-Z (1969), Lil Wayne (1982), Eminem (1972), Drake (1986), Nicki Minaj (1982), Kanye West (1977) e Kendrick Lamar (1987). No Brasil, o Hip Hop chegou na década de 1980 através dos grupos de Break Dance, conhecidos como b-boys. Eles escutavam as músicas norte-americanas e criavam seus próprios passos e coreografias. Um dos artistas que mais contribuiu para difundir esse estilo por aqui foi o dançarino de Breaking, músico e ativista brasileiro Nelson Gonçalves Campos Filho (1954), conhecido como Nelson Triunfo. Não por acaso, ele é conhecido como o pai do Hip Hop no Brasil. Em 1988, foi lançado o primeiro disco brasileiro de Hip Hop, que faz parte da coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua”. Esse álbum também ajudou a fortalecer o gênero em nosso país. Os principais rappers que participaram dessa coletânea são Thaíde (1967), DJ Hum (1967), MC Jack e o grupo Código 13. Esse trabalho fez tanto sucesso que os participantes desse projeto musical estão até hoje entre os maiores rappers nacionais. O próximo lançamento importante que se destacou no universo do Hip Hop foi “Consciência Black Volume I”, do grupo Racionais MC’s. A cidade de São Paulo sempre despontou como a capital nacional do Hip Hop. As principais manifestações da modalidade aconteciam na Região Central e, mais tarde, nos arredores do Metrô São Bento. Por ser uma arte nascida e praticada diretamente nas ruas, a dança desse gênero é conhecida como Street Dance ou Dança de Rua. No período de sua introdução no Brasil, os dançarinos de Hip Hop (ou Street Dance/Dança de Rua) se apresentavam para o público que ia e vinha pela cidade e, desse jeito, ganhavam contribuições monetárias. O primeiro grupo de Rap norte-americano a fazer show no Brasil foi o Public Enemy, em 1984. A vinda da banda nova-iorquina ajudou muito a difundir a cultura do Hip Hop por aqui, principalmente nas regiões periféricas e entre a população negra, que se identificou imediatamente com seu estilo e suas propostas. As letras que carregavam reinvindicações por igualdade racial e social e protestos contra o governo caíram como uma luva para os brasileiros. Por ser um movimento cultural nascido na periferia das grandes cidades, por ter artistas preponderantemente negros e por possuir temática engajada, o Hip Hop sempre foi alvo de muito preconceito tanto no Brasil quanto no exterior. Por mais que ano a ano o gênero esteja quebrando barreiras e falando com um público maior e mais diversificado, ainda sim é nítida a aversão que ele causa em alguns segmentos sociais mais reacionários. O Grafite é um dos pilares do Hip Hop. Essa expressão artística é constituída de pinturas feitas nas paredes dos espaços públicos. O Grafite nasceu como um movimento da contracultura na qual grupos periféricos podiam protestar e fazer críticas sociais. Seu início se deu também na década de 1970 nos subúrbios de Nova York. É difícil apontarmos os artistas precursores do Grafite ou grandes nomes da época inicial. O governo de Nova York desaprovava as interferências visuais nos espaços públicos e perseguia os grafiteiros, fazendo com que eles tivessem que se manifestar na clandestinidade. Essas pinturas, os tais grafites, têm características próprias. O material utilizado é basicamente a tinta spray, que ajuda a dar forma e cor aos desenhos de pessoas e a moldar as letras grandes. A pintura pelo spray é ideal por ser uma maneira mais rápida e que exige menos materiais, algo essencial em tempos de perseguição policial e para uma arte em deslocamento constante. Vamos entender alguns dos termos técnicos e estilísticos utilizados pelo Grafite. 3D Style, como o nome sugere, é a pintura em 3D (três dimensões), que passa a ideia de realidade e movimento. Esse efeito se dá através do preenchimento dos contornos com luz e sombra. Throw up ou Bombs é a técnica mais comum e é utilizada em pinturas mais rápidas. Nesse estilo, são empregadas formas mais arredondadas e letras bem gordas. E os seus desenhos e suas grafites têm forma mais deformadas e engraçadas. No Wild Style, é utilizada muita cor e letras entrelaçadas, o que dificulta a leitura rápida. E o Free Style, como o nome já sugere, é a forma mais livre de arte, quando o grafiteiro utiliza a forma que preferir no momento. E nesse mundo do Grafite existem algumas gírias próprias como: Bite se refere a imitar o estilo de outro grafiteiro; Crew é o conjunto de grafiteiros que se reúnem para pintar; Tag é a assinatura do grafiteiro; Toy é o termo utilizado para se referir ao grafiteiro iniciante; e Spot é o lugar onde a obra é realizada. No Brasil, o Grafite também teve grande destaque. Por aqui, ele surgiu em plena época da Ditadura Militar, com a necessidade de tratar das opressões governamentais e dos desatinos políticos. E por isso também, era considerado ilegal e imoral. Alex Vallauri (1949-1987), artista etíope radicado no Brasil, é um nome importante no período inicial dessa arte em nosso país. Ele foi o responsável por um dos primeiros grafites feitos em lugar público na cidade de São Paulo. Sua obra “Boca de Alfinete” (1973) tinha um grande teor político e falava da censura da Ditadura Militar. Devido ao seu legado artístico, o dia de sua morte, 27 de março, é hoje reconhecido como o Dia do Grafite no Brasil. Atualmente, uma das principais figuras do Grafite nacional é o artista Eduardo Kobra (1975), que tem sua arte divulgada nos cinco continentes. Em 2016, ele grafitou a obra “Etnias” para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Considerado até então o maior mural grafitado do mundo, o desenho tem 2.500 metros quadrados. Recorde esse que o próprio Kobra superou no ano seguinte, grafitando um paredão de 5.742 metros quadrados na Rodovia Castello Branco, em São Paulo. Na obra “Cacau”, ele homenageia o chocolate. Outros nomes importantes para o Grafite brasileiro são Fábio de Oliveira Parnaíba (1982), conhecido como Cranio, e os irmão Otávio Pandolfo e Gustavo Pandolfo (1974), conhecidos como Os Gêmeos. Cranio iniciou seu trabalho em 1998 e seu marco registrado são os índios com tom de azul, usados para representar o Brasil. Ele prefere falar de temas mais atuais e aborda assuntos como consumismo, ambientalismos e questões de identidade. Os Gêmeos têm obras mais lúdicas e já participaram de mostras por todo o mundo. Na moda, o Hip Hop também tem diferenciais. Ele mistura aspectos das culturas afro-americana, caribenha e latina. As características desse estilo são roupas largas, escuras, bonés com abas retas (bucket hat) e tênis com cadarços desamarrados (ótimo para quem não teve uma irmãzinha que ensinasse a amarrar!) e coloridos. Essa moda surgiu, para variar, na década de 1970 e seus usuários são chamados de “hip-hoppers”. Em seus momentos iniciais, a moda do Hip Hop ficava restrita aos negros e às classes mais baixas. Só com o tempo, ela foi sendo mais difundida. Mas sempre a moda teve um papel muito importante na identidade do Hip Hop e da cultura negra norte-americana. Essa moda inclusive contribuiu para muitas outras que vieram depois. A estética das roupas mais soltas e volumosas tinha uma explicação. Como eram herdadas de irmãos, primos ou outros conhecidos, as peças eram normalmente alguns números acima do usuário. Apesar dos tempos de escassez terem ficado para trás, ainda hoje a moda Hip Hop mantém essa característica. Na hora de dançar, as roupas mais largas ajudavam na execução dos movimentos, no maior conforto e na estética visual. Outro destaque da moda Hip Hop é a roupa camuflada, muito utilizada pelos grupos de Rap em apresentações. A ideia era mostrar o nível de agressividade da vida das pessoas negras. Era como se todo dia, elas precisassem enfrentar uma guerra. Essas peças também eram roupas de fácil acesso e resistentes, pois eram vendidas como excedentes do uniforme do exército. Nos anos 1990, foi adicionado ao look do Hip Hop os colares e correntes grandes e pesados, com o intuito de transmitir a ideia de status, fama e riqueza. Ou seja, são artigos mais comuns da fase de virada do gênero, que deixou a periferia social e migrou para o estrelato cultural. Feita a apresentação abrangente da arte do Hip Hop, vamos agora tratar do assunto principal deste post do Bonas Histórias. Vamos falar com mais profundidade do Hip Hop como manifestação dançante. Afinal, estamos na coluna Dança, né? A dança Hip Hop integra o que se convencionou chamar de danças urbanas. Um outro nome que se usa para essa modalidade é Street Dance ou Dança de Rua. As danças do Hip Hop se caracterizam por movimentos de improvisação, o chamado freestyle. O freestyle é o conjunto de ações acrobáticas que surgem em sincronia com a música e formam as batalhas travadas em festas e competições. Esse tipo de dança inclui uma variedade de estilos como: Breaking, Locking e Popping. Vamos entender melhor cada um desses estilos de dança. BREAKING: O Breaking, também conhecido como Break Dance, é o estilo dançante mais popular do Hip Hop. Ele nasceu nos anos 1970, quando se deu o surgimento do gênero. Os sete movimentos que caracterizam o Breaking são: - Top Rock: representa a sequência de passos feitos em pé, antes que o dançarino, o b-boy ou b-girl, inicie os movimentos de chão. Não existe um tempo certo para o dançarino executar o Top Rock, mas ele não costuma ultrapassar os 8 tempos da música. - Go Down: quando o dançarino está fazendo suas sequências de passos em pé, ele precisa de um movimento que o leve para o chão, para então desenvolver sua dança no solo. Esse movimento é chamado de Go Down. - Down Rock: são os movimentos realizados no chão. Existem vários movimentos que são executados no chão, com o dançarino se equilibrando muitas vezes sobre as mãos, pontas dos pés e até mesmo sobre a cabeça. - Freeze: como o nome em inglês diz, é um congelamento do dançarino. Ao interpretar a música, ele pode escolher um momento mais dramático ou que queira valorizar na música para a aplicar um Freeze. Assim, o b-boy ou b-girl fica parado em uma pose por um tempo, como se estivesse congelado. Ele também pode fazer uso do freeze quando quer marcar o final de uma sequência de passos. Exemplos de Freezes são o baby freeze, chair freeze e elbow freeze. - Footwork: para mim, é um dos movimentos mais característicos do Hip Hop. Você certamente já deve ter visto em alguma apresentação ou vídeo de dança, mesmo porque ele chama a atenção, não dá para passar desapercebido. O Footwork são os movimentos realizados com os pés e pernas enquanto o dançarino está no solo apoiado sobre as mãos. As pernas e pés fazem diversos movimentos, circulares, de pinça, tudo seguindo o ritmo da música. Os footworks mais conhecidos são: kick out, shuffle, 3 step e 6 step. - Power Moves: como o nome já sugere, são os movimentos de poder na dança e são os mais dinâmicos. Ele acontece com o dançarino projetando seu corpo sobre as mãos, cabeça, ombros, costas ou cotovelos e realizando uma rotação contínua. O dançarino pode realizar uma sequência de power moves e/ou finalizar o power moves com um freeze. - Flip: o flip é utilizado quando o dançarino quer deixar sua apresentação mais dinâmica. São movimentos acrobáticos, de cambalhotas, giros e pulos que o artista faz enquanto está no ar. Em uma batalha ou apresentação de Breaking, os dançarinos não precisam fazer todos esses movimentos. Porém, irá se destacar aquele que fizer as junções de passos com mais criatividade e, claro, souber executar com excelência o maior número de movimentos. No ano que vem, o Break Dance será modalidade olímpica. A dança estreia nos Jogos Olímpicos de 2024 em Paris. Quem está por traz da inclusão desse estilo do Hip Hop no principal evento esportivo mundial é o Comitê Olímpico Internacional (COI). Eles querem atrair o público jovem com modalidades mais midiáticas para as novas gerações. Assim, ao lado do Breaking, os Jogos de Paris terão o Surf e o Skate, esportes incluídos na última competição, no Japão. LOCKING: A dança Locking era chamada inicialmente de Campbelloking. Isso porque levava o nome do seu criador, o dançarino e coreógrafo Don Campbell (1951-2020). A dança se caracteriza pelo dinamismo, com movimentos rápidos e amplos. É um ótimo estilo para apresentações, pois utiliza bem o espaço, com seus passos mais alongados, e faz muito uso de paradas bruscas no meio da execução da dança. Esse movimento, por sinal, é muito parecido com o passo Freeze do Breaking, tornando assim a dança visualmente atrativa. O Locking é visto tradicionalmente como uma dança alto astral e divertida. Os dançarinos geralmente utilizam joelheiras, pois tem diversas quedas no chão que impactam os joelhos. Apesar das diferenças e particularidades de cada estilo, muitas vezes o Locking é confundido com o Popping. Por isso, em algumas regiões dos Estados Unidos, essa dança é chamada de Pop-locking. POPPING O Popping é mais uma das danças urbanas que compõe o Hip Hop. Ele foi inventado na década de 1970 por Sam Solomon, mais conhecido pelo apelido de Boogaloo Sam, e foi muito difundido pelo seu grupo de dança Eletric Boogaloo. Como o próprio nome sugere, no Popping é como se o corpo do dançarino estivesse estourando. Essa ideia é transmitida através de contrações rápidas e do relaxamento do corpo, característica marcante desse estilo. É muito provável que você já tenha praticado, mesmo que sem querer e de brincadeira, essa dança. Seus dois passos mais marcantes são o deslizar e o flutuar, realizados com os pés e pernas, igual ao passo Moonwalk do cantor, compositor e dançarino Michael Jackson (1958-2009). A impressão que fica é de que o dançarino está se deslocando, como se estivesse mesmo escorregando pelo chão ou por uma superfície bem lisa. Outro movimento característico é o Waving, que é uma onda realizada principalmente com braços e troncos. Há também movimentos de braços que desenham formas geométricas retas. Esse passo, inclusive, foi incorporado pelo K-Pop, sendo muito usado em suas coreografias. Existem também muitos passos com isolamento de partes do corpo, em que se trabalha cada membro de uma forma distinta. Mas todos os passos são executados na maior parte do tempo com as contrações do corpo. Não importa qual estilo da dança de Hip Hop que se pratique, todas vão ser envolventes e trabalhar todas as partes do corpo. Além de ser uma ótima atividade física para aumentar a força muscular. Os principais dançarinos frequentemente participam de competições e batalhas de Hip Hop que ocorrem em vários países da Europa, Ásia e América. E aí, você já está com vontade de dançar Breaking, Locking ou Popping? Agora que já está mais familiarizado com esse mundo dançante do Hip Hop, é só soltar o corpo e começar a dançar. Por falar nisso, em janeiro nos encontraremos novamente aqui no Bonas Histórias, hein? O meu próximo post da coluna Dança será sobre uma das modalidades de dança que considero mais linda e que adoro dar aula: o Tango! Portanto, não perca minha viagem pelo misterioso, charmoso e sensual ritmo argentino. Até lá, pessoal. Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Filmes: El Duelo - O delicioso thriller romântico de Augusto Tejada

    Em cartaz nos cinemas argentinos desde 12 de outubro, a comédia romântica estrelada por China Suárez e Joaquín Furriel possui muita ação e mistério, em um roteiro repleto de surpresas e reviravoltas que encanta o público mais exigente. Nas duas primeiras semanas da minha longa temporada por Buenos Aires, algumas coisas chamaram positivamente minha atenção. Uma delas é que a Argentina não tem apenas um cinema de qualidade, algo que eu já sabia há muuuito tempo (e que os leitores assíduos da coluna Cinema já devem ter notado pelos posts elogiosos de uma série de longas-metragens feitos na terra de Evita e Dieguito). Mas o nosso país vizinho possui, aí está justamente o que me impressionou, uma indústria cinematográfica forte e vigorosa, algo que só o México, creio eu, também pode se orgulhar na América Latina. A questão, portanto, não é meramente qualitativa, mas quantitativa. Para termos uma ideia da dimensão, nossos hermanos lançam cerca de 200 produções cinematográficas anualmente, a maioria de excelente nível. Trata-se de um número vultuoso de filmes, que são direcionados para atender à demanda nacional e ao interesse internacional (diferentemente da indústria mexicana, mais focada no público doméstico). Se esses dois elementos (quantidade e qualidade) estão presentes no cinema argentino, infelizmente não podemos dizer o mesmo do cinema brasileiro nos últimos anos. Por mais ufanistas que sejamos, é preciso reconhecer quando placar é adverso em 7 a 1. O legal é notar a força da indústria cinematográfica argentina no dia a dia. Na sexta-feira da semana retrasada, fui ao Multiplex Belgrano, meu cinema favorito de Buenos Aires. Estou morando em Núñez/Saavedra, mas o bairro em que recorro para um monte de coisa é Belgrano. O objetivo principal do passeio era conferir os lançamentos da sétima arte. E fiquei encantado em ver que ao lado de títulos internacionais, o público local recebe simultaneamente um bom leque de opções nacionais. Por exemplo, acabaram de estrear por aqui três longas-metragens argentinos: “El Duelo” (2023), thriller romântico dirigido por Augusto Tejada; “Puan” (2023), comédia dramática da dupla de diretores María Alché e Benjamín Naishtat; e “No Me Rompan” (2023), comédia do tipo besteirol dirigida por Azul Lombardía. Isso sem contar os filmes locais que já estavam em cartaz e permanecem à disposição do público. Uma semana antes, eu assisti “La Uruguaya” (2022), título que fora lançado em agosto. Inclusive, comentei rapidamente este filme de Ana García Blaya, uma coprodução entre argentinos e uruguaios, no início de outubro, quando discuti na coluna Livros – Crítica Literária a novela “A Uruguaia” (Todavia), de Pedro Mairal. Obviamente, a produção literária do escritor argentino serviu de base para o roteiro cinematográfico de Blaya. Daí a menção e a comparação entre as duas histórias. Falei tudo isso para dizer que, dos novos títulos em cartaz no circuito comercial portenho, o filme que mais gostei foi “El Duelo” – não por acaso, o motivo deste meu post do Bonas Histórias. É verdade que “Puan” também é uma produção excelente (e que, por isso, pode gerar uma análise crítica nas próximas semanas na coluna Cinema). Contudo, confesso que fiquei encantado mesmo foi com a divertida trama do longa-metragem de Tejada, as surpresas de seu roteiro e o carisma do casal de protagonistas. Sabe quando você entra na sala de cinema esperando um filme mediano (na minha imaginação, “Puan” seria o bom lançamento do mês, “El Duelo” o mediano e “No Me Rompan” o fraquinho), mas encontra um filmão?! Pois foi o que aconteceu comigo. E olha que não gosto de comédia romântica! “El Duelo” me surpreendeu tanto que posso afirmar, sem correr o risco de exagerar nem de cometer injustiças, que é um dos mais agradáveis filmes que conferi neste ano nos cinemas. Ele está no nível de adrenalina e suspense de “M3gan” (2022), a ficção científica do neozelandês Gerard Johnston, e empatado no quesito drama e melancolia com “EO” (IO: 2022), a mais recente produção do polonês Jerzy Skolimowski. A diferença é que o longa-metragem argentino é mais engraçado do que todos os outros títulos que vi nos últimos dois ou três anos. Talvez “El Duelo” só perca no que se refira à experiência cinematográfica e à qualidade a “Oppenheimer” (2023), blockbuster do inglês Christopher Nolan, e a “Os Banshees de Inisherin” (The Banshees of Inisherin: 2022), drama histórico do britânico Martin McDonagh que para mim merecia o Oscar de 2023. Aí, porém, a comparação fica injusta demais, né? Esses dois filmes são espetaculares!!! Lançado em 12 de outubro nos cinemas argentinos, “El Duelo” é o segundo trabalho de Augusto Tejada na direção de longas-metragens. Formado em cinema pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e em atuação pela Escola de Teatro Agustín Alezzo, ele estreou ainda em 2023 com “El Asistente” (2023). Essa outra comédia dramática chegou de forma tímida no início do ano ao circuito comercial local, mas foi lançada com mais estardalhaço pelo Star+ pouco tempo depois. Antes disso, Tejada havia dirigido sete episódios da série “El Secretario” em 2020 na Amazon Prime e duas temporadas da série “Millenials” da Netflix em 2018 e 2019. “El Duelo” é estrelado por duas figuras de destaque do cinema argentino contemporâneo: China Suárez, de “A Linha Vermelha do Destino” (El Hilo Rojo: 2016) e “Abzurdah” (2015), e Joaquín Furriel, de “O Filho Protegido” (El Hijo: 2019) e “O Patrão – Radiografia de Um Crime” (El Patrón, Radiografía de Um Crimen: 2014). A dupla de atores dá show de interpretação e potencializa a qualidade do filme de Augusto Tejada. O roteiro de “El Duelo” foi feito por Luciano Leyrado e Agustín Rolandelli. Da equipe técnica, merecem menção Gabriel Casacuberta, responsável pela excelente trilha sonora, e Federico Polleri, responsável pelas filmagens e fotografia. Fazer um longa de ação com perseguições, tiroteios e explosões não é uma tarefa normalmente fácil fora do universo hollywoodiano. E essa produção fez isso com tanta naturalidade que merece nossos rasgados elogios. “El Duelo” começa mostrando o drama de Ernesto (interpretado por Joaquín Furriel). Ele é um homem preso a uma rotina entediante em Buenos Aires. Todos os dias, o portenho acorda às sete horas, enquanto a esposa continua dormindo. Depois do banho e de se vestir, toma um café rápido. Sai de casa apressado, cumprimenta o vizinho que rega o jardim e parte para o trabalho de ônibus. No escritório de importação e exportação, atura o chefe chato, o marasmo do relacionamento com os colegas e as tarefas burocráticas. Quando enfim retorna para casa à noite, Ernesto precisa encarar a indiferença da esposa, que prefere assistir televisão a conversar com ele. Quando vai se deitar, a mulher já está dormindo e não quer ser tocada em hipótese nenhuma. A semana do protagonista do filme se passa nesse cotidiano sem emoção e sem prazeres. De tão acostumado que está com o ritual diário de frieza e desalento, Ernesto sequer nota que há algo de muito errado com sua vida. Isso até ele sofrer um trauma. Em um dia aparentemente normal, ele acorda às sete e vê a esposa dormindo. Toma banho, se veste e vai para a cozinha para o café da manhã. Contudo, dessa vez, ele derruba bebida na camisa. Para se limpar, volta ao banheiro, tira a roupa, lava a camisa na pia e se veste novamente. Só assim sai de casa. Aí cumprimenta o vizinho, que como sempre está no jardim regando as plantas, e parte para o ponto de ônibus. Ao fazer o movimento de consultar as horas, Ernesto repara que quando se vestiu pela segunda vez, esqueceu de colocar o relógio. Assim, volta para casa para pegar o item. Para sua surpresa e infelicidade, ao chegar na residência, o rapaz ouve gemidos vindos do quarto. É a mulher transando com o vizinho, aquele mesmo do jardim. A dupla só o esperava sair de casa para se lançar em aventuras sexuais. Ao constatar que está sendo traído, Ernesto entra em depressão profunda. Viver não faz mais sentido e a única coisa que pensa é morrer. O problema é que ele, de tão banana que é, não tem coragem para tirar a própria vida de nenhuma maneira. Os planos de pular do prédio, ser atropelado, se enforcar e ser asfixiado pelo gás do forno não dão certo porque lhe falta coragem. Nem se suicidar ele consegue, o que o deixa ainda mais triste e angustiado. Enquanto se embebeda em um bar, Ernesto é abordado por um homem que instantaneamente compreende seu drama. A sugestão do desconhecido é simples: contratar a Killing & CO, uma empresa clandestina de assassinos profissionais. O sujeito entrega um cartão com os contatos da companhia para que o marido traído mate a esposa ou o amante. Contudo, o protagonista de “El Duelo” tem outra ideia. Ele usará os serviços da Killing para encomendar a própria morte. Se não tem coragem para tirar sua vida, ele pode terceirizar a tarefa. Pronto. Seus problemas estão resolvidos, pensa satisfeito. Assim, Ernesto espera o fim do expediente no escritório para acessar o site da tal empresa de assassinatos e encomendar sua morte. Quando os colegas e o patrão já foram embora e não há mais ninguém por perto, ele efetua o cadastro, faz a encomenda e realiza o pagamento online. Ingenuamente, o marido traído acha que em poucas horas um profissional da companhia clandestina será acionado. Mas não é assim que as coisas funcionam na Killing & CO. Ele recebe uma ligação dizendo que como fez a solicitação em uma sexta-feira à noite, precisará esperar até a segunda-feira de manhã para ser atendido. Até no mercado de mortes matadas há burocracia e respeito ao descanso semanal. Um final de semana ainda?! É muito tempo! Ernesto se desespera só de imaginar que precisará passar mais dois dias e meio vivo. Sem ter o que fazer em relação ao trâmite da empresa contratada, apesar das reclamações que fez à companhia, ele se conforma em esperar. Para aproveitar a sexta-feira à noite, o sábado e o domingo, seus últimos momentos de existência, o rapaz usa o cartão de crédito da firma de importação e exportação e se hospeda em um hotel cinco estrelas de Buenos Aires. Se é para passar mais 60 horas, que seja em grande estilo. Depois de se refrescar na banheira da suíte caríssima e de dar umas voltas pela capital argentina com um carrão importado que alugou com o cartão corporativo da sua empregadora, Ernesto vai ao bar do hotel para tomar algo. Lá, ele conhece por acaso Rita (China Suárez), uma estonteante personal trainer. Os dois engatam uma noite de sexo ardente e na manhã seguinte já estão apaixonados. Inicia-se, dessa maneira, um final de semana perfeito. O novo casal aproveita o sábado e o domingo para se divertir e se conhecer. Se a vida não fazia sentido para Ernesto até então, na companhia da linda e carinhosa Rita ela passa a valer a pena. E como! Arrependido da contratação dos serviços da Killing & CO, o rapaz telefona, na segunda-feira de manhã, para cancelar a encomenda feita na sexta-feira à noite. Seu plano agora é viajar para a praia com Rita em uma espécie de lua de mel. Entretanto, a empresa informa que uma vez contratada uma morte, não dá mais para voltar atrás. Inclusive, o assassinato solicitado já deve estar prestes a ser realizado. Desesperado por não querer mais morrer, Ernesto é aconselhado pela atendente da Killing a contratar um novo serviço. Como ele não quer a realização da primeira encomenda, basta pagar pela morte do seu provável assassino. Se o profissional da segunda solicitação for mais rápido do que o da primeira, ele não terá problemas. Como essa é a única alternativa disponível, o protagonista do filme efetua a nova compra. Dessa maneira, Ernesto precisará sobreviver nas próximas horas até que seu misterioso assassino seja morto pelo segundo contratado. Mas como fazer isso, se ele é um babaca e o inimigo é um profissional gabaritado? A resposta passa pela atuação destemida e impecável de Rita. Surpreendentemente, a moça demonstra possuir habilidades incomuns para uma personal trainer. Ela fará de tudo para ajudar o namorado a escapar da morte quase certa. O casal se une para evitar o fim precoce do romance. Ao mesmo tempo que precisam fugir do assassino da Killing & CO, Ernesto e Rita vão encarar segredos ocultos um do outro, que poderão colocar a relação deles em risco. “El Duelo” possui aproximadamente 1 hora e 20 minutos de duração. O mais interessante desse filme é a mistura de gêneros cinematográficos. É até difícil classificá-lo com precisão. Ele pode ser descrito como uma comédia de ação, um thriller romântico, um drama com pitadas de nonsense, uma tragicomédia contemporânea, uma comédia romântica, uma aventura com muita ação ou um road story surreal. Sem exagerar muito, o longa-metragem pode ser visto até mesmo como um Faroeste Urbano (uma espécie de Western Spaghetti argentino –nesse caso poderíamos chamá-lo de Western Asado?!) ou uma sátira às tramas de espionagem. A mescla é tão bem-feita e com elementos que exploram a intertextualidade cinematográfica que por qualquer perspectiva que você encare esta produção, ela convence e encanta. Dos elementos do roteiro, a primeira questão que quero comentar neste post do Bonas Histórias é o protagonista masculino melancólico, uma marca da literatura e do cinema argentino contemporâneo. Se pensarmos bem, trata-se de uma característica da sociedade local que abrange ambos os sexos. De tão recorrente nas produções artísticas, o homem que não vê graça na vida e carrega uma depressão profunda está presente nos enredos da novela “A Uruguaia” (e, por consequência, da sua versão cinematográfica homônima, “La Uruguaya”) e do filme “Puan”. Ou seja, dos três longas-metragens que assisti nos últimos dias, temos como características mais marcantes das suas personagens principais a amargura e a depressão. É assustador notar as semelhanças de Ernesto de “El Duelo”, Pereyra de “A Uruguaia” e Marcelo de “Puan”. A coisa fica ainda mais aterrorizante quando analisamos outras obras culturais argentinas tanto atuais quanto clássicas. Os principais protagonistas de Julio Cortázar, por exemplo, eram homens melancólicos que carregavam uma profunda crise existencial. Ou Horacio Oliveira, a figura central de “O Jogo da Amarelinha” (Companhia das Letras), não é o tipo infeliz que não acha graça em nada da vida, hein? Claro que é. Podemos chegar a mesma conclusão ao analisarmos as personagens masculinas de “Não é um Rio” (Todavia), novela de 2020 de Selva Almada. Se pegarmos alguns títulos cinematográficos recentes, como “A Odisseia dos Tontos” (La Odisea de Los Giles: 2019), “Minha Obra-Prima” (Mi Obra Maestra: 2018) e "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016), caímos na mesma dinâmica narrativa. Já que estamos falando do protagonista masculino, vamos aprofundar o olhar também sobre a protagonista feminina. Se Ernesto não traz nenhuma novidade artístico-cultural (é o típico portenho comum que odeia a vida!), Rita, personagem de China Suárez, traz surpresas (e nuances) interessantes. Ela surge na tela como uma típica femme fatale (à la bond girl), capaz de seduzir os homens com enorme facilidade. Basta morder uma azeitona e eles estão aos seus pés. Confesso que imediatamente pensei se tratar de um típico retrato feminino do cinema picaresco, mais comum nas telonas argentinas durante as décadas de 1970 e 1980, mas até pouco tempo presente em atrações televisivas popularescas. A sociedade local é, para quem não sabe, extremamente machista. Quem não se lembra dos papéis desempenhados pelas mulheres em “Rompeportones”, “Petardos” e “Dinamitados”, programas humorísticos de TV de enorme sucesso nos anos 1990 e 2000? Assisti-los hoje dá um frio na espinha (e gera uma enorme indignação tanto nos homens quanto nas mulheres). Em outras palavras, imaginei que a presença de Rita fosse um mero artifício de sexualização feminina e de estereotipação da mulher. Porém, não podia estar mais enganado. A tal personal trainer se prova rapidamente mais do que um rostinho bonito (e um corpão maravilhoso). Ela é corajosa, inteligente e forte. De certa forma, Rita é o contraponto perfeito para o estilo bundão do novo namorado. Se Ernesto é um zero a esquerda e alvo fácil para o assassino contratado, ela é destemida e habilidosa ao ponto de salvar o amado dos perigos. Adorei ver esse empoderamento feminino, algo inimaginável para os roteiristas do cinema picaresco e das enquetes de Hugo Sofovich no Canal 9. Feministas do meu Brasil varonil, por favor, acalmem-se. Ainda há esperança de uma sociedade mais igualitária ao sul do Rio da Prata! Já que falamos das personagens, Ernesto e Rita representaram profundas novidades para a carreira de Joaquín Furriel e China Suárez, respectivamente. A dupla está mais acostumada a dar vida a papéis mais densos e dramáticos na televisão e no cinema. Pelo que me lembre, eles nunca tinham atuado em uma produção cômica como “El Duelo”. E Furriel e Suárez estiveram ótimos como uma dupla de características tão opostas que precisa se unir para fugir da morte. Além da excelente química do casal (que levantou suspeitas na mídia fofoqueira argentina sobre um possível romance real entre os atores), eles foram impecáveis nas cenas de ação e nos momentos em que as fragilidades emocionais de suas personagens afloram. Nota-se que são artistas completos, que dominam como poucos os diferentes tons e situações da interpretação. Muito legal vê-los trabalhando ao melhor estilo Sr. e Sra. Smith. O ponto alto de “El Duelo” está em seu roteiro recheado de reviravoltas e surpresas. É perceptível desde o início que a história foi construída com muita graça e inteligência. Os roteiristas Luciano Leyrado e Agustín Rolandelli produziram uma narrativa impecável que potencializa as cenas de ação, o humor, o romantismo do casal de protagonistas e a pegada nonsense da trama. Impossível a plateia não se divertir com o jogo surreal do cara que contrata um assassino para si e depois outro para eliminar o primeiro matador. Repare que para não estragar boa parte das surpresas do filme, ocultei detalhes importantes do roteiro de “El Duelo” nesse meu relato. Afinal, uma das diretrizes da coluna Cinema (e que sigo rigorosamente) é não dar spoiler. Portanto, a trama do longa-metragem é muito (e põe muito nisso) melhor do que eu descrevi aqui. Pode acreditar! Também gostei do tipo do humor desta produção de Augusto Tejada. Temos quase sempre uma comédia inteligente e nem um pouco apelativa. A risada surge naturalmente das peripécias do casal yin-yang em sua aventura pela sobrevivência. Se você for cinéfilo e entender as referências entre os diferentes estilos cinematográficos emulados (comédia romântica, espionagem internacional, faroeste etc.), “El Duelo” se tornará com certeza ainda mais engraçado. Por falar nisso, raramente fico decepcionado com o humor dos filmes argentinos. Em um ranking internacional, a graça do cinema hermano fica em primeiríssimo lugar. Se é comédia e se for argentina, assista porque vale a pena! Por fim, preciso elogiar mais três elementos deste filme: a ótima trilha sonora, as excelentes cenas de ação e a pegada de road story da narrativa. Além de gostar das canções de “El Duelo”, notei que Gabriel Casacuberta conseguiu fugir do convencional em muitos momentos. Ele foi extremamente feliz quando quebrou as regras sonoras ou as inverteu propositadamente. E o que é fugir do convencional?! É aplicar efeitos pouco comuns no cinema comercial. Por exemplo, no instante de retratar o auge da depressão de Ernesto, Casacuberta coloca uma música alta e animada (acho que rock). Para mostrar a felicidade e a explosão de sentimentos do protagonista, põe uma trilha mais calma, melancólica e instrumental. Ficou muito bom isso, sendo que o contrário seria o natural. Incrível! O que podemos falar das cenas de ação de “El Duelo”, hein? Para mim, elas têm uma qualidade muito acima do seu orçamento. Esse fato prova que dá sim para se fazer cinema com excelência com pouca grana. Basta investir na competência técnica da equipe. Se é difícil fazer thrillers de ação com baixa verba, então tenha um time preparado para trazer as melhores soluções possíveis. Por essa perspectiva, posso assegurar que o trabalho de Federico Polleri, responsável pelas filmagens e pela fotografia, foi brilhante! E a pegada de road story confere ainda mais charme e carisma à história de “El Duelo”. Depois de um passeio rápido por Buenos Aires, as personagens viajam pelo interior e pelo litoral argentino. Por consequência, os olhares do público acompanham a jornada dos protagonistas e do vilão pelo país. Quem disse que não dá para pegar estrada e conhecer vários lugares diferentes sem sair da sala de cinema?! Esse filme é ao mesmo tempo leve, espirituoso e comovente. Será que ele tem algum defeito mais sério que me esqueci de falar? Sim, deve ter. O problema é que eu não encontrei nenhuma grande falha para apontar neste post da coluna Cinema. Peço desculpas para quem chega até o finalzinho do texto do Bonas Histórias só para ver minhas ponderações. Dessa vez vou ficar devendo, pessoal! De tão maravilhado que fiquei com a competência técnica da equipe comandada por Augusto Tejada (e, claro, com a beleza estonteante de China Suárez) que não consigo apontar um ponto negativo sequer de “El Duelo”. Se vocês acharem, por favor, me avisem. Confira, a seguir, o trailer de “El Duelo” (2023): O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Livros: A Uruguaia - A premiada novela tragicômica de Pedro Mairal

    Publicado em 2016, este drama sentimental do escritor argentino conquistou tanto o público quanto a crítica e foi recentemente adaptado para o cinema. Neste final de semana, li uma pequena obra-prima da literatura argentina e da ficção sul-americana contemporânea. O livro em questão é “A Uruguaia” (Todavia), o quarto romance de Pedro Mairal (que preferi classificar como novela pela extensão enxuta de páginas) e até aqui seu título mais exitoso. Posso garantir que essa história deliciosa e surpreendente de um dos meus escritores portenhos favoritos é até mesmo melhor do que “Uma Noite com Sabrina Love” (Todavia), o aclamado romance/novela de estreia de Mairal. Para ser ainda mais preciso em minhas palavras iniciais deste post do Bonas Histórias, “A Uruguaia” é sem dúvida a ficção que mais me impactou em 2023. Juro que fiquei encantado com sua narrativa, estilo e enredo. Na minha humilde opinião, se essa publicação não for perfeita do ponto de vista literário, ela beira a perfeição. Gostei tanto desta trama que posso dizer que o meu sábado foi dedicado quase que exclusivamente à produção artística de Pedro Mairal. Afinal, depois de ler a versão literária de “A Uruguaia” entre o final da manhã e o início da tarde, corri para a sala de cinema à noite para conferir a versão audiovisual, que está em cartaz no circuito comercial argentino e uruguaio desde meados de agosto. Minha ideia agora é apresentar aos leitores do blog a avaliação do romance (de maneira completa e rigorosa) e, ao mesmo tempo, comentar alguns aspectos do filme (de maneira mais sutil e informal). Acho que teremos aqui uma espécie de mescla bem azeitada entre as colunas Livros – Crítica Literária e Cinema. Esse é o prato do dia do Bonas Histórias, senhores e senhoras. Preparem-se porque ele será servido com um belo assado de tira, alfajor de doce de leite e empanadas. Pelo menos foi o que pedi enquanto escrevo esse texto. Divagações à parte, me sinto na obrigação de explicar o que me atraiu a ler “A Uruguaia”. Vamos, portanto, para o início. Não sei se a maioria dos leitores do blog sabe, mas me mudei recentemente para Buenos Aires. Deixei a cidade de São Paulo, minha terra natal, depois de ficar preso por lá por mais tempo do que queria (a pandemia foi uma das responsáveis). Com as coisas mais ou menos normalizadas, senti que era hora de cair na estrada novamente. E entre minhas três principais opções de moradia estavam: mi Buenos Aires querido, a encantadora e misteriosa Montevidéu e a fervilhante e sedutora Florianópolis. Confesso que não foi nem um pouco fácil escolher só uma e abrir mão das outras (em uma espécie de fidelidade matrimonial de municípios). No fim das contas, acabei preferindo retornar para a capital argentina, o caminho menos disruptivo (vivi por aqui há vinte anos e conheço bem a cultura e as calles) e muitíssimo mais barato (obrigado, Senhor Câmbio!). A questão curiosa é que “A Uruguaia” é uma história ficcional de um escritor falido que se vê dividido justamente entre as três cidades que eu almejava morar. Lucas Pereyra, o protagonista do romance/novela de Pedro Mairal, vive em Buenos Aires, se vê atraído pelos encantos de Montevidéu e sonha em fugir para Florianópolis. Muita coincidência, não?! Impossível não mergulhar nessa história que me soava tão semelhante. Lançado em maio de 2016 na Argentina e logo depois na Espanha e no Uruguai, “A Uruguaia” (adoro falar o nome deste livro no espanhol com sotaque portenho: “La Uruguaya” sai mais ou menos como “la Uruguaja”) se tornou um grande sucesso de crítica e de público ao unir o melhor do estilo de Mairal (linguagem simples, humor sarcástico, narrativa ora desbocada ora com beleza poética, história com muito sexo e infidelidade conjugal, reflexões inteligentíssimas, enredo curto que gira em torno de tragicomédias contemporâneas, ótimas cenas, pitadas generosas de suspense, narrativa com pegada de road story, uso de muitos elementos da cultura Pop, forte crítica social e personagens amarguradas pelo peso do casamento e das frustrações cotidianas) com uma trama encantadora (que parece uma comédia romântica, mas não é!) e com desfecho surpreendente (capaz de maravilhar até mesmo os leitores mais exigentes). Convenhamos que é uma combinação para lá de interessante, né?! Este romance/novela conquistou o Prêmio Tigre Juan de 2017, tradicional honraria espanhola que escolhe anualmente a melhor ficção publicada no idioma de Miguel de Cervantes. Além do êxito do ponto de vista da crítica literária, “A Uruguaia” se tornou rapidamente best-seller em vários países de língua espanhola, entre eles Argentina, Uruguai e Espanha. Traduzida no final da última década para vários idiomas, como inglês (“The Woman from Uruguay”) e francês (“L Uruguayenne”), esta obra chegou ao Brasil pela Editora Todavia em julho de 2018. A tradução para o português brasileiro foi realizada brilhantemente por Heloisa Jahn, que conseguiu manter o inusitado estilo de Mairal e a magia da história original. O trabalho da tradutora carioca é tão espetacular que, mesmo se você domine o espanhol, dá para ler sem culpa e sem perda de qualidade a edição em nosso idioma. A história deste livro de Pedro Mairal foi adaptada recentemente para o cinema. Dirigido pela portenha Ana García Blaya, de “Las Buenas Intenciones” (2019), e estrelado por Sebastián Arzeno, de “Aventurera” (2014), e Fiorella Bottaioli, de “Olhos Cinzentos” (Ojos Grises: 2021), “La Uruguaya” (2023) foi rodado no ano passado em Buenos Aires e Montevidéu. O lançamento no circuito comercial de cinema aconteceu em agosto deste ano nas salas dos dois países do Rio da Prata. Ele ainda está em cartaz em algumas exibidoras argentinas e em várias exibidoras uruguaias. Por exemplo, eu o assisti no Multiplex Belgrano no último final de semana e a sessão estava cheia (o público ocupou aproximadamente 80% do espaço). Por isso, não vou me surpreender se os números do longa-metragem forem tão positivos quanto os do livro. Pelo que sei, este filme ainda não chegou ao mercado brasileiro. Porém, se você estiver visitando as capitais hermanas nas próximas semanas (algo extremamente comum em tempos de peso argentino derretendo), coloque na sua programação cultural uma ida aos cines locais para mirar la hermosa película binacional. “La Uruguaya” conquistou os prêmios de melhor direção (Ana García Blaya) no Festival de Cinema de Mar del Plata do ano passado e de melhor atriz (Fiorella Bottaioili) no Festival Internacional de Cine de Barcelona deste ano. O mais curioso do longa-metragem é a maneira como ele foi viabilizado financeiramente (Uranio, veja essa ideia!). A campanha de atração de pequenos investidores foi além do tradicional crowdfunding e conquistou aproximadamente 2 mil pessoas que se dispuseram a aplicar entre US$ 100 e US$ 20 mil na empreitada cinematográfica. Assim, foram levantados em apenas dois meses cerca de US$ 600 mil, o necessário para começar as filmagens sem a injeção de subsídios governamentais e de verbas de patrocínio. Como contrapartida ao investimento realizado (aí está a grande novidade!), os investidores puderam se envolver no desenvolvimento do roteiro e participar da produção. Muitos chegaram a contracenar como coadjuvantes no filme. E ainda vão embolsar o lucro obtido (em cotas proporcionais ao valor investido). Para quem diz que faltam recursos monetários e mão de obra para viabilizar produções audiovisuais de qualidade em mercados onde a indústria do cinema não é tão pujante (qualquer semelhança com nossa realidade não é mera coincidência), a iniciativa corajosa, inovadora e bem-sucedida de argentinos e uruguaios é uma grande inspiração para quem quer ir além do crowdfunding convencional. Aos 53 anos recém-completados na semana passada (por falar nisso, PARABÉNS, Benny!), Pedro Mairal é escritor e músico. Nascido em Buenos Aires, onde sempre viveu, ingressou na faculdade de Medicina, mas logo abandonou o curso. Formado mais tarde em Literatura e apaixonado desde a adolescência por poesia, passou a trabalhar como professor de literatura inglesa na universidade e como coordenador em oficinas poéticas na capital argentina na primeira metade dos anos 1990. Em 1994, publicou seus primeiros versos em um suplemento literário portenho. Sua estreia no mercado editorial aconteceu dois anos depois, aos 35 anos de idade, com “Tigre como los Pájaros” (sem edição em português). Contudo, o sucesso e a fama só apareceram em 1998, quando lançou “Uma Noite com Sabrina Love”, romance/novela vencedor do Prêmio Clarín de Romance daquele ano e que se tornou best-seller na Argentina. Em 2000, essa história foi levada ao cinema. Por mais que as narrativas ficcionais médias sejam seus best-sellers – “Salvatierra” (Todavia) de 2008 teve êxito próximo a “Uma Noite com Sabrina Love” e “Uruguaia” e é outra belíssima novela –, Mairal não abre mão de ter um portfólio eclético. Dos 17 livros que tem publicado, um é ficção de tamanho longo (romance), três são ficções de tamanho mediano (novelas), dois são ficções de tamanho curto (coletâneas de contos), sete são poesias (antologias poéticas, algumas lançadas sob pseudônimos) e quatro são da categoria não ficcional (coletâneas de crônicas e ensaios). Entre os idiomas que suas obras foram traduzidas, podemos listar inglês, francês, italiano, português, alemão, holandês, polonês, turco, sueco e tailandês. Nada mal para alguém que queria ser médico no início da década de 1990 e só não prosseguiu na carreira por falta de tempo para assistir às aulas. O enredo da versão literária de “A Uruguaia” se passa basicamente em um dia de semana. Pelas páginas do livro, acompanhamos a jornada de Lucas Pereyra, o narrador-protagonista de 44 anos, do despertar ao repousar. Ele acreditava que tal data de setembro reservaria, na melhor opção, eventos inesquecíveis e muitíssimo prazerosos. Contudo, ela se transformou quase que em seu 11 de setembro pessoal! Nesse dia, o escritor argentino ia para Montevidéu buscar o adiantamento enviado por duas editoras estrangeiras e deveria regressar com os dólares no bolso para Buenos Aires, onde a esposa e o filho pequeno o esperavam. O que poderia dar errado em uma viagem curta pelo Rio da Prata, hein? O problema de Pereyra é que sua passagem pela capital uruguaia adquire tons épicos e marcantes. São 17 horas de pura tragicomédia que levarão a personagem principal da novela a vivenciar um turbilhão de emoções contraditórias, que terão consequência para o restante de sua vida e do relacionamento familiar. Para entendermos o que se passa com o Dom Quixote argentino e contemporâneo, é preciso explicar que Lucas Pereyra é um escritor que enfrenta sérios problemas financeiros. A vida de autor ficcional não está saindo como ele almejara. Como consequência, ele acumulou muitas dívidas com boa parte da família. Quem está bancando as contas de casa sozinha é a esposa, Catalina. E mesmo assim, a penúria do casal fica evidente com a mensalidade do filho, Maiko, atrasada. E há também um monte de coisa quebrada na residência e que não foi arrumada por falta de grana. A situação econômica caótica deixa Pereyra deprimido. Apesar de certa fama adquirida na literatura, ele não consegue sair do buraco em que se meteu. A presença do filho à sua volta no escritório residencial não o deixa à vontade para escrever. A pressão por querer produzir um novo livro e, simultaneamente, necessitar de dinheiro no curto prazo o angustia bastante. Além disso, o relacionamento com a esposa vai de mal a pior. Os dois não se tocam e raramente conversam. Quando se falam, a falta de dinheiro é o assunto principal, o que provoca brigas. Sexo é artigo raro naquela cama. E como tragédia pouca é bobagem, Pereyra desconfia que Catalina o está traindo. Afinal, enquanto ele vive mergulhado em um inferno astral complicado de sair, ela volta tarde para casa, está de roupas novas, passou a se depilar como antigamente e toma demorados banhos antes de se deitar. É cheiro de traição no ar, pensa o escritor falido e provavelmente chifrudo. A sorte de Lucas Pereyra muda completamente quando ele recebe um duplo pedido de selos editoriais gringos. Uma editora espanhola encomendou um romance inédito e uma editora colombiana quer uma coletânea de crônicas. Para mostrar o interesse nos novos projetos, elas aceitaram pagar um adiantamento ao autor portenho: US$ 15 mil. A bolada é vista como a salvação da família. Com essa quantia, Pereyra paga as dívidas e as contas atrasadas, limpa a barra em casa com a mulher e tem dinheiro para trabalhar tranquilamente nos próximos meses, sem depender da ajuda de ninguém. Para aproveitar ao máximo a remuneração, a estratégia do protagonista é simples. Ele vai de manhã para Montevidéu pelo Buquebus, o ferry que liga Argentina e Uruguai pelo Rio da Prata, e saca a grana em um banco montevideano. No final do dia, retorna para casa com os tais US$ 15 mil no bolso. Assim, pode trocar os dólares recebidos pelo câmbio paralelo (muito mais vantajoso) do que pelo câmbio oficial (obrigatório se tivesse utilizado o sistema bancário argentino para o recebimento). A questão é que Lucas Pereyra tem outros planos para seu passeio por terras uruguaias, em uma espécie de agenda oculta e libidinosa (e não menos clandestina). Além de comparecer ao banco e pegar os tão almejados dólares, ele quer rever Magalí Guerra Zabala longe dos olhos da esposa. Guerra ou Guerrita, como a bonita moça de 28 anos é chamada carinhosamente pelo escritor, conheceu o Sr. Pereyra em um evento literário em Valizas, litoral uruguaio, no ano anterior. O encontro deles fora explosivo, mas não resultara em sexo. A jovem estava acompanhada na época pelo namorado. Mesmo assim, não faltaram tentativas de ela e o autor famoso transarem. O problema é que eles sempre eram atrapalhados na hora H, para grande frustração de ambos. Mesmo com o encontro infelizmente casto no festival literário, Pereyra e Guerra se tornaram amigos depois disso e passaram a se comunicar frequentemente por e-mail e pelas redes sociais. Como cada um vivia em um lado do Rio da Prata, ele em Buenos Aires e ela em Montevidéu, nunca mais se viram pessoalmente. Apesar da distância física, eles dividiam alegrias, confidências, frustrações e momentos corriqueiros do cotidiano pelo computador e pelo celular. Para alguém mergulhado em uma rotina estafante, com vários problemas financeiros, marasmo profissional e crise matrimonial, a beleza e a descontração das mensagens da jovem e bela uruguaia mexeram com a imaginação de Lucas Pereyra. Assim, ele sonhava em fazer daquela viagem ao país vizinho um dia com sexo intenso e inesquecível com a sua amada Guerra. E com a expectativa de acabar logo com a fase de dupla privação (afinal, apanharia a bolada no banco uruguaio e, para completar o dia idílico, iria enfim para a cama com a sexy Magalí), o protagonista da novela acorda cedo, embarca no Buquebus e chega ao Uruguai. É iniciada, assim, a saga tragicômica de um homem que só queria acabar com os longos jejuns (financeiro e sexual) e ter algumas horas felizes. De tão empolgado que está com a aventura pelo outro lado do Rio da Prata, Pereyra já faz vários planos em sua imaginação. Se Guerra quiser, eles podem fugir juntos para Florianópolis. Com o dinheiro do adiantamento dos novos livros, os amantes conseguirão viver bem e tranquilamente no Brasil por vários meses. Em nome do amor pela moça, ele aceita abandonar definitivamente a esposa e o filho. Para viver aquela tempestuosa paixão, tudo é válido. Como já informei, “A Uruguaia” é um livro curtinho. Ele tem apenas 128 páginas, que estão divididas em 11 capítulos. De acordo com os princípios da Teoria Literária, vejo esta obra de Pedro Mairal mais como uma novela (narrativa ficcional de tamanho mediano) do que um romance (narrativa ficcional de tamanho longo). Para se ter uma ideia da velocidade desta leitura, levei entre duas horas e meia e três horas para percorrer seu conteúdo integralmente. Basicamente, fiz duas sessões: uma na manhã do sábado de duas horas; e outra na tarde do mesmo dia de pouco mais de uma hora e meia de leitura. Admito que só parei na metade da publicação porque estava com fome e precisava almoçar. Do contrário, teria lido de uma tacada só. Já que estamos falando de tamanho, a literatura de Mairal é prova cabal de que um escritor de grandes livros não precisa necessariamente produzir livros grandes. Gostaria de deixar essa dica para os jovens autores, que muitas vezes olham apenas para a quantidade de páginas e se esquecem da qualidade das narrativas. Para quem não está habituado aos títulos ficcionais do argentino, seu livro mais extenso é “El Año del Desierto” (sem edição em português) com 320 páginas (portanto, seu único romance). Coincidentemente ou não, essa obra nunca chegou aos pés do sucesso de crítica e de público das novelas. Por exemplo, os best-sellers “Uma Noite com Sabrina Love” e “Salvatierra” têm, respectivamente, 160 e 112 páginas (nas edições brasileiras). E são obras gigantescas! O primeiro elemento mais técnico que me chamou a atenção em “A Uruguaia” foi a linguagem utilizada por Pedro Mairal. Ele recorre na maioria das vezes a palavras simples e a construções frasais diretas. Ou seja, sua preocupação é se aproximar dos leitores e ser o mais claro possível na mensagem. Evita-se, assim, que a narrativa se torne pomposa ou hermética. Isso quer dizer que temos uma novela muito simplória? Não! O mais interessante no estilo de Mairal é que ele mescla passagens desbocadas e corriqueiras a passagens de grande esmero reflexivo-poético e força literária. É muito divertido acompanhar essa mistura do que alguns poderiam chamar de alta literatura com baixa literatura dividindo as mesmas frases, os mesmos parágrafos, as mesmas páginas e os mesmos capítulos. Selecionei alguns exemplos que mostram esse efeito na prática: “Tomei banho, me vesti. Dei em vocês meu beijo de Judas. Um para você, outro para Maiko”. O “beijo de Judas” traz mistério e beleza ao parágrafo aparentemente banal da vidinha comum da personagem principal. “Em algumas regiões do Caribe os casais dão ao filho um nome composto pelos nomes dos pais. Se tivéssemos tido uma filha, ela poderia se chamar Lucalina, por exemplo, e Maiko, Catalucas. Esse o nome do monstro que você e eu formávamos quando nos derramávamos um no outro. Não gosto da ideia de amor. Preciso de um canto privado. Por que você foi olhar meus e-mails?”. Repare na mistura de reflexões acuradas com confidências delicadas de um marido que parece ter o que esconder da esposa. Para completar, seguimos com o texto esteticamente simples e com preocupações rotineiras de um homem igual a muitos por aí. “Amanhã vou ter que ir trabalhar com os olhos desse jeito, puta que pariu, você dizia. Estava cansada, de mim, da minha nuvem tóxica, da minha chuva ácida.” Note que o narrador entende que seu comportamento não era nem um pouco saudável e usa algumas metáforas para se explicar/expressar. A palavra nuvem está ligada à chuva e o termo chuva está intimamente vinculado ao chororô que cai dos olhos de Catalina. Portanto, a construção dessa passagem narrativa está bem costurada quando analisada em detalhes. “Eu acordado de barriga para cima, ouvindo você respirando e escutando a gota que começava a pingar ali pelas duas da manhã e que nunca conseguimos descobrir onde caía, parecia ruído exato da insônia, a gota do inconsciente. O mais irritante é que a gota não era regular, era imprevisível e estava se acumulando em algum ponto, certamente formando uma poça, uma umidade, apodrecendo o gesso, o cimento, enfraquecendo a estrutura”. A gota, nesse caso, representa o enfraquecimento tanto da estrutura da casa quanto da estrutura do casamento, que estavam desabando conjuntamente. Incrível a beleza dessas palavras. Em contraposição à beleza narrativa e à sagacidade reflexiva, também temos em “A Uruguaia” muito humor. Impossível não rir com um narrador sincero e desbocado que fala o que pensa e não tem pudores para colocar os dedos nas feridas pessoais, familiares e sociais. Achei que o humor do livro é ora inteligente, ora escrachado. Há também fortes pinceladas de sarcasmo e de humor negro. Gostei desse mix. Por mais que assistimos apreensivos às tragédias daquele dia insuportável e da vida estafante, não conseguimos parar de rir de Lucas Pereyra. Qual o mal de ele ter um pouco de dinheiro no bolso e conseguir uma transa satisfatória?! Apesar de serem aspectos simples, as duas vontades mundanas da personagem se tornam uma saga insuperável. Hilário! Veja alguns exemplos de passagens bem-humoradas: “Se fosse buscá-los no Uruguai e os trouxesse em dinheiro vivo, poderia trocá-los em Buenos Aires no câmbio negro e ficaria com mais do que o dobro. Valia a pena a viagem, inclusive o risco de que na volta encontrassem os dólares quando eu passasse pela alfândega. Porque eu entraria no país com mais dólares que o permitido. Rio da Prata: nunca o nome foi mais adequado”. “Ainda me lembro do dia em que tivemos que pagar o pedágio com um monte de moedas de cinquenta centavos. Íamos visitar meu irmão em Pilar. A mulher da cabine não acreditava. Contou as moedas, quinze pesos em moedas”. “E é verdade que Mr. Lucas já estava um pouco velho, menos atraente. Ou pelo menos era assim que eu me sentia. Coluna vergada, pegada de magro com barriga pronunciada, alguns cabelos brancos na cabeça e no púbis, e o cacete que quase de um dia para o outro ficou torto, se encurvou de leve para a direita, como se minha bússola tivesse enlouquecido e abandonado o norte para apontar um pouco para o leste, para o Uruguai”. “Esse lado meio cubano que surge no interior do Uruguai, com velhos Chevrolets ou Lanchesters descascados, alguns que ainda andam ou que ficam lá jogados, servindo de galinheiro, até serem descobertos por algum restaurador fanático.” E não temos aqui apenas a linguagem textual e a estética narrativa primorosas. A própria construção do relato também é profundamente verossímil. Afinal, acompanhamos a descrição que Lucas Pereyra, o narrador, faz para a mulher Catalina, a destinatária da mensagem (em uma recordação dos conceitos da Teoria da Comunicação). O livro que temos em mãos é justamente ele falando diretamente com ela. Depois da trágica e inexplicável visita à Montevideu, o escritor ficcional não tem alternativa e precisa abrir o jogo quando chega em casa. Após adquirir coragem, ele coloca no papel tudo o que precisava contar para a antiga companheira. Do ponto de vista da Teoria Literária, não existe justificativa melhor para embasar essa trama. Ela está perfeita! Outro ponto que merece os meus elogios neste post da coluna Livros – Crítica Literária é a ótima ambientação. Pedro Mairal conseguiu retratar muito bem o cenário real (Buenos Aires, Colônia do Sacramento, Cabo Polônio, Valizas e Montevidéu) e o universo psicológico do narrador-protagonista. Quando o assunto é o mundo efetivo, acompanhamos um delicioso road story pelo Buquebus (passeio imperdível) e um rolê turístico pela capital uruguaia (como diriam Thaeme e Thiago em Tcha Tcha Tcha: “Ai que vontade/ Ai que vontade que me dá...”). Além disso, podemos acompanhar as diferenças culturais (e, por que não, algumas rivalidades) das nações platenses e a realidade atual da Argentina (país que enfrenta uma série crise cambial, o que afeta o dia a dia da população). Quando o assunto é o mundo particular da personagem principal, acompanhamos um homem amargurado, depressivo, com frustrações sexuais, carente de afeto, com ciúmes e em dúvida sobre a trajetória profissional. Assim, ele vive à espera de uma salvação quase divina (fuga dos problemas reais). A narração de “A Uruguaia” é precisa e está muito bem estruturada. Temos uma história contada linearmente: Sr. Pereyra acorda, se despede da esposa e do filho em Buenos Aires, pega o Buquebus em Porto Madero, chega em Colônia do Sacramento, viaja de ônibus para Montevidéu, saca o dinheiro no banco, passeia um pouco pela região central da capital uruguaia, se encontra com Magalí Guerra na hora do almoço, blábláblá, blábláblá, blábláblá (o blábláblá é para não dar o spoiler, tá?) e retorna à noite para casa destroçado. No meio dessa grande linearidade narrativa, recebemos nos capítulos iniciais e intermediários os flashbacks em que o narrador apresenta o contexto do enredo. Até aí nada demais. O incrível mesmo é que nos capítulos finais, surpreendentemente, recebemos o flashforward com as consequências daquele dia histórico para Lucas Pereyra. Dessa maneira, a novela continua contemplando exclusivamente a fatídica data de setembro, mas não priva os leitores de saberem o que aconteceu dali para frente. Falando rapidamente desse recurso ficcional, pode parecer que ele é simples ou até mesmo banal. Porém, não é não! O que Pedro Mairal fez é genial e prova a enorme sensibilidade literária que ele possui. São várias as provas que poderia apresentar para sustentar o nível de impacto dessa narrativa. Repare que muito antes de falar de suas infidelidades conjugais, Lucas Pereyra não se cansa em descrever as doloridas suspeitas/traições da esposa. Não há recursos mais crível do que esse: o marido reclamar da companheira enquanto se esquece totalmente dos seus próprios comportamentos equivocados e vacilos. E o que dizer da raiva que ele sente do médico no ônibus em direção à Montevidéu, hein? Só entendemos essa atitude do protagonista quando sabemos que ele desconfia que o Ricardão de Catalina tem essa mesmíssima profissão. Juro que poderia passar um dia inteiro comentando as impressões positivas que tive dessa novela. A narrativa de Pedro Mairal/Lucas Pereyra é ora rápida, ora lenta. É às vezes reflexiva, às vezes descritiva. Ela mergulha na realidade objetiva da personagem principal, mas não se esquece de nadar na profundidade de sua psique e na sua imaginação. A verossimilhança de “A Uruguaia” é tamanha que acreditamos até que essa história seja real. Duvido que os leitores não pensem: “Mas será que isso aconteceu mesmo com o Mairal?!”. Quando a pessoa que tem as páginas do livro em mãos faz esse tipo de questionamento, é porque a obra ficcional cumpriu muito bem um de seus papéis artísticos: aproximar realidade à inventividade literária. Não posso me esquecer de falar da intertextualidade literária e musical, o que confere ainda mais charme ao texto de “A Uruguaia” (e corrobora com a verossimilhança de uma história real de Pedro Mairal, que tem um pé nos livros e outro pé nas canções). Ao longo dos capítulos, surgem vários escritores argentinos e uruguaios, além de um ou outro poeta europeu. Da velha guarda platina, posso citar Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti. Da nova guarda da literatura gaúcha, aparecem Gustavo Espinosa, Norberto Vega, Marcelo “China” Luján e Enzo Arrendo. O curioso é que muitos dos colegas atuais de Mairal surgem no livro como personagens. Hilário! Dos poetas europeus, lembro da menção ao espanhol Jorge Manrique e ao francês Arthur Rimbaud. Dos músicos citados, confesso só conhecer um pouco Alfredo Zitarrosa, uruguaio que cantava os amargos versos: “Si te vas/ Te irás solo una vez/ Para mí habrás muerto/ Yo te pido/ Que me lo hagas saber/ Queiro estar despierto”. Para terminar a parte da coluna Livros – Crítica Literária deste post do Bonas Histórias (lembre-se que prometi falar do filme e ainda não derrubei nenhuma palavra a esse respeito), me sinto na obrigação de tratar de mais três assuntos literários: a força narrativa do capítulo inicial e do capítulo final; a característica redonda da personagem principal; e as ótimas cenas e cenários que a novela de Mairal traz. Mesmo sabendo que esta obra é excelente de cabo a rabo, ainda sim gostaria de destacar o primoroso primeiro capítulo e o impecável desfecho. O início de “A Uruguaia” é recheado de suspense que torna a leitura do restante do livro obrigatória para quem curte uma ótima ficção. Por mais que Lucas Pereyra se mostre disposto a contar tudo para a esposa, ainda sim é nítido que ele não falou tudo para ela (pelo menos não nesse comecinho) e está escondendo o jogo (pois deve ter aprontado muuuuuuuuito). E o desenlace da novela é extremamente surpreendente, além de ser aberto, um afrodisíaco para as mentes mais sagazes. Falo isso pois tenho a mania de formular vários finais para as histórias que leio. E aquela que Pedro Mairal desenvolveu aqui não passou nem perto da minha imaginação. Achei-o simplesmente fantástico! Fiquei com uma determinada interpretação (para mim, ela é a culpada), mas sei que outros leitores podem ter suas próprias e diferentes visões (viva os finais abertos!!!). Além disso, temos um narrador-protagonista falível, humano e contraditório. Adorei essa característica. Esqueça esse lance de criar figuras perfeitas e valorosas, erro comum no trabalho de muitos escritores ficcionais. Lucas Pereyra tem vários defeitos, comete incontáveis erros e está longe, muito longe de ser um herói clássico. Mesmo ciente de seus defeitos (que não são poucos), torcemos por ele pois conhecemos suas qualidades (que estão também presentes na história). Como é bom estarmos diante de uma trama com tantas personagens redondas, né? Acredito que boa parte da graça dessa história esteja em reunir tantos tipos contraditórios e nem um pouco planos. Por fim, tenho que falar sobre as ótimas cenas e os belíssimos cenários de “A Uruguaia”. Trago essa questão porque alguns escritores que assessoro (além de manter o Bonas Histórias, trabalho como editor de livros ficcionais) costumam reclamar: “Mas, Ricardo, se eu investir na descrição das cenas e nos detalhes dos cenários, a obra vai ficar gigantesca e o texto chato!”. Será mesmo, caro autor brasileiro?! Para quem concorda com a chiadeira geral do sindicato dos ficcionistas iniciantes, aconselho a ler esta novela e as outras duas de Mairal: “Uma Noite com Sabrina Love” e “Salvatierra”. Elas provam que é possível sim ter uma narrativa dinâmica, gostosa e enxuta com muitas cenas memoráveis e excelentes cenários. Coisa que um ótimo escritor ficcional faz com naturalidade e que devemos emular! Para ninguém falar que não coloquei os pés hoje na coluna Cinema (promessa é dívida, diria Dona Júlia), tratemos um pouco da versão audiovisual de “A Uruguaia”. Dirigido pela competentíssima Ana García Blaya, “La Uruguaya” é um filme interessante, mas admito que não gostei do resultado geral. Seu principal defeito está em não aproveitar as principais qualidades do livro de Pedro Mairal (que não participou, acredite se quiser, da confecção do roteiro). Já imaginei que não teríamos na telona a melancolia, as reflexões inteligentes e engraçadas do protagonista nem a intensidade do conflito humano de um casal que permanece vivendo junto mesmo sem motivo. Até aí tudo bem. Porém, queria ver a narração espirituosa e desbocada de Lucas Pereyra, as reviravoltas da história e, principalmente, o desfecho inusitado. E o que temos de fato: várias alterações nesses aspectos. Pode isso, Arnaldo? Pelo visto, em “La Uruguaya” pôde. Para incompreensão de quem leu o livro, o filme é narrado pela esposa de Pereyra. Acredite: o relato vem na voz de Catalina. Apesar de trazer novos insights à história, perdemos um mundo de aspectos que tornaram a trama de Mairal tão peculiar e genial. O desfecho também é sutilmente diferente. Pelo menos tive outra interpretação do desenlace do longa-metragem, totalmente oposta a que tive no último capítulo da novela literária. Nesse sentido, até foi grata a surpresa. Não imaginei que poderia ter uma visão diferente do fim da mesma história. Outra questão que percebi é que o filme é um pouco mais parado do que o livro. Se não senti qualquer cansaço ou passagem desnecessária na versão literária (sempre está acontecendo um monte de coisa em suas páginas), no longa há momentos de tédio e interrupção dramática (para desprazer da plateia). Há outras diferenças entre livro e longa-metragem. O encontro de Pereyra e Guerra acontece na metade da novela, mas no primeiro quarto da sessão cinematográfica. Temos na telona um menor grau de drama familiar e conjugal. O início também é distinto. A película começa com a última cena da obra impressa. Por outro lado, temos o mesmo humor e a mesma sequência de acontecimentos tragicômicos com a personagem principal. Também gostei de algumas pequenas alterações no roteiro que deixaram a trama mais dinâmica para a nova plataforma. O que não aceitei foi terem mudado a essência da história (novo narrador e desfecho distinto!!!). Os pontos positivos de “La Uruguaya” são a ótima interpretação do casal de protagonistas (Sebastián Arzeno e Fiorella Bottaioli têm boa química e convencem na materialização de Lucas Pereyra e Magalí Guerra), a trilha sonora é maravilhosa (algumas canções foram compostas pelo próprio Pedro Mairal, como a deliciosa “La Vidita”, tema central do filme) e a pegada de road story que o livro já trazia (posso dizer que visitei Montevidéu por um dia). A duração mais enxuta da produção (apenas 70 minutos) também vi como algo pertinente (mais do que isso poderia tornar a experiência no cinema cansativa). Em resumo, o que senti saindo da sessão e escutando os comentários do povo ao meu redor (Paulo, fui sozinho ao cinema em Belgrano no sábado porque Paloma me deu um pé na bunda e preferiu sair com a sua Rúbia por Palermo) é que quem não conhecia o livro gostou do filme. Já quem o tinha lido saiu da sala aparentemente frustrado. Foi o meu caso (e do casal de senhores ao meu lado que se olhava indignado com o começo e o final distintos do longa). Porém, uma coisa não podemos contestar. Trata-se de uma produção muito bem realizada. Principalmente se considerarmos como “La Uruguaya” foi viabilizado e materializado. Ou você acha que deve ter sido tranquilo e rápido o trampo para contentar quase duas mil pessoas palpitando no roteiro e nas filmagens, hein? Acho que Ana García Blaya é uma heroína do cinema independente sul-americano. Acho que por hoje é só, pessoal. Posto à mesa o cardápio multicultural argentino, só me resta agora consumir as empanadas servidas de entrada, o assado de tira com papas fritas de refeição principal e o alfajor de doce de leite de sobremesa. Mas isso eu posso cuidar sozinho. Até a próxima! Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais análises literárias, clique em Livros – Crítica Literária. 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  • Premiações: Nobel de Literatura de 2023 - Jon Fosse

    Em um mês com tantas novidades literárias, o escritor, dramaturgo e poeta norueguês conquistou a principal honraria da literatura mundial com dramas profundos, portfólio versátil e estilo inovador. Outubro de 2023 tem sido movimentado na área literária. É tanta novidade no Brasil e no mundo em tão poucos dias que não sei por onde começar esse post do Bonas Histórias. Antes de entrarmos no assunto principal de hoje cujo conteúdo integra a coluna Premiações & Celebrações, já alerto que vou dar uma pincelada em notícias gerais do universo da literatura contemporânea. Só depois vou me sentir pronto para falar com mais propriedade do novo vencedor da única área artística do Prêmio Nobel. Afinal, nem só de ciência e paz vive a humanidade, né? Um pouco de literatura e cultura não faz mal a ninguém! No comecinho do mês, Ailton Krenak foi eleito pela Academia Brasileira de Letras. O ambientalista e filósofo mineiro de 70 anos é o primeiro indígena a se tornar imortal. Autor de best-sellers como “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (Companhia das Letras) e “O Amanhã Não Está à Venda” (Companhia das Letras), Krenak tem obras traduzidas em 13 países. Ele assumirá a cadeira de número 5 da Academia, que já foi ocupada por Raimundo Correia, Oswaldo Cruz, Aloísio de Castro, Cândido Mota Filho, Rachel de Queiroz e José Murilo de Carvalho. Na semana seguinte, conhecemos o vencedor do Prêmio Camões de Literatura de 2023. A principal honraria literária da língua portuguesa foi entregue a João Barrento, ensaísta, crítico literário, cronista e tradutor lusitano. Mais conhecido em seu país, o escritor de 83 anos traduziu clássicos da literatura alemã para o nosso idioma. Com a premiação, Barrento se junta aos moçambicanos Paulina Chiziane e Mia Couto, aos brasileiros Chico Buarque, Raduan Nassar, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Jorge Amado e aos conterrâneos José Saramago, António Lobo Nunes e Agustina Bessa-Luís. Porém, nem tudo são flores nesse início de Primavera. Enquanto uns festejam o ápice da carreira, outro se despedem do público e deixam os palcos da literatura. Na última sexta-feira, 13 de outubro, faleceu Louise Glück, poetisa norte-americana de 80 anos que conquistara o Prêmio Nobel de Literatura de 2020. Considerada uma das principais poetas contemporâneas da língua inglesa, Glück também amedalhara um Pulitzer e um National Book Award. O público brasileiro tem à disposição a tradução de dois livros da norte-americana: “Receitas de Inverno da Comunidade” (Companhia das Letras) e “Poemas 2006-2014” (Companhia das Letras). Olhando para o portfólio de Louise Glück, o público português tem mais opções de obras nas estantes de suas livrarias. Por outro lado, os leitores lusófonos do Kindle possuem a tradução para o português do discurso da poetisa na cerimônia de entrega do Nobel: “Discurso do Prêmio Nobel 2020” (Companhia das Letras). Li há cerca de um ou dois anos o ebook e o achei emocionante, além de ser uma aula de literatura. As causas da morte de Glücknão foram reveladas. Entre alegrias e tristezas, a principal notícia do nosso mundinho literário em outubro não se refere, com todo o respeito que o trio de autores merece, a Ailton Krenak, João Barrento ou Louise Glück. Desde que a Academia Sueca de Letras anunciou, em 5 de outubro, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2023, os olhos do público, da crítica, da imprensa e dos profissionais da área se voltaram para o feliz laureado. Viu como eu ia chegar ao assunto de hoje do Bonas Histórias! Era só esperar um pouco. Demoro, mas eu chego lá. O premiado pela Academia Sueca foi Jon Fosse, escritor, dramaturgo e poeta norueguês de 64 anos. Diferentemente do que aconteceu nos últimos anos, o vencedor do Nobel literário de 2023 não foi uma surpresa que abalou os alicerces do mercado editorial. Ele era o principal favorito, considerado por alguns como a opção previsível. Como consequência, não tivemos polêmicas, reclamações e questionamentos dessa vez. Ufa! Fosse é o quarto norueguês a conquistar o principal prêmio da literatura mundial, mas o primeiro nos últimos 95 anos. E os botafoguenses achando que o tabu de quase três décadas sem título no Campeonato Brasileiro é muita coisa, hein? Nascido em setembro de 1959 em Haugesund, cidade litorânea no Noroeste da Noruega, Jon Fosse é um dos dramaturgos mais encenados no mundo e tem obras literárias de vários gêneros. No teatro, são aproximadamente 40 peças, algumas tendo alcançado o sucesso internacional. Na literatura, foram produzidos mais de 50 livros entre coletâneas de contos, antologias poéticas, coleções de ensaios, romances, novelas e literatura infantil. Suas obras já foram traduzidas para quase 50 idiomas. Como dramaturgo, Fosse é comparado muitas vezes ao conterrâneo Henrik Ibsen, de “Casa de Bonecas” (Veredas) e “Peer Gynt”. Na esfera literária, as correlações habituais são com o trabalho de Samuel Beckett, de “Primeiro Amor” (Nova Fronteira), e Franz Kafka, de “A Metamorfose” (Companhia das Letras). As principais marcas do trabalho artístico de Jon Fosse são o estilo minimalista, a prosa inovadora, o uso de uma versão do idioma norueguês que é falada por menos de 10% da população, a linguagem simples, as temáticas densas, a pegada mística das tramas, a narrativa melódica e o viés Existencialista das histórias. Com textos reflexivos, muitos em tom de monólogo, e ritmo lento, o autor mergulha nos dramas humanos como morte, sofrimento, abandono, solidão, melancolia, amargura, insegurança, obsessão sexual, sonho e loucura. Curiosamente, ele é chamado de “escritor do silêncio” por expressar aquilo que é impossível de ser dito. Em outras palavras, Fosse é daqueles escritores que deixam a crítica literária maravilhada, mas não conquista uma legião de leitores mundo à fora. Confesso que não li nenhum dos seus títulos (algo que pretendo mudar em breve e que vou compartilhar com vocês na coluna Livros – Crítica Literária). Com vergonha, digo que o autor da literatura norueguesa com mais publicações em minha estante é Jostein Gaarder, autor de “O Mundo de Sofia” (Companhia das Letras) e “Através do Espelho” (Companhia das Letras). Só não conte isso para ninguém, por favor. Tenho um nome a zelar (ou não). No que se refere à popularidade de Jon Fosse, as peças teatrais são o produto do seu portfólio artístico mais consumido pelo grande público. Seus espetáculos cênicos são aclamados pelas plateias mais exigentes e vistos por multidões tanto nacional quanto internacionalmente. Não à toa, ele é um dos dramaturgos vivos com mais encenações na Europa. Nada mal para alguém que tem a fama de possuir textos muitas vezes herméticos, filosóficos e densos até mesmo para os padrões escandinavos. De certa forma, o teatro foi o que viabilizou a carreira do norueguês na escrita criativa. Formado em Literatura, Jon Fosse sempre foi escritor/dramaturgo/poeta e se dedicou em período integral a tais ofícios. Para se sustentar financeiramente, dependia da comercialização das peças e dos livros. Exatamente por isso, produziu uma avalanche de trabalhos que totalizam quase uma centena de obras teatrais e literárias. Com o maior sucesso nos palcos, o teatro acabou viabilizando, nos primeiros anos, a carreira literária de Fosse, que demorou um pouco mais para emplacar e se tornar rentável, apesar das duas áreas sempre caminharem paralelamente. Entre suas obras mais marcantes, podemos citar: “Namnet”, peça de 1995, “Melancholia” e “Melancholia II”, romances de 1995 e 1996, “Natta Syng Sine Songar”, peça de 1997, “Draum om Hausten”, peça de 1999, “Draum om Hausten”, outra peça de 1999, “Morgon og Kveld”, romance de 2000, “Svevn”, peça de 2005, “Eg er Vinden”, peça de 2007, e, claro, a celebradíssima “Septologien”, saga literária dividida em três livros e lançada entre 2019 e 2021. No Brasil, temos à disposição dois livros de Jon Fosse traduzidos para o português: o romance “É a Ales” (Companhia das Letras) e a saga “Melancolia” (Tordesilhas), que reúne em uma só publicação os dois volumes da série “Melancholia”. Em breve, teremos a terceira obra. Mostrando-se com uma linha editorial impecável e um timing impressionante (lembremos da publicação dos títulos de Annie Ernaux no ano passado, quase que em conjunto com a premiação da escritora francesa pela Academia Sueca), a Editora Fósforo tem programado o lançamento no próximo mês da novela “Brancura” em nosso idioma. Para 2025, a editora paulistana promete a edição dos três volumes de “Septologia” em português. Se não conhecemos previamente os principais trabalhos dos vencedores do Prêmio Nobel de Literatura (algo que aprendi a não me martirizar), ao menos podemos apreciá-los depois da premiação. Acho que essa é uma das consequências mais legais das principais honrarias literárias para os leitores. Com o aumento natural do interesse do público consumidor, as editoras passam a traduzir e a publicar as obras dos grandes escritores contemporâneos. A partir dessa visibilidade, o mercado editorial joga luz na arte de figuras que jamais poderiam sair do primeiro plano do cenário literário. Foi depois do destaque conferido pelo Nobel de Literatura que passei a ler muitos dos autores laureados. Posso citar J. M. Coetzee, de “Desonra” (Companhia das Letras), Olga Tokarczuk, de “Correntes” (Todavia), Kazuo Ishiguro, de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), Alice Muro, de “O Amor de Uma Boa Mulher” (Companhia das Letras), Orhan Pamuk, de “Meu Nome é Vermelho” (Companhia das Letras), Hertha Müller, de “O Homem é um Grande Faisão no Mundo” (Companhia das Letras), e José Saramago, de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras). Muitos desses escritores e obras foram analisados nas colunas Livros – Crítica Literária e Desafio Literário. Por isso, eu pergunto: quando é que vamos ler Jon Fosse, hein?! Acredito que valha a pena mergulharmos nas obras de um escritor tão versátil, prolífico, inovador e profundo. Então fica combinada a brincadeira: quem ler algo primeiro do norueguês comenta aqui. Que tal? Eu tô dentro! Que tal este post e o conteúdo do Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts desta coluna, clique em Premiações e Celebrações. E aproveite para acompanhar o Bonas Histórias nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Recomendações: Melhores posts do Bonas Histórias - Parte II

    Na segunda publicação da Série Melhores, listamos as análises mais interessantes de seis colunas. Confira essa rápida retrospectiva do conteúdo do blog. Em julho, quando a palavra Inverno era sinônimo de frio e a cidade de São Paulo ainda não tinha temperaturas equatoriais, fui desafiado a listar os posts mais interessantes do Bonas Histórias. A pauta foi lançada meio que despretensiosamente pela Carla, minha melhor amiga desde que se mostrou profunda conhecedora do conteúdo do blog (empatada no ranking da amizade intelectualizada com a Vanessa, o Paulo e a Iris, outros leitores antigos e contumazes dessas páginas). Foi de Carlinha (nunca a chame de Carlota, por favor!), não sei se ainda sóbria ou afetada pelo alto teor etílico dos barzinhos da Vila Madalena, a brilhante ideia para a nova coletânea da coluna Recomendações. Ela também escolheu o título: Série Melhores do Bonas Histórias. Simples e direto, né? Eu gostei! Depois de engolirmos o bom-senso e sumirmos definitivamente com a modéstia, selecionamos as melhores publicações de cada uma das 19 colunas do Bonas Histórias. Para o texto não ficar gigantesco (como se isso fosse uma preocupação nossa!), dividimos esse conteúdo em três partes. No mês retrasado (quando casaco e blusa eram artigos indispensáveis na capital paulista), apresentamos a Parte I dos melhores posts do blog. Naquela oportunidade, listamos apenas as publicações mais interessantes das seções literárias: Livros – Crítica Literária, Desafio Literário, Teoria Literária, Talk Show Literário, Miliádios Literários, Contos & Crônicas e Mercado Literário. Agora vamos deixar a literatura de lado e vamos embarcar em outras áreas artístico-culturais. Na parte II da Série Melhores, eu e Carlinha escolhemos (dessa vez sem tanta discussão e quase sem roupa) os artigos mais impactantes e com melhores feedbacks de outras seis colunas do blog: Cinema, Músicas, Teatro, Dança, Exposições e Gastronomia. Feita essa rápida explicação do novo conteúdo da coluna Recomendações para quem acabou de aportar por aqui, vamos aos finalmentes. Veja o que você acha das nossas escolhas e depois comente se concorda ou não com elas. Aí vai a nova leva de melhores posts do Bonas Histórias, senhores e senhoras: CINEMA A coluna: A seção Cinema é dedicada à análise das obras cinematográficas. Basicamente, cada post aborda em profundidade um filme. Em nossa galeria de críticas audiovisuais, há títulos recentes que estão ou estiveram em cartaz nos cinemas e títulos clássicos que marcaram época. A proposta da coluna é a diversidade. Sem preconceitos de gênero e de nacionalidade, debatemos a estética, o enredo e o impacto dos longas-metragens. Melhores posts: Como foram discutidos aproximadamente 450 filmes em 8 anos e meio de existência do blog, é complicado apontar apenas uma análise marcante. Assim, prefiro apontar três posts que acho que conseguiram agradar aos nossos leitores. Na minha lista tripla, temos: “Trinity é o Meu Nome” (Lo Chiamavano Trinità: 1970), clássico do Western Spaghetti de Enzo Barboni que projetou a dupla Terence Hill e Bud Spencer; “Branca como a Neve” (Blanche Comme Neige: 2019), drama de Anne Fontaine com Lou de Laâge e Isabelle Huppert, duas divas do cinema francês; e “Os Banshees de Inisherin”, a comédia dramática de Martin McDonagh estrelada por Colin Farrell e Brendan Gleeson. MÚSICAS A coluna: As páginas de Músicas apresentam canções, álbuns, estilos, compositores e cantores que entraram para a memória coletiva e influenciaram a cultura popular no Brasil e no mundo. Sempre atrás de boas histórias, debatemos nos posts desta seção os versos das músicas, as inovações melódicas, as trajetórias pessoais e profissionais dos artistas, a importância de álbuns e o apogeu e a decadências de gêneros musicais. Melhor post: Pelo feedback recebido dos leitores, a publicação vencedora desta coluna foi “Detalhes”, canção romântica de Roberto Carlos que marcou a transição de sua carreira musical. O mais interessante desta publicação é que o público achou meu texto literário e não poupou elogios. Confesso que fiquei muito feliz com a repercussão tão positiva na parte de comentários. Valeu, pessoal! Pelo mesmo critério (avalanche de mensagens satisfatórias dos leitores), a medalha de prata foi para “Ouro de Tolo”, rock clássico de Raul Seixas, e a medalha de bronze foi para “Se Eu Quiser Falar com Deus”, obra-prima de Gilberto Gil que suscita até hoje muitas polêmicas (como provado pelos leitores do Bonas Histórias). TEATRO A coluna: O conteúdo de Teatro é, obviamente, voltado para a crítica de peças teatrais. Nas páginas desta seção, investigamos o que as obras cênicas conferidas trouxeram de mais cativante, original e surpreendente. A proposta é dar um caráter analítico à experiência teatral. Em nosso radar avaliativo estão os enredos, as interpretações, as montagens, os figurinos, as trilhas sonoras e as cenografias dos espetáculos. Melhor post: Pela riqueza da publicação, a melhor análise teatral é de “Sex Shop Café”, comédia musical de Gilberto Amendola que foi produzida pela Encena Companhia de Teatro. De tão completo, esse texto está servindo de base para as demais críticas da coluna Teatro e para as demais colunas do Bonas Histórias. DANÇA A coluna: Os posts de Dança são produzidos por Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão, e trazem a história, as curiosidades e os detalhes da arte dançante. O foco dos textos de Marcela está no debate sobre as diferenças dos gêneros de dança, na análise da trajetória dos dançarinos mais famosos e nas dicas de como dançar. Melhores posts: Acredite se quiser, mas não fui eu nem foi a Carlinha quem decidiu a melhor publicação desta coluna. Como não chegamos a um consenso, preferimos passar a responsabilidade diretamente para o Google Analytics. E ele mostrou que os dois posts mais acessados do blog são: “Dança de Salão – Origem, características e estilos” e “Ballet Clássico – História, curiosidades e características”. É isso mesmo o que você leu. Essa dupla de publicações não é apenas a mais vista da coluna Dança como é a mais vista no Bonas Histórias de forma geral. O alto índice de visitantes é refletido na quantidade absurda de comentários positivos que os dois posts têm. Como o povo está curtindo pra valer o conteúdo deles, quem somos nós para dizer o contrário, né? EXPOSIÇÕES A coluna: Exposições é a parte do Bonas Histórias que retrata as novidades do mundo das mostras artísticas. Portanto, essa seção mergulha nas análises das principais apresentações de obras pictóricas, escultóricas e fotográficas que estiveram em cartaz nos museus e nos espaços culturais do Brasil e no mundo. Melhores posts: Tivemos um empate no primeiro lugar dessa categoria. O prêmio da coluna Exposições foi dividido (figurativamente falando!) entre “Amazônia”, espetacular mostra fotográfica de Sebastião Salgado que foi realizada no Sesc Pompeia no primeiro semestre de 2022, e “Monet à Beira d´Água”, imersão interativa no trabalho de Claude Monet apresentada em São Paulo no Parque Villa-Lobos no final de 2022 e início de 2023. Esses posts foram os vencedores porque conseguiram transmitir de maneira completa e intensa a experiência das exposições aos leitores do blog. GASTRONOMIA A coluna: Gastronomia é o pedacinho do blog dedicado aos comes e bebes. Afinal, nem só de literatura, cultura e entretenimento vive o ser humano, né? Como diriam os Titãs: “Você tem sede de quê?/ Você tem fome de quê?/ A gente não quer só comida/ A gente quer comida, diversão e arte/ A gente não quer só comida/ A gente quer saída para qualquer parte”. Para provar (agora literalmente falando!) que concordamos com esses versos, fazemos análises de restaurantes, bares e comidas de rua que achamos interessantes. Melhor post: No alto do pódio desta coluna está a publicação sobre “Tiro Liro”, bar de culinária portuguesa no bairro da Pompeia em São Paulo que lembra muito as tascas lisboetas. Logo em seguida, completando a lista de primeiros colocados da crítica gastronômica do Bonas Histórias, aparecem “Pastelaria Malta”, lanchonete simples e deliciosa do bairro de Pirituba, “Kebab Paris”, kebaberia incrível no bairro de Perdizes, e “Shawarma Anwar”, barzinho especializado em culinária árabe no bairro do Sumaré. Todos são estabelecimentos paulistanos. Em novembro, trarei a terceira e última parte da Série Melhores do Bonas Histórias. No próximo post desta coletânea saudosista, apresentarei as publicações mais marcantes das colunas Passeios, TV, Rádio e Internet, Cursos e Eventos, Premiações e Celebrações, Melhores Músicas Ruins e Recomendações. Não perca nossas novidades e até a próxima! Gostou deste post do Bonas Histórias? Deixe seu comentário aqui. Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos anos, clique em Recomendações. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: Lia Ribeiro

    [No canto esquerdo do palco, a banda toca Se Quiser Fumar Eu Fumo Se Quiser Beber Eu Bebo. Quando o apresentador do Talk Show Literário, que está atrás de sua mesa no centro do auditório, faz com a mão direita o gesto enfático de uma tesoura em funcionamento, os músicos interrompem imediatamente a canção]. Darico Nobar: Boa noite, fãs da boa literatura! É muito prazeroso ter mais uma vez a companhia de vocês nesta nova temporada do nosso programa. Sim, o Talk Show Literário já entra em seu quarto ano. Incrível, né? E hoje, vamos receber a visita de Lia Ribeiro, a personagem de Pornopopéia, um dos romances brasileiros mais emblemáticos do século XXI. [Ele se levanta para receber sua convidada. A plateia aplaude a entrada da moça]. Seja bem-vinda, Lia. [O cumprimento é um beijo rápido no rosto]. Tudo bem? Lia Ribeiro: Brigada. Vô levando, né? [Acompanhando o apresentador, ela se senta ao sofá]. Enquanto támos vivos, o negócio é ir empurrando com a barriga, não é mesmo? Darico Nobar: Gostaria de começar nosso bate-papo perguntando pelo Zeca. Por onde ele anda? Lia Ribeiro: E eu é que sei por onde anda aquele merda?! Darico Nobar: Mas você não é a esposa dele? Lia Ribeiro: Desde quando o Zé Carlos dá satisfação pra a mulher e o filho? Aquele folgado deve tá agora na mesa de um boteco com um monte de bêbado cheirando pó e falando: ô vida escrota do caralho; tô fudido, mermão; e meu negócio não é publicidade, é cinema. Ou deve tá fudendo com uma vagabunda que não vale nadinhadenada. Aquele lá não tem jeito, Darico. É caso perdido. Darico Nobar: Ufa, que alívio! [Coloca as palmas das mãos no peito]. Juro que pensei que o Zeca tivesse morrido. Fico feliz de saber que ele está bem. Lia Ribeiro: Puta que pariu! Desde quando um sujeito cheio de dívidas, alcóolatra, que passa a noite entupindo o cu de drogas, viciado em sexo, que tem como profissão a vagabundagem explícita e que é procurado pela polícia por homicídio, tráfico de drogas e estupro de menor pode tá bem? Hein? Me diga. Darico Nobar: Ao menos ele está vivo. É o que eu quis dizer. Lia Ribeiro: Sei lá, cacete! Acho que tá. Darico Nobar: Como assim você acha? Você não tem certeza?! Lia Ribeiro: E alguém tem certeza de alguma coisa da vida ordinária que o Zé Carlos leva? Darico Nobar: Você falou recentemente com Zeca, sabe que ele não morreu, né? Lia Ribeiro: Do jeito que aquele idiota cheira, qualquer hora morre mesmo. Darico Nobar: Quando foi a última vez que vocês se falaram? Lia Ribeiro: Deve fazer uns onze ou doze anos. Não me lembro... Darico Nobar: Ah?! Ele não fala com você há tanto tempo assim?! Lia Ribeiro: Não só não fala como também não escreve nem aparece. Pelo visto, cê não conhece ele porra nenhuma, né? Quando aquele fiadaputa some, ele esquece de mim, do Pedro, da produtora, das contas de casa e da putaquepariu. Darico Nobar: Você não deixou recado, não tentou falar com ele? Lia Ribeiro: E adianta o catso?! Ele nunca retorna minhas ligações e não deve ver imeio há uma década. Darico Nobar: Se ele está sumido, por que, então, você acha que ele está vivo? Lia Ribeiro: Se tivesse morrido, teria aparecido rapidim. Só assim mesmo pra aquele cachorro vadio aparecer. Como não dá as caras, deve tá vivinho da silva por aí. Se não estiver rodando um filme maluco na Índia nem estiver em férias em Ubatuba, estará em mais um bacanal interminável com as putas do centro de São Paulo. Darico Nobar: Seu ponto de vista até faz sentido. Não seria surpresa mesmo. Lia Ribeiro: Hã-hã. O que não faz sentido é o tipo de vida que o Zé Carlos leva. Darico Nobar: Ele sempre foi assim? Lia Ribeiro: Quando a gente se conheceu, ele era mais ou menos normal. Até trabalhar o Zeca trabalhava. Os vídeos pornôs que produzia naquela época pela Khmer devem ter mexido com algum parafuso na cachola dele. [Depois de alguns segundos em silêncio, continua]. O maior problema do meu marido é que ele sempre foi muito influenciável, muito sociável. Os amigos dele são péssimas influências pra qualquer um. O Ingo é o pior. Quando entra numa bebedeira ou numa suruba regada à ácido e à cocaína, quem é a primeira pessoa que ele chama? O Zeca. E o bobão vai. Mas tem também o Nissim, o Miro, o Zuba, o Alê, o Naldo. Essa turminha é barra-pesada! Darico Nobar: Naldo? Esse eu não conheço. Lia Ribeiro: Claro que cê conhece. Foi ele quem começou essa viadice toda. Darico Nobar: O Zeca é realmente muito sociável. Contudo, não me parece uma pessoa lá muito influenciável. Lia Ribeiro: Cê acha que eu tô exagerando é o cacete, mas ele é sim vítima dos trogloditas que só sabem beber, cheirar e fuder. O único que não consegue aconselhar o Zé Carlos é o pobre do Leco. Se meu irmão conseguisse transmitir 10% da sua seriedade ao maldito, todos os problemas do meu casamento tariam resolvidos. Darico Nobar: Se você pudesse alterar uma coisa, só uma, no comportamento do Zeca, o que seria? Lia Ribeiro: Mudaria tudo. Aquele maluco precisava nascer de novo pra ficar minimamente direito. Darico Nobar: Entendo, mas se você pudesse começar com algo. O que seria? Lia Ribeiro: Acho que a alimentação. Onde já se viu alguém comer bacon e ovos todo santo dia! O colesterol dele deve tá lá nas alturas. Juro que não entendo a biologia humana. Era pra o Zé Carlos já ter tido um piripaque há caras, não é possível. E a culpa disso é da Terezinha, aquela sonsa de araque. Darico Nobar: Da Terezoca? Lia Ribeiro: Ela tem uma quedinha, ou seria quedona, pelo Zé Carlos, não é possível. Ela faz tudo pra agradar o lesado. Aí já viu: tranqueira gordurosa no almoço e na janta todo dia. E deve ser a Terezinha quem compra a comida com o dinheiro dela. Darico Nobar: Vamos falar agora sobre o Pedrinho. Quantos anos ele tem? Lia Ribeiro: Completou dezesseis no mês passado. Darico Nobar: Imagino que o garoto deva sentir muita a falta do pai, né? Lia Ribeiro: O Pedro se acostumou a viver sem o pai. Quem sempre desempenhou esse papel foi o Leco. Graças a Deus, meu filho é hoje super independente, não fica de mimimi esperando pelo pai aparecer. Sai, namora e às vezes passa o final de semana inteiro longe de casa. Pelo jeito que chega na segunda-feira, suspeito que já começou a beber. Que adolescente hoje que não se embriaga na balada? O menino só fica triste quando falam merdas do pai. O Zé Carlos tem lá seus defeitos, reconheço, mas tem bom coração. Nem eu que sou calma aguento ouvir as maldades que contam do meu marido na rua. Darico Nobar: O que andam falando dele, Lia? Lia Ribeiro: Cê sabe como é a boca do povo, Darico. Eles não perdoam. Na maioria das vezes, eles até falam a verdade. Sei que meu marido não é anjinho nem aqui nem na China. Mas, por favor, não vá na orelha do Pedro falar o que o pai aprontou. Aí é maldade. Darico Nobar: Se o Zeca estiver nos assistindo agora, o que você gostaria de falar para ele? Lia Ribeiro: Eu gostaria de dizer... [Olha para a lente da câmera e solta um suspiro barulhento. Seu rosto é enquadrado em um zoom pela câmera 2]. José Carlos, cê não quer voltar pra casa, tudo bem. Pelo menos envie o dinheiro da porra da escola do Pedro e do aluguel! Se vira, meu. Vende pó, dá o rabo, vende o Monza. O que eu quero é grana. Não sou mulher de malandro pra aguentar a barra sozinha. Darico Nobar: Pessoal, é isso aí. O Talk Show Literário desta semana fica por aqui. [A plateia aplaude timidamente]. No próximo programa... Lia Ribeiro: Ei, Darico, não vai me dizer que a entrevista já terminou? Darico Nobar: Exatamente. Você não gostou? Lia Ribeiro: Claro que não. Só falamos do Zé Carlos. Achei que cê tivesse me convidado pra falar de outras coisas. Se soubesse que o tema seria o puto, não teria vindo pra cá [Cruza os braços e fica olhando para o chão]. Darico Nobar: Desculpe-me, Lia. A curiosidade sobre o paradeiro e sobre os hábitos do José Carlos Ribeiro é grande. Não dá para chamá-la aqui e não perguntar nada sobre um dos grandes cineastas nacionais. Lia Ribeiro: Grande, o quê?! Ele só fez um filme na vida, que é uma merda que ninguém nunca viu. E que título mais pau no cu é aquele: Holisticofrenia?! Darico Nobar: Queiramos ou não, ele é também um dos grandes escritores brasileiros da atualidade. Pornopopéia é reconhecidamente um best-seller. Lia Ribeiro: Claro que é um best-seller. A única coisa que interessa hoje em dia é putaria. Aí ninguém é melhor do que o Zé Carlos. Esqueça Machado de Assis, Jorge Amado e Graciliano Ramos. O rei da literatura, do ponto de vista da devassidão moral, é o meu marido. Que orgulho! [Seus olhos lacrimejam]. Darico Nobar: Desculpe-nos, Lia, se a decepcionamos. Lia Ribeiro: Está bem. [Apesar do que diz, ela permanece visivelmente chorosa]. Já estou acostumada. Pelo menos cê não foi bater na minha porta perguntando por ele, como fazem quase todo dia a polícia, os traficantes, os diretores da Itaquerambu, o Zumba, os amigos pinguços, a galera da Cracolândia, os vendedores de lula, os jornalistas, o Leco, as putas da Augusta, a comunidade de pescadores de Porangatuba e a torcida do Flamengo. Outro dia até um traveco loiro, não me lembro o nome, Zola, Zulla, apareceu perguntando pelo Zequinha das mãos fogosas. Vê se dá pra criar um filho em um ambiente desse? Darico Nobar: Pessoal, esta foi a incrível Lia Ribeiro! [Dessa vez, o público no auditório solta uma ruidosa salva de palmas, o que parece deixar a entrevistada um pouco menos desapontada. É possível até ver um sorrisinho tímido saindo de seu rosto]. Até semana que vem e boa noite a todos. [Os microfones no centro do palco são cortados e a canção título do programa é imediatamente executada pelo quinteto musical. A imagem da câmera 1, que estava focalizando o apresentador e a convidada, começa a fazer um zoom out. Pouco a pouco é possível ver todo o auditório. De repente, a imagem desaparece]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas três primeiras temporadas, neste quarto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook. #TalkShowLiterário #ReinaldoMoraes

  • Talk Show Literário: Rosinha Lituana

    Na quarta entrevista de 2023, a convidada de Darico Nobar é a heroína de Parque Industrial, a ficção de estreia de Pagu e um dos primeiros romances proletários da literatura brasileira. Vocalista: Rodeia! Rodeia! Que este samba vai terminar na cadeia. [No exato momento em que o apresentador gesticula para a banda, a música é interrompida. As câmeras de televisão se voltam para o âncora do programa que está sentado à mesa no centro do palco]. Darico Nobar: Boa noite, Brasil! Plateia: Boooooa noooooite!!! Darico Nobar: Fãs dos clássicos da ficção nacional, se liguem neste Talk Show Literário porque ele está extremamente politizado. A nossa entrevistada de hoje é uma sindicalizada que atua no Partidão. Estrangeira que chegou pequena ao nosso país, ela é uma das melhores amigas de Mara Lobo. Com vocês, Rosinha! [Uma mulher pequena entra no auditório, em silêncio puxando a perna. Os seus cabelos loiros, lituanos, escorrem lisos pela testa suada. A plateia se levanta. Muitos agitam cartazes rubros, amassados. Dá para ler frases como: “Viva o proletário!”, “abaixo a ditadura burguesa”, “a luta continua” e “morte ao capitalismo”]. Rosinha Lituana: Boa noite, Camarada Darico. Darico Nobar: Obrigado por vir. Imagino o quão complicado foi para a senhorita estar agora conosco. Rosinha Lituana: O trabalhador não tem tempo para nada, nem para viver, nem para conhecer a família. Os que têm filhos não os vem. Saímos de casa às seis horas da manhã. Eles estão dormindo. Chegamos às dez da noite. Eles estão dormindo. Não temos férias! Não temos descanso dominical! E de vez em sempre precisamos fazer serão. Darico Nobar: Nossa! E no pouco tempo que tem você ainda aceita o convite para participar do programa. Se soubesse não te chamava. Rosinha Lituana: Não se preocupe. Esta é uma ótima oportunidade para distribuir panfletos e conseguir mais gente para as reuniões do sindicato. Quando não estamos trabalhando, estamos trabalhando contra o trabalho. Darico Nobar: Tenho a impressão de que você nunca dorme... Rosinha Lituana: Pobre não tem luxo de dormir, Camarada Darico. E não estaria em casa de qualquer jeito. Estou fazendo turno dobrado hoje. Estou no intervalo da fábrica. [Tira do bolso o jantar envolto em um pano e desembrulha depressa na frente de todos. Pão com ovo duro e banana. Sem cerimônia, começa a comer o sanduíche]. Só não posso me demorar. Darico Nobar: Trabalhar em um turno já é complicado. Imagine fazer dois turnos? Rosinha Lituana: Depois dizem que não somos escravas. Darico Nobar: Rosinha, você pode me dizer o que a gente deve fazer para mudar essa situação caótica do trabalhador? Rosinha Lituana: O dono da fábrica rouba de cada operário o maior pedaço do dia de trabalho. E assim enriquece à nossa custa! Darico Nobar: Quem foi que te disse isso? Rosinha Lituana: Você não enxerga? Não vê os automóveis dos que não trabalham e a nossa miséria? Darico Nobar: Você quer que a gente arrebente os automóveis deles?! Rosinha Lituana: Se fizermos isso isoladamente, iremos para a cadeia e os patrões continuarão passeando noutros automóveis. [Dá mais mordidas no sanduíche]. Mas felizmente existe um partido, o partido dos trabalhadores, que é quem dirige a luta para fazer a revolução social. Darico Nobar: O PT? Rosinha Lituana: Não. Os petistas já foram comprados pelo sistema. Darico Nobar: Então quem? Rosinha Lituana: O Partido Comunista! O verdadeiro partido dos trabalhadores. Darico Nobar: Então a solução está no comunismo? Rosinha Lituana: Escuta! Você sabe o que é comunismo? Darico Nobar: É um tipo de fascismo... Rosinha Lituana: Não! Fascismo é aquela coisa do Mussolino. Darico Nobar: Você acha que aqui no Brasil também tem esse tal de fascismo? Rosinha Lituana: Claro que tem. O povo d´aqui ainda acredita nos tenentes. Fazer o quê? É tudo lambe-esporas de fardado. Darico Nobar: Você é mesmo comunista? Rosinha Lituana: Como não hei de ser se sou moderna? Darico Nobar: Vamos mudar um pouco de assunto, Rosinha. Chega de política. Quero saber da sua vida. Você poderia nos contar sua história? Rosinha Lituana: Vim da Lituânia com meus pais miseráveis. A guerra nos fez imigrar como tanta gente. Fomos misturados com muitos outros no casarão de tijolos da Rua Visconde de Parnaíba. Depois, fomos endereçados como mercadorias para a fazenda feudal que nos escravizava aos pés de café. Até eu, criança, apanhava e trabalhava. Os camponeses calavam. Até o dia que quiseram levar minha mãe. O moço da casa desejava as tranças fartas e loiras dela. Papai não deixou. Ele nos colocou na estrada e fugimos, eu e mamãe, de madrugada para o Brás. Darico Nobar: E em São Paulo as coisas foram diferentes? Rosinha Lituana: Vida de proletário é sempre igual, pobreza e escravidão, só muda o endereço. Não dá para escapar da opressão. No Brás, nós duas sozinhas, na miséria. As idas inúteis ao Patronato Agrícola, donde um dia um velho nos expulsou. Tínhamos ficado poucas semanas no porão. Mamãe morreu. Eu entrei na fábrica de tecidos com 12 anos. Darico Nobar: Está esse tempo todo na mesma empresa?! Rosinha Lituana: Não. Quando desmascaramos o contramestre que queria furar a greve, me botaram na rua. Uns dias de fome... Me chamou de criança industriada! Filho da mãe! [Após a última mordida no pão, limpa as mãos na calça surrada]. Agora estou na Ítalo. Acho que o senhor conhece. Darico Nobar: E quem não conhece a Companhia Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira? Rosinha Lituana: Foi lá que senti na pele a exploração e os assassinatos dos trabalhadores. Anos depois, conheci o sindicato e compreendi a luta de classes. Darico Nobar: Onde você está vivendo agora? Rosinha Lituana: Estou morando com a Otávia no mesmo cortiço onde Matilde se alojou com a mãe há alguns anos. Darico Nobar: E a Matilde, como está? Rosinha Lituana: Oscila um pouco, mas vai. Nunca mais tornou a ver aquela amiga rica. A dondoca parece que se enjoou dela. Está trabalhando nas meias. Vai indo bem. Darico Nobar: E a Otávia? Rosinha Lituana: Começou a frequentar o sindicato. Agora ela se endireita. Ou melhor, se esquerda. Darico Nobar: De forma geral, você acha que suas amigas trabalhadoras estão conseguindo superar as dificuldades desta crise econômica? Rosinha Lituana: São sobreviventes, presas às algemas do regime capitalista. Aquelas que têm mais sorte são escravas nas fábricas ou nas fazendas paulistas. As menos afortunadas acabam nas cadeias e nos cortiços, ou estão nos hospitais e nos necrotérios. Darico Nobar: E se você se casasse com um homem rico, como a Eleonora? Será que não mudava de opinião, hein?! Rosinha Lituana: Sai azar! Eu só me caso com trabalhador. Darico Nobar: Mas não podemos mandar em nossos corações, Rosinha. Já pensou se apaixonar por um industrial ou pelo filho de um cafeicultor? Rosinha Lituana: Vocês pensam que os ricos namoram a gente à sério? Eles só querem debochar da gente. Veja o que fizeram com a pobre da Corina. Escacharam ela de barriga e tudo. Darico Nobar: Você sabe se a Corina conseguiu... Rosinha Lituana: Puxa, Camarada Darico! [Olha assustada para o pequeno relógio de pulso e se levanta do sofá]. Esse intervalo não durou nada. [Apresentador e entrevistada se cumprimentam com as mãos]. Preciso voltar para a fábrica. E para a revolução! Darico Nobar: Mesmo que custe a vida? Rosinha Lituana: Que importa morrer de bala em vez de morrer de fome! Tchau. Ainda tenho que passar na latrina. [A moça passa um pente desdentado nos cabelos que esvoaçam e caminha para fora do palco. Sutilmente, dois sujeitos mal-encarados de terno e gravata se levantam da plateia e a acompanham de perto. O trio sai do auditório, opaco e iluminado, indiferente aos estômagos vazios da maioria que dorme atirada nas ruas. Diante da televisão, a aristocracia pequeno-burguesa tem raiva daqueles sem dinheiro e que se preocupam com os desassistidos]. Darico Nobar: Pessoal, esse foi o Talk Show Literário desta noite. Na semana que vem, trarei mais uma entrevista ao vivo e exclusiva para vocês. Até lá! [As batidas de palma do público são abafadas pela volta do som da banda. A canção agora é o hino da Internacional. Durante o show musical, os créditos do programa sobem na tela]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas seis primeiras temporadas, neste sétimo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, acompanhe nossas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

  • Talk Show Literário: Cecília de Mariz

    Na nova edição de seu programa de TV, Darico Nobar entrevista a protagonista de O Guarani, romance indianista clássico de José de Alencar. Darico Nobar: Olá, Brasil! O Talk Show Literário já está no ar. [A banda toca os acordes iniciais da canção mais famosa de Carlos Gomes]. Esta noite promete ser inesquecível, meus amigos. Vamos receber não apenas um convidado, mas duas personalidades da mais alta prateleira da literatura brasileira. Plateia: Eeeeeeeeeeeeeeeeh! Darico Nobar: A entrevista de hoje é com um dos casais mais belos da ficção do nosso país. Com vocês, Peri e Ceci! [Em pé, no meio do auditório formado pelo grande mar de cabecinhas curiosas, sob saraivada de aplausos, surge uma mulher na flor da idade. A donzela lusitana de grandes olhos azuis, lábios vermelhos, hálito doce e a tez pura tem sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de riço azul apanhado à cintura por um broche. Os longos cabelos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças, descobrem a fronte alva e caem em volta do pescoço por uma rendinha finíssima de fios de palha cor de ouro. Em um rubor vivo que acende o rosado das faces, a jovem se dirige ao palco]. Darico Nobar: É um prazer te receber em nosso programa, Ceci. Cecília de Mariz: Obrigada, Sr. D. Darico. Darico Nobar: E cadê Peri? [Olha insistentemente para os lados]. Não vá me dizer que ele não veio? Cecília de Mariz: Há dois dias que não sei notícias dele. Mal pisamos na cidade, Peri sumiu-se no horizonte. Darico Nobar: Dois dias? Mas será que ele está bem? Cecília de Mariz: Aposto que está entranhado na mata a brincar com uma onça como vós com o vosso gatinho doméstico; ou está a caçar-me um tigre só para vê-lo domesticado em meus braços. Darico Nobar: Mas não há onça nem tigre à solta no Rio de Janeiro, Cecília. Cecília de Mariz: Peri não passa aprumo, meu bom senhor. Se não está atrás de bicho, deve estar a me rodear, velando secretamente pela minha proteção, como costuma fazer lá na vizinhança do Paquequer. Darico Nobar: De certo! [Solta uma risada desfazendo o ar de preocupação]. Mesmo assim, queria conhecê-lo pessoalmente. Cecília de Mariz: Estou convencida que ele se envergonha de ter vindo à cidade comigo. Teme ser visto, no meio de homens civilizados, como um índio ignorante, nascido de uma raça bárbara, a quem a sociedade repele e marca o lagar de cativo. Darico Nobar: Pudera. Tratam muito injustamente o pobre índio que não faz mal algum. Cecília de Mariz: Ora, num momento de zanga de um ou outro... Darico Nobar: Procede que a família de Mariz o trata como um selvagem que tem a pele escura e o sangue vermelho?! Tua mãe diz mesmo que o índio é um animal como um cavalo ou um cão? Cecília de Mariz: Sr. Darico!!! Darico Nobar: Sei que você não pensa assim, doce Cecília. O seu bom coração não olha a cor do rosto para conhecer a alma. Mas os outros... Sei do desdém com que tratam Peri lá na casa do Paquequer. Cecília de Mariz: Digo que é uma desconfiança tua; todos o querem, e o respeitam como devem. Darico Nobar: Será mesmo?! Cecília de Mariz: Crede-me, Sr. D. Darico, Peri é um cavalheiro português no corpo de um selvagem! Meu pai diz que ele tem nobre coração, que é dono dos principais predicados de um legítimo cavalheiro português. Darico Nobar: O coração desse rapaz é mesmo gigantesco. Cecília de Mariz: Sim! Vós que sabeis compreender tudo que é nobre! Em Peri, o sentimento é uma espécie de idolatria fanática, na qual não entra um só pensamento de egoísmo ou vaidade; ama algo ou alguém não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente à causa, para cumprir o menor de seus desejos. Darico Nobar: Não conheço ninguém que diga que viu alguém mais apaixonadamente do que Peri. Cecília de Mariz: Se bem que acho que eu conheço... [Murmura timidamente]. Darico Nobar: E eu diria mais, minha amiga. Peri é extremamente corajoso. Ele é impávido que nem Muhammad Ali e tranquilo e infalível como Bruce Lee. Cecília de Mariz: Peri é filho de Ararê, é o primeiro de sua tribo, forte entre os fortes, guerreiro goitacá. [Faz uma careta]. Ele vive repetindo essa ladainha... Darico Nobar: O que a senhorita diria para aqueles que te acusam de escravizar o rapaz? Cecília de Mariz: Meu pobre Peri! Ele é tão livre como o canto dos pássaros. Se age como meu escravo, é por força unicamente do coração. A Lua é serva dos movimentos do Sol e o Sol é vassalo dos caprichos da Lua pelos desígnios da natureza; e ninguém parece se preocupar com as incongruências da dinâmica celestial. Darico Nobar: E isso é justo aos olhos da senhorita? Cecília de Mariz: Por Deus! Eis um direito original! Darico Nobar: Original ou romântico? Cecília de Mariz: O julgamento dos tribunais dos homens pode exagerar-se; o coração, por sua vez, é sempre verdadeiro, não diz senão o que sente; e o sentimento, qualquer que ele seja, tem a sua beleza. Darico Nobar: Parece-me, querida Cecília, que você é uma byroniana inveterada! Cecília de Mariz: Sou filha de um Rio de Janeiro violento, inóspito, selvagem e inculto. De onde venho, a civilização não teve tempo de penetrar o interior da natureza nem da alma humana. Darico Nobar: Talvez as coisas não tenham mudado muito de lá para cá... [A fala sai baixinho, mais para si do que para a entrevistada ou para o público]. Cecília de Mariz: E as paixões no deserto, sobretudo no seio da natureza grande e majestosa, são verdadeiras epopeias do coração. Darico Nobar: Podemos dizer, então, que Peri é o modelo de brasileiro perfeito? Cecília de Mariz: Oh! não, meu senhor; ele é um anjo de bondade, mas Peri também pode ser mau e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, gosta de caçar o risco de morrer! [O tom de voz tem certo arzinho de rainha contrariada]. Ele está sempre a me desobedecer. Darico Nobar: Aproveitando que a senhorita está revelando os aspectos mundanos de Peri, gostaria de saber os detalhes mais picantes da rotina dele na mata. Cecília de Mariz: Por quê, Sr. D. Darico? Fez ele alguma coisa?! Darico Nobar: É exatamente o que gostaria de saber; se ele fez alguma coisa. Cecília de Mariz: Não estou a te compreender. [Fita nele os seus grandes olhos azuis e cora]. Darico Nobar: Vocês dois são jovens, estão na flor da idade, vivem grudados e tem os hormônios em ebulição. Ele acompanha a senhorita e sua prima nos banhos no riacho, né? É o único que tem acesso ao seu quarto nas noites quentes do Verão fluminense. E parece gostar de velar seu sono. É natural que imaginemos que a relação de vocês dois tenha evoluído para algo menos platônico, não é? Cecília de Mariz: Ah! nunca! Não me peças uma coisa impossível, Sr. D. Darico! Já sabes demais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha. Darico Nobar: Vergonha?! Mas foi a senhorita mesma que disse que, como é mesmo, as paixões no deserto são epopeias do coração. [Ao silêncio da convidada, prossegue]. E o sentimento, qualquer que seja, tem lá a sua beleza. Cecília de Mariz: Sr. Darico, é a primeira vez que dizeis palavras em um tom que me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma coisa, mas falta-vos o ânimo de a proferir. Uma vez por todas, falai abertamente, e Deus vos guarde de mencionar questões que são sagradas. [Uma seta de penas azuis e brancas, que não se sabe de onde vem, atravessa o espaço com a rapidez de um raio e, antes que se ouça o sibilo forte e agudo do impacto, prega-se na mesa do apresentador. De repente, os microfones do estúdio captam um grito]. Voz desconhecida: Iara! [O espanto dos presentes se transforma em pânico quando uma nuvem de flechas desagua em todas as direções, atingindo chão, paredes, objetos e teto. Por um milagre, nenhuma seta atinge ninguém, por mais perto que tenham chegado por vezes]. Darico Nobar: Socorro!!! Estamos sendo atacados?! [Abaixa-se atrás da mesa]. [A única pessoa aparentemente tranquila no auditório é a convidada, que permanece sentada em postura lânguida no sofá. O restante sai correndo em direção às portas, em um gigantesco tumulto. A câmera que segue filmando as cenas é operada remotamente]. Cecília de Mariz: Meu Deus!... Peri!... Pares de pirraça. Tires-me daqui. [O sistema contra incêndio é disparado e os splinters instalados no teto do auditório começam a jorrar água, o que potencializa a confusão e o desespero do povo que ainda tenta fugir. Muita gente escorrega e cai na correria, enquanto a água sobe rapidamente]. Cecília de Mariz: Peri, por que não fizeste o que tua senhora te manda? [O sofá em que está boia segundo a maré da enxurrada]. [Tudo é água e caos. A inundação cobre a emissora de televisão até onde a vista pode alcançar; quando a energia elétrica do auditório é cortada, a luz cai e a transmissão é interrompida. Após alguns segundos de escuridão total na tela, surge o anúncio de um sabão em pó. O próximo programa da noite não deve demorar para começar]. ------------------------------ O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias. E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. 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